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UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL – LIBERTÉ – EGALITÉ – FRATERNITÉ

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Liberté – Egalité – Fraternité
Apresenta-se uma oportunidade única para vencer.
Basta ter coragem e vontade de chegar ao topo.

Diante o impasse para resolver a situação e as dificuldades pelas quais minha mãe passava, ela resolveu que o melhor seria mudarmos para França, pois lá já estavam meus irmãos Santiago e Daniel, alem de meus tios (Nonô, marido e dois filhos). Meu pai deficiente e doente por causa do derrame, ficava ali sentado e contrariado pois ele adorava sua cidade “Sitges”.
No segundo semestre de 1.961 mudamos para a França no subúrbio leste de Paris, exatamente na cidade de Gournay sur Marne, era lá que moravam minha tia Nonô e família, afinal minha mãe se sentiria menos sozinha perto de sua irmã caçula, naquelas alturas minha irmã Odette estava sozinha com três filhas e veio conosco. Meus tios já tinham mas o menos arrumado algo para alugarmos, era uma edícula térrea no fundo de um grande terreno, somente havia dois quartos e no meio a cozinha, o banheiro (privada) estava fora, para se lavar não era nada cômodo, precisávamos esquentar água e dar um jeito para lavar o corpo em pé numa bacia na cozinha, ou seja nenhum conforto, e um frio desgraçado porque somente havia o fogão a lenha na cozinha e
deixávamos as portas dos quartos abertas para que esses quartos não estivessem muito frios. Ali morávamos meus pais meu irmão Daniel, minha irmã Odette com as três filhas pequenas e eu, para dormir era um quarto para os homens e outro para as mulheres.
Tinha estudado na Espanha ate os treze anos, não sei se o meu histórico escolar era ou não reconhecido lá na França, mas o que sim sei é que ninguém (nem meus tios nem meus irmãos) acharam que eu poderia continuar a estudar na França, e pelo visto tinha chegado minha hora de “pegar no batente” quero dizer de começar a ganhar algum ordenado para contribuir com as despesas de casa.
Após os traumas da infância vividos em Sitges, onde me senti um “afligido” sem direito a um pai e um modo de vida “normal” como tinham todos meus amigos, me encontrava de repente num outro país aonde ninguém me conhecia nem sabia das minhas aflições e problemas, lá seria mais um cidadão como os outros e com as mesmas chances, viva a “Liberté, Egalité, Fraternité”.
Não tive nenhum problema quanto à língua, pois já de criança minha mãe sempre conversou em casa em francês, as vezes brincando outras não, também na escola tinha o francês como matéria e sempre tivera muito boas notas sem fazer o mínimo esforço. Agora, seria necessário aguardar o meu aniversário em dezembro para completar quatorze anos, pois pela lei francesa era a idade mínima para trabalhar. Tinha tentado conseguir um emprego antes mas sem sucesso por causa da idade, numa concessionária Peugeot no almoxarifado e numa fabrica de
doces, confesso que em ambas as tentativas durante a entrevista estava muito nervoso e frustrado por ser candidato a um cargo do tipo “operário”.
Em fevereiro de 1.962 tinha rabiscado no jornal “France soir” alguns anúncios, um deles era para trabalhar como office boy num escritório, a S.E.T.A.P. era um renomado escritório de urbanização e arquitetura cujos donos eram os três maiores arquitetos de Paris na época, entre os
grandes empreendimentos estavam terminando o projeto da cidade de Abidjan na costa de marfim na áfrica. Meu tio (o marido da Nonô) que tinha um cargo executivo na diretoria de uma empresa fez questão de me acompanhar na entrevista de apresentação de modo a dar uma força e me ajudar a obter o cargo, e deu certo, no dia da entrevista foi quase somente ele quem falou, explicando a situação em casa e da importância e necessidade em eu conseguir aquele trabalho.
Nos primeiros dias do mês de março de 62 começava neste meu primeiro emprego, ficava próximo ao arco do triunfo (Place de L’Etoile), na zona oeste de Paris, para chegar ao trabalho pegava um ônibus de minha casa até Paris e depois o metrô que me deixava a 50 metros do
serviço, minha mãe preparava para mim todo dia a marmita para poder fazer minhas refeições no trabalho, bastava somente comprar meia baguette enquanto deixava a marmita esquentar no banho maria. Minhas atribuições eram de ir onde me mandassem para levar ou trazer
documentos, passagens de avião para os arquitetos que viajavam muito, comprar cigarros para quem precisasse, ou simplesmente comprar um doce para alguma secretária. Entrosei-me muito bem com o trabalho, após alguns meses conhecia Paris e as linhas de metrô como a palma de minha mão, o pessoal gostava muito de mim. Foi nessa época que comecei a tomar gosto pelo fumo, aguardava o horário do almoço e durante o tempo que o pessoal saía para ir almoçar fora
eu fazia uma blitz no escritório e pegava cigarros daqueles que por ventura tivessem esquecido seu maço de cigarros no escritório. Eram muitos desenhistas trabalhando nas pranchetas e rapidamente me interessei pelo que faziam, pois é claro que eu não iria passar toda minha vida comprando cigarros e doces para os outros . . . . tinha pressa.
Soube que na escola de “Arts et Métiers” havia cursos de desenhista, fiz a inscrição e comecei, somente fui duas ou três semanas, eram cursos noturnos gratuitos mas para mim se tornou inviável continuar por causa dos horários porque morava no subúrbio. Mesmo assim, no trabalho, durante o horário do almoço aproveitava para treinar em alguma prancheta vazia, inicialmente calcava (copiava), ou seja, fixava um desenho original na prancheta e por cima punha um papel vegetal, daí calcava por cima reproduzindo o desenho. Em poucos meses eu
achava que já sabia desenhar, e tinha outros colegas mais antigos que também desejavam uma promoção para desenhista, como que não tinha paciência para ficar esperando na fila, achei que deveria procurar uma oportunidade em outra empresa me candidatando de cara como desenhista.
No mesmo bairro, perto do meu primeiro emprego surgiu uma vaga para desenhista numa das maiores empresas de instalações hidráulicas, desta vez fui na entrevista sozinho e marcamos num sábado de manhã para fazer o teste de admissão, desta maneira se não passasse
pelo teste não perderia o emprego onde trabalhava. Passei muito bem no teste, não sei se era pela qualidade do teste ou se o empregador percebia que estava com muita garra para subir na vida, resultado, fui admitido imediatamente. Nesse novo emprego eu era o único desenhista e como havia bastante trabalho aprendi rapidamente a desenhar. Com o passar do tempo estava curioso em saber como se faziam os cálculos das tubulações que eu desenhava, seguindo o mesmo procedimento do meu primeiro emprego durante o horário do almoço lia os livros técnicos e sempre havia por perto um engenheiro que me explicava com detalhes o “como fazer os cálculos”. Eu brincava com todos os funcionários, eu era o mais novo da empresa e tudo indica
que eles gostavam muito de mim, ninguém sabia sobre meus assuntos pessoais e meu passado, mas meu dinamismo e persistência no trabalho agradavam a todos. Um dia havia uma greve do metrô mas os ônibus funcionavam normalmente, não tive problema para ir de minha casa até Paris de ônibus, mas depois percebi que o metrô não funcionava mesmo, fui andando e atravessei Paris da zona leste até a zona oeste onde trabalhava, demorei umas duas horas a pé mas cheguei ao trabalho, os diretores não acreditavam mesmo e, minha reputação neste dia foi lá em cima, foi bom para mim. O almoço de confraternização de fim de ano, foi feito num dos melhores
restaurantes do XVI distrito de Paris perto do trabalho, era no famoso restaurante “Le Berlioz”, como caçula da empresa virei atração todos brincaram comigo, um garçom passou com uma bandeja de prata oferecendo cigarros a charutos avulso, enfiei as mãos e ia botando no meu bolso incentivado a fazê-lo pelos colegas mais antigos, acho que estoquei cigarros para mas de um mês.
Neste almoço se a memória não me falha tomei o meu primeiro porre de minha vida, pois por se tratar de um banquete com cada um dos pratos era servido o vinho adequado e, haja mistura até chegar ao licor, voltei como pode até casa mas lembro que estava completamente tonto e minha mãe percebeu.
Um dia, saindo do serviço no fim do expediente ia pegar o metrô para voltar para casa, havia um camelô vendendo seus truques de magia, era o “Renelys”, fazia demonstrações com muita habilidade, me chamou muito a atenção e me interessei no assunto, alem do mais no trabalho havia um colega que era prestidigitador daí fiquei realmente contagiado, comecei a sonhar que poderia estar um dia fazendo um show onde sozinho iria intrigar os espectadores curiosos para conhecer meus truques, e desta vez eu dominaria a situação, não iria mais ser
aquele “mais um” e me destacaria entre multidões, poderia ser alguém famoso. Além dos meus empregos comecei a engrenar nesta direção da prestidigitação, comprei bastante material, livros e pratiquei bastante na manipulação de cartas, lenços e muitas coisas mais, também me inscrevi em associações, levava o assunto muito a serio.
Fiquei neste emprego um ano e meio, meu irmão Daniel tinha resolvido retornar a Sitges por causa da Maribel sua ex-namorada que nunca tinha conseguido tirar da cabeça, por este motivo minha mãe resolveu que poderíamos voltar a Espanha. Lá vamos nós mais uma vez,
ficamos de favor em casa de minha tia Josefina durante algumas poucas semanas até que houve novamente desentendimento entre minha mãe e a Josefina. Durante esta curta estadia continuava treinando as minhas mágicas, havia em Sitges um teatro desativado, tomei a iniciativa de
conversar com a diretoria da associação para pedir autorização para fazer um show um domingo a tarde, a resposta foi afirmativa, fiz contato com um amigo que tocava o piano e planejamos o roteiro das musicas que ele tocaria durante minha apresentação. A associação de sua parte colocou um cartaz na praça principal de Sitges anunciando o evento para o domingo a tarde, eles colocaram o nome artístico que eu lhes dera, o grande “Xavier Magicus” que tinha feito muito sucesso em Paris (era tudo mentira). No dia do show o teatro estava quase lotado pois haveria uma trezentas pessoas, era gratuito e podia assistir quem quisesse, o espetáculo foi um sucesso e agradou a todos, nos dias após o evento era cumprimentado por todos na cidade, era o que eu
mais queria, em outras palavras reverter a situação da infância quando totalmente impotente pela desgraça do derrame do meu pai. Meu orgulho falava mais alto querendo mostrar que eu era alguém importante e viajado, nessas alturas eu tinha somente dezessete anos de idade.
Logo fomos morar ainda de favor num casarão vazio de uma grande amiga de mamãe, seria provisório porque logo iríamos morar em Barcelona porque era lá que estava morando o Daniel numa pensão familiar. Ainda estávamos morando no casarão em Sitges quando arrumei um emprego como técnico projetista em instalações hidráulicas e de calefação para trabalhar em Barcelona que ficava a uns 35 km de distancia, ia todo dia de trem e voltava, eram uns 45 minutos de viagem. Consegui negociar com o dono da empresa para que me pagasse o transporte que pesava bastante no meu salário, ele concordou, e mesmo assim disse a minha mãe que era eu quem tinha que pagar, como era um passe anual para circular no trajeto durante um ano, ela me adiantou o dinheiro para comprar o passe, depois a empresa acertou também comigo esta despesa o que significa que lucrei com o dinheiro equivalente a um ano de transporte por trem de Sitges a Barcelona, guardei este dinheiro nos meus acessórios de mágica para que ninguém pudesse acha ló, e conforme ia precisando ia tirando dinheiro do meu esconderijo. Minha irmã com suas filhas
pequenas continuavam morando conosco, ela arrumou um emprego como telefonista de um hotel recém construído, era o Hotel Calípolis, já na condição de mãe solteira porque tinha se desquitado do marido inglês pai das três primeiras filhas, nesse emprego ganhou mais uma
gravidez com um rapaz casado (mas que dizia ser solteiro) que trabalhava no almoxarifado do hotel, a quarta filha Silvia nasceu posteriormente em Barcelona, sem recursos, minha irmã pleiteou em deixá-la com umas freiras e abandoná-la, mas o amor de mãe foi mais forte e a pegou de volta.
Quando mudamos para Barcelona meu irmão Daniel não morava mais lá, simplesmente brigou com a namorada e tinha voltado à França, fomos morar num bairro bem central, meus pais, irmã e filhas, a uma quadra da Universidade, como o apartamento era muito grande minha
mãe alugava um quarto em permanência para estudantes da universidade, assim conseguia mais um recurso para as despesas da casa, eu continuava a trabalhar no mesmo emprego mas não precisava mais pegar o trem, ia ao trabalho a pé e demorava uns quinze minutos, uma das vantagens era que não precisava mais comer sanduíche no almoço podia ir almoçar em casa.
Conheci neste emprego o que iria ser meu grande amigo da juventude o “Fede” diminutivo de Federico, foi uma amizade que marcou muito nessa idade e acho que deva ser para qualquer um, pois se passa por experiências inesquecíveis como o primeiro carro, a primeira garota, e o grande desejo de mostrar permanentemente aos outros que a gente existe. Com o Fede íamos de férias, passávamos fins de semanas em Sitges onde havia muitas garotas no verão e sempre cada um com seu carro porque não sabíamos se ficaríamos com alguém, quase todo fim de semana no verão estávamos lá, bebíamos muito desde cedo na praia, porque gostávamos e porque queríamos chamar a atenção das pessoas, tivemos mulheres muito bonitas e de todas as nacionalidades tanto em Sitges como em qualquer canto na Espanha, pois os dois tínhamos boa aparência. Uma certa vez fomos a Sevilla no sul do país, la ficamos durante as famosas “Férias de Sevilla”, uma festa em forma de feira onde se bebe e dança “flamenco” todas as noites até o amanhecer, conhecemos duas garotas e foi paixão a primeira vista, nos divertimos bastante durante nossa estadia, mas tudo terminou quando fomos embora. No ano seguinte fomos viajar de férias na “Costa del Sol” exatamente em Torremolinos praia que estava na moda, fizemos amizade na praia com duas moças francesas com as quais curtimos até elas voltarem à Paris, no desespero e saudade das “sevillanas” uma noite, num porre pegamos o carro e fomos até Sevilla, no dia seguinte de ressaca demos uma volta com elas e retornamos mas sossegados a Torremolinos. Com as duas francesas também havia sido a grande paixão, a que saía comigo se chamava Annie, tanto é que na volta a Barcelona eu comecei a forjar planos para irmos passar uns tempos na França, convenci ao Fede e ele também embarcou nesse projeto louco, os seus pais não queriam me ver nem de longe pois estavam achando que de uma, ou eu era veado ou louco por tirar seu filho da linha.
Em Barcelona, saiamos diariamente após o expediente seja em discotecas ou em barzinhos para beber uns vinhos e comer algumas “tapas” (petiscos), sempre íamos acompanhados de moças que conhecíamos aos domingos numa boite e que marcávamos encontro
durante a semana para dar continuidade ao flirt. Aos domingos sempre estávamos enfiados em boites, muito bem alinhados com terno da ultima moda, pagávamos entrada com direito a consumação de um drinque, para nós não era o suficiente para passar quatro horas filosofando com belas garotas, daí a razão que levássemos um estojo bem cheio com conhaque que guardávamos no bolso do paletó, assim era mais barato beber que se fossemos pedir mais bebida ao garçom, todo domingo era a mesma coisa ou seja tomávamos um porre para curtir “plenamente” às garotas, uma delas foi a Fuensanta, menina simpática e bonita de rosto mas de baixa estatura, só por este fato eu achava que estava lhe fazendo um favor de flertar com ela, hoje
entendo que fui muito sem vergonha pois ela estava apaixonada por mim e não merecia ser tratada como a tratei. Desde a janela da minha sala de trabalho que era no décimo terceiro andar
dava para perceber no pátio interno do prédio as janelas dos moradores do mesmo prédio, pois ele era triangular e tinha três alas, somente uma delas era destinada a escritórios, ficava olhando e paquerando tanto as empregadas na área de serviço como as moças de boa família cujos
dormitórios também davam para o pátio, um dia conheci e fiz gestos para cumprimentar uma bela loira, com as mãos me deu seu numero de telefone, se tratava de uma moça holandesa que passava umas semanas em casa de amigas, seu nome era Ans, marcamos encontro pelo telefone e saí com ela por vários lugares de Barcelona, se apaixonou por mim mas do que eu por ela, era de uma família riquíssima holandesa, após sua partida mantivemos contato por correspondência.
Totalmente decidido a voltar à França comuniquei a noticia aos meus pais e ficaram assustados, pois minha ajuda financeira em casa era indispensável para sua sobrevivência, eu argumentei que precisava construir minha própria vida e que lhes enviaria dinheiro do meu
salário. Minha irmã apenas ganhava o suficiente para o sustento dela e das quatro filhas. Fui preparando as malas como para uma viagem definitiva, não deixando nada em Barcelona, o Fede fez o mesmo mas combinamos que eu iria à frente para alugar algo onde a gente pudesse morar, o dono da empresa onde trabalhávamos ficou simplesmente furioso comigo, e eu nem quis saber.
Cheguei de trem na estação de Austerlitz em Paris sem endereço para morar, com muita bagagem, algumas economias, o suficiente para sobreviver até arrumar um emprego, meus irmãos moravam la mas não avisei ninguém sobre minha ida à França (questão de orgulho e
independência), as viagens de trem eram sempre noturnas, as saídas era às 16 horas de Barcelona e chegava-se em Paris às 8 horas da manhã. A primeira coisa que fiz descendo do trem foi ir até a
lanchonete para tomar o café da manhã, baguette fresca com manteiga e café com leite, tinha outro sabor, era uma delicia, liguei da cabine de telefone a Annie explicando que tinha acabado de chegar em Paris. Carregado com bagagem feito uma mula fui até a casa de um tio em Enghien para ver se poderia me hospedar durante os primeiros dias, almocei com ele e sua mulher mas inventaram que não tinham lugar para eu dormir la, entendi o recado e fui embora decepcionado.
Peguei novamente o trem de subúrbio e o metrô e fui até o endereço de trabalho da Annie, aguardei na porta do escritório até que ela descesse, foi um agradável reencontro tête à Tetê matando saudades desde nosso ultimo encontro em Torremolinos, fomos até um hotel do bairro reservar um quarto para poder passar a primeira noite.
Em menos de uma semana tinha arrumado um quarto num hotel que alugava por mês sempre mais em conta que as diárias, ali dava para hospedarmos eu e o Fede. Durante os primeiros dias fiquei lendo os jornais para arrumar um emprego, costumava almoçar com a Annie e ia buscá-la no fim do expediente para passarmos alguns momentos juntos antes dela voltar pra casa no subúrbio sul de Paris.
Liguei para o Fede e disse a ele que já tínhamos onde nos hospedar, dei lhe o endereço do hotel e sinal verde para vir à Paris. Uns dias depois eu estava dormindo no hotel com a Annie e de manhã bateram na porta do quarto, surpresa era o Fede que tinha chegado, sem falar francês
se virou para chegar até lá. Foram uns dias muito divertidos vivendo as aventuras e sonhos de dois rapazes jovens com sede de viver novas emoções, ele dependia muito de mim, eu insistia em
que aprendesse logo a falar francês senão ia se dar mal, um dia fiquei de saco cheio, íamos pegar o metrô e precisava comprar um passe semanal para viajar tranqüilo durante uma semana com o mesmo bilhete, la na França chamava-se de “carte de metrô” obriguei ele a se virar sozinho para comprar o passe e ele pediu no guichê “une lettre” a moça não entendia nada pois ali não era o correio, precisei intervir e ajuda-lo a comprar o passe. Ele saía com a amiga da Annie, saiamos os
quatro, tentou vários empregos mas nada conseguiu, estava com muitas saudades de sua casa por ser a primeira vez que saía da casa dos pais, não demorou muito em querer voltar à Barcelona, alem do mais a grana ia acabando e não ganhava nada, acho que ele ficou no máximo um mês em Paris e voltou à Barcelona.
Arrumei logo um emprego e comecei a trabalhar, de noite dormia no meu quarto no hotel, às vezes aproveitava o horário de almoço e ia almoçar com a Annie pois não trabalhávamos muito longe um do outro, todo fim de mês quando recebia meu pagamento ia ao correio e enviava dinheiro aos meus pais em Barcelona.
Um dia estava no serviço e o carteiro trazia uma carta certificada aos meus cuidados, não entendia nem imaginava quem podia estar enviando, assinei o documento de recebimento e abri, era uma carta e uma passagem de ida e volta que à Ans (Holandesa que conheci em
Barcelona) estava enviando para que eu fosse visitá-la na Holanda, não sei como chegou a me localizar mas acredito que tenha enviado ao meu antigo endereço em Barcelona e que de lá tenha seguido até o meu serviço em Paris. Pedi licença por alguns dias no meu serviço e la vou eu para Holanda de trem, mais uma aventura pela frente, a Ans de família riquíssima me apresentou à família e amigos como filho de um Conde de Barcelona, não sei porque ela tinha inventado essa
historia, talvez assim fosse um romântico conto de fadas que ela estaria vivendo. Sua família gostou muito de mim, o tempo passou rapidamente na Holanda, todo dia com festas e sem fazer nada, passaram algumas semanas e retornei à Paris, os pais da Ans deixaram em aberto o convite para que fosse visitá-los quando bem entendesse. Quando voltei ao serviço fui comunicado de minha demissão, acertaram minhas contas e fui embora, aonde?, peguei o trem a noite daquele
mesmo dia e voltava à Barcelona.
Meus pais super felizes por eu estar de volta ao lar, o Fede já tinha arrumado outro trabalho e desta vez estava mais calmo e sossegado. Andei trabalhando por períodos curtos em vários lugares e varias profissões, como entregador de produtos para salões de cabeleireiro, numa fabrica de cimento como desenhista, etc. um estudante argentino que alugava o quarto para dormir em nosso apartamento me fez logo propostas para montarmos algum negócio juntos, sei que fomos os dois trabalhar numa firma que vendia lotes de terreno no litoral sul de Barcelona, nós dois cuidávamos da parte comercial e do quadro de vendas, trabalhamos durante alguns meses até descobrir que o suposto dono não era proprietário dos terrenos, simplesmente ele comprava do dono quando fechava a venda de um lote, não demorou e fomos embora.
Devido ao fato de ser filho de pai espanhol e mãe francesa tinha dupla nacionalidade até os 21 anos, idade esta que deveria optar por uma ou outra nacionalidade, como que me sentia alguém bem sucedido e importante na época que vendíamos terrenos, resolvi ficar com a
nacionalidade espanhola e repudiar a francesa, foi o que fiz indo até o consulado francês, com um detalhe, não devolvi meus documentos franceses e prometi leva-los posteriormente, mas não os levei. Passou-se pouco tempo para que já me arrependesse de ter repudiado a nacionalidade francesa, pois quando terminou a fase eufórica dos terrenos fiquei sem nenhum emprego em vista, as saudades da França voltaram logo mas não podia mais voltar porque estava em idade de
prestar meu serviço ao exército espanhol. Não tinha a mínima chance de voltar à França legalmente a menos que passasse a fronteira com os documentos franceses que nunca devolvi mas que não tinha o direito de usá-los por ter repudiado e assinado um documento, não pensei
duas vezes em tomar o risco, afinal na fronteira os “gendarmes” nunca saberiam que não tinha o direito de usar o passaporte de todas formas ainda estava com data válida e era um documento original. O trem que me levaria à Paris novamente parava na fronteira em Cerbère a primeira estação em território francês, antes devia passar pela policia espanhola carimbando o passaporte e em seguida os gendarmes franceses o carimbavam novamente para a entrada na França, precisei
interpretar o papel de legitimo francês perante a policia espanhola, quando me pediram o passaporte eu fiz questão de falar o francês de modo a não levantar nenhuma suspeita e com os gendarmes simplesmente falei seu idioma o que resultou numa entrada na França clandestina mas bem sucedida, uma vez dentro do trem francês quando partiu de Cerbère respirei fundo e aliviado, agora somente restava resolver mais pra frente o problema em Paris para regularizar minha situação.
Já tinha combinado com o Santiago, e ele se ofereceu para que me hospedasse em sua casa, como não gostava de favores por causa de meu orgulho, disse a ele que seria provisoriamente até regularizar minha situação, tanto para arrumar documentos como para conseguir trabalho. Sabendo que estava na França em situação ilegal, fiquei preocupado porque sabia que os franceses não brincam com as leis e que possivelmente poderia ser posto para fora e levado até a fronteira espanhola e entregue as autoridades. Uns dias após minha chegada fui até a Policia em Paris, expus meu caso e mandaram aguardar, veio o policial e pegou todos os meus dados para que pudesse ser localizado a qualquer momento, ele bateu um documento provisório explicando que já tinha me apresentado as autoridades Francesas e me diz para voltar na semana seguinte com dia e hora marcados para que me comunicassem a decisão, e saber se poderia ou não ficar na França. Voltei à policia na semana seguinte, bastante nervoso e preocupado tinha até me despedido do meu irmão Santiago e família, estava convencido que não voltaria e que seria deportado à Espanha, o policial mandou-me esperar e disse que iria ser recebido pelo seu chefe,
pouco eu podia imaginar o que me estava esperando.
Fui convidado a entrar na sala do chefe da policia:
– O que você está fazendo na França se você repudiou à nacionalidade francesa?
– É que logo eu me arrependi, respondi.
– Vou confiscar seu passaporte e sua carteira de identidade, você está infringindo a lei, não tem mais o direito de usar esses documentos, você não é mais francês. Vejamos, você já trabalhou alguns anos aqui quando era mais moço?
– Sim, é verdade
– Você é espanhol, nascido em ……. Sitges. Que coincidência, justamente na próxima
semana minha mulher e minha filha estão indo à Sitges passar uns dias de férias, você conhece bem a cidade?, parece que é muito bonita, não é mesmo?
– Claro que conheço, sou de lá e conheço todo o mundo (nesse momento acreditei que eu poderia interferir e ajudar em alguma coisa).
– Elas fizeram reserva no Hotel Sofia, você conhece esse hotel?
– Obvio, pois a Natália dona do hotel aprendeu a falar o francês com minha mãe que dava aulas de francês para ela, se o senhor quiser posso ligar para proprietária do hotel e tenha certeza que serão muito bem atendidas.
Não deu outra, nossa conversa foi muito simpática e amistosa, ele mandou bater uma certidão provisória para morar na França, válida para três meses. Quando voltei para renovar a validade do documento três meses depois não tive o menor problema, fiz questão de perguntar ao chefe de policia sobre as férias de sua esposa e filha e ele me agradeceu muito por tudo, daí em diante iniciei o processo de abertura para residente estrangeiro e tudo continuou normalmente, em fim poderia morar na França mesmo com o estatuto de estrangeiro, melhor assim que morar na Espanha que naquela época estava sob o regime da ditadura Franquista. Assim que minhas papeladas na França estiveram em andamento fui me apresentar ao Consulado Espanhol em Paris, ali as noticias eram menos boas, procuraram saber como estava minha situação militar e fui considerado desertor pelo exército. Foi lavrado um pedido de indulto, eu me apresentava periodicamente ao Consulado duas vezes por ano, após dois anos foi concedido o indulto e dispensado de me apresentar às forças armadas, isto é, podia novamente voltar a Espanha sem perigo de ir para cadeia.
Desta vez firmei pé na França, trabalhava na firma do Santiago e morava na casa dele em Gournay sur Marne, o escritório ficava no pavimento térreo e morávamos no primeiro andar, meu outro irmão Daniel que ainda era solteiro também morava lá. Sempre achei que não iria dar certo de trabalhar com irmãos, mas no momento não tinha outra escolha. Nunca esquecerei que minha cunhada Rolande esposa do Santiago era cozinheira de mão cheia, ela trabalhava fora, num escritório em Montrouge no subúrbio sul de Paris como secretaria e também secretariava a firma do Santiago por ser pequena. Eu, o ultimo a chegar na França contava piadas da Espanha o tempo todo, misturava o idioma francês com o catalão e eles não paravam de dar risadas,
lembrávamos, longe de Sitges dos acontecimentos da nossa infância. O Santiago quando era época ia caçar aos domingos com seu dois cachorros; um epagneul Breton que chamávamos de Cartouche, e uma cocker preta e branco que se chamava Katy, sempre voltava com perdizes, faisões, patos selvagens, coelhos e lebres, durante a semana minha cunhada cozinhava e comíamos no jantar sempre com excelentes vinhos franceses. Durante a semana almoçávamos o Santiago, Daniel e eu sozinhos, mas a noite jantávamos todos juntos com a cunhada e os três sobrinhos.
Santiago era daqueles que gostava muito de bebida, não sei se ele é ou não alcoólico, mas com freqüência bebia alem do normal. Quando chegavam os tonéis com os vinhos que ele tinha encomendado era eu quem ia à adega para encher as garrafas, era divertido para mim porque bebia a vontade sem que ninguém percebesse o quanto tinha bebido, afinal eu dizia que somente tinha experimentado um pouco.
Fiquei somente três meses registrado na firma do Santiago, ele compreendeu que eu queria voar com minhas próprias asas, arrumei um emprego em Paris num escritório de engenharia para projetos de instalações hidráulicas e de calefação. Pegava o trem todo dia e meu
serviço ficava próximo à estação Gare de L’Est, descendo do trem ia a pé até o serviço, durante uns meses peguei o habito enquanto aguardava o trem cedo de manhã, de tomar um cafezinho e
uma aguardente no balcão da estação de trem, minha justificativa era porque estava frio e também porque tinha que ser macho.
Naquelas alturas, o Santiago chegou a ganhar algum bom dinheiro com sua firma, para investir decidiu comprar um terreno numa cidade vizinha para construir uma casa para meus pais, juntou o útil ao agradável aplicar seu dinheiro e ajudar aos meus pais, minha cunhada estava de acordo porque sempre foi gananciosa mas no que diz respeito aos meus pais, neste ponto ela nunca se deu muito bem com a minha mãe.
Como eu tinha voltado à França, as coisas em Barcelona não ficaram muito bem, pois com o pouco que eu enviava aos meus pais e o pequeno ordenado de minha irmã não era o suficiente para sobreviverem, tinha chamado a atenção varias vezes de Santiago e de Daniel sobre este assunto mas faziam-se de surdos ignorando a questão.
Quando o Santiago iniciou a construção da casa, empolgado disse aos meus pais para mudarem à França junto com a minha irmã e filhas e que uma vez lá na França daria um jeito, na casa somente tinha o porão pronto, faltava o pavimento térreo e o telhado. Meus pais avisaram que iriam chegar a Paris numa data determinada, meus irmãos muito irresponsáveis nem sequer foram até a estação do trem para buscá-los, eu tinha chegado cedo na Gare d’Austerlitz.
Provisoriamente se hospedaram na casa de meus tios no porão, e as refeições eram feitas na lavanderia, diante da euforia do Santiago agora meus pais teriam que aturar o descontentamento de meu tio que por natureza era neurótico e “bocudo”. Uns dias depois eu fui la para morar com eles no porão, dormíamos os três no mesmo quarto, sabendo que a gente não podia ficar la por muito tempo e sem saber quando meu irmão iria terminar a obra para ir morarmos la. Durante este período minha irmã Odette aguardava em Barcelona para vir se juntar a nós com suas filhas.
Eu continuava firme no emprego, fiz novas amizades e a firma estava satisfeita com meu desempenho, logo comprei um carro praticamente novo com 6.000 km rodados, era um Fiat 124, me sentia a pessoa mais feliz da terra, comprado com minhas economias fruto do meu trabalho.
O primeiro carro que tive em Barcelona era um Renault modelo “Dauphine”, minha mãe tinha sido meu avalista mas com meu trabalho ia pagando as prestações, desta vez já estava comprando o Fiat a vista, estava progredindo.
O Daniel conseguiu que os pais de sua namorada nos alugassem um andar na casa deles em Champigny sur Marne, a uns 20 km de Gournay, novamente mudamos meus pais e eu para o novo endereço aguardando que a construção de Champs ficasse pronta. Sem mais recursos, minha irmã precisou vir à França rapidamente, a primeira semana se hospedou num quarto de hotel com as quatro filhas enquanto Santiago mandava arrumar o porão da nova casa para que
pudessem fazer a mudança, meus pais e eu também fomos para la quando a casa ficou “quase” pronta. Estávamos todos juntos novamente, minha irmã e filhas no porão da casa bem arrumado e
de forma independente, e meus pais e eu no pavimento térreo, para mim as coisas não podiam estar melhor pois ganhava bem minha vida e estava progredindo profissionalmente, tinha carro e boas roupas para me vestir, quando dava vontade viajava, estive varias outras vezes na Holanda com a Ans, passei até uns feriados de Natal e Ano Novo, jantamos na véspera de Natal num restaurante famoso de luxo, era indispensável vestir smoking, para mim aquilo era o máximo, que diferença da vida que tinha levado na minha infância, no meu intimo estava satisfeito por ter chegado lá no topo. Como estava na moda naquela época dos hippies, Ans fumava baseado e propus para eu fumar, eu respondi lhe que não tocava nas drogas, descriminava as pessoas que usavam drogas “ilícitas” e achava que iriam acabar um dia injetando no braço num porão escuro até morrer, mas em comparação achava que ter o prazer de beber uns drinques era a melhor coisa
do mundo sem pensar sequer aonde poderia me levar esta brincadeira.
O pai da Ans um dia dissera-me que queria conversar comigo em particular, descemos no pavimento inferior no escritório que tinha em casa, e começou a falar de mim e de sua filha Ans, deixou bem claro que gostavam muito de mim e que seria um bom marido para ela, fiquei surpreso porque eu não a amava e nunca teria pensado em me casar com ela, entretanto o luxo e a riqueza daquela família eram tentadores, nunca poderia ter imaginado que aquele senhor fosse me pedir em casamento para a filha dele, claro. Não lhe respondi, dei continuidade à conversa sem tocar de modo preciso no assunto casamento. Aquela família era a segunda fortuna da Holanda, eram muito conhecidos no mundo dos negócios pois atuavam em estaleiros, produção de madeira e no ramo imobiliário, todos os filhos trabalhavam com o pai nos negócios, visitei um dia uma usina de tratamento de madeira, muita matéria prima era importada da Finlândia e Suécia, tinham fornos imensos para secagem de madeiras.
Meu ego ficou lá em cima após ter conversado com o pai da Ans, a verdade era que meus sentimentos puros me impediam de pensar em aproveitar tal oportunidade, teria topado se realmente amasse à Ans, pensei bem os pros e os contras e achei que se tinha recebido esta
proposta que somente me interessava pela metade, provavelmente apareceriam outras oportunidades no futuro, além do mais somente tinha 23 anos e ainda tinha muito chão pela frente.
Mudei para outro emprego melhor, era um escritório de engenharia que realizava um projeto aprovado pelo então presidente da França Mr. Georges Pompidou, tratava-se do museu que levava seu nome ou também chamado por Centre Beaubourg, o escritório estava na Avenida
Réaumur Sébastopol perto de onde seria realizada a obra, participei do projeto idealizado pelos arquitetos Piano e Rogers, fazia parte do grupo de trabalho para as instalações hidráulicas, era um ambiente muito bom pois era um consorcio composto de ingleses e franceses, duas a três vezes por semana no escritório era habito improvisar um “happy hour”, la estava eu sempre na primeira fila dos habituais consumidores do bom whisky escocês. Para mim foi bom ter trabalhado no projeto seis meses, pois me dava uma boa referencia profissional, era uma obra impar, toda a estrutura do prédio era de aço cujo peso total é o dobro do peso da famosa “Tour Eiffel”, para trazer aquelas enormes vigas de aço desde o rio Sena até a obra foi preciso derrubar o bairro inteiro, as vigas eram fornecidas pelo Japão, nas grandes tubulações externas do prédio passava permanentemente água circulando internamente para o caso de haver algum incêndio.
Meu próximo emprego foi bem pertinho de onde morava com meus pais no subúrbio leste de Paris, a uns vinte quilômetros, era em Chelles e eu morava em Champs distante somente de dez minutos de carro, a empresa era pequena e os donos eram dois irmãos que tinham começado o negocio como encanadores, também faziam instalações de calefação e manutenção de caldeiras, pois por causa do clima todas as moradias tinham calefação. Topei porque os donos conheciam melhor o serviço na obra e serviços externos junto aos operários, e eu me ocuparia do escritório dos projetos e orçamentos e trataria com os clientes. Quando comecei nesta firma somente faziam instalações para residências particulares, e rapidamente começamos a trabalhar
em prédios grandes de apartamentos, a firma cresceu muito durante o tempo que trabalhei com eles sempre com muita confiança e reconhecimento por parte dos donos, chegamos a ter uma
amizade extra profissional, os dois irmãos moravam no mesmo prédio do escritório, o irmão mais velho o Bernard quase todo dia no fim do expediente me convidava para subir na casa dele tomar uns aperitivos.
Um ano depois, dando continuidade às minhas ambições pessoais pintou a oportunidade de comprar uma casa nova num loteamento que estava começando a ser construído em Thorinhy sur Marne a uns dez quilômetros de Chelles, pedi um adiantamento à firma para dar de entrada na compra, na verdade foi uma soma razoável de dinheiro que os dois irmãos me emprestaram para devolver em três vezes sem juros, era a primeira aquisição de um imóvel e o prazer era bem maior que quando comprei meu primeiro carro, em menos de um ano iria morar na “minha casa” e levaria meus pais junto, é claro. Foi sensacional para mim, com meus vintecinco anos era dono de minha casa, tinha que pagar as prestações mas depois a casa seria minha. A casa foi entregue
pela construtora conforme o prazo prometido, chaves na mão estava pronta para morar e com todos os acabamentos terminados, mudamos para la com meus pais, não tinha moveis e eu não estava nem aí, tinha toda a vida pela frente para comprar moveis e decora-la ao meu gosto,
parecia-me que tinha chegado ao meu ultimo objetivo de vida e ter dado a volta por cima aos meus problemas de infância. Aos poucos e com tempo nos fins de semana me dedicava totalmente a pequenos trabalhos em casa (bricolage), como que os quatro dormitórios ficavam no primeiro andar e meu pai não podia subir escadas encurtei a garagem e fiz um quarto somente para ele com banheiro, ficava no térreo e não havia problema para levá-lo ate seu quarto com a cadeira de rodas, lembro-me que no primeiro fim de semana subi no telhado para instalar a antena de T.V., como que não tinha nenhum eletrodoméstico já aproveitei e comprei todos os moveis para instalar a cozinha com armários embutidos e também os eletrodomésticos, construí um balcão para as refeições em lugar de uma mesa comum, fiquei feliz uma vez a cozinha ficou pronta. Contratei um empreiteiro português que fazia bicos nos fins de semana para que construísse os muros de fechamento da área do terreno e os portões de entrada para a garagem e para a casa, plantamos grama e revestimos os terraços com ardósia sem esquecer que mandei construir no porão uma adega para estocar até 3.500 garrafas de vinho, construída no capricho e
com técnicas de profissional, deixando o solo com terra, temperatura e umidade relativa adequados.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL – DA INFÂNCIA

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Da infância
Nas discussões e brigas familiares os adultos
tornam-se crianças e, as crianças sofrem como se fossem adultas.
Uma criança frágil e sensível vive num ambiente caótico que o marcará para toda a vida.

Sitges é a cidadezinha onde nasci, parece um cartão postal, fica a uns 35 km. No litoral sul de Barcelona, até hoje é uma cidade turística, na pós guerra muitos estrangeiros descobriram esse lugar maravilhoso e o tornaram famoso. Na “costa dorada” com o mar azul e ainda com pequenas embarcações dos pescadores tinha todas as características adequadas para passar férias e descansar, dava para perceber que era uma cidade artística aonde muitos artistas vinham de longe para pintar seus quadros a beira mar. Era um ambiente boêmio que evidentemente estava ligado aos artistas de modo geral, escultores, escritores, poetas e por ai afora. Os turistas (nacionais ou estrangeiros) tinham alto poder
aquisitivo, alguns deles eram proprietários das mansões construídas frente à praia na parte mais nobre da cidade. Todo ano durante as férias o numero de habitantes duplicava, eles curtiam alem das belas praias as diversas opções de lazer, como o golfe, tênis equitação entre outras. Recordo me perfeitamente do ambiente no verão, sentia-me um privilegiado pelo fato de morar lá o ano inteiro.
Meu pai também nasceu ali, sua família era totalmente catalã, tinha duas irmãs, a mais velha “Josefina” era viúva e seu marido tinha feito fortuna em Cuba, infelizmente nunca tiveram filhos. A outra irmã “Eulália” era a caçula e minha madrinha, demorou em se casar, casou-se já coroa com aproximadamente uns quarenta e cinco anos de idade, tentaram fazer um filho mas infelizmente nasceu morto. Portanto, uma família cuja sucessão somente poderia ser feita por parte da linhagem do meu pai. Três anos mais tarde Eulália e seu marido adotavam uma menina e a registraram como legitima filha deles. Obviamente que por trás disso tudo tinham em mente o que iria acontecer depois quando fossem tratar dos assuntos de herança, pois entre as posses dos
meus avos e da Josefina somados valeria seguramente a pena brigar.
Minha mãe é francesa, nasceu em Denain ao norte da França, ela completou noventa e cinco anos de idade em fevereiro de 2001, ainda moça trabalhou alguns anos como secretaria de diretoria numa firma em Paris, tinha uma irmã, a Jane mas seu apelido era “Nonô”, meu avo foi transferido para Sitges com a responsabilidade de construir uma usina de cimento a seis quilômetros da cidade num vilarejo chamado Vallcarca. Quando minha avó, minha tia Nonô e minha mãe foram pela primeira vez de férias e visitar meu avô a Sitges, ficaram impressionadas.
Foi la que meus pais se conheceram, namoraram e casaram. Minha mãe, mulher bonita elegante e de forte personalidade se adaptou sem maiores problemas no país, ela gostava muito do meu pai.
Eu era o caçula da família com cinco filhos, quatro homens e uma mulher (éramos seis, mas o Gustavo que morreu com dois anos de idade por causa de um tumor na cabeça, nunca o conheci), e como costuma acontecer sempre nas famílias com mais de um filho tive mais mimo e proteção que meus irmãos mais velhos pelo simples fato ser o caçula.
Tinha cinco anos de idade quando meu pai, por causa de um derrame ficou deficiente em uma cadeira de rodas para o resto de sua vida e foi aí que começaram a complicar as coisas no seio de minha família. Ele era alfaiate de renome e conhecido, com muito boa freguesia após
longos anos de exercício da profissão, sempre no verão tinha mais serviço, trabalhava em casa e as vezes até virava a noite para cumprir o prazo prometido aos clientes, morávamos numa casa no centro da cidade com três andares e haviam umas três ou quatro costureiras que ajudavam o meu pai durante o verão.
Nos anos cinqüenta as esposas estavam restritas a criar os filhos e se manter às tarefas rotineiras do lar, diante o novo quadro que se apresentava, como levar adiante uma família de cinco filhos com idades entre cinco e dezessete anos?
Havia mais um ingrediente para temperar tal situação, o relacionamento entre a família do meu pai e minha mãe não era dos melhores. Talvez por causa da nacionalidade de minha mãe, simpatia e relacionamento fácil que ela tinha com os que a rodeavam, ou talvez por ciúme sabendo que éramos nós os sucessores para efeitos de herança. Dez anos mais tarde minhas tias forjariam um testamento assinado pelos meus avos deixando somente uma legitima parte dos
bens (correspondente a um doze avo do total) ao meu pai e ainda com valores sub estimados, em outras palavras ficou praticamente sem nada.
Nos primeiros tempos minha mãe conseguiu com algumas reservas financeiras levar a família adiante, mas depois todos meus irmãos e irmã sem alternativa tiveram que partir a fim de tratar de suas próprias vidas, cada um por si mesmo para sobreviver.
O Santiago que já tinha se formado em engenharia iria à França para começar sua vida profissional, chegando lá e estando em idade de servir o exército foi enviado à guerra da Argélia, voltando a Paris três anos mais tarde. Desde aquela época até os dias de hoje mora na França a 80 km. de Paris no estado de Seine et Marne. Recém aposentado, casou-se três vezes e tem quatro filhos homem e duas filhas.
A Odette, minha única irmã foi para Inglaterra onde trabalharia como baby sitter pois não tinha nenhuma profissão. Faleceu em 1987 de causa desconhecida, morava perto de Paris, sei que doente tomava sedativos antidepressivos e que também gostava e bebia bastante álcool. Teve quatro filhas e um filho em dois casamentos e um amante.
O José Maria, optou pela vida religiosa e ingressou nos Padres Escolapios, dez anos depois era ordenado sacerdote naquela igreja, dez anos mais tarde eu o influenciaria a abandonar a batina. Hoje, é o único que mora perto de Barcelona numa cidade chamada La Garriga, tem
quatro filhas, duas já casadas.
O Daniel demorou ainda algum tempo antes de ir à França, pela idade e porque estava apaixonado pela “Maribel”, uma garota de Sitges. Ele tinha 9 anos quando meu pai teve o derrame, continuou uns dois anos ainda na escola, mas precisou começar logo a aprender uma
profissão manual para ajudar minha mãe porque as reservas financeiras estavam terminando.
Diante da situação, o Daniel ajudava em casa com seu pequeno ordenado e as gorjetas que ganhava trabalhando na portaria do grande hotel Terra mar em Sitges abrindo as portas dos automóveis para os clientes descerem dos luxuosos carros, mas como somente ganhava no verão começou em outra profissão numa oficina mecânica como ajudante, ele sempre foi apaixonado por motores e velocidade. Alguns anos depois também iria morar na França e trabalhar no inicio com o Santiago que o acolheu na sua casa. Ele tem uma única filha e mora a 130 km. ao Norte de Paris no estado de l’Oise.
Minha mãe montou uma loja do tipo armarinho, mas não deu certo, as despesas eram maiores que as receitas, pois o maior movimento como de costume era durante os três meses de verão, lembro-me que num Natal não tínhamos a mínima possibilidade nem sequer de comer um
frango assado, na véspera enquanto estávamos nos fundos da loja tocou a campainha (ela tocava automaticamente quando alguém abria a porta da loja), minha mãe for ver se era algum cliente e, surpresa, alguém tinha deixado umas sacolas com todos os produtos típicos para poder festejar com fartura as festas de Natal e Ano Novo e ter uma boa mesa nestas datas, nunca soubemos quem foi que deixou as sacolas, acredito eu que seria alguém que conhecia nossa situação e que realizou este ato de modo totalmente anônimo.
Eu, criança com cinco anos presenciei a pulverização da família, quase sem mais irmãos para brincar e em particular minha irmã que estava sempre perto de mim, o lar de repente ficou vazio e reinava um ambiente depressivo, minha mãe e minhas tias brigando sempre até por qualquer coisa sem importância, era uma situação muito triste.
Continuei indo a escola das freiras até os sete anos, sei que pela situação econômica em casa não cobravam quase nada. Fiz minha primeira comunhão, minha educação e os colégios sempre foram voltados à religião católica, aos oito anos comecei a estudar em outra escola, desta vez eram os Padres Escolapios, ali estudei até os doze anos, conseguia passar de ano raspando, minhas notas não eram muito boas, acredito que por falta de concentração minha mente sempre
esteve muito dispersa.
Aos oito anos de idade fizemos uma viagem minha mãe e eu à Paris, possivelmente ela tivesse brigado mais uma vez com minhas tias, ficamos lá três meses de outubro a dezembro e, era a primeira vez que ia à França, conheci la uma amiguinha em Versailles se chamava
Dominique e era meu primeiro amor com oito anos de idade, aprendi durante nossa permanência também nessa ocasião a andar de patins, e andava razoavelmente bem, quase que perdi meu ano escolar dessa vez, mas minha mãe conversou com o diretor da escola e não tive maiores problemas.
Mais tarde, aos dez anos continuava estudando no colégio dos “Padres Escolapios” e um dia a professora quase no fim do período da tarde (ia ao colégio a manhã e a tarde) foi chamada pelo diretor e saiu da classe, na volta me disse na frente de todos; Javier, sua mãe chamou pelo
telefone e esta pedindo para você ir rapidamente para sua casa pois sua irmã acabou de chegar da Inglaterra, saí correndo sem me entreter no caminho para chegar logo em casa, minha irmã Odette estava lá, com o marido inglês e a primeira filha, Ana Maria que em inglês a chamavam
“Annette”. Era minha irmã, que saudades !!! aquela que sempre cuidava de mim poucos anos antes, fiquei muito feliz pois ela era como minha segunda mãe.
Outra das alternativas pela qual minha mãe optou para tentar sustentar a família foi a de abrir um pequeno hotel na orla marítima de Sitges, o nome era “Residência Odette” justamente com o objetivo de chamar a atenção dos turistas de língua francesa, pois na língua hispânica não
era usado este nome. Funcionava somente durante o verão, para mim era formidável pois me dava a impressão de morar num hotel, com a praia a poucos metros o que mais fazia era curtir e me divertir. Ficou aberto por duas temporadas somente, pois acho que o contrato de aluguel não foi renovado porque os donos do “Hotel Terramar” perceberam que muitos de seus clientes deixavam as acomodações do “Palace” para vir à “Residência Odette” de ambiente familiar e com poucos hospedes.
Num daqueles verões tive a experiência do meu primeiro trabalho durante as férias, como que não consegui passar duas matérias na escola trabalhei como entregador de telegramas nos telégrafos, para mim era uma punição muito divertida pois ganhava gorjeta a cada entrega e assim podia comprar e comer bastante sorvete de chocolate, café ou creme. Uma das entregas de telegrama era numa mansão de veraneio, toquei varias vezes a campainha e ninguém abria a porta, mas tinha um cão de guarda que não parava de latir e eu o xingava porque sabia que nada podia me fazer porque a porta estava trancada, de repente um funcionário abriu a porta e não deu outra, o feroz pastor alemão avançou e me mordeu na coxa esquerda, logo foi dominado pelo funcionário, eu chorava apavorado e apertava forte à coxa com as duas mãos pensando que se o cachorro tivesse a raiva (doença comum naquela época para os cães não vacinados), assim poderia evitar que a raiva subisse pelo meu corpo e ficasse contagiado, mero pensamento de uma criança de dez anos de idade.
Dos treze aos quatorze anos estudei como interno em outra escola bastante distante de Sitges, era a primeira vez que me separava dos meus pais, minha tia Josefina era quem pagara esse curso que também consegui passar de ano raspando. A primeira vez que ela me levou até o colégio fomos de trem, lembro que quando ela voltou e eu fiquei lá me deu a impressão de estar numa penitenciaria, tranquei-me no banheiro e chorei soluçando.
Esses anos de minha infância me marcaram muito e, percebi frente aquela situação que caberia a mim (pois não havia nenhuma alternativa) sustentar meus pais como arrimo. Aquilo que estava acontecendo não era justo, não me conformava que meus irmãos progredissem e construíssem suas vidas e que eu por ser o ultimo (caçula) tivesse que ficar de mãos atadas carregando esta responsabilidade para toda minha vida. Achei que Deus tinha me obrigado (na forma religiosa concebia Deus como castigador, pois eu tinha uma formação religiosa e orava o tempo todo para que Ele acertasse a situação) a viver para sempre aquela situação, e inconformado pelo meu destino senti-me punido.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL – INTRODUÇÃO

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Introdução

Durante esses últimos anos tal qual um recém nascido tenho me interessado de um modo “real” pelo ser humano e tentado entender o que houve de errado comigo por mais de trinta anos.
Sinto um alívio ao pensar que todos temos com maior ou menor intensidade certos desvios ou imperfeições que nos levam sistematicamente a algum tipo de dependência. Há aqueles em que
estes dissabores estão enraizados dentro deles mesmos fazendo parte de suas próprias personalidades e que possivelmente nem saibam, o que poderia se chamar de neurose pura, e também há aqueles que de uma ou outra maneira sentem a necessidade consciente de consumir
algo que possa lhes trazer de alguma forma relaxamento ou euforia conforme cada caso, de todas maneiras todos encontram conforto através de algo ou alguém (canalizando o estado emocional provocado pelos defeitos de caráter), o que determina uma dependência. Existem inúmeras maneiras de depender de algo ou de alguém, algumas delas são aquelas vistas pela sociedade como dependências graves porque progressivamente podem levar a morte prematura ou a distúrbios psíquicos irreversíveis, na medida que se consomem drogas em excesso, nocivas para a saúde, quase sempre se tenta esconder a verdade porque envergonha os que convivem com a “vítima” e também porque a maioria das pessoas não sabe que é uma doença, portanto
acreditando ainda que o paciente possa ser recuperado do “vício” se costuma tratar os efeitos e não as causas, em outras palavras uma espécie de anestesia, acho inconcebível ter que viver uma vida inteira na base de tranqüilizantes. Outras dependências mais suaves são vistas com tolerância porque se acha que ser dependente do chocolate, doce ou comida não é tão grave assim, e há aqueles que não consomem absolutamente nada talvez porque não tiveram nenhuma ocasião ou motivo para experimentar, porém isso não impede que tenham distúrbios emocionais que eles próprios não vêm mas que podem ser percebidos pelos outros.
Freqüentando inúmeras reuniões, palestras, e conversando com especialistas sobre o alcoolismo, aprendi que se tratava de uma doença e que não eram eles que tinham feito tal descoberta, me disseram que assim foi divulgado pela O.M.S. (Organização Mundial da Saúde),
que era progressiva, incurável e que podia levar a loucura ou a morte prematura de seu portador.
Quando ouvi a palavra “doença” a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que eles tinham toda a razão, estavam totalmente certos, porque dito por eles se fosse verdade seria mais fácil de suportar. Falavam que era uma doença total já que não se limitava ao simples fato de pessoas que bebiam até cair, era total porque abrangia tanto a parte física, como a mental e a emocional.
É por estas características que o alcoolismo é universal, pode atingir qualquer habitante de qualquer país, não discriminando cor, sexo, grau de cultura, religião, idade ou classe social.
Até o presente momento não existe nenhuma vacina ou remédio contra o alcoolismo que realmente tenha comprovado algum resultado confiável e duradouro, isso em função de suas características, porque estamos falando de algo mais complexo que a parte física pura e
simplesmente. Não estou querendo menosprezar nem a classe médica nem as religiões, porque as vezes tem conseguido bons resultados e sei que muitos profissionais tem trabalhado no sentido de recuperar alcoólatras sacrificando uma boa parte do seu tempo, porém tem-se observado que quando terminado o tratamento médico e o paciente retoma sua vida normal são mínimas as chances de reintegração bem sucedida. Lá fora são quase permanentes as oportunidades que se
apresentam para tomar um drinque, a aí como fica?, é justamente este primeiro gole que pode fazer com que comece tudo de novo, pois o alcoólatra não pode controlar seu modo de beber.
Precisam ser reconhecidos o esforço e a contribuição que tanto a classe médica, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e outros, assim como várias religiões têm exercido para ajudar aqueles que sofrem com a doença. São forças somatórias para o bem-estar da humanidade.
Daí a existência de grupos de auto-ajuda tais como: Alcoólicos Anônimos para os dependentes do álcool, Al-Anon para os familiares que convivem com o alcoólico, Al-Ateen para filhos de alcoólicos com idades de treze a dezenove anos, Narcóticos Anônimos para dependentes de drogas (chamadas ilícitas), Nar-Anon para familiares de dependentes de drogas, Neuróticos Anônimos para pessoas com desequilíbrios emocionais (neurose), C.C.A. Comedores Compulsivos Anônimos, F.A. Fumantes Anônimos, M.A.D.A. Mulheres que Amam Demais Anônimas, D.A.S.A. Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, S.I.A. Sobreviventes de Incesto Anônimos, Jogadores Anônimos, estes são alguns dos grupos de auto-ajuda existentes no Brasil atualmente, existem no exterior outros grupos que tratam de outros tipos de dependência e que muito provavelmente não irão demorar muito em se formar aqui. Todos os grupos chamados de Anônimos tem se espelhado através do programa de Alcoólicos Anônimos e cuja essência são os
DOZE PASSOS, valiosa ferramenta para a recuperação do dependente. Baseado na troca de experiências entre seus membros é que se consegue deter a doença mudando radicalmente de vida. Existem outras irmandades e associações voltadas para esta finalidade, que também contribuem para uma recuperação satisfatória do alcoólico. Todas elas são bem-vindas, pois apesar de terem estruturas diferentes o que realmente importa é que o alcoólatra possa ter mais uma alternativa para não morrer.
Consultei várias literaturas que me ajudaram muito para escrever o texto deste livro, a relação consta no capítulo Bibliografia no fim deste livro. As matérias contidas neste livro são exclusivamente de minha responsabilidade e representam apenas o meu pensamento pessoal que, mesmo coincidente, não deve ser considerado de A.A. ou outros como irmandades.
Todos os relatos escritos neste livro, são simplesmente a experiência vivida por mim, foram momentos difíceis e outros maravilhosos durante minha recuperação como alcoólico. Não existe nenhuma receita ou poção mágica para se recuperar do alcoolismo, cada ser humano é
diferente do outro e o que serve para mim pode não servir para outro doente alcoólatra.
Quero aqui agradecer e dedicar este livro a minha esposa que foi uma peça chave para minha recuperação devido a sua compreensão e conhecimentos sobre a doença, que com um convívio feliz e duradouro possamos terminar esta segunda fase de nossas vidas, também quero
agradecer aos meus dois filhos por terem me dado a oportunidade de tentar ser um “pai”, mudei muito mas ainda acho pouco, sei que isso só acontecerá lentamente mas não desanimo, amo vocês. Obrigado do fundo de meu coração a todos aqueles que hoje são meus amigos e que
conheci durante estes últimos nove anos, aos que moram no Brasil, no exterior, a vocês amigos reclusos, amigos internados, vocês esposas e esposos, filhos e filhas de alcoólicos, vocês que me ajudam a tratar do meu pânico e de minhas fobias, a todos vocês que igual a mim foram atingidos por “algo” que nos tornou “diferentes”, e especialmente a você . . . . . . Henrique.

QUADROS NA PAREDE

QUADROS NA PAREDE –

Afinal, quem precisa de Conceitos?

Era bem cedo. Faltava uma hora para a reunião iniciar. Eu estava nos
primeiros dias de minha recuperação e me fora sugerido que frequentasse
quantas reuniões pudesse e também que, se possível, chegasse mais cedo, para
integrar-me às atividades do grupo. Naquela noite eu conversava com o
companheiro mais amigo que se colocava à disposição para me ouvir e sanar
minhas tantas dúvidas de principiante, quando lhe perguntei para que serviam
os Conceitos. Eu já sabia que os Doze Passos eram relacionados à recuperação
individual e que as Doze Tradições ajudavam na segurança dos relacionamentos
dos grupos entre si e com a comunidade local. Mas, e os Doze Conceitos?
Aqueles princípios em letras miúdas e fartas, estavam me intrigando. O
companheiro mirou os quadros, coçou a cabeça e respondeu de supetão: “Isso é
coisa dos Custódios e da Conferência”. Não aceitei a resposta e, com toda
aquela curiosidade que alguns novatos têm, retornei: “Se não dizem respeito
ao grupo, por que estão aqui na parede?” E o companheiro, embaraçado,
finalizou a questão: “Estão aqui, porque a Conferência recomendou”.
Continuei sem entender, mas cessei a especulação. Foi assim meu primeiro
contato com os Doze Conceitos para os Serviços Mundiais.

Cerca de um ano depois, adquiri o livro dos Conceitos. Agora acreditava
estar apto para entender aquele negócio complicado. Li o prefácio, o
Primeiro Conceito, o Segundo e … ao contrário do que eu esperava, minha
cabeça começou a embaralhar a partir do Terceiro. A leitura me pareceu tão
complicada que pensei atirar o livro para longe e me lembrei do companheiro
no grupo: “Ele tinha razão”, pensei. Mas eu não iria desistir tão
facilmente. Dias depois participei de um Ciclo de Estudos dos Conceitos. Foi
lá que soube da existência do livro “Os Doze Conceitos Ilustrados para
Serviços Mundiais”. Adquiri o livro e, com muito mais facilidade, comecei a
compreender alguma coisa dos Conceitos.

Ainda não sabia que o livro “Os Doze Conceitos para Serviços Mundiais” fora
escrito há menos tempo que eu pensava, em 1962, e que é o único item de
nossa literatura escrito por Bill que traz o selo da Conferência de Serviços
Gerais. Não tardou para que eu conseguisse ler o texto completo dos
Conceitos, sem ter tanta dificuldade. Li uma, duas, várias vezes para
entender algumas particularidades de cada princípio e venho aprendendo muito
tentando praticá-los no serviço de A.A.

Quanto ao comentário do companheiro no grupo, formei opinião e tento dizer
diferente aos que chegam hoje. Descobri o porquê dos Doze Conceitos estarem
afixados na parede de (infelizmente) parte dos grupos que frequento. É que
os Conceitos são “lubrificante” dos relacionamentos necessários para que
funcione em harmonia toda a estrutura de serviços de A.A. Ou seja, bons
relacionamentos do grupo à Conferência, entre a Conferência e a junta de
Custódios e entre a Junta e os órgãos de serviços nacionais (a JUNAAAB, no
caso do Brasil) com seus servidores e funcionários contratados. Hoje entendo
que os Conceitos não servem apenas aos componentes da Conferência de
Serviços Gerais. Portanto, quando disse toda a estrutura, certamente incluí
os grupos, onde todo serviço começa e termina; por isso os Doze Conceitos
estarem presentes no grupo.

Os dois primeiros Conceitos são históricos; contam o porquê da cadeia de
representatividade expressa na estrutura de serviços de A.A. Lendo-os,
precisei reformular minha ideia de estrutura de A.A., pois até então pensava
que toda a responsabilidade pela continuidade de A.A. fosse dos Custódios ou
da Conferência e não dos grupos. Mudei meu próprio conceito de grupo e
comecei a vê-lo como uma célula e com uma responsabilidade muito maior que
pensava.

Mais à frente notei, conversando com companheiros mais experientes, que
alguns princípios podem ser aplicados por qualquer servidor de A.A. Este é o
caso do Terceiro, Quarto e Quinto Conceitos, que falam dos Direitos,
utilizados como norte nas relações entre o serviço e a consciência coletiva.

Como desde o início sempre tentei servir, não foi difícil compreender as
qualidades de um bom líder, expressas por Bill no Nono Conceito. Notei que
enquanto servidor ou liderança, seja na Área, na Conferência, no grupo
fazendo a limpeza da sala, no Trabalho com os Outros, enfim, em qualquer
atividade de serviço, sempre precisarei melhorar e amoldar-me a essas
características.

Quando li o Décimo Conceito imaginei uma balança de dois pratos
equilibrando a autoridade e a responsabilidade. Lembrei-me do coordenador
geral do grupo em que cheguei. Como na maioria dos grupos, ele é responsável
por abrir a sala e cuidar dos preparativos para a reunião, entre esses o
cafezinho. Acontece que certa vez, o novo escolhido para o encargo fazia o
café muito fraco, quase transparente. Segundo o equilíbrio, a ele concedemos
a responsabilidade para fazer o café e a autoridade para optar sobre como
iria fazê-lo (falamos com ele e o café melhorou).

Continuei lendo os Conceitos, quando um companheiro me sugeriu que o
fizesse em conjunto com o Manual de Serviços, para melhor entendimento da
estrutura nacional de A.A. Isso foi porque quando me aprofundei no Sexto,
Sétimo, Oitavo e principalmente no Décimo Primeiro e Décimo Segundo
Conceitos, encontrei dificuldades de entendimento. Nessa altura eu já tinha
o Manual de Serviços e, tentando fazer o sugerido, tive um enorme avanço e
meus porquês diminuíram.

Foi tentando entender como funciona a estrutura de serviços que despertei
para a expressa necessidade de voltar a estudar as Tradições e, mais do que
isso, senti que eu fazia parte de um grande todo e que tinha uma
responsabilidade própria. Talvez foi esse entendimento, aliado à necessidade
de viver bem sem precisar beber, que me fizeram mergulhar no modo de vida de
A.A., através da prática de princípios espirituais.

(Um servidor)

(Compartilhando a Sobriedade)

DISCURSO FINAL CORRIGIDO E REVISADO

DISCURSO FINAL CORRIGIDO E REVISADO

Discurso do co-fundador do AA, feito para o grupo Keepsbay de NY em 1950 (a pessoa que introduz Bill. AA. para o grupo não diz seu próprio nome).
SENHORAS E SENHORES o nosso orador desta noite já esta no corredor, portanto vamos voltar a nossa reunião. Esta reunião e ponto de referência para o grupo de Keepsbay.
Hoje celebramos o primeiro aniversário do nosso grupo. Para este acontecimento especial, nós convidamos um amigo particular para falar, para todos nos esta noite. Para muitos de nos ele e um velho amigo, para outros de vocês, esperamos que ele se torne um novo amigo.
Em geral a reunião do grupo, Keepsbay é uma reunião fechada para alcoólicos somente, em consideração ao nosso convidado e a circunstancia especial de hoje, nós abrimos a nossa reunião para as nossas famílias e amigos. A única coisa que pedimos aos nossos convidados, é que respeitem os desejos do grupo. Estes desejos são os seguintes: O que vocês ouvirem aqui guarde para si mesmos, aqueles que vocês encontrarem e verem aqui apaguem de suas memórias. O anonimato é a alma e a coluna vertebral do nosso programa.
Portanto ajude-nos a conservar a alma da nossa herança espiritual.
Antes de introduzir o nosso orador, eu vou ler a declaração da finalidade do AA, como esta escrita no preâmbulo do grande livro dos alcoólicos anônimos. Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo. O único requisito para tornar-se membro, é o desejo de parar de beber. O AA. não está ligada a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, nenhuma organização ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apóia nem combate quaisquer causa. Nosso propósito primordial e manter-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade.
E agora o nosso orador.
Ele foi chamado o maior arquiteto social do nosso século.
Os 12 passos que ele criou, é a maior criação da América.
Sua energia extraordinária e criatividade foi a maior contribuição para nossa irmandade, sem esta contribuição nós não poderíamos estar aqui esta noite.
Deus sabe onde eu estaria.
O que podemos falar de Bill; houve eventos na vida dele e ele viveu estes eventos e agora para compartilhar estes eventos conosco; aqui está Bill W. o co-fundador dos alcoólicos anônimos. Bill.
Obrigado, muito obrigado, sinto muito por estar atrasado nesta noite. Houve uma impossibilidade de eu estar aqui hoje.
Aqueles que estavam no corredor, por certo, já sabem o que aconteceu! Como eu já disse eu não poderia estar aqui esta noite. Isto veio como um choque terrível. Deixe-me ler o telegrama que recebi hoje pela uma da tarde…:
Querido tio Bill: (o telegrama esta endereçada a Bill W. Alcoólicos Anônimos
Associação, NY, NY).
O papai faleceu serenamente ao meio dia, no hospital de Akron.
Nós o chamaremos na tarde de hoje, depois das providencias para o funeral.
Com nosso amor para vocês tio Bill e tia Lois; os seus Sue e Bob Junior.
Doutor Bob meu parceiro, meu amigo, nosso amigo! Faleceu.
Como eu disse, eu não viria hoje, mas Lois, minha esposa disse: qual o melhor lugar para estar, senão entre os amigos de Bob?
Recebi também uma chamada do Padre Ed Dowling de São Luiz.
-Vá, vá… Vai fazer-lhe muito bem; apenas não fale de si mesmo, mas a respeito de Bob e do começo. Conte a nossa historia.
Não faça um velório irlandês (nos velórios de Irlandeses eles têm o costume de irem bêbados).
Portanto, eu decidi vir. Se eu não fizer as coisas com muito sentido, entendam, apenas quero compartilhar com vocês. Compreendam que eu acabo de receber uma trágica notícia.
No caminho, eu escrevi umas pequenas anotações para comemorar o acontecimento do aniversario deste grupo. Mas, com a permissão de vocês, eu gostaria de deixar este acontecimento fora do caminho antes de começar a nossa reunião.
Nós precisamos comemorar o primeiro aniversario deste grupo. Depois falamos da vida do Doutor Bob que é semelhante à nossa.
Agradeçamos a Deus por libertar muitos de nos da servidão, e estamos aqui para anunciar para todos os amigos a nossa profunda gratidão por toda a ajuda que Ele nos deu no milagre da nossa recuperação.
Tudo isto parece ser um discurso, mas nos não fazemos discursos; e sim contamos a história de nossas vidas.
Assim será como eu vou compartilhar a minha historia.
Por onde eu começo?
A minha historia teve começo há 16 anos atrás, em 1934 no fim do verão, em setembro.
Eu era paciente no Hospital Charlestown, na parte alta da cidade, Central Park West..Eu já havia sido paciente ali antes. Essa era a minha quarta visita, pela terceira vez no mesmo ano.
Eu estava na parte de cima, vestido com uma camisola pijama do Charlestown, daquelas camisolas que se amarra nas costas.
Minha esposa estava na parte de baixo, falando a meu respeito com o Dr. Silkworth.
Uma hora antes, ele esteve me observando, e concluiu que eu era um alcoólico. Como o meu alcoolismo tinha se tornado de um habito e uma obsessão e o meu corpo, havia desenvolvido uma alergia pela substância que eu desejava e mais ainda concluiu que eu estava morrendo.
Para ele, eu era um alcoólico crônico. Ele tinha desenvolvido um conceito, uma teoria, depois de ter tratado mais de mil homens com uma doença semelhante a minha.
Para ele eu tinha uma doença, uma doença como nenhuma outra. Esta doença acabaria por matar-me se eu fosse deixado aos meus próprios cuidados. A sua sincera opinião era esta.
Ele dizia a Lois que ela devia me internar no Rockland State, Hospital para os doentes mentais. Ela poderia fazer isso, porque eu era um alcoólico crônico!!! Ele queria que ela fizesse isso, porque ele sabia que eu estava me matando.
Lois disse a ele: Doutor, você não entende, um homem como o Bill! Nunca conheci um homem como Bill. Quando ele Põe uma coisa na cabeça e decide fazê-la, ele faz! Por que ele não pode deixar de beber?
O Doutor repetiu: Ele tem uma doença difícil de entender, difícil de tratar, mas, é uma doença de qualquer maneira. Que seria melhor se ela seguisse as sugestões dele.
Eu, lá em cima, pensava comigo mesmo: Por que eu? Por que isto acontece comigo? Refleti o meu passado e pude entender como alguns acontecimentos do passado me trouxeram a este caminho. Eu não me criei para viver desta maneira. Talvez se procurasse uma razão… Era o fato do meu pai ter tido problemas com o álcool?
Este foi o motivo para o divórcio de meus pais.
Quando eu tinha oito anos, eu e minha irmã fomos abandonados por meu pai, como resultado de seu alcoolismo. Minha mãe partiu logo depois e eu fiquei com meus avos maternos.
Meu avô, desde minha infância colocou em minha mente a idéia de que eu deveria sempre ser o numero um. Eu penso que aos doze anos, com a minha vontade de ser sempre o numero um, fiz o primeiro boomerang americano. E isso esta no livro de Records, que eu fui o primeiro a construir o boomerang americano. Eu tinha recebido de presente do meu avo, no dia do meu aniversário, um livro sobre a Austrália e o boomerang australiano; e meu avo dizia com muita admiração que eu era o único menino que aos doze tinha feito um boomerang.
Eu fiz isso, com unhas e dentes, para provar que eu podia ser igual a um aborígine.
Depois de seis meses, que fui movido pelo desejo do poder, eu criei o primeiro boomerang e ele funcionou. Depois disso, eu me tornei o numero um, aos olhos de meu avo; e de acordo com ele, também numero um para os olhos do resto do mundo.
Eu não pude compreender então, naquele dia, de que minha vida se tornaria um boomerang emocional, que continuaria ate o fim de minha vida.
Vinha daí, a minha necessidade de ser sempre o numero um, em tudo que eu fizesse.
Talvez, seja essa a razão porque eu me tornei um alcoólico.
Eu bebi por apenas 17 anos. Eu tomei o meu primeiro gole, quando tinha 22 anos no exército, servindo em Massachusetts, com minha esposa.
Dezessete anos mais tarde, eu estaria internado como um alcoólico crônico. Foram 17 anos perdidos; não tudo por minha culpa, pode ter sido talvez, por causa da queda da bolsa de valores, em 1929. Quando isso aconteceu, eu também cai. Entrei e sai de hospitais, asilos, casas de repousos, hospícios, manicômios, instituições lugares para desintoxicação e tudo mais.
Eu me tornei um bêbado, sem esperanças. Perdi tudo o que nos tínhamos. E aqui estava eu, aos 39 anos um alcoólico doente e um Doutor querendo me internar num hospício, para o resto de minha vida.
Graças a Deus Lois não ouviu o Doutor.
Ela veio me visitar e me levou para casa de qualquer maneira.
Não para a minha casa, porém para a casa de meu cunhado.
Nós estávamos morando na casa dele, sem pagar aluguel, na rua Clinton, no alto Brooklyn.
Lois tinha conseguido um serviço, numa loja no centro de Brooklyn. Estava ganhando um salário de 22 dólares por semana.
Todas as coisas de valor que nós possuíamos já haviam sido vendidas.
Eu continuava a ser um alcoólico crônico. Ela me levou para casa mesmo assim, desta maneira, dando-me uma última oportunidade.
Durante dois meses, eu provei que o Doutor estava errado, totalmente errado.
Afinal eu não era um alcoólico; e não sai de casa por dois meses, até no dia do Armistício em 1934.
O dia do Armistício era um dia muito lindo, tão lindo, que eu nem sei como descrevê-lo.
Eu me sentia como um homem que valia um milhão. Olhei pela janela e disse: querida eu gostaria de jogar um pouco de golfe. Talvez este seja o ultimo dia de verão tão bonito assim. Gostaria de jogar um pouco antes da chegada do inverno.
Ela tentou me desencorajar dizendo: querido, fique e recupere as suas forças primeiro. Eu insisti, insisti, até que ela finalmente concordou; me deu alguns dólares.
Fui para o porão peguei a bolsa de golfe e andei ate a estação de barcos, para atravessar para Staten Island. O do clube de golfe ficava em Staten Island.
O sócio do clube era meu cunhado; eu poderia jogar, pois ele pagava mensalidade.
Atravessei para o outro lado, peguei o ônibus e continuei, sentindo-me como um homem de um milhão.
Quando eu estava no dentro do ônibus, notei um homem sentado com um rifle nos braços. Não sei o que vocês pensam, mais em Nova York, você tem manter os olhos num tipo com um rifle nos braços! Decidi, que o melhor para mim, era sentar me perto do homem com o rifle.
Depois de algumas paradas do ônibus, perguntei para ele: Amigo aonde você vai indo com este rifle? Ele respondeu: estou indo para uma competição de atiradores; acontece que a disputa de atiradores era noutro clube perto do clube de golfe.
Ele tinha vindo, apenas para praticar nessa tarde.
Como eu tinha sido criado em Vermont, sabia um pouco a respeito de atirar.
Então, comecei a falar tudo que eu sabia a respeito de atirar, e para impressioná-lo mais, no meu desejo de ser sempre o numero um, comecei a falar tudo que sabia sobre artilharia que tinha aprendido, quando servi o exército, em Massachussetts, durante a primeira guerra. Lois esteve lá comigo.
O homem ficou muito impressionado com o quanto eu sabia, apesar de que ele sabia muito mais do que eu.
De repente, um táxi bateu na traseira do nosso ônibus. Não foi nada sério, apenas uns arranhões e sustos.
O motorista teve que descrever para a polícia e pediu outro ônibus, para continuar a viagem.
Quando ficamos esperando parados no passeio, vimos um pequeno boteco (aqui o Bill usa uma gíria– vimos um speakeasy, que significa um pede cochichando ou baixinho. Esta meia porta de botecos só podia vender refrigerantes, contudo, vendiam bebidas alcoólicas ilegalmente, às escondidas).
Atravessamos a rua e tocamos na meia porta do boteco. O dono abriu e perguntou-nos o que queríamos. Meu amigo pediu um uísque e eu pedi uma Ginger ale. Ele me perguntou: Você não bebe? Eu respondi: Não.
– Por que não, ele me perguntou.
Daí para frente, eu comecei a contar-lhe toda a minha vida, de hospitais a hospitais, das instituições, casas de recuperação, dos hospícios.
Contei-lhe tudo a respeito de minha vida. Ele disse para mim, que eu era um homem notável.
Aí então, eu compreendi que ele era um homem muito inteligente. Ele havia escutado tudo que eu havia lhe contado, com a maior atenção. Nunca até então, ninguém havia dito uma palavra delicada a meu respeito ou para mim.
Ele continuou, eu tenho parentes e amigos, que tem uma história semelhante à sua, contudo, hoje ele estão presos, em hospitais ou mortos ou vagando pelas ruas. Você parece-me ter encontrado o caminho para curar-se, e isto e remarcável muito remarcável!!
E continuamos conversando.
Porém, todas as coisas tem que chegar ao fim.
O motorista fez um sinal para nos, dizendo que o outro ônibus havia chegado.
Já havia chegado o outro ônibus e continuamos a nossa viagem.
Depois de mais de uma milha, eu não queria deixar o homem ir embora, necessitava do reconhecimento dele; sentia que estava me afirmando pessoalmente, e como a prática de atirar não começava até as duas da tarde, disse para ele para fazer-me companhia.
Sugeri que ele tomasse lanche comigo no meu clube de golfe.
Como eu já disse eu não era sócio do clube, mas sim o meu cunhado; e continuei, depois do lanche nós podemos passar por um atalho e chegar até o seu lugar de praticar.
Ele gostou da idéia.
Quando o ônibus chegou na minha parada, ele desceu comigo.
Nós entramos no clube e nos dirigíamos para a sala de jantar.
O gerente do clube veio ao nosso encontro e disse-nos:
– Sinto muito mais o salão de lanches está fechado. Hoje é o dia do Armistício e eu dei folga para todos os empregados. Se vocês quiserem, eu posso trazer-lhes um lanche no bar.
Meu amigo me perguntou se eu me incomodaria com isto, eu disse que não, uma vez que já tinha passado no primeiro teste: Eu tinha saído do primeiro lugar que havíamos estado antes, sem beber nada. Eu estava certo que poderia resistir ao segundo teste.
Nós fomos para o bar, sentamos nos banquinhos. O meu amigo pediu um Scotch com Ginger Ale e eu pedi um sanduíche com uma Ginger Ale.
Como eu já disse, o meu amigo estava tornando-se cada vez mais sabido como passar dos minutos.
Ele me disse: você é mesmo uma pessoa admirável! Você é um ex-alcoólico e está no meio de um mar de tantas bebidas alcoólicas! Isto não o deixa perturbado?
Eu disse que não, eu estava certo de que já estava curado e que o doutor estava errado.
Eu teria que contar para minha esposa. Finalmente eu pedi a conta já estava assinando, pois assim meu cunhado poderia pagá-la sem problemas.
Já nos preparávamos para sair, quando o garçom trouxe dois copos de bebidas misturadas e as colocou a nossa frente.
Por favor, bebam, é por conta da casa em celebração do dia do Armistício.
Eu peguei o meu copo e virei de uma vez. Quando olhei para a cara do meu amigo, percebi que ele já não tinha mais aquela cara de sabido, porém a maior cara de tonto que eu já havia visto.
Ele disse então apara mim: Meu amigo, depois de tudo aquilo que você me contou que o álcool fez para você, teve coragem de tomar esta bebida? Você deve ser louco, completamente louco!!!
É verdade, eu sou louco.
Depois disso, durante a noite minha esposa me encontrou entre a primeira e a segunda porta de entrada de minha casa. Eu tinha caído e havia um corte na minha cabeça e estava desmaiado, segurando ainda a bolsa de golfe. Naquele dia eu não tinha jogado golfe, eu tinha ficado bêbado. E conclui que o doutor tinha razão e estava muito certo.
Na manhã seguinte, cheio de remorso e pena de mim mesmo, eu compreendi que eu era um alcoólico e que o seria até o fim de minha vida.
Acreditei que até o fim de minha vida, no dia em que eu morresse, quando eles cobrirem o meu rosto com um lenço, eu continuaria a ser um alcoólico.
Irei ser um alcoólico morto, e não há nada que eu possa fazer.
Sabia também, que eu seria um amaldiçoado, se tivesse que morrer num asilo para loucos, queria ter a coragem para tirar a minha própria vida. E era isto o que eu pensava fazer, beber e beber até morrer.
Nas semanas seguintes, eu roubava um dólar para comprar o rum que eu necessitava.
Três garrafinhas de Gin que sempre me conduziam as portas do abismo.
Dia após dia, eu ficava naquela casa vazia no Brooklyn, bebendo para morrer e escrevendo, de vez em quando, cartas cheias de ódio para o Presidente Franklyn Roosevelt, dizendo como ele estava governando pessimamente o país.
Estas cartas, eu posso mostrar para vocês, nunca recebi respostas delas.
Acredito que Lois nunca as colocou no correio.
Este seria o meu futuro e o meu fim.
E o que me importava que isto acontecesse.
E foi nesta situação que Abby me encontrou.
O meu velho amigo Abby, das nossas salas que vocês conhecem também.
Abby me chamou uma tarde; ele disse Bill posso ir até a sua casa?
– Claro que você pode vir Abby. Venha sim, por favor, Abby, eu detesto beber sozinho.
Como seria maravilhoso passarmos uma tarde juntos, recordando o passado!
Então fiz algo que considero um ato heróico, para um bêbado como eu.
Tinha uma pequena garrafa de gim que havia escondido atrás de uma cômoda no banheiro do porão. Trouxe a garrafa e a coloquei na mesa da cozinha.
Lembrei que o Abby tinha um estomago delicado; encontrei uma garrafa de suco de abacaxi que creio que Lois tinha trazido de uma reunião de pintores que ela assistira. Coloquei tudo na mesa, e fiquei esperando o meu amigo, a fim de passarmos uma tarde agradável.
Eu estava certo de ele traria uma bebida também.
Enquanto eu esperava, estava relembrando um amigo meu e do Abby. Este amigo tinha me contado que Abby em uma de suas bebedeiras tinha entrado com seu carro na sala de alguém perto de Albany.
Quando abby chegou e já estava sentado no sofá eu fui perguntando-lhe: Abby como você conseguiu escapar daquela confusão lá em Albany? Eu quero ficar informado para guardar no meu record.
Abby foi me dizendo: Você poderia esquentar um pouco de café para mim?
Havia algo que eu tinha notado logo que abri a porta para ele. Alguma coisa estava diferente, ele estava sóbrio, limpo com um terno bem passado, com os sapatos engraxados.
Eu estava num estado terrível; barbudo, com uma barba de três dias, de camiseta, com uma calça do meu cunhado que era um numero e meio maior do que o meu; minha calça raspava a barra no chão.
Lois gostava disso, pois ela dizia para as amigas que a minha calça varria o chão.
Abby não tinha bebido e estava de mãos vazias. Eu pensei comigo: Talvez ele esteja sem dinheiro.
Nós falamos de algumas coisas agradáveis, e eu disse a Abby: Vamos para a cozinha que é mais quente. Ele me seguiu e sentamos ao redor da mesa.
Falamos mais algumas coisas interessantes.
Finalmente, nós dois começamos a olhar para a garrafa de gim.
Comecei a colocar a bebida no copo e disse a Abby: Que tal um gole? Ele respondeu: Não Bill obrigado, eu não estou bebendo.
Eu disse: O que acontece, velho amigo, você não está bêbado e não está bebendo? Ele respondeu: Vamos dizer que eu encontrei religião!
Eu pensei comigo mesmo: Oh meu Deus! Deixei um fanático religioso entrar na minha casa?
Continuei dizendo a mim mesmo: Não e uma notícia tão triste assim, eu posso ter toda essa bebida para mim sozinho! Eu não iria, portanto, ficar ressentido com qualquer religião em que ele tivesse se metido.
Qual foi a região afinal que você encontrou?
Ele respondeu: Deixe me dizer que encontrei a religião do bom sentido.
Eu pensei comigo mesmo: Eu nunca ouvi falar em nossa senhora do bom sentido!
Bill, você não sabe o poder que o álcool tem sobre mim?
Eu compreendi logo, que não ia dizer o que eu já sabia.
Não, eu disse: Eu não sabia que você tem um problema com o álcool.
Disse Abby: há apenas um mês atrás, depois de mais uma briga, eu me encontrei na sala do juiz.
Ele queria punir-me com toda a severidade da Lei, queria me deixar preso.
Eu tinha me metido em muitas brigas e essa última, tinha passado do limite.
Meus amigos, minha família me queriam fora das ruas. Quando eu fui à presença do Juiz, uns amigos que você também não conhece, vieram para a minha audiência. Quando ele disse o nome deles, eu entendi que eu não os conhecia.
Eles eram um grupo de desconhecidos.
Um dos membros do grupo disse ao Juiz: Excelência, entregue-o para nós.
Creio que nos podemos ajudá-lo a resolver seus problemas.
Eles eram membros do Oxford grupo. Você já ouviu falar deles?
Eu respondi: Claro que sim, pois eu já havia lido a respeito deles nas colunas sociais.
Para mim eles eram um grupo de bichas dançarinas que se reuniam para tentar resolver entre eles mesmos, problemas de drogas, alcoolismo e adicção ao jogo.
E Abby continuou por dizer que não pretendia ficar envolvido com eles.
Como o Juiz não tinha nada a perder, ele me entregou para eles. E assim, eu fiquei envolvido com eles.
Depois de algum tempo entre eles, e escutando o que eles diziam, acabei por aceitar algumas idéias deles, e usei essas idéias para ajudar a mim mesmo.
Parece que funcionou para mim.
Eu perguntei: Que idéias meu amigo?
Ele respondeu: Por exemplo: Eu aprendi a ser honesto comigo mesmo, pela primeira vez, em minha vida e também, compreendi o que o álcool tinha feito comigo.
Então, ele continuou dizendo que tinha que compartilhar de maneira estritamente confidencial, com outras pessoas, estas coisas.
E que teria de tomar uma decisão de fazer reparação por todo o mau que eu havia feito com o meu alcoolismo.
Deveria também, ficar decidido a ajudar a outras pessoas como eu, a se livrar do alcoolismo.
Eu deveria fazer isto pelo resto de minha vida.
E por isto, que quando ouvi dizer que o meu velho amigo, Bill Wilson estava fechado em casa no Brooklyn, encerrado em si mesmo, bebendo para morrer! Eu disse aos meus amigos, deixe-me dar uma olhada nele. E por isso que eu estou aqui hoje.
Eu fiquei muito ofendido e disse-lhe: Escute bem, quem lhe deu tal idéia?
Você está completamente enganado!
Eu posso ter um ou outro mau momento, mas não estou fazendo o que você pensa.
Ele respondeu: Está bem, pode ser que eu esteja errado.
Bill disse-lhe: De onde você tirou todas essa idéias?
Abby respondeu: Não Bill, mas, existe uma outra idéia da qual eu sei que você não vai gostar, mas tenho que dizê-la de qualquer maneira. Eu sei como você vai considerar essa idéia, será como uma piada para você. Eu tive que pedir também a Deus para ajudar-me a fazer estas coisas e para que ele me ajudasse a continuar no caminho certo. Eu tinha que pedir a qualquer um Deus, que eu pudesse entender, para ajudar-me, e reconheci, sem julgar de que ele poderia estar certo. Porém, eu lhe disse: Não, obrigado, muito obrigado e o acompanhei até a porta mandando-o ir embora.
E esta foi a tarde muito agradável com o meu amigo!
A idéia de alguém vir em minha casa e falar de um compromisso com um Deus era absolutamente ridícula.
Eu sou um engenheiro na pratica pessoal, e admito a ordem natural das coisas; contudo, eu não posso aceitar a idéia de uma consciência suprema, de uma divindade pessoal que possa ajudar-nos a resolver os problemas da vida.
A idéia me parecia completamente ridícula; e tudo isto, eram as idéias do meu amigo Abby.
Eu continuei a beber, mas uma coisa engraçada aconteceu nos dias seguintes; eu não conseguia tirar da mente a visão do Abby.
Ele se tornou uma outra obsessão. Eu pensava somente de que ele estava sóbrio e eu bêbado.
Pensei que eu deveria também ficar sóbrio.
Afinal, eu era o número um em tudo, eu é que deveria estar falando da vida com sobriedade, para ele e para todos os demais.
Alguma coisa estava errada, e a obsessão foi crescendo e crescendo.
Finalmente, eu pensei, comecei a entender e a compreender. Por um breve instante eu pensei: Se alguém aparecesse e me dissesse que havia um médico que pudesse curar um câncer dos olhos, eu estaria disposto a ir de mãos no chão e joelhos para encontrá-lo; e eu tinha uma doença igual ao câncer, que estava me matando, e eu não estava fazendo nada me curar.
Quanto mais pensava a este respeito, compreendia que estava louco.
Eu teria que investigar isto.
Eu tinha vivido a minha vida investigando, como um investigador de empréstimos.
Eu poderia analisar este grupo Oxford.
Eu poderia fazer uma análise profunda desse grupo, para ver se eles podiam ajudar-me.
Talvez eu poderia dar uma olhada e aproveitar o que eles tinham de bom para oferecer; o resto eu deixaria de lado. Ninguém precisaria saber disto, talvez Lois, ninguém mais, a não ser Abby, caso ele me visse.
Eu falei da minha idéia pra Lois, e que Deus a abençoe; e ela me ajudou.
No dia seguinte, com a ajuda dela eu me banhei e fiquei asseado.
Ela me deu alguns dólares.
Finalmente, nesta tarde, eu peguei o metrô para Manhattan, a fim de dar uma olhada no grupo Oxford.
Eles se reuniam na Missão do Calvário na Rua 23.
Creio que alguns de vocês recordem o local.
Quando eu desci do metrô, compreendi que havia feito um erro; eu peguei o metrô no Brooklyn e desci no Oeste de Manhattan em vez de ir para o lado Leste, onde ficava a missão, e nesta parte, a distância é maior entre o Oeste de Manhattan e o Leste ( a Ilha de Manhattam é dividida no meio pela quinta avenida, lado Oeste e o lado que esta New Jersey do outro lado do rio, o lado Leste tem Brooklyn e Queens do outro lado do rio).
Como ainda era cedo, decidi ir andando até a reunião, porque ainda havia muito tempo até o começo da reunião.
Depois de ter andado alguns quarteirões, comecei a olhar pelas janelas para dentro dos bares, meus lugares de bebedeiras, para ver se via alguém que eu conhecia.
Não via ninguém; eu continuei andando e fui ficando desesperado, pois, já estava chegando perto da missão, onde haveria a reunião.
Decidi atravessar a rua para dar uma olhada na janela de um dos meus bares favoritos para bebedeiras.
Olhei pela janela para ver se havia alguém conhecido lá dentro.
Entrei no bar olhei ao redor e não reconheci ninguém.
Então, eu disse a mim mesmo: Por que você não espera? Pode ser que apareça algum conhecido.
Esperei, esperei e esperei, não apareceu ninguém.
Quando alguém espera dentro de um bar, tem que pedir alguma coisa para beber, para não parecer suspeito, eu pedi uma cerveja, depois mais uma e mais uma com um gole para ajudar.
E antes de perceber, eu perdi a consciência como era meu costume, e fazendo tudo isto quem tinha vindo para uma reunião em Manhattan!
Quando recuperei a consciência, percebi que estava conversando com um sujeito que falava com um sotaque muito pesado.
Pude entender que o homem era um pescador Finlandês.
E eu tinha vindo para uma pescaria de homens.
Eu disse para meu novo amigo; venha comigo, vamos encontrar Deus. Porque eu ainda tinha uns dólares; ele me acompanhou, pois sabia que ainda poderíamos beber mais um pouco.
Depois, enfim chegamos à missão.
A reunião já havia começado.
Tex Francis estava na entrada. Ele queria impedir-nos de entrar, pois percebera que nos estávamos embriagados.
E começamos a dar empurrões uns nos outros, e eu já estava preparado para levar mais uma surra costumeira.
Neste momento apareceu Abby, ele percebeu a situação e disse para Tex: Pode deixar que eu vou ser o padrinho deles lá dentro.
E nós entramos na missão.
Lá dentro, o mau cheiro era envolvente.
Os rapazes vinham usando a mesmas roupas por anos seguidos. O mau cheiro do corpo deles era insuportável. Alguns tinham as calças molhadas de urina e fediam fezes também.
O cheiro de álcool era sufocante.
Havia um grande bule de café fervendo, uma panelona de feijão.
Eu me recordo até hoje, todo aquele cheiro inesquecível. Abby deu-nos um prato de feijão e uma caneca de café e eu fui me sentar no meio deles.
Depois de comer o feijão e beber o café, eu comecei a melhorar do estado alcoolizado.
E dai para frente comecei a pensar que, afinal, estes rapazes não eram tão maus assim.
Eles apenas tinham descido um pouco mais do que eu tinha descido na vida.
Depois que eu comecei a me sentir melhor, creio que perdi a consciência outra vez.
O que aconteceu depois foi me contado por Abby na manha seguinte.
Parece que durante a minha perda de consciência, quando alguém começou a dar testemunho, eu voltei à consciência e me levantei juntamente com o finlandês e fomos para frente do grupo.
Logo em seguida, comecei a aceitar a Cristo. E, antes que alguém pudesse entender o que eu estava fazendo, comecei a entoar cânticos pulando, tocando tamborim e gritando por Jesus.
E também dava testemunho do perigo e miséria do álcool.
E de acordo com Abby, todo mundo ficou estático e me admirando e concordando comigo. Todos estavam encantados comigo.
Quando ele me contou tudo isto, na manha seguinte, eu fiquei completamente mortificado, pois, eu sabia que eu não acreditava em uma só palavra do que havia dito.
Eu sabia somente de uma coisa: Eu jamais voltaria a Manhattan.
O simples pensamento de encontrar algum bêbado e que ele viesse me dizer: Você foi um espetáculo na missão na outra noite.
Essa idéia era repulsiva para mim.
Pude compreender então, que este era o início da loucura do álcool.
Eu estava caindo cada vez mais e jamais me recuperaria!
Eu agora estava chegando ao fim!
Abby apenas disse, quando ia saindo, na porta: Você tinha me convencido e foi-se embora. Eu voltei para casa e continuei cheio de piedade de mim mesmo; logo percebi alguma coisa, que eu não tinha percebido naquela manha.
Quando eu enfiei a mão no bolso traseiro da minha calça eu encontrei dinheiro.
Loiz ia saindo e eu entreguei o dinheiro para ela.
Percebi então, que uma coisa semelhante nunca jamais tinha sucedido comigo.
Quando eu voltava para casa, jamais regressava com um tostão no bolso, gastava até meu ultimo centavo; alguma coisa havia acontecido?
O que era, eu não sabia! Eu teria que descobrir!
Seria necessário, portanto que eu me tornasse sóbrio.
Claro, eu ficaria sóbrio e voltaria ao grupo Oxford, para saber o que havia acontecido.
Eu teria que tentar sair daquele abismo em que tinha jogado a mim mesmo. Eu teria que descobrir de qualquer maneira, como eu poderia tornar-me sóbrio?
A minha experiência me dizia: Voltando para o Towns Hospital, meu cunhado pagaria; certamente ele pagaria os 125 dólares para pagar os cinco dias necessários para eu me tornar sóbrio.
Bem eu não sei a respeito de vocês!
Eu apenas sei, que para alguém se tornar sóbrio ele tem que ficar bêbado.
Claro que não haveria sentido ir para o hospital de ressaca, e o desperdício de dinheiro, pagar 125 dólares para ficar sóbrio!
Como eu tinha sido tonto, o bastante para dar o meu dinheiro para minha mulher; eu não tinha dinheiro para beber.
Quando enfiei a mão no bolso, encontrei apenas seis centavos.
Com cinco centavos eu pagaria o metro, me sobraria um centavo! Nem no Brooklyn você poderia ficar bêbado com um centavo apenas.
Eu me vesti e fui andando, de bar em bar, até que conseguir encontrar um que me vendeu fiado.
Vendeu-me fiado graças ao credito de Lois. Eu comprei fiado quatro garrafas de cervejas.
De cara, bebi duas garrafas, pois eu tinha muita sede.
As outras duas garrafas, eu levei comigo no metro. Ofereci uma para uma pessoa no metro, e a pessoa recusou.
Não tive outro jeito, senão beber mais uma.
Finalmente, quando cheguei ao Towns Hospital, sacudindo a última garrafa no ar sobre a minha cabeça.
De cara, encontrei o Doutor Silkworth e fui gritando para ele: Doutor, eu encontrei Deus.
Ele deu uma olhada em mim e na minha garrafa e foi dizendo apenas: Eu vejo a sua situação meu rapaz, vá logo para cima e troque de roupa.
Eu fui para cima, troquei de roupa e terminei a ultima garrafa de cerveja.
Três dias mais tarde, depois dos calmantes e do álcool, estava deitado na cama cheio de remorso, de culpa e de piedade de mim mesmo.
Sentia-me mais do que tudo, cheio de raiva, meio enlouquecido e completamente humilhado.
Cheguei à conclusão, depois de uma luta tremenda comigo mesmo, que eu não tinha nenhuma intenção de ver o grupo Oxford outra vez.
Eu devia 125 dólares ao meu cunhado e tinha, também, causado uma situação, minha mulher não falava mais comigo, com toda razão; e continuava a pensar na coisa terrível que eu havia feito.
Quando olhei para a porta, vi que Abby estava ali.
A primeira coisa que eu fui dizendo para ele foi a seguinte: Aqui esta um homem que pratica aquilo que diz!
Eu tinha ouvido os empregados do hospital dizendo como estava frio quando chegavam para trocar de turno, eis que aqui estava o meu amigo que tinha vindo me ver e visitar apesar de tanto frio!
E, a única coisa que ele disse para mim foi: Sinto muito vê-lo aqui outra vez Bill! Eu tinha pensado de que o programa havia funcionado para você desta ultima vez! Contudo, creio que estava enganado. Se você precisar de ajuda, não se preocupe, você pode me chamar outra vez. Torne sua vida para Deus.
Eu disse-lhe: Espere um momento Abby, qual era mesmo aquela simples fórmula que você recebeu do povo do Oxford e que fez com que você se tornasse sóbrio?
Abby respondeu: É muito simples: Torne-se honesto e fale com os outros, procure reparar o mau que você já fez para os outros, procure ajudar aos outros e peça a ajuda de Deus. Qualquer Deus, a maneira que você possa entendê-lo, para ajudá-lo a fazer estas quatro coisas.
Porque ele havia mencionado D-e-u-s. Eu disse: não, muito obrigado! Eu ainda rejeitava a idéia de um Deus pessoal.
Que piada! Que desperdício, eu disse para mim mesmo.
Eu continuei deitado e foi se tornando cada vez mais escuro aquele quarto.
E, sentindo ainda um pouco de dor, eu cai na depressão mais profunda que jamais tinha sentido.
Fui caindo, caindo, como descendo numa fossa profunda e escura até que cheguei ao fundo.
E, como foi dito antes, quando eu fui introduzido para falar, que eu tinha vivido muitos momentos na minha vida. Por um breve momento o meu orgulho, a minha resistência orgulhosa me deixou.
E de repente eu estava gritando: Se existe um Deus, que ele apareça para mim!
Eu estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa!
E, de repente meu quarto ficou iluminado por uma luz imensa e brilhante.
Eu cai num êxtase que não existe palavras que possam descrever. Parecia para mim, aos olhos da minha mente que eu estava numa montanha e que um vento não de ar mais do espírito estava assoprando. E irrompeu em mim, senti que eu era um homem livre!
E a obsessão de beber me deixou.
Aos poucos o êxtase foi diminuindo.
Eu continuei em meu leito, porém agora eu me encontrava em outro mundo, num mundo novo da consciência!
Ao meu redor e dentro de mim havia um sentimento de uma presença maravilhosa.
Eu pensei comigo mesmo; ‘então e este o Deus dos pregadores?’
O Deus de que eles vêem falando todos estes anos? E uma paz muito grande me envolveu e eu pensei; não importa que as coisas pareçam erradas, entretanto todas coisas estão certas com Deus e seu mundo. Senti-me na presença de Deus, certo de que minha mente era inquisitiva e normal.
E, ao mesmo tempo a minha mente começou a dizer-me: Oh meu Deus, esta alucinação e a avó de todas alucinações!
É meu começo de caída na loucura que o doutor descreveu para mim. Eu fiquei amedrontado e pedi a enfermeira para chamarem o doutor Silkworth.
Ele veio e sentou-se na beirada de minha cama.
Eu contei para ele o que havia acontecido; e não sei de onde eu tirei a coragem para perguntar-lhe: Doutor, isto quer dizer que eu estou ficando mesmo louco?
Ele franziu as sobrancelhas e depois de uns momentos respondeu: Não, meu rapaz, não. Eu não presenciei o que aconteceu com você, entretanto, já li num livro a respeito de alcoólicos que se tornam sóbrios e posso dizer-lhe tudo aquilo que você tem.
Eu vi você momentos antes e não tinha a menor esperança de que você pudesse começar uma vida nova.
É melhor que você guarde, com todo cuidado tudo isto que aconteceu com você, pois é a única coisa que você tem.
Depois disto, ele foi-se embora eu adormeci, tranqüilo, como uma criança.
Pela manhã, mais luz e claridade vieram para mim, quando o meu amigo Abby veio visitar-me.
Logo fui contando para ele o que havia sucedido comigo.
Ele saiu e mais tarde voltou com um livro, escrito pelo Dr. William James: ‘as variedades das experiências religiosas’. Dr. William James, um psicólogo graduado da Universidade de Harvard.
O livro era muito difícil para mim, contudo eu o devorei, lendo-o todo de uma vez.
Descobri, como quem descobre o valor de alguma coisa em dinheiro, o que havia acontecido comigo.
No livro, ele explicava de maneira clara e cientifica o que tinha acontecido comigo. E descrevia mais ainda, outras experiências religiosas semelhantes a minha, acontecidas com outras pessoas.
E, de acordo com as experiências religiosas que ele descrevia, eu identificava com a minha própria experiência.
E descobri assim, que outras pessoas tinham tido a mesma ou experiência semelhante a minha.
E sendo um alcoólatra, eu me perguntava: Como isto pode ter acontecido comigo? Por que comigo?
Compreendi então, que durante os meus anos de alcoolismo, tinha sido como se eu estivesse numa caverna.
E, meus amigos e familiares, principalmente minha esposa estava de fora desta caverna chamando me para fora.
E, meu amigo Abby, que tinha estado numa caverna semelhante, quando ele estava bebendo, tinha encontrado o caminho de saída.
Depois que ele saiu de sua caverna, ele veio me chamar e me deu a mão para eu sair da minha caverna.
Um alcoólico ajudando ao outro.
Conclui, então, o que eu queria e devia fazer: Ajudar aos outros alcoólicos como eu.
Quando deixei o hospital, entrei no grupo Oxford, e assim eu continuei, e nos seis meses seguintes eu falei com muitos alcoólicos.
Ninguém me ouvia ou prestava atenção, eu não conseguia ajudar ninguém.
Eu estava convencido que todo mundo teria que ter a mesma experiência, de estar no alto de uma montanha e ter uma luz brilhante para iluminá-los e um vento soprando.
Todos fugiam de mim!
Alguns me diziam: Bill diga-nos que bebida você tomou naquele dia, para que não bebamos da mesma!
Eles pensavam que eu tinha tido uma alucinação.
Finalmente desencorajado, eu fui falar com o Doutor Silkworth.
Eu lhe disse: Doutor, por que eu não consigo ajudar as outras pessoas como o Abby pode ajudar-me?
Ele me respondeu: Bill,vou dar-lhe um conselho e você escuta se quiser.
– Bill, eu tenho ouvido você falar com outras pessoas; por que você não deixa de fora a idéia de Deus? Não fale de Deus, fale de você, de um alcoólico para outro alcoólico. Deixe que eles próprios façam a conexão; do sofrimento, da angustia, da dor, das mentiras.
Quando você conseguir fazer esta conexão, então fale de Deus, da parte espiritual.
E quando comecei a fazer assim, eles pararam de fugir de mim.
Ninguém deixou de beber, contudo eles começaram a me ouvir.
E logo os meus amigos e familiares começaram a dizer: Hei quando e que o
Bill vai decidir voltar a trabalhar para tirar a Lois daquela porcaria onde ela trabalha?
Eu compreendi que eles tinham toda a razão.
Eu não tinha tido nenhum sucesso com a minha tentativa de tratar com os alcoólicos.
Comecei então, a procurar algum trabalho andando pelas ruas e procurando aqui e ali.
Finalmente fiquei informado a respeito de um negócio que estava para ser começado em Akron.
Preparei-me para esta chance de conseguir alguma coisa. Mas, antes de falar o que eu fui fazer em Akron tenho que parar por uns minutos para um descanso.
(Intervalo)
Muito obrigado, fico contente de ver que ninguém foi embora e continuam ainda aqui.
Ante de começar, quero ter esta oportunidade de dizer que, quando fui introduzido por Peter para falar; na introdução, ele disse alguma coisa a respeito do anonimato.
‘Anonimato e a fundação espiritual da nossa organização’.
Eu gostaria de notar um aspecto, muito importante a respeito do anonimato.
Contudo, nunca deixe que isto interfira na sua habilidade de ajudar outra pessoa.
Não seja tão anônimo como uma pessoa que eu conheci em um dos grupos; ele era tão anônimo que nem o padrinho dele sabia que ele pertencia ao grupo.
Não seja assim tão anônimo.
Akron em 1935 era uma cidade dividida entre si mesma.
Akron era matriz de das maiores companhias de pneus: Goodyear, Firestone and National Rubber.
Era minha intenção e de vários investidores tomar o controle de uma pequena companhia de máquinas que fornecia para as três grandes companhias.
A nossa intenção para conseguir isto, seria através de procuração.
E para assim fazer seria necessário informações de dentro. Mas, conforme eu já disse, a cidade era tão dividida entre as três companhias que se você falasse com uma, não conseguiria falar com a outra.
E porque éramos um grupo de New York, ninguém quis falar conosco.
Um outro grupo veio de Chicago, e como eles eram do Middlewest, eles conseguiram, porque eles tinham um caminho particular para conseguir o contrato. E eles conseguiram o contrato.
Como não havíamos conseguido, os investidores decidiram voltar para New York. Eles tinham motivo para voltar; eu não tinha nenhum motivo para voltar.
Decidi ficar, pois esta era a minha única chance de me tornar presidente daquela companhia que eu queria criar.
Esta seria a minha salvação para pagar minhas contas e ajudar a Lois.
Eu iria começar a minha vida de novo.
Eu conversei com eles, e ficou decidido que eu poderia permanecer em Akron.
E assim todos foram de volta para Nova York e eu fiquei.
Eu havia ficado, para tentar descobrir se existia alguma coisa ilegal no contrato que as companhias tinham feito entre si.
Uma outra razão para eu continuar em Akron era porque o hotel já estava pago.
Ainda melhor se eu conseguisse descobrir algo ilegal no contrato feito pelas companhias, nos poderíamos processá-los e talvez recuperar grande parte do dinheiro que tínhamos investido.
E foi assim que naquele sábado, véspera do dia das mães, eu me encontrei no salão de entrada do Mayflower Hotel andando de um lado para o outro.
Quase no fim do salão, estava a mesa de recepção e o empregado que era encarregado de receber os hospedes.
Atrás da recepção estava à entrada do bar.
Depois de muito tempo andando daqui para lá, eu decidi entrar no bar para tomar uma Ginger-ale.
Comecei a prestar atenção no barulho do bar e aos pouco comecei a sentir uma nostalgia muito profunda; e ela foi aumentando cada vez mais.
Eu tomei o copo de Ginger-ale, e tentei conversar com alguém para matar o tempo.
E assim que bebi a Ginger-ale eu comecei a entender o que realmente havia acontecido comigo naquele dia do Armistício, quando eu tinha ido ao Clube de Golfe em Staten Sland, o que eu queria não era simplesmente beber Ginger-ale, mas sim ficar bêbado!
Como eu tinha 10 dólares no bolso e naquele tempo em Akron com 10 dólares você podia ser rei por um dia.
Isto era muito dinheiro!
Como eu já estava sóbrio por um bom tempo, compreendi que deveria sentir medo da maneira em que eu estava pensando e racionalizando!
Eu entendi logo o que deveria fazer se quisesse continuar sóbrio.
Esta não era maneira de continuar pensando e manter-se sóbrio.
Eu tinha a necessidade de encontrar um bêbado para ajudar, e eu sabia que ele poderia me ajudar mais do que poderia ajudá-lo.
Não tinha mais dúvida, eu tinha que encontrar um alcoólico para conversar comigo.
Entretanto eu era novo em Akron e não conhecia ninguém.
Voltei para o salão do hotel e continuei andando de um lado para o outro, de repente não sei explicar por qual razão; comecei a ler um diretório de igreja que estava no meio do salão do hotel, na parte de baixo do diretório vi um nome que chamou minha atenção: Reverendo Walter Tonk.
Quando eu era criança em Vermont quando andava pelos bosques com outras crianças, costumávamos dizer que fizemos um (tonk) caminhada. Este nome foi como uma pista para mim.
Eu peguei na lista telefônica e encontrei o nome e o numero do reverendo Tonk.
Disquei o número dele e foi ele mesmo que atendeu.
Para vocês que jogam baseball isto foi como uma jogada de final de jogo e um alivio.
Eu estava falando com o fã numero um do Oxford grupo de Akron, Ohio.
Expliquei para ele o que queria e também que eu era recém-chegado de Nova York e estava sóbrio por seis meses. E que eu necessitava era um encontrar um alcoólico para ajudar.
Ele respondeu que sentia muito, porem não sabia e nem conhecia nenhum alcoólico. Mesmo em caso de que ele conhecesse ele não poderia dar o nome para mim. Na opinião dele, para lidar com um alcoólico já era difícil demais, e seria muito mais difícil para eu cuidar de mim e de outro alcoólico. Depois de um momento ele continuou, eu conheço alguns membros do Oxford grupo.
Em seguida ele me deu os nomes de 10 membros do grupo e mais os números de telefones deles.
Eu troquei um dólar e peguei 20 moedas de cinco centavos. Liguei para o primeiro e ele não estava em casa; continuei chamando os outros números; uns não estavam em casa ou não sabiam de nenhum bêbado ou simplesmente desligavam o telefone.
Finalmente, quando disquei o último número, antes de discar eu tinha respirado profundamente.
A pessoa que respondeu era um homem que já estava preparando as malas para sair da cidade para o fim de semana.
Ele foi dizendo logo: sinto muito porém não posso ajudá-lo; eu senti uma dor profunda no coração!
Contudo no fim ele disse: anote este nome e número e tente chamar esta mulher, o nome dela era Henrietta Seiberling.
Eu disse: Meu Deus, esta e a esposa de Frank Seiberling, o fundador da Rubber Companhia.
Eu conheci Frank Seiberling em Nova York, quando eu estava na Wall Street, nos éramos do mesmo clube naquela época.
Eu não poderia Chamá-la e ir dizendo: Eu sou Bill Wilson de Nova York, você conhece algum bêbado que possa ajudar?
Entretanto, Henrietta Seiberling, não era a esposa de Frank Seiberling, mas sim sua nora que estava divorciando do filho de Frank.
Ela não morava na mansão dos Seiberling, mas numa casa que ficava perto do portão de entrada da propriedade. Ela morava ali com os três filhos, o marido dela morava na mansão do pai.
Eu senti um peso no coração e fiquei sentado na cabine telefônica e fiquei pensando: Se eu não fizer esta chamada vou acabar bebendo!
Finalmente, disquei o numero e Henrietta atendeu.
Fui dizendo logo, para ela, o que eu queria. Ela respondeu: Venha logo e me deu o endereço.
Ela tinha se tornado membro do Oxford grupo alguns meses antes procurando ajuda durante o processo de divorcio.
Vocês sabem, o Oxford grupo não era uma religião, mais sim, uma seita sem denominação fundamentalista.
Eles praticavam um tipo de crença que vinha desde logo depois da morte de Cristo. Viviam como nos tempos logo depois de Cristo, não havia regras e estipulações e nem hierarquia.
Eram apenas um grupo de pessoas, tentando ajudar outras pessoas durantes as crises da vida, procuravam ajudar também em questões de fé.
Eles sugeriam apenas rezar e meditar junto e isto era mais ou menos o que consistia o Oxford grupo.
Ela era parte do grupo e participava com a maior dedicação.
Há apenas duas semanas antes da minha visita a Akron, houve um homem que durante a reunião tinha testemunhado que era afligido pelo problema do alcoolismo. Ele havia dito também que este era o seu mais profundo e negro segredo.
Entretanto, toda a cidade de Akron sabia que ele tinha problema com a bebida.
O nome dele conforme ele revelou para o grupo era Doutor Bob Smith.
O que ele revelou para o grupo já era uma piada entre os médicos do hospital que dizia: faça uma aposta e arrisque se quando você for ver o doutor Bob Smith você vai encontrá-lo bêbado ou sóbrio!
Doutor Bob Smith era um bom médico e quando ele compartilhou seu segredo, ele tinha feito com muita honestidade.
Henrietta tinha muito orgulho pelo Doutor Bob e pelo pai dele, por esta razão, ela começou a rezar por ele.
Por isto, quando ela recebeu minha chamada, ela estava pensando nele.
Quando eu cheguei, foi como se tivesse ido fazer uma entrevista.
Ela queria saber e ter certeza de que eu era de fato um alcoólico.
Claro que isto foi algo muito estranho para mim, pois eu nunca tinha tinha tido até então que provar para ninguém de que eu era um alcoólico.
Quando ela ficou finalmente convencida de que eu era mesmo alcoólico ela foi ao telefone e chamou Anne Smith, a esposa do doutor Bob.
Henrietta falou com Anne que em sua casa estava este rapaz alcoólico de Nova York que poderia ajudar o Doutor Bob.
Anne começou a dar uma e outra desculpa dizendo que não acreditava que doutor Bob pudesse vir até a casa de Henrietta.
Henrietta não desistiu e continuou insistindo.
Finalmente Anne disse: Escute bem aqui, Bob veio para casa com um vaso de plantas dizendo que era um presente para mim pelo dia das mães. Ele colocou o vaso na mesa da cozinha, e desmontou adormecido debaixo da mesa. Já fiz tudo para despertá-lo mais não consigo.
Henrieta não desistiu e disse: Anne eu tenho uma idéia: Vou dizer a este rapaz de Nova York para que ele volte amanhã.
Venha aqui amanhã com Doutor Bob Smith, lá pelas cinco da tarde para jantarem comigo.
Eu voltei para o hotel e tive uma noite bem tranqüila.
No dia seguinte, andei um pouco pela cidade e depois fui novamente para a casa da senhora Seiberling, a fim de encontrar com o doutor Bob Smith.
Quando eles chegaram, notei logo que Doutor Smith tinha uma aparência horrível, depois de mais uma bebedeira.
Creio que me introduzi bem, pois fui logo dizendo: Alô amigo, creio que você pode usar a ajuda de mais um alcoólico para começar mais uma bebedeira.
Eu percebi que ao ouvir isto ele se sentiu mais à vontade.
Creio que ele disse para si mesmo: Eis aqui um cara que sabe de que esta falando!
E nos dirigimos para a sala de jantar para começar o jantar.
Bob estava num estado tão terrível; tremendo, derramando a comida do prato sem conseguir segurar direito o garfo.
Eu fiquei com pena dele e disse-lhe: Vamos deixar a comida para mais tarde.
Em vez disso, vamos para aquela outra sala a fim de conversarmos.
Ele concordou comigo, pois tinha percebido a impressão que estava causando.
Nós fomos para uma pequena biblioteca, quando estávamos nos dirigindo para a pequena biblioteca ele disse para Anne: Eu vou dar a este bêbado 15 minutos e depois vou mandá-lo seguir seu caminho!
Eu disse para mim mesmo: Terá que acontecer um desastre aéreo ou ferroviário para nos tirar dali.
Doutor Bob não acreditava jamais que alguém vindo de Nova York pudesse ajudá-lo a ficar sóbrio.
(Os americanos em grande maioria, do meio do Oeste e do Sul dos Estados Unidos, desconfiam dos americanos do Leste, principalmente de Nova York).
Antes de começar a nossa conversa, eu me lembrei do conselho do Doutor Silkworth. Comecei a por em pratica aquilo que tinha aprendido.
Eu disse-lhe Doutor eu necessito de sua ajuda!
Ao que ele respondeu: Eu pensei que você iria ajudar-me!
Eu contestei, não Doutor eu preciso, senão voltarei a beber.
E de acordo do Doutor Silkworth eu comecei a contar-lhe a historia de minha vida.
Ele sacudiu a cabeça e começou a escutar-me.
E continuou escutando-me e escutando; às vezes sacudia a cabeça, outras vezes dizia alguma coisa.
E falei da doença do alcoolismo.
E ele que vinha praticando medicina por trinta anos continuou escutando-me com toda atenção.
E os 15 minutos se transformaram em 5 horas!
Quando terminamos e saímos da biblioteca, ele colocou as mãos nos meus ombros e disse para Anne: Querida será que nos poderíamos levá-lo para casa conosco.
Creio que este rapaz pode ajudar-me.
Ela respondeu: Claro que sim.
E alguns dias depois deixei o hotel e me mudei para a casa do Doutor e da senhora Smith, Bob Junior e Sue.
Eu fiquei com a cama de Bob Junior que passou a dormir em um sofá.
E dai em diante eu me tornei tio Bill para as duas crianças.
O amor, a paz, a alegria e felicidade que encontrei naquela casa eu jamais esquecerei e encontrarei nesta terra!
E todos os dias nos caminhávamos juntos líamos as nossas preces, rezávamos e compartilhávamos uns com os outros.
Doutor Bob continuou praticando o resto da prática de medicina que ainda lhe restava.
Anne ficava cuidando da casa e participando conosco.
E continuamos conversando entre nos e compartilhando para ajudar-nos uns aos outros.
Os dias foram passando e Doutor Bob continuava sóbrio, e isto era algo maravilhoso.
Porém, um dia de manhã, ele disse que iria participar de uma reunião de medicina em Atlantic City.
Ele jamais tinha perdido uma conferência de medicina nos últimos trinta anos.
Bob não pensava em deixar de atender esta reunião em Atlantic City, ainda mais agora que estava sóbrio.
Anne tentou convencê-lo a não ir dizendo-lhe: Querido você não devia ir, você sabe bem como são esses congressos de medicina?
Ele respondeu que tinha que ir, principalmente agora ele precisava ir para provar se o que estávamos fazendo funcionava.
Ainda mais que este rapaz não poderia ficar aqui para sempre.
Logo ele terá que voltar para Nova York, a fim de conseguir um trabalho.
Ele tinha toda a razão, pois eu não poderia continuar sem trabalhar para sempre.
E assim ele partiu para Atlantic City.
A verdade foi a que ele nos disse mais tarde, por si mesmo.
Antes de o trem deixar a estação, ele começou a beber e não partiu de viagem.
Nós fomos encontrá-lo, cinco dias mais tarde na casa de uma sua ex-enfermeira, que junto com o marido dela o haviam encontrado no norte da cidade.
Os dois levaram Doutor Bob para a casa deles e tentaram curá-lo da bebedeira.
Como não conseguiram, desesperados, eles nos chamaram e nos fomos buscá-lo e o trouxemos para casa.
Eu fiquei com meu coração despedaçado e decidi ir me embora.
Anne, entretanto, me implorou dizendo: Bill, por favor, você não pode ficar mais uns dias ate que ele fique bom outra vez?
Ainda mais que ele tem que fazer uma operação num paciente em poucos dias, e se ele não fizer esta operação, nos vamos perder o hospital, o teatro e tudo mais!
E para ajudá-lo, mais uma vez, eu decidi ficar.
Depois que o trouxemos para casa, depois de muitos litros de café, e a receita que eu tinha e que era minha própria para curar ressaca: fatias de tomate, laranjada, sucos de repolho e melado.
Nós enfiávamos tudo na boca dele e ele tinha que engolir tudo.
E nos fazíamos ele andar de lá para cá.
Depois de alguns dias, ele ficou sóbrio bastante para tentar fazer a operação.
Quando eu fui levá-lo ao hospital para fazer a operação, ele tremia tanto que eu comprei uma garrafa de cerveja e dei para ele beber.
Ele ficou muito agradecido e as mãos dele ficaram firmes.
E deixei-o no hospital e ele conseguiu fazer a operação.
Entretanto, quando ele ia subindo as escadas do hospital ele voltou até o carro ficou encostado na janela do mesmo e olhando para mim ele disse: Bill eu vou fazer aquilo!
Eu fiquei admirado por ele ter dito que iria fazer aquilo, porem não entendi.
Para dizer a verdade eu já estava cansado dele!
Eu apenas respondi: vai e faz o que você tem que fazer.
Voltei para casa e fiquei esperando pela sua chamada a fim de ir buscá-lo do hospital.
E o tempo foi passando.
Deram dez horas, deu meio dia, deu duas horas e nada do Doutor Bob.
Finalmente às cinco horas da tarde um táxi parou na entrada da casa.
Anne puxou a cortina da janela para o lado e espiou da janela.
Eu perguntei: E ele, como ele está ?
Ela respondeu: Não sei, não da para ver direito.
Dentro de pouco Doutor Bob entrou em casa.
Houve um momento de silêncio profundo e ninguém de nós sabia o que dizer!
Por fim Anne disse: Querido aonde você andava, nos estávamos morrendo de preocupação?
Onde eu estive? Eu estive por toda a cidade de Akron pedindo perdão, pedindo desculpas, procurando todas as pessoas que eu devia dinheiro e prometendo pagar-lhes.
Dizendo para todas pessoas que ele conhecia em Akron que ele era um alcoólico.
Ele tinha procurado e ido pedir perdão a todas aqueles que ele havia ofendido.
Ele tinha posto em prática um dos primeiros passos que ele tinha aprendido no Oxford grupo.
Ele tinha começado a praticar tudo que nos havíamos aprendido entre nós.
Era isto que ele queria dizer, quando na porta do hospital ele disse para mim: Bill creio que vou fazer aquilo.
E isto aconteceu no dia 10 de junho de 1935.
Aquela cerveja que eu dei para ele foi o último gole.
Doutor Bob Smith nunca mais voltou a beber até sua morte.
E eu também não voltei para Nova York.
Doutor bob disse-me: Bill nos temos que ajudar outro alcoólico, se ficarmos em casa conversando uns com os outros nos não vamos conseguir ajudar ninguém. Necessitamos procurar e encontrar alguém que necessite ajuda.
Ele ligou para o Hospital de Akron e falou para a enfermeira chefe: olhe eu tenho aqui em casa um rapaz de Nova York que tem a cura para o alcoolismo.
Você tem alguém internado no hospital que necessita ajuda?
A enfermeira começou a rir e respondeu-lhe: Hei doutor que tal se você pedir ao tal rapaz para ajudá-lo primeiro! O senhor esta sóbrio?
Doutor Bob disse para ela: Não para ajudar a mim, eu já estou sóbrio.
Ela disse então esta bem. Eu tenho um cara aqui que seria ideal para vocês.
O tal rapaz tinha vindo do sul e já havia sido Vereador da cidade.
A enfermeira continuou: Ele deu um murro no olho da enfermeira chefe do pavilhão dele e ela ficou com um olho negro e inchado.
Nós temos o cara amarrado na cama. Esse cara é um bêbado terrível, ele pediu e vai ser internado no Hospital Geral do Estado de Ohio para insanos quando puder sair daqui.
Estou certa que ele e um ótimo candidato para vocês!
Dr. Smith disse para ela: Claro que ele e um bom candidato para nós.
Sem que eu soubesse, ele mandou a enfermeira dar uns calmantes para o sujeito e transferi-lo para um quarto particular.
Bob disse ainda para a enfermeira que ele iria pagar pelas despesas do quarto.
Desta maneira nós poderíamos falar com ele em particular.
Nós fomos para o hospital e quando ali chegamos, encontramos o homem amarrado na cama.
E naquele tempo quando alguém era transferido para um quarto particular, significava que você estava morrendo.
O pobre sujeito estava completamente aterrorizado.
Ele estava numa suadeira tremenda, com os olhos estatelados e inchados.
Ele quase não podia mover na cama.
Quando ele nos viu ficou ainda mais amedrontado pensando que nos éramos agentes funerários e que tínhamos vindo para medir o corpo dele.
Assim, ele estava mais do que aterrorizado.
Com o passar dos minutos ele foi ficando mais tranqüilo e confidente quando percebeu que não éramos o que ele havia pensado.
Logo começamos a contar-lhe as histórias de nossas vidas.
Como as nossas vidas tinham sido antes, o que havia acontecido, como era agora e o que estávamos fazendo ali.
E ele nos escutava com os olhos arregalados e sem poder mover os braços amarrados. Ao poucos nos pudemos ver como a paz de Deus estava descendo sobre ele.
Quando terminamos de contar a nossa história, perguntamos-lhe: Qual e sua opinião?
Ele respondeu: Olhe meus amigos, fico muito feliz por vocês e desejo-lhes muito sorte e sucesso. Contudo, creio que já é muito tarde para mim. Eu tenho medo que quando sair daqui poderei acabar matando alguém na minha próxima bebedeira. Eu já pedi para ser internado no hospital estadual de Ohio para insanos. Para mim como já disse é muito tarde. Não fui eu quem deixou Deus, porem Deus foi que me abandonou!
Nós não tínhamos uma resposta para ele, ficamos sem encontrar um recurso para responder-lhe.
E já íamos embora e não me recordo bem, se fui eu ou Bob que voltou e disse-lhe: Pode ser que esquecemos de alguma coisa.
Será que poderemos voltar outra vez?
Claro que vocês podem voltar, vocês sabem bem como é solitário o tal problema de desintoxicação? Todo mundo nos odeia e não suportam a nossa presença todos querem se ver livres de nos. Por favor, voltem outra vez e quantas vezes quiserem voltar.
Por fim nos concluímos que tínhamos vendido apenas à metade da nossa idéia e não a idéia completa.
Precisaríamos, então conversar com ele outra vez.
Quando voltamos para vê-lo depois de alguns dias, ele não se encontrava mais no quarto privado; mais sim na enfermaria geral no meio dos outros pacientes.
Quando ele nos viu chegar, começou a gritar como um louco: Aqui estão vocês! Ele gritou tão alto que uma enfermeira deixou cair à bandeja.
Nós tentamos acalmá-lo mais ele continuou gritando aqui estão eles!
E dizia para sua esposa que tinha vindo visitá-lo: São eles querida, eu não estava sonhando ou delirando! Alguém tinha vindo me ver como eu estava dizendo a você! Eles estiveram aqui para me ver. Querida este homem aqui e um vendedor de ações, e este outro e um Doutor aqui do hospital. Eu não consegui esquecê-los e tirá-los da minha mente. Conte para ela o que vocês contaram para mim.
E novamente repetimos as nossas s historias para ela e ele.
Quando terminamos ele disse para a sua esposa: querida pegue as minhas coisas e minha roupa que eu vou para casa.
O nome dele era Bill D. e Bill D. era AA numero três.
Agora já tínhamos o terceiro membro do nosso primeiro grupo AA. e até hoje nos reunimos em Akron.
Assim já tínhamos alguma coisa.
O que era fora do comum é que Bill D. não era membro do Oxford grupo.
Mesmo assim ele havia entendido a nossa mensagem e de que estávamos falando.
Estes tempos foram maravilhosos para nos!!!
Dois anos mais tarde já éramos 40 homens.
A maioria deles eram de Akron e alguns eram amigos de Nova York. Quarenta homens que estavam sóbrios por seis meses ou mais!
Nós pusemos os nomes de todos os membros escrito num papel sobre a mesa da cozinha.
Bob comentou: Dessa maneira que vamos caminhando, lá pelo ano de 2000 seremos uns mil ou talvez mais.
Nós necessitamos de nos organizarmos e espalhar a nossa mensagem de uma maneira melhor.
E eu disse: Mas para fazer isto vamos necessitar de dinheiro.
Ao que todos responderam: Bill você é o entendido em questões de dinheiro, você é que sabe como podemos conseguir dinheiro.
Eu fiz algumas tentativas para conseguir dinheiro e todas elas foram um verdadeiro desastre.
Contudo vamos deixar isto para outro dia e outra reunião.
Finalmente alguém sugeriu que a melhor maneira para conseguirmos dinheiro seria escrevendo um livro.
E assim pedimos algum dinheiro emprestado, vendemos algumas coisas e abrimos a chamada publicações mundiais.
Entretanto ninguém tinha nenhuma experiência em como escrever um livro.
Por minha parte eu escrevi um capitulo e algumas coisa mais.
Bob escreveu um capitulo e Dr. Silkwoth escreveu também seu capitulo e outras coisas mais.
Também os membros de Nova York, Akron e Cleveland escreveram as suas historias. Por fim, já tínhamos o começo de um livro.
Entretanto, nenhum de nós tinha uma idéia clara e completa de como a nossa organização funcionava.
Quando alguém nos perguntava: Como e que vocês propõem fazer funcionar a organização e as idéias de vocês?
Nós respondíamos que as nossas idéias e organização funcionavam muito bem.
Era verdade que nos tínhamos os Seis passos, os Cincos originais e antes deles nós tínhamos acrescentado o 1º passo: Admitimos que éramos impotentes perante o álcool e que tínhamos perdido o controle sobre as nossas vidas, e eram estes passos as únicas coisas que nos tínhamos.
Em verdade, nós não tínhamos nada concreto.
A única coisa que sabíamos repetir e que a nossa organização funcionava perfeitamente.
Até que uma noite, éramos um grupo e estávamos reunidos no nosso lugar de reunião ao redor de uma mesa, no alto Brooklyn.
Loiz ainda continuava trabalhando naquela porcaria de loja.
Esse nosso lugar de reunião era na casa do meu cunhado.
Estávamos tomando o resto de café que Lois tinha feito pela manhã e discutíamos como teríamos que fazer para a nossa mensagem funcionar melhor.
Discutíamos e discutíamos sem chegar a uma conclusão e mais ainda o que tínhamos que acrescentar no livro.
Nós havíamos feitos muitas dívidas, o livro teria que ser publicado.
E o livro teria que se tornar um Best Seller.
Para isto acontecer, nos tínhamos que continuar escrevendo.
Estávamos no ano de 1939. A feira mundial do livro tinha sido aberta e tudo que se escrevia falando sobre ciências era vendido rapidamente.
Assim chegamos à conclusão de que se quiséssemos vender o nosso livro, teríamos que publicar um livro científico.
Nada de falar em religião no nosso livro.
Eu concordei plenamente com eles.
Lois já havia retornado do trabalho, e estava na cozinha fazendo mais um bule de café. Ela ouviu o que nos dissemos na sala.
De repente escutamos um barulhão de alguma coisa sendo quebrada na cozinha!!!
Lois veio enraivecida para sala e foi gritando: fora, fora, todo mundo para fora!!!
Ela colocou o dedo no meu nariz e foi dizendo: O senhor você vai beber e ela estava tremula.
Eu perguntei-lhe: Por que você diz isto?
Ela respondeu: Você já esqueceu quem o tornou sóbrio?
Depois de ter dito isto, ela subiu as escadas para o quarto de dormir.
Eu não quis argumentar com ela; melhor eu pensei é deixá-la se acalmar primeiro.
E continuei sozinho na sala.
Havia um pequeno cômodo embaixo das escadas que subia para a parte de cima da casa.
Era neste pequeno quarto que eu costumava ficar quando queria meditar.
Entrei no quarto e comecei a pensar nas palavras que ela me havia dito: Não se esqueça que foi Deus que lhe deu a sobriedade.
Comecei então a refletir no meu passado e em todas as coisas que deram uma direção e tinham me ajudado na vida.
Comecei a refletir também, em todas as verdades que havia aprendido no Oxford grupo.
Comecei a refletir também, em todas coisas que o Dr. Bob tinha compartilhado comigo nos últimos quatro anos.
Depois, peguei um bloco de escrever que eu mantinha embaixo da cama e comecei a escrever.
Quando terminei eu havia tomado aquelas seis idéias que tínhamos e as dividi em pedaços menores, e no final eu tinha os 12 PASSOS.
No segundo passo eu identifiquei Deus e no terceiro eu chamei Deus pelo seu nome.
Eu parei no número 12 pelo seguinte motivo: Houveram 12 apóstolos, e se para Deus os 12 apóstolos foram suficientes? 12 passos seriam suficientes também para nós.
Saí do quarto então, e vim para a sala.
Havia alguns membros do grupo tomando o restante do café, eles tinham voltado para dentro de casa.
Eu sentei-me na sala com eles, pois eu sabia bem que o livro tinha que ser publicado.
Fui falando para eles: É desta maneira que vamos fazer.
Em seguida li os 12 passos para eles.
Eu esperei pela opinião deles e não houve nenhuma e nem nenhum argumento.
Um rapaz porem disse: Bill você se importa em cada vez que você mencionar
Deus você acrescentar: Da maneira que você o entende?
Eu respondi: Está bem vamos acrescentar isto.
Agora nos tínhamos os 12 passos e também tínhamos o livro.
A única coisa que estava faltando era o nome para o livro.
Eu sugeri com toda modéstia que Bill Wilson devia ficar calado e não deveria dar opinião.
Alguém sugeriu que chamássemos o livro de ‘o caminho de saída’.
Porém, alguém se comunicou com a livraria do congresso em Washington e foi informado de que já haviam 12 títulos o caminho de saída.
Começamos novamente a procurar um titulo.
Como já éramos 100 homens, por que não chamar o livro 100 homens? Pareceu nos um bom nome.
Contudo não podíamos chamar o livro 100 homens e uma mulher?
Por certo todos iam perguntar: e o que foi que aconteceu com uma mulher ?
Durante uma reunião noturna havia um rapaz que eles tinham trazido do Hospital Bellevue (Bellevue talvez seja o hospital Municipal mais antigo de Manhattan. Este hospital é também um Hospital psiquiátrico. Quando a policia encontra indigentes vagando pelas ruas, com problemas mentais que são perigosos para o público e para si mesmos, a policia os levam para Bellevue. É costume dizer em brincadeiras ou para insultar alguém que age de maneira estranha: Deixaram o portão do Bellevue aberto).
Este rapaz era meio louco e ficava repetindo: Anônimos Alcoólicos.
Acabamos tendo que levá-lo de volta para o hospital, onde ele acabou morrendo.
Dissemos então: vamos chamar o livro Aônimosa Alcoólicos?
Alguém sugeriu, entretanto: vamos por alcoólicos primeiro, e isto foi aceito, foi assim que ficamos com o nome de Alcoólicos Anônimos.
Nós mandamos imprimir 5000 cópias.
Vendemos 102 cópias.
As mulheres compraram duas cópias.
Nem mesmo como presente nós conseguíamos dar os livros, quanto mais vendê-los. Mas, esta é uma outra historia e se vocês quiserem saber como foi, vocês precisam convidar-me para falar outra noite.
Hoje nos somos cem mil e não sei quantas centenas de mil livros já foram vendidos e estão por ai espalhados.
Somos cem mil pela graça de Deus.
Este livro traz apenas sugestões.
Ele não tem todas as sugestões e respostas e muito menos nós temos estas respostas todas.
Apenas sugerimos, que quando vocês fizerem suas preces pela manha diga: O que eu posso fazer para ajudar os outros que ainda vivem escravizados e que ainda sofrem? Confie que as respostas virão, se você tiver a sua casa em ordem.
Claro que você não pode dar o que não tem!
Mantenha sempre a sua boa relação com Deus.
Se Entregue aos cuidados dele.
Livre-se de todas as coisas más que você já tenha feito.
Seja ativo e ajude a outras pessoas.
E tenha uma vida completa e honesta.
AA é sinceridade, simplicidade e humildade.
E, em caso de que eu não tenha sido claro e vocês não puderam me entender completamente, fiquem certos de que ninguém pode entender tudo claramente.
A nossa força vem da nossa fraqueza.
O fato é que nós conhecemos as nossas fraquezas e daí que vem a nossa força.
Nós precisamos adquirir alguma forma de humildade antes de conseguir qualquer forma de ressurreição.
E dai vem o preço que temos que pagar para ter qualquer um começo de um renascimento espiritual.
Este grupo, esta hoje celebrando o seu primeiro aniversário.
Eu quero dizer a vocês que fico muito agradecido pela experiência que vocês me proporcionaram.
Mas, esta experiência é suficiente apenas para as necessidades do dia de hoje. A ordem que temos que seguir na vida é viver um dia, um momento de cada vez.
E para completar este momento façam tudo o mais perfeito que vocês possam.
Eu quero e devo agradecer a todos vocês por me terem deixado compartilhar com vocês alguns momentos de minha vida e da vida dele.
Creio que já estou começando a pregar e não e esta a nossa finalidade.
Eu quero agradecer aos meus amigos e a minha esposa que sugeriram de que eu viesse aqui.
Eles estavam certos, esta reunião me fez muito bem.
Eu espero; deixe-me pôr o meu casaco, aqui esta meu casaco.
Espero que vocês me convidem mais uma vez quando eu voltar de Akron,
Pois, eu vou precisar muito do suporte moral de todos vocês.
Eu já estou sentindo a falta de Bob.
Como vocês devem saber, eu e o Dr. Bob somos de Vermont.
Ele criou-se a 50 milhas distante de mim.
Ele era 15 anos mais velho do que eu.
Dr. Bob veio da aristocracia, o pai dele era um juiz.
Eu por outro lado, nasci em um salão.
Ele era médico e foi treinado para aceitar as pessoas da maneira que elas são.
Eu durante toda a minha vida, tenho procurado a minha promoção própria e me distinguir em qualquer coisa.
A busca da espiritualidade, minha busca da verdade foi sempre o tormento de minha vida.
Bob, porém, esteve sempre perto da verdade, e da verdade de todas as coisas e perto do poder que eu sempre procurei.
Ele encontrou a simplicidade e foi com simplicidade que ele viveu sua vida.
E isto que eu creio que o coloca mais próximo do nosso criador do que qualquer outra pessoa que eu já conheci.
E eu creio isto era necessário para fazer a nossa organização continuar crescendo. Bob com sua maneira simples durante a sua vida inteira; e a minha vida que é tão complicada que nada é simples e fácil para mim.
Eu estou contente por ter estado com Dr. Bob em Akron no último fim de semana.
E para aqueles de vocês que estiveram na convenção em Cleveland, vocês puderam ouvir a ultima palestra dele.
E eu creio, que nunca houve um discurso melhor do que aquele feito por ele.
Como ele podia reduzir os 12 passos em apenas duas palavras: Amor e Serviço!
Claro que ele, como médico, sabia cortar as coisas no tamanho necessário.
Ele foi treinado para isso.
Eu estive com ele e vi que ele estava sentindo muitas dores.
E apesar de seu sofrimento eu recebi toda a sua atenção e suporte.
Algumas pessoas às vezes dizem para mim: Bill você é o coração do AA. se eu for o coração, Doutor bob era a alma e o sangue do meu coração.
Quando a reunião terminou eu tinha que vir de volta.
Eu tinha que pegar o trem para Nova York.
Ele chegou perto de mim e me deu este velho chapéu irlandês.
Ele disse-me: ponha este chapéu na cabeça porque esta chovendo.
Eu não quero que você fique doente, pois você tem muito trabalho para frente.
Eu tenho que dizer para vocês que não conhecem a historia deste chapéu.
Nós dois revezávamos no uso deste chapéu; Bob usava uma vez e eu outra vez.
Desde a primeira vez em que vi este chapéu eu gostei dele.
Eu sabia que este sempre foi o chapéu favorito dele.
Eu disse para mim mesmo: Deixe-me ir logo antes que ele se arrependa e peça o chapéu de volta.
Quando eu ia entrar no táxi, eu olhei para traz e vi que ele tinha me seguido até a varanda.
Ele me olhava e estava apenas dizendo: Não complique as coisas Bill, mantenha a coisa simples. Mantenha a coisa simples!
Oh meu Deus, ele vinha repetindo isto por 15 anos!
Era este o meu amigo de 15 anos!
Eu nunca tive que falar uma palavra rude para ele ou ouvir uma dele! Eu olhei novamente para traz e não sabia que era a ultima vez que o veria vivo.
Como eu gostaria de ter sabido!
E hoje vindo para aqui e usando este chapéu, eu compreendi que naquela noite não estava chovendo em Akron.
Ele quis apenas dar-me alguma coisa que ele tanto queria.
O importante meus amigos e continuar propagando a mensagem do AA e continuar ajudando aos outros.
Tradução e Adaptação por
Wainer (U.S.A) e Marta Quirino e (G.Cardim-SP)

IDENTIDADE EXISTENCIAL E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS COMO UM MOVIMENTO DE AJUDA MÚTUA

IDENTIDADE EXISTENCIAL E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS COMO UM MOVIMENTO DE AJUDA MÚTUA

Fundação Finlandesa para Estudos do Álcool, Helsinki
Klaus Mäkelä

Trabalho apresentado na 12ª Conferência da ABEAD, Pernambuco, Brasil, de 18 a 21 de setembro de 1997.

Este trabalho é baseado em Mäkelä e colaboradores, 1996.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Deixar uma adição geralmente não é uma mudança gradual. Às vezes, o envelhecimento, aos poucos, extingue o beber que havia sido bem pesado e que muito provavelmente teria gerado dependência. Usualmente, no entanto, a mudança é muito mais abrupta. Sem dúvida, tais alterações podem, em alguns casos, ser realizadas por simples determinação e força de vontade. Pode ocorrer, no entanto, que essas mudanças comportamentais radicais e duradouras usualmente também envolvam uma mudança existencial e uma reestruturação do “self”.
Visto a partir desta perspectiva, Alcoólicos Anônimos é uma interessante saída para o alcoolismo. Como tal, A.A. não é um tratamento, mas um movimento de ajuda mútua. Esta distinção tem sido tornada menos nítida pelo advento do tratamento profissional inspirado ou orientado para o programa de A.A., que difere do assim chamado “tratamento dos 12-Passos” em muitos aspectos, além da ausência de uma relação profissional/paciente. Uma das diferenças fundamentais está no processo do grupo, entre o que ocorre numa reunião de A.A. e o que acontece numa seção profissional de 12-Passos.
A minha apresentação de hoje é baseada no “International Collaborative Study of Alcoholics Anonymous”, um estudo sociológico de A.A. como um movimento de mútua ajuda com a participação da Áustria, Finlândia, Islândia, México, Polônia, Suécia, Suíça e dos Estados Unidos. O meu foco está nas características do A.A. e, particularmente, nas reuniões de A.A. como eventos em que se fala e que dão espaço e suporte para uma mudança existencial.

DIFUSÃO INTERNACIONAL DO A.A.
O A.A. se originou em 1935, nos Estados Unidos, e a maioria dos seus primeiros membros era da classe média superior. O A.A. pode ser descrito como uma invenção da classe média americana, mas tem mostrado uma impressionante habilidade para se espalhar para culturas e grupos demográficos que são inteiramente diferentes do seu meio cultural de nascimento.
Harry Levine (1992) comenta sobre o A.A. como sendo uma continuação das tradições de temperança características dos países de língua inglesa e dos países nórdicos. Nesses países, a bebida alcoólica era, historicamente, de uso mais freqüente e o Protestantismo, a religião dominante. A combinação do beber desintegrador e do Protestantismo levou a uma preocupação obsessiva acerca dos problemas do álcool e aos movimentos poderosos e duradouros de temperança. O A.A. é uma continuação da mesma preocupação acerca do álcool, mas numa nova situação histórica. A distribuição dos grupos de A.A. no mundo, por região e dos pontos de vista lingüístico e cultural (Tabela 1), provê um suporte parcial à interpretação de Levine. As culturas de temperança de Levine responderam por 65 por cento da afiliação de membros de A.A., em 1988. No entanto, a tendência principal, visível na tabela I, aponta numa direção diferente. A proporção de todos os grupos ativos de A.A., situados nos países protestantes de língua inglesa e escandinava, claramente diminuiu de 1965 a 1988 e a participação dos países europeus do centro e do sul, particularmente os da América Latina, aumentou substancialmente. Em 1988, a América Latina respondia por quase um terço da afiliação de A.A. no mundo. Isso mostra que o movimento se espalhou bem além dos limites dos países tradicionais de temperança. Em 1986, as atividades duradouras de A.A. foram tipicamente estabelecidas em todos os países estáveis, não-comunistas e não-islâmicos. Depois das revoluções que aconteceram na Europa Oriental, o A.A. espalhou-se pelo restante da Europa. A Irmandade também tem estabelecido cabeças-de-ponte em alguns países asiáticos industrializados.
O primeiro grupo de A.A. no Brasil foi estabelecido em 1947 mas, nos primeiros 15 anos, o crescimento do movimento foi muito lento (tabela 2). Desde os anos 60, o A.A. tem crescido firmemente e num ritmo impressionante. Nos anos 70, havia no Brasil uns 500 grupos e hoje o A.A. registra 5700 grupos com cerca de 120.000 membros.
O livro básico de A.A., o assim chamado Livro Grande, foi traduzido para o português em 1969. O português foi a quinta língua para a qual o Livro Grande foi traduzido. Antes de 1969, somente havia sido traduzido para o espanhol, francês, finlandês e alemão.
O A.A. se espalhou em ondas; a primeira onda de difusão levou o A.A. para o mundo anglo-saxão e para o mundo protestante. A segunda onda cobriu os países católicos americanos e europeus. É ainda muito cedo para julgar se estamos observando o início de uma terceira onda, durante a qual está indo para se espalhar pelo mundo industrializado, independentemente das tradições religiosas e culturais. Se isso acontecer, o A.A. pode ser interpretado como um fenômeno universal moderno.

O A.A. COMO UM MOVIMENTO: UMA FORMA ORGANIZACIONAL ÚNICA
O desenvolvimento normal dos movimentos sociais de longa duração mostra que são lentamente transformados a partir de um início, freqüentemente carismático, e tornam-se mais burocráticos e profissionais. Numa medida sem precedentes, o A.A. foi bem sucedido em criar uma organização que quebra a “lei de ferro da oligarquia”. Bufe (1991) destacou o quão bem o A.A. levou para a prática os ideais organizacionais do pensamento anarquista clássico.
O pensamento da ciência social convencional tende a relacionar a eficácia organizacional com a estrutura burocrática. As organizações em que faltam uma estrutura centralizada e uma clara divisão do trabalho e do poder são olhadas como embriões de uma organização formal. Gerlach (1983) argumenta, no entanto, que estruturas celulares segmentadas podem ser organizações muito eficientes nas sociedades modernas. O sucesso de A.A. fundamenta fortemente o argumento de Gerlach.
O A.A. é baseado numa estrutura celular. Todos os grupos são autônomos e economicamente independentes, ao mesmo tempo em que estão abertos a qualquer um que deseje parar de beber. Os grupos crescem e morrem, proliferam e diminuem, dividem e se fundem espontaneamente. Todo o movimento é financiado por contribuições voluntárias e pela venda de literatura e os grupos decidem entre eles em que medida e para que propósitos desejam dar suporte às atividades a nível nacional.
O A.A. é também uma organização policéfala. Há uma quase total falta de qualquer estrutura central de tomada de decisões. Por outro lado, há muitos membros influentes competindo pela liderança que não se assenta predominantemente na posição do indivíduo na estrutura formal. Em todas as organizações, uma rede informal existe em paralelo com a estrutura formal, mas no A.A. a estrutura informal de prestígio é particularmente importante. Em A.A., o prestígio individual tem pouco a ver com a posição social na sociedade externa ao A.A. Os membros desfrutam de prestígio por causa da sua sabedoria, experiência de vida, trabalho realizado com as pessoas que ainda têm problemas com a bebida, engajamento prévio no serviço e habilidades na oratória. Choques de personalidade freqüentemente levam os grupos a se dividirem, mas isso não cria uma ameaça à organização como um todo porque o A.A. cresce por ramificação.
O A.A. não é absolutamente uma coleção amorfa de células; elas se juntam para formar uma complexa rede. Os membros visitam grupos da sua própria localidade ou de outros lugares, os grupos programam atividades conjuntas e há conhecidos oradores viajantes que atraem mais participantes do que as reuniões ordinárias. Conferências regionais e nacionais provêm a plataforma para membros proeminentes e fortalecem ainda mais a rede social.
Uma estrutura celular policéfala deste tipo tem muitas vantagens. O risco de um membro começar a beber é visto pelo A.A. como estando sempre presente, o que torna impossível construir uma organização em volta de membros em posições de poder. Pela sua natureza, uma estrutura policéfala evita potenciais disfunções para o movimento, ocasionadas pelo envelhecimento das lideranças, por conduta ilegal ou pela ossificação das estruturas hierárquicas. A estrutura celular também facilita a tarefa de alcançar diferentes grupos populacionais; nas grandes comunidades, há uma enorme variedade de grupos para o recém-chegado escolher de modo a capacitá-lo a ir para um grupo que se adapte à sua condição social, ideologia e personalidade.
Ao mesmo tempo, a estrutura celular aumenta a adaptabilidade do movimento a diversas formas de atividade. As variantes mal adaptadas simplesmente desaparecem sem colocar o movimento, como um todo, em perigo. Se um grupo se divide ou acaba, os seus membros são absorvidos por outro grupo, enquanto um esforço bem sucedido pode ser repetido por outros grupos.
A estabilidade do A.A., a unidade e o caráter policéfalo são facilitados por diversas características da sua organização. O princípio da decisão por consenso, mais do que por maioria de votos, tende a prevenir a divisão em frações. O princípio da rotação é um outro fator que previne divisões. Um indivíduo pode ser eleito para servir a nível nacional por somente um período e isso significa que os conflitos usualmente não coincidem com os desentendimentos pessoais. O fato de que o A.A. não aceita ajuda econômica de fora contribui para manter o grupo e seus membros como o local primário de tomada de decisões. E a regra de que o A.A., como uma organização, não toma posições em assuntos exteriores ao movimento nem em questões ligadas ao cuidado com alcoólicos ou assuntos diretamente relacionados às atividades do movimento diminui a necessidade de mecanismos de tomada de decisão centralizada.
Os atributos estruturais e organizacionais acima descritos tornam o A.A. uma exceção entre todos os tipos de grupos e organizações de mútua-ajuda. De fato, que o A.A. tenha sido capaz de manter a sua estrutura fundamental não-burocrática e não-hierárquica por quase 60 anos por meio de tais princípios é o que o faz ser o mais interessante, como um movimento.

O PROGRAMA DE A.A. COMO UM CONJUNTO DE CRENÇAS E COMO UM PROGRAMA DE AÇÃO
O núcleo da formulação do programa de A.A. é apresentado nos DOZE PASSOS. Em si mesmos, os Doze Passos são, literalmente, um programa. Eles não formulam um código de conduta a ser interpretado, mas uma série de tarefas e problemas a serem resolvidos. Os Passos são freqüentemente divididos em três grupos. Os primeiros três Passos – admitindo o alcoolismo, colocando a si mesmo nas mãos de Deus ou de um Poder Superior – são chamados Passos de Decisão. Os Passos de quatro a nove, voltados para mudar a relação com a sua vida, são chamados Passos de Ação. Os Passos de dez a doze são chamados de Passos de Continuação e de Manutenção.
O A.A. é baseado numa mistura especial de tradições escritas e orais. Ele difere de muitos outros movimentos de mútua-ajuda por possuir textos básicos altamente reverenciados que provem uma moldura comum para os grupos, individualmente, e para os membros. Ao mesmo tempo, a tradição oral desempenha um papel mais significativo do que na maioria das organizações modernas (Gellman, 1964 p. 60). O papel da tradição oral está intimamente associado à ênfase do A.A. na experiência individual. Os textos básicos podem ser descritos como produtos da experiência individual e de grupo.
O Livro Grande de A.A. (1965, p. 59) apresenta os Doze Passos como uma descrição resumida do que os membros iniciais fizeram (“aqui estão os passos que tomamos”) e como um “Programa sugerido de Recuperação”. É também significativo que a maioria das páginas do Livro Grande sejam dedicadas a histórias individuais de recuperação. Desde o seu início, o A.A. foi baseado no aprendizado pelo exemplo.
O papel da transmissão oral está relacionado ao fato de que o A.A. não formula regras de conduta mas, antes, métodos de comportamento e maneiras de falar. Os métodos de trabalho e as maneiras de falar são aprendidos não como regras gerais que possam ser escritas, mas pela prática através do exemplo e pelo uso, como modelos, dos membros mais experientes. Em A.A., aprendem-se virtudes e sabedoria oriundas da experiência; não regras de boa conduta (MacIntyre, 1984). Regras de conduta podem ser formuladas da mesma forma que uma legislação escrita classifica as ações como permitidas ou proibidas. Mas virtudes como a fortitude, a sabedoria ou a serenidade não podem ser formuladas num conjunto de regras classificando as ações como corajosas, sábias ou serenas.
O papel do aprendizado pelo exemplo significa que há muito de cultural e mesmo de variação local no que é visto como um sistema de crenças de A.A. Há variantes extremamente doutrinárias e autoritárias mas também há variantes muito frouxas, abertas e liberais.

PERDA DO CONTROLE E A NATUREZA DO ALCOOLISMO
O pré-requisito para uma continuada condição de ser membro em A.A. é reconhecer a perda de controle sobre a própria vida por causa do álcool e identificar-se como um alcoólico. Enquanto os membros diferem em suas visões do alcoolismo, nós podemos identificar algumas crenças centrais do movimento (Eisenbach-Stangl, 199 lb, 1991c).
O alcoolismo é uma condição explícita: “não há a condição de ser um pouco alcoólico. Ou se é ou não se é” (44 Perguntas, 1990, p. 8).
A fim de iniciar a recuperação, é preciso reconhecer pessoalmente o seu alcoolismo. O diagnóstico que vem de fora e a ajuda profissional não podem substituir a identificação pessoal. Este é o motivo pelo qual o A.A. não necessita de critérios codificados para caracterizar o alcoolismo. Em princípio, o diagnóstico de fora requer critérios objetivos. Contrariamente, o reconhecimento da impotência diante do o álcool não depende de métodos codificados de diagnóstico.
A condição de ser um alcoólico é tão básica que pesa mais do que quaisquer outras diferenças individuais ou sociais. Esta crença tem significação estratégica para o A.A. desde que é o fundamento da igualdade básica dos membros. O A.A. é fundamentado na interação entre iguais que mutuamente reconhecem que são torturados pelo mesmo demônio (Eisenbach-Stangl, 1993). É mais sobre mútua-ajuda do que sobre auto-ajuda.
O progresso do alcoolismo pode ser detido, mas o alcoolismo, em si, é incurável. Uma abstinência por toda a vida é necessária desde que um alcoólico nunca pode voltar a beber moderadamente. “Uma vez alcoólico, sempre um alcoólico” (Livro Grande, 1955, p. 33). Na verdade, se um membro antigo é citado como tendo voltado a beber moderadamente, conclui-se, em primeiro lugar, que ele não era um verdadeiro alcoólico. Esta crença provê um maior suporte para a igualdade entre os membros. Embora os membros antigos sejam altamente respeitados por causa da sua experiência de vida sóbria, a fragilidade de serem alcoólicos os coloca na mesma condição de qualquer outro membro.
Deve ser acentuado que esses princípios centrais não são tanto para a descrição médica do alcoolismo como doença. Eles também dão espaço para uma considerável variação nas interpretações individuais. No início, o A.A. teve uma posição ambivalente em relação ao modelo médico do alcoolismo como uma doença. Por outro lado, os fundadores de A.A. geralmente evitaram o termo quase técnico de doença e usaram, no lugar dele, algum sinônimo como enfermidade (Kurtz, 1991). A sua ênfase estava na unidade da vida humana e na natureza tríplice do alcoolismo – física, mental e espiritual. Por outro lado, a literatura de A.A. é abundante em descrições do alcoolismo como uma doença. O alcoolismo é variadamente visto como uma “alergia física”, mas também como uma “obsessão mental” (Livro Grande, 1955 p XXVI, 12+12, 1986, p 22). Vale assinalar que discrepâncias semelhantes existem nos textos médicos e psiquiátricos acerca do alcoolismo (Eisenbach-Stangl, 1991; Falk, 1975; Miller, 1986; Room, 1978).
No A.A. de hoje, alguns membros aderem a uma teoria científica particular acerca da natureza do alcoolismo, enquanto que outros focam na sua impotência existencial com respeito ao álcool. Qualquer que seja a ênfase, o programa de A.A. não está interessado nas causas do alcoolismo. A aplicação do programa difere das teorias médicas no mesmo sentido em que não se baseia nas técnicas dos especialistas apoiados na gênese da condição a ser tratada. Praticar o programa de A.A. é uma realização conjunta de iguais.

IDENTIDADE EXISTENCIAL E IDENTIFICAÇÃO
Anemia, hipertensão, depressão e adição, todas vêm em graus variáveis, mas a maioria das decisões clínicas é vista numa dicotomia. Não há linhas nítidas entre o beber normal e o beber dependente. Os diagnósticos categóricos são sempre arbitrários e servem ao imperativo prático da sua identificação como “casos para tratamento” (Rose, 1992). A partir de uma perspectiva diferente, mas de uma maneira igualmente categórica, a estratégia de A.A. requer que o membro assuma a identidade de ser um alcoólico.
A associação em A.A. é baseada na auto-identificação. A própria resposta de A.A. à pergunta “porque o A.A. parece não funcionar para algumas pessoas?” segue da seguinte maneira: o “A.A. só funcionará para aqueles que admitem que são alcoólicos, que honestamente desejam parar de beber” (44 Perguntas, 1990, p. 31). Em toda a sua circularidade, a formulação acentua a importância de permanecer membro e da autodefinição existencial de ser um alcoólico.
A identificação com os membros é um aspecto importante no processo de afiliação. O papel da identificação é mostrado num estudo de acompanhamento de pacientes tratados nas instituições de abuso de substâncias em Michigan (Humphreys & Woods, 1993). Brancos de áreas em que residem predominantemente brancos e pretos de áreas em que residem predominantemente pretos mostraram maior probabilidade de freqüentar um grupo de 12 Passos num período de um ano, após o tratamento, do que os indivíduos que eram minorias nas suas comunidades.
A estrutura celular de A.A. facilita a tarefa de alcançar diferentes grupos populacionais. Nas comunidades maiores, há uma grande variedade de grupos para o recém chegado escolher, dando condições a ele ou a ela de se juntar a um grupo que corresponda ao seu ou à sua condição social, ideologia e personalidade. Aos recém-chegados é usualmente dado o conselho para que visitem tantos e diferentes grupos quanto for possível a fim de encontrarem um que se adapte melhor ao seu temperamento.
Por exemplo, os membros de origem hispânica de Los Angeles tendem a se agrupar em diferentes grupos de A.A. por nacionalidade, nível de educação e tempo de residência nos Estados Unidos (Hoffman, 1994). Os critérios de similaridade são, no momento, altamente variáveis. O teor das reuniões e as interpretações do sistema de crenças do A.A. freqüentemente são tão importantes quanto a posição social em determinar a escolha de um grupo. O processo de auto-seleção contínua e flexível é uma parte importante do funcionamento do A.A. como um movimento de ajuda mútua e serve como uma maneira informal e autodirigida de “comparação de tratamento” que provavelmente está além do alcance de qualquer programa de tratamento profissional.

A REUNIÃO DE A.A. COMO UM EVENTO EM QUE SE FALA
Cada reunião de A.A. é um evento social único e nunca diretamente baseado no que aconteceu numa reunião prévia e nem implica em qualquer compromisso para futuras reuniões. O que acontece em uma reunião é o importante para aquela específica reunião; a reunião não tem um propósito comum além do processo da reunião em si. Os membros de A.A. compartilham entre si (expressam as suas experiências e sentimentos) e identificam-se uns com os outros (ouvem empaticamente). Um grande valor é colocado na espontaneidade e na urgência em comunicar a experiência pessoal e em relacioná-la ao aqui e agora. Ainda mais, uma reunião de A.A. é um acontecimento social programado para o mesmo horário a cada semana, no mesmo local e no mesmo formato. A continuidade entre as reuniões fica por conta da repetição da agenda de reuniões, que usualmente permanece a mesma.

OS RITUAIS DE ABERTURA SEPARAM O TEMPO DESTINADO À REUNIÃO DO TEMPO LIVRE
A demarcação do tempo de reunião de A.A. do tempo de não-reunião é enfatizada por rituais de procedimento. Os rituais de abertura separam a reunião da interação mundana e antecipam a sua ordem específica de interação com o seu próprio sistema de depoimentos e modos de falar.
Os rituais de abertura consistem principalmente da leitura de textos da herança de A.A.. Acrescentando, pode haver um momento de silêncio e rituais físicos como o de dar as mãos. Todos os textos de abertura declaram a condição comum das pessoas presentes, o seu problema compartilhado – o alcoolismo. Ao longo da reunião, cada orador individualmente reitera o conteúdo principal do ritual da abertura feita em conjunto ao invocar a sua impotência com relação ao álcool. Na primeira vez em que um participante lê o texto, faz uma declaração ou fala, ele ou ela usam a fórmula de introdução: “eu sou (nome) e eu sou um alcoólico”.

REGRAS DE DEPOIMENTO
A mais óbvia diferença entre as conversações diárias e uma reunião de A.A. é que nas reuniões de A.A. as rodadas de fala são pré-distribuídas (Sacks, 1974). O coordenador tem o direito de falar primeiro e de fazer curtas observações após cada fala e desta maneira pode ter um grande impacto no fluxo da reunião. A primeira fala, depois da rodada de abertura feita pelo coordenador, é usualmente algo mais longa do que o restante.
As regras de rodízio da dinâmica principal variam entre reuniões. Em reuniões pequenas, os participantes freqüentemente falam segundo a ordem de assentos. No sistema de rodízio alternativo, pode ficar com o coordenador a decisão de selecionar o próximo que fala; aquele que faz o depoimento pode selecionar o próximo ou os participantes podem apresentar o seu desejo de falar elevando a mão. Todas as reuniões são organizadas em torno de muitos depoimentos, mais do que por pares de membros discutindo entre si. As rodadas não são seguidas de contestação ou respostas, como numa conversação normal. Ao contrário, as falas nas reuniões de A.A. não são na forma de conversa e o sistema de depoimentos é institucional.
Normalmente, não há limites na duração de um depoimento mas o tempo de reunião tende a ser dividido igualmente entre os participantes. A média de duração depende do número de participantes, uma vez que ordinariamente a duração de uma reunião de A.A. é limitada a uma ou duas horas. Se alguém fala por muito tempo, os outros participantes podem se tornar desatentos e inquietos, mas nenhuma sanção aberta é aplicada e falar longamente é correto se quem fala está seriamente perturbado. Se alguém usou muito tempo, os membros mais experientes que falariam depois, freqüentemente, dão a sua vez para poupar tempo em favor dos participantes que podem necessitar mais urgentemente de usá-lo. Às vezes, um cronômetro é usado, mas as reuniões toleram falas de duração variável. Passar a sua vez é perfeitamente aceitável. Os membros podem freqüentar a mesma reunião por longo período sem falar uma só palavra (Westerman, 1978). Neste aspecto, as reuniões de A.A. diferem de todas as versões de terapia de grupo.
As reuniões de A.A. são enfáticas no sentido de que as transgressões abertas das regras do discurso freqüentemente são simplesmente ignoradas e, assim, não prejudicam a linha principal da reunião. O pesquisador de fora, por esta razão, não pode recorrer à técnica sociológica usual de determinar um conteúdo de normas descrevendo quais aberrações são contrapostas com sanções negativas. O seguinte sumário é baseado principalmente em reuniões na Finlândia onde todos falam por vez. Na base das observações das reuniões e entrevistas com os membros, as principais regras de fala podem ser simplificadas, como se segue (Mäkelä, 1992):
1. Não interromper a pessoa que está falando.
2. Falar das suas próprias experiências.
3. Falar tão honestamente quanto possível.
4. Não falar acerca de assuntos particulares das outras pessoas.
5. Não professar doutrinas religiosas ou dissertar sobre teorias científicas.
6. Falar sobre os seus problemas pessoais ao aplicar o programa de A.A., mas não pode tentar contestar o programa.
7. Não confrontar abertamente ou desafiar um depoimento prévio.
8. Não dar conselho diretamente a outros membros de A.A..
9. Não apresentar exposições acerca das causas do comportamento de outros membros de A.A..
As primeiras duas regras são as mais cruciais. A primeira regra dá apoio ao sistema não conversacional de depoimentos. A segunda regra restringe os tipos de depoimentos a autonarrativas. Na maneira de falar dos grupos, os membros compartilham as suas experiências, isto é, as relatam. Não obstante ser o tema da reunião um Passo, uma Tradição ou uma história pessoal, dos oradores é esperado que se refiram a elas através das suas próprias experiências. O modo de fazer os depoimentos é restrito a um tipo específico (autonarrativas), mas o seu conteúdo é livre. Isso leva a uma grande variedade de temas. Na prática real, a noção de experiência pessoal é, às vezes, interpretada de modo muito amplo. Pode ser possível contornar a proibição de falar sobre tópicos políticos discutindo os próprios sentimentos políticos.
A quantidade de referências aos depoimentos prévios varia de reunião para reunião e de cultura para cultura. De um modo muito geral, entretanto, pode-se dizer que um depoimento confirma os depoimentos prévios ou contém experiências opostas. “Os monólogos dos membros são colocados na mesa” com ou sem referência a qualquer coisa dita pelos oradores prévios. Uma pessoa pode relatar um recente evento traumático na sua vida. O próximo orador pode dizer alguma coisa trivial. Isso não significa que o membro traumatizado seja ignorado em favor de preocupações menores. Os membros não estão falando em continuação. O resultado líquido de uma noite de monólogos é nivelar os altos e baixos de todos os membros (Sadler, 1979 p. 391-302).
As regras do discurso têm que ser aprendidas pela prática. Se alguém quebra as regras, os oradores posteriores podem apresentar a sua própria experiência que indiretamente aponta para a natureza não-ortodoxa de um depoimento prévio. Se alguém parece falar de modo insincero, alguém pode relatar o problema que teve quando não era honesto consigo mesmo, mas nenhuma penalidade clara é normalmente aplicada durante a reunião pela quebra de qualquer uma das regras apresentadas acima. Após a reunião, observações mais diretas podem ser feitas.

“FACE” E POLIDEZ NAS REUNIÕES DE A.A.
A principal característica das reuniões de A.A. pode ser discutida em termos de face. Face é a auto-imagem pública que cada membro de uma determinada cultura deseja para si próprio. Consiste de dois aspectos relacionados entre si, a face negativa e positiva. “A personalidade humana é uma coisa sagrada; não se deve ousar violá-la e nem violar os seus limites enquanto que, ao mesmo tempo, o maior bem é a comunhão com os outros. (Durkheim, 1953, p. 37). A face negativa se refere à liberdade de ação e à liberdade de imposição, isto é, “a vontade de cada membro adulto e capaz de que as sua ações não sejam impedidas por outros” (Brown & Levinson, 1987, p.61). A face positiva se refere ao desejo de ser reconhecido pelos outros, “a vontade de cada membro de ser desejável, pelo menos por algum dos outros” (Brown&Levinson, 1987, p. 61).
Os rituais de abertura e a repetição do seu conteúdo principal por cada orador criam um forte laço para o sentimento de unidade e de igualdade: todos os participantes estão na mesma situação, a somente um gole de um acidente súbito. A condição existencial comum cria uma atmosfera de polidez positiva e de solidariedade. Num nível mais técnico, entretanto, as regras de falar em reuniões de A.A. são arranjadas no sentido da polidez negativa – para honrar a necessidade do participante em relação à autonomia, mais do que para a sua necessidade de aprovação.
A proibição de uma conversa cruzada é uma importante regra que dá suporte à face negativa de quem faz o depoimento. Nas reuniões de A.A., o direito de falar da pessoa que está na cabeceira de mesa é respeitado ainda quando alguém teve problemas em completar o seu depoimento. Permitir a alguém optar por permanecer em silêncio também soma para honrar a sua face negativa. Além do mais, a falta de uma resposta negativa direta ao depoimento prévio protege a face negativa de todos os participantes.
Ao proteger todos os participantes contra violações da sua face negativa, as regras de falar em A.A. criam espaço para narrativas desmerecedoras e humilhantes, que, em outros contextos, significaria uma perda total da face. Em A.A., os membros tem que “desistir do seu medo de perder a face a fim de manter a face”(cf. Scollon & Scollon, 1981, p. 170). Ou como colocou um membro do A.A. finlandês: “o segredo de A.A. é que você tem a sensação de que ”estes bastardos não estão, sequer, interessados em você”. Ninguém em A.A. pergunta de onde você veio e para onde você está indo”.
Na conversação ordinária, dar o retorno não é só um direito como é também uma obrigação; é parte da mesma administração requerida pelo envolvimento conversacional. Nas reuniões de A.A. falta o retorno negativo que desafia a face negativa do orador, mas muitos novatos também se sentem desconfortáveis acerca de não receber um retorno positivo. Nas palavras de um outro membro do A.A. finlandês: “o A.A. é como uma longa análise com o grupo agindo como analista; é importante que os membros não comentem entre si, mas que a cada membro seja permitido tirar as suas próprias conclusões”.
As regras do discurso permanecem implícitas e devem ser aprendidas ao longo de um esperado período de tempo. Fora da reunião, os membros voltam ao reino da vida diária com as suas imposições morais ordinárias. A interação informal que existe antes e após a reunião é complementar à reunião e ajuda a fortalecer as relações sociais do grupo. Além do mais, os desentendimentos e as animosidades podem ser ventiladas sem ameaçar o formato da reunião.

CONCLUSÃO
A despeito de toda a variabilidade, uma reunião de A.A. é uma formação social muito particular. Não requer as mesmas predisposições e habilidades que as organizações burocráticas ocidentais, mas é também diferente das formas tradicionais de organização social espontânea. É informal e, ainda assim, é mais estruturada do que a maioria das reuniões informais. Tanto o depoimento quanto o tipo de fala agem como tipo de rodada que são institucionalmente restringidas.
Em primeiro lugar, o sistema de A.A. de rodada é baseado em extensos depoimentos que excluem a discussão no sentido usual da palavra. Em segundo lugar, os depoimentos dentro da reunião são delimitados às autonarrativas de um modo que restringe os comentários ao depoimento anterior. As regras de falar em reuniões de A.A., por esta razão, diferem da maioria das formas de terapia de grupo profissional. É também importante destacar que o estilo de confrontação e interpretativo das reuniões de 12-Passos, em qualquer instituição profissional difere das reuniões tradicionais em A.A..

PARA TERMINAR
É tempo de apresentar um sumário conclusivo da minha apresentação. O que eu tentei fazer na minha fala foi mostrar como os princípios organizacionais de A.A., o sistema de crenças de A.A. e o formato das reuniões de A.A., todos juntos, provêm espaço e suporte para a redefinição da identidade existencial e para a reestruturação do “self”, que é a parte central do processo de A.A..

QUEM É MEMBRO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

” QUEM É MEMBRO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS? ”
(1946)

(A Tradição Três originou-se deste artigo de Bill W., publicado na revista The A.A. Grapevine).

A primeira edição do livro “Alcoólicos Anônimos” faz esta breve declaração, a respeito de afiliação: “O único requisito para ser membro é o sincero desejo de parar de beber. Não pertencemos a nenhuma seita ou denominação religiosa, em particular, nem nos opomos a nenhuma delas. Simplesmente almejamos ajudar os afligidos por esse mal”. Isso expressa nossos sentimentos na época em que nosso livro foi publicado, isto é, em 1939.

Desde esse dia todos os tipos de experiência com membros foram tentados. O número de regras estabelecidas para ingresso de membros (e infringidas em sua maioria) era enorme. Há dois ou três anos atrás, o Escritório Geral pediu aos grupos que enviassem as listas de suas regras para afiliação.

Quando elas chegaram, registramos uma por uma. Foram necessárias muitas folhas de papel.

Um breve estudo dessa infinidade de regras nos levou a uma conclusão surpreendente. Se todas essas regras realmente tivessem sido seguidas, por toda parte, teria sido praticamente impossível qualquer alcoólico ter ingressado em Alcoólicos Anônimos. Cerca de nove entre dez de nossos mais antigos e melhores membros jamais poderiam ter sido aceitos!

Em alguns casos, teríamos também sido desencorajados pelas exigências a nós impostas.

Os primeiros membros de A.A., em sua maioria, teriam sido rejeitados porque recaíam muito, porque sua moral era péssima, porque tinham tanto problemas psíquicos como com o álcool. Ou ainda, acredite ou não, porque não tinham vindo das melhores classes da sociedade.

Nós, os mais antigos, poderíamos ter sido excluídos por não ler o livro “Alcoólicos Anônimos” ou por nosso padrinho ter se recusado a confiar em nós, como candidatos, e assim por diante.

O modo como nossos “alcoólicos dignos” têm as vezes tentado julgar os “menos dignos” é, como engraçado.

Imaginem, se vocês puderem, um alcoólico julgando Outro! .

Uma vez ou outra grupos de A.A. resolvem ir criando regras. Do mesmo modo, quando um grupo começa a crescer rapidamente, ele enfrenta muitos problemas sérios. Mendigos começam a mendigar. Membros ficam bêbados e às vezes levam outros, a ficarem bêbados como eles.

Os que têm problemas psíquicos caem em depressão ou agridem os companheiros.

Fofoqueiros se justificam, denunciando os Lobos e os Chapeuzinhos Vermelhos do lugar são alcoólicos absolutamente, mas de qualquer modo continuam vindo.

“Recaídos” tiram partido do bom nome de A.A. para conseguir empregos para si mesmos.

Outros recusam aceitar todos os Doze Passos do programa de recuperação.
Alguns vão mais longe, dizendo que esse “negócio de Deus” é besteira e completamente desnecessário.

Nessas condições, nossos membros mais conservadores do pro grama ficam assustados. Essas condições assustadoras devem ser controladas, eles acham, de outro modo A.A. certamente ir à ruína total. Eles veem com alarme para o bem do movimento!

A essa altura o grupo entra na fase dos regulamentos e regras. Atas de Constituição, estatutos e regras para ser membros são emitidas, e a autoridade é garantida aos comitês para que filtrem os nomes dos indesejáveis e disciplinem os violadores. Então os mais antigos do grupo, agora revestidos de autoridade, começam a se ocupar. Os desobedientes são jogados para fora, na desgraça. Os respeitáveis intrometidos atiram pedras nos pecadores.

Com relação aos pecadores, estes ou insistem em ficar, ou então formam um novo grupo para si mesmos. Ou talvez se juntem a uma turma mais afim e menos intolerante da vizinhança. Os mais antigos logo descobrem que as regras e os regulamentos não funcionam muitos bem. As tentativas, em sua maioria, causam ondas de dissensão e intolerância no grupo, e essa condição é agora reconhecida como sendo a pior para a vida do grupo.

Depois de um período, o medo e a intolerância diminuem e o grupo sai são e salvo. Todos aprenderam muito. Assim é que poucos de nós estão com medo daquilo que qualquer recém-chegado possa fazer para a reputação ou para a eficiência de A.A. Aqueles que recaem, aqueles que mendigam, aqueles que escandalizam, aqueles com problemas psíquicos, aqueles que se rebelam quanto ao programa, aqueles que tiram partido de reputação de A.A. —todos esses
raramente prejudicam, por muito tempo, um grupo de A.A, Alguns deles vêm a ser nossos mais respeitados e queridos amigos.

Alguns têm ficado para pôr à prova nossa paciência, apesar de estar sóbrio.
Outros se afastam. Nós começamos a vê-los não como ameaças, mas como nossos professores. Eles nos obrigam a cultivar a paciência, a tolerância e a humildade. Nós finalmente percebemos que eles são somente pessoas mais doentes do que nós, que nós que os condenamos somos os fariseus, cuja falsa justiça leva nosso grupo ao mais profundo prejuízo espiritual.

Todo A.A. mais antigo treme quando se lembra dos nomes das pessoas que uma vez condenou, pessoas que ele confidencialmente havia dito que nunca ficariam sóbrias, pessoas que ele tinha certeza que deveriam ser colocadas para fora de A.A., para o bem do movimento. Agora que algumas dessas pessoas estão sóbrias, há anos, e podem ser encontrados entre seus melhores amigos, os membros mais antigos pergunta para si mesmo: “E se todos tivessem julgado
essas pessoas, como eu uma vez fiz? E se A.A. tivesse batido a porta na cara delas? Onde elas estariam hoje?”

Por isso é que julgamos o recém-chegado cada vez menos. Se o álcool é um problema incontrolável para ele e ele deseja fazer algo a respeito, isso é suficiente para nós. Não nos preocupamos se o seu caso é grave ou brando se sua moral é boa ou má, se ele tem outras
complicações ou não.

A porta de nosso A.A. permanece aberta e, se ele passa por ela e começa a fazer finalmente algo a respeito de seu problema, ele é considerado membro de Alcoólicos Anônimos. Ele não assina nada, não faz nenhum acordo, não promete nada. Nós não exigimos nada, Ele se junta a nós por sua própria vontade. Hoje em dia, nas maiorias dos grupos, ele nem mesmo tem que admitir que é um alcoólico.

Ele pode ingressar A.A., pela simples suspeita de que possa ser um alcoólico, de que já possa apresentar os sintomas fatais de nossa doença.

Naturalmente esse não é o caso de todos aqueles que estão em A.A. As regras para ser membro ainda existem. Se um membro insiste em vir embriagado, nas reuniões ele pode ser levado para fora; podemos pedir para alguém tirá-lo dali. Mas, na maioria dos grupos, ele pode voltar no dia seguinte, se estiver sóbrio. Embora ele possa ser posto para fora de um clube, ninguém pensa em
colocá-lo para fora de A.A.

Ele é um membro, contanto que diga que é. Conquanto esse amplo-conceito de afiliação ao A.A. ainda não seja unânime, ele representa hoje a principal corrente do pensamento de A.A. Não queremos negar a ninguém a oportunidade de recuperar-se do alcoolismo. Queremos ser justos, tanto quanto possível, sempre ficando ao alcance de todos.

Talvez essa tendência signifique algo muito mais profundo do que uma mera mudança de atitude sobre a questão de afiliação. Talvez isso signifique que estamos perdendo totalmente o medo daquelas violentas tempestades emocionais que às vezes cruzam nosso mundo alcoólico; talvez isso mostre nossa confiança de que depois da tempestade vem a bonança; uma calma que é mais
compreensão, mais compaixão, mais tolerância do que qualquer outra que jamais conhecemos.

Fonte: (A Tradição de A.A., Como se Desenvolveu, por Bill W.págs. 13, 14,
15, 16, 17).