Monthly Archives: Fevereiro 2018

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A SUA EXCELÊNCIA ALCOÓLATRA, BOM DIA

Aldo Finamore

“A sua excelência Alcoólatra, bom dia”

Nesta manhã clara e tranquila eu quero te dirigir algumas palavras, a ti que
deve estar curtindo aquela ressaca.
A ti que com os olhos empapuçados pelo vapor do álcool, acordou
desesperançado e triste dono de toda melancolia do mundo, afogado nas
perspectivas mais desalentadoras, que vê nascer mais um dia que vai se
perder na sua totalidade.
Porque essa manhã que vive hoje, eu já as vivi durante muitos anos.
Não vai em minhas palavras nenhuma censura ou maldade.
Não quero que te sintas deprimido ao saber que de algum canto da cidade tu
és observado e notado, pois por mais que faça para esconder tua doença, ela
emana em tudo que tu és, deixando para longe, tudo que tu fostes.
Vejamos por exemplo se no decorrer do dia de hoje, terás a disposição
necessária para a luta cotidiana, ou se no teu trabalho não irá
sobrecarregar teus colegas, se na tua casa não irá trazer tristezas.
Observa-se nas cavas profundas de teus olhos, e no seu rosto inchado, a
marcas que denunciam ao descontrole total da noite passada.
Suas mãos tremem e mostram a incapacitação que a doença do alcoolismo lhe
trouxe.
És inteligente eu sei, e é por isso que te dirijo essas palavras, pois para
aqueles que não entendem, eu prefiro calar.
A ti eu te falo, porque eu sei que as minhas palavras encontraram eco em
tua formação moral, pois se quiseres deixaras de ser um bêbado.
Se falo assim contigo é porque tenho a experiência adquirida em todos os
rótulos de bebidas existentes, pois palpitei inconscientemente todos os
antros onde a bebida pode levar.
Não me envergonho em dizer que em matéria de alcoolismo fui professor.
Senti também a transformação do caráter e a agressividade da alma, com o
cinismo comum em todo alcoólatra.
Afundado nos vapores enganosos da falsa alegria e na descida do poço, recebi
a cota da amargura que ficou para toda a minha vida.
Mas acordei em tempo e te confesso penalizado no fundo da minha alma, que
não queria te escrever essas linhas.
Queria que nessa manhã, como eu, tu pudesse ver a verdadeira maravilha que
nos traz um novo dia de vida.
Como é bom despertar e sentir a felicidade de estar realmente vivendo.
Como é prazeroso se sentir gente e poder colaborar para a formação de um
mundo novo e bom.
Sentir a paz invadir nosso ser, sentir-se útil aos nossos familiares e
amigos.
Não criando problemas e apreensão para aqueles que nos cercam, pois creia
meu amigo; tu os cria, eu também assim procedia.
Nesta manhã, enquanto queima os restos da noite passada, eu humildemente te
convido a partilhar minha vida.
venha comigo por um caminho onde a vida é mais bela e mais simples.
Experimente e compare, depois tu que é inteligente me dirá.
Terás a tua opção.
Terás a liberdade da vida sem o freio inconsciente da doença, pois o
alcoólatra e conduzido pelo cabresto sórdido da desgraça.
És um homem doente, venha comigo e te mostrarei um caminho de luz, pois
quando eu me encontrava sem esperanças e em desespero como tu, alguém me
ajudou e me conduziu para o caminho dos “Doze Passos” da verdadeira vida.

Autor desconhecido

A TÁTICA DO AVESTRUZ – ALBERTO DURINGER

A TÁTICA DO AVESTRUZ

Alberto Duringer
Médico no Rio de Janeiro
Conselheiro no Conselho estadual de Entorpecentes (CONEN-RJ)

Nas arquibancadas do estádio do Maracanã existem balcões onde se vende cerveja durante os jogos de futebol. Reparem como ali ficam algumas pessoas bebendo o tempo todo, de costas para o campo. Para assistirem o jogo, bastaria virar o corpo – mas não o fazem. Será que não gostam de futebol? Mas então, que teria motivado essas pessoas a saírem de casa, comprarem ingresso, sujeitar-se a vários incômodos e riscos? Se perguntarmos, no entanto, vão afirmar categoricamente que são ardorosos torcedores de um dos times em campo e não perderiam uma partida por nada deste mundo
Vejamos outra cena, um dia de verão, na praia: muita gente passa o dia todo bebendo, debaixo de barracas quentíssimas, sem pegar sol ou cair na água. Apesar disso, dizem adorar uma praia, a ponto de frequentá-la todo fim de semana.
Estas situações refletem o mais constante sintoma da doença alcoolismo – a negação – e podem até ter algo de engraçado, mas constituem verdadeira tragédia para o alcoólico, que freqüentemente morre negando sua enfermidade. Ao negar sua perda de controle, o alcoólico não é mentiroso, pelo menos conscientemente, mesmo porque esta perda de controle acontece de forma lenta e progressiva. No início ainda há algum controle, com ele bebendo só nos fins de semana ou após certas horas do dia. Aos poucos, porém o doente vai criando um manto de fantasia, que o faz ser o primeiro a acreditar não ter problemas com o álcool. Trata-se de um mecanismo psíquico de proteção, para não enfrentar a dura realidade de estar tendo comportamentos irresponsáveis. Paradoxalmente, não consegue viver sem bebida, reconhecendo até ser o consumo exagerado em certas ocasiões. A explicação, para ele, está nos sérios problemas que vem enfrentando no momento; se os problemas desaparecessem, voltaria a beber controladamente. Assim, enquanto aguarda o milagre, vai bebendo cada vez mais.
Este mecanismo de negação, que se desenvolve dentro da personalidade do indivíduo, não se limita apenas à afirmativa, para si e para os outros, que não é alcoólico. É necessário também inventar uma série de desculpas, para manter uma aparente lógica nas coisas que se anda fazendo – é o que se chama de manipulação. Este manto de fantasia, fabricado por ele mesmo, fica cada vez mais espesso, mais duro, mais resistente, até isolar o doente do mundo real, como se fosse uma larva de bicho-da-seda envolvida no casulo.
É claro que as coisas continuam existindo como elas são, o emprego, a família, os amigos, mas tudo isso torna-se a cada dia menos importante. Os mais íntimos questionam: “Por que ele faz isto conosco? Será que não gosta mais da gente?” Ou afirmam: “Se você me amasse, parava de beber!”. São questões que incomodam, despertam sentimentos de remorso, culpa e autoridade, mas que ele não sabe resolver, porque julga impossível separar-se do companheiro álcool. Então ele nega os fatos, inventa justificativas, manipula, faz promessas que não consegue cumprir, tudo o que for possível para se fechar cada vez mais dentro de um outro mundo, só existente no seu delírio – mas que é só seu, seu mundo de negação.
Para conviver melhor com sua fantasia, muitos alcoólicos passam a só freqüentar lugares onde haja bastante bebida e selecionar suas amizades entre gente que também bebe bastante. Se for convidado para um aniversário de criança, sabendo que só vai encontrar bolo de chocolate e coca-cola, recusa, dizendo não ter paciência para este tipo de festa. Mas é capaz de pegar 3 ônibus para ir ao churrasco na casa de um desconhecido. Pensa em álcool todas as horas do dia: quando será que vou poder tomar a primeira? A que hora fecha o bar do hotel? Não esquecer que muitos supermercados fecham aos domingos! Lá no sítio da minha sogra vai ter bebida? É melhor garantir, levando uma garrafa na mala!
Para melhor entender o processo, vamos substituir a palavra “álcool” por “azeitonas”: Quando será que vou comer a primeira azeitona hoje? Será que lá naquele sítio há azeitonas? É melhor levar umas latas na mala! Fica bastante estranho, qualquer pessoa que só pensasse em azeitonas o tempo todo, seria chamado de maluco. Mas o dependente químico da álcool continua afirmando que seu comportamento é normal.
Na árdua tarefa de continuar negando seu alcoolismo, o alcoólico tem também de aprender a ser esperto, desenvolvendo a habilidade de esconder o quanto anda bebendo. Muitas vezes para de beber dentro de casa, mas a toda hora tem de sair para comprar cigarros. Na rua freqüenta diversos botequins, evitando tomar mais de duas ou três doses no mesmo lugar, para não ser chamado de beberrão. Às vezes começa a beber em um bairro, termina em outro. Bebe antes de ir para uma festa, para quando estiver lá, fingir que bebe pouco. Escolhe vodca, porque ouviu dizer que não deixa cheiro. Anda sempre com balas e pastilhas de hortelã, para disfarçar o hálito. Enfim, esconder seu alcoolismo dos outros passa a ser procedimento de rotina, que ocupa boa parte da sua atenção.
Já para provar a si mesmo que não é alcoólatra, os mecanismos de negação são outros:
1 – Tenta beber menos quantidade, embora com a mesma freqüência.
2 – Tenta beber com menos freqüência, embora a mesma quantidade.
3 – Tenta não beber durante a semana de trabalho, mas fica contando os dias e horas que faltam para sexta-feira chegar.
4 – Tenta usar outras drogas para diminuir a quantidade de bebida, tomando tranqüilizantes de manhã, para parar de tremer, ou anfetaminas de noite, para poder dirigir o carro.
5 – Muda a marca ou tipo de bebida, assumindo que a anterior é que lhe fazia mal. Ilude-se trocando um litro diário de cachaça por 5 litros de cerveja, achando que assim bebe menos álcool. Sendo mais rico, substitui uísque nacional, por outro importado.
6 – Fica temporariamente em abstinência, por exemplo, quando internado para desintoxicar, quando obrigado a tomar antibióticos ou apenas para “dar um tempo”, depois de uma consulta médica preocupante. Note-se que estes períodos de abstinência tem data marcada para acabar e seu fim é ansiosamente esperado. Quando terminam, o alcoólico acha que depois de tanto sacrifício, agora ele merece “tomar uma só” e tudo começa de novo, detonado pelas poderosas forças da dependência química.
Os períodos de abstinência servem para afirmar e reforçar cada vez mais a negação, embora só sejam conseguidos à custa de maior ou menor sofrimento emocional. O objetivo é provar a si mesmo e aos outros que ele não é alcoólico, que domina perfeitamente a situação e que para de beber quando quer. As frases clássicas são: “Na verdade, eu não preciso beber, acontece que eu realmente gosto de álcool”. Ou então: “Se você tivesse em sua vida os problemas que eu tenho, iria beber ainda mais do que eu”.
À medida que a doença progride, mais e mais este manto de fantasia impede o doente de ver sua realidade. Ele muda de comportamento e atitudes, perde seus valores, cada vez mais enredado na teia da dependência. Basta ler o Livro Azul de Alcoólicos Anônimos, para ver como duas emoções básicas, orgulho e medo, tão saudáveis quando são equilibradas e baseadas em fatos reais, podem tornar-se exasperadas e delirantes, originando as mais variadas turbulências de raiva, inveja, ciúme e ódio.
O alcoólico passa a agir ao sabor da primeira emoção descontrolada que lhe vem à cabeça e, quando as coisas não dão certo, bota a culpa nos outros ou nas situações de vida. Expectativas fantasiosas tornam-se regra e como não se realizam, trazem frustrações, autopiedade e necessidade ainda maior de bebida.
Neste ponto, o manto de fantasia confunde-se com a carapaça da negação, dura, resistente, impenetrável pelo lado de fora, como o casulo. Porém lá dentro, o bicho-da-seda pode encontrar forças para rompê-lo e, ao se livrar dela, sair da escuridão para a luz.
Como o alcoólatra que, vencendo a negação ao reconhecer sua impotência frente ao álcool, encontra o caminho da recuperação e da vida.
E de repente descobre que não gosta tanto assim de praia, nem de freqüentar o estádio do Maracanã…

PARA REFLETIR

Estimados membros deste grupo.
Quando cheguei ao A.A., desesperado porque todas as soluções procuradas até então para tentar parar de beber não haviam dado resultado nenhum, como último recurso antes de ser-me indicado o A.A. por um médico, pedira a Deus, do qual naquele tempo tinha outra concepção, que me tirasse a vida. É evidente que tirar a vida de alguém a pedido não está nas leis divinas, e estou aqui até hoje. Aliás, as vezes penso porquê ainda estou aqui? Digo para os meus filhos que já estou como prazo vencido, pois já estou com oitenta e sete anos. Já há dois anos minha filha mais nova com a qual tanto brincava, passou pela chamada morte que nada mais é do que a passagem para outra dimensão como o nascimento, ela me espera lá no Absoluto.
Hoje, distante do momento em que entrei para o A.A., lembro tranquilo aqueles momentos de angústia quando tantas vezes desejei ardentemente parar de beber sem nenhum resultado e esperança até então. O curioso naquele momento de chegada ao A.A., e hoje compreendido, era o sentir aquele imenso repouso e bem-estar das reuniões, parece que a energia divina impregna o ambiente das reuniões, o que sinto até hoje, apesar de que hoje não tenho ido as reuniões dos grupos locais, por não ter muita segurança no subir escadas, e às vezes no caminhar também.
O fato de ter passado anos sem conseguir deixar de beber um dia se quer, e no dia imediato ao ingresso ter-me sentido absolutamente livre do terrível desejo de beber, naquele momento de ingresso não conseguia entender. Hoje, e já há algum tempo, compreendo esse fato. É a lei divina agindo diante do sentimento de derrota total e de certa forma já da observância das leis da Vida. Nunca mais tive vontade de beber, mas nem por isto me descuido. Cuido não esquecer o passado para não o repeti-lo, e para tirar daquelas desastrosas experiências o melhor aprendizado possível.
Quando dei-me conta de que estava inoperante em A.A., pois apenas havia parado de beber, somente praticava o só por hoje, verifiquei que o parar de beber estava resolvido, mas a doença emocional continuava a progredir, iniciei então a minha reforma pessoal com o estudo e tentativa de sempre e cada vez mais aplicar em minha vida a sabedoria dos Doze Passos de A.A. Naquele tempo, iniciamos com dificuldades o estudo das literaturas, porque muitos não queriam estudá-las no grupo, e alguns chegavam a dizer que ler os livros de A.A. poderia levar a loucura. Muitos naquela época entendiam que só os depoimentos do passado eram suficientes. Lembro que nas comemorativas de aniversários dos grupos, onde apesar de tratar-se de reuniões públicas, a palavra era liberada a todos, e ocorriam verdadeiras competições de desgraças. Ninguém falava do presente ou da recuperação, porque não praticavam e nada tinham a dizer sobre isso. Felizmente esse tempo passou, e conseguimos proceder estudos semanais da Recuperação, da Unidade e dos Serviços, para o crescimento dos interessados.
O programa de A.A. é livre, e por isto percorrer os Três Legados sempre, com persistência e amor e uma escolha pessoal e com a graça de Deus da compreensão de cada um. Agradeço muito ao Deus do meu coração, por ter-me dado a graça de ter querido e procurado sempre ir a fundo na busca do meu autoconhecimento, e trazer em mente sempre a tentativa de conhecer-me cada vez mais e procurar a partir das orientações de A.A. a aperfeiçoar-me no sentido de se não conseguir amar a todos, pelo menos não ter reserva contra ninguém. Meço o meu crescimento, na proporção direta de minha capacidade de tolerar e não me sentir ofendido com qualquer atitude que possamos chamar de críticas ou ofensas. Parto do que fui, para entender hoje e tolerar os outros, no que são.
A descoberta que mais marcou-me foi de que eu fora o meu único inimigo, e de que o pensar, agir livre e descontrolado, principalmente com uma certa ignorância e condicionamentos destrutivos, levaram-me a uma vida sofrida complicada e não entendida por mim. Hoje entendo tudo bastante bem, plantei livremente, devo colher obrigatoriamente. Ninguém foi meu algoz, fui eu mesmo, se não me perdoar, não perdoo o que eu mesmo criei, eu mesmo.
Deus criou o ser humano e deu-lhe uma partícula de Sua própria alma e o poder de criar a sua própria vida e suas circunstâncias, nossa alma conhece tudo, esqueceu ao entrar neste mundo dos fenômenos, precisamos é lembrar quem somos e o que queremos ser, fazendo as experiências necessárias para isso. Conhecíamos a luz no muno do Absoluto, precisávamos conhecer a escuridão aqui, para vermos o que não somos, e por consequência lembrarmos quem somos. Conhecíamo-nos conceitualmente, agora nos conheceremos experimentalmente, criando e gerando conscientemente nossa vida, não temos, portanto, do que nos lamentar. Muitas vezes queremos resolver em pouco tempo e sem praticar bem os passos, o que destruímos por longos anos. Primeiro temos que gerar a fonte da paz com o programa de A.A. para que possamos colher os frutos, eles não chegam antes nem tão depressa quanto desejamos.
A.A. alcançou-me o sentimento de procurar conhecer-me cada vez mais, e a partir daí, seguir novo rumo, alegre, leve, tranquilo, feliz e amoroso. A paz e a tranquilidade começam, chegam e ficam. O grandioso é que o Deus do nosso entendimento nos oferece esta escolha. Aí vê-se claramente que Deus é efetivamente amoroso e deseja que eu siga as suas leis, mas me permite escolher o que eu quiser. Não posso fugir, entretanto do resultado de minhas escolhas. Como vemos a vontade de Deus é a nossa vontade.
Aos meus irmãos e irmãs de doença obrigado pela parceria nesta caminhada de vida em A.A.
O que escrevo são minhas experiências, não tem a conotação de orientação ou sugestão.
Abraços fraternos, muita paz luz e mais 24 h sóbrias.
magno/RS.