REVISTA VIVÊNCIA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 – NOV/DEZ 1995

NA DIREÇÃO DE DEUS
(Nize)

“Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse
todos estes defeitos de caráter (Sexto Passo). “Humildemente
rogamos a Ele que nos livrasse de nossas
imperfeições” (Sétimo Passo).

1º Passo: Aceitação – eu não posso.
2º Passo: Esperança – alguém pode.
3º Passo: Confiança – se eu deixar.
4º Passo: Autoconhecimento.
5º Passo: Humildade.

Meta: Maturidade emocional! – Através do Primeiro Passo, nos rendemos ante a doença do alcoolismo. Também percebemos nossa impotência diante, não só do álcool, como também diante de pessoas, sentimentos, situações e que devemos aprender a lidar com isto, se quisermos construir uma sobriedade rica e construtiva. O Primeiro Passo nos dá a nossa limitação humana.
Com o Segundo e Terceiro Passos, percebemos que, nesta busca, precisamos de ajuda. Necessitaremos não só pedir, como aceitar e isto significa que começamos a confiar, porque só peço e aceito ajuda quando confio que posso ser ajudado. Poderemos ver também que insanidade é tomarmos a mesma atitude esperando resultados diferentes. O Segundo Passo nos dá confiança, fé e esperança e o Terceiro Passo nos convida à entrega, que nos alivia de pesos desnecessários. Os três primeiros passos são de aceitação.
Com o Quarto e Quinto Passos, adquirimos os instrumentos para autoconhecimento e auto aceitação. Podemos aprender a nos perdoar e, quando compartilhamos, também começamos a ver aspectos em nós que sozinhos seria difícil perceber. Assim, quando saímos do Quinto Passo, a sensação é de alívio. Agora precisaremos mais do que nunca de humildade, porque o Quarto e Quinto Passos nos ajudaram a identificar nossos defeitos de caráter, mas não nos libertaram deles.
À medida que vamos atuando com os Sexto e Sétimo Passos, vamos percebendo que podemos ir adquirindo:
Responsabilidades com nossos sentimentos e atitudes: Porque nos propõe avaliarmos honestamente nossas atitudes e identificarmos nossos sentimentos, para que possamos lidar adequadamente com situações e mudarmos quando necessário:
– quem não gosta de se sentir um pouco superior ou mesmo bastante superior?
– quem não gosta de deixar que a avareza se faça passar por um acúmulo necessário de bens?
– quem não exacerba seu auto respeito, transformando-o em orgulho?
Boa vontade para atuar em cima de nossas mudanças: Se quisermos obter algum resultado concreto na prática dos Sexto e Sétimo Passos para a solução de problemas fora do álcool, precisaremos fazer uma tentativa: sermos menos teimosos e em vez de dizermos que “a isto jamais renunciarei”, digamos: “a isto ainda não posso renunciar”. Não digamos “nunca”; isto pode ser uma abertura perigosa e pode nos fechar a porta para a mudança, para a graça de Deus e para ajuda dos grupos.
Os Sexto e Sétimo Passos são um convite à mudança e representam a chave que nos abre a porta para o nosso amadurecimento emocional. Também nos ensina que cabe a nós a tarefa inicial desta mudança e nos propõe também a conviver com equilíbrio com as coisas que não podemos modificar. Mostra-nos que a diferença entre o adolescente e o adulto é igual ao que existe entre a luta por um objetivo qualquer de nossa escolha e a meta perfeita que é Deus. Os Sexto e Sétimo Passos usam diretamente a palavra Deus, e é na direção Dele que apontam estes passos. Isto significa que ao relembrarem estes passos são um convite à superação dessa mania de tudo saber ou de tudo poder, ou seja, ao relembrarem Deus, tornam-se um convite à superação desta mania de querer ser Deus, quebrar a onipotência – tirar carteirinha de ser humano.
“Ajudai-me, Senhor, a mudar aquelas coisas que posso modificar, mas ajudai-me ainda mais, Senhor, quando sei exatamente o que devo mudar, mas não tenho a coragem de fazê-lo”.

“A LIMITAÇÃO DO HOMEM É A OPORTUNIDADE DE DEUS”.

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 NOV/DEZ 1995

AS TRÊS PARTES DA ESPIRITUALIDADE
Anônimo (Grapevine – 91)

Espiritualidade é ser responsável? Pagar as contas, ajudar
os outros, trabalhar direito, ir às reuniões.
Veja a opinião do autor.

Fui ao meu padrinho, um homem muito sábio, e perguntei-lhe:
– Qual é o sentido exato de espiritualidade em A.A.? Estou realmente confuso.
Meu padrinho inclinou-se para trás na cadeira, entrefechou os olhos e olhou bem olhado para mim.
– Você já está com mais de dez anos de sobriedade?
– São quase doze agora.
– Tem lido o Livro Azul ultimamente?
– Bom, eu vou a um grupo que estuda o Livro Azul uma vez por semana – respondi.
– Então eu vou lhe contar uma história e você pode tirar as suas próprias conclusões.
Eu achei que isso ia se transformar numa longa sessão, por isso me reclinei também e entrecerrei os olhos.
Meu padrinho continuou:
– O Livro Azul conta que a vida espiritual não é uma teoria, que nós precisamos vivê-la. Esta história é sobre um homem que não estava em A.A. e que passava muito tempo dentro da igreja. Ele indicava os lugares aos domingos e cantava no coro da igreja. Ele realmente sentia-se espiritual. Mas, passado algum tempo, a quantidade de cachaça que ele consumia aumentou a um ponto tal que ele perdeu o controle.
Ele se tornou um dos nossos. Para sorte dele, encontrou A.A. e se recuperou. Ele continua indo à igreja, mas a sua atitude mudou. O que aconteceu? Ele começou a ajudar os outros. Ele se tornou responsável.
– Você quer dizer que ser responsável tem algo a ver com espiritualidade? – perguntei.
– Tem tudo a ver. Nós temos de vivê-la, não só falar a respeito. E ser responsável significa fazer as coisas certas, numa base diária.
– O que você quer dizer exatamente? – disparei de volta.
– Ser responsável significa simplesmente fazer coisas, como pagar as contas na data certa, ir trabalhar na hora, fazer a minha parte no serviço da casa, se necessário, e assim por diante.
Isso não significa que a gente não possa se divertir – o divertimento e as férias são muito importantes. Eu também preciso cuidar da minha saúde, tendo uma alimentação adequada e fazendo exercícios regularmente.
– Ta bom. É isso aí, então?
– Isso é uma boa parte, mas tem mais. Como uma pessoa responsável, também preciso ser razoavelmente bem disciplinado: ir às reuniões em uma base regular, trabalhar nos Passos em uma base regular, fazer exercícios em um horário regular.
– Mais alguma coisa? – quis saber eu.
– Bom, um outro item de peso é estar disponível. Quando pessoas pedem ajuda, eu preciso poder estender a mão e ouvi-Ias, escutar o que têm a dizer sobre a sua situação. Em alguns casos, preciso levar as pessoas à sua primeira reunião, para que comecem. É necessário que esteja disponível.
– Está me parecendo que a espiritualidade é mais ação do que oração.
– Certo. Mas a oração é muito importante, porque necessito da ajuda do meu Poder Superior em todas as coisas. Resumindo: para mim, espiritualidade compõe-se de três partes: ser responsável, ser um tanto quanto disciplinado, e estar disponível.
– Isso me cheira a um trabalho de tempo integral – resmunguei.
– É isso aí, finalizou o meu padrinho, mas é a maneira mais fácil de se conseguir paz de espírito que eu conheço.
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ESSÊNCIA DO CRESCIMENTO
Que nunca tenhamos medo de mudanças necessárias. Certamente temos que fazer a diferença entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas desde que uma necessidade se torna bem
aparente num indivíduo, num grupo ou em A.A. como um todo,
há muito já se verificou que não podemos ficar estacionários. A
essência de todo crescimento é uma disposição de mudar para
melhor e uma disposição incansável de aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique. (Bill W.)
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Vivência nº 38 – NOVEMBRO/DEZEMBRO 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 – NOV/DEZ 1995

DEUS, MEDO E RECUPERAÇÃO
(Beto, Vilhena/RO)

Os Passos como caminho para
viver a vida em paz, sem os tão
conhecidos medos.

Ás vezes penso que Deus e nossa consciência estão interligados. No meu tempo de bebedeiras, a palavra Deus, soava como algo opressor, castigador. Tudo o que os clérigos, autoridades, psiquiatras e a sociedade “politicamente correta” diziam, imediatamente leva para o campo pessoal, fazia com que a ira viesse à tona e começava a defender teses e opiniões que, muitas vezes, nem minhas eram. Automaticamente, gerava controvérsias nas quais eu precisava ficar com a última palavra. Como resultado as pessoas ficavam chateadas e se afastavam. Não bastasse isso, minha vida atolada em desonestidades, confusões sexuais, problemas financeiros e o orgulho bombardeado por fracassos, fazia-me sentir totalmente culpado perante o “Deus Castigador”. Não é de se admirar que ficasse com minha consciência pesada.
Hoje, estou tentando colocar em prática os princípios de A.A. no meu dia-a-dia. Procuro, através da prece e da meditação, alcançar o caminho correto. Esse mesmo “Deus Castigador” se tornou Deus Perdão, Deus Amor, amigo íntimo que sabe tudo sobre minha vida e está do meu lado, mesmo quando repito aqueles erros do passado. Não sinto mais medo e revolta em relação a Deus. Ao invés disso, tenho por Ele admiração, respeito e amor que fazem me sentir extremamente bem.
O mesmo ocorre com a sociedade. Quando uma pessoa expõe seu ponto de vista ou uma crítica, não fico com raiva, simplesmente procuro analisar o que foi dito. Se houver alguma ligação comigo, aceito e procuro reparar o que for necessário, se não houver, deixo que a coisa toda vá embora, ficando, assim, com a consciência livre e leve para seguir adiante. Assim sendo, fica fácil concluir que se minha consciência estiver direcionada às coisas boas e eu estiver trabalhando por elas, Deus é bom, mas, se não houver um esforço para progredir no campo pessoal e espiritual, qualquer erro que venha a cometer me fará pensar que Deus é ruim, que está de olho em mim.
Então, qual é a diferença, o motivo que separa o trabalho da inércia? Ora, todos nós sabemos que os Doze Passos são a solução para os nossos problemas. Se analisarmos bem, descobriremos que o único motivo que nos impede de praticá-los é o medo de fazê-los errado, ou, medo de que seja muito difícil fazê-los.
Observem o que Liane Cordas, em seu livro O Lago da Reflexão, tem a dizer sobre o medo: “Enquanto o medo domina nosso pensamento, podemos fazer muito pouco para modificar nossas circunstâncias para melhor. O medo paralisa qualquer ação útil ou construtiva. Medos de derrota, humilhação, perigo, inadequação e sofrimento podem esgotar nossas forças e coragem para enfrentar os desafios da vida. Nossos medos também nos impedem de perseguir oportunidades para o crescimento e o sucesso. Quantos de nós, antes de nossa exposição a esta filosofia viva, tínhamos medo de assumir o controle de nossa vida? Quantos de nós procurávamos compensar os medos de inadequação,
assumindo responsabilidades e problemas dos outros? Uma vez aceitando esta filosofia, somos ensinados a superar as dificuldades, limitando as preocupações a coisas que estão ao nosso alcance controlar. Aprendemos a viver um dia de cada vez. Somos lembrados de que não podemos modificar ninguém além de nós mesmos”.
Companheiros, mente aberta para o Segundo Passo e a chave da boa vontade do Terceiro Passo são suficientes para começar a caminhada em direção aos nossos ideais.

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995

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