SEQUELAS DO ALCOOLISMO

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 53 – MAI/JUN 1998

SEQUELAS DO ALCOOLISMO

Todas as pessoas que convivem com um alcoólico sofrem. E, tal como os alcoólicos, todas ficam com sequelas – precisamos saber disso em nossa recuperação.

Sou filha de um alcoólico, portanto, sofri com a doença e ainda sofro com as sequelas que ela me deixou. Tenho vinte anos, sou estudante de Direito e hoje meu pai não bebe mais. Não sei ao certo quando ele começou, tenho vagas lembranças de que, quando eu era criança, meu pai não bebia. Íamos a festas e sua companhia era sempre um copo de refrigerante. Mas ele começou a beber cada vez mais, e depois de um certo tempo não precisava de muito para sofrer com os efeitos da bebida.

Vivemos crises muito grandes: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Cada um refugiou-se de um modo. É engraçado como os seres humanos sofrem de diferentes maneiras. Meu pai afastou-se de nós, não podíamos contar com o salário dele e muito menos com sua amizade. Ele vivia no bar. Na escola, meus amigos contavam-me que o viram no bar “tal”, várias vezes. Cada vez mais uma profunda dor invadia minha alma.

Minha mãe chorava, e como chorava! Às vezes eu pedia a Deus para levar-me embora do mundo material, não suportava ver minha mãe sofrendo. Minha irmã fugia, ela tinha um jeito estranho (ainda hoje) de enfrentar os problemas: não gostava de falar do pai, nem das bebedeiras, da mãe chorando, nem nada. Evitava ao máximo cada um de nós. À noite ia para a faculdade e aos finais de semana saía com o namorado. Talvez ela sofresse muito e não quisesse falar no assunto… não sei, não quero saber… não sou ninguém para julgar.

Todas as noites minha casa virava um verdadeiro inferno, era a hora em que meu pai chegava. Brigas, ofensas, lágrimas, e Deus é testemunha de como chorei sozinha e clamei por Sua ajuda.

Meu pai chegou num estágio em que já bebia de manhã cedinho, antes de ir para o trabalho, e eu tomava café sentindo o bafo de bebida. Sofri tanto que cheguei, numa época, a acreditar que odiava meu pai. Por que ele era assim? Por que nos fazia sofrer? Tinha nojo dele porque ele fedia a bebida, vivia de bebida, amava mais a bebida do que a nós.

Quando eu tinha dezesseis anos de idade, minha família enfrentou a maior de todas as crises. Meu pai estava no fundo do poço e agora o único caminho que tinha era subir, ou ficar sozinho. Estava perdendo o emprego e principalmente a nós, era hora de encarar isso. Minha mãe pediu a separação, já havia sofrido demais. E meu pai enfrentou a doença.. Internou-se numa clínica em Curitiba e hoje encontrou A.A.

Em nenhum momento fui visita-lo e hoje isso me dói muito. Tanto minha mãe como minha irmã foram vê-lo, mas eu não.

Quando ele voltou para casa, não acreditei no que via. Era outro, assistiu tevê conosco, conversou. Naquele mesmo instante descobri que eu não o odiava, apenas tinha medo de amá-lo. Hoje sei que posso contar com ele vinte e quatro horas por dia e tenho confiança em que não vai beber. Consigo realizar meu sonho a cada dia: estudar Direito. Meu pai tem sido o grande amigo para apoiar-me e é ele que tem-me dado forças, com sua demonstração de fé, para continuar.

Apesar disso enfrento as sequelas que o alcoolismo deixou. Hoje sofro com minha insegurança, o pesadelo de errar atormenta-me a alma. Ajudo outras pessoas a resolver seus problemas, mas não consigo resolver os meus. O alcoolismo deixou cicatrizes muito fortes e tenho medo de beber. Na faculdade sofro muito porque não admito perder e todos os dias acredito que não conseguirei. Certa vez, uma psicóloga disse-me que tudo isso que ainda invade minha vida é fruto do alcoolismo. Amo tanto minha família que não gosto de voltar à cidade onde estudo para continuar meu curso. Hoje minha família está tão bem que eu tenho vontade de viver todo o tempo do mundo com eles, para recompensar os anos em que vivemos separados.

Mas tenho fé que, assim como meu pai enfrentou o alcoolismo e continua enfrentando até hoje, eu enfrentarei meu desequilíbrio emocional. Somos fortes e em nós descobrimos forças incalculáveis. Hoje sei que “segurei” minha família, tornei-me adulta cedo demais, nunca gostei de brincar, mas sim de ajudá-los a resolver seus problemas. Espero um dia resolver os meus próprios, e Deus sabe o quanto desejo isso.

Sei que o alcoolismo é uma doença e que me afetou. Não existem remédios para isso, somente aquela força que existe em nós, fruto do amor de Deus e que é capaz de vencer essas feridas. Para o sofrimento de tantas famílias como a minha, a única solução é A.A. Assim como meu pai lida com essas sequelas, espero também faze-lo. Mas isso se dá passo a passo, assim como se diz na Irmandade de A..A. Afinal de contas, “a pressa é inimiga da perfeição”. E existe perfeição?

(Daiana L.S.)

Nota da Redação: Com programa semelhante ao de A.A. os Grupos Familiares AL-Anon têm ajudado centenas de milhares de pessoas a obter uma vida serena, compreendendo seus parentes ou amigos alcoólicos, acolhendo-as e proporcionando alívio e encorajamento..

Vivência nº 53 Maio/Junho 1998

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