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EIS O A.A. …UMA INTRODUÇÃO AO PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO DE A.A.

EIS O A.A.
…uma introdução ao programa de recuperação de A.A.

Alcoólicos Anônimos ® é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperar do alcoolismo.
· O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de A.A. não há necessidade de pagar taxas nem mensalidades; somos auto-suficientes graças às nossas próprias contribuições.
· A.A. não está ligado a nenhuma seita ou religião, nenhum partido político, nenhuma organização ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apóia nem combate quaisquer causas.
· Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade.

Só voce pode decidir

Se a bebida lhe parece estar causando problemas, ou se seu beber chegou ao ponto de
preocupá-lo um pouco, talvez lhe interesse saber algo sobre Alcoólicos Anônimos e seu programa de recuperação do alcoolismo. Depois de ler este breve sumário, você poderá achar que o A.A. nada tem a oferecer-lhe. Neste caso, sugerimos apenas que mantenha a mente aberta sobre o assunto. À luz do que você aprender destas páginas, considere cuidadosamente seu hábito de beber. Decida, por si mesmo, se o álcool se tornou ou não um problema em sua vida. E lembre-se de que será sempre bem-vindo entre os milhares de membros de A.A. que resolveram seus problemas de bebida e agora levam uma vida “normal” de construtiva sobriedade no dia-a-dia.

QUEM SOMOS

Nós de A.A. somos homens e mulheres que descobrimos e admitimos ser incapazes de controlar o álcool. Aprendemos que precisamos viver sem ele, a fim de evitar a ruína para nós mesmos e para os que nos são caros.
Com grupos locais em milhares de comunidades, participamos informalmente de uma irmandade internacional, com membros em mais de 134 países (Em 1994, existeA.A. em 144 países.). Nosso único e fundamental propósito é mantermo-nos sóbrios e atender àqueles que procuram nosso auxílio, ajudando-os a alcançarem a sobriedade.
Não somos reformadores nem estamos ligados a qualquer grupo, causa ou filiação religiosa. Não temos desejo algum de tornar o mundo abstêmio. Não recrutamos membros. Evitamos impor nossos pontos de vista e só nos pronunciamos sobre eles quando solicitados.
Em nossa Irmandadeencontram-se homens e mulheres de idades e níveis sociais, econômicos e culturais os mais variados. Muitos dentre nós beberam por anos a fio antes de compreenderem que o álcool era, para eles, incontrolável. Outros tiveram a sorte de chegar a essa conclusão logo que começaram a beber exageradamente.
Variam as conseqüências de nossa maneira alcoólica de beber. Alguns de nós estávamos praticamente perdidos antes de buscar a ajuda de A.A. Não tínhamos mais família, bens ou respeito próprio. Tínhamos vivido na sarjeta de muitas cidades. Havíamos sido hospitalizados e presos vezes sem conta. Havíamos cometido muitas ofensas graves contra a sociedade, contra nossas famílias, contra nossos patrões e contra nós mesmos.

Outros de nosso meio nunca foram presos ou internados. Nem perderam empregos ou famílias por causa do beber. Porém, finalmente chegamos ao ponto onde descobrimos que o álcool estava interferindo em nossa vida normal. Quando descobrimos que não poderíamos viver sem o álcool, também procuraram ajuda no A.A.
Todas as grandes religiões estão representadas em nossa Irmandade e muitos líderes religiosos têm estimulado nosso crescimento. Contamos até alguns ateus e agnósticos entre nós. A fé ou a filiação a qualquer credo não constitui condição para ser membro de A.A.
Une-nos um problema comum: o álcool. Reunindo-nos; trocando idéias ou ajudando, juntos, outros alcoólicos, podemos de algum modo, permanecer sóbrios e eliminar a compulsão para a bebida, o que outrora fora uma força dominante em nossas vidas.
Não temos a pretensão de sermos os únicos possuidores da resposta para o problema do alcoolismo. Sabemos que o programa de A.A. funciona para nós, e temos visto funcionar, quase sem exceção, para cada novo membro que desejava, sincera e honestamente, deixar de beber.
Através do A.A. aprendemos muito sobre o alcoolismo e sobre nós mesmos. Tentamos manter esse aprendizado bem claro em nós o tempo todo, porque nos parece ser a chave de nossa sobriedade. Para nós, é fundamental que a sobriedade seja sempre a primeira preocupação.

O QUE APRENDEMOS SOBRE
O ALCOOLISMO

A primeira coisa que aprendemos sobre o alcoolismo é que constitui um dos problemas mais antigos da humanidade. Apenas recentemente começamos a nos beneficiar com novas maneiras de tratar o problema. Por exemplo: os médicos hoje sabem muito mais sobre o alcoolismo que seus antecessores de apenas duas gerações atrás. Eles estão começando a definir o problema e a estudá-lo detalhadamente.
Embora não haja uma “definição A.A.” formal do alcoolismo, a maioria de nós concorda em descrevê-lo como uma compulsão física aliada a uma obsessão mental.
Com isso queremos dizer que tínhamos um desejo físico, bem distinto, de consumir mais álcool do que podíamos controlar, e em desafio a todas as regras do bom-senso. Tínhamos não só um desejo anormal pelo álcool, como ainda freqüentemente sucumbíamos a ele nas piores ocasiões. Não sabíamos quando (ou como) parar de beber. Muitas vezes não tínhamos sensatez bastante para saber quando não começar.
Como alcoólicos, aprendemos penosamente que força de vontade sozinha, embora poderosa em outros aspectos, não bastava para manter-nos sóbrios. Tentamos ficar sem beber durante algum tempo. Fizemos solenes promessas. Trocamos de marcas e bebidas. Tentamos beber apenas a certas horas. Nada disso deu resultados. Sempre acabávamos, mais cedo ou mais tarde, nos embriagando, quando não só queríamos ficar sóbrios, como tínhamos todo incentivo racional para permanecer sóbrios.
Atravessamos fases de negro desespero, quando tínhamos certeza de que mentalmente algo estava errado em nós. Chegamos a odiar-nos por estarmos desperdiçando os talentos com os quais fomos dotados e causando problemas a nossas famílias e aos outros. Com freqüência, comprazíamo-nos em auto-piedade e proclamávamos que nada poderia ajudar-nos.
Atualmente estas lembranças podem fazer-nos sorrir, mas, na época, constituíram sombrias e terríveis experiências.

A DOENÇA DO ALCOOLISMO

Hoje estamos prontos para aceitar que o alcoolismo, ao menos pelo que nos tange, é uma doença – uma doença progressiva, que jamais pode ser “curada” mas que, como outras enfermidades, pode ser estacionada. Concordamos que não já nada de vergonhoso em se estar doente, desde que encaremos o problema com honestidade, e procuremos solucioná-lo. Estamos perfeitamente prontos para admitir que somos alérgicos ao álcool e consideramos simples bom-senso manter distância daquilo que nos causa a alergia.
Compreendemos agora que, uma vez que uma pessoa cruze a invisível fronteira entre um forte hábito de beber e o alcoolismo compulsivo, será sempre um alcoólico. Pelo que sabemos, nunca mais poderá voltar ao hábito social “normal” de beber. “Uma vez alcoólico, sempre alcoólico”, é um simples fato com que temos de conviver.
Aprendemos também que há poucas alternativas para os alcoólicos. Se continuam a beber, seus problemas se tornarão progressivamente mais graves; estarão certamente no caminho da sarjeta, dos hospitais, das prisões ou outras instituições, ou rumo a uma morte prematura. A única alternativa é parar de beber completamente, abster-se até da mais insignificante quantidade de álcool sob qualquer forma. Se estão dispostos a seguir este curso e beneficiarem-se da ajuda disponível, uma vida inteiramente nova pode abrir-se para os alcoólicos.
Na época em que bebíamos, por vezes nos convencíamos de que, para controlar nosso beber, bastaria parar após o segundo copo, ou o quinto, ou qualquer número. Apenas gradualmente pudemos compreender que não era nem o quinto, nem o décimo, nem o vigésimo gole que nos embriagava; era o primeiro! Era o primeiro que provocava o desastre. Era o primeiro que nos iniciava num turbilhão. Era o primeiro que estabelecia uma cadeia de pensamentos alcoólicos que nos levava às bebedeiras descontroladas.
Em A.A. existe uma expressão que diz: “Para um alcoólico, um gole é muito e mil não são suficientes”.
Outra coisa que muitos de nós aprendemos durante a época em que bebíamos foi que a sobriedade forçada geralmente não era uma experiência muito agradável. Alguns de nós conseguimos permanecer sóbrios ocasionalmente durante dias, semanas e até anos. Mas não desfrutamos esta sobriedade. Sentimo-nos mártires. Tornamo-nos irascíveis. Era difícil conviver e trabalhar conosco. Persistimos em olhar para o futuro, para o dia em que poderíamos beber de novo.
Agora que estamos no A.A., temos uma nova concepção da sobriedade. Desfrutamos uma sensação de livramento, um sentimento de liberdade até mesmo com relação ao desejo de beber. Já que não podemos esperar beber normalmente em tempo algum do futuro, concentramo-nos em viver hoje uma vida completa, sem álcool. Quanto a ontem, nada podemos fazer. E o amanhã nunca chega. Hoje é o único dia com que temos de preocupar-nos. E sabemos, por experiência própria, que mesmo os “piores” beberrões podem passar 24 horas sem um trago. Alguns preferem adiar a próxima bebida por uma hora ou mesmo por um minuto – mas eles aprendem que é possível adiar o primeiro gole.
A primeira vez que ouvimos falar do A.A., pareceu-nos miraculoso alguém que realmente tivesse sido bêbado inveterado alcançar e manter o tipo de sobriedade de que outros membros mais antigos de A.A. falavam. Alguns dentre nós achávamos que nossa maneira de beber era especial, que nossas experiências eram diferentes, que o A.A., embora pudesse dar bons resultados para outros, não serviria para nós. Outros de nós, que não tínhamos sido seriamente marcados pela bebida, achávamos que o A.A. podia ser ótimo para os bêbados vagabundos, mas que nós provavelmente poderíamos resolver o problema sozinhos.
Nossa experiência no A.A. ensinou-nos duas coisas importantes. Primeira: os problemas básicos que os alcoólicos enfrentam são os mesmos, tanto para os que esmolam para beber uma pinga quanto para os que exercem elevadas funções em grande empresas. Segunda: agora compreendemos que o programa de A.A. de recuperação funciona para quase todo alcoólico, se este honestamente quer que funcione, não importa qual o seu nível social ou sua experiência com a bebida.

TOMAMOS UMA DECISÃO

Todos nós que hoje somos membros de A.A. tivemos que tomar uma decisão de máxima importância antes de nos sentirmos seguros no novo programa de vida sem o álcool. Tivemos que encarar, com realismo e honestidade, os fatos sobre nós mesmos e nosso beber. Tivemos que admitir que éramos impotentes perante o álcool. Para alguns de nós, essa foi a proposição mais dura que jamais encaramos.
Pouco sabíamos sobre o alcoolismo. Tínhamos idéias preconcebidas sobre o termo “alcoólico”, comparável principalmente com marginais. Ou achávamos que significava ausência de força de vontade ou fraqueza de caráter. Alguns dentre nós relutávamos em admitir que éramos alcoólicos. Outros de nós admitíamos, mas só parcialmente.
Na maioria, contudo, sentimo-nos aliviados quando nos explicaram que o alcoolismo é uma doença. Atentamos para o bom senso de se fazer alguma coisa contra um mal que ameaçava destruir-nos. Deixamos de tentar enganar os outros – e a nós mesmos – com a idéia de que podíamos controlar o álcool, quando toda a evidência indicava o contrário.
Desde o primeiro instante nos explicaram que ninguém, a não ser nós mesmos, poderia determinar se éramos ou não alcoólicos. Era necessário que a admissão fosse baseada em nosso próprio juízo – e não na opinião de um médico, marido, esposa ou conselheiro espiritual. Tinha que ser baseada em fatos que conhecíamos sobre nós mesmos. Nossos amigos poderiam compreender a natureza do nosso problema, porém éramos os únicos que poderíamos determinar, com certeza, se o álcool havia ou não se tornado um problema incontrolável para nós.
Freqüentemente perguntávamos: “Como posso saber se sou realmente alcoólico?” Havíamos nos dito que não existem regras rígidas e claras para se definir o alcoolismo. Aprendemos que há, porém, certos sintomas reveladores, como por exemplo: se nos embriagamos quando temos toda razão para ficar sóbrios; se nossas bebedeiras estão se tornando progressivamente piores; se a bebida já não nos dá tanto prazer como antes – estes, ficamos sabendo, poderiam ser sintomas da doença que chamamos de alcoolismo. Relembrando nossas experiências com a bebida e suas conseqüências, a maioria de nós pôde descobrir outras razões para reconhecer a verdade sobre nós mesmos.
Evidentemente, a perspectiva de uma vida sem álcool nos parecia sem graça e aborrecida. Temíamos que nossos novos amigos de A.A. fossem ou por demais insípidos ou, pior ainda, fanáticos evangelistas. Descobrimos que eram, ao contrário, seres humanos como nós, com especial virtude de serem compreensivos com nosso problema – simpaticamente sem nenhum julgamento.
Começamos a perguntar-nos o que seria necessário fazer para permanecermos sóbrios, quanto custaria ser membro de A.A., quem “dirigia” a Irmandade no plano local e internacional. Logo descobrimos que não há imposições no A.A., que ninguém é obrigado a seguir qualquer ritual ou padrão de conduta. Aprendemos também que o A.A. não cobra taxas ou mensalidades de espécie alguma; as despesas com as salas de reuniões, com o café e com outros gastos são cobertas por meio de coletas, porém nem para estas coletas os membros são obrigados a colaborar.
Percebemos logo que o A.A. tem somente o mínimo de organização e que ninguém pode dar ordens. As providências para reuniões são tomadas por servidores do grupo que se revezam periodicamente para receber os novos. Este sistema de rotação é muito popular em A.A.

PERMANECER SÓBRIOS

De qualquer modo, então, conseguimos nos manter sóbrios numa irmandade tão informal?
A resposta é que, uma vez adquirida sobriedade, tentamos preservá-la, observando e imitando a experiência feliz daqueles que nos precederam no A.A.
Tal experiência provê certas “ferramentas” e guias que podemos aceitar ou rejeitar a nosso livre critério. Porque nossa sobriedade é o que há de mais importante para nós atualmente, achamos muito sensato seguir os passos sugeridos por aqueles que já demonstraram a eficácia do programa de recuperação do A.A.

O PLANO DAS 24 HORAS

Por exemplo, não fazemos promessas: não prometemos abster-nos do álcool “para sempre”. Em vez disso, tentamos seguir o que em A.A. chamamos “Plano das 24 horas”. Fazemos todo o empenho em mantermo-nos sóbrios por apenas as 24 horas atuais. Simplesmente tentamos viver um dia de cada vez, evitando o primeiro gole. Se sentimos vontade de beber, nem cedemos nem resistimos. Apenas adiamos esse primeiro gole até amanhã.
Procuramos conservar uma atitude honesta e realista com relação ao álcool. Quando nos sentimos tentados a beber – e a tentação geralmente desaparece após os primeiros poucos meses no A.A. – perguntamo-nos se esse gole particular valeria todas as conseqüências que no passado havíamos sofrido. Temos sempre em mente o fato de sermos inteiramente livres para nos embriagar se quisermos; que beber ou não é uma escolha toda nossa. Mais importante que tudo, tentamos não fugir do fato de que não importa quanto tempo ficamos abstêmios, sempre seremos alcoólicos – e alcoólicos, pelo que sabemos, jamais podem dar-se ao luxo de beber social ou normalmente.
Seguimos a experiência bem sucedida dos “veteranos” em outro aspecto. Em geral continuamos freqüentando regularmente reuniões do grupo local de A.A. ao qual nos afiliamos. Não há regra que torne esta freqüência obrigatória. E nem sempre podemos explicar por que nos alivia tanto ouvir as histórias pessoais e as interpretações de outros membros. Contudo, a maioria de nós acha que o comparecimento às reuniões e outros contatos informais com companheiros de A.A. são fatores importantes para a manutenção de nossa sobriedade.

“DOZE PASSOS”

Tão logo nos afiliamos ao A.A., ouvimos falar dos “Doze Passos” para a recuperação do alcoolismo. Aprendemos que esses passos representaram uma tentativa, por parte dos primeiros membros, para registrarem seu próprio progresso do alcoolismo descontrolado para a sobriedade. Descobrimos que um fator chave desse progresso parece ter sido a humildade, aliada à confiança num Poder Superior a nós mesmos. Embora alguns membros prefiram chamar tal Poder de “Deus”, nos disseram que essa era uma questão de interpretação puramente pessoal; podíamos conceber o Poder nos termos que quiséssemos. Tendo o álcool constituído um poder superior a nós mesmos na época em que bebíamos, tínhamos que admitir que talvez não poderíamos dirigir as nossas vidas sozinhos e que, portanto, era lógico procurarmos ajuda externa. A medida que progredimos no A.A., nosso conceito de um Poder Superior geralmente tem amadurecido. Contudo, sempre foi nosso próprio
conceito pessoal. Não nos foi imposto por ninguém.
Finalmente, aprendemos, do Décimo Segundo Passo e da experiência dos membros mais antigos, que trabalhar com outros alcoólicos que procuravam a ajuda do A.A. era um modo eficaz de fortalecer nossa própria sobriedade. Na medida do possível, tentamos sempre fazer nossa parte, não esquecendo jamais que a outra pessoa era a única capaz de decidir se (ele ou ela) era ou não alcoólica.
Também fomos guiados pela experiência de muitos companheiros que deram novo significado a três velhos ditados. Um destes, “Primeiro As Primeiras Coisas”, lembra-nos que, por mais que queiramos tentar, não podemos fazer tudo de uma só vez; que temos de lembrar a importância primacial da sobriedade em qualquer tentativa de reconstruirmos nossas vidas.
“Vá Com Calma” é outro velho ditado com novo significado para os alcoólicos que são freqüentemente tentados a fazer tudo muito febrilmente, seja o que for que estiverem fazendo. A experiência tem demonstrado que os alcoólicos podem e devem aprender a regular a sua marcha. E “Viva E Deixe Viver” é o terceiro ditado, uma sugestão repetida aos alcoólicos de que, não importa há quantos anos eles se encontrem sóbrios, não podem dar-se ao luxo de tornarem-se intolerantes com os outros.
A literatura de A.A. também é de muita ajuda. Assim que chegamos ao A.A., muitos tivemos oportunidade de ler “Alcoólicos Anônimos”, o livro que registra as experiências pessoais dos primeiros membros da Irmandade, e os princípios que acreditaram tê-los levados à recuperação. Muitos dos membros que há muitos anos se mantêm sóbrios, continuam a consultar este livro e outros em busca de compreensão e inspiração.
A.A. publica também uma revista mensal de alcance internacional, “The A.A. Grapevine”, para novos e antigos membros (somente em inglês – nos U.S.A.).
No Brasil, A.A. publica bimensalmente a revista Vivência, que pode ser obtida através da Caixa Postal 3180, CEP 01060-970, São Paulo, S.P.
Por ser o A.A. essencialmente um modo de vida, poucos dentre nós conseguimos descrever com precisão a maneira como os vários elementos do programa de recuperação contribuem para nossa atual sobriedade. Não interpretamos nem vivemos o programa de A.A. exatamente da mesma forma. Podemos todos testemunhar, porém, que o A.A. funciona para nós enquanto muitas outras tentativas falharam. Muitos membros que têm se mantido sóbrios durante anos dizem que simplesmente aceitaram o programa “com fé”, e ainda hoje não entendem bem como o A.A. os ajuda. Entretanto, continuam tentando transmitir sua fé aos que muito bem entendem a maneira desastrosa com que o álcool age contra o alcoólico.

FUNCIONARÁ O A.A. PARA
QUALQUER PESSOA?

O programa de A.A. de recuperação do alcoolismo, acreditamos, funcionará para quase todos que sinceramente desejem parar de beber. Pode igualmente funcionar para aqueles que são estimulados a procurar o A.A. Muitos de nós fizemos nosso primeiro contato com A.A. em razão de pressão social ou trabalhista. Depois tomamos nossa própria decisão.
Temos visto alguns alcoólicos vacilarem um pouco antes de entenderem um pouco o programa. Temos visto outros fazerem apenas esforços superficiais para seguir os princípios graças aos quais, comprovadamente, milhares de nós, agora, conservamos nossa sobriedade; geralmente, os esforços superficiais não bastam.
Mas, não importa o quanto desprovido de recursos possa estar o alcoólico, ou quanto mais alto ele ou ela figure na escala social ou econômica. Sabemos, por experiência e observação própria, que o A.A. oferece uma maneira sóbria de sair da cadeia de confusões e problemas causados pela bebida. Muitos de nós achamos ser uma maneira agradável.
Quando pela primeira vez procuramos o A.A., muitos de nós tínhamos uma série de problemas graves – problemas envolvendo dinheiro, família, emprego e com nossas próprias personalidades. Logo descobrimos que nosso problema principal e imediato era o álcool. Controlado este, conseguimos, com sucesso, resolver os outros. Nem sempre resolvemos estes problemas com facilidade, mas, estando sóbrios, temos podido lidar com eles de um modo muito mais eficiente do que quando bebíamos.

“UMA NOVA DIMENSÃO”

Houve uma época em que muitos de nós acreditávamos ser o álcool a única coisa que tornava a vida suportável. Não podíamos nem conceber uma vida sem a bebida. Hoje, através do programa de A.A., não nos sentimos privados de nada. Pelo contrário, sentimo-nos livres e achamos que uma nossa dimensão se acrescentou às nossas vidas. Temos novos amigos, novos horizontes e novas atitudes. Após anos de desespero e frustração, muitos de nós sentimos que realmente começamos a viver pela primeira vez. Gostamos de compartilhar essa nova vida com qualquer pessoa que ainda sofra do alcoolismo, como outrora nós sofremos, e procurar um modo de sair da escuridão e encontrar a luz.
O alcoolismo é um dos maiores problemas de saúde que existem. Calcula-se que milhões de homens e mulheres continuam sofrendo, talvez desnecessariamente, dessa doença progressiva. Como membros de A.A., acolhemos com satisfação a oportunidade de compartilhar nossa experiência no controle da doença com quem quer que procure ajuda. Reconhecemos que nada que possamos dizer terá real sentido até que o alcoólico, pessoalmente, esteja pronto a admitir, como uma vez fizemos: “O álcool me derrotou, e quero ser ajudado.”

ONDE ENCONTRAR O A.A.

A ajuda de A.A. está disponível sem qualquer despesa ou obrigações. Temos grupos em muitas cidades, aldeias e vilas espalhadas pelo mundo inteiro.
Procure por “A.A.” ou “Alcoólicos Anônimos” na lista telefônica local. Informações a respeito de nossas reuniões locais, freqüentemente podem ser obtidas junto a médicos, enfermeiros, religiosos, jornalistas, policiais e outros que estão familiarizados com nosso programa. Aqueles que não sabem como entrar em contato com um grupo em suas comunidades, estão convidados a escreverem para Alcoólicos Anônimos, Caixa Postal 3180 – CEP 01060-970, São Paulo, SP. Teremos prazer em encaminhá-lo ao grupo mais próximo. Se você viver num lugar distante, onde não haja grupo de A.A. por perto, explicar-lhe-emos como vários membros “Solitários” permanecem sóbrios seguindo os princípios e o programa de A.A.
Qualquer pessoa que procure o A.A. pode ter certeza de que seu anonimato será preservado.
Se você acha que tem problemas com o álcool e honestamente deseja parar de beber, mais de 2.000.000 de nós podemos testemunhar que o A.A. funciona para nós – e não existe razão no mundo para que não funcione também para você.

OS DOZE PASSOS
DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

1 – Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2 – Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3 – Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4 – Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5 – Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
6 – Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
7 – Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
8 – Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
9 – Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem.
10 – Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11 – Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente de Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
12 – Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

AS DOZE TRADIÇÕES
DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

1 – Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A.A.
2 – Somente uma autoridade preside, em última análise, o nosso propósito comum – Um Deus amantíssimo, que Se manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não têm poderes para governar.
3 – Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber.
4 – Cada grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros grupos ou ao A.A. em seu conjunto.
5 – Cada grupo é animado de um único propósito primordial: o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.
6 – Nenhum grupo de A.A. deverá jamais sancionar, financiar ou ceder o nome de A.A. a qualquer sociedade ou empreendimento afim ou alheio à Irmandade, para que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem de nosso objetivo primordial.
7 – Todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente auto-suficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8 – Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não-profissional, embora nossos centros de serviço possam contratar trabalhadores especializados.
9 – O A.A. jamais deverá organizar-se como tal; poderemos, porém, criar juntas e comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços.
10 – Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões alheias à Irmandade; portanto, o nome de A.A. jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.
11 – Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção; cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.
12 – O anonimato é o alicerce espiritual das nossas tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades.

PUBLICAÇÕES DE A.A.
Relação da literatura oficial de A.A., editada em português, pela CLAAB – Centro de Distribuição de Literatura de A.A. para o Brasil, que pode ser adquirida nas Centrais ou Intergrupais de Serviços de A.A. de sua cidade.

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ESCAPANDO PELAS FENDAS

ESCAPANDO PELAS FENDAS – 01

Durante anos na sobriedade, fui membro ativo de uma organização para pessoas de QI elevado. Eu me deliciava nas reuniões mensais de palestras, aonde tinha contato com temas que não conhecia – algo como dos primeiros planos para a fusão a frio até estória de abduzidos por alienígenas.
Eu era membro anônimo desta organização da mesma forma como era anônimo em A.A. O porque? As pessoas que não precisam saber que você é um alcoólico ficam nervosos com seus drinques ocasionais e na sua ignorância sobre o alcoolismo balbuciam e procuram tirar proveito. As pessoas que sabem que você pertence à outra organização lhe cercam ávidos, esperando que equações fabulosas escapem de seus lábios geniais, ou passam o resto da vida tentando provar quão estúpido você é. De qualquer forma, eu prefiro o anonimato.
No início dos anos 90 o magazine mensal desta organização destacou um artigo em sua capa – “O A.A. deixa que os novos escorram pelas fendas?” Eu imediatamente me interessei e não poderia imaginar uma organização de mente aberta como a minha o que eu considero uma tendenciosa diatribe. Falava de ingressantes sendo ignorados em reuniões por AA’s sóbrios e afirmava que apenas os desesperados poderiam encontrar a sobriedade. O amor “de um bêbado por outro” não era estendido aos novos bêbados nas reuniões de agora, insistia o autor.
Lívido, procurei um amigo custódio. Ele de certa forma me acalmou – não foi a primeira e nem será a última vez que a Irmandade será atacada, ele me lembrou – e terminou a conversação pedindo que me lembrasse de “Deixe que comece por mim.”
Foi o que fiz. Escrevi uma carta amarga e desisti de minha afiliação e de meus preciosos encontros mensais. Passei esses últimos doze anos observando atentamente o sentimento doentio escrito neste artigo profético, infectar Alcoólicos Anônimos na minha e na sua comunidade.
Numa reunião espiritual que assisti em um subúrbio, contava com 17 presenças. Xícaras de café, garrafas de água e passos apressados estavam por todo o lado. Havia apenas um recém-chegado, Kin, em um lugar diagonalmente oposto a mim. Um companheiro, vestindo uma camisa listrada de juiz (1), estava sentado a meu lado. Após oito ou nove depoimentos maravilhosos, a reunião foi encerrada e formaram-se grupos ruidosos de conversação. Abri espaço através da multidão e me dirigi ao companheiro com a camisa de juiz. “Onde está Kim?”
Eu não poderia imaginar seu desdém. Porque esse velho estranho estava interrompendo seu grupinho? “Quem é Kim?” falou torcendo o nariz.
Na véspera do Ano Novo, recebi a quarta chamada real para o Décimo Segundo Passo ao vivo do ano. O jovem marido estava desesperado para parar de beber, razoavelmente sóbrio, e ansioso para ir a uma reunião às 06:30 da tarde. Passei a informação para o AA encarregado. “Você tem alguém da lista que possa ir com ele nessa Véspera de Ano Novo?” perguntei. “Ele está no ponto; como os outros três que repassei, ninguém deixaria sua comemoração para ir levá-lo à uma reunião.” Ela respondeu que tentaria.
O companheiro encarregado deste décimo segundo passo telefonou para meu escritório quando o expediente já havia terminado. “Apenas a esposa queria que ele ficasse sóbrio,” reportou. “Ele próprio não queria; e seu carro estava quebrado. Eu lhe passei os endereços dos grupos e lhe disse para procurá-los quando seu carro estivesse pronto.”
Eu me lembrei das desculpas que tinha ouvido dos companheiros que não tinham atendido aos outros três apelos de pessoas que eu achava que estavam querendo ir à uma reunião .”Ele já esteve uma vez no A.A. ,já conhece o caminho.” “Ele estava beligerante no telefone.” E meu favorito: “Ele estava bebendo.”
ESCAPANDO PELAS FENDAS – 02

Eu pensei nos cartões de grupos em que colocamos nossos números de telefone e damos aos visitantes. Ao final da reunião eles se encaminhavam pela porta afora, com seus cartões e folhetos, não tendo recebido um ” seja bem vindo ” de uma forma pessoal e calorosa por nenhum de nós. A nossa atmosfera de culto se intensifica, com refrões sobre responsabilidade gritados durante longas leituras de folhas de papel plastificadas. As conversas paralelas excluem os que não estão familiarizados. Ninguém da frente de serviço de meu grupo, ocupada do planejamento do breakfast do Ano Novo, sabia o nome do companheiro que tinha vindo às duas últimas reuniões do grupo, mas que não está presente esta noite. “Ele recebeu um cartão com números de telefone,” alguém disse. Apenas aqueles que estão muito desesperados, estão ficando e alcançando a sobriedade, pensei. E me lembrei.
Lá for a, nos bares as pessoas desaparecem por meses, às vezes para sempre. Nós raramente sentimos a falta ou comentamos a ausência deles quando eles retornam e nos encontram exatamente como estávamos quando ele nos viu pela última vez. Alguns se mudaram. Uns poucos morreram, violentamente, em brigas de rua ou por suas próprias mãos. Eu agora fico pensando em quantos destes nós não sentimos a falta, fizeram uma tentativa em Alcoólicos Anônimos, apenas para escorregarem pelas fendas, e nós ainda arrogantes o bastante de chamar “O Amor de um Bêbado por Outro.”
Eu vou continuar a “Deixar que comece por mim.” Eu vou usar os meus muitos anos de feliz, alegre e livre sobriedade como atração e deixar que ela fale mais alto que minha voz ou que essas palavras impressas: Se você acha que falar bem na cabeceira de mesa é um trabalho do Décimo Segundo Passo, leia o Capítulo Sete. Se você acha que colocar seu número de telefone em um cartão dado aos ingressantes é um bom trabalho de Décimo Segundo Passo, releia o Capítulo Sete. Se você só se dispõe a ajudar alguém se ele antes pedir ajuda, leia mais uma vez.
E, se quiser ser lançado na outra dimensão aonde o alcoolismo, depressão e o medo são conquistados um dia de cada vez, coloque-se na linha de frente da qual o Capitulo Sete fala, dedique-se ao máximo ao serviço. Vamos voltar a ser espertos, de novo, um Grupo de cada vez, um alcoólico que sofre de cada vez, e não deixar ninguém escapar pelas fendas.

AA GRAPEVINE,INC
Tradução
Distrito
17 Setor 05 Área RJ
MCD: Ricardo Gorobo
(1) Os juízes de Rugby usam uma camisa de listras largas

O PRIMEIRO PASSO- DR. EDUARDO MASCARENHAS

O PRIMEIRO PASSO – Dr. Eduardo Mascarenhas
• Primeiro Passo:
Superar o Orgulho

Eduardo Mascarenhas
Médico – Psicanalista no Rio de Janeiro/RJ – 1991

Durante 56 anos de experiência na recuperação de alcoólicos, os Alcoólicos Anônimos ganharam a convicção de que só é capaz de se libertar solidamente do álcool quem fizer profunda reformulação de sua personalidade.
Para alcançar essa reformulação cumpre percorrer aquilo que, no programa de recuperação adotado pelos AAs ficou conhecido como os Doze Passos. Esses Doze Passos constituem um guia, uma meta ideal. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente, mas tentar segui-los é uma forma de se esforçar permanentemente por um aperfeiçoamento pessoa.
Com todo o respeito pela literatura dos AAs vou me permitir descreve-lo com as minhas palavras, tal como eu o entendi.
O Primeiro Passo é a pessoa superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer. Não é mais sua mão que preocupa o copo, mas o copo que a atrai. Ela não tem mais controle sobre o álcool, está dominada por ele.
O Primeiro Passo é a pessoa se dizer: “Basta de empulhação! Chega de desculpas esfarrapadas! Não posso mais continuar dizendo que o dia que eu quiser eu paro de beber. Até paro, mas só por uns dias, um mês por um ano. Depois volto à bebida com apetite redobrado.
Por incrível que pareça, dar esse passo é dificílimo. Primeiro porque é angustiante mesmo admitir que está perdendo o controlo sobre algo que gera tão sérias conseqüências para a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas teimam em considerar o alcoolismo não como uma doença, mas como fraqueza de caráter ou falta de força de vontade. Se muita gente já se sente humilhada em ter uma doença indiscutivelmente física, imagina o que significa admitir doença que é considerada como falta de vergonha na cara.
Pau-d’agua, degenerado, cachaceiro, bêbado, porrista e pé-de-cana são expressões que adquiriram colorido insultuoso e que só servem para reforça o estigma que paira sobre o alcoolismo. É importante acredita que existe tratamento para o alcoolismo, mas não apenas tratamento químico e impessoal. Ás vezes, é mais fácil tomar injeção na veia, entregar o coração para uma ponte safena ou a cabeça para um Valium do que exige certo grau de entrega pessoal.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passe na frente ou é profundamente cientificista. Médicos, cirurgião e neurologista não são visto como pessoas, mas como sacerdotes da técnica. Os seres humanos com seus poderes pessoais ficam excluídos tanto pela fé infantil nos milagreiros quanto pela fé igualmente infantil na parafernália dos laboratórios, cheios de tubos de ensaios. O difícil mesmo é ver gente confiando em gente.
As resistências aos Alcoólicos Anônimos passam por aí. Já houve resistências idênticas em relação à psicanálise. Aos trancos e barrancos, a psicanálise conseguiu infiltrar-se na cultura e hoje é até chique recorrer a um psicanalista. Mas os AAs oferecem ajuda gratuita; suas reuniões não são coordenadas por “doutores”, portanto têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Além disso, o anonimato de seus membros impossibilita que se tornem célebres, dando entrevistas ao Fantástico.
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Às reuniões dos grupos comparecem pessoas das mais diversas camadas sociais. Ora, quem tem grana não gosta de “se misturar”. Tem medo de que pobreza pegue. E como não sabem o que vão encontrar lá, temem ficar diante de mendigos cachaceiros e de pés-inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classes sociais menos favorecidas também tendem a se intimidar com esse tipo de encontro, pois não estão acostumadas conviver democraticamente com endinheirados.
Mas que vale a pena, isso vale!

Vivência n° 16 de abril/maio/junho/1991

Vivência nº

111 – Janeiro/Fevereiro/2008.

PRIMEIRA EMISSÃO RADIOFÔNICA A.A. EM 1939

Primeira Emissão Radiofônica A.A.em 1939


WE THE PEOPLE
(NÓS, O POVO)
Programa radiofônico de Gabriel Heatter – 25 de Abril de l939
A primeira exposição pública de Alcoólicos Anônimos aconteceu no dia 25 de Abril de 1939 no “broadcast” “We the People”. Esse programa de radio de Gabriel Heatter era tremendamente popular e sintonizado por milhões de espectadores. Morgan R., o membro de A.A. que falou no programa, carregava a expectativa geral de deslanchar as vendas do recém publicado livro, Alcoólicos Anônimos. Como Morgan foi preparado para essa fala de três minutos, e o resultado na venda dos livros está descrito no livro Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade©, páginas 155 – 157
WE THE PEOPLE (NÓS, O POVO)
Abril 1939
HEATTER:
O homem que está a meu lado passou pela mais tocante e dramática experiência que eu jamais ouvi. Eu não vou dizer o seu nome. E quando vocês ouvirem o que ele tem para dizer, entenderão o porque. Após conferir a veracidade dos fatos, o Comitê de Ouvintes do We The People resolveu lhe abrir espaço, pois sentiram que se uma pessoa for ajudada por ouvir sua estória, então WE THE PEOPLE terá prestado um bom serviço. Pronto, Senhor
ANÔNIMO:
Seis meses atrás sai de um asilo de loucos. Fui internado lá porque estava morrendo de tanto beber. Mas os médicos disseram que não podiam fazer nada por mim. E apenas quatro anos antes eu ganhava 20.000 dólares por ano. Eu estava casado com uma bela moça e tinha um filhinho. Mas eu trabalhava duro e como muitos de meus amigos – costumava tomar uns drinques para relaxar. Apenas , eles sabiam quando parar. Eu não. E bem depressa – as bebedeiras levaram meu emprego. Eu prometi a minha mulher que me reergueria. Mas não consegui. Finalmente ela pegou a criança e me abandonou.
O ano seguinte foi como um pesadelo. Eu não tinha nenhum tostão. Perambulava pelas ruas pedindo esmolas para comprar bebida. Cada vez que eu ficava sóbrio – jurava nunca mais tomar uma gota. Mas, se eu ficava algumas horas sem beber – começava a chorar como uma criança, e me tremia todo. Um dia após ter deixado o asilo encontrei um amigo. Ele levou-me para a casa de um de seus amigos. Um grupo de homens estava sentado, fumando charutos e contando piadas – estavam se divertindo à beca. E eu notei que eles não estavam bebendo. Quando Tom me contou que todos já eles estiveram no mesmo barco em que eu ainda estou – não pude acreditar. Mas ele falou, ”Está vendo aquele sujeito? É um médico. Bebeu a sua profissão. Depois se recuperou. Agora é o Diretor de um grande hospital.” Este outro é balconista de um armazém.Aquele outro, o vice-presidente de uma grande corporação. Reuniram-se faz cinco anos. Denominaram-se Alcoólicos Anônimos. Criaram um método de recuperação. Um dos segredos mais importante é – ajudar as outras pessoas. Assim que começaram a praticar, o método se revelou um sucesso e ajudava os outros a se reerguerem – e descobriram que podiam se manter livres da bebida.

Gradualmente – esses homens me ajudaram a voltar para a vida. Eu parei de beber. Encontrei coragem para encarar a vida de frente. Hoje tenho um emprego – e estou escalando de volta ao sucesso. Recentemente escrevemos um livro chamado de “Alcoólicos Anônimos”. Ele conta como ressurgimos dos mortos vivos. Trabalhando neste livro descobri como tantas outras pessoas sofreram – como passaram pelas mesmas coisas que eu. É por isso que quis vir a esse programa. Gostaria de dizer às pessoas que estão passando por esse tormento – que se eles sinceramente desejarem poderão conseguir voltar. Retomar mais uma vez seu lugar na sociedade!
(APLAUSOS)
(MUSICA)

Fonte
http://silkworth.net/ grapevine/grapevinetraditions. html

COMPARTILHANDO

A primeira parte do Primeiro Passo, a derrota total, eu já havia feito antes de conhecer A.A., pois sabia que eu era um daqueles que não devia e não podia beber, por razões que desconhecia. Antes de A.A. chegar aqui no sul eu já precisava de solução e a procurava para meu alcoolismo, fiz tudo que me indicaram, inclusive tratamento psiquiátrico e psicológico e nada deu resultado. Em 1970 A.A. veio para Porto Alegre, em 1973 começou em caráter experimental na cidade que eu iria morar e lá já estava trabalhando, duas vezes fui a essa reunião, mas como só tinha um companheiro de Porto Alegre, que anda não tinha muita experiência e outro indivíduo, ou seja não havia propriamente reunião de A.A. ainda, não voltei mais às reuniões. Já morando nessa cidade e no início de 1975, por recomendação de um médico voltei às reuniões que já então funcionavam e fiquei, nunca mais tendo vontade de beber, era a primeira parte do primeiro passo benfeita e consumada.

A segunda parte do Primeiro Passo, Admitir que havia perdido o domínio de minha vida, sobre esta não havia pensado, e como bom novato comecei a inovar e a corrigir as coisas do A.A. que não estavam muito bem, exercendo a todo o vapor a sabedoria que me levou ao fundo do poço, por cinco anos mais ou menos, exercia o que se chama de bêbado seco, e cheguei a pensar que ávida deveria ser assim ruim mesmo, afinal não diziam que a vida era um vale de lágrimas e que cada um tinha que carregar sua cruz, já estava aceitando isto tudo, quando lendo no quinto passo, como vou saber que estou cometendo os mesmos erros que eu cometia quando bebia?

Lendo o livro azul, comecei a praticar os Passo, para meu bem, muito bem estudados e tentando verificar cada item o que queria dizer para minha vida, e o meu descomportamento. Olhei para dentro de mim e verifiquei as mazelas existentes, procurando então passo a passo fazer as reformas necessárias, para adquirir o domínio da vida, que aliás nunca tinha tido antes.

Inicialmente conforme A.A. sugere, concebi quem e como é o Deus da minha compreensão, que me devolveria à sanidade. Carl Jung, que influenciou muito A.A. disse que não se tratava de questões doutrinárias e sim de questões existenciais. (De onde vim? O que faço aqui? Para onde vou? Qual o propósito da vida?) Expressões como: Deus da nossa compreensão, Fazer parte do Grande todo, Só por hoje, etc.

Decidi entregar minha vida a esse Poder Superior, verificando, que se eu não quisesse meter me bedelho naquilo que a Deus pertencia, nem precisava pedir, Deus da minha compreensão supriria todas as minhas necessidades sempre. A entrega para mim é permitir que Deus aja, sem minha intervenção. Verifiquei que se creio nada preciso pedir, só agradeço o que tenho e o que estou sempre recebendo.

Fiz o inventário aos pedaços pela falta de orientação não buscada, e participei a outro ser humano esse inventário

Tendo feito bem os Passo até aqui, prontifiquei-me para que Deus removesse meus defeitos de caráter.

Roguei humildemente que Ele removesse minhas imperfeições, não lutando contra elas, mas olhando-as, e tentando colocar no seu lugar o que desejava. A humildade é a mãe da paz, pois me permite não ofender-me, não ofender, perdoar-me e perdoar a todos, pela importância normal que dou a mim, não mais, nem menos do que outrem. Não lutei contra o orgulho, o que luto contra permanece, olhei para ele, deixei-o de lado, e fui colocando em seu lugar a humildade, até que ela predomine em meu inconsciente. A humildade leva o ser humano a ser ele mesmo, a expressar seu eu interior, a não preocupar-se com os pensares alheios sobre si mesmo, a não comparar-se com ninguém, ela elimina o medo, a raiva, o sentimento de vingança, ajuda amar e a fazer o bem em silêncio.
A humildade não exclui a justiça, a coragem e a firmeza.

Fui identificando a quem ofendi e fui fazenda as reparações.

O inventário relâmpago tem feito parte de meus dias.

A oração tem sido a busca de Deus e a meditação tem sido o encontro com Ele, estas levam à saúde física e a paz.

Bem, meu despertar espiritual não foi espetacular como o de alguns, mas a felicidade e a paz me indicam que alcancei em algum grau o despertar espiritual, aos invés do que me ensinaram a vida não tem sido um vale de lágrimas, nem há cruz alguma para eu carregar, tenho a vida como uma leve e suave e prazeirosa dança.

Levar a mensagem foi o que fiz durante toda a minha vida em A.A. agora só falo de minhas experiências, sendo que às vezes na internet, ou em particular alguns ainda me pedem ajuda o que faço com imenso prazer.
– Todos temos às vezes problemas de saúde, dinheiro, emprego, social, de relacionamento, etc., passar por eles bem ou mal é uma escolha nossa, isto é o domínio da vida e das emoções. Aprendendo a ganhar e a perder, a cair e a levantar, nada mais perturbará.

O Dr. Bob disse que teremos os benefícios de A.A. proporcionais a nosso zelo.

Abraços fraternos, muita paz, luz e mais 24 h sóbrias.

magno/RS

UM FRAGMENTO DA HISTÓRIA: A ORIGEM DOS DOZE PASSOS BILL W.


Um Fragmento da História: A Origem dos Doze Passos Bill W.

Membros de AA vivem perguntando: “De onde surgiram os 12 Passos?”. Em última análise, talvez ninguém saiba. No entanto, alguns dos acontecimentos que levaram à sua formulação, estão tão claros para mim, como se tivessem acontecido ontem.
No que se refere à sua origem humana, os principais canais de inspiração para os nossos Passos foram em número de três – os Grupos Oxford, o Dr. William D. Silkworth do Towns Hospital e o famoso psicologista William James, chamado por alguns de pai da psicologia moderna. A história de como estes canais de influência se encontraram e de como eles levaram a se escrever os nossos 12 Passos é excitante e em alguns aspectos inequívocos, inacreditável.
Muitos de nós lembram-se dos Grupos Oxford como um movimento evangelizador que floresceu nos anos 20 e início dos 30, liderados por um ex-pastor luterano, Dr. Frank Buchman. Os Grupos Oxford daqueles tempos enfatizavam fortemente o trabalho pessoal de um membro com o outro. O décimo-segundo Passo de AA originou-se naquela prática vital. A espinha moral dos Grupos Oxford era honestidade absoluta, pureza absoluta, altruísmo absoluto e amor absoluto. Eles também praticavam um tipo de confissão, que eles chamavam de “compartilhamento”. A reparação por danos causados, eles chamavam de “restituição”. Eles acreditavam profundamente nos “tempos quietos” deles, uma meditação praticada tanto pelos grupos, como pelos indivíduos, na qual se buscava a orientação de Deus para cada detalhe de suas vidas, grandes ou pequenos.
Estas idéias básicas não eram novas: elas poderiam ser encontradas em outros lugares. Mas para nós, primeiros alcoólicos a contatar os Grupos Oxford, a salvação foi que eles davam grande ênfase a estes princípios. Afortunadamente para nós, os membros do Grupo tomavam um cuidado muito especial em não interferir com a visão religiosa pessoal de cada um. A sociedade deles, como mais tarde também a nossa, via a necessidade de ser absolutamente independente de qualquer religião.
No final do verão de 1934, meu grande amigo alcoólico e colega de escola Ebbie, envolveu-se com estas pessoas e imediatamente ficou sóbrio. Sendo um alcoólico, podemos dizer do tipo obstinado, ele não conseguiu “comprar” todas as idéias e atitudes do Grupo Oxford. No entanto, ele se comoveu pela profunda sinceridade deles e sentiu-se muito agradecido pelo fato de que seus ensinamentos tinham, na ocasião, suspendido sua obsessão para beber.
Quando voltou para Nova Iorque, no fim do outono de 1934, Ebbie pensou logo em mim. Num dia gelado de novembro, ele apareceu. Logo ele estava me olhando do outro lado da mesa da nossa cozinha naClinton Street 182, Brooklin, Nova Iorque. Da forma como eu me lembro de nossa conversa, ele constantemente usava frases como “eu descobri que não conseguia dirigir minha própria vida”; “eu tive que ser honesto comigo mesmo e com mais uma pessoa”; “eu tive que fazer reparações por danos que eu causei”; “eu tive que rezar, pedindo a Deus força e orientação, mesmo não tendo a certeza que existisse qualquer Deus”; “e depois que eu tentei com determinação fazer todas estas coisas, descobri que minha obsessão pelo álcool tinha desaparecido”. Depois, repetidas vezes Ebby, dizia uma coisa semelhante a: “Bill, não é nem um pouco como se eu tivesse embarcado no vagão de água. Você não combate o desejo de beber – você simplesmente se livra dele. Nunca tive antes um sentimento assim.”
Este foi o somatório do que Ebbie extraiu dos seus amigos do Grupo Oxford e me transmitiu naquele dia. Apesar destas idéias simples não serem novas, elas certamente me atingiram como toneladas de tijolos. Hoje nós compreendemos o porque disto – um alcoólico falando para outro, como mais ninguém pode.
Duas ou três semanas mais tarde, no dia 11 de dezembro, para ser mais exato, eu me internei no Charles B. Towns Hospital, aquele famoso empório de enxugamento alcoólico, no Central Park West, na cidade de Nova Iorque. Eu já havia estado lá antes, de modo que eu conhecia e gostava muito do médico de plantão – Dr. Silkworth. Foi ele que em breve iria contribuir com uma grande idéia, sem a qual AA nunca teria surgido. Há anos ele afirmava que alcoolismo era uma doença, uma obsessão da mente ligada a uma alergia do corpo. Agora eu sabia que isto era para mim. Eu também compreendia que combinação fatal estes dois fatores podiam representar. É claro que eu, em outras ocasiões, tive a esperança de estar incluído na pequena porcentagem de vítimas que volta e meia escapavam da sua vingança. Mas desta vez até esta esperança tinha ido embora, eu estava perto do fundo do poço. Aquele veredicto da ciência – a obsessão que me condenava a beber e a alergia que me condenava a morrer – estava próximo de fazer a mágica. Foi aí que a ciência médica, personificada por este pequeno e bom doutor, encaixou-se no conjunto. Esta dupla verdade, nas mãos de um alcoólico falando com outro, era como um martelo rompendo na profundidade a dura couraça do ego alcoólico, deixando-o bem aberto para a graça de Deus.
É claro que no meu caso, foi o Dr.Silkworth quem usava a marreta, enquanto meu amigo Ebbie me transmitia os princípios espirituais e a graça que me trouxe o súbito despertar espiritual, no hospital, três dias mais tarde. Eu imediatamente percebi que era um homem livre. E com esta assombrosa experiência, veio um sentimento de magnífica certeza de que um dia, um grande número de alcoólicos poderiam se aproveitar deste presente sem preço, que me foi concedido.
Neste ponto, uma terceira linha de influência entrou em minha vida, através das páginas do livro de William James,Variedades de Experiências Religiosas. Alguém o havia trazido para meu quarto no hospital. No período seguinte à minha súbita experiência, o Dr. Silkworth tentava firmemente me convencer de que eu não estava alucinando. Mas William James fez mais. Não só, dizia ele, experiências espirituais podem conduzir pessoas à sanidade, mas também podem transformar homens e mulheres, de modo que possam fazer, sentir e acreditar coisas que antes eram impossíveis para elas. Não importa se estes despertares forem súbitos ou que sejam graduais; sua variedade pode ser quase infinita. Mas a principal mensagem daquele livro, era que na maioria dos casos descritos, estas pessoas transformadas eram gente sem qualquer esperança. Em alguma área de suas vidas, elas tinham encontrado a derrota total. Bem, isto era eu. Em completa derrota, sem mais esperança ou fé em nada, eu apelei para um Poder Superior. Eu tinha feito o primeiro Passo no nosso atual programa de AA: ” admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Também tinha feito o terceiro Passo: “decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos”. Foi desta forma que eu fui libertado. Foi tão simples, como tão misterioso
Estas realizações foram tão estimulantes, que imediatamente fui compartilhá-las com os Grupos Oxford. Porém, para consternação deles, eu insisti em me devotar exclusivamente aos bêbedos. Isto incomodou os Grupos Oxford de duas maneiras: primeiro, eles queriam ajudar a salvar o mundo inteiro; segundo, seu resultado com bêbedos tinha sido muito fraco. Na hora em que eu os procurei, eles tinham acabado de trabalhar com um bando de alcoólicos que os havia desapontado completamente. Havia rumores, que um deles havia arremessado seu sapato através de uma valiosa janela de cristal da igreja episcopal que ficava em frente à Central dos Grupos Oxford. De forma que eles não foram benevolentes diante de minhas constantes declarações, de que não iria demorar muito o dia em que todos os bêbedos do mundo iriam ficar a sóbrios. Na realidade, eles afirmaram que meu orgulho ainda era imenso.
Após uns seis meses de violentas exortações para um bando de bêbedos, que eu encontrei próximos às missões assistenciais e ao Towns Hospital, parecia que os membros dos Grupos Oxford estavam certos. Eu não havia trazido ninguém à sobriedade. Em nossa casa no Brooklin, nós sempre tínhamos alguns bebedores morando conosco, número que às vezes chegava a cinco. Minha valente esposa, Lois, uma vez chegou em casa do trabalho e encontrou três deles bastante embriagados. Os dois restantes estavam pior, cambaleantes. Apesar de acontecimentos como estes, terem de alguma maneira reduzido meus ímpetos, na realidade eu nunca perdi a convicção de que existia um caminho para a sobriedade. Apesar de tudo, havia um intenso foco de luz. Meu padrinho Ebbie agarrava-se precariamente à sua recém-encontrada sobriedade. Qual a razão para todos estes fiascos? Se Ebbie e eu conseguíamos ficar sóbrios, por que todos os outros não conseguiam também? Alguns com quem tínhamos trabalhado, certamente queriam ficar bem. Nós especulávamos noite e dia porque nada havia acontecido com eles. Talvez eles não conseguissem manter a paz espiritual dos Grupos Oxford, dos quatro absolutos, de honestidade, pureza, generosidade e amor. De fato, alguns alcoólicos diziam que este era o problema. A agressiva pressão sobre eles, fazia-os voar alto como os gansos durante algumas semanas e depois desabar pesadamente. Eles se queixavam também, de outra forma de coerção – alguma coisa que o Grupos Oxford chamavam de “guiar os outros”. Um time de membros não-alcoólicos do grupo sentava-se com algum alcoólico e depois de um “tempo quieto”, vinha com precisas instruções de como o alcóolico deveria passar a dirigir sua própria vida. Em que pese toda nossa gratidão para com nossos amigos dos Grupos Oxford, isto é duro de engolir. Tudo isto, por certo, tinha a ver com as persistentes derrapagens que estavam acontecendo.
Mas esta não era a causa integral da nossa falha. Depois de meses, eu percebi que o problema estava principalmente em mim. Eu havia me tornado muito agressivo, muito dono da verdade. Eu falava muito da minha súbita experiência espiritual, como se fosse alguma coisa muito fora de série. Eu desempenhava o duplo papel de professor e pregador. Nas minhas exortações, eu me esquecia completamente do lado médico da nossa doença e negligenciava o aspecto da necessidade de profunda deflação do ego, tão enfatizado por William James. Nós não estávamos usando a marreta médica, que o Dr.Silkworth tão providencialmente nos havia dado.
Finalmente, um dia o Dr.Silkworth me trouxe de volta para meu real tamanho. Ele disse: “Bill, porque você não para de falar tanto sobre aquela sua luminosa experiência brilhante? Parece tão louco! Embora eu esteja convencido que somente uma ética melhor possa realmente ajudar os alcoólicos, eu acho que você está colocando o carro adiante dos bois. O fato é que alcoólicos não vão aceitar estas exortações morais, antes de se convencerem de que é necessário. Se eu fosse você, eu os abordaria primeiro com uma base médica. Apesar de nunca me ter trazido qualquer benefício o lhes contar como é fatal a doença que eles tem, pode ser uma história muito diferente se você, um ex-bebedor sem esperança, dê a eles estas más notícias. Devido à identificação que você naturalmente tem com alcoólicos, talvez você penetre aonde eu não consigo chegar. Conte-lhes primeiro a parte médica da coisa e faça-o com ênfase. Talvez isto os amoleça, a ponto de aceitarem os princípios que realmente vão lhes fazer bem”.
Logo após esta histórica conversa, eu estava em Akron, Ohio, envolvido em um empreendimento comercial que não deu certo. Sozinho na cidade, eu escava morrendo de medo de ficar bêbedo. Eu não era mais um professor ou pregador, eu era um alcoólico que precisava de outro alcoólico, tanto quanto ele talvez estivesse precisando de mim. Pressionado desta maneira, logo eu estava face-a-face com Dr.Bob. De imediato, ficou claro que o Dr.Bob sabia mais sobre coisas espirituais, do que eu. Ele também havia estado em contato com as pessoas do grupo Oxford, em Akron. Mas de alguma forma, ele simplesmente não conseguia ficar sóbrio. Seguindo o conselho do Dr.Silkworth, eu fiz uso do martelo médico. Eu lhe contei o que era o alcoolismo e como podia ser fatal. Aparentemente, isto fez acontecer algo dentro do Dr.Bob. Em 10 de junho de 1935 ele ficou sóbrio, nunca mais bebeu. Quando, em 1939, a história do Dr.Bob apareceu pela primeira vez, no livro Alcoólicos Anônimos, ele colocou um dos parágrafos em itálico. Falando comigo, ele me disse: “Muito mais importante foi o fato dele ser o primeiro ser vivo com quem falei, que conhecia o que falava sobre alcoolismo a partir de uma experiência pessoal”.
Dr. Silkworth na verdade forneceu o elo que faltava, sem o qual a seqüência de princípios hoje reunida nos nossos 12 Passos nunca poderia ter sido completada. Naquele lugar e naquele momento, aconteceu a centelha daquilo que um dia viria a ser Alcoólicos Anônimos.
Durante os três primeiros anos que se seguiram à recuperação do Dr.Bob, nossos três grupos pioneiros em Akron, Nova Iorque e Cleveland cresceram e evoluíram com o assim chamado programa verbal, transmitido oralmente. Quando começamos a formar uma sociedade separada dos Grupos Oxford, começamos a formular nossos princípios mais ou menos assim:
1.- Admitimos sermos impotentes perante o álcool.
2.- Passamos a ser honestos conosco mesmos.
3.- Passamos a ser honestos com outra pessoa, em confiança.
4.- Fizemos reparações por danos causados a outros.
5.- Trabalhamos com outros alcoólicos, sem visar prestígio ou dinheiro.
6.- Oramos a Deus, para que nos ajudasse a fazer estas coisas da melhor maneira que nos fosse possível.
Apesar destes princípios serem apregoados de acordo com a veneta e os gostos de cada um de nós, apesar de que em Akron e Cleveland eles ainda estivessem aferrados aos quatro absolutos dos Grupos Oxford de honestidade, pureza, altruísmo e amor, esta era a mensagem para qualquer alcoólico ingressante até 1939, quando foram escritos os nossos 12 Passos.
Eu lembro bem da noite em que os 12 Passos foram escritos. Eu estava na cama, bastante desanimado, sofrendo uma das minhas imaginárias crises de úlcera. Quatro capítulos do livro Alcoólicos Anônimos havia sido rascunhado e lido em reuniões em Akron e Nova Iorque. Rapidamente descobrimos que cada um de nós queria ser um autor. As discussões sobre o que deveria entrar no nosso novo livro foram terríveis. Por exemplo, alguns queriam um livro puramente psicológico, cujo conteúdo penetrasse nos alcoólicos, sem assustá-los. Sobre o “assunto de Deus”, poderíamos deixar para lhes contar mais tarde. Alguns poucos, liderados pelo nosso maravilhoso amigo sulista Fitz M., queriam um livro bastante religioso, recheado de alguns dos dogmas colhidos junto às igrejas e instituições missionárias que haviam tentado nos ajudar. Quanto mais barulhentos estes argumentos, mais eu tendia para um meio-termo. Parecia até que eu não seria o autor do livro. Eu iria ser apenas um árbitro para decidir sobre o conteúdo dele. Isto não quer dizer que não houvesse um enorme entusiasmo pelo projeto. Cada um de nós estava tremendamente excitado pela possibilidade de receber nossa mensagem antes daqueles incontáveis alcoólicos que ainda não sabiam de nada.
Tendo chegado ao capítulo quinto, parece que estava mais do que na hora de definir o que era na realidade nosso programa. Eu me lembro que passavam pela minha cabeça todas as palavras e frases que então se usavam. Juntando tudo, resultou nas seis que foram descritas acima. Depois surgiu a idéia, que nosso programa deveria ser descrito de forma mais definida e clara. Leitores distantes teriam assim uma série de princípios mais precisos. Conhecendo a habilidade dos alcoólicos em racionalizar, era preciso escrever algo incontestável. Não poderíamos deixar o leitor interpretar o que quisesse. Além disso, afirmativas mais completas iriam nos ajudar nos capítulos subsequentes, onde teríamos que mostrar exatamente como o programa de recuperação deveria ser feito.
Comecei a escrever ao comprido numa bandeja amarela, destas bem baratas. Eu dividi o nosso programa verbal em pedaços menores, enquanto aumentava consideravelmente suas metas. Sem inspiração, como eu me sentia, fiquei surpreso em reunir em um curto espaço de tempo, talvez uma meia hora, um certo número de princípios, que ao serem contados, mostraram serem doze. E por alguma razão inescrutável, eu havia movimentado a idéia de Deus para o segundo Passo, bem lá na frente. Alem disso, eu citei Deus de forma muito liberal no meio dos demais Passos. Em um deles, eu até sugeri que o ingressante ficasse de joelhos.
Quando este documento foi mostrado na nossa reunião de Nova Iorque, os protestos foram muitos e ruidosos. Nossos amigos agnósticos não aceitaram de modo algum a idéia de se ajoelhar. Outros disseram que estávamos falando demais em Deus. E de qualquer forma, porque doze Passos, ase nós só havíamos feito 5 ou 6? Vamos deixar isto continuar simples, disseram eles.
Este tipo de discussão acalorada durou dias e noites. Mas dela resultou um gol para Alcoólicos Anônimos. Nosso contingente agnóstico, representado por Hank P. e Jim B., finalmente nos convenceu de que deveríamos facilitar as coisas para pessoas como eles, usando termos como um “Poder Superior” ou “Deus como o concebemos”. Estas expressões, que nós hoje conhecemos tão bem, demonstraram serem salvadoras da vida de muitos alcoólicos. Elas permitiram que milhares de nós iniciássemos um programa, que não seria possível começar se tivéssemos deixado os Passos como eu os escrevi originalmente. Felizmente não houve mais outras mudanças no esboço original e o número de Passos continua sendo doze. Não podíamos imaginar que nossos 12 Passos fossem tão rápida e universalmente aprovados por clérigos de todas as religiões e até por nossos futuros amigos, os psiquiatras.

• Julho de 1.953

UMA VISÃO DOS DOZE CONCEITOS PARA SERVIÇOS MUNDIAIS – DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

UMA VISÃO DOS DOZE CONCEITOS PARA SERVIÇOS MUNDIAIS
Dr. Laís Marques da Silva
Custódio não alcoólico por nove anos e Presidente da JUNAAB por seis

Os substantivos definem as idéias. Dizemos que uma questão é substantiva quando contém o significado, a substância. Na designação “Doze Conceitos para Serviços Mundiais”, temos dois substantivos que devemos analisar detidamente a fim de que possamos compreender a totalidade dos seus conteúdos.

O primeiro é a palavra conceito. Recorrendo ao “Aurélio”, vemos que: 1. Em Filosofia, significa a representação de um objeto pelo pensamento, por uma das suas características gerais – abstração, idéia; 2. Ação de formular uma idéia por meio de palavras – definição, caracterização e, 3. Pensamento, idéia, opinião. Estas primeiras acepções nos transmitem o significado da palavra conceito porque respondem às indagações: qual a idéia e qual a sua definição?

O segundo substantivo é a palavra serviço. Com ela já estamos bem familiarizados, pois vivemos numa Irmandade animada pelo espírito de serviço, entendido como o ato de colocar a sobriedade ao alcance de todos os que a desejem. Os serviços definem o A.A. como o conhecemos e põem os seus membros em contato, em comunicação, com os que precisam de ajuda, os que querem parar de beber.

O serviço em A.A. compreende tudo o que se venha a realizar para alcançar o alcoólico que ainda sofre e se compõe de grande variedade de atividades que vão desde o preparo de uma xícara de café até a manutenção do Escritório de Serviços Gerais. No entanto, o serviço básico, e também a razão primordial da existência de A.A., é o de levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. O serviço dá à Irmandade a marca da ação. Alcoólicos Anônimos é uma sociedade de alcoólicos em recuperação e em ação.

Do mesmo modo que o objetivo de cada membro é a sua própria sobriedade, o dos serviços é colocar esta mesma sobriedade ao alcance de todos os que a desejem; “Cada grupo é animado de um único propósito – o de transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.

O ideal de ajuda se constitui numa importante força de coesão para o grupo porque anima os seus membros em torno de um objetivo comum e, por isso, se torna um sólido alicerce para a Irmandade. Indispensável à Unidade, é a própria essência do Terceiro Legado.

A tarefa de estender a mão àquele que ainda sofre oferece, a cada membro, um trabalho suficientemente grande para polarizar a imaginação e os esforços de todos os seus membros e para fazer nascer um profundo sentimento de lealdade em relação ao grupo. “Razões tinham que ser encontradas para manter as pessoas autoritárias e causadoras de atrito em seus devidos lugares. Um adequando comitê de serviços, com considerável pressão, aliado a muito amor e confiança, provou ser a resposta”. O serviço traz recompensas imateriais para os que o realizam e é um dos pilares em que assenta a recuperação individual.

Voltando ao tema, vemos que os serviços são mundiais e aí muita gente entende que não é da sua alçada em razão do adjetivo mundial, considerado o âmbito restrito da sua atuação individual. Mas os serviços têm outra dimensão, a espacial, uma vez que compreendem as ações que se desenvolvem nos grupos, as que são realizadas a nível nacional, as que ultrapassam as fronteiras de um país e as que são executadas a nível internacional. Como a Irmandade está na quase totalidade dos países do mundo, os serviços se tornaram realmente mundiais. Assim, o alcance da Irmandade é global e a sua mensagem é dirigida à espécie humana, a todos os que têm problemas com a bebida. Os Doze Conceitos, ligados ao Terceiro Legado, interessam em especial aos “servidores de confiança”, isto é, aos companheiros que se dedicam ao serviço.

Com poucos anos de existência, a Irmandade contava com milhares de grupos, com uma Junta de Serviços Gerias, com uma Conferência e uma Revista. Era necessário, então, estabelecer as relações entre estas essas estruturas. Desta forma, quando o próprio Bill W. idealizou os 12 Conceitos, estabeleceu as relações que visavam, a meu ver, montar um sistema, como se espera que exista numa sociedade como aquela em que vivemos, preocupada com os controles, a retroalimentação e com a reformulação do planejamento. Os Doze Conceitos de AA dão a coesão necessária aos serviços e previnem a existência de superposições e, como tal, evitam dissensões.

Outro ponto, que é necessário esclarecer, é o conceito de Serviços Gerais. São serviços que os grupos não podem fazer por si mesmos, como: uniformizar, editar e distribuir uma literatura composta de numerosos títulos; fazer um trabalho de informação ao público padronizado a nível nacional; passar a experiência adquirida pelos grupos da nossa Irmandade como um todo aos novos grupos; atender, numa escala maior, aos pedidos de ajuda; publicar a Revista Nacional, etc.

Há frases que demonstram um grande poder de síntese e que dão uma idéia muito clara das coisas: “Os Passos são para o alcoólico viver e as Tradições são para a Irmandade viver”. Outra diz que “Os Passos ensinam a viver e as Tradições ensinam a conviver”. São frases que, sendo curtas, exibem um grande poder de síntese e encerram uma grande significação. No entanto, em relação aos Conceitos, fica um pouco difícil condensar, fazer uma ponte que os una como um todo. Resta o esforço de tentar entendê-los, na sua totalidade, de modo a se ter uma ideia conjunta, uma visão global do seu conteúdo e é o que passamos a fazer agora.

Conceito I: Nele fica estabelecido que “A responsabilidade final e a autoridade suprema para os serviços mundiais recaem sobre os grupos de AA.” “Esta responsabilidade e a conseqüente autoridade foram transferidos para os grupos no decurso da Convenção Internacional de Saint Louis, em 1955”. Esta é a ideia do Conceito I.

Conceito II: Em 1955, os grupos delegaram autoridade à Conferência para a manutenção dos serviços mundiais e tornaram a Conferência a verdadeira voz e a consciência efetiva de toda a Irmandade de A.A.. Com este conceito, o grupo resolve o problema de como encaminhar os assuntos ligados ao serviço, isto é, o faz por meio de um instrumento, que é o da delegação. Desta maneira, delega o seu papel de condutor à Conferência de Serviços Gerais e o faz elegendo um representante de serviços gerais de cada grupo que compõe uma Área, que se reúnem em Assembléia de Área e elegem, anualmente, no caso do Brasil, um delegado por Área que atua em nome de todos os grupos da sua respectiva Área. A idéia central deste conceito está na delegação, feita pelos grupos à Conferência, do seu papel de condutor da Irmandade.

Conceito III: Por esse conceito, a “Conferência delega à Junta de Serviços Gerais a autoridade para administrar os assuntos de A.A.. Estabelece também as relações entre os grupos de AA, a Conferência, a Junta de Serviços Gerais, funcionários e comitês executivos acentuando o tradicional “Direito de Decisão”, que pode ser aplicado em praticamente todos os níveis da estrutura de serviços mundiais. Este conceito estabelece também uma relação de confiança nos líderes responsáveis dando-lhes o poder de decisão, levando em conta a sua responsabilidade e autoridade diante dos problemas e das situações que apareçam. A liderança moderada é a essência do “Direito de Decisão”, atribuído aos servidores de confiança. Bill afirmou: “todo o nosso programa dentro de A.A. repousa no princípio da confiança mútua. Confiamos em Deus, confiamos no A.A. e confiamos em cada um de nós”.

Conceito IV: Trata do “Direito de Participação”. Constitui-se numa salvaguarda contra a autoridade absoluta, suprema. É uma garantia de participação, do direito de fazer parte. Cria um mecanismo que impede a existência de membros de “segunda classe”. Está em perfeita consonância com a Segunda Tradição. Esse direito está incluído no Estatuto da Conferência de Serviços Gerais e, com ele, os membros da JUNAAB tornam-se membros votantes na Conferência. Esse conceito atende a uma necessidade, que se soma ao desejo de pertencer e de participar.
Conceito V: O “Direito de Apelação” garante que uma eventual minoria seja sempre ouvida. Qualquer membro de A.A. pode exercer esse direito, bastando para isso redigir um documento e dirigi-lo à Junta de Serviços Gerais. A outra face desse direito é também muito importante pois ela faz com que todo o tempo necessário e que todo o cuidado sejam dedicados aos temas postos em discussão. A minoria, bem ouvida, representa uma proteção contra uma maioria eventualmente desinformada, precipitada ou irritada. Previne uma possível “tirania” da maioria. Dessa forma, uma maioria simples raramente é suficiente para tomar decisões. Se não se chega a uma substancial maioria, é preferível adiar a decisão ou sair para o “procedimento do Terceiro Legado” ou ainda fazer o sorteio no “chapéu”.

Conceito VI: Atribui, em primeiro lugar, à Conferência e, depois, à Junta, a responsabilidade de manter os serviços mundiais e de decidir sobre assuntos de finanças e de normas de procedimento. Na sua ausência, a Conferência delega autoridade administrativa à Junta. Estabelece que, embora os custódios devam operar sob observação e orientação da Conferência, eles devem funcionar como diretores de uma grande organização de negócios, para o que devem ter ampla autoridade para administrar e conduzir os negócios de A.A..

Conceito VII: Por esse conceito, a Conferência reconhece a Ata de Constituição e os Estatutos da Junta de Serviços Gerais como instrumentos legais e lhe dá plenos poderes para administrar e conduzir todos os assuntos dos serviços mundiais de A.A. A Conferência fica com a força da tradição e com o poder do dinheiro e dá à Junta o direito de eleger os seus membros. Assim, estabelece que a escolha dos novos custódios cabe à própria Junta e que esta escolha deve ser submetida à aprovação da Conferência. Assim, a Conferência pode rejeitar, mas não eleger os novos candidatos a custódio. Isto é, preserva à Junta de Custódios o direito de funcionar livre e adequadamente tal como qualquer junta de diretores de negócios. Tudo isso dentro do conceito de “Servidores de Confiança”. Esse conceito estabelece um equilíbrio de poderes entre a Conferência e a Junta, indispensável a uma harmoniosa colaboração. Assim, a Ata de Constituição dá, aos custódios, autoridade legal de tal forma que lhes é possível dizer “não” para o que vem da Conferência, de vetar qualquer das suas ações. No entanto, eles não estão obrigados a usar toda a autoridade e durante o tempo todo. Muitas vezes é mais sensato um sim. Também a Conferência deve evitar o abuso da sua autoridade tradicional.

Conceito VIII: Por ele, os custódios da Junta atuam como planejadores, administradores e executores e, em relação aos serviços incorporados, exercem supervisão de custódia, podendo eleger os diretores dessas entidades. A Junta delega funções executivas e fica com a supervisão e, para evitar a concentração de dinheiro e de autoridade, as incorporações são mantidas separadas.
Conceito IX: Esse conceito atribui a liderança dos serviços mundiais aos custódios da Junta e os tornam diretamente responsáveis pela nossa Irmandade. Enfatiza também a necessidade de se escolher bons líderes para a estrutura de serviços. As pessoas certas devem ser escolhidas para as muitas tarefas a serem executadas em cada nível de serviço. “Não importa com que cuidado projetamos a nossa estrutura de serviços em princípios e relações, não importa quão bem repartamos a autoridade e a responsabilidade, os resultados operacionais da nossa estrutura não podem ser melhores do que o desempenho pessoal daqueles que devem servir e fazê-la funcionar. Boa liderança não pode funcionar bem numa estrutura mal planejada além do que uma liderança fraca não pode funcionar nem na melhor das estruturas.” Estabelece ainda que a base da estrutura de serviços repousa em milhares de RSGs, que nomeiam numerosos membros dos Comitês de Área e também tantos outros delegados, além de apreciar os candidatos a custódio das Áreas. A votação se faz pelo método do Terceiro Legado, ou seja, por 2/3 da votação ou por sorteio.

Conceito X: Estabelece a relação entre responsabilidades e limita a extensão. A maior responsabilidade e autoridade estão com os grupos e, por meio deles, com a Conferência. O Conceito I estabelece que a responsabilidade final e a autoridade suprema estão nos grupos e o Conceito II estabelece que eles delegam essa autoridade à Conferência. Esta, por sua vez, pelo Conceito III, delega para a Junta de Serviços Gerais a autoridade para administrar os assuntos de A.A.. A autoridade suprema da Conferência nunca deveria ser usada o tempo todo, a não ser numa emergência e isso acontece geralmente quando a autoridade que foi por ela delegada fracassa e precisa ser reorganizada em função da sua deficiência ou porque os limites da autoridade são constantemente ultrapassados. Além dos dispositivos para igualar autoridade e responsabilidade, esse conceito acrescenta duas garantias: o “Direito de Apelação” e o “Direito de Petição” a fim de assegurar que a minoria tenha uma autoridade correspondente à sua responsabilidade.

A Segunda Tradição define o que se entende por “Consciência de Grupo” como sendo a autoridade final e também fala dos servidores de confiança como tendo autoridade delegada. As definições cuidadosas e o respeito mútuo são indispensáveis para manter o equilíbrio necessário à realização de um trabalho correto e harmonioso.

Conceito XI: Por ele, os custódios devem ter a melhor assistência dos comitês permanentes, dos diretores de serviços incorporados, dos executivos, funcionários e consultores. Nesse conceito, está definida a atuação dos diversos comitês da Junta, a sua composição, funções e relações.

Conceito XII: Tem o mesmo conteúdo do artigo 12 da Ata de Constituição da Conferência. Estabelece que a Conferência observe o espírito das Tradições de A.A.; que nunca seja sede de riqueza ou de poder, que tenha fundos suficientes para funcionar, que nenhum membro seja colocado em posição de autoridade absoluta sobre os outros; que as decisões sejam tomadas após discussão, votação e, se possível, substancial unanimidade. Que nenhuma ação seja punitiva ou leve à controvérsia pública; que embora preste serviço, não desempenhe ato de governo, permanecendo democrática em pensamento e ação. Esse conceito é a base do funcionamento da Conferência e, diferentemente dos 11 precedentes, há para ele um mecanismo de proteção contra mudanças. Isto é importante porque garante o bem-estar geral do A.A.. São promessas solenes em que a Conferência se submete às Tradições e dá outras garantias. A prudência é a marca das garantias que protegem a Irmandade contra a riqueza, o prestígio, o poder, etc.

No seu conjunto, os Conceitos definem uma estrutura de serviços, estabelecem ralações entre elas, definem onde ficam a autoridade superior e a responsabilidade maior, estabelecem de modo muito sábio o equilíbrio entre a Conferência e a Junta de Serviços Gerais, cuidam primorosamente da relação entre responsabilidade e autoridade, garantem o direito e a atuação das minorias e estabelecem um modo de atuar da Conferência, ditado pela prudência e pela temperança. É um conjunto magistral em que nada ficou faltando, em que tudo que é necessário ao funcionamento harmonioso e eficaz de um imenso organismo foi pensado e sabiamente definido. É um conjunto de normas perfeito e irretocável.