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AS NOVAS VÍTIMAS DO ALCOOLISMO

AS NOVAS VÍTIMAS DO ALCOOLISMO

Laís Capistrano especial para o Diario urbana.pe@dabr.com.br
Recife, domingo, 26 de fevereiro de 2012
Mulheres e jovens. Esse é o novo perfil de dependentes que está procurando ajuda nos Alcoólicos Anônimos.

Um novo perfil de dependentes formado por mulheres e jovens passou a procurar ajuda nos grupos do Alcoólicos Anônimos (AA) no estado. Antes minoria, a presença feminina, em alguns grupos, já chega a ser igual a dos homens. Em geral, as mulheres começam a procurar tratamentos mais tardiamente, devido à não aceitação da doença. Paralelamente, são elas as presas mais fáceis em função de o corpo acumular 11% a menos de água, frente aos homens, o que favorece à dependência mais rápida do álcool. Outro fator preocupante, segundo médicos e especialistas, é a precocidade apresentada pelo novo público. A faixa etária que passou a pedir socorro no AA é de dependentes entre 18 e 25 anos, de ambos os sexos.
Segundo o médico endocrinologista e metabologista Edinário Lins, o sexo feminino dispõe de menos enzimas para oxigenar o etanol no organismo. “Cerca de 90% das bebidas alcoólicas ingeridas são metabolizadas pelo fígado. Quando há um consumo descontrolado da droga, alguns órgãos são prejudicados e até pode ocasionarar um câncer. Os tipos mais comumente associados ao alcoolismo são os de esôfago, estômago, pâncreas e fígado”.
A pré-disposição genética é um ponto importante a ser analisado, no entanto, outros fatores merecem igual atenção. “O contato com o álcool começa, para muitos dependentes, ainda na infância ou início da adolescência, o que proporciona o quadro vicioso tão cedo”, alerta o médico. Em dez anos, 130 novos grupos de apoio surgiram no estado. Hoje, são 450, a maioria na Região Metropolitana do Recife. Esse aumento significativo se dá pela procura crescente dos dois segmentos, segundo a coordenação da instituição em Pernambuco.
A dependência alcoólica ainda é vista sob uma ótica preconceituosa, o que dificulta o processo de recuperação dos dependentes. “Durante o tratamento, muitas vezes a chave para a recuperação do paciente está no apoio familiar. Em alguns casos, o trabalho realizado com família é mais intenso e duradouro do que com o próprio dependente”, explicou a psicóloga especialista em alcoolismo, Francinete Xavier Borba. Ela ressaltou que a displicência paterna, somada ao sentimento de autonomia da ala jovem, potencializam o surgimento da doença. E alcoolismo mata.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o consumo excessivo de álcool é o 3º maior responsável pelas mortes no mundo. Embora não tenha cura, é possível controlar a enfermidade. A psicóloga aponta caminhos. “Para as mulheres, a recuperação é ainda mais dolorosa. Ela necessita do apoio de toda a família”. Em muitos casos, o estímulo para prosseguir no tratamento vem de membros de grupos de apoio, segundo as mulheres.
“O primeiro passo é evitar o primeiro gole”, aconselha o coordenador do AA no estado, R.J. A maioria dos alcoólicos que procura apoio em grupos diz conseguir resultados mais satisfatórios no combate à doença.Ele ressaltou que a instituição registrou um aumento de quase 300% no número de ligações nos últimos anos. E qualquer pessoa pode ligar para o 3221-3592 ou mandar um e-mail para ctorecifeesl@areapeaa.org.br e saber onde procurar ajuda. O anonimato é garantido.

Relatos de dramas pessoais

“A bebida atrapalhava minha profissão”
“Comecei a perceber que não tinha mais controle sobre a bebida. Saía nos finais de semana com algumas amigas, acabava me envolvendo em confusões e depois não me lembrava de nada.Essa dependência estava me prejudicando no trabalho. Meus colegas e chefe sentiam cheiro de bebida. Me atrasava todas as segundas por causa da ressaca. Sabia que aquilo me fazia mal, só não conseguia dar uma basta. Aos 17 anos, tomei minha primeira dose por influência de umas amigas. Havia me mudado, era novata no prédio. Gradativamente fui ficando resistente ao álcool, queria sempre mais. Bati o carro inúmeras vezes, me envolvi em acidentes muito graves, fiquei hospitalizada, já fui presa por brigar com policiais. Uma vez, conversando com um amigo, falei da situação. O admirava porque ele tinha problemas de alcoolismo e há quase dez anos havia controlado a doença. Foi ele o divisor de águas na minha vida.Esse amigo me convidou para participar de uma reunião do AA no mesmo grupo em que ele frequentava. No encontro descobri que era uma alcoólica. Desde então, já se passaram dois meses e vou a todas as reuniões. Na minha casa, minha mãe sempre se desesperava. Meu pai faleceu de AVC, por causa da bebida, e ela tinha medo que eu seguisse o mesmo caminho. Reconquistei a confiança dela. Estou me recuperando e quero continuar me sentindo assim”.
Diário de: T. Mulher, 26 anos
“Achei que podia beber pois era jovem”
“Tenho 20 anos e sou um alcoólico. No começo pensei que era uma fase. Procurava justificativas para minhas atitudes jogando a culpa nos meus pais. Desandei nos estudos, meus amigos se afastaram de mim e tive muitos problemas em casa. Hoje sei que sou portador de uma doença. Estava com 13 anos quando comecei a beber em companhia de alguns amigos. Primeiro em algumas festas, depois todo mês e, aos 15 anos, saía das aulas todas às sextas-feiras para ir a barzinhos. Urinava na cama e tinha apagamentos. Minha mãe se desesperava, me aconselhava. Fui morar com meu pai porque ela já não me aguentava mais em casa. Fui detido oito vezes e atropelei uma pessoa, tudo sob o efeito da bebida. Minha família me levou a psiquiatras conceituados, cheguei a ser internado, mas ninguém conseguia diagnosticar a doença. Tomava vários remédios por dia e vivia como um zumbi. Em um momento como este, o que ele mais precisa é do apoio da família. Primeiro tentar conscientizar o jovem de que a bebida está fazendo mal. Depois, mostrá-lo um caminho para a recuperação. Quem conversou comigo sobre a importância de participar dos grupos de apoio foi uma tia, que também é alcoólica. No início não queria me enxergar como um. Há quase três anos, controlei a doença, retomei a faculdade, trabalho, faço exercícios, mergulho e pesco. Reconquistei a confiança da minha família”.
Diário de: V. Homem, 20 anos
“A bebida me deixava promíscua”
“Quando bebia, me transformava em uma pessoa completamente diferente. Fiz coisas que jamais faria sóbria, fiquei com rapazes e depois não me lembrava de nada. A bebida deixa as pessoas mais promíscuas. Tinha apagamentos e quando acordava minhas amigas me diziam o que eu tinha feito. Sempre achava que bebia porque era uma mulher extrovertida e com muitos amigos.Tive muita dificuldade para perceber meu descontrole. Já deixei meus filhos doentes em casa enquanto ia à praia com os amigos.Passávamos a noite inteira tomando cerveja e, de manhã, quando voltava para casa, me sentia muito mal por ter feito tudo aquilo. Minha mãe me comparava com meu pai e irmão, que também apresentavam o problema. O fato de ter pré-disposição genética para a doença me deixava irritada. O meu maior desafio para aceitar que estava doente, consequentemente procurar ajuda, foi o preconceito por ser mulher alcoólica aos 35 anos. Tive três filhos em relacionamentos que não deram certo. Só consegui refazer meus planos de vida quando comecei a frequentar as reuniões em grupo. Ainda preciso de psicanalistas e psiquiatras, mas já consigo visualizar um futuro melhor para meus filhos. Quero cuidar deles, fazer meu mestrado e procurar um emprego.Eu acho que se uma mulher está na dúvida se é alcoólica ou não, isto já é um motivo para procurar um grupo de apoio”.
Diário de: R. Mulher, 38 anos
“Uma mãe nunca abandona o seu filho”
“Eu não reconhecia mais meu filho, afirmou C.L., mãe de um jovem dependente alcoólico, de 20 anos. Aos 18 anos ele procurou ajuda no AA. Tinha começado a beber muito jovem, aos 12 anos, escondido, na casa de amigos. Aos 15 anos já estava dependente. Segundo a mãe do jovem, que hoje cursa administração, o filho sempre foi maravilhoso, mas se transformava em outra pessoa quando estava sob efeito do álcool. “Era difícil ver o meu menino fazendo tantas coisas horríveis. Ele chegou a bater com o carro e a ser detido no trânsito por embriaguez. A mãe conta que sentia-se culpada, até se informar sobre a doença. Ela começou a participar de grupos de apoio à familiares e o convenceu a iniciar um tratamento. Foi uma fase difícil, conversei muito com ele, o alertava sobre a educação que ele recebeu, o futuro que ele estaria colocando a perder se continuasse bebendo e todos os males que aquilo estava lhe causando. Alguns amigos podem se afastar, namorada ou até mesmo esposa, mas a mãe nunca abandona, diz. Para a maioria das famílias a percepção da doença é algo difícil. No entanto, sem o apoio necessário para a recuperação do doente, os tratamentos utilizados podem ser ineficazes. Na minha casa, todos nós evitamos ingerir bebida alcoólica. É um ato de respeito ao meu pai, avô do jovem, que sofre com o problema, mas também uma forma de fortalecê-lo em sua batalha diária”, relata,
Diário de uma mãe.
“O alcoolismo não escolhe classe social, cor, profissão, idade e nem sexo”
As pessoas não desconfiam que uma senhora da minha idade seja uma alcoólica. Durante muitos anos minha família sofreu, principalmente a minha filha. A sociedade entende por alcoólico um homem pobre e doente. Essa ideia é errada. O alcoolismo não escolhe classe social, cor, profissão, idade e nem sexo. É uma doença preconceituosa e por isso não conseguia me ver assim. Sempre fui recatada e tímida, não frequentava bares, só tomava vinho em casa em finais de semana com meu marido. Mas com o tempo, as taças foram aumentando.Certa vez, quando minha filha tinha 15 anos, explodi o fogão de casa, logo depois tive um apagamento. Só procurei ajuda quando vi que estava no meu limite.Um dia eu escutei os conselhos de um irmão, que também é alcoólico.Até então eu sempre me aborrecia com as palavras dele. Caí em mim, entrei no AA. Ainda sinto vontade de beber, mas minhas razões para parar são ainda maiores”. Diário de: M.E. Mulher, 54 anos.
Entrevista: Francinete Xavier Borba

Quais as razões que levam tantos jovens e mulheres ao alcoolismo?
Os jovens estão bebendo mais cedo. Eles se sentem mais poderosos e desinibidos. Em alguns casos falta limites por parte dos pais, muitos deles confundem liberdade com liberação e permitem que crianças experimentem bebidas alcoólicas. Consequentemente, essa parcela está exposta a ficar dependente mais cedo. Já entre as mulheres, existe a busca pela igualdade entre os sexos. Nesse contexto, elas compreendem que a liberdade passa pela bebida. O álcool pode ser porta de entrada para outras drogas.

A família pode colaborar?
De modo geral, as mulheres alcoólicas têm um perfil semelhante. Elas são muito inteligentes, sensíveis, e se sentem frustradas por não preencherem um determinado espaço vazio na vida. E por algum motivo elas supervalorizam a bebida. Quando se é jovem, esse fator emocional está fundido com a necessidade de se integrar aos grupos de amigos. Cabe à família da mulher, assim como a do jovem, ressaltar sua autoestima, demonstrar apoio, afeição e acolhimento.

A falta de informações sobre a doença pode ser a causa para o repúdio das pessoas?
Eu costumo dizer que o alcoolismo é a doença do preconceito, da negação e da hipocrisia. A sociedade repudia, no entanto partilha das mesmas práticas. A doença muda o comportamento das pessoas. Não é raro um dependente ser confundido com um mau caráter. Alcoolismo é uma doença que alcança todas as classes sociais e faixas etárias. Não existe cura, mas o portador pode ser tratado desde cedo.

ENCONTRO DE GRUPOS BH/MG – 05

ABORDAGEM – O apadrinhamento individual e coletivo.
Texto sugerido
A formação e consolidação da irmandade dos Alcoólicos Anônimos só foi possível porque um alcoólico percebeu que ao conversar com outro alcoólico e contar-lhe sua história de bebedor ele conseguia permanecer sóbrio por mais tempo.
Chamamos esse procedimento de abordagem e podemos praticá-lo a qualquer hora, em qualquer lugar e com qualquer pessoa, direta ou indiretamente. Direta, quando conversamos com um possível alcoólico e, baseados em nossa experiência, contamos-lhe o que éramos, o que aconteceu conosco, como somos agora e como o A.A. está nos ajudando a permanecer sóbrios. Indiretamente, através dos trabalhos do CTO, quando levamos a mensagem de A.A. para alcoólicos e não alcoólicos. Eis alguns destes trabalhos: palestras, divulgação na mídia, participação em Grupos de apoio das instituições, Reuniões de Informação ao público e outros.
Por isso precisamos estar atentos e preparados para atender o chamado, pois a qualquer momento poderá surgir a oportunidade de exercitarmos o 12º Passo, inclusive, ficarmos atentos para o novo perfil do alcoólico, hoje mais jovem e muitos com outros problemas além do álcool..
Vez ou outra, ouvimos companheiros(as) reclamarem que a freqüência em seus grupos está fraca. Alguns dizem que é porque os membros mais antigos não participam das reuniões, muitos chegam a dizer que estes companheiros(as) não tem gratidão pela Irmandade e que eles não precisam mais de A.A. Acreditamos que muitos destes companheiros(as) antigos, já deram suas contribuições para o A.A. ajudando a manter o Grupo funcionando para que nós chegássemos e hoje estão usufruindo da liberdade que a Irmandade lhes dá. Afastaram para dar oportunidade a outros membros que estão chegando, pois, a Irmandade sugere o rodízio, e sabemos que se não chegar novos membros o futuro do grupo estará comprometido. Por isso precisamos deixar que cada companheiro(a) faça sua recuperação da melhor forma que quiser, cabendo a nós trabalharmos com os novos membros, apadrinhando-os para manter o grupo em funcionamento.
Por outro lado precisamos sair do comodismo e fazermos o nosso trabalho – levando a mensagem ao alcoólico que ainda sofre, pois enquanto estamos preocupados com os companheiros que não vem mais ao Grupo, muitos alcoólicos estão morrendo diante de nossos olhos. Bem, até entendemos o porquê desse comodismo, pois, já há algum tempo que muitos companheiros(as) acreditam que a abordagem passou a ser responsabilidade única do CTO. Em parte, eles estão certos, pois, realmente o trabalho do CTO é levar a mensagem, porém, a um número maior de pessoas – alcoólicas e não alcoólicas – o que faz com que a abordagem seja coletiva. Portanto, a abordagem individual, continua sendo responsabilidade de cada membro em seu Grupo.
O procedimento da abordagem e apadrinhamento que é essencial à preservação da Irmandade, teve início quando Rolland abordou Ebby, Ebby abordou Bill W., Bill W. abordou Dr. Bob e meu padrinho me abordou. É na abordagem que geralmente acontece a identificação entre o membro de A.A. e o bebedor – e é quando começa o processo do apadrinhamento. Geralmente a pessoa que fez a abordagem é considerada como o primeiro padrinho e se coloca à disposição do seu afilhado até ele se senta seguro dentro do grupo. A partir daí, a responsabilidade passa a ser também do grupo que o apadrinha para o programa.
Aqui estão algumas formas de abordagens que os companheiros faziam há alguns anos atrás:
– Ficavam próximos aos bares a espera que algum bêbado saísse para aborda-lo;
– Quando viam um bêbado caído na rua, colocavam um cartão ou um pedaço de papel com o endereço do
grupo em seu bolso;
– Pela seriedade do assunto, alguns grupos criavam um Comitê de abordagem;

TÓPICOS PARA DISCUSSÃO
• Como abordar o dependente cruzado – álcool e droga?
• Quem é o responsável pelos pedidos de abordagens que chegam no grupo?
• Como fazer um apadrinhamento coletivo?
• Meu grupo está cumprindo com a sua responsabilidade com os alcoólicos de sua comunidade?

ENCONTRO DE GRUPOS BH/MG – 04

O acolhimento do Grupo aos jovens da era moderna/internet
Texto sugerido

Em 1934 Ebby transmitiu para Bill W. a primeira mensagem com noções de sobriedade, que posteriormente, veio a se transformar nesta importante organização com o nome de Alcoólicos Anônimos.
Naquela época os meios de comunicação eram escassos, tais como: radio amador; telégrafo; telefone, este restrito a poucas pessoas; cartas; etc. Mesmo assim, sem muitos recursos nesta área, Bill W. conseguiu chegar até Dr. Bob através de um contato telefônico, quando marcou um encontro e através de uma conversa entre eles, nasceu Alcoólicos Anônimos. A partir daí as coisas foram acontecendo e para fazer aquela mensagem salvadora alcançar outros alcoólicos em lugares distantes, Bill W. escreveu o “livro azul” que foi e é o texto básico da irmandade.
Naquele início, o papo entre as pessoas girava em torno dos aparelhos de comunicação da época, como: TELÉGRAFO, RÁDIO AMADOR, MEGAFONE, VITROLA, CARTA, etc. Outra linguagem da época falada nos grupos e que continua sendo usadas nos dias de hoje: Bebia tanto que várias vezes dormi no mato; Cheguei a ver bicho andando no teto de meu quarto; Perdi minha casa, perdi meu emprego e perdi minha família, etc. Tudo isso tem acontecido ao longo destes 78 anos nos grupos de A.A. e hoje vivemos uma outra realidade, pois o perfil do alcoólico mudou e vivemos uma situação bem diferente daqueles primeiros tempos. Nos dias de hoje a média de idade dos alcoólicos que procuram A.A. é de 30 anos. Portanto o cenário que nos apresenta é o seguinte: alcoólicos jovens e às vezes com bastante conhecimentos sobre A.A.; solteiros; muitos ainda não tiveram um emprego; e a maioria chega com dependência cruzada, geralmente vindo de casas de recuperação. Outra questão a considerar, é que estamos vivendo a era moderna – a era da internet, com um sistema de comunicação totalmente moderno. A linguagem de hoje não tem nada a ver com a linguagem daquele tempo (15, 20 anos atrás), por isso, o que se ouve atualmente, entre os jovens dentro e fora do grupo é o seguinte: Teclei com a gata pelo “FACE”, comprei um HIPHONE para minha filha; Você vendeu seu IPOD? Cara, vendi o liquidificador de minha mãe para comprar drogas; Estou devendo o “mala”, Então, hoje o papo é em torno do álcool e das drogas ilícitas, bem como dos novos aparelhos e sistema de comunicação: NOTEBOOK, IPED, IPOD, FACEBOOK, STAGRAN, ORKUT, TWITER, YOUTUBE, etc.
Para a maioria dos membros mais antigos de A.A. e principalmente, mais velhos de idade fica difícil comunicar com os jovens que estão chegando, pois a linguagem é totalmente diferente. E para este novato encontrar o bem estar citado na Primeira Tradição, ele precisa se identificar com o Grupo e vice-versa. Então, o que fazer? Devemos lembrar que, mesmo que ele tenha conhecimento teórico do programa de recuperação, ele ainda não tem a experiência do convívio constante com os outros membros do grupo para se recuperar. Dessa forma cabe a nós, que já estamos em A.A., acolher estes jovens mostrando-lhes o que a irmandade tem a oferecer para ajuda-lo a se recuperar do alcoolismo e, consequentemente, das outras drogas, se for o caso e ele quiser.

TOPICOS PARA DISCUSSÃO
• Que tipo de tratamento o grupo deve dar a um alcoólico jovem que chega com algum conhecimento sobre A.A. e já querendo mudar o grupo?;
• O que o grupo tradicional, que funciona de acordo com os costumes, precisa fazer para se relacionar com estes novos alcoólicos que estão chegando já com conhecimentos sobre A.A.?
• Qual a importância dos grupos online no funcionamento de A.A. nos dias de hoje?;
• Um membro de A.A. colocou as fotos da Convenção de A.A. no facebook – ele agiu certo ou errado e por quê?

ENCONTRO DE GRUPOS BH/MG – 03

A identificação do grupo com o novo perfil do alcoólico
Texto Sugerido

A identificação de um alcoólico com outro se dá quando eles tem a oportunidade de trocar suas experiências do sofrimento vivido durante o alcoolismo. Por isso, uma frase muito falada em A.A.: “só um alcoólico consegue entrar na caverna escura de outro alcoólico e mostrar para ele a natureza exata da doença do alcoolismo e possivelmente, leva-lo a um grupo de A.A.”.
Tudo começa com uma boa abordagem, o alcoólico precisa confiar na pessoa que está conversando com ele e, portanto, demonstrar-lhe que não somos melhores que ele. Foi assim que aconteceu há 78 anos atrás, quando Bill W. levou a mensagem para Dr. Bob. Durante a conversa, quando Bill W. começa a falar sobre sua vida e o que havia acontecido com ele, em determinado momento Dr. Bob fala a famosa frase histórica, “Eu sou assim”. Na opinião de muitos companheiros, naquele momento nascia Alcoólicos Anônimos, pois um alcoólico havia se identificado com outro alcoólico através da mensagem e do sofrimento.
Naquele tempo os grupos eram formados apenas com os chamados “alcoólicos puros”, porém, com o crescimento da Irmandade os grupos perceberam que precisavam fazer alguma coisa, pois, os alcoólicos que chegavam e declaravam ter outros problemas além do álcool eram rejeitados. Por este motivo e vários outros, foram forjadas as Tradições, que vieram para orientar-nos de como proceder diante das mais diversas situações que poderiam surgir. Por isso é importante o conhecimento e prática das Tradições para não continuarmos a cometer as mesmas injustiças com o doente alcoólico que nos procura – devemos estar sempre atentos à Terceira Tradição.
O Grupo se prepara para receber o novo alcoólico que chega – os membros do grupo procuram trata-lo da melhor maneira para que ele sinta-se bem e tenha vontade de voltar. Ninguém deve questioná-lo sobre a sua vida, pois de acordo com a Terceira Tradição o que interessa para o grupo, é o seu desejo de abandonar a bebida.
Por tudo isso, é importante que os membros do grupo compreendam a mudança que houve ao longo do tempo no perfil do alcoólico – a doença é a mesma, porém, o modo de vida, a idade, a cultura e o nível de conhecimento do alcoólico mudou. Antes o alcoólico era aquele homem ou mulher com idade média de 40 anos, já casado e com filhos. A mulher alcoólica geralmente, bebia escondido e só em casa. Hoje é o contrário, a média de idade dos alcoólicos abaixou para 25 anos e a maioria com a vida ainda em construção e grande parte deles já envolvidos com outras drogas, inclusive as mulheres que hoje bebem nos bares. É importante observar que houve uma inversão, pois, há aproximadamente uns 20 para trás, em cada 100 alcoólicos, possivelmente, 80% tinham acima dos 40 anos e hoje em 100 alcoólicos, temos 80% abaixo dos 40 anos. Hoje em dia, é normal encontrar jovens com menos de 20 anos já com a vida destruídas pela bebida e drogas.
Daí a importância do grupo em adequar-se aos novos tempos, procurando compreender melhor as Tradições e praticá-las, sem, no entanto, perder o companheirismo que é a essência de A.A.

TÓPICOS PARA DISCUSSÃO:
• O novo membro vai a cabeceira de mesa e fala de seu alcoolismo e também de sua dificuldade com as drogas, como o grupo deve proceder?
• O grupo fere alguma Tradição ao rejeitar um alcoólico com dependência cruzada?
• Qual a importância da recepção ao alcoólico que chega ao grupo pedindo ajuda? Seria interessante que um membro do grupo conversasse com ele antes de ele entrar para a reunião?
• Como proceder com o alcoólico que chega no grupo demonstrando grande conhecimento em A.A.?
– Devemos orientá-lo sobre o funcionamento da Irmandade, quanto a troca de experiências; ou
– Aproveitar os seus conhecimentos e colocá-lo no serviço para nos ajudar?

ENCONTRO DE GRUPOS BH/MG – 02

Alcoólicos Anônimos e os Novos Tempos

Bom dia companheiros e companheiras, meu nome é Ronaldo e o que me qualifica estar aqui promovendo a abertura deste encontro é o meu passado.
A esperança e a confiança que tenho no Poder Superior, me fazem crer que esse nosso esforço e alegria de estarmos aqui, irão refletir na sublime missão herdada por nós, que é “salvar vidas”.

Neste encontro iremos discutir sobre as pessoas que tem chegado em nossos Grupos com outros tipos de dependências – além do álcool. Como devemos recebê-los?, Onde podemos estar errando? Estamos preparados para emitir uma sugestão correta? Bem, sobre estes e outros questionamentos iremos opinar nos Grupos de Trabalho – GTs.

Com o passar dos anos a chegada do “alcoólatra puro”, (aquele só do álcool) nos Grupos de A.A. é cada vez mais raro. Temos percebido que a chegada dos adictos (usuários de outras Drogas) tem causado um grande frisson, (um reboliço) nos nossos grupos, pois, vindo de clínicas de recuperação e comunidades terapêuticas eles estão chegando cada vez mais e com muito conhecimento sobre nossa programação – os Doze Passos. Na maioria das vezes eles têm encontrado um grupo pautado apenas nas experiências dos membros, o “cachaçal”. Sendo esta a principal atração e didática de nossas reuniões, claro que tem a sua importância, pois é quando acontece a identificação e muitos de nós nos recuperamos e alcançamos nossas vitórias nesta dinâmica. Através da troca de experiências com os companheiros conseguimos evitar o primeiro gole, porém os tempos mudaram e as necessidades são outras. Hoje existe muita informação, estamos na era da tecnologia, da globalização e achamos que precisamos nos globalizar também.

Podemos compreender essa mudança analisando o perfil do alcoólico que chega ao grupo – antes chegava aquele homem ou mulher, com família constituída, idade acima dos 40 anos e as mulheres bebiam geralmente escondido em casa, O que vemos hoje? Jovens homens e mulheres com media de 25 anos de idade, ainda com a vida profissional e familiar indefinida e em sua esmagadora maioria com outras dependências além do álcool. Portanto, no que se refere à recuperação, devemos ter uma mesma proposta e o mesmo acolhimento a todos que procuram os nossos grupos.

Digo isso por já ter visto que a falta de conhecimento sobre a dependência cruzada, está deixando alguns companheiros assustados levando-os a tomar atitudes que vão contra nossos princípios, ou seja, não acolher o dependente cruzado. Acreditamos, que o grupo deveria recebê-lo e, se for o caso, sugerir outros locais onde ele poderá buscar ajuda para as outras dependências também, tais como: Narcóticos Anônimos, Fumantes Anônimos, Pastoral da Sobriedade, SOS Drogas, Amor exigente e outros.

Temos na manga um curinga que pode ser um remédio para todos os males e hoje, mais do que nunca, temos que tirá-lo do bolso do colete e apresentá-lo no grupo para o recém chegado e para o membro de mais “24 horas”. Que curinga é este? Os DOZE PASSOS DE AA – um programa de vida que, se colocado em prática, reabilita o INDIVÍDUO, independente da droga de sua preferência. Vale lembrar que de acordo com a Quinta Tradição, o Grupo de A.A. tem um único propósito: transmitir a mensagem de A.A. ao alcoólico que ainda sofre. Entretanto, Os Doze Passos de A.A. vem sendo usado cada vez mais na reabilitação de pessoas com vários tipos de dependências.

Ao deparar com jovens com tão pouca idade e com homens e mulheres maduros, com um histórico sofrido pelo uso das outras drogas, vemos como a química é devastadora. Tanto que já observamos que os chamados, cervejeiros, também tem sofrido as conseqüências desta química, pois a fermentação que levava 40 dias, hoje não passa de 15 minutos, com a utilização de produtos químicos na produção. Sendo assim temos certeza que estamos no mesmo barco e pretendemos remar juntos rumo a nossa LIBERDADE. Sobre a Liberdade me permitam dizer uma afirmação de BILL W.:
“A LIBERDADE é a qualidade mais importante de nós AAs. Ninguém pode nos obrigar a pagar nada, da mesma forma que ninguém pode nos obrigar a acreditar em nada, também, ninguém tem o direito de tirar de ninguém, O DIREITO DE SER MEMBRO DE A.A.”

Concluindo, acho que não devo mais me prolongar, pois, está bem claro qual nosso propósito, falar todos e ouvir todos, nossa bandeira aqui é a colocação da primeira pedra, a pedra angular para uma nova era em nossa irmandade, onde possa ser acolhido meu filho, meu neto… Com informações corretas sem perder o companheirismo e o calor humano que é a essência de AA.

Obrigado

Membro de A.A.
15/12/2013

ENCONTRO DE GRUPOS BH/MG – 01

“Nossa irmandade deveria incluir todos os que sofrem do alcoolismo. Não podemos, portanto, recusar quem quer que deseje se recuperar. A condição para tornar-se membro não deve nunca depender de dinheiro ou formalidades. Dois ou três alcoólicos quaisquer reunidos em busca de sobriedade podem se autodenominar um grupo de A.A., desde que, como grupo, não tenha qualquer outra filiação”. (Terceira Tradição).

“Nossa irmandade tem um único propósito, o de transmitir a mensagem de A.A. ao alcoólico que ainda sofre”. (Quinta Tradição)

Então, “o que podemos fazer acerca do problema das drogas – dentro e fora de nossa irmandade?”
Esta pergunta pode ser prontamente explicada para a satisfação de todos, se dermos uma olhada nas Tradições de A.A. que se aplicam ao fato em nossa longa experiência com grupos de propósitos especiais, nos quais os AAs são ativos hoje – tanto dentro como fora de nossa irmandade.
Há certas coisas que A.A. não pode fazer por ninguém, independente de quais sejam nossos desejos e sentimentos individuais, ou simpatia.
Nossa primeira responsabilidade como Irmandade é assegurar nossa própria sobrevivência. Portanto, temos que evitar confusões e as atividades de propósitos múltiplos. Um Grupo de A.A., como tal, não pode assumir todos os problemas de seus membros, muito menos os problemas de mundo inteiro.
Sobriedade – libertação do álcool – através do aprendizado dos Doze Passos é o único propósito de um Grupo de A.A. (folheto: Outros problemas além do álcool)

Conforme Bill W. deixa registrado na “introdução” dos Doze Conceitos, que: Cada nova geração de servidores mundiais de A.A., com toda razão, estará ansiosa para introduzir melhoramentos operacionais. Falhas imprevistas na estrutura atual aparecerão, sem dúvida, mais tarde. “Novas necessidades de serviço e problemas surgirão, fazendo necessariamente mudanças na estrutura”. Portanto, de acordo com o texto, atualmente estamos sentindo a necessidade de discutir a convivência entre os alcoólicos que estão em A.A. apenas com o problema do álcool, com os alcoólicos que estão chegando com dependência cruzada, ou seja, álcool e outras drogas.

13º CONGRESSO BRASILEIRO DE ALCOOLISMO

13º CONGRESSO BRASILEIRO DE ALCOOLISMO
Rio de Janeiro — 12/15 de agosto de 1999
Conferência de Abertura do Congresso

Nota: O Dr. George Vaillant, psiquiatra e psicanalista, trabalha em Harvard, é mundialmente conhecido por seu livro “The Natural History of Alcoholism”, recentemente revisto e traduzido para o português, e é há décadas respeitado como uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: CULTO OU PÍLULA MÁGICA?
Dr. George E. Vaillant, M.D.
Conferência ABEAD, 8/12/99

Bom dia. Lamento profundamente não saber falar seu idioma.
Hoje em dia, se preciso justificar minha convicção de que a instituição dos Alcoólicos Anônimos está mais para penicilina do que para vodu, devo respeitar as regras da medicina experimental. Se AA é semelhante a um antibiótico, eu devo demonstrar seu mecanismo de ação, devo oferecer a prova empírica de que funciona melhor do que um placebo e devo discutir seriamente os seus efeitos colaterais.
Deixem-me começar meu argumento de forma organizada. Primeiro, quais são os mecanismos mais comuns através dos quais as pessoas se recuperam de uma dependência? Certamente não através da psicoterapia. Os psicanalistas, com toda a sua compreensão e insights a respeito de necessidades orais, morrem tanto quanto o resto de nós de câncer pulmonar e doenças do coração provocadas pelo cigarro. Em minha pesquisa realizada com homens de Harvard, 46 alcoólatras receberam um total de 5000 horas de psicoterapia, uma média de 200 horas para cada homem. Um único homem recuperou-se durante a psicoterapia.
A desintoxicação tampouco é eficaz. Como disse Mark Twain, “eu achei deixar de fumar tão fácil que deixei vinte vezes”. Estudos a longo prazo demonstram que a espera pelo tratamento (placebo) é quase tão eficaz quanto a desintoxicação.
Meio século de treinamento em aversão induzida através de emetina também não mudou a história natural do alcoolismo.
E a recuperação do abuso do álcool também não depende de força de vontade. Em quase nenhum estudo relacionado à recuperação do alcoolismo a força de vontade, constatada no momento da admissão, foi um prognóstico de recuperação.
O poder que a dependência química exerce sobre os seres humanos não reside em nosso córtex. O poder da dependência em nossas mentes mora no que foi chamado de nosso cérebro de réptil. O poder localiza-se no campo das transformações celulares em células do meio do cérebro – o nucleus accumbens e o tegmentum superior. Estas transformações estão além do alcance da força de vontade, além do alcance do condicionamento e além do alcance do insight psicanalítico.
A natureza do poder que a dependência exerce sobre o cérebro humano são expressados pelo provérbio japonês, “Primeiro o homem toma uma bebida, então a bebida toma uma bebida, então a bebida toma o homem”. Não há atualmente nenhuma droga — exceto os opiáceos — que, em estudos a longo prazo, obtenham êxito no tratamento do alcoolismo. Porque, depois de algum tempo, nosso cérebro de réptil simplesmente nos convence a não tomar um remédio que estraga a nossa bebida. O mostra que o dissulfiram não é melhor do que um placebo. Não existem estudos a longo prazo sobre as novas pílulas mágicas como naltrexona e acamprosato. Desconfio que por bons motivos.
Por outro lado, há quatro fatores [3 grupos de slides] habitualmente presentes na recuperação da maioria das dependências, incluindo o fumo, o comer compulsivo e o jogo. Estes quatro fatores são supervisão compulsória, dependência de um comportamento substitutivo, novas relações de amor, e um aumento da espiritualidade ou da filiação a grupos de ajuda. A razão pela qual estes quatro fatores são mais eficazes do que a desintoxicação ou alguns meses de aconselhamento é que os quatro fatores são importantes, não para a desintoxicação, mas para EVITAR RECAÍDAS. Médicos e hospitais não curam os diabéticos, só a restrição dietética auto-imposta e a auto-aplicação de insulina podem controlar o diabetes. O ilustra que os quatro fatores esboçados são importantes para a prevenção da recaída numa amostra de comunidade composta de alcoólatras, dependentes de heroína e alcoólatras tratados. Observem que os números em cada coluna somam mais que 100%. A recuperação do alcoolismo não é espontânea.
Primeiro, a supervisão compulsória é necessária porque a força de vontade não funciona. Jacarés não atendem quando são chamados. Uma consciência externa é melhor alcançada se — sempre que aparece o impulso de usar — o dependente passar por uma experiência aversiva consistente e imediata (por exemplo, testes com drogas aleatórias) ou se lembrar de conseqüências médicas desagradáveis associada à bebida (por exemplo, uma úlcera dolorosa).
Segundo, é importante achar um comportamento que vá competir com a dependência. Tal comportamento competitivo — por exemplo fumar muito, dançar samba compulsivamente — substitui o vazio comportamental produzido por não consumir heroína ou álcool e preenche o vazio produzido pela ingestão de um medicamento como Antabuse, que efetivamente evidencia uma supervisão compulsória. O que não se pode fazer é simplesmente deixar o cérebro de réptil com sede.
Terceiro, novas relações de amor são importantes para a recuperação. Pareceu ser importante para ex-dependentes unir-se a pessoas a quem eles não tinham magoado no passado e a quem não são profundamente devedores.
Quarto, parece importante a filiação a grupos de ajuda altruísticos, por exemplo uma religião fundamentalista ou, quando em recuperação, tornar-se um conselheiro em alcoolismo. Razões hipotéticas para isto incluem que tal envolvimento espiritual produziu uma diminuição da culpa alcoólica, um aumento em esperança e moral, e talvez um substituto não farmacológico para o prazer “oceânico” produzido pela dependência . Em meu estudo, a importância da espiritualidade era relativamente baixa entre os dependentes de heroína, porque o estudo foi realizado antes que Narcóticos Anônimos se firmasse. Entre os alcoólatras tratados a porcentagem envolvida num programa espiritual era incomumente alta, porque durante oito anos estes 100 alcoólatras tiveram acesso a aconselhamento gratuito e a grupos de pacientes ambulatórias. O enfoque desta terapia era encaminhar os alcoólatras a AA. Mais tarde, eu tentarei mostrar porque AA consegue alcançar o cérebro de réptil e o bom senso não consegue.
Casualmente, AA combina estes quatro ingredientes clínicos para a prevenção da recaída, pois AA, assim como os impostos e auto-aplicação de insulina e ao contrário da desintoxicação e do tratamento clínico, pode durar para sempre. Primeiro, uma exigência básica de AA é que um membro tem que voltar e voltar às reuniões. Eles precisam escolher um padrinho para telefonar e ver com freqüência. E eles têm que “trabalhar os passos”. Cada uma destas atividades fornece uma consciência externa e uma lembrança diária de que o álcool é inimigo — e não amigo. AA também compreende que a supervisão compulsória funciona melhor se é escolhida. Nós sofremos com prazer debaixo das regras rígidas do nosso professor de dança, mas sonegamos impostos com os quais não concordamos. A disciplina de AA é sempre voluntária. Como Bill W., o fundador de AA, dizia: “Grande sofrimento e grande amor são os nossos únicos disciplinadores”.
Behavioristas cognitivos como William Miller e Allan Marlatt deram grandes passos na direção de nossa compreensão de uma prevenção eficaz da recaída. Seus princípios de prevenção da recaída, como aqueles que esbocei, usam diferentes expressões: “Evite o primeiro gole.”; “Substitua os velhos amigos com quem bebia por novos amigos sóbrios.”; “Regozije-se com o gerenciamento de sua vida.”; “Lembre-se de sua última bebedeira.” Cartazes de AA, como os mantras dos behavioristas, afirmam “Um dia de cada vez”, e “Vá com calma”.
Segundo, AA entende o que todos os psicólogos behavioristas sabem e o que muitos médicos e pais esquecem: maus hábitos precisam de substitutos. Apenas castigar não muda hábitos profundamente enraizados. Assim, AA oferece uma agradável agenda de atividades sociais e de serviço na presença de antigos bebedores encorajadores, sobretudo em épocas de alto risco, como dias de festas. AA oferece uma atenção positiva incondicional, fichas de aniversário de sobriedade, café e abraços ilimitados. Em resumo, AA oferece uma fonte substituta de gratificação da qual o indivíduo pode se tornar dependente.
Terceiro, companheirismo e amor são tão importantes para a recuperação quanto espiritualidade. AA chama tal companheirismo “a linguagem do coração”. Jung também sugeriu que seu édito “Spiritus contra spiritum” não era mais eficaz para a cura da dependência do que um segundo ingrediente – a “parede protetora da comunidade humana”. Atualmente, não podemos ter certeza de que a importância do Segundo Passo de AA —”Viemos acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia nos devolver à sanidade” — é porque ele abre o cérebro de réptil do alcoólatra para a espiritualidade ou o coração do alcoólatra para uma comunidade que perdoa. Eu acreditaria que o poder curativo do Poder Superior do indivíduo e o do seu grupo de AA casa da pessoa se superpõem. Ambos os fatores, três e quatro, parecem igualmente importantes.
As reuniões de AA estão cheias de antigos companheiros de bebida agora sóbrios com os quais se pode fazer amizade, mas a quem não se deve dinheiro. Estes são amigos de farra a quem você não nocauteou na semana passada. Do mesmo modo, um padrinho de AA, tal como um novo cônjuge, pode evitar uma recaída melhor do que um familiar com uma longa história de sofrimento, a quem você torturou durante anos. Não importa o quanto bem intencionado esteja, o cônjuge do alcoólatra inevitavelmente reacende velhas culpas e velhos ressentimentos — condicionamentos detonadores da recaída no uso do álcool.
Amor, sexo e apego, bem como a experiência religiosa, são mediados pelo lobo temporal, através do lobo olfativo. Com certeza, no escuro todos os gatos são pardos, mas é mais divertido se a gatinha sexual usar perfume. O lobo temporal, ao contrário da forca de vontade, pode afetar nosso cérebro de réptil.
Quarto. Em 1961, Carl Jung escreveu a Bill W., “A ânsia pelo álcool era o equivalente, em nível mais baixo, à sede espiritual de nosso ser pela inteireza, expressada no idioma medieval. A união com Deus”. Esta associação se repete no valioso livro de Jerome Frank, Persuasão e Cura. O modelo descrito por Frank para uma psicoterapia eficaz (e cura espiritual) assemelha-se bastante a AA. Tal modelo envolve o compartilhamento do sofrimento com um curandeiro sancionado que está disposto a falar sobre o problema do paciente de uma forma simbólica. O curandeiro sancionado deveria ter status (vários anos de abstinência), estar equipado com um inequívoco modelo conceitual do problema (o Livro Azul), e deveria criar no paciente uma expectativa de cura (reuniões de AA são os únicos lugares no mundo povoados em grande parte por alcoólatras com sobriedade estável). Finalmente, Frank nos lembra que, em Lourdes, os peregrinos rezaram um pelo outro, não por si mesmos (Décimo Segundo Passo).
Na dependência, a espiritualidade é particularmente importante porque é uma maneira de alcançar o cérebro de réptil humano. Se os jacarés estão no controle, como podemos fazer com que eles se comportem? Certamente, como muitos médicos rurais descobriram nos anos 30, sempre se pode curar alcoolismo com morfina. E no século XIX, quando fumar ópio era um luxo dos ricos, Karl Marx afirmou, “a religião é o ópio do povo”. Os opiáceos produzem a mesma sensação de paz oceânica que o encontro profundamente espiritual no êxtase religioso. A famosa declaração de Karl Marx pode mascarar um princípio terapêutico extremamente importante. A religião pode realmente fornecer um alívio que o uso da droga apenas promete. Deixem-me explicar o que eu acredito que aconteça.
Primeiro, os alcoólatras e as vítimas de outras dependências aparentemente incuráveis sentem-se derrotados, maus e impotentes. Eles invariavelmente sofrem de baixa auto-estima. Se eles quiserem se recuperar, devem ser descobertas novas e poderosas fontes de auto-estima e esperança. A espiritualidade oferece um novo alento, tanto para a esperança quanto para um maior cuidado consigo mesmo. Os alcoólatras, ao contrário da maioria dos pecadores, não são apenas desagradáveis. Freqüentemente, os alcoólatras infligiram enorme dor e prejuízo aos outros. Assim, quando sóbrio, o alcoólatra pode sentir uma culpa quase insuperável. Embora seja um tranqüilizante pobre e um antidepressivo desprezível, o álcool é talvez o solvente mais poderoso que a farmacologia moderna possui para uma consciência culpada. Em casos deste tipo, a absolvição vinda de um “poder superior a nós mesmos” se torna uma parte importante do processo curativo.
O que é a relação científica entre a religião e os receptores de opiáceo do cérebro de réptil? No calor da batalha, há dois fenômenos relacionados. Primeiro, não há ateus em trincheiras; e segundo, os gravemente feridos freqüentemente não sentem dor. Em crises graves, as epifanias espirituais e o lançamento espontâneo de endorfinas do cérebro entram de mãos dadas para propiciar o alívio da dor. Resumindo, Deus entra pela ferida. Certamente, “chegar ao fundo” é um modo de sentir-se numa trincheira em vida civil.
Mas como nós liberamos as endorfinas reptílicas próprias do cérebro na vida cotidiana? Um cientista pode produzir prazer no cérebro do jacaré inserindo dopamina ou morfina no hipotálamo. Ou, nós podemos afetar o cérebro olfativo, o lobo temporal mamífero que a evolução criou para reger o cérebro de réptil. O lobo temporal é a sede do olfato, e da emoção e — segundo estudos de epilepsia — do ideal religioso.
Em outras palavras, já que é improvável que nossos antepassados mamíferos se tenham drogado, na evolução o circuito límbico da dependência foi originalmente transmitido para facilitar o instinto gregário dos mamíferos.

PROVAS DE QUE AA FUNCIONA

Quando perguntaram ao Dr. Jack Norris, um antigo amigo e custódio não alcoólico de Alcoólicos Anônimos, como AA funciona, sua resposta foi “funciona muito bem, obrigado”. Entretanto, é difícil conseguir-se uma informação empírica sobre a eficácia de Alcoólicos Anônimos. Uma razão é que, no processo de seu longo e crônico distúrbio, os alcoólatras encontram muitos tipos diferentes de intervenções, muitas vezes simultâneas. Ao contrário do que acontece com a maioria dos antibióticos, não há como se poder fazer um estudo controlado. Segundo, ao contrário de programas clínicos, AA está mais interessado nos efeitos do programa sobre a recuperação daquele que pratica os Doze Passos, do que propriamente naquele que foi alvo do trabalho de Décimo-Segundo Passo. Terceiro, a razão para a ausência de dados é que, devido a diferenças ideológicas e rivalidade, é difícil que os clínicos avaliem AA sem idéias preconcebidas.
Mais que uma década atrás, Emrick reuniu 56 pesquisas sobre AA, 15 das quais consideraram AA superior a tratamentos alternativos. Entretanto, nenhum desses 15 relatórios de pesquisa deixava de apresentar falhas graves.
Fiquei impressionado com vários estudos recentes, que oferecem provas experimentais para a eficácia de AA. O primeiro estudo ofereceu provas de que o aumento do número de membros de AA pode ser responsável pelo decréscimo da morbidade por cirrose. Os investigadores observaram que não havia qualquer relação entre o aumento da utilização de tratamento profissional e a queda da taxa de cirrose. O aumento do número de membros de AA, entretanto, estava significativamente associado à diminuição de cirrose.
Um segundo estudo controlado veio de William Miller: um acompanhamento, de quatro a oito anos, de clientes treinados para voltar a beber socialmente. O propósito dos grupos de tratamento de Miller era a volta ao beber socialmente, não a abstinência, e certamente não envolver seus pacientes com AA. Ainda assim, a maioria dos bons resultados a longo prazo de Miller foi com os abstêmios, não com bebedores sociais. Um exame de seus dados revelou que 53% dos 13 clientes que fizeram mais de 100 visitas a AA eram eventualmente abstêmios, em contraste com apenas 20% dos 81 clientes que assistiram a menos de 100 reuniões, uma diferença estatisticamente importante.
Terceiro, eu realizei estudos de 30 anos de acompanhamento de alcoólatras em duas amostras de comunidades. Em ambas as comunidades, 40% dos alcoólatras eventualmente abstinentes eram significativamente envolvidos em AA (Vaillant, 1995). Quarto, num estudo de 30 anos de 100 alcoólatras tratados, a freqüência de AA levou à abstinência estável aqueles mesmos pacientes que, com base em suas características na admissão, teriam recebido um prognóstico de não-recuperação. Ao fim de 8 a 12 anos de acompanhamento, 57% dos que foram a AA 100 vezes ou mais chegaram a uma abstinência estável, em contraste com 11% dos homens e mulheres que não o fizeram.
Além disto, há provas indiretas que apoiam a eficácia de AA. A organização continua a crescer em todo o mundo. Há duas vezes mais membros vivendo fora dos Estados Unidos do que no país. Há três vezes mais grupos de AA per capita na Costa Rica e em El Salvador do que nos Estados Unidos. Durante os últimos 15 anos AA cresceu exponencialmente na antiga União Soviética e na Europa Oriental.
Durante os últimos 20 anos, tem havido provas crescentes de que AA é aplicável a populações muito diversas. A literatura não tem identificado nítidas diferenças de personalidade entre alcoólatras que fazem ou não uso de AA. Nem raça ou educação, nem gênero ou classe social, nem extroversão ou saúde mental distinguem os alcoólatras que freqüentam AA dos que não o fazem. A única variável consistente que distingue os membros alcoólicos de AA dos alcoólatras não AA é que os membros de AA tendem a ter maior gravidade de sintomatologia alcoólica.

EFEITOS COLATERAIS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

Desde seu início, AA produziu seus detratores. A retórica e a linguagem carregada de emoção idioma de AA destinam-se a atingir o cérebro de réptil através do sistema límbico. Isto assustou jornalistas e cientistas sociais que compreensivelmente temem os demagogias e cultos. Qualquer conjunto rígido de convicções que são rigorosa e apaixonadamente seguidas, mas não cientificamente provadas, sejam elas a vitamina C, o cristianismo fundamentalista, ou a corrida diária, tende a irritar a comunidade científica.
Em 1998, o mesmo medo latente foi posto na capa do US World News Report: “O que AA não vai lhe dizer” . O assunto da matéria de capa era o único dogma de AA: que não é seguro para os alcoólatras voltar a beber controladamente. A literatura de acompanhamento a longo prazo concorda unanimemente que a posição de AA é muito mais prudente, mas isso não impede que a comunidade médica odeie os puritanos.
Mas também é a dependência de Alcoólicos Anônimos de “Deus” e de “espiritualidade” o que faz com que muitos observadores cuidadosos considerem que AA será perigoso. Como pode a fé em Deus curar os doentes?
A bem da verdade, AA nada tem a ver com religião. O prefácio do Livro Azul afirma: “Alcoólicos Anônimos não é uma organização religiosa” (Prefácio, Segunda Edição, página XX, 1955). As bases espirituais de AA desenvolveram-se a partir da experiência intelectual de três homens, William James com sua “Variedades da Experiência Religiosa”, Carl Jung com sua advertência “Spiritus contra spiritum” e o co-fundador de AA, Dr. Bob, com seu permanente interesse por religião comparativa. Profundamente desconfiado de todas as religiões organizadas, cada um destes homens era um dedicado estudioso do conceito de cura presente em todas as religiões. Em falta de um termo melhor, deixem-me chamar esta propriedade comum de “espiritualidade”. As religiões, como as nações, opõem-se a que você tenha dupla cidadania. AA, como as Nações Unidas, espera que cada membro pertença também a outra organização.
A desconfiança em relação à religião é compartilhada por muitos – sobretudo profissionais de Ciências Sociais – que acreditam, como Sigmund Freud (Futuro de uma Ilusão, edição standard, volume 21), “Nós podemos agora argumentar que chegou provavelmente a hora de substituir os efeitos da repressão (e da religião) pelos resultados da operação racional do intelecto”. Num clima de hipocrisia vitoriana e autoritarismo moral mal consolidado, a ênfase nos aspectos neuróticos da religião foi indubitavelmente valiosa. Mas um século depois, quando o pêndulo oscilou na direção oposta para niilismo moral mal consolidado, podemos perfeitamente nos tornar mais tolerantes para com a espiritualidade.
Desde o início, AA não fez nenhuma distinção clara entre Deus e “a irmandade de AA”. Houve uma permissão tácita, se não explícita, para substituir o conceito de Deus pelo que o Jung chamou “a parede protetora da comunidade humana” – por definição, um poder superior a nós mesmos.
Realmente, o princípio de substituir drogas por pessoas pode muito bem ser grande parte do poder curativo de AA. Minha suspeita é que, nos mamíferos, o sentimento oceânico induzido pela reunião com companheiros de vida muito queridos tem um grande valor de sobrevivência. Eu acredito que o circuito neural para esta alegria oceânica tenha criado o circuito que é içado pela dependência – o circuito recompensador da dopamina.
O medo que Freud e outros cientistas sociais racionais têm de uma supostamente perigosa dependência dos AA de Deus e da espiritualidade pode ser desmistificado por um dispositivo simplista, mas heuristicamente útil. Deixem-nos dividir nosso conceito de religião em facetas úteis e em facetas perigosas, comparáveis aos efeitos colaterais de qualquer droga poderosa. Todos os tratamentos médicos têm efeitos colaterais. O Prozac pode levar à impotência, e a penicilina à anafilase. A religião leva muitas vezes a cultos e à intolerância. Minha tese é que, quando examinado deste modo, AA é notavelmente isento de efeitos colaterais.

AA É UM CULTO?

Muitas pessoas são tolerantes em relação à espiritualidade mas se preocupam com AA porque receiam que seja um culto. Eu gostaria de discutir seis características que distinguem AA de um culto. Uma preocupação com os cultos é que eles exercem controle sobre a mente e removem a liberdade de ação. Eu também me permito desconfiar de puritanismo, dietas da moda e maratonas. Sou, como qualquer outro, apaixonadamente contra uma preocupação obsessiva com correr, ou com se sentar sóbrio em duras cadeiras de igreja inalando passivamente a fumaça de cigarros alheios. Mas, se tais comportamentos me impedissem de morrer de doenças cardíacas ou de alcoolismo, eu poderia mudar de idéia.
Quando foi apresentada pela primeira vez, a cirurgia da ponte de safena não prolongou vidas, mas os regimes de exercício impostos, com o seu consentimento, aos pacientes safenados, prolongaram. Seguir os passos rigidamente seqüenciais de AA é como seguir os passos rigidamente numerados de um regime de exercícios. O propósito da rigidez não é, como no caso dos cultos, retirar sua autonomia, mas apenas que você não recaia no uso do álcool.
Uma segunda diferença entre um culto e AA é sua estrutura governamental. AA insiste que seus líderes não governam; eles servem. Um princípio fundamental em AA é que “é perigoso impor qualquer coisa a qualquer pessoa”. O organograma de AA é uma pirâmide invertida. Seus processos legislativos são excessivamente democráticos. “Nossos líderes são servidores de confiança; eles não governam”. Posições de responsabilidade em AA são definidas como “serviço sem autoridade” e são muito diferentes das mesmas em um culto. Os cultos caracterizam-se por líderes carismáticos com poderes infalíveis. Visões minoritárias são severamente castigadas.
Na verdade, um das preocupações ocultas que a profissão médica pode ter em relação a AA é sua insistência numa verdadeira democracia e seu fracasso em dar ao profissional médico altamente preparado uma autoridade especial. Os médicos consideram uma impertinência que AA às vezes desconfie dos doutores como os doutores desconfiam de AA. Em AA, como no treinamento atlético, o que se valoriza não é o aprendizado em livros, mas sim uma vivência bem sucedida. Os “vencedores” – os que estão sóbrios há mais tempo – são mais valorizados do que professores de Harvard, como eu, com teorias de como permanecer sóbrio. Eu mostro a meus próprios pacientes alcoólicos, aos quais cobro $125 por hora, que AA pode fazer o mesmo trabalho por um dólar por reunião. Perco muitos pacientes deste modo.
Uma terceira crítica aos cultos é que eles encorajam a dependência. Assim, AA tem sido criticado por seus membros ficarem tão necessitados das reuniões das 8 horas da noite quanto precisavam antes do próprio álcool. Esta carga de criação de dependência merece uma cuidadosa consideração. Os cultos certamente tiram proveito do fato de que as pessoas experimentam um alívio da angústia emocional quando se sentem íntimos do que Mark Galanther chama um “casulo social “.
Mas a cura pela filiação não pode ser limitada a cultos. Famílias, fraternidades, times esportivos exercem o mesmo poder e a mesma coesão de visão mundial. Contar honestamente a sua história a confidentes de confiança, em especial histórias de acontecimentos carregados de culpa, é uma parte essencial de diversos processos de iniciação. A oportunidade a ser “visto” e “ouvido”, por um grupo amoroso é uma das mais curativas experiências humanas e reduz a alienação social.
Quarto, os cultos acreditam que são a única saída. Por definição, cultos envolvem intolerância. Mas ao contrário das organizações evangélicas, AA só procura alguém se este alguém pedir. Em contraste com o evangelismo, AA se considera um programa de atração, não de promoção. É pegar ou largar. Há mais pragmatismo do que ideologia em AA. O formato para uma consulta de AA para um grupo em dificuldades não é uma lavagem cerebral ou uma ameaça de excomunhão, e sim: 1) Se não me engano, já vi um problema igual ao seu; 2) O que foi feito foi isto; 3) O resultado foi este; e 4) Você não precisa seguir meu conselho.
Quinto, as Doze Tradições de AA refletem o esforço de vinte anos de Bill Wilson para impedir que AA se tornasse um culto. Estes princípios incluem (a) o anonimato – um antídoto para o narcisismo (Wilson recusou um título honoris causa de Yale e a capa da revista Time para não quebrar seu anonimato); (b) a pobreza enquanto corporação – a incapacidade dos partidos políticos americanos de observar este princípio ameaça toda a democracia americana, (c) o único propósito de AA é a prevenção da recaída alcoólica – nenhuma política, nenhuma controvérsia, nenhum envolvimento em outras doenças mentais.
Sexto, e talvez o mais importante ingrediente que distingue AA de qualquer culto que conheço – inclusive o meu próprio e querido Instituto Psicanalítico Freudiano – é que AA tem senso de humor e os cultos não têm. Havia risos em todas as reuniões de AA que eu já assisti. Cultos normalmente não observam a famosa “Regra número Sessenta e Dois de AA: Não se leve tão a sério”.
Em resumo, a razão pela qual AA funciona é provavelmente porque seus membros têm uma doença tão grave que mata 100.000 americanos por ano e AA permite que o sobrevivente desesperado se reuna a uma irmandade de confiança mútua. Um padrinho de AA, como um sargento da Marinha ou um fisioterapeuta, pode ser dogmático, mas nenhum está tentando salvar almas – só vidas. Baseado nisto foi que, em 1951, Alcoólicos Anônimos receberam o Prêmio Lasker (indiscutivelmente o mais importante prêmio de Medicina da América). O prêmio considerou AA “Um grande empreendimento no pioneirismo social que forjou um novo instrumento para a ação social, uma nova terapia baseada na afinidade do sofrimento comum, algo com grande potencial para as incontáveis outras enfermidades da espécie humana.” (p.112). Uma afinidade de sofrimento comum pode não ser tão específica quanto um antibiótico, mas essa afinidade é muito mais curativa e muito menos perigosa que um culto.