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EU SOU RESPONSÁVEL

“Eu sou responsável”.

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Ex-Presidente da JUNAAB

Mais de 44.000 membros de A.A. celebram a sobriedade na Convenção Internacional realizada em Toronto, de 1 a 3 de julho de 2005.
Em Toronto, no Canadá, em 4 de julho de 1965, no Maple Leaf Graten, 10.000 membros de A.A., amigos e familiares, deram-se as mãos e se uniram ao cofundador Bill W. e Lois, sua esposa, para declarar, pela primeira vez: “Eu sou responsável. Quando qualquer um, em qualquer lugar, estenda a sua mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. sempre esteja ali. E por isso: eu sou responsável.”
Quarenta anos depois, mais de 44.000 membros de A.A. se reuniram novamente em Toronto para celebrar o 70º aniversário de A.A. com o lema “Eu sou responsável”.
Box 459, vol.38, nº4/agosto-setembro de 2005

Costumamos dizer: é da sua responsabilidade. Aqui, o termo responsabilidade se refere a alguém ou alguma coisa pela qual alguém ou uma organização é responsável. É o nosso caso. Esta é a acepção, das existentes, que se ajusta às nossas circunstâncias. Ser responsável é ser capaz de responder.

Responsabilidade é a obrigação de responder pelas próprias ações e pressupõe que as mesmas se apoiem em razões ou motivos, ou seja, a responsabilidade implica numa escolha e, ao mesmo tempo, numa decisão racional. Isto significa que a responsabilidade é o fundamento da liberdade. A liberdade pode ser física, civil, de expressão, etc. mas, filosoficamente, a liberdade moral está relacionada à capacidade humana de escolher e de decidir racionalmente os atos que se vai praticar. Assim, a liberdade implica que sejamos responsáveis antes do ato, ao decidirmos por uma escolha racional, conhecendo os motivos da nossa ação. Também implica em ter responsabilidade durante a prática do ato, ou seja, pela forma na qual atuamos e ainda depois do ato, ao assumir as consequências decorrentes da ação praticada. Essa avaliação mais ampla do que se deve entender por responsabilidade é importante porque a ética, a moral e a responsabilidade determinam a perfeição das nossas ações, do nosso modo de ser.

Estamos habituados a entender responsabilidade como sendo uma atitude que se tem em relação a instituições, a chefes de serviços, a patrões, enfim, a superiores hierárquicos ou não, o que deixa uma ideia de verticalidade, algo que é voltado para cima. Mas, no nosso caso, a responsabilidade tem um componente espiritual muito valioso pois que ela coloca o membro de A.A. na condição de responsável em relação àqueles que ainda sofrem no alcoolismo. Responsabilidade em relação a seres humanos que estão sendo batidos pelo alcoolismo, mas de quem não se conhece a face. Sendo horizontal e dirigida a quem não se conhece, a responsabilidade traduz-se num ato de amor ao próximo e que se estende a um número elevado de dependentes. Além de ser horizontal e também um ato amoroso, é uma atitude mental abrangente, ampla, alargada até os limites do amor ao próximo. Ou seja, a responsabilidade em A.A. é ato que enobrece cada membro que a assume. No nosso caso, a responsabilidade não só tem características muito peculiares mas engrandece a quem a assume.

A declaração de responsabilidade é um chamado para uma transcendência, para um ir além de si mesmo, em que o dom de cada um não se vê limitado a familiares próximos e a amigos, mas traduz uma atitude de solidariedade que vai além de vinculações comunitárias, religiosas, étnicas ou nacionais. É um chamado para uma forma de solidariedade mais ampla. A declaração de responsabilidade, nessa visão, ganha a dimensão de ato de amor ao próximo. A declaração clama para uma expansão ilimitada do dom de si, pois que ela se dirige àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo, não importando quem e onde, independente de laço privilegiado ou preestabelecido pela tradição. André Malraux, grande escritor de assuntos culturais e políticos francês, falou “sobre a possibilidade de um acontecimento espiritual em escala planetária”, o que poderá ocorrer no século em que vivemos. Então, que comece por nós.

A FAMÍLIA DISFUNCIONAL DO ALCOÓLICO

A FAMÍLIA DISFUNCIONAL DO ALCOÓLICO

Anotações e extratos do Dr. Laís Marques da Silva
Ex-custódio e Presidente da Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos

Pretendo transmitir a visão que tenho da máxima importância de Al-Anon e de Al-Ateen. De início, ressalto uma dificuldade que me parece muito grande diante do nível cultural do nosso país.
Não é difícil argumentar em favor do fato de que o alcoolismo é uma doença. Todos sabem que, quando um membro da família se torna um alcoólico, a família resulta tão ou mais doente que o próprio alcoólico, mas é difícil transmitir a idéia de uma família doente, de uma família disfuncional. A pessoa doente é objeto de fácil observação. É fácil conceber o que seja um indivíduo doente, mas como identificar uma família doente, como “ver” a sua doença? Por outro lado, a sociedade em que vivemos já está conscientizada para o problema do uso do álcool e para a gravidade do alcoolismo, mas ainda não pensou o suficiente na família e, em particular, nas crianças que vivem num lar alcoólico.
É fato que a família disfuncional não é apenas a que resulta da existência de um cônjuge alcoólico. Ela pode ser a conseqüência do uso de outras drogas que não o álcool ou ainda de outras compulsões como para a comida ou para o jogo e até mesmo resultar da presença de um cônjuge portador de doenças crônicas ou, ainda, do fato de um dos membros da família ser um fanático religioso. Isso pode complicar ainda mais as coisas, mas, pelo menos, tira a exclusividade do álcool.
É sabido que o alcoólico, além de ser vítima da própria doença, afeta as pessoas que o cercam, especialmente as que estão mais próximas, como é o caso dos membros da família. Isso é evidente a partir da observação do comportamento familiar do alcoólico. Mas não menos importantes são as conseqüências resultantes do afastamento dos amigos ou da perda do emprego. Quase sempre, a família não reage adequadamente, não se adapta e não se estrutura diante da situação, ficando incapaz de ajudar a si mesma e ao doente alcoólico. Em conseqüência, torna-se também doente.
A família é um sistema em que cada membro desempenha um papel em relação a todos os outros e, quando o álcool causa mudanças no comportamento de um dos membros, isso afeta também cada um membro da família. O equilíbrio é rompido porque o foco das atenções se desloca para o dependente e todos os familiares passam a compartilhar de comportamentos doentios porque todos eles fazem parte do mesmo sistema.
Em realidade, as pessoas que convivem com o dependente se tornam co dependentes. A co dependência, um termo relativamente novo, é tanto um conceito válido do ponto de vista psicológico como se refere a um importante distúrbio do comportamento humano. Ser co dependente significa participar da dependência. É uma condição emocional, psicológica e comportamental que resulta da exposição prolongada e da prática de um conjunto de regras opressivas que inibem não só a expressão livre dos sentimentos como também a discussão de problemas pessoais e interpessoais. Uma pessoa co dependente é a que permite que o comportamento de uma outra pessoa a afete e também tem o seu comportamento afetado pela tentativa de controlar o comportamento do dependente.
O que se observa é um quadro em que se identificam vítimas de vítimas. A família é vítima do seu membro alcoólico e ele, vítima da sua doença. Mas as coisas não ficam por aí, pois sabemos que o alcoolismo, freqüentemente, segue a linha da família, se instala na árvore genealógica porque, além de os filhos poderem gerar, no futuro, outras famílias disfuncionais, como conseqüência das suas personalidades mal estruturadas, também é fato de observação que os filhos de alcoólicos têm um risco três vezes maior de desenvolverem o alcoolismo. Parece haver uma tendência para que os filhos de pais alcoólicos se casem com alcoólicos, sem que disso tenham consciência.
Essas considerações colocam em destaque o trabalho de Al-Anon e de Alateen no sentido de interromper um ciclo continuado de dor, de infelicidade e de sofrimento que tende a se estender por gerações evitando, desse modo, a ampliação do número de vítimas.
Vamos agora analisar uma foto colorida de uma família disfuncional, de um alcoólico na ativa para melhor observar e poder apreciar uma maior riqueza de detalhes. Vamos ver como aparecem cada um dos seus integrantes.

O ALCOÓLICO
01. É egocêntrico,
02. Nega o alcoolismo e as suas manifestações,
03. Racionaliza, numa tentativa de tudo explicar e justificar,
04. É grandioso nos seus projetos e idéias,
05. É emocionalmente imaturo,
06. Apresenta baixa auto-estima,
07. Tem sentimento de isolamento,
08. Tem sentimento de culpa e de vergonha,
09. É dependente,
10. É perfeccionista,
11. É inábil em expressar as suas emoções.

O NÃO ALCOÓLICO
01. Usa a negação,
02. Vive em aborrecimento contínuo,
03. Mente,
04. Tem medo,
05. Tem raiva,
06. Sente-se culpado,
07. Sofre de desapontamento,
08. Está mergulhado em confusão mental,
09. Tem pena e protege o bebedor,
10. Sofre desesperança,
11. Tem auto piedade,
12. Sente desânimo,
13. Sente desespero,
14. Apresenta mudanças no relacionamento: a. tende à dominação,
b. tende a assumir o controle da família,
c. tende a adotar atividades isoladas e absorventes (atividades solitárias que prendem a sua atenção).
15. Tem problemas sexuais,
16. Sofre de ansiedade.

OS FILHOS
Vamos estudar esse ambiente de tensão e ansiedade e identificar algumas das suas manifestações em relação aos filhos e ao seu comportamento na vida futura.
Embora isso seja traumatizante, é muito importante ter conhecimento do ocorre numa família disfuncional porque a verdade liberta e, a partir dela, podem-se desenvolver comportamentos para mudar as coisas e não permanecer apenas como vítimas. A partir desse entendimento, será possível controlar os pensamentos, sentimentos e desejos, fazer uma opção mais sensata e escolher o caminho certo ao longo da vida e não apenas ficar sendo empurrados e arrastados por seus sentimentos e impulsos ou pela vontade dos outros. O controle da situação trará a serenidade e a sensação de conforto.
Voltemos a apreciar a foto da família e olhar para os filhos procurando, como normalmente se faz, ver neles os traços dos pais. Não é difícil encontrar esses traços comportamentais uma vez que os pais são sempre modelos de desenvolvimento para os filhos que os capacitam para lidar com os seus problemas íntimos e para desenvolver a auto-estima e o sentimento de segurança.
Mas, na foto, vemos que são crianças diferentes: têm olhos tristes e o semblante preocupado e, se tivéssemos um filme em vez de uma foto, veríamos que não possuem a espontaneidade das outras crianças. Compreende-se por que se apresentam assim, pois as suas vidas são cheias de problemas e eles estão sempre dentro deles. Em realidade, não se sentem como crianças e nem mesmo sabem o que é ser criança.

A VIDA DOS FILHOS DE PAI OU MÃE ALCOÓLICO, NO LAR.
1. As famílias e as pessoas são diferentes, mas o que acontece nos lares dos alcoólicos não é muito diferente uns dos outros.
2. Cada criança reage a seu modo, mas as experiências que têm são mais ou menos as mesmas.
3. O ambiente é sempre de tensão e de ansiedade.
4. Ao abrir a porta de casa, nunca sabem o que vão encontrar ou o que está por acontecer. Ou seja, nunca estão preparadas para enfrentar os problemas.
5. O pai, quando não alcoolizado, é bom e amável, interessado e atencioso e as promessas que fazem são verdadeiras. Quando alcoolizado, as promessas são esquecidas, há conflito, ansiedade e confusão e as crianças ficam no meio da briga. Sentem que talvez, se não existissem, os pais não brigariam e aí vem o sentimento de culpa.
6. A mãe é irritadiça e cansada, como se o mundo pesasse nas suas costas. A criança, às vezes, até prefere o pai, mesmo sendo ele um alcoólico.
7. Se a mãe é a alcoólica, o pai já pode ter abandonado a família. Se não, vem na hora do almoço para fazer o trabalho que não era seu. Os papeis de cada um dos membros da família ficavam confusos.
8. A filha faz o que era para a mãe fazer, realiza as tarefas da casa, toma conta dos irmãos, etc, ou seja, é a mãe da mãe. Resulta que tudo fica muito confuso. Qual o verdadeiro papel de cada membro da família? Quando a mãe fica sóbria, a filha sente remorso. Sente pena da mãe pelo esforço que faz para ficar sóbria. Qual o seu verdadeiro papel?
9. Quando ambos os pais são alcoólicos, a vida se torna totalmente imprevisível. O lar é um inferno. Ninguém diz uma palavra. O ambiente é tenso. O nervosismo e a raiva estão no ar.
10. Sonham. Vivem num mundo de fantasia. Pensam em ir embora. Perguntam-se quando acabaria isso? Mas nenhuma das duas coisas acontece. Se a criança sai, fica preocupada com o que possa estar acontecendo e procurava voltar logo para casa.
11. Aprendem a guardar os seus sentimentos. As outras pessoas não podem saber o que se passa dentro das suas casas.
12. São crianças quietas. Fazem as coisas certas. São elogiadas. Mas são também amarradas emocionalmente. Não têm espontaneidade.

A VIDA DO FILHO/A DE PAI OU MÃE ALCOÓLICO NA ESCOLA
1. A vida miserável dos filhos se reflete na escola.
2. São quietos, responsáveis e podem ter notas altas e serem elogiados. Mas não são notados, eram como que invisíveis. Preferiam até ser o palhaço da turma, ser alegres e espontâneos, sem se levar tanto a sério.
3. Às vezes, tinham um mau desempenho. Iam bem num semestre e mal no outro. Se inteligentes, aprendiam, e pior, aprendiam inclusive a manipular os outros.
4. Um filho de pai alcoólico, em recuperação no AA, ia ser reprovado na escola porque faltava às aulas. Considerou, diante do fato, três diferentes possibilidades: 1. Reagiria como o pai, nos velhos tempos, e diria ao professor que ele não podia fazer isso, que não tinha esse direito; quem pensava ele que era? E faria queixa ao diretor da escola. 2. Iria à casa do professor, se atiraria aos seus pés e beijaria o seu anel (manipulação). 3. Já tendo trabalhado a si mesmo, pensou que o melhor seria marcar uma entrevista e ver o que se podia fazer para realizar o trabalho. Já tinha aprendido a ser responsável. Na primeira hipótese, se continuasse agressivo, seria reprovado e ainda se sentiria vítima, resultando que ficaria ainda mais ressentido. Poderia adotar comportamentos anti-sociais que, por seu turno, poderiam levá-lo a uma instituição penal. A segunda hipótese traria um sucesso temporário sendo bom artista, enganador e manipulador; mas isso não funcionara para sempre e leva a uma percepção distorcida da realidade. Não saberia o que o havia derrotado quando a farsa terminasse. A terceira hipótese foi considerada a mais adequada porque daria uma sensação de orgulho, qualquer que fosse o resultado e traria o respeito por si mesmo.
5. Apresenta falta de concentração. Vive em fantasias. Tem preocupação com a casa. Está sempre sonhando e não prestando atenção à aula. Não dorme bem à noite por causa dos conflitos. Se tudo é tão ruim, que diferença faz estudar ou não? Afinal, ninguém se importa se vai mal ou bem. Não adianta pedir ajuda. Os pais prometem e não cumprem. Não têm tempo para as crianças.
6. Se pede ajuda ao professor, poderia ocorrer que ele perguntasse se tudo vai bem e aí tinha que negar e dizer que tudo ia bem, e não ia. Tem que guardar para si os seus sentimentos.
7. A escola é um problema, um lugar que apenas tem que ir.

RELACIONAMENTOS COM OS AMIGOS
1. Brincam, mas não são iguais às outras crianças.
2. Têm dificuldade em fazer amigos. Quem gostaria deles, afinal? Não se sentem amados. Pensam que são pessoas sem valor. Têm medo de que as outras crianças saibam de alguma coisa acerca da vida delas. Se vão brincar na casa de amigos, ficam na obrigação de convidá-los um dia para também ir à sua e os amigos poderiam encontrar o pai deitado no chão. A mãe daria uma explicação, mas o fato é que os amigos não voltariam mais. Falta espontaneidade. É melhor ficar longe das outras crianças. Às vezes, aceitam um tratamento inadequado e desagradável, pois precisam manter os poucos amigos. São incapazes de aprender a fazer amigos.
3. Seria bom ficar na escola e brincar, mas precisam voltar para casa porque estão preocupados com o que pode estar acontecendo. Os sentimentos são contraditórios, querem fugir de casa, mas precisam sempre voltar.

O PROBLEMA DA AUTO-ESTIMA DOS FILHOS
1. Ter auto-estima é sentir-se como tendo valor. Todas as pessoas dependem do que os outros dizem, pois internalizam as mensagens. No lar, as mensagens têm duplo sentido. Afinal, o que é verdade? Dizem: você não faz as coisas direito e, depois afirmam que precisam deles. “Tudo vai bem, não se preocupe”, e depois dizem, “como posso agüentar isso?”. “Fale sempre a verdade” e depois dizem: “eu não quero saber”. O perfeccionismo do alcoólico o faz achar defeito em tudo. Há promessas não cumpridas, mentiras e problemas. A promessa do passeio de fim de semana, do vestido novo de presente e do jantar juntos acaba em nada. Pensam que mais tarde vai dar certo e o mais tarde nunca chegava. Recebiam como resposta o simples “esquece”. O que era real?
2. Começam a mentir automaticamente.
3. A dupla mensagem faz perder a visão de si mesmas.
4. No fundo, sentem que os pais as amam. O álcool não destrói o amor, que parece distorcido, mas é real.

REFLEXOS NA VIDA FUTURA
1. Precisam saber o que é normal. Usualmente, são preocupados e não sabem o que é apropriado numa determinada situação. Não têm certeza das coisas. Não têm liberdade para perguntar. Não querem parecer bobos. A vida era uma loucura. Os dias são caóticos. Os dias normais são atípicos. Vivem num mundo de fantasia, no mundo do “se”, mas que, por outro lado, ajuda a sobreviver. Não têm um padrão de referência do que seria um lar normal. Vivem pisando em ovos, reprimidos. Mais tarde, quando têm filhos, apresentam dificuldade em avaliá-los. Não sabem o que é ser adolescente, por exemplo, porque nunca viveram as suas idades. O que lhes pode parecer anormal, eventualmente, não é. Não se encaixam inteiramente no papel de pais. O que é normal?
2. Têm dificuldade para levar até o final as suas tarefas, os seus projetos. Em casa, as promessas não eram cumpridas, a casa da boneca prometida nunca se transformava em realidade; prometiam fazer isso e aquilo e não saia nada. O alcoólico quer crédito por ter tido uma idéia ou uma intenção, embora fique só nisso. A comentada pintura da sala não acontecia. As idéias eram maravilhosas, mas não se transformavam em realidade. Às vezes, tanto tempo se passava que a idéia inicial era esquecida. Ninguém ajudava a fazer as coisas e a família não era uma equipe.
3. Mentem quando seria mais fácil dizer a verdade. Na família do alcoólico é comum mentir para negar as realidades desagradáveis, para acobertar. É comum fazer promessas que não serão cumpridas. Há inconsistências. Não são mentiras, propriamente, mas são coisas que se afastam da verdade. Aprendem a mentir e, depois, a usar a mentira. Dizia que o trabalho da escola estava pronto e ia brincar, e não estava. Diga a verdade, a verdade é uma virtude, mas as coisas não eram assim e a verdade era sem significação e a mentira era um hábito.
4. Julgam a si mesmas com muita severidade. As crianças eram sempre criticadas. Nunca faziam as coisas certas. Não havia padrões de perfeição. A criança se sentia deficiente. Tinha uma auto-estima negativa. Diante da crítica, a solução era se empenhar mais, cada vez mais, fazer sempre melhor. Se algo saia errado era porque tinham falhado em algo. Se dava certo, era mérito dos outros e se era mesmo delas o mérito, diziam, “isso não tem maior importância”. Isso não é humildade e sim distorção da realidade. Era preciso manter a auto-imagem negativa porque estavam acostumadas a ela.
5. Têm dificuldade em se divertir. Levam muito a sério a si mesmas. Os filhos dos alcoólicos não se divertem porque a sua vida é um “trauma contínuo”. A vida é séria e amarga. Os pais não riem, não brincam, não se divertem. Não aprendem a brincar com os outros. No lar, não há lugar para brincadeiras distraídas. As crianças não são espontâneas e descontraídas.
6. Têm dificuldades em fazer relações íntimas. Não possuem padrões de referência para o que seja um relacionamento íntimo saudável. Tornam-se próximos e depois se afastam. Há inconsistência no relacionamento pai/mãe/filhos. Amados num dia e rejeitados no outro. A rejeição e o medo de serem abandonadas levava à falta de confiança e à sensação de não serem dignas de receber amor. Não se sentem boas pessoas. Há em casa um sentimento de urgência. Os momentos de felicidade são fugazes. Se há uma promessa e ela não é cumprida logo, aí as coisas nunca mais acontecem. As coisas não fluem normalmente. Os membros da família não se conhecem bem, não descobrem os seus sentimentos e as suas atitudes.
7. Reagem intensamente em relação a mudanças sobre as quais não têm controle. Para sobreviverem, sentem que têm que ter controle sobre o ambiente. Não podem confiar no julgamento das outras pessoas do seu lar. Se não ficarem atentas, as coisas podem mudar de repente e isso é igual a perder o controle das suas vidas. São rígidas e sem espontaneidade.
8. Sentem-se diferentes dos outros, e realmente são. Sentem-se desconfortáveis, mesmo nos ambientes confortáveis. Sentem-se diferentes desde a infância. Estão sempre preocupadas. Não estão à vontade quando brincam. A socialização é difícil. São diferentes e isoladas.
9. São usualmente super-responsáveis ou super irresponsáveis. Empenham-se em ser sempre melhor e melhor e isso, às vezes, não adianta. Por vezes, em face das críticas, não se empenham mais. É tudo ou nada. Na família um não coopera com o outro, não se sentem fazendo parte de um projeto, colaborando para um fim, do que resultava em fazer tudo sozinha ou não fazer nada.
10. São muito leais, ainda quando a lealdade não é merecida. O lar de um alcoólico parece ser um lugar de lealdade, mas que resulta mais do medo e da insegurança.
11. São impulsivos. Não identificam alternativas e não avaliam as conseqüências dos seus atos. O resultado é uma perda do controle do meio ambiente que leva a uma confusão que depois dá muito trabalho para arrumar. Tudo isso é muito alcoólico. As idéias são do tipo aqui e agora. Não têm tempo para qualquer consideração. As crianças já são impulsivas e, no lar do alcoólico, ficam mais ainda. Agir deste ou daquele modo dá no mesmo porque o lar é inconsistente. Não importa o que faz e tudo ainda fica mais complicado pela sensação de urgência. Comprar um cavalo e depois não saber o que fazer com ele. Abandonar o emprego sem maior razão. Casar sem conhecer bem a pessoa, como é o príncipe encantado que apareceu subitamente. Não são pacientes nem consigo mesmas e nem com os outros. Falta paciência, o que está associado à impulsividade.

Para tornar o quadro menos traumatizante, devemos ressaltar que ele é, pelo menos em grande parte, reversível. É possível mudar as coisas assumindo atitudes novas e mais saudáveis e gerar experiências que concorram para restabelecer nos filhos o equilíbrio e a auto-estima.
Considerando que os filhos aprendem, sobretudo, pelo exemplo, procure ser a pessoa que deseja que seus filhos imitem. Do mesmo modo pelo qual o parceiro alcoólico criou um clima negativo, o parceiro não-alcoólico pode gerar um clima positivo evitando tornar-se irritável, confusa, sentir-se culpada ou decepcionada. É preciso, com a valiosa ajuda de Al-Anon e Alateen, trabalhar aqueles traços identificados na foto do não-alcoólico. Sorria e relaxe e o ambiente na sua casa será relaxante e calmo.
Informe aos seus filhos acerca dos fatos ligados à doença do alcoolismo e procure encorajá-los a freqüentar o Alateen. Fale sempre a verdade e abandone a negação. Dizer a verdade concorre para um novo senso da realidade, cria um novo referencial. Não procure acobertar o cônjuge alcoólico mentindo, pois a criança perceberá isso muito bem e ficará confusa. Quanto à negação, todos sabem que ela é a grande aliada do alcoolismo e, por isso mesmo, deve ser evitada.
Tenha tempo para os seus filhos, converse com eles, restabeleça o diálogo. Mostre que quer ouvi-los. Estabeleça um canal de comunicação.
Eduque-os mostrando sempre as conseqüências dos seus atos e isso fará diminuir a impulsividade, natural nas crianças, mas que deve ser trabalhada. Tenha tempo para isso.
Procure criar um clima de amor e de ordem na sua casa. Procure ter atitudes afetuosas com os seus filhos. O que pode ser odiado é o alcoolismo, mas não as pessoas que dele são vítimas. Estabeleça horários e também uma amena disciplina na sua casa, pois isso dará aos seus filhos padrões para que, com eles, possam organizar as suas próprias vidas. Não se pode nunca exagerar ao ressaltar o poder do amor, especialmente dos pais.
Procure fazer uma avaliação contínua do seu progresso em Al-Anon, compare sempre quem você era e quem você é hoje e isso irá colocando o presente e o futuro nas suas mãos.

O ADICTO CODEPENDENTE

O adicto codependente

O fenômeno da codependência não é privativo dos familiares dos adictos. Existem muitos alcoólicos e adictos a drogas que também são codependentes. E quando um adicto ao álcool e/ou às drogas é codependente de seu parceiro terá sérios problemas de ingovernabilidade sentimental e sexual, o que o levará a desenvolver síndrome de bebedeira seca.

Já falamos muito do menino rei. Esse imaturo emocional que tem muita dependência de sua mãe e de todas as mulheres-mãe com quem se relacione em sua vida seja noiva, amante ou esposa. Pois bem, este sujeito vai desenvolver uma grande dependência, o que o levará a tratar de controlar e dominar à mulher para não a perder. Isso o levará a desenvolver condutas inadequadas como possessividade, domínio, ciúmes, ameaças e, em ocasiões, violência verbal e física. Deixar o álcool ou as drogas não exime a muitas pessoas em recuperação de seguir manifestando estes claros sintomas de bebedeira seca.

Quando há uma relação de codependência é necessário perguntar-se se há um verdadeiro amor entre o casal ou é simplesmente necessidade. “Não é o mesmo dizer: amo-te porque te preciso, que dizer te preciso porque te amo” (Erich Fromm, A arte de amar).
Dizer “Te amo porque te preciso” é manifestação de codependência entre o casal, ao contrário dizer “Te preciso porque te amo” é manifestação de amor maduro.

O núcleo do problema psicológico do adicto codependente encontra-se em sua incapacidade para amar, ou simplesmente que ama imaturidade, como um menino que precisa da sua mamãe. Voltamos a citar Erich Fromm, de seu livro A arte de amar. O psicanalista define o amor maduro como “a expressão da produtividade que implica interesse, respeito, cuidado, responsabilidade e conhecimento, um esforço por crescer e buscar a felicidade da pessoa amada, enraizado na própria capacidade para amar”. Ao mesmo tempo, Brenda Schaeffer, em seu livro É amor ou vício? Define o amor viciante como imaturo, possessivo, limitante, medroso e dependente.

A mesma Brenda Schaeffer acrescenta que o adicto ao amor é uma pessoa que procura apoio em alguém externo a ele mesmo, numa tentativa de cobrir necessidades não satisfeitas para evitar o temor ou dor emocional, solucionar problemas e manter o equilíbrio. “O paradoxo é que o vício ao amor é uma tentativa de conseguir o controle de nossas vidas e, ao fazê-lo, descontrolamo-nos ao dar poder pessoal a alguém diferente de nós mesmos.”

O alcoólico que finalmente conseguiu tirar o álcool do centro de sua vida agora está girando ao redor de uma pessoa que ocupou o lugar que antes tinha o álcool. Por isto está em bebedeira seca, porque mudou o vício a uma substância pelo vício a uma pessoa.. Curiosamente, muitos destes alcoólicos quando perdem a pessoa à que são adictos, voltam a recair no álcool ou nas drogas. Quanto trabalho lhes custa atingir a verdadeira libertação!

Você é um misógino?

Finalmente devemos dizer algo sobre o misógino, que é um tipo de codependente muito patológico e perigoso. Lamentavelmente entre os alcoólicos e os adictos a drogas existe uma grande quantidade de misóginos.

Um misógino é um homem que odeia as mulheres, mas que não pode viver sem elas. É uma forma de codependência extrema e patológica onde o misógino se sente o dono de sua parceira e, portanto a domina, submete-a e a controla totalmente. Qualquer tentativa de oposição a este tipo de ações por parte da parceira gera tensões e problemas muito sérios que podem chegar até a violência física.

As características do misógino são as seguintes:

o Precisa ter o controle absoluto da relação.
o São zelosos e possessivos.
o Para conseguir o controle recorrem à sedução, a chantagem, a manipulação, a ameaça, a intimidação, a humilhação e a agressão verbal e física.
o Mantêm permanentemente uma atitude de superioridade ante seu par a quem nunca dão razão.
o Nunca pedem desculpas. O misógino convence seu par de que o incidente não existiu.
o Sempre deslocam a culpa. Se algo sai mal e agride seu par, a culpada deve ser ela e é ela que tem que pedir desculpas.
o Encoleriza-se se seu par se queixa de algo. Ela não tem direito nem a reclamar nem a chorar.
o Quando sente que está perdendo o controle passa da violência psicológica à física.
o Reduz o mundo de seu par: ela não pode ter atividades nem amizades. Não pode ser ela mesma. Ele tem que saber tudo o que
o Não tolera o término de uma relação. Sempre a estará espreitando e acossando. Considera-se o dono de seu par.

Não há que esquecer que a relação do misógino com seu par é uma simbiose neurótica, uma interdependência de um codependente com outra codependente. Ela também tem que trabalhar em sua própria doença para poder libertar-se. As principais características do par do misógino são as seguintes:

o São adictas ao amor.
o Não são ninguém se não têm um homem.
o São auto-suficientes e fortes em outras áreas da vida.
o São masoquistas: quanto mais às agridam mais se apegam.
o Mantêm a esperança que ocorrerá algo que vai mudá-lo.
o Vivem com medo e insegurança de perder seu par.

O misógino constitui uma das formas mais graves de bebedeira seca. O prognóstico destas pessoas é bastante reservado, pois muito poucos aceitam que o são e não querem mudar. O ciúme patológico e a síndrome da mulher maltratada são fenômenos associados à presença de um misógino na família.

Terminamos com uma frase de Bill W.; publicada em Na Opinião de Bill e retirada de Os Doze Passos e As Doze Tradições (Págs. 282 e 47 respectivamente): “Cada vez que uma pessoa impõe de maneira irracional seus instintos sobre outras pessoas, aparece a infelicidade. Se a busca da riqueza faz pisar em quem estiver no caminho, então a raiva, a inveja e a vingança serão igualmente despertados. Quando o sexo se desenfreia há um tumulto semelhante. As exigências descabidas de atenção, proteção e amor motivarão nas pessoas afetadas sentimentos de dominação ou de revolta, duas emoções tão doentias como as exigências que as provocaram. Este choque de instintos pode chegar a produzir desde um leve desprezo quanto uma grande revolta”.

SÍNDROME DA BEBEDEIRA SECA – SBS

Doutor José Antonio Elizondo López

A CONSCIÊNCIA DE GRUPO É UM DOS PRINCÍPIOS QUE DIFERENCIA NOSSA IRMANDADE DE OUTROS MOVIMENTOS

A Consciência de Grupo é um dos princípios que diferencia nossa Irmandade de outros movimentos

É provável que a maioria de nós membros, ainda divaguemos sobre “Consciência de Grupo” de Alcoólicos Anônimos, sobre o que isso realmente significa para a saúde estrutural e espiritual de nossa Irmandade. “Consciência de Grupo” é um conceito que se tornou parte fundamental para o funcionamento de nossa Irmandade desde seus primeiros dias.
É um conceito que Bill W. tirou sua inspiração de movimentos anteriores à Alcoólicos Anônimos, entre eles: os Grupos Oxford, isto é, o hábito de depender da “Consciência de Grupo”. Sua primeira aplicação prática na Irmandade aconteceu em 1937, antes que o movimento completasse o seu terceiro ano de existência, e antes mesmo que ele ganhasse seu nome definitivo, Bill W. fez questão de deixar registrado na Segunda Tradição de Alcoólicos Anônimos, a história da profunda negativa que o primeiro Grupo de Nova Iorque lhe deu; ao saber da tentadora proposta que Charlie B. o dono do Towns Hospital lhe fez; para que ele, Bill, fosse trabalhar como ‘terapeuta leigo’ em seu hospital ganhando muito dinheiro. E apesar do aperto financeiro pelo qual Bill estava passando, o Grupo fez objeção a que seu cofundador os abandonasse para tornar-se um membro profissional. Bill não aceitou o trabalho, submetendo-se ao posicionamento tomado pela pequena, mas decisiva consciência coletiva presente naquela reunião.
É certo imaginar que muitos dos que vão ler esse trabalho já conhecem bem essa história. Mas também é correto pensar que muitos só ouviram falar, e que outros nem sequer ouviram. Assim sendo, eu penso ser prudente compartilhar com os leitores membros, ou não; pequenos trechos do próprio Bill W. narrando sobre essa primeira decisão tomada a partir do questionamento “de um dos membros do Grupo.” Os trechos que vou transcrever, estão nas páginas 91/92 do livro Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade, a décima quarta impressão de 1989, num comentário feito por Bill W. sobre a Segunda Tradição, e que juntos eles dizem exatamente assim: “Charlie foi até sua escrivaninha e voltou com um antigo balanço financeiro. Entregando-o a mim, continuou dizendo: “Isto mostra os lucros desse hospital no princípio de 1930. Milhares de dólares por mês. O mesmo deveria estar acontecendo agora, mas não está. Estaria se você viesse ajudar. Porque você não transfere o seu trabalho para cá? Eu lhe daria um escritório, uma boa conta corrente e uma grande parte dos lucros. O que lhe proponho é perfeitamente válido do ponto de vista da ética. “Você pode se tornar terapeuta leigo e terá maior sucesso do que qualquer outro.” Ele me convenceu. Senti certo remorso, mas finalmente percebi que a proposta do Charlie era válida do ponto de vista da ética.
Pedi ao Charlie um prazo para pensar, entretanto, já tinha resolvido o que fazer. Voltando de metrô para o Brooklin, senti algo que me pareceu uma orientação divina. Foi apenas uma simples frase, mas muito convincente. Na realidade, ela veio diretamente da Bíblia. Uma voz ficava me dizendo: “o trabalhador é digno de seu salário.” Ao chegar em casa, encontrei a Lois cozinhando como de costume, enquanto três bêbados esfomeados que estavam morado na nossa casa, a contemplavam da porta da cozinha. Eu a chamei de lado e lhe dei a grande notícia.
Pareceu interessada, mas não se entusiasmou tanto como eu esperava. Nessa noite, havia reunião. E apesar de poucos alcoólicos, daqueles que hospedávamos parecerem estar sóbrios, outros estavam. E com suas esposas, eles encheram nossa sala de estar no andar de baixo.
Imediatamente lhes contei a história de minha oportunidade. Nunca esquecerei suas fisionomias impassíveis e olhares fixados em mim. Com pouco entusiasmo, contei minha história até o fim. Houve um longo silêncio. E quase timidamente, um de meus amigos começou a falar: “Sabemos de suas dificuldades financeiras, Bill. Isso nos preocupa muito. Constantemente temos nos perguntado o que poderíamos fazer a esse respeito, mas acho que falo por todos os presentes quando digo que o que você nos propôs nos preocupa muito mais.” A voz do orador foi ficando mais firme. “Não percebe – ele continuou – que você jamais poderá tornar-se um profissional? Por mais generoso que Charlie tenha sido conosco, você não percebe que não podemos ligar esse tipo de coisa com o hospital dele ou com outro qualquer? Você nos disse que a proposta do Charlie é válida do ponto de vista da ética. Certamente que é, mas o que temos não funcionará apenas com o fundamento da ética; tem que ser mais que isso. Certamente que a ideia do Charlie é muito boa, mas não é boa o suficiente. Trata-se de uma questão de vida e morte, Bill, e nada a não ser o melhor servirá.” “Bill, você não tem muitas vezes falado aqui mesmo em nossas reuniões, que o bom é às vezes inimigo do melhor? Pois bem, esse é um caso igual. Você não pode fazer isso conosco.” Assim falou a “Consciência do Grupo.” O grupo tinha razão e eu estava errado; a voz que ouvi no metrô não era a voz de Deus. Aqui estava a verdadeira voz, jorrando de meus amigos. “Eu ouvi e – graças a Deus obedeci.” Bill W.
E foi assim; que o conceito “Consciência de Grupo de A.A.” ficou definido formalmente em nossa Irmandade após a publicação em 1946, da Segunda Tradição de Alcoólicos Anônimos. A Tradição que declara: “Somente uma autoridade preside, em última análise, ao nosso propósito comum – um Deus amantíssimo que se manifesta em nossa consciência coletiva”.
“Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não tem poderes para governar.” Embora ainda não seja muito bem compreendida entre nós, a “Consciência de Grupo” como é expressa na Segunda Tradição, é um “conceito básico e poderoso” que possibilita que pessoas com procedência e temperamentos diferentes, possam ir além de suas ambições pessoais e unir-se num objetivo comum.
Uma Consciência bem informada, é aquela cujo os componentes (membros) conheçam e pratiquem os princípios e obedeçam as normas do procedimento sugeridos para os Alcoólicos Anônimos. É necessário também, que todas as informações necessárias sobre o assunto a ser votado, tenham sido discutidas e que todos os pontos de vista sejam expostos antes do Grupo votar. Agindo assim; nós estaremos cumprindo fielmente o que é sugerido na “Garantia Quatro do Artigo 12”. Que todas as nossas decisões importantes sejam tomadas através da discussão, votação e sempre que possível, por substancial unanimidade.
Este princípio espiritual que torna possível para nós, definir formalmente “a vontade de Deus como nós o concebemos, e ele é também; um dos princípios que diferencia nossa Irmandade de outros movimentos”.
Do meu ponto de vista, qualquer assunto que diz respeito aos Grupos e à Alcoólicos Anônimos como um todo, satisfaz plenamente os requisitos para que seja consultada a “Consciência do Grupo”. Precisamos ficar atentos; se realmente estamos consultando uma autêntica “Consciência do Grupo A.A.”, por exemplo, verificar se todos que irão votar são membros e são frequentes no Grupo.
Para ser uma autêntica “Consciência do Grupo” uma decisão deve satisfazer dois critérios: Primeiro – A decisão só deve ser tomada, depois que todos os membros tenham completo conhecimento do assunto; e depois de terem efetuado uma exaustiva discussão sobre o mesmo, ter ouvido as minorias com muita atenção; considerar o assunto enfocando sempre os princípios de A.A. “Segundo – A decisão deve ser com requisito de unanimidade substancial – que a Conferência de Serviços Gerais define como uma maioria de dois terços, mas na prática, é sempre maior.” Nesta altura, é provável que surjam algumas indagações. Por exemplo: Quanto tempo se deve tomar para anunciar a questão a ser discutida nas reuniões, antes que se atue sobre ela? E quantos membros devem estar presentes para que se comece a discutir a questão proposta? As experiências compartilhadas por alguns Grupos mostram que é uma boa ideia “notificar” com bastante antecedência todos os membros que possam tomar parte da reunião; normalmente, duas semanas seriam suficientes, porém, pode não ser sempre possível reunir tantos membros. De acordo com suas experiências, “cada Grupo de A.A estabelece suas próprias regras referentes à proporção necessária de votos, mas sempre com o objetivo de alcançar uma “Unanimidade Substancial.” Está escrito na “Quarta Garantia do Artigo 12” da Ata de Constituição da Conferência: “Quando uma decisão que foi tomada com uma unanimidade substancial tem um resultado equivocado, não pode haver recriminações acaloradas”. Todos podem dizer: “Bem, debatemos a questão, tomamos a decisão que resultou não ser uma boa decisão”. – Que tenhamos mais sorte na próxima vez.” Doze Conceitos para Serviços Mundiais pág 113.
“O que nós, os membros da Irmandade, não devemos nunca, é fechar a nossa mente, para não dar a devida importância à formação do conceito “Consciência do Grupo.” Pois conforme o que está escrito; este é “Um conceito fundamental” para a Unidade e sobrevivência de A.A., sem Unidade, e sem a “Consciência do Grupo” Alcoólicos Anônima não pode sobreviver.” E nem nós. – Pense nisso!

VISÃO SOBRE A IMPORTÂNCIA DOS PASSOS

Oração dos Doze Passos.

Oh! Senhor! Venho diante de ti suplicar humildade para admitir que sou impotente perante o álcool e confessar, Senhor, que perdi o domínio sobre a minha vida. Rogo-te Senhor para devolver-me à sanidade há muito perdida. Conduz minha vontade hoje e sempre, Senhor, e dá-me coragem para colocar minha vida em tuas mãos. Fazei-me Senhor compreendê-lo segundo meu entendimento. Ilumine os meus passos, Senhor, para que eu possa transformar o meu orgulho e amor próprio, minha luxúria em energia vital. Dê-me força, Senhor, para que eu aplaque minha ira, e que transforme minha gula em necessidade de alimento. Não deixe que eu sucumba diante da inveja. Permita-me, Senhor que enxergue além das minhas falhas e possa fazer delas instrumento para meu aprendizado. Remova, Senhor, os defeitos do meu caráter. Que eu possa reparar todo o mal que pratiquei sem prejudicar a quem quer que seja. E que a partir de hoje, Senhor, eu possa admitir meus erros sem me sentir culpado. Que eu leve esta mensagem, Senhor, a todos aqueles que assim como eu, sofreram por não conseguir se entregar a Ti.

1º Passo

Quase ninguém se dispõe a admitir a derrota completa; os instintos naturais gritam contra essa idéia. O álcool nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Só conseguimos pensar nele desde o acordar até o “desmaiar”, e não percebemos nossa falência total como seres humanos.
O álcool, além de sua propriedade viciante, possui também um efeito psicológico que modifica o pensamento e o raciocínio. Uma dose pode mudar o processo mental de um alcoólico, de modo que ele acha que pode agüentar outra, outra e outra… Para ele, viver sem o álcool é o mesmo que não ter vida.
Uma vez ingerida a primeira dose, a compulsão se desencadeia. Soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula, preguiça, manipulação emocional, negação, justificativas, autopiedade e racionalizações, se tornaram para o alcoólatra como o ar que respiram.
São três as falências totais a que são submetidos os alcoólicos: “física”, o organismo passa a rejeitar o álcool; o alcoólatra tenta parar ou diminuir a quantidade mais daí, o corpo passa a exigi-lo através dos sintomas da crise de abstinência esse então, ingere o álcool para poder superar as dores desse sintoma, em doses maiores ainda, virando dessa forma um ciclo vicioso que se repete diariamente. “Mental”, é a obsessão, pensamentos ininterruptos de como vamos usar mais álcool, mesmo que isso signifique manipular pessoas, roubar, mentir, adiar um compromisso etc. “Espiritual”, a parte espiritual da doença é o total egocentrismo, o alcoólatra passa por cima de amigos, responsabilidades, pai, mãe, esposa, trabalho ou qualquer um que tente de alguma forma, impedir seu desejo incontrolável de usar mais álcool.
A palavra “admitir” no primeiro passo é insuficiente, e ele vai além da palavra “aceitar”.
Um fato deve ser observado, ou seja, a necessidade de distinguir entre submissão e rendição. No primeiro caso, um indivíduo aceita a realidade consciente, mas não no subconsciente. Ele aceita como fato pratico que momentaneamente não pode derrotar a realidade, mas espera que um dia vá vencer, o que implica a não-aceitação real e presença de tensão.
Por outro lado, quando um indivíduo se rende, a habilidade de aceitar a realidade funciona num nível inconsciente e a tensão desaparece.
O ato de rendição é uma ocorrência inconsciente, não provocada pelo paciente, mesmo que ele assim o deseje.
Uma pessoa não pode simplesmente declarar que aceita qualquer coisa – senão a aceitação não é total, mas só da boca para fora. Existem palavras que descrevem essa meia aceitação, como: submissão, resignação, cessão, complacência, reconhecimento, concessão e assim por diante.
O importante além de admitir, é se render ao fato de que somos completamente impotentes perante o tirano “Rei-álcool”. No primeiro gole, ele já começa a nos empurrar para o fundo-do-poço. E de lá só sairemos quando nos prontificarmos a aceitar e escutar, como os que se encontram à beira da morte, as palavras de tantos outros companheiros que, com certeza, já passaram por esse caminho de destruição, e através de Alcoólicos Anônimos conseguiram se manter em recuperação.
Devemos nos prontificar a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa, e a primeira delas, é rendermo-nos totalmente e nos conscientizar da nossa impotência perante o álcool.
Talvez não sejamos culpados pela nossa doença, mas certamente somos responsáveis por mantê-la estacionária.

2º Passo

No primeiro passo, convenceram-nos de que somos alcoólicos e que nossas vidas são ingovernáveis. Havendo nos reduzido a um estado de desespero absoluto, agora nos informaram que somente um Poder Superior poderá resolver nossa obsessão. Alguns de nós se recusam a acreditar em Deus, outros não conseguem acreditar e ainda outros acreditam na existência de Deus, mas de forma alguma confiam que ele levará a cabo este milagre. Pois é, nos meteram num buraco sem saída, tudo bem, mas e agora, para onde vamos?
Alguns abrigam a idéia de que o homem, elevado tão majestosamente de uma simples e primitiva célula, é hoje a ponta de lança da evolução e, portanto, o único Deus que ele conhece.
Precisa renunciar a isto para se salvar?
Em primeiro lugar, Alcoólicos Anônimos não exige que você acredite em coisa alguma. Todos os doze passos são sugeridos. Em segundo lugar, para alcançar a sobriedade e para manter-se sóbrio, não é preciso aceitar todo o segundo passo de uma x. em terceiro lugar, a única coisa que você realmente precisa é ter a mente aberta.
Quando deparar com Alcoólicos Anônimos pela primeira vez, você pode pensar que este negócio de Alcoólicos Anônimos é totalmente anticientífico, e simplesmente recusar-se a aceitar por considerar uma bobagem.
Os membros de Alcoólicos Anônimos seguem inúmeros caminhos a procura de fé. Se não se interessar por aquele que lhe sugerem, certamente descobrirá outro que lhe convirá, se ficar atento. Você pode começar a resolver o problema pelo método da substituição. Poderá, se quiser, considerar Alcoólicos Anônimos em si como sua força superior. Muitas pessoas, nele, resolveram seus problemas, com o álcool e, portanto, representam um Poder Superior a você, que nem sequer chegou perto da solução. Esse mínimo de fé bastará. Muitos libertados da obsessão pelo álcool, com suas vidas inexplicavelmente transformadas, chegaram a acreditar no Poder Superior, e a maioria começou a falar em Deus.
Às vezes, Alcoólicos Anônimos é aceito com maior dificuldade pelos que perderam ou rejeitaram a fé, do que pelos que nunca a tiveram, pois acham que já experimentaram a fé e não lhes serviu. Experimentaram viver com fé e sem fé e ambas as formas os decepcionaram.
A religião afirma que a existência de Deus pode ser comprovada; o agnóstico diz que não pode ser comprovada; e o ateu afirma que tem provas da inexistência de Deus. Afastado da fé, o problema é uma confusão profunda, sem qualquer crença nem alcança a convicção do crente, do agnóstico ou do ateu. Fica-se desnorteado. Ao começarmos a obter êxito material, estávamos felizes então, por que nos preocupar com abstrações teológicas e deveres religiosos, ou com o estado nossas almas na Terra e no além? Bastava-nos o aqui e agora. A vontade de ganhar nos levaria para frente. Então, o álcool começou a nos dominar. Finalmente, sem outra saída, tivemos que sair a procura de nossa fé perdida. Em Alcoólicos Anônimos a descobrimos de novo.
Há quem se julgue intelectualmente auto-suficiente. Adoram ouvir as pessoas os chamar de “gênios”; inflam em balões orgulhosos; acham que podem flutuar acima dos outros utilizando apenas o poder de seus cérebros; a sabedoria é onipotente; o intelecto é capaz de conquistar a natureza. O Deus do intelecto substitui o Deus de seus pais. Porém, mais uma vez, a bebida alcoólica tem outras ideais. Eles, que tão brilhantemente haviam vencido sem esforços, converteram-se nos maiores derrotados de todos os tempos. Viram que seria necessário reconsiderar, senão morreriam. A humildade e o intelecto podem ser compatíveis, conquanto que a humildade esteja em primeiro plano. Quando começaram a entender isso, receberam a dádiva da fé, uma fé que funciona.
Outros se sentem desenganados com a religião e suas obras. A bíblia, dizem, está cheia de bobagens. Criticando as pessoas religiosas, sentem-se superiores a elas e não olham para si, para seus próprios defeitos. Esta falsa forma de respeitabilidade é uma desgraça, no tocante à fé. Contudo, compelidos ao Alcoólicos Anônimos, acabam por aprender melhor.
O desfio é a característica predominante de muitos alcoólicos, inclusive o desafio a Deus. Pedem para que Deus lhes dê tudo de bom, inclusive coisas utópicas, isso caso Ele exista, e, quando não conseguem, culpam ao próprio Deus por abandoná-los. Então se convertem em bêbados e rezam a Deus para que os salve. E nada acontece. Essa é a falha mais impiedosa de todas. “Para o diabo com este negócio de fé”, dizem.
Em Alcoólicos Anônimos conhecem o erro de sua rebeldia. A crença significa a confiança e não o desafio. Logo conhecem que a humildade é essencial para sua recuperação.
Vários são cheios de fé, embora cheirem a álcool. Eles se sentem devotos inveterados, mas se esquecem de que o mais importante é a qualidade da fé, e não o volume da prática religiosa. Esse é o ponto cego. Consideram praticar a sério suas religiões, mas são superficiais. Acreditam serem iluminados quando não o são. Confundem emocionalismo com sentimentos religiosos. Querem sempre receber sem dar. Sempre dizem: “concedei-me as coisas que eu desejo”, em vez de: “seja feita a vossa vontade”.
Alguns estarão dispostos a se classificarem de “bebedores problema”, mas não aceitarão a simples insinuação de que estão mentalmente doentes. São amparados nesta cegueira por um mundo que não compreende a diferença entre o beber racional, e o alcoolismo. A “sanidade” se define como “saúde mental”. Contudo, nenhum alcoólico analisando sobriamente seu comportamento destrutivo, poderia se considerar possuidor de “saúde mental”, caísse a destruição sobre um objeto, ou sobre sua estrutura moral. Sejamos agnósticos, ateus ou ex-crentes, podemos nos agrupar neste passo. A verdadeira humildade e a mente aberta poderão nos conduzir a fé, e toda reunião de Alcoólicos Anônimos é uma segurança de que Deus nos levará de volta à sanidade, se soubermos nos relacionar corretamente com ele.

3º Passo

Nos primeiros dois passos estivemos refletindo. Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mais também percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em Alcoólicos Anônimos, estava ao alcance de qualquer um. Essas conclusões não requereram ação; requereram apenas aceitação.
Através de ação conseguimos interromper a vontade própria que sempre impediu a entrada de Deus – ou, se preferir, de um Poder Superior – em nossas vidas. Podemos ter fé, mas manter o Poder Superior fora de nossas vidas. Como deixá-lo entrar? Como entregar a vontade e a própria vida aos cuidados do Poder Superior que se pensa possa existir?
O passo inicial é a boa-vontade e se libertar do egoísmo. Saber que quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. A dependência ao Poder Superior, como se pratica em Alcoólicos Anônimos, realmente é um meio de ganhar a verdadeira independência do espírito.
Na vida cotidiana, é alarmante descobrir o quanto somos realmente dependentes e quão inconscientes somos dessa dependência. Toda casa moderna tem fios elétricos que levam força e luz ao seu interior. Ficamos encantados com essa dependência, na maior esperança é que nada possa a vir a interromper o suprimento da corrente. Aceitando nossa dependência dessa maravilha da ciência, descobrimos que somos mais independentes pessoalmente. E não somente somos independentes como também nos sentimos mais confortáveis e seguros. A orça corre justamente para onde ela é necessária silenciosa e confortavelmente, a eletricidade – essa estranha energia que tão poucas pessoas compreendem – supre nossas necessidades mais simples, a as mais desesperadas também.
Porém, no momento em que entra em jogo nossa independência mental e emocional, como nos comportamos diferentemente! Mantemos uma filosofia valente, na qual cada um de nós faz o papel de Deus, para nós soa muito bem, mas será que funciona mesmo? Uma boa olhada no espelho servirá de resposta para qualquer alcoólico.
A auto-suficiência é uma filosofia que não está dando certo e o final é a única ruína. Já sofremos o bastante e é hora de procurar os Alcoólicos Anônimos. Alguns alcoólicos rebeldes concluem que qualquer tipo de dependência é intoleravelmente prejudicial. Mas a dependência de um grupo de Alcoólicos Anônimos ou de um Poder Superior jamais produziu qualquer efeito pernicioso.
Portanto, como faria um indivíduo de boa disposição para seguir entregando sua vontade e sua vida aos cuidados do Poder Superior?
Não é só livrar-se da dependência do álcool, mas também arrumar toda a bagunça moral, espiritual, física e psíquica que o álcool causou. Nada poderá ser feito apenas com a sua coragem e a vontade desassistida. Certamente, chegou a hora de depender de alguém ou alguma coisa.
Ao início, esse “alguém” provavelmente será seu amigo mais próximo em Alcoólicos Anônimos.
A vontade humana de nada serve. Além do álcool existem muitos outros problemas que também não se vencem apenas com a força de vontade. É preciso haver boa disposição e um ato de vontade própria, um esforço pessoal contínuo para se adaptar aos princípios dos doze passos e, assim se espera, à vontade de Deus.
É quando tentamos adaptar a nossa vontade à de Deus que começamos a usá-la corretamente. Para todos nós esta foi uma revelação maravilhosa. Todo nosso problema resultou do abuso da vontade. Havíamos tentado atacar nossos problemas com ela, ao invés de modificá-la, para que estivesse de acordo com a vontade de Deus para conosco. O terceiro passo abre as portas para todos os doze passos. Cada vez que aparecer um momento de indecisão ou de distúrbio emocional, podemos fazer uma pausa, pedir silêncio, e dizer simplesmente: “Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir uma das outras”.

4º Passo

A criação nos deu os instintos por alguma razão. Sem eles não seríamos seres humanos completos.
Contudo, estes instintos, tão necessários para nossas existências, freqüentemente excedem bastante suas funções específicas e insistem em dirigir nossas vidas. Assim, eles nos tiranizam, causam grandes problemas. Acabam por tornar-se de necessários à nossa sobrevivência, em empecilhos físicos e mentais.
Descobrir exatamente como, quando e onde nossos desejos naturais nos deformaram é o objetivo do quarto passo.
Os alcoólicos deveriam ser capazes de perceber que os instintos desenfreados representam a causa básica de suas bebedeiras destrutivas. Temos nos embriagado para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Temos nos embriagado para fugir do sentimento de culpa causado por nossas paixões. Temos nos embriagado pela vangloria, para melhor desfrutar sonhos absurdos de ostentação e poder. Não é agradável olhar esta perversão doentia da alma. Os instintos aliados impedem a investigação e se torna mais fácil nos apegarmos a desculpas para evitar o inventário. Nossos problemas e ansiedades atuais, dizemos, são causados pelo comportamento de outras pessoas que realmente precisam fazer um inventário moral. Acreditamos firmemente que, se elas nos tratassem melhor, não teríamos problemas. Nós não somos os culpados. São elas.
A maioria dos membros de Alcoólicos Anônimos sofreu severamente por causa da autojustificação, na época das bebedeiras. Para a maioria essa escapatória foi a criadora desculpa. Para beber, e para todo tipo de comportamento louco e prejudicial. Precisávamos beber porque no emprego éramos grandes êxitos, ou fracassos funestos; porque as coisas andavam mal ou andavam bem; em casa nos sufocavam com amor ou porque não nos davam amor algum; porque o nosso time ganhou ou porque o nosso time perdeu. E assim por diante, sem fim.
Eram as “circunstancias” que nos faziam beber e como não as controlássemos, nos tornamos alcoólicos. Nunca nos ocorreu que precisávamos mudar a nós mesmos para que nos ajuntássemos às circunstancias, fossem quais fossem.
Em Alcoólicos Anônimos aprendemos que cada vez que bancávamos “os tais”, atraíamos os outros contra nós. Geralmente demorava bastante para percebemos como as nossas emoções descontroladas nos vitimavam. Notávamos logo nos outros, mas só vagarosamente em nós.
Sem duvida, o depressivo e arrogante são personalidades extremas, tipos que Alcoólicos Anônimos e o mundo inteiro possuem em abundancia. Alguns estão até enquadrados nos dois tipos.
Quais são seus defeitos de caráter? Encontrando-os, deve seguir em frente com a nova confiança de que, finalmente está no caminho certo.
Devemos concordar que há bastante de errado em nós alcoólicos, havendo muito a que fazer se esperamos conseguir a sobriedade, o progresso e a verdadeira capacidade de enfrentar a vida.
Para evitar cair em confusão sobre os nomes que deveríamos dar a estes defeitos, tomemos uma relação, universalmente reconhecida, das principais falhas humanas, os sete pecados capitais: orgulho, avareza, luxuria, ira, gula, inveja e preguiça.
Todas estas falhas geram o medo, uma doença da alma em si. Então o medo, por sua vez, gera mais defeitos de caráter. Os medos sem qualquer sentido são cupins que, incansavelmente, devoram os alicerces da vida que tentamos construir.
Uma vez que nos sentimos inteiramente dispostos a inventariar a nossa vida e nos esforçamos para fazê-lo minuciosamente, uma luz maravilhosa cai sobre esta cena nebulosa. Ao persistirmos, nasce um tipo de confiança totalmente novo, e é indescritível a sensação de alivio ao nos encararmos finalmente. Estes são os primeiros frutos do quarto passo.
Disposto agora a iniciar a busca de seus próprios defeitos, perguntará “por onde começo? Como devo fazer para levar a bom termo um inventário de mim mesmo?”.
Usando seu melhor bom senso sobre o que tem sido errado, poderá fazer um exame geral de sua conduta no que tange a seus instintos primários de sexo, segurança e vida social.
Todos os alcoólicos que beberam até perder seus empregos, suas famílias e seus amigos, precisarão reinquirir-se impiedosamente para determinar até que ponto seus defeitos de personalidade demoliram sua segurança.
É por causa de nossas relações deturpadas com parentes, amigos e a sociedade que muitos de nós sofremos mais. Temos sido por demais obtusos e teimosos nestas relações. O fato principal que deixamos de reconhecer é a nossa incapacidade total de manter uma verdadeira intimidade com outro ser humano. Nossa egomania cava duas armadilhas desastrosas. Insistimos em dominar as pessoas que conhecemos, ou dependemos demais delas. Se nos apoiamos demasiadamente nas pessoas, mais cedo ou mais tarde nos decepcionarão, pois também são humanos e não podem absolutamente satisfazer as nossas exigências incessantes. Assim, nossa insegurança cresce e se inflama. Quando tentamos, habitualmente, manipular os outros para que cumpram nossas teimosas vontades, revoltam-se e resistem fortemente. Então, deixamos crescer os sentimentos feridos, a mania de perseguição e o desejo de retaliação. Conforme redobramos nossos esforços para controlar, e continuamos fracassando, nosso sofrimento torna-se agudo e constante.
Em nenhuma ocasião procuramos ser um membro da família, um amigo entre amigos, um colega entre os outros, ou um membro útil da sociedade. Sempre nos esforçamos para chegar até o topo do morro, ou então para nos escondermos à sombra dele. Da verdadeira fraternidade pouco conhecíamos.
Alguns podem achar que sua história não foi tão ruim na superfície. Mas freqüentemente ficamos embaraçados ao descobrir que isto se deve simplesmente ao fato de havermos enterrado tais defeitos no mais profundo de nós mesmos, debaixo de grossas camadas de auto justificação. Sejam quais forem os defeitos, acabaram por nos emboscar no alcoolismo e na miséria.
Portanto, minuciosamente deveria ser o lema quando se trata de um inventário. Neste sentido, é sábio escrevermos nossas perguntas e respostas. Servirá como ajuda aos pensamentos claros e á avaliação honesta. Será a primeira indicação tangível de nossa total disposição de tocar em frente.

5º Passo

Quando se trata de desinflar o ego, poucos passos são mais duros de aceitar que o quinto passo. A experiência de Alcoólicos Anônimos nos indicou que não podemos viver sozinhos; fizemos um inventario e é hora de falar com alguém a esse respeito.
Recusar-se a pratica do quinto passo, é uma atitude atrapalhada que causa problemas. Algumas pessoas são incapazes de permanecerem sóbrias, outras recaem por não terem feito a verdadeira “limpeza de casa”.
Este sistema de admitir os próprios defeitos à outra pessoa é, sem duvida, muito antigo. Tem sido validada em todos os séculos, e caracteriza a vida de toda pessoa espiritualmente orientada e verdadeiramente religiosa. Hoje, a religião, psicólogos e psiquiatras apontam essa necessidade e Alcoólicos Anônimos, vai ainda mais longe, e afirma que a pessoa não consegue se manter sóbria. Diante desse consenso geral, parece claro que a graça divina não nos tocará para expulsar nossas obsessões destrutivas.
Com o quinto passo virá o beneficio de livrar-nos da terrível sensação de isolamento que sempre tivemos. Aquela sensação de que éramos atores num palco e subitamente descobríamos que não sabíamos uma só linha sequer de nosso papel. Era uma razão pela qual amávamos tanto o álcool. Ele nos permitia desempenhar nosso papel a qualquer tempo. Mas, acabou nos prejudicando; finalmente, nos arrasava e deixava numa solidão aterrorizante.
Vamos ter também na prática do quinto passo, a deliciosa sensação de que podemos ser perdoados, não importando o que tenhamos feito ou pensado. Além disso, pela primeira vez, nos sentíamos verdadeiramente capazes de perdoar aos outros, não importando quão profundamente sentíssemos que nos houvessem maltratado.
Outra grande dádiva que podemos esperar por confiar nossos defeitos a outro ser humano é a humildade.
Maior realismo e, portanto, mais honestidade a nosso respeito são os nossos grandes e positivos benefícios que ganhamos sob a influência do quinto passo. Precisamos da ajuda externa de Deus e de um ser humano para saber, com certeza, a verdade a nosso respeito e admiti-la. Unicamente através de uma discussão sobre nós mesmos, sem esconder nada, estando dispostos a receber advertências e aceitar conselhos, podemos começar a caminhar em direção ao pensamento correto, à honestidade sólida e à autêntica humildade.
Nosso próximo problema será descobrir a pessoa na qual iremos confiar. É preciso cuidado, pois será necessário compartilhar com ela, fatos a nosso respeito que ninguém mais deva saber.
Se a nossa confiança nela estiver bem desenvolvida, se ela se mantém abstêmia, tem experiência e conseguiu superar vários problemas, talvez iguais aos nossos, então será uma boa escolha.
Mesmo depois de ter encontrado a pessoa, o aproximar-se dela requer muita decisão.
Desde que você nada esconda, sua sensação de alivio aumentará de minuto a minuto. As emoções reprimidas durante anos saem de seu confinamento, e milagrosamente desaparecem ao serem expostas. À medida que a dor diminui, é substituída por uma tranqüilidade balsâmica. E quando a humildade e a serenidade se misturam desta maneira, outra importantíssima coisa é capaz de ocorrer. Muitos Alcoólicos Anônimos anteriormente agnósticos ou ateus, dizem que foi nessa fase do quinto passo que realmente sentiram, pela primeira vez, a presença de Deus. É um passo em direção a sobriedade plena e significativa.

6º Passo

Uma pessoa cheia de disposição e honestidade suficientes para, repetidamente, experimentar o sexto passo com respeito a todos seus defeitos – em absoluto sem qualquer reserva – tem realmente andado um bom pedaço no campo espiritual e, portanto, merece ser chamado de um homem que está sinceramente empenhado em crescer à imagem e semelhança do criador.
A cada membro sóbrio de Alcoólicos Anônimos foi concedida a libertação da obstinada e potencialmente fatal obsessão para o beber. Portanto, de forma literal e completa, todos Alcoólicos Anônimos “se prontificaram inteiramente” a deixar que o Poder Superior removesse de suas vidas a mania pelo álcool. E o Poder Superior passou a fazer justamente isso.
Quando homens e mulheres derramam tanto álcool para dentro de si, destroem suas vidas e cometem um ato totalmente antinatural. Contrariando seu desejo instintivo de autopreservação, parecem estar resolvidos à autodestruição. Atuam contra seu instinto mais profundo. Por estarem humilhados pela terrível surra administrada pelo álcool, a graça de Deus pode neles penetrar e expelir a obsessão. Aqui, então, seu poderoso instinto de viver pode cooperar plenamente com a decisão do criador de lhes dar nova vida. Pois tanto a natureza quanto Deus abominam o suicídio.
Se pedirmos, Deus certamente perdoará nossas negligências. Porém, nunca irá nos tornar brancos como a neve e nos manterá assim, sem a nossa cooperação. Não podemos esperar que todos nossos defeitos de caráter sejam eliminados como foi nossa compulsão de beber. Alguns deles podem ser eliminados, mas com a maioria teremos de nos contentar com uma melhora que requer paciência.
Se quisermos obter algum resultado concreto na prática deste passo para a solução de problemas do álcool, precisamos fazer uma nova tentativa no sentido de limparmos a mente dos preconceitos. Teremos de enfrentar alguns dos nossos piores defeitos de caráter e tomar medidas para removê-los o mais rápido possível.
No momento em que dizemos: “nunca, jamais”, fechamos nossa mente à graça de Deus. A demora é perigosa e a rebeldia pode significar a morte. Esse é o ponto exato em que teremos de abandonar os nossos objetivos limitados e avançarmos em direção à vontade de Deus para conosco.

7º Passo

Conseguir maior humildade é o princípio fundamental de cada um dos doze passos de Alcoólicos Anônimos, pois sem um certo grau de humildade, nenhum alcoólico poderá permanecer sóbrio. Além disso, quase todos os Alcoólicos Anônimos descobriram que sem desenvolver esta preciosa virtude além de estritamente necessário à sociedade, não terão muitas probabilidades de se manterem sóbrios e felizes. Muitas pessoas não praticam, mesmo ligeiramente, a humildade como um modo de vida. Uma boa parte da conversa cotidiana que ouvimos, e muito do que lemos, salienta o orgulho que o homem tem de suas próprias realizações.
Certamente nenhum alcoólico e, sem dúvida, nenhum membro de Alcoólicos Anônimos quer condenar os avanços e os bens materiais. Porém, vivendo segundo tal pensamento, o alcoólico mais que ninguém se atrapalhou. Quando estávamos obtendo êxito, bebíamos para viver sonhos ainda maiores e quando estávamos frustrados, mesmo um pouco, bebíamos até o esquecimento. Ao invés de considerar a satisfação de nossos desejos materiais como meios pelos quais podíamos viver e funcionar como humanos, entendemos que estas satisfações constituíam a única finalidade e objetivo da vida. Nunca nos ocorreu fazer da honestidade, da tolerância e do verdadeiro amor ao próximo e a Deus, a base do viver cotidiano.
Enquanto estávamos convencidos que podíamos viver exclusivamente pela nossa força e inteligência, tornava-se impossível a fé num Poder Superior que funcionasse. Faltava esse ingrediente básico de toda humildade, o desejo d solicitar e fazer a vontade de Deus.
Só ao fim de 1ª longa estrada, marcada por sucessivas derrotas, humilhações e esmagamento definitivo de nossa auto-suficiência, começamos a sentir a humildade como algo mais do que uma condição de desespero rastejante.
Somos obrigados a escolher entre os sacrifícios das tentativas e as penalidades inapeláveis de não tentar. Poderemos ainda não dar à humildade um valor alto como virtude pessoal desejável, porém reconhecemos que é uma ajuda necessária à nossa sobrevivência.
Desfrutamos momentos em que sentimos algo parecido à verdadeira paz de espírito. Para aqueles de nós que, até então, conheceram somente a excitação, a depressão ou a ansiedade, esta nova paz conquistada é uma dádiva inestimável. Realmente, foi acrescentado algo novo. Anteriormente, a humildade foi uma alimentação forçada, mas, agora começa a significar o ingrediente nutritivo que nos pode trazer a serenidade.
Em Alcoólicos Anônimos observamos e escutamos. Por todo lado percebemos o fracasso e a miséria transformados, pela humildade, em valores inestimáveis. Ouvimos historias após historias de como a humildade havia convertido a fraqueza em foca. Em todos os casos, o sofrimento havia sido o preço de ingresso para uma nova vida. A humildade é um remédio para a dor. Começamos a ter menos medo da dor e desejar a humildade mais do que nunca.
Percebemos que não era necessário sermos levados à humildade por cacetadas e pancadas. Podíamos procurá-la voluntariamente. Ela não era mais algo que precisávamos ter e sim ago que queríamos ter.
Toda a ênfase do sétimo passo é sobre a humildade. Na realidade, está nos dizendo que agora devemos estar dispostos a tentar a humildade na procura da remoção de nossas outras falhas, da mesma forma como fizemos quando admitimos que éramos impotentes perante o álcool e chegamos a acreditar que um Poder Superior a nós poderia nos devolver à sanidade. Se esse grau de humildade nos tornou capazes de descobrir a graça pela qual uma obsessão assim fatal pôde ser banida, então deve existir esperança de obter o mesmo resultado em relação a qualquer outro problema que possamos ter.

8º Passo

Aprender a viver em paz, companheirismo e fraternidade com qualquer homem ou mulher, é uma aventura comovente e fascinante.
O primeiro a fazer é uma relação de pessoas que prejudicamos ou que nos prejudicaram na nossa adicção. Há um obstáculo difícil a ser transposto, é o perdão. Evitando encarar as ofensas que temos dirigido a outro, costumamos salientar, com ressentimento, as afrontas que ele nos tem feito. Isso acontece especialmente quando ele, de fato, tenha se comportado mal. Triunfalmente nos agarramos à sua má conduta como desculpa perfeita para minimizar ou esquecer a nossa.
Ora, lembremo-nos de que os alcoólicos não são os únicos afligidos por emoções doentias. Além do mais, geralmente é um fato que, quando bebíamos, nosso comportamento agravava os defeitos dos outros. Em muitos casos estamos, na realidade, em frente a co-sofredores, pessoas que tiveram seus problemas aumentados pela nossa contribuição.
A perspectiva de chegar a visitar ou mesmo escrever às pessoas envolvidas, agora nos parecia difícil, sobretudo quando lembrávamos a desaprovação com que a maioria delas nos encarava. Também havia casos em que havíamos prejudicado certas pessoas que, felizmente, ainda desconheciam que haviam sido prejudicadas. Alguns de nós tropeçaram em um obstáculo bem diferente. Apegamo-nos à tese de que, quando bebíamos, nunca ferimos alguém, exceto nós mesmos. Essa atitude é o resultado final do esquecimento forçado.
Mas, embora, às vezes, totalmente esquecidos, os conflitos emocionais que nos prejudicaram se ocultam e permaneceram, em lugar profundo, abaixo do nível da consciência.
É necessário que tiremos de um exame de nossas relações pessoais toda informação possível sobre nós e nossas dificuldades fundamentais, haja vista que as relações deficientes com outros seres humanos quase sempre foram a causa imediata de nossas mágoas, inclusive de nosso alcoolismo.
Os danos que causamos a outras pessoas, poderíamos dizer que é o resultado de choques de instintos, que causam prejuízos físicos, mentais, emocionais ou espirituais às pessoas.
Deveríamos, é claro, ponderar e pesar cada caso cuidadosamente. Não devemos exagerar nem os nossos defeitos, nem os deles.
Haveremos de querer nos apegar à decisão de admitir as coisas que nós temos feito, ao mesmo tempo em que desculpamos as injurias feitas a nós, sejam elas reais ou imaginarias.

entrevista 9º passo
Pergunta: Qual sua visão sobre a importância do nono passo?

Após haver elaborado a relação das pessoas as quais prejudicamos, refletido bem sobre cada caso específico e procurado nos imbuir do propósito correto de agir, veremos que o reparo dos danos causados divide em várias classes aqueles aos quais nos devemos dirigir. Haverá os que deverão ter preferências, tão logo estejamos razoavelmente confiantes em poder manter nossa sobriedade. Haverá aqueles aos quais poderemos fazer uma reparação apenas parcial, para que revelações completas não façam a eles e a outros mais danos do que reparos. Haverá outros casos em que a ação deverá ser adiada, e ainda outros em que, pela própria natureza da situação, jamais poderemos fazer um contato pessoal direto.
Precisamos estar preparados para aceitar que as pessoas nos desculpem, perdoem, ou que não o façam. Isto jamais deverá nos desviar de nosso objetivo firme e constante.
Acima de tudo, devemos estar absolutamente seguros de que não estamos demorando por causa do medo. Pois a disposição de aceitar todas as conseqüências de nossos atos passados e, ao mesmo tempo, de assumir a responsabilidade pelo bem-estar de outros, constitui o próprio espírito do nono passo.

10º Passo

Não é necessário no décimo passo, perambularmos pelo passado. É necessário isto sim, a admissão e correção dos erros agora.
É neste verdadeiro balancete diário, que creditamos a nosso favor ou debitamos contra nós as coisas que julgamos bem ou mal feitas. A cada seis meses, devemos juntamente com nosso padrinho, fazer uma “limpeza geral” que é uma revisão importante de nossos comportamentos diante das várias situações surgidas no período e anotadas diariamente.
No início pode parecer difícil escrever diariamente sobre todas situações que nos levaram a emoções boas ou más, porém, o inventário, com o passar do tempo, passará a fazer parte integrante de nossa vida diária e não uma coisa rara ou à parte.
É um preceito espiritual, o de que cada vez que estamos perturbados, seja qual for a causa, alguma coisa em nós está errada. Se ao sermos ofendidos, nos irritamos, é sinal de que também estamos errados. O rancor, embora justificável, devemos deixar para aqueles que possam melhor controlá-lo.
Fomos atingidos por ressentimentos, nossas mágoas não tinham importância. Estragávamos nosso dia com mau gênio, revolta, incapacidade de distinguir se os rancores eram justificados ou não, mas também, tanto fazia, pois a nosso ver, sempre tínhamos razão, os outros é que estavam sempre errados e nos perseguiam sem motivos. Nossas emoções invariavelmente eram de ira, ciúme, inveja, autopiedade, orgulho ferido etc. e esses senti.s nos levavam diretamente à garrafa.
O inventário “relâmpago” visa nossas variações de humor, especialmente aquelas quando pessoas ou novos acontecimentos nos desequilibram e nos levam à tentação de cometer enganos. Para se evitar as terríveis “bebedeiras secas”, necessitamos autodomínio, disposição para admitir nossa culpa e, igualmente, para desculpar as ouras pessoas. Não se martirize: essas disciplinas não são fáceis, mas nosso objetivo não é a perfeição e sim o aperfeiçoamento.
Humildade faz muito bem e devemos nos lembrar a todo instante, que se hoje estamos sóbrios é porque Deus o quis, e qualquer vitória que, porventura, estamos gozando, é mais êxito dele do que nosso.
Ao desapontarmos aluem, devemos admiti-lo imediatamente, sempre perante nós e, se houver utilidade, perante a pessoa também.
Evidentemente que nem tudo são erros. No nosso dia-a-dia, praticamos uma porção de atos construtivos que ao relatarmos no inventário relâmpago, nos fornecem o estímulo necessário para prosseguir.
É uma excelente hora para refletir se agirmos movidos pelas emoções e qual teria sido o melhor comportamento. Aprender a identificar, admitir e corrigir nossas possíveis falhas, todos os dias constitui a essência da edificação do caráter e da vida correta.
O sincero arrependimento pelos danos causados, a gratidão genuína pelas bênçãos recebidas e a disposição de tentar melhores coisas amanhã, serão os valores permanentes que procuraremos. Tendo, dessa forma, feito o exame meticuloso de nosso dia, sem deixar de incluir as coisas bem feitas e tendo vasculhado nossos corações, sem medo ou concessões, estamos realmente prontos para agradecer a Deus todas as graças recebidas e podemos, então, dormir com a consciência tranqüila.

11º Passo

A oração e a meditação são nossos meios principais de contato consciente com Deus.
Muitas vezes pensamos que auxiliar outro alcoólico já é o bastante e ao esquecermos da prática da oração e meditação, ou só a praticando nos momentos de emergências, estamos recusando um suporte essencial ao bem estar das nossas mentes, emoções e intuições.
As práticas do auto-exame, da meditação e da oração estão diretamente interligadas. Usadas separadamente, elas podem trazer muito alívio e benefício, mas quando são relacionadas e interligadas logicamente, resultam em uma base inabalável para toda a vida.
Como nos foi dado perceber, é pelo exame de nossos próprios pensamentos e sentimentos que conseguimos que uma nova visão, ação e graça venham a influir no lado escuro e negativo de nosso ser.
Vamos querer que o bem que está dentro de todos nós, cresça e floresça. Sabemos que poucas coisas podem crescer na escuridão. A meditação é um passo em direção ao sol.

Pergunta: Mas o que é a oração e a meditação? Como podemos fazê-las e qual a diferença entre as duas?

Bem poderíamos começar desta maneira: primeiro procuremos uma oração que seja boa de fato. Não será necessário procurar muito. Iniciemos com uma que é clássica: a oração de São Francisco.
Meditando sobre ela, podemos sentir que primeiro ele quis tornar-se um “instrumento de paz”. Então ele pediu a graça de levar amor, perdão, harmonia, verdade, fé, esperança, luz e alegria a todos quantos pudesse. Depois veio a expressão de uma aspiração e de uma esperança para ele próprio. Ele esperava que se Deus quisesse, lhe fosse permitido ser capaz de encontrar alguns desses tesouros também. Isso ele tentaria realizar através do que chamou de dar de si mesmo. O que ele quis dizer com “é dando que se recebe” e como se propôs a conseguí-lo?
Ele achava melhor consolar e não ser consolado; compreender e não ser compreendido; perdoar e não ser perdoado.
Ao pensarmos em quanto valor dávamos, em outro tempo, à imaginação que tentava criar a realidade de dentro das garrafas, veremos que nada há de mal na imaginação construtiva.
A meditação é algo que pode ser desenvolvido. Ela não tem limites, é uma aventura individual que cada um realiza a sua maneira e o objetivo é o mesmo: melhorar nosso contato consciente com Deus, com sua graça, sabedoria e amor.
Já a oração, é a elevação do coração e da mente para Deus. O estilo comum de oração é uma petição a Deus. Mas seja ela qual for, faz-se necessário a extensão: “nos dê o conhecimento de sua vontade em relação a nós e forças para realizá-la”.
Nos momentos de fortes perturbações emocionais, manteremos nosso equilíbrio se nos lembrarmos de uma oração qualquer ou frase que, particularmente, nos tenha agradado e a repetirmos algumas vezes.
Devemos orar para que se faça a vontade de Deus, seja ela qual for, tanto para nós como para os outros. Devemos nos conscientizar de que Deus, efetivamente, “age de maneira misteriosa na realização de suas maravilhas” e ele conhece nossas necessidades e o momento certo de agir.
É importante sabermos que o amor de Deus vela sobre nós. Pensando assim, não mais nos sentiremos abandonados, amedrontados e sem objetivo na vida. Começamos a ver a verdade, a justiça e o amor com os valores reais e eternos e não mais unicamente com a nossa visão materialista dos fatos.

12º Passo

No 12º passo, o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave. Devemos nos doar aos que ainda sofrem, sem pedir nada em troca, pois aquilo que recebemos de graça, também o devemos dar de graça.
O despertar espiritual é diferente para cada pessoa, mas existem coisas em comum entre si. A pessoa se torna capaz de fazer, sentir e acreditar em coisas como antes não podia. É uma nova maneira de se e um novo estado de consciência. A vida não é mais um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Agora há um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se supunha totalmente incapaz.
Em Alcoólicos Anônimos, até o último dos recém-chegados descobre recompensas nunca sonhadas quando procura ajudar seu irmão alcoólico. Isto de fato, é dar, nada pedindo em troca. Não se espera de seu companheiro qualquer paga ou mesmo amor. E então, descobre que, pelo paradoxo divino contido nessa maneira de dar, já recebeu a sua própria recompensa, não importando se seu irmão foi ajudado ou não.
Contemplar os olhos dos homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida que passam da treva para a luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico marginalizado sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um amantíssimo em suas vidas são fatos que constituem a essência do bem que nos invade, quando levamos a mensagem de Alcoólicos Anônimos ao irmão sofredor.
Descobrimos que somos capazes de suportar nossos reveses e que os maiores desafios nos vêm dos pequenos e crônicos problemas da vida. Nossa resposta está em aumentar nosso desenvolvimento espiritual. E, ao crescermos espiritualmente, içamos sabendo que as velhas atitudes precisam sofrer drástica revisão. A satisfação de nossos instintos não pode ser o objeto exclusivo, a única finalidade da vida. Se pusermos os instintos em primeiro lugar, estaremos colocando a carroça diante dos bois e seremos arrastados para a desilusão. Ao contrário, se nos dispusermos a elevar ao primeiro plano o nosso crescimento espiritual, então, e apenas então, teremos chance.
Querendo ter e fazer as coisas à nossa maneira, fomos lançados em situações intratáveis com outras pessoas. Ou a dominávamos ou dependíamos delas, e isso invariavelmente as levava a nos repelir ou abandonar por completo. O alcoolismo para nós representou a solidão, apesar de que estivéramos cercados por pessoas que nos amavam. E quando a nossa prepotência havia espantando a todos e nosso isolamento se tornara total, fomos bancar os importantes em botequins de quinta categoria e, então sozinhos, perambular sem rumo pelas ruas. Para aqueles de nós que eram assim, Alcoólicos Anônimos teve um sentido muito especial. Através dele começamos aprendendo a manter voas relações com as pessoas que nos compreendem; não há mais necessidade de ficarmos sós.
Já não nos esforçamos mais para dominar ou controlar os que nos cercam com o sentido de tornarmos importantes. Não mais perseguimos a fama e a gloria a fim de sermos elogiados. Quando, devido aos bons serviços que prestamos a parentes, amigos, patrões e à comunidade, atraímos a simpatia geral e, às vezes, somos escolhidos para funções de maior responsabilidade e confiança, tentamos ser humilde nos agradecimentos e nos esforçamos mais ainda com o ânimo de amar e servir. A liderança autêntica é aquela que tem por base o exemplo construtivo e não as efêmeras exibições de poder e glória.

PASSO DOZE

Passo Doze. “tendo experimentado um despertar espiritual, como resultado destes passos, procuramos levar esta mensagem a outros adictos e praticar estes princípios em todas nossas atividades.” Existe um princípio espiritual de dar aquilo que nos foi dado em Alcoólicos Anônimos, para podermos mantê-lo. Ao ajudarmos os outros a se manterem limpos, desfrutamos o benefício da riqueza espiritual que encontramos. Temos de dar livremente e com gratidão o que nos foi dado livremente e com gratidão. As mudanças nos tornam mais capazes de viver segundo princípios espirituais, e de levar a nossa mensagem de recuperação e esperança, ao adicto que ainda sofre. Em Alcoólicos Anônimos um despertar espiritual, inclui o fim da solidão e um sentido de direção nas nossas vidas. Para mantermos a paz de espírito, nós nos esforçamos para viver o aqui e agora acompanhado por um crescente interesse pela recuperação dos outros. Partilhar esta nova dádiva que recebemos com os adictos que ainda sofrem, é o melhor seguro contra uma recaída na tortuosa existência do uso. É um privilégio responder a um apelo de ajuda de outro adicto em recuperação. Lembremos sempre, que já estivemos no abismo do desespero. Às vezes, o poder do exemplo é a única mensagem necessária. Evitemos dar conselhos, a mensagem simples e honesta de recuperação da adicção soa verdadeira. Mantendo-nos limpos, começamos a praticar princípios espirituais como esperança, rendição, aceitação, honestidade, mente aberta, boa vontade, fé, tolerância, paciência, humildade, amor incondicional, partilhar e interesse. Espiritualmente revigorados, estamos contentes por estarmos vivos. Sim, somos uma visão de esperança. Somos exemplos de que o programa funciona. A felicidade que temos em viver limpos é uma atração para o adicto que ainda sofre.

PASSO ONZE

Passo Onze. “Procuramos, através de prece e meditação, melhorar o nosso contato consciente com Deus, da maneira como nós O compreendemos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e o poder de realizar esta vontade.” Nosso estado espiritual é o alicerce de uma recuperação bem sucedida, que oferece crescimento ilimitado. Nossa crença determinará a maneira como oramos ou meditamos. Só precisamos da certeza de que temos um sistema de crença que funcione para nós. Usamos este passo para melhorar e manter o nosso estado espiritual, além de melhorar a capacidade de usar nosso Poder Superior como fonte de força em nossa vida. Assim, fica bem mais fácil dizermos “seja feita a Sua vontade, não a minha”. Deus não vai nos impor a sua bondade, mas poderemos recebê-la se pedirmos. A moralidade forçada não tem o poder que vem a nós quando escolhemos uma vida espiritual. A maioria de nós reza, quando está com dor. Aprendemos que, se rezarmos com regularidade, não sentiremos dor com tanta frequência ou com tanta intensidade. A meditação permite que nos desenvolvamos espiritualmente da nossa própria maneira, livres de vínculos religiosos ou filosóficos. Algumas coisas que não funcionavam para nós no passado, poderão funcionar hoje. Temos um novo olhar a cada dia, com a mente aberta. Sabemos que se rogarmos a vontade de Deus, receberemos o que for melhor para nós, independente do que pensamos. Orar é comunicar nossas preocupações ou agradecimentos a um Poder Superior. Para alguns, oração é pedir a ajuda de Deus; meditação é escutar a resposta de Deus. Rezamos para que Deus nos mostre a Sua vontade, e para que nos ajude a realizá-la. Se rogarmos a Deus que remova quaisquer influências que nos distraiam de nossa recuperação, a qualidade de nossas preces geralmente melhora e sentimos a diferença. Através da prece, buscamos o contato consciente com nosso Deus. Na meditação, alcançamos este contato. Nos momentos tranqüilos de meditação, com a mente sossegada e calma, a vontade de Deus pode tornar-se evidente para nós e nos trazer uma paz interior que nos põe em contato com o Deus dentro de nós, e nos leva ao equilíbrio emocional. A vontade de Deus para nós torna-se a nossa própria verdadeira vontade. Isto acontece de uma maneira intuitiva, que não pode ser adequadamente explicada em palavras. Começamos a sentir vontade de deixar que os outros sejam quem são sem precisarmos julgá-los. Perdemos a urgência de controlar as coisas. Sabemos que Deus nos deu tudo aquilo que precisamos para o nosso bem-estar espiritual, independente do que o dia nos trouxe. Respeitamos as crenças dos outros. Nós o encorajamos a procurar força e orientação de acordo com a sua crença. Com uma atitude de rendição e humildade, retomamos este passo, repetidamente, para recebermos a dádiva do conhecimento e da força do Deus da nossa compreensão.