ORAR, NO FUNDO, É RECITAR POEMA – DR. EDUARDO MASCARENHAS

ORAR, NO FUNDO, É RECITAR POEMA

Dr. Eduardo Mascarenhas

Apesar de não se dizerem religiosos ou sequer teístas, os Grupos anônimos iniciam suas reuniões como uma oração em que invocam inclusive o nome de Deus.
À primeira vista, isso pareceria uma liturgia de inspiração protestante, no mesmo estilo de agradecer ao Senhor, antes das refeições, o pão de cada dia.
Bill e Bob, os fundadores dos primeiros grupos de Alcoólicos Anônimos, provavelmente eram protestantes, ou pelo menos porque viviam numa cultura protestante como a norte-americana foram por ela influenciados. O estilo com que são redigidos os Doze Passos e as Doze Tradições não deixa margem de dúvidas. Contudo, apesar dessas fortes aparências – nunca é demais repetir – os Grupos Anônimos não são protestantes nem exigem uma interpretação protestante de suas sugestões. Cada qual as interprete como bem lhe aprouver, como uma parábola.
A oração que inaugura as reuniões, chamada Oração da Serenidade, está portanto, aberta a interpretações. Seu texto é o seguinte: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, a coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir uma das outras”.
Vocês hão de convir, é uma bela oração.
Qualquer oração, contudo, desperta resistência em muita gente. É que ela desperta lembranças desagradáveis da infância, quando era obrigado a repetir frases então complemente sem sentido. Ou, se tinham sentido, era para algum tipo de prazer.
Entretanto, não podemos ser regidos pela criança que um dia fomos. Uma oração como a da Serenidade pode muito bem ser uma forma de relembrar as dificuldades que nos acossam todos os dias e os riscos de reagirmos de modo rasteiro e primitivo. Orar pode ser ainda uma forma de convocar nossos níveis psíquicos mais altos, nossas funções mentais mais elevadas. Noutras palavras, nossas virtudes.
O processo psicanalítico é uma forma de trazer para a consciência nossos níveis primitivos e pueris ou até nossos níveis mais criativos e originais, que ficaram esparsos nas nossas poeiras mentais. A escuta e a fala do psicanalista operam, assim, de modo análogo a uma oração. Só que a fala não será vazada em termos místicos nem universais. Mas será vazada em algum estilo ou retórica, o que já represente um certo grau de quebra de neutralidade e um certo grau de sugestão, no mau sentido do termo. Como a fala do analista não é vazada em termos universais, mas singulares, termos que emergem daquele momento singular, naquele encontro singular ela também marca uma diferença. Mas essa suposta “singularidade” não é tão singular assim, pois está poderosamente influenciada pelas teorias do psicanalista e estas não são singulares nem emergiram daquele encontro singular. São universais. De certo modo, pertencem ao sistema de crenças do psicanalista, seu credo teórico, sua religião científica. Não sei se o que o psicanalista diz para seu paciente, no fundo, no fundo, não passa de uma enorme e ultra disfarçada oração, que nem ele mesmo, psicanalista, sabe qual é. O que sei é que, na segunda frase do psicanalista, quem é do meio já sabe qual é o seu credo teórico e o que ele, em última instância, estará dizendo para o seu psicanalisando.
Assim sendo, creio ser superficial rejeitar uma oração só porque tradicionalmente ela vem ligada a um sistema fechado, autoritário e doutrinário.
O problema não está na oração. Está no sistema em que ela se encontra inscrita. Até porque todo discurso, vazado em termos místicos ou não, não passa de uma forma de oração. Tudo é oração. Tudo evoca e relembra um aspecto parcial desse universo infinito chamado vida. Evoca e relembra certos aspectos e esquece outros. Ilumina e lança sombras nesse mesmo ato de iluminar. O que importa não é o fato de a fala ser uma oração. E sim o fato de ela estar a serviço de sistemas libertários ou autoritários; se ela relembra e evoca para expandir e libertar ou para restringir e aprisionar. A mesma Oração da Serenidade – como qualquer outra oração, fala, ato ou discurso – pode provocar efeitos libertários e carcerários. Tudo depende de quem emite e de quem escuta. Não há discurso, em si, livre desses perigos. O conceito de neutralidade, de não interferência, de não intrusão é bem mais complexo do que parece à primeira escuta.
Em que difere, então, a oração das outras falas? No estilo de sua redação, em seu tom solene e transcendental, com sua evocação de forças misteriosas, poderosas, cósmicas.
Mas, se na nossa cultura, solenidade, transcendência, mistério e forças cósmicas são ligadas às tradições judaico-cristãs, isso não passa de uma circunstância histórica. Na realidade essas categorias, em si, não pertencem a nenhum sistema cultural. Podem pertencer a todos. Místicos, materialistas e pagãos. Mais ainda: as tradições judaico-cristãs não são homogêneas nem estáticas. Não só se movimentam e se transformam como estão sujeitas – como qualquer tradição – às interpretações de cada um. Tanto assim que existem até padres, pastores e rabinos das mais variadas tendências: desde tendências ultraconservadoras a tendências ultraliberais. Não existem o judaísmo, o cristianismo. Nada na vida é singular e absoluto. Tudo é plural e incompleto. Uma oração pode ser considerada uma espécie de poema místico ou transcendental. Seus ritos e cadências produzem efeito de solenidade e evocação. Paira algo sagrado no ar.
E sagrado não tem necessariamente nada a ver com religião. Sagrado pode ser um determinado momento entre uma mãe e seu filho, momentos entre casais enamorados, momentos dos cidadão em alguns acontecimentos cívicos. Quando cantamos o Hino Nacional, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que uma oração cívica e não religiosa.
Quando cantamos uma canção romântica, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que voltada para alguém e não ao céu. Até quando cantamos o hino do nosso clube ou o samba-enredo de nossa escola estamos fazendo uma espécie de oração. Só que esportiva ou carnavalesca.
O que caracteriza a oração é que ela visa a atingir a inteligência e a razão muito mais pela emoção. E pela repetição de evocação. Nisso, por exemplo, ela se diferencia de uma palestra ou discussão.
A serviço de que ela estará? É isso que importa. A serviço da ampliação da consciência? A serviço da superação desses cárceres chamados compulsões? A serviço de tornar conscientes ou inconsciente?
O resto é falta de conhecimento sobre a teoria dos discursos. É divinização das aparências imediatas. É esquecer que tudo o que se faz sistematicamente é uma liturgia, não mais que uma liturgia e que poderia perfeitamente ser feito de mil outras maneiras, através de mil outras liturgias.

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