AS MULHERES E O ALCOOLISMO

As mulheres e o Alcoolismo
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A questão do alcoolismo é ampla e atinge os diversos segmentos da esfera social do indivíduo; grupos de trabalho, grupos de relação e a família, possibilitando assim várias abordagens, o que vem sendo feito com freqüência nas últimas duas décadas, quando o alcoolismo passou a ser visto como doença pela Organização Mundial de Saúde, e como tal merecendo “tratamento”.
Na verdade, a existência de prejuízos associados ao uso indevido de álcool pelas mulheres é muito maior do que se costuma admitir. O alcoolismo feminino é um fenômeno mais silencioso e discreto que o masculino, devido à carga negativa de estigma. Existe uma diferença de tolerância cultural quanto aos problemas do álcool quando atinge cada um dos sexos. Assim os pileques do garoto são muitas vezes vistos de forma hilariante e, até, estimulados como sinal de masculinidade em algumas sociedades, ou em meios sociais específicos. Para a mulher é diferente, não “fica bem” exagerar, comportamento classificado como não feminino. Cria-se a expectativa d a mulher como exemplo, sempre em controle dos seus atos. Na verdade essa distinção de papéis não se aplica apenas para o caso das bebidas alcoólicas, mas estende-se aos valores básicos determinados culturalmente para os dois sexos.
As discussões sobre a relação entre as mulheres e as bebidas alcoólicas são recentes dentro dos estudos das dependências. As pesquisas desenvolvidas apontam dois aspectos da questão: de um lado, a existência de algumas características específicas do alcoolismo feminino (versus o masculino), de outro, a inveracidade de algumas crenças negativas relacionadas, principalmente, ao tratamento de mulheres.
O padrão de ingestão, as situações e a quantidade do beber das mulheres diferem freqüentemente daqueles do homem, principalmente quando se trata de mulheres não inseridas no mercado de trabalho. Por exemplo, a dona-de-casa alcoolista bebe muito mais em casa do que no bar. Desempenha as primeiras tarefas domésticas do dia e, quando está sozinha, bebe. Geralmente acaba negligenciando algumas tarefas domésticas. No caso da mulher profissionalmente inserida no mercado de trabalho se acrescenta aos problemas mencionados acima os percebidos no alcoolismo masculino, que podem ser: a queda de produtividade no trabalho, dificuldades de relacionamento com os colegas, gastos excessivos com bebida. A mulher alcoolista tende a negar o uso excessivo de álcool; por isso, o diagnóstico médico do alcoolismo entre elas é feito mais tardiamente. Já a evolução do quadro de dependência se dá mais rapidamente do que entre os homens.
A evolução mais devastadora do alcoolismo entre mulheres se dá, principalmente, por dois fatores. Primeiro, porque parecem existir diferenças biológicas que predispõem a mulher a ter mais problemas médicos, mesmo quando bebem menos que o homem, resultando em intoxicação mais imediata. O segundo fator refere-se a reações que variam de vergonha a perplexidade e medo, que geralmente envolvem tanto a mulher alcoolista como sua família quando se deparam com o problema, retardando assim o seu processo de ajuda e tratamento mais que no caso do homem dependente do álcool. Além disso, os serviços, não se dando conta da importância de tratamentos especificamente femininos, não facilitavam a adesão de mulheres ao tratamento, já bastante dificultada pela gama de preconceitos sociais. É importante que o diagnóstico e a procura de ajuda sejam feitos o mais rápido possível. Mas é essencial tratar-se a dependência como uma doença, associada a fatores psicológicos, biológicos e sociais e não como uma falta de caráter do homem e da mulher.
A mulher alcoolista, além da rotulação de “bêbada e irresponsável”, é estigmatizada como a “vergonha da família”, mesmo quando, na maioria das vezes, o marido também bebe. Sentindo-se só em casa, enquanto o marido bebe no botequim, ela freqüentemente bebe por não suportar a sua realidade de preterida Os filhos por sua vez sentem vergonha da vizinhança, que percebe o alcoolismo da mãe, mas não têm a mesma atitude em relação ao pai que também bebe.
O rótulo de alcoolista carrega uma gama de preconceitos tanto em relação ao homem como em relação à mulher, embora a mulher alcoolista sofra maior discriminação. Ao participar da A.A. ( Alcoólicos anônimos), que é uma irmandade que trabalha como grupo de apoio, no sentido de restabelecer o sujeito à sociedade, o preconceito se ameniza; a mulher passa então a ser vista como uma “ex-alcoolista”. O sentido de estigma se torna mais brando.
A mulher alcoolista chega a A.A. com baixa auto-estima por não cumprir o papel que lhe é exigido socialmente. Ante a possibilidade de uma melhora progressiva, pelos testemunhos e de provas de força e esperança dos membros do grupo, tornando-se uma “ex-alcoolista”, diminuída a carga de estigma, ela recupera perante os outros a confiança por ter superado o vício. O estigma agora se liga ao passado, não mais a um presente sofredor.
Existe uma presença maior de homens nas reuniões de grupo da A.A., talvez porque os homens aceitam mais facilmente a forma de tratamento adotada, demonstrando que não têm vergonha de assumir perante a sociedade a sua condição de doentes. Com a mulher alcoolista é diferente; ela sente dificuldade de assumir o alcoolismo por causa da carga de estigma que suporta.
Apoio coletivo, este é o interesse da A.A. Cada membro encontra no outro uma força para falar de seus problemas com a bebida. Ali o alcoolista pode encontrar pessoas que passaram por problemas parecidos e, se estão todos “no mesmo barco”, consegue através da troca de experiências não mais se sentir sozinho para enfrentar a sua doença. Apresentado como doente, o sujeito tem sua conduta desviante “explicada” de uma forma que o exime parcialmente da responsabilidade pela sua condição; resta-lhe somente a obrigação de se esforçar para se manter sóbrio. Mas essa nova identidade de “doente incurável”, porém “tratável”, também carrega seu próprio estigma de instabilidade e de provável recaída.
Apesar de proporcionar grande alívio a muitas alcoolistas, não se pode dizer que a A.A. neutralize completamente a estigmatização sofrida por essas mulheres, mesmo após deixarem de beber por longos períodos. Mas, mesmo quando A.A. não consegue erradicar definitivamente o estigma sofrido, não há dúvida que, ao abrandá-lo e ao dar um apoio social que permita a recuperação da auto-estima, seu efeito é muito positivo, tanto para seus membros quanto para suas famílias, suas relações de amizade e de trabalho, e também para a sociedade.

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