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CONFIANÇA – NA OPINIÃO DO BILL

CONFIANÇA
“ Na Opinião do Bill”

CONFIANÇA CEGA?

“Certamente não pode haver confiança onde não há amor, nem pode haver amor verdadeiro onde reina a maligna desconfiança.
“Mas será que a confiança exige que sejamos cegos em relação aos motivos dos outros ou até dos nossos? Claro que não: isso seria loucura. Certamente devemos avaliar tanto a capacidade de fazer o mal como a capacidade de fazer o bem das pessoas em quem vamos confiar. Esse inventário particular pode revelar o grau de confiança que podemos depositar em qualquer situação que se apresente.
“Mas esse inventário precisa ser feito com espírito de compreensão e amor. Nada pode prejudicar mais nosso julgamento, quanto as emoções negativas de suspeita, ciúme ou raiva.
“Tendo depositado nossa confiança numa outra pessoa, devemos fazer com que ela saiba disso. Desse modo, quase sempre ela vai corresponder de maneira magnífica e muito além de nossa expectativa.”

PRISIONEIROS LIBERTADOS

Carta a um grupo numa prisão:
“Todo AA foi, num certo sentido, um prisioneiro. Cada um de nós se fechou à margem da sociedade; cada um de nós conheceu o estigma social. Para vocês, tudo tem sido ainda mais difícil: no seu caso, também a sociedade construiu uma muralha a seu redor. Mas não existe realmente uma diferença essencial; esse é um fato que praticamente todos os Aas, agora sabem.
“Portanto, quando vocês, membros, ingressarem no mundo de A. A. fora da prisão, podem ter a certeza de que ninguém vai se preocupar com fato de que vocês cumpriram pena. O que vocês estão tentando ser, e não o que foram, é tudo o que nos importa.”

“’As vezes, as dificuldades mentais e emocionais são muito difíceis de suportar quando estamos tentando manter a sobriedade. Contudo, com o passar do tempo, percebemos que superar esses problemas constitui o verdadeiro teste do modo de vida de A. A. A adversidade nos dá mais oportunidade de crescer do que a comodidade ou o sucesso.”

PRECISAMOS DE AJUDA DE FORA

Era evidente que uma auto-avaliação, feita a sós, e admissão de nossos defeitos, baseada só nessa avaliação, nem de longe seriam suficientes. Tínhamos que ter ajuda de fora, se quiséssemos saber e admitir a verdade a nosso respeito – a ajuda de Deus e de um outro ser humano.
Somente através de uma discussão sobre nós mesmos, sem esconder nada, somente com a disposição de seguir conselhos e aceitar orientação, poderíamos caminhar em direção ao pensamento correto, à honestidade sólida e à verdadeira humildade.

Se estivermos nos enganando, um conselheiro competente pode rapidamente percebê-lo. E, à medida que ele habilmente nos afasta de nossas fantasias, ficamos surpresos ao descobrir que vamos tendo poucos dos costumeiros ímpetos de nos defender das verdades desagradáveis. De nenhuma outra forma podem desaparecer tão prontamente o medo, o orgulho e a ignorância. Depois de certo tempo, percebemos que estamos numa nova base firme para a integridade, e agradecidos damos crédito a nossos padrinhos, cujos conselhos nos indicaram o caminho.

QUANDO A INFÂNCIA TERMINA

“Você deve recordar que todo grupo de A. A. começa, como deveria, através dos esforços de alguma pessoa e seus amigos – um fundador e sua hierarquia. Não existe outro modo.
“Mas quando a infância termina, os primeiros líderes têm que abrir caminho para essa democracia que surge das raízes e eventualmente se coloca de lado a liderança auto-eleita do passado.”

Carta ao Dr. Bob:
“Em todos os lugares os grupos de A. A. assumiram as atividades de serviço. Os fundadores locais e seus amigos agora estão afastados. Por que tanta gente esquece disso, quando pensa no futuro de nossos serviços mundiais, nunca entenderei.
“Os grupos finalmente assumirão sua própria direção e talvez esbanjem a herança que receberem. É provável, contudo, que não o façam. De qualquer modo, eles realmente já cresceram: A. A. lhes pertence; vamos entregá-lo para eles.”

CONSELHEIROS AFETUOSOS

Se não tivesse sido abençoado por conselheiros afetuosos e sábios, eu poderia ter me arrebentado há muito tempo. Uma vez um médico me salvou da morte por alcoolismo, porque me obrigou a encarar a mortalidade dessa doença. Mais adiante, um outro médico, psiquiatra, me ajudou a manter a sanidade, porque me levou a descobrir alguns de meus defeitos mais profundos. De um clérigo adquiri os verdadeiros princípios, pelos quais nós, Aas, tentamos agora viver.
Mas esses preciosos amigos fizeram muito mais do que me suprir com suas capacidades profissionais. Aprendi que eu poderia recorrer a eles com respeito a qualquer problema que tivesse. Eu podia contar sempre com sua sabedoria e integridade.
Muitos de meus queridos amigos de A. A. têm mantido comigo exatamente essa mesma relação. Em muitas ocasiões, puderam ajudar onde outros não puderam, simplesmente por serem Aas.

O CÍRCULO E O TRIÂNGULO

Acima de nós, na Convenção Internacional, em St. Louis em 1955, flutuava uma bandeira trazendo inscrito o novo símbolo de A. A., um círculo contendo um triângulo. O triângulo simboliza os Três Legados de A. A.: Recuperação, Unidade e Serviço.
Talvez não seja por acaso que os sacerdotes e os profetas da antiguidade consideravam esse símbolo como uma forma de afastar os espíritos maus.

Quando em 1955, nós, os membros mais antigos, entregamos nossos Três Legados a todo o movimento, senti saudades dos velhos dias e ao mesmo tempo me senti grato pelo grande dia que estava vivendo agora. Eu não mais teria que proteger, atuar ou decidir por A. A.
Por um momento tive medo da mudança que se realizava. Mas essa sensação logo passou. Podíamos depender da consciência de A. A., movida pela orientação de Deus, para assegurar o futuro de A. A. Claramente meu trabalho daqui para frente era “relaxar e entregar a Deus”.

APRENDENDO A CONFIAR

Todo o programa de A. A. se baseia no princípio da confiança mútua. Confiamos em Deus, confiamos em A. A. e confiamos uns nos outros. Portanto, não podemos deixar de confiar em nossos líderes em serviço. O “Direito de Decisão” que lhes oferecemos não é somente um meio prático de permitir que eles atuem e dirijam efetivamente, mas também um símbolo de nossa confiança implícita.

Se você chega a A. A. sem ter uma convicção religiosa, você pode, se quiser, fazer do próprio A. A. ou de seu grupo seu “Poder Superior”. Eles são um grande número de pessoas que resolveu seu problema com o álcool. Nesse sentido, certamente representam um poder superior a você. Esse mínimo de fé já será suficiente.
Muitos membros que só dessa maneira atravessaram o limiar contar-lhe-ão que, uma vez do outro lado, sua fé se ampliou e se aprofundou. Libertados da obsessão pelo álcool, com suas vidas inexplicavelmente transformadas, vieram a acreditar num Poder Superior, e a maioria deles começos a falar em Deus.

EU SOU RESPONSÁVEL

Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A. A. esteja sempre ali.
E por isto: Eu sou responsável.

Declaração do 30º aniversário
Convenção Internacional de 1965

Desde 1938, a maior parte de minha vida, em A. A. foi dedicada a ajudar a criar, planejar, dirigir e garantir a solvência e eficiência dos serviços mundiais de A. A. – cujo escritório tem capacitado nossa Irmandade a funcionar, no mundo inteiro, como um todo unificado.
Não é exagero dizer que, sob a orientação de seus custódios, todos esses importantes serviços contribuíram muito para nossa atual extensão e eficácia.
O Escritório de Serviços Gerais de A. A. é de longe o maior portador da mensagem de A. A. Ele conseguiu relacionar A. A. com o mundo conturbado em que vivemos. Tem fomentado a propagação de nossa Irmandade em todos os lugares. A. A. World Services, Inc. está pronto para atender às necessidades especiais de qualquer grupo ou indivíduo isolado, seja qual for a distância ou o idioma. Seus muitos anos de experiência acumulada estão disponíveis para todos nós.
Os membros de nossa curadoria – a Junta de Serviços Gerais de A. A. – serão, no futuro, nossos principais líderes em todas as nossas atividades mundiais. Essa alta responsabilidade já lhes foi delegada há muito tempo; eles são meus sucessores, bem como do Dr. Bob, nos serviços mundiais e são diretamente responsáveis por A. A. como um todo.
Este é o legado de responsabilidade dos serviços mundiais que nós, os membros mais antigos que vão desaparecendo, estamos deixando a vocês, os Aas de hoje e de amanhã. Sabemos que vocês vão guardar, sustentar e estimar esse legado mundial, como a maior responsabilidade coletiva que A. A. já teve.

Com confiança e afeição,

Bill

(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 144-234-248-269-303-307-310-332)

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CRESCIMENTO ESPIRITUAL – DR. LAÍS MARQUES

CRESCIMENTO ESPIRITUAL
Dr. Laís Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.
Palestra proferida por ocasião da XVI Convenção Nacional de Alcoólicos Anônimos – São Paulo, abril de 2003.

VIDA ESPIRITUAL
“Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual,… somos seres espirituais passando por uma experiência humana”.
Teilhard de Chardin

É freqüente que as pessoas tenham a idéia errada de que a vida espiritual é alguma coisa diferente e que deva ser vivida em separado, num cantinho lá do céu, num ambiente etéreo e místico. Pensam também que o nosso dia a dia está ligado a uma outra realidade que não é lá estas coisas, se comparada com o que concebem como sendo a vida espiritual, além de muito mundana. É também comum pensar que, para ser uma pessoa espiritual, é preciso não dar importância à nossa vida do dia a dia e ir para uma outra dimensão inteiramente diferente, um reino especial. Separamos e dividimos o que é uno e isso acontece com freqüência. Ademais, a dimensão do que se entende por vida espiritual vai muito além da repetição inconsciente de um ritual ou de uma oração. Por vezes, nos damos conta do potencial que temos de crescimento, mas é preciso ter em mente que ele não acontece por si mesmo. Há caminhos a serem percorridos, programas e passos a nos orientar a fim de termos esse potencial realizado. É preciso estar conscientes do modo como agimos, de como nos relacionamos conosco, com o nosso corpo, com as pessoas que nos rodeiam porque tudo isso cria uma espécie de mundo, interior e exterior, dentro do qual vivemos. Ao evoluir nesses aspectos das nossas vidas, iremos criar condições para viver melhor e para crescer espiritualmente e, nesse ponto, estaremos optando pela liberdade ou pelo sofrimento. Desenvolver a dimensão espiritual é próprio da vida dos seres humanos.
Pode ser difícil andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas, mas fazer exatamente isso sobre a terra tem-se mostrado um enorme desafio, uma tarefa que apresenta novas dificuldades a cada momento. Tornar-se um ser com um individualismo ameno e afável é, provavelmente, o milagre maior que podemos realizar, o objetivo maior que temos na vida. O grande milagre é tornar-se um ser espiritualizado, pois a vida a todos nós tem ensinado que uma pessoa que tenha uma mente poderosa, se não tiver um bom coração, este poder não será de qualquer valia e pode ainda ser desvantajoso. Para caminhar sobre a terra, cada indivíduo tem que partir do fato de que possui uma consciência e de que é um ser único no mundo. Nada e ninguém é igual e isso implica em que o ser humano é só, sente a sua solidão. Possui uma identidade única, é singular. Além de diferenciado no momento da concepção, vive em ambientes diferentes e se desenvolve de um modo que lhe é próprio. Tem que ser ele mesmo dentro do seu espaço de liberdade. O senso de autonomia e autodeterminação lhe traz a idéia de ser responsável por si mesmo, uma vez que é o capitão do seu barco e mestre do seu destino. Percebe que só pode afirmar as suas potencialidades concretizando a própria individualidade. Mas aí entra a idéia de limite, pois que se vai longe demais nesta linha de desenvolvimento, acaba se tornando um ser orgulhoso, degenerado e autodestrutivo. Há também o fato não menos real de que, como ser social, necessita das outras pessoas não só para sustento e companhia, mas também para encontrar significado e sentido para a sua própria vida. Assim, há duas realidades distintas e em oposição e ambas são reais. Chamamos a isso de paradoxo e é a partir dele que temos que crescer espiritualmente.
O indivíduo é impulsionado para o desenvolvimento total das suas possibilidades, mas tem que reconhecer que é incompleto e, como tal, tem a sua fraqueza. Trabalha com a individuação de um lado e com a sua dependência, de outro. O desenvolvimento que se faz mais calcado em uma das vertentes do paradoxo desequilibra a equação. As oposições geram ou são a origem de conflitos, mas se os opostos forem unificados, não haverá tensão, conflito ou medo. O eu torna-se mestre de si mesmo e a vida pode vir a ser o que o indivíduo deseja. Surge a liberdade, o domínio e a unificação. O desenvolvimento espiritual permite encontrar um ponto de equilíbrio entre essas duas tendências. É esse desenvolvimento harmonioso que evita possíveis desvios. Se caminha pelo lado do individualismo, acentua a independência e a auto-suficiência e aí, como não consegue ser auto-suficiente nem independente completamente, é levado a falsificar, ocultando fraquezas e falhas. Tenta ser super-homem e controlar totalmente a sua vida. O individualismo, no entanto, leva ao isolamento social, à solidão que condena a viver um inferno existencial e, numa dimensão maior, à fragmentação da sociedade. Mais adiante, o indivíduo aprende que é natural e humano sentir ansiedade, depressão e abandono e percebe que é no convívio com os outros que pode compartilhar estes sentimentos sem medo ou culpa e ainda sem julgamento, se encontra o nível necessário de entendimento.
A partir deste quadro simplificado e, sendo membro de A. A., o companheiro cresce espiritualmente e passa a desenvolver a ética de um individualismo suave. Por outro lado, a vida mostra que, para cultivar um bom coração, não é suficiente dizer a nós mesmo que devemos ser bons, pois dizer o que devemos ser, sentir ou fazer não nos faz viver deste modo, mas nos abarrota de “deverias”, que muitas vezes nos fazem sentir culpados porque nunca somos como pensamos que deveríamos ser.
O que realmente é necessário, é transformar as nossas mentes e comportamentos aceitando um fato bem caracterizado pelo mito do dragão. Os mitos são uma maravilhosa fonte que nos ajudam a compreender os complexos e multidimensionais aspectos da natureza humana porque representam uma determinada realidade. O dragão é uma criatura mitológica que vem sendo usada por diferentes culturas há muitos séculos. Ele simboliza os seres humanos, já que são cobras com asas, vermes que podem voar e é isso que nós somos. Rastejamos como répteis, atolados na lama de pecaminosas tendências e preconceitos culturais resultantes da mente fechada. Mas, como pássaros ou anjos, podemos voar e transcender a realidade de réptil porque somos espírito e capazes de alcançar os céus. Esta é uma visão clara da nossa realidade.
No mundo ocidental costumamos separar o físico do espiritual. A tecnologia tem desenvolvido conhecimentos que melhoram a nossa qualidade de vida e a nossa condição física pessoal e, particularmente, a nossa saúde. Mas vale dizer que a ênfase maior caberia ao lado espiritual, já que o espírito é entendido por nós como sendo eterno, imortal. Aqui fica uma importante pergunta: seria possível, com a tecnologia de guerra existente nos nossos dias, sobreviver dentro desta posição de manter separado o físico do espiritual? Tudo indica que, para salvarmos a nossa pele, teremos que salvar primeiro as nossas almas. Logo, desenvolvimento espiritual não é retórica abstrata e sem sentido prático. Não parece ser possível melhorar a confusão em que colocamos o mundo de hoje sem pensarmos em alguma espécie de cura espiritual.

UM PROCESSO

Feitas as colocações iniciais, passamos a observar e a apreciar o que acontece num grupo de A. A. e também a identificar o modo pelo qual ocorre o despertar e o crescimento espirituais, em alguns de seus aspectos. Dentre as muitas realidades com que se defronta um recém-chegado a um grupo de A .A., destaca-se a de que, embora fique claro que o objetivo principal seja evitar o primeiro gole e assumir que é só por hoje, ele se dá conta de que há uma mensagem não escrita, que está no ar, e que aponta para o fato de que não basta que apenas viva como um alcoólico sóbrio, em abstinência. Percebe que não é suficiente apenas estar sóbrio, mas que precisa ganhar condições de permanecer sóbrio. Ou seja, ele observa que os companheiros ali presentes não estão apenas sóbrios. Muitos permaneceram sóbrios por longo tempo e estão bem, compostos e felizes. Além do mais, são educados, afáveis, atenciosos e ainda exibem uma atitude de boa vontade e de abertura em relação aos demais companheiros. Tudo isso a indicar que houve um progresso na recuperação. Assim, descobre que há um caminho a ser percorrido, que há uma proposta para esse caminho e, mais adiante, vai ver que progredir ao longo deste caminho é bem mais complexo do que se manter sóbrio. É preciso construir novas referências, estabelecer prioridades, deixar brotar novas esperanças, livrar-se de antigos comportamentos. A porta aberta do grupo dá acesso a uma nova realidade, a um caminho iluminado por luz libertadora.

COMUNICAÇÃO EM PROFUNDIDADE

A seguir, observa que as reuniões do grupo são marcadas pela fala, são reuniões em que se fala, e que o silêncio por parte dos que ouvem, usualmente, é completo. Assim, aquele que fala encontra no silêncio dos outros uma atitude de respeito em relação ao companheiro que faz o seu depoimento, e que isso estabelece uma abertura, traduz uma disponibilidade da parte dos companheiros do grupo.
O homem se realiza como pessoa através da comunicação; na comunicação o indivíduo sai de si em direção ao outro, passa a existir espiritualmente, ao mesmo tempo em que oferece a sua interioridade. Ganha a noção de si mesmo, da sua singularidade espiritual, e não só passa a ser gente, mas se realiza como gente quando se projeta sobre o outro. O isolamento faz crescer o sentimento de insegurança, o medo, mas o grupo responde à necessidade de superar a separação, de realizar a união, de transcender a vida individual, de entrar em sintonia com os outros. No grupo de A. A. todos se relacionam entre si, numa complexa interação. Estar fora dos relacionamentos é como estar fora da vida, e o homem sofre intensamente quando se sente isolado, fora do sistema de relações. Por outro lado, necessita recompor a sua auto-estima, ser aceito e que alguém diga: “Seja bem-vindo ao nosso grupo, você é a pessoa mais importante para nós”. A rejeição que sente, da parte dos que compõem o seu ambiente social, o faz sentir uma experiência de morte e, muitas vezes, o alcoólico nem é chamado pelo nome, apenas tem apelido.
Mas o silêncio de quem escuta um depoimento transmite a quem o faz a seguinte mensagem: eu sei que você tem valor, que é apenas um doente, que é um ser humano como eu, que sofre de uma enfermidade devastadora e, por isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito. Você tem valor e merece a minha compreensão e eu sou capaz de compreender porque tenho a “qualidade” de ser um alcoólico e de ter sido batido pelo mesmo demônio, o alcoolismo. O silêncio permite uma interação, um relacionamento direto e profundo, de olho no olho. Possibilita que se estabeleça uma empatia, significando que se sente precisamente o sentimento e o significado do que está sendo relatado.
Aquele que faz o depoimento encontra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal, o que é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o silêncio permite que ele seja ouvido e compreendido e não apenas escutado. Neste ambiente, o companheiro pode abri-se inteiramente, baixar a guarda, pode estar presente de corpo e alma. O outro ganha existência real e a comunicação inter-humana, com todo o seu potencial, é restabelecida e, não menos importante, fica aberta a porta para o ganho da auto-estima. Compartilha porque tem a mesma necessidade e porque sabe que os companheiros da A. A. podem cicatrizar uns aos outros.
A comunicação profunda, assim estabelecida, quebra o isolamento do alcoólico e integra os membros do grupo dentro de um todo. É estabelecida uma relação intensa e profunda entre os membros do grupo, ao contrário dos contactos sociais superficiais e usualmente ligados a interesses. O relacionamento estabelecido é gratuito porque aquele que faz o seu depoimento oferece a sua experiência pessoal e os demais companheiros, no seu silêncio respeitoso, a sua compreensão e o seu amor de irmão.
O silêncio permite a manifestação da palavra, com todo o seu poder, e induz uma relação de reciprocidade, entendida como um mecanismo totalizador que envolve a todos os que estão no grupo. Estão imersos numa só atmosfera. Essa relação interpessoal profunda é o fundamento da existência de A. A.. É nela que se ganha dimensão humana e espiritualidade, e isso, numa época em que as pessoas se permitem esquecer do que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.
Estabelece-se um ambiente sagrado, vivem-se momentos mágicos e todos sentem essa realidade, sendo usual que os companheiros que fazem os seus depoimentos os encerrem dizendo: “Obrigado pelo silêncio de vocês”.

VALORES ESPIRITUAIS

Identificada a existência de um caminho a ser percorrido, de um programa, e restabelecida a comunicação social numa dimensão muito especial, em algum momento deverá acontecer que um companheiro se aperceba de que uma lágrima rola em seu rosto no decurso de um depoimento. É que terá emergido nele um dos sentimentos mais poderosos que um ser humano pode sentir, que é a compaixão, e isso representa um importante marco no crescimento espiritual.
A compaixão, entendida como a consciência profunda do sofrimento de uma outra pessoa associada ao desejo de aliviá-la, é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os outros companheiros. Não há sentimento mais enriquecedor e mais denso do que a compaixão. Nem a nossa própria dor pesa tanto quanto a dor que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogamos conosco e começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento. Ocorre também que esta dor é prolongada por muitos ecos, que são as lembranças que conservamos e que voltam posteriormente à nossa consciência repetidas vezes. Ter compaixão não é ter pena. A pena coloca as pessoas em situação de superioridade. Compaixão é sofrer junto com quem sofre, caminhar com quem caminha, é atender as necessidades do outro, é não abandoná-lo na sua necessidade.
Esse sentimento compõe a espiritualidade e aumenta a nossa dimensão humana. Abre um espaço para o outro dentro de nós e cria as condições para o surgimento do amor ao próximo. Embora não haja a recomendação para que amassem uns aos outros, este sentimento começa a fluir a partir desta experiência de grande intensidade emocional. O egocentrismo é amenizado, o egoísmo arrefece, o individualismo áspero se abranda sem que as pessoas tenham repetido oralmente qualquer intenção ou que tenham fixado um plano especial para isso.
Essa expansão do sentir, do ser, ocorre dentro da atmosfera do grupo, que é marcada por uma comunicação feita em profundidade e no silêncio respeitoso dos que empaticamente escutam. Isso ocorre num ambiente de compreensão, de respeito e de não julgamento, marcado pela preservação do anonimato que garante, numa palavra, a existência de um ambiente seguro. As pessoas que não conhecem a Irmandade, mas sabem dos sofrimentos intensos da destruição, em todas as dimensões do ser, que ocorrem como decorrência do alcoolismo a um paciente, imaginam que o ambiente dos grupos seja marcado pela dor e pela tristeza. Mas lá estão pessoas vencedoras que, em vez de serem tristes, mostram grande riqueza espiritual e até alegria. É que a atmosfera está sempre impregnada pelo sentimento de compaixão e talvez, por isso, seja tão agradável estar no grupo e desfrutar de toda essa riqueza. Os depoimentos fazem surgir a compaixão e não a tristeza que viria com o sentimento de pena, que torna o outro menor.

HONESTIDADE

Estando na ativa, um dos passatempos preferidos pelos alcoólicos é abusar da boa-fé dos que estão à sua volta e, com o tempo, desenvolvem uma grande habilidade para manipular e acabam se tornam manipuladores deles mesmos. Este comportamento desonesto acabaria, com o tempo, por desintegrar as suas próprias vidas. A desonestidade torna-se um hábito, uma adição tão falaciosa e poderosa quanto o alcoolismo em si. No tempo do alcoolismo ativo, a desonestidade se tornara uma maneira de vida, do que decorre que permanece nas mentes e nas emoções por longo tempo. Acontece, no entanto, que ela dói; é como estar ferido por saber que não se é a pessoa que pensava ser e, ainda mais, por precisar beber.
O alcoólico vive num mundo de ilusões difícil, para ele, de ser identificado como sendo diferente do mundo real, porque não se apercebe como um ser separado da realidade. Continua mentindo quando dizer a verdade seria mais fácil e conveniente. A verdade é que a vida na bebida exigia que fosse desonesto e para mudar isso leva tempo, além de exigir esforço e também o convívio com pessoas honestas.
Estando sóbrio, o alcoólico começa a desfrutar a vida com os sentidos limpos, claros, e se torna capaz de apreciar as realidades do mundo tal como elas são, sem a cortina da substância química, da droga. Ao freqüentar um grupo, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer que o alcoólico irá fazer o seu primeiro depoimento, no qual irá oferece a sua experiência pessoal, sempre única. Nessa oportunidade, irá se defrontar com uma situação inteiramente nova na sua vida. Valorizado pelo silêncio respeitoso, pela atenção dos companheiros, ciente do anonimato, da compreensão confortadora oferecida pelos companheiros e de não ser julgado, ele começa a abrir o seu coração, só que dentro de uma circunstância muito particular: é que todos ali são alcoólicos e passaram por tudo o que ele passou e, os que não tiveram essas experiências, as conheceram a partir dos relatos de outros companheiros, por terem ouvido os seus depoimentos ao longo de anos. Nesta ocasião, surge um obstáculo intransponível que, num primeiro momento, pode não ser perfeitamente identificado, mas é percebido e que estará sempre lá. É que surge uma situação inteiramente nova: como manipular os companheiros que ouvem com atenção e respeito? Como abusar da sua boa-fé? Todos têm a “qualidade” de serem alcoólicos, todos já progrediram no caminho da verdade, no caminho das atitudes conscientes. Eles sabem tudo. Todos já tiveram, em algum grau, a alegria de viver uma realidade muito especial, a de que a verdade liberta. Tornaram-se, com o tempo, capazes de penetrar nas suas racionalizações e reações de defesa.
Mas há muita culpa, muita vergonha, muito remorso e muita dor moral e todos estão atentos e em silêncio. Aí, cada um que faz o seu depoimento encontra o seu caminho diante desta condição irremovível, não contornável, de que a honestidade dos que ouvem ajuda o depoente a encontrar a sua própria honestidade. A honestidade de cada um induz a honestidade de todos. Também, neste aspecto particular, há uma reciprocidade porque aquele que faz o depoimento sente que, no convívio, na interação com os companheiros do grupo, ele não pode ser desonesto, nem com eles nem consigo mesmo. Os que estão presentes necessitam da sua honestidade e o depoente, da mesma forma, precisa da honestidade dos que ouvem o seu depoimento. A honestidade, estabelecida desta maneira, cresce e se expande para áreas cada vez maiores das suas vidas, resultando que, na sobriedade, a honestidade ultrapassa, de muito, a da primeira admissão e isso porque é tão impossível, como diz Platão na República, implantar a verdade na alma de um homem quanto dar a visão a um cego de nascença. A verdade dos que ouvem ajuda aquele que faz o depoimento a encontrar a sua verdade, progressivamente, por si mesmo, ao longo do tempo.
Não há outro caminho possível e, se optar por continuar manipulando, encontrará, depois, algum companheiro que lhe dirá de maneira gentil e com palavras de amor doídas: “você esteve por inteiro dentro de um ”show”, poderia o você real se levantar? Para ser honesto, qual é o seu eu verdadeiro?” A aquiescência e o aceno de cabeça dos companheiros que estão à volta o fará encontrar o caminho para a resposta. É que os alcoólicos em recuperação conhecem bem as falácias da negação e do oculta mento. Esse momento é muito difícil, mas há muita energia e muito apoio na atmosfera do grupo, e isso faz a diferença. Como esses momentos usualmente são de grande sofrimento, recomenda-se ao alcoólico recém-chegado que freqüente, se possível, diariamente um grupo de A. A. pelo período de um mês. É preciso receber suporte, compreensão e solidariedade por parte dos companheiros de forma continuada.
A honestidade marca o início da recuperação, quebra a negação e abre para a admissão da impotência diante do álcool e para o fato de que a vida do alcoólico se tornou inadministrável. Quem não for capaz de ser honesto consigo mesmo terá dificuldade de entrar no Programa de Recuperação de A. A.. A honestidade é indispensável para o crescimento espiritual e também para usufruir tudo que a sobriedade e a vida têm para dar.
Para uma pessoa honesta, fica fácil continuar sendo honesta, enquanto que uma mentira sempre leva a uma outra mentira e o hábito da mentira faz do mentiroso um trapaceiro que sempre tem que proteger e preservar a mentira. Pelo contrário, a dedicação à verdade leva a uma vida de honestidade e as pessoas honestas vivem como que ao ar livre e, pela coragem de assim viver, se tornam livres também do medo.
A verdade, como fundamento da libertação, tem que ser total, inteira. O mito de Orestes desvenda aspectos complexos da natureza humana em relação ao poder libertador da honestidade. O mito diz que Agamenon, guerreiro grego e pai de Orestes, que participara da Guerra de Tróia, ao retornar à pátria, vitorioso, foi assassinado pela sua mulher Clitemnestra e pelo seu amante, Egisto. Este fato colocou Orestes num beco sem saída. A maior obrigação de um grego era vingar seu pai em caso de assassinato mas, por outro lado, a coisa mais abominável que um jovem poderia fazer era assassinar a sua mãe. Orestes decidiu matar a mãe, foi condenado e os deuses decidiram que as Fúrias, que eram deidades vingadoras na mitologia grega, e em número de três, iriam rodear Orestes tagarelando culpas nos seus ouvidos e causando alucinações que o levariam à loucura. Por anos, as Fúrias o perseguiram até que Orestes resolveu pedir aos deuses que o aliviassem da pena. Houve um novo julgamento em que o deus Apolo foi seu defensor, e nele mostrou que Orestes não tivera nenhuma possibilidade de uma outra escolha que não as que lhe haviam sido impostas e, por isso, não podia ser considerado culpado. Os deuses do Olímpio resolveram então absolver Orestes que, neste exato momento, e para espanto de todos, se opôs a Apolo dizendo que se achava culpado, pois que não tinham sido os deuses e sim ele mesmo que matara a sua mãe, com as suas próprias mãos. Nunca antes outro ser humano havia colocado a verdade dos fatos de tal forma que lhe fosse tão adversa, especialmente depois de haver sido absolvido. Diante disso, os deuses decidiram manter a suspensão da pena e as Fúrias foram substituídas pelas Eumênides, também outras três deidades da mitologia grega, que eram as “portadoras da graça”. Eram, pelo contrário, vozes de sabedoria, dos espíritos ligados à Terra e associados à fertilidade, tendo também funções sociais e morais. O mito mostra que a verdade, levada ao extremo, foi capaz de transformar a doença mental em saúde e o preço foi a verdade a qualquer custo.
O programa de recuperação de A. A. nos mostra que o caminho da verdade tem que ser percorrido continuamente. É uma busca, um trabalho para toda a vida porque meia verdade ainda é uma mentira. Por outro lado, embora a verdade tenha que ser total e completa, conforta a lembrança de uns pensamentos de A. A. que dizem que se deve preferir o “progresso e não a perfeição” e que se deve “ir de vagar, mas ir”. É preciso ver clara e diretamente a verdade da nossa experiência a cada momento vivido, estar atento, estar consciente. De outra forma, a maior parte da nossa vida é conduzida por um piloto automático que funciona na base da ganância, do medo, da agressão, da busca de segurança, de afeição, de poder, de sexo, de riqueza, de prazer e de fama. Se vivermos agindo de modo a causar sofrimentos para nós e para os que nos cercam, é impossível que a mente se torne serena e centrada como é também impossível abrir o coração. A concentração e a sabedoria se desenvolvem rapidamente na mente baseada na generosidade e na verdade.
Por outro lado, não podemos cair numa historinha que ouvi contar, chamada de “A Caverna da Verdade”. Sabendo da existência dessa caverna, algumas pessoas decidiram conhecê-la. Fizeram uma longa viagem e, finalmente, ao chegarem à entrada, encontraram um guarda e perguntaram se aquela era a Caverna da Verdade, ao que o ele respondeu que sim. Perguntaram se podiam entrar e ele respondeu questionando o quão profundamente eles queriam ir caverna adentro. Conversaram entre si e retornaram dizendo que gostariam de entrar na caverna, mas só o suficiente para dizer que tinham estado lá. Essa história vem à lembrança quando resolvemos desenvolver uma maneira de vida que requer uma honestidade total. É preciso que não se queira ser honesto apenas na medida necessária para dizer que apenas visitamos a verdade e a honestidade. Temos que ir até o fundo, na caverna, para crescermos na honestidade.
Uma outra dificuldade encontrada nessa busca é o medo das conseqüências e da dor que a honestidade pode trazer. Mas, ao compartilhar as suas experiências pessoais no grupo, o alcoólico vai chegar à conclusão de que a desonestidade é ainda mais dolorosa e perigosa. As conseqüências, a curto prazo, de ser honesto são melhores do que as de continuar na desonestidade e é importante destacar que os benefícios que resultam da honestidade serão colhidos logo em seguida.
Até aqui o foco foi colocado sobre o presente e o passado. Mais adiante, na recuperação, a honestidade vai deixar claro que a vida do companheiro tem propósito e sentido, que pode ser útil aos outros, que passa a fazer a diferença e que, se não significa nada para muita gente, torna-se muito importante para os companheiros do seu grupo e para ele próprio.
E como ser honesto? É não ter a intenção de enganar, nem a si nem os outros e nem o Poder Superior. É como parar de beber, é parar. Não há alternativas para essas situações. Cabe aqui uma lembrança: é preciso ir com cuidado e ter paciência neste caminho porque ser brutalmente honesto pode ser mais brutal do que honesto. Finalizando, vimos que o outro, agora, não só existe e ocupa um espaço no interior de cada um companheiro, mas que também é percebido como de fundamental importância para progredir na recuperação, para encontrar a verdade da vida vivida em comunidade e, por isso, enriquecida. Para alcançar um novo equilíbrio, um grau de harmonia indispensável à paz interior e os outros também são indispensáveis para encontrar a honestidade.

A TRANSFORMAÇÃO COPERNICANA DO EU

O ideal superior, livremente escolhido e assumido, de manter as portas do grupo abertas para poder estender a mão àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo e de levar a mensagem de A. A. faz com que os membros do grupo cooperem entre si e, com essa atitude, favoreçam o aparecimento de um clima de entendimento e de harmonia, do qual resulta que o comportamento dos membros do grupo, como um todo, se torna mais social. Vale, neste ponto, enfatizar que a harmonia e a sociabilidade eram tudo o que não ocorria com o alcoólico no tempo da ativa. No grupo, desenvolvem a capacidade de acolher, de serem solidários e cooperativos, de conviver com o diferente, com o outro.
Ao cooperar, o companheiro aprende a amar e ama porque coopera com os membros do grupo para alcançar este importante objetivo. Caminha para a solidariedade deixando para trás de si, muitas vezes, a indiferença de um orgulhoso individualismo. O amor é a conseqüência natural da cooperação com os demais membros do grupo e uma decorrência dessa cooperação. Amar o próximo é algo próprio do ser humano, é manifestação do seu poder de se relacionar com o mundo. Dentro desse clima, o grupo passa a desempenhar o papel de um equipamento coletivo no qual o alcoólico se desloca do egocentrismo e do individualismo para o sociocentrismo. Vivendo nesse ambiente e participando dessa dinâmica, o membro do grupo caminha para uma ampla e completa cooperação e é na socialização que ele se torna mais homem e mais humano. O homem só pode se realizar e ser feliz em ligação e solidariedade com os seus semelhantes.
Em Alcoólicos Anônimos, o alcoólico deixa de ser o centro dos seus próprios interesses e um outro companheiro passa a se constituir num novo pólo mobiliza dor dos seus esforços, fora de si mesmo, e que vai mudar a sua maneira de se sentir e de ver o mundo que o cerca. O Décimo -Segundo Passo é mais do que uma invocação a se amarem uns aos outros. A sua prática se torna a própria instrumentalização do amor ao próximo. Representa um forte estímulo para que se desenvolva o sentimento de amor ao próximo de modo objetivo, real e eficaz. É como um exercício que desenvolve e fortalece o amor ao próximo, do mesmo modo que o exercício físico desenvolve e fortalece o corpo. O companheiro, participando da vida do seu grupo, evolui na arte de viver e nela ele é, ao mesmo tempo, o artista e o objeto da sua arte, o escultor e o mármore, o médico e o paciente.
Em tempos passados, existiu um astrônomo chamado Ptolomeu que dizia que a Terra estava no centro do universo e que os astros giravam à sua volta. Isso era muito claro e bastava observar o céu. Muito tempo depois, um outro cientista e astrônomo, Copérnico, descobriu que a verdade era bem diferente, pois que os astros realmente não giravam em torno da Terra e sim do Sol. A Terra deixou de ser o centro e o verdadeiro centro dos movimentos passou a ser o Sol. Por estranho que possa parecer, algo semelhante acontece com o alcoólico no convívio com os membros do seu grupo. Ao praticar o 12º Passo, o alcoólico deixa de ser o centro e o irmão que ainda sofre passa a ser o novo pólo em torno do qual giram a sua motivação e os seus esforços, o que leva a uma profunda modificação nos seus interesses e na sua conduta. Essa mudança traz consigo o deslocamento do egoísmo para uma nova condição, ditada pelo amor ao próximo, que ocorre graças à riqueza do 12º Passo. O Terceiro Legado é uma dádiva no caminho de recuperação do alcoólico.

RESPONSABILIDADE AUTO-ATRIBUÍDA

O fato de assumir o ideal maior de manter as portas abertas e de levar a mensagem de A.A. aos que ainda sofrem coloca a Irmandade em ação, leva aos serviços. Cria a necessidade imperiosa de responder a um ideal assumido, ou seja, conduz à responsabilidade porque torna o membro do grupo capaz de dar uma resposta racional a uma atitude racional, feita tanto a si mesmo quanto aos outros companheiros, e é isso que o torna responsável, um indivíduo moral.
Sabiamente, este entendimento faz com que os companheiros sintam-se responsáveis e assumam individualmente, de per si, a execução dos serviços. Aí está a qualidade de ser ela auto-atribuída. Se fosse imposta por alguém ou por alguma norma, poderia ser rejeitada ou não cumprida, mas como é auto-atribuída e como existe até uma importante e fundamental declaração de responsabilidade que costumeiramente é feita pelos presentes a uma reunião de grupo, esta responsabilidade se torna real e tanto é assim que os milhares de grupos existentes em todo mundo são sustentados pelas suas próprias contribuições.
Como decorrência, cada membro de A. A. irá, com o tempo e na medida do seu progresso ao longo do programa de recuperação, se sentindo crescentemente responsável. Declarar-se e sentir-se responsável representa um notável ganho espiritual. No entanto, há algo mais neste caminho, que é a contribuição que se faz na sacola. Aí não é só dizer ou assumir, mas fazer. O ato da doação torna-se um exercício, um ato real que é feito com as próprias mãos e, mais importante, um ato de vontade. Atua da mesma maneira que a ginástica age sobre o corpo; é uma ginástica da responsabilidade, que fortalece a vontade e muda o comportamento ao longo do tempo.
Um outro aspecto de grande importância que é oportuno destacar no que respeita a contribuição na sacola é que não há o estabelecimento de normas ou critérios quanto ao valor da contribuição. Qualquer forma de imposição de valores, ou até mesmo uma simples sugestão, tiraria o grande benefício que recebe aquele que faz a contribuição. É que, se a ordem ou sugestão viesse de fora, o ato deixaria de ser a decorrência de uma decisão pessoal, que parte da vontade livre de quem faz a contribuição. Como tal, deixaria de ter conteúdo próprio, de ser ato de responsabilidade tomado livremente a partir da própria consciência, de entender que precisa sentir gratidão pelo que recebeu, que é ato de amor pelo irmão que ainda sofre e, também, de ter a característica de ser um ato de poder pessoal, que contribui para desenvolver a auto-estima. Fica a sensação de que não pode tudo nem que não pode nada, mas que tem poder em relação a algumas coisas. Só dessa forma, o ato de contribuição se torna o exercício vivo e prático de responsabilidade, da capacidade de responder e se transforma em ginástica da responsabilidade, de exercício que a fortalece.
Vale lembrar que um dos problemas de vida no tempo do alcoolismo ativo era a irresponsabilidade e não se pode avaliar o número de vezes que um alcoólico, na ativa, foi chamado de irresponsável. O contraste de comportamento acentua o enorme ganho espiritual e a forma de auto-atribuição da responsabilidade não poderia ser melhor porque, desta maneira, funciona.
Há ainda um outro desdobramento não menos importante. Tudo isso poderia ser comprometido se o grupo aceitasse contribuições de fora, de outras pessoas que não fossem membros do grupo. Todo esse ganho espiritual estaria comprometido, todo este mecanismo maravilhoso de construção de uma personalidade sadia seria anulado. Mas não se aceitam contribuições financeiras ou aquelas que possam resultar em ganho financeiro e fica assim assegurada a evolução espiritual.
Pode-se identificar, dentro deste ganho espiritual, um importante deslocamento em direção à revolução copernicana do eu, à atenuação de egos inflados e do individualismo áspero.

OPÇÃO POR SER E NÃO POR TER

O recolhimento de recursos financeiros poderia levar a sérios problemas, a conflitos insuperáveis. Alguém, muito importante no mundo dos negócios e que conhecia muito de dinheiro, advertiu, no início da vida da Irmandade, para o fato de que o dinheiro poderia estragar aquele movimento. Mas o perigo foi superado na opção feita pela pobreza, por querer ser e não por ter.
Despreocupados com os problemas do ter, os membros de A. A. têm o espaço aberto para desenvolver o ser. Estão conscientes de que a nossa importância, como seres humanos, não se origina a partir das coisas que apenas possuímos de modo tão passageiro. Querer ter mais, possuir mais não significa ser mais.
Como não há limite para a vontade de possuir mais, o desejo de ter mais leva ao egoísmo e ao individualismo que, por sua vez, não conduz à harmonia nem à paz. Sabemos que a cobiça e a paz se excluem mutuamente. O desejo de querer ter sempre mais leva ao antagonismo entre as pessoas. Uma sociedade, baseada predominantemente no ter, é uma sociedade doente, constituída por pessoas doentes. Não obstante, no mundo que nos cerca, o objetivo maior das pessoas é ter, de tal forma que se pensa que se uma pessoa nada tem, nada é. Mas o sentido da vida é ser muito e não ter muito. É necessário, isto sim, ter o suficiente para poder ser.
Quando uma associação humana como o A. A. se volta para o modo ser de existência, ela faz com que as pessoas dos alcoólicos sejam o centro das atenções, dos esforços e das atitudes, em oposição ao modo ter em que tudo se volta para as coisas. No A. A., o importante é a pessoa do doente alcoólico e esse objetivo não se desloca para o desejo tão generalizado de ter porque a Irmandade optou por ser pobre e se programou para ter apenas o que é essencial ao seu funcionamento e, com isso, evita que o foco das suas atenções se desloque das pessoas para as coisas.
O desejo de ter é tão generalizado que as pessoas chegam a se orgulhar de ter um horrível reumatismo, de ter um grande problema e vemos até que alguns dos nossos desejam ter a maior história de desgraças para relatar. O desejo de ter é de tal forma generalizado, tão enraizado na mente das pessoas, que elas querem ter até coisas que são abstratas e, assim, dizem que têm uma idéia e não que pensam ou que concebem, que têm amor e não que amam, que têm ódio e não que odeiam, que têm desejo e não que desejam, que têm saudade e não que sentem falta, que têm vontade e não que querem; isto é, preferem usar mais o substantivo, que define a coisa, do que o verbo. É difícil que as pessoas entendam que há um outro modo de vida, um modo voltado para ser, que é o modo de Alcoólicos Anônimos. Em A. A., os seus membros procuram ser: dignos, honestos, fraternos, bons companheiros, compreensivos e amáveis, bons pais, bons amigos, bons filhos, bons cônjuges, etc., representando tudo isso um ganho espiritual e um novo potencial de desenvolvimento.
Os modos de ter e de ser caracterizam dois tipos diferentes de comportamento, de pessoas que têm maneiras diversas de sentir, de pensar e de agir. No modo ter, as pessoas querem possuir tudo e todos enquanto que o modo ser traduz vitalidade e força espiritual que leva a um relacionamento amoroso e pacífico.
Com vitalidade e força, o modo ser traduz-se em atividade, processo, movimento. Ser é vida, nascimento, renovação, fluidez, criatividade. Ser quer dizer mudança e transformação para melhor porque mudança e crescimento são qualidades do processo, daquilo que tem vida, e o Programa de Recuperação é todo de crescimento espiritual, é todo um processo de mudança interior, de reformulação de vida, que encontra no modo ser do grupo o ambiente ideal para o pleno desenvolvimento dos membros de A. A..

CONHECE-TE A TI MESMO

O Programa de Recuperação de A. A. é constituído por Doze Passos, quase todos voltados para o autoconhecimento. Ao praticar esses passos, o membro de A. A. inicia uma jornada para dentro de si mesmo que lhe dará valor e grandeza espiritual, além de melhorar a única parte do mundo que depende só de nós, que somos nós mesmos. Praticar os passos representa um esforço que os membros de A. A. realizam para ter um melhor conhecimento de si mesmos. É comum observarmos que as pessoas dediquem seus esforços para conhecer as coisas do mundo e pouco ou nenhum para conhecer a si mesmos. Mas sempre e, em primeiro lugar, o homem precisa saber sobre si mesmo e responder à pergunta: quem sou eu?
Em Alcoólicos Anônimos, a jornada rumo ao interior começa logo no Primeiro Passo, quando o companheiro reconhece e admite a sua impotência perante o álcool e identifica a perda do domínio em relação à sua vida. No Segundo Passo, ele encontra o Poder Superior dentro de si mesmo, encontra o sopro divino, a força criadora que deu origem à sua própria existência. Identifica no Terceiro Passo o enorme poder desta Força que o criou e que, ao mesmo tempo, está no seu interior. Tudo acontece como está escrito: “Ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama, colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos”.
No Quarto Passo esmiúçam as suas entranhas cuidadosamente e identificam as origens das suas culpas e vergonhas. O Quinto Passo leva ao conhecimento, a ter consciência de toda a sua trajetória de vida e com ele conhece a natureza exata das suas falhas. Nos Sexto e Sétimo Passos, o membro de Alcoólicos Anônimos entra em comunhão com aquela força que lhe foi dada como herança, a herança de si mesmo, dada pelo Criador. Ao praticar o Oitavo Passo, o companheiro dá início à solução de um grande número de problemas, começa a se harmonizar com o mundo exterior e consigo mesmo e a desfrutar de uma grande paz. Num plano mais elevado e dispondo de maior lucidez e de discernimento, aprofunda o conhecimento de si mesmo e, por último, estreita o seu contacto com o Poder Superior nos Décimo e Décimo Primeiro Passos.
Enquanto os membros de Alcoólicos Anônimos estiverem praticando o programa de recuperação, eles serão sempre seres humanos voltados para o conhecimento e para a conquista de si mesmos. Caminham em direção aos seus interiores e, no fim das suas jornadas, encontrarão a subjetividade, encontrar-se-ão como sendo seres únicos na Criação, com valor e conteúdo interior que darão sentido às suas vidas. Por último, perceberão que são um fim em si mesmo e que têm espírito próprio.
O programa de recuperação está voltado para a descoberta do mundo interior, para o encontro da espiritualidade, para a solução dos problemas mais íntimos, para a percepção do próprio valor e para o encontro da subjetividade.
Uma das maneiras de se evitar a dor é apagar a consciência e aí uma boa solução é tomar uma anestesia ou usar drogas psicoativas. Mas embora a consciência seja a causa da dor, ela também é a nossa salvação porque a saída do problema da dor se faz pelo processo de nos tornarmos crescentemente conscientes, e isso é o que ocorre ao longo do caminho sugerido pelo Programa de Recuperação.

HUMILDADE

Por último, vamos enfocar um atributo que é absolutamente indispensável à recuperação, a humildade. Ela está presente em cada Passo do Programa de Recuperação, está no fundamento de todo o progresso alcançado ao longo do caminho percorrido em direção à recuperação. Para entender melhor o significado da palavra, consultamos o dicionário e vimos que humildade é a qualidade de ser modesto ou respeitoso e modesto é não ter ou expressar uma opinião muito elevada acerca das suas próprias realizações ou habilidades; não ser exibido, arrogante ou pretensioso.
Neste aspecto da evolução espiritual, vamos nos deparar com uma realidade que nos levará, para o seu estudo, a um modo diferente de abordagem. Só é possível enxergar a partir de um determinado ângulo. É preciso abordar o assunto a partir de uma ótica própria, a da humildade. Pela sua importância, este é um tema freqüentemente abordado em reuniões de estudo porque sabemos que representa uma pré-condição para o crescimento indispensável, não só para manter sóbrio o alcoólico mas também para que possa progredir na sua recuperação. Por outro lado, é um tema que se tem mostrado difícil de abordar.
É que há uma realidade que precisamos considerar. Neste momento, optei por escrever algo do que venho aprendendo durante anos e posso escrever agora porque tenho todas as condições para isso. Mas não posso querer que alguém vá ler o que escrevo. De um lado, eu posso optar por usar os meios necessários para escrever, mas de outro, posso apenas e tão somente procurar uma orientação, uma direção, um contexto que, espero, possa levar as pessoas a lerem o que escrevo, mas não mais do que isso. Posso escrever, mas não posso querer que alguém leia o que escrevo, posso continuar escrevendo agora, mas não posso querer que alguém continue lendo.
Humildade é outra coisa que o alcoólico não pode querer, como quero escrever porque tenho os meios. Ele pode não ingerir o primeiro gole, ir a uma reunião de grupo ou trabalhar os Passos do Programa. De outro modo, como sem esforço pego a caneta, ele pode fazer a coisa fácil de pegar o telefone para falar com o padrinho ou pegar o carro para ir ao grupo, mas o que ocorre quase sempre é que acaba indo comprar bebida. Os dois modos de agir são profundamente diferentes.
Da mesma forma, posso desejar conhecimento, mas não sabedoria, submissão, mas não humildade; auto-afirmação, mas não coragem; proximidade física, mas não intimidade emocional. O fato é que podemos querer e ter algumas coisas, mas outras ficam fora da nossa vontade e podem acontecer ou não. Sobriedade, sabedoria, humildade, coragem e amor não são objetos e o que podemos fazer é optar por nos movermos em direção a elas. Como vemos, a humildade está nesta categoria. Ela não pode ser comprada e também não se pode decidir ter. É conseguida indiretamente ao trabalhar os Passos.
Somos limitados porque somos humanos e por não haver absolutos e nem ilimitados no nosso poder humano é que o A. A. aconselha que devemos procurar “progresso e não perfeição”. Assim, os companheiros irão progredindo e se tornando crescentemente humildes.
O alcoólico é como a criança a quem chamamos de reizinho. Quer porque quer e quando quer; o mundo tem que suprir as suas necessidades. Daí o comportamento grandioso. Costumam pagar a conta de quem não conhecem e dão presentes estapafúrdios. A recuperação depende basicamente de assumir atitude humilde e de aceitar a sua impotência diante do álcool e também de admitir que perdeu a capacidade de governar a sua vida.
Embora geralmente seja menos visível, costuma também existir uma baixa auto-estima, que se identifica no comportamento que oscila entre posso tudo e não posso nada, mas sempre achando que é diferente. No trabalho com os 12 Passos, o alcoólico desenvolve um senso mais profundo e seguro de auto-estima.
Embora os alcoólicos relutem em admitir que necessita de ajuda, em aceitar que o Poder Superior possa devolver a sanidade às suas vidas, essa é uma atitude de humildade indispensável para o progresso espiritual e os fazem reconhecer que tanto são únicos como comuns porque compartilham de todas as coisas que são importantes com o resto da humanidade. Também a 12ª Tradição os relembra para colocar os princípios acima das personalidades, e essa é mais uma lição de humildade. Adiante, estando dispostos a aprender, os alcoólicos vão admitir que necessitam da ajuda dos outros para iniciar a sua recuperação e aprender com esses outros a crescerem na sobriedade. Não podem crescer sozinhos e, por outro lado, ninguém pode fazer isso por eles.
A aceitação das conseqüências das suas ações ajuda a perceber a relação de causa e efeito que rege a vida. Aqui, já estão uns primeiros passos e a humildade trabalha entre os dois extremos de comportamento do alcoólico. Os outros, em algum momento, passarão a existir no seu interior e, depois, o companheiro verá que eles continuarão sendo necessários ao longo da recuperação.
Freqüentar reuniões, ler a literatura e compartilhar os seus problemas com o padrinho são de grande valia para se manter sóbrio e também para crescer na humildade. Por outro lado, humildade e humor estão relacionados. O A. A. lembra: “não se leve tanto a sério”. Os companheiros do grupo, às vezes, furam os balões da grandiosidade de um companheiro e, em outras ocasiões, os tiram das profundezas da auto piedade. Isso os faz progredir no caminho da humildade. Rir do passado não significa ter uma atitude irresponsável, mas apenas ver em perspectiva e perceber que as suas ações, pensamentos e sentimentos não estão no centro do universo. Além do mais, tudo isso ajuda a tirar o foco de cima do álcool. Afinal, ninguém, estando bem, resolve ir para o A. A.. É preciso reconhecer que essa atitude é tomada a partir de uma vida de dor, medo, frustração e raiva.
Com o tempo, os alcoólicos em recuperação se dão conta de que estão menos auto centrados, de que as suas vidas estão enriquecidas e a sobriedade é percebida como sendo compensadora. A vida passa a ser organizada também em torno do que podem fazer pelos outros e passam a compartilhar com eles o que têm recebido. Isso já significa o despertar da humildade.
A humildade é também buscada quando resolvem ter a gratidão como um modo de vida e isso porque os ajuda a ver a vida a partir de uma perspectiva diferente. Uma boa maneira de desenvolver este sentimento é anotar todas as coisas em relação às quais devem ser gratos no decurso de um dia. Passam a reconhecer o que lhes foi dado e se importam menos com o que realizam. Um outro modo é desenvolver o hábito da admiração. Admirar o por do sol, o mar, a chuva, etc., porque os tira de dentro de si mesmos de uma maneira sadia. Os serviços realizados no grupo também ajudam a desenvolver a humildade. Ouvir e compartilhar leva a uma saudável e feliz sobriedade. Com a humildade surge o agradecimento, que é a resposta natural à generosidade com que os alcoólicos são recebidos no grupo. É um sentimento profundo e, estando agradecidos, se doam aos outros, de tudo resultando a amizade, o amor e, numa palavra, a solidariedade.
Os que conquistaram um estágio mais avançado de crescimento espiritual, uma maior consciência, são possuídos por uma feliz humildade. Conscientes da sua ligação com um Poder Superior, têm o grande desejo de que “seja feita a Vossa vontade – fazei de mim o Vosso instrumento”.

SER SANTO

Muitas vezes ouvi companheiros dizerem que se fossem seguir os princípios de A. A. se tornariam santos e, por causa disto, não se empenham tanto no Programa de Recuperação. Mas, ao admitirem que “um Deus amantíssimo Se manifesta na nossa consciência coletiva” e, portanto, que está entre eles, no convívio enriquecedor de verdadeiros irmãos, é inevitável assumir que estão crescendo em direção à divindade. Esta é uma idéia muito simples, mas também muito exigente. Se podem alcançar a divindade, então terão que cuidar do crescimento espiritual, buscar níveis progressivamente mais altos de consciência e de atividade amorosa. Assim, o trabalho nunca estará feito, acabado. O crescimento espiritual é um anseio para toda a vida, além do que, é também um caminho trabalhoso, que exige esforço. Talvez esta seja uma desculpa para explicar as dificuldades que encontram ao praticar os Passos porque elas ocorrem naturalmente, uma vez que é preciso coragem, determinação, empenho, constância e coração forte e não é sempre que encontramos pessoas com estes atributos. Entendo também que nascemos para ser santos e o problema é que não conseguimos realizar todo o potencial que temos dentro de nós nem, usualmente, ir tão longe no caminho que nos é sugerido pelo A. A.. No entanto, no meu julgamento, encontrei, ao longo dos mais 30 anos de convívio com membros de A. A., alguns companheiros que penso que são santos. São pessoas maravilhosas, que irradiam uma paz muito grande e possuem uma riqueza interior deslumbrante. Muitos se constituem em figuras exemplares. São excelentes em virtudes e em santidade. São luzes que guiam mais pelo exemplo que pelas palavras. Com os seus depoimentos, estimulam a sermos mais fraternos, termos mais compaixão, sermos mais humanos e espirituais. Tenho desfrutado de grande felicidade na companhia deles. Para mim, são santos e as suas atitudes têm a pureza, a retidão e a reverência como fundamento.

AS INCERTEZAS E OS QUESTIONAMENTOS

Até aqui, as minhas certezas. O que vi e ouvi. O meu entendimento. Não a partir de uma visão idealizada, mas sim a partir da constatação da existência de um ideal perfeitamente realizável e, muitas vezes, realizado. Um caminho que, realmente, está aberto e posto como opção: de percorrer ou não ou até o ponto que se consiga ou deseje alcançar. Fica a idéia de busca a ser empreendida ao longo de um caminho delineado.
A lenda do Graal possui uma vitalidade mágica e por isso é uma lenda viva, que existe há mais de 900 anos e desperta a imaginação e o espírito. Ela também traz a idéia de busca, a busca do Santo Graal. Falar do Santo Graal desperta a imaginação e mobiliza para alguma coisa que está no inconsciente coletivo. A lenda tem origem numa história que resultou de uma mistura e de uma fusão de crenças e lendas populares, chegando a uma imagem sonhada e arquetípica de uma busca final e definitiva para todos e para todas as coisas.
Na época em que a lenda apareceu, a Europa vivia tempos particularmente difíceis, com o poder político fragmentado, onde grupos armados errantes saqueavam as colheitas. Havia fome, epidemias, guerras, tudo isso levando a um profundo empobrecimento da população e gerando insegurança e ansiedade. Nesse ambiente, e como ocorreu em outras épocas, surgiu um grande fervor religioso não só entre cristãos, mas entre os outros povos da região.
Inicialmente, a lenda do Santo Graal era celta e, portanto, pagã, e estava muito ligada aos feitos da cavalaria. Mais tarde, foi cristianizada pelos monges da Ordem de Císter que não tanto a mudaram, mas sim, lhe deram conteúdo cristão. Resultou que o Santo Graal ficou sendo entendido como sendo o cálice usado por Cristo na Santa Ceia e que, mais tarde, foi usado por José de Arimatéia para recolher o sangue que escorreu das feridas do Cristo, quando da crucificação. Ao retornar à Bretanha, o cálice passou de geração em geração, dentro da família de José. O Graal tinha propriedades milagrosas e podia fornecer alimento aos sem pecado, mas cegar os impuros e fazer ficar mudos os irreverentes.
Na lenda, estava implícita a busca de um objetivo geralmente tido como sendo um cálice que só poderia ser alcançado por um ser humano puro. Essa lenda teve evolução diferente em diversas regiões. Na que hoje é a França, a lenda deu origem aos ideais de cavalaria, aos cavaleiros e aos trovadores que cantaram e difundiram os fatos e lendas daquele tempo. Eram cavaleiros galantes que cantavam os grandes ideais e a beleza de nobres senhoras. Na região em que hoje está a Alemanha, a lenda evoluiu para o aparecimento de seres perfeitos e puros que tinham condições de alcançar o Graal. Sobressai aí a figura de um grande personagem, Parsifal. Na Irlanda e na Gran Bretanha houve forte influência de poderes mágicos e de fatos extraordinários ocorridos na corte do rei Artur e do mago Merlin; havia o sentido do fantástico, dos poderes misteriosos, do sobrenatural. Nesta corte, nasceu Galahad, herói e cavaleiro perfeito, sem qualquer defeito de caráter, que se lançou na busca do Santo Graal, sendo essa a parte central da literatura arturiana e do romance medieval de Parsifal.
A grande aventura era chegar ao Santo Graal, sem defeitos, e o contacto com ele, tendo no seu interior o sangue de Cristo, seria o contacto direto com o Cristo e, por meio dele, com o Criador, o Poder Superior. Mas isso só os puros podiam fazer. Comecei a me perguntar se não seria o crescimento espiritual em A. A. um caminho de purificação de modo a tornar alguns companheiros santos. Não teriam eles tido, uma vez que sem defeitos de caráter, algum contacto simbólico com o Santo Graal que os teria tornado santos? Não seria o caminho do crescimento espiritual uma busca, uma trajetória, da mesma forma que o caminho percorrido pelos cavaleiros puros na busca do Santo Graal? Aqueles que alcançassem um nível espiritual elevado, como Galahad e Parsifal, teriam a ventura, rara, de alcançar o Santo Graal. Alguns dos santos que conheci em A. A. foram chamados e moram em algum reino situado além das galáxias, mas outros ainda andam por aqui e vim à Convenção para ter a ventura de conviver um pouco mais com eles e para conhecer mais alguns.

CRESCIMENTO – INDIVIDUAL – NA OPINIÃO DO BILL

CRESCIMENTO – INDIVIDUAL
“Na Opinião do Bill”

MUDANÇA DE PERSONALIDADE

“Com frequência se tem dito a respeito de A. A. que somente estamos interessados no alcoolismo. Isso não é verdade. Temos que vencer a bebida para continuarmos vivos. Mas quem quer que conheça a personalidade do alcoólico, através do contato mais direto, sabe que nenhum alcoólico verdadeiro pára completamente de beber sem sofrer uma profunda mudança de personalidade”.

Achávamos que as “circunstâncias” nos levaram a beber, e quando tentamos corrigir essas circunstâncias descobrimos que não poderíamos fazer isso à nossa própria maneira: nosso beber se descontrolou e nos tornamos alcoólicos. Nunca nos ocorreu que precisávamos nos modificar para nos ajustar às circunstâncias, fossem elas quais fossem.

UMA NOVA VIDA

A sobriedade é tudo o que devemos esperar de um despertar espiritual? Não, a sobriedade é apenas o começo; é somente a primeira dádiva do primeiro despertar. Se temos que receber outras dádivas, nosso despertar tem que continuar. E com o tempo, descobrimos que pouco a pouco vamos nos despojando da vida velha – a vida que não funcionou – por uma nova vida que pode e funciona sob quaisquer condições.
Não obstante o êxito ou o fracasso do mundo, não obstante a dor ou alegria, não obstante a doença ou a saúde ou ainda a morte, uma nova vida de possibilidades intermináveis pode ser vivida se estamos dispostos a continuar nosso despertar, através da prática dos Doze Passos de A. A.

LIVRES DA ESCURIDÃO

A auto-análise é o meio pelo qual trazemos uma nova visão, ação e graça para influir no lado escuro e negativo de nosso ser. Com ela vem o desconhecimento daquele tipo de humildade, que nos permite receber a ajuda de Deus. No entanto, ela é apenas um passo. Vamos querer ir mais longe. Vamos querer que o bem que está dentro de todos nós, mesmo dentro dos piores, cresça e floresça. Mas, antes de tudo, vamos querer a luz do sol; pouco se pode crescer na escuridão. A meditação é nosso passo em direção ao sol.

“Uma luz clara parece descer sobre nós – quando abrimos os olhos. Uma vez que nossa cegueira é causada por nossos próprios defeitos, precisamos primeiro conhecê-los a fundo. A meditação construtiva é o primeiro requisito para cada novo passo em nosso crescimento espiritual.”

BUSCANDO O OURO DO INSENSATO

O orgulho é o grande causador da maioria das dificuldades humanas, o principal obstáculo ao verdadeiro progresso. O orgulho nos induz a exigir de nós e dos outros; e as exigências não podem ser cumpridas sem perverter ou fazer mau uso dos instintos que Deus nos deu. Quando a satisfação de nossos instintos em relação ao sexo, segurança e posição social se torna o único objetivo de nossa vida, então o orgulho entra em cena para justificar nossos excessos.

Posso alcançar a “humildade por hoje” apenas na medida em que sou capaz de evitar, por um lado, o lamaçal de sentimento de culpa e revolta, e por outro, essa bela mas enganadora terra semeada de moedas de ouro do orgulho do insensato. É assim que posso encontrar e permanecer no verdadeiro caminho da humildade, que está situado entre esses dois extremos. Logo, é necessário um inventário constante que possa mostrar quando me afasto do caminho.

NÃO PODEMOS FICAR PARADOS

Nos primeiros dias de A. A. eu não me preocupava muito com as áreas de minha vida nas quais estava inativo. Havia sempre o álibi: “Afinal de contas – dizia a mim mesmo – estou muito ocupado com assuntos muito mais importantes.” Essa era minha receita quase perfeita para obter bem-estar e complacência.

Quantos de nós ousariam declarar: “Bem, estou sóbrio e feliz. O que mais posso querer ou fazer? Estou muito bem assim.” Sabemos que o preço desta auto-satisfação é um inevitável retrocesso, pontuado em algum momento por um brusco despertar. Temos que crescer ou nos deterioramos mais. Para nós a situação só vale para hoje, nunca para amanhã. Precisamos mudar, não podemos ficar parados.

ACEITAÇÃO DIÁRIA

“Grande parte de minha vida foi passada repisando as faltas dos outros. Essa é uma das muitas formas sutis e maldosas da auto-satisfação, que nos permite ficar confortavelmente despreocupados a respeito de nossos próprios defeitos. Inúmeras vezes dissemos: ‘Se não fosse por causa dele (ou dela), como eu seria feliz!’”

Nosso primeiro problema é aceitar nossas circunstâncias atuais como são, a nós mesmos como somos, e as pessoas que nos cercam como também são. Isso é adotar uma humildade realista sem a qual nenhum verdadeiro progresso pode sequer começar. Repetidamente precisaremos voltar a esse pouco lisonjeiro ponto de partida. Esse é um exercício de aceitação que podemos praticar com proveito todos os dias de nossas vidas.
Desde que evitemos arduamente transformar esses reconhecimentos realistas dos fatos da vida em álibis irreais para a prática da apatia ou do derrotismo, eles podem ser a base segura sobre a qual pode ser construída a crescente saúde emocional e, portanto, o progresso espiritual.

CRESCIMENTO PELO DÉCIMO PASSO

Naturalmente, no decorrer dos próximos anos, cometeremos erros. A experiência nos tem ensinado que não precisamos ter medo de cometê-los, desde que mantenhamos a disposição para confessar nossas faltas e corrigi-las prontamente. Nosso crescimento como indivíduos tem dependido desse saudável processo de ensaio e erro. Assim crescerá nossa Irmandade.
Devemos sempre nos lembrar de que qualquer sociedade de homens e mulheres que não podem corrigir livremente suas próprias faltas, inevitavelmente chega à decadência e até mesmo ao colapso. Esse é o castigo universal por não continuar crescendo. Assim, cada AA deve continuar fazendo seu inventário moral e atuar de acordo com ele, do mesmo modo nossa sociedade como um todo deve fazer, se quisermos sobreviver e prestar serviço de maneira proveitosa e satisfatória.

SÓ DEUS É IMUTÁVEL

“A mudança é a característica de todo crescimento. Da bebida à sobriedade, da desonestidade à honestidade, do conflito à serenidade, do ódio ao amor, da dependência infantil à responsabilidade adulta – tudo isso e muito mais representam mudança para melhor.
“Essas mudanças são realizadas por meio da crença e da prática de princípios saudáveis. Para isso, precisamos nos desfazer de princípios maus ou ineficientes em favor dos bons princípios, que produzem resultados. Até bons princípios podem às vezes ser substituídos pela descoberta de outros ainda melhores.
“Só Deus é imutável; somente Ele tem todas as verdades que existem.”

A VIDA NÃO É UM BECO SEM SAÍDA

Quando um homem ou uma mulher tem um despertar espiritual, o mais importante significado disso é que ele se tornou agora capaz de fazer, sentir e acreditar naquilo que ele não poderia antes fazer sozinho, sem ajuda, com seus próprios recursos e força. A ele foi concedida uma dádiva, que leva a um novo estado de consciência e a uma nova vida.
A ele foi indicado um caminho que lhe mostra que está indo em direção a uma meta, que a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou8 dominado. Na verdade ele se transformou, porque se agarrou a uma fonte de energia da qual até agora havia se privado.

“O LADO ESPIRITUAL”

Com muita frequência, quando estamos em reuniões de AA., ouvimos algum membro declarar: “Mas eu ainda não captei o lado espiritual”. Antes de fazer tal declaração, ele descreve o milagre da transformação que lhe ocorreu – não só sua libertação do álcool, mas uma mudança completa em todas as atitudes com referência à vida e à forma de vivê-la.
Fica evidente para todos os presentes que ele recebeu uma dádiva especial, e que essa dádiva está além daquilo que se pode esperar de sua simples participação em A. A. Por isso nós, da audiência, sorrimos e dizemos a nós mesmos: “Bem, esse companheiro está transbordando espiritualmente – só que ele ainda não sabe disso”.

NOSSO NOVO PATRÃO

Tínhamos um novo Patrão. Sendo todo poderoso, Ele proporcionava o que precisávamos, desde que ficássemos perto d’Ele e executássemos bem Seu trabalho.
Desse modo nos tornamos cada vez menos interessados em nós mesmos, em nossos pequenos planos e projetos. Cada vez mais nos interessamos em ver de que forma poderíamos contribuir para a vida.
Ao sentir uma nova força apoderar-se de nós, ao desfrutar da paz de espírito, ao descobrir que poderíamos enfrentar a vida com êxito, ao ficar conscientes de Sua presença, começamos a perder nosso medo do hoje, do amanhã e do futuro. Nascemos de novo.

ESSÊNCIA DO CRESCIMENTO

Que nunca tenhamos medo das mudanças necessárias. Certamente temos que distinguir entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas já descobrimos há muito tempo que, logo que uma necessidade se torne clara para o indivíduo, para o grupo ou para A. A. como um todo, não podemos ficar parados.
A essência de todo crescimento é a disposição de mudar para melhor e uma incansável disposição para aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique.

LIBERDADE DE ESCOLHA

Olhando para trás, vemos que nossa liberdade de escolher mal não era, afinal de contas, uma liberdade muito verdadeira!
Quando escolhemos porque “fomos obrigados a escolher”, essa também não foi uma escolha livre. Mas nos colocou na direção certa.
Quando escolhemos porque “tivemos que fazê-lo”, já estávamos escolhendo melhor. Dessa vez estávamos obtendo uma certa liberdade, preparando-nos para obter ainda mais.
Mas quando, vez por outra, pudemos com satisfação fazer escolhas certas sem revolta, resistência ou conflito, então tivemos a visão do que poderia ser a perfeita liberdade sob a vontade de Deus.

RENUNCIANDO AOS DEFEITOS

Examinando novamente aqueles defeitos aos quais ainda não estamos dispostos a renunciar, deveríamos apagar os limites rígidos que tínhamos traçado. Talvez ainda sejamos obrigados, em alguns casos, a dizer: “Ainda não posso renunciar a esses defeitos…”, mas não deveríamos dizer: “A esse nunca renunciarei!”
No momento em que dizemos: “Não, nunca!” nossa mente se fecha para a graça de Deus. Essa revolta pode ser fatal. Ao invés disso, deveríamos abandonar os objetivos limitados e começar a caminhar em direção à vontade de Deus para conosco.

PERCEPÇÃO DA HUMILDADE

Uma melhor percepção da humildade inicia uma mudança revolucionária em nossa maneira de ver. Nossos olhos começam a se abrir aos imensos valores resultantes do doloroso esvaziamento do ego. Até agora, dedicamos grande parte de nossas vidas a fugir do sofrimento e dos problemas. A fuga através da garrafa foi sempre nossa solução.
Então, em A. A., observamos e escutamos. Por todo lado vimos o fracasso e a miséria transformados pela humildade em valores inestimáveis.

Para quem tem progredido em A. A., a humildade significa um claro reconhecimento do que e de quem realmente somos, seguido de uma tentativa sincera de nos tornar aquilo que poderíamos ser.

A IMAGINAÇÃO PODE SER CONSTRUTIVA

Lembramos com certa tristeza do valor que dávamos à imaginação quando ela tentava criar a realidade através da garrafa. Pois a verdade é que nós nos deleitávamos com esse tipo de pensamentos. Embora estejamos hoje sóbrios, não tentamos muitas vezes fazer exatamente a mesma coisa?
Talvez nosso problema não estivesse no fato de usarmos a imaginação. Talvez o verdadeiro problema fosse nossa quase total incapacidade de dirigir a imaginação em direção aos objetivos corretos. Não há nada de errado com a imaginação construtiva; toda boa realização depende dela. Afinal de contas, ninguém pode construir uma casa sem antes imaginar um plano.

BENEFÍCIOS E MISTÉRIOS

“A preocupação de A. A. com a sobriedade é às vezes mal interpretada. Para alguns, essa simples virtude parece ser o único benefício da nossa Irmandade. Pensam que somos bêbados recuperados e que, em outros aspectos, pouco ou nada melhoramos. Essa suposição está muito longe da verdade. Sabemos que uma sobriedade permanente pode ser alcançada apenas por uma revolucionária mudança na vida e perspectiva do indivíduo – por um despertar espiritual que pode eliminar o desejo de beber.”

“Você está se perguntando, como muitos de nós devem estar: ‘Quem sou eu?’’Onde estou?’ ‘Para onde vou?’ O processo de esclarecimento é geralmente lento. Mas, no fim, nossa busca sempre traz uma descoberta. Esses grandes mistérios, afinal, estão envoltos em total simplicidade. A disposição de desenvolver-se é a essência de todo o crescimento espiritual.”

A FORMAÇÃO DO CARÁTER

Uma vez que a maioria de nós nasce com uma infinidade de desejos naturais, não é de admirar que frequentemente deixemos que eles excedam seu propósito. Quando nos guiam cegamente, ou quando obstinadamente exigimos que nos proporcionem mais satisfações ou prazeres de que nos são possíveis ou devidos, é nesse ponto que nos afastamos do grau de perfeição que Deus deseja para nós aqui na terra. Essa é a medida de nossos defeitos de caráter ou, se você preferir, de nossos pecados.
Se pedirmos, Deus certamente perdoará nossas negligências. Mas em nenhum caso, Ele nos torna brancos como a neve e nos mantêm assim sem nossa cooperação, isso é algo que se pressupõe que estejamos dispostos a fazer. Ele quer apenas que tentemos, da melhor maneira possível, progredir na formação do caráter.

EM DIREÇÃO À MATURIDADE

Muitos membros mais antigos, que tem submetido a “cura das bebedeiras” de A. A. a severos mas bem sucedidos testes, descobrem que frequentemente ainda lhes faltam sobriedade emocional. Para obter isto, precisamos desenvolver real maturidade e equilíbrio (ou seja, humildade) em nossas relações com nós mesmos, com nossos semelhantes e com Deus.

Não permitamos nunca que A. A. seja uma entidade fechada; não recusemos nunca nossa experiência ao mundo que nos cerca, se ela puder ser útil e valiosa. Deixemos que nossos membros, individualmente, atendam o chamado de cada um dos campos da atividade humana. Deixemos que eles levem a experiência e o espírito de A. A. em todos esses assuntos, seja qual for o bem que possam realizar. Pois Deus nos salvou apenas do alcoolismo; o mundo nos recebeu de volta para a cidadania.

O PASSO QUE NOS MANTÉM CRESCENDO

Algumas vezes, quando amigos nos dizem como estamos indo bem, sabemos em nosso íntimo que não é assim. Ainda não conseguimos lidar com a vida como ela é. Deve haver alguma falha séria em nossa prática e desenvolvimento espirituais.
Que falha é esta, então?
O mais provável mesmo é que localizemos nossa dificuldade em nossa falta de compreensão ou negligência, em relação ao Décimo Primeiro Passo de A. A. – prece, meditação e orientação de Deus.
Os outros Passos podem manter a maioria de nós sóbrios e, de alguma forma, funcionando. Mas o Décimo Primeiro Passo pode nos manter crescendo, se tentarmos arduamente e trabalharmos sempre nele.

A.A. EM DUAS PALAVRAS

“Todo o progresso de A. A. pode ser expresso em duas palavras: humildade e responsabilidade. Todo nosso desenvolvimento espiritual pode ser medido, com precisão, conforme nosso grau de adesão a esses magníficos padrões.
Uma humildade sempre mais profunda, acompanhada por uma crescente boa vontade para aceitar e cumprir com nossas responsabilidades – estas são realmente as pedras de toque para todo o crescimento na vida do espírito. Elas proporcionam a essência do bem, tanto no ser como no atuar. É por meio delas que conseguimos encontrar e afazer a vontade de Deus.”

AMOR + RACIONALIDADE = CRECIMENTO

“Parece para mim que o objetivo primordial de qualquer ser humano é o de desenvolver-se, como Deus pretendeu, sendo essa a natureza que tudo o que cresce.
“Nossa busca deve ser em direção a realidade que podemos encontrar, incluindo a melhor definição e sentimento de amor que podemos adquirir se a capacidade de amar existe no ser humano, então ela certamente existe em seu Criador.
“A teologia me ajuda, porque a maioria de seus conceitos me faz acreditar que vivo num universo racional, sob o poder de um Deus amoroso e que minha própria irracionalidade pode aos poucos desaparecer. Esse é, suponho, o processo de crescimento para o qual estamos destinados”.

A FELICIDADE É A META?

“Não acho que a felicidade ou a infelicidade seja uma questão principal. Como enfrentamos os problemas que surgem? Como aprendemos através deles e transmitimos o que aprendemos aos outros, caso eles queiram aprender?
“Do meu ponto de vista, só neste mundo somos alunos na grande escola da vida. O propósito é tentarmos crescer e ajudar nossos companheiros viajantes a crescerem no amor que não faz exigências. Em suma, procuramos progredir a imagem e semelhança de Deus como nós O concebemos.
“Quando vem a dor, espera-se que aprendamos a lição, com boa vontade, e que aprendamos a ajudar os outros a aprenderem. Quando vem a felicidade, nós a aceitamos como uma dádiva, e agradecemos a Deus.

TRÊS ALTERNATIVAS

O objetivo imediato de nossa busca é a sobriedade – a libertação do álcool e de todas as suas desastrosas conseqüências. Sem esta libertação não temos nada.
Paradoxalmente, não conseguimos libertar-nos da obsessão do álcool enquanto não estejamos dispostos a lidar com os defeitos de caráter que nos levam a esta irremediável situação. Nesta busca de libertação sempre nos foram dadas três escolhas:
Uma recusa rebelde de trabalhar em nossos defeitos mais evidentes, que pode ser um passaporte quase certo para destruição. Ou então permanecer sóbrios, talvez por algum tempo, com mínimo de auto aperfeiçoamento, e nos instalarmos numa confortável mas perigosa mediocridade. Ou, finalmente, empenharmo-nos constantemente em adquirir aquelas genuínas qualidades que podem contribuir para a clareza de espírito e para a ação – uma liberdade verdadeira e duradora sob a graça de Deus.

PARA CRESCER

Aqueles anseios da adolescência que tantos de nós tivemos, de obter completa aprovação, absoluta segurança e perfeito romance – anseios perfeitamente próprios da idade de dezessete anos – revelam-se impossíveis como modo de vida aos quarenta e sete ou cinqüenta e sete anos. Desde o começo de A. A. levei tremendas surras em todas essas áreas, pelo fato de ter deixado de crescer emocional e espiritualmente.

A medida que crescemos espiritualmente descobrimos que nossas antigas atitudes, com relação a nossos impulsos instintivos, precisam passar por uma rigorosa revisão. Nossas necessidades de segurança emocional e material, prestígio pessoal e poder, tem que ser moderado e reorientadas. Aprendemos que a plena satisfação dessas necessidades não pode ser a única finalidade de nossa vida. Não podemos colocar a carroça diante dos bois; seremos arrastados para desilusão. Mas quando estamos dispostos a colocar o crescimento espiritual em primeiro lugar – então e somente então teremos uma verdadeira chance de crescer no conhecimento saudável e no amor pleno.

(Fonte – Na Opinião do Bill – paginas: 1-8-10-12-25-44-65-76-85-101-104-115-124-136-156-157-171-204-244-264-271-294-306-327-330)

CRESCIMENTO – GRADUAL E CONTINUADO – NA OPINIÃO DO BILL

CRESCIMENTO – GRADUAL E CONTINUADO
“Na Opinião do Bill”

TUDO OU NADA

A aceitação e a fé são capazes de produzir cem por cento de sobriedade. De fato, elas geralmente conseguem; e assim deve ser, caso contrário, não podemos viver. Mas a partir do momento em que transferimos essas atitudes para nossos problemas emocionais, descobrimos, que só é possível obter resultados relativos. Ninguém pode, por exemplo, livrar-se completamente do medo, da raiva e do orgulho. Consequentemente, nesta vida não atingiremos uma total humildade nem amor. Assim, vamos ter que nos conformar, com referência à maioria de nossos problemas, pois um progresso por grandes retrocessos. Nossa antiga atitude de “tudo ou nada” terá que ser abandonada.

VALORES ETERNOS

Muitas pessoas não querem saber de valores espirituais absolutos. Perfeccionistas, dizem elas, ou estão cheias de presunção porque imaginam que alcançaram algum objetivo impossível, ou ainda estão mergulhadas na auto condenação porque não alcançaram.
Contudo, acho que não deveríamos nos apegar a esse ponto de vista. Não é culpa dos elevados ideais serem às vezes usados indevidamente, tornando-se assim desculpas levianas para sentimentos de culpa, revolta e orgulho. Pelo contrário, não podemos progredir muito, se não tentarmos constantemente vislumbrar o que são os valores espirituais eternos.

“Dia a dia tentamos nos aproximar um pouco da perfeição de Deus. Assim sendo não precisamos ser consumidos por um tolo sentimento de culpa, por falhar em alcançar Sua semelhança e imagem sem demora. Nosso alvo é o progresso, e Sua perfeição é o farol, distante anos-luz, que nos leva para adiante.”

CONVICÇÃO E CONCESSÃO

Um dos requisitos para levar uma vida útil é dar e receber, a capacidade de transigir de bom grado. Fazer concessões é muito penoso para nós, beberrões cheios de “tudo ou nada”. Entretanto, não podemos nos esquecer de que o progresso é quase sempre caracterizado por uma série de concessões visando melhorias.
Claro que não podemos fazer concessões sempre. Vez ou outra é realmente necessário fincar o pé em sua convicção sobre o assunto, até que ele se resolva. Decidir quando fazer ou não concessões requer sempre cuidadoso discernimento.

ENTRE OS EXTERMOS

“A verdadeira questão é se podemos aprender de nossas experiências algo que sirva de base para podermos crescer e para ajudar outros a crescerem à imagem e semelhança de Deus.
“Sabemos que se nos negarmos a fazer aquilo que é razoavelmente possível para nós, seremos castigados. E também seremos castigados. E também seremos castigados se pretendermos ter uma perfeição que simplesmente temos.
“Aparentemente o caminho da relativa humildade e progresso deve estar entre esses extremos. Em nosso lento progresso em abandonar a rebeldia, a verdadeira perfeição está sem dúvida muito distante.”

PROGRESSO EM VEZ DE PERFEIÇÃO

Ao estudar os Doze Passos, muitos de nós reclamam: “Que tarefa! Não consigo fazer tudo isso”. Não desanime. Nenhum de nós conseguiu aderir completamente a esses princípios. Não somos santos.
O que importa é que estejamos dispostos a crescer espiritualmente. Os princípios apresentados são orientações para o progresso espiritual, em vez da perfeição espiritual.

“Nós alcoólicos recuperados, não somos tão irmãos nas virtudes quanto somos em nossos defeitos e em nossas lutas comuns para vencê-los.”

PERFEIÇÃO IMAGINÁRIA

Quando nós, os primeiros Aas, tivemos o primeiro vislumbre de como poderíamos ser espiritualmente orgulhosos, inventamos esta expressão: “Não tente ser Santo tão depressa!”
A velha advertência pelo parecer mais um daqueles álibis que podem nos desculpar de não dar o melhor de nós mesmos. No entanto, uma visão mais profunda revela exatamente o contrário. Esse é o nosso modo A. A. de prevenir a cegueira do orgulho e da perfeição imaginária.

Somente o Primeiro Passo, onde fizemos a admissão total de que éramos impotentes perante o álcool, pode ser praticado com absoluta perfeição. Os outros onze Passos enunciam ideais perfeitos. São metas para as quais nos dirigimos e a media pela qual avaliamos nosso progresso.

O COMEÇO DA HUMILDADE

“Há poucos pontos absolutos inerentes aos Doze Passos. Quase todos os Passos estão abertos à interpretação baseada na experiência e na visão do indivíduo.
“Consequentemente, o indivíduo é livre para começar os Passos no ponto em que puder ou quiser. Deus, como nós O concebemos, pode ser definido como um ‘Poder maior…’ ou, como o Poder Superior. Para milhares de membros, o próprio grupo de A. A. tem sido, no início, um ’Poder superior’. Esse reconhecimento é fácil de aceitar, se o recém-chegado sabe que os membros, em sua maioria, estão sóbrios e ele não.
“Sua admissão é o começo da humildade = pelo menos o recém-chegado está disposto a renunciar à idéia de que ele mesmo é Deus. Isso é tudo o que ele precisa para começar. Se, continuando essa admissão, ele relaxar e praticar todos os Passos que puder, certamente crescerá espiritualmente.”

DISPOSTOS A ACREDITAR

“Não permita que qualquer preconceito contra termos espirituais possa impedi-lo de se perguntar, o que eles poderiam significar para você. No começo, era disso que precisávamos, para dar início a um crescimento espiritual, ‘para estabelecer nossa primeira relação consciente com Deus como nós O concebíamos’. Mais adiante passamos a aceitar muitas coisas que nos pareciam inteiramente fora de alcance. Isso esta crescimento, mas para crescer tínhamos que começar de algum modo. Assim no princípio, usamos nossas próprias concepções de Deus, ainda que limitadas.
“Precisávamos nos fazer apenas uma simples pergunta: ‘acredito, ou estou mesmo disposto a acreditar que exista um Poder Superior a mim’. Assim que o indivíduo possa dizer que acredita, ainda que seja em pequeno grau, ou que esteja disposto a acreditar, nós lhe asseguramos enfaticamente que ele está no caminho.

PERFEIÇÃO – APENAS UM OBJETIVO

Nós, seres humanos, não podemos ter humildade absoluta no máximo podemos apenas vislumbrar o significado e o esplendor desse perfeito ideal. Só Deus pode Se manifestar no absoluto; nós seres humanos, precisamos viver e crescer no domínio do relativo.
Assim sendo, buscamos progredir na humildade para hoje.

Poucos de nós estão prontos para sequer sonhar com a perfeição moral e espiritual; queremos apenas nos desenvolver tanto quanto esteja ao nosso alcance nessa vida, ideais que cada um tenha sobre o que esteja ao seu alcance. Lutamos equivocadamente para alcançar objetivos determinados por nós mesmos, em vez de lutar pelo objetivo perfeito, que é o objetivo de Deus.

(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 6-15-59-159-167-181-191-219-236)

CRESCER NUM NOVO CAMINHO

CRESCER NUM NOVO CAMINHO
O tema proposto no último número da nossa revista, fez-me refletir naquilo a que chamo de “gratidão” e que digo sentir por Alcoólicos Anônimos, na importância e sentido da ‘consciência de grupo’ que o escolheu e na minha responsabilidade de acatar e agir com boa vontade segundo a sua decisão.
Para mim, a possibilidade de vir a “crescer” só se tornou real quando deixei de beber. Tal, significou abrir a porta; mas apenas isso. O caminho que percorri (já em AA) e durante um bom tempo, não me proporcionou crescimento, apenas sofrimento que julgava sem sentido. Fui massacrado com emoções e sentimentos descontrolados, era apenas guiado pelos instintos, já que a razão tropeçava, a cada passo, nas suas própria falhas e sofria horrores pois não sabia lidar com o que sentia. Decididamente, não era este o caminho para dois objetivos essenciais: um, o suficiente bem-estar interior de que me falavam face às “provas” da vida, outro, aquele que me poderia manter afastado de voltar a beber.
A uma dada altura foi-me dado ver claramente e tive que corrigir a rota, também por duas razões fundamentais: a primeira, queria sentir-me bem, precisava de aprender a capitalizar a dor (inevitável), a segunda, porque mais dia menos dia voltaria a beber e isso apavorava-me, pois tinha a certeza que depressa morreria “às mãos” do álcool.
A lição que aprendi com dificuldade e da maneira mais dolorosa, ficou sabida: parar de beber era apenas o ponto de partida. O caminho chamava-se “o da mudança” e, para o percorrer com um mínimo de sucesso, tinha que praticar na minha vida os Doze Passos do programa de AA, se queria de fato viver!
Com o decorrer do tempo senti melhorias significativas mas, de quando em quando, sobretudo nas relações com os outros, vivia retrocessos às antigas atitudes que me deixavam estupefato e em desespero. Afinal, que se passava comigo? Certo dia, um companheiro mais antigo, ainda hoje grande amigo, sugeriu-me que me envolvesse com os outros membros no Serviço do grupo, só para experimentar, dizia ele.
Já tinham tentado envolver-me mas, fazer o café, expor a literatura na mesa ou limpar os cinzeiros, eram tarefas que achava incompatíveis com o “estatuto” que eu próprio me atribuía. Ainda assim, a medo, lá me fui envolvendo e, maravilha das maravilhas! AA tinha uma coisa chamada “12 Tradições” que, além de me ensinar a conviver, testava eficazmente o meu nível de absorção dos Doze Passos. Para mim, este era o caminho: tentar viver segundo o sugerido nos Doze Passos e servir a comunidade em tudo que pudesse.
É um caminho fácil? Para mim nunca o foi e fico sempre com um monte de interrogações na minha cabeça quando ouço companheiros dizerem que, para eles, não é difícil. Acabo por lembrar-me e reconhecer que o difícil, sou eu. É um fato: cheguei mesmo muito doente a Alcoólicos Anônimos.
Percorrer este caminho nunca me foi fácil mas, foi bem pior durante a primeira meia dúzia de anos da minha nova vida sem álcool. Porquê? Porque sempre me angustiou imenso ser frontal e honesto, sempre perdi o sono ao reconhecer os meus erros, sempre me faltou o ar quando tinha que pedir desculpa a alguém, sempre me doeu (tanto!) abdicar em favor dos outros – era como se arrancasse um pedaço de mim mesmo.
Como poderia chamar a isto um caminho fácil? Lembrava-me, a cada dia (e lembro ainda), de uma máxima de AA que ouvira numa reunião: “Os Passos para viver, as Tradições para conviver”; estas palavras animavam-me para continuar pois almejava viver e conviver bem melhor que no passado. E bastava olhar para este, feito de pedaços a boiarem num mar de álcool, para não me acomodar, para ganhar novo alento e esforçar-me mais um pouco. Cheguei até aqui com esforço, por vezes até, com muito esforço. Consegui mudar-me em várias coisas para melhor, o suficiente para não viver angustiado. Assim, posso dizer que alguma coisa “cresci” neste novo caminho.
Finalmente, o “amor”. Acerca desta palavra, do seu significado e das diversas variantes do sentimento, também foi necessário quedar-me muita vez a meditar. Meditar sobre os meus sentimentos e (como o sábio), olhar para uma pedra o tempo necessário para ela mudar. A pedra, obviamente, não mudou; mas mudou a minha maneira de sentir. Liberto da atrofia da “posse” e do egoísmo que sempre carreguei com aquilo a que chamava “amor”, consegui chegar a um entendimento que me tranqüiliza. “O modo de vida de AA” levou-me a amar o próximo com uma generosidade de que me julgava incapaz, a amar o “sentido do bem”, o que é justo e correto (e devido a cada ser humano) de uma forma que sinto tão genuína, como se fora uma revelação. Sinto que posso amar sem condições, livremente, toda a gente ou alguém em particular, porque este sentimento que me aquece hoje a alma não requer exposição, nem exige retribuição. Tal como na Oração de que gosto muito, já vou acreditando que “vale mais amar que ser amado”. E, neste domínio, a dor também lá estava (e está), inevitavelmente, como mais um paradoxo da recuperação de um alcoólico como eu. Isto porque o caminho não é fácil, é longo e os meus passos tão pequenos.
Ainda andei tão pouco…

CRESCIMENTO – ATRAVÉS DA ADVERSIDADE – NA OPINIÃO DO BILL

CRESCIMENTO – ATRAVÉS DA ADVERSIDADE

“Na Opinião do Bill”

DOR E PROGRESSO

“Alguns anos atrás eu costumava ter pena de todas as pessoas que sofriam. Agora somente tenho pena daquelas que sofrem por ignorância, que não entendem o propósito e a utilidade definitiva da dor.”

Certa vez alguém disse que a dor é a pedra de toque do progresso espiritual. Nós, Aas, podemos concordar com isso, pois sabemos que as dores decorrentes do alcoolismo tiveram que vir antes da sobriedade, assim como desequilíbrio emocional vem antes da serenidade.

“Acredite mais profundamente: Levante a cabeça para a luz, ainda que no momento você não possa ver.”

O MEDO COMO PONTO DE PARTIDA

O que mais estimulava nossos defeitos era o medo egocêntrico – especialmente o medo de perder algo que já possuíamos ou de não ganhar algo que buscávamos. Vivendo numa base de exigências não atendidas, ficávamos num constante estado de perturbação e frustração. Portanto, não conseguíamos a paz, a não ser que pudéssemos encontrar um medo de reduzir essas exigências.

Apesar de sua costumeira força destrutiva, descobrimos que o medo pode ser o ponto de partida para coisas melhores. Pode ser o caminho para a prudência e para um conveniente respeito em relação aos outros. Ele pode indicar o caminho tanto da justiça como do ódio. E quanto mais respeito e justiça tivermos, mais depressa começaremos a encontrar o amor que tolera o sofrimento e no entanto se dá livremente. Assim sendo, o medo não precisa ser sempre destrutivo, porque as lições de suas conseqüências podem nos levar a valores positivo.

O SISTEMA ECONÔMICO DE DEUS

“No sistema econômico de Deus, nada é desperdiçado. Através do fracasso, aprendemos uma lição de humildade que é provavelmente necessária, por mais dolorosa que seja.”

Nem sempre chegamos mais perto da sabedoria por causa de nossas virtudes; nossa melhor compreensão frequentemente tem fundamento nos sofrimentos de nossos antigos desatinos. Pelo fato disso ter sido a essência de nossa experiência individual, é também a essência de nossa experiência como irmandade.

SONFRIMENTO TRANSFORMADO

“A. A. não é nenhum sucesso no sentido comum da palavra. É a história do sofrimento transformado, pela graça de Deus, em progresso espiritual.”

Para o Dr. Bob, a necessidade insaciável do álcool era evidentemente um fenômeno físico que o atormentou durante alguns de seus primeiro anos de A. A., uma época em que levar a mensagem a outros alcoólicos, dia e noite, era a única coisa que fazia com que se esquecesse da bebida. Apesar de sua necessidade ser difícil de resistir, sem dúvida ela gerou grande motivação para o grupo Número Um de Akron ser formado.
O despertar espiritual do Bob não veio tão facilmente; foi penosamente lento. Sempre exigiu o trabalho mais duro e uma apurada vigilância.

A FORÇA NASCENDO DA FRAQUEZA
Se estamos dispostos a parar de beber, não podemos abrigar, de forma nenhuma, a esperança de que um dia seremos inumes ao álcool.

Tal é o paradoxo da recuperação em A. A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa, a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova.

PERDA DE MEDOS FINANCEIROS

Quando o trabalho era apenas um meio de obter dinheiro, ao invés de uma oportunidade para servir, quando a aquisição de dinheiro para a garantia de nossa independência financeira era mais importante do que uma total dependência de Deus, éramos vítimas de medos descabidos. E esses eram medos que tornariam impossível uma existência serena e útil, em qualquer nível financeiro.
Mas com o passar do tempo, descobrimos que com a ajuda dos Doze Passos de A. A. poderíamos perder esses medos, não importando quais fossem nossas possibilidades materiais. Poderíamos com alegria executar tarefas humildes, sem nos preocupar com o amanhã. Se as coisas iam bem, já não receávamos uma mudança para pior, pois havíamos aprendido que nossos problemas poderiam ser transformados em valores positivos, tanto para nós como para os outros.

ENFRENTANDO A ADVERSIDADE

“Nosso crescimento espiritual e emocional em A. A. não depende tanto do nosso sucesso quando de nossos fracassos e contratempos. Se você tiver isso em mente, acho que sua recaída terá o efeito de empurrá-lo escadas acima, em vez de para baixo.
“Para nós, Aas, a melhor professora que tivemos foi a Adversidade, sempre que não nos recusamos a aprender.”

“De vez em quando somos vítimas da crítica. Quando estamos irritados e feridos, é difícil não pagar na mesma moeda. Entretanto, podemos nos afastar e então nos examinar, perguntando se essas críticas têm fundamento. Se assim for, podemos admitir nossos defeitos para eles. Geralmente isso leva a um entendimento mútuo.
“Suponhamos que nossos críticos sejam injustos. Podemos tentar persuadi-los com calma. Se continuarem com o falatório, ainda assim podemos perdoá-los – de coração. Talvez o senso de humor possa ser nossa salvação, permitindo-nos tanto perdoar quanto esquecer.”

PRISIONEIROS LIBERTADOS

Carta a um grupo numa prisão:

“Todo AA foi, num certo sentido, um prisioneiro. Cada um de nós se fechou à margem da sociedade; cada um de nós conheceu o estigma social. Para vocês, tudo tem sido ainda mais difícil: no seu caso, também a sociedade construiu uma muralha a seu redor. Mas não existe realmente uma diferença essencial; esse é um fato que praticamente todos os Aas, agora sabem.
“Portanto, quando vocês, membros, ingressarem no mundo de A. A. fora da prisão, podem ter certeza de que ninguém vai se preocupar com o fato de que vocês cumpriram pena. O que vocês estão tentando ser, e não o que foram, é tudo o que nos importa.”

“Às vezes, as dificuldades mentais e emocionais são muito difíceis de suportar quando estamos tentando manter a sobriedade. Contudo, com o passar do tempo, percebemos que superar esses problemas constitui o verdadeiro teste do modo de vida de A. A. A adversidade nos dá mais oportunidade de crescer do que a comodidade ou o sucesso.”

DAR GRAÇAS

Embora eu ainda ache difícil aceitar a dor e a ansiedade de hoje com um certo grau de serenidade – como as pessoas mais adiantadas na vida espiritual parecem conseguir aceitar – posso contudo agradecer as dores presentes.
Encontro disposição para fazê-lo, ao recordar as lições aprendidas através do sofrimento passado – lições que têm me levado às bênçãos que agora desfruto. Posso recordar como as agonias do alcoolismo, a dor da revolta e do orgulho ferido frequentemente me levaram à graça de Deus, e portanto a uma nova liberdade.

CRÍTICA BEM VINDA

“Muito obrigado por sua carta de crítica. Estou certo de que, se não fosse por suas críticas violentas, A. A. teria progredido mais lentamente.
“Quanto a mim, cheguei ao ponto de dar grande valor às pessoas que me criticaram, fossem críticas justas ou injustas. Tanto uma como outra, muitas vezes me impediram de fazer coisas piores do que realmente tenho feito. Espero que as críticas injustas tenham me ensinado a ter um pouco de paciência. Mas as justas têm sempre prestado um grande serviço a todos os membros de A. A. – e têm me ensinado muitas lições valiosas.”

(Fonte: Na Opinião do Bill – páginas: 3-22-31-35-49-75-184-234-266-326)

CRESCIMENTO – DE A.A. OU DO GRUPO – NA OPINIÃO DO BILL

CRESCIMENTO – DE A. A. OU DO GRUPO
“Na Opinião do Bill”

O SISTEMA ECONÔMICO DE DEUS

“No sistema econômico de Deus, nada e desperdiçado. Através do fracasso, aprendemos uma lição de humildade que é provavelmente necessária, por mais dolorosa que seja.”

Nem sempre chegamos mais perto da sabedoria por causa de nossas virtudes; nossa melhor compreensão frequentemente tem fundamento os sofrimentos de nossos antigos desatinos. Pelo fato disso ter sido a essência de nossa experiência individual, é também a essência de nossa experiência como irmandade.

A.A.: ANARQUIA BENÍGNA E DEMOCRACIA

Quando chegamos em A. A., encontramos uma liberdade pessoal maior do que qualquer outra sociedade conhece. Não somos obrigados a fazer nada. Nesse sentido, essa sociedade é uma anarquia benigna. A palavra “anarquia” tem um mau significado para a maioria de nós. Mas acho que o idealista que primeiro advogou a idéia, sentia que se os homens tivessem garantido liberdade absoluta e não fossem obrigados a obedecer ninguém, eles então voluntariamente se associariam a um interesse comum. A. A. é uma associação do tipo benigno que ele imaginou.
Mas quando tivemos que entrar em ação – para funcionar com grupos – descobrimos que tínhamos que ser uma democracia. À medida que os primeiro membros iam-se retirando, começamos a eleger nossos servidores por maioria de votos. Cada grupo, nesse sentido, tornou-se uma reunião democrática. Todos os planos de ação do grupo tinham de ser aprovados pela maioria. Isso significava que nenhum indivíduo poderia decidir por seu grupo ou por a. A. como um todo. A ditadura ou o paternalismo não são para nós.

CRESCIMENTO PELO DÉCIMO PASSO

Naturalmente, no decorrer dos próximos anos, cometeremos erros. A experiência nos tem ensinado que não precisamos ter medo de cometê-los, desde que mantenhamos a disposição para confessar nossas faltas e corrigi-las prontamente. Nosso crescimento como indivíduos tem dependido desse saudável processo de ensaio e erro. Assim crescerá nossa irmandade.
Devemos sempre nos lembrar de que qualquer sociedade de homens e mulheres que não podem corrigir livremente suas próprias faltas, inevitavelmente chega à decadência e até mesmo ao colapso. Esse é o castigo universal por não continuar crescendo. Assim, cada AA deve continuar fazendo seu inventário moral e atuar de acordo como ele, do mesmo modo nossa sociedade como um todo deve fazer, se quisermos sobreviver e prestar serviço de maneira proveitosa e satisfatória.

AS DIFICULDADES TORNAM-SE BENEFÍCIO

“Penso que essa Conferência de Serviços Gerais, em particular, foi promissora e trouxe muitos progressos justamente porque atravessou dificuldades e transformou essas dificuldades em benefícios, crescimento e numa grande promessa.
“A. A. nasceu da dificuldade, uma das mais sérias dificuldades que pode acontecer a um indivíduo: a dificuldade que acompanha essa sombria e fatal doença do alcoolismo. Cada um de nós chegou em A. A. cheio de dificuldades, dificuldades impossíveis e desesperadoras. E foi por isso que viemos.
“Se essa Conferência foi agitada, se pessoas ficaram profundamente perturbadas, penso que isso é ótimo. Que parlamento, que república, que democracia que não sofreu perturbações? O atrito entre pontos de vista opostos é o próprio ‘modus operandi’ sobre o qual eles atuam. Então, do que deveríamos ter medo?”

OPORTUNIDADE PARA MELHORAR

Viemos a acreditar que os Passos para a recuperação e as Tradições de A. A. representam praticamente as verdades que precisamos para nosso propósito particular. Quanto mais os praticamos mais gostamos deles. Assim sendo, é quase certo que os princípios de A. A. continuarão a ser defendidos em sua forma atual.
Se nossos fundamentos estão assim firmemente fixados, o que resta então para mudar ou melhorar?
A resposta nos vem imediatamente. Embora não precisemos mudar nossas verdades, podemos seguramente melhorar a sua aplicação para nós mesmos, para A. A. como um todo e para nossas relações com o mundo ao nosso redor. Sempre podemos melhorar a prática “desses princípios em todas as nossas atividades”.

ESSÊNCIA DO CRESCIMENTO

Que nunca tenhamos medo das mudanças necessárias. Certamente temos que distinguir entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas já descobrimos há muito tempo que, logo que uma necessidade se torne clara para o indivíduo, para o grupo ou para A. A. como um todo, não podemos ficar parados.
A essência de todo crescimento é a disposição de mudar para melhor e uma incansável disposição para aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique.

NA ESCOLA DE VIDA DE A. A.

Suponho que dentro de A. A. sempre estaremos discutindo. Principalmente sobre como fazer para levar o melhor a um maior número de bêbados. É provável que tenhamos discussões infantis sobre pequenas dificuldades de dinheiro ou sobre quem vai coordenar nossos grupos nos próximos seis meses. Qualquer punhado de crianças em crescimento (e isso é o que somos) não estaria sendo autêntico se agisse de outro modo.
Essas são as dores de crescimento da infância e nós, na verdade, estamos passando por elas. Superar tais problemas, na escola de vida de A. A., é um saudável exercício.

O FUTURO DA IRMANDADE

“Parece certo que A. A. pode se manter firme em qualquer lugar e em qualquer situação. A. A. cresceu acima de qualquer dependência, que alguma vez possa ter tido, de personalidades ou esforços de alguns membros mais antigos como eu. Vêm surgindo pessoas novas, capazes e vigorosas, aparecendo onde são necessárias. Além disto, A. A. atingiu maturidade espiritual suficiente para saber que sua verdadeira dependência é de Deus.”

Na verdade, nosso primeiro dever, quanto ao futuro de A. A. é o de manter em plena força o que agora temos. Só o mais vigilante cuidado pode assegurar isto. Nunca deveríamos ser embalados em complacente auto-satisfação, devido à grande aclamação e sucesso que temos em toda parte. Esta é a sutil tentação que poderia nos deixar atônitos hoje, talvez para nos desintegrar amanhã. Temos estado sempre unidos para enfrentar e vencer as falhas e crises. Os problemas têm sido nossos estimulantes. No entanto, como seremos capazes de enfrentar os problemas do sucesso?

QUANDO A INFÂNCIA TERMINA

“Você deve recordar que todo grupo de A. A. começa, como deveria, através dos esforços de alguma pessoa e seus amigos – um fundador e sua hierarquia. Não existe outro modo.
“Mas quando a infância termina, os primeiros líderes têm que abrir caminho para essa democracia que surge das raízes e eventualmente se coloca de lado a liderança auto-eleita do passado.”

Carta ao Dr. Bob.

“Em todos os lugares os grupos de A. A. assumiram as atividades de serviço. Os fundadores locais e seus amigos agora estão afastados. Por que tanta gente esquece disso, quando pensa no futuro de nossos serviços mundiais, nunca entenderei.
“Os grupos finalmente assumirão sua própria direção e talvez esbanjem a herança que receberam. É provável, contudo, que não o façam. De qualquer modo, eles realmente já cresceram: A. A. lhes pertence; vamos entregá-lo para eles.”

CRÍTICA BEM-VINDA

“Muito obrigado por sua carta de crítica. Estou certo de que, se não fosse por SUS críticas violentas, A. A. teria progredido mais lentamente.
“Quanto a mim, cheguei ao ponto de dar grande valor às pessoas que me criticaram, fossem críticas justas ou injustas. Tanto uma como outra, muitas vezes me impediram de fazer coisas piores do que realmente tenho feito. Espero que as críticas injustas tenham me ensinado a ter um pouco de paciência. Mas as justas têm sempre prestado um grande serviço a todos os membros de A. A. – e têm me ensinado muitas lições valiosas.”

(Fonte: Na Opinião do Bill – páginas: 31-50-65-82-86-115-143-207-269-326)