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OS 12 PASSOS DE A. A.

Primeiro Passo
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

“Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém é claro. Todos os instintos naturais gritam contra a idéia da impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da providência pode removê-la”. (Os Doze Passos)
Quando entrei pela primeira vez em uma sala de alcoólicos anônimos, estas foram as primeiras palavras que ouvi do meu padrinho “ou você para de beber ou vai beber até morrer. Aceita que você é impotente perante o álcool e que perdeu o domínio sobre sua vida”. Estava aí o único passo do nosso programa que deve ser feito 100 por cento. De inicio não me assustei muito, pois mesmo não conhecendo o A.A. e nunca tendo ouvido falar dos 12 passos isto não era novidade para mim.
Durante minha militância alcoólica, desde o início eu percebia que tinha algo diferente comigo, meus amigos bebiam e quando chegavam a uma determinada hora paravam e eu continuava. Com o passar do tempo fui bebendo mais e mais, tornando-me dependente. No inicio era aquele namoro de fim de semana, mas com o passar do tempo passou a ser namoro sem fim. Perdi tudo; família, auto-estima, amor próprio, fui parar na rua e capaz de fazer as coisas mais absurdas para suprir meu vício, magoando as pessoas que eu mais gostava, traindo meus amigos e principalmente não me respeitando. Minha família, por exemplo, não sabia o que fazer, pois como alcoólico que sou, sempre achava uma saída para as minhas complicações. Quando o bicho pegava dava sempre um jeito de me safar honestamente ou desonestamente. Quando estava no ápice da minha dependência alcoólica atingia um estágio de insanidade tão grande que fazia qualquer coisa para beber.
No decorrer de vários anos de muito sofrimento, sempre tendo o álcool como parceiros, tentei parar algumas vezes. Até conseguia, mais sempre pensava; um trago só não vai fazer mal. Aí é que eu me enganava e voltava tudo de novo e cada vez mais pesado. Foi quando percebi que tinha perdido totalmente o controle da minha vida, mas aceitar a derrota era muito difícil. Eu pensava; “porque as outras pessoas podem e eu não?” Então foi num dia de desespero total que resolvi procurar meu cunhado que já fazia parte da irmandade de A.A. e que até já serviu de gozação lá em casa, bebum vocês sabem com é né; mas ele não me negou ajuda. E foi aí que me deparei com essa grandiosa irmandade de Alcoólicos Anônimos que viria a ser o divisor de águas em minha vida, dando condições de paralisar com minha doença e seguir uma nova vida, tanto física, quanto mental e, principalmente, espiritual.
Quando entrei na sala de A.A. e me deparei com o 1º passo não tinha mais jeito, ou eu o aceitava 100% como meus companheiros haviam me sugerido ou continuaria morrendo pouco a pouco. Somente através da aceitação da derrota total perante o álcool eu poderia estar pronto para dar alguns passos rumo a minha recuperação e graças ao meu poder superior aceitei o 1º Passo de nosso programa de recuperação e, através de uma reformulação de vida sugerida pelos meus companheiros, estou hoje aqui podendo contar um pouco da minha história.
Em nossas literaturas é descrito que somente quando o bebedor problema atinge o fundo do poço na derrota completa perante o álcool, estaria ele pronto para aceitar este passo.
Mas, com o decorrer dos anos, podemos perceber que o álcool esta destruindo as pessoas mais cedo e várias pessoas estão chegando cada vez mais rápido em A.A., mesmo que não tenham bebido até atingirem a derrota total, se identificam prontamente com o 1º Passo de A.A.

Segundo Passo
“Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

Acreditar é algo impossível para alguém que está derrotado moralmente e espiritualmente?
Quanto mais em algo que não se vê ou não se pode tocar? Porém é algo que acontece quando estamos no fundo do poço e viemos a acreditar em um Poder Superior no qual depositamos nossas esperanças de reerguermos a nós mesmos, buscando forças de onde não se pensa existir mais.
Como seria possível acreditar que os delírios, a vontade de auto-extermínio, o afastamento total da sociedade, amigos e familiares; poderia vir a ser revertido em alegria, vontade de viver, ser produtivo, ser amado e amar? No início de uma caminhada, onde homens e mulheres que experimentaram uma vida cheia de alegria, afeto e produtividade se encontram em um caos interior e admitem sua derrota por algo que não se encaixa na sua realidade e se vêem envoltos a situações que em tempos anteriores resolveriam de letra, e nenhum ser vivo poderia lhe suprir tais necessidades ou lhe ajudar a sair de eventuais problemas (muitas vezes causadas por ele mesmo).
É nessa hora que a humildade, a fé e a paciência têm que ser mais forte que nós mesmos.
HUMILDADE de olhar para si mesmo e ver que está sozinho no mundo terreno, e muita das vezes chorar e clamar por socorro a um Poder Superior, que naquele momento confiamos ser aquilo ou aquele que possa nos ouvir e nos transformar.
FÉ para acreditar que muita das vezes não poderíamos ver nem tocar neste Poder Superior, mas que Ele iria nos dar as respostas, sentidos e direções para nossas vidas; até mesmo que Ele restaurasse nossa fé quando não a tínhamos mais. Fé que ao sermos restaurados de forças físicas, morais e espirituais pudéssemos novamente levantar e caminhar em busca de uma vida digna e de respeito, vivendo e deixando outros viverem.
PACIÊNCIA para sabermos que tudo não aconteceria da noite para o dia, que nossos entes queridos ou pessoas as quais um dia fizemos sofrer, nos perdoaria rapidamente, que os bons empregos perdidos fossem aparecer em um estalar de dedos; paciência para conosco mesmo em saber que estamos vivos e batalhando contra algo que um dia nos derrotou, trazendo prejuízos sem medidas e muitas vezes irreparáveis.
Por isso nossa sanidade deve estar alicerçada em buscar sempre a humildade, a fé em algo que não se vê ou se toca, mas que espiritualmente nos conforta, e paciência para irmos nesta caminhada que é a vida com a certeza de chegar, e chegarmos firmes sempre acreditando em um Poder Superior ao qual nos devolveu a sanidade e nos fortalecerá para sermos fortes e inabaláveis nos dias difíceis.

Terceiro Passo
“Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de DEUS na forma em que o concebíamos”.

É necessário confiar, acreditar que ajuda oferecida é suficiente e capaz de reverter o mecanismo de destruição.

Medo, dúvida, insegurança são coisas naturais e deverão ser enfrentadas com paciência e compreensão.

O que devemos ter nesse passo? A confiança.

Confiança é o combustível que moverá nosso passo, para agir nesse momento de decisão, apesar do risco constante e dificuldades que estarão sempre diante de nós.

O Terceiro Passo é um passo de ação. Chegou o momento, é preciso começar a acreditar em alguma coisa, em Deus, em pessoas, grupos, plano de vida, algo que funcione.

O importante é confiar, dar-se a chance de experimentar esta ação, e dizer a um Poder Superior: Ofereço-me a ti, para que trabalhes em mim e faças comigo o que desejares. Liberta-me da escravidão do ego, para que eu possa realizar a sua vontade.

Encontrar com meu Poder Superior sozinho é opcional. Pois sozinho me declaro sem reservas e, fazendo estas declarações, tenho a oportunidade de exercer a minha honestidade e humildade que trago comigo, e assim a resposta tem um efeito imediato e às vezes considerável. Um relato pessoal: Terceiro passo é isso. Tomar uma decisão e colocar em ação, aquilo que posso fazer hoje eu faço, não coloco essa ação em um arquivo para ser realizado quando chegar o momento.

Essa decisão juntamente com a ação traz de volta o direito de eu pensar o que é bom para mim.

Quarto Passo
“Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.

Nosso real e significativo momento de vida é de reconhecimento – Gratidão – Ação e solidariedade.
Vejam só: Diante de “flashs” divinamente elaborados sobre nossas vidas, admitimos…, acreditamos… e então decidimos.
Agora, neste instante, podemos perceber o amparo incondicional que aconteceu em cada um de nós. O alívio imediato impulsionou em nosso interior uma curiosidade. Quero entender como isto aconteceu?! Na busca, dúvidas, desconfiança, incapacidade emocional, medo, insônia, ideias evasivas, contudo, a sensação de profundas certezas:
a) Não posso beber;
b) Quero entender;
c) Preciso perseverar;
d) “só por hoje”;
e) “um dia de cada vez”
f) “Agora não”

Preste atenção > ouça > Mente aberta > vá com calma
O companheirismo, a disponibilidade coletiva, a sinceridade, as experiências compartilhadas e sobretudo a honestidade individual e intransferível, nos revelou o direito de acreditar.
Identificada a causa, sendo transparente e aceitando as recomendações propostas, descobrimos que em todas as situações embaraçosas de embriaguez que experimentamos nos foi concedido um indulto para chegarmos até aqui. Podemos concluir que:
– quando tudo parecia perdido
– quando queríamos desistir
– quando virávamos as costas
– quando explodíamos para desarmar a barraca
Então jogamos a toalha e pedindo socorro, mesmo sem avaliar o merecimento, Ele veio, era o AMOR. Personificando a tolerância, a compreensão, a esperança e constantemente investindo em nossa evolução. Incentivando-nos ao progresso moral, tornou clara e cristalina, proporcionando à nossa tenra capacidade humana a divina sabedoria da escolha
DECIDIMOS
Estamos diante de um labirinto – CORAGEM!
Diga a você mesmo (a):
Este labirinto sou EU?!
Vamos entrar?!
CONFIE!
Você não está sozinho(a): A partir de agora jamais estará. Sua consciência será seu guia; e EU estarei permanentemente com você.
Lembre: Vá com calma!
Oxigene-se! Respire!
“Cheire uma flor”
“Assopre a chama de uma vela”
OUTRA VEZ
“A solidão pode parecer tenebrosa; É daí que conquistamos o isolamento e produzimos grandes feitos” (reflexão, lembranças, pensamentos, leituras, escritas meditação, etc.)
Viemos acreditar – página 130/131 – Gr Universo
18 de janeiro de 2012.
“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Cante, chore, dance, ria antes que a cortina se feche e tudo termine sem aplausos”
C. Chaplin
… quando nos aproximamos Dele, Ele se revelou!
Agora sou EU, é comigo! Opa!
PARE
“Lembre-se de que estamos lidando com o álcool – traiçoeiro, desconcertante, poderoso!
Se ajuda é demais para nós. Meias medidas de nada adiantaram. Nossa meta não é a PERFEIÇÃO ESPIRITUAL, é o desejo de crescermos espiritualmente. Então, qual será o método?
EXPERIMENTAR!
Exercite, pratique, deguste
Comecemos:
Quem sou?
De onde vim?
Para onde vou?
… sou criatura divina…
Origem simples, desprovido do saber (ignorante), porém, com uma centelha de luz (consciência) que sabiamente pesquisada é o meu norte para o crescimento como ser humano.
Tendo na bagagem da consciência a lei natural: Lei de Deus
“É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e o homem só é infeliz quando dela se afasta.” Divide-se em:
Adoração – trabalho – reprodução – conservação – destruição – sociedade – progresso – igualdade – liberdade – Justiça / Amor / Caridade
Obstáculos – desvios – afastamento – sem norte (perdido? Abandonado?)
NÃO! Estou com meus iguais!
Orgulho – egoísmo – desregramentos – ressentimentos – fraqueza – máscara – mentira – vinganças – discussões – medo…
Leia – releia – estude o capítulo V do livro Azul
1- Altruísta
2- Amoroso
3- Atencioso
4- Ativo
5- Conscientizado
6- Disposto
7- Estudioso
8- Perseverante
9- Sóbrio
10- Tolerante
ESTOU SALVO?
NÃO! Estou com meus iguais!
“Um dia de cada vez”
Destino: Rumo à felicidade!
A fé está fazendo por nós o que sozinhos não conseguimos fazer.
Então?!
Vamos juntos em busca de mais 24 horas.
Um abraço,
Com sorriso

Fontes: Alcoólicos Anônimos / LE – terceira parte /Experiências pessoais

Quinto Passo
“Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.

Já fizemos outras admissões
…Que sofremos de uma doença,
…Que precisamos de ajuda e
…Que existe uma força superior a nós mesmos para nos ajudar.
Pensando nisso, percebemos que, quando fazemos isto, nossa aceitação e ou admissão torna-se mais significativa.
Depois do 4º passo podemos enxergar o 5º passo como ajuda, para nos vermos, enxergar a natureza exata de nossas falhas; isto é, para caminhar em uma viagem para dentro de nós. Quem eu sou, os caminhos que percorri e reconhecer a natureza exata de minhas falhas e fazer isso diante de outro ser humano.
A palavra chave para este passo é “Coragem”
COR vem do latim, que quer dizer CORAÇÃO,
AGEM vem de totalidade, e com a totalidade do coração confessemos a natureza exata de nossas falhas; para isso é necessário humildade e honestidade.
Este passo nos remete à necessidade do outro; sabemos que precisamos do PODER SUPERIOR na forma que cada um concebe e CONFIANÇA NO OUTRO.
Pomos em prática o 5º passo, sendo sinceros e honestos conosco mesmos, com Deus e partilhando nosso inventário moral com alguém em que confiamos, alguém que nos compreenda, que nos incentive e não nos condene.
“Se pudesse resumir em uma só palavra, esta seria REFORMULAÇÃO de vida. Quebremos o orgulho, as barreiras do medo e do isolamento, culpa , vergonha e até raiva, através do reconhecimento das facetas adoecidas do nosso caráter e do comportamento de forma honesta e clara. O mais importante é iniciarmos.”

Sexto Passo
“Prontificamos inteiramente a deixar que DEUS removesse todos esses defeitos de caráter”.

Este é o passo da maturidade emocional e espiritual. O sofrimento físico, o momento de depender de Deus. É hora de admitir que há necessidade de crescer mais, para que a minha vida com as outras pessoas seja marcada com amor. O amor que recebo do meu Poder Superior.
Nos primeiros cinco passos, eu me pergunto se omiti alguma coisa que poderá me impedir de ser uma pessoa livre; pois sendo extremamente sensível, isso me levou a ter atitudes e comportamentos destrutivos. Por isso, é que preciso de muita direção de Deus, pois sei que ainda tenho defeitos dos quais eu gosto, e gosto muito.
Quando cheguei em AA, meu padrinho me disse com muita sabedoria nos meus 3 meses de sobriedade que não havia mágica para me convencer a ficar na irmandade; que a vida não é um hino de amor, nem uma eterna manhã de primavera, e se eu queria o que eles tinham, só precisava seguir essas verdades: mente aberta, boa vontade e honestidade. Pois eu acabava de sair da quadra dos brinquedos para a da realidade, e que iria conhecer melhor o mundo (agora sem o álcool), onde eu veria o vício ao lado da virtude; a hipocrisia, a maldade…mas eu não poderia desanimar; porque Deus, que é intocável, mas real, iria me guiar por caminhos bons e por estradas encontráveis e, assim, saber escolher o que melhor me conviesse! Isso me fez parar de lutar e tentar ouvi-lo, porque me fazia muito bem, já que parecia que a nossa história era quase sempre a mesma. Na maioria das vezes, lutei com meus defeitos de caráter; ou deixei que eles me manipulassem; só por não entender (ainda) o que era prontificar.
Quando percebi que precisava crescer espiritualmente, deixei a rebeldia de lado; isso poderia ser fatal. Afinal, eu já havia caminhado um bom pedaço do caminho; agora, seria crescer à imagem e semelhança do criador.
Então, entendi o que a literatura quis me dizer com perdoar nossas negligências. Comecei a me policiar e encontrei coragem para reconhecer inteiramente que precisava analisar meus defeitos e, então, me preparar para o grande encontro:
Eu e o meu Poder Superior.
Fiz o que é sugerido no passo:
Prontifiquei-me e deixei que Ele removesse aquele defeito que estava me impedindo de crescer. E esse foi o meu começo da limpeza de casa.
Ainda na procura de um despertar espiritual, na angústia de sair de um 5º passo e o medo de continuar com um vazio no coração, percebi que Deus não havia me abandonado! Ele sempre esteve comigo.
Eu era assim: primeiro, a verdade era só minha. Nunca procurei me curvar diante da humildade; não procurava em momento algum preparar meu coração para perdoar e dar perdão.
O orgulho me cegava, a avareza me enganava, a luxúria me conduzia à profundeza da vergonha, a ira me dominava, a gula me entorpecia, a inveja me deixava no isolamento e a preguiça nunca me deixou ir à procura de Deus.
Sendo assim, como posso explicar estar hoje no programa, depois de ter cometido tanta insanidade?
São perguntas para as quais ainda não tenho todas as respostas, mas com o tempo talvez eu consiga. Como pude passar por tudo isso, posso dizer que o 6º passo é como se fosse o calvário.
Mas, nossos programas nos sugere a humildade e dela a sabedoria. Os doze passos são um exercício contínuo onde podemos atingir um grau de humildade satisfatório para crescermos e continuarmos tentando. Afinal, hoje eu quero viver uma vida que não inclua retaliação, ressentimentos e raiva, sem machucar a mim, nem também os outros.
Quando decidi e permiti que Deus me invadisse, os meus defeitos deixaram de vir à tona.
Da minha parte, posso dizer que estou de acordo com o que diz o início do passo: “ Este é o passo que separa os adultos dos adolescentes”…
No meu próprio caso, desde que ingressei no AA, eu tenho tido sensíveis melhorias da doença do Ego, através das sugestões. Na medida em que experimento viver de acordo com o programa, sinto que a minha disposição e honestidade têm aumentado e eu me convenci de que posso me recuperar de qualquer problema; e o único requisito é confiar em Deus e limpar a casa. Confiar significa que Ele sabe melhor do que eu o que é melhor para mim. É prontificar para renovar a cada amanhecer, e mudar de vida é cair de joelhos e sem indagações, pois não escolhemos ser alcoólicos.
A única coisa urgente é que sigamos tentando, e da melhor maneira possível, pois Deus quer que sejamos corajosos para nos tornarmos brancos como a neve.
Porque a sabedoria dele, essa é indiscutível…
Se o alcoolismo é uma doença que afeta primeiramente o meu relacionamento comigo, com os outros e com Deus, é necessário, então, ser como sentinela em tempo de guerra; vendo que meus defeitos podem estar dormindo em meu inconsciente. E se eu não trabalhar com esses detalhes de momento em momento, nunca conseguirei secar as ramificações da árvore dos defeitos de caráter.
Desde o início da minha vida ativa, bebida e pecados sempre andaram de mãos dadas. Enfim, para mim, era mais uma dessas tantas vidas carregadas de culpa e castigo; que muitas vezes tentei adiar explicações e coisa e tal; mas acabei ficando sem medidas para medir:
Por que eu bebia tanto?
Minha ignorância sobre a resposta fundamentava-se na manutenção da minha bebedeira; porque, com tanta aberração, ficava difícil para uma pessoa como eu descobrir o que seria um comportamento aceitável, gostoso, saudável e natural, como hoje, à luz dos doze passos, por exemplo.
As mudanças em minha vida, em todas as áreas, foram significativas e até, de certa forma, rápidas.
Claro que passei por vários obstáculos, para ter coragem de modificar as coisas, pois tinha sempre a dúvida se a minha vida no álcool era um estado natural ou indicava uma profunda falha de personalidade.
O plano de 24 horas me chamou a atenção e eu fiz a feliz opção: continuar a frequentar AA e, só por hoje, desejar buscar a perfeição.
Procuro hoje, na medida do possível, modificar em minha vida, no que refere ao meu comportamento, atitudes, medos, caráter, etc… Costumo sempre pedir apoio de orientação dos companheiros mais experientes e, com a ajuda do Poder Superior, eu tenho conseguido êxito, desde que pratico a honestidade e a humildade que citei no começo deste texto.
O livro Despertar Espiritual, pág. 229, diz que, talvez nossos grupos devessem ser grupos de aplicações dos passos, em vez de grupos de estudo dos passos. Não é necessário perguntar quem pratica o programa. É possível perceber quando trabalhamos os passos, nossas vidas mudam radicalmente, vão muito alem da eliminação do álcool. As pessoas mudam.
E esse “mudar” se traduz, acredito, em fazer minha parte ou prontificar-me ou me esforçar para que minhas atitudes com outras pessoas não sejam um reflexo desse ser inferior em que o alcoolismo nos transforma…

Sétimo Passo
“Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”.

No sexto passo, prontificamo-nos por inteiro, não apenas uma parte, deixar que Deus removesse nossa montanha de defeitos de caráter. Eu entendo que são os mais cabeludos, tipo: egoísmo, desonestidade, ira, etc.
No sétimo passo, vamos a Ele implorar humildemente, que Ele nos livrasse de nossas imperfeições. Aí eu entendo que são os defeitos de caráter de menor poder destrutivo, mas que nos impedem de sermos melhores, tais como: procrastinação, descomprometimento, sovinice.
Todos os doze passos são exercícios de humildade, qualidade do humilde, extremo oposto do orgulho, defeito maior do alcoólico ativo e de tantos desativados, daí a grande dificuldade de uma maioria significativa, em aceitar os doze passos para a recuperação. Você já ouviu isso? “Só dou o primeiro passo e a segunda parte do décimo segundo”. Programa individual é parcial = resultado insatisfatório ou nulo.
O sétimo passo enfatiza a humildade. Humildade, palavra derivada, humo ou húmus, produto da decomposição da matéria orgânica, vegetal ou animal, estrume, esterco. “És pó”. Não dá para ter orgulho de ser isso, não é mesmo? Enganou-se meu amigo, o alcoólico ativo tem. O orgulho cega.
O PRDP nos oferece uma nova maneira de viver, para isso é necessário nos esvaziarmos de todo orgulho, egoísmo, soberba, vaidade, arrogância, prepotência e autossuficiência. Não é pedir demais para um alcoólatra? Não, se a vida dele depender disso! Precisamos nos libertar desse egoísmo. Precisamos fazê-lo, ou ele nos matará!
Portanto, humildade é a pedra fundamental sobre a qual edificaremos nossa nova vida, nova casa que vamos construindo daqui para frente: “futuro”. A casa velha, “passado”, vamos visitar quando for necessário, mas não morar nela, mudamos para outra melhor. Deus torna isto possível, e com freqüência, parece não haver meios de se libertar totalmente do interesse próprio sem a ajuda d`Dele. Portanto, a fé é a pedra angular que dá sustentação ao arco do triunfo, sob o qual passará o homem reformulado, (nova formula) para uma vida íntegra, útil e feliz.
Por que rogar? Deus não sabe de tudo, ele me conhece, sabe das minhas faltas, o que preciso? Simples! Ele não arromba portas, só entra se for convidado. Portanto, abra a sua boca!!! Segundo Aurélio, rogar é: pedir com insistência, com humildade, implorar, suplicar. É mais que pedir.
Precisamos nos livrar das nossas imperfeições, são elas que nos afastam da graça do PS. São elas que nos aprisionam na escravidão do ego, nos tornamos meros escravos de nós mesmos, perdemos a herança do pai das luzes, criador do universo, dono do ouro e da prata. Desprezamos o banquete e nos contentamos com as migalhas! Ele quer nos cobrir de bênçãos, para abençoarmos os outros, não para nos ensoberbarmos e ficarmos cheio de orgulho espiritual, tipo: Eu sou o caminho, verdade, a luz. Sou o melhor padrinho, afilhado. Agarre-se na barra da minha calça, “ou saia” e siga meus passos. Há, há, há! Eu tenho a única mensagem. Esses caras estão querendo acabar com o A.A. Eu não vou deixar. No “meu” grupo, não aceito isso ou aquilo. Não precisamos de professor. Prateleira de cima. Está escrito no livro maior: “Deus dá graça ao humilde (simples) e rejeita o soberbo”. Lembra do sexto passo: Quem não gosta de se sentir um pouquinho superior ao outro, ou bastante superior? Percebes como é difícil para um ser humano normal, não só os alcoólicos colocar Deus em primeiro lugar? Devemos colocar as coisas espirituais sempre acima das materiais. “Buscai primeiro as coisas do alto e o resto vos será dado por acréscimo”. Devemos colocar os princípios, que são preceitos espirituais, acima das personalidades, sejam lá quem forem, até Bill W. e Dr. Bob Smith. Não cultuamos pessoas vivas ou desencarnadas, ou não somos anônimos?
E o que dizer do cisco no olho dos outros, quando os nossos estão com uma baita trave do tamanho de um ônibus. Freud explica: aqueles defeitos que vemos nos outros, são os nossos que recusamos enxergar. Empurramos para bem fundo do nosso ser, lixo debaixo do tapete. Esquecemos do quinto e quarto passos. Aquela parte que me recuso olhar é a que me governa.
Tem ainda os defeitos de estimação. Já ouviram isto? Eu não consigo largar! Eu gosto! Vai comigo para o tumulo! Isso é prova que a vida espiritual esta paralisada, não evolui! Tudo que não está evoluindo, está regredindo, tudo que não renova, morre. Até o amor!
Concordo com Bill, quando ele disse: “Nossos dias de vida na terra constituem em um mero dia na escola, todos nós somos alunos de um jardim da infância espiritual”. Seremos sempre crianças aos olhos de Deus, até quando envelhecermos seremos crianças aos seus olhos, assim como os filhos são sempre crianças aos olhos dos pais. Isso só vale para os que acreditam ou vierem a acreditar nesse PS, Deus na forma que concebemos “segundo passo”, e decidiram entregar suas vidas e vontade aos cuidados dele “terceiro passo”.
Aqueles que gritam que Deus não existe, o fazem por desespero de não encontrá-lo. Aos que recusam o consolo de uma fé, seu maior castigo é continuar vivendo! O resultado dessa escolha é uma confusão profunda, pois lhe falta a bússola, o sextante ou se preferirem o GPS espiritual. Ao vermos outras pessoas resolverem seus problemas por meio de uma simples confiança no Espírito do Universo, fomos obrigados a parar de duvidar do poder de Deus. Nossas idéias não funcionavam, mas a idéia de Deus dava certo.
Para mim, Pimenta, humildade é: ser igual sem perder a individualidade, reconhecer que sou apenas uma pequena parte de um grande todo, uma gota no oceano, conhecer meus limites. Na mesa do companheiro Doc. Havia uma placa que definia a humildade: “É o silêncio perpétuo do coração. É estar sem problemas. É nunca estar descontente ou atormentado, irritado ou ofendido. Não se surpreender com qualquer coisa que me façam, sentir que nada é feito contra mim. É estar tranquilo quando ninguém me elogia, e quando sou culpado ou desprezado, é possuir um lar abençoado em meu interior onde eu possa entrar, fechar a porta e me ajoelhar diante de meu pai em segredo e estar em paz como em um profundo oceano de tranqüilidade, quando tudo ao meu redor e perto de mim parecer ser um problema”.
Para finalizar, que isto é apenas uma exposição e não um livro, a oração do sétimo passo: “Meu criador, agora desejo que me aceites como sou, por inteiro, bom e mau. Peço que removas de mim todo e qualquer defeito de caráter que me impeça de ser útil a ti e aos meus companheiros. Concede-me força para que ao sair daqui, eu cumpra as tuas ordens. Assim seja”.
Teremos, então, dado o sétimo passo.

Oitavo Passo
“Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”.

• Os passos estão devidamente ordenados e devem ser vivenciados paulatinamente.
• No Quarto Passo descobrimos a nossa verdadeira identidade/ personalidade/caráter e as consequências de nossas atitudes/atos (Auto Conhecimento).
• No Oitavo Passo vamos nos preocupar com as nossas relações pessoais, limpando todo o entulho do passado e buscando melhorar a nossa relação ( INCUMBÊNCIA BASTANTE DIFÍCIL).
• Primeiramente, devemos procurar nos perdoar e também perdoar àqueles que nos prejudicaram.
• No Quinto Passo admitimos perante Deus e os “Homens” as nossas falhas, mas agora iremos procurar os que prejudicamos e tememos pela reação deles. Tem aqueles ainda que nem sabem que foram prejudicados por nós.
• O que queremos dizer quando falamos que “prejudicamos” outras pessoas?Através do nosso comportamento alcoólico, causamos os mais diversos danos, físicos, mentais, emocionais e espirituais às pessoas.
Exemplos:
• Se estamos sempre de mau humor, despertamos ira nas pessoas
• Se mentimos para as pessoas
• Privamos as pessoas de seus bens materiais
• Causamos insegurança
• Despertamos ciúmes, angústia e vontade de vingança nas pessoas

Ao fazermos a revisão detalhada das nossas relações e detectarmos quais tipos de comportamentos que causaram prejuízos às pessoas, estaremos prontos a iniciar a relação das pessoas que foram afetadas em menor ou maior grau.
Esse é o Passo do fim do nosso isolamento de nossos semelhantes e de Deus.

Bibliografia: Livro Alcoólicos Anônimos / Os Doze Passos de A.A. / Revista Vivência / Artigos e Apostilas diversos.

Nono Passo
“Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem”.

Entendendo o Nono Passo

As catástrofes são sempre notícias absorventes. Terremotos, furacões, incêndios, enchentes, ataques terroristas, guerras e tantas outras tragédias prendem a nossa atenção. Porém raramente vemos trabalho árduo de reconstrução que acontece depois que o desastre passou. Vidas, lares, negócios e comunidades inteiras são restauradas e reanimadas. Esse ano tivemos enchentes por todo o estado, muitos desabrigados, mortes, etc. Todos podemos nos lembrar do fatídico 11 de setembro e o ataque às torres gêmeas em Nova Iorque. Todos podemos detalhar ao máximo o ocorrido, as mortes, os lances mais excepcionais e tudo de importante ligado àquele ataque terrorista. O mesmo podemos dizer do furacão Katrina nos Estados Unidos ou o violento tsunami que atacou a costa asiática. Mas poucos, ou praticamente ninguém, viu ou vê o trabalho árduo de reconstrução que acontece depois que o desastre passou. Vidas, lares, negócios e comunidades inteiras são restauradas e reanimadas. É um longo e exaustivo trabalho.
Pois bem, o Nono Passo assemelha-se às restaurações e à reconstrução que acontecem depois de uma calamidade. Pelo processo de reparação, começamos a corrigir os danos de nosso passado. No Oitavo Passo avaliamos os danos e fizemos um plano. Agora, no Nono, entramos em ação.
Após haver elaborado a relação das pessoas as quais prejudicamos, refletido bem sobre cada caso específico e procurado imbuir do propósito correto para agir, veremos que o reparo dos danos causados divide em várias classes aqueles aos quais nos devemos dirigir.
O Nono Passo completa o processo de perdão que começou no Quarto Passo e satisfaz nossos requisitos para nos reconciliar com os outros. Neste passo, tiramos as folhas mortas de nosso jardim, recolhemos e tentamos nos desfazer dos velhos hábitos. Estamos prontos para enfrentar nossas faltas, a admitir o grau de nossos erros e a pedir e a oferecer perdão. Aceitar a responsabilidade pelos danos causados pode ser uma experiência de humildade porque nos força a admitir o efeito que tivemos na vida do outro.
Desde que começamos nossa recuperação, percorremos um longo caminho para desenvolver um novo estilo de vida. Vimos como a impotência e o descontrole de nossas vidas causaram danos. Nosso compromisso de enfrentar nossas falhas de caráter, admiti-los para os outros e, por fim, pedir a um Poder Superior para removê-los, foi experiência de humildade. No Oitavo e Nono Passos prosseguimos com a última etapa para reedificar nosso caráter.
O Nono Passo, tal como todo o programa de A.A., exige que tenhamos coragem, perseverança e fé de que o que estamos fazendo é para o nosso próprio benefício, é para o nosso próprio desenvolvimento emocional e espiritual e todo o esforço será recompensado. Mas, especificamente no Nono Passo, teremos que desenvolver algo mais, teremos que ter um cuidadoso senso de oportunidade e julgamento de cada caso de reparação. Por muitas vezes, a reparação terá que ser adiada e em muitas outras será melhor não fazê-la. Este passo é o único que fala que o adiamento talvez seja o mais oportuno a se fazer.
Na minha opinião, a prática do Nono Passo teria que ter o acompanhamento direto de um padrinho, esta figura tão mal compreendida em nossos meios. Com a ajuda do padrinho podemos facilitar a distinção daquelas reparações que devemos fazer das que não devemos. Ele pode nos fazer ver quando estamos apenas protelando uma reparação sob a desculpa de que estamos apenas sendo prudentes. A nossa velha e conhecida racionalização. Aliás, racionalizamos que nosso passado ficou para trás, que não há necessidade de provocar mais aborrecimentos. Imaginamos que reparações por danos passados são desnecessários, que tudo que temos que fazer é alterar o nosso comportamento atual. Apesar de que alguns de nossos comportamentos passados podem ser sepultados sem confronto direto. Dá logo para perceber que a tarefa de distinguir aquelas reparações que devo fazer das que não devo exige sabedoria e sabedoria, quando se trata de nós mesmos, é arriscado achar que a temos. É melhor pedir ajuda e apoio de outras pessoas durante este trecho de nossa viagem. Enfim, não devemos nos esquecer que o objetivo final é o de ver a nossa vida melhorada, cheia de paz, serenidade, livre dos medos e ressentimentos de nosso passado.
É bom salientar que o Nono Passo tem duas partes distintas a respeito de fazer reparações:
“Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível”.
Por reparação direta devemos entender aquelas pessoas que estão acessíveis e podem ser abordadas quando já estivermos prontos. Podem ser amigos ou inimigos. Talvez a reação da outra pessoa nos surpreenda, principalmente se a reparação for aceita. Mas devemos estar preparados para caso ela não seja aceita também. Nossa reparação não depende da reação do outro. Há, porém, aquelas pessoas que não estão acessíveis, algumas podem já ter morrido e outras nem sabemos por onde andam. Neste caso não nos resta muita coisa a fazer, talvez o simples fato de elas terem sido lembradas na nossa relação já seja uma reparação.
A outra parte do Nono Passo diz:
“Salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem”.
Há reparações que talvez devem ser evitadas. Principalmente os casos de infidelidade conjugal, pois nesses casos poderiam ocorrer danos para várias partes. Outras situações seriam aquelas em que o risco da perda do emprego possa ser iminente, prejudicando a nossa família ou mesmo revelações que poderiam levar à prisão com consequente afastamento da família. São situações extremamente difíceis e a decisão não deve ser tomada sozinha.
Há também reparações que exigem ação protelada. Raras vezes é aconselhável abordar de forma repentina um indivíduo que ainda sofre profundamente com as injustiças que fizemos. Nas situações em que a nossa dor ainda é profunda, a paciência é a melhor escolha. Nossas metas finais são o crescimento e a reconciliação. Imprudência e pressa podem fazer mais danos e frustra nossas metas finais.
É importante que tenhamos claro em nossas mentes a distinção entre fazer reparações e pedir desculpas. Estas são apropriadas, mas não substituem aquelas. Podemos pedir desculpas por chegar atrasado a um compromisso, mas enquanto não corrigirmos esse comportamento, a reparação não foi feita. O pedido de desculpas funciona como reparação desde que acompanhado do compromisso de mudança de comportamento.
Durante a prática desse passo podemos passar por recaídas emocionais ou espirituais ocasionais. Isso é normal, mas é importante que apreendamos a lidar com elas imediatamente, pois do contrário podemos ter nossa capacidade de fazer reparações prejudicadas. Essas recaídas podem ser sinais de que não estamos colocando o programa em prática com eficiência. Talvez tenhamos nos afastado de nosso Poder Superior e necessitemos voltar ao Terceiro Passo. Talvez tenhamos deixado de citar alguma coisa em nosso inventário e por isso devemos retornar ao Quarto Passo. Ou talvez não queiramos abandonar um comportamento derrotista e precisemos retornar ao Sexto Passo.
Ideias Fundamentais do Nono Passo:
Reparações Diretas: São as que fazemos a alguém que prejudicamos. Marcamos um encontro ou planejamos nos encontrar pessoalmente com essas pessoas.
Reparações Indiretas: São as reparações não pessoais que fazemos aos que prejudicamos, a alguém que já morreu, de localização desconhecida ou inacessível por alguma razão. Nesse casos uma oração ou mesmo descrever os danos causados ao nosso padrinho são suficientes.
Reparações para nós mesmos: Muitas vezes prejudicamos mais a nós mesmos que a qualquer outra pessoa. O procedimento de reparação não seria completo sem algum tempo dedicado a endireitar a nós mesmos. Talvez, a prática de A.A., seja a maneira mais agradável de fazer reparações a nós mesmos.
Uma citação final: “Só o ofendido sabe o quanto dói a ofensa”.

Décimo Passo
“Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.

O 10° passo na minha visão é um passo que me convida a fazer uma reflexão sobre os nove passos anteriores. Estou praticando os princípios ou estou só lendo passo a passo? Passo sugere caminhada, nesse caso caminhada espiritual. Revendo o nosso jeito de ver as coisas, sentir tais coisas, pois nossas reações a tudo que nos passa vem de nossos valores espirituais, ou do que aprendemos com os passos. Será que estamos preparados para a turbulência que temos que viver no dia a dia, ou nossa espiritualidade é mera teoria?
O 10° passo sugere que eu continue fazendo inventário e sempre estando pronto para admitir o possível erro, pois o alívio vem quando fazemos algo a respeito.
Todos nós ou quase todos temos em casa um quartinho onde guardamos aquilo que não estamos usando por muito grande que ele seja; é preciso de vez em quando dá uma organizada, jogar algo fora, algo que estamos relutando em desfazer, mas percebemos que só serve para travar os espaços. Se deixarmos do jeito que está é possível que crie ninhos e mude para lá algo que não gostaríamos, ninhos não aparecem de um dia para o outro é o acumulo diário de capim, quando se percebe ele está pronto, instalado.
Por isso Bill, através do 10° passo, nos sugere que estejamos sempre vigilantes, sempre fazendo avaliação do nosso comportamento. Se ficarmos irritados com os outro é porque algo em nós não está bem.
Por isso é bom sempre fazer inventário, para não sermos surpreendido e só vermos o ninho pronto, lembrando que ele é feito capim por capim.
Bill fala também do rancor, um luxo que não podemos ter. Rancor, raiva, ira é como segurar uma brasa, ela queima só a gente mesmo. Mesmo se acharmos justificativas para elas, devemos sempre lembrar que quem tem o programa de recuperação somos NÓS, isso não quer dizer que vamos deixar as pessoas fazer de nós aquilo que elas quiserem, mas devemos sempre lembrar que a base do AA é amor e tolerância.
Existem vários tipos de inventário, o relâmpago, o do fim do dia, fim de semana, fim de mês ate mesmo fim de ano. Todos são válidos e muito bons. Há necessidade de ver em qual deles nós nos encaixamos, pois quanto mais prolongarmos, mais perigoso fica; nervosismo, irritação e falta de paciência podem ser sintomas de que as coisas não estão indo bem. Às vezes as pessoas podem até pensar que estamos perdendo tempo com tanto tempo gasto com inventários, meditação, ciclo de passo, mas quando fazemos com amor e com a mente aberta ficamos leves e em paz. Ciclo de passos a meu ver é um SPA espiritual.
Ao fazer o inventário eu me coloco novamente no eixo, volta autodomínio, controle da língua e sempre pensando em tratar o outro do mesmo modo que eu gostaria de ser tratado com amor e paciência.
Termino o meu trabalho com esta frase: que não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento.

Décimo Primeiro Passo
“Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.

Como orar se por conta do meu ativo alcoolismo e suas consequências um poderoso sentimento de vergonha prevalecia? Como meditar diante da minha incapacidade mental e espiritual? Por minha experiência, revelo que só consegui superar esses questionamentos com a minha aceitação de Alcoólicos Anônimos. Em A.A. me convenci e aprendi que sobre a minha total derrota frente ao alcoolismo, percebi a gravidade da minha insanidade e que diante desses fatos só me restava uma única saída: entregar, sem condicionantes, minha vontade e minha vida a Deus, na forma de minha fé.
No sentido de organizar nossas ideias, recordamos que a nossa obsessão pelo beber destrutivo foi removida por um Deus de quem ainda não tínhamos uma sóbria consciência. Da mesma forma, a sanidade mental nos foi sendo devolvida por Ele, com o alerta da necessidade de positivas ações. Dizíamos da entrega, e há que ser notado que por essa decisão (aliás, a nossa primeira positiva ação), Deus em nós e por nós estará fazendo o melhor para nossa recuperação.
Na convivência dos três Passos iniciais para nossa recuperação em A.A., aprendemos que “se reconhecermos a Deus como um Pai, que nos possa receber e ajudar, teremos maior desejo de procurá-Lo, de conhecê-lo e de alcançá-Lo.” Considerando-se todos os componentes de nossa personalidade alcoólica, encontrar Deus sabemos que requer um intenso trabalho. Por isso, entendemos que o 11º Passo significa uma intensa viagem, através da qual chegaremos a um seguro porto espiritual. No itinerário, o mapa nos informa da necessidade de conhecer a si mesmo, da admissão dos nossos pessoais limites humanos, do humildar-se e da cooperação com Deus para os acertos de falhas e imperfeições.
A rota, em direção ao colo de Deus, se amplia à medida em que devemos reaprender a conviver com quem causamos danos. Assim, estaremos amparados para vivermos o modo de ser um AA – sóbrio, com equilíbrio emocional e de maneira útil, sob quaisquer condições, dia após dia, em tempo bom ou não. Poucos quilômetros nos distanciam do projeto de uma vida na qual possamos “conversar e ouvir” sobre o que Ele espera de cada de um de nós.
Para essa “audiência” com Deus, fazemos rogos para conhecer Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade. Interpretamos que Essa vontade será atendida se cada um de nós for obediente aos princípios espirituais estabelecidos nos dez primeiros Passos. Temos consciência da dimensão dessa obediência, mas, mais uma vez, rogamos a Ele forças para cumprir Sua vontade.
Alcoólicos Anônimos, em cada um de seus momentos de recuperação, representa uma procura, uma busca ou uma singela descoberta. Como o distanciamento de Deus, no meu caso, foi atitude unilateral de minha parte, na redescoberta de Deus em minha vida não encontrarei buracos negros ou maresias, a menos que eu permita meus tubarões ou fantasmas prevalecerem. E para a aplicação do 11º Passo será suficiente tornar real o dever da minha casa interior através da oração e meditação.
No universo de A.A. esses recursos de aperfeiçoamento espiritual não são, à primeira ação, pacíficos. Sentido faz encontrarmos em nossa literatura reflexões sobre o uso da oração e meditação:
a) “Aquele que nega Deus, O nega por causa de seu desespero por não encontrá-Lo”.
b) “Os chacoteadores da oração são, quase sempre, aqueles que não a experimentaram devidamente”.
c) “Se virarmos as costas à meditação e à oração, também estamos negando às nossas mentes, emoções e intuições, um apoio imprescindível”.
Oração e meditação cuidam de nossas almas e elas só funcionam com esse tipo de alimento e por essas práticas interligadas, acrescidas do auto-exame, receberemos a “luz a presença de Deus, do alimento de Sua força e da atmosfera de Sua graça”.
Dito as certezas acima, de que forma podemos usar as citadas ferramentas? Nos momentos de agitação ou mesmo de paz, o auto-exame permite fazermos internas e individuais verificações de nós próprios. Por exemplo, ao final de nossas jornadas diárias ou em qualquer hora de complicações emocionais, podemos fazer uma revisão de nosso dia ou do momento de instabilidade, nos indagando se ficamos ressentidos, se fomos egoístas, desonestos ou se sentimos medo.
Superados esses gargalos, o ambiente mental estará apropriado para os exercícios da oração e da meditação. Orações, as mais diversas, a humanidade vem utilizando; da mesma forma, o modo de meditação, que não cede lugar ao debate, é uma opcional escolha de quem a pratica. Os princípios de A.A., no 11º Passo inclui como sugestão a clássica oração de São Francisco de Assis, que interpreto como uma espiritual síntese do nosso programa de recuperação, em especial ao funcionar como uma verdadeira anulação do ego, sobretudo quando são feitos os seguintes pedidos a Deus:
“Ó Mestre, faze que eu procure menos
Ser consolado do que consolar;
Ser compreendido, do que compreender,
Ser amado, do que amar…
Porquanto:
É dando que se recebe; é perdoando, que se é perdoado e
É morrendo que se vive para a vida eterna. Amém”.
Comentávamos que este princípio trata de viagem. Bill W. assegura que, após o exercício dessa oração, que na minha interpretação estaremos em estado de meditação e que por ela (meditação) faremos uma viagem ao reino do espírito. O cofundador nos deixou ainda definições, ao afirmar que a meditação “é algo que sempre pode ser desenvolvido. Ela não tem limites, tanto na extensão como na altura. (…) ela é essencialmente uma aventura individual que cada um de nós realiza à sua maneira”.
Quanto à oração, Bill W. afirma que “é a elevação do coração e da mente para Deus, e neste sentido abrange a meditação”. Como, neste Passo, já estamos trabalhando com consciência, não usamos a oração na forma de petição, aliás, o que não mais nos convém, lembrando-nos sempre do “Se for a sua vontade” nos momentos de conversa e audição com Deus. Através desse Passo perceberemos de fato a nossa capacidade de recebermos orientação para nossas vidas à medida que paramos de exigir de Deus o que queremos e como queremos. Se assim agirmos, novas fontes de coragem serão descobertas, independentemente de eventuais situações de sofrimento e dor.
Por meio de nossas ações nesta viagem, passaremos a sentir que:
a) Deus age de maneira misteriosa na realização de Suas maravilhas;
b) Passamos a fazer parte do mundo do espírito e
c) O amor de Deus vela sobre nós e, se nos voltarmos para Ele, tudo estará bem conosco, aqui, agora ou no que vier depois.
Por tudo que já percorremos, reina a paz; mas ainda não concluímos e nem concluiremos o que Deus quer de nós: fé com obras, principalmente pelo único e primordial propósito de A.A. Nesse sentido, insiro neste espaço a oração universal legada por Jesus Cristo,
Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso Nome,
Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade
Assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.
Amém.
Refletindo com o “Pai Nosso”, e isenta de qualquer coloração religiosa, me permitam tentar reforçar minhas convicções: estou, efetivamente, em aliança com Deus e alinhada com Ele para aceitar serenamente tão somente a Sua vontade em relação a minha vida?
Que a bondade e misericórdia de Deus continue nos abençoando com forças, se for a vontade Dele. Meu forte abraço!

Décimo Segundo Passo
“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

Sob a graça de Deus, e após a alimentação espiritual recebida pelo caminhar sob à luz dos primeiros onze Passos contidos no programa de recuperação de A.A, o membro de A.A. chega ao Décimo Segundo Passo. Sabemos, por experiências da Irmandade, que o percurso não é tarefa fácil; em alguns momentos pomos em dúvida a nossa capacidade para exercitá-los, noutros, reconhecemos a inexistência da fidelidade absoluta aos princípios, bem como queremos reduzir a nossa responsabilidade vivendo o auto engano do “Não somos santos”.
Mesmo sendo considerado esse patamar, Alcoólicos Anônimos nos reanima ao assegurar que: a) os nossos “Passos” são guias para o progresso e b) nossa meta é o progresso espiritual, e não a perfeição espiritual. [“Nossa meta” me dá o alerta de que o bloco do eu sozinho não funciona. Sou responsável por mim, contudo, a minha recuperação aconteceu e prosseguirá se eu continuar atento e obediente ao coletivo espiritual de A.A.].
A nossa chegada ao pátio da Estação 12 nos permite entender que somos possuidores de suficiente combustível para vivermos com prazer e em ação. E isso acontece porque esses princípios projetam um novo modo de vida ao alcoólico. Por outro, os seus luminosos acendem para a grande “oportunidade de nos voltarmos para fora em direção de nossos companheiros ainda aflitos”. Nela, e recorrendo ao recurso espiritual da fé que funciona, sentimos o sabor do dar pelo dar, além da possibilidade de encontrar a almejada sobriedade emocional.
Alcoólicos, e as pessoas que nos cercam, sóbrias emocionalmente? Sim, é possível! Basta ouvirmos por que e para quem os sinos da “Estação” ecoam, para ocuparmos os assentos de uma verdadeira viagem do espírito, cujo bilhete avisa que começamos a praticar todos os Doze Passos em nossa vida diária.
Nessa viagem em direção de nós e dos nossos iguais, nada haverá de nos incomodar, pois com o sentimento da gratidão e pela humilde grandeza de nada querer em troca com a nossas ações de Aas, nos imunizamos contra trepidações e/ou turbulências emocionais. Isso acontece porque “Ajudar os outros é a pedra fundamental de nossa recuperação”, conforme atesta Bill W. Por sua vez, a experiência de A.A. testemunha que o exercício dos “Doze Passos de A.A.” oferecerá bem instalados trilhos ao alcoólico, cujo resultado serão vagões cheios de utilidade, integridade e felicidade.
Com a clareza de que o 12º Passo é a consequência da soma de todos os trechos de uma abençoada estrada, além de termos aceitado que é fundamental a transmissão da mensagem de A.A. para continuarmos sóbrios e sermos instrumentos para evitar a morte daqueles a quem devemos apresentar a verdade de Alcoólicos Anônimos, repensemos no seguinte entendimento de Bill W. , constante do Manual de Serviços de A.A.:
“O nosso Décimo Segundo Passo, que leva a mensagem, é o serviço básico que a irmandade de A.A. oferece. É o nosso principal objetivo e a razão primordial de nossa existência. Portanto, A.A. é mais do que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação”.
Visto esse pensamento do cofundador, deve ser observado que a prática desse Passo segue um roteiro com a seguinte distribuição espiritual:
a) Através da aplicação dos onze “Passos” que o precedem, experimentaremos a realidade do despertar espiritual. A propósito, o que significa e o que representa esta individual revolução interna?
Os nossos textos respondem nos dizendo tratar-se para o alcoólico de um novo estado de consciência e uma nova maneira de ser, lembrando que, para essa conquista (ou dádiva?), são indispensáveis a boa vontade, a honestidade e uma mente aberta. Percebo também que o “despertar” é a graça pela graça, mas para tal haverá a necessidade de se estar pronto para recebê-lo. Portanto, à luz dos “Passos”, examinemos a trajetória de preparação.
A nosso ver, “Os Passos”, que propiciam o renascimento humano do bebedor-problema, possuem uma inteligente lógica espiritual. No Passo Um não lhe escapa aceitar a derrota total, além da ingovernabilidade de sua vida decorrente de sua obsessão pelo beber destrutivo. Com essa admissão, é inaugurado a sua reconstrução. Pela aceitação do Passo Dois, sobretudo com a utilização de uma fé que há de renovada, tem-se de volta a sanidade, na razão direta do grau de restabelecimento da aliança com um Poder superior. A.A. não exige, mas espera de cada um de nós ação. Por isso, no Passo Três decidimos nos entregar totalmente a Deus – a vida é Dele e a atitude do “tudo não eu posso só” se distancia do característico egoísmo do alcoólatra. Que alívio sentiremos quando da aplicação desses três primeiros “Passos”, porque a partir daí estaremos com a coragem para mudarmos a nossa postura diante de tudo aquilo que tínhamos como motivo para bebermos, provida do autoconhecimento, auto perdão e liberdade encontrados nos Quarto e Quinto Passo. Com isso, está aberto o caminho para uma vida adulta, bastando deixarmos a Deus a remoção de todos os defeitos de caráter. A lógica do aperfeiçoamento espiritual nos pede também humildade, pois só assim rogaremos a Ele que nos livre de nossas imperfeições, como tão bem proposto no Passo Sete.
Até aqui trabalhamos nós mesmos, o que não é suficiente. Convivíamos em sociedade e para ela o Programa de Recuperação nos dá direito de voltarmos. Os Passos Oito e Nono nos permitem essa ação, à medida que temos consciência a quem causamos danos e buscamos implementar reparações. Assim, o típico isolamento deixou de permear a vida do alcoólico. Com esse instrumental, já sabemos o que queremos – sendo A.A. o grande bem – e estamos sendo habilitados a conduzirmos a vida sob quaisquer condições, conforme preconiza o Passo Dez. A nosso ver, o universo do espírito se aproxima em nossa recuperação, pois em nossa rota faremos uso da oração e meditação para sabermos a vontade de Deus em relação a nós, rogando a Ele apenas força para cumprirmos o que Ele quer de nós. É o que preconiza o Décimo Primeiro Passo.
Nesse cenário, e com a dedicação para que a orquestra esteja completa e com os instrumentos polidos (registre-se: saiamos da “dança dos dois passos” para o “samba dos Doze Passos”), a experiência de A.A. confirma ser inevitável a colheita da paz de espírito, além do amor por si e pelo próximo. A isso, classificaria como “despertar espiritual”.
b) Com o “despertar” vem ao membro de A.A. a “sugestão” para que seja transmitida aos alcoólicos a mensagem de Alcoólicos Anônimos. Nesse sentido, a experiência confirma que o espírito de A.A. chegará ao membro se estiver em constante treinamento, sob pena de a sobriedade emocional ser apenas uma hipótese. Como posso transmitir o “tesouro de A.A.” se não me disponho a realizar a garimpagem necessária. Nada melhor, a nosso ver, ficarmos atentos ao exemplo do Dr. Bob, que no livro “Alcoólicos Anônimos” registra todo o seu sentimento de responsabilidade consigo próprio e com os seus assemelhados na sua incansável missão de transmissão da mensagem de A.A. Assim o fez para mais de 5.000 pessoas pelas seguintes motivações:
• Sentimento de dever
• É um prazer
• Porque, ao fazer isto, estou pagando minha dívida para com o homem que encontrou tempo para me transmitir tudo isto.
• Porque , a cada vez que o faço, garanto-me um pouco mais contra uma possível recaída.
Quanta convicção nos legou o cofundador. Observados os limites e aptidões, resta a cada um de nós, AÇÃO, AÇÃO, AÇÃO… Já dizia um de nossos conselheiros espirituais: “não há limites no trabalho de evolução espiritual”.
c) O exercício dos “Passos” nos transforma, ou somos pelas mãos de Deus reinventados para, em sendo uma nova criatura, cumprirmos tão somente a Sua vontade. Para tanto, praticar os princípios em todas as nossas atividades é essencial. Afinal, observado a humildade disposta no “Passo Sete”, passamos a ser exemplo. A Tradição realça o quanto é vital a Unidade de A.A., portanto, acordo que, enquanto indivíduo, sou impelido a ter atitudes ancoradas no Programa de Recuperação da Irmandade, ou seja, sem divisões. Não há como ser no Grupo o “exemplo” e no meu ambiente familiar, na minha profissional, na comunidade ou no dia a dia da convivência em sociedade ficar distante do que Alcoólicos Anônimos esperam do alcoólico em recuperação. Por oportuno, transcrevemos alguns questionários contidos neste princípio:
1)Temos condições para amar a vida com tanto entusiasmo quanto amamos aquela pequena parcela que descobrimos, quanto tentamos ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade?
2)Somos capazes de levar às nossas vidas em família, por vezes bastante complicadas, o mesmo espírito de amor e tolerância com que tratamos os nossos companheiros do Grupo de A.A.?
3) As pessoas de nossa família, que foram envolvidas e até marcadas pela nossa doença, merecem de nós o mesmo grau de confiança e fé que temos em nosso padrinhos?
4)Estamos prontos para arcar com as novas e reconhecidas responsabilidades que nos cercam?
Se formos laboriosos, o “milagre” acontece! E acontecerá diante da convicção de que Deus faz por nós o que nunca poderíamos fazer por nós mesmos, como também em nós membros de A.A. reside um bom crédito: o bebedor – problema de ontem não conhece o alcoólico em recuperação de hoje, mas este conhece muito bem aquele bebedor – problema de ontem. O “alcoólico de hoje” voltará ao submundo do “bebedor de ontem” se assim o desejar.
O Décimo Segundo Passo revela-se como uma firme, se for o caso, verificação dos onze primeiros “Passos de A.A”. Buscando sermos bons alunos no entendimento dos seus exercícios, enfrentamos os mais diversos conflitos, problemas e até mesmo a angústia das “dores do crescimento”. E, ao enfrentá-los, soluções surgem (ou “o que não tem solução, solucionado está”), possibilitando restabelecer a ordem em nosso interior, com o mundo ao nosso redor e com Deus.
E com a nossa integração ao mundo do espírito, com consciência, agiremos com utilidade, integridade e felicidade. Só nós, que já fomos beneficiados por essas ações, sabemos a extensão de “contemplar os olhos de homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida em que passam da treva para a luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico marginalizado sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um Deus amantíssimo em suas vidas.”
Diante da tamanha importância dos fatos acima relatados, que acontecem quando somos titulares da mensagem que Deus nos reserva como condutores, a nós, membros de A.A. cabe rogar a esse mesmo Deus que suas bênçãos nos cheguem com SERENIDADE, CORAGEM e SABEDORIA, em cada dia de nossa renascida vida.

LIBERDADE E COMPULSÃO – ESTUDO C/12 PASSOS

LIBERDADE E COMPULSÃO – estudo c/12 Passos
Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002
LIBERDADE E COMPULSÃO: UMA ANÁLISE DA PROGRAMAÇÃO DOS DOZE PASSOS DOS ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
Joelson Tavares Rodrigues*
Leonardo Pinto de Almeida#
RESUMO. O presente trabalho se propõe a questionar se a admissão da impotência, inserida nos Doze Passos dos Alcoólicos
Anônimos, se confronta com a noção sartreana de liberdade, marcando uma posição tomada pelo AA de entender o alcoolismo como uma compulsão, em que somente a ação de uma força externa pode proporcionar a recuperação. Os autores concluem que, se a programação dos Doze Passos tem sido tão repleta de êxitos, é porque ela, mesmo sem disso dar-se conta, vem trabalhando com a dimensão da escolha, que permite que cada um possa, a todo momento, determinar seu destino.
Palavras-chaves: liberdade, compulsão, alcoólicos anônimos.
FREEDOM AND COMPULSION: AN ANALYSIS OF TWELVE STEPS PROGRAMMING OF ALCOHOLICS ANONYMOUS
ABSTRACT. The present paper aims to question if the admission of impotence, included in the twelve steps of alcoholics anonymous, it is against Sartre’s notion of freedom, indicating a position taken by AA of understanding alcoholism as a compulsion, where only the action of an external power can provide recuperation. The authors conclude that, if the programming of twelve steps has been having so effective is because, even when not aware, it has been working with the dimension of choice that allows that each person can at every moment determinate his own destiny.
Key words: freedom, compulsion, alcoholics anonymous. 1
* Graduado em Medicina, especialista em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando em Psicologia na Universidade Federal Fluminense, professor do Instituto de Psicologia Fenomenológico-existencial do Rio de Janeiro.
# Graduado em Psicologia, mestrando em Psicologia na Universidade Federal Fluminense, bolsista da Faperj.
Enquanto o DSM-IV (APA, 1994) faz uma distinção entre dependência e abuso, a CID-10 (OMS, 1992/1993) utiliza, como oposição a dependência, o termo uso nocivo. Para caracterizarmos o uso nocivo é necessário que a substância tenha sido responsável, ocasionalmente, por algum tipo de dano físico ou mental ao paciente, sem que, ao mesmo tempo, tenham sido preenchidos os critérios para dependência. Já na dependência, são necessários sinais de tolerância e abstinência quando na falta da substância, bem como um aumento progressivo do espaço ocupado pela droga psicoativa na vida do paciente. O conceito de abuso, por outro lado, envolve uma perda de controle no uso, sendo a substância consumida mesmo em face de prejuízos sociais e laborativos. Neste caso, também, para que o diagnóstico seja feito, é necessário que o quadro não preencha os critérios para dependência. Os alcoólicos anônimos, que são objeto de nosso estudo, não se deterão em tal distinção, considerando elegíveis para a programação todos os que sentem que perderam o controle perante a substância.
Os transtornos relacionados ao uso abusivo e à dependência1 de álcool têm se destacado entre as patologias psiquiátricas mais freqüentemente observáveis. Estudos epidemiológicos realizados nos Estados Unidos, citados na sexta edição do Comprehensive textbook of psychiatry (Schuckit, 1995), revelaram que 90% da população daquele país consumiram uma bebida contendo álcool, pelo menos uma vez na vida, e que 51% de todos os adultos norte americanos são usuários atuais de álcool. Destes, cerca de 10% ou mais dos homens e 5 a 10% das mulheres já preencheram os critérios diagnósticos para abuso ou para dependência de álcool durante a vida. Pelo menos 40% dos homens e mulheres norte-americanos já tiveram um episódio temporário de problemas relacionados ao uso de álcool, como, por exemplo, 114 Rodrigues & Almeida Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002 faltas ao trabalho ou à escola. O álcool é ainda responsável, naquele país, por cerca de 200.000 mortes por ano, especialmente como conseqüência de acidentes automobilísticos, suicídios, câncer, cardiopatias e doenças hepáticas. 50% de todos os homicídios e 25% dos suicídios envolvem o uso da substância. Seu abuso e dependência reduzem a expectativa de vida em cerca de dez anos, além de estarem diretamente relacionados a um grande número de conflitos de ordem familiar e social.
Adicionalmente, os custos financeiros, causados por faltas ao trabalho, seguros previdenciários e tratamento de diversas patologias que lhe são secundárias, foram estimados, nos Estados Unidos, no ano de 1995, em 150 bilhões de dólares.
Pesquisas realizadas no Brasil parecem ratificar semelhantes dados. Ernani Luz (1996) elaborou uma revisão sobre o assunto, em que são coletados dados de estudos populacionais feitos em diversas localidades desde o ano de 1961 até o ano de 1991. Os resultados revelaram uma prevalência de abuso e dependência de álcool que variou, no sexo masculino, de 1 a 27,7% e, no sexo feminino, de 0,7 a 20,1%, de acordo com a população pesquisada. Outras pesquisas realizadas entre pacientes que procuraram serviços de saúde no Brasil mostraram uma prevalência de 16 a 58% no sexo masculino e de 5 a 18% no sexo feminino, o que parece corroborar a noção de que muitas patologias observáveis em diversas áreas clínicas são de fato decorrência do uso abusivo ou da dependência da substância.
Todos estes dados nos permitem afirmar que o abuso e a dependência de álcool configuram-se como questão de grande importância clínica, caracterizando-se como grave problema de saúde pública.
Em função deste fato, inúmeras estratégias são utilizadas para reduzir o número de pessoas que se vêem acometidas por estes transtornos, desde campanhas de prevenção, que têm uma atuação ao nível primário, até técnicas e tratamentos que vão agir secundariamente, já tendo a patologia se instalado. O objetivo deste trabalho é o de pensar o assunto a partir da prática de uma destas propostas de recuperação, os chamados Alcoólicos Anônimos, mais comumente conhecidos como AA. O que tencionamos é refletir sobre as estratégias utilizadas pelos grupos, em seu processo de tratamento, articulando-as à noção sartreana de liberdade e responsabilidade. Tal reflexão nos leva a colocar em questão a própria noção de compulsão que, em princípio, nos parece se opor à idéia de liberdade.
O AA nasceu em 1935, na cidade de Akron, estado de Ohio, nos Estados Unidos, a partir do encontro de Bill W., um corretor da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e do Dr. Bob, um cirurgião local, eles mesmos dependentes da substância. Antes de se conhecerem, ambos haviam feito parte do chamado Grupo Oxford, que tinha entre seus propósitos a intenção de difundir a aplicabilidade de valores espirituais considerados pelo grupo universais, na vida cotidiana. Tais valores vieram, posteriormente, a marcar as características filosóficas do AA. Enquanto Bill, sob a influência do Grupo Oxford, vinha conseguindo, havia já algum tempo, manter-se em abstinência, o mesmo não havia ocorrido com o Dr. Bob. Bill defendia a noção de que o alcoolismo tratava-se de uma doença “da mente, das emoções e do corpo.” Como conseqüência deste encontro, os dois se propuseram a trabalhar com pacientes alcoólicos no Hospital Municipal de Akron, onde tiveram sucesso com um interno que, junto com eles mesmos, constituíram o primeiro grupo do AA. Em 1939, é publicado o livro Alcoólicos Anônimos (AA, 1939/1994), que acaba por dar nome à sociedade.
Nesse livro, que ainda hoje é considerado a obra básica da instituição, estão delineados os chamados ‘Doze Passos’, que se constituem nos princípios de todo o processo de recuperação. Progressivamente, os núcleos de AA vão se difundindo em todo o mundo, sendo estimado que, até o ano de 1991, cerca de 2.000.000 de pessoas já haviam se recuperado através da utilização de seus princípios. (AA, 1953/1991) Além do trabalho realizado, direta e voluntariamente, pelos grupos, os Doze Passos, em função de sua inegável efetividade, influenciaram diversos outros métodos e técnicas terapêuticas exercidos em caráter profissional, sendo comumente incorporados ao arsenal utilizado pelas clínicas e núcleos especializados no tratamento de dependência química.
São os seguintes os seus princípios:
Primeiro passo – ‘Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas’ (…);
Segundo passo – ‘Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade’(…);
Terceiro passo – ‘Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos'(…);
Quarto passo – ‘Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos'(…);
Quinto passo – ‘Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas’(…);
Sexto passo – ‘Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter'(…);
Sétimo passo – Liberdade, compulsão e alcoólicos anônimos 115 Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002 ‘Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições'(…);
Oitavo passo – ‘Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”(…);
Nono passo – ‘Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem'(…);
Décimo passo – ‘Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitimos prontamente'(…);
Décimo primeiro passo – ‘Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade’ (…);
Décimo-segundo passo – ‘Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades'(…) (AA, 1953/1991, p. 5-8).
Todo o processo de recuperação proposto pelo AA se baseia no primeiro passo – a admissão da impotência perante o álcool – sem a qual toda sobriedade será considerada precária. Segundo os seus princípios, é necessária a admissão desta falência completa, da absoluta impotência, que somente poderá ser remediada pela ação de um ‘poder superior’. (AA, 1953/1991) Torna-se então extremamente improvável, ou mesmo impossível, a libertação da compulsão por um ato de vontade, por um exercício de liberdade.
Liberdade e compulsão aparecem neste contexto como conceitos que se antepõem, já que admitir uma falência completa, com uma conseqüente impotência, implica em se abrir mão da possibilidade da liberdade e da escolha.
Para prosseguirmos em nossa análise, faz-se necessário, portanto, que nos confrontemos com a temática da liberdade, a fim de, em um segundo momento, podermos relacioná-la com a noção de compulsão e com a programação dos Doze Passos.
Nesse sentido, recorreremos à obra de Sartre, que nos parece oferecer os subsídios necessários à presente reflexão.
Todo o pensamento sartreano, ou talvez de toda a corrente de pensamento filosófico que costumamos chamar ingenuamente2 de existencialismo, envolve 2 Em uma nota esclarecedora, contida em seu belíssimo trabalho, intitulado As filosofias da existência (Wahl, 1954/1962), Jean Wahl discute sua preferência pelo termo ‘filosofias da existência’ em oposição a ‘existencialismo’, uma questão problemática e essencial para o entendimento da existência: a liberdade. Em Sartre, a liberdade é vista como o que há de mais fundamental na existência humana, condição determinante daquilo que somos, em função do que, por mais que queiramos ou tentemos, jamais conseguiremos dela nos furtar.
Falando da filosofia de Jean-Paul Sartre, Wahl (1954/1962, p. 82) afirma que ‘podemos dizer que a idéia de liberdade é aquela em volta da qual se formou o seu pensamento’.
Para alcançarmos uma compreensão da concepção de liberdade, segundo o pensamento de Sartre, devemos nos remeter à fórmula que remonta aos princípios do existencialismo: ‘A existência precede a essência.’ (Sartre, 1946/1978, p. 5). Com essa máxima, o autor francês critica o essencialismo, que afirma haver leis lógicas, princípios imutáveis, que determinariam a existência do Ser.
Em O existencialismo é um humanismo, Sartre (1946/1978) ressalta que o essencialismo se mantém referenciado em uma noção da vida, em que a idéia de Deus ocupa um papel central. Seria Deus quem produziria o mundo e o homem, com finalidades prévias, com destinos traçados, pois a Ele nada escapa.
Neste contexto, o homem poderia ser comparado a um objeto produzido em uma fábrica e Deus ao seu executor: Assim o conceito do homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um corta papel ao espírito do industrial; e Deus produz, segundo técnicas, em uma concepção, exatamente como o artífice fabrica um corta-papel segundo uma definição e uma técnica (Sartre, 1946/1978, p. 5).
A essência do homem estaria então determinada, e a ele caberia apenas seguir o seu destino.
No Século das Luzes, mesmo com a idéia de Deus suprimida, continuou a ser utilizada a noção de uma natureza humana, que recaía na mesma idéia de uma essência preestabelecida. Para Sartre, a concepção de uma natureza que caracteriza e determina o homem baseia-se justamente naquilo que ele não é, pois ‘o assinalando o caráter múltiplo e diverso circunscrito ingenuamente sob à égide de existencialismo. Wahl ressalta que enquanto Heidegger e Jaspers foram contrários ao seu emprego para denominar o seu modo de pensar, filósofos franceses como Sartre, Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir, Gabriel Marcel, Lavelle e La Senne não discordaram de sua utilização. Por outro lado, segundo Wahl, para o pensamento de Kierkegaard, o termo existencialismo seria totalmente impreciso. 116 Rodrigues & Almeida Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002 homem é liberdade’ (Sartre, 1946/1978, p. 5).
Entender o pensamento de Sartre significa, portanto, compreender o seu próprio ateísmo. Sua concepção de homem se estabelece sob a idéia da não-existência de Deus. Se não há Deus, não há finalidades e destinos traçados, naturezas, essências prévias à existência humana: o homem é o agente de seu próprio destino: … se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem (Sartre, 1946/1978, p. 8).
Ser sem definição, o homem surge no mundo de maneira puramente contingente, não há nada que possa a priori constituir sua essência. A existência precede à essência, no sentido de que o homem não tem nada que preexista à sua vida, porém, através dela, ele busca constituir um destino, uma essência, busca ininterrupta que só é aniquilada com a chegada da morte. Podemos, com isso, afirmar que o homem se revela como pura contingência, pois nada pode justificar sua existência.
Para compreendermos melhor o que Sartre entende como liberdade, devemos estabelecer as conexões que se dão entre a consciência (Para-Si) e o mundo (Em-Si).
Sendo o único ente que pode pensar o ser, o homem, aqui também compreendido como consciência, se apresenta como que possuindo uma diferença fundamental em relação ao mundo, às coisas. Sartre diz que o mundo possui uma identidade fechada, ignorando-se a si mesma, por isso o Em-Si não caracteriza uma consciência, ou seja, não se constitui enquanto abertura. Já o homem será entendido pela consciência por ser possuidor de uma capacidade de interrogar o mundo e a si mesmo, exprimindo juízos sobre ambos.
O que faz o homem ser capaz dessa interrogação?
Uma abertura, uma fissura constitutiva da consciência, que a faz sofrer de uma descompressão interna, já que a consciência não possui uma identidade fechada como o mundo; se apresenta como que possuindo uma distância de si para si, que não seria física, mas sim ‘uma distância feita de Nada” (Perdigão, 1995, p. 40).
Esse Nada caracteriza a consciência de uma pura negatividade3.
3 Podemos entender essa distância de nada pela etimologia da palavra existência, que remete a um afastamento. A consciência se dá como afastamento de si para si, que a faz constituir-se de uma abertura fundamental que visa o mundo através de uma espécie de tentativa de fechamento, fadada ao malogro.
A negatividade da consciência visa o mundo (o positivo, a identidade plena) através da intencionalidade. Negatividade da consciência, intencionalidade e liberdade estão intimamente ligadas. Jean Wahl, esclarece que: … a liberdade é, num sentido, um ser mínimo, é uma deficiência, uma falta, uma espécie de buraco, de nada no interior do ser, e aqui está toda a teoria do ‘para-si’ em Sartre, que se imporia evocar – é toda teoria do nada.(…) A liberdade estará ligada à minha essencial negatividade (Wahl, 1954/1962, p. 88).
A fissura interna da consciência (Para-Si) é o que torna o homem um ser faltoso, um ser inacabado. A existência precede à essência no sentido de que o homem existe, primeiramente, como ser inacabado, não possuindo nenhuma essência e tendo, por esse motivo, que buscar suprir essa falta durante sua vida.
O preenchimento da fissura caracteriza o projeto da existência humana. Projeto impossível de ser concretizado, pois a fissura nunca se fecha. O homem quer, no final das contas, tornar-se uma ‘coisa consciente’, ser uma ‘coisa desprovida de transcendência’, sem ignorar nada acerca de seu próprio ser. Isto é, o homem quer ser Deus, ou para usar a nomenclatura sartreana, o Para-Si quer se tornar um Em-Si-Para-Si.
Como se vê, a consciência para Sartre é um sistema aberto que representa toda a sua idéia de liberdade, como fundamento da existência humana.
Ou seja, o inacabamento do Para-Si representa, ontologicamente, a liberdade do homem. Porém, ela é entendida como situada no mundo. As escolhas e a finitude são os elementos tensores da liberdade. Ela precisa da resistência do mundo. Neste sentido, podemos afirmar que só há liberdade, se houver um mundo resistente à liberdade. Por isso, Sartre critica a filosofia que objeta contra a liberdade humana, afirmando que o mundo a constrange. Para o pensador francês, o mundo não limita a liberdade, o que o ocorre são apenas pseudolimitações.
O homem, segundo Sartre, é condenado a ser livre, porque não pode escolher deixar de sê-lo.
Toda escolha implica em liberdade, até mesmo quando se escolhe a não-escolha. ”Por isso, Sartre observa que não somos fundamento de nossa liberdade, já que não a escolhemos’ (Perdigão, 1995, p. 105). Os limites encontrados no mundo são colocados pela própria liberdade, só ela pode limitá-la, mas ela é que fundamenta o ser do Dasein, sua autodeterminação: Liberdade, compulsão e alcoólicos anônimos 117 Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002
Conseqüentemente, nós seremos tão livres se decidirmos ser cobardes como se decidirmos ser corajosos. Isto em nada diminui a nossa responsabilidade; em certo sentido, pelo contrário, uma vez que há uma escolha de cobardia como há uma escolha de coragem: nos dois casos, há decisão e liberdade (Wahl, 1954/1962, p. 83).
Como se vê, neste trecho tirado do livro de Jean Wahl, liberdade implica responsabilidade. Para Sartre, não há escolha que não assinale uma responsabilidade por toda a humanidade: Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que cada um de nós se escolhe a si próprio, mas com isso queremos também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos os homens (Sartre, 1946/1978, p. 7).
Ou seja, a liberdade e a escolha carregam um pesado fardo, que inclui a humanidade inteira em suas decisões. Por causa desse peso, a experiência de ser livre nos leva ao que chamamos angústia: ‘pleno conhecimento daquilo que nos ameaça – a nossa liberdade’ (Perdigão, 1995, p. 113). Se a classificássemos, teríamos dois tipos: a angústia temporal e a angústia ética. A primeira implica na angústia de estarmos sós, sem ter apoio sequer do próprio passado, tendo a obrigação de escolher a cada momento. Por exemplo: ‘Deixei de fumar há um ano, mas preciso a toda hora reiterar aquela decisão, porque, a qualquer momento, sou livre para mudar de projeto e voltar ao cigarro’ (Perdigão, 1995, p. 112).
Já a segunda assinala a ausência de referenciais no mundo, de leis, de tábuas, que sirvam realmente para nos orientar em nossas escolhas: O homem é angústia (…), o homem ligado por um compromisso e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também o legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo que a si próprio, a humanidade inteira, não poderia escapar ao sentimento da sua total e profunda responsabilidade (Sartre, 1946/1978, p. 7).
Liberdade, escolha, responsabilidade apontam para a inexorável realidade do homem em relação ao vazio de sentido, no qual a angústia faz seu papel disruptor e criador de ação. Agimos para criar a vida onde não há essência. Escolhemos porque não temos outra escolha, porém isso não nos tira a responsabilidade. Liberdade é se deparar com esse vazio fundamental constitutivo da consciência humana, que a capacita a escolher e valorar o mundo em que ela habita.
No entanto, o homem tenta, às vezes, usar de subterfúgios para ignorar a angústia, dobrá-la, escondendo para si mesmo essa liberdade assustadora.
Esse mecanismo, Sartre chamou de má-fé. Ela consiste em dar-se uma essência, acreditar-se já estabelecido, atravessado pelo destino. Nesse sentido, a noção de uma compulsão, uma restrição da vontade, que deixa de ser determinante para ser determinada, seria entendida por Sartre como má-fé. Tal opinião é compartilhada por Irvin Yalom (1980), que compreende a compulsão como uma defesa contra a consciência da responsabilidade. Para Yalom, a crença de que uma força que nos é estranha, uma força irresistível e incoercível, pode nos dominar, determinando nossas atitudes, é um modo de não nos tomarmos como os construtores do nosso destino, transferindo a responsabilidade para algo externo a nós. Tal forma de compreensão tem implicações clínicas importantes, já que, à medida que não nos sentimos responsáveis pelas escolhas que fazemos, temos sempre a possibilidade de nos utilizar de estratégias defensivas que nos afastam da responsabilidade de mudar. Podemos, por outro lado, entender a compulsão como determinada orga nicamente, transferida geneticamente, ou mesmo como fruto de processos psíquicos inconscientes.
Dentro desta perspectiva, já não se trata de algo externo, mas sim de uma contingência orgânica ou intrapsíquica pela qual também não somos responsáveis. Neste caso, se a entendemos como uma propensão que nos leva a tomar uma determinada atitude e não outra, mas em que, ao mesmo tempo, ainda nos cabe a escolha, estaremos nos mantendo no campo da liberdade. Neste sentido, nos parece razoável a idéia de uma compulsão. Buscar uma compreensão mais profunda que nos permita entender as motivações daquele que se vê envolvido em um processo compulsivo afasta-se do objetivo do presente trabalho. No entanto, independentemente da linha teórica que utilizemos para a nossa reflexão, ou das causas e motivações que queiramos buscar, o que não podemos aceitar é uma noção de compulsão absoluta, à qual não nos cabe qualquer reação, sendo-nos lícita apenas a submissão. Pensar assim é necessariamente imaginar que realmente um poder externo tenha que interferir no processo de “cura” para esta ocorrer, seja ele um Deus ou uma medi cação, por exemplo. A própria experiência com alcoolistas nos parece contrariar esta perspectiva, pois, se assim fosse, não teríamos notícia de dependentes químicos recuperados sem o uso de qualquer destes dispositivos. O que nos 118 Rodrigues & Almeida Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002 cabe discutir, a partir deste ponto, são exatamente as questões aqui levantadas a fim de que, compreendendo a relação sempre presente entre a liberdade e a resistência do mundo que a ela se opõe, tenhamos condição de ampliar o nosso entendimento das propostas e da programação dos grupos anônimos.
Tomaremos como elemento principal de nosso questionamento o primeiro passo, não só pela importância que lhe é atribuída na programação, mas, sobretudo porque encontramos nele os princípios filosóficos que buscamos aqui colocar em questão.
Sua idéia central é a da admissibilidade da impotência perante a substância, que passa a ter controle sobre a existência, ou seja, o indivíduo se vê colocado em uma posição em que o álcool se torna o centro de suas expectativas, sonhos e desejos; por ele, é capaz de ações que comprometem valores como família, trabalho e saúde. A importância da admissibilidade da impotência se dá em função da observação muito comum de que, enquanto o ‘dependente’ se coloca na posição ou na crença de ter controle sobre a substância, fazendo promessas e projetos de ‘não beber nunca mais’, ou simplesmente negando o fato de ser um ‘alcoólico’, a dependência permanece.
Dão-se então as conhecidas ‘promessas de segunda-feira’, quando o ‘dependente’, após um final de semana de uso exagerado do álcool, sentindo os reflexos físicos, psicológicos ou sociais, afirma à família ou aos seus parceiros, que, a partir daquele dia, ‘nunca mais vai beber’, que todos podem ‘acreditar nele”, que “desta vez será diferente’. Habitualmente, tais votos, entretanto, irão durar o tempo necessário para o alívio do desconforto provocado pelo uso da substância, seja ele representado por uma melhora do estado corporal ou por uma diminuição da tensão familiar. Será necessário então se chegar ao que o AA chama de ‘fundo do poço’4, ou seja, o estado, que é individual, em que a pessoa se dá conta da condição em que se encontra e através da admissibilidade da impotência, busca uma recuperação.
Estas observações nos parecem verdadeiras e vêm ao encontro daquilo que temos observado na experiência clínica. De fato, mesmo aqueles que se encontram já de longa data abstinentes da substância, apresentam maior chance de recaída, quando se sentem ‘livres da dependência’, acreditando que podem beber apenas socialmente. Tal procedimento, como apontam os grupos anônimos, é indício de recaída iminente, o que usualmente ocorre.
4 Esta imagem nos parece interessante, pois, ao tocarmos com os pés no fundo, temos o impulso necessário para alcançarmos novamente a superfície.
Tais constatações empíricas levaram Bill e o Dr. Bob a entenderem que, sem a admissibilidade da impotência, que implica na não-liberdade, seria impossível uma recuperação do alcoolismo. Na possibilidade, inserida no primeiro passo, de se perder o domínio sobre a própria vida, está pressuposta a crença de que, nesta condição, uma substância, no caso em questão o álcool, passa a ser a gestora de nossos destinos, não havendo espaço para a liberdade.
Mais do que isto, eles propuseram que somente uma entidade metafísica, fosse ela um Deus religioso ou mesmo o grupo, poderia restituir a ‘sanidade’. A esta mesma entidade seria entregue a condução da vida, a vontade e a possibilidade de remoção daquilo que eles chamaram de ‘defeitos de caráter e imperfeições’.
O AA trabalha com a noção de alcoolismo como uma ‘doença’, que não somente é do corpo, mas que é também da ‘alma’. Existe uma forte conotação moral e religiosa, que traduz a natural influência da formação pessoal de seus fundadores. Sendo também um doente da alma, o alcoólico necessita de uma transformação moral, uma modificação de suas características de personalidade: é preciso, portanto, passar por algo muito próximo a um processo de conversão. Fala-se habitualmente nos grupos das ‘características’ do dependente químico, como por exemplo, da sua tendência à dissimulação e à nãoverdade.
Essencializa-se, portanto, o alcoolismo; ele se transforma em uma entidade determinante e constituidora. Nesse sentido, pode-se falar de uma personalidade alcoólica, onde a experiência singular não se faz presente.
Podemos concluir pela impossibilidade de comunicação entre o pensamento sartreano e os princípios desenvolvidos nos Doze Passos? Embora à primeira vista pareça que sim, o nosso entendimento é o contrário, ou seja, a despeito dos distanciamentos filosóficos descritos anteriormente, a prática dos grupos anônimos, e mesmo a sua teoria, revelam uma proximidade não desprezível.
Para buscarmos tais aproximações, iremos retornar ao primeiro passo e, de certa forma, reinterpretá-lo dentro da ótica sartreana. Como já dissemos anteriormente, também em nossa clínica temos observado a necessidade de uma experiência limite que leve aquele que vem fazendo uso exagerado do álcool a decidir-se pela abstinência. Esta experiência, que chamamos anteriormente de ‘fundo do poço’, será o elemento catalisador da vontade que permitirá a escolha da não-utilização da substância. E aí está o grande distanciamento, pois, para a programação do AA, não há de fato a possibilidade da escolha; a condição do ‘dependente’ é de desgoverno Liberdade, compulsão e alcoólicos anônimos 119 Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002
de sua vida, de impotência, não havendo espaço para a liberdade. Recorre-se então a um ‘poder superior’, que passa a ser o responsável pela ‘sanidade’. Por outro lado, a admissibilidade da impotência não é por si mesma um ato de liberdade e, por conseguinte, de vontade? Na condição de não-vontade, pressuposta no primeiro passo, não está inserida, exatamente, a vontade de se recuperar de que se carecia anteriormente? Ou, em outras palavras, se fosse o ‘dependente’ impotente, teria ele poder para se decidir a enfrentar a sua compulsão? Nos parece que somente por um ato de extrema vontade e de liberdade é possível alguém tomar tal decisão.
Mas, por outro lado, é inegável que o AA é extremamente efetivo em sua tarefa e que esta efetividade se baseia não só na admissibilidade desta impotência, mas também de sua constante rememoração. Com esse objetivo, os grupos mantêm a prática dos testemunhos, em que, a todo tempo, são lembrados os males provocados pelo álcool e a necessidade de se ver sempre vulnerável a ele. O que esta estratégia, entretanto, nos parece fazer é reafirmar o que Sartre chama de angústia temporal: a necessidade de estarmos todo o tempo renovando as nossas escolhas, que não poderão ser feitas para ‘toda a vida’. Por isso, quando o indivíduo afirma que nunca mais beberá, ele se mantém ignorante de sua condição existencial, acreditando poder definir as suas escolhas futuras e produzir um fechamento. Muito acertadamente, o AA diz que tal afirmação é impossível, devendo cada um se comprometer com as suas próximas 24 horas. Entretanto, o que torna possível tal recuperação é a liberdade, a não-existência de uma essência determinadora, o fato de que se é faltoso e inacabado, possibilitando a conseqüente renovação de projetos e escolhas. Se assim não fosse, se estivesse o homem determinado por uma essência, se estivéssemos trabalhando com a noção de doença, entendida aí como um fechamento que restringe a liberdade, algo exterior seria necessário para que se chegasse à recuperação. É nesse sentido que a programação recorre a um poder superior a fim de justificar a decisão tomada de não mais fazer uso da substância. Olhando por este prisma, poderíamos dizer que os princípios do AA não suportam a angústia e recorrem à má-fé. Imaginam a presença de um poder superior que passa a gerir a existência e, por conseqüência, as escolhas, o que traduz a tentativa de encobrimento da angústia temporal. Por outro lado, se alicerçam em noções de perfeições, imperfeições e defeitos de caráter, o que traduz um afastamento da angústia ética.
É importante ficar bem claro que não estamos aqui fazendo uma discussão necessariamente ateísta, pois nos parece que, mesmo para aqueles que acreditam na existência de um Deus, a escolha de segui-lo ou não, é uma ato de liberdade e potência, sendo anterior a qualquer outro desdobramento que daí possa advir.
Como já deixamos claro anteriormente, não é nossa pretensão afirmar que o homem não tenha que lidar muitas vezes com desejos que lhe pareçam compulsivos. O que estamos negando é a possibilidade de inseri-los em uma esfera que não seja a da sua liberdade. Muito ao contrário, é exatamente por eles existirem que o homem se faz livre, podendo escolher vivê-los ou deles se abster. Isto equivale a dizer que não nos cabe escolher ter ou não ter uma compulsão, mas está sempre na esfera de nossa liberdade a escolha do que faremos com ela. A recaída, freqüentemente observável naqueles que se acreditam livres da dependência, poderá ser entendida então como resultado do fato de que estes se descuidam e se esquecem de que a liberdade humana se dá situada em um mundo e se reafirma exatamente em face dos obstáculos por ele impostos. Tomando-se como livres da compulsão, deixam de renovar a escolha inicial de não mais beber, o que acaba se traduzindo na recaída.
Tal esfera da liberdade e da responsabilidade não nos parece estar ausente na programação dos Doze Passos. Ao invés disso, suas práticas e estratégias reforçam, a todo o tempo, a necessidade de assumir a responsabilidade sobre a vida, de escolher o seu destino. Quando o homem se propõe a reparar os males produzidos a outrem, a fazer um projeto de não beber nas próximas 24 horas, de admissão dos seus ‘erros’, ou mesmo de, através da prece e da meditação, buscar o auxílio de Deus, o que se faz presente é um ato de liberdade, uma escolha pela sobriedade, que só se faz possível em função da condição existencial de ser livre que é dada ao homem. É bem verdade que, muitas vezes, a responsabilidade irá se confundir com uma certa tendência à culpa, especialmente quando se refere a uma análise dos atos praticados no período da ativa.5
Fica evidente, por outro lado, uma certa característica ‘messiânica’ nas práticas desenvolvidas pelos grupos.
Em função do fato de acreditarem conhecer o que é o alcoolismo e o dependente químico, forma-se no grupo, muito comumente, a crença de que somente através da 5 Termo usualmente utilizado pelos participantes dos grupos para caracterizar o período em que faziam uso da substância.
120 Rodrigues & Almeida Psicologia em Estudo, Maringá, v. 7, n. 1, p. 113-120, jan./jun. 2002 programação será possível uma recuperação. Não se admite uma abstinência duradoura sem que esta seja precedida da admissão da impotência. De idêntica forma, considera-se impossível o uso social do álcool em uma pessoa que, anteriormente, tenha sido dependente da substância. Embora possamos concordar que, em inúmeros casos, o AA esteja com a razão, a nossa experiência clínica tem nos mostrado a impossibilidade de criarmos um modelo conceitual no qual possam ser inseridas todas as pessoas. Temos observado vários pacientes que, após se darem conta de todos os males provocados pelo uso da substância, simplesmente decidiram-se a não mais utilizá-la e se mantiveram firmes nesta decisão, sem que tenha sido necessária uma admissão de impotência. Da mesma forma, embora mais raramente, já nos confrontamos com pacientes que, depois de longo período de uso abusivo ou mesmo de uma dependência instalada, escolheram fazer uso do álcool apenas ocasionalmente.
Quando afirmamos que as proximidades são maiores do que à primeira vista poderíamos imaginar, é porque entendemos que toda a programação delineada nos Doze Passos só se torna possível em função da condição existencial de liberdade humana. Quando o AA fala de impotência e de uma admissão de uma falência completa da existência, nós enxergamos a resistência do mundo, sobre a qual se exercerá a liberdade. Acima de tudo, compreendemos que a libertação de uma compulsão como a do álcool ocorre tão somente a partir de um exercício de vontade, em que a escolha da abstinência será continuamente feita e refeita. Se a programação dos Doze Passos tem sido tão repleta de êxitos é porque ela, mesmo sem disso dar-se conta, vem trabalhando exatamente com a dimensão da escolha, que permite que cada um possa, a todo momento, determinar o seu destino.
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A MAIOR DÁDIVA DE TODAS – SAULO F.

A maior dádiva de todas

SAULO F.

Quando este tema me foi sugerido para ser apresentado no “VI Encontro com Veteranos” do Grupo Cachoeira da Paz, em Cachoeira do Campo, Ouro Preto/ MG, temi pelo êxito deste as-sunto, pois ele abria oportunidade para um juízo de valor, o que o tornava bastante subjetivo. Apelei para o companheiro que di-rigia o encontro, mas, naquele momento, ele não podia resolver minha dúvida. Só tempos mais tarde, ele me informaria que a i-déia havia sido desenvolvida no livro “A linguagem do coração”. Mas nesse entremeio de tempo, numa reunião informal de AA, já havia sugerido, numa espécie de balão de ensaio, a pergunta: qual é a maior dádiva de todas? As respostas, como era de se es-perar, foram as mais variadas possíveis. Todas apropriadas, di-ga-se a bem da verdade, mas com uma peculiaridade que não me agradava. Ou seja, para o objetivo que tinha em mente, para cumprir a missão que me fora destinada, senti-as incompletas. Continuei pensando sobre o assunto, e uma luz brilhou. Quem sabe, especulei comigo mesmo, a maior dádiva não seria também um grande sacrifício? Então me veio à mente a abstinência al-coólica, porém, afastei-a logo de imediato, por ser óbvia e exclu-sivamente do nosso meio. Por este fato, em nada estaria acres-centando, apenas ruminando uma idéia que todos sabemos, espe-cialmente em um encontro de e com veteranos. O tempo passava e temas e mais temas continuaram desfilando em minha tela mental, cada um há seu tempo, tentando se impor como o preferido. Mas, repentinamente, por uma dissociação de ideias, ou melhor, por uma associação de idéias ao avesso, uma frase pulou na minha frente sem a menor cerimônia.
Vou explicar: creio ter sido eu quem, na Grande Belo Hori-zonte, pela primeira vez, apresentou, digamos assim, esta mal-bendita frase aos companheiros. O certo é que não me recordo de tê-la ouvido antes em salas de AA. Nada de especial nisto. O pro-blema é que algo nela me chamou a atenção. Com ela, me debati muitas vezes. Impossível ignorá-la. Ainda que se discordasse dela, teríamos que dizer, como os italianos, que poderia não ser verdadeira, mas era bem bolada! A partir daquele momento em que lhe dei à luz, em nosso meio, tal como uma criatura estranha, ela ganhou vida própria e passei a presenciá-la ser dita e redita inúmeras vezes. Era de fato poderosa na sua expressividade! Mas que frase seria essa que veio como intrometida em meu universo mental, num momento em que apenas esperava por atinar com uma resposta para o tema deste trabalho? E o que era ainda mais surpreendente, é que ela mais serviria, no caso, como anticlímax, do que como protagonista de um elenco de bênçãos, dentre as quais eu deveria escolher uma. Sendo assim para que eu a ado-tasse como parte de meu trabalho, teria de contraditá-la depressa, pois apenas serviria como contraponto, nunca como uma solução afirmativa. Ao lado desta dificuldade, outra também havia, qual seja a de que eu deveria me revestir de uma razoável ousadia para discordar do filósofo, pai da idéia. E olha que, além de ter sido um dos fundadores da escola filosófica, a que passou a pertencer, foi indicado com mérito na sua carreira de escritor para o cobiçado prêmio Nobel de literatura!
Contudo, antes de revelar o conteúdo da frase que tanto in-cômodo me causou, vamos dar um passeio, ainda que ligeiro, pe-los Passos de AA, com especial ênfase no texto do Passo Seis: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse to-dos esses defeitos de caráter”. (Entre parênteses, para lembrar que o título do nosso trabalho é: “A maior dádiva de todas” e, apenas aparentemente, estamos fugindo deste encargo).
De todos os passos, o Sexto é o que mais ambigüidade reve-la. Ambiguidade no sentido de estar em cima do muro, e, esta vi-são longe está de ser pejorativa.
Uma outra pausa, e voltemos no tempo, para nos lembrar-mos dos chamados Grupos de Oxford e de seus famosos Absolu-tos. Honestidade absoluta, Verdade Absoluta, e assim por diante. Nesta visão pretérita do que foi o berço do AA, recordemo-nos de que houve, naqueles tempos idos, um afastamento recíproco, de parte a parte, entre os líderes do movimento Oxfordiano e os bê-bados que lá chegavam, naquele reduto evangélico. Os bêbados, porque não se sujeitavam as regras rígidas dos chamados Abso-lutos, e os lideres do movimento Oxfordiano, porque conosco se desencantaram, uma vez que sempre voltávamos a beber. Isto não significa que um lado ou outro estava errado, ou ainda que am-bos os lados estivessem equivocados. Na verdade, os dois tinham sua parcela de razão. Ambos estavam corretos, mas em momentos diferentes. Os bêbados, porque precisavam primeiramente da linguagem do coração, esta poderosa estratégia de confrontação, irrespondível para os bebedores-problema, que ainda teimam em defender a bebida em suas vidas. Para que pudessem deter a marcha do alcoolismo, a rendição era e continuaria a ser im-prescindível. Careciam ainda da informação médica que estava por vir, na sua forma atual, já que, àquela época, o alcoolismo era classificado entre as doenças mentais, e, pelo grande público, éramos considerados um bando de marginais e de desavergonha-dos. Os dois grupos, como se vê, não se encontraram no tempo. Quanto aos preceitos, ditos Absolutos, só mais tarde, talvez, ti-véssemos condições de nos deliciarmos com eles, sem risco de in-digestão.
Pois bem, a meu ver, o sexto passo é uma tentativa de, na prática, acomodar esses interesses aparentemente conflitantes: o saudosismo dos Oxfordianos, que, a meu ver, cada membro de AA deveria sentir, e a espiritualidade popular, por nós adotada, que promete muito e realiza pouco. Eu próprio brinco de melhorar já faz muito tempo.
Reparem nisto: quando o Passo sugere “prontificamo-nos inteiramente” (grife-se o inteiramente) “a deixar que Deus remo-vesse todos esses defeitos” (grife-se também o todos), ele é Ox-fordiano na sua natureza. Também quando ele afirma que “este é o passo que separa os adultos dos adolescentes” (e devemos en-tender esta maturidade subjacente à figura dos adultos, não só como de caráter emocional, mas igualmente espiritual), a sua ín-dole Oxfordiana manifesta-se incontestável. E, um terceiro exem-plo, no meio de outros tantos: nunca devo dizer, ensina o Passo, que a tal ou qual defeito “jamais renunciarei”. Aqui, mais uma vez, se revela, indisfarçável, o seu vezo Oxfordiano.
Mas, indo e voltando, para ver o outro lado da questão, quando o sexto passo concede que na prática do viver diário, a remoção dos defeitos oferece dificuldades, neste momento está prestando uma homenagem aos desertores de ontem e de hoje, fujões eternos da prática dos Absolutos. Ora, aprendendo com os caçadores (certamente foram eles que inventaram o ditado), “de-vemos fugir é da onça, não do rastro da onça”. Esse pessimismo, ou seria um tipo de acovardamento, não é senão ele quem tem moldado pensamentos, como aquele que prometemos revelar, da-qui a pouco, apesar de ter sido expressado por um gênio.
Introduzamos ainda, para maior clareza, o que se sugere: na tarefa, da assim chamada reformulação, temos, como diz o Sexto Passo, a tendência para fugir dos engarrafamentos psico-lógicos, das tarefas que oferecem maior dificuldade. Contentamo-nos em fugir pelas tangentes, em comer pelas beiradas do prato, escapulindo das questões dolorosas. No entanto, atenção agora, por favor, pois, como diziam os antigos, é “aqui que a porca torce o rabo”. É nesta encruzilhada, fabricada por nós, desenhada pelo medo, que se situa a real compreensão do problema. A tal da felicidade, a bendita paz de espírito, a tão convocada serenidade da nossa prece, em reuniões e fora delas, só aparece quando di-ante desses pontos de estrangulamento, passamos a enfrentá-los corajosamente. Como receita, se me permitem receitar não sendo médico, nem honorável filósofo, é largar de mão a desconfiança e acreditarmos que o resultado da superação do defeito de caráter, da imperfeição, do pecado – seja lá que nome se queira dar a es-sas mazelas – é melhor que a satisfação mórbida do defeito tido como insuperável. É mais ou menos como o prazer que dá a co-ceira do bicho-de-pé. Contudo, não ignoramos o fato que um pé sadio, afinal, é melhor do que um pé doente. No campo espiritual, essa distinção vem embaçada pela neblina do EGO. Não é tão simples de enxergar, como no exemplo do bicho-de-pé. Mas quem quer ser tolo? Ninguém, não é mesmo? Chegaremos lá! Temos que ultrapassar nossos limites, sempre e sempre. Aí então, Deus que é luz toma conta do cenário. Invade nossa alma e nos enche de beatitudes. Detalhe, que tem passado despercebido frequente-mente (tradutor, traidor – ainda os italianos) é o fato de que a frase original, adotada pela Irmandade, não é, de forma alguma, o, à la brasileira,“não sou santo, nem candidato a santo”, mas sim “não queira ser santo tão depressa”.
Após essa peregrinação, que se fez necessária pelos Passos de AA, tratemos de nos aproximar com mais velocidade da solu-ção pessoal dada por este companheiro ao que poderíamos obje-tivar como se fosse uma pergunta que está implícita ao tema.
Em sua opinião, Saulo, afinal, qual é a maior dádiva de to-das? Os companheiros, naturalmente, se lembram de que, para respondê-la, iríamos contrariar frontalmente o pensamento de abalizado filósofo. Rapidamente, por questão de honestidade e justiça, devemos informar que o contexto em que o ilustre francês cunhou tal frase, ele tinha seu cabimento. Fazia sentido lá, quan-do e onde foi escrita, e o raciocínio do autor era coerente com o drama que sua imaginação desenvolveu. Licença poética. Coisa de artista. A frase está contida numa peça de teatro intitulada “Entre quatro paredes”. No original “Huis Clos”. Mas, apesar dessas considerações, não vou me acovardar agora no final. Es-piritualmente ela não serve. Está completamente errada e, por um raciocínio invertido, é a solução da pergunta – tarefa. Não se surpreendam, mas lembram-se qual é ela? Claro! Não? Depois de tanto a repetirmos?
Portanto, agora, depois que justificamos o ilustre filósofo, a quem, em assim fazendo, acabamos por prestar-lhe a nossa devi-da e respeitosa homenagem, denunciemo-lo, ainda que amisto-samente. Cuidamos de uma afirmação que nos veio do filósofo existencialista Jean Paul Sartre e já falecido, que defende o ponto de vista que “L’enfer sont les autres.“ “O inferno são os outros”. Êta desculpa boa, “sô”! O inferno são os outros. Será que é ne-cessária explicação? Vá lá! Entre outras coisas, esta frase quer dizer que tudo que me acontece, por culpa dos outros aconteceu. Ou ainda, que não devo interagir com os semelhantes, pois todos não passam de empecilhos a minha volta, de paredões a impedir a minha livre caminhada. Pensando bem, diante de tamanho ab-surdo, só posso ser mais generoso ainda com o inteligente Sartre, admitindo que tenha se expressado de forma irônica, debochada!
Declaro neste momento, amigo Sartre, que vou reescrever sua frase, que fica assim: Os outros não são nosso inferno, mas sim a grande oportunidade que Deus nos dá, visando o aperfei-çoamento espiritual do “homo sapiens”. Ou seja, numa frase mais enxuta:
– Chegamos ao céu através dos outros –
Viram no que deu? Voltamos aos idos da década de 30. Aos Oxfordianos. Não me resta alternativa senão, diante das atuais circunstâncias, agradecer a eles, a quem, um dia, no passado, eu despreze. Relevem nossa falha, meus irmãozinhos do grupo Ox-ford! É claro, é verdadeiro que somente o amor absoluto, que na-quela época tentaram me ensinar, é que fornece o passaporte pa-ra a felicidade. A literatura de AA usa a expressão “pedra de to-que”, para explicar situação parecida com esta. Quando me torno capaz de pagar o mal que porventura me fazem com a moeda tilintante do bem, o sorriso de Deus me contagia e abençoa minha alma aflita. Vejo, igualmente, que, se na época do meu alcoolis-mo, a única e terrível saída era abandonar a bebida, agora no campo espiritual tenho que, a todo custo, viver o amor em todos os níveis. No pensamento, no coração e na ação. Não dá para in-terromper o programa. “Não dá para quebrar a ficha”! Em ter-mos radicais, posso dizer que aqui está o ponto de estrangula-mento de todo e qualquer ser humano, o maior engarrafamento emocional de cada um de nós. Tal como no exemplo do bicho-de -pé, há que se valorizar é o pé sadio. Apesar de ser esquisitamente agradável odiar quem nos odeia, ter má vontade com aqueles a quem invejamos, guardar rancor de quem nos prejudica, temos que superar essa tolice. É como no salto de obstáculo. Quando estivermos do lado de lá, saberemos que a satisfação pela vitória é definitivamente maior e gratificante do que as dificuldades ul-trapassadas, transcendidas. Há que se acreditar que o amor ao próximo, especialmente para com aqueles a quem é difícil amar, traz-nos uma recompensa quase inimaginável. Esta regra de ouro é condição sem a qual nada feito. Se saltarmos esta lição, ainda que pratiquemos coisas extraordinárias para nosso aprimora-mento, estaremos nos enganando. Conclusão, para este compa-nheiro, que a vós se dirige nesta cachoeira de paz, a maior dádiva de todas não é ser inteligente, ser amado, ou ser o número um. A maior dádiva de todas é a possibilidade que Deus nos dá de amarmos o próximo incondicionalmente, sem nenhuma exigên-cia, ou interesse. Apenas amar.
Pode ajudar muito se entendermos a natureza da má-vontade para com os outros, se compreendemos que de alguma forma, estamos condicionados a ela. Nossa reação de desagrado, de antipatia, de desforço psicológico foi aprendida e vem sendo reforçada constantemente. Passemos a quebrar os hábitos antigos de antipatizarmo-nos com pessoas e circunstâncias. Para evitar situações que tais, siga seus movimentos emocionais, sem perdê-los de vista. Descarte aqueles que não são generosos e substitua-os gradativamente, mas com rigor, até que um tempo chegará em que valores mais criativos, revestidos de bondade, tornarão nosso ambiente mental harmonioso e altruísta. É mais ou menos por aí, que começamos, de certa forma, a ser senhores de nosso destino.

DROGAS NA ADOLESCÊNCIA E A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA

Drogas na Adolescência e a importância da Família.

Drogas na Adolescência é um tema muito evidente, traz muita preocupação não apenas para os familiares, mas também para a sociedade.
O envolvimento na adolescência é cada vez mais cedo e produz um efeito cascata que acaba atingindo a todos, com isso o jovem deixa a escola afetando seu futuro, passa a se comportar com atitudes agressivas, começa a cometer crimes como roubos para sustentar o vício em drogas muitas vezes acabam em tragédia ou sendo presos pelas atitudes erradas.
A preocupação com os jovens vem aumentando nos últimos anos, pois cada vez mais as crianças e jovens estão envolvidos em crimes e atos violentos, onde grandes partes tem o envolvimento da droga.
A importância da Família na formação do Adolescente.
O familiar pode ajudar bastante no crescimento do jovem, sabendo lidar com os limites e com sua frustração.
A criança que cresce em um ambiente familiar com regras e limites, normalmente é mais segura aprendem desde cedo o que devem ou não fazer.
Adolescente sem regras claras tendem a testar seus limites dentro do ambiente familiar, criando um comportamento desafiador com seus responsáveis, por não serem acostumados com essas regras não aceitam quando limites são impostos.
Vendo de outro lado, o acompanhamento por parte dos responsáveis é um relacionamento importante para a proteção em relação às drogas na adolescência.
Aspectos importantes com relação ao uso de drogas na adolescência.
Nesse período entre a adolescência e inicio da idade adulta é que ocorre a curiosidade para a experimentação e problemas relacionada às drogas.
Alguns jovens passam pouco tempo de um estágio para outro. E fazendo o uso de várias substancias ao mesmo tempo isso aumenta a chance da dependência ao uso das drogas na adolescência.
Qual o melhor caminho.
Começar com o dialogo sempre, uma conversa honesta sempre pode ter resultados positivos. Tente sempre manter a calma, no meio da conversa sempre abra um espaço para reflexão. Expresse preocupação transmita seus sentimentos, amedrontar não é o melhor caminho.
Drogas Lícitas e Ilícitas. Entenda as diferenças.

Drogas Lícitas e Ilícitas são aquelas substancias que tem condições de manipular o funcionamento do organismo humano. Sua composição pode agir em qualquer ou determinado local e no organismo dependendo da natureza. Principalmente porque cada droga tem sua contraindicação.
Drogas Lícitas:
Drogas Lícitas é de uso permitido por Lei, liberadas para o consumo e comercialização. As drogas lícitas mais consumidas pela sociedade são o Álcool e o Cigarro. Por ser uma droga liberada é uma ameaça à saúde da sociedade além de causa dependência.
Segundo a (OMS) Organização Mundial da Saúde os problemas de saúde por uso de drogas lícitas é maior que o das drogas ilícitas.
Drogas Ilícitas:
Drogas Ilícitas não são permitidas por Lei, ilegais têm o consumo e comercialização ilegal no Brasil.
Em alguns países a droga Ilícita é permitida e de uso corriqueiro em outros, suas substâncias podem ser estimulantes, perturbadoras e depressivas, isso altera em uma grande escala no organismo do dependente, agem no sistema nervoso e altera o comportamento e estado mental, podem ser aplicadas, inaladas e ingeridas.
Drogas Ilícitas estão entre elas: Cocaína, crack, LSD, maconha e o Ecstasy.
Efeito das drogas Lícitas e Ilícitas
Uns dos maiores problemas enfrentados pela sociedade é a dependência e o abuso da droga, podemos falar também dos prejuízos sociais e causam um grande distúrbio físico ao usuário. Existe uma grande variedade de consequências sociais causadas por essas drogas.
Dependência
A Dependência das drogas Lícitas e Ilícitas, hoje é considerada uma epidemia social, abrange toda a sociedade desde a mais baixa a mais alta. O dependente tanto da droga licita e ilícita afirmam que faz uso para proporcionar bem estar mental e físico. Pois o uso exagerado faz o individuo desenvolver a dependência dessas drogas. Quando não consome vem à abstinência, síndrome que indica os efeitos controversos ao uso. Exemplos como: medo, apatia e disfunção sexual.
Os principais sintomas e sinais da dependência são:
» Tolerância
» Crises de abstinência
» Auto destrutividade
» Necessidade de prazer imediato
» Tendência a comportamentos agressivos
Tratamento
Os tratamentos das drogas Ilícitas devem ser cuidadosamente avaliados para cada paciente, não existe um tratamento único a todos. O tratamento eficaz é atender toda a necessidade do individuo, não apenas o uso da droga. É aconselhável buscar todas as orientações para a redução do consumo.
É recomendado que se busque tratamento especializado, existem clínicas de recuperação que atendem dependências especificas.
Alcoolismo. Tratamento para alcoolismo.

Alcoolismo é considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Nem todo uso do álcool é considerado alcoolismo, o uso excessivo, compulsivo e duradouro de bebidas alcoólicas pode deteriorar a vida social, profissional e familiar do individuo.
Identifica-se a dependência do álcool quando a pessoa não tem forças para suspender o consumo e quando interrompem apresentam sintomas desagradáveis e acabam por ceder à volta do consumo exagerado e define-se abstinência.
Um detalhe a ser destacado é que o alcoolismo tem um custo muito alto para os serviços de saúde em todo o mundo.
Alcoolismo tem cura?
O Alcoolismo não tem cura, mas existe tratamento para a doença. Existem medicamentos que podem ajudar no tratamento, isso diminui a vontade de beber. Entretanto não é apenas na base de remédios existem tratamentos psiquiátricos e psicológicos. O acompanhamento familiar é muito importante na saúde do dependente.
Causas do Alcoolismo:
As causas do alcoolismo ainda não foram definitivamente descobertas, embora acredita-se que um dos fatores seja a hereditariedade, cuja, os filhos de pais alcoólatras têm mais probabilidade de sofrer da doença. Contudo é necessário estar atento às causas da dependência física ao álcool e considerando também as necessidades psicológicas que levam uma pessoa a refugiar-se nesta droga.
Sintomas do Alcoolismo:
Identificar que uma pessoa está se tornando alcoólatra, é uma tarefa relativamente fácil, os sintomas são:
» Desejo compulsivo para ingerir bebidas alcoólicas
» Tolerância: necessidade de doses cada vez maiores de álcool para atingir os mesmos efeitos obtidos com doses anteriormente inferiores.
» Icterícia, ou seja, Coloração amarela da pele devida á deposição de pigmentos biliares como a bilirrubina.
» Ansiedade
» Esquecimento
» Confusão
Alcoólicos Anônimos
Alcoólicos Anônimos é uma comunidade, com carácter voluntário, de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, com o objetivo de se recuperarem do alcoolismo. O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber.
Nas populosas áreas metropolitanas podem existir numerosos grupos de A.A., cada um com reuniões regulares. O Grupo local é considerado a base da irmandade de A.A. Suas reuniões abertas congregam alcoólatras e seus familiares num ambiente de amizade e ajuda mútua. Hoje existem mais de 112 mil Grupos espalhados pelo mundo todo.
O site do A.A do Brasil fornece uma ferramenta para encontrar centros de Alcóolicos Anônimos por todo o país, veja aqui digitando o nome da sua cidade.
A família de um dependente químico adoece junto com ele

O vicio interfere na vida do dependente químico de uma forma geral.
Familiares se tornam responsáveis pelos atos do viciado e fazem de tudo para impedir o dependente de acabar com sua própria vida.
Enquanto ainda existem as contas às desculpas para faltar ao trabalho, assunto que refere a família tal como filhos todas as responsabilidades vai sendo feito pelas pessoas mais próximas,
esse relacionamento vai gerando um desgaste. Os familiares se sentem presos nessas armadilhas sem alternativas.
Isso é definido um termo que poucos conhecem a co-dependência. Neste caso o dependente começa a agir com irresponsabilidade e acaba destruindo a própria vida e nisso a família acaba adoecendo junto com a irresponsabilidade deixada pelo dependente.
Os familiares que vivem nessas situações, na convivência e em tentativa de controle de um familiar que está entrando nas drogas, existem um sentimento doloroso. A negação desses sentimentos muito dolorosos ou difíceis de admitir acaba por causar a perda de outros sentimentos. Ao negar o sofrimento, negam também à alegria; suprimindo a raiva, desaparece a serenidade; sem o luto não conseguem vivenciar o contentamento. Assim, todos os sentimentos, os agradáveis e os ruins, são empurrados para fora da consciência. Não é que não sintam, mas, não identificam e não sabem o que sentem.
Existe outra característica que se pode identificar como codependência é quando a família sente-se culpada ao falhar nas responsabilidades do dia a dia sabendo que estão sobre carregados.
Um sintoma da codependência é uma repetição de comportamentos que não funcionam.
As famílias têm dificuldade para fazer mudanças em suas vidas, geralmente sentindo-se impotentes e vitimadas em várias áreas e diversas situações. Também sentem vergonha por falhas que parecem não estar ligadas à codependência (como suas próprias adicções à comida, tabaco, jogo ou mesmo álcool).
São apenas uns dos indícios mais comuns da codependência que também inclui outros comportamentos destrutivos. Mas existe esperança. Por um lado, a dependência química é uma doença crônica (incurável), progressiva e fatal, a codependência não é incurável. Os padrões codependentes se instalam baseando-se nas dificuldades emocionais que cada pessoa e traz em si. Porém, com boa vontade, coragem e tratamento, possível sair desse círculo vicioso de culpa, tentativas frustradas de controle e autodestruição.
Vício em drogas exige tratamento? Como deve ser feito?

Atualmente os tratamentos disponíveis auxiliam os pacientes a iniciar e manter o processo de abstinência, envolvem a psicofarmacologia, a terapia individual e em grupo, grupos de autoajuda.
O problema exige sim tratamento e o objetivo a ser alcançado precisa ser definido da seguinte forma:
Em primeiro lugar: parar de consumir a droga;
Em segundo lugar: manter-se em abstinência.
Essa doença não tem cura, pois em qualquer oportunidade de recaída o indivíduo estará em alto risco de voltar a consumir a droga na mesma frequência e intensidade anteriores a abstinência.
Algo muito importante no processo terapêutico é a vontade do doente em se tratar e abandonar a dependência, sendo esse interesse um grande aliado para o sucesso terapêutico a curto e longo prazo.
O apoio da família é imprescindível no sucesso do tratamento, o vício é sim uma doença e dessa forma deve ser tratada.
O primeiro passo, deve ser o reconhecimento de que a doença existe e que a pessoa precise e aceite ajuda.
Consequências da Dependência Química

As consequências da dependência química para a vida do viciado ocorrem tanto no plano físico quanto mental e podem ser divididas em dois grupos: imediatas e tardias.
Consequências Imediatas: os indivíduos apresentam situações relacionadas à intoxicação aguda ou abstinência com sintomas que vão desde um aumento da energia, disposição e alegria até sintomas como ouvir vozes, se sentir vigiado ou perseguido por alguma coisa ou alguém; aceleração do coração, sudorese, tonturas, visão embaçada, aumento da pressão arterial, dores de cabeça, vômitos, fezes líquidas, entre outros.
Consequências Tardias: os indivíduos podem apresentar alterações persistentes do humor, ansiedade, prejuízos da memória, prejuízo das relações familiares e sociais, dificuldade para manter a capacidade no trabalho, alterações de sono e apetite, distúrbios neurológicos, cardiovasculares, sexuais, até casos mais graves como a demência (ex.: Demência Alcoólica).
O quanto antes o tratamento for iniciado maiores são as chances de evitar tais consequências.
Quais as características da Dependência Química?

A Dependência Química se caracteriza pela necessidade de usar quantidades cada vez maiores da droga em questão para obter o efeito desejado, considerando-se uma acentuada redução deste efeito com uso continuado da droga; fenômeno denominado de tolerância. Além disso, a necessidade de usar a mesma substância (ou uma estreitamente relacionada) para evitar sintomas desagradáveis de abstinência, como ansiedade, insônia, medo, alterações do humor, alucinações, paranoia entre outros.
Dependentes Químicos perdem cada vez mais tempo de suas vidas em atividades que visem à obtenção da substância, comprometendo escola, trabalho, compromissos, na maioria das vezes sem perceber tal atitude e suas evidentes consequências.
O reflexo dessa doença é inevitável na vida social de um dependente químico, causando transtornos de forma macro em todo seu ambiente social e familiar.
Logo que a doença seja identificada deve-se procurar ajuda, o primeiro passo sempre é que a doença existe e que precisa assumir a necessidade de ajuda.

O LIVRO AZUL – AA

AA – O livro de AA
Origem do nome – Porque Alcoólicos Anônimos ?
Prefácio na Primeira Edição em 1939
Nós, os Alcoólicos Anônimos, somos várias centenas* de homens e mulheres que nos recuperamos de uma condição mental e física até hoje aparentemente incurável. Mostrar a outros alcoólicos exatamente como nos restabelecemos, é o principal objetivo deste livro. Esperamos que estas páginas sejam tão convincentes que não precisem de mais provas. Cremos que este relato das nossas experiências ajudará a todos que nos lêem a entenderem melhor o alcoolismo. Existem muitas pessoas incapazes de compreender que o alcoólico é um ser enfermo. Além disso, estamos certos que nossa maneira de viver traz vantagens para todos.
É importante permanecermos anônimos porque, presentemente, somos muito poucos para atender o grande número de cartas e pedidos em pessoa que possam surgir em conseqüência desta publicação. Além do mais, a quebra do anonimato poderia prejudicar as nossas atividades profissionais, visto sermos homens de negócios ou de profissão liberal. Queremos que fique bem entendido que nosso trabalho sobre alcoólicos é uma vocação.
Recomendamos a todos nossos companheiros que, ao escrever ou falar para o público sobre alcoolismo, omitam seus nomes, designando-se simplesmente como membro de “Alcoólicos Anônimos”. Encarecidamente solicitamos também aos homens de imprensa que observem esse pedido, pois de outro modo seriamos muito prejudicados. Não somos uma organização no sentido convencional da palavra. Não temos que pagar quotas nem mensalidades. O único requisito para ser membro é o sincero desejo de deixar d beber. Não pertencemos a nenhuma seita ou denominação religiosa em particular, nem nos opomos a nenhuma delas. Simplesmente almejamos ajudar os afligidos por esse mal. Será de grande interesse termos notícias dos que obtiveram bons resultados deste livro, especialmente dos que começaram a trabalhar com outros alcoólicos. Muito nos agradaria colaborar com eles. Será bem recebida toda correspondência da parte de sociedades científicas, médicas e religiosas.
ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
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Prefácio na Segunda Edição em 1955
Os números fornecidos neste prefácio descrevem a Irmandade como era em 1955.
Desde 1939, quando foi escrito o Prefácio original deste livro, deu-se um grande milagre. Nossa primeira edição expressou o desejo de que “todo alcoólico que viajar possa encontrar a Irmandade de Alcoólicos Anônimos em seu local de destino.” E o texto prossegue. “Dois, três e cinco grupos de companheiros nossos já surgiram em outras comunidades.”
Dezesseis anos se passaram entre nossa primeira tiragem deste livro e apresentação, em 1955, de nossa segunda edição. Neste curto espaço de tempo, Alcoólicos Anônimos desabrochou em quase 6.000 grupos cujos membros somam bem mais do que 150.000 alcoólicos recuperados. Grupos podem ser encontrados por todos os Estados Unidos e em todas as províncias do Canadá. Comunidades de A.A. estão florescendo nas Ilhas Britânicas, nos países Escandinavos, na África do Sul, América do Sul, México, Alasca, Austrália e Havaí. No total, iniciativas promissoras tiveram lugar em cerca de 50 países do exterior e em possessões americanas. Algumas estão, neste momento, se delineando na Ásia. Muitos amigos nossos nos encorajam, dizendo que isto é apenas um começo, apenas a promessa de um futuro muito maior.
A centelha que daria origem ao primeiro grupo de A.A. foi acesa em Akron, Ohio, em junho de 1935, durante uma conversa entre um corretor da Bolsa de Valores de New York e um médico de Akron. Seis meses antes, o corretor havia sido libertado de sua obsessão pela bebida por uma repentina experiência espiritual, após um encontro com um amigo alcoólico que havia estado em contato com os Grupos Oxford daquela época. Ele havia, também, recebido muita ajuda do falecido Dr. William D. Silkworth, médico de New York e especialista em alcoolismo, hoje considerado um santo médico pelos membros de A.A. e cuja história a respeito dos primeiros dias de nossa Sociedade está nas próximas páginas. Com este médico, o corretor aprendeu sobre a gravidade do alcoolismo. Embora não conseguisse aceitar todos os dogmas dos Grupos Oxford, ele se convenceu da necessidade de um inventário moral, da confissão dos defeitos de personalidade, da reparação junto aos que havia prejudicado, da ajuda ao próximo e da necessidade de acreditar e confiar em Deus.
Antes de sua viagem a Akron, o corretor havia trabalhado muito junto a vários alcoólicos, baseado na teoria de que somente um alcoólico poderia ajudar outro alcoólico, mas o único a quem conseguira manter sóbrio havia sido ele próprio. O corretor fora a Akron tratar de negócios que não deram certo, o que o deixou com muito medo de começar a beber novamente. De repente, percebeu que, para se salvar, precisava levar sua mensagem a outro alcoólico. Esse outro alcoólico foi o médico de Akron.
O médico, várias vezes, havia tentado resolver seu problema alcoólico através de recursos espirituais, mas não obteve sucesso. Porém, quando o corretor lhe transmitiu a descrição do Dr. Silkworth a respeito do alcoolismo e seu caráter incurável, o médico começou a buscar o remédio espiritual para sua doença com uma determinação da qual nunca antes fora capaz. Parou de beber e permaneceu sóbrio até o momento de sua morte em 1950. Isto pareceu provar que um alcoólico podia exercer sobre outro alcoólico um efeito impossível de ser conseguido por qualquer não-alcoólico. Demonstrou também que um trabalho persistente, de um alcoólico com outro, era vital para a recuperação permanente.
Por isso, os dois homens começaram, quase freneticamente, a tentar persuadir os alcoólicos que chegavam à enfermaria do Akron City Hospital. Seu primeiro caso, desesperador, recuperou-se imediatamente e tornou-se o terceiro membro de A.A.
Nunca mais bebeu. Este trabalho em Akron prosseguiu durante todo o verão de 1935. Houve muitos fracassos mas, de vez em quando, havia um sucesso encorajador. Quando, no outono de 1935, o corretor voltou para New York, o primeiro grupo de A.A. havia sido formado, embora, na época, ninguém se desse conta disso.
Um segundo grupo pequeno logo se formou em New York e seu exemplo foi seguido em 1937, com o início de um terceiro, em Cleveland. Além desses, havia alcoólicos solitários que tomaram conhecimento das idéias básicas em Akron ou New York e tentavam formar grupos em outras cidades. No final de 1937, o número de membros com um tempo razoável de sobriedade era suficiente para convencê-los de que uma nova luz havia penetrado no mundo sombrio do alcoólico.
Era então o momento, acreditaram os esforçados grupos, para levar ao mundo sua mensagem e sua inigualável experiência. Esta determinação deu frutos na primavera de 1939, com a publicação deste volume. Os membros somavam então cerca de 100 homens e mulheres. A nova sociedade, ainda sem nome, começou então a ser chamada Alcoólicos Anônimos, a partir do título de seu próprio livro. O período de vôo-cego terminou e A.A. entrou numa nova fase de sua época pioneira.
Com o aparecimento do novo livro, muita coisa começou a acontecer. O Dr. Harry Emerson Fosdick, o famoso clérigo, aprovou-o em sua crítica. No outono de 1939, Fulton Oursler, na ocasião editor da Liberty, publicou em sua revista um artigo intitulado “Os Alcoólicos e Deus”. Isto gerou um afluxo de 800 frenéticas consultas ao pequeno escritório de New York, instalado naquele meio-tempo. Cada uma das consultas foi criteriosamente atendida, panfletos e livros foram remetidos. Homens de negócios, deslocando-se dos grupos já existentes, apresentaram-se aos novos membros em potencial. Novos grupos foram criados e descobriu-se, para surpresa geral, que a mensagem de A.A. podia ser transmitida tanto pelo correio quanto verbalmente. Em fins de 1939, calculava-se que 800 alcoólicos estavam a caminho da recuperação.
Na primavera de 1940, John D. Rockefeller Jr. ofereceu um jantar a vários amigos, para o qual convidou membros de A.A., a fim de que estes contassem suas histórias. Notícias a respeito chegaram ao conhecimento do grande público. Novamente choveram consultas e muita gente foi às livrarias comprar o livro “Alcoólicos Anônimos”. Em março de 1941, o número de membros de A.A. havia chegado a 2.000. Então, Jack Alexander escreveu um importante artigo no Saturday Evening Post e retratou A.A. de forma tão convincente para o público que os alcoólicos em busca de ajuda realmente caíram sobre nós como uma avalanche. No final de 1941, A.A. contava com 8.000 membros. O processo de crescimento acelerado estava a todo vapor. A.A. se havia transformado em instituição nacional.
Nossa Sociedade entrou então num tímido e emocionante período de adolescência. O teste enfrentado foi o seguinte: Poderiam aqueles inúmeros alcoólicos até então errantes se reunir e trabalhar juntos com sucesso? Haveria discussões a respeito de membros, liderança e dinheiro? Haveria disputas de poder e prestígio? Haveria dissidências que destruiriam a unidade de A.A.? Em pouco tempo, A.A. viu-se cercados por esses problemas, por todos os lados e em todos os grupos. Mas, a partir desta alarmante e a princípio dilacerante experiência, nasceu a convicção de que os membros de A.A. precisavam permanecer unidos ou morreriam separados. Precisávamos unificar nossa Irmandade ou sair de cena.
Assim como havíamos descoberto os princípios através dos quais um alcoólico conseguia se manter vivo, precisávamos desenvolver princípios segundo os quais os grupos de A.A. e A.A. como um todo conseguissem sobreviver e funcionar de forma eficaz. Acreditava-se que nenhum alcoólico, homem ou mulher, poderia ser excluído de nossa Sociedade; que nossos líderes deveriam servir, jamais governar; que cada grupo deveria ser autônomo e que não seria exercida qualquer terapia profissional. Não haveria taxas ou mensalidades; nossas despesas deveriam ser cobertas por nossas próprias contribuições voluntárias. Nossa organização deveria se restringir ao mínimo, até mesmo em nossos centros de serviço. Nossas relações públicas deveriam basear-se em atração, não em promoção. Foi decidido que todos os membros deveriam ser anônimos em nível de imprensa escrita, rádio, televisão e cinema. E sob circunstância alguma deveríamos dar endosso, fazer alianças ou entrar em controvérsias públicas.
Esta era a essência das Doze Tradições de A.A. cujo texto integral encontra-se no final deste livro. Embora nenhum desses princípios tivesse a força de regras ou leis, já haviam sido, em 1950, tão amplamente aceitos, que foram confirmados por ocasião de nossa primeira Conferência Internacional, realizada em Cleveland. A extraordinária unidade de A.A. é, hoje, um dos maiores trunfos de nossa Sociedade.
Enquanto as dificuldades internas de nossa fase adolescente iam sendo eliminadas, a aceitação pública de A.A. crescia a passos largos. Havia duas razões principais para que isto ocorresse: o grande número de recuperações e os lares refeitos. O efeito causado por esses se fazia sentir em toda parte. Dos alcoólicos que chegavam a A.A. e realmente se esforçavam, 50% ficavam imediatamente sóbrios e assim permaneciam, 25% chegavam à sobriedade após algumas recaídas e, dos restantes, aqueles que continuavam em A.A. apresentavam melhoras. Milhares de outros freqüentavam umas poucas reuniões de A.A. e, a princípio, decidiam não precisar do programa. Mas um grande número desses – cerca de dois terços – começou a voltar com o passar do tempo.
Outra razão para a ampla aceitação de A.A. foi a dedicação de amigos – amigos ligados à medicina, à religião e à imprensa que, ao lado de inúmeros outros, se tornaram nossos hábeis e persistentes advogados. Sem esse apoio, teria sido impossível que A.A. progredisse tão depressa. Algumas das recomendações dos primeiros amigos de A.A., médicos e religiosos, poderão ser encontradas neste volume.
Alcoólicos Anônimos não é uma organização religiosa. Nem apóia qualquer ponto de vista médico em especial, embora cooperemos amplamente com os médicos, assim como com os religiosos.
Não fazendo o álcool qualquer distinção de cor ou classe, somos uma perfeita amostra do povo americano e, em terras distantes, o mesmo processo democrático imparcial se está desenvolvendo. Em matéria de afiliações religiosas pessoais, incluímos católicos, protestantes, judeus, hindus e também muçulmanos e budistas. Mais de 15% de nossos membros são mulheres.
Atualmente, o número de membros de A.A. cresce na proporção de cerca de vinte por cento ao ano. Por enquanto, diante do problema total de vários milhões de alcoólicos de fato ou em potencial, em todo o mundo, conseguimos ainda muito pouco. É bastante provável que jamais sejamos capazes de atingir mais do que uma razoável fração do problema do alcoolismo em todas as suas ramificações. No que se refere à terapia para o alcoólico, certamente não temos o monopólio. Nossa maior esperança, porém, é que todos aqueles que, até agora, não tenham encontrado respostas, possam começar a encontrar alguma nas páginas deste livro e venham, em breve, juntar-se a nós na estrada de acesso a uma nova liberdade.
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Prefácio na Terceira Edição em 1976
Em março de 1976, quando esta edição foi a prelo, o número total de membros de Alcoólicos Anônimos era conservadoramente avaliado em mais de um milhão, com cerca de 28.000 grupos reunindo-se em mais de 90 países.
Levantamentos de grupos nos Estados Unidos e no Canadá indicam que A.A. vem atingindo não apenas um número cada vez maior de pessoas, mas um raio de ação cada vez mais amplo. Entre nossos membros, as mulheres perfazem mais de um quarto; entre os recém-chegados, esta proporção chega a quase um terço. Sete por cento dos membros dos grupos estudados têm menos de 30 anos de idade – entre esses, vários adolescentes.
Os princípios básicos do programa de A.A., ao que parece, são válidos para pessoas com os mais variados estilos de vida, assim como o programa tem recuperado indivíduos das mais diversas nacionalidades. Os Doze Passos que resumem o programa podem ser chamados Los Doce Pasos num país, Les Douze Etapes em outro, mas traçam exatamente o mesmo caminho para a recuperação que foi desbravado pelos primeiros membros de Alcoólicos Anônimos.
Apesar da grande expansão em tamanho e em raio de alcance desta Irmandade, ela permanece, em sua essência, simples e pessoal. Todos os dias, em algum lugar do mundo, uma recuperação tem início quando um alcoólico fala com outro alcoólico, compartilhando experiências, forças e esperanças.
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Prefácio na Quarta Edição em 2001
Esta quarta edição de “Alcoólicos Anônimos” veio a público em novembro de 2001, no começo de um novo milênio. Desde a terceira edição, que foi publicada em 1976, o número de membros de A.A. dobrou, atingindo mais de dois milhões de pessoas, com cerca de 100.800 grupos reunindo-se em aproximadamente 150 países.
A literatura tem desempenhado um importante papel no crescimento de A.A. Um fenômeno notável no último quarto de século foi a explosão de traduções de nossa literatura básica para inúmeros idiomas e dialetos. Em cada um dos países em que a semente de A.A. foi plantada, ela primeiro fincou raízes lentamente, passando a crescer a passos largos a partir do momento em que se divulgou a literatura.
tualmente o livro “Alcoólicos Anônimos” está traduzido em quarenta e três idiomas.
À medida que a mensagem de recuperação alcançava um número cada vez maior de pessoas, ela também passou a afetar as vidas de uma crescente variedade de alcoólicos. Quando a frase “Somos pessoas que, normalmente, não se encontrariam juntas” (página 47 deste livro) foi escrita em 1939, ela se referia a uma Irmandade composta em sua maioria por homens (e umas poucas mulheres) provenientes de um ambiente social, étnico e econômico bastante parecido. Como muitas outras partes do texto básico de A.A., estas palavras revelaram-se muito mais proféticas do que nossos membros fundadores sequer poderiam imaginar. As histórias acrescentadas a esta edição2 representam a participação em nossa Irmandade de pessoas cujas características – de idade, gênero, raça e cultura – se ampliaram e se aprofundaram para incluir virtualmente qualquer indivíduo que os nossos primeiros cem membros poderiam esperar atingir.
Enquanto nossa literatura preserva a integridade da mensagem de A.A., amplas mudanças na sociedade como um todo se refletem em novos hábitos e procedimentos dentro da Irmandade. Por exemplo, aproveitando-se dos avanços tecnológicos, os membros de A.A. que dispõem de computador podem participar de reuniões por Internet, compartilhando com companheiros alcoólicos de todo o país e do mundo inteiro. Em qualquer reunião, em qualquer lugar, os AAs compartilham entre si experiências, forças e esperanças com o propósito de manterem-se sóbrios e ajudarem outros alcoólicos. Modem a modem ou cara a cara, os AAs falam a linguagem do coração em todo o seu poder e simplicidade.

ALCOOLISMO: TUDO O QUE VOCÊ PREFERIA IGNORAR

Alcoolismo: tudo o que você preferia ignorar | ID #6

Frederico Mattos
Mente e atitude, Melhor do PdH, Id


Nota do autor: No consultório e entre amigos sempre noto um tipo de questionamento velado sobre o alcoolismo, de como começa, como identificar e como tratar. Sempre comentam de um conhecido, pai de amigo ou narram histórias que já ouviram falar. É dificil vê-los se perguntando honestamente sobre sua própria relação com o álcool.
Pensando nisso, resolvi escrever na coluna #ID sobre o assunto – mesmo sem uma pergunta de leitor como ponto de partida – abordando vários aspectos importantes dessa experiência que pode ser a de muitos, mesmo que ignorem ou desconheçam.
Sempre que pensamos num alcoólatra (hoje o termo é “alcoolista”), logo vem à mente a imagem clássica do tiozinho com barba mal-feita cambaleando pela rua com a garrafa de pinga pura, caindo na frente da calçada de casa vomitando, fazendo toda a vizinhança olhar com desprezo e vergonha para aquele vagabundo sem caráter, violento, que faz mal à família.
Nunca pensamos numa loira linda como a personagem da namoradinha de”Alfie, o sedutor” ou na delicada personagem de Meg Ryan no filme”Quando um homem ama uma mulher”. O bêbado é sempre o pai dos outros ou o garotão de balada que sai com o energético e vodka na mão. Ele está sempre bem longe e nunca dentro de casa.
Pelos trajes e perfil de sucesso, seria difícil apontar Don Draper como alcoólatra
A realidade não é bem essa. Não nos é tão nítido ou perceptível quando alguém passou da dose “moderada” e incidiu numa doença silenciosa, socialmente estimulada, que rende bons papos entre amigos e mata muitas pessoas direta e indiretamente – ainda que os dados estatísticos não consigam revelar a extensão e gravidade do assunto.
Todo mundo já ouviu uma história envolvendo álcool que não terminou bem. O problema é que ignoramos o fato de que a história não precisa culminar em morte ou paraplegia para ser uma tragédia.
Como saber que estou passando do ponto de “beber moderadamente”?
Todas as propagandas de bebida alcoólica estimulam os usuários a beber moderadamente. Ocorre que não fica muito claro exatamente qual seria esta medida. Muitos questionam, então, à partir de quando se pode diagnosticar o alcoolismo. Ou continuam bebendo, então, sem fazer a mínima ideia de que passaram do ponto.
A Organização Mundial da Saúde alerta sobre o que é o razoável.
“O consumo não pode superar o equivalente a três copos de chope ou apenas uma dose de uísque por dia. Para quem costuma beber diariamente mais de duas latas de cerveja ou duas doses de destilado, como uísque ou pinga, aqui vai um alerta: o nível de álcool presente nessas quantidades de bebida está acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), podendo causar danos ao organismo. De acordo com os especialistas, as pessoas saudáveis podem consumir, no máximo, 30 gramas de álcool por dia. ”
Doses razoáveis. Mais do que isso começa a configurar algum tipo de dependência que pode ter sintomas declarados ou sutis. A questão é que muita gente perde a linha com menos que esse “razoável” e outras aguentam bem mais do que essa dose aconselhada.
Cada organismo reage de um jeito. Eu tenho um critério que uso para avaliar caso a caso, usando os seguintes marcadores.
Frequência
Alguém que toma bebida uma vez ao dia é alcoolista? E aquele que usa apenas uma vez por semana? Em ambos os casos, se ele faz isso com regularidade ininterrupta ao longo de 3 meses, sim.
Por isso, sempre peço para que a pessoa fique de 3 a 5 meses sem colocar uma gota de álcool na boca, para que ela perceba algum tipo de alteração substancial na sua rotina e humor como irritabilidade, descontrole dos impulsos (come, transa ou grita mais), tristezas súbitas e sem razão, mudança do sono (insônia ou sonolência), comportamento acuado ou retraído.
Normalmente a própria pessoa não consegue perceber essas mudanças, o que talvez torne mais efetivo perguntar para aqueles que estão à sua volta.
E, sim, podemos ter os alcoolistas constantes, ocasionais e de fim-de-semana. O que faz entrar na categoria é o fato de, na sua devida frequência, a bebida ser considerada “sagrada”.
Irrecusabilidade
O outro critério é o grau de controle que a pessoa tem sobre as quantidades. Ela se comprometeu a tomar uma dose e toma duas, disse que ia beber dia sim e dia não e toma todos os dias. Ela cria situações sociais com frequência e está sempre bebendo. Acha que aguenta sempre um pouco a mais e já não fica alterada com a mesma quantidade de bebida de antes.
Esses são indicadores sérios, afinal, se uma pessoa vai criando resistência ao álcool é um sinal de avanço da doença. Os adeptos ao álcool adoram dizer que podem beber a vontade que nunca vão cair ou dar vexame. Esses são os mais doentes.
Já notou aqueles mendigos que se alimentam de cachaça pura e nunca comem nada? Pois é, eles tem uma baita resistência. Isso não quer dizer nada, a não ser que estão para além do comprometimento alcoólico.
Seqüelas
Os efeitos do uso constante do álcool é visível em pelo menos 3 campos mais diagnosticáveis.
1. Físico: alteração no organismo e doenças decorrentes do alcoolismo que afetam o sistema cardíaco, nervoso e gastrointestinal – fígado, pâncreas, estômago e intestino, só para citar os órgãos mais afetados.
2. Social: faltas e atraso no horário de trabalho, diminuição da produtividade pessoal, perdas de compromissos sociais, problemas de relacionamentos conjugais – agressão física, discussões – infrações no trânsito e acidentes caseiros.
3. Psicológica: alteração do sono/sexualidade/alimentação, mudança de comportamento, alterações de temperamento, ansiedade constante, perda de motivação global, distrabilidade (perda de atenção em atividades que exijam concentração), falta de rumo pessoal.
O autoengano
O grande problema é que a pessoa que transpôs o uso moderado e adentrou a zona do alcoolismo, em geral, não percebe quando isso aconteceu. Ela entende que se consegue manter a família, o trabalho e as contas pagas, está tudo ok. A pergunta é: em que condições isso é mantido? O sujeito que chega em casa e toma o uísque dele sem – na própria cabeça – perturbar ninguém, deveria ser condenado e chamado alcoolista?
Os adeptos do álcool vão dizer que é exagero afirmar que sim. Afinal, “bêbado é quem bate na mulher”.
Homens de família não cometem agressões
O álcool – como qualquer outra substância que altera o funcionamento do corpo e da mente – pode, no começo, causar muito prazer e nenhum desprazer, depois causar algum prazer e pouco desprazer, depois causar raro prazer e muito desprazer.
Nenhum dependente de álcool vai admitir que chegou nesse ponto. E o pior, em geral, ele próprio não está em condições de identificar isso.
Violência e álcool
O álcool é um dos co-responsáveis por grande parte dos crimes, pois em maior ou menor grau, está presente como coadjuvante nas tomadas de decisões criminosas.
Nos crimes passionais está quase sempre atuante como fator desencadeador da ação violenta. Nas vinganças e brigas de bar/balada fazem parte do gatilho impulsivo que transforma um simples desentendimento numa guerra.
Além disso, temos os crimes domésticos contra mulheres e crianças em que vemos o álcool como motivo de discussões e desinibidor de agressividades latentes entre casais, pais e filhos.
Os acidentes de trânsito com ou sem vítimas fatais quase sempre estão associados ao uso do álcool.
Cultura do álcool
O álcool sempre esteve presente em diversas culturas e não é na atualidade que ele celebra a roda de amigos ou a reunião de negócios. Até as tentativas de tornar o álcool ilegal fracassaram. Isso reflete o apelo que ele tem na vida cotidiana.
Vivemos num mundo mais enjaulado emocionalmente. Apesar da aparente liberdade de expressão que existe, a real comunicação, de coração para coração, não acontece tão naturalmente. Isso criou a ideia coletiva de que algum tipo de liberdade especial precisa ser mobilizada para que o sujeito se sinta plenamente feliz. Viagens, praias, amigos, pé na estrada, sexualidade sem tabus, enfim, tudo o que remeta a clichês sobre a sensação de ser dono do próprio nariz e senhor do próprio destino.
As empresas e os publicitários sabem como utilizar essas imagens para vender seus produtos. Associam a liberdade a pacotes turísticos, carros, comidas, álcool e outros tantos produtos que apontam como ingredientes para uma vida bem vivida.
Às vezes, alguém em pleno surto alcoólico vira herói
Assumir em público ou entre uma roda de amigos que não bebe é até considerado careta ou sinal de moralismo e chatice. Se duvidar, leia com atenção alguns comentários nesse texto.
Na nossa cultura, histórias de bêbados são contadas de forma engraçada e cheias de aventuras. Feliz é quem bebe. Se você não bebe (está implícito), corre o sério risco de se descobrir uma pessoa infeliz.
Ou seja, a associação felicidade-bebida em oposição a infelicidade-abstinência é forjada pela mídia e perpetuada sutilmente pelas pessoas.
O glamour de cada bebida
A cultura do álcool acaba associando as bebidas aos momentos distintos de descontração para induzir ao consumo de acordo com o público-alvo. Cervejas associadas com homens jovens, uísque com homens mais velhos, batidas de vodka para o público jovem em geral (mesmo tradicionalmente sendo dos mais velhos) e os vinhos como bebidas para casais românticos.
Baladas, jantares e happy hours são sempre regados a álcool. As pessoas falam das bebidas como se falassem de amigos queridos que não podem faltar em nenhum ambiente de descontração e paquera. O mais intrigante é ninguém questionar isso.
Por que a leveza, o riso e as paqueras estão sempre sendo intermediadas e facilitadas pelo uso de algum aditivo?
Se no começo uma pessoa bebia porque tinha vida social, do meio para a instalação do alcoolismo, ela tem vida social para beber.
Os adolescentes
A adolescência é a fase mais vulnerável da vida de uma pessoa. Quando já não se tem mais a presença constante dos pais, mas ainda não se tem uma identidade adulta que cria e fortalece a autoestima. Quando se procura uma tribo para se inserir, identificar e criar seu modo próprio de agir.
Nesta fase cria-se uma aversão por qualquer forma de autoridade e regra de vida que venha de pessoas que não são da sua idade. Os garotos com comportamento mais impositivos e as garotas mais carismáticas e sexy tornam-se mais populares e ditam as regras. São eles que decidem quem pertence ou não ao grupo.
Nessa luta por pertencimento – frequente em casos de estruturas familiares frágeis – adolescentes se submetem a qualquer tipo de código de conduta para sentir e mostrar que existem como seres independentes.
Se o álcool é um desses códigos, eles vão beber até cair para passar no ritual de aprovação. Quanto mais fortes forem para aguentar shots de tipos variados de bebidas, mais valor têm no grupo. Como nossa sociedade estácarente de rituais de passagem legítimos, a bebedeira fecha de um jeito estranho essa lacuna importante do desenvolvimento social do jovem.
Se esse adolescente traz consigo problemas de autoafirmação, patologias prévias, comportamento compulsivo e genética desfavorável, a possibilidade de instalar-se o vício desde jovem será bem alta.
Homens bebem mais
O mito de que os homens bebem mais que as mulheres só é justificável pela massa física distinta entre os gêneros. Afinal, o metabolismo de um indivíduo maior dá conta de uma quantidade maior de álcool. Porém, o índice de alcoolismo vem crescendo no público feminino, que em geral toma bebidas mais adocicadas e equiparando-se aos homens.
Vejo apenas motivações diferentes nos gêneros. Os homens buscando projetar uma imagem socialmente mais poderosa, afugentar sua vulnerabilidade e buscar sua interioridade. E as mulheres usam o álcool como “remédio” para suas dores emocionais.
As fases, os animais e o cérebro com o álcool
Metáforas de animais quando se referindo a pessoas que bebem não estão muito longe da realidade. Ainda que dividam opiniões, são úteis para ilustrar como começa a se comportar o cérebro humano.
A principal e primeira área afetada do cérebro é o córtex frontal (quase na região da testa), responsável – entre tantas funções – por regular os nossos comportamentos sociais e o planejamento futuro. É ali que se concentram os registros de moralidade e noção de consequência.
Por isso, o macaco é considerado o primeiro animal da escala da embriaguez, já que a pessoa fica leve, divertida e desinibida.
Depois, o álcool atinge outras áreas cerebrais como as amígdalas, responsáveis por regular as emoções básicas. O leão e o cordeiro ilustram esta fase, já que a pessoa pode ficar destemida e briguenta (liberando impulsos agressivos reprimidos) ou mansa e chorosa (mais emotiva e amorosa).
Por fim, o porco, por ser a fase final em que todo o córtex é atingido e só permanecem as funções básicas do tronco cerebral que regulam estar ou não em pé, respiração e coordenação motora. Nessa hora o sujeito já está vomitando, entrando em colapso, coma alcoólico e caindo sujo onde estiver. É o apagão total.
Psicopatologias ocultas
Muitas pessoas desconhecem os problemas subliminares do alcoolismo, pois ele costuma ser consequência de psicopatologias pré-existentes que se agravam com seu uso e por isso criam um ciclo destrutivo. A pessoa bebe para não ficar deprimida e fica deprimida porque bebe. O álcool acaba sendo uma maneira ineficaz de automedicação para “ludibriar” os sintomas originais.
Os principais quadros associados ao alcoolismo são:
1. Transtornos de personalidade: transtornos que afetam o humorcomo quadros de narcisismo, histriônicos, borderline, obsessivos e esquiva.
2. Transtornos de humor: depressão, bipolaridade, distimia.
3. Psicoses: esquizofrenia.
4. Transtornos ansiosos: TOC, ansiedade generalizada, síndrome do pânico, ansiedade social.
Traduzindo, o álcool não cura estas patologias. Ao invés disso, as potencializa. Por esta razão, elas são tratadas em conjunto com médicos, psicólogos e grupos de apoio.
Como esses transtornos possuem componentes genéticos, o risco é ainda maior de sedimentar patologias que poderiam ficar hibernando por toda uma vida.
Psicologia do alcoolismo
O alcoolismo é um tipo de compulsão. Ou seja, a pessoa passa pelas fases de angústia seguida de aumento de tensão, uso do álcool, culpa, remissão e novo ciclo de angústia-tensão-álcool-culpa-remissão.
A pessoa pode já ter bebido muitas vezes e, se estava num estado emocional equilibrado, o álcool foi um distrator menor na sua dinâmica de personalidade. No entanto, se a fase é de baixa e falta de estabilidade, é aí que pode ser criada uma janela de oportunidade para que o alcoolismo se instale.
Então, aquele sujeito que nunca se viu dominado por uma necessidade compulsiva de beber começa a usar níveis cada vez maiores, mais frequentes e irrecusáveis de bebida. De repente, a trama está criada com consequências imprevisíveis na vida de uma pessoa.
Link Youtube
Eric Berne, psicólogo criador da Análise transacional e escritor do livro “Os jogos da vida” diz que não existe um alcoolismo, mas um papel de de alcoólatra que uma pessoa desempenha e que é alimentado inconscientemente por outras figuras. Segundo ele, existem 5 atuantes nesse jogo que podem pertencer a cinco pessoas ou a apenas duas que se revezam nos papéis.
1. Alcóolatra;
2. Perseguidor: cobra, persegue, humilha, costuma ser o parceiro(a) afetivo ou um dos pais;
3. Salvador: médico, terapeuta, amigo, sacerdote que vai tentar livrar o alcoólatra do vício;
4. Otário: aquele amigo que incentiva a bebedeira, paga a bebida ou a própria mãe que financia o filho por medo de que algo pior aconteça ou por fazer de conta que acredita na mentira contada para pedir o dinheiro.
5. O profissional: dono do bar/balada que dá o suprimento do álcool, mas sabe a hora de parar vender, até que o alcoólatra encontre outra fonte de álcool mais permissiva.
Em muitos casos, a mãe/esposa cumpre três dos cinco papéis. O papel 4, arrumando o filho/marido depois da bebedeira. Depois, o papel 2, cobrando e punindo. E, finalmente, o 3 tentando ser a pessoa bondosa que tenta salvar.
Com isso, acaba alimentando e realimentando essa dinâmica doentia onde é a ressaca o principal evento, já que é ali onde o alcoólatra vai em busca da redenção e do perdão. E faz as promessas acompanhadas de autopiedade e autoacusação.
Ele está sempre contando para os outros o quanto sofre e é perseguido por um mundo de pessoas que não o compreendem. É um jogo de desastre-redenção em que se busca um pai severo para dar palmadas em sua bunda. Uma maneira infantil de agir sobre uma vida sempre levada de forma inconsequente e cheia de acusações externas.
O domingo é o dia da ressaca, o sujeito vai reerguendo sua moral na segunda e terça-feira, começa os encontros sociais na quarta e quinta-feira, na sexta-feira já está na febre e o pico do sábado sem limites de semana em semana, sem que ninguém nota como esse indivíduo tão festiva pode ter algum problema sério. Pessoas que sorriem são vistas como felizes. Quem irá reparar no desastre oculto?
Aquela pessoa que era inibida se sente socialmente mais encorajada para paquerar ou demonstrar seus sentimentos de afeto e alegria. Se antes era bloqueada e apática se vê cheia de vivacidade e acaba alimentando esse ciclo de muleta psicológica que no meu entendimento é o principal mantenedor do alcoolismo, muito mais até do que a dependência física, que por si só já é explosiva. Não há palhaço sem um circo ou platéia, não há um bêbado dissociado de um mundo que superestima o álcool e uma família e parceiros amorosos que completam o espetáculo.
É como se todos estivessem na mesma trama de preguiça emocional. O alcoolista usa tanto a muleta que atrofia sua habilidade psicossocial que os outros também se envolvem num drama sem fim, nunca assumindo suas próprias dores, já que têm uma pessoa “tão doente” ao lado. A casa emocional de todos está em ruínas, mas a mais gritante é daquele que termina caído na sarjeta.
Acredito que uma vida genuína é aquela que consegue transcender os papéis típicos que giram em torno da tríade neurótica vítima-algoz-salvador para assumir um protagonismo consistente e transformador do mundo interno e externo.
Por que alimentamos essa cultura?
Eu respondo com outra pergunta: por que o álcool deveria perder o prestígio se ele causa tanta felicidade?
Entre numa roda de amigos que já estão alterados e as histórias são previsíveis: acontecimentos de outros carnavais “engraçados”. O amigo que perdeu a estação de trem porque estava bêbado, o outro que enfrentou o segurança da balada e saiu com olho roxo, a menina que não faz ideia de onde foi parar no celular, aquele que beijou muita mulher mas não lembra quais foram da metade da balada para frente, o sujeito que caiu da área VIP e arrebentou o cóccix.
Alguns copos depois e eles não lembram de onde surgiu a cabra
Nada grave, tudo diversão. E de história em história criamos a celebração do desastre como pico da alegria. Alguém tem que sair vitimado por algum tipo de agressão física, verbal ou social para render boas risadas.
Aqueles que se sentem excluídos acabam entrando na roda para ser o palhaço da vez e assim se sentirem inseridos no grupo daqueles que aguentam muita bebida na cabeça.
Se você não bebe, não é boa companhia e não vai criar histórias “uhuuuu!!! Loucura total mêo!”
A família
Como eu descrevi acima, todos fazem parte do jogo e realimentam o tormento do alcoolismo. Por esse motivo existem grupos de co-dependentes do álcool, pois todos acabam fazendo parte do drama e da doença.
Existem ganhos secundários para aqueles que estão envolvidos indiretamente com o álcool. Eles se sentem importantes (ao tentar ajudar) e diferentes do parente alcoolista (por não beberem). Com isso, fogem à própria tarefa de desenvolvimento pessoal enquanto são vistos como mártires de uma causa nobre ou acusadores que atacam mas com justiça, afinal de contas quem suportaria um bêbado em casa?
Se o dependente é um jovem, a mãe super-protetora se sente no seu papel eternamente e, sem o saber, realimenta essa loucura familiar já que sempre terá um filho pelo qual lutar e cuidar. Como expliquei em meu livro “Mães que amam demais” o cenário para essa mulher perceber a dependência emocional de seu filho alimentada pelo álcool não é fácil, mas é o ponto central de alavancagem para a solução do conflito.
Possíveis caminhos e soluções
Sempre vejo um tripé que pode amenizar qualquer tipo de problema psicológico: o suporte físico, psicológico e social.
O tratamento físico acontece com o suporte médico, com medicamentos que ajudem a aplacar os sintomas-sequelas da abstinência do alcoolismo, assim como as psicopatologias subjacentes ao vício. Além disso, práticas físicas e alimentação adequada ajudam a recuperar o quadro.
O tratamento psicológico pode ser feito com psicoterapia associada a práticas recreativas de lazer, trabalho voluntário, práticas meditativas e buscas espirituais.
O tratamento social é feito pelo dependente e seus familiares em grupos de apoio como o Alcoólicos Anônimos e os grupos de co-dependentes Al-Anon. Além disso o engajamento em grupos de amigos com dinâmicas mais positivas e comunidades religiosas (que fortalecem o indivíduo com buscas de autoconhecimento e pessoas com objetivos comuns).
Na maior parte dos casos, vejo que o desafio principal não é apenas parar de beber, mas encontrar uma função social significativa para o ex-dependente. É muito comum perceber que aqueles que se recuperaram agem como prisioneiros que foram soltos após muitos anos de carceragem. Ou seja, não sabem como agir quando não estão arranjando problemas, vivendo aventuras alcoólicas ou se redimindo de familiares ressentidos.
Como sempre buscaram a socialização com a ajuda do álcool, muitos precisam aprender a paquerar, trabalhar, aguentar as pressões da vida e sorrir de forma autônoma, sem aditivos. E muitos deles se descobrem solitários, mau humorados ou impregnados de autopiedade. E com um agravante: agora são diagnosticados como doentes.
Não gosto de tratar o alcoolismo como uma doença, mas como um jogo psicológico que tem raízes culturais, sociais, familiares e psicológicas, num mundo onde é só mais um dos inúmeros jogos que nos distraem do verdadeiro sentimento de intimidade emocional que tanto buscamos mas tememos.
Quando pudermos viver de um jeito em que o papel do campeão não seja necessário para sentir o direito de pertencer e ter dignidade psicológica e social, abriremos caminho para que não hajam pessoas que encarnem o script de perdedores, fracassados, degenerados.
O alcoolismo não se restringe ao álcool, mas a uma série de comportamentos, valores e visões de mundo que precisam do bode expiatório que pague um preço alto enquanto o restante do mundo permanece paralisado em suas vidas autocentradas, apontando o dedo para condenar, ou se calando e sentindo uma vergonha alheia inoperante.
O alcoolismo começa no falso modo em que encaramos a ideia de felicidade. É na mudança dessa visão cheia de miragens que a superação do problema começa de verdade.

RESPONSABILIDADE – NA OPINIÃO DO BILL

RESPONSABILIDADE
“NA OPINIÃO DO BILL”

NA OPINIÃO DO BILL 9
O grupo e a ampla comunidade mundial
No momento em que o trabalho do Décimo Segundo Passo forma um grupo, uma descoberta é feita – que a maioria dos indivíduos não consegue se recuperar, se não houver um grupo. Surge a compreensão de que cada membro é apenas uma pequena parte de um grande todo; de que nenhum sacrifício pessoal é grande demais para a preservação da Irmandade. Ele aprende que o clamor dos desejos e ambições interiores deve ser silenciado, sempre que possa prejudicar o grupo.
Torna-se claro que o grupo precisa sobreviver para que o indivíduo não pereça.
* * *
“O membro sozinho no mar, o A.A. em guerra numa terra distante – todos esses membros sabem que pertencem à Comunidade Mundial de A.A., que sua separação é apenas física, que seus companheiros podem estar tão perto como está o próximo porto. E a mais importante, que eles estão certos de que a graça de Deus está realmente com eles, em alto mar ou na solitária terra distante, como está com aqueles que estão em sua própria terra”.
1 – As Doze Tradições, pág. 14
2 – Carta de 1966

NA OPINIÃO DO BILL 13
Dádiva compartilhada
A.A. é mais do que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisamos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair e aqueles, a quem não foi dada a verdade, podem perecer.
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A fé é mais do que nossa maior dádiva; seu compartilhar com os outros é nossa maior responsabilidade. Que nós de A.A. possamos buscar continuamente a sabedoria e a boa vontade pelas quais possamos desempenhar bem a grande tarefa que o Doador de todas as dádivas perfeitas colocou em nossas mãos.
1 – O Manual de Serviços de A.A., pág 5 (E.U.A)
2 – Grapevine de abril de 1961

NA OPINIÃO DO BILL 32
Responsabilidade Moral
“Algumas pessoas se opõem firmemente à posição de A.A. de que o alcoolismo é uma doença. Sentem que esse conceito tira dos alcoólicos a responsabilidade moral. Como qualquer A.A. sabe, isso está longe de ser verdade. Não utilizamos o conceito de doença para eximir nossos membros da responsabilidade. Pelo contrário, usamos o fato de que se trata de uma doença fatal para impor a mais severa obrigação moral ao sofredor, a obrigação de usar os Doze Passos de A.A. para se recuperar.
“Nos primórdios de suas bebedeiras, o alcoólico freqüentemente é culpado de irresponsabilidade. Mas no momento em que tem a compulsão para beber, ele não pode ser responsável por sua conduta. Ele então tem uma obsessão que o condena a beber e uma sensibilidade física ao álcool que garante sua loucura final e morte.
“Mas quando ele toma consciência dessa condição, fica sob pressão para aceitar o programa de recuperação moral de A.A.”
Palestra de 1960

NA OPINIÃO DO BILL 50
A.A.: Anarquia benigna e democracia
Quando chegamos em A.A., encontramos uma liberdade pessoal maior do que qualquer outra sociedade conhece. Não somos obrigados a fazer nada. Nesse sentido, essa sociedade é uma anarquia benigna. A palavra “anarquia” tem um mau significado para a maioria de nós. Mas acho que o idealista, que primeiro advogou a idéia, sentia que se os homens tivessem garantido liberdade absoluta e não fossem obrigados a obedecer ninguém, eles então voluntariamente se associariam a um interesse comum. A.A. é uma associação do tipo benigno que ele imaginou.
Mas quando tivemos que entrar em ação – para funcionar como grupos – descobrimos que tínhamos que vir a ser uma democracia. À medida que os primeiros membros iam-se retirando, começamos a eleger nossos servidores pela maioria de votos. Cada grupo nesse sentido veio a ser uma reunião democrática com os membros da comunidade. Todos os planos para a ação do grupo tinham de ser aprovados pela maioria. Isso significa que nenhum indivíduo poderia designar a si mesmo para atuar por seu grupo ou por A.A. como um todo. Para nós não servia nem ditadura nem paternalismo.
A.A. Atinge a Maioridade, págs. 200 e 201

NA OPINIÃO DO BILL 57
Melhor que o ouro
Como recém-chegados, muitos de nós têm se entregado à intoxicação espiritual. Como um explorador faminto ao esgotar a última migalha de alimento, encontramos o ouro. A alegria que sentimos, ao ser libertados de uma vida toda de frustração, foi enorme.
O recém-chegado sente que encontrou algo melhor que o ouro. Ele pode não ver, de imediato, que apenas tocou a superfície de uma mina infinita, que só pagará dividendos se a explorar para o resto da vida e insistir em doar toda a produção.
Alcoólicos Anônimos, pág. 135

NA OPINIÃO DO BILL 79
De quem é a responsabilidade?
“Um grupo de A.A., como tal, não pode cuidar de todos os problemas pessoais de seus membros, muito menos das pessoas não-alcoólicas que nos cercam. O grupo de A.A. não é, por exemplo, um mediador das relações domésticas, nem fornece ajuda financeira a ninguém.
“Embora o membro possa às vezes ser auxiliado nesses assuntos por seus amigos em A.A., a principal responsabilidade para solucionar todos os seus problemas de viver e crescer recai sobre ele mesmo. Se um grupo de A.A. desse essa espécie de ajuda, sua eficiência e energia seriam irremediavelmente dissipadas.
“É por isso que a sobriedade – libertação do álcool – através dos ensinamentos e da prática dos Doze Passos de A.A., é o único propósito do grupo. Se não nos apegarmos a esse princípio cardinal, é quase certo que entraremos em colapso. E se entrarmos em colapso, não podemos ajudar ninguém.”
Carta de 1966

NA OPINIÃO DO BILL 84
Benefícios da responsabilidade