Monthly Archives: Junho 2018

RELEMBRAR, RELEMBRAR PARA JAMAIS ESQUECER

RELEMBRAR, RELEMBRAR PARA JAMAIS ESQUECER

Dr. Eduardo Mascarenhas

O Décimo Segundo Passo é uma espécie de liturgia de rememoração. ao cuidar de outros dependentes, cada um rememora a sua dependência.
Mas não é só esse passo que proporciona esse permanente lembrar-se.
Todas as reuniões dos grupos anônimos são liturgias de rememoração. Tal como os católicos se encontram semanalmente na missa para comemorar, ou seja, memorar junto a fragilidade e os mistérios da carne (vida terrena), os grupos anônimos se reúnem para comemorar a existência dos mistérios e tentações das grandes compulsões. O fato de essa memoração ser feita em conjunto – comemoração – é importante, pois provoca um sentimento que não pode ser negado ou apagado pelas astúcias da tentação (compulsão).
Além disso, nas reuniões dos grupos anônimos, seus membros fazem depoimentos que, invariavelmente, se iniciam com: “Eu sou um alcoólatra (ou toxicômano) em recuperação”. O tempo do verbo é claro: eu sou. Não é eu fui, eu estou sendo, nada que amenize a cortante afirmação.
Isso não é feito como uma execração pública. Nada tem a ver com aqueles condenados medievais que carregavam no peito uma placa com seus crimes infamantes, para serem expostos ao público. Pelo contrário. É até uma maneira de se afirmar nem criminoso nem, como pessoa, inferior a ninguém.
Serve, contudo, para marcar a ferro e fogo a recordação. Para que o “alcoólatra ou toxicômano em recuperação” relembre sua condição de dependente, pois a mais perigosa das astúcias das compulsões se manifesta pelo apagamento dessa lembrança. Sob o fogo cruzado do desejo fissurado, a mente esquece tudo. Sai de si e vira porta-voz da fissura que a possui e dominou.
para relembrar a força da compulsão, aquele que está dando seu depoimento encerra-o dizendo ter permanecido sóbrio pelas últimas 24 horas e rogando permanecer sóbrio pelas 24 horas seguintes. Depois é depois. Não dá para prever.
E, nem precisa. Afinal os séculos e milênios são feitos nada mais nada menos do que por uma sucessão de 24 horas.

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RELIGIÃO É RE-LIGAR, REENCONTRAR O FIO DA MEADA – DR. EDUARDO MASCARENHAS

RELIGIÃO É RE-LIGAR, REENCONTRAR O FIO DA MEADA

Dr. Eduardo Mascarenhas

Também a religião pode ser vista por vários ângulos. Pode ser vista pelo ângulo místico, quando se propõe a explicar o mistério por meio da revelação feita por Deus ao homem, registrada nas Sagradas Escrituras. E estas devem ser lidas ao pé da letra. Mas outros caminhos podem ser explorados.
A palavra religião, do verbo latino “religare”, significa “re-ligar”.
Ou seja, encontrar o fio da meada, o pé das coisas; restabelecer os vínculos entre o céu e a terra, entre o fora do comum e o cotidiano, entre o mistério e o banal.
Se religião foi, para muitos, uma emboscada anti-sexual, isso nada tem a ver com o sentido mais profundo do termo. quem foi que disse que Deus tem de ser necessariamente moralista, de direita, fazendo promessas de uma vida futura para que a gente se esqueça da vida presente? Quem foi que disse que Ele é existencialmente um conservado e politicamente um reacionário:

PECAR É APENAS “ERRAR O ALVO”

a palavra pecado, por sua vez, vem do latim “pecare” que significa tão comente “errar o alvo”. Logo, o pecador seria alguém com tendência a dar tiros e esmo e não acertar nos seus objetivos mais profundos – aqueles que lhe trariam maior grau de felicidade e realização. Instigado por “tentações”, o pecador sairia de sua rota, se extraviaria de seus caminhos, se perdendo em prazeres laterais. Daí as expressões “perdido”, “perdição”.
Entenda-se por “tentações” força de atração daqueles prazeres laterais que obrigam o “pecador” a desviar-se de seu fluxo mais central de desejos. “Tentação” é um desejo fissurado, que só pensa na sua gratificação instantânea e não se conforma em ter de se harmonizar com o todo – o conjunto dos desejos vistos de uma maneira mais global.
Ora, o que é uma compulsão senão um desejo fissurado e um prazer lateral que perturba, com sua boca voraz, a satisfação mais ampla dos desejos e prazeres? É, nesse sentido, algo que faz a pessoa perder o rumo, extraviar-se, errar o alvo.
logo, “tentação” é a maneira de dizer, uma linguagem mística o que, numa linguagem mais psicológica, se chamaria de compulsão. E “pecado”, “perdição” são as suas consequências. Não é sem motivo que alguém disse que o pecado nada mais era do que um “abuso do bom”. A busca fissurada do prazer.
Qual seria o remédio para esses males?
A convocação da serenidade e da autoridade do “Senhor” – símbolo da superação do desgoverno. Só a serenidade pode fazer frente à compulsão.
Essa convocação pode ser feita de muitas maneiras. Uma delas é através da prece.
Esse é para mim o sentido da Oração da Serenidade, proferida pelos grupos anônimos. Por conta de seu convite à transcendência das animalidades e da convocação dos níveis mais altos da mente e do sublime, faz parte, segundo esse ponto de vista, do Décimo Primeiro Passo.
Antes de passar ao próximo passo, cumpre aqui um esclarecimento, à guisa de tornar o texto mais rigoroso e cheio de precisão.
A Oração da Serenidade pelo contrário do que muitos pensam, não é uma oração universal com a qual se iniciam todas as reuniões dos grupos anônimos de mútua ajuda. No Brasil ela se tornou uma tradição – é verdade, porém, que nos Estados Unidos, por exemplo, muitas reuniões se iniciam sem oração alguma e outras se iniciam com orações diversas, entre as quais o Padre Nosso.
Fizemos essa meditação sobre ao Oração da Serenidade, portanto, como uma homenagem aos grupos brasileiros.
A rigor, pelo conteúdo do seu texto, se tivéssemos que escolher uma oração para representar o Décimo Primeiro Passo, ela seria a Oração de São Francisco, cujos versos evocam mais o sentido desse passo de entrega ao transcendente.

ORAR, NO FUNDO, É RECITAR POEMA – DR. EDUARDO MASCARENHAS

ORAR, NO FUNDO, É RECITAR POEMA

Dr. Eduardo Mascarenhas

Apesar de não se dizerem religiosos ou sequer teístas, os Grupos anônimos iniciam suas reuniões como uma oração em que invocam inclusive o nome de Deus.
À primeira vista, isso pareceria uma liturgia de inspiração protestante, no mesmo estilo de agradecer ao Senhor, antes das refeições, o pão de cada dia.
Bill e Bob, os fundadores dos primeiros grupos de Alcoólicos Anônimos, provavelmente eram protestantes, ou pelo menos porque viviam numa cultura protestante como a norte-americana foram por ela influenciados. O estilo com que são redigidos os Doze Passos e as Doze Tradições não deixa margem de dúvidas. Contudo, apesar dessas fortes aparências – nunca é demais repetir – os Grupos Anônimos não são protestantes nem exigem uma interpretação protestante de suas sugestões. Cada qual as interprete como bem lhe aprouver, como uma parábola.
A oração que inaugura as reuniões, chamada Oração da Serenidade, está portanto, aberta a interpretações. Seu texto é o seguinte: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, a coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir uma das outras”.
Vocês hão de convir, é uma bela oração.
Qualquer oração, contudo, desperta resistência em muita gente. É que ela desperta lembranças desagradáveis da infância, quando era obrigado a repetir frases então complemente sem sentido. Ou, se tinham sentido, era para algum tipo de prazer.
Entretanto, não podemos ser regidos pela criança que um dia fomos. Uma oração como a da Serenidade pode muito bem ser uma forma de relembrar as dificuldades que nos acossam todos os dias e os riscos de reagirmos de modo rasteiro e primitivo. Orar pode ser ainda uma forma de convocar nossos níveis psíquicos mais altos, nossas funções mentais mais elevadas. Noutras palavras, nossas virtudes.
O processo psicanalítico é uma forma de trazer para a consciência nossos níveis primitivos e pueris ou até nossos níveis mais criativos e originais, que ficaram esparsos nas nossas poeiras mentais. A escuta e a fala do psicanalista operam, assim, de modo análogo a uma oração. Só que a fala não será vazada em termos místicos nem universais. Mas será vazada em algum estilo ou retórica, o que já represente um certo grau de quebra de neutralidade e um certo grau de sugestão, no mau sentido do termo. Como a fala do analista não é vazada em termos universais, mas singulares, termos que emergem daquele momento singular, naquele encontro singular ela também marca uma diferença. Mas essa suposta “singularidade” não é tão singular assim, pois está poderosamente influenciada pelas teorias do psicanalista e estas não são singulares nem emergiram daquele encontro singular. São universais. De certo modo, pertencem ao sistema de crenças do psicanalista, seu credo teórico, sua religião científica. Não sei se o que o psicanalista diz para seu paciente, no fundo, no fundo, não passa de uma enorme e ultra disfarçada oração, que nem ele mesmo, psicanalista, sabe qual é. O que sei é que, na segunda frase do psicanalista, quem é do meio já sabe qual é o seu credo teórico e o que ele, em última instância, estará dizendo para o seu psicanalisando.
Assim sendo, creio ser superficial rejeitar uma oração só porque tradicionalmente ela vem ligada a um sistema fechado, autoritário e doutrinário.
O problema não está na oração. Está no sistema em que ela se encontra inscrita. Até porque todo discurso, vazado em termos místicos ou não, não passa de uma forma de oração. Tudo é oração. Tudo evoca e relembra um aspecto parcial desse universo infinito chamado vida. Evoca e relembra certos aspectos e esquece outros. Ilumina e lança sombras nesse mesmo ato de iluminar. O que importa não é o fato de a fala ser uma oração. E sim o fato de ela estar a serviço de sistemas libertários ou autoritários; se ela relembra e evoca para expandir e libertar ou para restringir e aprisionar. A mesma Oração da Serenidade – como qualquer outra oração, fala, ato ou discurso – pode provocar efeitos libertários e carcerários. Tudo depende de quem emite e de quem escuta. Não há discurso, em si, livre desses perigos. O conceito de neutralidade, de não interferência, de não intrusão é bem mais complexo do que parece à primeira escuta.
Em que difere, então, a oração das outras falas? No estilo de sua redação, em seu tom solene e transcendental, com sua evocação de forças misteriosas, poderosas, cósmicas.
Mas, se na nossa cultura, solenidade, transcendência, mistério e forças cósmicas são ligadas às tradições judaico-cristãs, isso não passa de uma circunstância histórica. Na realidade essas categorias, em si, não pertencem a nenhum sistema cultural. Podem pertencer a todos. Místicos, materialistas e pagãos. Mais ainda: as tradições judaico-cristãs não são homogêneas nem estáticas. Não só se movimentam e se transformam como estão sujeitas – como qualquer tradição – às interpretações de cada um. Tanto assim que existem até padres, pastores e rabinos das mais variadas tendências: desde tendências ultraconservadoras a tendências ultraliberais. Não existem o judaísmo, o cristianismo. Nada na vida é singular e absoluto. Tudo é plural e incompleto. Uma oração pode ser considerada uma espécie de poema místico ou transcendental. Seus ritos e cadências produzem efeito de solenidade e evocação. Paira algo sagrado no ar.
E sagrado não tem necessariamente nada a ver com religião. Sagrado pode ser um determinado momento entre uma mãe e seu filho, momentos entre casais enamorados, momentos dos cidadão em alguns acontecimentos cívicos. Quando cantamos o Hino Nacional, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que uma oração cívica e não religiosa.
Quando cantamos uma canção romântica, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que voltada para alguém e não ao céu. Até quando cantamos o hino do nosso clube ou o samba-enredo de nossa escola estamos fazendo uma espécie de oração. Só que esportiva ou carnavalesca.
O que caracteriza a oração é que ela visa a atingir a inteligência e a razão muito mais pela emoção. E pela repetição de evocação. Nisso, por exemplo, ela se diferencia de uma palestra ou discussão.
A serviço de que ela estará? É isso que importa. A serviço da ampliação da consciência? A serviço da superação desses cárceres chamados compulsões? A serviço de tornar conscientes ou inconsciente?
O resto é falta de conhecimento sobre a teoria dos discursos. É divinização das aparências imediatas. É esquecer que tudo o que se faz sistematicamente é uma liturgia, não mais que uma liturgia e que poderia perfeitamente ser feito de mil outras maneiras, através de mil outras liturgias.

REVISTA VIVÊNCIA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 – NOV/DEZ 1995

NA DIREÇÃO DE DEUS
(Nize)

“Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse
todos estes defeitos de caráter (Sexto Passo). “Humildemente
rogamos a Ele que nos livrasse de nossas
imperfeições” (Sétimo Passo).

1º Passo: Aceitação – eu não posso.
2º Passo: Esperança – alguém pode.
3º Passo: Confiança – se eu deixar.
4º Passo: Autoconhecimento.
5º Passo: Humildade.

Meta: Maturidade emocional! – Através do Primeiro Passo, nos rendemos ante a doença do alcoolismo. Também percebemos nossa impotência diante, não só do álcool, como também diante de pessoas, sentimentos, situações e que devemos aprender a lidar com isto, se quisermos construir uma sobriedade rica e construtiva. O Primeiro Passo nos dá a nossa limitação humana.
Com o Segundo e Terceiro Passos, percebemos que, nesta busca, precisamos de ajuda. Necessitaremos não só pedir, como aceitar e isto significa que começamos a confiar, porque só peço e aceito ajuda quando confio que posso ser ajudado. Poderemos ver também que insanidade é tomarmos a mesma atitude esperando resultados diferentes. O Segundo Passo nos dá confiança, fé e esperança e o Terceiro Passo nos convida à entrega, que nos alivia de pesos desnecessários. Os três primeiros passos são de aceitação.
Com o Quarto e Quinto Passos, adquirimos os instrumentos para autoconhecimento e auto aceitação. Podemos aprender a nos perdoar e, quando compartilhamos, também começamos a ver aspectos em nós que sozinhos seria difícil perceber. Assim, quando saímos do Quinto Passo, a sensação é de alívio. Agora precisaremos mais do que nunca de humildade, porque o Quarto e Quinto Passos nos ajudaram a identificar nossos defeitos de caráter, mas não nos libertaram deles.
À medida que vamos atuando com os Sexto e Sétimo Passos, vamos percebendo que podemos ir adquirindo:
Responsabilidades com nossos sentimentos e atitudes: Porque nos propõe avaliarmos honestamente nossas atitudes e identificarmos nossos sentimentos, para que possamos lidar adequadamente com situações e mudarmos quando necessário:
– quem não gosta de se sentir um pouco superior ou mesmo bastante superior?
– quem não gosta de deixar que a avareza se faça passar por um acúmulo necessário de bens?
– quem não exacerba seu auto respeito, transformando-o em orgulho?
Boa vontade para atuar em cima de nossas mudanças: Se quisermos obter algum resultado concreto na prática dos Sexto e Sétimo Passos para a solução de problemas fora do álcool, precisaremos fazer uma tentativa: sermos menos teimosos e em vez de dizermos que “a isto jamais renunciarei”, digamos: “a isto ainda não posso renunciar”. Não digamos “nunca”; isto pode ser uma abertura perigosa e pode nos fechar a porta para a mudança, para a graça de Deus e para ajuda dos grupos.
Os Sexto e Sétimo Passos são um convite à mudança e representam a chave que nos abre a porta para o nosso amadurecimento emocional. Também nos ensina que cabe a nós a tarefa inicial desta mudança e nos propõe também a conviver com equilíbrio com as coisas que não podemos modificar. Mostra-nos que a diferença entre o adolescente e o adulto é igual ao que existe entre a luta por um objetivo qualquer de nossa escolha e a meta perfeita que é Deus. Os Sexto e Sétimo Passos usam diretamente a palavra Deus, e é na direção Dele que apontam estes passos. Isto significa que ao relembrarem estes passos são um convite à superação dessa mania de tudo saber ou de tudo poder, ou seja, ao relembrarem Deus, tornam-se um convite à superação desta mania de querer ser Deus, quebrar a onipotência – tirar carteirinha de ser humano.
“Ajudai-me, Senhor, a mudar aquelas coisas que posso modificar, mas ajudai-me ainda mais, Senhor, quando sei exatamente o que devo mudar, mas não tenho a coragem de fazê-lo”.

“A LIMITAÇÃO DO HOMEM É A OPORTUNIDADE DE DEUS”.

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 NOV/DEZ 1995

AS TRÊS PARTES DA ESPIRITUALIDADE
Anônimo (Grapevine – 91)

Espiritualidade é ser responsável? Pagar as contas, ajudar
os outros, trabalhar direito, ir às reuniões.
Veja a opinião do autor.

Fui ao meu padrinho, um homem muito sábio, e perguntei-lhe:
– Qual é o sentido exato de espiritualidade em A.A.? Estou realmente confuso.
Meu padrinho inclinou-se para trás na cadeira, entrefechou os olhos e olhou bem olhado para mim.
– Você já está com mais de dez anos de sobriedade?
– São quase doze agora.
– Tem lido o Livro Azul ultimamente?
– Bom, eu vou a um grupo que estuda o Livro Azul uma vez por semana – respondi.
– Então eu vou lhe contar uma história e você pode tirar as suas próprias conclusões.
Eu achei que isso ia se transformar numa longa sessão, por isso me reclinei também e entrecerrei os olhos.
Meu padrinho continuou:
– O Livro Azul conta que a vida espiritual não é uma teoria, que nós precisamos vivê-la. Esta história é sobre um homem que não estava em A.A. e que passava muito tempo dentro da igreja. Ele indicava os lugares aos domingos e cantava no coro da igreja. Ele realmente sentia-se espiritual. Mas, passado algum tempo, a quantidade de cachaça que ele consumia aumentou a um ponto tal que ele perdeu o controle.
Ele se tornou um dos nossos. Para sorte dele, encontrou A.A. e se recuperou. Ele continua indo à igreja, mas a sua atitude mudou. O que aconteceu? Ele começou a ajudar os outros. Ele se tornou responsável.
– Você quer dizer que ser responsável tem algo a ver com espiritualidade? – perguntei.
– Tem tudo a ver. Nós temos de vivê-la, não só falar a respeito. E ser responsável significa fazer as coisas certas, numa base diária.
– O que você quer dizer exatamente? – disparei de volta.
– Ser responsável significa simplesmente fazer coisas, como pagar as contas na data certa, ir trabalhar na hora, fazer a minha parte no serviço da casa, se necessário, e assim por diante.
Isso não significa que a gente não possa se divertir – o divertimento e as férias são muito importantes. Eu também preciso cuidar da minha saúde, tendo uma alimentação adequada e fazendo exercícios regularmente.
– Ta bom. É isso aí, então?
– Isso é uma boa parte, mas tem mais. Como uma pessoa responsável, também preciso ser razoavelmente bem disciplinado: ir às reuniões em uma base regular, trabalhar nos Passos em uma base regular, fazer exercícios em um horário regular.
– Mais alguma coisa? – quis saber eu.
– Bom, um outro item de peso é estar disponível. Quando pessoas pedem ajuda, eu preciso poder estender a mão e ouvi-Ias, escutar o que têm a dizer sobre a sua situação. Em alguns casos, preciso levar as pessoas à sua primeira reunião, para que comecem. É necessário que esteja disponível.
– Está me parecendo que a espiritualidade é mais ação do que oração.
– Certo. Mas a oração é muito importante, porque necessito da ajuda do meu Poder Superior em todas as coisas. Resumindo: para mim, espiritualidade compõe-se de três partes: ser responsável, ser um tanto quanto disciplinado, e estar disponível.
– Isso me cheira a um trabalho de tempo integral – resmunguei.
– É isso aí, finalizou o meu padrinho, mas é a maneira mais fácil de se conseguir paz de espírito que eu conheço.
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ESSÊNCIA DO CRESCIMENTO
Que nunca tenhamos medo de mudanças necessárias. Certamente temos que fazer a diferença entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas desde que uma necessidade se torna bem
aparente num indivíduo, num grupo ou em A.A. como um todo,
há muito já se verificou que não podemos ficar estacionários. A
essência de todo crescimento é uma disposição de mudar para
melhor e uma disposição incansável de aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique. (Bill W.)
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Vivência nº 38 – NOVEMBRO/DEZEMBRO 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE A.A. Nº 38 – NOV/DEZ 1995

DEUS, MEDO E RECUPERAÇÃO
(Beto, Vilhena/RO)

Os Passos como caminho para
viver a vida em paz, sem os tão
conhecidos medos.

Ás vezes penso que Deus e nossa consciência estão interligados. No meu tempo de bebedeiras, a palavra Deus, soava como algo opressor, castigador. Tudo o que os clérigos, autoridades, psiquiatras e a sociedade “politicamente correta” diziam, imediatamente leva para o campo pessoal, fazia com que a ira viesse à tona e começava a defender teses e opiniões que, muitas vezes, nem minhas eram. Automaticamente, gerava controvérsias nas quais eu precisava ficar com a última palavra. Como resultado as pessoas ficavam chateadas e se afastavam. Não bastasse isso, minha vida atolada em desonestidades, confusões sexuais, problemas financeiros e o orgulho bombardeado por fracassos, fazia-me sentir totalmente culpado perante o “Deus Castigador”. Não é de se admirar que ficasse com minha consciência pesada.
Hoje, estou tentando colocar em prática os princípios de A.A. no meu dia-a-dia. Procuro, através da prece e da meditação, alcançar o caminho correto. Esse mesmo “Deus Castigador” se tornou Deus Perdão, Deus Amor, amigo íntimo que sabe tudo sobre minha vida e está do meu lado, mesmo quando repito aqueles erros do passado. Não sinto mais medo e revolta em relação a Deus. Ao invés disso, tenho por Ele admiração, respeito e amor que fazem me sentir extremamente bem.
O mesmo ocorre com a sociedade. Quando uma pessoa expõe seu ponto de vista ou uma crítica, não fico com raiva, simplesmente procuro analisar o que foi dito. Se houver alguma ligação comigo, aceito e procuro reparar o que for necessário, se não houver, deixo que a coisa toda vá embora, ficando, assim, com a consciência livre e leve para seguir adiante. Assim sendo, fica fácil concluir que se minha consciência estiver direcionada às coisas boas e eu estiver trabalhando por elas, Deus é bom, mas, se não houver um esforço para progredir no campo pessoal e espiritual, qualquer erro que venha a cometer me fará pensar que Deus é ruim, que está de olho em mim.
Então, qual é a diferença, o motivo que separa o trabalho da inércia? Ora, todos nós sabemos que os Doze Passos são a solução para os nossos problemas. Se analisarmos bem, descobriremos que o único motivo que nos impede de praticá-los é o medo de fazê-los errado, ou, medo de que seja muito difícil fazê-los.
Observem o que Liane Cordas, em seu livro O Lago da Reflexão, tem a dizer sobre o medo: “Enquanto o medo domina nosso pensamento, podemos fazer muito pouco para modificar nossas circunstâncias para melhor. O medo paralisa qualquer ação útil ou construtiva. Medos de derrota, humilhação, perigo, inadequação e sofrimento podem esgotar nossas forças e coragem para enfrentar os desafios da vida. Nossos medos também nos impedem de perseguir oportunidades para o crescimento e o sucesso. Quantos de nós, antes de nossa exposição a esta filosofia viva, tínhamos medo de assumir o controle de nossa vida? Quantos de nós procurávamos compensar os medos de inadequação,
assumindo responsabilidades e problemas dos outros? Uma vez aceitando esta filosofia, somos ensinados a superar as dificuldades, limitando as preocupações a coisas que estão ao nosso alcance controlar. Aprendemos a viver um dia de cada vez. Somos lembrados de que não podemos modificar ninguém além de nós mesmos”.
Companheiros, mente aberta para o Segundo Passo e a chave da boa vontade do Terceiro Passo são suficientes para começar a caminhada em direção aos nossos ideais.

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995