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SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL-ALCOOLISMO – DR. LAÍS MARQUES

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL-ALCOOLISMO
Dr. Laís Marques da Silva
Ex-custódio e Ex-presidente da JUNAAB

Em Alcoólicos Anônimos o que importa não é o alcoolismo, mas sim o alcoólico. Não se fazem estudos ou pesquisas sobre o alcoolismo mas dedicam-se todas as atenções e cuidados às pessoas que sofrem dessa doença. É o ser humano, é o doente que importa.
Além do mais, a Irmandade resolve o problema do diagnóstico de uma forma adequada. Ninguém faz diagnóstico, ninguém rotula ninguém mas, depois de algum tempo de convivência com membros do grupo de A.A. e chegando às suas próprias conclusões diante do que viu e ouviu nas reuniões, é o próprio alcoólico que decide ser ou não um membro do grupo e é também ele quem diz se é ou não um alcoólico. Mas as pessoas, depois de passarem por tratamentos médicos e ao se reconhecerem como alcoólicos, passam, como é natural, a ter um interesse, uma curiosidade em relação à sua doença. Desejam conhecer um pouco acerca do alcoolismo.
A palava alcoolismo foi usada pela primeira vez em 1849 pelo médico sueco Magnus Huss no seu trabalho “Alcoolismo Crônico”, expressão essa que se tornou o modo corrente de tratar os que apresentavam embriagues habitual, chamados a partir daí de alcoólatras, alcoólicos ou alcoolistas. Bebem repetida e excessivamente bebidas alcoólicas com prejuízos para si mesmos e para outras pessoas sendo que os danos se expandem para áreas tão diferentes como mentais, econômica, sociais, legais, etc.
Por ser o controle voluntário muito pequeno e o beber compulsivo, o alcoolismo é considerado como adição e como doença. Daí que, numa visão simples, é tido como sendo a doença que resulta do beber compulsivo e crônico.
N No entanto, do ponto de vista farmacológico e fisiológico, o alcoolismo é entendido como uma adição química que leva à necessidade de beber doses crescentes para produzir os efeitos desejados ou aliviar o desconforto da abstinência e que pode resultar na síndrome de abstinência quando esse beber é interrompido. Mas, diferentemente da adição que ocorre pelo uso de outras drogas, nem sempre o alcoólico necessita de doses crescentes da substância. Por outro lado, o alcoólico desenvolve graus variáveis e baixos de tolerância ao álcool de modo que a dose letal, aquela que leva à morte, só ocasionalmente pode ser alcançada ou ultrapassada
Do ponto de vista do comportamento, o alcoolismo é uma desordem em que o álcool se torna muito importante na vida de uma pessoa que experimenta a perda de controle em relação ao seu beber. Aí, com dependência ou não, o consumo do álcool é suficientemente intenso para causar problemas físicos, mentais, sociais, econômicas, legais, etc. A desordem é entendida como doença porque persiste por anos, é fortemente hereditária, progressivamente incapacitante e importante causa de morte. O álcool compromete a livre decisão de beber ou não e de quando parar. Ainda, diferentemente da maioria dos maus hábitos, a força de vontade vale pouco em relação ao álcool.
Do ponto de vista sociológico, o alcoolismo é tido como um desvio social mas, ele deveria desaparecer com a maturidade, como ocorre em muitas outras formas de desvio social, mas isso não acontece com o alcoolismo. Como é quase impossível submeter todo um grande grupo de indivíduos a estes o entendimento do alcoolismo pode ficar por conta da quantidade e da freqüência em que é ingerido, pelo número de internações relacionadas ao álcool, pela freqüência de mortes por cirrose ou por prisões decorrentes de mau comportamento relacionado com o uso de álcool.
É preciso ainda discernir três condições diferentes: o uso do álcool, o abuso e a dependência. Abusa do álcool aquele que tem um comportamento social desviante em relação ao seu consumo, que bebe regularmente e, o mais importante, que apresenta problemas de saúde, além de sociais e/ou profissionais em conseqüência da ingestão do álcool. O abuso pode evoluir para a dependência e aí encontraremos a compulsão para a ingestão de álcool a fim de experimentar os seus efeitos ou para evitar o desconforto da sua falta. Aqui, na dependência, também são importantes os componentes sociais e comportamentais e, mais ainda, os componentes biológicos e psíquicos traduzidos na tolerância e na compulsão, respectivamente. Nos conceitos de abuso do álcool e na síndrome de dependência do álcool está o que é entendido por alcoolismo. A psicose alcoólica, a cirrose hepática, a gastrite alcoólica, etc, ficam como complicações. Em rápidas palavras, beber sem problemas traduz o beber social, beber com problemas se constitui no abuso do álcool e beber com problemas e apresentando a dependência química caracteriza a Síndrome de Dependência do Álcool.
Acontece que um alcoólico na ativa pode procurar um médico porque está tendo problemas sexuais e para ele alcoolismo pode ser a perda de potência. Para a sua mulher, que foi espancada, o alcoolismo está ligado ao espancamento. Quando, por essa razão, ela o leva ao hospital e lá o médico faz vários testes e as provas de funções hepáticas se mostram alteradas, a enzima gama glutamil transferase se encontra elevada e o volume dos glóbulos vermelhos está aumentado, o médico o considera um alcoolista em face do quadro clínico e dos exames complementares realizados. Já um pouco melhor, no dia seguinte, o paciente sai dirigindo alcoolizado e os vizinhos dizem que ele é um alcoólico porque dirige alcoolizado. Então, afinal, o que é o alcoolismo?
Do ponto de vista da quantidade de bebida consumida, uma pessoa com 100 quilos pode beber uma grande quantidade de bebida alcoólica sem apresentar muitas manifestações, mas a mesma quantidade de bebida seria catastrófica para uma pessoa com pouco peso e epilética ou ainda para um piloto de avião com uma úlcera no estômago. Um taberneiro francês que beba mais de dois litros de vinho por dia pode não ser considerado um alcoólico pelos seus parentes e amigos próximos, mas será visto como portador de alcoolismo por um membro da família que seja israelita. Então o que vale não é a quantidade da bebida ingerida mas os sintomas que resultam.
Por outro lado, uma pessoa pode ter um problema emocional e passar a beber diariamente por um tempo e ficar preocupada com o alcoolismo enquanto que outra pessoa pode beber despreocupada pela vida a fora até que surja uma grave insuficiência hepática. Quem bebe, por algum problema específico, freqüentemente permanece capaz de controlar o uso do álcool, embora relate uma dependência psicológica, o que não ocorre com as pessoas que abusam do álcool.
Para complicar ainda mais as coisas, uma pessoa que estude a literatura sobre o alcoolismo fica com a idéia de que ele é também um problema econômico, psicológico, fisiológico ou ainda social, isso para excluir outros aspectos do problema.
A Organização Mundial de Saúde declarou que o alcoolismo é doença em 1951 ou, mais exatamente, certas formas de alcoolismo. Mas, de modo oficial, também declararam que o alcoolismo é uma doença as seguintes associações: a Associação Médica Americana, a Associação Americana de Psiquiatria, a Associação Americana de Saúde Pública, a Associação Americana de Hospitais, a Associação Americana de Psicologia, a Associação Nacional de Assistentes Sociais e o Colégio Americano de Médicos.
A dependência do álcool pode ser tomada como sinônimo de “adição alcoólica”, como “dependência fisiológica”, como o alcoolismo gama de Jellineck ou ainda e simplesmente entendida como alcoolismo.
Os critérios médicos para definir a doença do alcoolismo se baseiam nas complicações médicas e nos sintomas resultantes do beber, enquanto que os problemas sociais são mais enfatizados em outras classificações. O fato é que existe uma forte correlação entre a síndrome de dependência do álcool e as incapacidades sociais que ele ocasiona. Os parâmetros que definem o modelo médico têm correlação com os desvios sociais. Isso quer dizer que médicos e sociólogos estão falando da mesma síndrome. No entanto, nem sempre a abstinência do álcool se acompanha da recuperação social. O alcoolismo não é só um problema médico em si mas também inclui todo um conjunto de situações que resultam do beber continuado.
Mas como penetrar nesta floresta, que linhas e direções podem facilitar a compreensão do que seja o alcoolismo? Talvez a idéia mais fácil e curta seja a do Conselho Nacional de Alcoolismo dos Estados Unidos da América do Norte: “A pessoa portadora de alcoolismo não pode, de maneira segura e consistente, predizer, em qualquer ocasião em que beber, o quanto vai beber e durante quanto tempo”.
Como veremos em seguida, não é a especificidade de um problema que define o que o que é entendido como alcoolismo mas sim o número e a freqüência dos problemas relacionados com o uso do álcool. De uma maneira geral, todos os sintomas têm igual valor. Em outros termos, o diagnóstico do alcoolismo é feito pela variedade dos problemas relacionados com o álcool e não pela especificidade dos problemas. Nenhum sinal ou sintoma define, isoladamente, o alcoolismo.
As coisas ficam mais claras quando abordamos a síndrome a partir dos estudos do Prof. Dr. Griffith Edwards, da Universidade de Londres, que propôs uma descrição da síndrome a partir de sete parâmetros:
1. empobrecimento do repertório,
2. maior importância da bebida,
3. aumento da tolerância ao álcool,
4. aparecimento da síndrome de abstinência,
5. prevenção ou alívio da síndrome de abstinência pela ingestão de mais bebida,
6. percepção subjetiva da compulsão para beber e
7. reinstalação do quadro após um período de abstinência.

1. O empobrecimento do repertório se traduz em ir fixando o tipo de bebida, a freqüência, as ocasiões em que é ingerida, em de beber mais rapidamente e em quantidades maiores a ponto de esse fato ser notado pelas pessoas mais próximas, em beber sozinho.
2. O beber vai ganhando prioridade maior em relação às atividades com a família e com os amigos, em relação à vida profissional e ao próprio corpo. As outras fontes de gratificação vão esmaecendo e a bebida vai ficando cada vez mais importante. O comportamento vai mudando em função da bebida. Trajetos organizados, freqüência a compromissos sociais em que se faz uso da bebida alcoólica, etc.
3. Em consequência do aparecimento da tolerância, doses cada vez maiores são necessárias para alcançar os mesmos efeitos desejados. Com as doses maiores, vêm também efeitos tóxicos mais intensos. Há casos de dependência avançada em que ocorre o fenômeno inverso, isto é, o paciente se embriaga com doses pequenas, que antes eram bem toleradas.
Estes três parâmetros se instalam ao longo do tempo.
4. A síndrome de abstinência talvez seja a mais importante manifestação da dependência. Nela ocorrem, ao acordar, usualmente pela manhã: tremores, suores, náuseas acompanhadas ou não de vômitos, ansiedade, agitação, etc. Nos casos mais severos, o paciente pode sofrer alucinações auditivas e visuais ou ainda apresentar convulsões e evoluir para o quadro de “delirium tremens”. A síndrome da abstinência revela a condição de dependência em relação ao álcool e se instala em função dos níveis baixos de álcool no sangue, sendo essa a razão pela qual costuma aparecer pela manhã, ao despertar, após serem passadas algumas horas sem a ingestão de bebidas.
5. Os sintomas de abstinência podem ser evitados ou aliviados pela ingestão de mais álcool. É o gole matinal.
6. Compulsão para beber. É entendida como sinônimo de perda de controle. Pode haver uma perda de controle ou uma desistência do controle.
7. A reinstalação, após um período de abstinência, implica na volta rápida do quadro de tolerância ao álcool. Isso pode ocorrer após anos de abstinência. Quanto maior o grau da dependência anterior, mais rápida é a reinstalação da tolerância. É uma espécie de “memória bioquímica” que permanece no organismo. É como se diz em A.A., o doente recomeça de onde terminou.

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1º DISTRITO DA ÁREA 02 – MG / 3º CICLO DE ESTUDO “OS DOZE PASSOS DE A.A.”

76 anos de amor e serviço

1° Distrito da Área 02 (MG)

3º Ciclo de Estudo
“Os Doze Passos de A.A.”

A Maior Dádiva de Todas

“A maior dádiva que uma pessoa pode receber é um despertar espiritual. Este seria sem dúvida o veredicto correto de um alcoólico bem recuperado, membro da Irmandade de A.A. Bem, mas o que é este despertar espiritual, esta experiência transformadora? Como se produz em nós e o que se faz? Para começar, um despertar espiritual é o canal pelo qual encontramos a sobriedade. E para nós, alcoólicos, a sobriedade significa a própria vida. Sabemos que o despertar espiritual é a chave que nos abre a possibilidade de sobreviver ao alcoolismo e que, para a maioria de nós, é a única chave. Temos que despertar, senão morremos. Não, a sobriedade não é senão um mero começo, é somente a primeira conta de que pouco a pouco podemos descartar a velha vida – a que não deu certo – e substituí-la por uma nova vida que pode dar certo e que dará, sejam quais forem as circunstâncias… podemos levar uma vida de possibilidades ilimitadas se estivermos dispostos a perseverar em nosso despertar.” (Trechos extraídos do Livro “A Linguagem do Coração”, páginas 275 e 276).

O Ciclo de Estudo de “Os Doze Passos de A.A.” que, anualmente, vem sendo realizado pelo 1º Comitê de Distrito da Área 02, tem representado tudo isto para muitos de nós.

Resta, como forma de agradecimento, rogar ao Poder Superior que continue a derramar bênçãos sem medidas sobre todos vocês que compartilham conosco desta dádiva.

Sejam iluminados pelo Poder Superior nestes dias que aqui ficaremos compartilhando do Programa de Recuperação de A.A.

BEM VINDOS!

O Comitê Organizador.
Preâmbulo de A.A.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.

O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de A.A. não há taxas ou mensalidades; somos auto-suficientes, graças às nossas próprias contribuições.

A.A. não está ligada a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, nenhuma organização ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apóia nem combate quaisquer causas.

Nosso propósito primordial é o de mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade.

Direitos autorais de The A.A. Grapevine, Inc.

O que são “Os Doze Passos de A.A.”

“Os Doze Passos de A.A. consistem em um grupo de princípios, espirituais em sua natureza, que, se praticados como um modo de vida, podem expulsar a obsessão pela bebida e permitir que o sofredor se torne íntegro, feliz e útil.”

“Embora esses ensaios tenham sido escritos principalmente para os membros de A.A., muitos amigos opinam que podem despertar interesse e encontrar aplicação mesmo não sendo da Irmandade.”

“Muitas pessoas não-alcoólicas dizem que, como resultado da prática dos Doze Passos de A.A., conseguiram enfrentar outras dificuldades na vida. Consideram que os Doze Passos podem significar mais do que a sobriedade para o bebedor problema. Vêem neles um caminho para uma vida feliz e efetiva para muitos, alcoólicos ou não.”

P a l e s t r a s

UM FRAGMENTO DA HISTÓRIA
“A origem dos Doze Passos” – Bill W. 1953

De onde vieram os Doze Passos?

“Ninguém inventou Alcoólicos Anônimos. Simplesmente, brotou e cresceu – pela graça de Deus”.

“O fator humano foi responsável por três das principais fontes de inspiração dos passos – os Grupos de Oxford, Dr. William D. Silkworth e o renomado psicólogo William James, que alguns chamam: O Pai da Psicologia Moderna”. (pág.230)
O grupo Oxford foi um movimento evangélico que floresceu nas décadas de 20 e 30, sob a direção do Dr. Franck Buckman, antigo pastor luterano.
Bill W. conheceu o grupo Oxford através de seu amigo Ebby, que o visitou sóbrio em novembro de 1934. No verão de 1934, Ebby tinha se unido ao grupo Oxford e conseguiu a sobriedade apesar de que “ele não ficou convencido de todas as ideias e atividades do G.O., mas o haviam impressionado muito sua profunda sinceridade e sentia-se muito agradecido pelas atenções”. (pág.231)
Vemos o bem que fez a Ebby ter experienciado o verdadeiro Amor demonstrado a ele pelos G.O. e que permitiram a ele a sobriedade apesar de ele não concordar com eles em tudo.
E Ebby contou a Bill W., surpreso por estar sóbrio, que “dei-me conta de que não podia dirigir minha própria vida”. Isto é, Ebby estava vivendo o princípio da Honestidade. Ebby disse também: “Tive de fazer reparação a quem eu havia feito danos”. Isto é, ele estava vivendo o princípio do “Amor ao Próximo”. “Também praticavam um tipo de confissão que chamavam “Partilha”. E aí, Ebby começara a praticar o princípio da Integridade. Praticavam também o “Tempo de Silêncio”, uma meditação “para buscar a origem de Deus em todos os aspectos grandes e pequenos da Vida”. E com isso, Ebby estava praticando o princípio da Espiritualidade.
“Ainda que essas simples ideias não fossem nada novas, causaram em mim impacto colossal. Hoje em dia, nos damos conta do porquê um alcoólico estava falando com outro, como ninguém mais pode fazê-lo melhor. Isto é, Ebby foi um fator humano responsável pela inspiração dos passos.
Duas ou três semanas após reencontrar o amigo Ebby, diz Bill W., ”Cheguei cambaleando ao hospital Charles B. Towns, esse célebre empório de desintoxicação”.
No Hospital Bill W. foi atendido por seu médico Dr. Silkworth, “O qual pouco tempo depois iria contribuir com uma importantíssima ideia sem a qual A.A. nunca poderia ter êxito. Há anos que ele afirmava que o alcoolismo era uma doença, uma obsessão mental associada a uma alergia corporal”.(pág.232) Isto é o Dr. Silkworth afastou-se da ideia errônea de que o alcoolismo era um problema de caráter e foi o primeiro a tratá-la como uma doença crônica, progressiva, incurável e que quando não detida é fatal.
“Uma terceira corrente de influência entrou em minha vida, através do livro de Willian James, “As Variedades da Experiência Religiosa. Alguém o havia deixado em meu quarto de hospital”.(pág.233)
William James “Disse-se que as experiências espirituais não somente podiam converter-nos em gente mais flexível, que podiam transformar os homens e mulheres de forma que pudessem fazer sentir e crer o que anteriormente lhes havia sido impossível. E o maior beneficio mencionado no livro era que, na maioria dos casos descritos, os que se viram transformados eram pessoas desesperadas”.(pág.233)
Bill W. se reuniu ao grupo Oxford, manteve-se sóbrio e tentou ajudar a outros alcoólicos. “Talvez nossos candidatos não pudessem aguentar o rigor dos quatro absolutos do G.O. – honradez, a pureza, a generosidade e o amor”.(pág.233)
Bill W. ouviu então mais uma vez o Dr. Silkworth: “Devido a que se identifica com os alcoólicos, é possível que os possa tocar, como eu não consigo. Fale-lhes sobre as duras realidades médicas primeiro e faça-as sem dó nem piedade”.
Pouco tempo depois, Bill W. conheceu o Dr. Bob, que também participara dos Grupos Oxford sem alcançar a sobriedade. Falou-lhe como o Dr. Silkworth sugerira e no dia 10 de junho de 1935 o Dr. Bob deixou de beber para sempre. Juntos, Bill W. e o Dr. Bob começaram o trabalho de A.A. percebendo que, ao ajudar outros a alcançarem a sobriedade, eles conseguiam manter a própria sobriedade.
Em 1939, os iniciadores de A.A. resolveram escrever com a sua experiência um livro que ajudasse os alcoólicos que morassem fora a seguirem os passos de A.A.
Diz Bill W. “Lembro-me muito bem da tarde em que foram redigidos os Doze Passos. Estava deitado em uma cama sentindo-me bastante desencorajado e sofrendo um de meus imaginários ataques de úlcera”.(pág.236) “Por fim, comecei a escrever em um bloco de papel amarelo barato. Embora me sentisse pouco inspirado, para grande surpresa minha, demorei pouco tempo – talvez meia hora – em estabelecer certos princípios, os quais ao contá-los resultaram serem doze. E por alguma razão inexplicável, havia colocado a ideia de Deus no Segundo Passo, quase no princípio”.(pág.237)
Bill W. foi apenas um feliz instrumento: Os doze passos simplesmente brotaram e cresceram – pela graça de Deus.
E nós agradecemos por isso.

Dra. Sandra Lúcia de Oliveira Rodrigues da Silva

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“SEJAMOS AMIGOS DOS NOSSOS AMIGOS”

No dicionário do Aurélio Buarque encontramos a seguinte definição de amizade. “Amigo: que é ligado a outrem por laços de amizade, amigável”. O homem amigo é aquele que é companheiro, protetor. Amizade é o sentimento fiel de afeição, apreço, estima ou ternura entre pessoas.
Para ilustrar um tipo de relação de amizade, citemos o que um companheiro evolutivo diz quando o indaguei sobre o que é um amigo.
-“Meu melhor amigo é o meu primo. Ele não mora aqui em BH e nos falamos ao telefone ou e-mail. Quando seus pais morreram, fui a primeira pessoa com quem ele falou. Fui escolhido para compartilhar com ele esse momento de muita dor. Senti-me útil podendo lhe fazer companhia em uma hora como esta, tão difícil. Em uma oportunidade ganhei dele um presente caríssimo. Pude perceber que minha alegria não estava ligada ao presente caro em si, mas por perceber que meu amigo sabia que o presente me deixaria muito feliz. Ele sabe muita coisa a meu respeito. Neste momento ele me havia reconhecido como pessoa humana. Fica falando de suas aquisições, de seu patrimônio, por horas, e confesso que não tenho muito interesse nestes assuntos, mas sinto que estar perto dele, ouvindo suas histórias é como se estivesse no colo dele. Existem amor e respeito em nossa amizade”.
Este companheiro evolutivo diante de seu amigo se sente livre, à vontade, reconhecido, útil e amado.

Outra alusão à amizade vem de Buda.

Um discípulo perguntou a Buda:
– Mestre, qual é o maior tesouro do homem?
– A amizade, respondeu Buda.
– E o que preciso para ser um grande amigo?
E Buda o respondeu:
– “Para ser um grande amigo você precisa de três coisas: primeiro, possuir o desejo sincero de crescer como pessoa humana. Assim terá o que oferecer ao amigo, terá o que dar a ele como produto de seu crescimento. Segundo, terá de ser verdadeiro, e, terceiro, ser amoroso, para que a verdade que precisa ser dita não doa”.

Amizade envolve nossas relações interpessoais e, nessas exposições, as pessoas se mostram umas às outras, sua visão de mundo, crenças, seu caráter e sua estrutura de personalidade. Podemos ver assim pessoas que possuem muitos amigos, enquanto outras queixam por falta delas. Pessoas com facilidade em fazer amigos são aquelas mais capazes em criar uma atmosfera onde o amigo se sente livre, amado, reconhecido e útil.
No livro, “A linguagem do Coração”, capítulo “Sejamos amigos de nossos amigos”, colhi algumas virtudes e qualidades que facilitam a construção de relacionamentos saudáveis, enquanto que a ausência deles dificulta.

FACILITA AMIZADE POSITIVA DIFICULTA AMIZADE
Confiança Dúvida
Fé Desconfiança
Bom humor Mau humor
Compreensão – Capacidade de transformar uma experiência dura em algo proveitoso. Intolerância – Mágoas e ressentimentos deixando as pessoas se sentindo vitimas.
Reconhecer o outro Egoísmo
Cortesia Sentimento de vingança
Afabilidade Sarcasmo
Gratidão Ingratidão
Paciência Impaciência
Tolerância – Respeita opiniões contrárias. Intolerante – Dificuldade em ouvir o outro.
Caridade Cristã Desinteresse pelo outro

O alcoólico, quando em sua militância, ocupou mais o lado direito da tabela. Nessa fase difícil de sua vida amargou derrotas terríveis para a bebida e, nessa linha da vida, pode não ter conhecido o que é um verdadeiro amigo.
Alicerçando suas ações em terreno movediço, feriu e foi ferido, colecionou frustrações, mágoas, ressentimentos e o sentimento de vingança habitou o seu coração, e se via, na maioria das vezes, vítima do mundo e, brigado com Deus, caminhava a passos largos para o fundo do poço. Com tantos sentimentos negativos, ver o outro como amigo era tarefa muito difícil.
Ao ingressar no A.A. foi resgatado desse fundo do poço, com a auto-estima abalada, por um Deus amantíssimo que se fez conhecer através do programa de recuperação. Começou a ver uma luz no fim do túnel quando tudo parecia perdido.
Acolhido pelo grupo incondicionalmente (a única coisa que se pedia era o desejo de parar de beber), começou a experimentar os verdadeiros laços de amizade. Com o programa dos 12 passos, começou a refletir sobre sua mente obsessiva, suas crenças, medos e inseguranças. Sempre acompanhado pelos companheiros de A.A. e bem próximo aos olhos do Poder Superior.
Em cada Passo praticado, tomava consciência de um mau hábito e buscava transcendê-lo, enfrentava de frente seus defeitos de caráter e se capacitava na construção de relacionamentos saudáveis. Um novo homem, uma nova mulher se formava. Já possuía as virtudes de um grande amigo, adquirida com a vivência dos 12 Passos.
Mas Bill dizia: “Corrigir nossos defeitos de caráter é um trabalho de uma vida inteira!” Diminuía a cada dia a necessidade de controlar os outros, os erros de interpretações dos fenômenos, a culpa, a falta de amor próprio, e sobretudo, diminuía o encantamento pelo álcool.
Uma nova perspectiva se abria, e Bill reconheceu os amigos não alcoólicos. Vindo de todas as direções, sempre dispostos a ajudar, colaboraram para que o A.A. se alavancasse para ser o que é hoje.
“Estes amigos injetam em nossas artérias mundiais uma corrente sem fim e sempre crescente de sangue vital”. (Bill W.)
“Alguns amigos correram sério risco, ao demonstrar uma confiança sem limites e generosidade tamanha”. (Bill W.)
Bill diz sempre que estes amigos ajudaram o A.A. a se encontrar. E nos momentos mais difíceis, havia sempre um não alcoólico mostrando dedicação, que muitas vezes salvou vidas.
Bill relata experiências que revelam a importância de se estar diante de um amigo: “Atrevo-me a dizer que o que ocasionou essas afortunadas circunstâncias foram a compreensão e a tolerância deles, não as nossas”. E sugere aos alcoólicos serem sempre amigáveis.
Bill se sentiu inúmeras vezes acolhido por esses amigos não alcoólicos, como o Dr. Silkworth. Com ele, aprendeu a necessidade de se trabalhar o ego, com seus hábitos cheio de justificativas e as características da doença do alcoolismo. Bill se sentiu reconhecido por Dr. Silkworth quando este o tranquilizou dizendo que o que se passava com ele não se tratava de uma alucinação, mas de uma experiência luminosa que precisava ser agarrada.
Muitas vezes, estes amigos, relata Bill, vieram ao seu encontro como verdadeiros socorristas que o impediram de bebedeiras secas e trazendo sempre apoio vitalizador.
Bill nos traz sugestões valiosas que nos ajudam na construção de relacionamentos humanos, fraternos e saudáveis como ficar vigilantes às convicções particulares, aos preconceitos, à arrogância e à teimosia, ao lado crítico e duro, à tendência de se opor pelo mero fato de opor-se. Essa vigilância prepara o ser para desafios maiores.
Assíduos nos grupos de A.A., participando de seminários, exercendo liderança, lendo as literaturas de A.A., praticando os 12 Passos, uma reforma moral vai se concretizando no interior do ser. Um sentimento de gratidão aos amigos de jornada, alcoólicos e não alcoólicos, uma fé inabalável no Poder Superior, uma alegria de viver a cada 24 horas, faz-se abrir uma nova necessidade. A de amar os nossos inimigos.
Não se trata de ter por eles uma afeição como se tem por um grande amigo, mas sim de não alimentar por eles nenhum sentimento negativo, ódio, rancor, mágoa ou ressentimento.
Para algumas pessoas, pode parecer estranho amar os inimigos, mas, para quem está no A.A., alimentar uma gama de sentimentos negativos é reviver um passado de sofrimentos e dores sem fim e colocar em risco a própria saúde.
Desejar o bem àqueles que nos fizeram mal, estar atento aos padrões dos pensamentos, das palavras e das ações é um caminho espiritual vivido no A.A., que deixa a jornada mais leve, menos amarga, podendo experimentar uma liberdade que nos possibilita a fazer escolhas melhores e a viver valores humanos como o amor, alegria, paz, força, coragem, confiança e a solidariedade. Virtudes do amigo que alimentam a alma.

Dr. José Rubens

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Exposição dos Passos

Primeiro Passo
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

“Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém é claro. Todos os instintos naturais gritam contra a idéia da impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da providência pode removê-la”. (Os Doze Passos)
Quando entrei pela primeira vez em uma sala de alcoólicos anônimos, estas foram as primeiras palavras que ouvi do meu padrinho “ou você para de beber ou vai beber até morrer. Aceita que você é impotente perante o álcool e que perdeu o domínio sobre sua vida”. Estava aí o único passo do nosso programa que deve ser feito 100 por cento. De inicio não me assustei muito, pois mesmo não conhecendo o A.A. e nunca tendo ouvido falar dos 12 passos isto não era novidade para mim.
Durante minha militância alcoólica, desde o início eu percebia que tinha algo diferente comigo, meus amigos bebiam e quando chegavam a uma determinada hora paravam e eu continuava. Com o passar do tempo fui bebendo mais e mais, tornando-me dependente. No inicio era aquele namoro de fim de semana, mas com o passar do tempo passou a ser namoro sem fim. Perdi tudo; família, auto-estima, amor próprio, fui parar na rua e capaz de fazer as coisas mais absurdas para suprir meu vício, magoando as pessoas que eu mais gostava, traindo meus amigos e principalmente não me respeitando. Minha família, por exemplo, não sabia o que fazer, pois como alcoólico que sou, sempre achava uma saída para as minhas complicações. Quando o bicho pegava dava sempre um jeito de me safar honestamente ou desonestamente. Quando estava no ápice da minha dependência alcoólica atingia um estágio de insanidade tão grande que fazia qualquer coisa para beber.
No decorrer de vários anos de muito sofrimento, sempre tendo o álcool como parceiros, tentei parar algumas vezes. Até conseguia, mais sempre pensava; um trago só não vai fazer mal. Aí é que eu me enganava e voltava tudo de novo e cada vez mais pesado. Foi quando percebi que tinha perdido totalmente o controle da minha vida, mas aceitar a derrota era muito difícil. Eu pensava; “porque as outras pessoas podem e eu não?” Então foi num dia de desespero total que resolvi procurar meu cunhado que já fazia parte da irmandade de A.A. e que até já serviu de gozação lá em casa, bebum vocês sabem com é né; mas ele não me negou ajuda. E foi aí que me deparei com essa grandiosa irmandade de Alcoólicos Anônimos que viria a ser o divisor de águas em minha vida, dando condições de paralisar com minha doença e seguir uma nova vida, tanto física, quanto mental e, principalmente, espiritual.
Quando entrei na sala de A.A. e me deparei com o 1º passo não tinha mais jeito, ou eu o aceitava 100% como meus companheiros haviam me sugerido ou continuaria morrendo pouco a pouco. Somente através da aceitação da derrota total perante o álcool eu poderia estar pronto para dar alguns passos rumo a minha recuperação e graças ao meu poder superior aceitei o 1º Passo de nosso programa de recuperação e, através de uma reformulação de vida sugerida pelos meus companheiros, estou hoje aqui podendo contar um pouco da minha história.
Em nossas literaturas é descrito que somente quando o bebedor problema atinge o fundo do poço na derrota completa perante o álcool, estaria ele pronto para aceitar este passo.
Mas, com o decorrer dos anos, podemos perceber que o álcool esta destruindo as pessoas mais cedo e várias pessoas estão chegando cada vez mais rápido em A.A., mesmo que não tenham bebido até atingirem a derrota total, se identificam prontamente com o 1º Passo de A.A.

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Segundo Passo
“Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

Acreditar é algo impossível para alguém que está derrotado moralmente e espiritualmente?
Quanto mais em algo que não se vê ou não se pode tocar? Porém é algo que acontece quando estamos no fundo do poço e viemos a acreditar em um Poder Superior no qual depositamos nossas esperanças de reerguermos a nós mesmos, buscando forças de onde não se pensa existir mais.
Como seria possível acreditar que os delírios, a vontade de auto-extermínio, o afastamento total da sociedade, amigos e familiares; poderia vir a ser revertido em alegria, vontade de viver, ser produtivo, ser amado e amar? No início de uma caminhada, onde homens e mulheres que experimentaram uma vida cheia de alegria, afeto e produtividade se encontram em um caos interior e admitem sua derrota por algo que não se encaixa na sua realidade e se vêem envoltos a situações que em tempos anteriores resolveriam de letra, e nenhum ser vivo poderia lhe suprir tais necessidades ou lhe ajudar a sair de eventuais problemas (muitas vezes causadas por ele mesmo).
É nessa hora que a humildade, a fé e a paciência têm que ser mais forte que nós mesmos.
HUMILDADE de olhar para si mesmo e ver que está sozinho no mundo terreno, e muita das vezes chorar e clamar por socorro a um Poder Superior, que naquele momento confiamos ser aquilo ou aquele que possa nos ouvir e nos transformar.
FÉ para acreditar que muita das vezes não poderíamos ver nem tocar neste Poder Superior, mas que Ele iria nos dar as respostas, sentidos e direções para nossas vidas; até mesmo que Ele restaurasse nossa fé quando não a tínhamos mais. Fé que ao sermos restaurados de forças físicas, morais e espirituais pudéssemos novamente levantar e caminhar em busca de uma vida digna e de respeito, vivendo e deixando outros viverem.
PACIÊNCIA para sabermos que tudo não aconteceria da noite para o dia, que nossos entes queridos ou pessoas as quais um dia fizemos sofrer, nos perdoaria rapidamente, que os bons empregos perdidos fossem aparecer em um estalar de dedos; paciência para conosco mesmo em saber que estamos vivos e batalhando contra algo que um dia nos derrotou, trazendo prejuízos sem medidas e muitas vezes irreparáveis.
Por isso nossa sanidade deve estar alicerçada em buscar sempre a humildade, a fé em algo que não se vê ou se toca, mas que espiritualmente nos conforta, e paciência para irmos nesta caminhada que é a vida com a certeza de chegar, e chegarmos firmes sempre acreditando em um Poder Superior ao qual nos devolveu a sanidade e nos fortalecerá para sermos fortes e inabaláveis nos dias difíceis.

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Terceiro Passo
“Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de DEUS na forma em que o concebíamos”.

É necessário confiar, acreditar que ajuda oferecida é suficiente e capaz de reverter o mecanismo de destruição.

Medo, dúvida, insegurança são coisas naturais e deverão ser enfrentadas com paciência e compreensão.

O que devemos ter nesse passo? A confiança.

Confiança é o combustível que moverá nosso passo, para agir nesse momento de decisão, apesar do risco constante e dificuldades que estarão sempre diante de nós.

O Terceiro Passo é um passo de ação. Chegou o momento, é preciso começar a acreditar em alguma coisa, em Deus, em pessoas, grupos, plano de vida, algo que funcione.

O importante é confiar, dar-se a chance de experimentar esta ação, e dizer a um Poder Superior: Ofereço-me a ti, para que trabalhes em mim e faças comigo o que desejares. Liberta-me da escravidão do ego, para que eu possa realizar a sua vontade.

Encontrar com meu Poder Superior sozinho é opcional. Pois sozinho me declaro sem reservas e, fazendo estas declarações, tenho a oportunidade de exercer a minha honestidade e humildade que trago comigo, e assim a resposta tem um efeito imediato e às vezes considerável. Um relato pessoal: Terceiro passo é isso. Tomar uma decisão e colocar em ação, aquilo que posso fazer hoje eu faço, não coloco essa ação em um arquivo para ser realizado quando chegar o momento.

Essa decisão juntamente com a ação traz de volta o direito de eu pensar o que é bom para mim.

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Quarto Passo
“Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

Nosso real e significativo momento de vida é de reconhecimento – Gratidão – Ação e solidariedade.
Vejam só: Diante de “flashs” divinamente elaborados sobre nossas vidas, admitimos…, acreditamos… e então decidimos.
Agora, neste instante, podemos perceber o amparo incondicional que aconteceu em cada um de nós. O alívio imediato impulsionou em nosso interior uma curiosidade. Quero entender como isto aconteceu?! Na busca, dúvidas, desconfiança, incapacidade emocional, medo, insônia, ideias evasivas, contudo, a sensação de profundas certezas:
a) Não posso beber;
b) Quero entender;
c) Preciso perseverar;
d) “só por hoje”;
e) “um dia de cada vez”
f) “Agora não”

Preste atenção > ouça > Mente aberta > vá com calma
O companheirismo, a disponibilidade coletiva, a sinceridade, as experiências compartilhadas e sobretudo a honestidade individual e intransferível, nos revelou o direito de acreditar.
Identificada a causa, sendo transparente e aceitando as recomendações propostas, descobrimos que em todas as situações embaraçosas de embriaguez que experimentamos nos foi concedido um indulto para chegarmos até aqui. Podemos concluir que:
– quando tudo parecia perdido
– quando queríamos desistir
– quando virávamos as costas
– quando explodíamos para desarmar a barraca
Então jogamos a toalha e pedindo socorro, mesmo sem avaliar o merecimento, Ele veio, era o AMOR. Personificando a tolerância, a compreensão, a esperança e constantemente investindo em nossa evolução. Incentivando-nos ao progresso moral, tornou clara e cristalina, proporcionando à nossa tenra capacidade humana a divina sabedoria da escolha
DECIDIMOS
Estamos diante de um labirinto – CORAGEM!
Diga a você mesmo (a):
Este labirinto sou EU?!
Vamos entrar?!
CONFIE!
Você não está sozinho(a): A partir de agora jamais estará. Sua consciência será seu guia; e EU estarei permanentemente com você.
Lembre: Vá com calma!
Oxigene-se! Respire!
“Cheire uma flor”
“Assopre a chama de uma vela”
OUTRA VEZ
“A solidão pode parecer tenebrosa; É daí que conquistamos o isolamento e produzimos grandes feitos” (reflexão, lembranças, pensamentos, leituras, escritas meditação, etc.)
Viemos acreditar – página 130/131 – Gr Universo
18 de janeiro de 2012.
“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Cante, chore, dance, ria antes que a cortina se feche e tudo termine sem aplausos”
C. Chaplin
… quando nos aproximamos Dele, Ele se revelou!
Agora sou EU, é comigo! Opa!
PARE
“Lembre-se de que estamos lidando com o álcool – traiçoeiro, desconcertante, poderoso!
Se ajuda é demais para nós. Meias medidas de nada adiantaram. Nossa meta não é a PERFEIÇÃO ESPIRITUAL, é o desejo de crescermos espiritualmente. Então, qual será o método?
EXPERIMENTAR!
Exercite, pratique, deguste
Comecemos:
Quem sou?
De onde vim?
Para onde vou?
… sou criatura divina…
Origem simples, desprovido do saber (ignorante), porém, com uma centelha de luz (consciência) que sabiamente pesquisada é o meu norte para o crescimento como ser humano.
Tendo na bagagem da consciência a lei natural: Lei de Deus
“É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e o homem só é infeliz quando dela se afasta.” Divide-se em:
Adoração – trabalho – reprodução – conservação – destruição – sociedade – progresso – igualdade – liberdade – Justiça / Amor / Caridade
Obstáculos – desvios – afastamento – sem norte (perdido? Abandonado?)
NÃO! Estou com meus iguais!
Orgulho – egoísmo – desregramentos – ressentimentos – fraqueza – máscara – mentira – vinganças – discussões – medo…
Leia – releia – estude o capítulo V do livro Azul
1- Altruísta
2- Amoroso
3- Atencioso
4- Ativo
5- Conscientizado
6- Disposto
7- Estudioso
8- Perseverante
9- Sóbrio
10- Tolerante
ESTOU SALVO?
NÃO! Estou com meus iguais!
“Um dia de cada vez”
Destino: Rumo à felicidade!
A fé está fazendo por nós o que sozinhos não conseguimos fazer.
Então?!
Vamos juntos em busca de mais 24 horas.
Um abraço,
Com sorriso

Fontes: Alcoólicos Anônimos / LE – terceira parte /Experiências pessoais

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Quinto Passo
“Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.

Já fizemos outras admissões
…Que sofremos de uma doença,
…Que precisamos de ajuda e
…Que existe uma força superior a nós mesmos para nos ajudar.
Pensando nisso, percebemos que, quando fazemos isto, nossa aceitação e ou admissão torna-se mais significativa.
Depois do 4º passo podemos enxergar o 5º passo como ajuda, para nos vermos, enxergar a natureza exata de nossas falhas; isto é, para caminhar em uma viagem para dentro de nós. Quem eu sou, os caminhos que percorri e reconhecer a natureza exata de minhas falhas e fazer isso diante de outro ser humano.
A palavra chave para este passo é “Coragem”
COR vem do latim, que quer dizer CORAÇÃO,
AGEM vem de totalidade, e com a totalidade do coração confessemos a natureza exata de nossas falhas; para isso é necessário humildade e honestidade.
Este passo nos remete à necessidade do outro; sabemos que precisamos do PODER SUPERIOR na forma que cada um concebe e CONFIANÇA NO OUTRO.
Pomos em prática o 5º passo, sendo sinceros e honestos conosco mesmos, com Deus e partilhando nosso inventário moral com alguém em que confiamos, alguém que nos compreenda, que nos incentive e não nos condene.
“Se pudesse resumir em uma só palavra, esta seria REFORMULAÇÃO de vida. Quebremos o orgulho, as barreiras do medo e do isolamento, culpa , vergonha e até raiva, através do reconhecimento das facetas adoecidas do nosso caráter e do comportamento de forma honesta e clara. O mais importante é iniciarmos.”
24 HORAS !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
OBRIGADA A TODOS

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Sexto Passo
“Prontificamos inteiramente a deixar que DEUS removesse todos esses defeitos de caráter”.

Este é o passo da maturidade emocional e espiritual. O sofrimento físico, o momento de depender de Deus. É hora de admitir que há necessidade de crescer mais, para que a minha vida com as outras pessoas seja marcada com amor. O amor que recebo do meu Poder Superior.
Nos primeiros cinco passos, eu me pergunto se omiti alguma coisa que poderá me impedir de ser uma pessoa livre; pois sendo extremamente sensível, isso me levou a ter atitudes e comportamentos destrutivos. Por isso, é que preciso de muita direção de Deus, pois sei que ainda tenho defeitos dos quais eu gosto, e gosto muito.
Quando cheguei em AA, meu padrinho me disse com muita sabedoria nos meus 3 meses de sobriedade que não havia mágica para me convencer a ficar na irmandade; que a vida não é um hino de amor, nem uma eterna manhã de primavera, e se eu queria o que eles tinham, só precisava seguir essas verdades: mente aberta, boa vontade e honestidade. Pois eu acabava de sair da quadra dos brinquedos para a da realidade, e que iria conhecer melhor o mundo (agora sem o álcool), onde eu veria o vício ao lado da virtude; a hipocrisia, a maldade…mas eu não poderia desanimar; porque Deus, que é intocável, mas real, iria me guiar por caminhos bons e por estradas encontráveis e, assim, saber escolher o que melhor me conviesse! Isso me fez parar de lutar e tentar ouvi-lo, porque me fazia muito bem, já que parecia que a nossa história era quase sempre a mesma. Na maioria das vezes, lutei com meus defeitos de caráter; ou deixei que eles me manipulassem; só por não entender (ainda) o que era prontificar.
Quando percebi que precisava crescer espiritualmente, deixei a rebeldia de lado; isso poderia ser fatal. Afinal, eu já havia caminhado um bom pedaço do caminho; agora, seria crescer à imagem e semelhança do criador.
Então, entendi o que a literatura quis me dizer com perdoar nossas negligências. Comecei a me policiar e encontrei coragem para reconhecer inteiramente que precisava analisar meus defeitos e, então, me preparar para o grande encontro:
Eu e o meu Poder Superior.
Fiz o que é sugerido no passo:
Prontifiquei-me e deixei que Ele removesse aquele defeito que estava me impedindo de crescer. E esse foi o meu começo da limpeza de casa.
Ainda na procura de um despertar espiritual, na angústia de sair de um 5º passo e o medo de continuar com um vazio no coração, percebi que Deus não havia me abandonado! Ele sempre esteve comigo.
Eu era assim: primeiro, a verdade era só minha. Nunca procurei me curvar diante da humildade; não procurava em momento algum preparar meu coração para perdoar e dar perdão.
O orgulho me cegava, a avareza me enganava, a luxúria me conduzia à profundeza da vergonha, a ira me dominava, a gula me entorpecia, a inveja me deixava no isolamento e a preguiça nunca me deixou ir à procura de Deus.
Sendo assim, como posso explicar estar hoje no programa, depois de ter cometido tanta insanidade?
São perguntas para as quais ainda não tenho todas as respostas, mas com o tempo talvez eu consiga. Como pude passar por tudo isso, posso dizer que o 6º passo é como se fosse o calvário.
Mas, nossos programas nos sugere a humildade e dela a sabedoria. Os doze passos são um exercício contínuo onde podemos atingir um grau de humildade satisfatório para crescermos e continuarmos tentando. Afinal, hoje eu quero viver uma vida que não inclua retaliação, ressentimentos e raiva, sem machucar a mim, nem também os outros.
Quando decidi e permiti que Deus me invadisse, os meus defeitos deixaram de vir à tona.
Da minha parte, posso dizer que estou de acordo com o que diz o início do passo: “ Este é o passo que separa os adultos dos adolescentes”…
No meu próprio caso, desde que ingressei no AA, eu tenho tido sensíveis melhorias da doença do Ego, através das sugestões. Na medida em que experimento viver de acordo com o programa, sinto que a minha disposição e honestidade têm aumentado e eu me convenci de que posso me recuperar de qualquer problema; e o único requisito é confiar em Deus e limpar a casa. Confiar significa que Ele sabe melhor do que eu o que é melhor para mim. É prontificar para renovar a cada amanhecer, e mudar de vida é cair de joelhos e sem indagações, pois não escolhemos ser alcoólicos.
A única coisa urgente é que sigamos tentando, e da melhor maneira possível, pois Deus quer que sejamos corajosos para nos tornarmos brancos como a neve.
Porque a sabedoria dele, essa é indiscutível…
Se o alcoolismo é uma doença que afeta primeiramente o meu relacionamento comigo, com os outros e com Deus, é necessário, então, ser como sentinela em tempo de guerra; vendo que meus defeitos podem estar dormindo em meu inconsciente. E se eu não trabalhar com esses detalhes de momento em momento, nunca conseguirei secar as ramificações da árvore dos defeitos de caráter.
Desde o início da minha vida ativa, bebida e pecados sempre andaram de mãos dadas. Enfim, para mim, era mais uma dessas tantas vidas carregadas de culpa e castigo; que muitas vezes tentei adiar explicações e coisa e tal; mas acabei ficando sem medidas para medir:
Por que eu bebia tanto?
Minha ignorância sobre a resposta fundamentava-se na manutenção da minha bebedeira; porque, com tanta aberração, ficava difícil para uma pessoa como eu descobrir o que seria um comportamento aceitável, gostoso, saudável e natural, como hoje, à luz dos doze passos, por exemplo.
As mudanças em minha vida, em todas as áreas, foram significativas e até, de certa forma, rápidas.
Claro que passei por vários obstáculos, para ter coragem de modificar as coisas, pois tinha sempre a dúvida se a minha vida no álcool era um estado natural ou indicava uma profunda falha de personalidade.
O plano de 24 horas me chamou a atenção e eu fiz a feliz opção: continuar a frequentar AA e, só por hoje, desejar buscar a perfeição.
Procuro hoje, na medida do possível, modificar em minha vida, no que refere ao meu comportamento, atitudes, medos, caráter, etc… Costumo sempre pedir apoio de orientação dos companheiros mais experientes e, com a ajuda do Poder Superior, eu tenho conseguido êxito, desde que pratico a honestidade e a humildade que citei no começo deste texto.
O livro Despertar Espiritual, pág. 229, diz que, talvez nossos grupos devessem ser grupos de aplicações dos passos, em vez de grupos de estudo dos passos. Não é necessário perguntar quem pratica o programa. É possível perceber quando trabalhamos os passos, nossas vidas mudam radicalmente, vão muito alem da eliminação do álcool. As pessoas mudam.
E esse “mudar” se traduz, acredito, em fazer minha parte ou prontificar-me ou me esforçar para que minhas atitudes com outras pessoas não sejam um reflexo desse ser inferior em que o alcoolismo nos transforma…

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Sétimo Passo
“Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”.

No sexto passo, prontificamo-nos por inteiro, não apenas uma parte, deixar que Deus removesse nossa montanha de defeitos de caráter. Eu entendo que são os mais cabeludos, tipo: egoísmo, desonestidade, ira, etc.
No sétimo passo, vamos a Ele implorar humildemente, que Ele nos livrasse de nossas imperfeições. Aí eu entendo que são os defeitos de caráter de menor poder destrutivo, mas que nos impedem de sermos melhores, tais como: procrastinação, descomprometimento, sovinice.
Todos os doze passos são exercícios de humildade, qualidade do humilde, extremo oposto do orgulho, defeito maior do alcoólico ativo e de tantos desativados, daí a grande dificuldade de uma maioria significativa, em aceitar os doze passos para a recuperação. Você já ouviu isso? “Só dou o primeiro passo e a segunda parte do décimo segundo”. Programa individual é parcial = resultado insatisfatório ou nulo.
O sétimo passo enfatiza a humildade. Humildade, palavra derivada, humo ou húmus, produto da decomposição da matéria orgânica, vegetal ou animal, estrume, esterco. “És pó”. Não dá para ter orgulho de ser isso, não é mesmo? Enganou-se meu amigo, o alcoólico ativo tem. O orgulho cega.
O PRDP nos oferece uma nova maneira de viver, para isso é necessário nos esvaziarmos de todo orgulho, egoísmo, soberba, vaidade, arrogância, prepotência e autossuficiência. Não é pedir demais para um alcoólatra? Não, se a vida dele depender disso! Precisamos nos libertar desse egoísmo. Precisamos fazê-lo, ou ele nos matará!
Portanto, humildade é a pedra fundamental sobre a qual edificaremos nossa nova vida, nova casa que vamos construindo daqui para frente: “futuro”. A casa velha, “passado”, vamos visitar quando for necessário, mas não morar nela, mudamos para outra melhor. Deus torna isto possível, e com freqüência, parece não haver meios de se libertar totalmente do interesse próprio sem a ajuda d`Dele. Portanto, a fé é a pedra angular que dá sustentação ao arco do triunfo, sob o qual passará o homem reformulado, (nova formula) para uma vida íntegra, útil e feliz.
Por que rogar? Deus não sabe de tudo, ele me conhece, sabe das minhas faltas, o que preciso? Simples! Ele não arromba portas, só entra se for convidado. Portanto, abra a sua boca!!! Segundo Aurélio, rogar é: pedir com insistência, com humildade, implorar, suplicar. É mais que pedir.
Precisamos nos livrar das nossas imperfeições, são elas que nos afastam da graça do PS. São elas que nos aprisionam na escravidão do ego, nos tornamos meros escravos de nós mesmos, perdemos a herança do pai das luzes, criador do universo, dono do ouro e da prata. Desprezamos o banquete e nos contentamos com as migalhas! Ele quer nos cobrir de bênçãos, para abençoarmos os outros, não para nos ensoberbarmos e ficarmos cheio de orgulho espiritual, tipo: Eu sou o caminho, verdade, a luz. Sou o melhor padrinho, afilhado. Agarre-se na barra da minha calça, “ou saia” e siga meus passos. Há, há, há! Eu tenho a única mensagem. Esses caras estão querendo acabar com o A.A. Eu não vou deixar. No “meu” grupo, não aceito isso ou aquilo. Não precisamos de professor. Prateleira de cima. Está escrito no livro maior: “Deus dá graça ao humilde (simples) e rejeita o soberbo”. Lembra do sexto passo: Quem não gosta de se sentir um pouquinho superior ao outro, ou bastante superior? Percebes como é difícil para um ser humano normal, não só os alcoólicos colocar Deus em primeiro lugar? Devemos colocar as coisas espirituais sempre acima das materiais. “Buscai primeiro as coisas do alto e o resto vos será dado por acréscimo”. Devemos colocar os princípios, que são preceitos espirituais, acima das personalidades, sejam lá quem forem, até Bill W. e Dr. Bob Smith. Não cultuamos pessoas vivas ou desencarnadas, ou não somos anônimos?
E o que dizer do cisco no olho dos outros, quando os nossos estão com uma baita trave do tamanho de um ônibus. Freud explica: aqueles defeitos que vemos nos outros, são os nossos que recusamos enxergar. Empurramos para bem fundo do nosso ser, lixo debaixo do tapete. Esquecemos do quinto e quarto passos. Aquela parte que me recuso olhar é a que me governa.
Tem ainda os defeitos de estimação. Já ouviram isto? Eu não consigo largar! Eu gosto! Vai comigo para o tumulo! Isso é prova que a vida espiritual esta paralisada, não evolui! Tudo que não está evoluindo, está regredindo, tudo que não renova, morre. Até o amor!
Concordo com Bill, quando ele disse: “Nossos dias de vida na terra constituem em um mero dia na escola, todos nós somos alunos de um jardim da infância espiritual”. Seremos sempre crianças aos olhos de Deus, até quando envelhecermos seremos crianças aos seus olhos, assim como os filhos são sempre crianças aos olhos dos pais. Isso só vale para os que acreditam ou vierem a acreditar nesse PS, Deus na forma que concebemos “segundo passo”, e decidiram entregar suas vidas e vontade aos cuidados dele “terceiro passo”.
Aqueles que gritam que Deus não existe, o fazem por desespero de não encontrá-lo. Aos que recusam o consolo de uma fé, seu maior castigo é continuar vivendo! O resultado dessa escolha é uma confusão profunda, pois lhe falta a bússola, o sextante ou se preferirem o GPS espiritual. Ao vermos outras pessoas resolverem seus problemas por meio de uma simples confiança no Espírito do Universo, fomos obrigados a parar de duvidar do poder de Deus. Nossas idéias não funcionavam, mas a idéia de Deus dava certo.
Para mim, Pimenta, humildade é: ser igual sem perder a individualidade, reconhecer que sou apenas uma pequena parte de um grande todo, uma gota no oceano, conhecer meus limites. Na mesa do companheiro Doc. Havia uma placa que definia a humildade: “É o silêncio perpétuo do coração. É estar sem problemas. É nunca estar descontente ou atormentado, irritado ou ofendido. Não se surpreender com qualquer coisa que me façam, sentir que nada é feito contra mim. É estar tranquilo quando ninguém me elogia, e quando sou culpado ou desprezado, é possuir um lar abençoado em meu interior onde eu possa entrar, fechar a porta e me ajoelhar diante de meu pai em segredo e estar em paz como em um profundo oceano de tranqüilidade, quando tudo ao meu redor e perto de mim parecer ser um problema”.
Para finalizar, que isto é apenas uma exposição e não um livro, a oração do sétimo passo: “Meu criador, agora desejo que me aceites como sou, por inteiro, bom e mau. Peço que removas de mim todo e qualquer defeito de caráter que me impeça de ser útil a ti e aos meus companheiros. Concede-me força para que ao sair daqui, eu cumpra as tuas ordens. Assim seja”.
Teremos, então, dado o sétimo passo.

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Oitavo Passo
“Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”.

• Os passos estão devidamente ordenados e devem ser vivenciados paulatinamente.
• No Quarto Passo descobrimos a nossa verdadeira identidade/ personalidade/caráter e as consequências de nossas atitudes/atos (Auto Conhecimento).
• No Oitavo Passo vamos nos preocupar com as nossas relações pessoais, limpando todo o entulho do passado e buscando melhorar a nossa relação ( INCUMBÊNCIA BASTANTE DIFÍCIL).
• Primeiramente, devemos procurar nos perdoar e também perdoar àqueles que nos prejudicaram.
• No Quinto Passo admitimos perante Deus e os “Homens” as nossas falhas, mas agora iremos procurar os que prejudicamos e tememos pela reação deles. Tem aqueles ainda que nem sabem que foram prejudicados por nós.
• O que queremos dizer quando falamos que “prejudicamos” outras pessoas?Através do nosso comportamento alcoólico, causamos os mais diversos danos, físicos, mentais, emocionais e espirituais às pessoas.
Exemplos:
• Se estamos sempre de mau humor, despertamos ira nas pessoas
• Se mentimos para as pessoas
• Privamos as pessoas de seus bens materiais
• Causamos insegurança
• Despertamos ciúmes, angústia e vontade de vingança nas pessoas

Ao fazermos a revisão detalhada das nossas relações e detectarmos quais tipos de comportamentos que causaram prejuízos às pessoas, estaremos prontos a iniciar a relação das pessoas que foram afetadas em menor ou maior grau.
Esse é o Passo do fim do nosso isolamento de nossos semelhantes e de Deus.

Bibliografia: Livro Alcoólicos Anônimos / Os Doze Passos de A.A. / Revista Vivência / Artigos e Apostilas diversos.

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Nono Passo
“Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem”.

Entendendo o Nono Passo

As catástrofes são sempre notícias absorventes. Terremotos, furacões, incêndios, enchentes, ataques terroristas, guerras e tantas outras tragédias prendem a nossa atenção. Porém raramente vemos trabalho árduo de reconstrução que acontece depois que o desastre passou. Vidas, lares, negócios e comunidades inteiras são restauradas e reanimadas. Esse ano tivemos enchentes por todo o estado, muitos desabrigados, mortes, etc. Todos podemos nos lembrar do fatídico 11 de setembro e o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque. Todos podemos detalhar ao máximo o ocorrido, as mortes, os lances mais excepcionais e tudo de importante ligado àquele ataque terrorista. O mesmo podemos dizer do furacão Katrina nos Estados Unidos ou o violento tsunami que atacou a costa asiática. Mas poucos, ou praticamente ninguém, viu ou vê o trabalho árduo de reconstrução que acontece depois que o desastre passou. Vidas, lares, negócios e comunidades inteiras são restauradas e reanimadas. É um longo e exaustivo trabalho.
Pois bem, o Nono Passo assemelha-se às restaurações e à reconstrução que acontecem depois de uma calamidade. Pelo processo de reparação, começamos a corrigir os danos de nosso passado. No Oitavo Passo avaliamos os danos e fizemos um plano. Agora, no Nono, entramos em ação.
Após haver elaborado a relação das pessoas as quais prejudicamos, refletido bem sobre cada caso específico e procurado imbuir do propósito correto para agir, veremos que o reparo dos danos causados divide em várias classes aqueles aos quais nos devemos dirigir.
O Nono Passo completa o processo de perdão que começou no Quarto Passo e satisfaz nossos requisitos para nos reconciliar com os outros. Neste passo, tiramos as folhas mortas de nosso jardim, recolhemos e tentamos nos desfazer dos velhos hábitos. Estamos prontos para enfrentar nossas faltas, a admitir o grau de nossos erros e a pedir e a oferecer perdão. Aceitar a responsabilidade pelos danos causados pode ser uma experiência de humildade porque nos força a admitir o efeito que tivemos na vida do outro.
Desde que começamos nossa recuperação, percorremos um longo caminho para desenvolver um novo estilo de vida. Vimos como a impotência e o descontrole de nossas vidas causaram danos. Nosso compromisso de enfrentar nossas falhas de caráter, admiti-los para os outros e, por fim, pedir a um Poder Superior para removê-los, foi experiência de humildade. No Oitavo e Nono Passos prosseguimos com a última etapa para reedificar nosso caráter.
O Nono Passo, tal como todo o programa de A.A., exige que tenhamos coragem, perseverança e fé de que o que estamos fazendo é para o nosso próprio benefício, é para o nosso próprio desenvolvimento emocional e espiritual e todo o esforço será recompensado. Mas, especificamente no Nono Passo, teremos que desenvolver algo mais, teremos que ter um cuidadoso senso de oportunidade e julgamento de cada caso de reparação. Por muitas vezes, a reparação terá que ser adiada e em muitas outras será melhor não fazê-la. Este passo é o único que fala que o adiamento talvez seja o mais oportuno a se fazer.
Na minha opinião, a prática do Nono Passo teria que ter o acompanhamento direto de um padrinho, esta figura tão mal compreendida em nossos meios. Com a ajuda do padrinho podemos facilitar a distinção daquelas reparações que devemos fazer das que não devemos. Ele pode nos fazer ver quando estamos apenas protelando uma reparação sob a desculpa de que estamos apenas sendo prudentes. A nossa velha e conhecida racionalização. Aliás, racionalizamos que nosso passado ficou para trás, que não há necessidade de provocar mais aborrecimentos. Imaginamos que reparações por danos passados são desnecessários, que tudo que temos que fazer é alterar o nosso comportamento atual. Apesar de que alguns de nossos comportamentos passados podem ser sepultados sem confronto direto. Dá logo para perceber que a tarefa de distinguir aquelas reparações que devo fazer das que não devo exige sabedoria e sabedoria, quando se trata de nós mesmos, é arriscado achar que a temos. É melhor pedir ajuda e apoio de outras pessoas durante este trecho de nossa viagem. Enfim, não devemos nos esquecer que o objetivo final é o de ver a nossa vida melhorada, cheia de paz, serenidade, livre dos medos e ressentimentos de nosso passado.
É bom salientar que o Nono Passo tem duas partes distintas a respeito de fazer reparações:
“Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível”.
Por reparação direta devemos entender aquelas pessoas que estão acessíveis e podem ser abordadas quando já estivermos prontos. Podem ser amigos ou inimigos. Talvez a reação da outra pessoa nos surpreenda, principalmente se a reparação for aceita. Mas devemos estar preparados para caso ela não seja aceita também. Nossa reparação não depende da reação do outro. Há, porém, aquelas pessoas que não estão acessíveis, algumas podem já ter morrido e outras nem sabemos por onde andam. Neste caso não nos resta muita coisa a fazer, talvez o simples fato de elas terem sido lembradas na nossa relação já seja uma reparação.
A outra parte do Nono Passo diz:
“Salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem”.
Há reparações que talvez devem ser evitadas. Principalmente os casos de infidelidade conjugal, pois nesses casos poderiam ocorrer danos para várias partes. Outras situações seriam aquelas em que o risco da perda do emprego possa ser iminente, prejudicando a nossa família ou mesmo revelações que poderiam levar à prisão com consequente afastamento da família. São situações extremamente difíceis e a decisão não deve ser tomada sozinha.
Há também reparações que exigem ação protelada. Raras vezes é aconselhável abordar de forma repentina um indivíduo que ainda sofre profundamente com as injustiças que fizemos. Nas situações em que a nossa dor ainda é profunda, a paciência é a melhor escolha. Nossas metas finais são o crescimento e a reconciliação. Imprudência e pressa podem fazer mais danos e frustra nossas metas finais.
É importante que tenhamos claro em nossas mentes a distinção entre fazer reparações e pedir desculpas. Estas são apropriadas, mas não substituem aquelas. Podemos pedir desculpas por chegar atrasado a um compromisso, mas enquanto não corrigirmos esse comportamento, a reparação não foi feita. O pedido de desculpas funciona como reparação desde que acompanhado do compromisso de mudança de comportamento.
Durante a prática desse passo podemos passar por recaídas emocionais ou espirituais ocasionais. Isso é normal, mas é importante que apreendamos a lidar com elas imediatamente, pois do contrário podemos ter nossa capacidade de fazer reparações prejudicadas. Essas recaídas podem ser sinais de que não estamos colocando o programa em prática com eficiência. Talvez tenhamos nos afastado de nosso Poder Superior e necessitemos voltar ao Terceiro Passo. Talvez tenhamos deixado de citar alguma coisa em nosso inventário e por isso devemos retornar ao Quarto Passo. Ou talvez não queiramos abandonar um comportamento derrotista e precisemos retornar ao Sexto Passo.
Ideias Fundamentais do Nono Passo:
Reparações Diretas: São as que fazemos a alguém que prejudicamos. Marcamos um encontro ou planejamos nos encontrar pessoalmente com essas pessoas.
Reparações Indiretas: São as reparações não pessoais que fazemos aos que prejudicamos, a alguém que já morreu, de localização desconhecida ou inacessível por alguma razão. Nesse casos uma oração ou mesmo descrever os danos causados ao nosso padrinho são suficientes.
Reparações para nós mesmos: Muitas vezes prejudicamos mais a nós mesmos que a qualquer outra pessoa. O procedimento de reparação não seria completo sem algum tempo dedicado a endireitar a nós mesmos. Talvez, a prática de A.A., seja a maneira mais agradável de fazer reparações a nós mesmos.
Uma citação final: “Só o ofendido sabe o quanto dói a ofensa”.

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Décimo Passo
“Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.

O 10° passo na minha visão é um passo que me convida a fazer uma reflexão sobre os nove passos anteriores. Estou praticando os princípios ou estou só lendo passo a passo? Passo sugere caminhada, nesse caso caminhada espiritual. Revendo o nosso jeito de ver as coisas, sentir tais coisas, pois nossas reações a tudo que nos passa vem de nossos valores espirituais, ou do que aprendemos com os passos. Será que estamos preparados para a turbulência que temos que viver no dia a dia, ou nossa espiritualidade é mera teoria?
O 10° passo sugere que eu continue fazendo inventário e sempre estando pronto para admitir o possível erro, pois o alívio vem quando fazemos algo a respeito.
Todos nós ou quase todos temos em casa um quartinho onde guardamos aquilo que não estamos usando por muito grande que ele seja; é preciso de vez em quando dá uma organizada, jogar algo fora, algo que estamos relutando em desfazer, mas percebemos que só serve para travar os espaços. Se deixarmos do jeito que está é possível que crie ninhos e mude para lá algo que não gostaríamos, ninhos não aparecem de um dia para o outro é o acumulo diário de capim, quando se percebe ele está pronto, instalado.
Por isso Bill, através do 10° passo, nos sugere que estejamos sempre vigilantes, sempre fazendo avaliação do nosso comportamento. Se ficarmos irritados com os outro é porque algo em nós não está bem.
Por isso é bom sempre fazer inventário, para não sermos surpreendido e só vermos o ninho pronto, lembrando que ele é feito capim por capim.
Bill fala também do rancor, um luxo que não podemos ter. Rancor, raiva, ira é como segurar uma brasa, ela queima só a gente mesmo. Mesmo se acharmos justificativas para elas, devemos sempre lembrar que quem tem o programa de recuperação somos NÓS, isso não quer dizer que vamos deixar as pessoas fazer de nós aquilo que elas quiserem, mas devemos sempre lembrar que a base do AA é amor e tolerância.
Existem vários tipos de inventário, o relâmpago, o do fim do dia, fim de semana, fim de mês ate mesmo fim de ano. Todos são válidos e muito bons. Há necessidade de ver em qual deles nós nos encaixamos, pois quanto mais prolongarmos, mais perigoso fica; nervosismo, irritação e falta de paciência podem ser sintomas de que as coisas não estão indo bem. Às vezes as pessoas podem até pensar que estamos perdendo tempo com tanto tempo gasto com inventários, meditação, ciclo de passo, mas quando fazemos com amor e com a mente aberta ficamos leves e em paz. Ciclo de passos a meu ver é um SPA espiritual.
Ao fazer o inventário eu me coloco novamente no eixo, volta autodomínio, controle da língua e sempre pensando em tratar o outro do mesmo modo que eu gostaria de ser tratado com amor e paciência.
Termino o meu trabalho com esta frase: que não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento.
Obrigado

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Décimo Primeiro Passo
“Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.

Como orar se por conta do meu ativo alcoolismo e suas consequências um poderoso sentimento de vergonha prevalecia? Como meditar diante da minha incapacidade mental e espiritual? Por minha experiência, revelo que só consegui superar esses questionamentos com a minha aceitação de Alcoólicos Anônimos. Em A.A. me convenci e aprendi que sobre a minha total derrota frente ao alcoolismo, percebi a gravidade da minha insanidade e que diante desses fatos só me restava uma única saída: entregar, sem condicionantes, minha vontade e minha vida a Deus, na forma de minha fé.
No sentido de organizar nossas ideias, recordamos que a nossa obsessão pelo beber destrutivo foi removida por um Deus de quem ainda não tínhamos uma sóbria consciência. Da mesma forma, a sanidade mental nos foi sendo devolvida por Ele, com o alerta da necessidade de positivas ações. Dizíamos da entrega, e há que ser notado que por essa decisão (aliás, a nossa primeira positiva ação), Deus em nós e por nós estará fazendo o melhor para nossa recuperação.
Na convivência dos três Passos iniciais para nossa recuperação em A.A., aprendemos que “se reconhecermos a Deus como um Pai, que nos possa receber e ajudar, teremos maior desejo de procurá-Lo, de conhecê-lo e de alcançá-Lo.” Considerando-se todos os componentes de nossa personalidade alcoólica, encontrar Deus sabemos que requer um intenso trabalho. Por isso, entendemos que o 11º Passo significa uma intensa viagem, através da qual chegaremos a um seguro porto espiritual. No itinerário, o mapa nos informa da necessidade de conhecer a si mesmo, da admissão dos nossos pessoais limites humanos, do humildar-se e da cooperação com Deus para os acertos de falhas e imperfeições.
A rota, em direção ao colo de Deus, se amplia à medida em que devemos reaprender a conviver com quem causamos danos. Assim, estaremos amparados para vivermos o modo de ser um AA – sóbrio, com equilíbrio emocional e de maneira útil, sob quaisquer condições, dia após dia, em tempo bom ou não. Poucos quilômetros nos distanciam do projeto de uma vida na qual possamos “conversar e ouvir” sobre o que Ele espera de cada de um de nós.
Para essa “audiência” com Deus, fazemos rogos para conhecer Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade. Interpretamos que Essa vontade será atendida se cada um de nós for obediente aos princípios espirituais estabelecidos nos dez primeiros Passos. Temos consciência da dimensão dessa obediência, mas, mais uma vez, rogamos a Ele forças para cumprir Sua vontade.
Alcoólicos Anônimos, em cada um de seus momentos de recuperação, representa uma procura, uma busca ou uma singela descoberta. Como o distanciamento de Deus, no meu caso, foi atitude unilateral de minha parte, na redescoberta de Deus em minha vida não encontrarei buracos negros ou maresias, a menos que eu permita meus tubarões ou fantasmas prevalecerem. E para a aplicação do 11º Passo será suficiente tornar real o dever da minha casa interior através da oração e meditação.
No universo de A.A. esses recursos de aperfeiçoamento espiritual não são, à primeira ação, pacíficos. Sentido faz encontrarmos em nossa literatura reflexões sobre o uso da oração e meditação:
a) “Aquele que nega Deus, O nega por causa de seu desespero por não encontrá-Lo”.
b) “Os chacoteadores da oração são, quase sempre, aqueles que não a experimentaram devidamente”.
c) “Se virarmos as costas à meditação e à oração, também estamos negando às nossas mentes, emoções e intuições, um apoio imprescindível”.
Oração e meditação cuidam de nossas almas e elas só funcionam com esse tipo de alimento e por essas práticas interligadas, acrescidas do auto-exame, receberemos a “luz a presença de Deus, do alimento de Sua força e da atmosfera de Sua graça”.
Dito as certezas acima, de que forma podemos usar as citadas ferramentas? Nos momentos de agitação ou mesmo de paz, o auto-exame permite fazermos internas e individuais verificações de nós próprios. Por exemplo, ao final de nossas jornadas diárias ou em qualquer hora de complicações emocionais, podemos fazer uma revisão de nosso dia ou do momento de instabilidade, nos indagando se ficamos ressentidos, se fomos egoístas, desonestos ou se sentimos medo.
Superados esses gargalos, o ambiente mental estará apropriado para os exercícios da oração e da meditação. Orações, as mais diversas, a humanidade vem utilizando; da mesma forma, o modo de meditação, que não cede lugar ao debate, é uma opcional escolha de quem a pratica. Os princípios de A.A., no 11º Passo inclui como sugestão a clássica oração de São Francisco de Assis, que interpreto como uma espiritual síntese do nosso programa de recuperação, em especial ao funcionar como uma verdadeira anulação do ego, sobretudo quando são feitos os seguintes pedidos a Deus:
“Ó Mestre, faze que eu procure menos
Ser consolado do que consolar;
Ser compreendido, do que compreender,
Ser amado, do que amar…
Porquanto:
É dando que se recebe; é perdoando, que se é perdoado e
É morrendo que se vive para a vida eterna. Amém”.
Comentávamos que este princípio trata de viagem. Bill W. assegura que, após o exercício dessa oração, que na minha interpretação estaremos em estado de meditação e que por ela (meditação) faremos uma viagem ao reino do espírito. O cofundador nos deixou ainda definições, ao afirmar que a meditação “é algo que sempre pode ser desenvolvido. Ela não tem limites, tanto na extensão como na altura. (…) ela é essencialmente uma aventura individual que cada um de nós realiza à sua maneira”.
Quanto à oração, Bill W. afirma que “é a elevação do coração e da mente para Deus, e neste sentido abrange a meditação”. Como, neste Passo, já estamos trabalhando com consciência, não usamos a oração na forma de petição, aliás, o que não mais nos convém, lembrando-nos sempre do “Se for a sua vontade” nos momentos de conversa e audição com Deus. Através desse Passo perceberemos de fato a nossa capacidade de recebermos orientação para nossas vidas à medida que paramos de exigir de Deus o que queremos e como queremos. Se assim agirmos, novas fontes de coragem serão descobertas, independentemente de eventuais situações de sofrimento e dor.
Por meio de nossas ações nesta viagem, passaremos a sentir que:
a) Deus age de maneira misteriosa na realização de Suas maravilhas;
b) Passamos a fazer parte do mundo do espírito e
c) O amor de Deus vela sobre nós e, se nos voltarmos para Ele, tudo estará bem conosco, aqui, agora ou no que vier depois.
Por tudo que já percorremos, reina a paz; mas ainda não concluímos e nem concluiremos o que Deus quer de nós: fé com obras, principalmente pelo único e primordial propósito de A.A. Nesse sentido, insiro neste espaço a oração universal legada por Jesus Cristo,
Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome,
Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade
Assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.
Amém.
Refletindo com o “Pai Nosso”, e isenta de qualquer coloração religiosa, me permitam tentar reforçar minhas convicções: estou, efetivamente, em aliança com Deus e alinhada com Ele para aceitar serenamente tão somente a Sua vontade em relação a minha vida?
Que a bondade e misericórdia de Deus continue nos abençoando com forças, se for a vontade Dele. Meu forte abraço!

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Décimo Segundo Passo
“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

Sob a graça de Deus, e após a alimentação espiritual recebida pelo caminhar sob à luz dos primeiros onze Passos contidos no programa de recuperação de A.A, o membro de A.A. chega ao Décimo Segundo Passo. Sabemos, por experiências da Irmandade, que o percurso não é tarefa fácil; em alguns momentos pomos em dúvida a nossa capacidade para exercitá-los, noutros, reconhecemos a inexistência da fidelidade absoluta aos princípios, bem como queremos reduzir a nossa responsabilidade vivendo o auto engano do “Não somos santos”.
Mesmo sendo considerado esse patamar, Alcoólicos Anônimos nos reanima ao assegurar que: a) os nossos “Passos” são guias para o progresso e b) nossa meta é o progresso espiritual, e não a perfeição espiritual. [“Nossa meta” me dá o alerta de que o bloco do eu sozinho não funciona. Sou responsável por mim, contudo, a minha recuperação aconteceu e prosseguirá se eu continuar atento e obediente ao coletivo espiritual de A.A.].
A nossa chegada ao pátio da Estação 12 nos permite entender que somos possuidores de suficiente combustível para vivermos com prazer e em ação. E isso acontece porque esses princípios projetam um novo modo de vida ao alcoólico. Por outro, os seus luminosos acendem para a grande “oportunidade de nos voltarmos para fora em direção de nossos companheiros ainda aflitos”. Nela, e recorrendo ao recurso espiritual da fé que funciona, sentimos o sabor do dar pelo dar, além da possibilidade de encontrar a almejada sobriedade emocional.
Alcoólicos, e as pessoas que nos cercam, sóbrias emocionalmente? Sim, é possível! Basta ouvirmos por que e para quem os sinos da “Estação” ecoam, para ocuparmos os assentos de uma verdadeira viagem do espírito, cujo bilhete avisa que começamos a praticar todos os Doze Passos em nossa vida diária.
Nessa viagem em direção de nós e dos nossos iguais, nada haverá de nos incomodar, pois com o sentimento da gratidão e pela humilde grandeza de nada querer em troca com a nossas ações de Aas, nos imunizamos contra trepidações e/ou turbulências emocionais. Isso acontece porque “Ajudar os outros é a pedra fundamental de nossa recuperação”, conforme atesta Bill W. Por sua vez, a experiência de A.A. testemunha que o exercício dos “Doze Passos de A.A.” oferecerá bem instalados trilhos ao alcoólico, cujo resultado serão vagões cheios de utilidade, integridade e felicidade.
Com a clareza de que o 12º Passo é a consequência da soma de todos os trechos de uma abençoada estrada, além de termos aceitado que é fundamental a transmissão da mensagem de A.A. para continuarmos sóbrios e sermos instrumentos para evitar a morte daqueles a quem devemos apresentar a verdade de Alcoólicos Anônimos, repensemos no seguinte entendimento de Bill W. , constante do Manual de Serviços de A.A.:
“O nosso Décimo Segundo Passo, que leva a mensagem, é o serviço básico que a irmandade de A.A. oferece. É o nosso principal objetivo e a razão primordial de nossa existência. Portanto, A.A. é mais do que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação”.
Visto esse pensamento do cofundador, deve ser observado que a prática desse Passo segue um roteiro com a seguinte distribuição espiritual:
a) Através da aplicação dos onze “Passos” que o precedem, experimentaremos a realidade do despertar espiritual. A propósito, o que significa e o que representa esta individual revolução interna?
Os nossos textos respondem nos dizendo tratar-se para o alcoólico de um novo estado de consciência e uma nova maneira de ser, lembrando que, para essa conquista (ou dádiva?), são indispensáveis a boa vontade, a honestidade e uma mente aberta. Percebo também que o “despertar” é a graça pela graça, mas para tal haverá a necessidade de se estar pronto para recebê-lo. Portanto, à luz dos “Passos”, examinemos a trajetória de preparação.
A nosso ver, “Os Passos”, que propiciam o renascimento humano do bebedor-problema, possuem uma inteligente lógica espiritual. No Passo Um não lhe escapa aceitar a derrota total, além da ingovernabilidade de sua vida decorrente de sua obsessão pelo beber destrutivo. Com essa admissão, é inaugurado a sua reconstrução. Pela aceitação do Passo Dois, sobretudo com a utilização de uma fé que há de renovada, tem-se de volta a sanidade, na razão direta do grau de restabelecimento da aliança com um Poder superior. A.A. não exige, mas espera de cada um de nós ação. Por isso, no Passo Três decidimos nos entregar totalmente a Deus – a vida é Dele e a atitude do “tudo não eu posso só” se distancia do característico egoísmo do alcoólatra. Que alívio sentiremos quando da aplicação desses três primeiros “Passos”, porque a partir daí estaremos com a coragem para mudarmos a nossa postura diante de tudo aquilo que tínhamos como motivo para bebermos, provida do autoconhecimento, auto perdão e liberdade encontrados nos Quarto e Quinto Passo. Com isso, está aberto o caminho para uma vida adulta, bastando deixarmos a Deus a remoção de todos os defeitos de caráter. A lógica do aperfeiçoamento espiritual nos pede também humildade, pois só assim rogaremos a Ele que nos livre de nossas imperfeições, como tão bem proposto no Passo Sete.
Até aqui trabalhamos nós mesmos, o que não é suficiente. Convivíamos em sociedade e para ela o Programa de Recuperação nos dá direito de voltarmos. Os Passos Oito e Nono nos permitem essa ação, à medida que temos consciência a quem causamos danos e buscamos implementar reparações. Assim, o típico isolamento deixou de permear a vida do alcoólico. Com esse instrumental, já sabemos o que queremos – sendo A.A. o grande bem – e estamos sendo habilitados a conduzirmos a vida sob quaisquer condições, conforme preconiza o Passo Dez. A nosso ver, o universo do espírito se aproxima em nossa recuperação, pois em nossa rota faremos uso da oração e meditação para sabermos a vontade de Deus em relação a nós, rogando a Ele apenas força para cumprirmos o que Ele quer de nós. É o que preconiza o Décimo Primeiro Passo.
Nesse cenário, e com a dedicação para que a orquestra esteja completa e com os instrumentos polidos (registre-se: saiamos da “dança dos dois passos” para o “samba dos Doze Passos”), a experiência de A.A. confirma ser inevitável a colheita da paz de espírito, além do amor por si e pelo próximo. A isso, classificaria como “despertar espiritual”.
b) Com o “despertar” vem ao membro de A.A. a “sugestão” para que seja transmitida aos alcoólicos a mensagem de Alcoólicos Anônimos. Nesse sentido, a experiência confirma que o espírito de A.A. chegará ao membro se estiver em constante treinamento, sob pena de a sobriedade emocional ser apenas uma hipótese. Como posso transmitir o “tesouro de A.A.” se não me disponho a realizar a garimpagem necessária. Nada melhor, a nosso ver, ficarmos atentos ao exemplo do Dr. Bob, que no livro “Alcoólicos Anônimos” registra todo o seu sentimento de responsabilidade consigo próprio e com os seus assemelhados na sua incansável missão de transmissão da mensagem de A.A. Assim o fez para mais de 5.000 pessoas pelas seguintes motivações:
• Sentimento de dever
• É um prazer
• Porque, ao fazer isto, estou pagando minha dívida para com o homem que encontrou tempo para me transmitir tudo isto.
• Porque , a cada vez que o faço, garanto-me um pouco mais contra uma possível recaída.
Quanta convicção nos legou o cofundador. Observados os limites e aptidões, resta a cada um de nós, AÇÃO, AÇÃO, AÇÃO… Já dizia um de nossos conselheiros espirituais: “não há limites no trabalho de evolução espiritual”.
c) O exercício dos “Passos” nos transforma, ou somos pelas mãos de Deus reinventados para, em sendo uma nova criatura, cumprirmos tão somente a Sua vontade. Para tanto, praticar os princípios em todas as nossas atividades é essencial. Afinal, observado a humildade disposta no “Passo Sete”, passamos a ser exemplo. A Tradição realça o quanto é vital a Unidade de A.A., portanto, acordo que, enquanto indivíduo, sou impelido a ter atitudes ancoradas no Programa de Recuperação da Irmandade, ou seja, sem divisões. Não há como ser no Grupo o “exemplo” e no meu ambiente familiar, na minha profissional, na comunidade ou no dia a dia da convivência em sociedade ficar distante do que Alcoólicos Anônimos esperam do alcoólico em recuperação. Por oportuno, transcrevemos alguns questionários contidos neste princípio:
1)Temos condições para amar a vida com tanto entusiasmo quanto amamos aquela pequena parcela que descobrimos, quanto tentamos ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade?
2)Somos capazes de levar às nossas vidas em família, por vezes bastante complicadas, o mesmo espírito de amor e tolerância com que tratamos os nossos companheiros do Grupo de A.A.?
3) As pessoas de nossa família, que foram envolvidas e até marcadas pela nossa doença, merecem de nós o mesmo grau de confiança e fé que temos em nosso padrinhos?
4)Estamos prontos para arcar com as novas e reconhecidas responsabilidades que nos cercam?
Se formos laboriosos, o “milagre” acontece! E acontecerá diante da convicção de que Deus faz por nós o que nunca poderíamos fazer por nós mesmos, como também em nós membros de A.A. reside um bom crédito: o bebedor – problema de ontem não conhece o alcoólico em recuperação de hoje, mas este conhece muito bem aquele bebedor – problema de ontem. O “alcoólico de hoje” voltará ao submundo do “bebedor de ontem” se assim o desejar.
O Décimo Segundo Passo revela-se como uma firme, se for o caso, verificação dos onze primeiros “Passos de A.A”. Buscando sermos bons alunos no entendimento dos seus exercícios, enfrentamos os mais diversos conflitos, problemas e até mesmo a angústia das “dores do crescimento”. E, ao enfrentá-los, soluções surgem (ou “o que não tem solução, solucionado está”), possibilitando restabelecer a ordem em nosso interior, com o mundo ao nosso redor e com Deus.
E com a nossa integração ao mundo do espírito, com consciência, agiremos com utilidade, integridade e felicidade. Só nós, que já fomos beneficiados por essas ações, sabemos a extensão de “contemplar os olhos de homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida em que passam da treva para a luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico marginalizado sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um Deus amantíssimo em suas vidas.”
Diante da tamanha importância dos fatos acima relatados, que acontecem quando somos titulares da mensagem que Deus nos reserva como condutores, a nós, membros de A.A. cabe rogar a esse mesmo Deus que suas bênçãos nos cheguem com SERENIDADE, CORAGEM e SABEDORIA, em cada dia de nossa renascida vida.

“Alcoólicos Anônimos é mais do que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisamos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair, e aqueles a quem não foi dada a verdade podem perecer.” (Bill W.)

Oração da Serenidade
Concedei-nos Senhor, a SERENIDADE necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, CORAGEM para modificar aquelas que podemos e SABEDORIA para distinguir umas das outras.

CICLO DOS DOZE PASSOS

XVI CICLO DOS DOZE PASSOS –SP

Primeiro Passo

‘Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas’

Companheira : CÉLIA

Meu nome é Célia e eu sou uma alcoólatra .
Falo isso, pois preciso ouvir de minha própria boca que sou portadora de uma ‘doença incurável’ e que poderá me levar a loucura e a morte.
Aceitei a derrota total e moral e Espiritual, e que sou impotente perante o álcool .
Esse é o único Passo que fala do álcool.
Nele também está escrito admitir e aceitar essa Doença, e para isso temos que ser rigorosamente honestos e tolerantes, ou seja, termos um pouco de humildade para aceitar ajuda, somente assim esse passo se tornará 100% praticado. Sozinha nunca consegui parar.
Aceitar que é uma doença, Física (alergia, Mental (obsessão ) e Espiritual (ausência de fé e egocêntrica total )
Que somente um ato da providência poderia remover o nosso modo de beber destrutivo.

Eu tentei parar por muitas, mas sempre voltei a beber.

Tentei na Igreja, nos templos de Umbanda, nas Filosofias e por várias vezes na psiquiatria. Todos me tentaram me ajudar, mas estava com a ‘mente fechada’ sem consciência da minha compulsão, estava no fim e não percebia.

Eu só queria beber umazinha e bebia um monte, não me lembro de começar a beber e acordar sem culpa, remorso e vergonha.

Isso me levou ao Inferno que somente vocês podem entender.

O “nós” do Primeiro Passo diz que agora fazemos parte de uma Irmandade que nos ama. Estamos com pessoas iguais a nós. Não precisamos lutar mais sozinhos. Eu não sei quanto a vocês, mas eu perdi a moral, não tinha mais confiança de ninguém. Mentia para mim,para os outros e o que é pior,acreditava nas minhas mentiras.
A velha frase, amanhã eu paro.
Juro que vou beber só um pouquinho.
Deus não gosta de mim e por isso eu bebo.
Eu era um poço de auto-piedade ou uma Bêbada cheia de Raiva e Ressentimento.
Mas acreditem me achava humilde e boazinha, afinal eu bebia nos lugares mais simples, famosos Botecos e com pessoas bem inferiores a mim. Era lá que eu me sentia importante, tal era minha arrogância e prepotência.
Lá naquele Boteco era o único lugar que me aceitavam, e mesmo assim às vezes o lixo era mais importante do que eu.
A Doença da negação. É muito comum ouvirmos companheiros( as), dizerem em seu depoimento que não haviam chegado ao ‘fundo de poço’. Dão mais importância às perdas materiais, do que os danos morais .
E ainda quero ter o controle da vida , quando na verdade se eu tomar o primeiro gole , esse primeiro gole me leva a perder totalmente o governo da minha vida.
Por isso venho me mantendo longe do álcool, da forma que me foi sugerido :
Evitando o Primeiro Gole
Freqüentando as Reuniões
Praticando a terapia do Telefone
Utilizando a prática das 24hs

SEGUNDO PASSO

“ Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

Companheiro: João Roberto

Ao chegar em Alcoólicos Anônimos , completamente derrotado , não tive dificuldade em aceitar que havia perdido o domínio de minha vida , o que já havia acontecido antes mesmo de procurar ajuda .

O grande problema foi , durante muitos anos , a minha resistência em admitir minha impotência perante ao álcool .

Apesar de todas as evidências nesse sentido , o fato era que eu procurava justificar minha forma de beber , minimizando os efeitos da bebida , atribuindo as conseqüências a algum outro problema que eu pudesse vir a ter ,

foram diversas consultas a psiquiatras e psicólogos , a busca de soluções por meio das religiões , sempre procurando formas de resolver meus problemas .

Qualquer sugestão era aceita , menos aquelas que me afastassem do álcool , meu companheiro de todas as horas , nos bons e maus momentos .

Acho que isso por sí só demonstra o grau de insanidade que me dominava . Lembro-me de , nos últimos tempos de alcoolismo ativo perambular pela cidade , tentando me lembrar como era minha vida antes , quando tinha alguns momentos de abstinência alcoólica .

O companheiro de A.A. que me levou a minha primeira reunião , ao me falar sobre o programa me perguntou : “ Como anda seu relacionamento com Deus ?” , ao que respondi :

estamos muito distantes , Ele no céu e eu aqui embaixo . Faça o seguinte , me disse o companheiro , quando você tiver um problema e não conseguir resolver , entregue-o a Deus e depois me conte o resultado .

Ao tomar conhecimento dos Doze Passos , verifiquei que A.A. não exige crença , que os Doze Passos são apenas Sugestões e o que é importante é ter a mente aberta .

O Segundo Passo nos fala da variedade de caminhos em direção à fé , possibilitando que nos utilizemos de A.A. como força superior .
‘ Como está escrito , a fé que eu havia perdido foi reencontrada em A.A. .
Começou , de minha parte , quando surgiu o problema para o qual eu não tinha solução e ao fazer o que havia sugerido , a resposta veio de imediato , possibilitando dessa forma que me aproximasse do meu Poder Superior .

Da mesma forma que diversos companheiros haviam procedido antes de mim , eu também jamais me importei em saber qual seria a vontade de Deus , ao contrário procurava fazer negócios com Ele , dizendo-lhe o que devia ser feito .

Aprendi a reconhecer o meu Poder Superior , que se manifesta de forma horizontal , por intermédio companheiros de A.A., aprendendo a “ouvir sem julgar” , percebendo que Deus sempre me deu aquilo que preciso , nem sempre o que desejo .

A partir do momento em que tenho a capacidade de ser honesto em minhas atitudes , procurando fazer o melhor que posso , estou aberto e consciente da importância de permitir que Deus me conduza de volta à sanidade , deixando de agir do mesmo modo , esperando resultado diferente .

“ Comecei a beber muito cedo, na verdade nunca fui honesta comigo mesma, eu não me conhecia.
‘A partir das mudanças e da prática dos demais passos, hoje eu não bebi, não tive vontade de beber e estou aqui com vocês’.

Terceiro Passo

“ Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus , na forma em que O concebíamos”.

Companheiro : Tatão

“Após termos passado pelo crivo contundente da aceitação a que precisamos nos submeter no ‘ primeiro passo’ , admitindo a derrota total e aceitando nossa incapacidade total no tocante ao álcool , culminando com a completa perda do domínio da vida e após encontrar na liberdade espiritual do 2º Passo a única força conhecida capaz de conter a enfermidade inerente do alcoolismo , nos deparamos com o 3º Passo , que acreditamos seja a pedra angular de todo o Programa de Recuperação de A.A. . Este Passo representa a primeira tentativa de juntar a espiritualidade do programa de A.A. com a funcionalidade de que necessitamos para direcionar nossas vidas e fazer face as nossas necessidades temporais .

É o momento de utilizar a nossa fé recém descoberta em um Poder Superior com a finalidade de guiar nossas vidas e conviver com as pessoas que nos cercam segundo a vontade de DEUS .
O principal instrumento do 3º Passo chama – se ‘ chave da boa vontade’ que permitirá a abertura da porta para que Deus possa entrar em nossas vidas , através da fé que funciona . ***

‘ Sabemos que muitas dúvidas surgirão pelo caminho e que a idéia de depender totalmente de um Poder Superior , muitas vezes é assustadora , mas sabemos que todos os que realmente tentaram conseguiram ao menos iniciar esta entrega a que se refere ao 3º Passo e que à medida que nos tornamos mais dependentes do Poder Superior , mais independentes nos tornamos das coisas .
É Importante salientar que uma vez realizada a primeira tentativa , sempre será possível abrir um pouco mais a porta mesmo que vez ou outra o ‘ Egoísmo’ volte a fechá-la , basta para isso usar a chave da Boa –Vontade que agora se encontra em nossas mãos . Acreditamos que apesar de ser a primeira tentativa , a eficácia de todo o programa , dependerá de quão bem e sinceramente tenhamos chegar à decisão de entregar nossa vida e nossa vontade aos cuidados de DEUS e que só é possível praticar com êxito os outros passos quando o 3º Passo tenha sido experimentado com determinação e persistência .
‘ Podemos entender com naturalidade que se tenha algum receio durante a experiência do 3º Passo , mas à medida que se vai avançando e se vai experimentando a liberdade que resulta da dependência de um PODER SUPERIOR , à medida que vamos libertando do Ego e que se vai permitindo que a vontade de Deus prevaleça em nossas vidas , é impressionante como as coisas acontecem e sempre que se tiver dificuldade para discernir a vontade própria da vontade do Poder Superior , lembre-se da chave da Boa Vontade e não tenha receio de usá-la sempre que tiver diante de um problema aparentemente sem solução , lembre-se que a nós cabe apenas a parte humana , portanto faça tudo que estiver ao seu alcance e entregue ao Poder
Superior , aí é só esperar o resultado e seja qual for , lembre-se que Deus faz sempre o melhor”.

QUARTO PASSO :_
‘ Fizemos Minucioso e Destemido Inventário Moral de Nós Mesmos’
Companheira : _ Marta / Carla-
“Sem um esforço voluntário e persistente haverá pouca Sobriedade e Felicidade para nós”
Ao aceitarmos nossa dependência, insanidade e derrota completa perante o álcool e nossas vidas, reformulamos nossa crença em um Poder Superior e entregamos nossas vontades , pensamentos , sentimentos, nossas ações , nas mãos Dele. E nessa entrega, sentimos que necessitamos de uma reforma íntima que nos possibilitará a limpeza de nossas estruturas e realizar nova construção numa base espiritual sólida , sem reservas , sem medo .
“ Pensar , agir e reagir sob a batuta do Grande Maestro”.
‘A mudança é fundamental , não só porque ela ajuda a nos responsabilizarmos por nossas atitudes promovendo nosso crescimento emocional e espiritual , como também porque nos encaminha para a vivência de uma verdadeira Sobriedade , que nada mais é do que aceitarmos a realidade tal como ela se apresenta, aprendendo a lidar com ela’ .
E começam nossos problemas . Só podemos aceitar essa realidade quando nos aprendemos a nos aceitar e só podemos fazer isto quando nos conhecemos. O meio que utilizamos para este auto-conhecimento é o 4º Passo .
Para fazermos o 4º Passo , é indispensável que levemos em conta dois aspectos apontados no enunciado do passo que ele deve ser feito com profundidade: – minuciosamente e com absoluta honestidade. (Boa –Vontade , Honestidade e Mente Aberta).
Devemos adentrar no nosso íntimo como se estivéssemos entrando numa casa às escuras só com uma vela para nos guiar.
Precisamos estar dispostos a iluminar cada canto de cada compartimento de nossas mentes, como se nossa vida dependesse disto , porque realmente ela depende .
O que buscamos é o mais completo e total conhecimento de nós mesmos e honestidade para examinarmos comportamentos, pensamentos, sentimentos e motivos .
Nossa honestidade é de maior importância , para percebermos até onde nossa doença nos levou e também podemos juntar nossos fragmentos e vermos realmente quem somos.
Inventário moral : – não tem o propósito de definir moralidade e nem definir regras de moral.
Reconhecemos que moral é um conjunto de valores que escolhemos para nos guiar no dia a dia de nossa Recuperação, sempre aos cuidados de um Poder Superior .
Consideramos “Bom” quando solidifica nossa recuperação e “ Ruim” como algo que tem o poder de aflorar o que temos de pior , contra a nossa recuperação .
‘ Um inventário, para funcionar, deve ser prático.
Deve ser escrito com calma, sem julgamento, sem censura , sem medo do 5º Passo; não fazer o inventário dos outros ( nunca nos ocorreu que precisávamos mudar a nós mesmos para que nos ajustássemos ás circunstâncias) ; fazendo uma lista dos defeitos e também das virtudes . Os primeiros para a eliminação e os segundos para a reconstrução.
Importante é escrever sobre meus sentimentos a respeito das situações e não só os eventos. Um inventário verdadeiro é uma auto –análise do que nós éramos e da forma como ficamos. ‘ Alguns defeitos de personalidade ou falha humana” :_
ORGULHO:_
Admiração exagerada por se próprio , vaidade , egoísmo , arrogância , ostentação , auto-promoção .
Terrível defeito de personalidade , bem como um dos sete pecados capitais .
O Orgulho nos induz a fazer exigências de nós e dos outros que não podem ser cumpridas sem perversão( maldade ) .
O orgulho produz críticas, o falatório pelas costas, palavras farpadas e verdadeiros assassinatos morais para elevar meu Ego por comparação. O orgulho me faz condenar aqueles que me criticam.
Quando a satisfação por nossos Instintos por Sexo, Segurança e Posição Social se torna o único objetivo de nossas vidas, então o orgulho entra em cena para justificar nossos excessos.
HIPOCRISIA _ fingir ser o que realmente não sou ;
Teimosia _ insistência em impor minha vontade;
Discórdia_ ressentimento contra qualquer um que cruze o meu caminho;
DESOBEDIÊNCIA _ recuso- me a submeter minha vontade de meus superiores legais e hierárquicos e à vontade de Deus;
AVAREZA _perversão do direito de possuir coisas materiais .
Desejo riqueza sob a forma de dinheiro ou outras coisas como um fim em si .Quero adquirir riqueza em qualquer de suas formas , desrespeito os direitos alheios ; sou desonesto , sou pão duro com minha família , sou conivente com fraudes , perjúrios e práticas duvidosas .
LUXÙRIA_ desejos e comportamentos sexuais obsessivos- deformados . Devido ao isolamento do alcoólatra , o sexo é utilizado como droga para aliviar a solidão emocional e como expressão da linguagem corporal , pela minha inabilidade de expressar sentimentos e desconhecer ‘afetividade / Intimidade .
INVEJA _ mal estar perante os bens dos outros .
‘ Não gosto de ver os outros felizes e os critico porque secretamente gostaria de ter realizado seus feitos ou vivido a sua vida .
ÓDIO _ desejo violento de punir os outros. Entrego-me a crises temperamentais, fico vingativo,sou impaciente,exageradamente sensível , facilmente me melindro.
Ignoro que a raiva impede o meu desenvolvimento espiritual.
Gula_ abuso dos prazeres legítimos que Deus concedeu ao comer e beber os alimentos para a auto_ preservação.
PREGUIÇA _ Doença da vontade que causa a negligência do dever. Sou indolente, procrastino, despreocupado e indiferente quanto às coisas materiais. Não pratico a auto – disciplina; Desanimo facilmente nas coisas que me são moral ou espiritualmente difíceis. Prefiro ler um romance a ler algo que me requeira trabalho mental como o Livro Azul.
Todas essas falhas geram dor e um vazio, uma doença da alma e um medo que deforma nossas emoções e instintos, transformando por sua vez em mais defeitos de caráter.
Algumas Virtudes:_Não é nossa intenção tornarmo-nos Santos e sim obtermos uma qualidade de Vida .
FÉ – capacidade de acreditar nas coisas que não posso ver, quantificar , manusear , controlar , com a certeza de que Ele proverá todas as nossas necessidades .
ESPERANÇA – FÉ em conseguir o que se espera ou deseja ;
CARIDADE // GRATIDÂO – é a capacidade de amar sem restrições de qualquer natureza , de viver plenamente com consciência , responsabilidade e reconhecimento por toda ajuda e dádivas recebidas pela Dor .
HUMILDADE –aceitação de seus limites e potencialidade , vivendo sempre em conformidade com essa realidade .
E ainda temos as virtudes como cortesia , contentamento , lealdade , pontualidade , sinceridade , bondade , compaixão , equilíbrio , tolerância e muitas outras que em recuperação , aprendemos .
“ O 4º Passo nos permite Morrer em Vida para VIVER em VIDA”
NO INVENTÁRIO DEVEMOS Nos LEMBRAR:-
Ao nos avaliarmos honestamente, conseguimos através desse auto- conhecimento, promover as modificações do pensamento e do comportamento , compreendendo assim , que estamos ficando sóbrios fisicamente , mentalmente e espiritualmente e prontos para não reincidirmos em nossos erros . Podemos finalmente, retirar nossas máscaras e fazermos de nós pessoas adultas e conscientes, e porque não, felizes.
Dicionário:-
QUINTO PASSO.
“ADMITIMOS PERANTE DEUS, PERANTE NÓS MESMOS e PERANTE OUTRO SER HUMANO, A NATUREZA EXATA DE NOSSAS FALHAS.”
COMP. PIERO
Fé é a nossa capacidade de compromisso, portanto, dizemos que a Fé é a nossa capacidade de amar.( Laurence Freedman)
O meu 4º. Passo foi um terremoto emocional. Ao relembrar acontecimentos dolorosos o desespero era tanto que eu não pedi a Deus o porque isso aconteceu, mas pedi a ELE que me ajudasse a salvar o que ficou de pé.
Eu não queria morrer sem aprender a viver
Os primeiros passos de nossa recuperação podem ser muito dolorosos.
Acostumados a não assumir a nossas e devendo admitir a perda do domínio das nossas vidas, uma mistura complicada de emoções nos invade, sentimos raiva de tudo e de todos, raiva do mundo por achá-lo tão injusto e por ter ficado sozinhos sem ter alguém para descarregar as nossas magoas.
Estamos arrasados e cheios de conflitos
O meu primeiro foi com Deus.
Lembro que no meu desespero inicial perguntava a Ele:
“Se tudo que acontece na nossa vida é por Sua vontade, Você é o responsável pelo que aconteceu comigo,ou, como mínimo, poderia tê-lo impedido”.
O que eu não entendia é que Deus não é responsável pelo que aconteceu comigo ou pela minha Doença, o que fez foi pegar na minha mão e me levar para uma sala de A.A. e por isso eu tenho que ser eternamente grato a Ele.
Tenho que ser eternamente grato aos meus companheiros de Sala que me ajudaram a valorizar e entender que com a corajosa admissão da natureza exata das minhas falhas perante eu mesmo e perante outro ser humano, a prática do 5º Passo reforçou a enorme importância do Apadrinhamento, pois talvez, pela primeira vez depois de tantos sofrimentos, precisava de alguém para abrir totalmente, e honestamente o meu coração, alguém com quem compartilhar meus tabus,- físicos, emocionais ou sexuais- que de acordo com minhas manias de grandeza “Ninguém poderia saber e que eu levaria até a tumba.”
Por isso eu escolhi o meu Padrinho em A.A., pois ninguém, no meu conceito, entende um Alcoólatra melhor que outro alcoólatra.
Entendi que o 5º Passo reforça, ainda mais o meu convencimento que o Anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, pois é só colocando os princípios acima das personalidade que minha vida tem um enorme princípio espiritual.
O Sofrimento serve para enobrecer o ser humano, para eliminar de suas mentes o orgulho e a superficialidade.
Para ampliar seus horizontes.
Em suma o propósito do sofrimento é reparar os defeitos de personalidade do homem.( Harold Kushner)
‘Quanto com tanta Dor e Frustração aprendemos quais os rumos que não levam a nada, estaremos preparados para encontrar o caminho certo’.

SEXTO PASSO
“PRONTIFICAMO- NOS INTEIRAMENTE A DEIXAR QUE DEUS REMOVESSE TODOS ESSES DEFEITOS DE CARÁTER”
COMP. MIMA
Qualquer coisa a meu respeito, pode ser usada por meu bem. Se hoje me sinto amedrontada, lembrarei que meu medo é um sinal de que tenho algo para aprender.
Precisei durante muitos anos, do álcool, para mascarar sentimentos, dores, complexos, etc. Mesmo sem ter conhecimento do Sexto Passo prontifiquei- me inteiramente para que Deus removesse a minha obsessão pelo álcool, e foi removida só por hoje.
Esta disposição não surge em mim num lampejo de luz, pelo contrário, enquanto me esforço para progredir numa direção positiva, vou ficando pronta, um pouco de cada vez.
Nesse Passo não estou me propondo a agir como um robô, já que a maior graça que Deus me deu foi o livre arbítrio, o de agir livremente desde que esteja disposta a aceitar as conseqüências de minhas atitudes erradas. O que noto é que minhas atitudes emocionais no tempo da ativa sempre foram exageradas, tanto no que se trata de euforias ou depressões. Nesse Passo, passo a ter reações perante os fatos da vida, reações essas que não impedem um raciocínio claro e a tomada de atitudes coerentes e justas.
Meu trabalho é manter-me simples. Quanto mais pratico a gratidão pela minha vida como ela é, vou ficando mais disposta e tudo segue em novas direções. Quando identifico tantos erros, preciso me dispor a soltar. Atrás de cada defeito, esconde-se uma qualidade. Esvaziar, soltar, eliminar abre espaço para minha força, habilidade. Uma das qualidades é ouvir, e ouvir sem julgar.
Habilidade, participar das atividades sem querer mudar; conviver com erros, compreendendo, respeitando que cada um, tem seu tempo para ficar pronto.
Defeitos como inveja, rancor, gula, lasciva, fofocas, preguiça, não consigo me livrar por completo, Ele quer apenas que tentemos da melhor maneira possível, progredir na edificação do caráter, o que precisamos reconhecer, no mínimo. Teremos de enfrentar alguns de nossos piores defeitos de caráter e tomar medidas o mais rápido possível. ‘Estas medidas separam os adultos dos adolescentes’ .
“A maior parte de nossa felicidade ou infelicidade depende de nossas disposições e não de nossas situações”.
SÈTIMO PASSO
“HUMILDEMENTE ROGAMOS a ELE QUE NOS LIVRASSE de NOSSAS IMPERFEIÇÕES.”
COMPANHEIRO: MICHAEL
Este é meu quarto ciclo. No primeiro não falei (ainda cheirava a álcool) Para o segundo fui convidado a falar sobre o Terceiro Passo. No terceiro sobre o Nono Passo, e agora sobre o Sétimo. Não sei quem está orientando o Comitê que escolhe os tematistas (será que Deus tem algo a ver com isso?), mas no meu caso estão escolhendo certo para mim, pois a cada vez que venho aqui o Passo é o que mais preciso naquele momento. E hoje preciso mais que nunca de humildade na minha vida e Recuperação.
Vamos definir bem o que é humildade, a palavra usada por nossa língua portuguesa, muitas vezes para evitar chamar alguém de pobre em termos de possuir bens e dinheiro. Humildade nada tem a ver com isso, ser um capacho, se rebaixar, ser menos. Humildade é ser real, autêntico, verdadeiro. Sem máscaras. Você ser você mesmo. Eu ser eu mesmo.
Então, o problema a meu ver ao ficar sóbrio, é descobrir quem eu sou. É uma das minhas tarefas em A.A. É como descascar uma cebola, uma camada de cada vez. Haja camadas!
E quem afinal sou eu? Antes eu sabia, achava. Aos onze anos eu era meu cabelo (sim tinha). Aos 14 anos minhas roupas. Aos 16 minha motocicleta. Aos 19, reflexo pálido dos meus amigos com as festas. A bebida. E depois, eu me identificava por parte das minhas mulheres, as minhas namoradas.
Cheguei ao Brasil com 22 anos. E eu era? O inglês. Depois eu era o pai, o bom pai. O bom marido. Sim, bebia um pouco de vez em quando. Tinha até orgulho de ser um bom bebedor. Conhecido como tal.
Há quase dez anos atrás, lancei um livro que alterou a minha vida. Aí sim, me identificava como escritor. Se eu disser que sou um escritor medíocre, seria falta de humildade, pois sou um bom escritor. Se eu dissesse que sou um bom dançarino seria uma mentira total. Faltaria humildade. ( Pergunta a minha filha quando dançamos a valsa na sua formatura).
Com tudo isso eu achava que eu sabia quem eu era. Se perguntasse para mim eu diria, “Claro que sei”, e ficava por isso. ( Mas ninguém me perguntava).
E qual teria sido a verdade? A verdade era que eu era um menino amedrontado, que tinha raiva dos pais. E de todos. E do mundo. E a questão mais importante da minha vida, que eu ignorava por completo? Eu era simplesmente um alcoólico… e nem sabia, nem suspeitava deste fato. E se alguém me confrontasse com isso? Caía na negação, claro. Eu não tinha opção. Tinha que negar. Se admitisse, eu teria que considerar parar de beber, a última coisa que eu queria.
Por que estou em A.A.? Já ouvi muitas colocações de companheiros. Alguns para não voltar a beber. Outros para uma maior qualidade de vida.
Há aqueles para mostrar a alguém que pode ficar sem beber. Uns por medo de voltar a cometer insanidades. Por vergonha. Por Solidão. Sei lá. Posso falar por mim. Estou em A.A. para tentar ser uma pessoa melhor. De preferência um homem melhor hoje que ontem. Um dia de cada vez.
Por que? Porque tenho dificuldades de aceitação. Vou falar ao contrário da humildade. É orgulho. Aquele pecado capital que Bill menciona no nosso Quarto Passo, dizendo que não é por acidente que o primeiro deles é o orgulho. Eu o chamo chefe da gangue. Mellinho chama a doença de alcoolismo ou “orgulhismo”. Quando tomei contato com os conceitos dos passos, eu tinha certeza que entendi esta questão de humildade.
“Quando tomei contato com os conceitos dos passos, eu tinha certeza que entendi esta questão de humildade, tanto que fiquei muito orgulhoso da minha humildade.
Por que da minha dificuldade de aceitar certos comportamentos na sala de reuniões? Quero aproveitar este ciclo para praticar o sétimo passo, praticar de fato, para pedir a Deus remover o meu orgulho. Mas será que eu quero? Mesmo? Pois o orgulho me faz sentir superior aos outros. Porém minha auto-piedade está muitas vezes em evidência. Menos hoje talvez, mas continua lá.
Muitas de nós, ao ingressar em A.A. reclamam do mundo, do marido, da esposa, dos outros, do chefe, do governo. Reclamamos das perdas, tudo provocado pelos outros. Sei, pois eu fazia isso. Mas na recuperação, se formos abençoados, logo começaremos a perceber que não era os outros, nem um destino cruel, maléfico,nem azar,que causou todos os estragos. Começaremos a perceber que toda a desgraça da ativa ( e antes e depois também) só teve um culpado. Podemos chiar e espernear, mas cedo ou tarde chegamos a conclusão que não dá mais para ignorar. Somos-nós os responsáveis. E isto é real. Não é ilusão. A realidade fica querendo invadir a minha vida. ÁS vezes não gosto. Resisto, mas isto é um dos problemas da realidade. Ela não vai embora só porque eu paro de acreditar nela.
Mas, espera aí ! No Décimo Passo está escrito: “É um preceito espiritual, o de que cada vez que estamos perturbados, seja qual for a causa, alguma coisa em ‘nós’ está errada. Se ao sermos ofendidos, nos irritamos, é sinal que também estamos errados.”
Deus quer todos iguais.Somos todos iguais. Mas eu as vezes insisto em me achar diferente. Se eu me conhecesse mais eu não faria disso. Mais auto-conhecimento é igual mais humildade. Saber meu verdadeiro tamanho. Por que enquanto não faço isso, eu sofro. E chega de sofrimento. Por isso estou aqui com vocês.
Para terminar, quero lembrar a oração conhecida entre nós como A Oração de Dr. Bob.
HUMILDADE
“Humildade é o silêncio perpétuo do coração. É estar sem problemas. É nunca estar descontente, contrariado, irritado ou ofendido. É não me surpreender com qualquer coisa feita contra mim mas sentir que nada é feito contra mim. Significa que, quando eu for repreendido ou desprezado , eu tenho um lar abençoado dentro de mim, onde eu posso entrar, fechar a porta, ajoelhar-me em frente ao meu Pai em segredo e estar em paz como um profundo mar de calmaria, quando tudo ao meu redor está parecendo agitação
OITAVO PASSO’

– Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos causados.

Companheira: Lucia

Remorso O “Oitavo Passo” oferece uma grande mudança numa vida dominada pela culpa e pelo remorso.
Remorso era um dos sentimentos que me mantinham bebendo.

Tropecei no caminho durante a ativa deixando um rastro de desgosto e devastação dolorosa de imaginar. Meu remorso era freqüentemente intensificado por minha percepção de que não poderia fazer nada sobre o prejuízo que causei. Não tinha jeito.

Removo parte da força do remorso quando o encaro. Começo o “Oitavo Passo” fazendo, realmente, uma lista de todas as pessoas que prejudiquei.
Admito participação em meu doloroso passado, mas, o “Oitavo Passo” não pede a correção de todos meus enganos, meramente, pede que eu me torne disposto a fazer reparações a todas essas pessoas. À medida que me disponho a reparar o prejuízo que causei e reconheço a disposição para mudar. Afirmo o processo da recuperação.

Remorso não é mais um instrumento que uso para torturar-me. Remorso tornou-se ferramenta que posso usar para me perdoar. Eu vou usar qualquer sentimento de remorso que possa ter, como um trampolim para a recuperação através dos ‘Doze Passos’. Sempre que me separo de alguém, seja:física, mental,emocional ou espiritualmente, estou ferindo a “Lei Cósmica do UNO” dentro do A.A. quebrando a 1ª Tradição . Se a perfeição e o domínio devem ser expressos, deveis conhecer e admitir apenas a “Lei do Uno”. O Uno existe e controla tudo completamente em todas partes do universo.
Sois a autoconsciência da vida a uma presença suprema da grande chama de amor e luz. O passado deve ser lembrado e esquecido como atitude de falsas noções, sistemas de crenças que nos são impostos, os velhos pensamentos.

Fizemos uma lista de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e dispusemo-nos a fazer reparações a todas elas. Na minha mente, os passos vão evoluindo e posso fazer este 8º Passo, por ano, dentro da Irmandade, como, por exemplo: como agir com o recém-chegado dizendo que não precisa fazer o passo, devo colocar o nome deste chegado na lista. “Se qualquer crença ou ato meu é bom que o recém –chegado ou quem está no programa, saiba que existe um Deus como eu o compreendo. Que o meu Deus tem que funcionar para mim e não para ele. È sugerido que ele ache o seu Deus. É sugerido que ele não se julgue o Deus do outro companheiro. Que talvez precise de alguma ajuda e, como na ativa, quando sente o julgamento poderá não buscar o “Uno”.
Fazendo parte das soluções, e para mim, tenho que rever
(reforçar) se este é o Deus que eu quero. Se esse Deus está funcionando, pois o 8º Passo trata de honestidade, coragem, boa vontade e compaixão, primeiro para comigo, para Deus que o concebo e depois para os companheiros.

OBS: Transcrevi esta Temática com a máxima fidelidade da apostila do XVI CICLO DOS PASSOS – SP . Se Algum companheiro desejar pode fazer uma análise sobre o TEMA .

NONO PASSO
“Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem.”
Companheiro: LEVI
Fazer reparações é ir de encontro daqueles a quem causamos prejuízos, físicos, financeiros, moral e emocional. Acredito que é a busca de conviver melhor com nós mesmos e com semelhantes.
Deixar de fazê-las, é ignorar o sentimento de emoção dos outros que foram prejudicados com nossas atitudes durante nosso alcoolismo e muito que fizemos aos outros, não teremos tempo para reparar, mas podemos mudar nosso comportamento através da prática dos Doze Passos, e não causarmos mais prejuízos aos outros.
Quando chegamos ao Nono Passo pressupomos que tenhamos vivenciado os passos antecedentes, porque só assim termos condições de fazer as reparações com humildade, coragem e prudência.
Em mãos com a relação das pessoas que tínhamos prejudicados, iremos analisar cada uma delas e escolher por onde começar.
Portanto bom senso, atenção e muito auto conhecimento são importantes para praticar o Nono Passo com eficácia.
Neste passo não podemos nos deixar levar pela primeira impressão ou pela aparência atual, sem um perfeito conhecimento do que fazer e como fazer.
Há alguns anos atrás assisti a temática de uma Psiquiatra no meu grupo, sobre Alcoolismo e família, naquela ocasião perguntado á ela, se as reparações eram mesmas necessárias. Ela disse que o alcoólico que não quer fazer reparações é um criminoso, pois tripudiou sobre as emoções dos familiares, frustrou sonhos, decepcionou amigos, enfim deixou todos doentes. Se quiser ter uma vida equilibrada, fazer reparações era o mínimo que se pede.
Naquela época achei um exagero, mas com o passar do tempo compreendi o caos que foi meu alcoolismo e hoje quando quero procrastinar alguma reparação, logo me vem aquelas palavras daquela profissional.
É preciso saber, honestamente se quero crescer e se hoje estou pronto para isso aqui e agora.
Saber perdoar primeiro os outros que nos prejudicaram é o requisito
Necessário para que possamos pedir perdão a quem prejudicamos, só assim teremos condições de aceitar humildemente a reação que o outro possa ter.
“Pois a disposição de aceitar todas as conseqüências de nossos atos passados e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade pelo bem – estar de outros, constitui o próprio espírito do Nono Passo”. ( Doze Passos pg.77).
Reconciliai- vos o mais depressa possível com vosso adversário, enquanto todos estais a caminho….. …..( S. Mateus cap. 5 vv. 25)
Décimo Passo:
Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
Companheiro: J Bernardo
“Viver é afinar o Instrumento … de dentro pra fora, de fora pra dentro…”
1. O Décimo Passo é o passo da vida. É impossível não praticar. Querendo ou não querendo estou sempre fazendo o Inventário.
É eu estar presente na minha vida o tempo todo. Estar ligado constantemente, estar em contato comigo com outras pessoas e com o meio ambiente que me rodeia.
2. Não dá para praticar o Décimo Passo no passado. Mesmo ao analisar fatos do passado, a ação de fazer a análise é feita no presente.
Da mesma maneira por mais que eu tente e repita, nunca consigo fazer o inventário do futuro.
3. O Décimo Passo diz “..quando estávamos errados…”
Quando consegui perceber o que isso significa, me dei conta de que pela primeira vez em minha vida cheguei em um lugar onde me dizem expressamente que eu POSSO ERRAR.
Até então sempre tinha ouvido exatamente o contrário, e eu movido por um medo maior do que eu, permiti que a minha vida fosse passando sem a minha participação.
Por outro lado o programa me diz: “você tem permissão para errar, mas quando estiver errado admita prontamente, e volte para o Sexto, Sétimo, oitavo e nono passos e conserte o estrago!”
4. Libertação para a vida é o efeito da prática do Décimo Passo.
Sem medo de ser feliz ou infeliz
Sem medo “ mal ” ou do “ bem ”
Sem medo de morrer
Sem medo de Viver.
Não dá mais para escolher, é a hora para aceitar.
Não dá mais para atitudes do tipo: “escolho o que é bom dos
depoimentos e o que não serve eu descarto”. Quem disse que eu sei que o Poder Superior me reserva. Se eu soubesse o que é melhor para mim não teria chegado no fundo do poço que cheguei.
5.“O medo das pessoas e da insegurança financeira nos abandonará.”
Essa Promessa do programa de A.A. não pode ser realizada por efeitos mágicos sem a minha colaboração.
È exatamente a ação feita no Décimo Passo, dentro da prática Integral do programa dos Doze Passos que possibilitará constatar a realização dessa e de outras Promessas em minha vida.
6. Depende de mim:
Incorporar na minha vida, no meu coração, nos meus sentimentos, nos meus pensamentos, nos meus atos, nas minhas relações com as pessoas, no meu Ser… o “Modo de Vida de A.A.” : viver no “Aqui e Agora” uma Vida “Saudável, Serena e Feliz”.
DÈCIMO PRIMEIRO PASSO :

“Procuramos através da prece e meditação melhorar nosso contato consciente com Deus,na forma que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de sua vontade em relação a nós e forças para realizar esta vontade.

Companheira: Cida

Eu gostaria de agradecer ao Poder Superior por estar participando, deste Ciclo, e pela oportunidade de passar minha experiência dentro deste passo, que considero a essência de todo o programa de Alcoólicos Anônimos, onde tudo se resume, e se encerra todo entendimento da programação dos Doze Passos, faz sentido o peregrinar de minha vida, do nascimento o alcoolismo ativo à chegada de A.A. e renascimento num contato consciente com o Poder Superior.
Para entender um pouco esse processo fui buscar lá atrás na minha jornada, o momento de separação com o plano divino e percebi que lá atrás no primeiro passo havia uma grande pista quando perdi o domínio da minha vida e é lógico que se eu havia perdido o domínio alguém havia assumido o egoísmo, havia se apoderado da minha vida e á medida que eu me afastava da minha essência divina aumentava minha carência espiritual que me levou a um viver vazio, inútil e destrutivo, onde o próprio álcool não era capaz de me esconder da devastadora ignorância espiritual às reais causas do meu fundo de poço.
Vivi um longo período aprisionada por este tipo de carência, mas qualquer semente que por condição genética, produz um fruto de sua espécie, sua consciência tem o reconhecimento do seu plano de vida “ela sabe o que é” que é um fruto que alimentara as vidas, conhece a vontade de um Poder Superior criador de sua existência.
Reconhecer meu egoísmo, meu fundo de poço através dos demais passos me fizeram ir à busca do meu eu verdadeiro: “se eu não sou a bêbada, quem sou? ”
Transcender o egoísmo no 11º passo é a grande chave para elevação espiritual. Realmente não é fácil por de lado a imagem pessoal às idéias, os sentimentos e as formas arraigadas de agir.
Precisava receber ajuda espiritual e recebê-la de forma prática.
O retorno voluntário e consciente a Deus, por meio de prece e da meditação, para agir em comunhão com a vontade de Dele, vi que teria que adequar a essa vontade e não ela a minha, portanto precisava conhecê-la, saber o que ela esperava de mim e pedi-lo a força necessária para executá-la e estar em sintonia com o Eterno.
Esta busca permanente pela harmonia tem me trazido um estado de consciência serena, e ajuda inesperada. Se enfrentarmos qualquer situação delicada, nossa conexão nos dará a direção mesmo nos momentos de fortes perturbações emocionais.
Conceda-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir umas das outras.
O encontro com minha irmandade espiritual.
O poder da ação silenciosa.
O poder de “não reação” e do autocontrole perante fatos que poderiam ser abaladores me dá o conhecimento de:
– Quem sou eu? Eu ser humano doente do alcoolismo e em evolução ou recuperação.
– Pra que existo? Para levar a mensagem ao alcoólico como eu que ainda sofre.
-Como? Através do 12º passo após este despertar espiritual, e todos os passos.
Minha missão colaborar com a obra do Eterno, Poder Superior, ou Deus da forma que cada um concebe. Trazendo seus valores para a face da terra através de Alcoólicos Anônimos.
-Como? Meditando:
Silenciando o espírito.
-Fazer silenciarem os vão pensamentos. Fazer silenciarem as considerações sutis que enfraquecem a vontade e que levam ao estiolamento do amor. Fazer silenciarem todas as buscas e anseios próprios.
Silenciando a fantasia.
-Silenciam as emoções, silenciam as tristezas. As vãs ocupações dos pensamentos silenciam.
Silenciando a memória.
– O passado, as queixas vãs, os azedumes silenciam. Lembra apenas provas da misericórdia de Deus.
Silenciando o Coração.
-Silenciam os desejos, as antipatias silenciam, o amor silencia em tudo quanto ele tem de exagerado.
Silenciando o amor – próprio
– Silencia o olhar para o próprio pecado, para própria incapacidade.
– Silencia o auto louvor, todo o eu humano silencia.
Silenciando o julgamento.
-silencio no tocante a outras pessoas; não julgar.
Silenciando a vontade
– Fazer silenciar as angústias do coração. As dores da alma, fazer silenciarem os sentimentos de abandono.

Décimo Segundo Passo

Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as atividades.

Companheiros: Jurandir/ Gomes Cardim

“Nós somos seres humanos passando pela experiência espiritual, mas seres espirituais passando pela experiência humana”- Teillard de Cardin.
Alcoólicos Anônimos é um programa de vida para toda a vida. Era dessa forma que aquele velho e bondoso companheiro de espírito jovem e sempre bem humorado se referia à nossa querida Irmandade e ao nosso Programa de Recuperação. E, dizia mais:- “Fica que você vai mudar a sua vida através da prática dos passos”. Havia outro, um pouco mais jovem, mais durão e nem por isso menos bondoso que costumava a dizer:-“ O alcoólatra em recuperação é um apóstolo de Cristo para outro alcoólatra”.
E tantos outros, em tantos outros grupos que a paciência e amor nos transmitiram suas experiências e diziam: Conheça o programa. Pratique os passos. Transmita a mensagem.
Foi maravilhoso ter chegado até aqui.Ter percorrido a estrada da recuperação através dos passos.Perceber que essas experiências seriam para a nossa vida cotidiana e para passarmos adiante. Teríamos que admitir e aceitar a nossa impotência perante o álcool e que nossas vidas retornaria á medida que fossemos praticando o restante dos passos.
No segundo passo nos disseram que não haveria necessidade de ver para crer mas que acreditássemos pois a melhora iria acontecer e a nossa sanidade voltaria. Já não estávamos sem beber?
Passamos a entregar nossas vontades e nossas vidas aos cuidados de Deus. Não foi tarefa fácil e até hoje não é, mas com boa vontade e mente aberta estamos conseguindo. Percebemos que nunca fomos muito bons para cuidar desses assuntos. Pedimos a sua orientação, fazemos nossa parte e novamente pedimos a Sua ajuda.
Inventariamos nossa vida. Tudo. Ficou pesado. Parecia que carregávamos o mundo em nossos ombros. Pedimos ajuda aos padrinhos que nos disseram:- “Livre-se da culpa, da mágoa, do ressentimento. Fale da natureza exata dessas falhas”. E eles mais uma vez se colocaram à nossa disposição.
Caminhar pelo sexto passo, procurar meios para entrar em contato com Deus. Voar livre com a certeza de que estamos prontos para este encontro. Ter humildade suficiente para admitirmos errado muito e que nosso progresso espiritual se dará com a eliminação dos defeitos de caráter e das imperfeições.
Nos oitavo e nono passos foi necessário o perdão das pessoas, de Deus e de nós mesmos. Devemos ter cuidado para não causar mais prejuízos aos outros e em alguns casos fazer as reparações somente com Deus.
O décimo é o passo do pagamento à vista: quem erra deve, quem deve paga, quem paga, paga na hora. Continuar o inventário pessoal permite fazermos a manutenção dos passos anteriores.
A esta altura, nos encontramos fazendo o uso regular da oração e da meditação e com certeza já experimentamos o despertar espiritual, porque estamos fazendo a vontade D’Ele.
“Procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”
Temos aprendido muito com este programa de recuperação. Temos nos conhecido. Estamos mis compreensivos. Nos preocupando com a nossa modificação, deixando os outros viverem à sua maneira e os ajudando, sempre que possível. Estamos sendo felizes e permitindo que as pessoas ao nosso redor também o sejam. Estamos sendo honestos conosco e com os outros. A nossa vida mudou. E nós sabemos porque temos sentido essa melhora, esse conforto espiritual. Sabe porque? Porque nós temos nos preocupados com os nossos semelhantes, sem rotular ou descriminar ninguém.
Nós temos nos ajudado quando estendemos a nossa mão. Estamos descobrindo a alegria de viver. Estamos sendo úteis, dando a mesma esperança que nos deram. Estamos tendo compaixão por aquele que se desgarrou e agora retorna precisando, mais do que nunca de nosso apoio.
Estamos vivendo. Não sabíamos viver. Vivendo a vapor de Alcoólicos Anônimos, sentindo a nossa melhora e dos outros. Seria impossível recordar a nossa chegada e perceber que as dádivas aconteceram e nós participamos de tudo isto. Que maravilha!
Se nos contassem nossa história de alcoolismo, é bem possível que não acreditássemos.
Hoje temos amigos, novos horizontes e novas atitudes. Temos Deus. O chamamos pelo nome.

UMA VISÃO DOS DOZE PASSOS

UMA VISÃO DOS DOZE PASSOS

1º Passo
Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
Quase ninguém se dispõe a admitir a derrota completa; os instintos naturais gritam contra essa idéia. O álcool nos esvazia de toda auto suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Só conseguimos pensar nele desde o acordar até o “desmaiar”, e não percebemos nossa falência total como seres humanos.
O álcool, além de sua propriedade viciante, possui também um efeito psicológico que modifica o pensamento e o raciocínio. Uma dose pode mudar o processo mental de um alcoólico, de modo que ele acha que pode agüentar outra, outra e outra… Para ele, viver sem o álcool é o mesmo que não ter vida.
Uma vez ingerida a primeira dose, a compulsão se desencadeia. Soberba, avareza, luxúria, inveja, ira, gula, preguiça, manipulação emocional, negação, justificativas, auto piedade e racionalizações, se tornaram para o alcoólatra como o ar que respiram.
São três as falências totais a que são submetidos os alcoólicos: “física”, o organismo passa a rejeitar o álcool; o alcoólatra tenta parar ou diminuir a quantidade mais daí, o corpo passa a exigi-lo através dos sintomas da crise de abstinência esse então, ingere o álcool para poder superar as dores desse sintoma, em doses maiores ainda, virando dessa forma um ciclo vicioso que se repete diariamente. “Mental”, é a obsessão, pensamentos ininterruptos de como vamos usar mais álcool, mesmo que isso signifique manipular pessoas, roubar, mentir, adiar um compromisso etc. “Espiritual”, a parte espiritual da doença é o total egocentrismo, o alcoólatra passa por cima de amigos, responsabilidades, pai, mãe, esposa, trabalho ou qualquer um que tente de alguma forma, impedir seu desejo incontrolável de usar mais álcool.
A palavra “admitir” no primeiro passo é insuficiente, e ele vai além da palavra “aceitar”.
Um fato deve ser observado, ou seja, a necessidade de distinguir entre submissão e rendição. No primeiro caso, um indivíduo aceita a realidade consciente, mas não no subconsciente. Ele aceita como fato pratico que momentaneamente não pode derrotar a realidade, mas espera que um dia vá vencer, o que implica a não aceitação real e presença de tensão.
Por outro lado, quando um indivíduo se rende, a habilidade de aceitar a realidade funciona num nível inconsciente e a tensão desaparece.
O ato de rendição é uma ocorrência inconsciente, não provocada pelo paciente, mesmo que ele assim o deseje.
Uma pessoa não pode simplesmente declarar que aceita qualquer coisa – senão a aceitação não é total, mas só da boca para fora. Existem palavras que descrevem essa meia aceitação, como: submissão, resignação, cessão, complacência, reconhecimento, concessão e assim por diante.
O importante além de admitir, é se render ao fato de que somos completamente impotentes perante o tirano “Rei-álcool”. No primeiro gole, ele já começa a nos empurrar para o fundo do poço. E de lá só sairemos quando nos prontificarmos a aceitar e escutar, como os que se encontram à beira da morte, as palavras de tantos outros companheiros que, com certeza, já passaram por esse caminho de destruição, e através de Alcoólicos Anônimos conseguiram se manter em recuperação.
Devemos nos prontificar a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa, e a primeira delas, é rendermo-nos totalmente e nos conscientizar da nossa impotência perante o álcool.
Talvez não sejamos culpados pela nossa doença, mas certamente somos responsáveis por mantê-la estacionária.

2º Passo
Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade
No primeiro passo, convenceram-nos de que somos alcoólicos e que nossas vidas são ingovernáveis. Havendo nos reduzido a um estado de desespero absoluto, agora nos informaram que somente um Poder Superior poderá resolver nossa obsessão. Alguns de nós se recusam a acreditar em Deus, outros não conseguem acreditar e ainda outros acreditam na existência de Deus, mas de forma alguma confiam que ele levará a cabo este milagre. Pois é, nos meteram num buraco sem saída, tudo bem, mas e agora, para onde vamos?
Alguns abrigam a idéia de que o homem, elevado tão majestosamente de uma simples e primitiva célula, é hoje a ponta de lança da evolução e, portanto, o único Deus que ele conhece.
Precisa renunciar a isto para se salvar?
Em primeiro lugar, Alcoólicos Anônimos não exige que você acredite em coisa alguma. Todos os doze passos são sugeridos. Em segundo lugar, para alcançar a sobriedade e para manter-se sóbrio, não é preciso aceitar todo o segundo passo de uma x. em terceiro lugar, a única coisa que você realmente precisa é ter a mente aberta.
Quando deparar com Alcoólicos Anônimos pela primeira vez, você pode pensar que este negócio de Alcoólicos Anônimos é totalmente anticientífico, e simplesmente recusar-se a aceitar por considerar uma bobagem.
Os membros de Alcoólicos Anônimos seguem inúmeros caminhos a procura de fé. Se não se interessar por aquele que lhe sugerem, certamente descobrirá outro que lhe convirá, se ficar atento. Você pode começar a resolver o problema pelo método da substituição. Poderá, se quiser, considerar Alcoólicos Anônimos em si como sua força superior. Muitas pessoas, nele, resolveram seus problemas, com o álcool e, portanto, representam um Poder Superior a você, que nem sequer chegou perto da solução. Esse mínimo de fé bastará. Muitos libertados da obsessão pelo álcool, com suas vidas inexplicavelmente transformadas, chegaram a acreditar no Poder Superior, e a maioria começou a falar em Deus.
Às vezes, Alcoólicos Anônimos é aceito com maior dificuldade pelos que perderam ou rejeitaram a fé, do que pelos que nunca a tiveram, pois acham que já experimentaram a fé e não lhes serviu. Experimentaram viver com fé e sem fé e ambas as formas os decepcionaram.
A religião afirma que a existência de Deus pode ser comprovada; o agnóstico diz que não pode ser comprovada; e o ateu afirma que tem provas da inexistência de Deus. Afastado da fé, o problema é uma confusão profunda, sem qualquer crença nem alcança a convicção do crente, do agnóstico ou do ateu. Fica-se desnorteado. Ao começarmos a obter êxito material, estávamos felizes então, por que nos preocupar com abstrações teológicas e deveres religiosos, ou com o estado nossas almas na Terra e no além? Bastava-nos o aqui e agora. A vontade de ganhar nos levaria para frente. Então, o álcool começou a nos dominar. Finalmente, sem outra saída, tivemos que sair a procura de nossa fé perdida. Em Alcoólicos Anônimos a descobrimos de novo.
Há quem se julgue intelectualmente auto-suficiente. Adoram ouvir as pessoas os chamar de “gênios”; inflam em balões orgulhosos; acham que podem flutuar acima dos outros utilizando apenas o poder de seus cérebros; a sabedoria é onipotente; o intelecto é capaz de conquistar a natureza. O Deus do intelecto substitui o Deus de seus pais. Porém, mais uma vez, a bebida alcoólica tem outras ideais. Eles, que tão brilhantemente haviam vencido sem esforços, converteram-se nos maiores derrotados de todos os tempos. Viram que seria necessário reconsiderar, senão morreriam. A humildade e o intelecto podem ser compatíveis, conquanto que a humildade esteja em primeiro plano. Quando começaram a entender isso, receberam a dádiva da fé, uma fé que funciona.
Outros se sentem desenganados com a religião e suas obras. A bíblia, dizem, está cheia de bobagens. Criticando as pessoas religiosas, sentem-se superiores a elas e não olham para si, para seus próprios defeitos. Esta falsa forma de respeitabilidade é uma desgraça, no tocante à fé. Contudo, compelidos ao Alcoólicos Anônimos, acabam por aprender melhor.
O desfio é a característica predominante de muitos alcoólicos, inclusive o desafio a Deus. Pedem para que Deus lhes dê tudo de bom, inclusive coisas utópicas, isso caso Ele exista, e, quando não conseguem, culpam ao próprio Deus por abandoná-los. Então se convertem em bêbados e rezam a Deus para que os salve. E nada acontece. Essa é a falha mais impiedosa de todas. “Para o diabo com este negócio de fé”, dizem.
Em Alcoólicos Anônimos conhecem o erro de sua rebeldia. A crença significa a confiança e não o desafio. Logo conhecem que a humildade é essencial para sua recuperação.
Vários são cheios de fé, embora cheirem a álcool. Eles se sentem devotos inveterados, mas se esquecem de que o mais importante é a qualidade da fé, e não o volume da prática religiosa. Esse é o ponto cego. Consideram praticar a sério suas religiões, mas são superficiais. Acreditam serem iluminados quando não o são. Confundem emocional ismo com sentimentos religiosos. Querem sempre receber sem dar. Sempre dizem: “concedei-me as coisas que eu desejo”, em vez de: “seja feita a vossa vontade”.
Alguns estarão dispostos a se classificarem de “bebedores problema”, mas não aceitarão a simples insinuação de que estão mentalmente doentes. São amparados nesta cegueira por um mundo que não compreende a diferença entre o beber racional, e o alcoolismo. A “sanidade” se define como “saúde mental”. Contudo, nenhum alcoólico analisando sobriamente seu comportamento destrutivo, poderia se considerar possuidor de “saúde mental”, caísse a destruição sobre um objeto, ou sobre sua estrutura moral. Sejamos agnósticos, ateus ou ex-crentes, podemos nos agrupar neste passo. A verdadeira humildade e a mente aberta poderão nos conduzir a fé, e toda reunião de Alcoólicos Anônimos é uma segurança de que Deus nos levará de volta à sanidade, se soubermos nos relacionar corretamente com ele.

3º Passo
Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
Nos primeiros dois passos estivemos refletindo. Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mais também percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em Alcoólicos Anônimos, estava ao alcance de qualquer um. Essas conclusões não requereram ação; requereram apenas aceitação.
Através de ação conseguimos interromper a vontade própria que sempre impediu a entrada de Deus – ou, se preferir, de um Poder Superior – em nossas vidas. Podemos ter fé, mas manter o Poder Superior fora de nossas vidas. Como deixá-lo entrar? Como entregar a vontade e a própria vida aos cuidados do Poder Superior que se pensa possa existir?
O passo inicial é a boa-vontade e se libertar do egoísmo. Saber que quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. A dependência ao Poder Superior, como se pratica em Alcoólicos Anônimos, realmente é um meio de ganhar a verdadeira independência do espírito.
Na vida cotidiana, é alarmante descobrir o quanto somos realmente dependentes e quão inconscientes somos dessa dependência. Toda casa moderna tem fios elétricos que levam força e luz ao seu interior. Ficamos encantados com essa dependência, na maior esperança é que nada possa a vir a interromper o suprimento da corrente. Aceitando nossa dependência dessa maravilha da ciência, descobrimos que somos mais independentes pessoalmente. E não somente somos independentes como também nos sentimos mais confortáveis e seguros. A orça corre justamente para onde ela é necessária silenciosa e confortavelmente, a eletricidade – essa estranha energia que tão poucas pessoas compreendem – supre nossas necessidades mais simples, a as mais desesperadas também.
Porém, no momento em que entra em jogo nossa independência mental e emocional, como nos comportamos diferentemente! Mantemos uma filosofia valente, na qual cada um de nós faz o papel de Deus, para nós soa muito bem, mas será que funciona mesmo? Uma boa olhada no espelho servirá de resposta para qualquer alcoólico.
A auto-suficiência é uma filosofia que não está dando certo e o final é a única ruína. Já sofremos o bastante e é hora de procurar os Alcoólicos Anônimos. Alguns alcoólicos rebeldes concluem que qualquer tipo de dependência é intoleravelmente prejudicial. Mas a dependência de um grupo de Alcoólicos Anônimos ou de um Poder Superior jamais produziu qualquer efeito pernicioso.
Portanto, como faria um indivíduo de boa disposição para seguir entregando sua vontade e sua vida aos cuidados do Poder Superior?
Não é só livrar-se da dependência do álcool, mas também arrumar toda a bagunça moral, espiritual, física e psíquica que o álcool causou. Nada poderá ser feito apenas com a sua coragem e a vontade desassistida. Certamente, chegou a hora de depender de alguém ou alguma coisa.
Ao início, esse “alguém” provavelmente será seu amigo mais próximo em Alcoólicos Anônimos.
A vontade humana de nada serve. Além do álcool existem muitos outros problemas que também não se vencem apenas com a força de vontade. É preciso haver boa disposição e um ato de vontade própria, um esforço pessoal contínuo para se adaptar aos princípios dos doze passos e, assim se espera, à vontade de Deus.
É quando tentamos adaptar a nossa vontade à de Deus que começamos a usá-la corretamente. Para todos nós esta foi uma revelação maravilhosa. Todo nosso problema resultou do abuso da vontade. Havíamos tentado atacar nossos problemas com ela, ao invés de modificá-la, para que estivesse de acordo com a vontade de Deus para conosco. O terceiro passo abre as portas para todos os doze passos. Cada vez que aparecer um momento de indecisão ou de distúrbio emocional, podemos fazer uma pausa, pedir silêncio, e dizer simplesmente: “Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir uma das outras”.

4º Passo
Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
A criação nos deu os instintos por alguma razão. Sem eles não seríamos seres humanos completos.
Contudo, estes instintos, tão necessários para nossas existências, freqüentemente excedem bastante suas funções específicas e insistem em dirigir nossas vidas. Assim, eles nos tiranizam, causam grandes problemas. Acabam por tornar-se de necessários à nossa sobrevivência, em empecilhos físicos e mentais.
Descobrir exatamente como, quando e onde nossos desejos naturais nos deformaram é o objetivo do quarto passo.
Os alcoólicos deveriam ser capazes de perceber que os instintos desenfreados representam a causa básica de suas bebedeiras destrutivas. Temos nos embriagado para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Temos nos embriagado para fugir do sentimento de culpa causado por nossas paixões. Temos nos embriagado pela vangloria, para melhor desfrutar sonhos absurdos de ostentação e poder. Não é agradável olhar esta perversão doentia da alma. Os instintos aliados impedem a investigação e se torna mais fácil nos apegarmos a desculpas para evitar o inventário. Nossos problemas e ansiedades atuais, dizemos, são causados pelo comportamento de outras pessoas que realmente precisam fazer um inventário moral. Acreditamos firmemente que, se elas nos tratassem melhor, não teríamos problemas. Nós não somos os culpados. São elas.
A maioria dos membros de Alcoólicos Anônimos sofreu severamente por causa da auto justificação, na época das bebedeiras. Para a maioria essa escapatória foi a criadora desculpa. Para beber, e para todo tipo de comportamento louco e prejudicial. Precisávamos beber porque no emprego éramos grandes êxitos, ou fracassos funestos; porque as coisas andavam mal ou andavam bem; em casa nos sufocavam com amor ou porque não nos davam amor algum; porque o nosso time ganhou ou porque o nosso time perdeu. E assim por diante, sem fim.
Eram as “circunstancias” que nos faziam beber e como não as controlássemos, nos tornamos alcoólicos. Nunca nos ocorreu que precisávamos mudar a nós mesmos para que nos ajuntássemos às circunstancias, fossem quais fossem.
Em Alcoólicos Anônimos aprendemos que cada vez que bancávamos “os tais”, atraíamos os outros contra nós. Geralmente demorava bastante para percebemos como as nossas emoções descontroladas nos vitimavam. Notávamos logo nos outros, mas só vagarosamente em nós.
Sem duvida, o depressivo e arrogante são personalidades extremas, tipos que Alcoólicos Anônimos e o mundo inteiro possuem em abundancia. Alguns estão até enquadrados nos dois tipos.
Quais são seus defeitos de caráter? Encontrando-os, deve seguir em frente com a nova confiança de que, finalmente está no caminho certo.
Devemos concordar que há bastante de errado em nós alcoólicos, havendo muito a que fazer se esperamos conseguir a sobriedade, o progresso e a verdadeira capacidade de enfrentar a vida.
Para evitar cair em confusão sobre os nomes que deveríamos dar a estes defeitos, tomemos uma relação, universalmente reconhecida, das principais falhas humanas, os sete pecados capitais: orgulho, avareza, luxuria, ira, gula, inveja e preguiça.
Todas estas falhas geram o medo, uma doença da alma em si. Então o medo, por sua vez, gera mais defeitos de caráter. Os medos sem qualquer sentido são cupins que, incansavelmente, devoram os alicerces da vida que tentamos construir.
Uma vez que nos sentimos inteiramente dispostos a inventariar a nossa vida e nos esforçamos para fazê-lo minuciosamente, uma luz maravilhosa cai sobre esta cena nebulosa. Ao persistirmos, nasce um tipo de confiança totalmente novo, e é indescritível a sensação de alivio ao nos encararmos finalmente. Estes são os primeiros frutos do quarto passo.
Disposto agora a iniciar a busca de seus próprios defeitos, perguntará “por onde começo? Como devo fazer para levar a bom termo um inventário de mim mesmo?”.
Usando seu melhor bom senso sobre o que tem sido errado, poderá fazer um exame geral de sua conduta no que tange a seus instintos primários de sexo, segurança e vida social.
Todos os alcoólicos que beberam até perder seus empregos, suas famílias e seus amigos, precisarão reinquirir-se impiedosamente para determinar até que ponto seus defeitos de personalidade demoliram sua segurança.
É por causa de nossas relações deturpadas com parentes, amigos e a sociedade que muitos de nós sofremos mais. Temos sido por demais obtusos e teimosos nestas relações. O fato principal que deixamos de reconhecer é a nossa incapacidade total de manter uma verdadeira intimidade com outro ser humano. Nossa ego mania cava duas armadilhas desastrosas. Insistimos em dominar as pessoas que conhecemos, ou dependemos demais delas. Se nos apoiamos demasiadamente nas pessoas, mais cedo ou mais tarde nos decepcionarão, pois também são humanos e não podem absolutamente satisfazer as nossas exigências incessantes. Assim, nossa insegurança cresce e se inflama. Quando tentamos, habitualmente, manipular os outros para que cumpram nossas teimosas vontades, revoltam-se e resistem fortemente. Então, deixamos crescer os sentimentos feridos, a mania de perseguição e o desejo de retaliação. Conforme redobramos nossos esforços para controlar, e continuamos fracassando, nosso sofrimento torna-se agudo e constante.
Em nenhuma ocasião procuramos ser um membro da família, um amigo entre amigos, um colega entre os outros, ou um membro útil da sociedade. Sempre nos esforçamos para chegar até o topo do morro, ou então para nos escondermos à sombra dele. Da verdadeira fraternidade pouco conhecíamos.
Alguns podem achar que sua história não foi tão ruim na superfície. Mas freqüentemente ficamos embaraçados ao descobrir que isto se deve simplesmente ao fato de havermos enterrado tais defeitos no mais profundo de nós mesmos, debaixo de grossas camadas de auto justificação. Sejam quais forem os defeitos, acabaram por nos emboscar no alcoolismo e na miséria.
Portanto, minuciosamente deveria ser o lema quando se trata de um inventário. Neste sentido, é sábio escrevermos nossas perguntas e respostas. Servirá como ajuda aos pensamentos claros e á avaliação honesta. Será a primeira indicação tangível de nossa total disposição de tocar em frente.

5º Passo
Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
Quando se trata de desinflar o ego, poucos passos são mais duros de aceitar que o quinto passo. A experiência de Alcoólicos Anônimos nos indicou que não podemos viver sozinhos; fizemos um inventario e é hora de falar com alguém a esse respeito.
Recusar-se a pratica do quinto passo, é uma atitude atrapalhada que causa problemas. Algumas pessoas são incapazes de permanecerem sóbrias, outras recaem por não terem feito a verdadeira “limpeza de casa”.
Este sistema de admitir os próprios defeitos à outra pessoa é, sem duvida, muito antigo. Tem sido validada em todos os séculos, e caracteriza a vida de toda pessoa espiritualmente orientada e verdadeiramente religiosa. Hoje, a religião, psicólogos e psiquiatras apontam essa necessidade e Alcoólicos Anônimos, vai ainda mais longe, e afirma que a pessoa não consegue se manter sóbria. Diante desse consenso geral, parece claro que a graça divina não nos tocará para expulsar nossas obsessões destrutivas.
Com o quinto passo virá o beneficio de livrar-nos da terrível sensação de isolamento que sempre tivemos. Aquela sensação de que éramos atores num palco e subitamente descobríamos que não sabíamos uma só linha sequer de nosso papel. Era uma razão pela qual amávamos tanto o álcool. Ele nos permitia desempenhar nosso papel a qualquer tempo. Mas, acabou nos prejudicando; finalmente, nos arrasava e deixava numa solidão aterrorizante.
Vamos ter também na prática do quinto passo, a deliciosa sensação de que podemos ser perdoados, não importando o que tenhamos feito ou pensado. Além disso, pela primeira vez, nos sentíamos verdadeiramente capazes de perdoar aos outros, não importando quão profundamente sentíssemos que nos houvessem maltratado.
Outra grande dádiva que podemos esperar por confiar nossos defeitos a outro ser humano é a humildade.
Maior realismo e, portanto, mais honestidade a nosso respeito são os nossos grandes e positivos benefícios que ganhamos sob a influência do quinto passo. Precisamos da ajuda externa de Deus e de um ser humano para saber, com certeza, a verdade a nosso respeito e admiti-la. Unicamente através de uma discussão sobre nós mesmos, sem esconder nada, estando dispostos a receber advertências e aceitar conselhos, podemos começar a caminhar em direção ao pensamento correto, à honestidade sólida e à autêntica humildade.
Nosso próximo problema será descobrir a pessoa na qual iremos confiar. É preciso cuidado, pois será necessário compartilhar com ela, fatos a nosso respeito que ninguém mais deva saber.
Se a nossa confiança nela estiver bem desenvolvida, se ela se mantém abstêmia, tem experiência e conseguiu superar vários problemas, talvez iguais aos nossos, então será uma boa escolha.
Mesmo depois de ter encontrado a pessoa, o aproximar-se dela requer muita decisão.
Desde que você nada esconda, sua sensação de alivio aumentará de minuto a minuto. As emoções reprimidas durante anos saem de seu confinamento, e milagrosamente desaparecem ao serem expostas. À medida que a dor diminui, é substituída por uma tranqüilidade balsâmica. E quando a humildade e a serenidade se misturam desta maneira, outra importantíssima coisa é capaz de ocorrer. Muitos Alcoólicos Anônimos anteriormente agnósticos ou ateus, dizem que foi nessa fase do quinto passo que realmente sentiram, pela primeira vez, a presença de Deus. É um passo em direção a sobriedade plena e significativa.

6º passo
Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

Uma pessoa cheia de disposição e honestidade suficientes para, repetidamente, experimentar o sexto passo com respeito a todos seus defeitos – em absoluto sem qualquer reserva – tem realmente andado um bom pedaço no campo espiritual e, portanto, merece ser chamado de um homem que está sinceramente empenhado em crescer à imagem e semelhança do criador.
A cada membro sóbrio de Alcoólicos Anônimos foi concedida a libertação da obstinada e potencialmente fatal obsessão para o beber. Portanto, de forma literal e completa, todos Alcoólicos Anônimos “se prontificaram inteiramente” a deixar que o Poder Superior removesse de suas vidas a mania pelo álcool. E o Poder Superior passou a fazer justamente isso.
Quando homens e mulheres derramam tanto álcool para dentro de si, destroem suas vidas e cometem um ato totalmente antinatural. Contrariando seu desejo instintivo de auto preservação, parecem estar resolvidos à autodestruição. Atuam contra seu instinto mais profundo. Por estarem humilhados pela terrível surra administrada pelo álcool, a graça de Deus pode neles penetrar e expelir a obsessão. Aqui, então, seu poderoso instinto de viver pode cooperar plenamente com a decisão do criador de lhes dar nova vida. Pois tanto a natureza quanto Deus abominam o suicídio.
Se pedirmos, Deus certamente perdoará nossas negligências. Porém, nunca irá nos tornar brancos como a neve e nos manterá assim, sem a nossa cooperação. Não podemos esperar que todos nossos defeitos de caráter sejam eliminados como foi nossa compulsão de beber. Alguns deles podem ser eliminados, mas com a maioria teremos de nos contentar com uma melhora que requer paciência.
Se quisermos obter algum resultado concreto na prática deste passo para a solução de problemas do álcool, precisamos fazer uma nova tentativa no sentido de limparmos a mente dos preconceitos. Teremos de enfrentar alguns dos nossos piores defeitos de caráter e tomar medidas para removê-los o mais rápido possível.
No momento em que dizemos: “nunca, jamais”, fechamos nossa mente à graça de Deus. A demora é perigosa e a rebeldia pode significar a morte. Esse é o ponto exato em que teremos de abandonar os nossos objetivos limitados e avançarmos em direção à vontade de Deus para conosco.
7º passo
Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.

Conseguir maior humildade é o princípio fundamental de cada um dos doze passos de Alcoólicos Anônimos, pois sem um certo grau de humildade, nenhum alcoólico poderá permanecer sóbrio. Além disso, quase todos os Alcoólicos Anônimos descobriram que sem desenvolver esta preciosa virtude além de estritamente necessário à sociedade, não terão muitas probabilidades de se manterem sóbrios e felizes. Muitas pessoas não praticam, mesmo ligeiramente, a humildade como um modo de vida. Uma boa parte da conversa cotidiana que ouvimos, e muito do que lemos, salienta o orgulho que o homem tem de suas próprias realizações.
Certamente nenhum alcoólico e, sem dúvida, nenhum membro de Alcoólicos Anônimos quer condenar os avanços e os bens materiais. Porém, vivendo segundo tal pensamento, o alcoólico mais que ninguém se atrapalhou. Quando estávamos obtendo êxito, bebíamos para viver sonhos ainda maiores e quando estávamos frustrados, mesmo um pouco, bebíamos até o esquecimento. Ao invés de considerar a satisfação de nossos desejos materiais como meios pelos quais podíamos viver e funcionar como humanos, entendemos que estas satisfações constituíam a única finalidade e objetivo da vida. Nunca nos ocorreu fazer da honestidade, da tolerância e do verdadeiro amor ao próximo e a Deus, a base do viver cotidiano.
Enquanto estávamos convencidos que podíamos viver exclusivamente pela nossa força e inteligência, tornava-se impossível a fé num Poder Superior que funcionasse. Faltava esse ingrediente básico de toda humildade, o desejo d solicitar e fazer a vontade de Deus.
Só ao fim de 1ª longa estrada, marcada por sucessivas derrotas, humilhações e esmagamento definitivo de nossa auto-suficiência, começamos a sentir a humildade como algo mais do que uma condição de desespero rastejante.
Somos obrigados a escolher entre os sacrifícios das tentativas e as penalidades inapeláveis de não tentar. Poderemos ainda não dar à humildade um valor alto como virtude pessoal desejável, porém reconhecemos que é uma ajuda necessária à nossa sobrevivência.
Desfrutamos momentos em que sentimos algo parecido à verdadeira paz de espírito. Para aqueles de nós que, até então, conheceram somente a excitação, a depressão ou a ansiedade, esta nova paz conquistada é uma dádiva inestimável. Realmente, foi acrescentado algo novo. Anteriormente, a humildade foi uma alimentação forçada, mas, agora começa a significar o ingrediente nutritivo que nos pode trazer a serenidade.
Em Alcoólicos Anônimos observamos e escutamos. Por todo lado percebemos o fracasso e a miséria transformados, pela humildade, em valores inestimáveis. Ouvimos historias após historias de como a humildade havia convertido a fraqueza em foca. Em todos os casos, o sofrimento havia sido o preço de ingresso para uma nova vida. A humildade é um remédio para a dor. Começamos a ter menos medo da dor e desejar a humildade mais do que nunca.
Percebemos que não era necessário sermos levados à humildade por cacetadas e pancadas. Podíamos procurá-la voluntariamente. Ela não era mais algo que precisávamos ter e sim ago que queríamos ter.
Toda a ênfase do sétimo passo é sobre a humildade. Na realidade, está nos dizendo que agora devemos estar dispostos a tentar a humildade na procura da remoção de nossas outras falhas, da mesma forma como fizemos quando admitimos que éramos impotentes perante o álcool e chegamos a acreditar que um Poder Superior a nós poderia nos devolver à sanidade. Se esse grau de humildade nos tornou capazes de descobrir a graça pela qual uma obsessão assim fatal pôde ser banida, então deve existir esperança de obter o mesmo resultado em relação a qualquer outro problema que possamos ter.

8º passo
Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.

Aprender a viver em paz, companheirismo e fraternidade com qualquer homem ou mulher, é uma aventura comovente e fascinante.
O primeiro a fazer é uma relação de pessoas que prejudicamos ou que nos prejudicaram na nossa adicção. Há um obstáculo difícil a ser transposto, é o perdão. Evitando encarar as ofensas que temos dirigido a outro, costumamos salientar, com ressentimento, as afrontas que ele nos tem feito. Isso acontece especialmente quando ele, de fato, tenha se comportado mal. Triunfalmente nos agarramos à sua má conduta como desculpa perfeita para minimizar ou esquecer a nossa.
Ora, lembremo-nos de que os alcoólicos não são os únicos afligidos por emoções doentias. Além do mais, geralmente é um fato que, quando bebíamos, nosso comportamento agravava os defeitos dos outros. Em muitos casos estamos, na realidade, em frente a co-sofredores, pessoas que tiveram seus problemas aumentados pela nossa contribuição.
A perspectiva de chegar a visitar ou mesmo escrever às pessoas envolvidas, agora nos parecia difícil, sobretudo quando lembrávamos a desaprovação com que a maioria delas nos encarava. Também havia casos em que havíamos prejudicado certas pessoas que, felizmente, ainda desconheciam que haviam sido prejudicadas. Alguns de nós tropeçaram em um obstáculo bem diferente. Apegamo-nos à tese de que, quando bebíamos, nunca ferimos alguém, exceto nós mesmos. Essa atitude é o resultado final do esquecimento forçado.
Mas, embora, às vezes, totalmente esquecidos, os conflitos emocionais que nos prejudicaram se ocultam e permaneceram, em lugar profundo, abaixo do nível da consciência.
É necessário que tiremos de um exame de nossas relações pessoais toda informação possível sobre nós e nossas dificuldades fundamentais, haja vista que as relações deficientes com outros seres humanos quase sempre foram a causa imediata de nossas mágoas, inclusive de nosso alcoolismo.
Os danos que causamos a outras pessoas, poderíamos dizer que é o resultado de choques de instintos, que causam prejuízos físicos, mentais, emocionais ou espirituais às pessoas.
Deveríamos, é claro, ponderar e pesar cada caso cuidadosamente. Não devemos exagerar nem os nossos defeitos, nem os deles.
Haveremos de querer nos apegar à decisão de admitir as coisas que nós temos feito, ao mesmo tempo em que desculpamos as injurias feitas a nós, sejam elas reais ou imaginarias.

9º passo
Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem.

Após haver elaborado a relação das pessoas as quais prejudicamos, refletido bem sobre cada caso específico e procurado nos imbuir do propósito correto de agir, veremos que o reparo dos danos causados divide em várias classes aqueles aos quais nos devemos dirigir. Haverá os que deverão ter preferências, tão logo estejamos razoavelmente confiantes em poder manter nossa sobriedade. Haverá aqueles aos quais poderemos fazer uma reparação apenas parcial, para que revelações completas não façam a eles e a outros mais danos do que reparos. Haverá outros casos em que a ação deverá ser adiada, e ainda outros em que, pela própria natureza da situação, jamais poderemos fazer um contato pessoal direto.
Precisamos estar preparados para aceitar que as pessoas nos desculpem, perdoem, ou que não o façam. Isto jamais deverá nos desviar de nosso objetivo firme e constante.
Acima de tudo, devemos estar absolutamente seguros de que não estamos demorando por causa do medo. Pois a disposição de aceitar todas as conseqüências de nossos atos passados e, ao mesmo tempo, de assumir a responsabilidade pelo bem-estar de outros, constitui o próprio espírito do nono passo.

10º passo
Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

Não é necessário no décimo passo, perambularmos pelo passado. É necessário isto sim, a admissão e correção dos erros agora.
É neste verdadeiro balancete diário, que creditamos a nosso favor ou debitamos contra nós as coisas que julgamos bem ou mal feitas. A cada seis meses, devemos juntamente com nosso padrinho, fazer uma “limpeza geral” que é uma revisão importante de nossos comportamentos diante das várias situações surgidas no período e anotadas diariamente.
No início pode parecer difícil escrever diariamente sobre todas situações que nos levaram a emoções boas ou más, porém, o inventário, com o passar do tempo, passará a fazer parte integrante de nossa vida diária e não uma coisa rara ou à parte.
É um preceito espiritual, o de que cada vez que estamos perturbados, seja qual for a causa, alguma coisa em nós está errada. Se ao sermos ofendidos, nos irritamos, é sinal de que também estamos errados. O rancor, embora justificável, devemos deixar para aqueles que possam melhor controlá-lo.
Fomos atingidos por ressentimentos, nossas mágoas não tinham importância. Estragávamos nosso dia com mau gênio, revolta, incapacidade de distinguir se os rancores eram justificados ou não, mas também, tanto fazia, pois a nosso ver, sempre tínhamos razão, os outros é que estavam sempre errados e nos perseguiam sem motivos. Nossas emoções invariavelmente eram de ira, ciúme, inveja, auto piedade, orgulho ferido etc. e esses senti.s nos levavam diretamente à garrafa.
O inventário “relâmpago” visa nossas variações de humor, especialmente aquelas quando pessoas ou novos acontecimentos nos desequilibram e nos levam à tentação de cometer enganos. Para se evitar as terríveis “bebedeiras secas”, necessitamos autodomínio, disposição para admitir nossa culpa e, igualmente, para desculpar as ouras pessoas. Não se martirize: essas disciplinas não são fáceis, mas nosso objetivo não é a perfeição e sim o aperfeiçoamento.
Humildade faz muito bem e devemos nos lembrar a todo instante, que se hoje estamos sóbrios é porque Deus o quis, e qualquer vitória que, porventura, estamos gozando, é mais êxito dele do que nosso.
Ao desapontarmos aluem, devemos admiti-lo imediatamente, sempre perante nós e, se houver utilidade, perante a pessoa também.
Evidentemente que nem tudo são erros. No nosso dia-a-dia, praticamos uma porção de atos construtivos que ao relatarmos no inventário relâmpago, nos fornecem o estímulo necessário para prosseguir.
É uma excelente hora para refletir se agirmos movidos pelas emoções e qual teria sido o melhor comportamento. Aprender a identificar, admitir e corrigir nossas possíveis falhas, todos os dias constitui a essência da edificação do caráter e da vida correta.
O sincero arrependimento pelos danos causados, a gratidão genuína pelas bênçãos recebidas e a disposição de tentar melhores coisas amanhã, serão os valores permanentes que procuraremos. Tendo, dessa forma, feito o exame meticuloso de nosso dia, sem deixar de incluir as coisas bem feitas e tendo vasculhado nossos corações, sem medo ou concessões, estamos realmente prontos para agradecer a Deus todas as graças recebidas e podemos, então, dormir com a consciência tranqüila.
11º passo
Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.

A oração e a meditação são nossos meios principais de contato consciente com Deus.
Muitas vezes pensamos que auxiliar outro alcoólico já é o bastante e ao esquecermos da prática da oração e meditação, ou só a praticando nos momentos de emergências, estamos recusando um suporte essencial ao bem estar das nossas mentes, emoções e intuições.
As práticas do auto-exame, da meditação e da oração estão diretamente interligadas. Usadas separadamente, elas podem trazer muito alívio e benefício, mas quando são relacionadas e interligadas logicamente, resultam em uma base inabalável para toda a vida.
Como nos foi dado perceber, é pelo exame de nossos próprios pensamentos e sentimentos que conseguimos que uma nova visão, ação e graça venham a influir no lado escuro e negativo de nosso ser.
Vamos querer que o bem que está dentro de todos nós, cresça e floresça. Sabemos que poucas coisas podem crescer na escuridão. A meditação é um passo em direção ao sol.

Pergunta: Mas o que é a oração e a meditação? Como podemos fazê-las e qual a diferença entre as duas?

Bem poderíamos começar desta maneira: primeiro procuremos uma oração que seja boa de fato. Não será necessário procurar muito. Iniciemos com uma que é clássica: a oração de São Francisco.
Meditando sobre ela, podemos sentir que primeiro ele quis tornar-se um “instrumento de paz”. Então ele pediu a graça de levar amor, perdão, harmonia, verdade, fé, esperança, luz e alegria a todos quantos pudesse. Depois veio a expressão de uma aspiração e de uma esperança para ele próprio. Ele esperava que se Deus quisesse, lhe fosse permitido ser capaz de encontrar alguns desses tesouros também. Isso ele tentaria realizar através do que chamou de dar de si mesmo. O que ele quis dizer com “é dando que se recebe” e como se propôs a consegui-lo?
Ele achava melhor consolar e não ser consolado; compreender e não ser compreendido; perdoar e não ser perdoado.
Ao pensarmos em quanto valor dávamos, em outro tempo, à imaginação que tentava criar a realidade de dentro das garrafas, veremos que nada há de mal na imaginação construtiva.
A meditação é algo que pode ser desenvolvido. Ela não tem limites, é uma aventura individual que cada um realiza a sua maneira e o objetivo é o mesmo: melhorar nosso contato consciente com Deus, com sua graça, sabedoria e amor.
Já a oração, é a elevação do coração e da mente para Deus. O estilo comum de oração é uma petição a Deus. Mas seja ela qual for, faz-se necessário a extensão: “nos dê o conhecimento de sua vontade em relação a nós e forças para realizá-la”.
Nos momentos de fortes perturbações emocionais, manteremos nosso equilíbrio se nos lembrarmos de uma oração qualquer ou frase que, particularmente, nos tenha agradado e a repetirmos algumas vezes.
Devemos orar para que se faça a vontade de Deus, seja ela qual for, tanto para nós como para os outros. Devemos nos conscientizar de que Deus, efetivamente, “age de maneira misteriosa na realização de suas maravilhas” e ele conhece nossas necessidades e o momento certo de agir.
É importante sabermos que o amor de Deus vela sobre nós. Pensando assim, não mais nos sentiremos abandonados, amedrontados e sem objetivo na vida. Começamos a ver a verdade, a justiça e o amor com os valores reais e eternos e não mais unicamente com a nossa visão materialista dos fatos.

12º passo
Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses Passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades.

No 12º passo, o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave. Devemos nos doar aos que ainda sofrem, sem pedir nada em troca, pois aquilo que recebemos de graça, também o devemos dar de graça.
O despertar espiritual é diferente para cada pessoa, mas existem coisas em comum entre si. A pessoa se torna capaz de fazer, sentir e acreditar em coisas como antes não podia. É uma nova maneira de se e um novo estado de consciência. A vida não é mais um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Agora há um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se supunha totalmente incapaz.
Em Alcoólicos Anônimos, até o último dos recém-chegados descobre recompensas nunca sonhadas quando procura ajudar seu irmão alcoólico. Isto de fato, é dar, nada pedindo em troca. Não se espera de seu companheiro qualquer paga ou mesmo amor. E então, descobre que, pelo paradoxo divino contido nessa maneira de dar, já recebeu a sua própria recompensa, não importando se seu irmão foi ajudado ou não.
Contemplar os olhos dos homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida que passam da treva para a luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico marginalizado sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um amantíssimo em suas vidas são fatos que constituem a essência do bem que nos invade, quando levamos a mensagem de Alcoólicos Anônimos ao irmão sofredor.
Descobrimos que somos capazes de suportar nossos reveses e que os maiores desafios nos vêm dos pequenos e crônicos problemas da vida. Nossa resposta está em aumentar nosso desenvolvimento espiritual. E, ao crescermos espiritualmente, içamos sabendo que as velhas atitudes precisam sofrer drástica revisão. A satisfação de nossos instintos não pode ser o objeto exclusivo, a única finalidade da vida. Se pusermos os instintos em primeiro lugar, estaremos colocando a carroça diante dos bois e seremos arrastados para a desilusão. Ao contrário, se nos dispusermos a elevar ao primeiro plano o nosso crescimento espiritual, então, e apenas então, teremos chance.
Querendo ter e fazer as coisas à nossa maneira, fomos lançados em situações intratáveis com outras pessoas. Ou a dominávamos ou dependíamos delas, e isso invariavelmente as levava a nos repelir ou abandonar por completo. O alcoolismo para nós representou a solidão, apesar de que estivéramos cercados por pessoas que nos amavam. E quando a nossa prepotência havia espantando a todos e nosso isolamento se tornara total, fomos bancar os importantes em botequins de quinta categoria e, então sozinhos, perambular sem rumo pelas ruas. Para aqueles de nós que eram assim, Alcoólicos Anônimos teve um sentido muito especial. Através dele começamos aprendendo a manter voas relações com as pessoas que nos compreendem; não há mais necessidade de ficarmos sós.
Já não nos esforçamos mais para dominar ou controlar os que nos cercam com o sentido de tornarmos importantes. Não mais perseguimos a fama e a gloria a fim de sermos elogiados. Quando, devido aos bons serviços que prestamos a parentes, amigos, patrões e à comunidade, atraímos a simpatia geral e, às vezes, somos escolhidos para funções de maior responsabilidade e confiança, tentamos ser humilde nos agradecimentos e nos esforçamos mais ainda com o ânimo de amar e servir. A liderança autêntica é aquela que tem por base o exemplo construtivo e não as efêmeras exibições de poder e glória.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Perguntas e respostas sobre os Doze Passos de A.A.
Se você nunca ouviu falar de Alcoólicos Anônimos, mate sua curiosidade…

(1) “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool, que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

P: Como é que alguém pode saber que é alcoólatra?
R: Alcoólatra é aquela pessoa cuja maneira de beber lhe causa problemas em todas as áreas de sua vida. A obsessão pela bebida é uma das principais características. Para o alcoólatra o contato com a bebida alcoólica tem um sentido diferente das outras pessoas.
Não há idade para se tornar alcoólatra. O fato de levar àqueles que bebem demais para suas casas não quer dizer nada, ao contrario, o alcoólatra possui uma resistência ao álcool incomum e superior aos outros. Não é necessário beber nem estar embriagado diariamente, mesmo os bebedores de fim de semana podem ser alcoólatras, a importância na espera de beber no fim de semana pode ser um sinal, vale a pena verificar se mesmo durante o fim de semana paramos de beber quando queremos ou se bebemos em demasia para recuperar os dias perdidos da semana sem a bebida.

P: É difícil admitir ser um doente alcoólatra?
R: Sim, estamos aqui tratando de uma doença conhecida como a doença da negação, achamos que os outros são os alcoólatras, justificamos sempre nosso modo de beber, dizemos que bebemos quando queremos e paramos quando queremos com nosso dinheiro
e sem incomodar ninguém, que nunca estivemos na sarjeta, achamos que os bêbados são aqueles que todo dia estão bebendo no bar até cair. Nosso orgulho nos impede ser honesto com os outros e com nós mesmos.

(2) “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

P: Em quê ou em quem se pode acreditar?
R: Se no enunciado deste Passo se fala de “sanidade”, é porque o alcoólatra não tem nenhum controle sobre seu modo de beber, ele não é dono da situação quando bebe, se não pode fazer uso da “vontade própria” frente ao álcool e por causa da doença, terá que confiar em algo ou alguém que o tire dessa situação desesperadora que o pode levar à loucura ou à morte prematura. Não se trata exatamente de religião, em A.A. há ateus e agnósticos. Se não conseguimos parar de beber nem controlar nossas vidas sozinhos, em A.A. conseguimos, é porque acreditamos que existe “algo ou alguém” que pode e é superior a nós. Como, aonde? . . . . . não sei.
P: Estes Passos não ferem o orgulho do alcoólatra?, Será que não mexem com a sensibilidade da pessoa?
R: A maioria dentre nós chegou em A.A. por necessidade e não por opção, no fim de nosso alcoolismo ativo chegamos à dependência total do álcool, ele tinha-se tornado nosso poder superior. O que quer dizer alcoólatra? Álcool e idolatra, adoração sem escolha do álcool, dependência. Chegando a ponto de ter que escolher entre a vida ou a
morte, após a aceitação de nossa condição, passamos a inverter nossa escolha para um Poder Superior, é o despertar da fé.

(3) “Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos”.

P: Vontade?, então porque não usaram sua força de vontade para parar de beber?
R: Quando bebíamos fazíamos uso de nossa vontade para destruir os outros e a nós mesmos, nada dava certo quando agimos em função de nossos impulsos. Para parar de beber de nada adiantava nossa vontade já totalmente dominada pelo álcool, éramos impotentes e perdemos o controle total sobre tudo e sobre todos.

P: Para que entregar sua vida e sua vontade, qual a vantagem?
R: Após termos abandonado a bebida no primeiro Passo, nossa vidas continuam como para qualquer pessoa, há dias melhores e outros piores, quando nos deparamos com situações ou fatos adversos precisamos ser cautelosos para não deixar que nossos defeitos
tomem conta de nós, se entregamos tais fatos e situações a Deus, sentimo-nos ajudados e mais leves, deixando que as coisas aconteçam por si só, mas nunca pelo nosso instinto natural, porque isto poderia até nos levar a beber de novo.

(4) “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

P: O que seria colocar todo o passado a limpo para o alcoólico?
R: O alcoólatra por causa da doença vive uma vida completamente fora de seu comando, fere os principais valores e princípios da sociedade; família, profissional, social e legal.
Ele revê todos estes valores através do autoconhecimento fazendo um minucioso e destemido inventário de si mesmo.

P: Qual é o objetivo de fazer um inventario de toda a vida?
R: Perdemos nossa identidade durante estes anos todos. Se não nos conhecemos não será possível saber as causas verdadeiras dessas distorções emocionais, onde, quando, e porque. Fazemos uma lista dessas falhas que nos serve como roteiro para mudar nossas vidas.

(5) “Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.
P: Que beneficio traz o cumprimento desta sugestão?
R: Acumulamos durante muitos anos, defeitos de caráter como orgulho, egoísmo, prepotência e outros mais, não nos convém conviver com as sequelas e pesadelos do passado, avaliamo-los e colocamo-los para fora, precisamos nos “libertar” deles, eliminando-os e aprimorando nossas qualidades.

P: Como escolher a pessoa em quem confiar?
R: Devemos procurar uma pessoa de nossa confiança, este método é utilizado há séculos pelas religiões como por exemplo a confissão. Poderemos escolher como melhor nos convenha, um padre religioso, um medico, um amigo ou um membro experiente de A.A.,
o importante é que possamos limpar nossa casa e reconhecer de viva voz nossas falhas.

(5) “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”.

P: É um esforço permanente que o doente alcoólatra deve fazer para permanecer sóbrio?
R: Sim, somos portadores da doença do alcoolismo, uma doença que é incurável, devemos esforçar-nos constantemente evitando o primeiro gole e praticando as sugestões de A.A. para permanecermos sóbrios. Nos Passos anteriores percebemos que não estávamos mais sozinhos, o que torna mais fácil a prática destes Passos.

P: O cumprimento das sugestões é um aprimoramento constante do indivíduo?
R: Prontificamo-nos quer dizer “estar prontos”, nos primeiros Passos conseguimos nos aproximar do Poder Superior, se confiamos Nele não nos deixará na mão. Devemos progredir, não podemos estacionar nossa recuperação, não é suficiente parar de beber, precisamos crescer espiritualmente para viver bem e com segurança, o aperfeiçoamento é
necessário para nós, desta maneira conseguimos uma recuperação satisfatória.

(6) “Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”.

P: O que pode significar a humildade para o doente alcoólatra?
R: O alcoólatra sempre foi um grande sonhador, tem a imaginação farta e controla com relativa facilidade situações que para outros podem parecer difíceis. Com o álcool vieram as frustrações, decepções, ressentimentos, autopiedade e ociosidade, o que criou um bloqueio para continuar a conviver com os outros. Durante o alcoolismo ativo a palavra humildade a maioria de nós a interpretava como humilhação, e somente após parar de beber e praticar os Passos percebemos o verdadeiro sentido da humildade que nunca tivemos antes.
P: Esta transformação total do alcoólatra não o prejudica para se reintegrar na sociedade?
R: Estes Passos, quando praticados nos permitem resgatar nossa verdadeira identidade e estarmos de bem com a vida e com nós mesmos, se eu estou bem comigo estarei bem com a sociedade, consigo amar aos outros e aceita-los como eles são, antes queria que os outros mudassem e fossem do jeito que eu queria, agora quem se modifica sou eu. Nosso amor vai de dentro de nós para fora e aprendemos a amar de forma desinteressada sem esperar nada em troca. Estamos substituindo imperfeições por qualidades.

(7) “Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”.

P: É realmente preciso passar por essa humilhação?
R: Para nós o fato de pedir desculpas não representa mais se humilhar, porém sermos humildes nos é salutar para o progresso e crescimento espiritual, já fizemos no quarto Passo uma lista de fatos ocorridos que poderão nos ajudar a relacionar estas pessoas, agora quereremos entrar em “ação” para limpar ainda mais um pouco nosso passado, será
preciso um esforço para efetuar essas reparações, mas atualizar nossas vidas e deixa-las em dia é necessário para nos reintegrar na sociedade e conviver com os outros.

P: Quais seriam os critérios para avaliar a quem deve ou não deve reparar os danos causados na época em que estava bebendo?
R: É um assunto de ordem totalmente individual que tão somente pode ser avaliada por nós mesmos com toda honestidade. Em alguns casos sabemos que não poderemos fazer tais reparações porque algumas destas pessoas mudaram-se de endereço, estado ou país, para outras fazermos reparações poderá prejudicá-las ou a nós mesmos. Faremos a relação em sua totalidade, porém no próximo Passo veremos a quem faremos ou não tais reparações.

(9) “Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando faze-lo significasse prejudicá-las ou a outrem”.
P: Precisam ter muita coragem para pedir perdão a outra pessoa?
R: Pode parecer um desafio muito grande mas não é bem assim, não é nenhum bicho de sete cabeças. Os Passos anteriores nos ajudaram a nos preparar para a execução deste Passo. Estudamos cada situação e perfil da pessoa a quem vamos fazer os reparos, com algumas poderemos ter que explicar com mais detalhes o porque do nosso antigo comportamento com ela, tentaremos explicar sobre nossa doença e da necessidade de fazermos estas reparações. Em cada caso vamos nos expor da maneira mais adequada, na procura, sempre, de obter os mesmos resultados.
P: Como podem conseguir uma mudança tão radical no seu comportamento?, o que vocês ganham fazendo este Passo?.
R: Sim, há uma mudança radical do alcoólatra em recuperação, os outros a percebem, tanto em nossa aparência como em nosso comportamento, pois refletimos exteriormente nosso bem estar interior. Convêm fazer essas reparações sempre frente a frente à pessoa
que prejudicamos. O resultado e surpreendente, a maioria das vezes as portas se abrem e reatamos novamente as amizades do passado, passamos a ser respeitados pelas pessoas bem ao contrario da época que bebíamos. Nossos interlocutores após nossas reparações também se comportam de maneira diferente conosco, ficam admirados e acham até incoerente ou incompreensível uma mudança tão radical.
(10) “Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.
P: Para que serve esta sugestão?
R: O décimo Passo serve-nos para fazer um mini-inventario de nosso dia a dia, avaliamos o que aconteceu durante o dia tanto de bom como de ruim, contudo, poderemos de imediato modificar ou eliminar nossos defeitos e reparar nossos erros.
P: Mas, vocês não tinham já feito um inventario no quarto Passo?
R: Sim, quando iniciamos a prática dos Passos, mas naquele Passo estivemos relacionando nossa vida por escrito, tentando levantar a origem de nossos defeitos de caráter, quando, onde e porque. Este passo refere-se à manutenção diária para mantermos uma recuperação satisfatória. Não nos convêm carregar sentimentos de culpa, raiva ou
ressentimento em função de fatos ocorridos durante o dia a dia.
(11) “Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.
P: Como é que vocês praticam esse tipo de oração?
R: Conseguimos através dos Passos que antecedem, reformular nossas vidas, aprimorar nosso comportamento e crescer espiritualmente, sentimo-nos agora mais próximos e comunicamo-nos com mais facilidade com o Poder Superior. Pedimos Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar
aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras, esta singela oração conhecida no A.A. no mundo inteiro é uma base muito sólida para permanecermos sóbrios. Cada um de nós conforme suas crenças ora e medita como melhor lhe convêm, não temos normas a seguir, procuramos saber através da prece o que Ele quer de nos,
como devemos agir, pedimos ajuda e auxilio para os outros, nada para nós. Este Passo é de grande valia e nos traz grandes resultados para mantermo-nos sóbrios de forma contínua.

P: Vocês conseguem obter resultados sobre os pedidos que fazem nas orações?
R: Sim, os resultados de nossas preces se apresentam de inúmeras maneiras. Não costumamos fazer pedidos para nós, preferimos rogar por mais um dia de sobriedade.
Entendemos a importância que representa o fato de permanecermos vivos quando tanto nos maltratamos, sabemos que não tínhamos força de vontade suficiente para parar de beber, este Passo nos proporciona a oportunidade entre outras coisas para sermos gratos a Deus pelo que fez por nós.

(12) “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólatras e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

P: O que é esse despertar espiritual?
R: Representa para nós uma maneira de pensar diferente daquela quando bebíamos. Uma melhor compreensão das coisas, uma estreita relação com o Poder Superior, desejando fazer a vontade Dele juntamente com a nossa.

P: O fato de ajudarem desta forma desinteressada os outros alcoólatras que ainda não conseguiram parar de beber, vocês seriam como um clube de verdadeiras estrelas na sociedade como um todo?
R: Nada de estrelato, em A.A., somos totalmente anônimos. Fazemos questão de resguardar nosso anonimato. Queremos levar uma mensagem de esperança para aqueles que tem problemas com seu modo de beber, levar esta mensagem a outro alcoólico faz parte de nossa recuperação, nos lembra quem éramos e de como chegamos em A.A.

Minha opinião sobre A.A.
Resumindo
Capitulo V do livro azul
Vamos chegando aos finalmente desta pequena leitura, poderia se escrever paginas e mais paginas sobre o assunto “alcoolismo”, é realmente um tema muito amplo.
Até o presente momento não há explicações nem estudos confiáveis que possam tratar de uma cura definitiva para a compulsão e obsessão alcoólica. Entretanto pode ser detida porque eu sou testemunho do que aconteceu comigo, foi em Alcoólicos Anônimos que consegui parar de beber, aconteceu um milagre?, não sei se existem, mas acredito que a fé pode resolver muitas coisas. Como disse anteriormente, trata-se de uma doença sem cura, mas se fossemos reler e interpretar os três primeiros Passos de A.A. poderíamos deduzir; 1o) eu não posso, 2o)
alguém pode, 3o) se eu deixar. Acho que temos aí uma boa resposta para deter o alcoolismo.
Não pedi para nascer, mas estou aqui neste planeta dos homens, entre vários bilhões de galáxias. Tive uma infância problemática e tinha que ser assim, sem dúvida estava tudo predeterminado até o meu “hoje”. Muitas das situações que vivi foram por mim provocadas mas outras caíram sobre mim como uma caçamba descarregando entulho. Não esqueço o meu passado, mas também não tenho saudades dele, prefiro olhar em frente vivendo no presente. Tive uma vida agitada, no que diz respeito a minhas emoções paguei um preço bastante alto, pois conforme cresci e me tornei adulto fui desenvolvendo uma psico – maníaco – depressão que com a descoberta e ingestão do álcool me firmei, igual aquele que despenca de uma arvore e se agarra a um galho para não se machucar.
Por motivos forçados viajei e procurei sempre novas aventuras para fugir das realidades e obstáculos que encontrei no meu caminho, a única vantagem foi a de conhecer muitíssimas pessoas, culturas, hábitos, línguas e lugares diferentes. Sempre queria guardar na memória o que estava vendo e vivendo, achava fantástico e não queria nunca mais esquecer, mas os lugares e situações foram tantos que somente sou capaz de lembrar-me vagamente de alguns quando menos espero.
Apesar da não aceitação em assumir responsabilidades de gente grande ainda na minha adolescência, sempre administrei com firmeza e responsabilidade todas as situações que vivi por causa de minhas ambições, se era arrimo queria exercer a função da melhor maneira possível, isto me dava coragem para “ir mais longe ainda” e além de sustentar os que dependiam de mim queria fazer minha fortuna pessoal.
Achava na minha juventude que vivia “plenamente”, por ter dinheiro, bens materiais, poder, mulheres e beleza física. Acredito que todo e qualquer ser humano passa por esta fase em sua vida, cada qual ao seu modo e realidade, na sua comunidade. Pensava naquela época que
havia no mundo “eu” e seis bilhões de pessoas, ao contrario de hoje que entendo que somos seis bilhões de pessoas e eu.
Não tive a oportunidade de ir muito longe com meus estudos, precisei trabalhar logo aos quatorze anos, de todas formas meu estado emocional não me permitia a concentração necessária para aprender devidamente e poder tirar notas aceitáveis, mas as experiências da vida e meu percurso geográfico foram de alta importância para meu desempenho profissional, minha melhor escola foram as experiências que vivi. O fato de ser uma pessoa de “campo”, me proporcionou o
conhecimento do relacionamento humano, me aprofundando com os interlocutores de tal modo que conseguiria em poucos minutos saber com quem estava lidando, uma forma muito prática de aplicar a psicologia.
Quando conheci a Augusta já em outra fase de minha vida, passaria a rever o termo de viver “plenamente”, o trocaria por “plenitude” que achava mais real e oportuno devido ao amor que nos unia. O álcool foi sempre uma companhia muito agradável, tinha o percebimento das
coisas, fazia tudo normalmente, parecia uma pessoa normal como qualquer um, mas o álcool era um ingrediente permanente em minha vida, fui sempre um bom bebedor e por isso me achava normal, pouco podia imaginar que as quantidades aumentariam, estabilizariam e mais tarde beberia menos produzindo um efeito maior porque meu corpo estaria saturado e com menos resistência.
Hoje como já disse, sou membro de Alcoólicos Anônimos, me mantenho exclusivamente nessa linha de programação para minha recuperação diária, não pratico nenhuma religião e também não sou contra. Apesar de ser católico apostólico e romano, encontro em A.A. tudo o que eu preciso para manter-me sóbrio um dia de cada vez e viver feliz. Poderia ter conhecido outras entidades, religiões ou igrejas que também podem dar certo se o individuo acha ali as respostas que atendem suas necessidades. Não tenho nada contra quem bebe e acho até que faz
muito bem se a pessoa não tem problemas com a bebida, eu sei que eu não posso beber, também não tenho nada contra quem fabrica a bebida nem quem faz publicidade, o mundo é assim mesmo, eu faço parte de uma minoria de dez por cento da humanidade que tem ou pode ter
problemas sérios com a bebida alcoólica.
Meu pior dia hoje é muito melhor que o melhor dia quando estava na ativa do alcoolismo, sei o que estou fazendo e tenho a mente aberta para ficar alerta, preciso diariamente estar vigilante para não cair numa armadilha e voltar a beber, uma recaída não começa quando voltamos a beber e sim termina no copo. Tenho visto recaídas e não gostaria passar por isto, mas as vezes para alguns isso faz parte da recuperação, perde-se o controle porque ainda não chegou a hora ou simplesmente porque acha-se que já se está curado, ou ainda porque talvez se acredite que seja possível beber socialmente, bela ilusão. Contudo, muitos têm tentado a qualquer preço parar de beber, ficaram por alguns tempos e nunca mais os vimos na sala de A.A. Para estes e
especialmente para que você possa entender do que estamos falando aqui, vou transcrever um trecho da literatura de A.A., talvez seja o meu preferido:

Alcoólicos Anônimos
Capitulo V – Livro Azul
COMO FUNCIONA
Raramente temos visto fracassar uma pessoa que cuidadosamente seguiu nosso caminho. Os que não se recuperam é porque não podem ou não querem se entregar completamente a este programa simples. Geralmente, homens e mulheres que, pelas suas constituições, são incapazes de serem honestos consigo mesmos. Existem tais desafortunados. Eles não têm culpa; parecem ter nascido assim. São, por natureza, incapazes de desenvolverem um modo de vida que requeira rigorosa honestidade. Suas “chances” são menores que o comum. Existem, também, aquelas que sofrem de graves desequilíbrios emocionais e mentais, embora muitos se recuperem por ter a capacidade de serem honestos.
Nossas histórias revelam, de um modo geral, como éramos, que aconteceu conosco e como somos agora. Se estiver decidido, deseja o que nós temos e faria qualquer coisa para tê-lo – então você está pronto para tomar certas medidas.
Frente a algumas, nós recuamos. Pensamos poder encontrar maneira mais fácil. Porém, não pudemos. Com toda sinceridade imploramos que leve a sério o programa desde o início. Alguns de nós tentamos apegar-nos às nossas velhas idéias. O resultado foi nulo e nos rendemos
completamente.
Lembre-se que estamos tratando do álcool – destro, frustrador, poderoso! Sem ajuda, é demais para nós. Mas existe Um que é todo-poderoso. Esse Um é Deus. Que O encontre agora!
Esta pequena literatura, não tem a pretensão de trazer a solução do século para o alcoolismo, escrita de modo anônimo e não profissional, de linguagem simples, relata as “duras verdades do alcoolismo” vistas por um alcoólico em recuperação. Cheia de experiências, mas
sem nenhum compromisso, não querendo influenciar ou dar a receita certa para estacionar a doença do alcoolismo (até porque não existe), mas há uma solução porque para mim funciona até hoje. Se puder ajudar alguém, o objetivo estará sendo alcançado. Esta pequena literatura é um testemunho sem fanatismo de como consegui parar de beber através da Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
Recomendaria o programa de A.A. para qualquer pessoa que queira viver uma vida melhor, por se tratar de “um programa de vida”. Mesmo não tendo nada a ver com o alcoolismo você achará com certeza propostas para estar de bem com a vida, seja qual for seu problema há
uma resposta num dos Passos ou em todos no seu conjunto. A.A. não impõe absolutamente nada nem condena ninguém, aliás, sim, se você aplicar os Doze Passos de A.A. em sua vida estará “condenado a ser feliz”.
Particularmente, quero aqui agradecer a Deus na forma que eu O concebo por ter feito por mim o que nunca poderia ter conseguido por mim mesmo, por ter-me colocado A.A. no meu caminho, obrigado por estar vivo. Agradeço ao Brasil por ter-me acolhido de braços abertos, pela beleza do país, pela alegria, simplicidade, calor humano e carinho que os brasileiros tem-me dado. Este Brasil que me ajudou a redescobrir minha verdadeira identidade e reviver a inocência e pureza de minha infância. Não quero entrar em assuntos de ordem política, apesar de que no fim da década de setenta em diante tenha criticado violentamente este país, tenho a alegria de velo mudar para melhor desde noventa e quatro, torço para que os lemas da bandeira Brasileira se tornem realidade, tal e como o alcoolismo convém tratar as causas para que mudem os efeitos, é um trabalho e tanto, mas está sendo bem conduzido, não é fácil mudar as “cabeças”, tomara que daqui a dez ou quinze anos apareçam os resultados.

BIBLIOGRAFIA
1- Alcoólicos Anônimos. Folheto Você deve procurar o A.A.?
2- Alcoólicos Anônimos. Folheto AA em sua comunidade
3- Alcoólicos Anônimos. Os Doze Passos de A.A.
4- Alcoólicos Anônimos. As Doze Tradições de A.A.
5- Robert Linssen – L’Eveil suprême
6- Dr. Josep del Hoyo Calduch – Els perills de l’alcohol
7- Alcoólicos Anônimos. AA atinge a maioridade
8- Alcoólicos Anônimos. Viver sóbrio
9- Alcoólicos Anônimos. Viemos a Acreditar
10- Alcoólicos Anônimos. Levar adiante
11- Alcoólicos Anônimos. Capitulo V

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Acredito que o tema “Alcoolismo” proposto neste livro é de amplo interesse para a sociedade como um todo.
Meu ultimo gole de bebida alcoólica foi em outubro de 1992, e até hoje estou abstêmio de forma contínua ao álcool e sóbrio. Escrevi os fatos mais importantes que marcaram minha vida, relato como foi minha caminhada junto ao álcool durante trinta e um anos sem folga (autobiografia), até onde cheguei por causa do álcool, como e quando encontrei o A.A., e o mais importante, “como consegui parar de beber”. Minha vida hoje, um dia após outro é bem diferente, só por 24 horas, aprendi a viver o “aqui e agora”.
Achei que por gratidão poderia escrever algo à respeito desta doença e que o mínimo que podia fazer era divulgar esta experiência no intuito de informar e/ou alertar aqueles que já perceberam que o álcool está sendo algo muito importante em suas vidas, seja porque bebem
diferente dos outros, seja porque convivem com tais pessoas.
Até o presente momento foram divulgadas varias obras tanto para as classes medicas e profissionais, como outras de auto-ajuda, ainda há as que testemunham o poder da fé de varias religiões no sentido de propagar e de aumentar os rebanhos desta ou aquela religião. Toda e
qualquer obra que trate do problema “alcoolismo” é sempre muito bem-vinda, pois a cada ano aumenta o numero de portadores desta doença de características física, mental e emocional.
O que acredito ser novidade é que apesar de que a obra seja escrita por um “anônimo” não profissional, ela traz uma leitura simples, cheia de experiências, sem nenhum compromisso e atrativa, não querendo influenciar ou dar a receita certa para estacionar a doença do alcoolismo (até porque não existe), mas há uma solução porque para mim funciona até hoje. Se puder ajudar alguém, o objetivo estará sendo alcançado. Esta pequena literatura é um testemunho sem
fanatismo de como consegui parar de beber através da Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
Esta obra é dedicada ao publico em geral sem entrar em controvérsia com A.A. e escrita de forma totalmente “anônima”. Entendo que para resguardar meu “anonimato” meu nome completo deve estar protegido, respeitando as tradições de Alcoólicos Anônimos, porque nossos
princípios estão acima de nossas personalidades.

PASSOS – VISÃO TERAPÊUTICA

1º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

O PRIMEIRO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Primeiro Passo diz: “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

Sem dúvida, é esse o mais importante dos Doze Passos, o inicial para qualquer tentativa de progressão aos subsequentes, e, evidentemente, o mais complexo e difícil de todos.

Pode ser até que seja simples a um alcoólatra, diante de tantos e inegáveis fatos que evidenciem e comprovem sua ingestão descontrolada de bebida alcoólica, vivenciar um processo de exaustão e mesmo de admissão momentânea de que deve parar e reavaliar seu padrão de consumo. Mas é claro, também, que isso não é nem nunca será suficiente para alguém se dispor a reavaliar todo um padrão de vida, de comportamento, toda uma escala de valores e conceitos. É preciso uma admissão muito mais ampla que envolva não somente o uso do álcool, mas que abranja todos os aspectos de sua vida, uma verdadeira e plena aceitação de fracasso. Humilhação? Talvez.

Esta torna-se ainda mais complexa quando verificamos que a motivação para os passos subsequentes originar-se-á apenas dessa consciência e que, portanto, dependerá da consistência e durabilidade de tal aceitação. Vivenciar um mero esgotamento passageiro de recursos é muito diferente de assumir a condição de impotência e real desistência – rendição.

Beber pode não ser mais o objetivo imediato de um alcoolista em processo de dor aguda, mas abrir mão de elementos arraigados por anos e anos de comportamento patológico e elaboração distorcida da realidade significa, sempre, dor maior e mais profunda.

Para o profissional que se disponha a ajudar o alcoolista neste momento, deve ficar claro que este poderá e deverá utilizar mecanismos fortíssimos de defesa para proteger-se dessa perda iminente, ou seja, da perda de um paliativo que foi, se não atualmente, bastante eficaz para alívio de sentimentos desconfortáveis. É constante, portanto, o risco de sabotagem ao tratamento ou a qualquer forma de ajuda, desde que representem ameaça ao sistema estabelecido de imediatismo sintomático.

Portanto, o único auxílio realmente efetivo nessa etapa é proporcionar uma real, objetiva e concreta visão de mundo ao alcoolista, para que este possa elaborar, solidamente, uma consciência estritamente individual da necessidade em progredir no processo de tratamento. Ajudá-lo a enxergar perdas, danos e conseqüências do uso descontrolado do álcool, tentando sempre ampliar o ângulo de visão dessa realidade aos diferentes aspectos de sua vida, é a melhor maneira de fortalecer sua vontade e desenvolver elementos intrínsecos de mobilização para um trabalho a longo prazo.

Alcoólicos Anônimos o faz através das experiências pessoais e é inegável que o exemplo é o melhor conselho e a forma mais objetiva de confrontar. Mas é também inegável que a teoria e a realidade científicas auxiliam bastante nesse trabalho de conscientização.

Pode ser necessário, para isso, o auxílio de outras pessoas que hajam participado diretamente do processo progressivo do alcoolismo e é muito útil a inclusão de familiares, amigos, colegas de trabalho e/ou outros significantes em atividades confrontativas e intervencionistas.

Evidentemente, o fundamento básico do Primeiro Passo é a consciência plena da necessidade de mudar e é muito importante que fique claro que essa mudança não consiste, apenas, em interromper o uso do álcool. É dever do profissional evidenciar, na vida do alcoolista, seqüelas multiespectrais da doença em todos os seus aspectos, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, emocionais, comportamentais ou morais. Uma profunda reavaliação do ser humano é a única forma eficaz conhecida para reverter uma relação tão íntima quanto a relação de dependência. É por esse motivo que o processo de conscientização deve ser ininterrupto, renovado a cada momento do tratamento, pois dele depende a mobilização do paciente para este.

Walter Cunha
2º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

SEGUNDO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Segundo Passo diz: “Viemos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

A chave para o Segundo Passo está na consistência com que é sentida a oração “Viemos a acreditar”. Essas palavras significam, antes de qualquer relação mística ou religiosa, a descoberta da humildade. E ser humilde, nesse caso quer dizer ter consciência de suas limitações, consciência de sua doença e, em função disso, admitir o fundamento essencial da necessidade de ser ajudado para vencer.

Em Alcoólicos Anônimos costuma-se dizer, em relação à recuperação, que só o alcoolista pode, mas jamais o poderá sozinho. Essa é a essência do Segundo Passo, a consciência plena da necessidade de ajuda para superar resistências endógenas e exógenas.

A dificuldade em vivenciar um Segundo Passo pleno varia na medida exata da plenitude em que foi vivenciado o Primeiro Passo. É lógico que quão maior for a consciência da impotência e mais profundo o contato com seu próprio descontrole, mais evidente a necessidade de ajuda para superá-los. Saber-se e admitir-se derrotado significa assumir suas deficiências e pode representar o início de um processo de busca. Nesse processo de maior contato com valores e conceitos; nessa avaliação global da realidade individual, estão embutidas as perspectivas de auxílio objetivo. Apresentá-las de forma concreta e organizada representa uma medida extremamente útil. Que recursos estão disponíveis, no momento, para ajudar essa pessoa? De que forma concretizar-se-á essa ajuda? O profissional deverá neste momento ter a medida exata de oportunismo e envolvimento necessários a um aconselhamento objetivo e prático.

É claro que essa ajuda deverá sempre adaptar-se ao tipo de alcoolista, ou melhor, às características do indivíduo em questão. Encaminhar um materialista a grupos místicos é desperdiçar oportunidades, talvez irresgatáveis. Ao profissional interessa estar a par de todos os recursos disponíveis de tratamento, além de que tipo de tratamento indicar-se-á para cada caso.

O tratamento do alcoolista consiste, em termos genéricos, em fornecer suporte psicossocial á abstinência, ou seja, oferecer a essa pessoa, além de tratamento médico, espaço para sentir, sofrer e crescer sem que para isso seja necessário beber. Compreensão e identidade são fundamentais, objetividade e envolvimento são importantes. Qualquer ação terapêutica que ofereça esses elementos pode ser utilizada paralelamente ao programa dos doze passos. Grupos religiosos, grupos sociais, grupos psicoterapêuticos ou grupos de ajuda mútua incluem-se como recursos cabíveis e úteis.

Conhecer a realidade do paciente: seus medos; suas angústias; suas dúvidas; seus anseios e suas crenças é uma maneira segura de evidenciar características do caso para um encaminhamento objetivo do tratamento.

Para que tudo isso tenha um mínimo de efetividade, uma coisa deve estar totalmente clara para o alcoolista: a impossibilidade absoluta de progresso sem que alguma forma de auxílio lhe seja prestada. Portanto, em qualquer ação profissional relacionada ao Segundo Passo de Alcoólicos Anônimos devem estar sempre evidentes os motivos de tal afirmativa, ou seja, é impossível ajudá-lo no Segundo Passo sem que o primeiro tenha sido vivenciado de forma satisfatória.

Walter Cunha
3º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

TERCEIRO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Terceiro Passo diz: “Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos”.

Agir. Estamos diante de uma dificuldade concreta no processo de tratamento. Até agora, o alcoolista conseguiu vivenciar um sentimento de derrota, um aliviante sentimento de leveza e liberdade, antes que tardia e ainda que fugaz, mas que serviu para apresentá-lo humilde, disposto a ser ajudado. O Terceiro Passo trata de como fazê-lo.

É necessário confiar, acreditar que a ajuda oferecida é suficiente e capaz de reverter o mecanismo de destruição. Medo, dúvidas e ceticismo são naturais e deverão ser enfrentados com paciência e compreensão. A confiança é a mola-mestra para um Terceiro Passo eficaz, é o combustível que moverá o mecanismo terapêutico – apesar do risco constante de retrocessos a cada dificuldade, diante dos quais deve-se, sempre, retornar aos passos anteriores e reforçar a consciência da necessidade do tratamento e da possibilidade de sucesso.

O alcoolista estará, neste momento, diante de características importantes de sua doença: o imediatismo; a compulsividade; a imaturidade; a insegurança e o ceticismo. O álcool trouxe alívio sintomático para seus conflitos mas trouxe-lhe, também, a incapacidade de encará-los sem beber, tolhendo-lhe, cronicamente, as possibilidades de crescimento. Abstêmio, ele estará novamente diante de tais conflitos, desconfortável e sem opções imediatas de alívio. A tendência natural será sempre, até que todo esse processo seja revertido, a recidiva. Sua (de todos) única segurança é a certeza (consciência) de que não há mais alívio, e sim dor cada vez mais intensa, contido no hábito de beber.

O Terceiro Passo é um passo de ação – costuma-se ouvir em grupos de Alcoólicos Anônimos. Chegou o momento, é preciso começar e a única forma para começar a reverter a dependência alcoólica é acreditando que alguma outra forma de ajuda será suficiente para fornecer alívio e conforto. Pessoas, grupos, planos de vida, Deus, algo há de funcionar, o importante é confiar, dar-se a chance de experimentar.

A atitude do profissional, neste momento, é muito importante. Para o alcoólico, submeter-se a um processo de tratamento, onde conceitos e valores definidos e concretizados patologicamente durante tanto tempo devem ser renunciados e reavaliados é, antes de tudo, doloroso. Dor, medo, angústias e pavor são imobilizantes. É diferente saber-se doente e admitir a possibilidade de tratamento, de integrar-se e fazer parte, efetivamente, de um grupo terapêutico. A mobilização do paciente, neste momento, depende, fundamentalmente, de confiança e respeito mútuos. A identificação recíproca como fonte de conforto e alívio da solidão e insegurança tem sido largamente utilizada por Alcoólicos Anônimos.

Visivelmente, a consciência do passado é a mola propulsora desse processo e a entrega, nome dado à verdadeira participação no tratamento, depende, basicamente, de quão necessário esse processo é percebido pelo paciente. Confiar, de uma hora para outra, em pessoas que lhe propõem abstinência do único recurso paliativo a seus conflitos depende de muita resignação e humildade.

A tarefa do profissional consiste, em primeiro lugar, em reforçar sempre a certeza de que o tratamento indicado é extremamente necessário e tão eficaz quanto mais ampla for a participação do paciente. A partir de então, esse profissional poderá ajudá-lo a adquirir confiança no grupo terapêutico, em função da confiança adquirida em si próprio. É comumente notado que o alcoolista passa a acreditar no tratamento a partir do momento em que toma contato com os benefícios que o mesmo vem-lhe trazendo. Incentivo, apoio e envolvimento são, aí, fundamentais.

É importante esclarecer que para um programa propulsionado por motivação intrínseca para mudanças concretas de comportamento e valores, é fundamental que o ciclo de retroalimentação dessa motivação esteja fluindo naturalmente. Disso dependem todos os outros passos e de tais passos depende a segurança e a efetividade do tratamento. Cada progresso é um vínculo a mais com o próprio processo e cada vínculo adquirido é a própria motivação para novos progressos.

Confiança se transmite confiando, fé só se transmite acreditando.

Walter Cunha
4º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

QUARTO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Quarto Passo diz: “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

A satisfação dos instintos naturais é fonte, também natural, de prazer. O alcoolista é aquele indivíduo que não consegue obter naturalmente prazer através da satisfação de seus instintos e segue, portanto, dois caminhos diferentes: um que leva à exacerbação de seus instintos ou a uma necessidade vital de permanente satisfação destes para obtenção de um prazer básico; e outro que leva ao uso do álcool para a obtenção do mesmo prazer básico a partir da satisfação natural de seus instintos. Enfim, ou o alcoolista exagera na satisfação de seus próprios instintos ou inclui o álcool em seu ritual de prazer, ou mesmo, ao final do processo, ambas as coisas, quando nem uma nem outra forma são suficientes para gerar aquele prazer básico.

A tendência é sempre esse indivíduo optar, de acordo com a sua personalidade, por um, ou pouco mais de um, instinto natural a ser satisfeito, geralmente aquele que mais se relaciona com sua formação, moral e cultural, e estilo de vida.

Assim, com ou sem álcool, inicia-se o processo psicopatológico do alcoolismo. Valores, conceitos e, por conseguinte, comportamento e relações sociais destinam-se exclusivamente à obtenção de prazer (por que não dizer alívio?) e sofrem, progressivamente, graves deturpações. Com a inclusão do álcool (utilizado, aí, com finalidade patológica) e de todas as contingências físicas, psíquicas, sociais e morais de seu abuso, é perfeitamente previsível a deterioração global dos elementos pessoais e interpessoais do indivíduo.

A partir da abstinência, é comum que o processo se reinstale ou se perpetue já que a fonte suplementar de prazer, o álcool, não mais está presente. Alcoolistas em recuperação são geralmente compulsivos por algo como trabalho, sexo, religião, dinheiro, comida, relacionamentos ou outras fontes de prazer. E é evidente que todos esses exageros levam sempre a relações distorcidas com o objetivo de prazer. Caráter e comportamentos patologicamente construídos sob o estigma da necessidade compulsiva de satisfação pessoal (ou alívio), são características do alcoolista.

A única maneira de reverter esse quadro, após a interrupção do uso do álcool, é através de profunda reformulação. Parar de beber significa, apenas, remover da cena principal um objeto importante na caracterização do quadro mas, para modificar-se o enredo, deve-se reavaliar todos os papéis e cenários.

É muito comum que, em função daquela necessidade básica de prazer, o alcoolista tenha desenvolvido artifícios psicopatológicos como desonestidade, egocentrismo, megalomania e outros, assim como protegido sua própria fragilidade atrás de mecanismos racionais ou inconscientes de defesa. É muito mais comum ainda que, retirado o álcool, permaneçam todas essas características, até que algo seja feito para modificá-las. Travar contato com todas elas é, pois, fundamental para a concretização de uma proposta efetiva de abstinência alcoólica.

Deve-se ter em mente também que é imperiosa a necessidade de uma nova fonte de prazer, sem a qual o desconforto, ocasionado pela abstinência alcoólica, pela perda do recurso mágico de alívio e pelos conflitos pessoais e sociais, tornar-se-á insuportável e a recidiva inevitável.

A proposta do Quarto Passo é, justamente, além de iniciar efetivamente a reformulação através da auto-avaliação, fornecer, por meio do movimento psíquico (mobilização), uma fonte alternativa de prazer (pelo simples fato de estar tentando iniciar um processo de mudança e busca de melhor qualidade de vida). A fonte espiritual ou psicossocial de prazer inicia seu fornecimento a partir da eclosão desse ciclo: tentar mudar para poder crescer, assim como crescer para continuar tentando. O prazer, aí, é endógeno e retroinjetável.

O Quarto Passo é, portanto, uma proposta prática de ação. Após adquirida, consistentemente, uma consciência da necessidade de mudar; após ter vislumbrado perspectivas objetivas de ajuda nesse sentido; após ter arriscado acreditar na eficácia dessa ajuda, eis que é apresentada, ao alcoolista, uma maneira concreta e prática de iniciar o processo de mudança.

Como já foi dito, um programa de teor comportamentalista depende muito de motivação (submissão e aceitação, derrota e humildade) e a cada passo que se avança, aumenta a necessidade de aprofundamento nos anteriores. Isso torna-se óbvio pelo conseqüente e inevitável afastamento da fonte inicial de motivação (o sofrimento agudo) que se torna, consciente e inconscientemente, obscurecida pelo tempo, pela memória e pelos mecanismos psíquicos de defesa. A fonte básica de motivação está sempre na realidade, passada e presente, que cerca o alcoolista, ou seja, na desestruturação de suas relações pessoais e interpessoais. Caracterizá-las objetivamente é objeto e motivo do Quarto Passo, para que haja, concretamente, razão e possibilidade de modificá-las.

Alcoólicos Anônimos fala em meticulosidade e perenidade e estas são palavras-chave para um Quarto Passo eficaz. Quanto maior a motivação básica, mais meticulosa e profunda será a auto-avaliação e, evidentemente, melhores serão os resultados e benefícios desta, que o são, por si, progressivamente utilizáveis como fontes auxiliares de motivação para a continuidade do processo.

O papel do profissional, nessa etapa do tratamento, é fornecer ao paciente meios concretos para desenvolvimento desse inventário. Apresentar roteiros objetivos, questionários, identificar características morais e atitudinais a serem avaliadas, reforçar a reativar motivações, incentivar a participação em atividades terapêuticas grupais para que novos elementos sejam reconhecidos e estar disponível, fazem parte de uma atitude facilitadora e compreensiva (nunca protecionista e permissiva), bastante útil em um momento tão ansiogênico e doloroso.

O apoio de um grupo terapêutico homogêneo e integrado é, também, fundamental para promover alívio e conforto, além de incentivo.

O restante depende, exclusivamente, do próprio alcoolista. Não custa salientar, mais uma vez, que a cada interrupção do processo terapêutico por recidiva deve-se, sempre, retornar ao início do mesmo.

Walter Cunha
5º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

QUINTO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Quinto Passo diz: “Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.

Se pudéssemos resumir o tratamento do alcoolismo em uma só palavra, esta seria “reformular”. É claro que essa reformulação deve ser tão abrangente quanto se deseje efetividade para o tratamento. E é claro, também, que essa profunda e complexa reformulação deve ter início o quanto antes.

Os passos anteriores trataram de um preparo, pessoal e metodológico, do terreno propício a essa reformulação e, através de um meticuloso inventário inicial, foi possibilitado, ao alcoolista, tomar contato com o que de mais premente há para ser reformulado.

A partir do Quinto Passo inicia-se concretamente a reformulação, pois, em termos abstratos e genéricos, é óbvio que esta inicia-se desde o momento primeiro do tratamento – à interrupção do uso do álcool.

Após o momento de reflexão proposto no Quarto Passo, e após uma efetiva participação em procedimentos terapêuticos grupais, é bem provável que o paciente tenha podido enxergar alguns aspectos importantes de sua moral, caráter e comportamento e é também possível que, diante do recém-iniciando processo de autoconhecimento, ele tenha condições de avaliar os propósitos e benefícios de tentar reformular alguns desses aspectos.

De certa maneira, pode-se imaginar que após esses progressos o alcoolista esteja apto a dirigir seus próprios caminhos no sentido de uma verdadeira reformulação. Mas, infelizmente, estamos diante de uma doença cujos sintomas e sinais principais derivam de conflitos gravíssimos entre consciência pessoal e consciência social e fundamentam-se em crônica distorção da visão de mundo e da realidade. Portanto, é possível também que todos esses elementos terapêuticos até aqui desenvolvidos estejam, sobremaneira, influenciados por essas características patológicas, a saber; negação, racionalização e projeção.

Além disso, quando se trata de alcoolismo, com todo o seu estigma moral e social, é provável que entre o reconhecimento de todas as facetas adoecidas do caráter e do comportamento e a real admissão de todas elas como patológicas, exista uma grande barreira formada por orgulho e preconceitos pessoais.

É preciso, portanto, promover uma ampla discussão de todos esses dados, para que estes possam ser elaborados detalhadamente sem aqueles bloqueios pessoais. Mecanismos psicológicos de defesa, orgulho e desconfiança devem ser dissolvidos através da confiança mútua; da integração definitiva; da igualdade; da compreensão; do alívio e da catarse.

É esse o fundamento do Quinto Passo. Alcoólicos Anônimos o chama de “limpeza da casa”, uma verdadeira abertura de portas e janelas, uma ruptura definitiva com os principais vínculos mantidos com a doença.

O clímax do programa terapêutico de base comportamentalista está na submissão integral e esta está contida no Quinto Passo. A partir do momento em que o alcoolista se expõe, honesta e claramente, a outra pessoa de sua inteira confiança, ele está, automaticamente, rompendo as barreiras do isolamento, do orgulho, da desconfiança e da desonestidade. Vencer o medo, a culpa, a vergonha e a raiva depende de muita motivação e é a prova definitiva de que existe real aceitação e entrega (como foi anteriormente definida) ao processo terapêutico e, portanto, reais possibilidades de êxito.

O profissional pode desempenhar diversos papéis para prestar auxílio ao paciente na efetivação desse passo, desde promover uma discussão ampla das características do alcoolista, em grupos terapêuticos, até dispor-se a compartilhar com o paciente a íntegra de seu Quinto Passo. Para isso, é necessário apenas discrição e imparcialidade, já que a confiança depositada pelo paciente ao escolhê-lo como apto a desempenhar tal papel denota existirem, nesse profissional, atributos pessoais relevantes.

É importante salientar que não existe parâmetro para se verificar a eficácia do Quinto Passo, a não ser o que esse procedimento trouxe de resultados em relação à evolução do paciente. Este próprio deverá ser o parâmetro de efetividade. Um Quinto Passo deve servir para promover, antes de mais nada, a definitiva integração do alcoolista ao processo de tratamento e, diante disso, podem ser necessários outros “Quintos-Passos” mais, tantos quantos forem necessários à tal integração. O mais importante, aqui, é iniciar.

Walter Cunha
6º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

SEXTO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Sexto Passo diz: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”.

O processo está em andamento. Desde o início desse programa comportamentalista de tratamento do alcoolismo deixamos claro que a única forma de reverter o mecanismo da dependência seria substituí-la por um estado dinâmico de busca de crescimento; um crescimento baseado em progressos, ditos espirituais, e no prazer advindo da consciência de estar tentando progredir. Para isso, consideramos fundamental uma profunda auto-avaliação de valores, conceitos e atitudes pessoais e uma inabalável, enquanto duradoura, determinação para prosseguir.

A realidade da vida do alcoolista trouxe-lhe, ao lhe ser apresentada, a consciência de sua doença e da necessidade de submeter-se a esse processo para superá-la. Essa realidade foi referencial para a determinação necessária à primeira grande mudança: a interrupção do uso do álcool.

O processo de dor aguda e de perda e o sofrimento gerado a partir da abstinência, praticamente compulsória, mostraram-lhe a necessidade de uma fonte exógena de ajuda, operando assim a segunda mudança: a ruptura do isolamento e da onipotência.

A iminência do desconforto e a necessidade premente de alívio o fez acreditar nessa ajuda que lhe foi oferecida, integrando-o ao processo terapêutico e efetivando a terceira mudança: a reversão momentânea da desconfiança e do ceticismo.

Em cada progresso efetivado está implícito uma agradável sensação de bem-estar, uma sensação de conforto que origina-se na liberação paulatina das garras da dependência que significam, concretamente, vínculos com o estado de doença, evidenciados em deturpações crônicas de caráter, comportamento e moral. É simples exemplificar: o uso abusivo do álcool leva à necessidade de mentir para proteger-se e ao objeto de consumo, a tal ponto que a mentira incorpora-se ao indivíduo, tornando-se implausível dizer a verdade. Ao não mais precisar beber, rompem-se os vínculos com a atividade da doença e a mentira torna-se inútil e descabida. O contato com essa nova realidade traz, imediatamente, a sensação de alívio e liberdade que é a motivação para prosseguir.

Esse simples exemplo demonstra a necessidade da minuciosa avaliação de todos os valores, conceitos e atitudes inerentes à pessoa do alcoolista. A simples efetivação dessa avaliação inicia uma nova fase de mudanças: a ruptura do medo; da culpa e da vergonha decorrentes do orgulho patológico.

Consequentemente, o partilhar do resultado dessa avaliação com outrem nada mais é do que o culminar desse processo: o orgulho e a desonestidade; os preconceitos e as defesas, sendo amplamente expostos e derrotados.

Efetivamente, o processo está em andamento. Mas deve estar claro, ao profissional e ao paciente, que este apenas inicia-se. Como todo processo, ele deve ser contínuo, pois dessa continuidade depende a integridade do tratamento.

Tal como o efeito do álcool, são fugazes o alívio e o prazer obtidos a cada mudança (conquista). Portanto, se almejarmos uma recuperação efetiva, deve-se manter sempre acesa a esperança de melhorar (crescer).

O Sexto Passo é justamente o fundamento disso, a mistura exata da eterna busca da perfeição com a consciência da impossibilidade em alcançá-la. Deve-se sempre tentar chegar o mais próximo possível dela, mas deve, também, estar claro que perfeição é, e sempre será, meta.

Portanto, para o profissional interessa fornecer subsídios para manter o processo em andamento, sem que haja interrupção por obstáculos concretos ou abstratos.

Em grupo ou individualmente, além das recomendações já repetidas, a atuação do profissional pode basear-se em: identificar elementos a serem reformulados, assim como deturpações de caráter e comportamento, aberrações morais ou, mesmo, inversão ou perversão de valores; além de valorizar, sempre, as mudanças, consciente ou inconscientemente, já efetuadas pelo paciente.

Evidenciar situações onde o orgulho, a ambição, o rancor, a gula, a lascívia, a inveja, a preguiça ou outras derivações instintivas hajam gerado desconforto ou causado empecilhos à boa resolução de conflitos, pessoais ou sociais, pode ser útil, ainda mais quando complementado através do fornecimento de métodos concretos de autotreinamento para reavaliação desses elementos.

Encorajar, incentivar e reforçar a motivação básica, são atitudes sempre cabíveis ao profissional interessado.

É sempre oportuno clarificar que a tendência evolutiva do tratamento é a acomodação, a partir do distanciamento objetivo e subjetivo da dor aguda. O profissional, nestes momentos, deve estar atento para mecanismos de boicote ao tratamento, tais como: ausências; justificativas e argumentações, utilizando o confronto como arma terapêutica sempre que necessário. Impor limites, pressionar, advertir o paciente das conseqüências de uma recidiva, sempre baseado em dados concretos, deve ser um recurso ao qual deve-se estar sempre pronto a recorrer.

Em se tratando de alcoolismo, ajudar e encobrir falhas são antônimos inconfundíveis.

Walter Cunha
7º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

SÉTIMO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Sétimo Passo diz: “Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”.

A necessidade imperiosa e constante de satisfazer seus impulsos torna o alcoolista egocêntrico, isolando-o de valores espirituais, como se o prazer e o bem-estar imediatos fossem as únicas maneiras de sentir-se bem.

Ao mesmo tempo, a participação do álcool nesse processo de dependência do prazer traz consigo todo o amplo leque de conseqüências físicas, psíquicas, sociais, comportamentais e morais, característica do abuso químico e torna o sofrimento parte ativa desse ciclo mórbido. A dependência gera ansiedade e sua satisfação gera conseqüências desastrosas à estrutura global do ser humano. Com o passar do tempo, o prazer torna-se cada vez mais distante enquanto a dor mostra-se presente e avassaladora.

É uma vida inteira, anos e anos gastos em ansiogênica luta contra um processo de dependência para o qual uma única solução encontrada tornou-se insuportável. O ciclo patológico de dor como necessidade de alívio, alívio esse gerador de mais dor, entrava-se no limite individual de sofrimento que cada ser humano desenvolveu intrinsecamente. Ao atingi-lo, o indivíduo descobre que não é mais possível manter esse processo e este pode ser o passo inicial para a descoberta da necessidade de romper o isolamento e buscar, na força das relações interpessoais, uma nova fonte de alívio e prazer. Vivenciar uma humilhante sensação de desespero; derrota diante de sua própria opção de vida; falência de seus mecanismos de obtenção do prazer; pode ser a única solução para romper o processo de dependência e, através disso, vislumbrar, no convívio social, e na reformulação pessoal como elemento possibilitador deste, o substituto ideal para promover um bem-estar duradouro.

Essa sensação, alimentada pela dor e pela ausência de perspectivas, impulsiona o alcoolista a entregar-se a um processo de tratamento que procura basear-se na manutenção de um novo ciclo de retroalimentação pelo prazer, este fundamentado em crescimento pessoal e redescoberta de valores ditos espirituais. Para isso, propõe-se uma criteriosa avaliação do indivíduo como ser social e uma, não menos criteriosa, reformulação de todas as deturpações psicossociais características do ciclo patológico.

Ao atingir esse estágio, o alcoolista depara-se com dificuldades objetivas. Em primeiro lugar, admitir que deveria interromper o uso do álcool derivou-se de profundo e insuportável sofrimento, o qual, é fato, já não mais é presente. Sem dúvida, a abstinência trouxe reflexos positivos importantes e a dor já não é mais tão aguda e lancinante quanto aquela que motivou tal mudança. Em segundo lugar, parar de beber significa, em princípio, abdicar do grande causador de males físicos, psíquicos e sociais e, tendo descoberto a possibilidade de fazê-lo, a tendência é acomodar-se e relaxar. Ainda mais quando progredir significa encarar valores e comportamentos profundamente desenvolvidos e que, nem sempre, estão conscientemente ligados ao sofrimento original.

O profissional deve estar preparado para identificar sérios e graves entraves à progressão do tratamento. O alimento do ciclo de recuperação do alcoolismo é a motivação ininterrupta, a motivação pela motivação. O contato consigo mesmo, a consciência de suas deficiências, a certeza de que é necessário revê-las para desenvolver sua capacidade de relacionamento interpessoal, devem ser objetivamente expostos como partes de uma única solução para promover durabilidade ao processo de recuperação.

Humildade, termo tão utilizado em Alcoólicos Anônimos, é exato e perfeitamente cabível. O produto ideal da humilhação diante da inevitável derrota pela perspectiva de liberdade em função de trabalho sério e honesto consigo mesmo.

É importante reforçar que essa humildade não é apenas uma necessidade vital para sobreviver ao rude golpe da perda de controle, mas, fundamentalmente, um estilo de vida, no qual, a cada dia, constrói-se, ou reconstitui-se, algo mais da capacidade individual de relacionar-se a partir da reformulação pessoal.

O prazer não está na vitória mas na sensação (humilde) de tentar, honestamente, ser melhor.

Dessa maneira, fica claro que o sentido da ajuda ininterrupta é o fundamento do Sétimo Passo. Humildade é reconhecer que, antes de mais nada, precisa-se da ajuda de outrem para efetivar, com eficácia, a tal reformulação.

Conversar honestamente sobre seus próprios defeitos, compartilhar sentimentos anteriormente considerados humilhantes como: medo; vergonha; raiva; inveja e ciúme é a chave do verdadeiro despertar espiritual, o prazer límpido de estar tentando crescer.

A partir do momento em que o alcoolista descobre os benefícios abstratos, e tão pouco materialistas, de sentir-se em paz após anos e anos de conflitos e turbulências, tanto internos quanto externos, pode-se considerar rompido o processo de patológica dependência. Daí em diante, a dor e o sofrimento não mais farão parte do processo de reestruturação pessoal e social, conquanto o prazer, dito espiritual, estará presente até em momentos de objetiva e concreta dificuldade.

É fundamental que o mecanismo terapêutico esteja apto a proporcionar tal descoberta, tal despertar. É muito importante valorizar a tentativa, incrementar a confiança, dar créditos à verdadeira e honesta motivação. É preciso criar, no ambiente de tratamento, no grupo ou na relação terapêutica, um clima de conforto e confiabilidade. A compreensão e o envolvimento são as melhores armas para fazer o paciente acreditar que é possível crescer sem sofrer, sem ter de passar por novas e dolorosas humilhações.

Como está escrito no texto de “Os Doze Passos” de Alcoólicos Anônimos, cada um de nós gostaria de viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes. O alcoolista, apenas, não sabe como fazê-lo, ou melhor, tentar fazê-lo, até então, tem significado muito sofrimento. O tratamento deve significar, agora, um espaço para que ele possa encarar a dor das perdas sem precisar sofrer e desfrutar a alegria das conquistas, por menores que possam representar para outrem.

Se, por acaso, ele vier a acreditar que o elemento terapêutico utilizado pode ajudá-lo a reconhecer suas deficiências, aceitá-las como seus atuais limites e modificá-las quando possível e sem sofrimento, só lhe restará agradecer humildemente e prosseguir confiante.

Walter Cunha
8º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

OITAVO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Oitavo Passo diz: “Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”.

Esse passo trata de como descobrir, individualmente, a fórmula da recuperação. Dissemos, e repetimos, que apenas um processo contínuo de melhoria da qualidade das relações interpessoais e sociais do indivíduo poderia transformá-las na fonte causadora do combustível (prazer) necessário para substituir o efeito do álcool. Para isso, todos os passos anteriores trataram basicamente da principal de todas essas relações – a relação consigo próprio. Em função disso, é provável que algo significativo do autoconceito tenha sido resgatado e esteja mantendo o alcoolista motivado ao progresso. A partir do Oitavo Passo, tenta-se expandir esse universo de relações para as interpessoais, sugerindo-se um exame e uma reestruturação destas para que se possa reabilitá-las.
Afinal de contas, as características do alcoolismo crônico transformaram o paciente em verdadeiro ser anti-social e suas relações estão totalmente desestruturadas ou, quando pouco, deturpadas. Todas essas seqüelas são importantes barreiras ao processo de reformulação, pois de nada adianta uma consciência pessoal e uma motivação intrínseca se não é possível pô-las em prática em prol de uma melhor qualidade de vida, no sentido mais amplo do que vida quer dizer.
É preciso avaliar criteriosa e minuciosamente as verdadeiras falhas de suas relações para que se possa construí-las sadiamente, sem resquícios patológicos. É complicado e ansiogênico tentar reformular objetivamente uma relação quando esta é fonte e produto de ressentimentos, por exemplo. Rever tais ressentimentos, sua origem, a parcela de responsabilidade que lhe cabe, é partir para uma verdadeira reformulação.
Esse é, sem dúvida, assim como o nono, um passo difícil e doloroso, onde, mais do que nunca, a humildade, no sentido de aceitação de limites e deficiências e real disposição de modificá-los, se mostra indispensável. Uma coisa é admitir, para si, a existência de defeitos e dispor-se a modificá-los, outra é fazê-lo perante outrem. Evidentemente, essa admissão ultrapassa os confortáveis limites do grupo terapêutico, onde conta-se com aliviantes manifestações de carinho e compreensão. Neste momento, o alcoolista parte para um real contato com o mundo deturpado que a evolução de sua doença produziu e sabe, ou deve saber, que nem sempre poderá contar com o mesmo carinho e compreensão. Mas é exatamente aí onde o medo, o isolamento, o orgulho, tornam-se tão presentes, que deve estar mais presente ainda a premência da reformulação, em seu mais amplo sentido.
É indispensável construir relações sadias para que se possa obter prazer destas, mesmo que, durante muito tempo, o alcoolista tenha que conviver com os reflexos de sua doença, não em seu comportamento, mas no dos outros e mesmo que a única parte sadia dessas relações seja, neste momento, o próprio paciente. É preciso não esquecer que a tentativa honesta de reformular já é a própria reformulação.
Além disso, em muitas ocasiões, a porção mais doentia da relação é o sentimento despertado pelo possível prejuízo causado. Portanto, por mais que possa parecer desnecessário concretamente mexer com ela, o desconforto gerado por tais sentimentos deve ser revisto.
Em suma, o Oitavo Passo propõe um criterioso exame das relações do indivíduo, implícito na consciência de que o alcoolismo deturpou-as de tal maneira que o isolou, sendo, por conseguinte, imperioso tentar reconstruí-las.
É importante, também, que isso seja feito de uma maneira concreta e prática. Alcoólicos Anônimos sugere que seja feita uma lista de pessoas às quais o alcoolista tenha prejudicado, concreta ou abstratamente.
O profissional pode ajudá-lo, ao conhecer sua história de vida, alertando-o ou confrontando-o em situações conflitivas. Uma ordem de prioridade pode ser aconselhável, preferindo-se sempre as relações geradoras de maior desconforto no momento.
Além disso, como já foi dito, o ambiente do grupo terapêutico tem seu papel intensificado por momentos como estes, quando a própria reformulação é confrontativa e ansiogênica.
Em resumo, esse Quarto Passo das relações, como é dito em Alcoólicos Anônimos, significa o começo do fim do isolamento e, mais ainda, da marginalização social do alcoolista e é sumamente importante que isso esteja claro.

Walter Cunha
9º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

NONO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Nono Passo diz: “Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem”.

Esse passo é, evidentemente, a prática do oitavo. Consciente de que é necessário reconstruir seu universo de relações, de uma forma saudável e prazerosa, o alcoolista precisa agir.
É muito importante que o profissional esteja atento ao momento vivido pelo paciente. É provável que a abstinência seja, por si só, motivo de euforia e êxtase para este, motivando-o a atos pouco racionais, tendendo impulsivamente a clamar ao mundo arrependimento e disposição em mudar de vida. Isso tudo é perfeitamente compreensível ao analisarmos a sensação de liberdade causada pela ruptura do vínculo concreto com a dependência. Mas é preciso saber, também, que atitudes impensadas podem gerar conflitos perigosos a abstinência frágeis e recentes. É fundamental uma certa estruturação dessa abstinência em bases sólidas de consciência, motivação e autoconhecimento, para que se possa prever os resultados de tais atitudes e preparar-se adequadamente para eles.
As relações de um alcoolista crônico são, geralmente, carregadas por sentimentos adversos de ambas as partes, concretamente elaborados em função de fatos reais, intensificados, quase sempre, por preconceitos morais e sociais, o que as torna, literalmente, bombas a explodir. É preciso muito cuidado ao abordá-las para que revelações intempestivas não funcionem como estopins para verdadeiras crises agravantes do quadro. Cada reparação deve ser precedida de minucioso exame da estrutura pessoal do paciente, de seu preparo prévio, de sua motivação para tal atitude, das contingências envolvidas na desestruturação de tal relação, do momento presente desta e das possíveis conseqüências de uma revelação contundente para ambas as partes.
É claro que nem todas as relações estarão deterioradas a tal ponto. Mas é claro, também, que nem sempre a superfície destas retrata fielmente o íntimo de um contato patogênico. Evidentemente, não há pressa e o próprio processo de abstinência servirá como fonte inicial de alívio das tensões de tais relacionamentos. Pode-se orientar o alcoolista para que comece a se colocar, revelando seus propósitos de recuperação e reformulação, o que, sem dúvida, preparará o caminho para revelações mais profundas. É até possível que apenas isso seja suficiente para que uma nova relação comece a ser moldada entre os envolvidos, mas não se deve esquecer que o objetivo não é apenas modificar o exterior de tal relacionamento e sim as emoções que estão nele implícitas.
Além do mais, a cada vez que o alcoolista se revela diante de outrem, expõe seus defeitos de forma humilde e honesta e reintera sua disposição em reformular-se, está criado um forte vínculo com seu estado de abstinência. A partir de então, a recidiva significa, além de todos os prejuízos inerentes à própria doença, a humilhante sensação de fracasso de seus propósitos diante das pessoas, alvos de tais reparações.
É importante, portanto, incentivar sempre. É claro que precaução não significa procrastinação. O preparo prévio é fundamental porque previne catástrofes, mas catástrofe idêntica é a paralisação do processo de reformulação. Isso porque a própria atitude de expor-se, revelando falhas e deficiências, e mostrar-se dispostos a melhorar, é fonte de gratificante sensação de conforto e bem-estar, mesmo que os resultados, a nível da relação, não sejam satisfatórios. O movimento do prazer psíquico como fonte de motivação para novos progressos está mantido e é isso o que importa.
Esses resultados concretos, em termos da relação propriamente dita, podem ser previamente avaliados em função do teor da revelação a ser feita. Existem casos em que o próprio conteúdo dessa revelação é tão contundente e tão prejudicial à relação que é preferível omiti-lo. Nessas situações, o próprio comportamento e atitude do alcoolista, no decorrer de seu processo de recuperação, serão suficientes para minimizar os danos causados sem que seja necessário pormenorizá-los. Talvez a necessidade de uma reparação plena, em termos pessoais, possa ser satisfeita a nível de grupo terapêutico, onde o sigilo e a confidencialidade protegem as partes envolvidas, além de possibilitar a criação do vínculo terapêutico citado anteriormente.
A principal conclusão disso tudo é que o Nono Passo deve ser realizado da maneira mais completa possível e, portanto, ininterrupta. A cada conquista, em termos de relações interpessoais mais saudáveis e bem-estar consigo próprio, novo projeto semelhante deve ser engatilhado. É neste momento que se reforça a tese de que o homem é uma inesgotável fonte de emoções, descobertas e, portanto, prazer, precisando, apenas, para efetivá-lo, ter consciência disso e tomar contato com uma maneira prática de fazê-lo.

Walter Cunha
10º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

DÉCIMO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Décimo Passo diz: “Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados nós o admitíamos prontamente”.

Como diz claramente o texto de “Os Doze Passos” de Alcoólicos Anônimos, a prática dos nove primeiros passos prepara o indivíduo para uma nova vida. Evidentemente, é necessário muita disposição para tal e muito trabalho foi realizado para poder romper os principais vínculos elaborados com o objeto de dependência. Graves deturpações do comportamento e das relações interpessoais, que transformaram o passado do alcoolista em um fardo insustentável a ponto de causar o sofrimento necessário à humilhante admissão de fracasso, tiveram de ser revistas e objetivamente encaradas.
A partir de então, de acordo com a profundidade e a seriedade com que foram vivenciadas essas nove etapas do tratamento, resta ao paciente, efetivamente, conviver com seu momento presente.
Livre dos principais entraves passados, objetivos e subjetivos, resta dinamizar o processo em termos atuais. Conseqüências importantes da descaracterização da personalidade, da imaturidade emocional e do imediatismo serão, também objetiva e subjetivamente, enfrentadas pelo alcoolista em seu processo de recuperação. Inicia-se, a partir de então, um novo tipo de convívio com suas emoções. Evidentemente, emoções mais limpas, livres do acúmulo de culpas, remorsos e ressentimentos passados, mas igualmente desconfortáveis pelo inusitado. Compreende-se que o uso de psicofármacos inibe, cronicamente, o contato com os sentimentos, tornando-os extremamente desconfortáveis. Vivenciar raiva, paixão, alegria, tristeza, angústia, ansiedade, sem paliativos, exige um processo, igualmente demorado, de aprendizado. A necessidade de alívio é constante e o imediatismo é um risco. É necessário possibilitar, diante de tantas dificuldades, um saldo positivo para o paciente.
Como fazê-lo?
Sabemos que a dinâmica do processo de recuperação mantém-se pelos seus próprios ganhos, objetivos e subjetivos. A capacidade de enxergar tais ganhos está na abrangência do referencial do indivíduo. Esse referencial está moldado pela consciência do seu passado e das conseqüências deste em seu presente. O ganho será vivenciado como tal, na medida em que represente progresso em relação a esse referencial.
Em tudo isso está embutida a importância dos passos anteriores para a elaboração dessa consciência (referencial) e da motivação em função desta. Está implícito, também, que as dificuldades presentes representam empecilhos, mais ou menos graves, para a manutenção dessa dinâmica.
Portanto, concretamente, o Décimo Passo trata de uma maneira objetiva de trabalhar essas dificuldades presentes antes que passem a representar entraves sérios. As chamadas armadilhas podem e devem ser desfeitas, antes que o desconforto originado seja mais forte que a perspectiva de alívio e o indivíduo recorra ao recurso já conhecido, o álcool.
Os sentimentos devem ser trabalhados de forma a não representarem ameaças e sofrimento. O indivíduo pode, através de um contato sistemático com suas emoções, evitar as deturpações, o acúmulo e as reações patológicas, todos geradores de maior desconforto.
O ideal para isso é o autocondicionamento. Um contato freqüente, se possível diário, com essas emoções, é fundamental para uma convivência mais saudável com elas e para um maior aprendizado sobre si próprio. Uma análise cuidadosa e detalhada dos fatos e motivos envolvidos é importante para a elaboração de um conhecimento mais amplo de suas reações. O fato de conhecer-se, aprendendo sobre si próprio a partir do contato com suas emoções e reações, possibilita ao alcoolista avaliar seu momento sem permitir que falhas acumulem-se e permaneçam, cronicamente, distorcendo seu comportamento. Um episódio de raiva pode ser analisado como despropositado e, a partir de então, objetivamente reformulado, evitando reações igualmente descabidas, conseqüentes entraves ao relacionamento, e mais emoções desconfortáveis e desnecessárias.
Neste momento, o admitir o despropósito da emoção não significa fracasso e sim um importante mecanismo de facilitação da convivência social. A partir do momento em que o alcoolista é capaz de fazê-lo, torna-se possível, para ele, elaborar seu comportamento de maneira saudável, evitando problemas desnecessários e maior desconforto.
O alívio e o prazer estão implícitos nesse movimento pela grata sensação de estar tentando melhorar, o que não implica, evidentemente, em acertar sempre. Gratificar o convívio interpessoal, através de reações saudáveis às emoções despertadas pelos relacionamentos, é tarefa muito difícil, principalmente para o alcoolista, em função de distorções emocionais e comportamentais crônicas. Seria utópico desejar que de uma hora para outra ele fosse capaz de relacionar-se de forma saudável e prazeirosa. Ele pode, apenas, tentar. E através da motivação para essa tentativa, procura-se possibilitar, pelo inventário diário, o acesso aos progressos e dificuldades desse processo e, com base neles, incentivar e facilitar as próximas tentativas.
Evidenciar ganhos enquanto estes não são tão evidentes e possibilitar a conquista de novos enquanto se processa a reeducação social, esses são os objetivos do Décimo Passo.
O profissional e o grupo terapêutico são importantes elementos para auxiliar o paciente nesse inventário. A clareza, a objetividade e a imparcialidade, além da possibilidade de um espaço para catarse e obtenção de alívio, são cada vez mais relevantes.

Walter Cunha
11º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

DÉCIMO PRIMEIRO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Décimo Primeiro Passo diz: “Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade”.

Prossegue-se tentando viabilizar o processo de reaprendizado necessário para atingir o objetivo final de recuperação do alcoolismo: a convivência social plena composta de relações interpessoais prazeirosas.
Como foi demonstrado ao discutir-se o Décimo Passo, é fundamental que o alcoolista possa, durante o reaprendizado, perceber aspectos positivos em sua vida, para manter-se motivado independente do grau de desconforto originado pelas dificuldades e conflitos, inter-humanos. Evidentemente, sabemos que o alcoolista tende, sempre, a procurar alívio em seu objeto de dependência e, portanto, tem maior necessidade de conforto que alguém sadio, não-dependente.
Assim como um inventário pessoal diário é útil para um balanço geral do dia ou do período vivido, a oração e a meditação são formas, igualmente importantes, de travar um contato mais íntimo com os fatos e as emoções envolvidas no dia a dia.
De uma maneira geral, o programa dos Doze Passos revela-se uma forma concreta de busca consciente do aperfeiçoamento pessoal, estando, portanto, subentendidas as dificuldades próprias a um processo de recondicionamento.
O mecanismo da oração e da meditação serve para, em momentos de angústia decorrente de conflitos e dúvidas, rememorar os propósitos de reavaliação e reformulação tentando, assim, freiar impulsos antes que decisões ou atitudes precipitadas – inerentes ao padrão anterior de comportamento – possam trazer, agora, conseqüências desagradáveis e mais angústia. O hábito de, antes de qualquer conclusão, analisá-la cuidadosamente à luz dos propósitos originais é uma eficiente arma contra, por exemplo, o remorso e a culpa.
O tomar contato consciente com suas emoções possibilita ao alcoolista uma elaboração mais adequada das mesmas e o resultado advindo é a reação mais coerente com os tais propósitos de reformulação. Esse mecanismo é fonte de um sentimento de conforto e paz derivado da certeza de estar tentando acertar. E eis o mistério dos Doze Passos: a manutenção desse processo traz, ao mesmo tempo, alívio (prazer) e motivação para prosseguir.
Além disso, todos os mecanismos utilizados com o objetivo de estreitar o contato consigo próprio servem para facilitar a convivência social. Treinar o “parar para pensar”, condicionado à confirmação consciente da necessidade de aceitar suas limitações, é fundamental para que o alcoolista possa retirar daí a motivação para conviver com elas da melhor maneira possível. O relaxamento e a paz advindos desse contato fornecem condições para um convívio mais amplo em sociedade. É o treinamento que traz segurança ao alcoolista para enfrentar as dificuldades do relacionamento interpessoal sem o medo imobilizante de sofrer a cada momento. Estes, portanto, são métodos eficazes de viabilizar o crescimento através do prazer (paz e conforto).

Walter Cunha
12º Passo de A.A. (Visão Terapêutica)

O DÉCIMO SEGUNDO PASSO de A.A. (Visão Terapêutica)

O Décimo Segundo Passo diz: “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólatras e praticar esses princípios em todas as nossas atividades”.

Diz ainda o texto: “O prazer de viver é o tema e a ação sua palavra-chave”.
Viver bem em todos os momentos pode parecer utópico, a princípio. Mas, segundo Alcoólicos Anônimos, isso pode ser conseguido a partir de um elemento simples, o chamado despertar espiritual. A meu ver, esse despertar significa descobrir uma motivação básica que oriente e impulsione todas as ações do indivíduo. Dessa maneira, torna-se muito simples explicar a razão do sucesso do programa dos Doze Passos.
A derrota diante da dependência alcoólica trouxe o fim do sofrer, através da consciência do sofrimento, esta evidenciou a necessidade de mudar e reformular comportamentos, caráter, conceitos e valores, e a busca dessa reformulação – a luz da fé na viabilidade e eficácia dos métodos empregados – resulta em mobilização psíquica e prazer. Enfim, orientado pela certeza de necessitar crescer sempre, o alcoolista em recuperação empenha-se em praticar os Doze Passos em todos os momentos do seu dia, retirando daí o chamado combustível espiritual necessário a manter em movimento seu processo de crescimento.
Acredito que o despertar espiritual não seja mais do que a descoberta de que é possível obter prazer através do simples esforçar-se em direção a um objetivo claro e incontestável.
A partir de então, resta agir. E a ação que se promove, a partir da necessidade de manter a máquina em movimento, direciona-se automaticamente aos elementos desenvolvidos em todos os outros passos de ação. A prática diária ou sistemática da interparticipação grupal, do inventário, da reparação, da oração, da meditação, etc., é originalmente, cada degrau do crescimento e, portanto, gera prazer por si só.
Viver, diária e plenamente, os Doze Passos, essa é a fórmula de ação. Aplicá-la ao trabalho, ao lazer, ao lar e ao grupo, adaptá-la ao seu ritmo e estilo de vida, torna simples e prazeroso o relacionamento e a convivência em sociedade, a partir de que é honesto e prazeroso o convívio consigo.
Agora, ser honesto não significa, apenas, um valor moral e sim, um passo em direção ao objetivo consciente de crescer e libertar-se e, portanto, gratifica. Assim como pedir desculpas não significa humilhar-se porque encerra propósitos claros. Viver, cada momento, com um objetivo maior que a segurança material, a estabilidade afetiva e o destaque pessoal, é a chave da chamada sobriedade.
Acredito, portanto, que o Décimo Segundo Passo sintetiza a fórmula do programa de tratamento do alcoolismo sugerido por Alcoólicos Anônimos quando se refere a “praticar esses princípios em todas as nossas atividades”.
E o mais importante de tudo isso: assim como a doença e o sofrimento igualou indivíduos diferentes, o objetivo comum os une e os mantém semelhantes em propósitos e métodos. A ajuda mútua é, portanto, o meio comum que complementa motivações e objetivos únicos e qualifica o uso do termo “irmandade”.

Walter Cunha
A TRILOGIA = Serenidade – Coragem – Sabedoria

“A TRILOGIA”

(SERENIDADE – CORAGEM – SABEDORIA)

DEUS, CONCEDEI-ME SERENIDADE…

Serenidade em AA tem o seu significado, a sua conotação. Não é simples Paz, tão bem expressa nos dicionários populares, a Paz aconchegante dos cobertores, do calor das noites frias; Paz do ar das montanhas com sua brisa envolvente; a Paz do carinho, do calor humano… Não, Serenidade é muito mais do que isso. Serenidade é antes de tudo um estado de espírito que nasce de Deus e cresce dentro de mim. A minha Serenidade não depende do mundo exterior, de outrem, de outras coisas. A Serenidade de que preciso, não pode depender de ninguém, de nada. Ela está comigo, é minha, faz parte de minha vida, do meu dia-a-dia. Não é como a Paz aconchegante dos cobertores, que se vai quando se tiram de mim os cobertores; não é a Paz do ar fresco, da brisa envolvente vinda da montanha, que se desfaz quando eu me afasto da montanha. Não é como a Paz do aconchego, do carinho, que se vai quando se afasta de mim o ente querido que me acarinhava… A minha Paz, a minha Serenidade, não pode ser tomada e perturbada por ninguém, por nada neste mundo. Ela é um dádiva divina, uma dádiva de Deus e portanto, só Ele poderia me tomar de volta.
A Serenidade precede a Aceitação. É preciso. Há uma seqüência lógica em tudo isso. Sem Serenidade não há Aceitação capaz de fazer com que eu aceite as coisas que não posso modificar, por que não dependem de mim. A Serenidade põe ordem na minha mente, para que eu possa compreender o que os outros estão dizendo, para que eu possa aceitar as pessoas e as coisas como elas são; para escutar o que os outros dizem, sem contestações; para aceitar tanto o mal como o bem como o bom, já que assim fazendo, eu deixo de brincar de Deus…
Serenidade não é subserviência ou covardia, não é um ato instintivo e precipitado, mas um ato consciente, um ato de coragem. Quando eu alcanço a Serenidade, eu estou apto para servir a Deus.

CORAGEM PARA MODIFICAR AS COISAS QUE POSSO…
Coragem é uma força advinda da Fé em algo que é Superior a mim mesmo. Coragem é o medo de ter medo. É o me colocar distante do egoísmo. Não é egocentrismo. É o saber que não posso modificar o mundo sozinho, mas saber que posso fazê-lo a mim… mesmo! Coragem não é uma exaltação do meu ego, da minha personalidade. Não é um ato de afoiteza, de ousadia, de arrojo. A Coragem exige de mim uma moral forte, vinda de uma força que não depende de mim, mas que me é dada a mim. Coragem é saber pedir ajuda, porque Deus se manifesta através de uma consciência coletiva, pois, a Coragem pode ser alguma coisa feita por algum outro, porque ela pode ser alguma coisa que eu não estou apto a fazer… sozinho. Coragem é perseverança, é intrepidez, é ter personalidade. Coragem é saber que Ele fará todas as coisas certas se eu submeter-me à Sua vontade, mas saber, antes de tudo, qual é a Sua vontade. Coragem é ter Deus dentro de mim, comigo!

SABEDORIA PARA SABER A DIFERENÇA…

Sabedoria é a essência da Humildade. É o próprio Deus conversando comigo. É saber escutar aos outros, às suas experiências, já que Deus também se manifesta a mim, através dos livros e da linguagem do próximo. Sabedoria é ter tolerância e procurar compreender aos outros que podem me dar discernimento, luz, melhor do que eu poderia adquirir por mim mesmo. Sabedoria é a verdade das coisas, já que ela, acima de tudo, é verdadeira. Sabedoria é a puríssima virtude da Prudência e Prudência é o saber distinguir se o que é bom para mim, hoje, é o melhor para os outros, amanhã. Sabedoria é bom senso, discernimento, é procurar mais compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Sabedoria é receber… dando.

Nota: Não é por menos que SOBRIEDADE é um estado de espírito, próprio e exclusivo aos membros de AA e que se tivesse que ser representada graficamente, o seu símbolo seria um triângulo equilátero e seus lados seriam simplesmente: HUMILDADE, SERENIDADE e FÉ.
A Humildade

A Humildade

A humildade é a virtude que dá o sentimento exato da nossa fraqueza, modéstia, respeito, pobreza, reverência e submissão.
Humildade vem do Latim “humus” que significa “filhos da terra”, ao analisarmos esta frase, encontramos material suficiente para aprender sobre a humildade.
Filhos da Terra: sentimo-nos oprimidos sabendo que nosso lugar não é aqui, fomos criados a imagem e semelhança do Criador, descemos por nosso próprio livre arbítrio, devendo retornar atarvés do nosso esforço e trabalho, fazendo florescer as virtudes latentes em nossa alma.
Se diz que a humildade é uma virtude humilde, quem se vangloria da sua, mostra simplesmente que lhe falta.
Ela torna as virtudes discretas, despercebidas de si mesma.
A humildade não depreciação de si mesmo, não é ignorância com relação ao que somos, mas ao contrário, se tem conhecimento exato do que não somos. Se apresenta com humildade, sem que a vaidade se manifeste.
Podem-se encontrar diferentes graus de humildade, como também falsas humildades, pode-se ser humildade em breves momentos, ante algo que nos parece grandioso.
São falsas humildades: Aqueles que se rebaixam ante os outros querendo parecer humildes, porém estão cheios de ressentimentos, inveja ou ambição.
Outra falsa humildade é não reconhecer ou não acreditar em seu real valor e se sentir inferior, pode até possuir humildade porém se inferioriza a tal ponto ante seus semelhantes, sentindo grande sofrimento em seu interior, este ser não respeita a sua dignidade.
Ter humildade não significa ser servil.
Ter humildade não é signo de fraqueza.
Pode-se ser humilde sem se depreciar ou reconhecer os valores de cada um.
Mas, a verdadeira humildade, é aquela que o homem tem consciência e possui uma convicção do que ele é, da sua capacidade, da sua força ou da sua fraqueza, compreende a sua inferioridade, reconhece seus limites mas, não sofre por isso, se esforça e trabalha para ser melhor e procura constantemente seu aperfeiçoamento físico, moral e espiritual.
Ser humilde é saber ir até o ponto de não interferir nos outros, ser humilde é não entrometer-se na vida dos outros.
Esta humildade, esta consciência, este sentimento se adquire lentamente pelo trabalho interior ou pode ser provocada pelo recolhimento da existência de algo superior em nós mesmos, reconhecer a grandeza de Deus, o Poder Superior, das suas Forças Universais ou das leis que as regem, ante essa compreensão e reconhecimento interior há humildade, reverência à grandeza do Criador.
A verdadeira humildade sempre está acompanhada de outras virtudes: caridade, misericórdia, amor, verdade e compaixão.
O Reparador deixou grandes ensinamentos de humildade: ao lavar os pés dos seus discípulos, assim como nos ensinou o amor ao próximo e a caridade, quando mitigava o sofrimento dos pobres.
O homem pode nascer com tendências à virtude da humildade, pode nascer humilde, como também pode trabalhar para adquiri-la.
A humildade é uma virtude que atua sem ilusão, sendo guiada pela razão. Um bom conhecimento teórico da humildade favorecem o aprofundamento nesta virtude assim como também o conhecimento exato de nossas limitações.
A humildade produz no interior do homem alegria, paz e serenidade, todo o ser tem conformidade do que ele realmente é e se sente satisfeito em sua fraqueza.
A força da virtude está na alma e não precisamos ser santos para ter humildade, afastando o orgulho, a vaidade, a prepotência e o egoísmo.
Auto-Aceitação

AUTO-ACEITAÇÃO

A falta de auto-aceitação é um problema para muitos dependentes químicos em recuperação. Este defeito sutil é difícil de identificar e freqüentemente permanece irreconhecível. Muitos de nós acreditavam que o uso de álcool e drogas era o nosso único problema, negando o fato de que nossas vidas tinham se tornado ingovernáveis. Esta negação pode continuar a nos atormentar mesmo abstêmios. Muitos dos problemas que vivenciamos durante a recuperação são provenientes de uma inabilidade em nos aceitarmos num nível mais profundo. Podemos nem mesmo nos darmos conta de que este desconforto é a causa de nosso problema, porque ele normalmente se manifesta de outras maneiras. Podemos perceber que estamos nos tornando irritáveis, críticos, descontentes, deprimidos ou confusos. Podemos nos ver tentando mudar fatores ambientais com intuito de satisfazer o desconforto interior que sentimos. Em situações como estas, nossa experiência tem mostrado que é melhor procurar dentro de nós mesmos pela causa do nosso descontentamento.

Muito freqüentemente descobrimos que somos severos críticos de nós mesmos, afogando-nos em autocomiseração e auto-rejeição.

Antes de conhecermos a programação, muitos de nós passamos nossa vida inteira em auto-rejeição.

Nós nos odiávamos e tentávamos, de todas as maneiras, nos tornar alguém diferente. Nós queríamos ser qualquer outra pessoa menos nós mesmos. Incapazes de nos aceitarmos, tentávamos ganhar a aceitação dos outros. Queríamos que outras pessoas nos dessem o amor e a aceitação que não conseguíamos ter, nosso amor e amizade eram sempre condicionais. Nós faríamos qualquer coisa pôr alguém só para ganhar sua aceitação e aprovação e, então, poderíamos nos ressentir com aqueles que não correspondessem as nossas expectativas.

Porque não podíamos aceitar a nós próprios, esperávamos ser rejeitados pelos outros. Não podíamos permitir que qualquer um se aproximasse de nós por medo que se conhecessem quem realmente éramos, poderiam nos odiar. Para nos proteger da vulnerabilidade nós rejeitávamos os outros antes que eles tivessem a chance de nos rejeitar.

Aprendendo a perdoar a si mesmo

APRENDENDO A PERDOAR A SI MESMO

Primeiro que tudo, você precisa perdoar a si mesmo por não ser capaz de perdoar. Com freqüência somos muito duros para com nós mesmos e os outros, por “não sermos suficientemente espirituais”. Saiba que o processo de crescimento faz sentido; e você não pode dar o segundo passo antes de dar o primeiro. Peça compreensão ao Eu Interior e, depois, escute a silente e sutil voz interior.

O Eu Interior nunca assume papel de juiz, não é vingativo, nem indiferente. Percebe a situação claramente e quer agir para o maior bem de todo mundo envolvido. Às vezes isso pode significar a renúncia a uma relação; outras vezes pode significar permitir-se amar novamente e fazer o possível para recuperar uma relação.

Se você está aprendendo a perdoar a si mesmo, é muito importante que se lembre de que está aprendendo a compreender sua real responsabilidade numa relação ou situação. Acostumamos a assumir responsabilidade demais pelo que aconteceu ou está acontecendo. Do mesmo modo, tendemos a ter dificuldade para perdoar os outros, por lhes atribuirmos responsabilidade demais, ou seja, nós os estamos culpando. Encontrar uma perspectiva equilibrada em qualquer situação que envolva questões de responsabilidade e perdão leva tempo, reflexão persistente e a disposição de considerar novas idéias.

A verdadeira auto-estima vem, de sabermos que nossa compreensão do Eu, se aprofunda com a experiência. Estamos aprendendo a confiar em nosso próprio compromisso pessoal com o crescimento espiritual. Isto quer dizer que já demonstramos a nós mesmos que podemos mudar e que nossa consciência está evoluindo à medida que enfrentamos os desafios de nossa situação particular.
Alcoolismo e vergonha na cara

ALCOOLISMO E VERGONHA NA CARA

Outra crença enraizada é a de que o alcoólatra seja uma pessoa fraca de caráter ou sem força de vontante. Claro, como é que alguém com um minímo de dignidade pode andar cambaleando por aí?
As pessoas partem do princípio – ingênuo – de que só é bêbado quem quer. Tanto assim que elas (não-alcoólatras) bebem numa boa e não se deixam “viciar” pelo álcool. O que falta ao alcoólatra, então, é sermão, descompostura e providências similares para obrigá-lo a readquirir dignidade e fibra.
É claro que só pensa assim quem nunca sentiu a compulsão alcoólica. Às vezes, quem insulta o alcoólatra é um gordo que não pára de comer, um fumante que não pára de fumar, um jogador que não pára de jogar, um mulherengo que não pára de paquerar: é que a compulsão dos outros é fácil de controlar.
Vergonha na cara não é o que falta ao alcoólatra. A vergonha que ele sente de beber desbragadamente é tamanha que bebe mais ainda só para embriagá-la.
Um amigo, hoje recuperado pelo Alcoólicos Anônimos, me confiou: “Eduardo, eu antes de virar alcoólatra cheguei até a morar no Copacabana Palace. Depois, é óbvio, fui perdendo tudo: dinheiro, profissão e até família. Acredite se quiser, tornei-me mendigo. Mendigo mesmo, do tipo que cata sobras de comida. Quando ia pedir esmola, tomava mais umas e outras não para ganhar coragem para pedir esmola e me assumir como mendigo, pois essa eu tinha, mas para ter coragem de me assumir como alcoólatra. É que as pessoas me chamavam assim, e a palavra me fazia mal demais”.
Muitos gigantes da vontade, de rara fibra e garra para todas as coisas são alcoólatras. São fortes para tudo, exceto para o álcool. Padecem de uma vulnerabilidade específica, tal como o pâncreas de um diabético em relação ao açúcar: não foram feitos um para o outro.
Ninguém se torna dependente do álcool porque quer. Mas simplesmente porque, apesar de todos os mais sinceros e comoventes esforços, não consegue deixar de beber.
Poder-se-ia argumentar: então, por que começou a beber? Começou porque todo mundo começa um dia. E quem iria advinhar que, anos depois, estaria possuído por essa compulsão?
O alcoolismo, como já vimos, dá em todo tipo de gente. Logo o alcoólatra não é melhor nem pior do que ninguém. Exceto por sua compulsão, é tão fraco ou tão forte quanto todo mundo.
É importante deixar tudo isso bem claro, pois muitas pessoas morrem bêbados só para não serem obrigadas a se reconhecerem como gente fraca, sem fora de caráter.
É óbvio que, não controlado, o alcoolismo em suas etapas avançadas debilita qualquer gigante. No final, todos os bebedores vão ficando parecidos: vão virando pasta.
Mas isso é consequência do alcoolismo. Não é a sua causa.
O alcoólatra controlado, sem beber, volta a ser um cidadão como outro qualquer. Existem alcoólatras do mais alto nível. Outros que não são. Exatamente como os não-alcoólatras.

Enfim, os alcoólatras são gente como a gente.

Eduardo Mascarenhas
Serenidade e sabedoria

SERENIDADE E SABEDORIA

Todo homem sábio é sereno.
A serenidade é conquista que se consegue com esforço pessoal, passo a passo. Pequenos desafios que são superados; irritações que conseguimos controlar; desajustes emocionais corrigidos; vontade bem direcionada; ambição freada são todas experiências para a aquisição de serenidade.

Um espírito sereno é aquele que já se encontrou consigo próprio, sabendo exatamente o que deseja da vida.
A serenidade harmoniza, exteriorizando-se de forma agradável para os que estão à volta. Inspira confiança, acalma e propõe afeição.

O homem que consegue ser sereno já venceu grande parte da luta.
Assim, não permita que nenhuma agressão exterior lhe perturbe, causando irritação e desequilíbrio.
Procure manter a serenidade em todas as realizações.

A sua paz é moedas arduamente conquistadas, que você não deve atirar fora por motivos irrelevantes.
Os tesouros reais, de alto valor, são aqueles de ordem íntima, que ninguém toma, que jamais se perdem, e sempre seguem com você.

Quando estiver diante de alguém que engana, traindo a sua confiança, o seu ideal, procure manter-se sereno.
O enganador é quem deve estar inquieto, e não a sua vítima.
Se no seu circulo familiar ou social, você irá sempre se defrontar com pessoas perturbadas, confusas e agressivas.
Não se desgaste com elas, competindo nas faixas de desequilíbrio em que se fixam. Elas são um teste para sua paciência e serenidade.

Quem consegue manter a serenidade diante das pequenas dificuldades que surgem, vence mais facilmente os grandes desafios.
O homem sereno consegue viver mais feliz, pois nada parece afligi-lo a ponto de fazê-lo desistir dos sonhos que traçou para si mesmo.

O homem sereno jamais busca resolver suas questões através de comportamento violento, e por isso há muita paz em sua vida.
Auto-Aceitação

AUTO-ACEITAÇÃO

A falta de auto-aceitação é um problema para muitos dependentes químicos em recuperação. Este defeito sutil é difícil de identificar e freqüentemente permanece irreconhecível. Muitos de nós acreditavam que o uso de álcool e drogas era o nosso único problema, negando o fato de que nossas vidas tinham se tornado ingovernáveis. Esta negação pode continuar a nos atormentar mesmo abstêmios. Muitos dos problemas que vivenciamos durante a recuperação são provenientes de uma inabilidade em nos aceitarmos num nível mais profundo. Podemos nem mesmo nos darmos conta de que este desconforto é a causa de nosso problema, porque ele normalmente se manifesta de outras maneiras. Podemos perceber que estamos nos tornando irritáveis, críticos, descontentes, deprimidos ou confusos. Podemos nos ver tentando mudar fatores ambientais com intuito de satisfazer o desconforto interior que sentimos. Em situações como estas, nossa experiência tem mostrado que é melhor procurar dentro de nós mesmos pela causa do nosso descontentamento.

Muito freqüentemente descobrimos que somos severos críticos de nós mesmos, afogando-nos em autocomiseração e auto-rejeição.

Antes de conhecermos a programação, muitos de nós passamos nossa vida inteira em auto-rejeição.

Nós nos odiávamos e tentávamos, de todas as maneiras, nos tornar alguém diferente. Nós queríamos ser qualquer outra pessoa menos nós mesmos. Incapazes de nos aceitarmos, tentávamos ganhar a aceitação dos outros. Queríamos que outras pessoas nos dessem o amor e a aceitação que não conseguíamos ter, nosso amor e amizade eram sempre condicionais. Nós faríamos qualquer coisa pôr alguém só para ganhar sua aceitação e aprovação e, então, poderíamos nos ressentir com aqueles que não correspondessem as nossas expectativas.

Porque não podíamos aceitar a nós próprios, esperávamos ser rejeitados pelos outros. Não podíamos permitir que qualquer um se aproximasse de nós por medo que se conhecessem quem realmente éramos, poderiam nos odiar. Para nos proteger da vulnerabilidade nós rejeitávamos os outros antes que eles tivessem a chance de nos rejeitar.
O alcoolismo dá em todo tipo de gente

O ALCOOLISMO DÁ EM TODO TIPO DE GENTE

Uma das lendas sobre sobre o alcoolismo é que ele seja causado pela miséria. A vida se tornaria tão dura que, para anestesiar-se, o miserável se refugiaria no álcool. Isso não é verdade. O etilismo ocorre com a mesma frequência em países pobres ou ricos, países capitalistas ou socialistas. Dá tanto em rico quanto em pobre, tanto em branco quanto em preto. Não é sintoma de problemas sociais. Também não é doença de gente triste. Registram-se os mesmos 13% entre pessoas frustradas ou bem-sucedidas, bem-amadas, tímidas ou extrovertidas, angustiadas ou tranquilas. Não há conexão direta entre alcoolismo e fossa.
Outra lenda é que o alcoolismo seria decorrência do clima frio. As pessoas iriam se “viciando” no álcool por recorrerem frequentemente a ele para aquecer o corpo. Também isso não é verdade: em países tropicais bebe-se tanto quanto nos países nórdicos – baiano não bebe menos do que sueco ou esquimó.
A compulsão ao álcool não tem igualmente nada a ver com gula ou voracidade. Dá com a mesma regularidade em gordos e magros, gulosos e frugais. É óbvio que o alcoolismo é uma voracidade, só que é uma voracidade restrita ao álcool. Um alcoólatra pode perfeitamente ser uma pessoa moderada em tudo o mais.
Tampouco existem tipos de personalidade mais sensíveis ao álcool. Se muitos alcoólatras são violentos, paranóicos, ciumentos, muitos não o são, ou só ficam assim quando estão bêbados, se bem que muito bêbado é meigo, tranquilo, manso, mesmo no auge do pileque.
O fato de se ficar embriagado com pouco álcool ou de não se mostrar alterado nem com muito álcool também não quer dizer nada. Muito alcoólatra fica bêbado na primeira dose, e outros não se embriagam nem depois de beberem um litro. A única vantagem do alcoolismo de pequenas doses é que sai mais barato para quem está nele, caso não continue bebendo depois de bêbado…
Alcoolismo também não é coisa de gente preguiçosa ou fraca da vontade. Aquele atleta de ontem, que acordava com o nascer do sol e apresentava a mais férrea força de vontade, pode perfeitamente tornar-se o pau-d’água de amanhã.
A frequência com que se bebe, esta sim, é sugestiva de tendência ao alcoolismo, embora não seja fator decisivo. Muita gente bebe diariamente e jamais perde a moderação espontânea, enquanto outros bebem anualmente, num único fim de semana, mas aí ninguém segura. Porém, de maneira geral, o alcoólatra tende a beber cada vez mais, e mais habitualmente.

Eduardo Mascarenhas
Como saber se você é um alcoólatra

COMO SABER SE VOCÊ É UM ALCOÓLATRA

Se me perguntassem qual é o sinal mais frequente do alcoolismo, eu responderia que não é a sensação, por parte do alcoólatra, de já ter perdido o controle sobre o álcool. Digo isso porque quase todo alcoólatra, mesmo que esteja bebendo sem parar, tem a firme convicção de que controla o álcool. Pode até reconhecer que anda se excedendo um pouco mas quase sempre achará que isso não passa de uma fase. Com essa “teoria da fase”, ele explica tudo e se convence de que parará de beber quando resolver. Não quer se violentar agora, anda tenso, sobrecarregado, mas, logo, logo, passará a “fase” e aí tudo voltará ao normal…
O que caracteriza o alcoolismo não é a sensação de ter perdido o controle; é, isso sim, o fato de estar bebendo frequentemente e em doses crescentes. A curva da bebida é para cima. Só a da bebida…
Tudo começa a se tornar motivo de comemoração. Para vencer a timidez, por que não umas dosezinhas? Até para fazer sexo ou namorar há que tomar uns drinques. O alcoólatra bebe porque está triste – para afogar as mágoas – , mas bebe porque está alegre – para comemorar. Bebe porque está nervoso, para acalmar, ou porque anda calmo demais, para dar um realce, um brilho na vida. De início, bebia apenas nos fins de semana, e somente à noite. Se visita um amigo, logo pergunta pela bebida, tendo sempre a última piada de biriteiro na ponta da língua para justificar o pedido. Mais dia, menos dia, começa a beber à tardinha – é a happy hour – para serenar as tensões do cotidiano. Depois, já de manhã; misturando, é claro, no suco de tomate ou de laranja. Finalmente, engole até álcool puro ou água de colônia para sair da cama…
Se existe algo que caracteriza o alcoólatra é uma ligação com copos, garrafas, e garçons. Sua mente está ligada no álcool. Parece que há um campo magnético que o atrai em direção a ele.
O não-alcoólatra pode, eventualmente, exagerar a dose; mas naturalmente e sem esforço retorna à sua moderação. Nele o álcool sacia, não “vicia”. Se bebe demais, empanturra-se e não quer beber de novo. Já o alcoólatra, quanto mais bebe, mais sente vontade de beber.
Em muita gente o alcoolismo é evidente. São os frequentadores assíduos de bares e botequins, que vivem cambaleando, dando vexame, sendo inconvenientes ou falando de língua enrolada. Mesmo nesses casos, porém, em que o alcoolismo fica patente para quem vê esses personagens, para eles, não é bem assim. E, como convivem com outros alcoólatras, igualmente interessados em negar sua condição, cada qual reforça a negação do outro e louva a própria “excentricidade”, algo “poética”. São notívagos, almas boêmias, seres das madrugadas, amantes da noite. Boêmio, sim. Alcoólatra, não. E tome pileque…

Eduardo Mascarenhas

s 10 traços de um co-dependente

OS DEZ TRAÇOS DE UM CO-DEPENDENTE

1. O co-dependente é guiado por uma ou mais compulsões.

2. Um co-dependente é compelido e atormentado pelo jeito que as coisas eram na família disfuncional de origem.

3. A auto-estima (e muitas vezes a maturidade) do co-dependente é muito baixa.

4. O co-dependente tem certeza de que sua felicidade depende de outros.

5. Do mesmo modo, o co-dependente se sente extremamente responsável pelos outros.

6. O relacionamento do co-dependente com o cônjuge ou outra pessoa significativa é desfigurado pelo instável desequilíbrio entre dependência e independência.

7. O co-dependente é um mestre da negação e da repressão.

8. O co-dependente se preocupa com coisas que não pode mudar e é bem capaz de tentar mudá-las.

9. Além disso, a vida do co-dependente é pontuada por extremos.

10. Para finalizar, o co-dependente está sempre procurando por alguma coisa que falta em sua vida.
Alcoolismo e dor-de-cotovelo

ALCOOLISMO E DOR-DE-COTOVELO

Uma das lendas mais populares sobre o alcoolismo é aquela segundo a qual uma pessoa se torna alcoólatra porque teve alguma tragédia amorosa na vida. É a “teoria Vicente Celestino”: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou”.
A hipótese que está por trás desses versos é a de que existia um homem trabalhador, honesto, cheio de amor para dar e que deu tudo que tinha e o que não tinha para o seu bem-querer. E que fez essa aventureira, sem caráter ou gratidão? Sem nenhum motivo, abandonou-o! A traição foi demais para quem sempre fora só carinho e compreensão.
Pelo menos, essa é a versão do alcoólatra da canção. Terá sido essa a verdadeira estória? Não seria ele, há muito tempo, um biriteiro enrustido, que apronta sem parar e jamais admite se exceder em nada? Não terá ela suportado tudo o que uma mulher não pode suportar e, só depois de ultrapassados todos os limites, desistido?
Jamais saberemos. O que sabemos é que muitas e muitas vezes a verdadeira versão é essa. Quase todas as músicas de fossa desenvolvem essa teoria da dor-de-cotovelo como causa do alcoolimo. Mas essa teoria não leva em conta vários fatores.
Logo de saída, muita gente sente dor-de-cotovelo e nem por isso torna-se um ébrio, tentando resolvê-la nos copos de um bar. Algumas pessoas até tomaram um ou dois pileques por causa de algum sofrimento amoroso, mas nem de perto adquiriram uma compulsão etílica.
E mais. Se alguém fizer um cálculo estatístico da porcentagem daqueles que perderam um grande amor e se tornaram ébrios, vai verificar que não é maior nem menor do que entre aqueles que não perderam um grande amor: os mesmos 10% a 13% vão sempre se repetir!
O máximo que a dor-de-cotovelo pode fazer é deflagrar ou acelerar um alcoolismo que já existia. Mas, se não fosse ela, outro fator apareceria. Questão de tempo.
O que há de verdade na relação alcoolismo/dor-de-cotovelo não é que a dor-de-cotovelo gera alcoolismo, é que o alcoolismo gera a dor-de-cotovelo. Afinal, quem aguenta conviver com um alcoólatra?.

Eduardo Mascarenhas
Inteligência espiritual

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

Inteligência espiritual é ter consciência de que a vida é uma grande pergunta em busca de uma grande resposta. É procurar o sentido da vida, mesmo sendo um ateu. É procurar por Deus, independente de uma religião, mesmo sentindo-se confuso no novelo da existência. É agradecer a Deus pelo dia, pela noite, pelo sol, por sermos um ser único no universo.
É procurar as respostas que a ciência nunca nos deu. É ter esperança na desolação, amparo na tribulação, coragem nas dificuldades. É ser um poeta da vida. Você é um poeta ?
No cerne da alma e no espírito humano há um buraco negro, um vazio existencial, que suga nossa paz diante das dores da vida e da morte. O fim da existência é o fenômeno mais angustiante do homem. Todos os povos desenvolveram um tipo de inteligência espiritual para entendê-lo e superá-lo.
Einstein disse: quero conhecer os pensamentos de Deus, o resto é detalhe. Ele ambicionava algo maior do que revolucionar a ciência. O homem mais inteligente do século XX queria perscrutar a mente de Deus. Ele buscava o sentido da sua vida. Onde anda você ?
No passado, eu pensava que procurar Deus era uma perda de tempo. Hoje penso completamente diferente. Percebo que há um conflito existencial dentro de cada ser humano, seja ele um religioso ou um ateu cético, que a psiquiatria e a psicologia não podem resolver.
A psiquiatria trata do transtornos psíquicos usando antidepressivos e tranquilizantes, e a psicologia, usando técnicas psicoterapêuticas. Mas elas não resolvem o vazio existencial, não dão respostas aos mistérios da vida. Quando a fé se inicia, a ciência se cala. A fé transcende a lógica.
Temos milhões de livros científicos, mas a ciência não sabe explicar o que é a vida. Vivemos numa bolha de mistérios. As questões básicas da existência humana não foram resolvidas.
Quem somos ? Para onde vamos ?
Como é possível resgatar a identidade da personalidade depois da morte se trilhões de segredos da memória se esfacelam no caos ?
O fim é o nada ou o fim é o começo ?
Nenhum pensador encontrou tais respostas. Quem as procurou na ciência morreu com suas dúvidas.
A ciência através do seu orgulho débil, desprezou a eterna e incansável procura do homem pelo sentido da vida. Agora, estamos entendendo que o desenvolvimento da inteligência espiritual por meio de oração, meditação e busca de resposta existenciais aqueta o pensamento e apazigua as aguas da emoção.

Embora haja radicalismos e intolerância religiosa que depõem contra a inteligência, procurar por Deus, conhecê-lo e amá-lo é um ato inteligentíssimo. O amor do ser humano pelo Autor da Vida produz força na fragilidade, consolo nas tempestades, segurança no caos.

PORTA ABERTA, ENTRE SEM BATER – COMPARTILHANDO OS PASSOS – 12º PASSO

PORTA ABERTA , ENTRE SEM BATER
COMPARTILHANDO OS PASSOS

O amor entre nós AAs. É um sentimento tão divino que muitas vezes foge à nossa compreensão.
Através deste amor somos movidos a caminhar juntos pela vida levando compreensão, perdão, tolerância, desapego; dando valor ao que realmente tem valor, não ficando presos a palavras, gestos, fatos, eventos ou situações emocionais, pois tudo isto é muito pequeno comparado à grandeza do nosso espírito, à grandeza da vida que A. A. nos proporciona.
É neste caminhar juntos que fazemos nossa parte amando nossos companheiros como a nós mesmos, entregando ao Poder Superior nossa vida, nossas situações conflitantes e dolorosas visualizando sempre nossa grande meta que é tão somente nosso amadurecimento espiritual.
Existe outra maneira de atingirmos nossa paz interior senão através do amor?
Do dar que não pede recompensa?
Do amor sem nada pedir em troca?
Este amar que vai além…
Nós Aas. Após havermos experimentado um despertar espiritual graças aos Passos sabemos que há retorno sim, porém do Amor Divino e real que é a alegria de viver! A verdadeira felicidade está em termos a capacidade de expressar este amor.
Que o Poder Superior nos conceda a graça de continuarmos na emoção de levar emoção, reconciliando sentimentos, encurtando distâncias através das palavras, palavras estas, que vocês nos enviam e que aliviam a dor e o sofrimento daqueles que ainda não conhecem A. A.
Que a luz que guia o mundo possa também iluminar os seus sonhos.

12º Passo:
“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

Sinto prazer em ver uma pessoa sair do atoleiro e evoluir. Sinto gratidão ao dar o que recebi de graça.
Com sinceridade, levo a mensagem de A. A. por interesse pessoal, uma vez que, caso não haja ingressantes muitas portas poderão se fechar e, como conseqüência, ficará mais difícil a manutenção da minha abstinência alcoólica.
Hoje, passados treze anos e seis meses que estou buscando a sobriedade plena percebi que meu objetivo maior dentro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos é ser uma pessoa normal, pois, quando alcoolizado era totalmente insano; o que eu fazia sob o efeito álcool não era nada normal.
Certa noite estava conversando com um companheiro de grande sabedoria e este me falava: – enquanto o companheiro tiver dúvida ou não aceitar os Passos, não tem jeito, não tem futuro na Irmandade, invariavelmente vai voltar ao copo.
Realmente, ele tem razão, como posso experimentar um despertar espiritual se arrasto comigo alguma dúvida? Para que eu possa transmitir uma mensagem tenho que ter convicção plena daquilo que estou falando.
Vejamos o outro lado da moeda. Quando vim para a Irmandade, não vim porque era modismo ou era um local agradável.
Vim porque estava no fundo do poço, perdendo a vida, perdendo a família e a dignidade.
Vim porque era impotente perante o álcool e porque o álcool havia dominado totalmente a minha vida.
Vim por acreditar que um Poder Superior a mim mesmo poderia devolver-me a sanidade e, com isso, decidi entregar minha vontade e minha vida aos cuidados de um Deus Amantíssimo, na forma em que O concebo.
Fiz um minucioso e destemido inventário moral de mim mesmo e admiti perante Deus e a outro ser humano a natureza real de minhas falhas; estendi as mãos espalmadas a Deus para que removesse meus defeitos de caráter.
Voltei a Ele, humildemente, para que me livrasse de minhas imperfeições.
Relacionei as pessoas que feri e fiz reparações, sempre que possível e me propus a continuar fazendo inventários e reparações ao longo de minha vida.
Estes Passos a meu ver são como construir uma casa: – escolher o terreno, planejar, fazer alicerce, a base, construir as paredes, fazer a laje superior, fazer o telhado, dar o acabamento e mobiliar.
Com esta casa pronta procurei, através da prece e da meditação, melhorar meu contato consciente com Deus Amantíssimo, na forma que eu O concebo, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a mim, para melhor viver nesta casa que construí.
Agora sim, sinto alegria de viver e quero passar para frente, compartilhar meu novo modo de vida, dar sem nada pedir em troca porque já recebi tudo!
Após este despertar espiritual, minha vida transformou-se muito.
Deixei de ser uma pessoa egoísta e querer tudo somente para mim; deixei de ser o alvo das atrações; comecei a olhar para os lados e ver as pessoas que sofrem por causa do alcoolismo, famílias sendo destruídas e passei a compartilhar com outras pessoas o que é, e para que serve a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
Em nossa Irmandade ocorre algo surpreendente: ela não transforma o pobre em rico; o analfabeto em literato; o feio em bonito; o velho em jovem e nem dá remédio, dinheiro, emprego, roupa ou soluciona nossos problemas, mas nos oferece condições para modificar e melhorar nossa vida!
A. A. é um programa de vida para toda vida; é uma escola que não dá diploma, mas nos transforma em seres dignos, íntegros, úteis e felizes!.

(Fonte: Revista Vivência – Nº 122 – Nov-Dez/2009 – JÁ – Santos/SP)