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PRECE E MEDITAÇÃO

PRECE E MEDITAÇÃO

“Se você realmente quiser e procurar Deus, Ele o ensinará; não adianta explicar… só experimentando. ”

Nesta minha jornada rumo à recuperação tenho me dado conta que para se harmonizar com o mundo o alcoólico necessita como nunca do auxílio do Poder Superior, porque só Ele pode inspirar e suprir as deficiências do deus interno, orientando-o no que fazer e na compreensão das coisas. Com pleno direito para usar meu livre arbítrio, tenho necessidade da prece e da meditação para continuar recebendo orientação divina.
A prece é súplica, pedido, oração. A meditação é o trabalho que nos compete fazer para que o Poder Superior, através dele, venha nos ajudar.
Meditar é examinar, investigar mentalmente, analisar, raciocinar sobre determinado assunto, religioso ou não. É também fazer considerações sobre o mesmo; procurar deduzir seu verdadeiro significado, chegando a uma conclusão.
É uma espécie de discurso mental em que vamos expondo um assunto e fazendo considerações sobre ele até chegarmos a uma convicção.
O alcoólico, toda vez que pensou seriamente sobre seu problema de alcoolismo, nada mais fez do que “meditar” sobre ele.
Acontece o mesmo nos vários passos sugeridos no Programa de recuperação de A.A.
Já na prece fazemos um pedido ao Poder Superior ou uma oração que nós mesmos inventamos; o importante é que contenha aquelas condições de entrega e submissão a Deus, reconhecendo Sua sabedoria e poder.
É o “eu não posso, Você pode, me ajude”.
Na meditação a gente escolhe um assunto de nossa vida normal, um problema que se tem no momento ou um dos ensinamentos de Deus. A escolha é livre. E começamos a pensar sobre o tema.
Essa meditação antecedida da prece normalmente nos conduz a uma conclusão satisfatória do que fazer porque Deus sempre nos orienta dando a intuição do caminho a seguir.
Muitas vezes não vemos esta rota com clareza, mas sentimos a mesma tranqüilidade que teríamos se o assunto já estivesse resolvido.
Isso significa que Deus nos ouviu e vai tratar da questão. Basta irmos fazendo o que nos for ocorrendo que o problema se resolverá com o tempo. Deus conduz nossos atos para isso.
Se ligarmos nosso rádio ou nossa televisão e sintonizarmos uma determinada emissora, nós ouviremos ou veremos o programa que ela estiver transmitindo.
A prece corresponde a ligarmos nossa antena, nosso espírito, e a meditação a sintonizarmos na onda intuitiva em que Deus transmite, com a diferença de que podemos escolher o programa, ou seja, o assunto sobre o qual queremos tratar.
Só quem experimentou é que pode saber o que significa fazer uma prece a Deus e depois meditar sobre o assunto, principalmente quando se trata de coisas espirituais.
É impressionante a clareza que vem ao nosso raciocínio, a compreensão que alcançamos de coisas sobre as quais já cansamos de pensar antes sem achar solução.
De repente vemos, intuímos, adquirimos o conhecimento do que fazer e uma convicção de que vai dar certo.
Então sentimos que a capacidade de nossa mente foi consideravelmente ampliada, tornando tudo fácil.
E ainda somos invadidos por uma onda de tranqüilidade que não conseguimos explicar.
É a ação de Deus.
Pode ocorrer que nos envaideçamos com essa capacidade e nos julguemos com muitos méritos perante Deus e deixemos de sentir a submissão e a humildade perante Deus, julgando então como orientação divina alguma coisa que tenha sido apenas dedução nossa.
É bom sempre testar se não foi isso que aconteceu, verificando se a resposta “divina” contém bondade, justiça e misericórdia e se não interfere no livre;arbítrio de terceiros.
Lembremos que Deus é perfeito. Não faz coisas imperfeitas nem que não contenham os atributos citados.
A prece e a meditação não são para as emergências. São para a nossa vida diária; para iniciarmos e terminarmos cada dia.
A grande dificuldade que tive para chegar a essa prática foi a falta de humildade e a idéia errada que eu tinha do que era realmente o Poder Superior.
Quando eu compreendi que os males da Terra não eram causados por Deus e sim pelos homens; que Ele não interferia no mundo, estava ausente dele, só o fazendo na vida dos que Lhe solicitavam ajuda e nas condições que estabelecera para tal; que o fazia somente para ajudar, nunca para punir ou castigar; que Sua vontade para comigo era a minha evolução espiritual, a felicidade e a imortalização do espírito; enfim, só quando compreendi que Deus é um ser realmente bom, justo, misericordioso e perfeito que dera o livre arbítrio aos homens, foi que a prece e a meditação passaram a ser para mim uma conversa muito agradável na linguagem do “SENTIR”, da qual sempre me beneficiei muito.
Só experimentando. Não adianta tentar explicar. Nem precisa.
Se você realmente quiser e procurar Deus, Ele o ensinará.

… percebi que estava sentindo serenidade. Era um bom sentimento, mas de onde vinha? Então percebi que ele tinha vindo como resultado destes Passos.

AS 12 PROMESSAS DE AA (COMENTADAS)

As 12 Promessas de AA (comentadas)
Tema abordado na XV CONVENÇÃO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.

1) VAMOS CONHECER UMA NOVA LIBERDADE E ALEGRIA

Esta primeira promessa se realizará para todos os membros da irmandade que seguirem os 12 Passos sugeridos para Alcoólicos Anônimos. Isto porque com a prática de tais passos, sofreremos uma verdadeira transformação em nossas vidas, deixando para trás todo o sofrimento do alcoolismo ativo. Se formos laboriosos, honestos, humildes, receberemos a graça de conhecer e vivenciar a verdadeira liberdade e a verdadeira alegria.

2) NÃO IREMOS ARREPENDER-NOS PELO PASSADO, NEM QUEIRAMOS ESQUECÊ-LO POR COMPLETO.

Mesmo que quiséssemos, não poderíamos modificar o nosso passado alcoólico, pois não nos é dado o poder de modificá-lo. Não deveremos, porém, arrepender-nos, pois será dele que tiraremos todas as lições para vivenciarmos uma vida melhor, utilizando para tanto os instrumentos que nos é facilitado pela nossa irmandade.
O passado servirá para nós como um ponto de referência para não errarmos mais. Henry Ford, certa vez observou com sabedoria que a experiência é o maior valor que a vida pode nos oferecer se estivermos dispostos a aproveitar a mesma para o nosso auto crescimento.
Cresceremos graças a disposição de encarar e retificar nossos erros, convertendo-os em vantagens. Este passado doloroso poderá ser de infinita valia para outras famílias que ainda lutam com o problema do alcoolismo.
Apeguemo-nos a este pensamento: Nas mãos de Deus, o passado escuro é a maior riqueza e a chave para a vida e alegria dos outros. Com ele, você poderá evitar-lhes a miséria e a morte.

3) COMEÇAREMOS A COMPREENDER A PALAVRA SERENIDADE E CONHECEREMOS A PAZ

Encontramos muitas pessoas em A. A., que antes pensavam como nós, que humildade era sinônimo de fraqueza. Eles nos ajudaram a nos reduzir ao nosso verdadeiro tamanho. Com seu exemplo, nos mostraram que a humildade e o intelecto poderiam ser compatíveis, contanto que colocássemos a humildade em primeiro lugar.
Quando um bêbado está com uma terrível ressaca, porque bebeu em excesso ontem, ele não pode viver bem hoje. Mas existe outro tipo de ressaca que todos nós experimentamos, bebendo ou não. É a ressaca emocional, resultado direto do acúmulo de emoções negativas de ontem e, às vezes, de hoje – raiva, medo, ciúme e outras semelhantes.
Se quisermos viver serenamente o hoje e o amanhã, sem dúvida precisaremos eliminar essas ressacas. Isso não quer dizer que precisemos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isso sim, uma admissão e correção dos erros cometidos agora. Só assim, conheceremos a serenidade e atingiremos a paz.

4) NÃO IMPORTA QUANTO DESCEMOS NA ESCADA, POIS PODEREMOS VER O QUANTO NOSSA EXPERIÊNCIA BENEFICIARÃO A OUTROS.

Todos nós sabemos que durante a nossa atividade alcoólica, decaímos bastante na escala moral, social, financeira, familiar, etc. Contudo, atualmente, para nós, isso pouco importa, pois o que nos interessa atualmente é sabermos que a nossa experiência passada servirá para que outros não cometam os mesmos erros e consequentemente, não trilhem a mesma jornada de sofrimentos.
Nossa descida na escada servirá como farol luminoso para que outros barcos não naufraguem na mesma noite de tempestade.

5) AS SENSAÇÕES DE INUTILIDADE E AUTOPIEDADE DESAPARECERÃO.

Todo alcoólico, pela própria natureza e progressão da doença, sente-se um inútil na família, no trabalho, quando ainda o tem, e na sociedade em que vive. Dele se apodera o sentimento da auto piedade tão conhecido de todos nós. Somos os incompreendidos, as vítimas, os párias da sociedade e honestamente acreditamos que somos injustiçados, pois nada fizemos para merecer este destino.
Com o conhecimento e principalmente a prática criteriosa dos 12 Passos, com um destemido inventário moral, com a reparação dos erros cometidos, certamente deixaremos de ser inúteis e a auto piedade desaparecerá. Voltamos a ser úteis e integrados às nossas famílias, nossos trabalhos e na sociedade em que vivemos.

6) PERDEREMOS O INTERESSE PELAS COISAS EGOÍSTAS.

Egoísmo-egocentrismo. Todo alcoólico sofre este defeito de caráter. Achamos que essa é a causa de nossas dificuldades. Impulsionados por uma centena de formas de medo, auto ilusão, interesse próprio e auto piedade, pisamos em nossos semelhantes e eles revidam. Aí descobrimos que nossas atitudes e decisões são baseadas no egocentrismo, daí o revide dessas pessoas.
Geralmente somos ambiciosos, exigentes e indiferentes ao bem estar dos outros. Se quisermos alcançar a sobriedade e combater tal defeito de caráter, nossa própria recuperação e crescimento espiritual terão que vir em primeiro lugar. Entre nós, membros de A. A. existe ainda uma grande confusão a respeito do que é material e do que é spiritual. Tudo depende de uma questão de motivo. Se usarmos nossos bens materiais de forma egoísta, então estaremos sendo materialistas.
Mas, se usarmos para ajudar os outros, então o material ajuda o espiritual. Havendo discernimento quanto a tudo isso, deixaremos de lado o egoísmo e passaremos a dar a nossos atos a amplitude de atos altruístas, sempre visando o bem do próximo e consequentemente o bem comum.

7) GANHAREMOS INTERESSE PELOS NOSSOS SEMELHANTES.

A. A. é mais que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisaremos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair e aqueles, a quem não foi dada a verdade podem perecer. Deveremos compartilhar a Fé reencontrada com outros. O que se pode dizer de muitos membros de A. A. que, por muitas razões, não podem constituir família?
No início muitos deles se sentem sozinhos, magoados e abandonados, quando veem tanta felicidade conjugal ao seu redor.
Se não pode ter este tipo de felicidade, A. A. pode lhes oferecer satisfações igualmente válidas e duradouras. Basta tentar arduamente procurá-las.
Cercados de tantos amigos AAs., os chamados “solitários” não se sentirão mais sós. Em companhia de outros homens e mulheres, podem se dedicar a inúmeros ideais, pessoas e projetos construtivos. Todos os dias vemos esses membros que ganharam interesses pelos seus semelhantes prestarem relevantes serviços e receberem, de volta grandes alegrias.
À medida que progredimos espiritualmente e nos sentimos emocionalmente seguros passaremos a desenvolver o hábito de viver em sociedade ou fraternidade com todos os que nos cercam. Quando passarmos a dar de nós mesmos, sem esperar nada em troca, descobriremos que as pessoas serão atraídas para nós como nunca foram antes.

8) VAI MUDAR NOSSA ATITUDE E NOSSO MODO DE ENFRENTAR A VIDA.

Com o nosso progresso advindo da prática criteriosa dos 12 PASSOS, sentiremos as mudanças acontecerem em nossa vida como que por milagre. As atitudes negativas, ou defeitos de caráter que tanto nos caracterizaram no passado serão substituídos por atitudes positivas, revitalização de vida, prática de virtudes antes impensadas. Com relação ao nosso alcoolismo, se vier alguma tentação, dela nos afastaremos como se fosse uma chama quente. Reagiremos com inteligência e constataremos que isto acontece automaticamente. Veremos que nossa atitude face ao álcool nos foi dada sem ter que pensar ou fazer qualquer esforço. Simplesmente, veio! Aí está o milagre.
Não estamos lutando contra o álcool, nem evitando a tentação. Fomos colocados, seguros e protegidos, numa posição de neutralidade. O problema foi simplesmente resolvido.

9) MEDO DE GENTE E A INSEGURANÇA FINANCEIRA NOS DEIXARÃO.

No alcoolismo ativo nos embriagávamos para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Sem dúvida, o depressivo e o arrogante são personalidades que A. A. e o mundo possuem em abundância.
Nós de A. A. vivemos num mundo caracterizado por medos destrutivos, como nunca houve na história. Em seu inventário praticado constantemente o alcoólico deverá tentar corrigir suas principais falhas humanas ou defeitos de caráter: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Aos poucos e com muita paciência, vai conseguindo êxito em sua empreitada.
Cada vez mais perderemos o medo de gente, voltaremos a nos socializar; nossa vida financeira voltará a se organizar, como consequência de nossa mudança e de nosso progresso dentro da irmandade. Ao sentirmos a força da espiritualidade apoderar-se de nós, ao desfrutar da paz de espírito, ao descobrir que poderíamos enfrentar a vida com êxito, ao ficar conscientes da presença de Deus, começamos a perder o medo do hoje, do amanhã e do futuro. Nascemos de novo.

10) INTUITIVAMENTE, SABEREMOS CONTORNAR AS SITUAÇÕES QUE ANTES NOS DEIXAVAM PERPLEXOS.

Com a prática dos passos veremos que temos que dar continuidade ao inventário pessoal e corrigir novos erros por ventura cometidos. Entramos no mundo do Espírito. Nossa próxima função é crescer em compreensão e valor. Isto não acontece de um dia para outro.
Deverá continuar para toda vida. Se os defeitos de caráter por ventura insistirem em voltar, pediremos imediatamente a Deus que os remova. Discutiremos tais problemas com outras pessoas e se causamos danos vamos repará-los na hora.
Aí está o milagre. Não estaremos lutando contra nada, nem evitando a tentação, fomos colocados em uma posição de neutralidade, seguros e protegidos. Os problemas foram simplesmente removidos. Não existem para nós. Não estaremos nem orgulhosos, nem medrosos.
Assim reagiremos enquanto nos mantivermos em boas condições espirituais. Contornaremos com intuição as situações que antes nos deixavam absortos e perplexos.

11) DE REPENTE, RECONHECEREMOS QUE DEUS ESTÃO FAZENDO POR NÓS O QUE NÃO PODÍAMOS FAZER SOZINHOS.

Descobriremos que temos uma prorrogação diária do nosso problema e esta prorrogação depende da manutenção de nossa condição espiritual. Cada dia é um dia em que devemos levar a visão da vontade de Deus a todas as nossas atividades. “Como posso servi-lo melhor? Sua vontade e não a minha seja feita”. Estes são os pensamentos que devem nos acompanhar constantemente. Podemos exercer nossa força de vontade nestes termos.
O 11° Passo nos sugere a meditação e a oração. Homens melhores que nós as utilizaram constantemente. E funciona, sempre que tenhamos a atitude correta.
Agindo assim, de repente reconheceremos que Deus suprirá nossas deficiências e fará por nós aquilo que não podemos fazer sozinhos.

12) ESTAS PROMESSAS SÃO EXTRAVAGANTES? ACHAMOS QUE NÃO. ESTÃO SENDO REALIZADAS ENTRE NÓS, ÀS VEZES RAPIDAMENTE, E OUTRAS MAIS DEVAGAR, MAS SEMPRE SE REALIZARAO SE TRABALHARMOS POR ELAS.

Praticando conscientemente os Passos chegaremos a hora que teremos que transmitir a mensagem e praticarmos os princípios neles contidos em todas as nossas atividades. O prazer de viver será o nosso tema e a Ação será a palavra chave. Teremos que experimentar o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca.
Teremos que levar nossa mensagem ao alcoólico ainda sofredor. Agindo assim estaremos contribuindo para que todas as promessas, aqui enunciadas, deixem de ser meras promessas e se transforme na mais concreta realidade. Concluímos dizendo que a chave para a concretização das 12 Promessas, é a prática ininterrupta dos 12 Passos. Estes realizam aqueles. (Fim)

Fontes:
– Livro Alcoólicos Anônimos
– Livro 12 Passos
– Livro Na Opinião de Bill.

O PERDÃO NO LIVRO AZUL

PERDÃO NO LIVRO AZUL 1/4

A TURMA DO LIVRO AZUL

PERDÃO NO LIVRO AZUL

TRADUÇÃO RICARDO GOROBO

Versão B 04/07/2000

Essa é a continuação de nossa discussão a respeito do perdão. Caso você não tenha chegado aqui vindo de: Perdoar …….Perdão, o Passo que Falta.

Então,por favor volte e o leia antes de continuar nesse link.

Nosso Livro Azul ( Alcoólicos Anônimos ) tem muito a dizer sobre ressentimentos e perdão. Aproveite

ABRIGAR RESSENTIMENTOS É FATAL.
Nós estamos relutantes em repetir o livro. No entanto, algumas das
afirmações que faz não podem ser deixadas de comentários. Se formos
ler a página 66 de novo, vamos notar que o poder do ressentimento
excede em muito qualquer concepção que temos de pensamento negativo.
Você esta sabendo que:
• …a vida que inclui ressentimentos profundos leva somente à
futilidade e infelicidade.
• As horas nas quais permitimos a futilidade e a infelicidade em
nossa vida não valem a pena . Ressentimentos desgastam as nossas
vidas.
• Os ressentimentos nos fecham para a iluminação do Espírito, desta
forma impedindo a manutenção e o crescimento de uma experiência
espiritual.
• Quando apartados da luz do Espírito, a insanidade do álcool
retorna, bebemos de novo, e morremos.
• Abrigar ressentimentos é fatal.
Imediatamente, isso tem de ser feito! Há clara evidência de que os
ressentimentos criam um veneno em nosso corpo ,somando-se às
enfermidades mentais e espirituais que alimenta.
ERRADICANDO RESSENTIMENTOS
Como nós nos livramos dos ressentimentos? Felizmente, esse processo
começa no 4º passo . Nossa lista traz a chave .
a) Atente para os títulos das colunas de nosso inventário : (1)
Coluna 1: Em relação a quem você guarda ressentimento?
Coluna 2: O que eles fizeram que você considerou ofensivo
Coluna 4: Como você contribuiu para essa ação? E
Coluna 3: Porque você reagiu criando ressentimento
(1) Nota do tradutor: Na Edição para o Brasil há apenas três colunas ;
a saber:
Coluna 1: Tenho ressentimento de
Coluna 2: A causa é
Coluna 3: Onde me afeta

A primeira lição é que os ressentimentos não podem ser removidos a
menos que saibamos que os temos, e por qual motivo. A segunda lição é
que nós nos tornamos extremamente vulneráveis ao mundo exterior. Nosso
autoconceito foi moldado por opiniões e ações dos outros e pelo nosso
velho pensamento de como deveríamos ser.
b) Em seguida, é necessário estar querendo livrar-se do
ressentimento. Você aprenderá mais a esse respeito no Sexto Passo .
Alem do mais – e o Livro Azul não nos dá tanta ajuda quanto poderia,
Somos obrigados a perdoar a pessoa de quem nos ressentimos. Haverá
mais discussão a respeito de perdoar os outros no Oitavo Passo.
Simplesmente aceite desde já que você deverá fazê-lo! Não há outro
caminho.
A ferramenta certa que o Livro Azul lhe dá é a frequentemente
repetida noção de que sua vida esta agora em uma base diferente. A
base é a fundação – na qual todo o resto se apoia . Sua nova base é o
confiar e entregar-se em Deus .

PERDÃO NO LIVRO AZUL PARTE 2/4

A ARTE DO PERDÃO

Reimpresso do Livro Azul ( Alcoólicos Anônimos ) e Doze Passos e Doze Tradições

Não podemos ajudar a todas as pessoas, mas pelo menos Deus nos
mostrará como sermos bons e tolerantes para com todos. Voltemos mais
uma vez à nossa relação. Esquecendo os maus tratos que outros
praticaram, procuramos resolutamente nossos próprios erros. Onde fomos
egoístas, desonestos, interesseiros e medrosos? Embora certa situação
não tivesse sido criada inteiramente por nossa culpa, tentamos
desconsiderar a outra pessoa por completo. Onde foi que falhamos? O
inventário era nosso, não da outra pessoa. ( Livro Azul pag. 81 §2º
linha 7 )

Se lamentamos o que fizemos e temos o sincero desejo de deixar que
Deus nos leve a coisas melhores, acreditando sermos desculpados,
teremos aprendido uma lição. Se não temos remorso e nossa conduta
continua a prejudicar aos outros, é quase certo que voltaremos a
beber. Não estamos teorizando. Estes são fatos baseados na nossa
experiência. ( Livro Azul pag. 83 § 4º linha 25 )

Surgirá a pergunta de como aproximarmo-nos da pessoa à qual odiamos.
Pode ser que ela nos tenha prejudicado mais do que nós a ela, e ainda
que possamos ter adotado atitude melhor junto a essa mesma pessoa, não
estamos ansiosos por admitir nossos erros. No entanto, com as pessoas
das quais não gostamos, tomamos uma decisão. É mais difícil
aproximar-se do inimigo do que do amigo, mas isto nos é muito mais
benéfico. Vamos a ele com espírito de ajuda e tolerância, confessando
nossa hostilidade anterior e expressando- lhe nosso arrependimento.
De forma alguma criticaremos sua pessoa ou discutiremos ( Livro Azul
pag. 89 § 2º linha 23 )

Quando nos deitamos, à noite, revisamos construtivamente nosso dia.
Fomos ressentido, egoístas, desonestos, medrosos? Devemos a alguém
alguma desculpa? Estamos guardando algo em segredo, que deveria ser
discutido logo com outra pessoa? Fomos bondosos e amáveis com todos?
Que poderíamos ter feito melhor? Estivemos pensando em nós mesmos a
maior parte do tempo? Ou pensamos no que deveríamos fazer pelos
outros, no que poderíamos fazer na vida corrente? Mas, devemos cuidar
de não cair na inquietação, no remorso ou na reflexão mórbida, pois
isso diminuiria nossos préstimos aos outros. Após fazer nossa revisão,
pedimos perdão a Deus e Lhe perguntamos quais as medidas que devemos
tomar para melhorar. ( Livro Azul pag. 96 § 3º linha 20 )

Este passo vital também foi o meio pelo qual começamos a ter a
sensação de que poderíamos ser desculpados, não importa o que havíamos
pensado ou feito. Frequentemente, enquanto dávamos este passo com
nossos padrinhos ou conselheiros espirituais, pela primeira vez, nos
sentíamos verdadeiramente capazes de desculpar os outros, não importa
quão profundamente nos houvessem maltratado. Nosso inventário moral
nos havia persuadido de que o perdão geral era desejável, mas foi
somente quando demos o Quinto Passo com resolução que soubemos, em
nosso íntimo, que poderíamos aceitar o perdão e perdoar também. (12
Passos pag. 47 § 3º linha 20 )

Tais obstáculos, contudo, são muito reais. O primeiro, e um dos mais
difíceis, diz respeito ao perdão. Desde o momento em que examinamos um
desentendimento com outra pessoa, nossas emoções se colocam na
defensiva. Evitando encarar as ofensas que temos dirigido a outro,
costumamos salientar, com ressentimento, as afrontas que ele nos tem
feito. Isto acontece especialmente quando ele, de fato, tenha se
comportado mal. Triunfalmente nos agarramos à sua má conduta como uma
desculpa perfeita para minimizar ou esquecer a nossa.
Deveríamos, a essa altura, nos deter bruscamente. Não faz sentido um
autêntico beberrão roto, rir-se do esfarrapado. Lembremo-nos de que
alcoólicos não são os únicos atingidos por emoções doentias. Alem do
mais, geralmente é um fato o de que, quando bebíamos, nosso
comportamento agravava os defeitos dos outros. Repetidamente abusamos
da paciência de nossos melhores amigos a ponto de esgotá-los, e
despertamos as piores reações naqueles que, desde o início, não
gostaram de nós. Em muitos casos estamos, na realidade, em frente de
cosofredores, pessoas que tiveram suas desditas aumentadas pela nossa
contribuição. Se estamos a ponto de pedir perdão para nós mesmos, por
que não começar por perdoar a todos eles? ( 12 Passos pag. 68 § 1º e 2º
linha 5 )
PERDÃO NO LIVRO AZUL PARTE 3/4

OITAVO PASSO Haveremos de querer nos apegar à decisão as coisas que
nós temos feito, ao mesmo tempo em que desculpamos as injúrias feitas
à nós, sejam elas reais ou imaginárias. Deveríamos evitar os
julgamentos extremos, tanto de nós mesmos quanto das outras pessoas
envolvidas. Não devemos exagerar nem os nossos defeitos, nem os deles.
Um exame calmo e objetivo será nossa firme intenção. (12 Passos pag. 71
§2º linha 28 ). Em todas essas situações necessitamos de autodomínio,
análise honesta do ocorrido, disposição para admitir nossa culpa e,
igualmente, para desculpar as outras pessoas ( 12 Passos pag. 79 § 1º
linha 1 ) …que onde houver o erro, que eu possa levar o perdão…É
perdoando que se é perdoado ( 12 Passos pag. 86 ).
Pediu a graça de poder levar a todos os necessitados o amor, a união,
a fé, a verdade, a esperança, a alegria e a luz. ( 12 Passos pag. 88 §
1º linha 8 )
Ele achava melhor consolar que ser consolado; compreender que ser
compreendido; perdoar que ser perdoado. ( 12 Passos pag. 88 § 2º linha
16)
Finalmente, a aceitação comprovou ser a chave de meu problema com a
bebida. Após frequentar A.A. por sete meses, me afastando do álcool e
pílulas, não conseguindo que o programa funcionasse muito bem, eu
finalmente fui capaz de dizer, ” O.K. Deus. É verdade que eu – – de
todas as pessoas, por estranho que possa parecer, e mesmo que não dê a
minha permissão – – realmente, realmente sou um alcoólico daqueles, é
isso mesmo. E agora, que vou fazer a respeito disso? ” Quando parei de
viver no problema e comecei a viver na resposta, o problema
desapareceu. A partir deste momento, não senti mais a menor compulsão
de beber.
E aceitação é a resposta para todos os meus problemas hoje. Quando
estou perturbado, é porque encontrei em alguma pessoa , lugar, coisa,
ou situação – algum fato da minha vida – inaceitável para mim, e não
consigo alcançar a serenidade até que aceite essa pessoa, lugar,
coisa, ou situação exatamente da maneira como deveria ser nesse
momento. Nada, absolutamente nada acontece no mundo de Deus por
engano. Enquanto eu não podia aceitar meu alcoolismo, não poderia
permanecer sóbrio, a menos que aceite a vida da forma como ela
realmente é , não posso ser feliz. Não devo me concentrar tanto no que
precisa ser mudado no mundo mas sim no que precisa ser mudado em mim e
nas minhas atitudes. ( Big Book, page 448 ) (2) Este, bem como o
depoimento a seguir não constam da tradução para o português do Livro
Azul.
Um manhã, no entanto, me dei conta de que precisava me livrar disso,
pois o tempo em que podia adiar fazê-lo estava se esgotando e que se
eu não me livrasse acabaria me embebedando – e eu não queria mais
ficar bêbado. Nas minhas preces nesta manhã pedi a Deus que me
mostrasse uma forma de me livrar desse ressentimento. Durante o dia,
um amigo me trouxe umas revistas para que eu as levasse a um grupo em
um hospital no qual eu tinha interesse. Dando uma rápida olhada nelas,
e um ‘banner” atravessado na capa de uma delas destacava um artigo de
um clérigo proeminente, e me atraiu a atenção a palavra
ressentimento.
Ele dizia,em síntese: ” Se você tiver algum ressentimento do qual
deseje se libertar, se você rezar para a pessoa ou a coisa do qual se
ressente, você se libertará. Se você pedir na prece que tudo o que
você deseja para você seja dado a eles, você ficará livre. Peça pela
saúde, prosperidade, felicidade deles, e você ficará livre. Mesmo que
você verdadeiramente não deseje isso para eles, que sua preces são
apenas palavras e não seu desejo real, vá em frente e reze assim
mesmo. Faça isso diariamente por duas semanas e descobrirá que começou
a , realmente , sentir e desejar isso para eles, e você descobrirá que
quando costumava sentir amargura e ressentimento e ódio, agora sente
compaixão compreensiva e amor.”
PERDÃO NO LIVRO AZUL PARTE 4/4

Funcionou comigo, e tem funcionado várias vezes desde então, e
funcionará quantas vezes eu me dispuser a trabalhá-la. Algumas vezes
preciso primeiro pedir por força de vontade, mas essa também sempre
vem. Como funciona para mim, funcionará para todos nós. Como diz um
outro grande homem: ” A única verdadeira liberdade que um ser humano
poderá conhecer e fazer aquilo que deve fazer simplesmente porque quer
fazê-lo.”
Essa grande experiência que libertou-me da servidão do ódio e
substituiu-o por amor é realmente outra afirmação da verdade que sei:
Eu tenho tudo o que necessito em Alcoólicos Anônimos tudo o que
necessito eu recebo – – e quando recebo o que necessito
invariavelmente descubro que isso é exatamente o que queria o tempo
todo . ( Big Book, page 552 )
Essa discussão continua nos seguintes links:
Parachin ……. Victor M. Parachin: Como Perdoar: 10 Guias
Errico………….. A Oração do Senhor e Perdão

E.Fox ……………. Emmet Fox: Perdão no Sermão da Montanha

Ou,talvez queira voltar para:

Forgive ……….. Perdão, o passo que falta

Nota do tradutor:
Como referencia às obras em Português,utilizamos:
Alcoólicos Anônimos – Não consta edição nem data de impressão, mas eu
o comprei em 1987 no Grupo Três Legados,Rio de Janeiro,RJ

Os Doze Passos – 1ª Edição em Português – maio 1972

As Doze Tradições – 7ª Edição em Português – abril 1987

Para evitar discordância os textos acima citados foram transcritos do
original

“COMITÊ DE LITERATURA DO GRUPO AA SOBRIEDADE_ONLINE”

O RESGATE DA PRÓPRIA VIDA

O RESGATE DA PRÓPRIA VIDA
Por Marília Teixeira Martins, parceira da irmandade Alcoólicos Anônimos de Minas Gerais
Não existe mudança se não existe aceitação. Este princípio me acompanha e me norteia desde que atendi meu primeiro cliente. Aceitar a nós mesmos e nossas dificuldades são o grande desafio do ser humano para conquistar o equilíbrio físico, emocional e espiritual. A aceitação de nossos reais limites, de nossas perdas e derrotas, de nossos sentimentos, agradáveis ou não, são prenúncios do nosso processo de mudança, que nos acompanha a vida toda.
No entanto, para as pessoas que sofrem de algum mal específico, tais como a depressão, a obesidade, a diabetes, a síndrome do pânico, o transtorno bipolar, os que enfrentam a própria morte e os dependentes químicos, existe um desafio maior, ou seja, o de aceitarem suas próprias doenças, para que assim ocorram efetivas e saudáveis mudanças.
Para compreender este processo, precisamos nos reportar ao ano 1969, quando a Psiquiatra Elisabeth Kübler Ross, quebra o tabu sobre os assuntos que cercam a morte, indicando um método inovador para que profissionais, familiares e pacientes em estado terminal possam compreender, elaborar e aceitar o luto e o processo da morte, de uma forma mais digna, mais leve e serena.
Mas, qual a relação da morte propriamente dita com os temas dependência química e codependência? Embora, aparentemente, este artigo não traga associação direta com os dois temas, guarda, entretanto, a partir de Terence Williams (conselheiro em dependência química no centro de tratamento Hazelden, da Universidade de Minnesota), uma relação bem próxima e objetiva entre esses dois “universos”.
A morte, neste caso, nada tem a ver com o sentido literal da palavra. Enquanto para os pacientes terminais a morte representa o fim de suas vidas e de todos os seus relacionamentos, para o dependente químico, significa o fim de seu relacionamento com a bebida e/ou drogas, e para as pessoas emocionalmente envolvidas com o mesmo – os codependentes – o fim de uma dinâmica familiar caótica e dos relacionamentos doentios.
Partindo de um processo de negação, percorrem um longo e difícil caminho que passa pela raiva, negociação e depressão até chegarem ao último estágio: a aceitação. Diante disto, cabe a nós profissionais traduzir com cautela as defesas por eles utilizadas, oferecendo-lhes suficiente segurança para que possam enxergar com serenidade o que realmente está acontecendo em seu interior e no sistema familiar, encorajando-os, acima de tudo, às mudanças necessárias e mais saudáveis.
É fundamental a busca de apoio e incentivo dos grupos de mútua-ajuda (Terapia do Espelho), essenciais e imprescindíveis tanto na recuperação dos dependentes químicos, como para os codependentes, funcionando como um espelho para que cada pessoa que deles participa, desenvolva a autoestima e a esperança, muitas vezes perdidas.
O dependente químico descobre que pode viver sem a bebida e/ou as drogas e assim renasce. Por outro lado, os codependentes descobrem que podem sentir-se confortáveis. Assim, o sistema familiar muda, os papéis mudam, as pessoas mudam, o dependente químico muda. De família disfuncional, essa passa a ser funcional, madura e saudável. As pessoas envolvidas encerram o processo de luto e finalmente aceitam a morte de seus relacionamentos dependentes e doentios, conquistando serenidade e a determinação em construir uma nova vida.
Os cinco estágios negação, raiva, negociação, depressão e aceitação fazem parte do caminho que os dependentes químicos e codependentes percorrem até encontrarem serenidade, sobriedade e o resgate de suas próprias vidas.

INFORMAÇÕES

INFORMAÇÕES SOBRE O CTO PARA O GRUPO

O QUE É O CTO E PARA QUE SERVE?

CTO – Comitê Trabalhando com os Outros é o Comitê responsável pela divulgação da Irmandade para a comunidade em geral. Nenhum alcoólico poderá ser ajudado por Alcoólicos Anônimos se não souber que A.A. existe ou onde poderá ser encontrado. O CTO é formado por membros de A.A., bem informados, com o objetivo de levar a mensagem ao público externo, não alcoólico, de como funciona a Irmandade. Tem como finalidade básica organizar, estruturar, padronizar e facilitar a divulgação da mensagem de A.A.
Se não fosse pela divulgação através dos profissionais e os meios de comunicação, com certeza nós não estaríamos aqui hoje. Aqueles que tiveram a oportunidade de ler o livro “A.A. Atinge a Maioridade”, devem ter visto o quanto a Irmandade cresceu a partir da publicação do Artigo do Jack Alexander em 1941(jornalista de um grande jornal). Seria muito difícil enumerar as pessoas não alcoólicas que nos ajudaram desde o início da formação da Irmandade, quando Bill nos relata que “sem ajuda desses maravilhosos amigos, A.A. não existiria”. Estas pessoas só tomaram conhecimento de A.A. porque alguém lhes falou sobre um movimento que estava começando para ajudar os alcoólicos a parar de beber . – e o que foi isto? O trabalho com os outros, que mais tarde veio a se tornar o nosso CTO.
Portanto, para a manutenção de nossa sobriedade e preservação de nosso propósito primordial, é necessário que os Grupos elejam seu RCTO (Representante de CTO) para trabalhar em sua comunidade levando a mensagem a todos os profissionais e informando onde se localiza o grupo através de cartazes, folhetos e livretos específicos e, junto com os RCTO`S dos outros Grupos, formam o CTO do Distrito.
Nós sabemos que:
. A Irmandade é muito bem conceituada e respeitada perante a sociedade;
. A sociedade vê a Irmandade de Alcoólicos Anônimos como a bandeira da salvação para todos os males;
. A maioria das pessoas sabe que Alcoólicos Anônimos existe e, principalmente, que tem obtido bons resultados na recuperação dos alcoólicos – o que eles não sabem é como realmente funciona a Irmandade.
Sabemos também que este respeito se deve ao fato de não nos filiarmos a nada, não aceitamos doações de fora, não apoiarmos nem combatermos qualquer causa, não entrarmos em controvérsia pública e principalmente por mantermos nosso anonimato rejeitando promoção ou prestígio pessoal, pois para nós o que importa é a mensagem e não o mensageiro. Diante de tudo isso, deveríamos refletir sobre os seguintes pontos:
01.- O Grupo precisa de divulgação na comunidade?Para quê?
02.- Os profissionais da comunidade devem receber informações sobre o funcionamento de AA? Por quê?
03.- O Grupo precisa eleger o RCTO?
04.- Como eleger o RCTO e o que ele faz?
05.- O Grupo precisa do CTO? Por quê?
06.- Qual o resultado do trabalho do CTO para o Grupo?
07.- Se o Grupo não tiver o RCTO ele não poderá fazer divulgação na comunidade?
08.- O RCTO é o único membro responsável pela divulgação do Grupo?
09.- Porque o RCTO deve participar do CTO do Distrito?
10.- Como o CTO-SEDE pode colaborar com o Grupo?
Companheiros e Companheiras, vamos nos unir para, juntos, trocarmos experiências e encontrarmos a melhor maneira de colocar a sobriedade ao alcance de todos.
(Fonte: Temas desenvolvidos nas Reuniões de Treinamento-2005 e 2006 – Jan/07)

“TRABALHANDO COM OS OUTROS,
DÁDIVA DE GRATIDÃO”

O ser humano, ao longo de sua existência, sempre se direcionou a ajudar o seu semelhante, aos menos favorecidos, isto é, aos desafortunados e aos que realmente vivem à margem da sociedade por um motivo ou por outro.
Coincidentemente, todas as filosofias e religiões pregam, como ponto primordial, o amor ao próximo – enfatizando os gestos enobrecedores da alma, dos fiéis cultivadores dos preceitos de sua filosofia ou religião – e esta atitude nos coloca mais próximo de Deus.
Porém, normalmente, os necessitados beneficiados, com gestos nobres e humanitários daqueles dispostos a ajudar os outros, rapidamente olvidam a ajuda recebida e lembram-se de seus benfeitores somente quando, em situação difícil, precisam de ajuda novamente.
O alcoolismo sempre mereceu atenção de várias organizações humanitárias, decaídas com o tempo, chegando à extinção, mas que deixaram grandes experiências para a Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Usando as experiências negativas e positivas das organizações e, ainda, a grande ajuda da medicina, das religiões e dos leigos, a Irmandade de A. A. alicerçou-se também nos princípios de fraternidade, unidade, responsabilidade e amor ao próximo, lembrando sempre nossa condição de doentes alcoólicos que, trabalhando com os outros, demonstramos nossa eterna gratidão aos nossos benfeitores, principalmente a Deus. Nossa Quinta Tradição diz que o propósito primordial de A. A. é levar a mensagem àqueles que ainda sofrem. Se “uma alcoólico tentando ajudar o outro a alcançar a sobriedade” é o fundamento de nossa Irmandade, levar a mensagem torna-se imperativo. Mas, como fazê-lo? Levando nossa mensagem – através de palavras próprias, gestos, experiências, preces e meditações e sobretudo, exemplos extraídos da literatura, pondo em prática, dessa forma, a filosofia do programa de A. A. – tornando-a sempre sóbria, simples e eficaz.
Levar a mensagem é dar um pouco do muito que temos recebido, sem esperar nada em troca. É compartilhar! É amar! É viver!
A Unidade dá-nos o entendimento das Doze Tradições. Proporciona o respeito de um membro para com o outro, em A. A., com sua individualidade e responsabilidade. O Serviço nos dá condições de provar aquilo que falamos, sobre nossa vida atual, na cabeceira de mesa nos Grupos, quando dizemos: devemos tudo a Alcoólicos Anônimos, somos felizes, reconstruímos nossas famílias, recuperamos nossos empregos e reintegramo-nos à sociedade.
No capítulo sete do livro “Alcoólicos Anônimos” está evidente o melhor método para assegurar a imunidade contra a dependência alcoólica: “Trabalhando com os Outros”. Mas, para sucesso dessa prática, alguns procedimentos, são necessários, como:
1. Ter conhecimento e vivência dos princípios básicos de nossa Irmandade – Doze Passos, Doze Tradições e Doze Conceitos.
2. Assumir uma vida exemplar em todos os ângulos – familiar, social e profissional. Só assim seremos modelos de recuperação.
3. Manter a “linguagem do coração”, sem conotação religiosa ou reformista.
4. Não nos envolvermos em questões médicas ou científicas sobre o alcoolismo, demonstrando profissionalismo. No entanto, devemos acompanhar a evolução dos povos em todos os sentidos.
Então devemos entender que: “Trabalhando com os Outros, Dádiva de Gratidão”, resume-se em: “esforçar-se cuidadosamente e não medir esforços para ajudar seu semelhante, proporcionando-lhe dádiva do nosso reconhecimento pelos benefícios recebidos de outros”. É, enfim, saber responder a esta pergunta: E eu, já estou fazendo a minha parte?

(Fonte: Relatório XXII Conferência de Serviços Gerais – Santos – São Paulo – 1998 – Trabalho das Áreas – Paraná/PR – paginas: 121 e 122)

O ALCOOLISMO NAS EMPRESAS

Sou psicóloga e profissional da área de recursos humanos em uma empresa. Como o alcoolismo é uma situação que vivencio no meu dia-a-dia e por não saber quase nada a seu respeito nem como abordar um provável alcoólatra, recorri ao livro Alcoólicos Anônimos.
Para minha surpresa, encontrei uma abordagem simples do problema visto por quem havia passado pelo problema e nada é mais real e objetivo do que a experiência pessoal.
Todo trabalho científico é baseado em pesquisa e experimentações e, mesmo o A.A. não se dedicando a este campo, constatou, através da experiência de milhares de membros, a gravidade e a possibilidade de uma nova abordagem do assunto, ainda tão desconhecido de nossa sociedade.
É o alcoolismo visto sob a ótica de quem trilhou o seu caminho, uma abordagem de dentro para fora, riquíssima em seu conteúdo.
O capítulo 10 do livro Alcoólicos Anônimos tem como título “Aos empregadores” e traz um roteiro completo de como devem ser abordados casos de alcoolismo em empresas e eu tenho adotado as sugestões lá recomendadas.
Para simplificar e até distribuir para outros colegas de profissão que têm o mesmo problema em sua rotina profissional, condensei o conteúdo deste riquíssimo capítulo da forma que segue abaixo.
Se encontrarem algum proveito nele, valeu a pena. Caso contrário valeu a pena da mesma forma, pois pude ter acesso ao conteúdo deste programa maravilhoso de recuperação que é Alcoólicos Anônimos.
Roteiro simplificado de como o profissional de recursos humanos de uma empresa deve se relacionar com o problema alcoolismo dentro da empresa.
1) Primeiro passo: se informar sobre o alcoolismo. Indicação dos livros: – “O texto básico de Alcoólicos Anônimos” (Livro Azul) e “Os Doze Passos e as Doze Tradições” (são adquiridos em A.A.).
2) Compreender que o alcoolismo é uma doença grave.
3) Tendo certeza de que seu funcionário não quer parar de beber, deverá ser demitido. E que fique claro quanto ao motivo: Alcoolismo.
4) Ter uma atitude compreensiva em relação a cada caso.
5) Diga-lhe que sabe o quanto ele bebe e que aquilo precisa acabar. Você pode dizer que aprecia sua capacidade, que gostaria de conservá-lo na empresa, mas que não poderá fazê-lo se ele continuar a beber. Uma posição firme, neste sentido, irá ajudá-lo.
6) A seguir, garanta-lhe que não pretende fazer um sermão, dar lições de moral ou condena-¬lo. Que, se isto foi feito antes, foi por uma questão de falta de conhecimento de causa. Se possível, demonstre que não nutre contra ele sentimentos negativos. Neste ponto, talvez seja uma boa idéia explicar-lhe o alcoolismo como doença. Diga que você acredita que ele esteja gravemente doente, com esta ressalva: sendo talvez portador de uma doença fatal gostaria ele de se recuperar? Você pergunta por que muitos alcoólicos, estando mentalmente perturbados e embotados, não querem parar de beber. Mas e ele, quer? Dará os passos necessários, submetendo-se seja ao que for para parar de beber? Se ele disser que sim, está sendo realmente sincero, ou no fundo acha que pode enganá-lo e que, depois de um descanso e tratamento conseguirá continuar a tomar uma ou outra dose de vez em quando? Achamos que um homem deve ser cuidadosamente investigado em relação a estes pontos. Certifique-se de que ele não o esteja enganando, ou a ele mesmo.
8) Se ele contemporizar e ainda achar que pode beber outra vez, mesmo que seja só cerveja, poderá perfeitamente ser demitido depois do próximo porre que, sendo um alcoólico, certamente tomará. É preciso que ele entenda bem isto. Ou você está lidando com um homem que pode e quer se recuperar ou não está. Se não estiver, por que perder tempo com ele? Isto pode parecer duro, mas em geral é o melhor caminho.
9) Depois de se certificar de que seu empregado quer se recuperar e que fará o que for preciso para conseguir, você pode sugerir-lhe um programa de ação definitivo. Para a maioria dos alcoólicos que está bebendo, ou acabando de sair de uma bebedeira, uma certa dose de tratamento físico é necessária, e até imperativa. A questão do tratamento físico deve, é claro, ser submetida a seu próprio médico. Seja qual for o método adotado, seu objetivo é eliminar do corpo e da mente os efeitos do alcoolismo. Em mãos competentes, isto raramente demora muito e não custa muito caro. Seu funcionário se sentirá melhor se for posto em condições físicas tais que lhe permitam pensar com clareza e não sentir mais a compulsão pelo álcool.
10) Se você lhe propuser tal procedimento, talvez seja preciso adiantar-lhe o custo do tratamento, mas acreditamos que deva ficar claro que quaisquer despesas serão futuramente deduzidas de seu salário. É melhor para ele sentir-se responsável.
11) Se o funcionário aceitar sua oferta deve ser enfatizado que o tratamento físico é apenas uma pequena amostra do que o espera. Embora você lhe esteja proporcionando os melhores cuidados médicos, ele deve compreender que precisa passar por uma reformulação interna. Superar o hábito da bebida irá requerer uma modificação de pensamento e atitudes. Todos nós precisamos colocar a recuperação acima de tudo o mais, pois sem a recuperação teríamos perdido tanto o lar quanto o emprego.
12) Você pode confiar totalmente em sua capacidade de se recuperar? Por falar em confiança, será que você poderá adotar a atitude de que, no que depender de você, tudo isto permanecerá um problema estritamente pessoal, que seus erros devidos ao alcoolismo e o tratamento ao qual ele vai se submeter nunca serão discutidos sem o consentimento do próprio? Talvez seja bom ter uma boa conversa com ele, quando voltar ao trabalho.
13) Caso você se sinta inseguro para ter tal conversa ou seu relacionamento com o funcionário esteja ligado por um grande laço de amizade poderá estar tendo este tipo de conversa com o alcoólico: “Eí, fulano, você quer parar de beber ou não? Cada vez que você bebe, eu é que fico no fogo. Não é justo, nem comigo nem com a firma. Eu estive estudando umas coisas sobre alcoolismo. Se você for um alcoólico, é um homem seriamente doente. Você age como se fosse. A empresa quer ajudá-lo a melhorar e, se estiver interessado, há um jeito de sair dessa. Se for em frente, seu passado será esquecido e o fato de que você foi afastado para tratamento médico não será divulgado. Mas, se você não quiser ou não puder parar de beber, acho que deve pedir demissão”.
14) Lembramos que o sigilo e a ética devem ser estritamente respeitados. Comentários sobre o assunto com pessoas que não estão diretamente ligadas ao funcionário só serviram para gerar fofocas e comentários maliciosos. Naturalmente, este tipo de coisa reduz as chances de recuperação do funcionário. O empregador deve proteger o funcionário deste tipo de mexerico, defendendo-o contra provocações desnecessárias ou críticas injustas.
15) Caso ele (a) recaia, por uma vez que seja, cabe ao seu superior decidir se será ou não mandado embora. Se estiver convencido de que ele não está levando o caso a sério, não há dúvidas de que deve demiti-lo. Se, pelo contrário, tiver a certeza de que ele está fazendo o que pode, talvez queira lhe dar outra chance. Mas você não deve se sentir obrigado (a) a conservá-lo na empresa, pois sua obrigação já foi totalmente cumprida.
16) Em resumo, ninguém deveria ser demitido apenas por ser alcoólico. Se quiser parar de beber, deve merecer uma chance. Se não puder ou não quiser parar, deve ser demitido. Poucas são as exceções.
Este tipo de enfoque resolverá muitos problemas e permitirá a reabilitação de bons funcionários e ao mesmo tempo você não hesitará em se livrar daqueles que não querem ou não conseguem parar com a bebida.
O alcoolismo pode estar causando muito prejuízo à sua empresa, em termos de perda de tempo, pessoal e reputação, ou poderá causar um grave acidente de trabalho.
Estas sugestões têm como objetivo ajudar a eliminar estas perdas, às vezes consideráveis.
Andréia Boggione
Psicóloga Organizacional
Profissional da Área de Recursos Humanos Betim/MG
Vivência nº 99 – Janeiro/Fevereiro 2006
O GRUPO E O RELACIONAMENTO COM A SOCIEDADE
Sabemos que o princípio básico de A. A. é um alcoólico conversando com outro alcoólico, e seu único propósito é a transmissão da mensagem ao alcoólico que ainda sofre. Foi exatamente assim que tudo começou com Bill W. Conversando com o Dr. Bob e posteriormente, os dois passaram suas experiências a outro alcoólico, iniciando aí o que mais tarde se tornaria esta extraordinária Irmandade mundial que há 72 anos vem ajudando milhares de doentes alcoólicos a paralisarem com a bebida.
Para que a Irmandade conseguisse crescer e solidificar como uma instituição, foi necessária a participação ativa de várias pessoas não alcoólicas, que deram seu tempo e sua boa vontade para nos ajudar. Possivelmente, sem a ajuda desses amigos, dificilmente Alcoólicos Anônimos chegaria a 180 países levando a sua mensagem e salvando milhões de vidas.
Pelo fato do alcoolismo ser um problema milenar, mesmo antes de existir Alcoólicos Anônimos, já havia pessoas não alcoólicas trabalhando na tentativa de resolver o problema. Em nossa história, o primeiro não alcoólico que teve uma influência muito grande na formação da Irmandade, foi o Dr. Silkworth, o médico que cuidou de Bill W. Algum tempo depois de sua participação nos Grupos Oxford, Bill W. procurou o Dr. Silkworth e comentou com ele sobre o seu fracasso com os bêbados. Contou para o médico que enquanto falava com os bêbados, ele, Bill, não tinha vontade de beber, mas nenhum dos bêbados conseguia ficar sem beber. Após ouvi-lo, Doutor Silk escreveu uma página fundamental na história de A. A.: “Veja Bill”, ele disse, “você somente conseguiu fracassos porque está pregando a esses alcoólicos. Você está lhes falando a respeito dos preceitos do Grupo Oxford – (os absolutos)… e da sua misteriosa experiência espiritual…. Isso é uma ordem…” e continua. Foi depois desse conselho do Dr. Silkworth, é que Bill W. viajou para a cidade de Akron e encontrou o Dr. Bob. Vejam o que Bill relata no livro “A. A. Atinge a Maioridade”: “Agora – conversando com o Dr. Bob – lembrei-me de tudo o que o Dr. Silkworth tinha dito. Então fui devagar com minha experiência religiosa. Comecei a falar apenas a respeito de meu próprio caso, até que ele se identificou comigo e começou a dizer: “Sim, é isso mesmo. Eu sou assim.” Como o Dr. Silkworth, houve muitos outros não alcoólicos que participaram ativamente na construção de A. A., como: Walter Tunks e Padre Edward Dowling, Samoel Shoemaker (religiosos), Henrietta Seiberling, Irmã Ignátia, Dr. Harry Tiebout (Psiquiatra), Dr. Bernard Smith, Willard Richardson, Frank Amos, Jack Alexander, John D. Rockfeller Jr., T. Henry e Clarace Willians, e muitos outros.
Assim como estes amigos tiveram participação ativa na formação de A. A., hoje continuamos precisando dos não alcoólicos, pois, dificilmente, conseguiremos continuar com os nossos trabalhos sem esta cooperação. Sabemos também, que para mantermos um bom entrosamento entre A. A. e a sociedade, precisamos antes de mais nada nos preparar internamente, para levarmos uma mensagem correta sobre quem somos, onde estamos, o que fazemos e o que não fazemos. Só assim, poderemos cumprir a nossa Quinta Tradição sem trazer prejuízos para o grupo, bem como para a Irmandade como um todo.
Atualmente, o CTO-Sede e os CTO’S dos Distritos têm recebido pedidos de informações de todas as partes como, representantes de Hospitais, Universidades, Escolas, Empresas, Justiça, Conselhos Tutelares e outros – às vezes, estes pedidos são feitos diretamente aos grupos. Porém, a falta de informações interna e externa sobre a nossa Irmandade, tem ocasionado algumas dificuldades nesta relação, pois, a abertura dos Grupos para a participação ativa de não alcoólicos nos grupos, tem confundido a forma de se relacionar com a sociedade. Eles entendem que relacionar com a sociedade, é permitir a participação de não alcoólicos em todas as reuniões do grupo, porém, não percebem que agindo assim estão ferindo praticamente todas as Tradições, ou seja, a 1ª, 3ª, 4ª, 5ª, 7ª, 10ª e 12ª. No entanto, conforme consta no livreto “O Grupo de A. A.”, o grupo poderá realizar reuniões fechadas destinadas exclusivamente a membros de A. A. e a pessoas que têm um problema com a bebida e “têm um desejo de parar de beber” e reuniões abertas que são franqueadas a qualquer pessoa interessada no programa de recuperação do alcoolismo sugerido por Alcoólicos Anônimos. Entendemos que estes problemas acontecem, por falta de conhecimento das Tradições e de como é feito o trabalho de informação à sociedade. Para a prática deste trabalho existe o CTO-Comitê Trabalhando com os Outros que cuida dessa atividade, onde seus integrantes se preparam antes de entrar em ação. A formação deste Comitê se dá a partir do grupo, quando este elege o seu RCTO (Representante de CTO) e ele junto com os outros RCTO’s de outros grupos, formam o CTO do Distrito.
Devemos lembrar que nós os membros somos anônimos, porém, a Irmandade não. “Precisamos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair, e aqueles a quem não foi dada a verdade podem perecer”. (Manual de Serviços).
Precisamos colocar a Irmandade à disposição de quem precisar e quiser. Porém, devemos ter cuidado para não afiliarmos há nenhum movimento ou instituição como nos orienta a Sexta Tradição. Também, não devemos oferecer serviços que fogem do nosso propósito primordial. Como exemplo, os Grupos estão vivenciando uma fase de complicações, ou seja: algumas instituições estão enviando familiares de alcoólicos internados nas mesmas, para freqüentar às reuniões de A. A. e com isso, adquirir condições para visitar seus parentes. Isso, sabemos que não está correto, pois, estas pessoas além de participar indevidamente das reuniões, ainda solicitam do Grupo, uma declaração de sua freqüência. Sendo que o Grupo não tem personalidade jurídica e é anônimo, ele não poderá atestar nada e nem dar declaração, pois, a finalidade do Grupo de A. A. é a troca de experiências entre os seus membros para conseguirem permanecer sóbrios. O Grupo de A. A. não pode resolver os problemas de todo mundo, se assim, ele proceder, irá se perder e não irá ajudar ninguém.
Conforme as coisas vão se modificando na sociedade a cada dia, vai se tornando necessário e urgente, a busca do conhecimento das Tradições pelos grupos para que possam se proteger das interferências externas em seus assuntos.
Bill W. com a sua sabedoria e a iluminação divina, Bill forjou às Tradições para proteger o grupo tanto dos membros e das influências externas. Para tanto, a Nona Tradição fala da criação e/ou formação de juntas ou comitês para nos servir e serem responsáveis pelos serviços que o grupo como tal não deveria fazer. Por isso, devemos deixar que os serviços sejam executados por quem de direito. Vamos respeitar a Quarta Tradição e observar o alerta desta Tradição que diz: “Sapateiro não vás além de tua chinela”.
Como o grupo deve proceder quando se ver diante dessa situação?
De quem é a responsabilidade para cuidar desses assuntos?
O que o grupo de A. A. pode fazer e o que ele não pode?
A presença de pessoas não alcoólicas em todas as reuniões do grupo de A. A., fere alguma Tradição ou não?
Quem cuida do relacionamento do grupo com a sociedade?
Obrigado,
Servidor
Setembro/2007

Seja um Fernão Capelo Gaivota
Numa praia, havia uma porção de gaivotas em busca de seu alimento enquanto apenas uma, sozinha, tentava voar de maneira diferente das outras, de uma forma muito especial mas não conseguia, caia. Só que nunca desistia! Tentava voar cada vez melhor!
Quando finalmente conseguiu, descobriu o quanto se amava e o real sentido de viver!
Descobriu que podia aprender a voar, ser livre!
Agora o importante não era receber elogios por sua vitória, queria apenas partilhar com seus amigos o que havia descoberto. Mas eles só lembravam de comer os restos deixados pelos pescadores, migalhas de pão e peixes velhos – pela metade.
Assim não deram importância ao amigo Fernão Capelo Gaivota, que por sua insistência em fazê-los o ouvir acabou por ser excluído do grupo, tendo que viver sozinho em um lugar muito distante.
Mas nem isso fazia Fernão ser triste. O que o entristecia era ver que seus amigos não queriam aprender a voar, aprender a ser feliz, aprender a pegar peixes frescos em cada mergulho magnífico que podiam dar.
Descobriu que o medo e o tédio são as razões porque a vida de uma gaivota é tão curta, e sem isso a perturbar-lhe viveu de fato uma vida longa e feliz.
Quando foi para uma terra longínqua conheceu Henrique que lhe ensinou muitas coisas! Porém seu mestre Henrique foi embora, coube então a Fernão Capelo Gaivota a missão de ensinar as novas gaivotas como voar.
Foi no momento em que estas gaivotas pequenas ficaram um pouco maiores, que ele percebeu que já haviam aprendido o necessário e que podiam continuar sozinhas. Então, mesmo ainda sem permissão resolveu voltar para a sua terra, tentando finalmente mostrar a felicidade de voar a seus antigos amigos.
Queria poder ensinar que o paraíso não é em um lugar nem em um tempo determinado , que o paraíso é perfeito, que está ao alcance de todos. É que basta querer que todos podem ir a qualquer lugar a qualquer momento.
Realizando os vôos que aprendera, voltou próximo a sua terra. Contudo o mais velho do grupo impediu que os demais falassem ou mesmo olhassem para Fernão. Todavia ao perceberam os seus movimentos e lembrando da antiga amizade, foram se aproximando desejando aprender a voar também.
– Pode me ensinar a voar como você? – Perguntou um deles.
– Claro. – Disse Fernão.
E começou a ensinar que o corpo é o nosso pensamento numa forma que podemos visualizar. Então para voar, basta querer! Ensinou tudo o que tinha aprendido com seu mestre amigo Henrique e mais o que aprendera sozinho ensinando as gaivotas mais novas.
– Deu certo! – Gritou uma gaivota ao conseguir voar livremente.
– Dá sempre certo quando sabemos o que estamos fazendo. – Respondeu Fernão. Assim foram passando os dias e ensinando a mais e mais gaivotas. Todas aprendiam! Umas mais devagar, outras mais rápidas, mas todas quando queriam aprendiam.
Quando novamente Fernão Capelo Gaivota percebeu que estava na hora de crescerem sozinhas, partiu para outra terra longínqua a fim de divulgar ainda mais seus movimentos. E assim foi ensinando a quem quisesse ser feliz. Seus discípulos mais tarde fizeram o mesmo, ensinando outras novas gaivotas ….

PARTICIPEM DE NOSSAS REUNIÕES

GRM – GRUPO ROSA MÍSTICA
Rua Alpes, 532 – Bairro: Nova Suíça – BH/MG
Reuniões: 2ª. – 4ª. 6ª. Feiras às 19:30 horas
Site: http://www.existeumasolucao.com.br
http://www.vinteduashoras.com.br
Email: gruporosamistica_aa@yahoo.com.br

ALCOOLISMO, DOENÇA E SUBJETIVIDADE EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

ALCOOLISMO, DOENÇA E SUBJETIVIDADE EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
Alcoólicos Anônimos são, de acordo com sua literatura oficial, “uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo” (Alcoólicos Anônimos 1996).[17] Trata-se de um programa de recuperação, expresso nos Doze Passos e nas Doze Tradições (Alcoólicos Anônimos 2001),[18] cujo objetivo é ajudar os alcoólicos a evitar o “primeiro gole” e, assim, manter a “sobriedade”.
Seu modelo terapêutico é voltado, fundamentalmente, à recuperação individual e pessoal de seus membros, que “parecem ter perdido o poder para controlar suas doses ingeridas” (Alcoólicos Anônimos 1996). O alcoolismo é entendido como uma “doença incurável, progressiva e fatal”, de base “física e espiritual”, que se caracteriza pela “perda de controle sobre o álcool”, levando o alcoólico a beber de maneira compulsiva, podendo, com isso, conduzi-lo à “loucura” ou à “morte prematura”.
O modelo terapêutico da irmandade conta ainda com a participação dos AAs em reuniões periódicas, cujo objetivo é também ajudá-los a evitar o “primeiro gole” e, assim, a manter a sobriedade. As reuniões podem ocorrer em salas alugadas ou cedidas por igrejas, escolas, instituições correcionais ou de tratamento. As chamadas “reuniões de recuperação” podem ser de dois tipos: “fechadas”, compostas apenas por aqueles que se consideram “doentes alcoólicos”, e “abertas”, destinadas a todos aqueles que desejam conhecer a irmandade.
Nessas reuniões, compartilham suas experiências, ajudando-se mutuamente a encontrarem forças para superar a “doença alcoólica”. Assim, quando chegamos a uma sala de AA, seja para, por curiosidade, conhecer as atividades do grupo, seja para buscar ajuda para o “problema” do alcoolismo, somos apresentados a um conjunto de idéias e de procedimentos formulados, dizem seus membros, para dar conta da “doença do alcoolismo” e ajudá-los a manter a sobriedade. Os AAs são unânimes em dizer que “aprenderam” isso depois que chegaram ao grupo: “Quando cheguei aqui, aprendi que era doente e impotente em relação ao álcool. Fiz minha parte e me mantenho sóbrio. Venho para não esquecer que não posso beber.”
Os membros de AA encontram na irmandade um conjunto de valores que orientam suas práticas no sentido de sua recuperação. Eles “aprendem” que são “doentes”, e que devem evitar o “primeiro gole”. Constrói-se, assim, uma teoria do alcoolismo na qual o indivíduo não é o responsável pela aquisição de sua “doença”, mas ao contrário a remete ao terreno da fatalidade e da aleatoriedade.
Essa perspectiva se coaduna com a visão exposta na literatura de AA, que define o alcoolismo como o resultado de uma articulação entre uma “sensibilidade física ao álcool” e “uma obsessão mental” em ingerir bebida alcoólica, que impede o alcoólico de parar de beber. Para AA, é possível ser um alcoólico sem jamais ter bebido, bastando, para isso, não ter tido contato com a bebida alcoólica. Foi o que me disse um membro de AA, quando afirmou: “existem pessoas aí que nasceu, viveu aí 80 anos, ele é um alcoólatra só que ele nunca ficou bêbado. Por quê? Porque ele nunca entrou em contato com bebida alcoólica. É essa predisposição orgânica.”
A literatura antropológica tem enfatizado que a teoria da doença de AA representa o alcoolismo nos termos de uma “théorie de l’inné” (Fainzang 1996: 34), própria a uma tradição biologizante largamente difundida nos Estados Unidos, segundo a qual ele é definido como uma “doença inata”, de base “genética”, enraizada no organismo do alcoólico. Trata-se de uma “maladie de longue durée” (Saliba 1982: 82); uma doença crônica de base orgânica e mental que independe da “força de vontade” do alcoólico para sua superação e controle.
Todavia, é necessário avançarmos na compreensão dos significados ligados à definição do alcoolismo concebido como uma “doença incurável e fatal”. Ora, os AAs têm uma maneira própria para traduzir essa característica da doença alcoólica, expressa na proposição semântica “um alcoólico não se torna alcoólico, ele é alcoólico”.
Além de reforçar a idéia de que se é portador de uma “doença crônica”, essa proposição sintetiza aquilo que Bateson (1977) chama de o “objetivo perseguido” no modelo de AA, qual seja “o de permitir que o alcoólico coloque seu alcoolismo no interior de si mesmo” (1977: 279, tradução minha). Trata-se de “incorporar” o alcoolismo, através da idéia de que se é portador de uma “doença incurável”, com a qual deve-se aprender a conviver. É exatamente isso o que se depreende da afirmação de um membro de AA:
Eu sou João, um doente alcoólico em recuperação. Eu agradeço ao Poder Superior, companheiros e companheiras, que me ajudam nessa recuperação. Sou portador da doença do alcoolismo, uma doença que tava guardada dentro de mim e que se manifestaria em qualquer ocasião em que eu tivesse contato com a bebida alcoólica. Eu poderia ter evitado tudo no mundo, mas um dia eu beberia, nem que fosse por curiosidade, e aí estaria a conseqüência.
Na troca de experiências durante a reunião de recuperação, a condição de doente é reiterada, através da lembrança permanente e repetida das experiências etílicas de cada indivíduo e do caminho rumo à sobriedade, ancorada nos instrumentos fornecidos pelo grupo. De acordo com Soares,
Contra a ameaça de que o esquecimento das condições de doente-alcoólico facilite a tentação do primeiro gole, contra o perigo de que a “negação” da incapacidade de controlar a bebida leve o alcoólatra a supor-se novamente senhor de sua vontade e capaz de prescindir do poder superior – e do grupo –, os AAs cultivam um inventário de experiências de que se valem tanto os novatos quanto o mais antigo veterano, jamais liberto por completo das armadilhas insidiosas de sua doença (1999: 260).
No modelo de AA, portanto, o alcoolismo é entendido como um mal que o indivíduo traz em si mesmo, que é parte dele, mas que pode ser controlado, desde que ele aceite a existência da doença e a impossibilidade de enfrentá-la sozinho: “O fato é que a maioria dos alcoólicos, por razões ainda obscuras, perde o poder de decisão diante da bebida. Nossa assim chamada ‘força-de-vontade’ torna-se praticamente inexistente […] Não temos qualquer proteção contra o primeiro gole” (Alcoólicos Anônimos 1994: 47).
Ora, essa incapacidade de enfrentar o problema do alcoolismo seguindo apenas a própria vontade é traduzida no primeiro e segundo passos do programa de recuperação da irmandade (Alcoólicos Anônimos 2001):
1) Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas;
2) Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia nos devolver à sanidade.
O alcoólico deve reconhecer que é portador de uma doença, que independe da “força de vontade” para seu controle. Ao invés de afirmarem “eu posso”, “eu quero” e “eu consigo”, tal como prevê a crença arraigada na soberania do eu, assente na ideologia moderna do individualismo, frente ao reconhecimento de seu fracasso na condução de sua própria vida pela vontade, ele reconhece sua “impotência” diante de uma doença que é fatal, e que necessita de ajuda.
Esses passos representam, assim, um momento fundamental para a reconstrução da subjetividade, através do reconhecimento de que o indivíduo não é uno, mas antes múltiplo, pois há nele forças que o guiam e o controlam, independentes do ego. Com efeito, assiste-se a uma subjetivação da doença alcoólica, isto é, a uma construção subjetiva marcada pela patologia do alcoolismo.
Mais do que pertencer a uma tradição biologizante, o modelo de AA opera como um constructo que instaura um peculiar regime de alteridade, a partir de um mecanismo simbólico de incorporação da doença, que passa a ser entendida como a “alteridade” presente no corpo de cada alcoólico. Nessa linha, o modelo de AA possibilita a instauração de um regime prático-discursivo dentro do qual os AAs se reconhecem como “doentes alcoólicos em recuperação”: indivíduos doentes que trazem o mal dentro de si.
Um dos membros de AA enuncia nos seguintes termos esse processo de “incorporação” da doença:
Eu só olho o grupo na minha frente. É uma coisa gostosa. É um Poder Superior maravilhoso que me traz aqui todos os dias. Eu não consigo mais viver sem a sala de AA Na hora da reunião, tem uma coisa que incorpora em mim. Eu não tenho vontade de beber, o que é importante. Hoje eu sou um cara feliz, porque eu não bebo cachaça.
Os AAs constroem uma rede de reciprocidade, no interior da qual atualizam sua condição de doentes. Eles só podem assumir a doença alcoólica, para si mesmos, se esta for reafirmada diante dos outros alcoólicos durante as reuniões. Não é por acaso, então, que o membro de AA diz que na hora da reunião “tem uma coisa” que o “incorpora”, que passa a fazer parte dele. Trata-se do reconhecimento da doença, da internalização da condição de doente, reafirmada cotidianamente dentro do grupo.
Nas reuniões vivenciadas na irmandade, assiste-se à construção da identidade de “doente alcoólico em recuperação”, através de um processo simbólico no qual a doença é percebida como um “outro” cuja morada é o próprio corpo do alcoólico. O indivíduo encontra, dessa maneira, um lugar para o corpo e para o espírito, ambos enfermos, reconciliando-se consigo mesmo e também com seus familiares. Esse é o passo fundamental dado pelos AAs na direção de sua reconstrução subjetiva, cujos contornos são delineados a partir do -reconhecimento da doença como alteridade que é coletivizado nas histórias de vida compartilhadas todos os dias.
A troca de experiências contribui para criar uma memória coletiva, um repertório comum que fortalece a adesão ao modelo terapêutico e a conseqüente disposição de se evitar o uso do álcool. Em vez de ficar no esquecimento, a sobriedade é mantida pela lembrança sempre repetida das desventuras com a bebida vividas por cada um dos membros do grupo. Os AAs cultivam, assim, um inventário de experiências comuns que serve de antídoto à tentação do “primeiro gole”, de maneira que tomam para si a responsabilidade pelo controle da “doença alcoólica”.
A fala de cada membro é um fio que se entrelaça com os outros na construção de uma verdadeira rede de reciprocidade, que serve de referência ao conjunto da irmandade. Como conseqüência, garante-se a continuidade da instituição, através da (re)produção de suas idéias e valores a partir de uma prática cotidiana que possibilita a adesão de novos adeptos, que encontram em AA um lugar onde o corpo e o espírito considerados “enfermos” têm os recursos e o suporte necessários à sua recuperação.
ALCOOLISMO: UMA DOENÇA ENTRE O FÍSICO E O MORAL
A reunião de recuperação é o momento no qual os homens e as mulheres membros de AA compartilham suas experiências individuais – histórias de vida do tempo de alcoolismo ativo e da recuperação –, falam também de seus conflitos, perdas e conquistas, atualizando os princípios que presidem ao programa de recuperação da irmandade (Campos 2005a: 95-116).
Nessas reuniões, os alcoólicos narram uns aos outros, em verdadeiros depoimentos pessoais feitos em primeira pessoa e chamados de “partilhas”, suas experiências vividas antes e depois da entrada em AA. Através dessas narrativas de forte apelo emocional, eles se ajudam mutuamente, reforçando a identificação com os princípios da irmandade, ao mesmo tempo que encontram forças para manter a sobriedade, reorganizando suas vidas de uma maneira individual e coletiva.
É nas reuniões de recuperação que os membros do grupo podem (re)atualizar o modelo terapêutico da irmandade, comunicando e legitimando sua condição de “doente”:
Meu nome é Aurélio, um doente alcoólico em recuperação que freqüenta as reuniões para deixar de ser bêbedo. Para deixar de ser cachaceiro […] O Aurélio era compulsivo por cachaça. O álcool estava me dominando. Eu já tava completamente dominado pelo álcool. Na ativa, eu fui agressivo com minha saúde. Desenvolvi uma hipertensão. Quando bebia perdia tudo, ¬deixava de lado a família, os amigos, o trabalho. Com AA consegui manter minha família, meus amigos. Agora tenho tudo […] É preciso ter consciência da doença, do que ela causa.
Uma análise das partilhas feitas durante as reuniões de recuperação revela que, embora fundadas na experiência intransferível da dor e do sofrimento, elas utilizam um código comum e específico, uma linguagem para expressar os dilemas e embaraços da prática social e o confronto cotidiano entre as situações vividas e os valores próprios do contexto sociocultural em que vivem, notadamente os valores da família e do trabalho.
As narrativas colhidas durante a pesquisa de campo, no grupo Sapopemba de AA, também são eloqüentes na representação do alcoolismo como uma doença que comporta uma multiplicidade de significados, os quais deslizam entre os planos físico e moral. Quando falam sobre o alcoolismo, os AAs mobilizam um rico conjunto de categorias para expressarem suas aflições e os efeitos do álcool sobre seu organismo e, conseqüentemente, a sua deterioração. É o que encontramos nas entrevistas feitas com os membros do grupo:
Eu acordava de manhã e sentia aquelas dores na barriga, no estômago; eu precisava vomitar, e só depois que eu bebia aquilo passava […] Eu comecei a ter ânsias às três horas da manhã, constantemente; mesmo se eu não tivesse bebido, vinha aquela ânsia. Me dava água na boca. Chegava oito e meia da manhã, não dava: e eu tinha que beber para ficar legal. Já tinha que beber. Eu já bebia de manhã mesmo. Eu era muito relaxado com meu físico.
Durante as partilhas é comum ouvirmos, ainda, que o alcoolismo provoca o “inchaço das mãos e das pernas”, “ânsias e náuseas”, “dores de barriga e de estômago” e “tremores” que só cessam após a ingestão de uma dose de bebida alcoólica. Os AAs traçam, então, uma nosografia da doença do alcoolismo a partir de “sintomas” orgânicos, tais como “ressaca”, “tontura”, “náuseas”, “perda de força física”, “enfraquecimento”, “tremores”, “alergia”, “inchaço das mãos e do rosto”, “hipertensão” e “cirrose”.
Associado à sintomatologia orgânica, também encontramos um leque variado de expressões que se referem aos efeitos mentais do uso do álcool que alteram o comportamento do alcoólico, tais como “alucinações”, “depressão”, “desequilíbrio”, “agitação”, “agressividade”, “apagamento”, “delírios”, “nervoso”, “perda de memória” e “loucura”.
Ligada a essa sintomatologia física e mental, também se observa, na fala dos AAs, uma rica expressão de “sintomas” morais que apontam para os efeitos do alcoolismo no campo de relações nas quais o alcoólico está envolvido, notadamente no trabalho e na família.
Os membros do grupo evocam os efeitos do álcool e do alcoolismo sobre a família nos seguintes termos: “O bêbado é um ladrão da família”; “Eu tirava o prazer da família”; e “O alcoolismo é uma doença da família”. A doença do alcoolismo extravasa os limites do indivíduo para afetar, sobretudo, o núcleo relacional no qual o alcoólico está inserido, conduzindo-o a uma ruptura de seus laços familiares e de trabalho: “Quando bebia perdia tudo e deixava de lado a família, os amigos, o trabalho”; “Quando bebia eu não via meus filhos, eu não me relacionava com minha mulher. Perdia tudo. Só queria a bebida.”
Os AAs mobilizam um conjunto de expressões e de categorias morais que denotam uma forma própria de entender o alcoolismo e seus efeitos. Assim, a “doença alcoólica” é apreendida pelas categorias morais do “orgulho”, “onipotência”, “egocentrismo” e “ressentimento”, que, por sua vez, provocam efeitos morais, tais como “sarjeta moral”, “desequilíbrio moral”, “perda de força moral”, “desmoralização”, ou efeitos sociais como, por exemplo, “sarjeta social”, “perda dos amigos”, e ainda efeitos profissionais, definidos como “sarjeta profissional” e “perda do trabalho”, para além de efeitos familiares, como “brigas do casal”, “conflitos com os filhos”, “perda da família” e “doença da família”.
Na linguagem da doença formulada pelos AAs, portanto, o alcoolismo assume os contornos de uma “perturbação físico-moral”,[19] afetando tanto o âmbito físico / orgânico como o âmbito relacional da família. A chamada doença do alcoolismo é traduzida tanto a partir de seus efeitos sobre o organismo, atingindo o âmbito físico e mental do doente, como a partir de seus efeitos sobre o plano moral, afetando, sobretudo, o âmbito relacional da família. Se o alcoolismo é uma “doença do indivíduo”, ele é também uma “doença da família”.
O ALCOOLISMO É UMA “DOENÇA DA FAMÍLIA”
A categorização do alcoolismo como uma “doença da família” possui um valor heurístico, uma vez que permite entrever os sentidos do adoecer e do sofrimento, fundados nos valores diferenciais que conformam o contexto sociocultural no qual os AAs estão envolvidos, notadamente os valores “família” e “trabalho”. É isso o que se pode perceber na entrevista com um dos membros de AA:
O alcoolismo me afetou principalmente na família e no trabalho. Primeiro com a família, porque eu passei a ser aquele homem descompromissado; aquele homem com quem não se pode contar. Isso me criou um problema muito sério, pois a própria família não acreditava mais em mim, e eu também não. O alcoolismo me atrapalhava […] Na fábrica foi a mesma coisa: eu tinha minhas atribuições junto aos demais companheiros, mas, de acordo com minha bebedeira, ninguém podia contar comigo. Eu passei a ser um homem inútil na equipe. E aí eu sinto que eu mesmo perdi o domínio, perdi a credibilidade, eu perdi o interesse, eu perdi a força de vontade, eu perdi a força física.
Fica claro que o alcoolismo afeta diretamente as relações que o alcoólico mantém na família e no trabalho. A dependência do álcool, que atinge o doente, abala a “força física” do alcoólico, que se vê incapaz de cuidar de si e de sua família. Com isso, ele não se reconhece mais com um “homem digno”, isto é, com um trabalhador responsável por prover o sustento de sua família.
Mas, como a doença alcoólica se articula aos valores próprios ao universo sociocultural no qual os AAs estão inseridos, notadamente ao valor da família? Como o alcoolismo informa sobre as relações sociais nas quais os alcoólicos estão envolvidos?
A literatura antropológica tem evidenciado o papel central ocupado pela família nas relações sociais e na definição da identidade social, sobretudo entre os membros das camadas populares. Exemplo disso é o trabalho de Sarti, que destaca o modo como a família opera como uma referência simbólica central nos meios populares, de maneira que o espaço familiar, pensado “como uma ordem moral, constitui o espelho que reflete a imagem com a qual os pobres ordenam e dão sentido ao mundo social” (Sarti 2005: 22) no qual estão inseridos.
Duarte já havia destacado a centralidade que a família ocupa entre os membros das camadas populares, operando como um valor na construção da identidade social e da noção de pessoa no seu interior. Para esse autor, “o valor–família abarca um certo número de qualidades distribuídas entre seus componentes e que lhe concedem sua preeminência enquanto foco da identidade social” (Duarte 1986: 175). Nas camadas populares, portanto, o “valor-trabalho”, fundamental na definição da condição de “trabalhador” e de “homem provedor”, é encapsulado pelo “valor-família”, centro irradiador e foco principal na definição da identidade dos membros desse grupo social.
Ora, mesmo sabendo que a irmandade de AA define o alcoolismo como uma “doença do indivíduo”, quando falam do mal que os aflige, os AAs falam de si mesmos e dos conflitos vividos no meio social em que vivem. A fala da doença proporciona, então, uma linguagem através da qual os membros do grupo podem dar um sentido às suas aflições e aos conflitos enfrentados no âmbito relacional da família e do trabalho, que operam como valores estruturantes e englobantes do conjunto das práticas vivenciadas no meio social no qual os AAs estão inseridos.
Aqui, também é importante ouvirmos as palavras de Sahlins, para quem os significados produzidos no interior de uma ordem cultural são constantemente reavaliados pelos agentes em suas ações em confronto com o mundo: se, “por um lado, as pessoas organizam seus projetos e dão sentido aos objetos partindo das compreensões preexistentes da ordem cultural […] Por outro lado, os homens criativamente repensam seus esquemas convencionais” (Sahlins 2003b: 7).[20]
A expressão “doença da família” indica, portanto, um modo particular de os AAs entenderem e significarem a experiência do alcoolismo no interior do modelo terapêutico da irmandade. Certa vez, em uma conversa com um membro de AA, indaguei se essa definição estava presente na literatura oficial da irmandade. Como resposta, ele me disse: “Não, isso você só encontra aqui [no grupo Sapopemba], essa é uma definição nossa.”
A irmandade de AA opera como uma ordem de significação no interior da qual são construídos os significados em torno do álcool, do alcoolismo e de si mesmo, entendido como um “doente alcoólico em recuperação”, de maneira que seus membros têm um modo próprio de significarem suas experiências etílicas, articulando e mobilizando elementos característicos do universo social no qual estão inseridos, notadamente os valores família e trabalho, que estruturam e orientam suas práticas sociais.
Para os AAs, o alcoolismo faz com que toda a família, e não apenas o alcoólico, adoeça, subvertendo a ordem familiar.[21] Ou seja, o alcoolismo é concebido como uma “doença da família”, isto é, uma doença física e moral que envolve a totalidade da pessoa portadora deste mal, comprometendo a construção do alcoólico como um indivíduo “responsável”, impedindo-o de reconhecer-se nas identidades sociais de “pai / mãe”, “esposo(a)” e “trabalhador(a)”.
O portador da doença do alcoolismo vive uma “perda de controle sobre o álcool”, o que significa, sobretudo, “perder a qualidade moral de cuidar de si e de prover sua família através do trabalho” (Campos 2005a: 133). É ainda o que nos diz um membro de AA, em entrevista, sobre o modo como a doença alcoólica afeta os laços sociais do doente:
Eu senti que eu estava dependendo do álcool e que estava decadente; foi quando, uma vez, eu cheguei em casa e não consegui abrir o portão para entrar, e dormi do lado de fora do portão. O pessoal que passava indo para o trabalho, eu lembro, um cara passou e apontou o dedo para mim, eu vi, eu estava acordado, só não tinha força para levantar; ele disse: “olha o bêbedo onde dormiu”. Aí eu senti que minha situação estava triste.
Essa fala é emblemática sob vários aspectos. Fica claro, de um lado, como a “dependência do álcool” compromete a “força física” do bebedor, impedindo-o de se levantar e obrigando-o a dormir fora de casa. De outro, dormir na rua reforça o estigma pertencente à imagem do “bêbado” que não consegue entrar dentro da própria casa, em oposição à imagem do “trabalhador”, do homem responsável, que acorda cedo para ir ao trabalho e prover o sustento de sua família.
Mas deixar de trabalhar significa, sobretudo, não cumprir seu papel moral de “homem provedor”. Pois, “na moral do homem, ser homem forte para trabalhar é condição necessária, mas não suficiente para a afirmação de sua virilidade” (Sarti 2005: 95, grifos do original).
Dormir na rua, nos bancos de jardins e praças, também é um signo da ruptura com o suporte relacional da família, que dá ao alcoólico a possibilidade de se reconhecer como “homem digno”. A casa confere uma forte dignidade moral àqueles que nela habitam. Nela, o homem é reconhecido como “pai”, “esposo”, “chefe de família” e toda uma ordem de categorias que, diferentemente da rua, lhe garantem autoridade e reconhecimento.
Como lembra Sarti, o uso do álcool pode comprometer, justamente, o exercício da “dignidade” do homem:
A casa é onde [se] realizam o projeto de ter uma família, permitindo […] a realização dos papéis centrais na organização familiar, o de pai de família e o de mãe / dona-de-casa. Esse padrão ideal pressupõe o papel masculino de prover teto e alimento, do qual se orgulham os homens […] Assim, para constituir a “boa” autoridade, digna da obediência que lhe corresponde, não basta ao homem pegar e botar comida dentro de casa e falar que manda. Para mandar, tem que ter caráter, moral. Assim, o homem, quando bebe, perde a moral dentro de casa. Não consegue mais dar ordens (Sarti 2005: 62-63, grifos do original).
Na entrevista acima, dormir na rua significa fazer parte de um mundo indiferenciado e impessoal, do “mundo da rua” no qual se é “ninguém”. Na rua, ele não encontra mais o lugar da autoridade que exerce na família. Sua tristeza reflete o sentimento de “fracasso”, por não cumprir com sua “obrigação” de prover sua família com “teto e alimento”, uma vez que os homens se ¬sentem responsáveis pelos rendimentos familiares. Trata-se, assim, do sentimento de “perda da dignidade” e do reconhecimento da “sarjeta moral” em que se encontra.
O alcoolismo assume, assim, toda a dimensão de uma doença que articula os planos físico e moral da pessoa, impedindo o alcoólico de agir de modo “responsável”. Quando falam da doença e dos dissabores enfrentados nos tempos do alcoolismo ativo, os AAs falam dos conflitos enfrentados com os valores e as regras da vida social, nas quais estão envolvidos, notadamente, os valores “família” e “trabalho”.
A LINGUAGEM DA DOENÇA ALCOÓLICA
Mas qual é a lógica que rege o modelo terapêutico de AA para dar conta do alcoolismo? Os AAs elaboram uma linguagem da doença alcoólica, que lhes permite organizar e dar um sentido à experiência vivida, reconhecendo-se como “doentes alcoólicos”. O alcoólico passa, assim, a cuidar de si mesmo, ao mesmo tempo que cuida de sua família, religando os fios que haviam sido rompidos na vida social: “Depois que eu conheci Alcoólicos Anônimos, eu passei a ter uma vida diferente. Depois de muito tempo separado, eu voltei a conviver. Hoje com meu trabalho, eu consigo manter minha família. É essa a condição que o AA dá.”
O modelo terapêutico de AA conduz o alcoólico a mudar seu “modo de ser”, e a seguir um outro “estilo de vida”, longe dos “velhos amigos, dos velhos hábitos e dos velhos caminhos” vividos no tempo do alcoolismo ativo. Trata-se de uma reconstrução subjetiva por meio de um conjunto de práticas e de discursos que investem diretamente sobre seu corpo e seu espírito, possibilitando sua recuperação.
Não por acaso, o programa de recuperação da irmandade é chamado de “programa de evitações”, sinalizando uma ressignificação dos espaços de sociabilidade no interior dos quais o ex-bebedor constrói sua experiência entre, de um lado, o “bar”, o “boteco”, “espaço da ativa”, no qual as relações eram mediadas pelo uso de bebidas alcoólicas e, de outro, tanto o “grupo de AA”, o “espaço da recuperação”, como a “casa” e o “local de trabalho”, espaços das relações familiares e profissionais, respectivamente, que são agora valorizados. Em entrevista, um membro de AA afirma:
Antes de Alcoólicos Anônimos eu só pensava no bar. Quando chegava do trabalho eu não parava cinco minutos em casa e já ia para o bar. Muitas vezes eu chegava em casa bêbado e nem tomava banho; dormia de qualquer jeito. Quando acordava era aquela ressaca […] Hoje eu chego em casa beijo meus filhos, converso com eles, com minha mulher. Agora, por exemplo, eu estou pagando a formatura de minha filha. Hoje, sóbrio, eu consigo ¬conversar com meus filhos. Tudo isso eu devo ao Poder Superior e a Alcoólicos Anônimos.
O modelo terapêutico de AA possibilita a recuperação do alcoólico, através do resgate de sua responsabilidade, ao mesmo tempo física e moral. Com efeito, ao contrário da deterioração do organismo provocada pelo álcool, assiste-se agora a uma valorização do cuidado da própria saúde, do bem-estar físico e estético, expresso “no cuidado em fazer a barba”, “cortar os cabelos”, “tomar banho” e no “vestir-se”.
O mesmo ocorre também em relação ao âmbito moral, onde ao invés do “orgulho”, o alcoólico cultiva a “humildade”; ao invés do “egoísmo”, ele cultiva o “altruísmo”; ao invés da “hostilidade”, ele cultiva a “amizade”; ao invés do “ressentimento”, o alcoólico pratica a “ajuda” ao outro alcoólico que ainda sofre. É assim que o alcoólico recupera sua “dignidade” e se reconhece como “provedor” de sua família.
O modelo de AA é regido por uma lógica cuja regra enfatiza tanto os procedimentos terapêuticos dos cuidados de si – corporais, médicos, higiênicos e estéticos – como os códigos culturais que conformam o contexto sociocultural no qual os alcoólicos estão envolvidos. Em outras palavras, trata-se de uma lógica regida por uma “biomoralidade”, isto é, uma forma específica de gestão da própria vida na qual o exercício da responsabilidade individual no cuidado de si mesmo se coaduna com uma lógica própria a uma forma de gestão coletiva da saúde, que envolve a recuperação das relações familiares dos membros da irmandade.
O modelo terapêutico de AA aponta para uma forma de gestão da saúde cuja lógica se organiza em torno do individual e do coletivo (familiar), visando “a integração de normas e práticas de tipo individualista à gestão coletiva da saúde” (Fassin 1996: 273, tradução minha). Ou seja, a lógica terapêutica dirigida ao cuidado de si é englobada pela lógica cultural, expressa por meio de uma linguagem da doença formatada em torno dos valores da “família” e do “trabalho”, característicos do contexto sociocultural no qual os AAs estão inseridos.
Ora, o modelo de AA possibilita que o alcoólico reconstrua os vínculos familiares e profissionais, pelo cultivo de sua responsabilidade. Para os AAs, a responsabilidade não é uma categoria “ético-abstrata”, mas sim a “responsabilidade-obrigação” para consigo mesmo e pelos atos cometidos nos tempos do alcoolismo ativo, sobretudo se esses atos provocaram danos a terceiros, que deverão, agora, ser reparados.
A “responsabilidade” é uma categoria relacional por excelência, um valor ético-moral que articula os planos físico e moral da doença alcoólica. À imagem do “homem descompromissado”, “dependente do álcool” e que tem sua vontade dominada pela bebida, contrapõe-se a imagem do “homem responsável”, membro de AA, que se responsabiliza pelos cuidados de si mesmo, ao mesmo tempo que cumpre seus deveres em relação à sua família.
O modelo terapêutico de AA possibilita, então, a reconstrução da subjetividade, através da incorporação da doença alcoólica como a alteridade necessária à fabricação da identidade de “doente alcoólico em recuperação”. O modelo de AA é um constructo simbólico que opera no registro da subjetivação da doença, permitindo ao alcoólico reconhecer-se como doente, ao mesmo tempo que se baseia em uma terapêutica englobada pela lógica cultural regida pelos valores “família” e “trabalho”.
Nessa linha, a recuperação de um alcoólico significa também a recuperação de seus laços familiares. A reconstrução subjetiva também envolve o resgate das identidades sociais de pai / mãe, esposo(a) e trabalhador(a), dentro de uma lógica regida por códigos culturais, através dos quais articulam-se os planos físico e moral da vida do alcoólico.
Assim, se o modelo terapêutico da irmandade visa restabelecer a responsabilidade do alcoólico no cuidado de si, através da abstinência em relação ao álcool, ele também possibilita o “cuidado do Outro”, através da restauração das relações familiares e profissionais.
É assim que, todos os dias, os AAs celebram a sobriedade e identificam-se como “doentes alcoólicos em recuperação”, responsáveis pelos cuidados de si mesmos e de suas famílias, (re)desenhando, dessa maneira, os contornos de sua construção subjetiva dentro de um modelo terapêutico no qual relacionar-se com o outro significa, fundamentalmente, um voltar-se para si mesmo.

ADMITIMOS

ADMITIMOS QUE ÉRAMOS IMPOTENTES PERANTE O ÁLCOOL – QUE TÍNHAMOS PERDIDO O DOMÍNIO SOBRE NOSSAS VIDAS”.

Esta doença impõe sobre suas vítimas uma severa ditadura sem respeitar: raça, credo, nível de inteligência, grau cultural, condição sócio-econômica, sexo e idade. Usando palavras mais simples, digo que ele ataca homens e mulheres, ricos e pobres, letrados e analfabetos; brancos, negros e índios; magros e gordos, altos e baixos, bons e maus, crentes, ateus e agnósticos, freiras e prostitutas, padres, cardeais e canalhas. Enfim, ele vitima seres humanos, desde que dotados da predisposição, aliada a outros fatores, e que usem substâncias alcoólicas de qualquer natureza.

Embora existam outros critérios para o diagnóstico, é considerada alcoólatra a pessoa que, ao usar bebidas alcoólicas, sofre conseqüências negativas para si ou para outrem e, apesar disso continua bebendo, não importando com que freqüência bebe e muito menos a quantidade ou qualidade da bebida ingerida.

Dizer para um alcoólatra: “Tenha força de vontade e não beba”, seria o mesmo que implorar para um epiléptico: “Use a força de vontade e não tenha uma crise agora”. Implorar ao alcoólico por quê você não para de beber? Seria o mesmo que pedir-lhe, para ele parar de respirar. O alcoolismo chega em estágios tão avançados, que o uso da bebida torna-se uma necessidade vital para o doente. Força de vontade, neste caso, é um grande empecilho. Ela só atrapalha. Pois o álcool a anulou. O indispensável é a boa vontade. A força será encontrada num grupo de A.A. Para parar de beber, o alcoólico precisa de ajuda e, quanto antes – melhor.

“Num determinado momento do seu percurso alcoólico, entra numa fase em que o mais forte desejo para deixar de beber é absolutamente inútil. Esta trágica situação surge em quase todos os casos, muito antes sequer de se suspeitar dela.
O fato é que, por razões ainda obscuras, a maior parte dos alcoólicos perdeu a capacidade de escolher quando se trata de beber. O que chamamos de força de vontade torna-se praticamente inexistente. Somos incapazes, em determinadas alturas, de conscientizar com a necessária nitidez a recordação do sofrimento e humilhação de apenas uma semana ou um mês atrás. Ficamos sem defesa perante a primeira bebida.
As conseqüências praticamente inevitáveis que daí resultam ao tomar-se nem que seja um copo de cerveja, não vêm ao espírito para nos deter. Se estes pensamentos ocorrem, eles são nebulosos e facilmente suplantados pela velha idéia já gasta, de que desta vez poderemos comportar-nos como qualquer pessoa. É um completo fracasso do tipo do instinto de defesa que impede uma pessoa de pôr a mão em cima dum fogão quente.
O alcoólico pode querer convencer-se da maneira mais despreocupada: ‘Desta vez não me vou queimar, vão ver!’ Ou talvez nem chegue mesmo a pensar de todo. Quantas vezes nos aconteceu começarmos a beber deste modo despreocupado, para depois do terceiro ou quarto copo, darmos murros no balcão do bar e dizer para nós mesmos: ‘Santo Deus, como é que comecei outra vez?’, para pensar logo de seguida, ‘Ora, hei de parar depois do sexto. ‘Ou então, ‘Para quê, agora já não vale a pena’.
Quando este tipo de raciocínio se implanta de vez numa pessoa com tendências alcoólicas, ela coloca-se com toda a probabilidade numa situação que está para além da ajuda humana e, a não ser que a internem, certamente morre ou enlouquece para sempre. Legiões de alcoólicos no decurso da História confirmaram estes fatos duros e atrozes. Mas haveria ainda outros tantos milhares de casos convincentes que teriam seguido o mesmo caminho, se não fosse pela graça de Deus, porque muitos são os que querem parar de beber e não conseguem”.
Vejamos esta afirmação de Bill: “Eu tinha caminhado continuamente ladeira abaixo, e naquele dia, em 1934, eu estava acamado no andar superior do hospital, sabendo pela primeira vez que estava completamente sem esperança.
Lois estava no andar térreo, e o Dr. Silkworth estava tentando, com suas maneiras gentis, transmitir a ela o que estava acontecendo comigo e que meu caso era sem esperança. ‘Mas Bill tem uma grande força de vontade’, ela disse. ‘Ele tem tentado desesperadamente ficar bom. Doutor, por que ele não pode parar?’
Ele explicou que minha maneira de beber, uma vez que se tornou um hábito, ficou sendo uma obsessão, uma verdadeira loucura que me condenava a beber contra meu desejo.
Nos últimos estágios de nosso alcoolismo ativo, a vontade de resistir já não existe. Portanto, quando admitimos a derrota total e quando nos tornamos inteiramente dispostos a tentar os princípios de A.A., nossa obsessão desaparece e entramos numa nova dimensão – a liberdade sob a vontade de Deus, como nós O concebemos”.

Um alcoólatra é tão insano que chega a trocar tudo por um copo de bebida: Pais, irmãos, namorada ou esposa, filhos, dinheiro, emprego, casa, automóvel, comida, amigos, conforto, saúde, religião, sua dignidade e a própria vida.

O alcoólatra é um enfermo que adoece a família toda. É a doença da desagregação familiar é um vendaval, um furacão, um tornado ou um terremoto sobre as vidas alheias também. Principalmente, sobre os familiares, aqueles que ele mais ama; sobre os amigos, e sobre todos aqueles que com ele convivem. Razão pela qual os familiares deveriam, também, submeter-se a tratamento ou no mínimo participar do Al – Anon ou Alateen. Não existem culpados para o alcoolismo. Lembremo-nos dos 3 Cs.: Você não Causou, logo, não pode Curar, assim, não pode Culpar-se, mas aceitar e partir para a luta. “Um Dia De Cada Vez!”

Para uma reflexão mais adequada, transcrevo partes do Primeiro Passo: “Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém, é claro. Todos os instintos naturais gritam contra a idéia de impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que, com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da Providência pode removê-la. Nenhuma outra forma de falência é igual a esta. O álcool, transformado em voraz credor, nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Uma vez que aceitamos este fato, nu e cru, nossa falência como seres humanos está completa. Porém, ao ingressar em A.A., logo encaramos essa humilhação absoluta de uma maneira bem diferente. Percebemos que somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e ao poder. Nossa admissão de impotência pessoal acaba por tornar-se o leito de rocha firma sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e significativas. Sabemos que pouca coisa de bom advirá a qualquer alcoólicos que se torne membro de A.A. sem aceitar sua devastadora debilidade e todas as suas conseqüências. Até que se humilhe desta forma, sua sobriedade – se a tiver – será precária.
Da felicidade verdadeira, nada conhecerá. Comprovado sem sombra de dúvida por uma longa experiência, este é um dos fatos da vida de A.A. O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura sem que antes admitamos a derrota completa, é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa Irmandade toda.
Inicialmente, ao sermos desafiados a admitir a derrota, a maioria de nós se revoltou. Havíamos nos aproximado de A.A. esperando ser ensinados a ter autoconfiança. Então nos disseram que, no tocante ao álcool, de nada nos serviria a autoconfiança, aliás, era um empecilho total. Nossos padrinhos afirmaram que éramos vítimas de uma obsessão mental tão sutilmente poderosa que nenhum grau de força de vontade a quebraria. Não era possível, disseram, a quebra pessoal desta obsessão pela vontade desamparada. Agravando nosso dilema impiedosamente, nossos padrinhos apontaram nossa crescente sensibilidade ao álcool – chamaram-na de alergia. O tirano álcool empunhava sobre nós uma espada de dois gumes: primeiro éramos dominados, e depois por uma alergia prenunciadora de que acabaríamos nos destruindo. Pouquíssimos mesmo eram os que aflitos desta forma, haviam saído vitoriosos lutando sozinhos. Era um fato estatístico, os alcoólicos quase nunca se recuperavam pelos seus próprios recursos. E assim parece ter sido desde a primeira vez que o homem espremeu as uvas.
Nos primeiros tempos de A.A., somente os alcoólicos, mais desesperados, conseguiram engolir e digerir esta verdade amarga. Mesmo estes “agonizantes” freqüentemente encontravam dificuldades em reconhecer quão poucas esperanças havia. Contudo, alguns o reconheceram, e tendo se agarrado aos princípios de A.A. com o mesmo fervor dos que estão se afogando e se agarram aos salva-vidas, quase que invariavelmente se tornaram sóbrios. É por isso que a primeira edição do Livro Alcoólicos Anônimos, publicado quando éramos poucos membros, tratava somente de casos desesperados. Muitos alcoólicos menos desesperados experimentavam A.A., mas não eram bem sucedidos porque não podiam admitir a sua impotência”.
Bill W., afirmou: “Porque insistir tanto em que todo AA precisa, antes de mais nada, chegar ao fundo do poço? A resposta é que poucas pessoas praticarão sinceramente o programa de A.A. a não ser que tenham atingido o fundo. Pois praticar os restantes onze passos de A.A. requer a adoção de atitudes e ações que quase nenhum alcoólico que ainda esteja bebendo sonharia adotar. Quem se dispõe a ser rigorosamente honesto e tolerante? Quem se dispõe a confessar suas falhas a um outro e a fazer reparação pelos danos causados? Quem se interessa, ao mínimo, por um Poder Superior ou menos ainda por meditação e oração? Quem se dispõe a sacrificar seu tempo e sua energia tentando levar a mensagem de A.A. ao próximo? Não, o alcoólico típico, egoísta ao extremo, pouco se interessa por estas medidas a não ser que tenha de tomá-las para sobreviver”.
E continua ele: “Sob a chicotada do alcoolismo, somos impelidos ao A.A., e ali descobrimos a fatalidade de nossa situação. Nessa hora, e somente nessa hora, é que nos tornamos tão receptivos a sermos convencidos e tão dispostos a escutar como os que se encontram à beira da morte. Prontificamo-nos a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa”.