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PRECISAMOS UNS DOS OUTROS?

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 34 MAR/ABR 1995

PRECISAMOS UNS DOS OUTROS ?
B.L. – Manhattan, NY)
Traduzido da Grapevine

Se as primeiras palavras que ouvi em A.A. levaram-me em direção ao Primeiro Passo, foi o segundo depoimento que me deu uma esperança instantânea, fazendo com que me sentisse melhor imediatamente. Agora, trinta e um anos depois, eu acredito que a segunda frase que ouvi continha a ideia saudável de nossa então não escrita Primeira Tradição.

Estas primeiras palavras foram: você está tendo problemas com o seu modo de beber? Totalmente despreparada para aquela pergunta, antes de saber o que estava fazendo, acenei com a cabeça um sincero “sim”. Foi um balanço em direção ao Primeiro Passo. Mais tarde, recaí, mas finalmente retornei.

Minha nova amiga riu-se e disse calmamente: “Eu mesma sou uma bêbada; venha e conversaremos sobre o assunto”. Com efeito, convidou-me a participar da Primeira Tradição: “Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A..A.”.

Sua descrição em si comoveu-me com perplexidade e alívio. Assim, silenciosamente, segui aquela mulher maravilhosa para o interior de outra sala, a fim de conversarmos sobre o assunto. Naquele momento, eu a seguiria a qualquer lugar, baseada na sua revelação destemida.

“Bêbada” era uma palavra que eu ressentia – como adjetivo ou substantivo. Sempre me causava aversão. Até que minha amiga falou sobre isso de maneira simples, como podia ter dito que era uma mulher. Ela disse: ” Existem muitos de nós que sofrem da doença do alcoolismo e agora estamos nos dominando”. Eu não estava mais sozinha! Um soluço de alívio brotou. Minha amiga então falou-me, de modo imperturbável, sobre suas bebedeiras e, cuidadosamente, não fez perguntas sobre mim ou sobre as minhas.

No livro “Sede de Liberdade”, David Stewart acentua o tremendo poder de ajuda da empatia. Na empatia daqueles primeiros AAs encontrei, certamente, um poderoso sopro contra minhas bebedeiras, dando-me uma imensa força para a recuperação e, acredito, uma manifestação de nossa Primeira Tradição que vai consideravelmente mais profundo que uma simples identificação. Nós continuamos para seguir bons exemplos de sobriedade e no Décimo Segundo Passo, nós nos colocamos no lugar da outra pessoa, a fim de ajudá-la.

A empatia que me cercava parecia revelar algo em mim que foi o meu primeiro interesse autêntico, como jamais havia sentido pelo bem-estar de outrem e sentia um outro efeito benigno sobre mim: como outros alcoólicos, me sentia a pessoa mais rejeitada, mais solitária da face da terra, um longo tempo antes de tornar-me AA. Meu primeiro maior cumprimento ao segundo depoimento de A.A.: “Eu mesma sou uma bêbada”. Isso quebrou uma parte da minha pretensão de ser tão diferente e era exatamente o que meu ego doentio precisava escutar. Então, sua narrativa sobre alcoolismo e recuperação na companhia de outros alcoólicos rapidamente demonstrou que eu estava muito menos poderosa que os AAs que permaneciam sóbrios, unidos. Deste modo, parece-me que o princípio do anonimato é consolidado nessas palavras: “Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A.A..” Isto significa que devo colocar o bem-estar da Irmandade à frente do meu próprio? Para responder, eu me faço outra pergunta: teria eu algum bem-estar se não fosse através da Irmandade? Significa, esta Tradição, que deveríamos reprimir vozes impopulares ou divergentes dentre nós? Eu penso que significa o oposto.

Suponhamos que você e eu tenhamos opiniões diferentes sobre psiquiatria, religião, atividades de informação pública , ou sobre passos. Não devemos deixar que estas diferenças passem para o campo pessoal, gerando agressões e antipatias. Não devemos permanecer juntos na sobriedade? Não quero dizer ser tolerante; quero dizer realmente respeito. Aprender a trabalhar juntos e cordialmente, não obstante as diferenças, faz parte do amadurecimento e, presumo, algo que não havia antes do A.A.

As palavras de nossa Primeira Tradição não foram escritas no dia em que ingressei na Irmandade, mas, quando meus companheiros asseguraram-me de que poderíamos permanecer juntos, sóbrios; acredito que estavam praticando a Primeira Tradição, que também me parece uma repetição do que Bill W. descobriu em Akron, Ohio, quando sentiu a necessidade de falar com outro alcoólico, a fim de manter-se sóbrio.

No longínquo dia em que ingressei na Irmandade, tão logo atendi ao convite subentendido para tomar parte: eu ambicionei estar nessa companhia. Serei sempre grata pelo que logo fui e tenho sido desde então. Nossa união e nosso bem-estar comum significam tanto para mim que fico embaraçada quando alguém faz comentários irreverentes do tipo: “As Tradições são para o Grupo, não para os membros. Elas existem para apoiar o movimento unido”. Não para os membros? As Tradições são para a recuperação. Alguém de nós recupera-se por conta própria? Não foi a união com outros alcoólicos que nos ajudou bastante? Alguém em A.A. não acredita que foi ajudado a recuperar-se pelo conhecimento de que estamos todos a bordo de uma balsa salva-vidas? Isto não é Primeira Tradição?

A deflação do ego é importante para minha recuperação, e parece-me que esta Tradição sustenta isto. Até o ponto que conheci, por experiência, o anonimato no sentido espiritual que nasce a partir da Primeira Tradição: A nossa unidade! Os elos que nos mantém unidos devem ser tratados com carinho.

Vivência nº 34 – Março/Abril 1995

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A RECUPERAÇÃO EM ALCOOLISMO – ALBERTO DURINGER

A RECUPERAÇÃO EM ALCOOLISMO

Alberto Duringer
Médico – Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes
Ex-Diretor do Hospital Central da Polícia Militar (RJ)

Parar de beber é acontecimento marcante na vida de qualquer alcoólico em recuperação. Quando associado ao dia em que ingressou em um grupo de Alcoólicos Anônimos, é muitas vezes data citada com regularidade nos seus depoimentos. Aniversários deste dia são motivos para comemoração, com troca de fichas e festividades variadas, mas o fato em si pertence ao passado.
Já a recuperação do alcoolismo, ou de qualquer outra doença crônica, não é apenas um episódio limitado no tempo, mas sim um processo, mais ou menos lento, em constante evolução no dia a dia, que exige reformulação interior, sem data marcada para terminar e que pode ser modificado ou interrompido a qualquer momento.
Há quem compare um alcoólico em recuperação a uma pessoa que sobe uma escada rolante que está descendo: se ele parar de subir, inevitavelmente descerá junto com a escada. Assim sendo, é engano imaginar que uma recaída comece no primeiro gole: ela é, na realidade um processo de perda de recuperação que pode terminar nele, a menos que seja detido a tempo.
Em qualquer doença crônica acontece a mesma coisa: diabéticos que interrompem a dieta, hipertensos que voltam a abusar de sal, reumáticos que deixam de fazer fisioterapia, são exemplos de doentes crônicos que interrompem o processo de recuperação e iniciam assim um processo de recaída, o que vai levá-los de volta à situação anterior.
Entendemos alcoolismo como enfermidade que se inicia primariamente como dependência química, conseqüência de muitos fatores que possam ter levado o indivíduo a beber intensa e/ou abusivamente. Atingida a área física, continua o gradual processo de adoecimento, agora alcançando também seu comportamento e atitudes, até que em um último estágio, o alcoólico perde seus valores ético-morais. Nesta última fase, a doença é então física, psíquica e espiritual.
Em qualquer doença crônica, não existe uma cura propriamente dita, isto é, não é possível reverter um dependente químico de álcool etílico em consumidor moderado ou “social” desta substância, já que seu organismo sofreu modificações que impedem o seu uso controlado. No entanto, é possível ao doente um retorno a uma vida plenamente normal, desde que se disponha a agir dentro de um processo de recuperação, o qual deve seguir as três fases do rumo natural de adoecimento:

1a fase (recuperação física) — abstenção completa de uso de álcool.

2a fase (recuperação emocional) — modificação de comportamentos e atitudes, visando encontrar um equilíbrio psíquico que o liberte da tentação de achar que o álcool possa ser solução para seus problemas.

3ª fase (recuperação espiritual) — recuperar ou criar novos valores éticos, morais e espirituais, com o objetivo de se reconciliar consigo mesmo e com o mundo que o cerca, passando a ter um modo de vida sóbrio.

O sucesso que Alcoólicos Anônimos vem tendo desde 1935 na recuperação de alcoolismo deve-se a um programa de 12 Passos que segue esta seqüência natural de ações, com a consciência de que elas só podem ser executadas pelo próprio doente, já que são todas processos interiores.

Isto não significa porém, não precisar ele de ajuda externa., já que existem alguns obstáculos importantes a serem vencidos, a começar pela negação da doença, manipulações variadas e pela própria crise aguda de abstinência. Passada essa fase inicial, que dura em média 10 – 20 dias, surge outra menos conhecida, mas nem por isso mais fácil, a que se convencionou chamar de síndrome de abstinência pós-aguda, de duração mais longa, caracterizada por pensamento confuso, às vezes caótico, enfraquecimento de memória, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, que pode perdurar ainda por muitos meses após o início da abstinência.
Em salas de AA encontram-se sempre novatos nesta situação, sofrendo ainda conseqüências do efeito tóxico do álcool etílico sobre o cérebro e sistema nervoso. Estas pessoas, bastante confusas, costumam apresentar um padrão rígido e repetitivo, muito centrado em apenas certos aspectos de suas vidas, geralmente ligados ao seu passado recente, cheio de culpas, vergonhas, auto-piedade, raivas e ressentimentos. Elas tem grande dificuldade para se concentrar na leitura ou para memorizar alguma coisa do que lêem; suas emoções parecem anestesiadas, ou pelo contrário, estão à flor da pele; seus afetos costumam ser pequenos, estão ainda muito centradas no seu próprio bem-estar. Alguns parecem estar com suas emoções anestesiadas, não prestam atenção a quase nada em sua volta; outros estão inquietos, ansiosos, irritados, reagem com raiva a qualquer contrariedade menor ou comentário ligeiro sobre elas.
Felizmente, na maioria das vezes esta situação não costuma durar mais do que dois ou três meses, tempo necessário para uma recuperação física do sistema nervoso, mas neste período inicial estas pessoas precisam de muita ajuda externa para conseguir evoluir na sua recuperação. Entendendo isto, surgiram dentro de AA as reuniões para novos, nas quais é possível ajudá-los de forma mais eficiente e ao mesmo tempo explicar o que é a irmandade e como funciona. Também nesta fase podem os profissionais de saúde serem muito úteis, ela acaba sendo de forma ideal, um amplo espaço aberto para que surja uma íntima colaboração entre AA e os profissionais da área.
Passada esta fase crítica, surge outra barreira no caminho do alcoólico em busca de sobriedade: tendo aceito os três primeiros passos, ele agora deve entrar em ação, para fazer seu inventário moral. Isto significa mexer nos fantasmas arquivados em algum velho baú da sua mente, confrontar-se com a realidade do seu Eu verdadeiro, descobrir virtudes e defeitos não suspeitados, enfim iniciar uma mudança no seu comportamento, atitudes e valores. Tudo isto desencadeia sempre uma reação muito humana e natural: medo e insegurança.
Não há quem não se sinta temeroso antes de fazer mudanças importantes: o organismo reage de forma típica, apresentando um conjunto de sinais e sintomas que os médicos chamam de stress, ao qual o alcoólico, em fase de abstinência pós-aguda, ainda é particularmente sensível. Por isso, nem sempre é útil um quarto passo precoce, é necessário que exista uma estrutura emocional minimamente já equilibrada, para que ele atenda seus objetivos.
Por outro lado, este medo não deve impedir indefinidamente o início do inventário. A melhor forma de enfrentá-lo é reconhecer sua existência e que sua presença é natural e até saudável; em seguida avaliar se ele tem fundamentos reais ou se está ancorado apenas nas fantasias da mente; finalmente, enfrentá-lo e iniciar uma ação efetiva.
Em alcoolismo existe sempre o perigo de ressurgimento da velha negação, sendo que desta vez trata-se da negação do medo. Pensamentos do tipo “está tudo ótimo”, “parei de beber e isto é o principal” ou “eu já me conheço e não preciso fazer nenhum inventário” são perigosos porque induzem o alcoólico a não fazer o 4º passo ou a ficar adiando-o indefinidamente, procedimentos aliás muito parecidos com os que ele tinha em relação ao álcool, no tempo em que bebia.
Por vezes, ele regride na programação, percebe estar com vontade de beber, volta a se agarrar aos primeiros passos, aumenta a freqüência de reunião, volta a se recuperar, até chegar novamente à barreira do inventário moral com as suas duas opções: enfrentar o medo e entrar em ação ou ver tudo se repetir mais uma vez. Muitos alcoólicos ficam, até sem saber direito o que está acontecendo, bastante tempo nesta gangorra emocional.
Vencido este grande obstáculo, a recuperação fica mais fácil e entra em fase de estabilidade. Agora existe um norte, um rumo a seguir, o alcoólico consegue ver a sua vida e o mundo que o cerca de modo mais equilibrado. Aos poucos, o álcool deixa de ser visto como possível solução para enfrentar problemas e passa a não ter mais muita importância – é um estado a que muitos chamam de sobriedade.
Ancorado na programação de AA o alcoólico encontra valores éticos e morais que lhe permitem levar existência emocionalmente muito mais tranqüila, da qual a bebida está excluída. Só que isto não é um fato isolado de sua vida, como foi dito no início deste artigo, mas sim um processo, que se materializa de 24 em 24 horas, portanto só por hoje. Não existe diploma de aprovação e um fim de curso em 12 Passos. O equilíbrio emocional depende de atividade e vigilância, pois como em qualquer outra doença crônica, recuperação é programa para toda vida.

RESSENTIMENTOS OU ENTREGA ABSOLUTA – REVISTA VIVÊNCIA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 MAI/JUN 2002

Ressentimentos ou entrega absoluta

Quem entrega sua vida a Deus guarda ressentimentos?

Hoje em dia acho que o Programa de Recuperação é simples, mas longe de ser fácil. Quando fui me achegando as salas de A.A. pela primeira vez, disseram-me que voltaria a ficar bem se pudesse desapegar-me e aceitar o que era oferecido.
Naquela época, o medo era minha companhia constante, e a baixa autoestima também.
Por sorte minha, consegui escutar pessoas fazendo depoimentos (com a maior alegria) sobre as boas novas da sobriedade. Apesar de ser novato na Irmandade, e limitada a minha compreensão de sobriedade, mesmo assim senti que estavam tentando passar adiante de maneira amorosa o que tinham e como haviam obtido isso.
“Entregue”, foi o que diziam. “Nós não podemos, Ele pode, e deixamos Ele agir.” Outros diziam ainda: “Entregue e deixe que o Poder Superior segure a barra”, e, para aumentar ainda mais o meu medo, alguém sugeriu que entregasse a minha vida e minha vontade aos cuidados de Deus do meu entendimento. E para me apavorar de fato, alguém teve o peito de dizer que fizesse uma entrega completa, o que eu achei naquela hora uma tarefa impossível.
Por que eu andava com tanto medo? Qual era o meu problema de fato, e onde encontraria as respostas que poderiam curar essa minha mente confusa? Talvez fazendo um inventário pessoal sobre o lamentável estado em que me encontrava. Seguindo esse curso de ação, descobri, para minha grande surpresa, que eu, como tantos outros e outras nas salas de Alcoólicos Anônimos, tinha um Deus do medo, um Deus temível que estava profundamente enraizado na infância.
De que jeito eu iria deixar entrar um Deus desse tipo na minha vida? Afinal de contas, não era Ele a causa de todos os meus males, em primeiro lugar? Mas espere aí, aquelas corujas sábias que eu escutara nas salas estavam me dizendo para entregar e confiar? Apesar de tudo, elas pareciam ter encontrado algum tipo de serenidade e talvez isso também pudesse existir para mim, se eu tivesse a coragem de andar no caminho delas.
Onde elas haviam encontrado a fé que traz a confiança, e de onde receberam o poder que as capacitava a largar tudo, a entregar-se absolutamente? Através da prece e da meditação, falavam elas. E não me haviam dito que o antídoto para o medo era a fé, e que a fé não era fé até que fosse a única coisa à qual você se apega? E largar tudo absolutamente não significa, na verdade, largar tudo em matéria de emoções?
Se não consigo desapegar-me emocionalmente, especialmente na minha relação com outros, é quando permito que as pessoas habitem na minha cabeça. Então a minha doença do alcoolismo toma conta e me torna vulnerável, o que deixa entrar os pensamentos negativos, que derivam da minha natureza negativa, que me força a ficar conversando na minha mente com essas pessoas. Esse é o ponto onde entrego meu poder, que me rouba de qualquer paz ou contentamento que Deus pretendia que tenha nesta vida.
Então, o que significa hoje para mim a entrega absoluta? Desapegar-me totalmente, significa deixar ir embora as coisas emocionalmente a partir do coração, não da cabeça. Meias medidas não me adiantam nada, e entregar-me e deixar Deus agir é confiar sem medo da perda do controle. Confiar em Deus é andar no meio da tormenta, crendo na Sua promessa, mesmo quando você não enxerga as Suas pegadas.
Devo confessar que ainda tenho muito a fazer no sentido de crescer espiritualmente, emocionalmente e mentalmente, bem nessa ordem. Trabalho nisso à medida que sigo adiante, dia após dia, orando muito às vezes para permanecer no agora, procurando lembrar-me que Ele me ama como sou, e que a coisa mais importante para Deus, nesta vida, é o momento presente, não esquecendo que o primeiro gole é o fósforo que acende o estopim da bomba. Permitam-me concluir dizendo: “Meu reino pela maturidade, mas não minha sobriedade por um reino”..
Voltem sempre. Preciso de vocês. (Little Phil, Revista Share)

Vivência nº 77 – Maio/Junho 2002

GRUPOS DE A.A. – DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

GRUPOS DE A.A.
Dr. Laís Marques da Silva.
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.

Temos que buscar, não no grupo, mas sim no que acontece dentro do grupo, os fundamentos de tão dramática transformação que ocorre no decurso do processo de recuperação. O que importa é conhecer a natureza desse processo que leva à liberação de poderosas fontes de energia e tornam possível mudança tão radical na vida dos alcoólicos e que também resultam numa profunda mudança no self. O grupo de A.A., em si, é uma estrutura simples, singela. O que vemos é apenas uma sala sem decorações ou qualquer outra característica que a distinga, a não ser a existência de alguns quadros com referências à Irmandade e a exposição dos Três Legados que dão base e fundamento a todo o admirável processo de recuperação. Tudo o mais se resume em uma mesa e cadeiras.
Assim, inexistem obras de arte, imagens, tapetes, música ambiental, símbolos, mármores, esculturas, paramentos, etc. Lá está apenas o indispensável para acolher alcoólicos em recuperação e dar condições para a realização de uma reunião. Não podendo identificar qualquer materialidade que pudesse dar suporte a tão surpreendente e profunda recuperação que ocorre nos membros do grupo, torna-se oportuno lembrar as palavras de Saint Exupery, no Pequeno Príncipe: “É com o coração que vemos corretamente. O essencial é invisível aos olhos”. Assim fica aberto o caminho para o entendimento, pelo menos parcial, do que dá fundamento à construção de seres humanos, à ocorrência do milagre.

1- Na forma de ritos de abertura.
Nos grupos, as reuniões se iniciam com práticas de abertura, que separam o tempo destinado à reunião, do tempo livre. Assim, após um momento de silêncio, é feita a Oração da Serenidade e são lidos alguns trechos da literatura de A.A. que declaram a condição comum das pessoas ali presentes, o seu problema compartilhado, o alcoolismo. A separação dos tempos é importante, pois se passa para uma outra realidade para uma outra dinâmica.
Cada reunião é um evento social único e nunca baseado no que aconteceu em alguma reunião prévia e nem há qualquer tipo de compromisso em relação a futuras reuniões. O que em uma reunião acontece é próprio daquela reunião. Os membros identificam-se naturalmente e o que importa é a espontaneidade e a necessidade de comunicar a experiência pessoal. A continuidade das reuniões fica por conta da repetição da agenda de reuniões, que usualmente permanece a mesma.

2- Eu sou um alcoólatra.
Os que usam a palavra, habitualmente, iniciam os seus depoimentos dizendo: “eu sou um alcoólatra em recuperação e hoje não bebi pela graça do Poder Superior e a ajuda de vocês”. Assim, ao iniciar, reiteram uma parte do que é dito na abertura e se reconhecem como sendo alcoólicos em recuperação. A fundamental admissão dá início à recuperação e faz parte do processo de superar a negação que o alcoólico na ativa tem em relação aos seus problemas com o álcool. Por outro lado, a identificação pessoal, a declaração aberta de ser um alcoólico, faz com que o A.A. não necessite de critérios objetivos para fazer diagnósticos, porquanto é o próprio reconhecimento da impotência diante do álcool, que afasta a necessidade da aplicação de métodos codificados de diagnóstico. Isso muda radicalmente a atitude mental que o alcoólatra tem em relação ao seu problema. Passa a aceitar a realidade e não mais continua a negá-la.
A condição de ser um alcoólico é tão básica que supera as diferenças individuais e sociais. Passa a não importar a profissão, o nível cultural, social e econômico e nem mesmo o nome, de onde veio, para onde vai, ou onde reside o companheiro. É a identificação de iguais, que mutuamente reconhecem que são torturados pelo mesmo demônio, que dá suporte para a condição de igualdade, diante do problema do alcoolismo, entre os membros dos grupos. Por outro lado, os grupos não estão interessados nas causas do alcoolismo e, portanto, participar do programa de A.A. é uma realização conjunta, de iguais. A auto-identificação dá fundamento à Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

3- A recuperação é possível.
É possível parar de beber. O alcoólatra, que chega ao grupo, encontra pessoas que têm os mesmos problemas, que sofreram as mesmas consequências do alcoolismo e que estão limpas e bem vestidas, que estão bem e alegres, que estão sóbrios. O que sempre parecera ser impossível alcançar, parar de beber e se recuperar, é visto como sendo possível. Portanto, existe um caminho, uma saída para o problema. Surge a esperança, e não é possível dar início ao processo de recuperação sem ela.

4- Ser humano que tem valor.
Ao entrar em um grupo, ao ser bem recebido, o alcoólico tem a oportunidade de falar e, mais ainda, de ser ouvido e não apenas escutado. É acolhido como irmão, em clima cordial, o que o faz crescer a sua autoestima. São recebidos e tratados como seres humanos, como pessoas que têm valor e que apenas são portadores de uma doença que, embora não seja possível curar, podem deter, superar. O recém-chegado ouve que é a pessoa mais importante daquela reunião. E não é hipocrisia, pois que ele lembra aos que lá estão, sóbrios e bem, que a doença continua existindo e que é daquela maneira deplorável que irão ficar se pensarem que já podem beber.

5- Isolamento e comunicação.
O isolamento é característico do alcoólico na ativa. Com o tempo, ele perde a comunicação com os que estão à sua volta em função do alcoolismo e da consequente perda de referenciais, valores e prioridades. Mas o ser humano é um ser social e que se realiza e cresce no convívio com os outros. A troca de interiores os enriquece mutuamente e, por isso, a comunicação é indispensável à vida de todos os seres humanos e, em especial, a dos alcoólicos.
No grupo, o alcoólico encontra o espaço necessário e indispensável para reiniciar a comunicação com outros seres humanos porque, nele, está imerso num silêncio respeitoso e recebe uma atenção que transmite ao alcoólico que faz o seu depoimento a mensagem de que ele tem valor e que por isso é ouvido atentamente. A volta da comunicação cria condições para que ocorra um enorme progresso nas relações com os outros, para uma mudança de comportamento.

6- Pertencer. Ter raízes.
Todas as pessoas necessitam de um certo grau de integração com o ambiente social em que vivem, pois que têm necessidade de pertencer. Participar e realizar-se como ser humano no convívio com os outros é essencial para a estabilidade emocional. Mas o alcoólico, no período da ativa, vai perdendo raízes ao longo do tempo. Freqüentemente, não mais pertence a um clube, não freqüenta mais um curso e, muitas vezes, perde o emprego e o convívio com seus familiares. Perde amigos. Ou seja, em graus variáveis, ocorrem perdas significativas e as raízes vão desaparecendo e observamos, com freqüência, que o que resta são os amigos de bar e os mendigos, moradores de rua. O sofrimento é atroz. No entanto, ocorre que as portas dos grupos são muitas e estão abertas, sem qualquer restrição, para todos os que queiram parar de beber. Também estão abertos os braços e os corações dos membros dos grupos para acolher a todos os que desejarem parar de beber. Nos grupos, ouve-se dizer que se o seu problema é parar de beber, o problema e nosso, dos membros do grupo e do próprio alcoólico, e se o seu problema é beber, o problema é seu. Se decidem entrar para um grupo, começam a pertencer, a ter raízes. É como se ligassem a sua tomada na fonte de energia do mundo.

7- Não há julgamento. Cada um fala, apenas, de si.
Cada membro do grupo oferece, ao depor, as suas experiências pessoais, dentro de um ambiente em que não se faz qualquer comentário em relação a depoimentos anteriormente realizados e nem mesmo ao que está em curso. Não se fazem julgamentos. Nenhum depoimento é interrompido e, por isso, são criadas condições para que eles sejam feitos livremente. Acresce que, como todos os presentes tiveram experiências semelhantes e, das experiências que não tiveram, já ouviram falar em depoimentos feitos por outros alcoólicos, não existe qualquer reação visível por parte dos membros dos grupos que ouvem atentamente e em silêncio respeitoso. Eles não se escandalizam, não há uma reação do tipo: como você foi capaz de? Essa atitude, por parte dos grupos, poderia dar ao depoente a falsa impressão de indiferença diante dos fatos que são relatados. No entanto, ela é fundamental para que aquele que faz o seu depoimento possa abrir irrestritamente o seu coração. A autonomia de quem faz o depoimento é irrestrita e é importante notar que não existe a necessidade de ser aprovado pelos membros do grupo. Ninguém pergunta sequer de onde o depoente veio e para onde está indo. Não há retorno em relação ao depoimento que um membro faz.

8- Anonimato.
É de importância fundamental para preservar o alcoólico em relação tanto à ocorrência de preconceitos quanto ao conteúdo, em si, do seu depoimento. Outro aspecto que deve ser considerado é que o anonimato concorre para tornar seguro o ambiente do grupo, em que as guardas podem ser baixadas e também as defesas naturais, indispensáveis para que um membro do grupo possa fazer o seu depoimento com verdade, o único que, e só dessa maneira, contribui para a sua recuperação. Isso representa uma radical mudança de atitude em relação ao tempo do alcoolismo ativo em que predominava a manipulação, a racionalização e, sobretudo, a negação. Outro aspecto, de igual importância, é que o anonimato previne o crescimento do ego, pois que, estando sóbrio e tendo a seu favor a grande conquista, poderia ocorrer o aparecimento dos “que entendem de alcoolismo e de como se sai dele”, tentados, então, a grandes exibições. Mas ocorre que a humildade é a primeira condição para se consolidar vitória tão importante, para alcançar a serenidade e, aí, o anonimato é o compromisso salvador que leva a aceitar que os “princípios estão acima das personalidades”, pensamento este que é freqüentemente repetido nas salas de A.A.. O anonimato é uma conquista e leva a uma profunda e radical mudança de comportamento.

9- Troca de experiências, forças e esperanças.
O ambiente do grupo, com as características já descritas, torna-se o local próprio para a troca de experiências, para o desenvolvimento de atitudes corajosas e para uma abertura que aponta para um futuro melhor, para ter esperança.

10- Ser e ter.
A Irmandade de Alcoólicos Anônimos fez opção pela pobreza. Nela, se quer ser e não ter. Como não há limites para a vontade de possuir mais, o desejo de ter mais leva à ganância, ao egoísmo e ao individualismo. A cobiça leva ao antagonismo entre os seres humanos. No grupo, a atenção não está voltada para ter, mas para o alcoólico que ainda sofre. Não está voltada para as coisas, mas para as pessoas, para o ser humano. Em A.A., a busca é por ser digno, ser honesto, ser fraterno, ser bons e amáveis companheiros, ser bons amigos, ser bons pais, ser bons filhos, ser e ser gente.
Os comportamentos, as maneiras de sentir, pensar e agir, na sobriedade, são profundamente diferente daquelas que predominavam quando os companheiros estavam no alcoolismo ativo. Há uma diferença sensível entre as pessoas que vivem no modo ter e as pessoas que vivem no modo ser, esse sim, que induz a um relacionamento amoroso e pacífico. Ser implica em atividade, renovação, criatividade. É mudança, é crescimento. É vida, é processo que leva a uma mudança interior e, conseqüentemente, a uma profunda mudança de comportamento.

11- O alcoólico e não o alcoolismo.
Toda a Irmandade está voltada para o alcoólico e por isso não faz estatística e nem se dedica a estudar o alcoolismo. O que interessa é o ser humano que sofre de uma condição de alto poder de destruição, que é o alcoolismo. Ela também não faz pesquisa de qualquer tipo, pois isso poderia implicar em submeter os seus membros a processo de estudo e pesquisa. Em A.A. ninguém é submetido a nada. A liberdade pessoal é respeitada, no máximo da sua dimensão.

12- Identifica.
Não são consideradas as diferenças sociais: econômicas, culturais, religiosas, etc. Ou seja, as categorias ou estratos dos membros que compõem os grupos não importam. O A.A. não propriamente iguala mas, sobretudo, irmana. Rótulos não são considerados.
Estando voltados para o seu problema comum, que não é pequeno, resulta que os membros do grupo convivem num ambiente formado por pessoas que se identificam profundamente em torno do seu grave problema comum, o que ameniza as diferenças sociais, dilui as categorias e os estratos existentes na sociedade. Resulta que todos ficam irmanados e não são valorizados os títulos, que reduzem a dimensão humana. Mas nesse mesmo ambiente, cada um mantém, preserva, a sua individualidade, não importando o papel que desempenhe na sociedade. Freqüentemente, os membros não sabem nada a esse respeito. O que importa é o problema comum, o alcoolismo.

13- Inclui, não exclui.
Não há qualquer formalidade para o ingresso de um alcoólico em um grupo. Nada é exigido como condição de entrada. Nem mesmo que esteja limpo ou sóbrio. Nem o nome, nem de onde veio, nem o que fez e o que faz, nem para onde vai. Nada, simplesmente.
A decisão de incluir, sem restrições, é um enorme desafio, que exige muita coragem da parte dos companheiros que compõem os grupos, e também que seus membros estejam bem estruturados, que se mantenham num crescimento contínuo por meio da prática do programa de recuperação para que possam estar em condições de receber pessoas profundamente desequilibradas, desestruturadas, doentes. Acresce ainda que, como não há dogmas em A.A., nada há o que impor, sendo que o programa é apenas sugerido ao recém-chegado. Não há nenhum outro agrupamento humano com estas características.

14- Não há código disciplinar.
Ninguém pode ser punido ou excluído do grupo, a despeito do que fale ou faça. Esse fato se constitui num desafio assombroso e exige um alto grau de aceitação, de compreensão, de tolerância e de amor ao próximo. Não há nada igual sobre a Terra, onde todas as instituições têm os seus estatutos, normas, convenções, etc., ou seja, um conjunto de normas e punições. É o Deus amoroso que reina e não o que julga e castiga. Não há juízo e, muito menos, juízo final.

15- Evite o primeiro gole. Só por hoje.
Não seria possível, para os alcoólicos que chegam aos grupos, fazer promessas e assumir compromissos para toda a vida. Seria pesado demais para qualquer pessoa e, especialmente, para eles. O objetivo de ficar e se manter sóbrio é alcançado pouco a pouco, um dia de cada vez. Como foi ensinado há milênios, “a cada dia bastam as suas tribulações”. Mais do que isso, só é preciso estar atento ao primeiro gole, nada mais, e num segundo momento, assumir que isso é só por hoje.

16- Direito de participação.
Como não há estratos e nem hierarquia, o direito de participação assegura que todos, indistintamente, possam participar das atividades, de todos os serviços necessários à manutenção do grupo e indispensáveis para ter as portas abertas, além das atividades da própria Irmandade de Alcoólicos Anônimos, como um todo e a nível mundial. Mas participar significa conviver, aceitar o próximo, harmonizar-se com as pessoas, aceitar objetivos e irmanar-se com os outros membros do grupo, com todos os que formam essa tão alargada forma de associação humana. Tudo isso leva a uma profunda mudança comportamental, indispensável à integração na grande comunidade dos humanos. Participar das atividades do grupo e da Irmandade de A.A., como um todo, significa estar no caminho da reinserção, do convívio dos humanos.

17- Serviço, instrumentalização do amor ao próximo.
Irmanados em torno de propósitos comuns e tendo como objetivo estar em condições de estender a mão aos que ainda sofrem nas garras do alcoolismo, o serviço concorre para uma mudança radical de comportamento. O alcoólico sai de si, deixa de ser o centro, esquece momentaneamente os seus problemas para se dedicar ao próximo. O ideal superior, livremente escolhido e assumido, de manter as portas do grupo abertas para receber os que sofrem no alcoolismo e para levar a eles a mensagem de A.A. faz com que os membros do grupo cooperem entre si. Por outro lado, isso leva ao desenvolvimento de um clima de entendimento e harmonia, e resulta que todos se tornam mais sociáveis. Era o que não acontecia nos tempos de ativa. Quem coopera aprende a amar o próximo.
Ao cooperar, aceita o próximo, valoriza-o e aprende a amá-lo como irmão. Caminha para a solidariedade. Ocorre, como decorrência, uma profunda modificação nos interesses e na conduta de cada um dos membros do grupo. Uma notável mudança comportamental.

18- Responsabilidade auto-atribuída.
O assumir o ideal maior de apoiar o grupo, de levar a mensagem a quem ainda sofre e de manter as portas abertas para receber o alcoólico que chega, coloca a Irmandade de A.A. em ação, gera o imperativo de responder às necessidades, isso é, conduz à responsabilidade. Todos assumem os serviços por se entenderem responsáveis, e daí resulta a fundamental auto-atribuição de responsabilidade. Se ela fosse, de algum modo, imposta, poderia ser rejeitada ou não cumprida. Mas, como é auto-atribuída, é plenamente aceita e os serviços são realizados, usualmente, à perfeição.
Ao se tornar responsável, o membro do grupo, dentro da possibilidade de cada um e dos limites tradicionalmente aceitos, contribui com os meios materiais necessários para manter o grupo, que passa a ser o centro das decisões e a não depender de ajuda de fora. Ademais, permite que o A.A. permaneça fiel aos seus objetivos e imune a influências externas. Isso dá a todos os seus membros a sensação de poder, de ser capaz – o que concorre para aumentar a autoestima.
O ato da doação torna-se um exercício, um ato de poder feito com as próprias mãos, um ato de vontade. Atua como se fosse uma “ginástica” da responsabilidade que fortalece a vontade e muda o comportamento ao longo do tempo. E responsabilidade era o que o alcoólico na ativa não tinha, pois que frequentemente era acusado de ser um irresponsável por todos à sua volta.

19- Conhece-te a ti mesmo.
Quase todos os passos do programa de recuperação estão voltados para o autoconhecimento. Ao estudar e praticar os passos, o alcoólico evolui, ao longo da vida, em direção ao seu interior, a si mesmo, o que lhe dá valor e grandeza espiritual, além de possibilitar a melhoria da única parte do mundo que depende só dele, que é ele mesmo.
Ao praticar o Programa de Recuperação, o companheiro de A.A. reconhece a sua individualidade, entende que é um ser único na Criação. Caminha na conquista de si mesmo. Encontra sentido para a sua vida. Percebe que é um fim em si mesmo e que tem espírito próprio. Ganha plena consciência de si mesmo, se aceita inteiramente. Caminha para a solução dos seus mais recônditos problemas.

20- Solução das culpas e das vergonhas.
Ao ficar e permanecer sóbrio, o alcoólico tem que enfrentar a sua realidade, a verdade, as conseqüências do seu alcoolismo, lidar com o fato de se sentir incapaz, impotente, inadequado. Culpas e vergonhas surgem de forma contínua. Mas a freqüência aos grupos possibilita desfrutar de um ambiente seguro em que as pessoas compreendem e não julgam, contribuindo isso para a solução, de modo eficaz, dos problemas relacionados às culpas e às vergonhas. O amor ao próximo e o anonimato são outros fatores fundamentais para a solução desses problemas.
Para a solução das culpas e das vergonhas, o alcoólico encontra, em determinados passos do programa, a solução ideal para esse tipo de problemas, sendo que a prática dos passos é facilitada pela solidariedade, pela compreensão e pelo não julgamento por parte dos membros do grupo.
21- Compreensão
Há momentos na vida de um alcoólico em recuperação em que é preciso desabafar, fazer confidências. Mas é neles que observamos que é muito difícil encontrar pessoas que possam merecer a nossa confiança. É preciso encontrar alguém que se disponha a ouvir, estando presente de corpo e alma, que aceite o envolvimento emocional que essas situações produzem e que, sobretudo, sejam capazes de entender.
É ainda é indispensável que o confidente seja reservado e que respeite a pessoa que abre o coração, que seja pessoa de confiança. Mas ainda, é indispensável que compreenda, que tenha compreensão, sem o que não haverá a necessária empatia, uma sintonia fina de afetos, uma troca de interiores. Indispensável ainda é que as relações entre essas pessoas sejam amigáveis e sentimentais e que possam ser ajustadas as diferenças entre elas. Outro aspecto muito importante é que o confidente se exima de fazer julgamentos, que poderiam impedir o desabafo.
Tantos são os requisitos que fica difícil encontrar a pessoa com quem se possa confidenciar. Mas o que se observa é que, no grupo, essa necessidade é satisfeita à saciedade, uma vez que todos compreendem por terem vivido experiências semelhantes, e todas muito dolorosas. São pessoa que não julgam, que mantem o anonimato e que estão abertas ao sofrimento. Que têm amor ao próximo.

22- Ambiente alegre, de pessoas felizes.
Os sofrimentos das pessoas que padecem do alcoolismo são intensos e atingem todas as dimensões do ser humano: física, mental, espiritual, econômica, familiar, etc. e seria previsível encontrar, nos grupos, um clima de intensa dor, clima pesado de tragédia humana. Mas não é assim. As pessoas estão bem, freqüentemente alegres, limpas, vestidas com dignidade e em ambiente de cordialidade.
Isto é muito importante porque, para ouvir os depoimentos, é preciso estar aberto, aceitar sentir dor. Mas ocorre que, usualmente, as pessoas evitam desconfortos e se afastam dos ambientes pesados criados pela dor mas, desse modo, não desenvolvem a compaixão que os enriqueceria.
As pessoas que frequentam os grupos são vitoriosas. Vivem a realidade de que não são pessoas que “não podem beber”, mas que são pessoas que “podem não beber” e isso faz toda a diferença. São pessoas que não estão sendo levadas, sabe-se lá para onde, por um furacão mas que começam a ter poder sobre si mesmas, começam a comandar os seus barcos e a ser donos dos seus destinos. Sabem que não podem tudo, mas que podem muitas coisas. Enquanto que, no passado, eram muitas as perdas, agora são muitos os ganhos. Mas seria previsível encontrar alguma tristeza, pelo menos. No entanto, o sentimento predominante é outro.
As pessoas que estão presentes no grupo têm consciência profunda do sofrimento relatado por quem faz o seu depoimento e o escutam atentamente, em silêncio respeitoso e empático, desejando ajudar o companheiro no sentido de aliviar o seu sofrimento. Acontece que o sentimento que surge nessas condições se chama compaixão, é denso e se desenvolve na sua plenitude no ambiente de silêncio acolhedor do grupo. É a resposta espontânea daquele que está aberto para quem oferece o seu depoimento. Nem a própria dor pesa tanto quanto a que se sente com alguém e por alguém. Essa dor retorna amplificada, posteriormente, por meio das lembranças que surgem do depoimento feito; são ecos que reforçam a compaixão e que, por seu lado, elevam a dimensão humana de quem ouve o depoimento e, na compaixão, despertam para o amor ao próximo, para os sentimentos de fraternidade e de solidariedade. Mas compaixão não é o mesmo que tristeza, não é o mesmo que ter pena. É muito mais que isso. As pessoas se sentem bem nos grupos e são felizes no convívio com iguais.

23- Solidariedade e crise.
Um poderoso sentimento de solidariedade está presente nos grupos, e é estimulado por uma condição relacionada ao alcoolismo, uma situação de crise. Desastres ambientais, com vítimas, despertam solidariedade a nível mundial. Genocídios, como os que recentemente vimos praticados numa escola russa, despertaram solidariedade a nível mundial. Na sala de espera de uma UTI identificamos o sentimento de solidariedade entre os que esperam notícias de melhora dos seus entes queridos. Mas, superados os dolorosos problemas, as pessoas se afastam e os sentimentos nobres gerados pela crise se atenuam ou mesmo desaparecem. Relacionamentos tão próximos são desfeitos.
A doença do alcoolismo é incurável, ou seja, a crise gerada pelo alcoolismo permanece, está sempre presente. Este é o lado bom porque ela continua e também a correspondente resposta, que é o forte sentimento de amor ao próximo, de solidariedade.

24- Novo ciclo de amizades.
Este é mais um aspecto positivo da Irmandade. Todo um conjunto de novos relacionamentos é oferecido aos que chegam aos grupos. Funciona como se fosse um escudo de proteção social formado por pessoas vitoriosas, felizes, equilibradas, de bem consigo e com a vida, que se aceitam e aceitam os outros e que admitem estar dentro de um processo de evolução, de crescimento na sua dimensão humana, o crescimento de pessoas que aprofundam o seu nível de consciência e que se mantêm no processo de recuperação, de crescimento espiritual.

25- Alicerce e construção.
A sobriedade é indispensável para que haja uma evolução favorável no quadro do alcoolismo. Ela é o alicerce, mas não se faz um alicerce para nada. Em cima do alicerce, a sobriedade, vem a serenidade, a evolução, que leva à construção de um novo ser a partir de uma profunda mudança, de uma mudança no “self”, sem o que nada melhora de modo significativo e duradouro. É o que se constrói em cima do alicerce. E esta evolução é oferecida aos que estão nos grupos por meio do programa de recuperação, magnífico programa, também adotado por um grande número de outras formas de associação humanas.

MÃE

MÃE

Fiz o que me pediu. Fui à festa, mãe.
Fui a uma festa e lembrei-me do que me disseste. Pediste-me que eu não bebesse álcool, né mãe.
Então, bebi uma apenas uma “Coca-Cola”.
Senti orgulho de mim mesma e do modo como me disseste que eu me sentiria e que não deveria beber e dirigir. Ao contrário do que alguns amigos me falaram.
Fiz uma escolha saudável e o teu conselho foi correto. Quando a festa finalmente acabou, o pessoal começou a dirigir sem condições. Então, fui para o meu carro, na certeza de que iria para casa em paz, mas eu nunca poderia esperar o que iria acontecer, agora estou deitada na rua e ouvi o polícia dizer:
“O rapaz que causou este acidente estava bêbado”, mãe, a voz parecia tão distante, o meu sangue está escorrendo por todos os lados e eu estou tentando viver com todas as minhas forças, estou tentando não chorar, posso ouvir os paramédicos dizerem: “A garota vai morrer.”
Tenho certeza de que o rapaz não tinha a menor ideia do que iria acontecer enquanto ele estava a toda velocidade, afinal, ele decidiu beber e dirigir e agora tenho que morrer!
Então por que as pessoas fazem isso, mãe? Sabendo que isto vai arruinar vidas? A dor está me cortando como uma centena de facas afiadas.
Diz à minha irmã para não ficar assustada, mãe, diz ao papai que ele seja forte e quando eu for para o céu escreva: “Menina do Pai” na minha sepultura, alguém deveria ter dito àquele rapaz que é errado beber e dirigir. Talvez se os seus pais tivessem dito, eu ainda estivesse viva.
Minha respiração está ficando cada vez mais fraca mãe, e estou ficando com medo, estes são os meus momentos finais e sinto-me tão desesperada. Eu gostaria que tu pudesses abraçar-me, mãe, enquanto estou esticada no chão e morrendo, eu gostaria de poder dizer que te amo, mãe!
Então, te amo muito, minha mãe, adeus…”
Estas palavras foram escritas por um repórter que presenciou o acidente. A jovem, enquanto agonizava, ia dizendo as palavras e o repórter ia anotando, muito chocado. Pois, este repórter iniciou uma campanha. Com este pequeno gesto pode fazer uma grande diferença.

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Via: Lição de Vida

AS DUAS FASES DA SOBRIEDADE

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 93 – JAN/FEV/MAR 1993

AS DUAS FASES DA SOBRIEDADE

Meu padrinho morreu depois de uma recaída, aos 44 anos de idade e quatro de sobriedade, quando eu estava há dois anos no A. A. Alguns meses depois, um parente próximo também perdeu a sobriedade de aproximadamente sete anos em A. A., embora não tenham sido de sucesso total. Estas duas experiências negativas, de pessoas muito próximas de mim, levaram-me a questionar minhas oportunidades de permanecer no programa.
Quando estava com um ano e meio de sobriedade, tive sérias dúvidas sobre minhas possibilidades de continuar nesta caminhada.
Nos vários anos que se seguiram à minha experiência em A.A., devotei-me muito a pensar nos recaídos e naqueles que tinham dificuldade para manter a sobriedade. Procurei descobrir as motivações de seus problemas não somente para ajudá-los mas, sobretudo, para que o mesmo não acontecesse comigo.
Pouco depois, relacionei-me com alguns membros de A.A. que, com cinco, dez ou quinze anos de sobriedade, tinham recaído desastradamente. Alguns se recuperaram mas outros se perderam completamente. Isto me levou a um estudo mais aprofundado desse maravilhoso programa de Alcoólicos Anônimos.
Comecei a notar a existência de duas fases distintas em nossa jornada para a sobriedade.
É indiscutível: as duas fases têm inúmeras subfases. Na minha humilde opinião, os alcoólicos que continuam a ter ou meter-se em dificuldades após vários anos de programa – diga-se, muitos anos livres do álcool – são, geralmente, aqueles que não conseguiram passar da primeira para a segunda fase.
A primeira fase começa com a admissão de sermos impotentes perante o álcool e de que perdemos o domínio sobre nossa vida.
Esta admissão, sendo verdadeira, torna o restante do programa “obrigatório”. A esta altura, todavia, os demais Passos parecem não ter qualquer relação com o nosso problema de bebida e muitos saltam do Primeiro para o Décimo Segundo Passo, onde começamos a pôr em ação certos sentimentos adquiridos quando tivemos a coragem de admitir nosso problema.
Cedo começamos a nos libertar da compulsão pela bebida, provavelmente porque o Décimo Segundo Passo nos põe frente a frente com alcoólicos sofredores que nos relembram o passado. Isto nos manterá sóbrios por enquanto. É o estágio chamado lua-de-mel, empolgação ou das nuvens cor-de-rosa. Se começamos a olhar para os outros Passos, fazemo-lo rapidamente, não nos conscientizando da importância de cada um. É muito provável que o orgulho em geral e o orgulho de estar sóbrio em particular crie barreiras à penetração no programa com mais profundidade. Se não entrarmos na segunda fase neste ponto, começamos a perder o interesse pelas reuniões e a nos envolver excessivamente com nossos próprios negócios.
A segunda fase é necessária para uma sobriedade alegre e duradoura. Nesta fase, devemos trabalhar com mais seriedade aqueles Passos trabalhados levemente. Ainda estamos aflitos com ressentimentos não revolvidos e, muitas vezes, cheios de auto piedade.
“Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta”.
Quando começamos a fazer isto e a rever os Doze Passos em profundidade, percebemos haver muito mais nestes Passos do que jamais sonháramos. Mesmo sendo agnóstico, quando cheguei ao A. A., agora penso ser o Terceiro Passo o centro do meu programa e os Passos restantes raios partindo do núcleo para a periferia. Entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebo, é fácil de dizer mas difícil de fazer. É muito fácil para a personalidade alcoólica assumir o comando de sua própria vida e, então, naufragar. Somente através da tentativa confirmada de praticar inteiramente este programa estou apto para fazer progressos no Terceiro Passo, o qual me leva à segunda fase.
Possivelmente não há limite do aprofundamento de cada um nesta fase. Como seres humanos, somos todos imperfeitos. Necessitamos trabalhar constantemente a fim de obter a paz e a serenidade, nossas companheiras no caminho da sobriedade. Medos, frustrações, raivas, ressentimentos: permitir que estes sentimentos nos façam apreensivos ou inquietos são indicadores da falta de progresso. Com a ajuda de Deus e de meus companheiros de A. A., espero ter o privilégio de permanecer neste programa pelo resto de meus dias. Algum dia, num futuro distante, talvez esteja em condições de me aproximar da realização completa do Terceiro Passo.

(Fonte: Grapevine. Reimpresso com permissão)

VIVÊNCIA N.° 23 – JAN/FEV/MAR 1993

A UNIVERSIDADE DA SOBRIEDADE EMOCIONAL

magano – ÁREA 7 – RS

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – A UNIVERSIDADE DA SOBRIEDADE EMOCIONAL.

SEGUNDO PASSO.
“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”.

No Segundo Passo, A.A.. abre os braços a todos os seres, crentes, descrentes e indiferentes em relação a um Poder Superior, ele sabe que muitos dos adoradores de Shiva, de Alá, de Deus, do Grande Espírito, ou de outras denominações para o ente divino, ou os que creem em algo indefinido ou simplesmente são descrentes, fazem o que fazem pelas informações e condicionamento recebidos de sua origem e meio.
Poucos são os que o fazem, por opção própria, uma busca individual do conceito de divindade tendo por base a experimentação e o consequente resultado daquilo que buscam e encontram, satisfazendo assim suas necessidades e realizações espirituais.
A.A. nos fala da importância de manter a mente aberta, para que o/a doente alcoólico/a proceda a escolha de sua Força Superior que pode ser a própria energia do grupo, e a conceitue a seu modo. A mente aberta é uma mente virgem, que se despe do que sabe, não para despreza-lo, mas para apreciar o novo ou o antigo desconhecido, sem a influência do que sabe, e assim poder tirar as mais sábias conclusões. Nessa busca, A.A. nos sugere que não nos envolvamos com definições científicas (psiquiatria) e teológicas (religiosas) sobre o seu programa, e que só sigamos sua orientação, cuja fonte é ouvir e sentir o Eu interior que é o Poder Superior que está em nós, para obtermos crescentes orientações e resultados benéficos.
Essa disposição de aceitar uma força maior a si mesmo, leva o alcoolista à crença em algo que vem devolver-lhe a sanidade conforme nos promete A.A.., e efetivamente fazendo progressiva e firmemente seu programa chegamos à sanidade cada vez maior, quer seja física, psíquica, emocional e desenvolvimento espiritual.
Esses resultados, obtidos pela experimentação e contatos com o Eu interior na meditação, geram orientações e uma fé que efetivamente funcionam, porque é sobre algo verdadeiro que produz os resultados prometidos, que nos chegam pela qualidade da fé genuína, oriunda da experimentação e não de informações de segunda mão, trazidas pela tradição.
Não fui nem sou agnóstico ou ateu, estive em minha meninice, adolescência e juventude muito ligado a uma religião, sem ser, entretanto, religioso conforme entendo isso hoje, ou seja, ter a intenção de sê-lo pôr compreensão, e praticar essa religião por esse fato; eu acompanhava as atividades religiosas por hábito; fazia-se isso, eu fazia também, se ia aos cultos, eu ia também, se repetiam orações prontas, eu as repetia também, e só. Para mim, a imagem de Deus que me ensinaram, era um ser antropomorfo, uma figura humana, até então, e que me dava medo, porque julgava, condenava e punia, me perdoando, só se eu praticasse certos ritos.
As perguntas filosóficas que quase todos os seres humanos se fazem em algum momento na vida, eu me fiz também: De onde vim, quem sou, o que faço aqui e para onde irei, qual o propósito da vida? Não obtinha respostas, repetia orações prontas, não sentia, nem entendia nada, era um autômato que vivia orientado pelos pacotes prontos de informações que recebera da família, da religião, da escola, do trabalho e de meu meio, sem questioná-las, sem entendê-las, e até sentindo que algumas eram mitologias, como também não as questionaram quem as recebeu e me as transmitiram. Não era religioso, espiritualizado e nem feliz, vivia num vazio, a procura de felicidade nos bens materiais, no prestígio e no relacionamento amoroso, e logo ali tudo se frustrava. Casei-me com 23 anos, e vivi até os 32 anos, sem beber doentiamente, apesar de que já a partir dos 25 anos começara lentamente e tudo dentro da relativa normalidade; aos 30 anos comecei a beber nos fins de semana e aos 34 a situação começou a se tornar grave. Resolvi parar, não consegui e recorri a vários tratamentos psiquiátricos, psicológicos e religiosos, e nada funcionou, para parar de beber.
Em 1975 pôr recomendação médica, já com quase 45 anos, entrei em AA, a primeira parte do primeiro passo (sentir a derrota total) eu já a tinha feito com perfeição por necessidade, talvez por isso não me foi difícil ficar sem beber até hoje e não ter tido mais vontade de beber, apesar de que quando comecei o exercício da recuperação propriamente dita, (já tinha uns cinco anos sofridos em AA) sofridos porque eu só havia tampado a garrafa, e a parte da doença emocional continuou a progredir; jamais me afastei do programa e do serviço em A.A., se bem que hoje quase só na internet.
O 2º passo casou extraordinariamente bem com meus sentimentos e capacidade de compreensão e limitações, ou seja, conceber meu Poder Superior à minha moda, do meu jeito, e dentro de meu entendimento e de minhas limitações como sendo a Causa Primeira, e com os exercícios dos Doze Passos, as respostas foram chegando uma a uma e minha vida hoje tem sentido. Sei que quando tenho dor, revezes ou dissabores, é pôr que fiz ou deixei de fazer algo, e pôr essa razão, não mais sofro pôr tê-los. Sei que Ele não está em cima nem em baixo, nem nos lados, Ele é, está em tudo e em toda parte, (portanto em mim também), não tem forma nem nome, me ama e me protege, apesar de meus desvios do caminho, de meus defeitos, de minhas mazelas na vida. Por tentar seguir Suas leis, já sinto prazer. A bondade Divina para mim está expressa em sua extrema justiça, imutabilidade e impessoalidade, mas dentro desses princípios, Ele deu-me o poder de criar minha vida e suas circunstâncias, ele não tem vontade sobre mim, pois deu-me o livre arbítrio para ser livre em minhas escolhas, e alerta-me apenas qual o caminho da volta para casa, mas seja qual for o caminho que eu escolher não preciso temer o resultado que é um só, um glorioso retorno no final para casa, se eu der muitas voltas levarei mais tempo, sofrerei um pouco mais, mas o fim é sempre feliz e um só para todos, independente do tempo e meios que percorremos. A dor, os infortúnios, e os revezes, não são castigos, nem cruzes, são os efeitos das causas de minhas transgressões, conscientes ou não às leis divinas. Se não fossem essas leis profundamente amorosas, imutáveis e impessoais, eu não teria retornado ainda ao caminho de volta, não estaria vivo aqui, hoje, e não estaria escrevendo a vocês, exclusivamente o que penso e entendo, sem nenhuma referência pessoal a qualquer pensamento aqui expresso por outros, e muito menos pretendendo que qualquer um companheiro ou companheira concorde com isso, é coisa minha, é meu caminho, são minhas experiências, é a concepção que tenho de meu Poder Superior, conforme A.A. me sugere. No decorrer dos anos a felicidade e a paz vem chegando para ficar.
O que é felicidade? Para mim, é estar de bem comigo, com os outros, com a vida, com o P.S., é esquecer-me às vezes de que existo, é saber que nada de fora de mim pode me irritar perturbar, tirar a paz, e que minha mente, com o treino que fiz e venho fazendo, eu domino bastante hoje, e que há um Poder Superior regendo toda a minha vida, não preciso, portanto, ter medo, Ele não julga, não condena nem castiga, Ele é amor, preciso é tentar sempre seguir as Suas leis. Prefiro hoje ser feliz, Ele me permite. Enquanto eu entendia que ser feliz dependia de minha esposa, de meus filhos, de meus amigos, de meus colegas, de meus patrões, do governo ou de meus companheiros(as), ou de não ter problemas de dinheiro, de saúde, de relacionamento, de emprego, eu era infeliz, pois nenhum deles fazia o que eu achava melhor, nem mesmo eu fazia, nem essas coisas desejadas por mim aconteciam, e aí eu só podia sofrer mesmo, e tanto quanto mais rijo eu fui nas minhas exigências, mais eu sofria. Parece-me que o que escrevo são coisas puramente espirituais e que segundo meu juízo, estão dentro dos princípios de AA, aos quais procuro ser fiel, por interesse próprio, necessidade e gratidão. Sendo neste universo, tudo energia, minha concepção da Causa Primeira é que Ela é energia, não preguei ou defendi aqui princípio algum, pois isto A.A. me pede que não o faça.
Obrigado irmãos e irmãs de doença, pela parceria nesta jornada de A.A., muita paz, luz e mais 24 h sóbrias.
magno/RS.