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NOSSAS TRADIÇÕES, SEGUNDO BILL W.

“NOSSAS TRADIÇÕES, SEGUNDO BILL W.

São um Guia para se encontrar formas melhores de trabalhar e viver em Grupo”.

1 Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A. A..
Sem unidade A. A. morrerá. Liberdade individual e, não obstante, uma grande unidade. A chave do paradoxo: a vida de cada A. A. depende da obediência a princípios espirituais. O grupo precisa sobreviver; caso contrário, não sobreviverá o indivíduo. O bem-estar comum vem em primeiro lugar. A melhor forma de viver e trabalhar juntos como grupos.

AS TRADIÇÕES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

“Elas são para a sobrevivência do Grupo, aquilo que os Doze Passos de A. A. são para a sobriedade e paz de espírito de cada companheiro. ..”

Hoje, nós de A. A. estamos juntos e sabemos que vamos permanecer juntos.
Estamos em paz uns com os outros e com o mundo que nos rodeia. Por isso, muitos de nossos conflitos são resolvidos e nosso destino parece assegurado.
Os problemas de ontem têm produzido as bênçãos de hoje.
Nossa história não é uma história comum; ao contrário, é a história de como, pela Graça de Deus, uma força desconhecida tem-se levantado da grande fraqueza; de como sob ameaças de desunião e colapso, a unidade mundial e a Irmandade têm sido forjadas.
No curso desta experiência, temos desenvolvido uma série de princípios tradicionais pelos quais vivemos e trabalhamos unidos, bem como nos relacionamos como uma Irmandade para o mundo que nos rodeia.
Estes princípios são chamados de Doze Tradições de Alcoólicos Anônimos.
Elas representam a experiência extraída do nosso passado e nos apoiamos nelas para nos manter em unidade, através dos obstáculos e perigos que o futuro nos possa trazer.
Não foi sempre assim. Nos primeiros dias vimos que era uma coisa para algum alcoólicos se recuperarem, mas o problema de viver e trabalhar juntos era algo mais.
Por conseguinte, foi para um futuro desconhecido que olhamos pela janela da sala de estar da casa do Dr. Bob, em 1937, quando pela primeira vez percebemos que os alcoólicos poderiam ser capazes de se recuperar em grande escala.
O mundo ao redor de nós, o mundo de pessoas mais normais, estava sendo destruído. Poderíamos nós, os alcoólicos em recuperação permanecermos juntos? Poderíamos nós levar a mensagem de A. A.? Poderíamos nós funcionar como grupos e como um todo? Ninguém poderia dizer.
Nossos amigos psiquiatras, com alguma razão começavam a nos prevenir: “Esta
Irmandade de alcoólicos é dinamite emocional. Seu conteúdo neurótico pode explodi-la em pedacinhos.”
Quando estávamos bebendo, na verdade, éramos muito explosivos. Agora que estamos sóbrios, bebedeiras secas nos farão explodir?
E foi assim, que através das tentativas e dos erros que adquirimos rica experiência. Adotamos pouco a pouco, as lições dessa experiência, primeiro como política e depois como Tradição.
Este processo ainda continua e esperamos que nunca termine.

Caso algum dia nos tornemos muito rigorosos, a letra da lei poderá esmagar o espírito da lei. Poderíamos vitimar a nós mesmos, através de regras e proibições mesquinhas; poderíamos vitimar a nós mesmos, através de regras e proibições mesquinhas; poderíamos imaginar que houvéssemos dito a ultima palavra. Poderíamos até mesmo exigir dos alcoólicos que aceitassem nossas ideais rígidas ou se mantivessem afastados. Não podemos nunca engessar o progresso desta forma, mas as lições proporcionadas pela nossa experiência são muito importantes, estamos todos convictos disso.

Grande parte do trabalho de Bill no escritório de A. A. era cuidar da correspondência. As cartas vinham em um fluxo constante desde a publicação do artigo no Saturday Evening Post. Muitas destas cartas solicitavam auxilio a formação de novos Grupos ou pediam orientações sobre os diversos problemas e circunstâncias dos Grupos existentes. A idéia de se desenvolver diretrizes para os Grupos evoluiu do continuo surgimento de perguntas
semelhantes. Esta necessidade vinha sendo discutida desde 1943, quando o escritório central começara a coletar informações e solicitara aos Grupos que enviassem uma relação das regras e requisitos referentes à filiação.

A relação consolidada recordava Bill, tinha muitas páginas e uma reflexão sobre aquelas muitas regras, levou-nos a uma assombrosa conclusão: – se todas aquelas exigências fossem imediatamente impostas por toda parte teria sido praticamente impossível para qualquer alcoólico filiar-se a A. A.
As idéias básicas para as Doze Tradições de Alcoólicos Anônimos vieram diretamente desta vasta correspondência. Em fins de 1945, um grande amigo de A. A. sugeriu que toda aquela massa de experiências poderia ser codificada em um conjunto de princípios capaz de oferecer soluções comprovadas para todos os nossos problemas de convivência e trabalho conjunto e de relacionamento da nossa Irmandade com o mundo externo. A denominação “Tradições” dada a estes princípios atesta a genialidade de Bill. Se tivessem sido chamados de “leis”, “regras”, “estatutos” ou “regulamentos”, estes princípios talvez nunca fossem aceitos pelos membros. Bill conhecia muito bem seus companheiros alcoólicos: ele sabia que nenhum bêbado que se auto-respeitasse, sóbrio ou não, se submeteria docilmente a um conjunto de “leis” – isso seria autoritário demais!

Não obstante, a denominação “Tradições” só foi adotada um pouco mais tarde.
Inicialmente, Bill as chamou de “Doze Pontos para Garantir Nosso Futuro”, porque as entendia como diretrizes necessárias à sobrevivência, à unidade e à eficiência da Irmandade. Foram divulgadas pela primeira vez sob esse título em 1946 na The Grapevine.
Assim como os Passos, as Tradições não foram imaginadas antecipadamente como meios de ação contra problemas futuros. A ação veio primeiro. Não dispondo de nada em que pudessem se basear, exceto o método de tentativa, erro e nova tentativa, os Grupos pioneiros de A. A. logo descobriram: – bem, daquela maneira não funcionou, porém de outra deu certo; e essa maneira funciona ainda melhor!
Nossas Tradições são um Guia para se encontrar formas melhores de trabalhar e viver em Grupo, afirmou nosso co-fundador Bill W.: – elas são para a sobrevivência do Grupo, aquilo que os Doze Passos de A. A. são para a sobriedade e paz de espírito de cada companheiro. ..
A maioria das pessoas só consegue se recuperar se existir um Grupo. O Grupo precisa sobreviver ou o indivíduo não sobreviverá.

(Esta matéria foi extraída de trechos dos livros: A. A. Atinge a Maioridade, A Linguagem do Coração, Levar Adiante e as Doze Tradições Ilustradas como introdução do tema desta e das próximas edições, esclarecendo assim os Profissionais e Amigos de A. A.)

NOSSO BEM-ESTAR COMUM DEVE ESTAR EM PRIMEIRO LUGAR ; A REABILITAÇÃO INDIVIDUAL DEPENDE DA UNIDADE DE A. A.

(1ª. Tradição)
” O bem-estar comum é a base de sustentação.”

Muito se fala em A. A. sobre crescimento espiritual, mas pouco se fala de como conseguir este crescimento.
Para mim, não há crescimento espiritual sozinho, o crescimento se adquire através do outro, da maneira como vejo e aceito o outro.
A prática dos Passos me ajuda a aceitar a mim mesmo do jeito que sou e a partir daí começo a aceitar que o outro também tem o direito de ser o outro, de ser diferente, de ser ele.
Uma coisa que sempre me acompanhou desde minha chegada em A. A. foi a fé inabalável em seu programa; sem conhecer os princípios eu já tinha convicção que eles poderiam resolver qualquer problema.
A história de Bill reforçou essa convicção. À medida que fui tendo algum entendimento sobre os Passos, mais maravilhado eu ficava. Passei bom tempo falando só em Passos.
Quando ouvia algo sobre as Tradições ou lia, ficava decepcionado: – que coisa mais sem graça e essa desmotivação era forçada pelo chavão: “Tradição é para funcionamento de Grupos”, nada haver comigo, portanto.

Nota-se, de um modo geral, a grande dificuldade que tem o membro de A. A. com a prática das Tradições, chega a ser até um preconceito.
Talvez por nunca recebermos a informação correta sobre o significado dos princípios de A. A. quando chegamos ao Grupo pela primeira vez.
Eu, por exemplo, quando cheguei recebi a informação de que aqueles membros dos órgãos de serviço que falavam de Tradições estavam acabando com o A. A. e como eu poderia aceitar aqueles companheiros e o que eles falavam se eles estavam querendo acabar com aquilo que estava salvando a minha vida? Coisa mais absurda!
Mas com o passar do tempo, enquanto refletia sobre minha vida, despertei para uma palavrinha que mudou todo o rumo de minha história: a palavra GRUPO.
De repente percebi que minha vida era formada por grupos: o grupo de minha casa (minha família); o grupo do meu local de trabalho; o grupo dos colegas de futebol, e tantos outros grupos.
Veio então o seguinte raciocínio: se as Tradições são para o funcionamento de Grupos de A. A. vão servir também para os outros grupos nos quais estou inserido e comecei a buscar um entendimento melhor das nossas Tradições.
Logo na primeira tradição aparecia uma coisa nova para mim: bem-estar comum.
Eu nunca havia pensado nisso, aliás, eu nunca havia pensado no outro. O egocentrismo, a vida centrada em mim mesmo, era meu modelo de vida.
Então, logo no seu início , as Tradições começam a falar que sem levar em consideração o outro o grupo não irá em frente e para que isso aconteça é necessário que o bem-estar comum venha em primeiro lugar. Mas o que vem a ser esse bem-estar comum?
Toda coletividade, seja ela sociedade ou comunidade tem uma missão peculiar para o desempenho da qual existe, missão que lhe confere sua marca, sua característica e princípio formal e que, por assim dizer, é a sua alma.
Tal missão deve consistir evidentemente num bem (ou conjunto de bens) que deve ser conseguido mediante a atividade do ente coletivo (grupo) e de maneira que não só redunde em benefício deste ente enquanto tal (o grupo), como também beneficie, em última instância, a todos os seus membros.
Este bem (ou conjunto de bens) recebe o nome de “bonum commune”, “bem comum”. Nele se verifica uma relação recíproca: toda perfeição do conjunto significa um proveito para os membros e vice-versa, aumentando e consolidando- se o aperfeiçoamento destes, aumenta a capacidade operativa do conjunto…
Interessante esse conceito e muito diferente de minha percepção até então.
Quer dizer que o grupo é o somatório de suas partes e se essas crescem o grupo no seu todo cresce. E se a missão dos grupos em A. A. e de A. A. em seu todo é assegurar a sobriedade de seus membros e transmitir a mensagem àqueles que dela necessitam, logo a garantia de manutenção desse bem comum passa necessariamente pelo bem-estar comum de seus membros.
A manutenção, a busca constante desse bem-estar comum, bem estar do grupo, passa a ser o grande desafio a ser enfrentado por todos os grupos. Comecei então a entender o verdadeiro significado de “o bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; tenho que abrir mão dos meus anseios e minhas vontades sempre que elas ameaçam o bem-estar do todo”.
Fácil? Não. Muito difícil. Como resolver o problema da autoridade? Quem pode ser membro? Até onde o grupo pode ir? E quanto à propriedade e sustentação?
Essa e várias outras questões ameaçam constantemente o bem comum do grupo (a
espiritualidade) e quando o bem comum do grupo está sob ameaça o indivíduo
corre sérios riscos.
Aí sim, comecei a perceber que de nada adiantaria eu tentar colocar a minha
personalidade acima dos princípios do grupo, pois o primeiro grande ameaçado
seria eu. Logo, eu teria que me contentar em calar os meus anseios tão
acalentados pela minha personalidade distorcida em benefício do bem-estar do
grupo.
E quando consigo fazer assim começo a perceber que mudanças incríveis
acontecem em mim e que o grande beneficiado por colocar o bem-estar do grupo
em primeiro lugar sou eu mesmo.
A minha vida é feita de relações com outras pessoas e quando começo a
aprender a conviver com as diferenças de cada um dentro de um grupo de A. A.
passo a entender que a prática desses princípios em outros grupos de minha
vida (família, empresa, etc.) pode me levar ao crescimento espiritual tão
falado em A. A.
Se a prática dos Passos me ensina a viver comigo mesmo e meus monstros
interiores, a prática das Tradições me ensina a conviver com as pessoas e
aceitar as suas diferenças e através disso colocar o coletivo em primeiro
lugar e me deixando com meus anseios num segundo plano e sabendo que esse
estar em segundo plano não é nenhum demérito, mas acima de tudo desenvolver
um tipo de humildade que me faz entender que o todo é mais importante que
suas partes e que para eu crescer eu preciso do todo, sozinho nada sou.
Eu não sou o outro, o outro não sou eu, mas somos um grupo, enquanto somos
capazes de diferencialmente, eu ser eu vivendo com você; você ser você,
vivendo comigo… isso é espiritualidade!
Que maravilhas podem fazer os princípios de A. A.!

Revista Vivência Nº 123 – Jan/Fev-2.010 /Antônio

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REVISTA VIVÊNCIA – LEIA, PENSE E MEDITE…

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 21 JUL/AGO/SET 1992

LEIA, PENSE E MEDITE…

“Quanto melhor informados estiverem os membros do grupo e quanto mais participarem das decisões, mais salutar e feliz será o grupo e, consequentemente, menos divergências, críticas e problemas surgirão”. Este, o pensamento que levou a última Conferência de Serviços Gerais a escolher, para a próxima, o tema “vivenciando a Literatura e reformando a Matriz”, assunto que deverá ser exaustivamente debatido pelos grupos, para apresentação de resultados junto àquela Augusta Assembleia.
Entendemos que uma maior compreensão do tema só seria possível se todos se dedicassem à leitura de nossas literaturas, ao estudo das nossas raízes, dos conflitos vividos pelos nossos antecessores, analisando, ainda com profundidade, os princípios de RECUPERAÇÃO, UNIDADE e SERVIÇO, deixados por Bill e Bob. Esse estudo poderia também nos levar a um perfil aproximado “do que somos, de onde viemos e para onde vamos”.
Entretanto, é comum ouvirmos os membros mais antigos dizerem ao recém-chegado não se preocupar com as literaturas, apenas manterem a mente aberta, evite o primeiro gole e assista à reuniões. Fizemos assim e estamos sóbrios, dizem eles. Será que esses companheiros estão sóbrios mesmo ou apenas abstêmios? A verdade é que, para eles, as nossas literaturas são supérfluas e desnecessárias. Nenhuma influência têm na recuperação do alcoólico.
Se fosse só até aí, tudo bem, o próprio tempo se encarregaria de desfazer os males causados por tamanhos absurdos. O pior é que tais inverdades proliferam em cadeia à proporção que cada afilhado usa à “cabeceira de mesa” para transmitir sua mensagem, até mesmo em reuniões públicas. Nesse momento, uma vida humana e geralmente a felicidade de toda uma família está em jogo. A mensagem distorcida levada pelo orador pode ser a diferença, muitas vezes a diferença entre a vida e a morte.
Lembramo-nos de nossa chegada em A.A., quando ouvíamos os “antigos” discorrerem sobre “Os Passos”, “As Tradições” e “Os Conceitos”, numa verdadeira demonstração de conhecimento e sabedoria. Hoje, familiarizado com o programa, descobrimos que a história do A.A. é bem outra e que aquilo que ouvíamos ao chegar não está escrito em nossa literatura, ficando por conta da fértil imaginação daqueles companheiros.
A nossa literatura nada mais é que mensagens deixadas por Bill, Bob e outros. Elas representam para nós exemplos vivos de lutas, de sacrifícios, de abnegação e de perseverança. Elas retratam a história das “Tradições”, dos “Passos”, dos “Conceitos”, como surgiram, como foram escritos. Relatam o fracasso do “Movimento Washingtoniano”, de onde tiramos sábias lições. Sem literatura, tornar-se-á impossível o entendimento do “Anonimato”, do fundamento de “Autossuficiência”, da “Autonomia de Grupo”, do “Não profissionalismo”, etc…
O fato é que privar o membro de A.A. do conhecimento da literatura é mantê-lo afastado dos ensinamentos básicos e filosóficos da Irmandade e, portanto, sem condições de “dar de graça o que de graça recebeu”. Portanto, leia e divulgue a nossa literatura…

Vivência nº 21 – Julho/Agosto/Setembro 1992

O SEGUNDO LEGADO NA VISÃO DO DR. OSCAR COX

” O SEGUNDO LEGADO NA VISÃO DO DR. OSCAR COX. ”

Dr. Oscar Rodolpho Bittencourt Cox – Rio de Janeiro – RJ

“Há um interesse crescente acerca das Doze Tradições de Alcoólicos Anônimos.
Estudiosos de relações humanas começam a perguntar-se como e por que A. A. funciona como uma sociedade. Por que razão, indagam, nenhum membro de A. A .pode ter urna posição de autoridade sobre outro e não existe qualquer vestígio de governo central na organização.”

Para explorarmos este tema, sob minha visão, vejo a necessidade de fazer uma ligação a Biologia, o aprendizado distinto de religiosidade, a vivência da espiritualidade e, por fim, os conceitos e práticas nas famílias.

O Segundo Legado – manutenções da unidade em Alcoólicos Anônimos são as Doze
Tradições que os Grupos foram concluindo ao longo do tempo na prática, na cooperação e na troca de experiências. Percebeu-se que viver junto, viver em família é coisa a ser aprendida. Logo, em 1946 as Doze tradições são formuladas e publicadas pela primeira vez. Em 1950, já amplamente aceitas, são confirmadas por ocasião da 1a Conferência Internacional Cleveland Chio – USA.

Espiritualidade X Religiosidade – Os leitores devem se deparar com momentos, em suas vidas, que racionalmente desejam ou elaboram ações que na realidade são contrariadas diante de suas argumentações inconscientes e compulsivas.
Acabam envolvidos, portanto, com fatos desagradáveis, prejudiciais, de conseqüências maiores ou menores para com suas próprias vidas. – “Não foi possível impedir isso!” – Dirão estas pessoas no dia seguinte, buscando explicações e fugas das mais diversas.

O que acabamos de descrever, de forma extremamente genérica, acontece de um modo constante com qualquer ser humano, de maneira intensa ou mesmo imperceptível. Então, buscam-se formas mais tênues de racionalizar ou negar os fatos. Esconder e sepultar os sentimentos gerados passa a ser urna constante.

Qual o fenômeno que podemos identificar acima e que é chamado de compulsão?
Desde o nosso nascimento, as leis do prazer são as nossas diretrizes.
Imaginem uma criança discutindo a qualidade do macarrão do almoço com a mãe.
Isto não existe. Logo, todas as nossas necessidades são mascaradas pelo prazer. O prazer da satisfação faz com que o inconsciente registre e logo, o fenômeno se repete quando determinadas situações voltam a acontecer.

Nós, crianças, crescemos conhecendo as Leis do Prazer e as Leis Físicas, como por exemplo: a Lei da Gravidade – aprendemos a empurrar o chão e este reagindo, nos impulsiona para frente.

Noções de religiosidade nos são ensinadas, respeitando de um modo geral a religião do país. Seguimos o que outros nos informam como correto, comunicado por eles pela tradição, reduzida à formas fixas pela imitação e conservada por hábito, o que não deixa de ser o exercício de um poder.

Ao chegarmos á adolescência, período de liberdade, período de libertação do indivíduo em busca do próprio espaço, torna-se o jovem, naturalmente fanático quanto á religiosidade ou fanático também quanto ao seu ateísmo. O adolescente defende com vigor os seus direitos e verdades, as quais acreditam.

Nesta etapa da vida: luto de não ser mais criança, rupturas em relação aos pais, aproximação e formação de grupos da mesma faixa etária, a busca pelos prazeres imediatos e realizações se toma mais intenso de modo que, não se percebe e não se é informado quanto a necessidade do exercício de uma espiritualidade.

Espiritualidade: situação de relacionamento consigo mesmo – Quem sou eu? E
conseqüentemente com os outros.

Deve-se, na adolescência, começar a observação de si próprio e do mundo ao seu redor para que com estes fatos, balizados pelos limites mostrados pelos adultos e autoridades, possam exercitar seus próprios limites e assim aprender a atuar. É uma coisa nova. Lembremos que a criança só reage ao estímulo. È na adolescência que descobrimos que existimos e conseqüentemente observamo-nos e aprendemos a atuar em seqüência a observação de si mesmo, da vida, do Universo, do outro, portanto: “Eu existo”. Como isto ainda não foi aprendido pela Sociedade e difundido aos nossos jovens, permanecemos adultos apenas presos àqueles princípios de religiosidade aprendidos na infância,
portanto, não buscamos experiências vivenciais individuais com nossos sentimentos, com nossas reais necessidades, com nossas descobertas de qualidades e defeitos, mas, pelo prazer, em nome do prazer, pela própria Sociedade, nos lançamos aos modificadores de comportamento como cigarros, bebidas alcoólicas, oferecidos pela maciça propaganda a crianças e adolescentes. È bom citar que nestes períodos de sua evolução o Homem ainda
não possui senso crítico desenvolvido. Formou-se forte regra do prazer imediato, resultados imediatos e que as pessoas se transformam em indivíduos que não podem ser contrariados nos mínimos detalhes. Fecha-se o ciclo. Agora passo a ser vítima de compulsões, as mais diversas, como comida, bebidas, sexo, trabalho, etc…, que apesar de toda racionalização em contrário, não consigo vencer. “O que houve?”

Ferro-me em uma religião, com significado filosófico cujo juízo espiritual é a proposta de um valor, um empenho pessoal de força de vontade, onde dou ordens a um Deus do que ele tem que fazer. “O que deveria ter feito?”

Questionando a minha espiritualidade, ou seja, a minha estima pessoal – Eu me amo – pergunto sobre o meu valor, busco minhas qualidades. O juízo é existencial, é a vivência dos sentimentos, da realidade e aí troco experiências com as pessoas que vivenciam histórias semelhantes. Peço ajuda: eu existo.

Para combater as compulsões precisamos da experiência empírica das vivências dos sentimentos em vez da experiência dogmática na qual formos educados. É isto que os Grupos de Mútua Ajuda mostram com seus programas de unidade – Alcoólicos Anônimos nos apresenta, em primeiro lugar, este caminho das Tradições, da Unidade, da nova Família a ser construída. Para tomar consciência da própria espiritualidade, parte-se da melancolia, do sofrimento e das compulsões que constitui o momento essencial de partida
para a evolução completa. Atinge-se a felicidade que a crença perfeita confere graças à vivência dos sentimentos, à vivência da percepção da própria história que escrevemos a cada dia. Tomam-se os transes de visão interior da própria verdade e é desta forma que podemos nos tornar indivíduos adultos, maduros, responsáveis pelo próprio destino. É este
interior pessoal de verdade que todos os místicos religiosos descrevem.
Hoje, às portas do 3º milênio, os Grupos de Mútua Ajuda, com seus programas de Lemas, Passos, Tradições e Conceitos possibilitam a qualquer cidadão de mente aberta e boa vontade, que um dia foi vítima de compulsões – força impulsionadora inconsciente que o levou, mesmo sem ele querer, ao sofrimento, à perda, à impotência – confessar a própria derrota de seu ego, de sua religiosidade, de sua prepotência, orgulho e grandiosidade, e assim atingir, como já dissertamos, o nirvana de sua liberdade. Com este preâmbulo
no qual vimos a Espiritualidade X Religiosidade sob aspecto biológico, podemos apreender que Alcoólicos Anônimos – A. A. – nos ensina, quanto Sociedade Humana, a necessidade de Princípios que podem ser postos didaticamente na forma. OS TRÊS LEGADOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.

O Segundo Legado, a nossa Unidade, é que permite a troca de sentimentos, o compartilharem e o construir um grupo ou uma família.
A recuperação passa pela UNIDADE
A recuperação passa pelas TRADIÇÕES
A recuperação passa pelo GRUPO
A recuperação passa pela FAMÍLIA
“A mais feliz das conversas é aquela em que não há competição ou vaidade, mas sim uma calma e tranqüila trocam de sentimentos”. (Samuel Johnson)

Família

. No mundo atual, fala-se muito, mas diz-se muito pouco sobre o essencial.

. São necessárias grandes tragédias, muitas vezes, para as pessoas saltarem o que lhes vai na alma e no coração; de resto a conversa se resumo ao plano utilitário e material.
. A forma das pessoas manterem a paz e a aparente harmonia das famílias é de não abordar certos assuntos que poderiam provocar polêmicas, invocar o perdão do outro, exigir uma participação mais ativa, enfim, fazer funcionar a máquina familiar. Em consequência, as tensões, os ressentimentos e as mágoas se acumulam e ficam marcados no espírito.

. Para agravar esse clima de falsa paz, existe o pavor do ser humano de ser considerado diferente. “É tão mais fácil viver em rebanho e não dar explicações a ninguém…”.

. Existe uma enorme covardia (medo) perante o “que dirão” os outros. E, assim, as opiniões sinceras são guardadas cuidadosamente na gaveta do esquecimento. Para que dizer o que penso, se vai provocar tanta instabilidade? Pergunta-se. E aí se considera ser melhor deixar tudo cair num profundo silêncio, traidor da alma.

Sentimentos – difícil de definir. Envolve tudo aquilo que nos acontece ou não envolve nada… O sentimento é pessoal e único, transmite-se e até poder ser contagioso. Mas nunca pode ser explicado por outrem, mas apenas interpretado, e sendo assim, muitas vezes deturpado. O sentimento é a forma, e o seu conteúdo varia. Podemos sentir frieza, ira, amor, inveja, O sentimento é usado para o bem e para o mal. Mas o importante é que sentir é viver, é estar em movimento, é fazer crescer, é provocar atos, é simplesmente acontecer. Imaginemos o mundo sem sentimentos. O mundo seria uma espécie de coleção de estátuas a circular com gestos orientados por uma central e sem razão para existir. A desertificação dos sentimentos elimina nossa razão de ser, de viver. Se continuarmos nessa linha de pensamentos, o não sentir é a ausência de vida.

“Nós aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a arte simples de viver como irmãos”. (Martin Luther King)

Conta-se que uma levara ao Buda uma criança morta nos braços e gritava pedindo que ele a curasse. Buda mandou-a ir de porta em porta até encontrar uma casa onde nunca tivesse morrido nem um pai, nem um filho, nem um avô, nem um marido, nem um irmão, nem um amigo, e na qual nunca tivesse sofrido uma grande dor; se ela encontrasse tal situação, teria o seu filho ressuscitado. Quando ela voltou, exausta, já não pedia a cura do filho, pois
tinha acalmado o coração. E assim, através da dor dos outros, sentiu a paz que vem quando digerimos a dor.

Logo: preciso do outro.

Preciso compartilhar experiências.

Preciso trocar sentimentos.

Preciso aprender a ser social.

Por que:

Família – inicialmente agressão de pessoas consangüíneas (Sistema)
Família-¬¬reunião de pessoas com problemas entre si (Karma*)
Família – sistema a ser aprendido.
Família- corresponde as Tradições logo Unidade do Grupo (Segundo Legado).

O que tenho de aprender?

? -Haver diálogo (Primeira Tradição) para que possam fluir sentimentos (Segunda Tradição) apenas um quesito é analisado por vez (Terceira Tradição): um fala e os outros, e os outros escutam.

? Para que isto possa ocorrer, cada membro é autônomo/independente em perceber (ver – ouvir – falar), em pensar, em querer (desejos), em escolher, em imaginar (fantasias). Isto é limitado pela cultura/comportamento do próprio grupo (Quarta Tradição).

? Só com este aprendizado é que podemos realmente ajudar outro membro em dificuldades (que ainda sofre) (Quinta Tradição). Para que isto se concretize, atuar só sem julgamentos, críticas, censuras, ajudas externas para que não se envolva em questões alheias (Sexta Tradição) de modo tal, que todos os membros da família sejam absolutamente autossuficientes (Sétima Tradição), e isto só é possível através a vivência/experiência do exemplo da autoridade/pais/escola/comunidade/padrinho (Oitava Tradição). Para que isto
seja atingido, precisamos dos avanços/técnicas da Humanidade – profissionais, logo, a família/grupo não deve se estruturar como Cia (companhia), mas todos devem ter tarefas com responsabilidade (Nona Tradição), para isto, a família/grupo não deve se envolver/opinar sobre questões alheias ao seu núcleo (Décima Tradição) – evitam-se controvérsias.

? Assim, na família/grupo as relações interpessoais são por atração e não promoção (Décima Primeira Tradição) – importância do anonimato (Décima Segunda Tradição) – os princípios acima das personalidades (Leis Cósmicas).

Assim, concluímos ser o Segundo Legado – (Tradições) parte concreta na recuperação do indivíduo quanto ser humano, exercendo sua plena biologia.
Temos que aprender a viver em grupo constituindo, como adultos, uma família da minha escolha.

Notas e Bibliografia:

. Karma – termo ligado à Lei de causa e efeito, segundo a qual toda ação, sentimento e pensamento de uma pessoa produzem efeitos de natureza similar.
Que retornam ao individuo que os gerou. Em outras palavras, tudo que fazemos, sentimos ou pensamos retornam a nós, seu ponto de origem, a curto, médio ou longo prazo. Em português, costuma-se empregar a palavra destino para traduzir o termo “carma”. Contudo, ela não é suficientemente adequada para exprimi-lo. Observe-se que há um carma básico que deve ser, em princípio, totalmente aceito pelo indivíduo; só depois dessa aceitação
inicial, é possível transformá-lo. È a partir desse carma básico, que pré-existe ao próprio nascimento físico, que dada ser vai construindo a trama da sua própria vida e, conseqüentemente, modificando o seu carma (positivo ou negativo) e transformando-o segundo nossas atitudes, desejo e aspirações. O trabalho junto ao carma é, por conseguinte, permanente e sua duração equivale ao período de nossa vida sobre a Terra. Eis um fato que
favorece a prática dos Oitavo e Nono Passos. Favorece a prática das Oitava e Nona Tradições.

Bibliografia:

1 – James W. – “As Variedades da Experiência Religiosa”. CULTRIX – 1995. 337p.

Nota: O livro citado, escrito pelo Psicólogo, Filósofo William James (1842 – 1910) serviu como uma das bases a William Griffith Wilson – Bill W.
(1895-1971) e Dr.Robert Holbrook Smith – Dr. Bob (1879 – 1950) para Fundarem
Alcoólicos Anônimos – A. A. dia 10-06-35: data em que Dr. Bob bebeu pela última vez.

2 – Livro “Alcoólicos Anônimos” – Edição comemorativa – luxo – 50 anos de A.A. no Brasil – Nov. 1996

3 – Correa de Sá Cândida C. – “Crônicas de uma Caminhada” Edição do autor 2.000

* Ciclo das Doze Tradições – outubro de 2003 – Leopoldina – MG

ENCONTRAR O SEU PRÓPRIO CAMINHO

Encontrar o seu próprio caminho

É um tema que mexe com todos os membros de A. A. e até envolvendo nossos familiares e amigos.
Sabemos da existência dos Grupos Oxford e Washingtonianos. Movimento particular e religioso que trabalhavam com alcoólicos.
O caminho tortuoso do alcoólico cheio de altos e baixas desilusões e frustrações. Falência às vezes são encontradas através da mensagem recebida pelos indivíduos, classificamos a mensagem de Edi a Bill e a visão de um despertar espiritual que manteve abstenico por período.
Tendo sentido uma forte obsessão em Akrom procurou outro alcoólico e através de amigos encontrou Robert Bob Smith que partindo de uma simples conversas, sendo a centelha para iniciar a Irmandade de A. A. e encontrar seu próprio caminho, e o Dr. Bob também encontrar seu caminho. Na seqüência Bill D. aceitar a mensagem e também fazer o mesmo sendo o terceiro membro de uma Irmandade universal.
Com um Grupo em Akrom e um em Nova York, alguns homens, estava começando encontrar seus próprios caminhos.
No ano de 1939 viu a chegada entre nós de outra pessoa inesquecível que encontrou seu próprio caminho da seguinte forma:
Uma senhora alcoólica conhecida por muito como Marty, no sanatório Blythewoow em Greennwich Conneticut. Ela tinha sido paciente do Dr. Harry Tebout, e ele havia entregue uma cópia do manuscrito da futura publicação do Livro de A. A. Primeira leitura a deixou revoltada, mas a segunda a convenceu. Em breve ela foi a uma reunião realizada em nosso salão 182 Clinton Street, dali ela voltou para Blythewood levando esta clássica mensagem a um companheiro que estava internado no sanatório “Grennie não estamos mais sozinhos” porque encontrou ai seu próprio caminho. Então foi iniciado o Grupo número três de Alcoólicos Anônimos apoiados pelo Dr. Harry e pela Sra. Wilie proprietária do sanatório Blyhewood. Marty foi uma das primeiras mulheres a procurar Alcoólicos anônimos e se tornou mais tarde uma das trabalhadoras mais ativas que tivemos.
Anos mais tarde em 1952 psicólogo inglês dividiu em três Grupos milhares de veteranos da Segunda Guerra Mundial hospitalizados com enfermidades mentais. Foram dados tratamentos psiquiátricos ao primeiro Grupo; o segundo Grupo recebeu outro tipo de terapia e ao terceiro Grupo, não foi dados qualquer tipo de tratamento: segundo uma escala de melhoria criada para esse propósito, 44% (quarenta e quatro por cento) do primeiro Grupo conseguiu alguma melhoria com psicanálise, 64% (sessenta e quatro por cento) do segundo Grupo, conseguiu melhoras com outras terapias e finalmente 72% (setenta e dois por cento) do terceiro Grupo atingiu melhorias sem qualquer tipo de tratamento, este foi tratado por funcionários sem nenhuma experiência ou previa preparação terapica, mostrando o melhor índice de melhora.
Embora existam casos em que depois de conseguir a abstinência alcoólica, apareçam problemas emocionais ou mentais que podem requerer a assistência da medicina, a maioria dos membros de Alcoólicos Anônimos agiria acertadamente com maior intensidade.
Os Doze Passos se desejam libertar-se por completo dos sintomas de depressão, da ansiedade, do temor, da hostilidade, da apatia, etc…
Encontrar seu próprio caminho ilustramos estes passados de sofrimento;
Vamos falar nos dias de hoje após recebermos três heranças benditas deixadas para nós que é a recuperação, unidade, serviço da seguinte forma:
. Doze Passos – sugeridos para recuperação
. Doze Tradições – mantermos unidos na face da terra
. Doze Conceitos – serviços que sendo feito
. Ajuda concretizar a recuperação e entender
Mensagem para que outros passam a encontrar seu próprio caminho, viver e conviver dentro de Alcoólicos Anônimos em tempo bom ou ruim agradecendo a Deus sua existência.
Para parar de beber é simples: precisamos aceitar o programa, evitar o primeiro gole, freqüentar as reuniões, esse é o dia que mais precisamos estar presente em uma sala de reunião ouvindo o depoimento dos companheiros (as).
Qualquer um pode encontrar seu próprio caminho, só utilizar os Doze Passos sugeridos para recuperação.
(Companheiro Tarcisio – 29/09/2010)

RAIVA, MÁGOAS E RESSENTIMENTOS

Raiva, mágoas e ressentimentos

Toda vez que alguém ou algo se choque com o bem-estar de outra pessoa, com o seu prazer, irá imediatamente produzir a chispa da raiva. Esta poderá abrandar-se logo ou atear incêndio, dependendo da área que tenha atingido.
A raiva é a reação emocional imediata à sensação de se estar sendo ameaçado, sendo que esta ameaça possa produzir algum tipo de dano ou prejuízo.
Não há quem já não tenha sido vítima da raiva. Todos os dias nos deparamos com diversas pessoas, no trabalho, no trânsito, nas conversações cotidianas… sendo estas as mais diversas, portadoras dos mais variados estados de ânimo. Não raro, alguma palavra mal empregada, algum tom de voz equivocado, e então sentimos ofendidos, tendo a raiva como reação imediata.
Sentir raiva é atitude natural e normal no quadro das experiências terrenas. Canalizá-la bem, elucidando-a até a sua diluição, é característica de ser saudável e lúcido. Mas como impedir que esta sensação inquietante se alastre e não ocupe mais espaços na nossa mente e sentimentos?
O primeiro passo a ser dado é a aceitação de se estar sentindo raiva. Não há motivos para nos envergonharmos da raiva e do fato de senti-la. Camuflá-la perante atitudes de falsa humildade e santificação são atitudes de quem ilude a si próprio, optando pelo parecer em detrimento do ser.
Em seguida devemos nos indagar: “Por que fiquei tão bravo ou brava com atitude daquela pessoa? Por que me deixei atingir tanto? O que esta pessoa fez de tão desagradável a ponto de conseguir me desequilibrar o restante do dia?” Neste momento inicia-se a racionalização da raiva, e então é que percebemos que nós mesmos tivemos uma participação ativa na sua elaboração. Não foi o outro que produziu raiva em mim, pois somos nós que estamos sentindo raiva, logo nós mesmos a produzimos. Está em nós a sua origem e não no exterior.
Como dissemos, a raiva é uma reação emocional que ocorre toda vez que alguém vai de encontro ao nosso bem-estar, de maneira que nos sentimos ameaçados. O que então nos deixou tão ameaçados? Que área do meu ser aquela palavra proferida pelo ofensor atingiu de maneira tão precisa? Por que aquilo que foi dito significou tanto para nós?
A partir desse momento nós começamos a perceber que na verdade a sensação de inferioridade ou de ofensa não foi produzida pelo outro, ela já existia dentro de nós. Seria como se a palavra empregada fosse a chave certa para uma determinada idéia existente dentro de nós mesmos – ela já estava ali – bastava acioná-la.
Isso não significa, de maneira alguma, que devamos ser coniventes com o desrespeito e ironia das pessoas ao nosso redor, as quais agem sem pensar nas conseqüências de seus atos. Mostrar-se ofendido, mostrar-se desgostoso com a situação, demonstrar os sentimentos de contrariedade e até mesmo a raiva inerente à ofensa são reações perfeitamente normais, de quem respeita a si mesmo e se considera credor do respeito e consideração dos seus semelhantes. Da mesma forma, dar uma corrida, realizar exercícios físicos ou algum trabalho que leve à exaustão, são recursos valiosos para se diluir a raiva. Extravasar, contar para os amigos como se sente, também são atitudes saudáveis e terapêuticas. O que não se deve fazer é camuflá-la, reprimi-la, pois então estaremos oportunizando o surgimento da mágoa e do ressentimento.
Certamente há situações em que a dor nos atinge sem que possamos nos defender. Ocorrências em que ficamos paralisados, sem saber como agir, tamanha nossa surpresa e decepção. Entretanto, parece que nunca estamos preparados para as decepções. Acreditamos que sempre seremos estimados e considerados por todos, e que as pessoas nunca irão nos trair – e então nos magoamos.
A ingratidão e a calúnia ainda fazem parte do orçamento moral da humanidade, e não há quem não se depare como elas em algum momento. Dependendo da pessoa autora do disparo, do lançamento do dardo, este parece penetrar o mais profundo da alma, produzindo enorme sofrimento. Muitas vezes, aquela pessoa em que nós mais confiávamos nos trai, nos decepciona, nos fere – e a dor então é perfeitamente natural. Chorar, considerar a ocorrência injusta, demonstrar os sentimentos ao agressor, mostrando-lhe os ferimentos, são atitudes que auxiliam para que a dor diminua e se abrande. Contar aos amigos o ocorrido, demonstrando como se sentiu diante da situação, dizer o quê o magoou, são recursos que colaboram para que a mágoa não se instale na criatura.
Em nenhum momento devemos nos permitir guardar a mágoa. Quando a mágoa se instala, o indivíduo vai perdendo aos poucos a alegria de viver, avançando em direção aos estados depressivos e de melancolia – extinguindo-se o prazer pela vida. A mágoa cultivada aloja-se em determinado órgão e o desvitaliza, alterando o funcionamento normal das células.
O ressentimento é o produto direto da repressão da raiva. Não expressamos nossos sentimentos ao ofensor, não lhe demonstramos nosso desapontamento e desgosto e então passamos a guardá-la, a fim de desferi-la no momento oportuno.
O ressentimento é fruto de nosso atraso moral. Nós guardamos a dor da ofensa a fim de esperar o momento oportuno da vingança, do revide, a fim de sobrepormos nosso ego ferido em relação ao ego do ofensor. Quando isto acontece, um sentimento de animosidade cresce dentro de nós e a cada dia, até que a convivência com a outra pessoa se torne insuportável. Um olhar não suporta mais o outro e a relação cessa por completo. Muitas amizades terminam assim, por falta de diálogo, de sinceridade e humildade em reconhecermos para o outro que ficamos chateados com sua atitude. Casais acumulam memórias de brigas, guardando lembranças de atritos que já ocorreram há meses, sem trocarem sequer uma palavra sobre o assunto, criando um clima silencioso o qual vai tornando o ressentimento amargo e infeliz. Assim, há pessoas que possuem sobre o olhar uma “máscara espessa”… que encobre qualquer sorriso… Chegam a nos causar quase medo! É a amargura… que vai retirando toda a alegria de viver da pessoa.
Nós devemos reagir imediatamente ao ressentimento, impedindo o seu desdobramento. Sem dúvida que existem pessoas que se comprazem na calúnia, em proferir ofensas e mentiras sobre toda e qualquer pessoa. Não devemos sintonizar com este tipo de faixa vibratória e aceitar-lhes aos dardos infamantes.
Quando optamos por não guardar ressentimentos estamos fazendo um bem a nós mesmos, impedindo a desarmonia e inquietação decorrentes da sua instalação nos painéis das emotividade. O outro, porque em desequilíbrio, receberá os frutos de suas ações, decorrente da faixa em que se encontra.
A causa destes algozes da alma humana, tais como a raiva, a mágoa e o ressentimento, quase sempre é a mesma: a falta de auto-estima da criatura, ou seja, a falta de amor por si mesmo. Quando valorizamos em demasia o olhar de amigos, colegas e familiares, estamos nos apoiando em terreno movediço. Nos tornamos apegados e dependentes.
Por outro lado, quanto mais nos descobrimos, quanto mais passamos a desenvolver nossas potencialidades, reconhecendo nossos valores e nossa beleza única, mais seguros nos tornamos, de maneira que a raiva e a mágoa não encontram alicerces para sua instalação.
Aquele que se ama e valoriza não se magoa facilmente e tampouco fica irado com qualquer palavra descabida de um colega de trabalho ou amigo. Dessa forma, trabalhar pelo desenvolvimento de nossa auto-estima é o melhor antídoto para evitarmos o acúmulo do lixo mental dos ressentimentos e mágoas.
Na origem de nossos males – por mais que insistimos em culpar os outros – , sempre está a própria criatura, herdeira de si mesma.
(Domingo de Temática – GRM: 19/09/2010 – Comp. Delson)

O ANONIMATO E A CONVENÇÃO INTERNACIONAL DE 2015

O anonimato e a Convenção Internacional de 2015
Box 4-5-9, Mar. / 2015 (pág. 1) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_spring15.pdf
Título original: “El anonimato y la Convención Internacional de 2015”

Não há a menor dúvida: temos visto muitas mudanças na maneira em que os membros de A.A. se comunicam entre si a partir de 2010, quando mais de 50.000 se reuniram em San Antonio, Texas, para a última Convenção Internacional. Os aparelhos mudaram e as plataformas também mudaram.
Mas não mudou de modo algum o nosso princípio de anonimato.
Por que anonimato ainda continua sendo tão importante para o bem-estar da nossa Irmandade? Embora as razões sejam inúmeras, é de especial importância o fato de que o anonimato oferece ao indivíduo que está lutando com o alcoolismo, uma maneira segura de procurar a ajuda de A.A. sem se preocupar com a possibilidade de que outras pessoas saibam disso. Frances Brisbane, Custódia Classe A – não alcoólica, durante seus anos como profissional no campo do alcoolismo, encaminhou inúmeros alcoólicos a A.A., e em sua opinião, “de tudo o que lhes digo sobre A.A., o que mais os encoraja a participar de sua primeira reunião é o princípio do anonimato”.
Isso não significa que A.A. seja uma organização secreta e, as Convenções Internacionais não são, absolutamente, eventos secretos. Embora os membros de A.A. não deem seus nomes completos nem deixem filmar seus rostos quando a partilham a informação sobre A.A. através dos meios de comunicação públicos, nossos membros encontram diversas maneiras de colaborar com nossos amigos da imprensa para que o mundo saiba que temos uma solução para o problema mortal do alcoolismo. Na nossa Sala de Imprensa/Mídia no website de A.A., http://www.aa.org (http://www.aa.org/pages/es_ES/information-for-professionals), há uma rica mina de informações para os profissionais de mídia sobre a nossa Irmandade mundial e a respeito de como os membros de A.A. podem colaborar com a imprensa.
Na Convenção Internacional em Atlanta haverá uma Sala de Imprensa totalmente equipada e auxiliada por pessoal de apoio muito bem preparado. É preciso reconhecer que um evento reunindo mais de 50.000 pessoas, até algum tempo atrás alcoólicos desesperados, que se juntam para comemorar 80 anos – felizes, alegres e livres – é de grande interesse jornalístico. De acordo com Jim M., coordenador de Informação Pública do Escritório de Serviços Gerais: “Queremos que a imprensa saiba que ‘nós’ estamos em Atlanta para comemorar 80 anos de A.A. sem revelar através dos canais de mídia a identidade pessoal de alguém que faça parte desse ‘nós’. Desta forma focamos a atenção do público na mensagem e não em qualquer mensageiro particular”.
Terry Bedient, Presidente da Junta de Serviços Gerais, considera o anonimato não como um ato de autocontrole, mas como uma manifestação ativa de amor e serviço. “O anonimato é um presente que cada membro dá à Irmandade. É a humildade em ação, uma decisão voluntária tomada pelos membros de A.A. de deixar de lado o reconhecimento pessoal para dar destaque aos princípios e o programa de A.A.”.
Atualmente, é possível compartilhar fotos e vídeos através de aparelhos digitais quase instantaneamente. E aos membros de A.A. lhes encanta compartilhar. Na hora de tomar uma decisão sobre a prática pessoal de anonimato, uma frase, ligeiramente revisada, do Livro Grande oferece uma boa sugestão: “Não é o fato de [compartilhar], que está em julgamento, mas quando e como [compartilhar]” – “Alcoólicos Anônimos”, página 125/5/1 – Junaab, código 102.
Muitos membros de A.A. também leram em nossa literatura o sábio conselho de “conter a língua e a pena”. Para muitos de nós tem sido bastante útil este princípio de reflexão prudente antes de falar ou escrever. Um membro disse recentemente em uma reunião de A.A.: “Também devo praticar esse tipo de autocontrole quando se trata de ‘clicar e enviar’”.
Espera-se que algumas dezenas de milhares de alcoólicos participem da Convenção, mas, outros dois milhões de membros de outras partes do mundo não irão estar lá. Os membros que têm a sorte de desfrutar da experiência da Convenção pessoalmente, sentindo-se profundamente agradecidos, muitas vezes querem “transmitir” esse sentimento para seus fieis companheiros que nos seus respectivos Grupos e países continuam atendendo ao telefone, preparando a sala de reunião, fazendo café e procurando que todos os outros serviços possam ser prestados sem interrupção para os principiantes que cheguem quando alguns de nós estamos longe de nosso grupo base.
Embora publicar nas redes sociais fotos e vídeos das suas experiências da Convenção possa parecer a maneira mais “fácil e cómoda” de comunicá-las aos outros, publicar algo que revele que alguém é membro de A.A. em uma área da Internet acessível ao público em geral não está de acordo com a tradição de anonimato do A.A. – ver “Guia de Orientação na Internet” , Junaab, código 245 e também o website => http://www.aa.org/assets/es_ES/smf-197_sp.pdf
Felizmente, há outras maneiras com as quais membros podem comunicar sua experiência. Por exemplo, enviar uma foto por e-mail para seus amigos (consulte “Guia de Orientação na Internet” para sugestões relacionadas ao uso de e-mail e a função de ‘Bcc’ – cópia oculta). Ou pode fazer upload de conteúdo para um programa (P2P – pessoa a pessoa) para compartilhar arquivos protegidos por senha. E, mesmo parecendo muito antiquado em um mundo digital, há membros que preferem esperar retornar às suas casas para compartilhar fotos e histórias pessoalmente com seus companheiros.
Os AAs podem querer informar a outras pessoas que um vídeo da cerimônia do desfile de bandeiras, com anonimato protegido, será transmitido via website de A.A. => http://www.aa.org no fim de semana da Convenção (N.T.: entre os dias 2 e 5 de julho de 2015).
Certamente, ninguém pode impor “regras”, quanto à forma em que outros membros praticam o anonimato pessoal perante a imprensa. Na nossa Irmandade, a autoridade reside na nossa consciência de grupo esclarecida, que costuma se manifestar na literatura aprovada pela Conferência como, por exemplo, “Entendendo o Anonimato” – Junaab, código 216. Este folheto e outros recursos mencionados neste artigo podem ajudar membros de A.A. a tomar decisões esclarecidas. A ampla liberdade desfrutada pelos membros de A.A. vem acompanhada de uma grande responsabilidade.
Assim como muitos outros escritos de Bill W., um artigo publicado na edição de novembro de 1960 na revista Grapevine, propõe alguns princípios que permanecem válidos até hoje. Embora Bill se referisse naquela época à televisão, as ideias expressadas continuam servindo como guia para os AAs que compartilham suas experiências em um mundo cada vez mais digitalizado: “Uma grande rede de comunicações se estende agora por toda a terra, incluindo os rincões mais remotos.
Ainda considerando seus enormes benefícios públicos, este ilimitado fórum mundial é, no entanto, um vasto campo de caça para aqueles que procuram dinheiro, aclamação e poder em detrimento da sociedade em geral…
Portanto, não há nada mais importante para o bem-estar futuro de A.A. que a maneira como utilizemos esta colossal rede de comunicação. Se usada bem e sem egoísmo, os resultados podem exceder tudo que possamos imaginar. Se fizermos mau uso deste magnífico instrumento, acabaremos destruídos pelas exigências egoístas dos nossos próprios companheiros – muitas vezes motivadas por boas intenções. Contra este perigo, o espírito de sacrifício do anonimato de A.A. ao nível público mais elevado é, literalmente, nosso escudo e nossa defesa. Novamente, temos que confiar que o amor a A.A. e o amor a Deus sempre irão salvar a situação”.
Esperamos vê-los em Atlanta – e se virmos você, não contaremos para ninguém.
Abaixo algumas sugestões que poderão ajudar a colocar em prática o princípio do anonimato em Atlanta:
ONDE? Não devem ser feitas fotos ou vídeo-gravações em nenhuma reunião da Convenção
Internacional de 2015…
QUEM? Tenha cuidado para não capturar imagens em/ou perto dos locais da Convenção de membros de A.A., ou de seus parentes ou amigos, que não lhe tenham dado permissão para fazê-lo, e que, talvez, não queiram aparecer nas suas fotos e vídeos…
QUANDO? Você deve obter permissão antes de tirar fotos – e falar brevemente com as pessoas sobre como vai proteger o anonimato de todos…
O QUE? Certifique-se de que há não há cartazes, logotipos, etiquetas e outros materiais da Convenção de A.A. que, se eles aparecerem em uma foto, poderá indicar que os personagens são membros de A.A.
POR QUE? … porque o anonimato é responsabilidade de TODOS NÓS.
Ainda a respeito desse assunto
Fotografias em eventos de A.A.: Pensar antes de clicar
Box 4-5-9, Fev. Mar. / 2007 (pág. 3-4) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_febmar07.pdf
Título original: “Fotos en los eventos de A.A. Pensar antes de pulsar”.
Atualmente, quando se podem bater fotos dos nossos amigos de A.A. com um rápido movimento de “focalizar e clicar” a partir de qualquer telefone celular, está mais fácil que nunca esquecer a Decima Primeira Tradição de A.A. que diz: “Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção; cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no radio e em filmes”. E de fato, esta Tradição resistiu às provas do tempo.
Na Conferência de Serviços Gerais de 1974, Ruth H., então Delegada do Sudeste de Nova York, disse: “Recentemente um membro local tirou fotos de todos os assistentes a um aniversário pessoal, sem perguntar a alguém se queria ou não ser fotografado. O participante de honra (que está sóbrio há muitos anos em A.A.) foi fotografado junto com os oradores e cortando o bolo, como se fosse um casamento. Quando perguntou ao fotógrafo se havia pedido permissão aos assistentes para tirar fotos, ele disse: ‘É o meu Grupo e a câmera é minha’”. Em outro caso, relatou Ruth, um membro que tinha sido fotografado na reunião do seu aniversario, “ingenuamente colocou a fotografia na mesa da sala de estar da sua casa. Um vizinho entrou, olhou e indicou com o dedo outra pessoa na foto dizendo ‘não sabia que ele era membro de A.A.’”.
“Esse assunto”, disse Ruth, “foi apresentado na assembleia de Área. Alguns disseram: ‘todo mundo me via bêbado, porque haveria de me esconder em A.A.?’”. Outros opinavam que se poderiam afugentar os principiantes, ou, pelo contrário, os principiantes podem pensar que ficaria bem chegar na próxima reunião de aniversário munido de uma câmera. Depois de discutir o assunto, Ruth disse, “a assembleia aprovou a moção de que nosso Comitê de Área ‘sugere energicamente’ que não sejam feitas fotografias em nenhuma reunião de A.A. – para proteger o anonimato de todos os presentes e não afugentar os participantes, uma vez que fazer fotos viola ‘o espirito da Primeira, Décima Primeira e Décima Segunda Tradições’”.
Atualmente, a decisão de fazer ou não fazer fotos de membros de A.A. nos eventos de A.A. é um assunto de consciência de Grupo. Por exemplo, antes ou depois do último café da manhã/almoço da Conferência de Serviços Gerais, são feitas muitas fotografias – mas não durante nenhuma das sessões plenárias. De acordo com um membro do pessoal do Escritório de Serviços Gerais – ESG, a experiência coletiva de A.A. indica que deve ser consultada a consciência de Grupo antes de tomar uma decisão desse tipo. Se a consciência de Grupo não aprova que se façam fotos, seria prudente anunciar essa decisão de forma reiterada a todo o Grupo. E em todos os casos, antes de fazer uma fotografia de um ou mais membros, é sugerido pedir permissão tanto a eles como ao servidor indicado pelo Grupo para lidar com esse assunto.
Repetidamente, a experiência demonstrou aos AAs que estar no foco do público é perigoso para a nossa sobriedade pessoal – e para nossa sobrevivência coletiva se quebramos o anonimato diante do público e depois nos embriagamos. Mas, como disse Bill W., nosso cofundador, “era preciso dar a conhecer A.A. de alguma maneira. Assim, recorremos à ideia de que seria muito melhor deixar que nossos amigos o fizessem por nós” – entre eles, nossos sete Custódios não alcoólicos (N.T.: no Brasil são quatro). Podem ficar na frente das câmeras ou utilizar seus nomes completos sem risco para si próprios ou para a Irmandade. Assim, fazem chegar a mensagem de A.A. a muitos alcoólicos doentes e aos profissionais que os atendem e cuidam deles.
Numa seção do Livro de Trabalho de Informação Pública são oferecidas sugestões “Para levar a mensagem através dos meios de comunicação”. Sugere que quando um membro de A.A. aparece na TV, no rádio ou na internet, e se identifica como tal, “será prudente fazer alguns acertos anteriores com o entrevistador para que seja utilizado apenas o primeiro nome, e para que sua imagem apareça em forma de silhueta, sem possibilidade de ser identificada. Na Conferência de Serviços Gerais de 1968, foi manifestada a opinião de que ‘aparecer na TV de uma maneira que se possa ver todo o rosto é uma quebra de anonimato ainda que não seja revelado o nome completo’”. Entretanto, se um membro de A.A. aparece publicamente como um alcoólico recuperado ou em recuperação, mas não revela que é membro de A.A., “não há nenhum problema com respeito ao anonimato. O membro aparece como qualquer outro convidado pode utilizar seu nome completo e sua imagem pode ser reproduzida normalmente”.
É importante ter em conta que “um membro de A.A. que apareça como tal, com o anonimato protegido, em um programa de entrevistas deve explicar com antecedência ao entrevistador que os AAs tradicionalmente limitam seus comentários ao programa de A.A. O membro não se apresenta como um especialista nem fala a respeito da doença do alcoolismo, as drogas, o índice de suicídios, etc.”. Tradicionalmente, “os AAs falam por si próprios, não pela Irmandade em seu conjunto”. Geralmente costumam ressaltar que “o único interesse de A.A. é a recuperação e a sobriedade continuada” dos alcoólicos que procuram a Irmandade em busca de ajuda. E que, “quando falamos como membros de A.A. asseguramo-nos de dizer que A.A. não opina sobre assuntos alheios à Irmandade”.
Ao refletir sobre as nossas Tradições de anonimato no número de outubro de 1948 da Grapevine, Bill W. expressou com franqueza e um toque de humor, uma ideia que ainda tem ressonância na atualidade: “Temos bons amigos à direita e à esquerda, tanto entre os proibicionistas como entre os anti-proibicionistas. Como a maioria das sociedades, às vezes somos escandalosos – mas nunca em público… Nossos amigos da imprensa e do rádio superaram-se a si próprios. Qualquer um pode ver que parecemos estar mimados. Nossa reputação já é muito melhor que o nosso caráter real”.

APADRINHAMENTO

Apadrinhamento

Em Alcoólicos Anônimos, apadrinhamento é o processo em que um alcoólico que já fez algum progresso no programa de recuperação, partilha essa experiência de uma forma contínua e individual, com outro que está tentando conseguir ou manter sua sobriedade através de A.A.
A responsabilidade do apadrinhamento, embora não escrita e informal, é uma parte básica da maneira de A.A. efetuar a recuperação do alcoolismo através dos Doze Passos.
Não há regras específicas, mas um bom padrinho, que provavelmente deveria contar com um ano ou mais de sobriedade desde seu último gole, deve parecer feliz na sobriedade e convém que, dentro das possibilidades do grupo, homem apadrinhe homem e mulher amadrinhe mulher (evitar envolvimentos emocionais, nem sempre saudáveis).
O apadrinhamento reforça a sobriedade do membro mais antigo. O ato de partilhar sua sobriedade torna mais fácil para o veterano a vida sem álcool. Ajudando os outros, constatamos que ajudamos a nós mesmos.
Não há qualquer classe ou casta superior de padrinhos em A.A. Qualquer membro pode ajudar o novato a enfrentar a vida, sem recorrer ao álcool sob qualquer forma.
Tempo de sobriedade é um fator, mas não o único. Os padrinhos eficientes são aqueles homens e mulheres que têm permanecido sóbrios por tempo suficientemente longo para compreender o programa sugerido de recuperação delineado nos Doze Passos.
De igual importância são a capacidade de compreensão e paciência, disposição para devotar tempo e atenção aos membros novos, e o exemplo pessoal como representante do A.A. em ação.

UM BOM PADRINHO DEVERIA:
Fornecer seu endereço pessoal ao afilhado e, se possível, obter o dele, mas sem obrigá-lo a fornecer.
Estimular o afilhado a frequentar uma variedade de reuniões de A.A., para que ele adquira diversos pontos de vista e interpretações do programa.
Nunca se recusar a tomar o inventário moral do afilhado, se este lhe pedir, mas nunca forçá-lo a isso.
Apresentar o afilhado a outros membros, provavelmente que possuam interesses ocupacionais ou sociais iguais aos dele.
Ficar a disposição do afilhado, quando este está com problemas especiais.
Enfatizar a importância dos Doze Passos e das Doze Tradições, estimulando o afilhado a conhecê-los bem.
Insistir em que o afilhado participe das atividades do grupo, tão cedo quanto possível.
Quando em contato com familiares do afilhado, explicar-lhes o programa de A.A. e falar-lhes sobre os Grupos Familiares de Al-anon e Alateen.
Levar o afilhado em seu trabalho do Décimo Segundo Passo.
Um padrinho que realmente coloca em primeiro lugar o programa, não tomará como insulto o fato de seu afilhado decidir mudar de padrinho ou procurar outros AAs, em busca de mais orientações.
Um padrinho por mais experiente que seja, nunca fala em nome do A.A., e deixa isso claro ao afilhado, informando-o que cada membro tem a liberdade de chegar a uma compreensão individual do programa.
Em sua ansiedade de ajudar a conseguir a sobriedade, alguns padrinhos podem tender a ser superprotetores, tornando os afilhados dependentes de sua pessoa, o que é de todo inconveniente.
Outro perigo é que a superproteção pode aborrecer o afilhado, a ponto de este se ressentir das tentativas de ajuda e expressar esse ressentimento abandonando o A.A.
Deve lembrar-se de que apadrinhar não é forçar o afilhado a nada.
Nos casos de recaída, o padrinho deveria não ser muito intransigente ou bondosamente piegas, mas, procurar o afilhado e simplesmente reconduzi-lo ao Primeiro Passo e ao Grupo.
Do Primeiro ao Quinto Passo de A.A., frequentemente encontramos citações de como o padrinho procura auxiliar o novato na trilha da recuperação proposta pelos Doze Passos (10 vezes).
A partir do Sexto Passo, deixando de ser infantil e tornando-se mentalmente e emocionalmente adulto, o antigo novato passa a ter todas as condições para ser um bom padrinho.
Um cuidadoso planejamento da atividade do apadrinhamento dentro do grupo, provavelmente dará melhores resultados do que o apadrinhamento deixado ao acaso.
Uma forma sugerida: O Coordenador, no fim da reunião: “Se alguém aqui ainda não tem padrinho e precisa de um, por favor, procure o secretário após a reunião afim de arranjar um padrinho provisório.” Onde esta prática é adotada em cada reunião, os membros dizem que ela lembra ao grupo o valor de apadrinhar e ser apadrinhado.
Francisco R.
Vivência nº 36 – Julho/Agosto 1995