Monthly Archives: Fevereiro 2017

CONSCIÊNCIA COLETIVA COMO O A.A. SE ORGANIZA E DECIDE SEUS CAMINHOS

Consciência Coletiva como o AA se organiza e decide seus caminhos
” …um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência coletiva”.
“…que todas as decisões importantes sejam tomadas através de discussão, votação e, sempre que possível, por substancial unanimidade”.
O que é consciência coletiva?
É um estado ao qual se chega por meio da participação de todos os membros que compõem um grupo, em especial nas reuniões de serviço, no processo em que se busca o conhecimento de algum assunto ou problema que esteja em estudo e se estende também às decisões que eventualmente irão ser tomadas.
Como se desenvolve o processo?
Dando oportunidade e até solicitando que todos os membros presentes participem, que ofereçam as suas contribuições tanto para o estudo do problema quanto para a sua solução.
Isto significa que ninguém deve ser excluído, que ninguém deve ficar de fora. É indispensável que o coordenador seja capaz de conter os que procuram impor as suas vontades e pontos de vista, limitando a oportunidade de participação e o tempo disponível para apresentar as suas contribuições e, por outro lado, oferecer aos mais retraídos, a eles em especial, bem como a todos os membros presentes, a mesma oportunidade e o mesmo espaço de tempo para participar no processo de busca da consciência coletiva. Não só oferecer, mas, muitas vezes, é preciso até solicitar que os mais tímidos apresentem os seus pontos de vista. O poder coletivo contendo o poder individual, a grandiosidade do alcoólico.
Numa primeira rodada, pode ocorrer que as opiniões fiquem muito distantes umas das outras, mas, quando se faz uma nova rodada de opiniões na qual se buscam novos entendimentos e posições acerca do assunto em estudo, o que se observa é que, após pensar e meditar por algum tempo acerca do que já havia sido colocado por todos os companheiros anteriormente, as opiniões vão tendendo para uma área mais central, vão ficando menos distantes entre si, vão se aglutinando em torno de uma idéia ou decisão que, num certo momento, surgirá como sendo apoiada por uma substancial unanimidade. As opiniões vão gradativamente tendendo para um ponto central. Não há limitação quanto ao número de rodadas nem quanto ao tempo necessário às exposições. O processo deverá demorar o tempo que for necessário.
Como todos devem ser ouvidos, porque deve haver uma ampla participação e também porque os assuntos precisam ser estudados por completo e detalhadamente e ainda porque também as decisões a serem tomadas são sempre importantes, este processo pode exigir um longo tempo de participação e de maturação e pode igualmente exigir um esforço prolongado.
É importante que não haja pressa.
Talvez a reunião se prolongue bastante e é possível que poucos itens de uma agenda sejam abordados ou que poucas decisões sejam tomadas, mas o que é preciso ter em mente é que o processo em si é o fato mais importante e isso ocorre porque ele tem valor terapêutico. Ele vale, em primeiro lugar, pela evolução e pelo crescimento espiritual que propicia. A Irmandade de Alcoólicos Anônimos não é uma empresa em que a eficiência e o uso do tempo ficam em função dos resultados esperados e dos objetivos fixados pelo próprio processo administrativo.
Em Alcoólicos Anônimos, tempo não é dinheiro; é saúde, é recuperação, é crescimento espiritual, sobretudo. A Irmandade de Alcoólicos Anônimos é, antes de tudo, uma Irmandade em que todos procuram deter a sua doença e entrar num processo de cura, não física, mas psicológica e espiritual e a participação no serviço, especialmente no processo que leva à consciência coletiva, tem grande importância para a recuperação e para que se possa alcançar a serenidade. O próprio processo da busca da consciência coletiva é, pela sua natureza, uma maneira de diminuir a velocidade que impomos às nossas vidas, de evitar o estresse. Nele tudo se desenvolve sem obcessividade e cada membro participante vive um agora mais longo, mais demorado.
Por que é importante chegar à consciência coletiva?
Porque é um processo sábio por meio do qual não sairão vencedores nem vencidos. Porque, pela ampla participação, todos aceitam, ao final e ao cabo, e sem resistências psicológicas, as decisões que foram acordadas e ainda porque, em face da ampla participação, todos se sentem igualmente responsáveis pelas ações que serão tomadas e também pelas suas consequências e, numa visão maior, até mesmo pelos destinos da Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
O usual é que procuremos ser mais espertos e controlar uns aos outros em função de objetivos individuais ou do interesse de pequenos grupos e isso costuma ocorrer ao nos comportarmos seguindo o estímulo psicológico que recebemos no decurso das nossas vidas.
Por meio da consciência coletiva, os conflitos podem ser resolvidos sem derramamento de sangue físico ou emocional e mais ainda, com sabedoria.
Sempre que se busca adequadamente chegar à consciência coletiva, os gladiadores baixam as armas e os escudos e se tornam hábeis em ouvir e entender e, sobretudo, em respeitar e aceitar os dons dos outros, bem como as suas limitações. Ao longo da busca da consciência coletiva, aceitamos que somos diferentes, mas que, por outro lado, estamos ligados aos demais membros pelas nossas feridas e pelo fato de estarmos aprendendo a lutar juntos mais do que uns contra os outros. Os conflitos são resolvidos. Os membros aprendem a desistir de facções e de compor pequenos subgrupos. Aprendem a ouvir mutuamente e a não rejeitar.
O silêncio de quem escuta representa uma abertura, uma disponibilidade em relação ao outro. É como criar uma zona de silêncio que traduz a confiança no outro. Dar um lugar aos outros é indispensável para que possamos desenvolver a nossa relação existencial. A amabilidade do acolhimento, da abertura, não exclui a personalidade de quem escuta, daquele que procura o verdadeiro em meio a múltiplas verdades. Só assim se chega à plenitude do diálogo. É como viver as tarefas do mundo tais como elas se apresentam. A vida é então realizada e confirmada na concretude de cada instante, de cada dia.
A busca da consciência coletiva é uma experiência importante para por fim aos conflitos humanos, pois, durante o processo de busca, não procuramos tirar a energia dos outros companheiros. Sempre que alguém sai vencedor, o perdedor fica deprimido, em baixa. Mas se procuramos a consciência coletiva, estaremos então recebendo energia de uma outra fonte, do Poder Superior.
Na consciência coletiva está contida uma filosofia do diálogo, da relação entre os membros de A.A. Importa uma relação desenvolvida no diálogo, na atitude existencial do face a face. Há uma vibração recíproca no face a face. O diálogo assim desenvolvido abre novas perspectivas em relação ao sentido da existência humana de cada um dos membros participantes porque está voltado para um novo projeto de existência e não para um passado nostálgico. O processo da busca da consciência coletiva estabelece uma nova relação entre os membros de AA e, numa visão maior, entre os seres humanos.
Se consultada a consciência coletiva, as decisões são realistas?
A ampla participação assegura que a realidade seja conhecida nos seus mais diferentes aspectos, que nenhuma particularidade seja omitida, que nenhuma consequência das decisões a serem tomadas deixe de ser considerada. O estudo resulta sempre completo porque é o resultado da soma de toda as experiências, de todas as visões. Significa que se estuda e se decide com segurança.
Frequentemente, o nosso narcisismo nos faz sentir que somos os guardiões de uma estrutura frágil e ameaçada e que, se não fosse por nós, tudo já estaria perdido. Isso é a manifestação de que algo está errado com a nossa saúde mental e espiritual e que é preciso colocar, lado a lado, a nossa realidade com a que é percebida pelos irmãos em quem confiamos. O fato é que a verdade compartilhada é poderosa e eleva o espírito e é por isso que compartilhamos quando participamos das atividades do grupo ou das que são mais ligadas ao serviço.
Frequentemente a verdade é um processo, o resultado de uma relação entre nós mesmos e os outros, a qual dá à verdade maior clareza e brilho. Precisamos de coragem para ver a verdade, mas ela nos fortalece, e estar dentro da realidade significa não estar alienado. Ocorre uma confiança no diálogo, na busca comum da verdade.
No conjunto, o grupo sempre aprecia melhor porque inclui membros com muitos e diferentes pontos de vista e com a liberdade assegurada de expressá-los por meio do processo que busca a consciência coletiva.
Incorpora-se o claro e o escuro, o sagrado e o profano, a tristeza e a alegria, a glória e a lama e é por essa razão que as decisões são bem elaboradas. Não é provável que se deixe de apreciar algum aspecto importante. Como cada membro representa um padrão de referência e, se eles são muitos, o grupo de trabalho se aproxima mais e mais da realidade. As decisões são realistas e usualmente seguras.
Não ao totalitarismo!
É comum pensar que as diferenças possam sempre ser resolvidas por uma autoridade maior. No passado de cada um de nós, era costumeiro apelar para a intervenção do pai ou da mãe para o entendimento de situações e para a solução de problemas. Procura-se frequentemente até apelar para um ditador benevolente. Mas Alcoólicos Anônimos, em favor da maturidade dos seus membros, nunca pode ser totalitário.
Nós nos acostumamos, ao longo da nossa vida, a aceitar certas formas de autoridade que sempre serviram como orientação para definir a realidade em que vivemos e sem ela nos sentimos confusos e perdidos. Mas a busca da consciência coletiva passa a ser o exercício através do qual sempre, e em grupo, encontramos a orientação, sempre conhecemos de uma maneira mais completa a realidade e, é bom acentuar, sem a necessidade de qualquer autoridade que não a do Poder Superior. No decurso do processo de busca da consciência coletiva acontece o retorno da sensação de segurança, agora sob uma forma mais espiritualizada, a segurança espiritual.
A maneira menos primitiva de se resolverem as diferenças individuais é a de apelar para o que chamamos de democracia. Pelo voto, determina-se o lado que prevalece. A maioria governa. Mas este processo exclui as aspirações da minoria. Pelo contrário, o processo de tomada da consciência coletiva inclui as aspirações da minoria. É como transcender as diferenças pessoais de modo a incluir, na mesma medida, a minoria. Entrar no processo que leva à consciência coletiva é ir além da democracia. Recorrer ao voto não é a solução. Apenas o consenso integra as minorias e, em realidade, até evita a formação delas. O processo pelo qual se chega ao consenso é uma aventura porque não se pode antecipar o que vai resultar, é algo quase místico e mágico, mas que funciona.
Durante o processo de busca da consciência coletiva, a autoridade fica descentralizada. Não há líderes e, ao mesmo tempo, todos são igualmente líderes. Há um verdadeiro “fluxo de liderança”. Os membros se sentem livres para se expressar e para oferecer as suas contribuições e o fazem no seu exato momento e na devida dimensão. Há lideranças. É o espírito de comunidade que lidera e não o individualismo.
O desenvolvimento da Humildade
O processo de busca da consciência coletiva atenua o individualismo áspero que leva à arrogância e isso se faz por meio da limitação da participação, ao evitar preponderância e excessos – a velha prepotência e a conhecida manipulação. O poder individual só é contido, só é limitado, pelo poder coletivo. Este é um principio fundamental. Isto é exatamente o que acontece no processo de busca da consciência coletiva.
Desenvolve-se, nos membros do grupo de trabalho, um individualismo ameno que leva à humildade. Durante o processo, as dádivas de todos são apreciadas e também reconhecidas as suas próprias limitações e isso está na base da aceitação das nossas próprias imperfeições. “Conhece-te a ti mesmo” é uma regra segura para chegar à humildade.
Nesse momento, fica muito claro que o problema não é a dependência e sim a real interdependência. Não só os membros se tornam mais humildes, mas também o grupo como um todo.
O grupo como um lugar seguro
As pessoas se tornam mais amenas quando participam do processo de busca da consciência coletiva porque se olham através das lentes do respeito. O grupo se torna um lugar seguro porque há aceitação e compreensão, e as pessoas sentem com uma intensidade nova o amor e a confiança. Desarmam-se. Passa a haver a paz e, sobretudo, os membros aprendem a fazer a paz.
É também um lugar seguro porque no grupo ninguém está tentando curar, converter ou mudar o outro e, paradoxalmente, é exatamente por isso que a cura e a conversão acontecem. No grupo, as pessoas são livres para serem elas mesmas, livres para procurar a própria saúde psicológica e espiritual. Tudo isso faz do grupo um lugar seguro em que as pessoas podem abrir mão das suas defesas, das suas máscaras, dos seus disfarces. Aceitamos ser vulneráveis, expor as nossas feridas e fraquezas, e assim fazendo, aprendemos também a ser afetados pelas feridas dos outros. O amor que surge neste compartilhar só é possível porque abrimos mão da norma social de pretender ser invulneráveis.
Num lugar seguro as pessoas se desarmam e aprendem a fazer a paz, que nasce do processo de busca da consciência coletiva.
Um estado de espírito muito especial
Quando nos preparamos psicologicamente para participar de uma reunião de serviço em que se vai em busca da consciência coletiva e nos sujeitamos ao processo que leva a ela, desenvolve-se uma atmosfera tal que, paradoxalmente, nela as pessoas falam mais baixo e, no entanto, são mais ouvidas. Nada é agitado e não se forma o caos.
Pode haver discussão e luta, mas ela é construtiva e move-se em direção do consenso. Em realidade, entra-se no processo de formação de uma verdadeira comunidade.
Esse estado de espírito é indispensável para que se possa estar aberto para a manifestação do Poder Superior. Para a inspiração e para a voz do Espírito Santo.
Quando nos dirigimos para uma reunião de serviço, não podemos imaginar qual será o resultado dos trabalhos nem devemos interferir nele. O processo de formação da consciência coletiva é verdadeiramente um mistério.
O estado de espírito de quem vai para uma reunião de serviço
Quando se vai para uma reunião de serviço, é preciso ter em mente que a intenção, a ideia, é levar tão somente uma contribuição, uma experiência pessoal. É preciso lembrar sempre que o todo é formado pelas partes e que cada um de nós não é senão uma parte, mas uma parte realmente importante.Cabe ainda lembrar que as nossas experiências são tanto o fruto das nossas vivências, e por isso são muito ricas, mas também limitadas à esfera pessoal. Ao mesmo tempo, precisamos ter a consciência do valor da contribuição que podemos dar, mas também de que ela será parte de um todo, de um conjunto maior, que se formará a partir das contribuições de cada um dos presentes à reunião.
O que fica dessas considerações é que a atitude de humildade é indispensável se deseja chegar à consciência coletiva. É aceitar que, pelo menos diante do fato de se estar frente a uma manifestação do Poder Superior, a prepotência, a arrogância, o narcisismo e a agressividade possam dar lugar à humildade e à aceitação daquilo que irá resultar da soma de todos os conhecimentos e contribuições, mas, sobretudo aceitar que ao final se chegará ao melhor caminho, à melhor solução, à melhor decisão.
O que acontece quando não se busca a consciência coletiva
Muitas coisas podem acontecer. A realidade pode ser distorcida e as conclusões ou decisões podem não ser as mais sábias ou convenientes. Parte dos que compõem o grupo pode ficar excluída dos trabalhos, por ser constituída de membros mais tímidos ou por estarem dominados pelos mais prepotentes, pelos que melhor fazem uso da palavra.
Pode ocorrer que, antes de uma reunião, os componentes do grupo procurem contatar outros membros para lhes convencer acerca das suas pretensões ou postulações ou, simplesmente, conseguir adesões ou fazer acordos. Obviamente a consciência coletiva estará sendo manipulada e aí poderiam os mais doentes chegar ao seu “dia de glória”, pois teriam manipulado até mesmo o Poder Superior. No entanto, nessas condições, a consciência coletiva não se estabelece e Ele não fala. Talvez falem outras vozes menos divinas.
Quando não se busca a consciência coletiva, o que usualmente acontece é correr o sangue emocional e até mesmo o físico. Usualmente a luta se estabelece, mas ela não leva a nada porque é caótica, é barulhenta e não construtiva.
As agressões tornam as reuniões cansativas e os resultados são nulos ou diminutos. As reuniões se tornam tanto desagradáveis quanto improdutivas. É um conflito sem frutos e que vai para lugar nenhum. As pessoas tornam-se prisioneiras das suas raivas, dos seus ressentimentos e das suas ambições pessoais desmesuradas. Outros procuram concertar as cabeças, convencer ou curar os seus companheiros e isso, muitas vezes, pode até parece ser coisa de amor, mas o fato é que fazem isso para o seu próprio conforto, em seu favor.
É fundamental que busquemos a complementação sempre que opiniões diferentes ou contrárias às nossas forem apresentadas. Devemos buscar, nessas situações, o sentido de existir, de ser. Devemos identificar, na existência dos opostos, o sentido da complementaridade. Sempre que nos incompatibilizamos uns com os outros é porque estamos medindo forças e assumindo posições antagônicas. Se buscarmos o sentido do complementar, poderemos reverter o antagonismo e somar as nossas potencialidades em torno de um propósito único. Desse modo, não perdendo o nosso ponto de vista, identificamos um sentido maior que é a grande manifestação da Consciência Coletiva.
A insensatez
Quando não se busca a consciência coletiva, a insensatez se estabelece no grupo. Isto é, ele passa a agir de forma contrária aos seus próprios interesses, de forma contrária à apontada pela razão. Exatamente ao contrário da sabedoria que está no exercício do julgamento atuando com base na experiência e no uso das informações disponíveis.
No caos e na manipulação, buscam-se as atitudes contrárias aos próprios interesses da Irmandade de Alcoólicos Anônimos, não obstante as advertências desesperadas de alguns e da existência de alternativas melhores e viáveis. A busca da insensatez torna-se trágica e, dolorosamente, um comportamento dominante. Dominados pelas paixões, os membros do grupo abandonam o comportamento racional, tornam-se passionais. A mitologia grega tinha uma figura para representar a cegueira da razão, o desvario involuntário, de cujas consequências os companheiros depois se arrependem, chamada Ate, filha de Eris, deusa da discórdia e da disputa. Tomados de cega insensatez, as vítimas da deusa se tornam incapazes de realizar uma escolha racional, de distinguir entre atos morais e imorais.
Onde e como o Céu e a Terra se tocam
O homem, desde tempos imemoriais, vem procurando fazer contato com as forças criadoras, com o sagrado. Procurou lugares e objetos em que o céu e a terra se encontrassem. Concebeu a montanha e a cidade sagradas, a residência real, a árvore da vida e da imortalidade, a fonte da juventude, etc.
De acordo com crenças indianas, o monte Meru seria uma montanha sagrada e sobre ela brilharia a estrela polar. Na crença iraniana, a montanha Elburz seria o ponto em que a terra estava ligada ao céu. A população budista do Laos considera sagrado o monte Zinnalo. No Edda, o Himinbjorg, que quer dizer “montanha celestial”, é considerado o ponto em que o arco-íris alcançaria a parábola do céu.
Para os povos mesopotâmicos, o Zigurate era a montanha cósmica. Na Palestina era o Monte Tabor. Para os cristãos, a montanha cósmica era o Gólgota, o lugar onde Adão tinha sido criado e sepultado e o sangue do Salvador teria sido derramado sobre o crânio de Adão, servindo para a sua redenção. Esta crença ainda permanece entre os cristãos orientais. A cidade da Babilônia, como indica o próprio nome, era tida como a “porta dos deuses” pois era por meio dela que os deuses desciam para a terra.
A ideia de que o santuário reproduz o Universo, na sua essência, passou para a arquitetura religiosa da Europa cristã e para as basílicas dos primeiros séculos, do mesmo modo que as catedrais medievais reproduziam simbolicamente a “Jerusalém celestial”.
O lugar sagrado, o “Centro”, seria a zona da realidade absoluta e lá estariam os seus símbolos: a árvore da vida e da imortalidade, a fonte da juventude, etc. daí a ideia de que a estrada que leva ao “Centro” é um “caminho difícil”. Difícil também a peregrinação aos lugares sagrados como Meca, Hardwar e Jerusalém, feita em viagens cheias de perigos e realizadas por expedições heroicas. As mesmas dificuldades encontra aquele que procura caminhar em direção ao seu ego, ao “Centro” do seu ser. A estrada é árdua e cheia de perigos porque representa um ritual de passagem do âmbito profano para o sagrado, do efêmero e ilusório para a realidade e para a eternidade, da morte para a vida, do homem para a divindade. Chegar ao “Centro” equivale a uma consagração; a existência profana e ilusória dá lugar a uma nova existência, a uma vida real, duradoura. Na busca da consciência coletiva o grupo de trabalho procura chegar ao “Centro”, ao ponto mais elevado.
Eu, pessoalmente, considero que é através do processo de formação da consciência coletiva, após percorrer um caminho muitas vezes árduo e difícil, é que estabelecemos um contato entre o céu e a terra. É por meio do processo de busca da consciência coletiva que o céu e a terra se tocam. A consciência coletiva é a voz do Poder Superior.
O conceito de substancial unanimidade e a ideia da formação de uma verdadeira comunidade centrada na busca da manifestação do Poder Superior estão na base de uma nova dimensão de divindade e permitirão que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos se aperfeiçoe de maneira progressiva e que, por meio da busca da consciência coletiva, os seus membros conquistem a mais absoluta liberdade espiritual, ficando então livres de preconceitos e de sentimentos negativos em relação aos demais companheiros.
Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

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A CONSCIÊNCIA DE GRUPO É UM CONCEITO FUNDAMENTAL

A consciência de grupo é um conceito fundamental!
A Consciência de Grupo é um dos princípios que diferencia nossa Irmandade de outros movimentos

É provável que a maioria de nós membros, ainda divaguemos sobre “Consciência de Grupo” de Alcoólicos Anônimos, sobre o que isso realmente significa para a saúde estrutural e espiritual de nossa Irmandade. “Consciência de Grupo” é um conceito que se tornou parte fundamental para o funcionamento de nossa Irmandade desde seus primeiros dias.

É um conceito que Bill W. tirou sua inspiração de movimentos anteriores à Alcoólicos Anônimos, entre eles: os Grupos Oxford, isto é, o hábito de depender da “Consciência de Grupo”. Sua primeira aplicação prática na Irmandade aconteceu em 1937, antes que o movimento completasse o seu terceiro ano de existência, e antes mesmo que ele ganhasse seu nome definitivo, Bill W. fez questão de deixar registrado na Segunda Tradição de Alcoólicos Anônimos, a história da profunda negativa que o primeiro Grupo de Nova Iorque lhe deu; ao saber da tentadora proposta que Charlie B. o dono do Towns Hospital lhe fez; para que ele, Bill, fosse trabalhar como ‘terapeuta leigo’ em seu hospital ganhando muito dinheiro. E apesar do aperto financeiro pelo qual Bill estava passando, o Grupo fez objeção a que seu cofundador os abandonasse para tornar-se um membro profissional. Bill não aceitou o trabalho, submetendo-se ao posicionamento tomado pela pequena, mas decisiva consciência coletiva presente naquela reunião.

É certo imaginar que muitos dos que vão ler esse trabalho já conhecem bem essa história. Mas também é correto pensar que muitos só ouviram falar, e que outros nem sequer ouviram. Assim sendo, eu penso ser prudente compartilhar com os leitores membros, ou não; pequenos trechos do próprio Bill W. narrando sobre essa primeira decisão tomada a partir do questionamento “de um dos membros do Grupo.” Os trechos que vou transcrever, estão nas páginas 91/92 do livro Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade, a décima quarta impressão de 1989, num comentário feito por Bill W. sobre a Segunda Tradição, e que juntos eles dizem exatamente assim: “Charlie foi até sua escrivaninha e voltou com um antigo balanço financeiro. Entregando-o a mim, continuou dizendo: “Isto mostra os lucros desse hospital no princípio de 1930. Milhares de dólares por mês. O mesmo deveria estar acontecendo agora, mas não está. Estaria se você viesse ajudar. Porque você não transfere o seu trabalho para cá? Eu lhe daria um escritório, uma boa conta corrente e uma grande parte dos lucros. O que lhe proponho é perfeitamente válido do ponto de vista da ética. “Você pode se tornar terapeuta leigo e terá maior sucesso do que qualquer outro.” Ele me convenceu. Senti certo remorso, mas finalmente percebi que a proposta do Charlie era válida do ponto de vista da ética.
Pedi ao Charlie um prazo para pensar, entretanto, já tinha resolvido o que fazer. Voltando de metrô para o Brooklin, senti algo que me pareceu uma orientação divina. Foi apenas uma simples frase, mas muito convincente. Na realidade, ela veio diretamente da Bíblia. Uma voz ficava me dizendo: “o trabalhador é digno de seu salário.” Ao chegar em casa, encontrei a Lois cozinhando como de costume, enquanto três bêbados esfomeados que estavam morado na nossa casa, a contemplavam da porta da cozinha. Eu a chamei de lado e lhe dei a grande notícia.
Pareceu interessada, mas não se entusiasmou tanto como eu esperava. Nessa noite, havia reunião. E apesar de poucos alcoólicos, daqueles que hospedávamos parecerem estar sóbrios, outros estavam. E com suas esposas, eles encheram nossa sala de estar no andar de baixo.

Imediatamente lhes contei a história de minha oportunidade. Nunca esquecerei suas fisionomias impassíveis e olhares fixados em mim. Com pouco entusiasmo, contei minha história até o fim. Houve um longo silêncio. E quase timidamente, um de meus amigos começou a falar: “Sabemos de suas dificuldades financeiras, Bill. Isso nos preocupa muito. Constantemente temos nos perguntado o que poderíamos fazer a esse respeito, mas acho que falo por todos os presentes quando digo que o que você nos propôs nos preocupa muito mais.” A voz do orador foi ficando mais firme. “Não percebe – ele continuou – que você jamais poderá tornar-se um profissional? Por mais generoso que Charlie tenha sido conosco, você não percebe que não podemos ligar esse tipo de coisa com o hospital dele ou com outro qualquer? Você nos disse que a proposta do Charlie é válida do ponto de vista da ética. Certamente que é, mas o que temos não funcionará apenas com o fundamento da ética; tem que ser mais que isso. Certamente que a ideia do Charlie é muito boa, mas não é boa o suficiente. Trata-se de uma questão de vida e morte, Bill, e nada a não ser o melhor servirá.” “Bill, você não tem muitas vezes falado aqui mesmo em nossas reuniões, que o bom é às vezes inimigo do melhor? Pois bem, esse é um caso igual. Você não pode fazer isso conosco.” Assim falou a “Consciência do Grupo.” O grupo tinha razão e eu estava errado; a voz que ouvi no metrô não era a voz de Deus. Aqui estava a verdadeira voz, jorrando de meus amigos. “Eu ouvi e – graças a Deus obedeci.” Bill W.
E foi assim; que o conceito “Consciência de Grupo de A.A.” ficou definido formalmente em nossa Irmandade após a publicação em 1946, da Segunda Tradição de Alcoólicos Anônimos. A Tradição que declara: “Somente uma autoridade preside, em última análise, ao nosso propósito comum – um Deus amantíssimo que se manifesta em nossa consciência coletiva”.

“Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não tem poderes para governar.” Embora ainda não seja muito bem compreendida entre nós, a “Consciência de Grupo” como é expressa na Segunda Tradição, é um “conceito básico e poderoso” que possibilita que pessoas com procedência e temperamentos diferentes, possam ir além de suas ambições pessoais e unir-se num objetivo comum.

Uma Consciência bem informada, é aquela cujo os componentes (membros) conheçam e pratiquem os princípios e obedeçam as normas do procedimento sugeridos para os Alcoólicos Anônimos. É necessário também, que todas as informações necessárias sobre o assunto a ser votado, tenham sido discutidas e que todos os pontos de vista sejam expostos antes do Grupo votar. Agindo assim; nós estaremos cumprindo fielmente o que é sugerido na “Garantia Quatro do Artigo 12”. Que todas as nossas decisões importantes sejam tomadas através da discussão, votação e sempre que possível, por substancial unanimidade.

Este princípio espiritual que torna possível para nós, definir formalmente “a vontade de Deus como nós o concebemos, e ele é também; um dos princípios que diferencia nossa Irmandade de outros movimentos”.

Do meu ponto de vista, qualquer assunto que diz respeito aos Grupos e à Alcoólicos Anônimos como um todo, satisfaz plenamente os requisitos para que seja consultada a “Consciência do Grupo”. Precisamos ficar atentos; se realmente estamos consultando uma autêntica “Consciência do Grupo A.A.”, por exemplo, verificar se todos que irão votar são membros e são frequentes no Grupo.

Para ser uma autêntica “Consciência do Grupo” uma decisão deve satisfazer dois critérios: Primeiro – A decisão só deve ser tomada, depois que todos os membros tenham completo conhecimento do assunto; e depois de terem efetuado uma exaustiva discussão sobre o mesmo, ter ouvido as minorias com muita atenção; considerar o assunto enfocando sempre os princípios de A.A. “Segundo – A decisão deve ser com requisito de unanimidade substancial – que a Conferência de Serviços Gerais define como uma maioria de dois terços, mas na prática, é sempre maior.” Nesta altura, é provável que surjam algumas indagações. Por exemplo: Quanto tempo se deve tomar para anunciar a questão a ser discutida nas reuniões, antes que se atue sobre ela? E quantos membros devem estar presentes para que se comece a discutir a questão proposta? As experiências compartilhadas por alguns Grupos mostram que é uma boa ideia “notificar” com bastante antecedência todos os membros que possam tomar parte da reunião; normalmente, duas semanas seriam suficientes, porém, pode não ser sempre possível reunir tantos membros. De acordo com suas experiências, “cada Grupo de A.A estabelece suas próprias regras referentes à proporção necessária de votos, mas sempre com o objetivo de alcançar uma “Unanimidade Substancial.” Está escrito na “Quarta Garantia do Artigo 12” da Ata de Constituição da Conferência: “Quando uma decisão que foi tomada com uma unanimidade substancial tem um resultado equivocado, não pode haver recriminações acaloradas”. Todos podem dizer: “Bem, debatemos a questão, tomamos a decisão que resultou não ser uma boa decisão”. – Que tenhamos mais sorte na próxima vez.” Doze Conceitos para Serviços Mundiais pág 113.
“O que nós, os membros da Irmandade, não devemos nunca, é fechar a nossa mente, para não dar a devida importância à formação do conceito “Consciência do Grupo.” Pois conforme o que está escrito; este é “Um conceito fundamental” para a Unidade e sobrevivência de A.A., sem Unidade, e sem a “Consciência do Grupo” Alcoólicos Anônima não pode sobreviver.” E nem nós. – Pense nisso!

2017 SERÁ BOM OU RUIM PARA A. A.?

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 165 – JAN/FEV 2017

2017 será bom ou ruim para A.A.?

Isso vai depender de como cada um de nós
vir a engajar-se nas ações propostas

Ao tomar conhecimento do Projeto A.A. Brasil 70 anos, durante um evento, minha esperança no crescimento da Irmandade aumentou muito. A meu ver, com essa ação a JUNAAB parte para cumprir, de forma brilhante, seu principal papel. As metas são desafiadoras, como devem ser todas as metas. Nelas não há zonas de conforto e sempre buscam pontos estratégicos.

Um e seus desafios é o de conseguirmos, até o final de 2017, o cadastro de 50.000 Amigos de A.A., para que, em todos os bairros e cidades do país, aconteça a situação descrita por Bill W., na forma integral da Décima Primeira Tradição: “Nunca há necessidade de elogiarmos a nós mesmos. Achamos melhor deixar que nossos amigos nos recomendem”.

Teremos maior aproximação com a mídia, com a finalidade de informar ao grande público o que é A.A. e qual sua proposta para a recuperação do alcoolismo.

Considero essa ação estratégica, pois entendo que, na maioria das vezes, conseguimos dizer para a população que existimos e que “estamos aqui”, mas raramente conseguimos dizer quem somos. Talvez valha lembrar que o artigo escrito por Jack Alexander em 1941 fez com que nossa Irmandade passasse de 2.000 para 8.000 membros, exatamente porque ele conseguiu transmitir muito sobre como funcionamos.

Outra ação do projeto é para buscarmos a cooperação de pessoas de renome na sociedade. Trata-se de iniciativa similar àquelas tomadas pelos pioneiros, a partir de 1938, para a formação da Fundação do Alcoólico (a partir de 1954, Junta de Serviços Gerais) e para estabelecer contato com o Sr. John D. Rockefeller Jr.

O projeto ainda prevê o aprimoramento da nossa informação interna, a fim de melhorar nossa forma de abordar e apadrinhar alcoólicos e profissionais em nossos grupos.

Esse projeto é bom ou ruim? Para responder essa pergunta, compartilho uma pequena estória, mesmo correndo o risco de não ser fiel ao conto original, pois tenho-o apenas na minha memória.

Era uma vez um grande mestre, que tudo sabia e tudo adivinhava. Certa vez, um de seus discípulos resolver testar seu saber. Pegou um pequeno pássaro, segurou-o firme em uma das mãos e, de frente para o mestre e com as mãos atrás de si, perguntou: “Mestre, o que tenho nas mãos?”

O mestre respondeu ser um pássaro. Mas, o discípulo estava pronto para “derrubar” o mestre e lançou a pergunta final: “Mestre, o pássaro está vivo ou morto?” Ele acreditava que o mestre perderia de qualquer maneira. Se falasse que estava morto, o discípulo soltaria o pássaro, que sairia voando; se falasse que estava vivo, o discípulo apertaria o pássaro até a morte antes de mostra-lo ao mestre.

Porém, o mestre era realmente bom e assim respondeu: “Depende de você.”

Pois é: o Projeto A.A. Brasil 70 anos é bom ou ruim? Depende de mim e de cada um de nós.

Se nos prepararmos para receber adequadamente em nossos grupos os futuros companheiros, os amigos e a mídia local, o projeto ajudará a cumprir nossa Quinta Tradição e nosso Décimo Segundo Passo, a recriar lares repletos de paz, com suas crianças mais concentradas nas escolas, livres da preocupação da embriaguez do pai (ou da mãe). Então, o Projeto terá sido bom.

Mas, se não nos prepararmos – e a nossos grupos – para bem receber essas pessoas, o Projeto será ruim, pois elas chegarão de todo modo, mas, não ficarão, e isso causará uma dor que conhecemos muito bem.

Devo parar um minuto para lembrar-me da dor, do inferno, convencendo-me de que não há sacrifício grande demais para livrar um ser humano daquela situação que já vivenciei. Depois de tudo que passei, não posso alegar uma “crise” para não contribuir para que a JUNAAB cumpra o seu papel.

Creio que chegou a hora de dizer a que viemos. Convém eu verificar desde já qual pode e deveria ser minha participação; como contribuir financeiramente; como melhorar meu conhecimento sobre A.A.; como melhorar minha forma de abordagem e acolhimento; como tornar mais agradável a reunião no grupo base. Enfim, decidir como participar nesse novo momento, que já começou. E, depois disso, dormir em paz.

Marco V.
Juiz de Fora/MG

Vivência nº 165 – Janeiro/Fevereiro 2017

UM DIA DE SOL COM A REVISTA VIVÊNCIA

UM DIA DE SOL
COM A REVISTA VIVÊNCIA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 100 MAR/ABR 2006

TRANSFORMAÇÃO

“Há necessidade de compreendermos que somente alcançaremos nossos objetivos se tivermos o firme propósito de nos modificarmos e nos transformarmos vivenciando o Programa de A.A..”

Ao ingressarmos em A.A. qualquer que seja o tamanho do nosso sofrimento, de nossas perdas, do que estamos deixando para trás cremos haver encontrado a solução, o remédio para os males que nos afligiam e, desesperados, desesperançados, dizemos: SIM ao que for que nos apresentarem; aceitamos sem titubear, sem medo de errar; acreditamos estar a salvo.
Isto ocorre em virtude do nosso instinto maior que é o da sobrevivência, o da conservação que é peculiar a todos os animais e afirmamos que não nos descuidaremos nem desertaremos.
À medida que vamos, a cada 24 horas, evitando o primeiro gole começamos a entender melhor sobre a doença, a Irmandade e o Programa, e ao mesmo tempo perdendo o medo, nos sentindo protegidos, fortalecidos e confiantes. Passamos a ter certeza de que nossa atividade, nossa boa vontade e o desejo de praticar o bem, nos beneficiarão espiritual e materialmente.
Quanto mais nos esforçarmos em prol dos companheiros, mais venturosos seremos.
O propósito primordial, levar a mensagem, nossa busca pelo aperfeiçoamento intelectual e moral nos ajuda a enfrentar as dificuldades do dia-a-dia e nos enchemos de esperança e a certeza de que a sobriedade nada mais é do que a transformação em novo ser. Enfim, acreditamos em nós mesmos!
Mas, como diz nossa Oração: devemos ter Sabedoria para distinguir e verificar de que lado estamos: do que crê, estuda e pratica os princípios ou daquele que, inadvertidamente, finge crer, somente ilustra o intelecto, através da literatura, sem que seja verdadeiramente tocado pela espiritualidade?
É possível identificar os que representam: são os que permanecem cheios de mágoas, rancor, medos, ressentimentos e se orgulham desse comportamento, mas os que procuram evoluir estão em busca de humildade, cooperação, respeito ao outro; vivenciam os princípios e colocam, como diz a 12ª Tradição, acima das personalidades.
Se assim não o fizermos, nos manteremos nos Grupos a vida toda, comparecendo às reuniões reclamando dos companheiros, acusando
a sociedade e os familiares pelos desacertos, insatisfeitos com a vida que levam, achando sempre que merecem mais do que conseguem. Estaremos dentro do círculo, sem adentrar ao triângulo. Revoltados, rebeldes, queixando-se e sofrendo.
Cabe a cada um de nós, não só fazer o inventário moral, mas nos perguntarmos, com base nos Passos e Tradições de A.A.: – eu procuro compreender e aceitar meus companheiros? Entrego-me à vontade de Deus? Ou só penso NELE quando estou no sufoco? Admito minhas impotências? Procuro levar a mensagem de A.A.? Oro e medito? Coloco os princípios acima da personalidade? Sou sincero e honesto comigo mesmo e com meus companheiros? Estou integrado no Serviço?
É óbvio que o conhecimento, por si só, não nos torna santos de uma hora para outra, entretanto é necessário que compreendamos que somente alcançaremos nossos objetivos se tivermos o firme propósito de nos modificar, nos transformar moralmente e vivenciar o Programa de A.A.

Silvia/Niterói/RJ
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Achávamos que as “circunstâncias” nos levaram a beber,
e quando tentamos corrigir essas circunstâncias
descobrimos que não poderíamos fazer isso à nossa
própria maneira: nosso beber se descontrolou e nos
tornamos alcoólicos. Nunca nos ocorreu que precisávamos
nos modificar para nos ajustar às circunstâncias, fossem
elas quais fossem.
(Na Opinião do Bill)
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Vivência nº 100 – Mar./Abr. 2006

VIVÊNCIA

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 75 -JAN/FEV 2002

Somente há uma semana sem beber
No sétimo dia abstêmio, o autor sentiu uma forte compulsão.
Não bebeu, procurou um grupo e, após a reunião, escreveu esta carta.

Não era ainda muito tarde quando a festa acabou. Acabou a comida, a bebida e a graça de estar ali e, então, despedindo-me das pessoas, saí à procura de outro lugar onde pudesse continuar desfrutando daquele tão desejado prazer de ver o fundo de copo após copo.

Depois de outras tantas doses generosamente servidas e me reconhecendo sem a menor condição de voltar para minha casa, procurei um motel para dormir. Eu não podia chegar em casa naquele estado e, ao clarear do dia, mal dormido e ainda meio bêbado, fui para casa e me apresentei com a responsável desculpa de que, como não estava em condições de voltar, achei melhor dormir fora. Minha esposa e minha filha nada disseram, mas seus olhos me mostraram todo o mal que eu tinha causado e me fizeram lembrar, instantaneamente, das centenas de vezes em que a cena se repetiu, das centenas de promessas que eu já havia feito e das centenas de vezes em que eu me olhei no espelho e vi um cara fraco, derrotado e incorrigível.

Eu já havia me separado da minha família por um ano, justamente pela situação insustentável que havia criado com dezenas de motivos e centenas de garrafas. De novo envergonhado, fui me deitar em outro quarto, cansado demais para continuar a pensar quando, pouco depois, minha esposa entrou silenciosamente e disse, com voz moderada, que não queria fazer outro escândalo e me pediu que saísse de casa e que não voltasse durante o fim de semana porque minha presença escurecia o ambiente da casa…da minha casa.

De chinelos, voltei para a empresa (era sábado e ninguém viria), entrei e dormi num sofá, mal acomodado e com frio. À tarde, com muita tristeza na alma, querendo falar com alguém e sentindo vergonha de me dirigir a qualquer pessoa, vergonha demais para falar até com Deus, liguei para o CVV e perguntei sobre instituições de apoio a alcoólicos, onde me deram o endereço de A.A.

Passei a tarde tentando trabalhar, esperando a hora de ir para lá, ou melhor de vir para cá.

Cheguei ao grupo com o mesmo estado de espírito entristecido, mas com a esperança de que pudesse acertar dessa vez. Estava frio… Eu, mal agasalhado, de chinelo, sendo lembrado, pelo desconforto, que tudo aquilo de ruim daquele dia (assim como dos últimos anos) era culpa minha, era o caminho que eu tinha traçado.

Fui recebido de forma discreta e compreensiva por alguém que, por ter o mesmo problema, sabia que eu não era um “sem vergonha”, como muitas vezes fui chamado, que sabia serem sinceras todas as promessas que eu tinha feito, dizendo que iria parar, mesmo sem cumprir. Fui conversando e, aos poucos, baixando a guarda, desmontando a defesa, porque senti que não ia ser atacado de novo. Fui ouvindo e percebendo que eu não tinha a culpa, tinha a causa (o que é bem diferente) e, assim, fui me comprometendo aos poucos a não beber, só por hoje, assumindo o compromisso de ir com calma (mas ir), tentando aceitar que eu não posso beber como os outros bebem porque alguma coisa no meu corpo não me permite fazer isso, e porque se eu desrespeitar isso será somente uma questão de tempo até o fim da minha família, do meu lar e da minha vida.

Está fazendo uma semana que eu me apoiei e me apoio em A.A. e em seus princípios. Hoje, ao terminar o meu trabalho, me deu uma vontade irresistível de beber. Pensei em tudo o que venho aprendendo a duras penas e decidi que não queria beber…mas a vontade continuava me envenenando ; eu só tinha um socorro possível: vir para cá. E foi o que fiz.

Saí aliviado. Ainda com vontade de beber, mas sabendo que poderia renovar o meu autocompromisso de ficar vinte e quatro horas sóbrio, e foi assim que eu cheguei em casa com uma vitória: não bebi hoje. Estou sóbrio há uma semana e vou ficar por mais um dia.

Por essa razão é que escrevi esta carta, só para não esquecer de nenhum detalhe, para lembrar a mim mesmo e aos companheiros de que é possível, um dia de cada vez. Foi um dia difícil de manter o compromisso, mas a reunião tornou isso possível.(Anônimo)

Vivência nº 75 – Janeiro e Fevereiro / 2002

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 28 – MAR/ABR 1994

FESTAS: CHEGAR E SAIR NO MOMENTO CERTO
(Jackson – RS)

Alcoólicos Anônimos me devolveu a condição de ter uma vida normal, hoje posso fazer tudo o que as pessoas “normais” fazem com apenas uma restrição: Não tomar o primeiro gole de qualquer bebida alcoólica.

Manter a sobriedade é a minha responsabilidade maior que, com a frequência em reuniões de AA, se torna menos árdua. Conviver com os companheiros me ajuda a solucionar meus problemas com a bebida; nosso relacionamento é espontâneo porque falamos a mesma linguagem e temos objetivos comuns.

Porém, nossa vida não se restringe apenas em AA, convivemos em sociedade, com familiares, colegas de trabalho, amigos pessoais, vizinhos e muitas outras pessoas que interferem em nosso dia-a-dia. Afinal de contas somos seres humanos como qualquer outro e por isso, somos sociáveis, o que nos coloca às vezes, em situação de maior vigilância com relação à nossa doença. E importante frisar que a doença do alcoolismo é nossa, não dos outros. Os cuidados que devemos ter, beneficiam diretamente a nós mesmos, aos outros por consequência.

A.A. nos possibilita uma vida sem o uso de bebidas alcoólicas e, o importante, feliz. Como é difícil tolerar alguém que vive de “porre seco”, se lamuriando por não beber, fixo em seu passado alcoólico. Este ainda não descobriu que a felicidade existe e que depende somente de sua forma de viver. A felicidade se constitui de momentos felizes, quanto mais momentos tivermos, mais felizes nos tornamos.

Participar da sociedade é uma necessidade de qualquer ser humano. Esta participação implica em frequentarmos festas, solenidades e reuniões dos tipos mais diversos. O programa de A.A. nos capacita a isto, quanto mais firmes estivermos, quanto mais aplicarmos os conhecimentos contidos nos Doze Passos e nas Doze Tradições em todas as nossas atividades, melhor nos sentiremos, melhor nos conduziremos em sociedade.

O povo em geral considera comemoração como sinônimo de liberação para o uso de comidas e bebidas alcoólicas. Assim , dificilmente participaremos de alguma solenidade em que não tenha a presença do álcool. Para tal, necessitamos estar firmes em nossos propósitos e conscientes do que estamos fazendo e por que estamos participando do evento.

Existem alguns cuidados que podem ser considerados genericamente para todos. O primeiro é que, se não estivermos nos sentindo à vontade e com desejo de participar de uma confraternização, não devemos ir. Por mais que possamos parecer inadequados, nossa sobriedade está acima de qualquer sacrifício. Em todas as reuniões é comum que um número de participantes não compareça.

Outra técnica que podemos usar como segurança, é de não sermos os primeiros a chegar. Dizem que “os mais importantes sempre chegam atrasados”, o que, como A.A., não concordo, mas neste caso nos beneficia. No início os anfitriões estão preocupados em atender e deixar à vontade os convidados, oferecendo os primeiros drinques e petiscos, afinal vamos comemorar alguma coisa. Chegando após esta etapa não seremos tão “bem atendidos”, pois a festa já está em andamento.

Com o decorrer do tempo as coisas acontecem, o objetivo da reunião é atingido e todos se sentem felizes e contentes, inclusive nós, é claro. Aos poucos passamos a perceber que alguns dos participantes começam a demonstrar alteração em seu comportamento, como nós fazíamos, em função do efeito do álcool. Chegou então o momento de nos retirarmos, já cumprimos o nosso papel, já participamos da comemoração, já fomos notados pelos participantes, já nos divertimos. Deste momento em diante não temos mais nada a aproveitar e corremos o risco de nos incomodar, de ficarmos irritados ou com ressentimentos. Para que isto? Não precisamos e não devemos nos testar, já sabemos como somos. Não vamos “cutucar a fera com vara curta”, não é mesmo?

Provavelmente seremos dos poucos que participaram do encontro sabendo dos reais motivos pelo qual ele foi planejado.

Saberemos de tudo que aconteceu de importante, cumprimos com nossa obrigação social e continuamos sóbrios e felizes, conosco e com todos, que fazem parte de nossa vida. E neste momento que devemos planejar nossas próximas vinte e quatro horas.

VIVÊNCIA N.° 28 – Março e Abril de 1994.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 38
NOV/DEZ 1995

Poço emocional

(Edda – RS)

A depressão chegou, paralisante. O que ela fez? Com dificuldade,
voltou-se para os Passos. O Primeiro, o Décimo Primeiro. A vida
voltou a ter sentido.

Para mim, o programa de A.A. vai se revelando fonte inesgotável de motivação para procurar construir uma vida de qualidade. Há dois meses, passei por um período de depressão (causado por fofoca no local de trabalho), e eu de novo me vi reagindo à negatividade com mais negatividade. Comecei a duvidar de coisas que remontam à história da maçã, perdi a fé em mim, comecei a me questionar: por quê? Para quê? O que faço? O que digo? O que fiz? Vale a pena? Ataques depressivos são coisas duras, não há jeito de sair deles pela força de vontade apenas. Ah, essa nossa tão comentada força de vontade… ela serve apenas quando se enxerga o caminho.

O jeito que eu descobri para encurtar a duração dessa sofrida imobilização, que para mim é o que significa depressão , foi entregar-me. De novo, como no início, como sempre. Só que isso nunca foi fácil, muito menos quando mais se precisa. Não adianta querer entregar, o que resolve é entregar. Como dizem os amigos de Bill que falam inglês: “Let go ant let God”.

Assim, lá fui eu sofrendo adiante, querendo entregar tudo a Deus, mas não conseguindo me livrar de minha vontade de sofrer, de fazer o papel de vítima, de coitadinha indefesa. Arre, hábitos emocionais de uma vida inteira! E, desse jeito, eu só conseguia realizar tarefas mecânicas, não podia intuir, produzir, criar. A energia estava bloqueada pela tristeza.

O que me salvou nessa situação foi a mesma coisa que tem me salvado desde que enfiei o nariz no primeiro livro do programa de A.A.: lembrar-me dos Passos. Em qualquer situação que se revele difícil demais, eu preciso sempre de novo começar com o Primeiro Passo. Reconhecer que eu sou impotente perante o álcool e perante um bilhão de outras substâncias, pessoas, circunstâncias, etc. Eu só posso modificar a mim, e que trabalheira! Muitas e muitas coisas eu não posso modificar; algumas até que posso. Mas a mim eu posso, se quero. Se quero e se entrego ao meu Poder Superior.

A depressão aparece justamente em situações de crise, nas quais eu teimo em não querer aceitar os fatos que a vida me apresenta. Eu não quero aceitar que a realidade é real porque ela me dói, eu quero que a realidade mude. Ora, isso é conversa de bêbada. O conflito e a confusão se instalam dentro de mim, porque a mensagem que me passam é ambígua ou perversa, mas isso não me capacita a mudar esse fato. Preciso aceitar que esse fato existe. Só daí posso partir para a ação.

Confusa e cheia de conflitos, paro de dialogar com meu Poder Superior, e literalmente perco as forças. Se consigo recuar um pouquinho do meu poço emocional de baixa autoestima, ganho certa perspectiva, vou deixando a afobação e devagarinho “caindo na real”.

Na minha experiência, só chego ao Décimo Primeiro Passo se estou mais ou menos em dia com a minha aceitação do Primeiro. Só consigo usufruir da energia cósmica que está à disposição de todos nós, se largo de minha amarração ao meu falso-eu, meu falso-égo. Este falso-égo é aquele construído pelas defesas asfixiantes que me ajudaram a sobreviver em tempos difíceis, mas que agora só me impedem de viver bem. O Décimo Primeiro Passo me liga com a energia que é inesgotável, com a tomada que sempre acende a luz. O Poder Superior sempre fará por mim o que eu não sou capaz de fazer – desde que eu não atrapalhe. O pior é que eu atrapalho. Fecho-me em ressentimentos, mágoas, autopiedade, gasto toda a minha energia em lamentações. Pronto, bloqueio a energia, bloqueio a luz. A tristeza é a maior barreira à energia espiritual.

Pois é, fui saindo da minha depressão quando comecei a rir de minha cara de boboca, levando a sério palavras fúteis que nada tinham a ver comigo, mas muito tinham a ver com quem as falara. Agradeci a Deus por estar viva, sem beber, só por hoje, na companhia de tantas pessoas queridas, e dei uma boa risada. Click ! Acendeu-se a luz de novo.

Voltei a entrar em contato com o Poder Superior, tive consciência de um plano bom para toda a criação, da qual eu faço parte.

A mesma energia amorosa a nós todos sustenta e ampara sempre que procuramos inserir a nossa busca de felicidade pessoal dentro de um quadro de felicidade para toda a criação. Pronto, voltei a enxergar a vida com alegria, com sentido, em boa companhia.

Muito obrigada ao A.A. por mais esta ressurreição!

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 155 MAI/JUN 2015

Não ser ”o elo mais fraco”

Nestas 24 horas, como pensar, sentir e agir para fortalecer, e não enfraquecer a poderosa corrente de transmissão da mensagem de A.A. ao alcoólico que ainda sofre ?

A literatura de A.A. foi quase toda escrita por um mesmo alcoólico sóbrio e que através da intensa convivência com seus companheiros e companheiras, parece ter estado sempre em estreito contato com um Poder Superior, que preside nossas ações em torno do nosso único e primordial propósito. Nela encontro frases profundamente sábias e também belas.

Umas dessas frases, para mim carregada de uma força espiritual tremenda, encontra-se no enunciado integral da nossa Primeira Tradição: ”Cada membro de Alcoólicos Anônimos é apenas uma pequena parte de um grande todo. A.A. precisa continuar a viver ou a maioria de nós certamente morrerá. Portanto, nosso bem-estar comum vem em primeiro lugar. Mas o bem-estar individual vem logo depois.

Então, observo que me é fácil ajudar a preservar o bem estar coletivo quando tudo corre bem no meu grupo base, Mas, e quando surgem dificuldades: no relacionamento entre membros, na manutenção da autossuficiência, na frequência diária às reuniões, no trabalho com os outros? E quando um membro adoecido para além do alcoolismo afeta repetidamente os vínculos e o funcionamento dos reuniões? E quando alguém resolve fazer política e ”mexer os pauzinhos” para conseguir o que crê ser ”o melhor”, ou se recusa a praticar a princípio da rotatividade? E quando ocorrem fofocas, quebras de anonimato alheio , envolvimentos emocionais, ciúmes entre membros ou recaídas? E quando outros empreendimentos, tais como grupos de amigos, recreação ou outras Irmandades, se confundem com o nosso único e primordial propósito? E quando faltam voluntários para os mais simples serviços diários? E quando, em meio a tudo isso, eu mesma estou em dificuldades pessoais: no trabalho, na vida familiar ou comigo mesma?

Acredito cada vez mais que é exatamente a ocasiões desse tipo que a Primeira Tradição se destina. Quase sempre é dentro de circunstâncias difíceis que meu ego sente ímpetos de acordar a alcoólica que mora em mim para reagir como no passado: impondo, manipulando, pondo lenha nas fogueiras, desconfiando, julgando, punindo, me sentindo superior diante de supostas fragilidades alheias ou simplesmente fugindo. Então, vejo que é precisamente nos momentos desagradáveis ou duros de roer que preciso sacrificar o meu ego e me colocar a serviço do tal bem estar comum, fazendo o que couber para me tornar parte da solução: estando presente , apadrinhando, não julgando e zelando por praticar o nosso inteiro colar de Doze Tradições, onde o pingente do bem estar comum se sustenta… ou não.

Mas, pra mim o ”pulo do gato” é que não poderei ser mais um elo na corrente de A.A., íntegro e forte, se não estiver em dia com minha própria recuperação do alcoolismo, ou seja, com minha abstinência diária ( de álcool e de tudo que possa me levar de volta a ele ) baseada nas práticas diárias de: rendição, fé e entrega; casa interior limpa e com faxinas periódicas mediante a ajuda por Poder Superior do meu entendimento e também de outros seres humanos da minha confiança; disposição de modificar meus defeitos e melhorar a mim mesma continuamente; reparação imediata dos danos que ainda provoco; contato consciente com o Poder Superior; prática de tudo isto em relação a todas as minhas atividades e disposição para transmitir graciosamente, a alcoólicos que ainda sofrem, tudo quanto recebi e recebo graciosamente dessa Irmandade mundial, cujos ricos e históricos reflexos chegam diariamente ao meu grupo de base.

E isso não é tudo: descobri também que não consigo permanecer em dia com minha recuperação solitariamente. Percebi isso porque, durante alguns anos trabalhando à noite e indo ás reuniões apenas nos finais de semana, deu-se que o meu afastamento do dia-a-dia do grupo base fez toda (má) diferença: foi o período em que mais senti dificuldades em permanecer bem ( apesar da abstinência contínua ) , tendo experimentado depressão, autopiedade, medos irracionais, fúria e obsessão por ideias de fuga das minhas responsabilidades, só para citar uma parte da lista de mal-estares. Ou seja, constatei na própria carne e na própria alma que apenas na convivência cotidiana do grupo base, compartilhando minhas experiências, forças, esperanças e dificuldades, ouvindo diariamente ( durante duas horas e não menos ), me expondo na prestação se serviços, desfrutando coletivamente da nossa literatura, sendo reeducada e compelida a agir corretamente nas dificuldades do grupo como um todo, me entregando a essa Força Superior que se manifesta em nossa consciência coletiva, é que sou devolvida á sanidade em meus próprios assuntos pessoais.

Esse doloroso percurso já em abstinência forjou e m mim uma convicção de que nossos 36 princípios ( Doze Passos, Doze Tradições e Doze Conceitos ) formam um círculo. que certamente será virtuoso, dinâmico e incrivelmente eficaz sobre o meu alcoolismo e meus defeitos de caráter apenas se eu estiver integrada a ele o melhor que puder e numa base diária. Tem sido assim que tenho sido levada a uma vida de simplicidade, honestidade, mente aberta, enraizamento com desprendimento, leveza mesmo em meio à dor, a adversidade e ao erro, além de sentimentos de profunda gratidão, felicidade e alegria de viver, que vejo presentes dentro de mim em todos os meus dias – mesmo naqueles que, no meu limitado modo de ver, são os ”piores”.

Posso dizer então que, no meu caso, meu bem estar pessoal está conectado e passou a ser visceralmente dependente do bem estar comum do meu grupo base. Por isso sou a primeira interessada em preservar as melhores condições espirituais desse conjunto de companheiros e companheiras que graciosamente me ajudam a preservar as minhas melhores condições espirituais. Tudo isso para bem viver a vida, para a qual sou devolvida diariamente por um Espírito do Universo, sempre mistérios o e bondoso comigo, já que há mais de 50 anos providencia todas as noites o meu sono e me desperta a cada manhã, anônima e maravilhosamente.
Um elo da corrente

Vivência 155 – Maio/Junho 2015

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 11 – JUL/AGO/SET 1989

COMO SE LIBERTAR DO ALCOOLISMO ?
Eduardo Mascarenhas
Jornal “Última Hora” de 30.05.84
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Nos meados de 1984, o psicanalista Eduardo Mascarenhas publicava no jornal “Última Hora”, uma série de artigos sobre Alcoólicos Anônimos. Primeiro sobre a irmandade como instituição, depois sobre o programa oferecido por ela para aqueles que, reconhecendo ter o problema, poderiam aproveitar para resolvê-los. É o primeiro desses artigos sobre o programa de A.A. sugerido nos 12 Passos que transcrevemos agora, pois, decorridos mais de 5 anos, os nossos leitores, alguns pela primeira vez, terão oportunidade de ler como um profissional da saúde vê esta parte do programa de recuperação sugerido por A.A.
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A experiência em todo o mundo, acumulada nos seus 49 anos de existência, durante os quais recuperou milhões de alcoólatras, trouxe ao A..A. a convicção de que só se liberta real e solidamente do álcool aquele que fizer uma profunda reformulação de sua personalidade. Pra alcançar esta reformulação cumpre percorrer aquilo que na tradição dos AAs ficou conhecido como os Doze Passos.
Claro, os 12 Passos são um guia, uma meta. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente. Não se trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito. Trata-se, isso sim, de esforçar-se permanentemente para um aperfeiçoamento pessoal. OS 12 PASSOS SÃO UMA MANEIRA DIDÁTICA DE SE ALCANÇAR ESSE APERFEIÇOAMENTO. NÃO SÃO SAGRADAS ESCRITURAS, NEM PRETENDEM SER A PALAVRA DE DEUS.
Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou me permitir descrevê-los com as MINHAS palavras, tal como eu os entendi. Tentarei descobrir neles uma coerência semelhante à coerência psicanalítica. Na realidade, bem que se poderia descrever Os 12 Passos do processo psicanalítico. . Não seriam muito diferentes dos do A.A.
1º Passo – Superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer. Ao invés de dominar o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano após ano, o equilíbrio de forças está pendendo mais para o copo do que para a mão. Não é mais a mão que procura o copo. É o copo que atrai a mão.
Outra coisa: chega de empulhação. Chega de desculpas do tipo, paro quando quero. Realmente até que se para quando se quer. Por um dia, uma semana, um mês, até por um ano. Só que depois se volta, e com força redobrada. Parodiando a frase de Oscar Wilde sobre o parar de fumar: “Parar de fumar é tão fácil, que já parei 10 vezes”.
Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o álcool (ou que já o perdeu há muito tempo) é, evidentemente, o primeiro passo para deixar de ser um biriteiro.
Por incrível que pareça, esse passo é dificílimo e o ego luta com todas as suas forças contra ele. Primeiro porque é angustiante, mesmo, se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências sobre a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas insistem em considerar o alcoolismo não uma doença como outra qualquer, mas, sim, uma fraqueza de caráter, uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se muita gente já se humilha de ter uma doença indiscutivelmente física como o diabetes, por exemplo, imagina admitir uma doença que nem doença é considerada pela maioria, mas, sim, falta de vergonha na cara. Realmente é difícil se admitir perdendo domínio sobre o álcool, pois o alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado estigma. Pau-d’água, degenerado, cachaceiro, desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque, porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão de convir, são expressões que adquiriram cores claramente insultuosas.

2º Passo – Acreditar que exista um tratamento para o alcoolismo.
Não um tratamento, apenas químico, técnico, impessoal. É mais fácil tomar uma B12 na veia, entregar o coração para uma cirurgia de ponte safena, a cabeça para um Vallium da vida, do que confiar numa pessoa, ou grupo de pessoas, para realizar um tratamento em que participe algum grau de ENTREGA PESSOAL.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula e cheia de crendices, a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passar na sua frente e dele esperar milagres, ou é profundamente cientificista. No primeiro caso, a confiança é depositada num gurú com forças extraterrestres, um ET da alma. No segundo, a confiança é depositada, na “Ciência”, com seus sacerdotes vestidos de branco, dando entrevistas ao Hélio Costa para o Fantástico. Por isso, os médicos, os cirurgiões, os neurologistas, inspiram alguma confiança. Não eles, enquanto pessoas, mas sim enquanto SACERDOTES DA TÉCNICA. Em ambos os casos – quer na fé infantil a um Deus todo poderoso e milagreiro, quer na fé, igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, cheios de tubos de ensaio, fios, ratos e computadores. Os seres humanos, com seus poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí que o difícil, mesmo, é gente confiar em gente. Não em gurus divinizados, mas em gente mesmo.
As resistências ao A.A. passam por aí. Só que, imagino, devem ser maiores ainda. É que, aos trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido como um “semi sacerdote da Ciência”. Hoje é até chique fazer psicanálise. Os AAs porque são gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas por “doutores”, têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Não exalam, assim o discreto charme da pequena burguesia artística e intelectual.
Além disso, o anonimato de seus líderes não possibilita que se tornem celebridades a serem adoradas, entrevistadas pela televisão e pela imprensa. O fato de sua origem norte-americana – e não europeia – colabora, ainda, para uma certa perda de prestígio, do tipo aristocrático. Enquanto a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de Zurich; Lacan, de Paris; os AAs possuem como fundadores, Bills e Bobs, de Ohio…
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Também o fato de, nas sessões de A.A. se reunirem pessoas de diversas camadas sociais. O elitismo não gosta disso. As pessoas de classe social mais alta, dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar esse tipo de reunião. O pior é que sem nem saber do que se trata. Imaginam, logo, mendigos cachaceiros, de pés inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classe social mais baixa, também dominadas pelo elitismo, tendem a se intimidar com esse tipo de encontro por motivos simetricamente opostos.. Imaginam que estarão na Academia de Letras, tendo de fazer discursos.. “Eu, abrir meu coração pra cachaceiro?” , diz o doutor, dominado pelo “Scotch”; “Eu, ter que falar diante de doutor?”, diz o cidadão proveniente das camadas populares, dominado pela cachaça. E tome resistência. E tome mais pileques ainda…
Em suma, o segundo passo para se livrar do alcoolismo é recuperar a crença e a esperança de que existe algo que possa ser feito. Uma força superior à vontade, capaz de enfrentar a essa outra força superior à vontade, que é o alcoolismo.

Artigo publicado pela Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos –
Vivência nº 11, de JUL/AGO/SET de 1989, copiado do jornal “Última Hora” de 30/05/84.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 146 – NOV/DEZ 2013

A mensagem de A.A. circula de muitas formas

A seguir, a emocionante narrativa de alguém que, impossibilitado de frequentar Grupos presenciais, recorreu a reuniões on-line e à Revista Vivência para se manter em recuperação nos momentos mais difíceis.

Hoje é o dia mais feliz da minha vida, não bebi nem usei outras substâncias que alterem meu humor. Cheguei a Alcoólicos Anônimos em 1999, em total fundo do poço, debilitado física e mentalmente, desempregado e com minha empresa de portas fechadas (falida e sem poder dar baixa na Receita Federal devido a multas por irregularidades), sem dignidade, respeito, credibilidade moral e espiritual.

O alcoolismo afetou toda minha vida e também devido ao consumo de outras drogas com poder devastador, eu tinha perdido as esperanças de viver. Nas manhãs as ressacas eram terríveis, dolorosas e cheias de ressentimentos. Eu fazia juramentos por tudo que achava que talvez pudesse me ajudar, que naquele dia não beberia. Afetado pelo efeito das substâncias, sofri convulsões. Nas primeiras crises os médicos investigaram a causa, até então a suspeita era epilepsia, mas foi determinado que era síndrome de abstinência, quando a mente e o corpo sentiam a falta do álcool. No mês de setembro de 2010 sofri um enfarto do miocárdio e após cateterismo fiquei na fila do S.U.S., esperando uma cirurgia que foi feita somente em março de 2012.

Após essa cirurgia conheci as reuniões online de A.A. que funcionam na Internet, pois como eu não podia naquelas condições frequentar um Grupo presencial, passei a usar a tecnologia que a ciência desenvolveu e onde tive um grande aprendizado. Realmente, Alcoólicos Anônimos é presidida por um poder Superior. Perdoem-me os companheiros(as) que tiveram a iniciativa de usar o meio eletrônico para compartilhar experiências, forças e esperanças com inúmeros membros submetidos a limitações físicas, recém operadas ou que residem em locais distantes onde não há um Grupo presencial. Fui um dos críticos dessa iniciativa porque eu mesmo ainda não conhecia e não tinha noção da espiritualidade que também existe quando nos reunimos em meio virtual.

Após quatro meses da cirurgia cardíaca, apareceu uma afta em minha boca. Procurei um dentista que me pediu um raio-X e me encaminhou a um hospital de referência para um exame mais preciso. Uma biopsia revelou tratar-se de um tumor maligno, ou seja, câncer de boca (cabeça e pescoço). Havia 48 nódulos, sendo que o que estava na língua tinha 3,5cm e outro 0,5; os restantes foram retirados, mas não eram malignos. Eu precisava ser operado o mais rápido possível para evitar o desenvolvimento dessa outra doença, mas corria alto risco de morte devido à cirurgia cardíaca ter sido recente. O cardiologista precisou consultar outros que já tinham passado pelo mesmo problema para poder dar uma carta ao oncologista, autorizando a cirurgia, que afinal aconteceu no dia 25 de Novembro de2012.

O oncologista explicou a situação para mim e para o meu filho, que acompanhou tudo. Foi bastante claro e objetivo: seria preciso retirar parte da língua, avaliar toda região para ver se não estava atingindo as cordas vocais e demais órgãos da cabeça e pescoço. Alertou que talvez eu perdesse a voz, mas disse também que se corresse tudo bem na cirurgia e não fosse preciso mexer nas cordas vocais, eu voltaria a falar após seis meses. Por fim, disse que o procedimento seria de grande risco, devido às condições do coração. Perguntou-me então o médico: “o senhor deseja fazer esta cirurgia mesmo com esses riscos?” Respondi sem exitar: “faça aquilo que for necessário”. Meu filho assinou os documentos de autorização.

Foram embora dois terços da minha língua, mas Deus, como eu O entendo, permitiu que sobrasse uma pontinha para eu transmitir a mensagem de A.A. E uma certeza eu tenho: a Irmandade de A.A. tem uma energia tão preciosa e positiva que, quando eu estava voltando da anestesia, dentro da UTI, entubado, com traqueostomia e a língua cheia de suturas, com várias sondas e demais procedimentos necessários, meu filho, que esteve presente acompanhando tudo, me disse: “pai, o telefone de casa não para de tocar, dia e noite, seus companheiros de A.A. querem notícias suas; alguns dizem estar orando, outros rezando pelo seu restabelecimento”.

Embora naquelas circunstâncias a sua voz parecesse muito distante e eu chegasse a pensar que não sobreviveria, pude ouví-lo dizer isto. Naquele momento entrou em mim uma força e esperança que parecia mais um choque. Em meu pensamento, embora confuso, pude formular um propósito para mim e para Deus: vou voltar a entrar lá e agradecer a todos!

Após minha volta para casa, com menos de um mês entrei em uma das reuniões on-line e pude pronunciar algumas palavras, embora um tanto enroladas ou incompreensíveis, muitíssimo emocionado, com lágrimas de alegria por já conseguir expressar meus agradecimentos a essa maravilhosa Irmandade.

Neste “mar revolto”, a querida Revista Vivência também foi uma boia de resgate muito significativa para mim.

Agradeço muitíssimo ao Poder Superior por ter preparado padrinhos para mim, que me ajudaram a abrir a mente para experimentar e degustar o espírito de serviço presente igualmente nas reuniões on-line. Hoje penso: “se nosso cofundador, Bill W., tivesse na época essa tecnologia?!…”
..
Nesses 18 meses que estou acompanhando as reuniões on-line, aprendi muito, principalmente sobre a nossa literatura. Percebo ainda que adolescentes e jovens, por curiosidade entram em reuniões de A.A. na Internet e estão se interessando pela Irmandade, ao descobrir que o álcool às vezes funciona como “porta de entrada” para outras drogas.

Hoje, mesmo com minha voz um pouco modificada e com a pronúncia também um pouco distorcida, estou voltando ao meu Grupo-base presencial “de alvenaria” e recomeçando no serviço. Pela graça de Deus, como O entendo, também já pude desenvolver alguns temas nas reuniões on-line; um deles é este que escrevi e poderei talvez compartilhar com muitos(as) companheiros(as) se minha “boia”, a Revista Vivência, consentir publicar.

E.Avila C. Paulista/SP

Vivência nº 146- Novembro/Dezembro/2013 – pg. 27, 28 e 29

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 155 MAI/JUN 2015

A PRIMEIRA TRADIÇÃO NA MINHA VIDA

O bem estar de um grupo de pessoas está acima do bem estar pessoal de cada um de seus membros. Maravilhosa lição da Primeira Tradição de A.A., vivenciada pelo autor em sua família , em seu ambiente de trabalho

Ainda hoje me lembro da minha chegada em A. A. Era um sábado de inverno , com céu cinzento e ruas molhadas . Cheguei à porta do prédio comercial onde ficava a sala de A.A. na minha cidade. O grupo era no segundo andar e havia uma longa escada onde eu subiria e desceria muitas e muitas vezes nos próximos anos. Encarei e enfrentei a escadaria enfim, como que saindo degrau a degrau do fundo da caverna escura a qual o alcoolismo lentamente me conduziu.

Reunião de sábado era especial. Depois eu iria descobrir isso. Havia os chamados ”sabadeiros” , a turma que por diversos motivos só aparecia uma vez por semana. Em geral alguém trazia um bolo para o café e a animação dos companheiros era maior que nos demais dias da semana.

Logo na porta um companheiro me recebeu com as boas-vindas e todos os outros notaram rapidamente minha presença. De alguma forma e por algum motivo me senti próximo daquelas pessoas que eu jamais vira. Começando a reunião, já na leitura do preâmbulo eu me senti embarcando no mundo novo da recuperação pelos princípios de Alcoólicos Anônimos.

Foi nessa reunião que descobri os três fatos que me facilitariam ”colar” em A. A. : ”alcoolismo é doença”; ”evite só o primeiro gole” e ”o programa das 24 horas” foram as frases que ouvi nos depoimentos daquela primeira reunião que me deram a certeza de ter encontrado o lugar certo, depois de dez anos de sofrimentos contínuos, crescentes e degradantes no final. Tudo foi tão bom que acabei voltando nos dias seguintes .

Acho que as descobertas sobre o modo de viver de A. A. são comuns a todos nós e vão desde o Primeiro Passo ao último dos Conceitos, passando pelas Tradições, ou seja, pelos Legados. A cada dúvida eu sempre recorria a um companheiro e a outro, e a outro, até que pudesse formar meu entendimento. Sou daqueles alcoólicos turrões, de tudo ou nada e que carecem de convencimento para aceitar como certa uma resposta.

Eu chegava bem cedo às reuniões. Queria fazer alguma coisa. Precisava me sentir parte do Grupo, agarrar com firmeza aquela boia e salvar minha vida. Talvez foi na terceira ou na quarta reunião que, enquanto varria a sala, perguntei ao companheiro Benedito : ”O que são estes três quadros na parede ?” E ele pacientemente falou-me o que sabia sobre os Passos e sobre as Tradições de A.A. Fiquei perplexo ao saber que mesmo não havendo hierarquia, a Irmandade existia e progredia há tantos anos e o companheiro me disse que era isso que nos mantinha juntos, a Unidade expressa na Primeira Tradição e o propósito primordial e comum de evitar o primeiro gole, a partir do Primeiro Passo.

Claro que questionei diversos outros companheiros sobre esses princípios, inclusive em reuniões de unidade e em temáticas. Mas foi com o tempo e com as experiências vividas no grupo e na Irmandade que consegui formar minha opinião sobre eles.

Hoje, refletindo sobre minha trajetória, com muita facilidade consigo perceber que foram esses princípios que me mantiveram vivo e sóbrio desde aquela primeira reunião naquele inesquecível inverno.

Com o tempo, o modo de vida de A. A. foi me contaminando de tal forma que eu tentava me lembrar dos Doze Passos o máximo que podia na minha rotina diária. Passei a me relacionar melhor comigo mesmo, cobrar menos de mim entender as severas limitações e imperfeições que me mantiveram durante tanto tempo na ativa alcoólica. Também passei a estabelecer contato diário com Deus, como O entendo. A me comunicar com Ele diversas vezes no dia, a cada situação boa ou ruim que a vida me apresentava. E tudo isso só me fez bem.

Então, percebi que o conhecimento e a prática dos princípios podiam tornar minha vida mais leve, mais amena, e proporcionalmente mais intensa espiritualmente. Com isso, passei a tentar encontrar situações onde os princípios podiam ser aplicados, inclusive a Tradição da Unidade.

É claro que minha família estava desestruturada. Tal qual aquela família que olha para sua casa depois da passagem do furacão, como menciona a literatura de A. A. Eu morava com meus pais, minha irmã e duas sobrinhas adolescentes. Era quase cada um pro seu lado, com sua vida, com seus problemas e com seus objetivos. Muitos conflitos haviam. Pouca comunicação e muito desgaste nas relações entre todos nós e, como eu havia encontrado a ”paz”, me impus o dever de semeá-la, começando pela minha família. Mas como faria isso ?

Bem, se a Irmandade funcionava há tantos anos, com tantas e tantas pessoas diferentes, alguma coisa poderia ser aprendida e praticada na minha família, na minha vida. Então me veio a ideia de fazer uma reunião com todos. Uma reunião de serviço com a família. Com pauta e tudo mais! Falei individualmente com todos e numa tarde de domingo fizemos a tal reunião. Cada um falou sobre seu sentimento em relação a todos e estabelecemos que nossa prosperidade enquanto família só seria possível se houvesse união , unidade no propósito de crescermos, enquanto indivíduos, coletivamente. Foi um grande passo, o primeiro, ou melhor, a primeira tradição.

Mas o tempo passou e logo as diferenças e os atritos surgiram. O que fazer ? Novamente busquei entre os princípios que mantinham a Irmandade de A.A. viva e percebi que para haver união, precisaríamos de unidade. Estabeleci então uma reunião semanal com todos. Mas não uma reunião de serviço com pauta e tempo para cada um falar: uma reunião motivada por um propósito único, um almoço em família.

Durante a semana alguém sugeria um prato, um cardápio para o almoço do domingo. Alguém se encarregava de comprar os ingredientes na semana, eu cozinhava, o que minha mãe adorava, pois podia tirar um dia de folga e alguém preparava a sobremesa, ou parte do cardápio. No final, o almoço era um sucesso, tanto que ninguém deixava de participar. Com isso, podíamos ouvir as meninas e saber mais sobre suas vidas e podíamos reencontrar as qualidades que cada um de nós tinha.

Crescemos muito naqueles domingos. Todos juntos e unidos. As constantes e pesadas brigas deram lugar e calmos diálogos. Foi isso: passamos a amar o melhor de cada um de nós, sem temer o que de pior tínhamos. E vieram tantas dores de crescimento, tantos infortúnios, tantos percalços. Mas suportamos tudo isso juntos, unidos e o melhor: não precisei beber em momento algum. Perdemos minha mãe há três anos e meio, o esteio da família, mas nos mantivemos juntos. Nos unimos para cuidar do meu pai, acamado há 18 anos, e o perdemos há três semanas. E estamos juntos.

Hoje reconhecemos que cada um tem suas limitações, seus espinhos, seu ponto de vista, mas, não obstante, todos precisam de todos. Como naquela velha história que um companheiro uma vez me contou sobre a sobrevivência dos porcos espinhos na era glacial, quando precisavam do calor de todos, mesmo que para isso se ferissem mutuamente. A escolha era simples, entre a Unidade com calor e os ferimentos, ou perecerem sozinhos no gelo.

Creio que este é o espírito da Primeira Tradição e hoje procuro aplicá-la em diversas outras situações da minha vida, inclusive no meu trabalho, onde estou há vinte anos seguindo carreira. Agora estou responsável pelo departamento em que entrei na função mais simples, na época das reuniões no grupo com o saudoso companheiro Benedito. E todos os dias procuro me lembrar de que sou só mais um que precisa de todos para alcançar os objetivos. Certamente seria muito difícil coordenar uma equipe tão grande e com tanta gente de origem e de pensamentos diferentes se não tivesse sempre em mente o bem estar comum, princípio forjado na experiência e no perecimento de tantos e tantos companheiros e companheiras nos primeiros anos de Alcoólicos Anônimos.
Vagner R.
São Paulo/SP

Vivência nº 155 – Maio – Junho/2015

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 84 – JUL/AGO 2003

Alcoolismo e desempenho sexual

“A associação entre álcool e sexo deixa marcas profundas
no subconsciente do alcoólico.”
Dr. Alberto Duringer – Médico
Ex-Diretor do Hospital Central da Polícia Militar
Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes.

Na sociedade em que vivemos, o sexo não é completamente livre. Ele está limitado por uma série de censuras éticas, morais e sociais que fazem com frequência o desejo não se concretizar como ato sexual, ficando apenas na vontade.

Ocorre que essas censuras são anestesiadas pelo álcool etílico e é por isso que muita gente associa o exercício de sua sexualidade com a ingestão de bebidas alcoólicas.

Se isso é válido para quase todo mundo, é muito mais ainda para o alcoólico que tem todo um passado ligado a um frequente e intensivo consumo de bebida, sem falar no fato de que o álcool desencadeia nele uma fantasia de grandiosidade, na qual ele se julga atraente, quase irresistível e certamente o melhor amante do mundo.

Frequentemente, um alcoólico não consegue nem se lembrar de ter tido sexo sem antes ter bebido álcool. Essa associação, válida por muitos anos, acaba profundamente marcada em seu subconsciente.

Por outro lado, a ingestão crônica de grandes quantidades de álcool por períodos prolongados de tempo, agride diretamente as glândulas sexuais, provocando uma atrofia; o álcool pode até aumentar o desejo, mas termina prejudicando o desempenho.

Homens alcoólicos, em fase avançada da doença, diminuem progressivamente sua potência, perdem pelos, às vezes apresentam até crescimento mais ou menos acentuado das mamas.

Mulheres alcoólicas podem perder suas características sexuais secundárias femininas, atrofiam suas mamas, vêm suas menstruações diminuídas ou ausentes, tornam-se estéreis.

No fim da doença alcoólica fica frequentemente difícil distinguir, ao primeiro olhar, quem é homem, quem é mulher.

Por felicidade, esse comprometimento das glândulas sexuais (testículos e ovários) não costuma ser definitivo, podendo o alcoólico voltar à sua normalidade apenas parando de beber. Só que isso não acontece da noite para o dia, a agressão geralmente foi muito prolongada e durou muitos anos.

A observação clínica mostra que o prazo de recuperação é variável, mas costuma oscilar entre 3 e 6 meses de abstinência.

Reconheço que o problema é de difícil aceitação para o doente. Ao parar de beber, o alcoólico, pela primeira vez lúcido depois de muito tempo, descobre estar impotente e se desespera.

Três a seis meses é muito tempo para quem deseja soluções rápidas. Todo o seu subconsciente associa sexo com álcool, faz parte de toda sua vida sexual. Existe uma vozinha compulsiva dentro dele dizendo que ele vai conseguir se antes tomar uns goles.

Tudo isso, mais a insegurança, os medos, o orgulho ferido, a revolta existentes neste período inicial de abstinência, levam com frequência a uma recaída. É claro que voltar a beber não soluciona coisa alguma, só agrava o problema cada vez mais, mas não falta quem venda na rua todo tipo de garrafadas, vinhos e tônicos (sempre contendo álcool), que falsamente prometem uma recuperação da potência. É importante que o alcoólico seja alertado contra esse canto de sereia, senão certamente irá recair.

A única possibilidade de recuperação física exige um período de abstinência um pouco mais prolongado, e há que se ter a necessária paciência para esperar por ela.

É claro que pode haver mais algum outro fator influindo, diabetes ou lesão vascular, por exemplo, cujos tratamentos dependem de uma ida ao médico e de tratamento apropriado.

O alcoólico que está nessa situação não deve deixar de fazer um bom exame geral, para ver se não há outras doenças associadas.

Sexo, porém, não é só uma atividade física. Há todo um clima amoroso envolvido, uma sedução preliminar que é da maior importância. Existem alcoólicos que nunca tiveram relações em toda sua vida, sem antes de beber, desde sua adolescência. Agora, homens maduros, veem-se diante da perspectiva de fazê-lo sem álcool, como se fosse a primeira vez, como se tivessem que aprender como é que se faz para namorar. Mesmo quando o alcoólico conseguiu manter uma relação estável, os laços afetivos costumam estar severamente atingidos. Por exemplo: uma mulher não alcoólica que vê seu companheiro chegar à noite bêbado, sujo, cheirando mal em casa, vomitando e depois desmaiando na cama, tem todos os motivos para não gostar de fazer sexo com ele e sentir até repugnância física. De repente esse alcoólico diz para ela não estar bebendo mais, que está se recuperando, digamos, dentro de uma sala de Alcoólicos Anônimos.

Provavelmente ela já ouviu muitas vezes juras e promessas não cumpridas, tendo todo o direito de estar descrente de que dessa vez é pra valer, podendo ainda estar adoecida de raiva e ressentimentos, criando-se um clima absolutamente impróprio para qualquer relação amorosa.

Também aí, só o tempo pode ajudar, à medida que a recuperação se torne mais consistente.

Em resumo: a sexualidade está prejudicada no alcoolismo por comprometimentos físicos, psíquicos e espirituais, e só uma recuperação nessas três áreas, aliada ao fator tempo, pode levar novamente à normalidade.

(Vivência nº 84 – Julho/Agosto 2003)

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 63 – JAN/FEV 2000

O poço de cada um

Quando me convidaram para ir a uma reunião de A.A., eu fui por curiosidade, pois achava que meus problemas com a bebida não eram muito sérios. Ao chegar ao grupo, fui muito bem recebido e durante a reunião as pessoas falaram de seus problemas e do programa dos Doze Passos de forma bem esclarecedora.

Os Passos chamaram minha atenção, pois tenho muitos problemas de convivência com as pessoas. Achei que esse programa seria de muita ajuda para mim e passei a frequentar as reuniões.

Com o passar do tempo, percebi que muitos companheiros afirmavam que “quem não chegasse ao fundo do poço não ficaria em A.A. por muito tempo”. Ouvia, através dos depoimentos, as desgraças pelas quais muitas pessoas haviam passado, e pelas quais eu nunca havia passado e nem queria passar – por isso é que eu estava participando de um programa tão importante. E pensava: “O que estou fazendo aqui? Tenho de passar por tudo isso para ser A.A.?”

Continuei participando das reuniões e não bebi mais. Passei a estudar os Passos e vi que eram realmente o que eu estava precisando.
Quando ouvia os companheiros afirmarem que “quem não chegou ao fundo do poço não se firma no programa”, pensava que “fundo de poço” era ter passado por muito sofrimento e desgraça, era ter chegado à situação humilhante e deplorável de não ter mais para onde ir.

Tive então a oportunidade de participar de uma reunião de Distrito. Gostei de conhecer outros companheiros e aprender mais algumas coisas – uma delas sobre o tal “fundo do poço”: depois da reunião fomos almoçar na casa de um companheiro e pude ouvir pessoas experientes. Conversei com alguém que me disse: “Você é um felizardo por ter encontrado A.A. em seu caminho, estando ainda tão jovem e ‘inteiro’. Cada um sabe a profundidade do seu ‘poço’. Alguns aguentam mais sofrimentos e outros, como você, procuram uma saída antes de as coisas tomarem um rumo no qual o retorno fica difícil. Eu conheço pessoas cujo ‘fundo de poço’ foi um porre.”

Depois dessa conversa eu me senti à vontade, sabendo que não era um intruso que quisesse tirar proveito de algo que não era seu. Estou completando dois anos em A.A. e graças a um Poder Superior até hoje estou sóbrio, procurando ter serenidade, coragem e sabedoria para viver uma vida de acordo com a vontade de Deus. Só por hoje estou tentando melhorar em todos os sentidos. Agradeço a Alcoólicos Anônimos por tudo de bom que estou aprendendo e tentando pôr em prática em minha vida.

Eu tinha me inclinado e despencado. Senti a vertigem da queda e o impacto com o chão duro e frio do fundo do poço. Por sorte minha, esse poço não era tão profundo e eu pude ver a saída, embora achasse que estava bem. Algumas vezes tentei sair, mas não achei a borda e continuei acomodado naquela situação. Até que, sem que eu esperasse, vi a mão de A.A. estendida, oferecendo-me ajuda e me fazendo perceber que se eu não saísse de onde estava, poderia despencar num outro poço, muito mais profundo e mais difícil de sair. Então agarrei essa mão estendida e a estou segurando até hoje.

Gostaria de agradecer a todos os companheiros do Grupo Castelo dos Sonhos. Vocês são meus irmãos e eu torço por vocês nessa caminhada que não é muito fácil, mas que, com a ajuda de um Poder Superior e de A.A., conseguimos percorrer. Infinitas vinte e quatro horas de serenidade e sobriedade a todos os irmãos de A.A.

(Francisco, PA)

(Vivência 63 – Jan/Fev 2000)

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 129 – JAN/FEV 2011

Será que sou grato?

Em todas as reuniões de Alcoólicos Anônimos é lido o Preâmbulo da nossa Irmandade que diz “sermos autossuficientes graças às nossas próprias contribuições”, nos remetendo ao exercício da Sétima Tradição que acrescenta “rejeitarmos quaisquer doações de fora”.

A decantada autossuficiência torna-se uma inverdade quando constato que o meu Grupo-Base, há algumas décadas, funciona num espaço físico cedido graciosamente por uma igreja ou um posto de saúde ou um colégio e outros espaços semelhantes. Vez por outra, somos impedidos de realizar as reuniões em função de eventos nestas instituições.

Os anos vão passando, e o grupo continua se submetendo as condições impostas pelos proprietários do espaço cedido. E, nós, vamos para cabeceira de mesa dizer que somos gratos!

A maioria de AAs, que seguem o Programa de Recuperação, vão aos poucos melhorando a sua situação financeira, mas o valor apurado nas sacolas dos grupos continua minguado. Parece que há um bloqueio em relação à contribuição para a Irmandade.

Os Órgãos de Serviço funcionam de uma forma precária. A maioria está sempre no vermelho. Alguns grupos não elegem o RSG por não ter condições financeiras para arcar com as despesas de deslocamento do mesmo para as reuniões do Distrito, CRs e Assembleias. A aquisição do Relatório da Conferência de Serviços Gerais, receita necessária para que a mesma ocorra, é outro ponto de grandes dificuldades para os grupos. Não nos conscientizamos da necessidade em mantermos nossos Escritórios de Serviços, cujas despesas, por maior que seja o controle, periodicamente sofrem reajustes na forma da legislação em vigor.

E continuamos a dizer que somos gratos!

A gratidão deve ser expressa com a minha frequência nas reuniões. Quando me ausento, deixo de exercitar a Primeira Tradição e enfraqueço a Unidade; a Quinta Tradição, não compartilhando a experiência e não transmitindo a mensagem; a Sétima Tradição, não contribuindo na sacola diária.

Isso é o mínimo que devo fazer. Não só pela minha sobriedade, mas, também, para tornar possível que os grupos e os demais Órgãos de Serviço continuem fazendo realmente de A.A uma sociedade de Alcoólicos em ação.

Não nos esqueçamos de que tudo começa no grupo. E que comece por mim!

S.M. – Niterói/RJ

Vivência nº 129 – Jan/Fev 2011

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 55 – SET/OUT 1998

“COMO DIZIA O DR. BOB…”

Livro: Dr. Bob e os Bons Veteranos, pág. 232

Oscar W., um membro de Cleveland com 29 anos quando ingressou em A.A., lembrou-se quando falou em sua primeira reunião, e de um dos veteranos lhe ter dito: “Quando você é novo, deve tirar o algodão dos ouvidos e enfiá-lo na boca. Sente-se e escute!”
Então Dr. Bob se levantou e disse para Oscar: “Isso mesmo, filho,

escute. Mas observe e veja o que o homem faz, assim como escuta o que ele diz.”
“Depois de estar em A.A. por alguns meses”, continuou Oscar, “solicitei por escrito minha demissão e entreguei-a para Dr. Bob. Ele a leu e não riu. Então me olhou e disse: ‘Bem, você está agindo corretamente’. Depois, instruiu-me a ir ao Mayflower Hotel comprar uma garrafa de uísque, tomar alguns bons goles, depois tampar a garrafa. ‘Se conseguir ficar lá alguns dias sem tomar outro gole, você não precisa de nós’. Pensei: ‘Não existem garrafas e nem dias o suficiente’. Mas não lhe disse.
“‘Vou lhe dizer o que faremos’, disse Doc. ‘Guardaremos para você um pouco de aveia a granel e um pouco de palha no celeiro, porque, com certeza, voltará.”
“Ele estava certo. Seis meses depois, estava de volta”.
“Quando foi publicado o artigo de Jack Alexandre (no Saturday Evening Post), em 1941, trabalhei com cerca de 17 recém-chegados”, contou Oscar. “Ajudei-os a pagar o aluguel, levei-lhes comida e carvão e os ajudei a conseguir trabalho. Todos ficaram bêbados”.
“Fui até Akron e reclamei para Dr. Bob, que me disse: ‘Você estava fazendo isso para si mesmo e eles estavam lhe fazendo um favor.’
“Mas estou ajudando a eles.”
“Não’, disse ele. ‘Esses homens lhe mostraram o que acontecerá se você beber. Fizeram-lhe um favor. E quando não bebem, mostram a você como o programa funciona. Das duas formas, eles lhe fazem um favor.'”
Outra citação do mesmo estilo, atribuída a Dr. Bob por Ernie G., o segundo, foi: “Existem dois tipos de pessoas que se deve observar em A.A. – os que conseguem e os que não.”

Vivência n° 55 – Setembro/Outubro 1998

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 105 JAN/FEV 2007

UMA PARCERIA FUNDAMENTAL
PROFISSIONAIS DA SAÚDE E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

Dr. Raul Castro Miranda
Médico Psicoterapeuta
Petrópolis/RJ

Se Voltaire (1694 1778) ainda estivesse vivo, talvez não reafirmasse que “os médicos se valem de medicamentos que pouco conhecem para curar doenças que conhecem menos ainda em seres humanos dos quais nada sabem”.
Afinal, de lá para cá a medicina evoluiu tanto, que a afirmação do renomado escritor, hoje, parece já não fazer mais nenhum sentido.
Mas, será sempre assim mesmo?
Se observarmos o que sabemos hoje sobre o alcoolismo, por exemplo, verificaremos que se, por um lado, estamos muito distantes da época em que acreditávamos que aqueles que bebiam demais eram seres degenerados ou estavam possuídos por espíritos malignos, por outro lado, devemos admitir que ainda não conhecemos e não conheceremos tão cedo alguns aspectos fundamentais dessa doença, como a sua causa, ou a sua cura, por exemplo.
Mas, se é assim, como lidar então com essa importante moléstia que, afinal de contas, não pode ser ignorada, já que é tão frequente e acomete uma em cada dez pessoas do planeta; é tão grave que só mata menos do que o câncer e as doenças do coração?
Sigmund Freud dizia que “só um homem que realmente sabe é modesto, pois ele sabe quão insuficiente é o seu conhecimento”.
Talvez seja disso que estejamos necessitados aqui: um pouco de modéstia!
Esclareço.
A formação dos profissionais especializados em alcoolismo (médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, conselheiros em DQ, etc.) tem por objetivo capacitá-los a compreender como funcionam o corpo, a mente e os principais acontecimentos da vida de um (a) alcoólico (a). Eles aprendem, por exemplo, que o (a) alcoólico costuma se alimentar muito mal (desnutrição), que o seu estômago costuma chiar (gastrite, úlcera), que o seu fígado tende a degringolar (cirrose), que os seus neurônios podem não aguentar (atrofia cortical), que o seu ser chega a delirar (delirium tremens), que os seus negócios teimam em sucumbir (falência, dispensa do trabalho), que os seus amores costumam esmorecer (distanciamento, separação), que os seus limites insistem em desobedecer (agressão, acidente), que as suas verdades valem tanto quanto as suas mentiras (decepção, calote), que as suas culpas “se mandam” rápido para debaixo do tapete (embora sempre permaneçam lá), que o seu choro e o seu sorriso podem impressionar (embora possam nada significar), que os únicos parceiros leais costumam ser os de copo (ainda que eles nunca possam ser chamados de amigos), enfim, que a sua vida, tal qual uma estranha ilha, é uma garrafa de álcool (grande) cercada de coisas (pequenas) por todos os lados…
Tudo isso, e muito mais, ainda, o profissional especializado pode e deve aprender. E se aprender com afinco, dedicar-se com presteza ao seu ofício, poderá vir a ser, em algumas ocasiões, a diferença entre a vida e a morte dos seus pacientes.
Uma coisa, entretanto, ele jamais poderá compreender. Por mais que tente, que se esforce, que se dedique, ele jamais saberá, de fato, o que é SER UM ALCOÓLICO. Por isso, quando se der conta dessa verdade, ele deve deixar de lado os próprios preconceitos (e eles geralmente estão presentes, sim) e procurar conhecer, ainda que superficialmente, os Alcoólicos Anônimos.
Se tiver sensibilidade e boa vontade, ali ele descobrirá que todas as vezes que um alcoólico fala ou ouve o depoimento de outro alcoólico, realiza-se uma façanha que nenhum profissional não alcoólico jamais poderá realizar: a da transmissão, através da palavra, da única força no mundo capaz de ser respeitada por quem está tão acostumado a desrespeitar: a FORÇA DO EXEMPLO.
Não o exemplo do mestre ou do herói, sempre pronto a ditar regras de conduta, mas o exemplo do homem comum, que bebeu muito mais do que podia ou devia e que finalmente compreendeu que a atitude de largar a bebida é muito importante; sim, mas é apenas a primeira etapa de um processo de reformulação interna que tem por objetivo atingir uma outra coisa muito mais importante: A SUA SOBRIEDADE!
Se for inteligente e tiver juízo, o profissional especializado estabelecerá então com a Irmandade uma espécie de parceria informal que eu considero fundamental para o sucesso do manejo do paciente alcoólico.
Nela, fica “acertado” que enquanto os primeiros se ocuparão de cuidar do corpo e da mente desses enfermos, aos segundos caberá o exemplo, o apoio e o acompanhamento desses companheiros recém-chegados dos seus dolorosos caminhos de perdas e danos.
Que sejamos sempre bem sucedidos nessa empreitada!

Vivência nº 105 – Janeiro/Fevereiro/2007.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 MAI/JUN 2002

DELEGACIA DA MULHER
E ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

Julita Nardelli Borges
Psicóloga da Mulher e do Adolescente de São José dos Pinhais/PR

Um artigo para ser mostrado em muitas
outras delegacias e juizados

Ao instalar minhas atividades como psicóloga da Delegacia da Mulher de Curitiba/PR, em 1987, não tardei em perceber que grande parte das queixas por agressão física ou verbal, ameaças e conflitos familiares em geral, estavam relacionados ao alcoolismo. Colegas que trabalhavam no mesmo setor, autoridades policiais e demais funcionários, também tinham essa constatação. Iniciamos assim os contatos com Alcoólicos Anônimos, onde passamos a encaminhar usuários e familiares aos grupos já
existentes de A.A; e Al-Anon, conforme a região onde residiam, e solicitávamos que retornassem à delegacia, para comprovação de frequência e acompanhamento. Nos casos de etilismo crônico, constatando-se a necessidade de internação ou tratamento ambulatorial,estes eram providenciados, com a anuência da família, junto aos hospitais psiquiátricos e clínicas especializadas, para desintoxicação orgânica, psicoterapia e demais procedimentos necessários à recuperação do doente. Entretanto, o número sempre elevado de ocorrências policiais associadas ao abuso de álcool, conduziu-nos a uma nova reflexão: “Por que não um A.A. dentro da própria delegacia?”, disse um colega. Foi assim que em 1991 trouxemos o primeiro grupo de apoio em Alcoólicos Anônimos à Delegacia da Mulher de Curitiba, e posteriormente o Grupo de Apoio Familiar Al-Anon.
A abordagem de conscientização do grupo de usuários era feita por psicólogos e assistente social. Para melhor aproveitamento do trabalho, era solicitada a frequência a quatro reuniões informativas, com a presença de membros de A.A., além dos profissionais. Concluída essa etapa, eram os participantes encaminhados a grupos de A.A. de suas comunidades, marcando-se retorno para verificação e acompanhamento do caso.
No ano de 2000, fui designada para a Delegacia da Mulher e Adolescente de São José dos Pinhais, a fim de coordenar o setor profissional e uma das primeiras providências foi estabelecer contato com A.A., convidando seus membros para juntos criarmos um grupo de apoio, extensivo ao Al-Anon. Dessa forma, em julho do mesmo ano, iniciamos os trabalhos com Alcoólicos Anônimos e Al-Anon, os quais muito nos gratificam pelo desempenho participativo e pelos visíveis progressos.
Para o psicólogo, ou outro profissional que participa das reuniões de A.A. e Al-Anon, quer em grupos de apoio ou reuniões abertas, é fundamental entender os Doze Passos, as Doze Tradições e os lemas que norteiam quem busca a recuperação, pois cada um deles é uma proposta de modificação de comportamento através da reflexão, dos depoimentos e da ajuda mútua. É, em resumo, uma belíssima terapia, cuja generosidade e eficiência se comprovam a cada ano, desde 1935, quando de sua fundação nos Estados Unidos. Na Delegacia da Mulher e do Adolescente aqui já mencionada, implantamos um programa de doze reuniões rotativas,
onde são abordados e vivenciados os Doze Passos, tanto em A.A. quanto em Al-Anon. Cada participante se compromete a frequentá-las ininterruptamente e, após a comprovação da frequência e conclusão, poderá ingressar nos grupos de sua preferência, levando-se em conta as despesas de deslocamento, tempo e disponibilidade de horário. Os casos crônicos e as reincidências de alcoolismo são encaminhadas para
tratamento especializado em hospitais e clinicas, orientados no sentido de que, ao terem alta, retornem aos grupos de A.A.
O grupo de Orientação Familiar Al-Anon, destinado a esposas, companheiras, pais, irmãos e filhos, em funcionamento na Delegacia da Mulher e do Adolescente, traz grande lições de vida, onde as famílias aprendem a compreender e lidar com o alcoólico e consigo mesmas, evitando futuros conflitos e muitas vezes reintegrando casais que, ao encontrarem o caminho da sobriedade, evitam a separação.
A Irmandade de A.A. muito me ensinou, e espero estar contribuindo efetivamente com minha parcela de conhecimento e trabalho dedicado a esses grupos. Penso que esse tipo de trabalho não deveria se ater somente a algumas delegacias especializadas, mas também aos Distritos Policiais, como ação preventiva às reincidências de delitos associados ao alcoolismo.
Atualmente, até o Poder Judiciário determina, em alguns casos, a frequência a grupos de Alcoólicos Anônimos e alguns Juizados Especiais Criminais assim procedem, como atribuição de pena alternativa, inclusive fixando a obrigatoriedade de comparecimento e comprovação do cumprimento da determinação.
Que o Poder Superior conceda a todos a sobriedade, serenidade e sabedoria para continuar essa empreitada, onde a força de vontade, a fé, a humildade e a esperança, são as grandes alavancas no caminho da recuperação.

Vivência – Maio/Junho 2002

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 – MAI/JUN 2002

MINHA VIDA ERA
UM CATÁLOGO DE RESSENTIMENTOS
Apesar do título, este é um artigo que se encaixa muito
mais no tema da Vivência 76; fala de uma
relação diária com Deus.

No Livro Azul, no capítulo 5, está escrito: “sem ajudar, é demais para nós. Mas existe um que tem todo o poder – e esse é Deus. Que possam encontrá-Lo agora!” Dito em palavras tão simples, até eu enxerguei. Um pouco antes, na parte dos “Agnósticos”, afirma-se textualmente que o objetivo principal do livro é nos capacitar a encontrar um Poder maior do que nós, que resolverá nossos problemas (notem: não diz que vai nos ajudar a resolver nossos problemas, como eu pensei no princípio, mas que o Poder vai resolver nossos problemas).

Eu de fato não gostava de gente que ficava citando pedaços enormes do Livro Azul, e cá estou fazendo a mesma coisa. Acredito que é porque a “nossa Bíblia” me oferece constantemente nova iluminação, cada vez que a leio. As palavras permanecem as mesmas; ninguém está secretamente acrescentando novos parágrafos e capítulos, enquanto durmo. Eu é que estou mudando.

Na verdade, cito essas passagens em particular, porque inicialmente eu não conseguia vê-las. Era como se a minha mente e meus olhos se vidrassem sempre que a palavra Deus surgia. O fato era que eu não era nem anti Deus nem pró-Deus. Deus era um conceito que eu não entendia e que tratava como tudo que não compreendia: com medo.

Sei agora que minhas antigas ideias tinham-se estabelecido na minha família, onde Deus, como o bebê, havia sido jogado fora com a água do banho. O pessoal culpava a religião por tudo de ruim que tinha acontecido a eles e ao resto do mundo – as duas Guerras Mundiais, as mortes, etc. Ativamente promoviam uma vida de autossuficiência. Pedir ajuda, mostrar uma fraqueza, admitir um erro, demonstrar emoções, tudo isso eram sinais de fracasso pessoal, e portanto deveriam ser evitados a todo custo. Vejo agora que conseguiram sobreviver mantendo suas vidas bem pequenas e tentando controlar a vida de todos os outros. Nada de mudanças, apenas uma rotina bem segura.

Não é surpresa eu ter guiado minha vida pelos mesmos padrões, e tudo vai bem quando a vida transcorre macia. Mas essa fórmula não é defesa contra as inevitáveis devastações. Agora, de posse dessa arma valiosíssima, o olhar para trás, posso ver que eu estava condenado ao fracasso. E me sentia como se fosse um fracasso até onde a memória alcançasse.

A bebida da minha família era usada apenas em situações de grande alegria ou profunda tristeza, e como minha vida constantemente se inclinava entre esses dois extremos de emoção, não foi surpresa começar a usar álcool como uma droga, a partir da tenra idade. No início, sentia que ele me ajudava a lidar com as coisas, mas depressa se tornou uma muleta emocional. Também sei agora que não me ajudou em nada, apenas me retirava de cena temporariamente e, eventualmente, numa base mais ou menos permanente. Sabia também que era um adicto fisicamente, mas me agarrava à insana noção de que eu podia “vencer o álcool”, se quisesse.

Gosto das palavras. Uso-as no meu trabalho, e uma das minhas fascinações iniciais, na recuperação, tem sido que o problema e a resposta são chamados pelo mesmo nome. Eu bebia e tornei-me dependente de espíritos (entre outras coisas), e a solução está em confiar num espírito – Deus. Ambos preenchem o mesmo buraco. Um temporariamente e perigosamente, o outro permanentemente.

Assim sendo, como cheguei ao ponto de entregar-me e deixar Deus agir? Costumava pensar que o jeito como eu agia não era o recomendado. Pensava que estava fazendo errado (velhos pensamentos). Vejo e ouço, hoje em dia, muitos dos meus companheiros descrevendo sua própria jornada para uma fé que funciona, e existem muitas similaridades essenciais.

Comecei com lógica pura (masculina?). Aceitei que nenhum poder humano – ex esposa, filhos, sócios na empresa, gerentes de banco – tinham sido capazes de me fazer parar de beber. Portanto, se é que eu poderia ter qualquer esperança de recuperação aceitei que talvez houvesse um Deus, e vim a crer, em nível intelectual, numa existência espiritual. Não sentia nada de um jeito ou de outro, mas comecei realmente a experimentar coincidências que, em certas ocasiões, me faziam correr um frio pela espinha.

Entregar minha vontade e minha vida? Tudo bem, se vocês me dizem para fazer. Tendo terminado os três primeiros Passos (que era o melhor que pude fazer naquela época), estava pronto para o Quarto Passo, mais “compridão”. Anotei num só lugar todas as peças de informação que miríades de homens e mulheres atrás do balcão de bares haviam escutado, em fragmentos, durante minha carreira de bebida. (Muito mais tarde, e com a ajuda de quem agora é meu padrinho, pude ver que a história da minha vida foi um catálogo de ressentimentos, todos disfarçados de racionalizações coloridas.) Compartilhar isso com o meu padrinho de então pareceu um grande evento, mas não senti nenhum alívio brilhante. Pensei que meus defeitos de caráter fossem o orgulho e a lascívia, e na verdade só admiti esses dois, sendo que não estava totalmente convencido do último.

Assim lá fui eu, tentando reconstruir minha vida, tentando não deixar que o orgulho interferisse. Não bebia, ia às reuniões, vivia com minhas antigas ideias de autossuficiência, e estava completamente disposto a permitir que “eu” removesse meus defeitos de caráter. Como vocês podem prever, isso não funcionou, e eventualmente alcancei uma maré baixa extrema que bateu todos os recordes – um fundo de poço emocional – que agora chamo de minha segunda rendição.

Fui levado a me ajoelhar, mais uma vez derrotado pelo alcoolismo, dessa vez sem álcool, e isso me forçou a pedir ajuda. Orei ajoelhado constantemente e dessa vez parecia que havia alguém ali: consegui fazer algum tipo de conexão. Acredito que minha recuperação de fato começou a partir desse momento.

Deus age através das pessoas, e no meu caminho foram colocadas boas pessoas. Fui afortunado por prestar serviço á Irmandade junto com um homem muito espiritualizado. Ele costumava jogar “pedregulhos espirituais na minha janela”. Infelizmente, ele não morava ali, mas me ajudou até que encontrei meu padrinho atual, que é da mesma cepa. Ele me levou através dos Passos novamente. Nada do que eu havia feito anteriormente tinha sido em vão, mas ele me ajudou, pela sua experiência, a ganhar uma visão maior para dentro do meu passado, dos meus comportamentos, das minhas reações e, mais importante ainda, a enxergar meu medo autocentrado.

Como resultado da rendição, e com esse entendimento mais claro sobre mim, e uma conscientização nova de como eu me enquadro no esquema das coisas, tenho sido capaz de deter minha singularidade terminal e tornar-me, em primeiro lugar, apenas mais um alcoólico em recuperação e depois, maravilhosamente, simplesmente um ser humano comum. Os mais antigos costumavam descrever isso como se tornar mais uma das crianças de Deus. É uma coisa muito boa.

Hoje me sinto só. Não preciso dispor de todas as respostas. O que não significa que não quisesse tê-las, às vezes. Mas o que preciso ter é um estoque constante de boa vontade. Boa vontade para colocar um pé na frente do outro e caminhar. Disposição para pensar no positivo. Boa vontade para sair do Seu caminho. Para ser grato. Uma disposição que, às vezes, quando as coisas se complicam, apenas meus companheiros podem prover.

Quando me aproximei do Terceiro Passo pela primeira vez, fiquei preso num debate mental sobre se a gente entregava a vida ao amor, cuidado e proteção de Deus uma vez, várias vezes ou cada dia. Eventualmente me decidi por entregar-me a cada dia. Lembrei-me que nosso Programa é do tipo 24 horas, e isso para mim quer dizer que começo com ele quando abro os olhos.

Frequentemente acordo com minha “antiga cabeça” ligada – cheia de medo ou ansiedade, às vezes me sentindo completamente vazio. Às vezes consigo ser um “sabe tudo”, com um plano perfeito para o dia. Preciso ficar em guarda contra qualquer extremidade desse espectro. É quando estendo minha mão para a solução – lembram-se, o poder que vai resolver meu problema, ou, como diz o Dr. Paul O, no Livro Grande norte-americano (lá vai mais uma citação!), “quando parei de viver no problema e comecei a viver na solução, o problema foi-se embora”.

Em geral, começo tentando cultivar uma atitude de gratidão, concentrando-me em toas as coisas boas que Ele me deu: a própria vida, minha sobriedade, minha saúde, meus relacionamentos, a provisão das minhas necessidades oposta à dos meus desejos. E daí dou início à sessão dos “muito obrigados”. Isso, creio eu, é colocar-me na relação certa com Deus, e tem o efeito de pôr todas as minhas emoções negativas em perspectiva. Meu medo diminui e, num dia bom, posso sair caminhando e saudar o mundo. Em dias menos bons, recebo a coragem de dar um passo adiante.

Uso as orações sugeridas pela Irmandade para os Terceiro, Sétimo e Décimo Primeiro Passos, especialmente se estou tendo dificuldade em me comunicar, e às vezes o Pai Nosso, especialmente desde que me foi explicado. Penso em Deus e Lhe agradeço várias vezes por dia, tanto em momentos de aparente bom sucesso como também quando equivocadamente sinto que falhei. Sei que na verdade nunca posso de fato falhar, se estou fazendo o melhor que posso. Geralmente alguma coisa melhor está ali, logo ao dobrar a esquina, e o que eu considerava sucesso seria um fracasso completo; assim sendo, acho que não sei de fato o que é melhor para mim.

Desde que comecei esse relacionamento com o Deus do meu entendimento, e que trabalho na construção e na manutenção diária desse relacionamento, tenho mudado. Não consegui isso na base da força de vontade, me parece. De fato, tive de fazer muito pouco. Só sei que conheço os resultados. Não necessito beber ou voltar-me para uma distração alternativa ou técnica de escape. Sinto-me confortável na minha pele e não tenho medo de ser quem sou. Não preciso mais fazer de conta que sou alguma coisa que não sou, só para agradar alguém ou pôr lenha na fogueira do meu ego ou do meu orgulho.

Esta é a minha nova liberdade. E está a minha disposição sempre que cedo lugar quando me desapego e deixo Deus agir.

Anônimo.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 MAI/JUN 2002

DO COPO AO SORVETE
Aparentemente estava tudo bem, mas ele
voltou a beber. Não deixe de ler a história de uma recaída.

Muitas vinte e quatro horas de sobriedade já haviam se passado. Sentia-me bem comigo mesmo, feliz da vida, sem compulsões, tranquilo, sereno com a minha família e também junto aos que me são caros, principalmente junto ao meu grupo, onde desfrutava prazerosamente do convívio, do carinho, da amizade e do respeito de todos os companheiros indistintamente. Eram meus amigos, meus psicólogos, meus psiquiatras, meus confessores e mais do que tudo isso, eram meus irmãos e eu os amava. Frequentava regularmente as reuniões, e dentro de minhas limitações procurava participar de tudo o que pudesse enriquecer e valorizar a minha recuperação.

Porém, a minha autoconfiança e autossuficiência começaram a perturbar o meu sono, meus sonhos, a inquietar-me, a sugerir-me coisas que paulatinamente eu ia aceitando, contestando às vezes, porém, sem muita convicção. Foi então que o orgulho e a prepotência falaram mais alto. Essa minha volta ao copo não aconteceu em um momento impensado ou de fraqueza, levado por circunstâncias muito fortes ou situações imprevisíveis que proporcionassem uma justificativa, mesmo que covarde, para voltar ao primeiro gole. Nada disso. Simplesmente a mente doentia e calculista de um alcoólico achava que todo aquele tempo de “vivida” sobriedade fora suficientemente longo para reeducar-se, para autoadministrar sua “suposta” força de vontade e entender que: “Agora sim, posso voltar a beber socialmente”. E assim, infelizmente, aconteceu. A doença é progressiva e por isso mesmo a cada dia mais aumentavam as doses que alimentavam a minha embriaguez constante, que se estendia diuturnamente.

Desnecessário seria relatar as terríveis consequências morais, físicas e espirituais oriundas de uma recaída. O abandono completo à sala. Não mais ouvir dos companheiros palavras de fé, esperança, relatando vitórias, conquistas, paz, serenidade e agradecimentos a Deus. A vergonha e o orgulho fizeram com que eu simplesmente me escondesse dos companheiros. Vivia tenso, temeroso na expectativa de que, de um momento para o outro, poderia encontrar-me com alguns deles.

Lembro-me muito bem. Meio-dia de sábado. A mercearia servia bebidas no balcão. Eu estava talvez no terceiro copo. O vendedor de produtos adentra à loja aproximando-se do balcão para a entrega da mercadoria vendida. “Oi cara, como vai? Tudo bem contigo?” “Tudo bem”, respondi, já com voz rouca e murmurante. “Até mais ver”, e sai apressadamente, deixando para trás copo cheio, garrafas, salgadinhos e uma conta para pendurar. Minha face enrubesceu tanto que parecia queimar. Minhas pernas, estas eu não mais as sentia. Queria morrer naquele momento, pois na minha frente estava o meu amigo, o meu companheiro de grupo que devido ao anonimato vou chama-lo de Luiz. Era a primeira vez que eu via o Luiz fora da nossa sala de A.A.

Mais dias. Mais meses se passaram, muitos copos, muita bebida, muito álcool. Sofrimentos, angústias, autopiedade, fraqueza, tudo somava e se agigantava em meu cérebro doentio de alcoólico, fazendo-me beber cada vez mais. Foi numa daquelas manhãs que eu ainda não tinha bebido o primeiro gole antes do café, que tudo aconteceu. O interfone tocou. Disseram-me que alguém me chamava da entrada do prédio. Lá, encontrei o Luiz juntamente com outro companheiro, que pelo mesmo anonimato eu o chamo de Doreli.

Fiquei cara a cara com os dois amigos, que sutil, humilde e sabiamente exerciam a abordagem, inspirados pelo Décimo Segundo Passo. Ouvi tudo, calado, sem rancores ou justificativas, mágoas ou irritações. Ao se despedirem, emocionado eu agradeci. Porém, novamente o orgulho e a vergonha de retornar à sala impediram temporariamente o meu reingresso, que aconteceu somente muito tempo depois, numa pequena cidade do Espírito Santo, onde passei as férias.

Hoje estou novamente integrado de corpo e alma ao meu grupo de origem, junto aos amigos que tanto prezo e aos quais agradeço a minha recuperação diária.

Antes das reuniões, nós nos divertimos muito. Contamos piadas, resolvemos todos os problemas sociais, políticos, econômicos e futebolísticos. Algum tempo atrás, pouco antes do meio-dia, sol escaldante, eu estava na calçada em frente a uma máquina de fazer sorvetes, degustando um desses sorvetes enormes, misto de creme e chocolate. Eis que vejo um companheiro caminhando apressadamente, trazendo debaixo do braço uma daquelas pastas de executivo.

“Oi cara!”, falei. “Vai um sorvete aí?” “Não, obrigado”, respondeu, “estou com muita pressa. Fica para outra vez”. Era a terceira vez que eu via esse companheiro fora de nossa sala de A.A. Era o Luiz…

Renato, Balneário Camboriú/SC

Vivência nº 77 Maio/Junho 2002

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 MAI/JUN 2002

RAIVA, RESSENTIMENTO E PERDÃO

“A palavra ‘ressentir’ significa ‘sentir de novo’.
Assim, o ressentimento é um sentimento de raiva que fica
ressurgindo sempre que a gente pensa nas pessoas que a causaram.”

A raiva é um sentimento doloroso, desconfortável, mas perfeitamente natural. Surge quando a verdade ou o nosso valor como seres humanos são negados. Se nosso companheiro ou companheira é desleal, nós nos sentimos com raiva e maltratados. Se somos jogados no olho da rua, temos raiva e nos sentimos abusados. Se na escola um grandalhão prevalece contra nós, ficamos com uma bruta raiva, porque não há jeito de revidar. Sempre há uma razão para a raiva.
A palavra “ressentir” significa “sentir de novo”. Assim, o ressentimento é um sentimento de raiva que fica ressurgindo sempre que a gente pensa nas pessoas que a causaram. Os ressentimentos atuais são estressantes e sempre causam infelicidade e dor.
Se alguém me tirava do sério, eu costumava ficar fervendo por dias e dias, incapaz de me desapegar. Alguém dizia qualquer coisa brincando, e isso tocava num nervo sensível, e a coisa toda se escalava na minha mente, afetando meu sono, meu trabalho e toda a minha paz de espírito.

Mas os piores ressentimentos de todos são os bem enraizados, que ficam fora de vista, mas que nos afetam de todas as maneiras, jogando uma sombra sobre nossas vidas, e muitas vezes estragando qualquer chance real de constituirmos um relacionamento feliz e duradouro.

Para a gente ser feliz, os ressentimentos enraizados precisam ir embora. Precisamos perdoar quem nos machucou, muitas vezes um dos nossos pais, de maneira total e completa, de modo que não mais ocupem lugar na nossa cabeça. Antigos ressentimentos vão se aprofundando e enrijecido com o passar dos anos. Quando parei com os comprimidos e fiz meu Quarto Passo, encontrei uma enorme bola de ódio contra meu pai, que eu jamais havia reconhecido antes, e foi uma agonia simplesmente olhar para ela e aceitar que estava ali.

Os medos andam de mãos dadas com os ressentimentos, e eu vivera toda a minha vida com medo. Precisei rezar para que meus medos e ressentimentos se fossem, e isso com o tempo aconteceu. Em relação a meu pai, o Nono Passo ajudou-me a perdoá-lo. Escrevi uma carta bem curta, dizendo que lamentava tê-lo culpado por tudo o que havia dado de errado na minha vida, e que nem fora realmente culpa dele, pois havia sido avariado pela guerra. E daí desejei-lhe paz e muita felicidade no céu.

Essa cartinha deve ser contada como a mais importante que jamais escrevi. Coisa estranha: quando cheguei ao fim, senti que um peso enorme havia sido retirado, e eu sabia que havia perdoado a meu pai e que Deus me havia perdoado também. Ainda consigo ficar bravo quando a verdade é negada, ou quando sou tratado injustamente por outras pessoas. Mas a raiva passa logo. Não me apego mais a ela. Num mundo perfeito, é claro que não haveria necessidade para a raiva erguer sua horrenda cabeça, pois as pessoas distribuiriam amor e não diriam mentiras. Se temos raiva por dentro, não podemos amar. Para sermos felizes, precisamos amar. (L., Revista Share)

Vivência – Maio/Junho 2002

UMA TARDE DE DOMINGO COM A VIVÊNCIA

UMA TARDE DE DOMINGO
COM A VIVÊNCIA

VIVÊNCIA

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 34 – MAR/ABR 1995

JOGO DA VIDA
BI da CENSAA – PA

Ouvi, certa ocasião, a seguinte expressão: “morre o cavalo para alimentar o urubu”. Em sua essência, o que quer dizer esta frase? Acredito se tratar de um crítica à vida natural, isto é, morre o cavalo, um animal de tamanha utilidade ao homem, para dar de comer ao urubu, ave de rapina das mais repugnantes, que muita gente acha não ter qualquer serventia. Mas o que fazer? A vida é assim mesmo: “alegria de uns, choro de outros”. Se não, vejamos o que ocorre com as cobaias que são sacrificadas em laboratórios: suas vidas são ceifadas para beneficiar ou manter vivos outros seres. A história sempre se repete: “quando um ganha, outro perde”. Não é assim que se dá com os jogadores? É o jogo da vida, “o que dá para rir, dá pra chorar”. Isso em parte explica as recaídas no A.A. Pergunto eu: existiria o A.A. se ninguém recaísse? Sei que tudo isso é melodramático, mas infelizmente a verdade deve ser dita: no A.A. tem que haver recaídas. Que valor teria a primavera se não existisse o inverno? Nessas circunstâncias, devemos rogar a um Poder Superior que o A.A. permaneça existindo com um mínimo de recaídas. Mas parece, para o conforto dos companheiros que levam a sério o programa de A.A., que os escolhidos para recair têm sido quase sempre aqueles que querem apenas receber e nada dar em troca da sobriedade, ou os que ficam “em cima do muro” sem saber se assumem ou não a sua condição de alcoólicos, e ainda aqueles que não procuram desenvolver um programa espiritual de reformulação de caráter e que apenas tapam a boca da garrafa. A recaída é o castigo dos egoístas, dos autossuficientes, dos arrogantes, dos incrédulos que não querem curvar-se aos princípios de recuperação da Irmandade, que os recebeu tão carinhosamente e que foram confiantes no seu sucesso. Em razão disso,
sem saberem, passam a ser experiências vivas para a recuperação de outros, que humildemente aceitam as sugestões dos “Doze Passos” e procuram praticá-los dentro da medida do possível. São os que tentam modificar suas vidas, certos de que no A.A. “jamais fracassará aquele que cuidadosamente seguir o seu caminho (Livro Azul – V capítulo)”. Quando alguém souber de algum companheiros que recaiu, é bom lembrar da consagrada sabedoria popular: “aquele que vê a barba do vizinho pegando fogo, é bom por a sua de molho”. Assim, trate de reforçar a sua guarda, policie-se melhor e lembre-se do que o álcool é capaz de fazer com você.
Não vale a pena servir, desse jeito, de nutriente para os que ficam “de pé” no A.A. Você os pode ajudar também, muito mais com sua sobriedade do que com sua recaída. Além de estar fazendo um bem enorme para si mesmo.

Vivência nº 34 – Março / Abril 1995

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 46 – MAR/ABR 1997

QUE AA SOU EU?

Se eu fosse um membro de A.A. com cerca de dois anos sem beber e me mudasse para um outro país onde não existisse Alcoólicos Anônimos, o que eu faria?
Eu teria feito algum tipo de trabalho para iniciar um Grupo nesse país? Eu teria trabalhado incansavelmente por cerca de três anos, sem desanimar, fazendo abordagens, promovendo reuniões, pedindo ajuda para o escritório de outro país, procurando jornais, rádios, traduzindo e editando livretos?
Tudo isso tendo ainda que cuidar da própria vida, da família e trabalhar para viver?
Eu teria feito tudo isso? De maneira tão firme que hoje, neste ano de 1997, a Irmandade estivesse completando cinquenta anos de existência com cerca de sete mil Grupos e uma estrutura de serviços formada?
Não. Provavelmente eu teria bebido. Como é que eu iria frequentar reuniões num país estranho, se nem um Grupo havia? Não sei se estou sendo injusto ou excessivamente impiedoso comigo mesmo, mas o fato é que fiquei curioso a meu próprio respeito. Nesse ano de 1997, em que só se fala do cinquentenário de A.A. do Brasil, vale a pena uma introspecção, uma olhada para dentro de mim, a partir de um fato concreto.
O fato concreto é que um dia, no ano de 1946, um sujeito chamado Herb D. chegou ao Brasil, mais precisamente ao Rio de Janeiro, para morar e exercer o seu ofício. Era um membro de A.A. nos Estados Unidos, com cerca de dois anos de sobriedade. Ao tentar participar de uma reunião, descobriu que não havia A.A. em lugar nenhum daquele país. Qual foi sua reação? Foi aquela descrita no início deste artigo. Durante cerca de três anos, junto com os que começaram a chegar, lutou o tempo todo até que, ao ir embora, deixou o embrião da Irmandade em nosso país, ou seja, um Grupo funcionando regularmente.
Com dois anos de A.A., eu já havia me casado pela segunda vez e era muito apegado ao meu lar. Com muito favor, ia às duas únicas reuniões semanais de meu Grupo, prática que facilmente podia reduzir-se a uma vez por semana, dependendo de outros compromissos. Durante aqueles primeiros anos, prestei alguns poucos serviços. Nada muito estafante… Coordenei reuniões durante algum tempo e também instalava a sala. Quem coordenava naquele tempo também tinha que instalar e desinstalar o Grupo. É que se situava numa sala dos fundos de uma igreja, onde além de A.A., se desenvolviam várias outras atividades da comunidade. O nosso Grupo, mesmo quando não estava tendo reunião, ficava localizado dentro de duas caixas de madeira em cima de um armário velho. Quem ia coordenar chegava uma hora antes, varria a sala, abria as caixas e instalava o Grupo. Arrumava a mesa com a toalha, os livros, a campainha, o relógio, a sacola, pendurava na parede os Passos, as Tradições, a oração e diversas frases, inclusive o desenho meio gasto de uma tartaruga, com o lema “Vá com calma” escrito em cima.
Certa vez, fui eleito RSG. Antes de me candidatar, fui perguntar a um veterano o que fazia o RSG. Ele me respondeu que o RSG servia para eleger o Delegado, o que acontecia uma vez por ano (o que não deixava de ser verdade, já que naquela época não havia ainda estrutura de serviços). Fiquei bastante animado com o encargo. Uma reunião por ano, eu podia fazer esse sacrifício. (Hoje em dia, já velho mentor – pelo menos eu gostaria – de vez em quando me pego no pulo dizendo para os mais jovens: “Com dois anos de A.A., eu já trabalhava como RSG.”)
Quando o Grupo passou a ter reuniões diárias, fiquei confuso. Entendam, com duas semanais, se eu faltasse uma reunião por semana, ainda assim estaria participando de cinquenta por cento das atividades do Grupo. Reunião todo dia complicou. Assim, mudei de Grupo.
Foi espantosa a paciência e a tolerância que meus padrinhos sempre tiveram comigo. Ambos foram e ainda são muito ativos no A.A. Uma ocasião, em períodos sucessivos, os dois se elegeram para encargos no escritório local e prestaram serviços marcantes. Eu apoiei entusiasticamente essas iniciativas, porém fiquei de fora. “Eu preferia ser anônimo servidor de Grupo”, dizia para mim mesmo. Muitas vezes eles e outros bons servidores vieram jantar em minha casa e tivemos reuniões memoráveis até o último trem de metrô, com assuntos intermináveis, recheados de muitas risadas. Eu participava de todos os assuntos, dava palpites de como administrar bem o escritório, mas nunca fui lá. Eles também, “macacos velhos”, não ficavam me convidando. Limitavam-se a fazer a parte deles, a dar o exemplo. Nessa época, eu andava querendo posar de velho mentor no Grupo onde ia uma vez por semana, ou seja, recusando-me à candidatura em encargos “para dar espaço aos mais novos”.
Aproximando- me de uma década de um programa meio titubeante, a Providência interveio. Na verdade, eu me sentia atraído pelo exemplo de meus padrinhos, mas eu me continha com o argumento de que não tinha tempo. Pois bem, de repente aconteceu de me sobrar todo o tempo do mundo. Tive que fazer uma cirurgia na minha perna esquerda, velha amiga que me dá um trabalho extra desde uma longínqua madrugada em que se misturaram uma vasta bebedeira, um carro emprestado e um poste. O fato é que entrei em uma prolongada licença.
Um dia, após ler todos os livros que tinha em casa, perguntei ao meu padrinho se havia algo para fazer no ESG onde ele estava com um encargo.
Ele, meio distraído e sem acreditar muito no que estava ouvindo, me disse que sim, que havia lá muita coisa para fazer, especialmente cartas que estavam se acumulando. O fato é que comecei a ir. Naquela época, havia algumas novidades. Estava saindo o primeiro número do Bob Mural, formava-se o primeiro Comitê de Literatura, falava-se que dali a alguns anos
a Vivência deveria vir para São Paulo, sede da JUNAAB. Comecei a gostar das pessoas e do que fazia. E continuo indo lá até hoje. Prestei alguns serviço s e tenho tido alguns poucos encargos. Nada muito estafante, repito. Ou que eu não gostasse de fazer. Sou daqueles que escolhem o que fazer. Na dúvida, eu falo não. Se me convidarem para ser tesoureiro de meu Grupo, é bem capaz que eu suma do mapa. No duro no duro, acho que o meu sonho mesmo é ter de volta aquele meu encargo de RSG dos meus dois anos de A.A. Aquele em que só precisava ir à uma reunião por ano.
Ultimamente ando pensando em me aposentar de A.A. Como diz um companheiro mais antigo que se afastou recentemente, “não vou fazer mais nada, só ir às reuniões do meu Grupo, me sentar na última fileira como um velho resmungão e passar o tempo todo pigarreando com ar reprovador”.
Na verdade, dando um balanço final, fiz muito pouco – nem de longe fiz o que poderia chamar de “a minha parte”. Recebi de A.A. uma nova vida quando tudo estava perdido. A maior parte do tempo eu me esqueço disso.
O que eu faria se, membro da Irmandade há dois anos, chegasse para morar num país estranho e lá não tivesse A.A.? Provavelmente eu teria bebido.
E você, companheiro?

José Roberto

Vivência 46 – Mar/Abr 97

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 – JUL/AGO/SET 1993

VAMOS LIDERAR MELHOR

DOZE SUGESTÕES PARA UMA BOA COORDENAÇÃO

1. Evite tomar ares de “autoridade”.
Lembre-se que a função de coordenador, ao liderar a reunião, é zelar pelas Tradições de A.A..
E as Tradições baseiam-se em HUMILDADE. Portanto, procure mentalizar o velho slogan: “Que comece por mim”.
2. Antes de aceitar uma coordenação, faça um minucioso inventário moral de si mesmo e veja se está em condições de assumi-la. Sobriedade é um estado de espírito que se transmite, e um
coordenador tumultuado ou mal-humorado pode contagiar todo o grupo.
3. Evite bancar o “professor” ou “pregador”. Lembre-se que a cadeira do coordenador não é tribuna e que uma reunião de A.A. não é sala de aula e seus companheiros, alunos.
4. Não faça análises ou diagnósticos dos companheiros. Esse direito não compete a nós, membros de A.A.. Procure inteirar-se do que diz o folheto “A.A. em sua Comunidade”.
5. Não faça comentários em relação ao depoimentos dos companheiros, salvo quando for solicitado pelo depoente, ou se isto se tornar absolutamente necessário para ajudar, e não para depreciar ou humilhar. Quanto menos “tagarelar” o coordenador, melhor a reunião.
6. Evite interromper o companheiro, mesmo que esteja “falando demais”. Em alguns grupos, o tempo é limitado e você poderá, depois, falar livremente.
7. Evite dialogar com os companheiros, salvo se a reunião for informal. Isto, porém, não significa que você não possa perguntar aos novos como estão passando o dia-a-dia.
8. Procure estar sempre atento durante todo o tempo em que transcorrer a reunião. Atento com os que falam, com os que ouvem e também com os que chegam. Alguém pode estar “tumultuado”, e talvez, precisando desabafar.
9. Jamais abuse do direito que o grupo lhe concedeu ao confiar-lhe a liderança de uma reunião. Procure não criticar o depoimento do companheiro – lembre-se que você é um simples “servidor”, e como tal, deve ser sempre um fiel “servidor” no grupo.
10. Procure inteirar-se se a reunião é “aberta” ou “fechada” e se a palavra deve ser “dirigida” ou apenas “franqueada”. Não se esqueça dos novos, dos recém-chegados e dos visitantes, já que geralmente, têm algo de novo para nos transmitir. Lembre-se que uma reunião “aberta” deixa de ser do grupo, para ser de A.A. como um todo, e que nosso programa é de atração e não de promoção. Dizem que todo alcoólico é inteligente. Como tal, um coordenador deve ser membro de A.A. – um alcoólico, portanto.
11. Evite dirigir a reunião a seu bel-prazer. Deixe que tudo transcorra naturalmente e que cada um fale livremente. Em A.A. cada um fala por si.
12. Não complique! A UNIDADE do grupo deve ser preservada a todo instante e que o coordenador é o guardião dessa Unidade. Portanto é bom lembrar o que diz a nossa Primeira Tradição: “O bem estar coletivo deve estar em primeiro lugar”. Últimas palavras do Dr. Bob:
“CONSERVE-SE HUMILDE E MANTENHA O A.A. SIMPLES”.

Vivência nº 25 – Jul/Ago/Set 1993

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 19 – JAN/FEV/MAR 1992

O GRUPO – MUDANÇA NA MATRIZ

DR. LAIS MARQUES DA SILVA, médico.
Presidente da Junta de Serviços Gerais de
Alcoólicos Anônimos do Brasil

Este é o tema da XVI Conferência a realizar-se em Brasília, de 12 a 16 de abril de 1992. Foi colocado para um ano de estudo e reflexão para cada um dos membros de Alcoólicos Anônimos. Digo cada um porque me refiro aos membros da Irmandade individualmente, de “per si”. Um ano parece muito tempo mas, na realidade, não o é diante de tema tão forte e de tanta densidade.
A mudança sugerida se dirige à Matriz, ao Grupo, a unidade mais importante porque formadora, fonte e origem de tudo o que ocorre na Irmandade de A.A., mas também repositório das nossas melhores expectativas na convicção da grandeza, da riqueza e do imenso potencial de crescimento humano contido no Programa de Recuperação de A.A.. Nisto está o fundamento para uma análise crítica, pois colocamos, lado a lado, tanto uma avaliação da realidade atual dos nossos grupos quanto o grande potencial de crescimento dos seus membros que eles, os grupos, encerram.
Não se trata de reforma física do prédio onde se realizam as reuniões nem da aquisição de novo mobiliário. Falando em Matriz, referimo-nos ao grupo: a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação. A ideia de mudança no grupo conduz, necessariamente, à transformação de cada um dos seus membros. A mudança se dirige às pessoas e para elas está voltado o Programa de Recuperação e exatamente elas é que deverão ser exemplos vivos, verdadeiros modelos que, em consequência, induzirão nova forma de estruturar uma nova dinâmica de recuperação. Não se pretende mudar o A.A.. A Conferência apenas deseja o reencontro com o verdadeiro programa de A.A.. O A.A. não precisa ser mudado. O programa é que precisa ser feito. Quem precisa mudar somos nós e não o mundo que nos cerca. A recuperação se dirige ao alcoólico e a mudança a ocorrer à sua volta será decorrência da sua própria mudança. Este tema responde a uma necessidade e/ou uma expectativa de melhora, em face da riqueza do Programa de Recuperação, dos Princípios e das Tradições de A.A..
Agimos por atração. Há considerável esforço em levar à sociedade e à comunidade profissional informações relativas à Irmandade e ao que ela oferece àqueles que sofrem no alcoolismo.
Muitos dos que chegam ao grupo não permanecem nele porque, para eles, o grupo não é atraente, não está ao nível das suas necessidades ou expectativas ou se mostra pouco aderente. É válido indagar: como estão os nossos depoimentos? Como estamos fazendo o nosso Programa de Recuperação? O que se está passando nos grupos de A.A. nos dias de hoje?
É frequente observar, especialmente entre os mais antigos, que vários deles estejam fazendo exatamente os mesmos depoimentos ao longo dos anos, centrados, ainda, no Primeiro Passo. Descobrindo serem impotentes diante do álcool, passaram a relatar o que faziam quando estavam alcoolizados. Não fazem o mesmo em relação ao que estão fazendo hoje, sem o álcool. Muitas vezes, apenas parando com o álcool e não progredindo no programa, o alcoólico permanece o mesmo prepotente, dono da verdade, pisando nos familiares e companheiros. Aí ficam as vaidades, os orgulhos e os narcisismos não tratados e tudo isso entra como elementos desencadeadores de comportamentos pouco sadios e geradores de tantos problemas. Não esperamos navegar em mar de calmaria. Entre nós se encontram pessoas em diferentes estágios de recuperação. Alguns ainda estão muito mal. Espera-se, sim, que haja progresso, que se evolua no Programa de Recuperação de A.A., que não precisa ser mudado porque é muito bom mas precisa ser feito por cada membro da Irmandade, por cada um de nós.
Entende-se haver grande alegria quando, ao fazer o Primeiro Passo e parar de beber, o alcoólico fica maravilhado diante de si e do mundo que o cerca. Era tudo o que ele queria e por tanto tempo não conseguira. É um renascimento. Tudo isso é maravilhoso. Mas nascer é um ato singular; crescer é processo contínuo. O crescimento sucede ao nascimento. Muitas vezes, esses companheiros não estão dispostos a fazer os outros Passos e aí param de beber, mas não acrescentam nada de novo às suas vidas e, como consequência, não há crescimento e tudo se reduz em repetir e repetir os seus depoimentos. O lema para muitos companheiros é: aqui estou, aqui fico. Mas este lema pode ser para eles os seus epitáfios. Quanto à Recuperação e aos Passos, fazem depoimentos pobres e, se ficarem nesse estágio, o grupo se reduz a uma mesmice que não motiva as pessoas a permanecerem nele. Essas pessoas gostam e se beneficiam desses depoimentos a princípio, mas depois perdem, pela repetição e pela pobreza, o interesse.
Esses depoimentos ligados ao Primeiro Passo são importantes, geram identificação para os recém-chegados. A verdade daquele que o faz contribui para a honestidade de cada membro do grupo e, também este, o grupo, auxilia o depoente na busca da própria honestidade e sanidade. O problema não está nisso, mas em ficar só nisso; está na inexistência de um trabalho de reformulação pessoal. A Irmandade distingue e enfatiza duas condições diferentes: sobriedade e serenidade. É preciso evitar o primeiro gole a cada 24 horas e estar sóbrio para ver a si mesmo e o mundo com olhos claros, límpidos, sem a névoa do álcool, mas é preciso, também, caminhar no Programa de Recuperação e alcançar a serenidade, a paz traduzida em nova condição de equilíbrio mental, na capacidade de estabelecer prioridades e no aprendizado da conceituação de valores, o que habilita o companheiro a viver sem esquentar fora da justa medida, sem correr o perigo das recaídas. A maioria se recupera com o programa de A..A., mas há outros, portadores de patologias concomitantes com o alcoolismo, necessitados de tratamento especializado e que a Irmandade de A.A. não oferece. Nessas casos, os cuidados dos profissionais da área da saúde deverão ser procurados.
O depoimento ligado ao Primeiro Passo, muitas vezes, ao longo dos anos, vai sendo retocado e, aí, já não vale mais porque não é honesto e porque sendo incompleto, não atinge a finalidade do desabafo catártico. Depoimento indolor não acrescenta, não contribui para a recuperação e, depois de muito repetido, acaba decorado também pelos demais companheiros do grupo. Mas não é esse o único perigo. Se existirem muitos companheiros do grupo nessa situação, pode ocorrer que, movidos pela vaidade, se estabeleça um “campeonato de desgraças” e, com este campeonato, pode até ocorrer que os mais inibidos e os novatos não encontrem oportunidade de falar.
O assunto é tanto delicado quanto complexo e há sempre novos ângulos a abordar. Relatar o que se fez há muitos anos é muito pouco. Daquele que ficou anos sem beber e ainda frequenta os grupos de A.A. espera-se um relato do que fez ultimamente em função do crescimento pessoal dentro do programa de A.A.. Importa apreciar o progresso alcançado ao fazer cada um dos Passos. Esse relato é importante. Pode constituir exemplo vivo de recuperação, com grande possibilidade de ser seguido porque não é preciso ser letrado para ver e entender o que é oferecido como exemplo. O programa precisa ser praticado para que sejamos o exemplo vivo. É preciso estudar o programa para aplicar em nós o que aprendemos, porque, se tudo isso for feito apenas para os outros, valerá, então a máxima de que “quem sabe faz e quem não sabe ensina”.
É muito frequente observar que o Primeiro e o Décimo Segundo Passos sejam feitos por todos os membros de A.A. e, deste último, apenas a primeira parte. Mas o programa é de 12 Passos, o tesouro está em todo o conjunto e o crescimento depende de se fazer todos os 12 e não em sobrevoar os 10 do meio.
As recaídas são um fato observado com frequência. Ignoramos, na quase totalidade dos casos, as suas causas e mecanismos mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial à recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo.
Voltar ao mesmo grupo, muitas vezes deficiente nos 12 Passos, nada vai acrescentar. Eles já estiveram lá antes, sem alcançar a sobriedade e a serenidade. As recaídas nos levam a pensar nos nossos grupos, em como está a nossa Matriz. Quais são os companheiros com tendência à recaída e quais as causas? Será que para eles não há alternativa, a não ser beber e beber? Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as habituais explicações: “não havia chegado ao fundo do posso”, “não estava pronto”, “não estava motivado”, “não fez o que eu aconselhei”, “recaiu porque não frequentava o grupo”? Será que o grupo se detém sobre o Programa de Recuperação de A.A.? Será que o grupo está bem estruturado e em condições de receber esse tipo de doente grave? Será que o grupo é realmente harmônico e composto de irmãos que veem nas diferenças não uma causa para conflito mas um estímulo ao crescimento?
Os recaídos são doentes graves, envolvidos numa rede de equívocos. Eles se acham culpados e desamparados e esses sentimentos reforçam a recaída. Muitas vezes sentem não ter outra saída senão o colapso emocional, a loucura, o suicídio ou simplesmente voltar a beber e, aí, beber pode parecer até a escolha mais sensata. É preciso evitar também, em relação a esses doentes, que os grupos desenvolvem uma atitude preconceituosa, um estigma.
Os grupos devem compreender que a doença do alcoolismo tem um modo de agir sobre o alcoólico na ativa, e acerca disso todos os seus membros têm uma visão clara, mas também atentar para o fato, cada vez mais evidente, de que a doença do alcoolismo, também, tem um modo de atuar durante a sobriedade -ela é uma doença crônica e incurável- e esta ação é tão potencialmente destrutiva quanto seu modo de atuar na fase ativa.
A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle. É necessário ajuda imediata quando o companheiro percebe que a cabeça está esquentando. Os padrinhos devem estar atentos para o aparecimento das manifestações usualmente surgidas nos companheiros que recaem e aumentar os cuidados e atenções para evitar a recaída. Aqui também é necessário pensar no papel do padrinho e avaliar como ele vem sendo desempenhado.
Graças ao trabalho e à dedicação dos pioneiros de A.A. do Brasil, e dos mais antigos, foi possível abrir e manter em funcionamento milhares de grupos com todos os benefícios daí resultantes para os alcoólicos, ainda que tenham ficado exatamente como tudo começou: um alcoólico conversando com outro. Dos veteranos, ouvi muitas vezes o relato entusiasmado de como o A.A. do Brasil progrediu com o advento da literatura e a criação do Claab. Esperamos que hoje fenômeno semelhante esteja ocorrendo em função da análise crítica acerca de como está sendo realizado o nosso Programa de Recuperação sugerida no tema adotado pela Conferência de 1991 e que, em função dela, se abra novo e amplo horizonte para os sofredores dessa doença em nosso País.
Espero que todos se detenham e reflitam sobre o tema; que levem suas dúvidas e conclusões aos Delegados de Área e que eles, representando a consciência coletiva dos grupos, possam contribuir para a grandeza, para uma dimensão maior a ser alcançada na XVI Conferência de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil.

Vivência nº19 Jan/fev/Mar 1992

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 53 MAI/JUN 1998

Alguém tem de fazer as coisas

O artigo fala de Serviço no Grupo

Alguns grupos que tenho frequentado, aos quais chamarei de “caseiros”, por serem grupos que consideramos como o nosso segundo lar, tem problemas em comum que tendem a aumentar, ou melhor, têm apresentado certos tipos de problemas comuns cada vez maiores: conseguir membros antigos e novos para prestar serviço. O recém-chegado diz: “Não posso aparecer todas as semanas. Não tenho condições de assumir este tipo de compromisso”. O companheiro antigo diz: “Já fiz a minha parte. Deixe os novos se engajarem”. Todos esses AAs estão perdendo a magnífica oportunidade de se tornarem seres humanos mais felizes e mais saudáveis. Nenhum dessas atitudes é nova para nós, alcoólicos, pois todos nós possuímos características comuns e não nos surpreende o fato de que ninguém queira prestar serviço.
Como nos ensinam os Doze Passos e as Doze Tradições, os alcoólicos são conhecidos por serem imaturos e com mania de grandeza. Os novatos não veem nenhuma relação entre esvaziarem cinzeiros e permanecem sóbrios. Alguns membros antigos não acham necessário continuar praticando pequenos serviços após algum tempo de abstinência.
Novos e antigos, nós, alcoólicos, estamos com frequência atolados profundamente em nossas características de imaturidade. Estamos, na verdade, praticando a fundo a fuga do compromisso, da responsabilidade e do companheirismo. É verdade que uma vida inteira engrenada no egocentrismo não pode ser revertida de uma só vez. A rebeldia trava cada um de nossos passos no inicio. Assim, prestar serviço torna-se a pratica de “aparecer”. Se você presta serviço, então você vai às reuniões. Se você não toma o primeiro gole e frequenta as reuniões, não ficara embriagado. Muito simples para antigos e recém-chegados igualmente. O serviço nos ajuda a quebrar nosso longo e antigo padrão de comportamento de não aparecermos diante dos outros, de nós mesmos e da vida em geral.
Serviço é também humildade, ele ajuda os novos a desistirem da mania de grandeza que os separa de seus semelhantes. Para os veteranos ajuda a combater o orgulho que diz: “Já cheguei lá, não preciso mais dessa prática”.
Para os novos membros, compreender o serviço ajuda-os concluir que se alguém não abre a porta, arruma as cadeiras e faz o café, não haverá reuniões para nos manter sóbrios. Para os companheiros antigos, o serviço é um lembrete de que é preciso dar para poder usufruir.
Para todos nós, o serviço representa várias coisas. É contato com pessoas, é construir uma nova vida social, é construir a autoestima, é um recém encontrado senso de responsabilidade que continua nas nossas vidas cotidianas.
Bill W. e Dr. Bob tinham plena consciência da necessidade do serviço como um caminho direto para a sobriedade inicial e contínua. É mais do que simplesmente dar continuidade a uma agradável Tradição, é uma salvaguarda para nos distanciar diariamente da servidão do alcoolismo. Vamos manter a noção de serviço intacta para o próximo alcoólico que precisar.
(Joan T., Grapevine)

( Vivencia nº 53 – MAI/JUN 1998)

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 81 – JAN/FEV 2003

Por que eu não permanecia em A.A.

Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos, eu precisava e queria parar de beber. Mas aconteceram coisas relacionadas ao meu desempenho sexual que me deixaram preocupado.

Companheiros, em 1988 eu chegava em Alcoólicos Anônimos saído de uma clínica. Devido ao que tinha acontecido comigo, eu de imediato admiti minha impotência perante o álcool. Fiquei apenas alguns meses e voltei a beber.

Sou casado, pai de dois garotos, um de dezesseis anos e outro de doze. Tenho uma maravilhosa esposa que não me abandonou
durante esses dezoito anos em que estamos casados.

Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos, eu precisava e queria parar de beber. Mas aconteceram coisas relacionadas ao meu desempenho sexual que me deixaram preocupado. Eu sempre
achei que sendo pontual na cama, podia fazer o jogo – bebo mas
não te falta sexo. O que de nada adiantava, se no outro dia eu amanhecia e perguntava se nós havíamos feito sexo, já que não
me lembrava de nada. Eu só funcionava bêbado.

Parando de beber, eu não conseguia ereção e isso começou a me amedrontar. Fiquei com receio de que minha esposa viesse a reclamar do meu desempenho. Eu não a conhecia. Não compartilhei com meus companheiros esse problema. Um dia voltei a beber.
Voltei a ser o machão que achava que era, mas também voltaram os problemas. Disseram-me que conhaque com cerveja era muito bom. Só que eu não fiquei só nisso. Voltei a me embriagar todos os dias achando que agora era o homem que minha esposa precisava.Muito rápido, lá estava eu voltando para a clínica. Foram seis anos indo a grupos de A.A. Eu não conseguia permanecer, devido a esse problema.

Imaginem vocês, eu, bêbado, suando, exalando álcool pelos poros, insistindo com minha esposa com brutalidade e ela virando o rosto para o outro lado, pois eu insistia em beijá-la. Talvez por respeito ela cedia, e eu me achava o grande machão. Houve vezes em que eu disse que não ia mais parar de beber, pois o álcool me ajudava muito nesse sentido. Mera ilusão. Minha esposa não queria sexo todos os dias, queria sim, o esposo sóbrio ao lado dela.

Em abril de noventa e quatro, no dia primeiro, dia da mentira, voltei para Alcoólicos Anônimos, já que durante seis anos eu não bebi mais sossegado. Sabia da solução e precisava dar um basta naquela vida em que me encontrava. Naquele sofrimento, comecei a frequentar reuniões, compartilhar com meus companheiros, falei em cabeceira
de mesa. As coisas mudariam, contanto que eu não bebesse.

Companheiros, mudou mesmo. Era coisa da minha cabeça, estava dentro de mim, funcionar ou não. A vontade de ficar sem beber foi maior, e isso passou desapercebido. Hoje estou feliz, estou caminhando para três anos. Sou feliz, pois tenho vocês para compartilhar meus problemas, tenho fé, acredito em Deus por mais sérios que sejam os problemas, eu não devo beber. Devo sim, falar com um companheiro.

Agradeço a todos vocês, companheiros de Alcoólicos Anônimos, e também à minha esposa. Eu não a conhecia, não sabia a maravilha que tinha dentro de casa.

Hoje, quando fazemos sexo, é com todo amor, sem suor, sem brutalidade, todo cheiroso e, principalmente, sem bebida.

Vinte e quatro horas de sobriedade.

(Brito)

VIVÊNCIA N.° 81 JAN/FEV DE 2003.

VIVÊNCIA

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 75 – JAN/FEV 2002

O Quinto Passo é uma celebração da vida

Precisamos nos sentir seguros em três áreas da vida: sexual, social e emocional.

Tem gente que diz que o problema do Quarto Passo é o Quinto Passo. A ideia de relatar a alguém aquilo que você pôs no papel inibiria o ato de escrever. Todavia, será que isso não funciona ao inverso também? Saber que alguém está ali, disposto a ajudar você nesse processo de limpar a casa, poderia servir de incentivo.

As pessoas brincam demais falando que começaram seu Quarto Passo, dizendo: “mas foi até aí que eu cheguei”.

Isso é uma grande pena, porque a recompensa de terminar o Passo é imensa. Não estou falando de um clarão vindo do nada, mas do início de um processo, o processo de simplesmente fazer amizade com a pessoa mais importante que você não conhece: você mesmo. É disso que de fato todo o resto do programa trata.

Olhar para você pela primeira vez pode ser assustador. Para mim foi o problema de confundir o Quinto Passo com o sacramento católico da confissão que conheci desde menino. Ficava deprimido cada vez que pensava em entrar naquela pequena caixa azul chamada confessionário. Havia vergonha e culpa grudadas nesse ritual, e não tinha conexão com a minha vida cotidiana. Eu havia pecado e devia receber absolvição.

Estando ainda acorrentado às lembranças do que para mim se havia tornado um ritual de ódio a mim mesmo, naturalmente evitei os Passos de “faxina de casa” por muito tempo (e os Doze Passos e as Doze Tradições ainda por cima mencionam os mesmos pecados). Talvez A.A. não fosse um programa religioso, mas com certeza me lembrava algumas práticas religiosas bastante deprimentes.

Hoje em dia, toda essa experiência contém um significado completamente novo para mim, positivo e levantador do moral.
Dizem que a verdade machuca. Não é a verdade que machuca, é a negação. Depois de ser aceita, a verdade faz a gente se sentir muito bem. Um irmão religioso que realiza retiros para homens em A.A., na minha área, diz: “Tudo o que você precisa está bem na sua frente”. Que declaração poderosamente verdadeira e maravilhosa! Tudo o
que preciso, mesmo as coisas que ainda não sei que não me servem, porque ainda estou pensando que gosto delas. Dá-se a elas o nome de defeitos de caráter. Gosto de chamá-las de esconderijos. São bebidas debaixo de um disfarce, objetivos de uma curta visão ou indignos. (As palavras são importantes. O jeito como converso
comigo é o que decide como me sinto e como me comporto.)

Agora, enxergando instintos bem direcionados, e como meus desejos naturais tornam a mim e a outras pessoas infelizes, tudo faz sentido. Não quero continuar sendo infeliz. Então, quando hoje penso em “pecados”, penso na palavra “transgressões”, como está no Pai Nosso. Os pecados são transgressões. De início, não vi que a nossa literatura diz que preciso estar seguro em três áreas da minha vida: sexo, sociedade e minhas emoções.

Nunca li que tinha emoções retorcidas, dificuldades emocionais ou excessos de emoção negativa, nem que a imposição irracional dos meus instintos sobre outras pessoas era a causa de muita
infelicidade para mim. O que eu pensava é que esses Passos eram a respeito de ser “bonzinho”. E são mesmo. Mas eu preciso começar por ser verdadeiro.

Olhando de novo para a maneira que confundi os Passos Quarto e Quinto com o sacramento católico da confissão, me recordo que a absolvição nunca me ajudou em nada, mas me colocava no que chamavam de “estado de graça”, que era uma coisa que eu
imaginava me qualificasse para posar para quadros sagrados. Nos Passos Quarto e Quinto não estou procurando absolvição, mas sim aceitação, procuro uma chance de olhar outro alcoólico olho no olho, uma chance de fazer uma conexão humana que estenderá uma
ponte sobre o vazio dentro de mim, e para lá onde a culpa me fez
ficar com medo de olhar.

Em A.A. fala-se muito sobre graça, mas o pessoal raramente diz o que é isso. Para mim é tempo e espaço numa atmosfera segura,
onde eu possa olhar para o meu comportamento passado e lidar com ele sem medo. E quando falo de “comportamento” não me refiro apenas a “atos pecaminosos”. O comportamento inclui percepções, pré suposições, sentimentos, ilusões e motivações, bem como
ações. A graça me concede o espaço vital de que necessito, onde não me sinto julgado nem tenho confirmada a minha experiência anterior de mim mesmo.

Para mim, o problema real com os Passos Quarto e Quinto não era
“o que vai ser se eu for julgado?”, mas sim “o que vai ser se não for julgado?”. É que não saberia como reagir a uma imagem de mim que já não tivesse desenvolvido na minha imaginação distorcida.

Para todos e todas que tomam esses Passos comigo, eu falo:
“Aceito você, mesmo antes de saber quem você é”. Na atmosfera da graça, fico contente esperando descobrir. Sei que a minha humanidade vai sair enriquecida nesse processo. E quando acabar, ambos estaremos mais prontos para nos desapegarmos das coisas que fizemos, e que fizeram mal a nós e aos outros”. Os Passos Quarto e Quinto significam a celebração da vida em todas as suas maravilhosas possibilidades, através do contato com as nossas próprias experiências e as dos outros. São mais um Passo em
direção ao tema de todos os Passos: a alegria de viver.

( Jim N. Grapevine)

VIVÊNCIA N.°75 – JAN/FEV 2002
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 23 – JAN/FEV/MAR 1993

AS DUAS FASES DA SOBRIEDADE

Meu padrinho morreu depois de uma recaída, aos 44 anos de idade e quatro de sobriedade, quando eu estava há dois anos no A. A. Alguns meses depois, um parente próximo também perdeu a sobriedade de aproximadamente sete anos em A. A., embora não tenham sido de sucesso total. Estas duas experiências negativas, de pessoas muito próximas de mim, levaram-me a questionar minhas oportunidades de permanecer no programa.
Quando estava com um ano e meio de sobriedade, tive sérias dúvidas sobre minhas possibilidades de continuar nesta caminhada.
Nos vários anos que se seguiram à minha experiência em A. A., devotei-me muito a pensar nos recaídos e naqueles que tinham dificuldade para manter a sobriedade. Procurei descobrir as motivações de seus problemas não somente para ajudá-los mas, sobretudo, para que o mesmo não acontecesse comigo.
Pouco depois, relacionei-me com alguns membros de A. A. que, com cinco, dez ou quinze anos de sobriedade, tinham recaído desastradamente. Alguns se recuperaram mas outros se perderam completamente. Isto me levou a um estudo mais aprofundado desse maravilhoso programa de Alcoólicos Anônimos.
Comecei a notar a existência de duas fases distintas em nossa jornada para a sobriedade.
É indiscutível: as duas fases têm inúmeras subfases. Na minha humilde opinião, os alcoólicos que continuam a ter ou meter-se em dificuldades após vários anos de programa – diga-se, muitos anos livres do álcool – são, geralmente, aqueles que não conseguiram passar da primeira para a segunda fase.
A primeira fase começa com a admissão de sermos impotentes perante o álcool e de que perdemos o domínio sobre nossa vida.
Esta admissão, sendo verdadeira, torna o restante do programa “obrigatório” . A esta altura, todavia, os demais Passos parecem não ter qualquer relação com o nosso problema de bebida e muitos saltam do Primeiro para o Décimo Segundo Passo, onde começamos a pôr em ação certos sentimentos adquiridos quando tivemos a coragem de admitir nosso problema.
Cedo começamos a nos libertar da compulsão pela bebida, provavelmente porque o Décimo Segundo Passo nos põe frente a frente com alcoólicos sofredores que nos relembram o passado. Isto nos manterá sóbrios por enquanto. É o estágio chamado lua-de-mel, empolgação ou das nuvens cor-de-rosa. Se começamos a olhar para os outros Passos, fazemo-lo rapidamente, não nos conscientizando da importância de cada um. É muito provável que o orgulho em geral e o orgulho de estar sóbrio em particular crie barreiras à penetração no programa com mais profundidade. Se não entrarmos na segunda fase neste ponto, começamos a perder o interesse pelas reuniões e a nos envolver excessivamente com nossos próprios negócios.
A segunda fase é necessária para uma sobriedade alegre e duradoura. Nesta fase, devemos trabalhar com mais seriedade aqueles Passos trabalhados levemente. Ainda estamos aflitos com ressentimentos não revolvidos e, muitas vezes, cheios de autopiedade.
“Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta”.
Quando começamos a fazer isto e a rever os Doze Passos em profundidade, percebemos haver muito mais nestes Passos do que jamais sonháramos. Mesmo sendo agnóstico, quando cheguei ao A. A., agora penso ser o Terceiro Passo o centro do meu programa e os Passos restantes raios partindo do núcleo para a periferia. Entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebo, é fácil de dizer mas difícil de fazer. É muito fácil para a personalidade alcoólica assumir o comando de sua própria vida e, então, naufragar.. Somente através da tentativa confirmada de praticar inteiramente este programa estou apto para fazer progressos no Terceiro Passo, o qual me leva à segunda fase.
Possivelmente não há limite do aprofundamento de cada um nesta fase. Como seres humanos, somos todos imperfeitos. Necessitamos trabalhar constantemente a fim de obter a paz e a serenidade, nossas companheiras no caminho da sobriedade. Medos, frustrações, raivas, ressentimentos: permitir que estes sentimentos nos façam apreensivos ou inquietos são indicadores da falta de progresso. Com a ajuda de Deus e de meus companheiros de A. A., espero ter o privilégio de permanecer neste programa pelo resto de meus dias. Algum dia, num futuro distante, talvez esteja em condições de me aproximar da realização completa do Terceiro Passo.

(fonte: Grapevine. Reimpresso com permissão)

Vivência n° 23 JAN/FEV/MAR 1993

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 0 (ZERO) – NOV 1985

Precisamos divulgar o AA
(Dr Eduardo Mascarenhas)

Estou convencido de algumas coisas.

Primeira: o alcoolismo é a terceira doença que mais mata no mundo! Logo, é um de nossos maiores problemas sociais.

Segunda: a medicina tem-se revelado ineficaz no controle do alcoolismo; o mesmo posso afirmar com relação à Psiquiatria e Psicanálise.

Terceira: não existe; nem de perto, método mais eficaz para controlar a compulsão patológica do álcool, do que aquele desenvolvido pelos Alcoólicos Anônimos. A experiência dos últimos 50 anos é que atesta a verdade desta afirmação. Nada se compara à Os Doze Passos efetuados dentro do A.A. para não se voltar a beber. Os Al-Anons e Alateens complementam ainda mais poderosamente a eficácia do A.A.

Quarta: por causa dessas convicções, torna-se fundamental divulgar as ideias e métodos de A.A. sobre alcoolismo, para um numero máximo de pessoas. Uma revista é mais uma maneira de divulgar essa tão importante Instituição. Saúdo, portanto, o lançamento da Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos, colocando-me inteiramente à sua disposição, dando-lhe autorização, inclusive, de publicar, o que lhe aprouver, de minha autoria.

Antes de concluir quero somente dizer o seguinte: considero o A.A. uma Instituição extraordinariamente moderna, protótipo do que, espero, venha acontecer no século XXI: a sociedade, ela própria, cuidando de si mesma. Isso sem tutelas de Estado, políticos e interesses econômicos.

E o A.A. pra mim é isso!

Eduardo Mascarenhas

Rio de Janeiro, 23 / Out / 85

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – ANO I – Nº 0 (ZERO) – S. PAULO-SP- NOVEMBRO 1985

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 89 – MAI/JUN 2004

ALCOOLISMO: A DOENÇA DO ESQUECIMENTO

Inúmeros companheiros em seus depoimentos costumam dizer que alcoolismo é a doença do esquecimento. Eu mesmo já me flagrei com tal afirmativa.
Hoje, ela é para mim tão preciosa e verdadeira, como a qualidade de vida que A.A. proporciona ao alcoólico que busca praticar os princípios sugeridos pela Irmandade. Posso, num instante, esquecer-me de onde vim, posso esquecer-me da profundidade do meu fundo de poço e naquele instante acontecer o desastre.
Somos individualmente, células de um grupo, e este, célula de um formidável conjunto, que mediante seus órgãos de serviço, tem maravilhado o mundo por suas características peculiares, como a inexistência de chefias e hierarquias, como a realidade espantosa da 7.ª Tradição, de difícil entendimento para a maioria dos seres humanos. E isso funciona. E isso cresce. E isso tem sido aceito pelos mais conservadores profissionais, clérigos, sociedades herméticas e isso não questiona política, religião, raça, sexo, cor. Nada proíbe, nem mesmo que os seus membros voltem a beber. Transcende à mais perfeita democracia. É tão suave e harmônico, que muitas vezes, reuniões há em que não se pronuncia a palavra “álcool”.
Por vezes, tais reuniões são tão espiritualizadas, que nos permitem o esquecimento. São tão filosóficas que se iniciam e terminam como se estivéssemos “embriagados” pelo néctar dos deuses e nem nos lembramos que faltou nessa reunião o bêbado, o traste humano, a alma, o motivo, o motor de Alcoólicos Anônimos.
Baseados nesse paraíso que encontramos, nesse oásis de sobriedade, achamos que a vida é assim e introjetamos a serenidade adquirida e nos esquecemos conjuntamente da verdadeira origem de A.A., da mesma forma que pode ocorrer o meu esquecimento pessoal.
A nossa sobriedade melhora, a nossa vida melhora, e passamos a projetá-la sobre os que estão chegando e as temáticas aos novos e ao público são recheadas de espiritualidade apenas. Mais uma vez a doença do esquecimento nos impede de lembrar que nas origens foi escrito: “Alergia física e obsessão mental”, registrado no “Livro Azul” mediante a percepção fantástica do Dr. Silkworth, o que mais tarde se comprovou nas abordagens malsucedidas do Bill, quando o mesmo tentava empurrar “goela abaixo”, espiritualidade e Deus a seres que tinham perdido a fé em si mesmos. Bastou que o nosso Bill falasse em doença, que o Dr. Bob estacionou seu alcoolismo e A.A. floresceu. E essa é a realidade. Todo alcoólatra é neurótico, nem todo neurótico é alcoólatra. Este, sutilmente descobriu o álcool como anestésico de suas sofridas neuroses e isso ocorreu porque o seu organismo já vinha quimicamente e neuroquimicamente esperando por tal anestésico, enquanto que os demais neuróticos continuam sofrendo com as suas angustias, porque o elixir mágico não lhes “fazia a cabeça”. Essa diferença é notável. Os neuróticos não alcoólatras apresentam perfis psicológicos muito semelhantes aos neuróticos alcoólatras. Evitar o esquecimento é reportar-se às origens. Alcoolismo é doença física.
Salvo melhor juízo, sugiro reflexão profunda aos companheiros temáticos.

(Dr. Emanuel F. Vespucci; Dra. Darci P. de Almeida)

VIVÊNCIA N.° 89 MAI/JUN. 2004.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 JUL/AGO/SET 1993

VIDA VAZIA?…
Danton – Ribeirão Preto – PR

Um dia desses fui visitar um companheiro, que está afastado do grupo e, consequentemente, na “ativa”.
Este companheiro me recebeu bem e desenvolvemos um “papo” amigável e cordial.
Este companheiro falou bem do programa de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, continua aceitando ser um alcoólico, mas julga que para ele, durante o período em que esteve frequentando o grupo, “A SUA VIDA ESTAVA VAZIA…”
Ao sair, após aquele diálogo, comecei a imaginar: “MINHA VIDA TAMBÉM NÃO ESTARIA VAZIA?…”
Iniciei então, uma viagem introspectiva através do meu ego, inventariando minha existência. Voltei no tempo e no espaço e me encontrei na época de minhas bebedeiras, às rodas de “amigos” de então e deparei-me com uma “vida cheia”, onde não me faltava o que fazer. Sempre existia algo a ser feito (sempre em torno de uma garrafa).
Nessa viagem, pude novamente encontrar as mazelas vividas, o fundo do poço onde, por fim, me lancei. Sim, minha vida estava “cheia”, repleta de dor, sofrimento e desencontros. A solidão se tornou minha companhia, e os “amigos” de antes, passaram a me ignorar, pois eu nada mais tinha para oferecer e através de alguns goles “comprar” as amizades.
O tempo passou. Tive a felicidade de encontrar ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, onde pude deter a marcha do meu alcoolismo. Os anos foram se passando e uma nova motivação encontrei em minha vida: a satisfação de viver na SOCIEDADE, desfrutando de uma vida feliz e serena, onde muitos dos companheiros de A.A. se tornaram verdadeiros AMIGOS, aos quais nada precisei oferecer para desfrutar de suas amizades.
Assim sendo, hoje posso tranquilamente dizer: MINHA VIDA ESTÁ CHEIA, cheia de amor, paz, felicidade e acima de tudo, cheia de SOBRIEDADE, que posso compartilhar com tantos outros companheiros de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS…
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 JUL/AGO/SET 1993

DAR DE GRAÇA
Rosana C. – Rio de Janeiro

Conheci a Irmandade há 10 meses.
Hoje não bebi.
Você já parou para se lembrar de quantas oportunidades perdeu ou deixou de ganhar, na vida profissional?
Quantas mentiras de doenças, morte de alguém ou pneu furado você inventou para não trabalhar naquele dia? Naquele dia – ou no dia seguinte – com vômitos, dor de cabeça e de barriga, mau hálito, culpa, remorso, vergonha, devendo ao dono do botequim? E o cheque que você passou e não anotou no canhoto?
Hoje foi assim, porque ontem não bebi. Não tendo bebido, sou grata a um exército de companheiros que me ajudam.
Talvez você nem saiba da existência deles. É uma legião de voluntários nos grupos e nos organismos de serviços de A.A. São as pessoas que fazem café, as que varrem o grupo, são os RSGs, os delegados e suplentes, plantonistas, coordenadores, tesoureiros, pessoal da literatura, do CTO; enfim, centenas de pessoas que estão “atrás das câmeras”; que são responsáveis por seu grupo aberto hoje; responsáveis pelo funcionamento de A.A. como um todo e, é claro, com a ajuda do Poder Superior.
Você já parou para imaginar se poderia ser uma dessas pessoas ativas, participantes, interessadas e preocupadas com a Irmandade, com seu grupo
e com as Tradições?
SERVIÇO É DAR DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA SE RECEBE.
Pense nisso e mãos à obra!

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 44 – NOV/DEZ 1996

QUE TAL ESSE PLANO DAS VINTE E QUATRO HORAS?
B.P.

Antes de mais nada, o que diz o plano das vinte e quatro horas? Ele diz: “Viva a vida um dia de cada vez, Tanto para ficar longe da bebida, como para conduzir todas as outras atividades de sua vida; não deixe o ontem ou o amanhã desviá-lo do que você pode fazer hoje”.

“Esse plano das vinte e quatro horas é o mais engenhoso artifício de falsidade intelectual e auto decepção que eu já vi! Vocês me dizem que tudo o que tenho de fazer é permanecer sóbrio apenas por hoje – quando eu sei muito bem que vocês esperam que eu abandone a bebida para sempre. Quem está brincando com quem? E, assim que eu aplicar o plano das vinte e quatro horas em “todas as minhas atividades”, como poderei realizar algum trabalho, se não planejar antes?”

Estas eram as palavras que eu gostaria de ter gritado a cada um, e a todos, quando cheguei em A.A. Não o fiz somente porque não tive coragem para tanto. Mas, intimamente, bem lá no fundo, frequentemente o fazia para mim mesmo.
Nos anos subsequentes, vim a acreditar que o plano das vinte e quatro horas é a mais extraordinária receita para a produtividade, serenidade, e, sobretudo, felicidade que o homem jamais imaginou. Então, por alguns minutos, vamos examinar os quês e os porquês, os quandos e os para quês.
Nos meus dias de ativa, eu tinha que viver no passado, ou no futuro. Eu oscilava, alternadamente, entre o esplendor das glórias do ontem (na maioria, frutos da minha imaginação), o remorso e o ressentimento das derrotas do passado. Ou entregava-me a sonhos sobre o que poderia fazer amanhã, ou torturava a mim mesmo com os medos de onde eu poderia falhar. Decididamente eu não conseguia viver o hoje. Isso demandaria mais ação e mais responsabilidade do que eu seria capaz.
O plano das vinte e quatro horas tem sido a minha chave para a libertação dessa prisão. Ele é a arte de se viver onde temos condição de agir, de concentrar nossos esforços apenas no momento certo para aquilo que nos seja possível realizar – neste exato momento. Este é o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de beber ou deixar de fazê-lo, o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de levar a mensagem, e, nesse sentido, fazer algo a respeito de todas as atividades em minha vida.
Isso quer dizer que eu não posso fazer planos para o futuro? Positivamente, não. Significa que posso planejar as minhas ações, mas não projetar o resultado. Significa que, se a coisa mais importante que eu devo fazer neste instante (primeiro as coisas primeiras), é planejar algo para amanhã, para o mês que vem, ou para o próximo ano, preciso dedicar-me neste momento para isso.
Por que o plano das vinte e quatro horas funciona? Ele tem funcionado para mim porque divide a vida em segmentos que tornam possível manejá-la – uma coisa de cada vez. Faz lembrar aqueles velhos filmes de cavalaria, onde o mocinho, perseguido pelos índios, sempre se esconde em um estreito desfiladeiro, de onde ele pode eliminá-los, um de cada vez. Lembro-me que nos meus tempos de escola, o instrutor de remo costumava nos dizer, quando chegávamos aos últimos quatrocentos metros da regata, que devíamos esquecer os quatrocentos metros restantes, e simplesmente ir em frente, concentrados apenas em movimentar aquele remo para frente e para trás, uma vez mais.
Os quatrocentos metros, a tribo de índios, toda uma vida, não são controláveis mas, uma remada, um índio, um dia, nós podemos manejar neste exato momento.
Outra razão pela qual o plano das vinte e quatro horas funcionou para mim, é que ele oferece recompensas emocionais pelos êxitos obtidos. Se eu disser que nunca mais tomarei um gole enquanto viver, estarei em meu leito de morte antes de saber se o fiz. E, se for atropelado por um caminhão, nunca ficarei sabendo. Assim, a vida torna-se uma eterna busca por um objetivo que, provavelmente, eu nunca tenha a satisfação de alcançar. Mas se eu decido que não tomarei um gole hoje, no fim do dia eu saberei que consegui. Isso é uma conquista e, como todas as conquistas, traz satisfação. Faço o mesmo, dia após dia, e estou empilhando conquistas, adquirindo, assim, um equilíbrio que me é muito precioso – e, por essa razão, uma conquista que não estou propenso a abandonar – a cada que passa.
Além do mais, a conquista pode se tornar uma rotina, tanto quanto o álcool. Um pequeno triunfo nos faz bem; assim, ansiamos por mais um pouquinho. Quanto mais a gente consegue, mais a gente quer e, de repente, estamos fisgados – fisgados por um hábito que é construtivo, e não destrutivo.
Eu tinha que fazer, do plano das vinte e quatro horas, um hábito. Quando aderi a ele, displicentemente, e não funcionou e nem fazia sentido. Eu desconhecia o velho chavão de que, para o alcoólico em recuperação, a ação tem que vir antes do entendimento e da fé. Eu não havia compreendido que temos que dirigir o nosso modo de pensar para a forma correta, em vez de fazer o contrário.
Nos últimos dias das minhas bebedeiras, eu não tinha fé – nenhuma fé: nem mesmo da existência de um Poder Superior bondoso. Afinal, se houvesse algum Poder Superior, ele teria que ser maldoso, do contrário, por que teria ele escolhido a mim para ficar sem a coisa mais relaxante da vida – beber?
Assim, quando meu padrinho disse-me para agradecer a Deus, todas as manhãs, pelo dia que passou e pedir-lhe ajuda para o dia que tenho pela frente, eu disse a ele que não acreditava em Deus. Ele respondeu: “Faça assim mesmo”.
Então, finalmente, decidi colocar o plano das vinte e quatro horas de uma forma habitual. Eu o associaria a alguma coisa que faço todos os dias – tomar banho, por exemplo. Todas as manhãs, no chuveiro, eu estabeleceria as bases para as vinte e quatro horas daquele dia. Gradualmente, isso foi evoluindo, para se tornar, na acepção da palavra, um programa. Provavelmente, isso vai gastar um bocado de água, mas, pelo menos, água é bem mais barata do que vodca.

O Programa Funciona mais ou menos assim:

1. Primeiramente, agradeço a Deus pela minha sobriedade durante o dia anterior.
2. Depois, procuro em minha mente por algo que eu tenha feito melhor do que eu teria feito antes. Algum pequeno triunfo sobre um defeito de caráter – alguma pequena aplicação de coisas que eu tenha aprendido em A.A. E agradeço a Deus por isso. Isto é a parte do negócio de se adquirir o equilíbrio e de se ter sucesso por acréscimo. Porém, mais do que isso, é um remédio específico para o meu mais mutilante defeito – a falta de amor-próprio. O fato de estar ciente do que fiz corretamente, a cada dia, tem imperceptivelmente feito por fertilizar todas as raízes do meu debilitado amor-próprio..
3. Digo a mim mesmo que sou um alcoólico. Eu sei que a mente humana, reflexivamente, apaga as lembranças desagradáveis, e estou decidido a contra-atacar esse reflexo, a fim de que eu jamais venha a achar que estou seguro e posso beber normalmente. Por isso, imagino uma bebida em minha mente (usualmente, um martini gelado) e então, conscientemente, relembro algum horrendo incidente alcoólico. Assim, eu tenho bem atadas, em minha mente, a bebida e a inevitável consequência. Tenho feito isto por inúmeras milhares de manhãs e creio que não me seria possível procurar por um trago sem, ao mesmo tempo, vislumbrar um quadro detalhado do resultado. Construí o meu próprio anti reflexo.
4. Decido não tomar um gole no dia que está começando, e peço a Deus que me ajude a levar avante esta decisão. Nos primeiros meses e anos eu podia prever, com certeza, situações, no dia que nascia, onde eu sabia que estaria exposto à bebida – um almoço de negócios com um grupo de bebedores da pesada, ou fazendo hora no aeroporto de Cleveland. Podia visualizar a situação iminente em detalhes e dizer a mim mesmo, “estou decidindo agora (no chuveiro), que eu não vou tomar um gole quando a situação ocorrer”.
5. Por último, eu decido por um “Dia Especial”. Vim para o A.A. com tantas falhas e defeitos de caráter, que nem ao menos podia contá-los. Ainda tenho uma boa parte deles. Se, por um lado, intelectualmente, eu anseio por livrar-me deles, por outro, emocionalmente, ainda os acho meio engraçados. Com esse conflito em minha cabeça, o problema de trabalhar em cima deles se assemelha com tentar trocar um aperto de mão com um polvo. Desse modo, eu pego um defeito de caráter e concentro-me nele durante aquele dia, e peço a Deus que me ajude a ser bem sucedido.

A Prática

Naturalmente esse programa diário não chega pré-fabricado em frente à minha porta. Ele se desenvolve com a prática.
Em poucos meses, ele me provou a existência de um Deus benevolente.
No dia em questão, eu sabia que teria de trabalhar até tarde da noite e teria um tempo ocioso na Grand Station, esperando pelo último trem. Antevendo a situação, tomei a decisão de não me atirar para a minha costumeira série de “duplos” no bar, e pedi ajuda para manter-me firme na decisão. Na manhã seguinte, surpreendi-me ao compreender que eu passara uma hora na estação, lendo um jornal, sem que tivesse passado pela minha cabeça a ideia de beber.
Eu poderia ter sido capaz de evitar que uma mudança de ideia se tornasse uma compulsão, ou que uma compulsão me levasse à ação, mas houve um Poder, muito maior que eu mesmo, para barrar até mesmo o pensamento vindo de minha própria consciência.
Desse dia em diante, eu vim a acreditar.
Os cinco passos da “ducha matinal” podem parecer meio complexos. Todos eles se resumem em se estar agradecido a Deus pela sobriedade e pelo crescimento, em admitir-se como alcoólico, e pedir ajuda para a manutenção da sobriedade e do crescimento – só por hoje.
É fácil: ao examinar o processo, você notará que eles se incorporam a cada um dos Doze Passos, exceto o de “levar a mensagem”, que é parte do Décimo Segundo – só por hoje.
Talvez, esta seja uma maneira um pouco lenta de se adquirir sobriedade e crescimento. Mas, antes de mais nada, a sobriedade é uma muda, plantada recentemente. Se eu agir afoitamente e puxá-la com força pelo caule, com a intenção de fazê-la crescer mais rapidamente, corro o risco de arrancá-la inteira da terra. Mas, se eu adubar as raízes, dia após dia, estarei, certamente, garantindo uma colheita segura e saudável.
Em outras palavras, resistir à compulsão do primeiro gole é como colocar uma nave espacial em órbita. É imprescindível que haja uma forte impulsão para que seja vencida a primeira etapa da atração da gravidade para tirar a nave do chão. Mas, uma vez em órbita, basta uma pequena correção, de vez em quando. É assim que funciona o plano das vinte quatro horas – um simples check-up diário e uma pequena correção, para nos manter longe da tentação daquele primeiro gole.

Um Plano Espiritual

Em meus próprios esforços na aplicação do plano das vinte e quatro horas, tomei a liberdade de interferir em nossa Oração da Serenidade. Acrescentei sete palavras – e todas elas são a mesma palavra – “hoje”.

Concedei-nos Senhor, a Serenidade necessária “hoje” para aceitar “hoje” as coisas que não podemos modificar “hoje”,
Coragem “hoje” para modificar “hoje” aquelas que podemos “hoje”
E Sabedoria “hoje” para distinguir umas das outras.

Então, esta é a receita para a produtividade, a serenidade e, acima de tudo, a felicidade que A.A. tem me proporcionado. E é por essa razão que eu posso dizer do fundo do meu coração: “Obrigado Senhor por eu ser um alcoólico”.

As religiões, as seitas e outros movimentos e irmandades, têm seus códigos de conduta. Seus membros podem respeitá-los, ou deixá-los de lado. A aplicação não é uma questão de vida ou morte. Mas, nós em A.A., temos o nosso plano das vinte e quatro horas, e a nossa razão para aplicá-lo é a própria vida.

Best of the Grapivine

Vivência 44 – NOV/DEZ 1996

UNIDADE

U N I D A D E

A Unidade descrita pela Área do Rio de Janeiro

Para que se possa alcançar o sentido e as implicações decorrentes da afirmação:

“Na unidade planejamos o futuro de A.A.”, faz-se necessário buscar a compreensão minuciosa da frase-tema.

Como ponto de partida, deverá servir de auxílio refletir sobre as seguintes questões:

Levando-se em conta o tempo de existência da Irmandade e o fato de ela estar presente em quase todos os países. teria cabimento preocupações sobre seu futuro?

Se estamos sob a guarda do Poder Superior, que em nós se manifesta, não seria fé pequena ou imaturidade espiritual voltar-se para A.A. de amanhã?

Será quê estar consciente de que a existência de cada um depende da coexistência de todos como irmandade não serviria, por si, para instaurar uma força coercitiva que enquadrasse, naturalmente, os membros, obrigando-os a submeterem-se a um mínimo de princípios espirituais?

Se A.A. já está pronto,é só seguir – o que há para ser planejado?

Planejar significa fazer o plano de, projetar, traçar, programar etc.

Assim, o tema diz que o futuro da Irmandade deve ser projetado, ou traçado, ou programado através da Unidade, quer dizer, o futuro será conseqüente da Unidade.

A Quinta Tradição estabelece que a razão de a Irmandade existir é a transmissão de sua mensagem;

Assim, fica entendido que o futuro será bom se a mensagem de A.A. for transmitida ao alcoólico que ainda sofre; e a frase revela que esse futuro será alcançado pela Unidade, ou seja, haverá um bom futuro se houver a transmissão da mensagem e essa transmissão só se concretizará através da
Unidade.

A propósito, o enunciado da Primeira Tradição afirma que “Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da Unidade de A. A.”

Pelo que se vê, a Unidade é fundamental para o indivíduo e para o Grupo, já que um não pode viver sem o outro.

O indivíduo depende da Unidade e a Unidade depende do indivíduo.

A Declaração de Unidade diz:

“O futuro de A.A. depende de ser colocado, em primeiro lugar, o nosso bem estar comum, a fim de manter a nossa Irmandade unida.

Da Unidade de A.A. dependem as nossas vidas e as vidas daqueles que virão.”

Ainda sobre a importância da Unidade, há trechos de nossa literatura concernentes ás nossas Tradições que dizem:

“A Unidade entre os alcoólicos é a qualidade mais preciosa que a nossa sociedade possui.

Nossas vidas e as vidas dos que estão por chegar dependem diretamente dessa Unidade.

Sem Unidade o coração de A.A. deixaria de bater.

De novo em sua prisão, os alcoólicos nos condenariam dizendo, ‘Que coisa formidável poderia ter sido A.A.

No livro” Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade”, aprendemos que “o orgulho, o medo e a raiva são inimigos fundamentais de nosso bem estar comum.

O verdadeiro companheirismo, harmonia e amor, fortificados pelo conhecimento claro e práticas corretas, são as únicas respostas.

E o propósito dos princípios tradicionais de A.A. é levar essas forças ao máximo e mantê-las aí.

Somente então pode nosso bem estar comum ser alcançado; somente então pode a Unidade de A.A. tomar-se permanente”.

Mas a Unidade de A.A. não pode preservar-se automaticamente.

Assim como há a necessidade de empenho para a recuperação pessoal, também a manutenção da Unidade exige ação.

Enquanto princípios são norteadores do funcionamento interno e das relações com a sociedade de um modo geral, a Unidade consubstanciada nas Doze Tradições é uma referência sólida no que se refere à proposta de A.A., mas, infelizmente, esse fator não tem servido de força motivadora à participação dos membros no sentido de reforçar a estrutura pela discussão e implementação de metas.

Note-se que, na citação acima, é dito claramente que o fortalecimento das virtudes se dá pelo conhecimento claro e práticas corretas; em última análise, são fundamentais o conhecimento e a prática, vale dizer, a participação.

Sendo A.A. uma irmandade que se caracteriza pelo dinamismo, a participação deve ser entendida como a vivência através da ação, isto é, através do serviço, que nada mais é do que organizar-se e atuar de forma a colaborar para que a mensagem seja divulgada àqueles que dela precisam.

A vivência dos princípios de A.A. ensina que a recuperação do alcoolismo não é apenas uma dádiva a ser agarrada egoisticamente para si próprio; também implica em assumir responsabilidades para servir a outros de diversas maneiras, dentro e fora de A.A.

É pouco provável que alguém acredite que A.A. permanecerá para sempre em sua forma atual.

No entanto, espera-se que as mudanças conduzam a melhores resultados para todos aqueles que sofram do alcoolismo e que as lições e exemplos das experiências atuais possam de alguma forma trazer conforto e segurança aos alcoólicos no mundo cada vez mais confuso e sofrido; o membro de A.A. deve sentir-se privilegiado por estar vivo neste século, cuja alternativa contra a extinção é o despertar espiritual.

Planejar é agir com o propósito de aperfeiçoar a Unidade, estabelecendo metas, frutos de discussões amplas.

Mas, há os empecilhos que retardam o progresso rumo a esse objetivo.

Frequentemente é usado o sábio lema que recomenda viver um dia de cada vez como argumento contra a sugestão do planejamento; diz-se “vamos viver hoje, pois o amanhã a Deus pertence”.

Também recorre-se muito ao apelo para que se mantenha A.A. simples, como pediu Dr. Bob a Bill W. A confusão é tanta que há quem defenda a falta de planejamento sólido por medo de que a Irmandade se tome fonte de riqueza.

Compartilhar metas é, por si, um planejamento, e não adaptar-se às mudanças representa não sobreviver.

A única forma de se fazer isso com segurança é caminhando pela trilha aberta pela Unidade maior que são as Doze Tradições.

O planejamento é de caráter permanente; seleciona alternativas adequadas; é sistemático porque obedece ao sistema das pessoas diretamente responsáveis; é interativo, pois interagem entre os membros, Grupos e organismos de serviços.

O planejamento envolve a identificação e fixação de prioridades, define ‘os objetivos, traça as diretrizes, metas e planos para os projetos e padrões a serem utilizados de forma a facilitar todo o trabalho a ser desenvolvido.
Portanto, o futuro da Irmandade está nas mãos de seus membros; que se tenha em mente as palavras de Bill W.:

“A providência divina já fez muito por nós, é hora de fazer a nossa parte e não ficarmos entregando tudo nas mãos de Deus, pois hoje nós somos responsáveis”.

Naturalmente, no decorrer dos próximos anos cometer-se-ão erros; a experiência ensina, no entanto, que não se deve temer cometer erros se há disposição para confessar faltas e corrigi-Ias prontamente.

O crescimento dos indivíduos e da Irmandade dependerão desse saudável processo de ensaio e erro.

Deve ser lembrado que qualquer sociedade de homens e mulheres que não pode corrigir livremente suas próprias faltas, inevitavelmente chegará à decadência e até mesmo ao colapso.

Esse é o castigo universal por não continuar crescendo.

Assim como cada AA deve proceder seu inventário moral e atuar segundo os ensinamentos obtidos no auto-exame, do mesmo modo A.A. como um todo deve fazer se quiser sobreviver e servir de maneira proveitosa.

Precisamos, também aqui, de honestidade, humildade, mente aberta, altruísmo e, acima de tudo, vigilância.

Os que estão chegando deveriam refletir sobre a experiência acumulada pelos que tentam trabalhar e viver juntos.

Que cada AA tome consciência das tendências perturbadoras que ameaçam a Irmandade como um todo, como ele mesmo tem consciência daqueles defeitos pessoais que ameaçam sua própria sobriedade e paz de espírito.

Nunca deve ser esquecido que, sem Unidade permanente, muito pouco pode ser oferecido no sentido de aliviar os milhares que ainda estão por se unir ã Irmandade em sua procura pela liberdade.

“A verdadeira dificuldade não está em aceitar as novas idéias, mas em livrar-se das antigas”.

(John Maynard)

Fonte: Relatório Anual da CSG/2000

A Unidade em AA

Como nós, membros de A. A. preservaremos melhor nossa unidade?

Quando um alcoólico aplica os Doze Passos de nosso programa de recuperação à sua vida pessoal, sua desintegração para e sua unificação começa. O Poder que agora o prende num único conjunto supera aquelas forças que o estavam destruindo. Exatamente o mesmo princípio se aplica a cada grupo de A.A. e a Alcoólicos Anônimos como um todo. Enquanto os laços que nos unem provarem ser muito mais fortes do que as forças que nos dividiriam tudo estará bem. Estaremos seguros como movimento; nossa unidade essencial permanecerá com certeza. Se, como membros de A.A., cada um de nós pode recusar prestígio público e renunciar a qualquer desejo de influência pessoal; se, como movimento, insistimos em permanecer pobres, a fim de evitar disputas a respeito de grande propriedade e sua administração; se nós constantemente rejeitamos todas as alianças políticas, sectárias ou quaisquer outras, evitaremos a divisão interna e a notoriedade pública; se, como movimento, continuarmos sendo uma entidade espiritual, interessada somente em levar nossa mensagem aos companheiros sofredores, sem recompensa financeira ou obrigação, apenas então podemos efetivamente concluir nossa missão. Está cada vez mais claro que nunca deveríamos aceitar benefícios temporários, ainda que sejam os mais tentadores, se esses consistirem em consideráveis somas de dinheiro, ou puderem nos envolver em alianças polêmicas e de endosso, ou puderem tentar alguns de nós a aceitar, como membros de A.A., publicidade pessoal, a nível de imprensa ou rádio. A unidade é tão vital para nós, membros de A.A., que não podemos nos arriscar tomando aquelas atitude e práticas que têm às vezes desmoralizado outras formas de sociedade humana. Até aqui temos sido bem sucedidos, porque temos sido diferentes. Que possamos continuar a ser assim! Mas a unidade de A.A. não pode se preservar automaticamente. Como a recuperação pessoal, teremos sempre que trabalhar para mantê-la. Também aqui precisamos de honestidade, humildade, mente aberta, altruísmo e, acima de tudo vigilância. Assim, nós que somos mais antigos em A.A. pedimos a vocês, que são mais novos, para ponderarem cuidadosamente a experiência que temos tido de tentar trabalhar e viver juntos. Gostaríamos que cada A.A. tomasse tanta consciência dessas tendências perturbadoras que nos põem em perigo como um todo, como ele mesmo tem consciência daqueles defeitos pessoais que ameaçam sua própria sobriedade e paz de espírito. Movimentos inteiros anteriormente se desfizeram por falta de unidade. Os “Dozes Pontos da Tradição de A.A.” constituem nossa primeira tentativa para estabelecer princípios sólidos da conduta de grupo e relações públicas. Muitos A.As. já sentem que essas Doze Tradições são sólidas o suficiente para tomar-se o guia básico e a proteção para A.A. como um todo; que devemos aplicá-las tão seriamente à vida de nosso grupo como fazemos com os Doze Passos de recuperação para nós mesmos. Para se falar disso, será preciso muito tempo. Nunca podemos nos esquecer que, sem unidade permanente, muito pouco podemos oferecer, no sentido de aliviar os milhares que ainda estão por unir-se a nós, em sua procura de liberdade.

(Fonte: Livrete “A Tradição de A.A.” Como se desenvolveu, por Bill W.)

Vivência nº 107 – Mai/Jun. – 2007

UNIDADE PARTICIPATIVA

Muito se falou e se fala a respeito da Unidade. Mas, o que é ela?

Para mim, Unidade é uma palavra muito grande; ainda que tenha poucas letras,
seu significado é muito profundo. Gostaria de me referir um pouco ao que é Unidade participativa, como a compreendo, porque já ouvi muito falar sobre
esse tema, mas parece que se entende muito pouco sobre ele, já que
presenciei fatos que deixam muito a desejar nesse sentido.

Para mim, Unidade é trabalhar por um bem comum sem recriminar outros que não pensam da mesma forma que eu. Para manter a Unidade, devemos respeitar os acordos, concordando pessoalmente com eles ou não. Se não respeitamos o
combinado, estaremos dividindo nossas forças, já que os que estão conosco
estão felizes, mas aqueles que não estão conosco se desapontam e assim a
Unidade não se torna fato.

Se alguém não concorda com os demais em determinados pontos que estão
discutindo, deve expor suas ideias com argumentos. Se quiser impor suas
ideias sem fundamentá-las, só conseguirá despertar a ira alheia. Se percebe
e aceita que suas ideias não convenceram aos demais, acata então as posições
da maioria sem colocar obstáculos. Isso para mim é Unidade compartilhada.

Também considero muito importante, para a preservação da Unidade, o respeito
pelos princípios estabelecidos, especialmente os Serviços Gerais. Quando
esses princípios são transgredidos autoritariamente, pensando-se que os fins
justificam os meios, a Unidade se rompe. Alguns se rebelarão, tirando o
apoio dos transgressores e dividindo a causa, já que outros apoiarão as
transgressões, terminando tudo em separação. É claro que assim todos
perderão.

Além disso, a Unidade deveria estar sempre acima da amizade. Se pusermos a
amizade acima dos princípios estabelecidos para tentar alcançar objetivos
pessoais, estaremos só fingindo estar unidos. Muitas vezes confunde-se a
amizade com a Unidade. Quando, por exemplo, acontece um aniversário e muitas
pessoas se reúnem para felicitar um amigo, isso é amizade. Unidade
representa muito mais do que estar feliz numa festa, vai mais além da mera
amizade.

A Unidade que deve prevalecer em nossa Irmandade é uma Unidade fortalecida
por nossa enfermidade comum, e também baseada nos princípios e no espírito
de nossas Tradições pelo bem de nossa Irmandade; estabelecida por um Poder
Superior; baseada no respeito mútuo de todos os integrantes. Isso nos dará
um futuro estável e duradouro, para o nosso bem e para o bem dos milhares
que se somaram a esta nobre causa que é Alcoólicos Anônimos.

Vivência nº 65 mai/jun. 2000

U N I D A D E
O Espírito da Unidade de A. A.
Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar…
Ao analisar “O Espírito da Unidade de A. A., chegamos a conclusão que ele é a essência do comportamento dos membros de A .A.. Este comportamento tem o objetivo de preservar a Unidade de A. A.. É a união de pessoas que se identificam com um problema comum e todos com um único propósito, de buscar a melhor maneira de solucioná-lo, procurando agir com um só pensamento, uma só maneira de trabalhar e sempre juntos em igualdade, garantindo assim o bem-estar comum que existe entre os membros, esforçando sempre para que ele seja da melhor qualidade. Nos relacionando em grupo num sentido de ajuda mútua e dedicando ao programa de recuperação, a nossa libertação do alcoolismo virá de uma forma gradativa, trazendo a esperança de uma vida de paz e felicidade sempre conquistando vitórias através de um desenvolvimento espiritual”.
É bom lembrar como os membros pioneiros de Alcoólicos Anônimos começaram a encontrar uma linha de conduta com o propósito de assegurar o futuro da nossa Irmandade. Logo chegaram a conclusão que sem unidade, poucas chances teriam para sobreviver em grupo e muito pouco teriam para oferecer, no sentido de aliviar os milhares de alcoólatras que ainda poderiam chegar a procura da liberdade. Pouco a pouco adotando as lições aprendidas através das experiências vividas, primeiro como norma de procedimento e depois como tradição, concluíram que:
Cada membro de Alcoólicos Anônimos é apenas uma pequena parte de um todo. Que nenhum membro pode ser punido ou expulso da irmandade. Que o Grupo precisa sobreviver, caso contrário, não sobreviverá o indivíduo, portanto nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar;
Nossos líderes são apenas servidores de confiança, não tem poderes para governar, eles devem liderar pelo exemplo e jamais por imposição. A única autoridade em Alcoólicos Anônimos é um Deus amantíssimo que se manifesta em nossa consciência coletiva;
Nossa irmandade deve incluir todos aqueles que sofrem do alcoolismo, por isso não devemos recusar nenhuma pessoa que queira se recuperar, nem seu ingresso em A .A. poderá jamais depender de dinheiro ou formalidades.
Dois ou mais alcoólicos reunidos com o propósito de procurar pela sobriedade, podem se considerar um Grupo de A. A., desde que como Grupo, não tenham nenhuma outra afiliação. Com respeito aos seus próprios assuntos, cada Grupo deve ser livre de qualquer autoridade, a não ser de sua própria consciência. Mas, quando seus planos afetam outros grupos, estes, deverão ser consultados. Nenhum grupo, comitê regional ou indivíduo jamais deverá tomar qualquer atitude que possa afetar grandemente A. A. como um todo, sem antes trocar ideias com os nossos comitês de serviços. Pois esse procedimento nos manterá em unidade, buscando cumprir o único propósito primordial.
Cada Grupo deve ser uma entidade espiritual, tendo somente um propósito primordial, o de transmitir a sua mensagem, e ajudar outros alcoólicos a se recuperarem através dos “Doze Passos” de A. A..
Problemas de dinheiro, propriedade, prestígio e autoridade podem facilmente nos afastar do nosso objetivo primordial, portanto, qualquer propriedade de considerável valor e utilidade para Alcoólicos Anônimos, deverá ser organizada e administrada separadamente, fazendo assim uma divisão entre o material e o espiritual.
Os Grupos de A. A. devem ser mantidos totalmente pelas contribuições voluntárias de seus próprios membros. O Grupo deve atingir este ideal em um tempo mais curto possível. Qualquer levantamento de fundos a nível público, usando o nome de Alcoólicos Anônimos é altamente perigoso. Que a aceitação de doação ou contribuição de qualquer fonte de fora é desaconselhável. Da mesma forma, causa muita preocupação, as tesourarias de A. A. que, ultrapassando as reservas consideradas prudentes, continuam a acumular fundos sem qualquer propósito determinado de A .A.. A experiência tem frequentemente mostrado que nada pode, na verdade, destruir tanto nossa herança espiritual como fúteis disputas de propriedade, dinheiro e autoridade. Não podemos esquecer, que todo dinheiro que entra na sacola da Sétima Tradição pertence a Alcoólicos Anônimos como um todo – ele precisa circular para fazer com que a mensagem possa chegar a todos os alcoólicos que ainda sofrem.
Alcoólicos Anônimos deve sempre se manter não profissional. Definimos profissionalismo como a prática remunerada de orientação a alcoólicos. Mas podemos empregar alcoólicos em serviços para os quais possam ser contratados também não alcoólicos. Tais serviços podem ser remunerados, mas nosso costumeiro trabalho do Décimo Segundo Passo nunca deve ser pago.
Como irmandade, Alcoólicos Anônimos não deve ter nenhum tipo de organização. Nossos líderes devem ser sempre revezados. Todos os representantes devem ser guiados pelo espírito de servir, pois os verdadeiros líderes de Alcoólicos Anônimos nada mais são que servidores de confiança e com experiência em relação ao A. A. em seu todo. Seus títulos não lhes conferem nenhuma autoridade. Eles não governam, agem com respeito mútuo.
Nenhum membro ou Grupo de A. A. jamais deverá opinar sobre questões alheias a irmandade, sujeitas a controvérsia, especialmente com relação a política, combate ao álcool ou sectarismo religioso, de forma a envolver a Alcoólicos Anônimos. Os Grupos de A. A. não se opõem a nada. Com respeito a estas questões, eles não devem dar qualquer opinião. Por isso, precisamos ter cuidado com o nosso relacionamento com o público para não confundirmos e envolvermo-nos em assuntos alheios ao nosso propósito primordial.
Nossas relações com o público em geral devem ser caracterizadas pelo anonimato pessoal. Nossos nomes e fotografias como membros de A. A. não devem ser divulgados pelo Rádio, Filmes ou Imprensa. Nossas relações com o público devem ser orientadas pelo princípio da atração, não da promoção. E, finalmente, acreditamos que o princípio do anonimato tem um enorme significado espiritual. Ele nos lembra que devemos colocar os princípios acima das personalidades e que devemos realmente praticar a verdadeira humildade. Sendo o anonimato a garantia de proteção que a Irmandade oferece a todos aqueles alcoólicos que queiram se juntar a nós, cresce a responsabilidade de cada membro em respeitar o direito de seu companheiro em manter seu anonimato. O grupo precisa evitar situações que possa expor o anonimato de seus membros.
Uma vez que esta linha de comportamento seja respeitada com disposição, dedicação e, acima de tudo com fidelidade, vamos conquistar a “harmonia”, que no nosso entendimento é o verdadeiro “espírito” da “Unidade” de A. A.. Harmonia é a disposição bem ordenada entre as partes de um todo, é a paz coletiva entre as pessoas; e paz é a ausência de violências, perturbações e conflitos entre as pessoas, paz é sossego, é serenidade. Tudo isto está contido na “harmonia”. Entretanto, considerando que a nossa irmandade é composta de membros que buscam o aperfeiçoamento espiritual, ainda tem comportamentos defeituosos, vamos ver que existem algumas falhas e determinados defeitos que nos ameaçam continuamente.
As Tradições nos orientam para melhorar nossa maneira de trabalhar e viver juntos, elas são também um antídoto para nossos diversos males. As Tradições são para a sobrevivência e harmonia do Grupo como os Doze Passos são para a sobriedade e paz de espírito de cada membro. Elas apontam para muitos de nossos defeitos individuais. Por dedução elas pedem para nunca usar o nome de A. A. na busca de poder pessoal, fama, dinheiro e prestígio. Pedem a cada um de nós para deixar de lado, o orgulho e o ressentimento. Pedem o sacrifício para o benefício do Grupo como também o benefício pessoal.
Considerando que cada membro é uma pequena parte de um todo (nossa irmandade), concluímos que a qualidade da “unidade” depende do quanto cada um de nós estejamos dispostos e empenhados a respeitar todos os princípios de Alcoólicos Anônimos. Um membro que contribui para a boa qualidade da “unidade”, ele procura com satisfação frequentar as reuniões sempre com o propósito de compartilhar suas experiências e forças com os companheiros, dando a eles a máxima atenção quando eles também estiverem nos transmitindo algo, procurando respeitar as condições de cada um, bem como as convicções, ele procura também, prestar serviços com responsabilidade e dedicação, seu primeiro impulso é o de ser um servidor, buscando o interesse pelo bem-estar comum em vez de pensar em si mesmo. Não condena aqueles que não aceitam suas opiniões, bem como, não impõem seus conhecimentos aos companheiros. Procura em seu programa não ter ódio, rancor, ressentimentos, nem desejos de vingança. Perdoa e esquece as ofensas, e só se lembra dos benefícios recebidos, porque sabe que também quer ser perdoado. Não procura descobrir e por em evidência os defeitos alheios, se a necessidade a tanto o obriga, procura sempre se posicionar do lado bom, na tentativa de atenuar o mal. Estuda suas próprias imperfeições e sem cessar esforça para combatê-las. Jamais procura valorizar seu talento á custa dos outros, ao contrário, busca todas as ocasiões para ressaltar aquilo que é mais interessante nos demais. Está sempre pronto a ajudar aquele que ainda sofre pelo alcoolismo. Procura descobrir quais as atividades que melhor funcionam como Padrinho para oferecer a melhor ajuda ao recém-chegado, procurando ajudá-lo a se recuperar através do programa de recuperação, “Os Doze Passos”, principalmente com seus exemplos. Procura se posicionar na sua verdadeira disponibilidade para participar da “autossuficiência” de A .A., contribuindo sempre com lealdade. Respeita a promessa de sigilo pelo anonimato dos companheiros, inclusive de suas histórias.
Enfim, se cada membro procurar sempre pelo aperfeiçoamento na recuperação individual e dedicar o melhor dos esforços e atenção ao aprimoramento do Grupo, dando força para que ele seja cada vez mais um Grupo consciente, estaremos cuidando de melhorar sempre a qualidade da nossa “Unidade” e de cabeça erguida poderemos caminhar em direção à perfeita harmonia que é o verdadeiro “Espírito da Unidade de A. A.”.
Unidade
Por Marcos – Cachoeira do Campo-MG

“Bill, nós adoramos recebe-lo e ouvi-lo falar. Conte-nos onde você costumava esconder as suas garrafas e fale-nos daquela sua experiência espiritual. Mas não venha nos falar mais a respeito dessas malditas Tradições.” (Levar Adiante – pg 353).

Era mais ou menos coisas deste tipo que Bill ouvia quando, antevendo o perigo que corria A.A., colocou o pé na estrada e passou a divulgar o que ele chamava de Doze Pontos Para Garantir o Nosso Futuro. O nome Tradições só veio mais tarde e atesta toda a genialidade de Bill, pois já pensaram se ele tivesse dado o nome de “12 regras”, “12 leis”, “estatuto”, ou qualquer outra coisa que significasse regulamento? Talvez nenhum membro de A.A. aceitaria estes princípios. Bill conhecia muito bem seus companheiros alcoólicos; ele sabia que nenhum bêbado que se auto-respeitasse, sóbrio ou não, se submeteria docilmente a um conjunto de “leis” – isso seria autoritário demais!

Mas por que Bill sentiu a necessidade das Tradições como garantia do futuro de A.A.?
Bill tinha uma mente obcecada e uma visão de futuro excepcional. Ele sabia o que era bom para A.A. e não desistia de seus propósitos facilmente quando em benefício de A.A.
Bill estudou e pesquisou profundamente sobre o Movimento Washigtoniano, movimento que surgiu de maneira espetacular nos Estados Unidos um século antes de A.A. com o objetivo de salvar bêbados e da mesma maneira espetacular que surgiu naufragou por dois motivos básicos:
1- Eles não consideravam o alcoolismo como uma doença e sim como um desvio de caráter, uma fraqueza, que podia ser corrigido apenas com a força de vontade e
2- Não oferecia um padrão de conduta, uma orientação para seus membros que salvaguardassem o movimento. Por exemplo, táticas carnavalescas de promoção e a carência de qualquer princípio de anonimato era o modo que eles divulgavam o movimento; participavam ativamente de controvérsias públicas, política, religião, etc.
A.A. já tinha corrigido o primeiro motivo quando afirmou que o Alcoolismo é uma doença incurável e que a força de vontade é inteiramente nula no seu combate, mas e a segunda causa do naufrágio dos Washingtonianos, como fazer?
Pois bem, as respostas a estas perguntas vieram nos anos seguintes e tiveram a sua origem nos próprios Grupos. Desde 1937, já contávamos com o auxílio de um Escritório e grande parte do trabalho de Bill W. neste escritório era cuidar da correspondência. A maioria da correspondência pedia orientação para a abertura de novos Grupos ou pediam sugestões para a solução de problemas de funcionamentos dos grupos. A ideia da criação de diretrizes para funcionamento de grupos surgiu justamente da crescente correspondência com pedidos de ajuda.
As Tradições em A.A. representam a experiência extraída de nosso passado e nos apoiamos nelas para nos manter em unidade, através dos obstáculos e perigos que nos possa trazer.
Tradição significa um método específico de determinada ação, atitude ou ensinamento que são passados de geração para geração. Uma coisa que se torna tradicional, se torna normal, e, portanto, é seguida muitas vezes sem nenhuma indagação.
Nota-se, de um modo geral, a grande dificuldade que tem o membro de A.A. com a prática das Tradições, chega a ser até um preconceito. Talvez por nunca recebermos a informação correta para o significado dos princípios de A.A. quando chegamos ao Grupo pela primeira vez. Tive muita dificuldade em quebrar esta barreira. Como diz uma citação de Hebert Spencer em nosso livro azul: “Há um princípio que é uma barreira a toda informação, que é uma refutação de qualquer argumento e que não pode deixar de manter um homem na ignorância perpetua: o princípio consiste em depreciar antes de investigar”. Normalmente depreciamos antes.
Devido a esse “depreciar antes de investigar” é que aceitamos passivamente a afirmação que as Tradições de A.A. são só para os Grupos.
“Mas as Doze Tradições também apontam diretamente para muitos de nossos defeitos individuais. Por dedução, elas pedem a cada um de nós para deixar de lado o orgulho e o ressentimento. Elas pedem pelo benefício do Grupo, bem como pelo benefício pessoal. Elas nos pedem para nunca usar o nome de A.A. em busca de poder pessoal, fama ou dinheiro. As Tradições garantem a igualdade de todos os membros e a independência de todos os Grupos.” (A.A. Atinge a Maioridade – pg 87).
Se formos cuidadosos em sua prática veremos que são as Tradições que têm a capacidade de revelar aqueles defeitos que mais nos prejudicam e que insistem em dirigir a nossa vida. São os conflitos em nossas relações interpessoais um valioso terreno de observação de nossa personalidade. Esses conflitos são reveladores de nós mesmos. Afinal, todos temos uma agenda oculta e nesta agenda estão escondidos aqueles nossos já conhecidos instintos de busca de prestígio, poder e prazer. A nossa incrível capacidade de conduzir as coisas para que beneficiem a nós mesmos. O querer sempre estar com a razão. Nessa questão vale um parêntesis: vocês já perceberam quanta energia nós gastamos apenas para demonstrar que temos razão, independente de tê-la ou não? Energia perdida. Em vão.
Tal como Os Passos surgiram com a finalidade de evitar que voltássemos a beber e ao longo de sua prática percebeu-se que poderíamos conseguir muito mais com eles, o mesmo ocorre com as Tradições de A.A. Se em seu princípio a finalidade era orientar os Grupos para problemas que fossem surgindo, com a sua prática percebeu-se rapidamente que elas são um poderoso instrumento em minha recuperação. Afinal, se os Passos são sugeridos para um melhor conhecimento de mim mesmo, para melhorar a minha auto-aceitação, as Tradições tem o poder de me mostrar a melhor maneira de viver em grupos. Se aprendermos a conviver com os companheiros do Grupo de A.A. já teremos um ótimo indicador de como conviver com as demais pessoas de nossos diversos grupos. Se os Passos nos ensinam a viver, as tradições têm o poder de nos ensinar a conviver, talvez a nossa maior dificuldade. Só se cresce espiritualmente na convivência com os outros. Aqui temos outra máxima muito usada por nós que é: “quer saber como está meu relacionamento com Deus, pergunte as pessoas que convivem comigo”.
Quanto mais praticarmos as Tradições em nossos relacionamentos, mais cresceremos em direção a um Poder Superior, mais cresceremos espiritualmente.

Uma filósofa afirmou determinada época que se reprimimos uma tradição, ela escapa pelo ladrão e retorna…
Assim se dá em A.A., se reprimimos uma das Tradições mais à frente seremos obrigados a observá-la novamente. Para o nosso próprio bem.
As Tradições de A.A. existem justamente para isso, para evitar a repetição de erros. Erros velhos não nos levam a nenhum crescimento, que cometamos erros novos, pois através deles é que continuaremos a aperfeiçoar a melhor maneira de viver em grupos, de nos relacionarmos com a sociedade lá fora e, principalmente, melhorar a nossa qualidade de recuperação.

O crescimento espiritual inicia quando nos juntamos a um Grupo a passamos a viver em Unidade com os companheiros deste Grupo e com o A.A. em seu todo.
NOSSO BEM-ESTAR COMUM DEVE ESTAR EM PRIMEIRO LUGAR; A REABILITAÇÃO INDIVIDUAL DEPENDE DA UNIDADE DE A. A.
(1ª. Tradição)
“ O bem-estar comum é a base de sustentação.”

Muito se fala em A. A. sobre crescimento espiritual, mas pouco se fala de como conseguir este crescimento.
Para mim, não há crescimento espiritual sozinho, o crescimento se adquire através do outro, da maneira como vejo e aceito o outro.
A prática dos Passos me ajuda a aceitar a mim mesmo do jeito que sou e a partir daí começo a aceitar que o outro também tem o direito de ser o outro, de ser diferente, de ser ele.
Uma coisa que sempre me acompanhou desde minha chegada em A. A. foi a fé inabalável em seu programa; sem conhecer os princípios eu já tinha convicção que eles poderiam resolver qualquer problema.
A história de Bill reforçou essa convicção. À medida que fui tendo algum entendimento sobre os Passos, mais maravilhado eu ficava. Passei bom tempo falando só em Passos.
Quando ouvia algo sobre as Tradições ou lia, ficava decepcionado: – que coisa mais sem graça e essa desmotivação era forçada pelo chavão: “Tradição é para funcionamento de Grupos”, nada haver comigo, portanto.
Nota-se, de um modo geral, a grande dificuldade que tem o membro de A. A. com a prática das Tradições, chega a ser até um preconceito.
Talvez por nunca recebermos a informação correta sobre o significado dos princípios de A. A. quando chegamos ao Grupo pela primeira vez.
Eu, por exemplo, quando cheguei recebi a informação de que aqueles membros dos órgãos de serviço que falavam de Tradições estavam acabando com o A. A. e como eu poderia aceitar aqueles companheiros e o que eles falavam se eles estavam querendo acabar com aquilo que estava salvando a minha vida? Coisa mais absurda!
Mas com o passar do tempo, enquanto refletia sobre minha vida, despertei para uma palavrinha que mudou todo o rumo de minha história: a palavra GRUPO.
De repente percebi que minha vida era formada por grupos: o grupo de minha casa (minha família); o grupo do meu local de trabalho; o grupo dos colegas de futebol, e tantos outros grupos.
Veio então o seguinte raciocínio: se as Tradições são para o funcionamento de Grupos de A. A. vão servir também para os outros grupos nos quais estou inserido e comecei a buscar um entendimento melhor das nossas Tradições.
Logo na primeira tradição aparecia uma coisa nova para mim: bem-estar comum. Eu nunca havia pensado nisso, aliás, eu nunca havia pensado no outro. O egocentrismo, a vida centrada em mim mesmo, era meu modelo de vida.
Então, logo no seu início , as Tradições começam a falar que sem levar em consideração o outro o grupo não irá em frente e para que isso aconteça é necessário que o bem-estar comum venha em primeiro lugar. Mas o que vem a ser esse bem-estar comum?
Toda coletividade, seja ela sociedade ou comunidade tem uma missão peculiar para o desempenho da qual existe, missão que lhe confere sua marca, sua característica e princípio formal e que, por assim dizer, é a sua alma.
Tal missão deve consistir evidentemente num bem (ou conjunto de bens) que deve ser conseguido mediante a atividade do ente coletivo (grupo) e de maneira que não só redunde em benefício deste ente enquanto tal (o grupo), como também beneficie, em última instância, a todos os seus membros.
Este bem (ou conjunto de bens) recebe o nome de “bonum commune”, “bem comum”. Nele se verifica uma relação recíproca: toda perfeição do conjunto significa um proveito para os membros e vice-versa, aumentando e consolidando-se o aperfeiçoamento destes, aumenta a capacidade operativa do conjunto…
Interessante esse conceito e muito diferente de minha percepção até então.
Quer dizer que o grupo é o somatório de suas partes e se essas crescem o grupo no seu todo cresce. E se a missão dos grupos em A. A. e de A. A. em seu todo é assegurar a sobriedade de seus membros e transmitir a mensagem àqueles que dela necessitam, logo a garantia de manutenção desse bem comum passa necessariamente pelo bem-estar comum de seus membros.
A manutenção, a busca constante desse bem-estar comum, bem estar do grupo, passa a ser o grande desafio a ser enfrentado por todos os grupos. Comecei então a entender o verdadeiro significado de “o bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; tenho que abrir mão dos meus anseios e minhas vontades sempre que elas ameaçam o bem-estar do todo”.
Fácil? Não. Muito difícil. Como resolver o problema da autoridade? Quem pode ser membro? Até onde o grupo pode ir? E quanto à propriedade e sustentação? Essa e várias outras questões ameaçam constantemente o bem comum do grupo (a espiritualidade) e quando o bem comum do grupo está sob ameaça o indivíduo corre sérios riscos.
Aí sim, comecei a perceber que de nada adiantaria eu tentar colocar a minha personalidade acima dos princípios do grupo, pois o primeiro grande ameaçado seria eu. Logo, eu teria que me contentar em calar os meus anseios tão acalentados pela minha personalidade distorcida em benefício do bem-estar do grupo.
E quando consigo fazer assim começo a perceber que mudanças incríveis acontecem em mim e que o grande beneficiado por colocar o bem-estar do grupo em primeiro lugar sou eu mesmo.
A minha vida é feita de relações com outras pessoas e quando começo a aprender a conviver com as diferenças de cada um dentro de um grupo de A. A. passo a entender que a prática desses princípios em outros grupos de minha vida (família, empresa, etc.) pode me levar ao crescimento espiritual tão falado em A. A.
Se a prática dos Passos me ensina a viver comigo mesmo e meus monstros interiores, a prática das Tradições me ensina a conviver com as pessoas e aceitar as suas diferenças e através disso colocar o coletivo em primeiro lugar e me deixando com meus anseios num segundo plano e sabendo que esse estar em segundo plano não é nenhum demérito, mas acima de tudo desenvolver um tipo de humildade que me faz entender que o todo é mais importante que suas partes e que para eu crescer eu preciso do todo, sozinho nada sou.
Eu não sou o outro, o outro não sou eu, mas somos um grupo, enquanto somos capazes de diferencialmente, eu ser eu vivendo com você; você ser você, vivendo comigo… isso é espiritualidade!
Que maravilhas podem fazer os princípios de A. A.!
(Fonte: Revista Vivência Nº 123 – Jan/Fev-2.010 /Antônio)

NÃO PERMITAM QUE O ENCANTO SE QUEBRE
“Se o problema não for logo contornado em pouco tempo estaremos de volta ao copo e certamente, ao inferno, não sem antes, “balançar” a Unidade do Grupo.”

Ao chegarmos em A. A. encontramos um “mundo” bem diferente daquele que imaginávamos e estávamos.
No início até parecia um mundo de sonhos, daqueles que víamos em nossas fantasias.
Um mundo pequeno nas aparências, porém gigante por natureza, tão simples e ao mesmo tempo tão enigmático. Tudo é tão novo, tão surpreendente e promissor; jamais imaginávamos encontrar algo assim. No início da caminhada quando tudo é novo somos bastante receptivos como aqueles que estão a se afogar em águas profundas e barrentas, sem alguém por perto; por perto ajudar, mesmo que seja para atrair uma pequena boia. Demonstramos humildade e submissão, certamente retiradas de um último suspiro de desespero e dor.
Criamos um verdadeiro encanto por tudo que estamos aprendendo, pelos outros membros de A. A., pelo reflexo e o sucesso das mudanças em nossa vida social e familiar. Passamos a viver com alegria! Começa a despontar um tênue fio de felicidade, algo que sempre esperávamos encontrar no funesto e diabólico fundo de um cálice!
Já é possível traçar algumas metas em nossa vida como o retorno à família, um novo emprego e muito mais, porém, com a mente alcoólica, doentia e traiçoeira a maioria de nós logo esquece o que realmente nos trouxe a A. A. e o que encontramos.
Esquecemos de como chegamos, que fomos recebidos com amor e carinho (valores que já desconhecíamos) por aqueles que lá estavam à nossa espera; que em apenas poucos dias seguindo a Programação de A. A. nossa vida começou melhorar. Ignoramos tudo isso. Esquecemos da dedicação de todos à nossa volta que sonharam em ver-nos novamente reintegrados na sociedade, sem revolta ou ressentimentos.
Assim como a referência do Capítulo Cinco do Livro Alcoólicos Anônimos… aqueles que sentem dores nos pés durante a caminhada… cheios de orgulho, com a mente doentia comum a todo alcoólico, e os defeitos de caráter bastante acentuados ainda, se não afastam do Grupo, passam a encontrar defeitos nos companheiros e na programação, e assim, como um vaso de vidro de péssima qualidade, o encanto se quebra e voltam à prática dos velhos hábitos dando vazão aos defeitos de caráter que estavam refreados e voltam às velhas atitudes.
A famosa bebedeira seca citada começa seu efeito devastador. Se o problema não for logo contornado em pouco tempo estaremos de volta ao copo e certamente ao inferno em que vivíamos antes, não sem antes “balançar” a Unidade do Grupo. Apesar de alguns membros entenderem isso como “dores do crescimento”, penso de outra forma. Ora, se aceitarmos este desrespeito às Tradições com naturalidade e o Grupo viver absorvendo sempre estas “dores” a recuperação de seus membros, assim como o próprio Grupo estarão comprometidos; não haverá condição de recuperação espiritual.
Se não conseguirmos tal recuperação, o Grupo irá mal, não poderemos ajudar nem mesmo a nós, quanto mais àqueles que chegam à busca de ajuda!
O Grupo necessita primar pelo único propósito de A. A.. Se observarmos bem nossas Tradições descobriremos que podemos passar muito bem sem esses males e aproveitar melhor os ensinamentos sugeridos na programação caminhando em busca da verdadeira harmonia com o Poder Superior, conosco e com o nosso próximo.
Somente assim poderemos levar adiante a mensagem de A. A., dividindo essa riqueza inigualável encontrada na alma desta tão abençoada Irmandade.
(Fonte: Revista Vivência Nº 123 – Jan/Fev.2010 – Nonato/Pirassununga-SP)

UNIDADE
“Bill, nós adoramos recebê-lo e ouvi-lo falar. Conte-nos onde você costumava esconder as suas garrafas e fale-nos daquela experiência espiritual. Mas não venha nos falar mais a respeito destas malditas Tradições.” (Levar Adiante)

Era mais ou menos coisas deste tipo que Bill ouvia quando, antevendo o perigo que corria A. A., colocou o pé na estrada e passou a divulgar o que ele chamava de Doze Pontos Para Garantir o Nosso Futuro.
O nome Tradições só veio mais tarde e atesta toda a genialidade de Bill, pois já pensaram se ele tivesse dado o nome de “12 regras”, “12 leis”, “estatuto”, ou qualquer outra coisa que significasse regulamento?
Talvez nenhum membro de A. A. aceitaria estes princípios, Bill conhecia muito bem seus companheiros alcoólicos; ele sabia que nenhum bêbado que se auto-respeitasse, sóbrio ou não, se submeteria docilmente a um conjunto de “leis” isso seria autoritário demais!
Mas por que Bill sentiu a necessidade das Tradições como garantia do futuro de A. A.?
Bill tinha uma mente obcecada e uma visão de futuro excepcional. Ele sabia o que era bom para A. A. e não desistia de seus propósitos facilmente quando em benefício de A. A.
Bill estudou e pesquisou profundamente sobre o Movimento Washingtoniano, movimento que surgiu de maneira espetacular nos Estados Unidos um século antes de A. A. com o objetivo de salvar bêbados e da mesma maneira espetacular que surgiu naufragou por dois motivos básicos: a) Eles não consideravam o alcoolismo como doença e sim como um desvio de caráter, uma fraqueza, que podia ser corrigido apenas com a força de vontade e b) Não oferecia um padrão de conduta, uma orientação que salvaguardassem o movimento.
Por exemplo, táticas carnavalescas de promoção e a carência de qualquer princípio de anonimato era o modo que eles divulgavam o movimento; participavam ativamente de controvérsias públicas, política, religião, etc.
A. A. já havia corrigido o primeiro motivo quando afirmou que o alcoolismo é uma doença incurável e que a força de vontade é inteiramente nula no seu combate, mas e a segunda causa do naufrágio dos Washingtonianos como fazer?
Pois bem, as respostas a estas perguntas vieram nos anos seguintes e tiveram a sua origem nos próprios Grupos.
Desde 1937, já contávamos com o auxilio de um Escritório e grande parte do trabalho de Bill W. neste escritório era de cuidar da correspondência.
A maioria das correspondências pedia orientação para a abertura de novos Grupos ou pediam sugestões para a solução de problemas de funcionamentos dos grupos.
A ideia da criação de diretrizes para funcionamento de grupos surgiu justamente da crescente correspondência com pedidos de ajuda.
As Tradições em A. A. representam a experiência extraída de nosso passado e nos apoiamos nelas para nos manter em unidade, através dos obstáculos e perigos que nos possa trazer.
Tradição significa um método específico de determinada ação, atitude ou ensinamento que são passados de geração para geração. Uma coisa que se torna tradicional, se torna normal, e, portanto, é seguida muitas vezes sem nenhuma indagação.
Nota-se, de um modo geral, a grande dificuldade que tem o membro de A. A. com a prática das Tradições, chega a ser até um preconceito. Talvez por nunca recebermos a informação correta para o significado dos princípios de A. A. quando chegamos ao Grupo pela primeira vez.
Tive muita dificuldade em quebrar esta barreira. Como diz uma citação de Hebert Spencer em nosso livro azul: “Há um princípio que é um barreira a toda informação, que é uma refutação de qualquer argumento e que não pode deixar de manter um homem na ignorância perpétua: o princípio consiste em depreciar antes de investigar”. Normalmente depreciamos antes.
Devido a este “depreciar antes de investigar” é que aceitamos passivamente a afirmação que as Tradições de A. A. são só para os Grupos.
“Mas as Doze Tradições também apontam diretamente para muitos de nossos defeitos individuais. Por dedução, elas pedem a cada um de nós para deixar de lado o orgulho e o ressentimento. Elas pedem pelo benefício do Grupo, bem como pelo benefício pessoal. Elas nos pedem para nunca usar o nome de A. A. em busca de poder pessoal, fama ou dinheiro. As Tradições garantem a igualdade de todos os membros e a independência de todos os Grupos.” (A. A. Atinge a Maioridade pg.87).
Se formos cuidadosos em sua prática veremos que são as Tradições que têm a capacidade de revelar aqueles defeitos que mais nos prejudicam e que insistem em dirigir a nossa vida.
São os conflitos em nossas relações interpessoais um valioso terreno de observação de nossa personalidade. Esses conflitos são reveladores de nós mesmos. Afinal, todos temos uma agenda oculta e nesta agenda estão escondidos aqueles nossos já conhecidos instintos de busca de prestígio, poder e prazer. A nossa incrível capacidade de conduzir as coisas para que beneficiem a nós mesmos. O querer sempre estar com a razão, independente de tê-la ou não? Energia perdida. Em vão.
Tal como Os Passos surgiram com a finalidade de evitar que voltássemos a beber ao longo de sua prática percebeu-se que poderíamos conseguir muito mais com eles, o mesmo ocorre com as Tradições de A. A.
Se em seu princípio a finalidade era orientar os Grupos para problemas que fossem surgindo, com a sua prática percebeu-se rapidamente que elas são um poderoso instrumento em minha recuperação.
Afinal, se os Passos são sugeridos para um melhor conhecimento de mim mesmo, para melhorar a minha auto-aceitação, as Tradições têm o poder de me mostrar a melhor maneira de viver em grupos.
Se aprendermos a conviver com os companheiros do Grupo de A. A. já teremos um ótimo indicador de como conviver com as demais pessoas de nossos diversos grupos.
Se os Passos nos ensinam a viver, as tradições têm o poder de nos ensinar a conviver, talvez a nossa maior dificuldade. Só se cresce espiritualmente na convivência com os outros. Aqui temos outra máxima muito usada por nós que é: “quer saber côo está meu relacionamento com Deus, pergunte às pessoas que convivem comigo”.
Quanto mais praticarmos as Tradições em nossos relacionamentos, mais cresceremos em direção a um Poder Superior, mais cresceremos espiritualmente.
Uma filosofia afirmou determinada época que se reprimimos uma tradição, ela escapa pelo ladrão e retorna… Assim se dá em A. A., se reprimimos uma das Tradições mais à frente seremos obrigados a observá-la novamente. Para o nosso próprio bem.
As Tradições de A. A. existem justamente para isso, para evitar a repetição de erros. Erros velhos não nos levam a nenhum crescimento, que cometamos erros novos, pois através deles é que continuaremos a aperfeiçoar a melhor maneira de viver em grupos de nos relacionarmos com a sociedade lá fora e, principalmente, melhorar a nossa qualidade de recuperação.
O crescimento espiritual inicia quando nos juntamos a um Grupo e passamos a viver em Unidade com os companheiros deste Grupo e com A. A. em seu todo.
(Fonte: Revista Vivência Nº 123 – Jan/Fev – 2010 – Anônimo)

NOSSO BEM-ESTAR COMUM DEVE ESTAR EM PRIMEIRO LUGAR

A unidade de Alcoólicos Anônimos é a qualidade mais preciosa que nossa Irmandade possui… ou nos mantemos unificados ou A. A. morre.
Nossas Tradições são elementos-chave no processo de deflação do ego, necessário para alcançar e manter a sobriedade em Alcoólicos Anônimos. A Primeira Tradição me relembra de não atribuir a mim o mérito ou autoridade por minha recuperação. Colocando o bem-estar comum em primeiro lugar me faz lembrar de não tornar-me um curandeiro neste programa; ainda sou um dos pacientes. Modestos pioneiros construíram a enfermaria. Sem eles, duvido que eu estaria vivo. Sem o Grupo, poucos alcoólicos se recuperariam.
O papel ativo na renovação da rendição da vontade me da condições de ficar de lado da necessidade de dominar, do desejo de reconhecimento, duas coisas que representaram um grande papel no meu alcoolismo ativo. Adiando meus desejos pessoais pelo bem maior do crescimento do Grupo, contribuo para a unidade de A. A. que é central para toda recuperação. Ajuda-me a lembrar que o inteiro é maior que a soma de todas as suas partes.
(Fonte: Reflexões Diárias – pag. 39 / 31 de Janeiro)

PELA FÉ E PELAS OBRAS

A estrutura da nossa Irmandade foi forjada à custa dos ensinamentos da experiência… Assim se deu com A. A. Pela fé e através das obras fizemos valer as lições de uma incrível experiência. Essa fé e essas obras estão hoje presentes nas Doze Tradições de Alcoólicos Anônimos que – se Deus quiser – manterão nossa unidade durante todo o tempo que Ele precisar de nós.
Deus me permitiu o direito de estar errado para que nossa Irmandade exista com ela é hoje. Se coloco a vontade de Deus em primeiro lugar na minha vida, é muito provável que A. A., como eu o conheço, permanecerá como está hoje.
Fonte: Reflexões Diárias – pag. 306 / 24 de Outubro)

PRIMEIRA TRADIÇÃO
Dezembro de 1947

Todo o nosso programa de A. A. está firmemente baseado no princípio de humildade – quer dizer, de perspectiva. Isso supõe, entre outras coisas, que logramos relacionar-nos de forma devida com Deus e com nosso semelhante; que nos vejamos a nós mesmos como realmente somos – “uma pequena parte de um grande todo”. Ao vermos assim ao nosso semelhante desfrutaremos da harmonia de nossos Grupos. Por está razão, a tradição de A. A. pode dizer com confiança: “Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar”.
Alguns perguntarão: “Isto quer dizer que em A. A., o indivíduo não tem muita importância? Será dominado pelo seu Grupo e absorvido por ele?”
Não, não parece que seja assim. Talvez não haja na terra sociedade que se preocupe mais com o bem estar pessoal de seus membros, que esteja mais disposta a conceder ao individuo a maior liberdade possível para crer e atuar. Em Alcoólicos Anônimos, nunca se ouvem as palavras “tem que”. Poucos são os Grupos que nos impõem castigos pelo não cumprimento de normas. Nós sugerimos, mas nunca castigamos. O cumprimento ou não de qualquer princípio de A. A. é um assunto que fica a cargo da consciência de cada individuo; ele é o juiz de sua própria conduta. Seguimos ao pé da letra as antigas palavras “não julgarás”.
“Mas,” alguns protestam. “se A. A. não tem autoridade para governar seus membros ou seus Grupos, como pode estar seguro de que o bem estar comum deve estar em primeiro lugar? Como é possível ser governado sem um governo? Se cada um faz o que lhe agrada? Como é que isso não é uma pura anarquia?”
A resposta parece ser que na realidade nós Aas não podemos fazer o que queremos, mesmo que não haja nenhuma autoridade humana constituída que nos impeça. Efetivamente, nosso bem estar comum está protegido fortemente. Assim que, qualquer ação põe em perigo o bem estar comum, a opinião do Grupo se mobiliza para nos lembrar, nossa consciência começa a reclamar. Se alguém persiste, pode ser que fique transtornado o suficiente para embebedar-se e o álcool lhe dá uma surra. A opinião do Grupo lhe indica que se desviou, sua própria consciência lhe diz que está equivocado; e se vai longe demais, o álcool acaba o convencendo de seu erro.
Assim chegamos a nos dar conta de que, em assuntos que afetam profundamente o Grupo no seu todo, “nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar. Acaba a rebeldia e começa a cooperação, porque tem que ser assim; nos disciplinamos a nós mesmos.
Assim sendo, acabamos cooperando porque desejamos fazê-lo; vemos que sem uma unidade substancial, o A. A. não pode existir e que, sem o A. A., nenhuma recuperação duradoura pode ser possível para ninguém. Colocamos as ambições pessoais de lado quando estas podem prejudicar ao A. A. Humildemente, confessamos que não somos senão “uma pequena parte de um grande todo”.
(Fonte: A Linguagem do Coração – pags. 91 e 92)

VOCÊ NÃO ESTA SOZINHA

Você não está sozinha
Se você tiver problemas com a bebida – se suspeitar que ela possa ser um de seus problemas – então você poderá ler aqui as histórias de mulheres que um dia já pensaram e se sentiram como você.
Por mais diferentes que sejam entre si, todas elas finalmente chegaram ao ponto em que tiveram de reconhecer que o álcool estava afetando seriamente suas vidas.
E para todas essas mulheres – jovens, maduras, idosas, donas de casa, profissionais liberais, ou estudantes, vindas de ambientes ricos ou pobres, e de muitas camadas sociais, culturais e étnicas – a resposta foi a mesma. Através do programa simples de Alcoólicos Anônimos, encontraram um meio para deixar de beber, para se manterem sóbrias, e construírem sóbrias uma vida mais plena e gratificante que qualquer delas jamais imaginara ser possível.
A palavra “alcoólico” pode perturbá-la. Para muitas pessoas, significa apenas uma pessoa fraca ou um marginal. E quando é aplicada a mulheres, este engano continua particularmente forte. A maior parte da sociedade tende a ver com tolerância e até achar engraçado um homem bêbado, porém se afasta enojada de uma mulher que se encontre nas mesmas condições. E o que é ainda mais trágico: a mulher alcoólica, ela mesma, freqüentemente compartilha desse preconceito. Para ela, o peso da culpa que todo bebedor alcoólico carrega na consciência é muitas vezes dobrado.
As mulheres de A. A. lançaram longe a carga paralisante da culpa injustificada. Aprenderam um fato, comprovado pela medicina, que se aplica a elas: o alcoolismo em si não constitui uma questão, nem de moral nem de comportamento (embora certamente influa nos dois).
O alcoolismo é um problema de saúde. É uma doença, e como tal é descrita pela Associação Mundial de Saúde.
Esta definição já não é mais revolucionária. Tem sido muito divulgada, e a maioria das pessoas a aceita com naturalidade, desde que de forma genérica: “É claro que o alcoolismo é uma doença”. Porém, quando as luzes se concentram sobre uma pessoa específica – uma colega de trabalho, uma vizinha, uma amiga, uma pessoa de sua família ou você mesma, talvez – aí as antigas atitudes voltam à tona imediatamente: “Por que ela não consegue beber como uma senhora?”, ou “Por que eu não posso beber como as outras mulheres?”, ou ainda, “Por que não consigo parar?”, “Não tenho força de vontade!”, ou até mesmo: “Eu não presto.” A nível individual, a doença é vista quase sempre como falta de educação, quando em suas fases iniciais, e, quando já mais avançada, como um profundo fracasso moral.
O aspecto possivelmente mais estranho e traiçoeiro da doença do alcoolismo é a maneira sutil com que se esconde do próprio doente. Os alcoólicos são peritos quando se trata de não enxergarem sua própria doença. Freqüentemente são os últimos a admitir que têm um problema com a bebida.
Se a doença é tão difícil de ser reconhecida por uma pessoa alcoólica, como poderá você dizer se é ou não uma alcoólica? Qual é a medida? Beber de manhã? Beber sozinha? A quantidade de bebida que você consome? Pode não ser nada disso. O teste do alcoolismo não é quanto você bebe, nem com quem, nem quando, nem onde, nem o que você bebe – pois álcool é álcool, não importa que sabor tem, nem se é diluído – nem mesmo porque você bebe. A medida correta do alcoolismo se encontra nas respostas a estas outras perguntas:
O que a bebida já fez a você? De que maneira a bebida afeta sua família, seu lar, seu desempenho no trabalho ou na escola, sua vida social, sem bem-estar físico, as suas emoções mais íntimas?
Dificuldades em qualquer uma destas áreas, sugerem a possibilidade de que você sofra da doença do alcoolismo. No início pode ser que não se apresentem como dificuldades devastadoras. Alguns alcoólicos começam como bebedores sociais, gozando de imensa capacidade para beber e, literalmente, “não sentindo absolutamente nada”. Já outros apresentam os sintomas típicos do alcoolismo desde o princípio. Se você está “funcionando” bem – cuidando da casa, estudando, trabalhando, etc. – mas ao custo de ocultar os efeitos de suas bebedeiras, pergunte a si mesma: Qual o esforço, quanta força de vontade você precisa pôr em jogo para manter o disfarce? O efeito vale o esforço? Ainda resta algum divertimento nesta forma de “divertir-se”?
O alcoolismo é uma doença progressiva. Começando na juventude ou em idade mais avançada, o modo de beber foge cada vez mais do controle do indivíduo, e mais grave ainda, a própria tentativa de controlas a bebida pode tornar-se uma preocupação. Beber somente vinho ou cerveja, fazer promessas a si mesma de que apenas beberá em fins-de-semana, espaçar os dias em que bebe: eis uma pequena amostra dos muitos métodos desenvolvidos por bebedores no afã de tentarem controlar suas maneiras de beber. Tais tentativas fracassadas são, igualmente, um sintoma clássico da doença do alcoolismo, tanto como aquela ressaca insuportável ou o apagamento terrivelmente assustador.
Há um ponto crítico, e você não precisa chegar lá passando primeiro por um leito de hospital, nem por um centro de tratamento ou por uma prisão, se bem que muitas mulheres somente chegaram a Alcoólicos Anônimos depois de atingirem esses estágios mais avançados da doença. Em qualquer ponto da progressão vertiginosa dessa doença chamada alcoolismo, você pode afastar-se e manter-se longe dela, simplesmente estendendo sua mão e dispondo-se a enfrentar o seu problema. Não faz diferença se você tem 15 ou 50 anos; se você é rica ou pobre; formada numa faculdade ou se abandonou a escola no primário; se ganha o seu próprio sustento ou mora em casa de uma família; não importa se é uma paciente num centro de tratamento; se está cumprindo pena numa prisão; nem se é uma mulher de rua. A ajuda existe, mas é você quem tem que tomar a decisão de pedi-la.
Em A. A. não há formulários de inscrição para serem preenchidos, nem taxas de matrícula a serem pagas. Você não será convidada a adotar nenhum esquema de tratamento formal.
Você simplesmente encontrará homens e mulheres que acharam um caminho para se livrarem da dependência do álcool, e que começaram a consertar os estragos que ele havia feito em suas vidas. Você também pode gozar dessa liberdade e dessa recuperação.