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ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – THE NEW YORK TIMES MAGAZINE

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
The New York Times Magazine

Mais jovens, negros, mulheres, homossexuais, hispânicos, e alcoólicos adictos a outras drogas agora ingressam no AA.

Por Nan Robertson

Somente Bill Wilson poderia ter imaginado o AA como ele é hoje, porque somente Bill, entre os antigões dos Alcoólicos Anônimos, tinha sonhos tão grandiosos, improváveis. No verão de 1935 havia somente dois membros de AA – Wilson um corretor falido de Wall Street, e Dr. Bob Smith, um médico-cirurgião – sentando na cozinha de Smith em Akron, Ohio, através de metade da noite, fumando um cigarro atrás do outro e tomando goles de café e tentando entender como eles poderiam fazer outros bêbados ficarem sóbrios como eles mesmos. A sociedade que eles tinham fundado atraiu somente 100 membros nos quatro próximos anos, ela nem mesmo tinha um nome até 1939.
Agora existem mais de um milhão e meio de nós ao redor do mundo – membros do mais bem sucedido, imitado, no entanto frequentemente incompreendido movimento de autoajuda do século XX.
Cerca de metade dos Aas estão nos Estados Unidos, o resto está espalhado por outros 114 países. Muitos milhões adicionais passaram pelo movimento e se recuperaram através deste programa, mas o AA periodicamente conta apenas aqueles que estão atendendo às reuniões regularmente.
Para aqueles que sabem, existem dicas da presença de AA em toda parte: o aviso na capota do Jipe numa cidade mexicana que diz o “Grupo Bill Wilson” vai se encontrar esta noite, o adesivo no para-choque em West Virginia que diz “Mantenha simples”. A prece da serenidade, atribuída ao teólogo Reinhold Niebuhr e recitada no final das reuniões de AA, aparece em uma moldura na parede de uma sala de estar da África do Sul ou bordada em um travesseiro de uma loja de luxo na Madison Avenue.
Aas se encontram em Pagopago, Samoa Americana, nas quartas-feiras à noite, em McMurdo Sound, Antártica, aos sábados, e em Lilongwe, Malawi, as Segundas e Sestas. Eles se encontram para apenas sentar e conversar entre reuniões em uma loja de biscoitos e cafés na avenida principal de Peterborough, N. H., uma cidade de 5.200, que tem 4 grupos de AA. Um deles é chamado de Nossa Cidade, em honra de Thornton Wilder, que usou Peterborough como modelo para sua nostálgica peça teatral sobre a vida em uma pequena cidade americana.
A torre de uma Igreja Católica Romana perto do Jardim do Convento em Londres e uma sala de diretoria de um banco na região de Marin, na Califórnia, estão reservadas para reuniões de AA uma vez por semana.
Alguns grupos se encontram em barcos, no oceano ou em portos. A estes arranjos exóticos devem ser incluídos os milhares de prosaicos porões e salões em igrejas, centros comunitários e hospitais, onde a maioria dos AAs progridem no seu caminho de volta para uma vida de qualidade.
Na última década ou tanto, um grande número de americanos, sobretudo artistas, revelaram em público que eles são alcoólicos recuperados.
Quase todos disseram que sua motivação e sua esperança eram, inspirar, por seu exemplo, os alcoólicos ainda bebendo a se recuperarem. Mas a grande massa de membros em toda parte é composta de pessoas mais ou menos comum.
Eles não são estrelas de cinema, nem vadios miseráveis, o grande drama de suas vidas não foi exibido com holofotes nem em motéis de baixa categoria.
Estes alcoólicos sofreram, cada vez mais isolados, em bares, em seus próprios quartos de dormir, ou em salas de estar de amigos que se afastaram por cause de seu comportamento bêbado. Sua recuperação foi trabalhada em particular.
Nos últimos 50 anos, a essência do AA – sua literatura básica, seu programa de recuperação e seu jeito de ver a vida – mudou muito pouco. Mas em termos de números e diversidade de seus membros, o AA, hoje, estaria irreconhecível para seus pioneiros. Nos anos iniciais, os membros de AA eram quase exclusivamente homens, brancos, de classe média, na meia idade e ocidentais.
Eles eram homens que tinham caído muito, frequentemente do topo de suas profissões e negócios.
O AA de 1988 é enorme, crescentemente internacional, multiétnico, multi racial, de todas as classes, menos religiosamente rígido do que no início, mais receptivo a pessoas gays e mulheres, que agora são um terço do total de membros norte-americanos e cerca de metade dos membros de AA nas grandes cidades. Crescentemente, mais pessoas procuram ajuda no AA nos primeiros estágios da doença.
Uma tendência muito mais abrupta e espetacular é que pessoas jovens correram para o AA nos últimos 10 anos, a maioria deles adictos a outras drogas além do álcool. Dr. LeClair Bissel, o diretor fundador do centro de alcoolismo Smithers, em Manhattan, expressa o consenso da pesquisa sobre alcoolismo e tratamento a nível mundial quando ela diz: “Quase não há mais alcoólicos “puros” entre pessoas jovens. Eles estão viciados em bebida e outras drogas, ou somente outras drogas”.
É comum agora em reuniões de AA ouvir um jovem com a palavra dizer: “Meu nome é Joe, e eu sou um viciado em drogas e alcoólico”.
Os alcoólicos cruzados enraivecem alguns membros de AA. Um com 20 anos de sobriedade diz: “Esta irmandade foi formada para ajudar os alcoólicos que ainda sofrem, e alcoólicos somente. Daí porque ela tem sido tão bem sucedida – nós não macaqueamos em volta com outros problemas”.
Em algumas poucas comunidades, membros de AA formaram grupos direcionados para aqueles acima de 30 anos. A mensagem é clara: drogados não são desejados. Este desenvolvimento enfurece John T. Schwarzlose, diretor executivo do centro Betty Ford para usuários de drogas em Rancho Mirage, Califórnia: “AA é o epítome de tolerância, flexibilidade e inclusão, mas alguns usuários de drogas me falaram sobre serem mandados para fora de reuniões de AA no meio oeste e sul, quando eles disseram que eram apenas usuários de drogas”. Nas grandes cidades e no escritório central do AA, as atitudes quanto ao usuário cruzado são muito mais receptivas.
Por um longo tempo, acreditou-se que Alcoólicos Anônimos era um fenômeno apenas norte-americano. Acreditou-se que seus temas de autoajuda e voluntarismo não seriam transferíveis para outras culturas mais relaxadas. O AA nascido equatoriano coordenador dos grupos hispânicos expressou o ponto de vista inicial entre seus amigos latinos: “O AA é ok para gringos, mas não para nós. Na América Latina… se um homem não bebe, ele não é macho”. Para sua surpresa, o AA começou a florescer entre hispânicos em 1970. Os 250000 membros do México são superados somente pelos Estados Unidos. O Brasil com 78.000 membros, e a Guatemala, com 43000 são os próximos maiores números na América Latina.
Até recentemente, o AA tinha sido incapaz de ganhar espaço na União Soviética ou no leste europeu. O movimento era visto lá como uma possível ameaça, por cause de seus princípios de anonimidade e confidencialidade, seu tom religioso e o fato de operar fora de qualquer controle governamental. No ultimo verão, a União Soviética enviou aos Estados Unidos 4 médicos especializados em adicção. Eles visitaram centros de tratamento de alcoolismo, e os estudos sobre álcool da escola de verão na Universidade de Rutgers e numerosas reuniões de AA. Quando eles voltaram para casa, ele levou grande número de panfletos de AA traduzidos para eles para o russo.
Até agora, a única nação do leste europeu a abraçar o AA foi a Polônia.
Seu governo finalmente reconheceu o que é chamado de valor “psicoterapêutico” de AA.
Nos Estados Unidos, aqueles que são familiares com as reuniões de AA notam que parece haver um numero altamente desproporcional para alguns grupos étnicos. “O alcoolismo anda junto com certas culturas, tais como os Celtas ou os escandinavos, que aprovam a bebida ou são pelo menos ambivalentes quanto a isto”, diz Dr. Bissel. “Mas em alguns ambientes ou religiões, as pessoas não bem por princípios. Estas culturas de abstinência nos Estados Unidos incluem Batistas, alguns outros protestantes do Sul e Mórmons”
Por um longo tempo, houve uma crença largamente aceita de que os judeus não se tornavam alcoólicos. O trabalho do JACS está ajudando a desfazer o mito. Judeus estão presentes em largos números, diz o JACS, nas reuniões de AA nas grandes cidades, onde existe uma população significativa de judeus. Mas raramente reuniões de AA acontecem em sinagogas ou em centros comunitários judeus.
Sheldon B., um conselheiro de alcoolismo em Nova York, falou de como poucos anos atrás, ele abordou seu próprio rabino com a ideia de abrir templo deles para um grupo de AA. Ele pensou que os membros judeus de qualquer grupo de AA poderiam se sentir mais confortáveis em aceitar ajuda em uma sinagoga do que em uma igreja. O rabino informou a ele que não havia necessidade: “Não existem judeus alcoólicos”. Quando Sheldon B. disse: “Mas eu sou um alcoólico”, o rabino pensou por um momento e então replico: “Você tem certeza de que você sabe que foi seu verdadeiro pai?”.
Embora existam grupos de AAs negros e grupos raciais mistos nas grandes cidades do norte, o número de AAs negros não parece refletir a proporção da raça na nação – 29 milhões, ou 12 por cento da população.
“Existe um grande estigma em ser negro e ser bêbado, mesmo recuperado, um professor negro da Filadélfia declarou em uma reunião dedicada ao assunto: “Eu cometi o erro de falar para a diretora que eu tinha um problema. Eu ingressei num centro de reabilitação. Ela me cortou.
Como um negro trabalhador social de Milwawkee explicou: “A comunidade negra tem medo que se os negros admitirem seu alcoolismo, isto vai reforçar o estereótipo de que eles são preguiçosos… A comunidade negra gosta de pensar que a opressão causa o seu alcoolismo… Outras minorias oprimidas usam o mesmo argumento. “Quem não beberia?” eles dizem, “Nossas vidas são tão desgramadas de terríveis… Esquecimento é o único jeito de escapar da dor”.
Homossexuais estão vindo para o AA e são bem vindos em comunidades sofisticadas. Alguns alcoólicos recuperados formaram grupos de gays somente, do mesmo modo como há grupos especiais para mulheres, médicos, agnósticos, advogados, pilotos aéreos e outros.
“Sendo criado no Alabama, eu fui ensinado a odiar a mim mesmo”, um membro gay falou em uma reunião de AA. “Eu era uma fresca preta. No AA, eu aprendi que Deus ama a todos nós. Meu negócio em AA é ficar sóbrio e te ajudar se você quiser isto”.
As pesquisas do AA não perguntam se os membros atendem a serviços religiosos ou se eles acreditam em Deus. Não há perguntas sobre origem étnica ou racial, preferência sexual ou se o alcoolismo é comum na família. Mas uma predisposição familiar para o alcoolismo é notadamente refletida no AA.
Frequentemente, palestrantes em reuniões começam: “Meu nome é Mary, e eu sou uma alcoólica. e meu pai era alcoólico”.
Membros antigos de AA acreditam que é perda de tempo arrastar outro alcoólico para a sobriedade se ele está determinado a não ser ajudado ou se recusa a acreditar que está doente. Mesmo assim, as cortes em alguns estados estão mandando milhares de infratores para as reuniões de AA em vez de para a cadeia. Mas o programa de AA algumas vezes pega mesmo com alcoólicos que não querem.
Há muitas coisas que as pessoas de fora acreditam que o AA é e que ele não é. Ele não é uma organização de moderação ou uma sociedade de proibição. O AA não quer salvar o mundo do gim. Ninguém te convida para ingressar no AA. Você é um membro se você disser que é, ou se você entrar em uma reunião de AA com o pensamento de que você tem um problema de bebida ou que você quer parar. Não existem papéis a serem assinados, nenhuma promessa a ser feita, nem obrigação de falar, nem braços torcidos. A atitude dos membros em relação às pessoas de for a que bebem moderadamente é: “Eu gostaria de poder beber como você, mas eu não posso”.
AA não é um culto religioso. Alguns membros são agnósticos ou ateus. Muitos escolhem acreditar que seu Poder Superior é seu grupo de AA. A maioria dos membros prefere chamar o programa de AA de espiritual. Ainda assim, Deus é mencionado direta ou indiretamente em cinco dos 12 passos, os quais o AA usa para ajudar a tratar indivíduos, e isto algumas vezes repele pessoas que poderiam de outro modo ser atraídas. .
AA não funciona para todo mundo. Mas bem, nada funciona para todo mundo. Cerca de 60 por cento daqueles que vem para o AA pela primeira vez, continuam no AA depois de irem às reuniões e “trabalhar o programa” assiduamente por meses ou mesmo anos. Usualmente, eles ficam sóbrios pra valer. Mas cerca de 40 por cento abandonam. Estas estatísticas refutam uma noção largamente difundida de que o AA é sempre bem sucedido ou uma “cura instantânea”. Apesar disso, sua taxa de sucesso é fenomenalmente alta.
Analise freudiana e fé religiosa, por exemplo, podem ser dois grandes caminhos para tratar o espírito humano, mas eles não funcionam por si mesmos para os alcoólicos. A grande maioria de médicos, psicólogos e membros do clero que são familiarizados com o AA, bem como quase todos os especialistas em alcoolismo colocam o AA como a escolha número 1 para um programa de recuperação de longa duração. Os preceitos do AA são presentes nos programas de todo centro de tratamento intensivo respeitável no país, incluindo aqueles do Hazelden no Minnesota, os Smithers em Nova York e o Centro Betty Ford. John Schwarzlose do centro Betty Ford expressa uma opinião típica: “Os pacientes perguntam quão importante é eles irem para o AA depois de saírem daqui. Eu digo: “Eu posso te dar uma garantia.
Quando você sair daqui, se você não for para o AA, você não vai conseguir.”
O AA não tem laços com partidos políticos, fundações, caridade ou causas, nem patrocina pesquisas sobre alcoolismo.
E diferente da maioria das organizações isentas de impostos, o AA, cujo orçamento atual é de 11milhões e 500 mil dólares, não faz campanha para arrecadar fundos. Nem aceita dinheiro de gente de fora. Os fundos que sustentam o escritório central de serviços vêm principalmente do enorme império de publicação do AA, o qual distribui literatura autorizada para os membros.
Cada grupo é autossuficiente, passando o cesto em cada reunião para ajudar a pagar o café, aperitivos, literatura e aluguel pelo espaço de reunião.
Aqueles presentes frequentemente dão um dólar. Outros podem simplesmente jogar uma moeda no cesto. Alguns podem não dar nada.
Nenhum membro pode doar mais que mil dólares por ano para o AA. Nem pode um membro deixar em testamento mais que mil dólares ou deixar uma propriedade para o AA, que nunca foi dono de nenhuma propriedade.
“A razão que nós desencorajamos presentes e heranças”, diz Dennis Manders, um não alcoólico que serviu por 35 anos como inspetor no escritório central do AA, “é que nós não queremos jamais que uma pessoa coloque um milhão de grana no tanque do AA e dizendo: “Agora, agora as coisas vão ser do meu jeito”.
Cerca de metade dos grupos não contribui com nada para o escritório central de serviços. Muitos membros sentem que bancar as despesas do seu próprio “grupo de base” é suficiente. Este tipo de autonomia e descentralização é típico dos Alcoólicos Anônimos.
A média de membros de AA, de acordo com pesquisas, atende a quatro reuniões por semana. Depois de cinco anos de atendimento regular, alguns AAs vão para menos e menos reuniões. Eles podem parar de ir de uma vez quando eles sentem que eles podem funcionar confortavelmente sem álcool. No entanto, alguns palestrantes em reuniões são cheios de histórias de aviso sobre como eles se afastaram do AA e beberam novamente, algumas vezes desastrosamente e por longos períodos, antes de retornarem para o grupo.
O movimento funciona de modo simples e quieto. Os membros usualmente se dão sem reservas, trocam números de telefones com novatos, vêm para ajudar a qualquer hora quando um membro está em crise, são abertos com dicas de como evitar o primeiro gole. A maioria das pessoas no AA são flexíveis, tolerantes ou excêntricas, suspeitam de “regras” e “deveres”. A falta de ritual pode ser uma surpresa para os iniciantes. Também é a ausência de confrontação, dedos apontados, acusações, debates raivosos e lamentação crônica.
A essência do AA pode ser adivinhada nos grandes, ruidosos encontros, tais como as convenções internacionais, realizadas a cada cinco anos. É na intimidade das reuniões na vizinhança que a verdade, o sabor e um pouco de noção das razões do sucesso do AA pode ser capturada. Os membros podem se encontrar em pequenos grupos de 2 ou 3, ou tão grandes quanto 200, mas a frequência usual é algo entre 12 e 40 pessoas. Na cidade de Nova York, o AA mais ativo de qualquer lugar, há uma escolha de 1.826 reuniões listadas mantidas por 724 grupos toda semana.
Na medida em que o AA cresceu e se diversificou, o estigma do alcoolismo gradualmente de desgastou. Houve muitos estágios na estrada do AA para a respeitabilidade, começando com nos anos 40, que gradualmente se transformou na percepção do público da sociedade de alcoólicos recuperados partindo da descrença e até mesmo do ridículo para aquela de uma organização aceita e admirada. Nada foi mais significante do que a ação tomada pela Associação Médica Americana.
Em 1956, os custódios da AMA e sua Casa dos Delegados declarou que o alcoolismo era uma doença, desta forma validando a crença central do AA, desde seus co-fundadores em diante, de que isto é uma doença, não um pecado.
Agora, a Suprema Corte dos Estados Unidos está debatendo a legalidade do assunto. Em sete de dezembro último, a corte recebeu uma contestação de dois veteranos da Guerra do Vietnam contra a Administração dos Veteranos por excluir o “alcoolismo primário” da lista de doenças e desabilidades que permitem os veteranos mais tempo para pedir benefícios de educação. Extensões podem ser garantidas para veteranos impedidos por problemas mentais ou físicos “que não são resultado de uma má conduta deliberada”. Espera-se que a justiça ofereça uma opinião antes do fim do termo da Corte em junho.
A estrutura do AA é um pouco mais difícil de pegar do que a teoria do alcoolismo como doença. É próximo da verdade dizer que o AA consiste de um milhão de índios sem chefes. E isto é menos uma organização do que um organismo que continua se dividindo como uma ameba em ainda mais grupos. Se um membro não gosta de como as coisas são conduzidas em seu grupo, ele pode começar outro com as pessoas que achar mais compatíveis. Isto levou ao dizer de AA “Tudo que você precisa para começar um novo gruo é dois bêbados, uma garrafa de café e algum ressentimento”.
Existe uma estrutura nos Alcoólicos anônimos, mas esta acertaria na cabeça de qualquer noção convencional de como conduzir um negócio. Basicamente, os grupos locais são chefes e o comitê de custódios e os funcionários do Escritório de Serviços Centrais devem obedecer a suas ordens. O comitê de custódios é composto de 14 membros de AA e 7 não alcoólicos.
Embora os alcoólicos tenham todos as funções administrativas do topo, eles nunca manejam dinheiro. A operação financeira do AA é conduzida por não alcoólicos. A razão é que Bill Wilson e os primeiros Aas tinham medo de que se alguém conduzindo o AA caísse do trem, isto seria ruim o suficiente, mas se ele estivesse administrando as finanças também, os resultados poderiam ser desastrosos. A filosofia permaneceu.
A maneira como o AA dirige suas questões coletivas e decide procedimentos pode ser vista mais claramente – ou em toda sua confusão democrática – na sua Conferencia de Serviços Gerais anual, a aproximação maior de um corpo de governo do AA. Cerca de 135 pessoas atendem, incluindo 91 delegados eleitos nas assembleias regionais nos Estados Unidos e no Canadá. Também nas mãos dos custódios do comitê e dos representantes dos funcionários do escritório central.
O dia a dia dos negócios dos Alcoólicos anônimos tem sido conduzido desde 1970 em um prédio de tijolos na Park Avenue South, 468, no meio de Manhattan. Seja qual for o procedimento decidido na conferência é aplicado pelos funcionários do escritório central. Os trabalhos são divididos em especialidades, tais como literatura, centros de tratamento, prisões, informação pública e cooperação com profissionais – médicos, conselheiros, trabalhadores sociais e professores, por exemplo, no campo do alcoolismo. E em caso alguém se torne excessivamente fã de uma especialidade, todos os funcionários do topo, com exceção do administrador geral e do coordenador hispânico, trocam de funções a cada dois anos. A mesma rotatividade frequente ocorre em cada nível do AA. Servidores nos grupos locais usualmente renunciam cada seis meses. Os sete custódios não alcoólicos, que são frequentemente especialistas em alguma profissão, tal como medicina, direito, bancos ou assistente social, serve a uma necessidade especial. Joan K. Jack on, um sociólogo, com longa experiência entre os alcoólicos, explica: “Nós podemos usar nossos nomes completos em público. Nos não somos percebidos pelos de fora como tendo nenhum interesse velado. Privadamente, com o AA, nossa maior função é de incomodar e questionar”.
O que faz o escritório central de AA funcionar é o império de publicação do Serviço Mundial de AA. Ele agora traz 8 milhões e 800 mil dólares anuais ou 76 por cento dos rendimentos corporativos anuais de AA. Esta é a causa de algumas trepidações entre aqueles que fizeram o que equivale a um juramento de pobreza. Cada ano, o AA distribui 7 milhões de cópias de mais de 40 panfletos , e quase um milhão e meio de cópias de 6 livros e dois livretos. Sete milhões de cópias do Big Book têm sido vendidos. No último ano somente, cerca de um milhão de Big Books foram comprados, virtualmente todos eles em reuniões de AA, centros de reabilitação alcoólica ou através de ordens pelo correio.
Pela época de sua morte, cedo em 1971, Bill Wilson estava ganhando cerca de 65000 dólares por ano em royalties do Big Book e três outros livros que ele escreveu para o AA. No ultimo ano, sua viúva, Lois, recebeu 912 mil dólares em royalties. Sob os termos do acordo que Bill fez com o escritório central de AA em 1963, foram alocados para ela 13,5 por cento dos royalties de Wilson, outros 1,5 por cento foram para sua última amante, que morreu poucos anos depois de Bill.
Tem havido quase nenhuma publicidade negativa sobre Alcoólicos Anônimos nas suas cinco décadas de história. Pesquisas abrangentes retornaram somente umas poucas visões críticas na imprensa. Escrevendo no The Nation, em 1964, Jerome Ellison declarou que o conselho superior conservativo do AA tinha perdido o contato com o ainda mais diversificado membro comum. No mesmo ano, Arthur H. Cain, um psicólogo de Nova York, em um livro e em artigos de várias revistas, chamou o AA de um “culto” que escravizava seus membros para uma sobriedade fanática. A reação de Bill Wilson foi típica da tolerância do homem. O co-fundador tentando acalmar a confusão seguinte no escritório central, disse: “Em todos estes anos, este é o primeiro criticismo completo que nossa irmandade já teve. Logo, a prática de absorver críticas como esta de bom humor deve ser válida”.
Este foi o primeiro criticismo público e provou ser o último.
Privadamente, com o AA, tem havido uma crescente insatisfação com o escritório central. Alguns membros dizem que os membros do serviço estão se tornando congelados em burocracia e são excessivamente sensíveis a pressões dos membros mais rígidos e de visão limitada, particularmente os antigões, que têm o Big Book e outras literaturas autorizadas quase como as Escrituras Sagradas.
“Se alguma coisa vai destruir o AA”, diz Dr. John Norris, um médico não alcoólico, amigo de Bill Wilson e presidente do comitê de custódios de AA por muitos anos, “Será o que eu posso chamar de “advogados das tradições”.
Eles acham mais fácil viver com preto e branco do que com cinza. Estes diáconos sangrentos – estes fundamentalistas tem medo e lutam contra qualquer mudança”.

Fonte: The New York Times Magazine, 21 de fevereiro de 1988.

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OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS – DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS

Dr. Lais Marques da Silva,
Ex-custódio e presidente da JUNAAB.

O silêncio que se observa nas reuniões dos grupos de A.A. cria uma atmosfera de confiança e respeito recíprocos entre o alcoólico que faz o seu depoimento e os demais companheiros. O olhar daquele que faz o seu depoimento encontra calor humano e resposta por parte daqueles que o escutam em silêncio, tudo isso levando a uma comunhão de interioridades. O silêncio permite o estabelecimento de uma abertura, de uma disponibilidade pessoal em relação àquele que oferece a sua experiência além de facilitar o aparecimento de uma relação marcada pelo sentimento de confiança, fundamental para a comunicação, para que se possa abrir para o outro, para que haja o relacionamento que possibilita o desenvolvimento de liames profundos e para o surgimento de amizades verdadeiras. Confiar é indispensável para se livrar de doenças e é manifestação de fé em si mesmo, nos outros e no Poder Superior. O silêncio é o caminho que leva ao encontro consigo mesmo e com o outro.

O silêncio de quem escuta um depoimento transmite a seguinte mensagem a quem o faz: eu sei que você tem valor, sei que você é apenas um doente, sei que você é um ser humano e que, como eu, sofre de uma devastadora enfermidade. Por tudo isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito, a minha compreensão e a minha compaixão, esta, entendida como a consciência profunda do sofrimento de outra pessoa associada ao desejo de ajudá-la.

Dar atenção ao próximo é ato de amor, e a maneira mais comum e importante do exercício da atenção é escutar. Mas aprendemos na escola a ler e a falar, mas não a escutar, a despeito de que as pessoas, na sua vida diária, passam muito mais tempo escutando do que falando ou escrevendo. Mas é difícil escutar bem e, na maioria dos casos, as pessoas simplesmente não escutam ou praticam uma escuta seletiva em que ficam atentos apenas ao que lhes interessa ou para encontrar o momento certo em que uma conversa possa ser encerrada.

Para escutar, é necessário calar, silenciar, abrir os ouvidos e se por atentamente a escutar quem fala. Ouvir profundamente significa auscultar, prestar atenção, dar ouvidos, compreender, acolher, entender, examinar, discernir. O silêncio dos que escutam um depoimento é como se fosse uma substância mágica que possibilita a expressão daquele que doa o seu depoimento. A relação com o conjunto do grupo não se faz apenas pela continuidade da fala mas também, dispondo de tempo, pelos momentos de suspensão em que aquele que oferece o seu depoimento organiza o raciocínio, pelos momentos em que se cala; até porque a fala não revela o pensamento por inteiro e porque também é habitada pelo silêncio, completada pelo impensado e pelo paradoxo.

É preciso estar disposto a se esforçar para conseguir escutar verdadeiramente. O esforço para escutar o depoimento de um companheiro vem do fato de entender que ele necessita da nossa atenção e que é digno dela. Por outro lado, a atenção dedicada pelo companheiro que ouve um depoimento também o beneficia, pois resulta em seu próprio crescimento que, por outro lado, ocorre a partir do conteúdo daquilo que está recebendo. No momento de silêncio, em que ouvimos atentamente o depoimento de um companheiro, suspendemos todos os nossos juízos, pensamentos e preocupações. Desapegamo-nos do nosso próprio ser. Esse silêncio nos convida a superar os obstáculos do preconceito, da exclusão, da falta de diálogo e da falta de solidariedade.

Podemos avaliar, a partir das considerações que vimos fazendo, a importância de se estar em um ambiente em que se desfrute de um profundo e acolhedor silêncio quando nos lembramos de situações que, muitas vezes, marcaram muito as nossas vidas. Recordamos de várias situações das quais saímos nos sentindo muito mal por não termos conseguido dizer o que desejávamos. Não é que tenhamos sido muito exigentes, mas, apenas, que tivemos dificuldade em articular calmamente o que desejaríamos ter dito e o resultado é que ficamos frustrados, raivosos e nos sentindo culpados. Quando podemos, descarregamos essa raiva em alguém e o que resulta é que as pessoas que estão à nossa volta fecham seus ouvidos para as nossas colocações, resultando que fica, por mais essa razão, ainda mais afastada a esperança de se entrar em harmonia com os outros. Podemos também, por decoro, jogar a raiva para dentro e, nesse caso, vamo-nos tornando progressivamente mais descontentes e tendemos a abandonar o convívio daquelas pessoas ou até mesmo a abandonar uma instituição a que pertencêramos.

No entanto, ao contrário, desfrutando do silêncio respeitoso reinante nas reuniões dos grupos, os alcoólicos têm oportunidades repetidas de, calmamente, ir se desenvolvendo e se tornando progressivamente mais capazes de realizar uma comunicação plena sem que ocorra o fechamento dos ouvidos por parte dos que ouvem o depoimento. Desfrutando do silêncio do grupo, pelo contrário, muitos companheiros vêm curtindo a sensação positiva de liberdade, de alívio e de relaxamento que vem depois de terem podido passar as suas mensagens, de terem participado e colaborado. À medida que os depoimentos se sucedem, o raciocínio vai ficando cada vez mais claro, as idéias vão sendo arrumadas, a qualidade do relacionamento com os companheiros do grupo vai melhorando. Fica clara a importância da lingüística nos processos de socialização e de individuação que possibilitam o entendimento e a aprendizagem social.

Na verdade, a língua presa e o sentir-se culpado são manifestações longínquas de falta de afirmação pessoal, de incapacidade de ser assertivo e aí vale notar que a falta de auto-estima está na raiz do problema. Sem acreditar que temos valor, não seremos capazes de fazer as nossas colocações, de expressar as nossas necessidades de modo convincente e, nessa condição, os nossos argumentos irão falhar e recuaremos ou concordaremos quando o que desejávamos era dizer não.

A essa altura, é importante destacar que o amor ao próximo é uma via de mão dupla porque, estando dirigido para aquele que faz o depoimento, o faz perceber a concentração, a atenção e o amor que lhe chegam da parte de quem o escuta, e o faz se sentir gratificado. Quem faz o depoimento doa a sua experiência, valiosa e única, e quem o escuta, o receptor, se torna, desse modo, também doador, na medida em que oferece ao depoente a sua atenção e o seu amor. Escutar com atenção total e completa, avaliando cada palavra e entendendo cada frase, é a verdadeira forma de escutar, que exige um grande e indispensável esforço de concentração ao dedicar o seu tempo apenas a quem faz o seu depoimento, colocando de lado as suas preocupações, os seus pensamentos. É um esforço amoroso. Fazê-lo é prova de estima e consideração e, quem escuta, ao valorizar o depoimento, faz o depoente se sentir valorizado. Sentindo-se assim, o depoente ficará estimulado a fazer relatos de maior conteúdo. Fica disposto a oferecer a sua estima e, com isso, estabelece-se um ciclo, ascendente e criativo, de evolução e de crescimento. Mas esse ciclo virtuoso exige atenção, concentração e, portanto, esforço, e não poderá ocorrer senão em ambiente de silêncio completo. O barulho, as conversas e os movimentos de pessoas dentro do grupo tiram a atenção, quebram a concentração e todo o riquíssimo processo fica comprometido.

A escuta atenta implica em contenção e em afastamento da própria personalidade e isso leva à aceitação do outro. Por outro lado, percebendo-se aceito, o companheiro que faz o seu depoimento sente-se menos exposto, menos vulnerável e isso cria um caminho para que o companheiro possa abrir-se mais completamente. Importa ainda considerar que, freqüentemente, o depoente recebe atenção amorosa depois de muitos anos de um grande vazio e, às vezes, até pela primeira vez na vida.

O fato importante e fundamental para a recuperação do alcoólico, e que só é possível no ambiente silencioso dos grupos de A.A., é que o companheiro só ganha consciência da importância da sua individualidade na medida em que é reconhecido como tal pelos outros companheiros, pelas outras consciências. Isso ocorre na família, posteriormente na vida social e, especialmente, nos grupos de A.A.. A identidade da consciência individual, subjetiva, depende desse reconhecimento uma vez que a identidade do eu só ocorre através da identidade do outro que me reconhece como tal e que, por outro lado, depende também de que eu o reconheça. Este é um mecanismo extremamente importante na construção do indivíduo, pois que indispensável para o crescimento da sua própria humanidade. E isso acontece no ambiente respeitoso e silencioso dos grupos de A.A..

A compaixão que é despertada nos companheiros dos grupos, numa atmosfera marcada pelo silêncio, significa que eles sentem no coração um impulso forte para ajudar aquele que faz o seu depoimento a se livrar do seu sofrimento. É uma saudável atitude da mente e do corpo que procura aliviar a dor e o sofrimento de outros seres humanos. A compaixão é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os companheiros do grupo. Resulta, então, que as pessoas se sentem mais próximas e mais confortáveis no convívio mútuo. Pensam nas outras pessoas, chegam a uma compreensão madura de si mesmas e das suas relações com os outros.

Não há sentimento mais denso e mais enriquecedor que a compaixão. Nem mesmo a nossa própria dor pesa tanto quanto a que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogando conosco, começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento, dor que é prolongada por muitos ecos, ou seja, pelas lembranças que conservamos e que voltam à nossa consciência repetidas vezes. Esses sentimentos compõem a espiritualidade e aumentam a nossa dimensão humana; despertam o amor ao próximo, o sentimento de fraternidade.

O sofrimento é uma experiência universal e, por isso, deveria existir mais compaixão no mundo. O problema está em que, freqüentemente, não nos encontramos abertos para sentir dor. Se fugimos dela e nos defendemos, isto significa que também nos fechamos para o aparecimento da compaixão. Mas não é preciso ser santo para sentir compaixão, ela é a resposta natural de um coração aberto em relação a outro ser humano.

Usualmente estamos com os corações fechados para sentir dor. Afastamo-nos da dor, nos fechamos, nos defendemos. Neste caso, a fonte da compaixão permanece fechada e saímos do que é verdadeiro e próprio do ser humano para o que é fabricado, decepcionante e fonte de confusão, isso quando nos voltamos para as coisas do mundo que nos cercam.

Compaixão não é o mesmo que tristeza. As pessoas usualmente têm uma aversão ao sofrimento, à tristeza, mais do que uma abertura em relação a ela. Assim, dizemos que uma pessoa é “baixo astral” e nos afastamos dela porque nos faz sofrer. Afastamo-nos ou fazemos alguma coisa para aliviar a nossa tristeza. Fazemos isso por nós. Mas se prestarmos atenção à diferença entre tristeza e compaixão, veremos que, na compaixão, não há fixação nem aversão e que a condição de abertura em relação ao sofrimento do outro é realmente a grande motivação para uma resposta hábil e efetiva. A tristeza incomoda, a compaixão abre o coração para o sentimento de amor ao próximo, para o fato de sermos irmãos.

Nos grupos, não há uma atmosfera de tristeza, como se poderia imaginar e as pessoas que não conhecem o A.A. pensam que lá existe muita tristeza. Ao contrário, o ambiente é alegre, composto por pessoas vitoriosas e que têm os seus corações abertos ao sofrimento, que sentem compaixão; e a alegria se traduz em saúde e é uma forma de terapia. Agora é possível imaginar o quanto de silêncio e respeito é necessário existir numa reunião de grupo para que se vá absorvendo essas realidades, sentindo essas tênues diferenças, mesmo não estando consciente delas.

O silêncio respeitoso propicia o surgimento da empatia, que é a tendência para sentir o que se sentiria caso estivesse na situação e nas circunstâncias experimentadas por outra pessoa. Os companheiros abrem, então, os seus corações porque aprendem como é o verdadeiro amor, como é grande o valor da oração e que é pelo amor e pela dor que os homens se elevam do seu chão cotidiano. Isso acontece justamente em momentos difíceis, em que o amor se tornou aparentemente impossível e o coração parece ter se transformado em pedra. Só o silêncio cria as condições para que tão importante aprendizado ocorra.

O silêncio permite que se desenvolva uma interação entre os companheiros dos grupos e que essa mesma interação se desenvolva dentro de um padrão de relação entre as pessoas que poderia ser entendido pelo binômio eu-tu, relacionamento direto e profundo, do olho no olho. O olho é a porta da alma e isso é conhecido desde os egípcios que pintavam as faces de perfil e sempre com um grande olho. Também nos mosaicos bizantinos os artistas retrataram as figuras humanas com olhos grandes, desproporcionais.
Ao olhar diretamente para a face de outros seres humanos, o companheiro percebe que algo o atrai e que vai além de si mesmo. Surge, na mente daquele que faz o seu depoimento, uma espécie de responsabilidade, o sentimento de uma ética. Deus, que não nos impõe seguir ou não uma lei, de algum modo, se revela na face do próximo. Fica criado o campo propício para o surgimento de uma espiritualidade leiga, de uma ideia do sagrado.

Graças ao desenvolvimento da solidariedade, da compaixão, do amor ao próximo e, em especial, à sinergia que o silêncio propicia, um fraco mais um fraco não mais são dois fracos e sim um forte. Do mesmo modo, uma asa mais uma asa significam uma ave completa, que pode voar, e que, por ser inteira, recupera a sua liberdade e ganha altura. Em A.A. ouvimos, com freqüência, os seus membros dizerem que são pássaros de uma asa só e que, por isso, têm que estar sempre juntos. Mas é importante enfatizar que, num grupo, só estarão realmente juntos quando em sintonia, que só é possível dentro de um ambiente marcado por um silêncio respeitoso.

Há também uma forma de relacionamento que se faz com as coisas e aí o binômio é outro, é o eu-isso. Muitas vezes, os seres humanos entram numa relação com os outros seres humanos no modo de eu-isso e aí a qualidade do relacionamento inter-humano se deteriora, pois que deixa de ser eu-tu. O pior é que esta relação, que reduz a dimensão humana da outra pessoa, ocorre freqüentemente. O relacionamento eu-isso é marcado pela idéia de posse, que não existe na relação eu-tu. No decurso das nossas vidas, nos relacionamos com pessoas e coisas e muita gente se relaciona com as outras pessoas como se elas fossem coisas, procurando tirar vantagem de uma relação que, neste caso, não tem a qualidade de ser verdadeiramente humana.

O relacionamento nos grupos de A.A. tem a qualidade do eu-tu, relacionamento precioso, mas que necessita de uma abertura do coração e de uma atmosfera de silêncio respeitoso, indispensáveis ao estabelecimento de troca de interiores. A qualquer quebra de atenção durante um depoimento, a relação eu-tu se desfaz e deixa de haver as trocas enriquecedoras de interiores. Vale lembrar que as reuniões de A.A. são eventos em que se fala e que dão espaço e suporte para uma profunda mudança existencial.

A compreensão empática, que só ocorre quando há silêncio, significa que sentimos, precisamente, os sentimentos e os significados pessoais daquilo que está sendo relatado pelo companheiro. É como se os que ouvem em silêncio estivessem dentro do mundo privado daquele que faz o seu depoimento, de modo que é possível entender não só o significado do que é conscientemente relatado, mas também o que está abaixo do nível de consciência. Ouvimos até o inaudível pois que, no silêncio, nos tornamos mais sensíveis e capazes de entender até o que não é relatado num depoimento. É ir além das suas dimensões. Há uma expansão da interioridade do ser humano em direção ao outro.

O silêncio cria condições para que aquele que faz o depoimento abra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal e isso é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o companheiro que faz o depoimento precisa ser ouvido e compreendido e não apenas escutado, como se fosse simplesmente um isso, uma coisa falante, um dispositivo eletrônico ou uma pessoa a pregar no deserto. O grupo de A.A. propicia o espaço de visibilidade necessário em que a grandeza fugaz da frágil existência humana possa aparecer além do fato de que a nossa existência só pode se desenvolver no estar-junto dos homens nesse mundo que nos é comum. Ademais, o silêncio também cria condições para uma comunicação ilimitada, o que é da máxima importância porque a própria verdade é comunicativa e desaparece quando não existe comunicação.

Desfrutando de um silêncio respeitoso, o companheiro pode abrir-se inteiramente, pode estar realmente presente, de corpo e alma, diante dos demais companheiros, aceitando-os e sendo aceito por eles. Esta presença, inteira e completa, de si mesmo, faz com que o companheiro fique presente também para os outros; os outros sentem a sua presença. Este aspecto é de extrema importância, pois muitas vezes estamos falando com uma pessoa que, como se diz, não está nem aí e encontra-se dispersa em seus pensamentos e interesses pessoais enquanto falamos. Freqüentemente ficamos falando sozinhos, o outro está presente, mas, em realidade, não está. Deste modo, entendemos a necessária ênfase quando falamos de presença inteira e completa. No grupo, o companheiro se sente vivendo no tempo presente, vivendo o agora e, assim, em condições de alcançar o seu mais elevado potencial emocional: aberto à empatia, à compaixão e ao perdão. Conhecemos pessoas que estão sempre presentes e disponíveis e que significam muito para nós. Não há o eu sozinho, há sempre o eu-tu, na sua totalidade. Quando existe o silêncio empático, sente-se a presença inteira e completa das pessoas.

Aquele que faz o depoimento também se identifica, também ganha dimensão no processo de comunicação. O relacionamento do eu com o tu quebra o isolamento, integra as pessoas. É preciso estar presente para se tornar presente para os outros. Como acentuei, às vezes, conversamos com pessoas que parecem estar muito distantes, pensando em outras coisas ou, como se diz, estão no mundo da lua e isso destrói o relacionamento entre seres humanos e, especificamente, o tu da relação eu-tu.

É importante lembrar ainda que a fala é poderosa e que, ao fazer o seu depoimento, o companheiro está consciente do que está relatando e que a sua fala vem do coração. Estar consciente é indispensável para entrar no reino dos humanos e para o estabelecimento de uma base indispensável para a vida espiritual. Em realidade, é preciso estar consciente tanto da fala quanto das ações. Sendo verdadeiro e oferecendo a sua enriquecedora experiência de vida, o companheiro se torna um pólo de atração, e mais, ao ser consciente e honesto, a sua mente se torna mais serena e mais aberta e o seu coração mais feliz e mais pacífico. O estabelecimento de uma relação de harmonia virtuosa com o grupo traz luz ao coração e claridade à mente.

Numa atmosfera marcada pelo silêncio, estabelece-se uma vibração recíproca a partir do face-a-face, do olho-no-olho, da comunicação profunda que permite que se veja, no fundo do olho das pessoas, o que vai no seu interior; o silêncio respeitoso é indispensável para que se estabeleça essa relação profunda. Por outro lado, a comunicação superficial, feita por monossilábicos, frases gravadas e esperadas, torna as pessoas ansiosas, resultando que voltam às suas exposições, aos seus temas ou explicações porque não se sentem percebidas. O companheiro que faz o seu depoimento fala dos seus sentimentos, de emoções escondidas, reprimidas e que geram doenças. Desabafar, confidenciar, partilhar a intimidade, segredos e pecados, neste ambiente muito especial, é de grande poder curativo; é excelente terapia. Por outro lado, somente quem vive a experiência de ouvir o outro é capaz de amá-lo na sua totalidade, de todo o coração, e isso significa dar-se por gratuidade, sem reservas, de coração a coração e sentir a experiência da alegria, do medo, da coragem, do descontentamento, do sofrimento, do desejo e da tristeza.

O relacionamento que se estabelece no grupo é gratuito. Um companheiro oferece o seu depoimento, a sua experiência, e os outros membros do grupo oferecem o seu silêncio respeitoso, a sua compreensão, o seu amor de irmão. Não há nenhum interesse interposto na relação entre o membro que faz o depoimento e os demais que o escutam. Um doa a sua riqueza interior, a sua experiência, e os outros a aceitam respondendo com um sentimento de compaixão e de compreensão.

Essa é uma relação muito rica e enriquecedora que pode acontecer entre seres humanos quando assentada na reciprocidade, na capacidade de entender e de amar o próximo. Um ser só cresce com os outros dentro deste tipo de relacionamento. O silêncio possibilita o estabelecimento da via de mão dupla. Permite a manifestação da palavra com todo o seu poder e que, por sua vez, conduz à reciprocidade, entendida como um poderoso mecanismo totalizador capaz de fazer com que todos fiquem envoltos em uma só atmosfera, que cria as condições para que aquele que faz o depoimento encontre o seu interior, a sua subjetividade e que se identifique como sendo uma pessoa, um ser humano, porque também não há o tu sem o eu. A elevada compreensão cria condições para que haja paz entre os seres humanos.

Não estamos acostumados ao silêncio, à sua dimensão profunda, tão profunda que assusta, amedronta e angustia porque nos coloca diante de nós mesmos e o medo ocorre porque não nos conhecemos.

Tudo isso ocorre dentro da liberdade de tomar a decisão de prestar o seu depoimento que, no silêncio respeitoso e na relação empática, conduz a uma relação inter-humana profunda, que é o fundamento da existência em A.A.. Meditando acerca do conteúdo dos depoimentos e se abrindo para a dor e o sentimento de compaixão, os membros do grupo estarão ganhando dimensão humana e espiritualidade e isso numa época em que as pessoas se permitem esquecer cada vez mais daquilo que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.

O silêncio atinge e penetra o coração humano e é aí que está a nossa interioridade, o lugar onde somos o que somos.

Estas considerações foram feitas a partir de uma prática que sempre me encantou em A.A.. Muitos companheiros, após o seu depoimento, agradecem dizendo: “Obrigado pelo silêncio de vocês”. Isso sempre me tocou muito e passei a meditar e a procurar o porquê, e penso que encontrei a sua essência.

PANFLETO SOBRE APADRINHAMENTO EM A. A.

PANFLETO SOBRE APADRINHAMENTO EM A.A..

Escrito por Clarence H. Snyder, em 1944. Ele ficou sóbrio em Cleveland-Ohio, no dia 11 de fevereiro de 1938 com a ajuda do seu padrinho, cofundador, o Dr. Bob. Em 18 de maio de 1939, fundou o grupo nº. 3 de A.A. em Cleveland-Ohio e este foi o primeiro grupo a usar o nome “Alcoólicos Anônimos”. Faleceu na Florida, em 22 de março de 1984, com 46 anos de sobriedade.
Fonte: http://silkworth.net
Sua história está publicada nas 1ª, 2ª. E 3ª. Edições do Big Book, nas páginas 297/303
Dados históricos oferecidos pelo companheiro Laerte A., de Niterói-RJ

Tradução feita pelo Dr. Lais Marques da Silva, ex- Presidente da Junta de Custódios.
Este foi o primeiro trabalho escrito sobre apadrinhamento e o seu título original era “Apadrinhamento em A.A… suas Obrigações e Responsabilidades”e foi Impresso pelo Comitê Central de Cleveland.

Prefácio
Cada membro de A.A. é um padrinho em potencial de um novo membro e deveria reconhecer claramente as obrigações e deveres de uma tal responsabilidade.
A aceitação da oportunidade de levar o plano de A.A. para aquele que sofre no alcoolismo compreende responsabilidades muito reais e criticamente importantes. Cada membro, ao praticar o apadrinhamento de um alcoólico, deve lembrar que está oferecendo o que é, frequentemente, a última chance de reabilitação, de sanidade, ou mesmo, de vida.
Felicidade, saúde, segurança, sanidade e vida de seres humanos são as coisas que temos que manter em equilíbrio quando apadrinhamos um alcoólico.
Nenhum membro é suficientemente sábio para desenvolver um programa de apadrinhamento que possa ser aplicado, com sucesso, a todos os casos. Nas páginas seguintes, no entanto, delineamos um procedimento que é sugerido e que, suplementado pela própria experiência do membro, tem-se mostrado bem sucedido.

Ganhos pessoais de ser um padrinho
Ninguém colhe todos os benefícios de qualquer irmandade a que esteja ligado a menos que, de coração, se engaje nas suas importantes atividades. A expansão de Alcoólicos Anônimos para campos mais largos e o benefício maior para um número crescente de pessoas resulta diretamente do acréscimo de uma nova pessoa, de membros ou associados que são de valor.
Qualquer membro de A.A. que não tenha experimentado as alegrias e satisfações de ajudar outro alcoólico a retomar o seu lugar na vida, ainda não terá percebido completamente os benefícios que pode auferir desta irmandade. Por outro lado, deve ficar claramente guardado na mente que a única razão possível para levar um alcoólico para o A.A. é o benefício daquela pessoa. O apadrinhamento nunca deve ser feito para:
1-aumentar o tamanho do grupo;
2-satisfação ou glória pessoal ou, ainda,
3-porque o padrinho sente, como sendo do seu dever, refazer o mundo.
Até que um membro de A.A. tenha assumido a responsabilidade de colocar um trêmulo e impotente ser humano de volta no caminho para se tornar um membro saudável, útil e feliz da sociedade, ele não terá desfrutado a completa sensação de ser um membro de A.A..

Fonte de nomes – indicações para apadrinhamento
A maior parte das pessoas tem, entre os seus próprios amigos e relações, alguém que se beneficiaria dos nossos ensinamentos. Outros têm seus nomes dados por igrejas, por doutores, empregadores ou por algum outro membro que não pode fazer um contacto direto.
Por causa da ampla gama de atividades do A.A., os nomes frequentemente chegam de lugares não usuais e inesperados. Esses casos deveriam ser contatados assim que todos os dados como: estado civil, relações domésticas, estado financeiro, hábitos de beber, emprego, e outras informações facilmente acessíveis, estivessem em mãos.

É o cliente potencial um candidato?
Muito tempo e esforço poderiam ser poupados ao se conhecer, tão cedo quanto possível, se:
1- A pessoa realmente tem um problema com a bebida?
2- Sabe que tem um problema?
3- Deseja fazer alguma coisa acerca do seu beber?
4- Deseja ajuda?
Às vezes, as respostas a essas questões não podem ser obtidas até que o candidato potencial tenha tido alguma informação sobre o A.A. e de ter uma oportunidade de pensar. Frequentemente são dados nomes, que depois de uma verificação, mostram que o candidato potencial não é, de forma nenhuma, um alcoólico ou ainda que está satisfeito com o atual modo de viver. Não deveríamos hesitar em descartar esses nomes das nossas listas. Devemos estar certos, no entanto, de fazer com que o potencial candidato saiba onde pode nos alcançar em qualquer data futura.

Quem deveria se tornar membro?
O A.A. é uma irmandade de homens e mulheres ligados pela sua inabilidade de usar o álcool em qualquer forma razoável com proveito ou prazer. Obviamente, qualquer novo membro introduzido poderia ser do mesmo tipo de pessoa, sofrendo da mesma doença.
A maior parte das pessoas pode beber razoavelmente, mas estamos somente interessados naquelas que não podem. Bebedores de festas, bebedores sociais, festeiros e outros que continuam a ter mais prazer do que dor no seu beber, não são de interesse para nós.
Em alguns casos, um indivíduo pode acreditar que é um bebedor social quando ele definitivamente é um alcoólico. Em muitos desses casos, mais tempo deve passar antes que a pessoa esteja pronta para aceitar o nosso programa. Pressionar tal pessoa antes que esteja pronta pode arruinar as suas chances de, em algum momento, se tornar um membro de A.A., com sucesso. Não se deve excluir a possibilidade de uma ajuda futura ao se pressionar demais no início.
Algumas pessoas, embora definitivamente alcoólicas, não têm desejo ou ambicionam melhorar o seu modo de viver e, até que elas o façam… o A.A. não tem nada a oferecer.
A experiência tem mostrado que idade, inteligência, educação, situação ou a quantidade de bebida alcoólica ingerida tem pouco, se tem, a ver com o fato de uma pessoa ser ou não um alcoólico.

Apresentando o projeto
Em muitos casos, a condição física de uma pessoa é tal que deveria ser hospitalizada, se possível. Muitos membros de A.A. acreditam que a hospitalização, com tempo suficiente para planejar o futuro, livre das preocupações domésticas e das preocupações com negócios oferece uma vantagem significativa. Em muitos casos, o período de hospitalização marca o início de uma nova vida. Outros membros são igualmente confiantes no fato de que qualquer pessoa que deseje aprender sobre o projeto de vida de A.A. pode fazer isso em seu próprio lar ou enquanto engajado nas ocupações normais. Milhares de casos são tratados de cada modo, que tem-se mostrado satisfatórios.

Passos sugeridos
Os seguintes parágrafos delineiam um procedimento sugerido para apresentar o projeto de A.A. ao possível candidato, em casa ou no hospital.

Qualificar-se como um alcoólico
1-Ao atender a um novo possível candidato, tem-se mostrado melhor que o padrinho se qualifique como sendo uma pessoa normal que tem encontrado felicidade, contentamento e paz por meio do A.A.. Deve tornar claro, imediatamente, que você é uma pessoa engajada nas coisas da vida, em ganhar a vida. Fale que a única razão para acreditar que é capaz de ajudá-lo é que você mesmo é um alcoólico que tem tido experiências e problemas que podem ser semelhantes ao dele.

Relate a sua história
2-Muitos membros têm achado desejável iniciar imediatamente com a sua história pessoal com a bebida como um meio de obter a confiança e cordial cooperação do possível candidato.
É importante relatar a história da sua própria vida de bebedor e fazê-lo de um modo que irá descrever um alcoólico, mais do que falar de uma série de situações humorísticas de bêbados em festas. Isso capacitará a pessoa a ter uma visão clara de um alcoólico e deveria ajudá-lo a decidir definitivamente se é um alcoólico.

Inspire confiança no A.A.
3-Em muitos casos, o possível candidato irá tentar vários meios de controlar o seu beber, incluindo atividades de recreio, igreja, mudança de residência, mudança de associações e várias outras atitudes visando o controle. Esses meios irão, naturalmente, se mostrar sem sucesso. Focalize a sua série de esforços malsucedidos para controlar o beber … os resultados infrutíferos e ainda o fato de que você se tornou capaz de parar de beber com a prática dos princípios de A.A.. Isso encorajará o futuro candidato para olhar com confiança a sobriedade em A.A., a despeito dos muitos fracassos anteriores que tenha tido com outros planejamentos.

Fale de vantagens adicionais
4-Fale francamente ao possível candidato que ele não poderá entender rapidamente todos os benefícios que estarão chegando por meio do A.A.. Relate a felicidade, a paz de espírito, saúde e, em muitos casos, os benefícios materiais que são possíveis através do entendimento e da aplicação do modo de viver de A.A..

Fale da importância de ler o livro
5-Explique a necessidade de ler e de reler o livro de A.A.. Destaque que esse livro dá uma descrição detalhada das ferramentas do A.A. e dos métodos de aplicação dessas ferramentas para construir um fundamento de reabilitação para viver. Esse é um bom momento para enfatizar a importância dos doze passos e dos quatro absolutos.

Qualidades necessárias para o sucesso em A.A.
6-Faça saber ao possível candidato que os objetivos de A.A. são prover os meios e modos para um alcoólico voltar ao seu lugar normal na vida. Desejo, paciência, fé, estudo e aplicação são o mais importante em determinar cada planejamento individual de ação para ganhar inteiramente os benefícios de A.A..

Reintroduza a fé
7-Desde que a crença em um Poder Superior a nós mesmos é o coração do projeto de A.A. e de que o fato de que essa idéia é frequentemente difícil para uma nova pessoa, o padrinho deveria tentar introduzir o inicio de um entendimento acerca dessa importante característica.
Frequentemente, isso pode ser feito por um padrinho ao relatar a sua própria dificuldade de captar um entendimento espiritual e falar sobre os métodos que usou para superar suas dificuldades.

Ouça a sua história
8-Enquanto falando ao recém chegado, ganhe o tempo para ouvir e estudar as suas reações a fim de que você possa apresentar a sua informação de um modo mais efetivo. Deixe-o falar também. Lembre … vá com calma.

Leve a diversas reuniões
9-Para dar ao novo membro um quadro amplo e completo do A.A., o padrinho deveria levá-lo a várias reuniões a conveniente distância da sua casa. Assistir diversas reuniões dá ao novato a oportunidade de selecionar um grupo em que se sinta mais feliz e confortável e é extremamente importante para deixar que o possível candidato tome a sua própria decisão em relação a que grupo irá se juntar. Acentue que ele será sempre bem-vindo a qualquer reunião e que pode mudar de grupo se assim desejar.

Explique o A.A. à família do possível candidato
10-Um padrinho bem sucedido aceita o esforço e faz qualquer empenho necessário para ficar certo de que as pessoas próximas e com interesse maior no seu doente (mãe, pai, esposa, etc,) sejam inteiramente informadas acerca do A.A., seus princípios e seus objetivos. O padrinho cuida para que essas pessoas sejam convidadas para reuniões e as mantém informadas, a todo momento, da situação corrente do possível candidato.

Ajude o possível candidato a se antecipar às experiências a serem vividas em um hospital.
11-Um possível candidato irá ter mais benefício de um período de internação se o padrinho descrever a experiência e ajudá-lo a se antecipar a elas, preparando o caminho daqueles membros que irão chamá-lo.

Consulte os membros antigos de A.A.
Essas sugestões para o apadrinhamento de uma nova pessoa nos ensinamentos de A.A. não são completas. Elas pretendem somente dar uma moldura e um guia geral. Cada caso individual é diferente e deveria ser tratado como tal. Informação adicional para o apadrinhamento de uma nova pessoa pode ser obtida a partir da experiência de um companheiro mais experiente nesse tipo de serviço. Um co-padrinho, com experiência, trabalhando com um novo companheiro no apadrinhamento de um possível futuro membro tem-se mostrado satisfatório. Antes de assumir a responsabilidade de apadrinhamento, um membro deveria estar certo de que é capaz de realizar a tarefa e de estar disposto a dar seu tempo, esforço e meditação que uma tal obrigação implica. Pode acontecer que ele queira selecionar um co-padrinho para compartilhar a responsabilidade ou pode sentir necessário solicitar a outro companheiro que assuma a responsabilidade pela pessoa que ele tenha localizado.

Se você vai ser um padrinho, seja um bom padrinho.

Os capítulos não faziam parte do texto original. Foram adicionados e estão presentes nas impressões seguintes.

PRIMEIRO AS PRIMEIRAS COISAS

PRIMEIRO AS PRIMEIRAS COISAS

Um professor começou a aula para a sua classe de filosofia com uma série de objetos à sua frente. Sem dizer uma palavra, pegou um enorme balde de maionese vazio e passou a enchê-lo com bolas de tênis. Quando terminou, perguntou aos alunos se o balde estava cheio. Eles concordaram que estava e o professou pegou, então, uma caixa contendo cascalho e derramou seu conteúdo dentro do balde. Chacoalhou levemente o balde e o cascalho se espalhou pelos espaços livres entre as bolas de tênis. Ele perguntou novamente aos alunos se o balde estava cheio. Eles responderam que sim e, então, o professou pegou uma caixa cheia de areia e a derramou dentro do balde. Naturalmente, a areia preencheu todo o espaço restante. Ele perguntou mais uma vez se o balde estava cheio. Os alunos responderam com um outro sim, unânime.
O professor pegou, então, duas xícaras de café que estavam sob a mesa e derramou todo o conteúdo no balde, preenchendo efetivamente os espaços restantes entre os grãos de areia. Os estudantes riram. Agora, disse o professor, enquanto rolavam as risadas, quero que vocês imaginem que este balde representa a sua vida. As bolas de tênis são as coisas importantes – seu Deus; sua família; seus filhos; sua saúde física, mental e espiritual; seus amigos e suas paixões favoritas – coisas que preencheriam a sua vida, mesmo que todo o resto se perdesse. O cascalho representa as outras coisas que têm valor como: o seu trabalho, sua casa, seu carro. A areia é todo o resto, as coisas pequenas. Se você coloca a areia no balde primeiro, continuou, não haverá espaço para o cascalho ou para as bolas de tênis. A mesma coisa acontece com a vida. Se você gasta todo seu tempo e sua energia com coisas pequenas, nunca haverá espaço para as coisas que são importantes para você. De atenção às coisas que são críticas para a sua felicidade. Brinque com seus filhos, deixe tempo para cuidar da saúde física, mental e espiritual. Leve a sua parceira ou parceiro para jantar. Jogue mais uma partida da sua pelada. Sempre haverá tempo para arrumar a casa e consertar as coisas quebradas. Cuide primeiro das bolas de tênis, das coisas que realmente importam. Defina suas prioridades. O resto é só areia.
Então, uma das alunas levantou a mão e perguntou o que o café representava. O professor, sorrindo, disse: fico feliz que você tenha perguntado. O café só significa que, não importa quão cheia a sua vida possa parecer, sempre haverá tempo para um cafezinho com os amigos.

REPARAÇÕES – DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

REPARAÇÕES
Dr. Lais Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB
Estar livre para progredir na vida é tão importante quanto o ar que respiramos, mas é preciso lutar pela liberdade porque que ela não chega por si mesma. A libertação, que abre para novos horizontes, exige esforços e, às vezes, reparações. Vamos nos reportar a um episódio da Guerra de Troia, relatado por Homero, e que bem exemplifica o que acabamos de afirmar.
Para ajudar a entender esse ponto tão importante do processo de recuperação do alcoólico, é oportuno relatar uma, das muitas histórias dos antigos gregos, contada por Homero. Antes porém, é preciso relembrar que o poeta épico Homero eternizou lendas e ensinou a respeito de séculos de tradições e é presumível que tenha vivido nos anos 600 antes de Cristo, quando descreveu os fatos ligados à Guerra de Troia, ocorridos nos anos 1100, também antes de Cristo. A ele se atribui a autoria dos poemas: Ilíada e Odisseia, lidos por mais de dois mil anos e que reconstituem, com riqueza de detalhes, a civilização grega.
O relato que vem ao caso é o que se segue. Menelau, rei de Esparta, cidade da Grécia, e marido de Helena, aquela que foi raptada e cujo rapto deu origem à Guerra de Troia, ao regressar à sua terra, após a vitória conquistada ao longo de dez anos de luta contra os troianos, fez uma parada no Egito com o seu navio, talvez para reabastecimento, e de onde teria que partir para continuar a longa viagem de volta para casa. No entanto, ao reiniciar a viagem de retorno, teve um problema muito sério. É que, ao norte do delta do rio Nilo, próximo à ilha de Faros, deparou-se com uma completa calmaria, uma dificuldade incontornável que não dava condições de progredir na viagem, uma total falta de ventos para impulsionar as velas da nau e, em consequência, o navio não progredia. Vencedor de uma grande guerra, estava então completamente impotente e sendo derrotado por uma simples falta de ventos. Estava paralisado.
Entendeu que havia algo de errado e imaginou que poderia ter ofendido algum deus e tentou apaziguar as entidades de que se lembrava, mas nada de vento. Foi quando surgiu uma ninfa, filha do Velho do Mar, Proteu, e disse a Menelau que ele, o velho, sabia da causa da calmaria. Aconselhou-o a segurar o pai para conhecer o motivo da calmaria. Mas advertiu que isso era muito difícil e seria necessário fazer um grande esforço porque Proteu se transformava continuamente podendo tomar a forma de diversos animais, de água, fogo, etc. Era preciso lutar, fazer o esforço que fosse necessário para superar essa enorme dificuldade, porque, de outra forma, não voltaria para casa. Lutar para ter conhecimento, consciência plena, dos fatos anteriormente ocorridos, fazer um inventário. Menelau, com a ajuda de outros companheiros, armou uma emboscada na praia para capturar o Velho do Mar quando ele aparecesse. Conseguiram capturá-lo mas a luta foi grande porque Proteu se transformava continuamente em serpente, em leão feroz, em tigre, em água corrente e, por fim, em árvore e foi aí que Menelau o enlaçou pelo tronco, firmemente. Cansado de tantas transformações, Proteu voltou à sua forma inicial e foi então interrogado. Revelou que o navio estava sendo paralisado por haver ele, Menelau, deixado de fazer oferendas em agradecimento aos deuses egípcios e disse que era preciso navegar de volta, ir ao ponto em que houve a falta e fazer os indispensáveis sacrifícios, as reparações. Menelau seguiu a orientação e conseguiu finalmente a liberdade.
O relato do que aconteceu a Menelau ajuda a entender, em toda a sua dimensão, o quanto é necessário se libertar de injunções, de fatos da vida ocorridos no passado, sendo para isso indispensável retornar e procurar dar, na medida possível, uma solução para problemas mal conduzidos nas nossas vidas. Coisas que permanecem incomodando, causando desconforto, tirando a paz e dificultando o desenvolvimento pleno das nossas capacidades ou mesmo nos paralisando. É preciso, de algum modo, retornar, voltar para resolver o que ficou faltando, e isso, depois de passado o tempo necessário para ficar livre das imposições daquele momento. A reparação é realmente um retorno que se faz a um momento do passado, estando-se presentemente fora das circunstâncias em que os fatos desagradáveis ocorreram, estando livre das pressões e necessidade do momento, livre das injunções.
Após muito esforço, Menelau descobriu que precisava fazer reparações para conquistar a liberdade. Essas reparações não poderiam ser feitas em frente à ilha onde estava parado. Tinha que voltar ao local onde se comportara de maneira errada, ao local que deixara para trás e dele havia esquecido. Só se voltasse para trás poderia navegar em direção ao futuro. Mas teve que se empenhar para agarrar o Velho do Mar, mesmo quando ele se transformava ao longo do tempo, e só depois disso é que poderia ficar livre. Temos que fazer as reparações necessárias para nos reconciliarmos com o passado, e lutar no presente para poder ter um futuro.

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL – ALCOOLISMO – DR. LAÍS MARQUES DA SILVA

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL-ALCOOLISMO
Dr. Laís Marques da Silva
Ex-custódio e Ex-presidente da JUNAAB

Em Alcoólicos Anônimos o que importa não é o alcoolismo, mas sim o alcoólico. Não se fazem estudos ou pesquisas sobre o alcoolismo mas dedicam-se todas as atenções e cuidados às pessoas que sofrem dessa doença. É o ser humano, é o doente que importa.
Além do mais, a Irmandade resolve o problema do diagnóstico de uma forma adequada. Ninguém faz diagnóstico, ninguém rotula ninguém mas, depois de algum tempo de convivência com membros do grupo de A.A. e chegando às suas próprias conclusões diante do que viu e ouviu nas reuniões, é o próprio alcoólico que decide ser ou não um membro do grupo e é também ele quem diz se é ou não um alcoólico. Mas as pessoas, depois de passarem por tratamentos médicos e ao se reconhecerem como alcoólicos, passam, como é natural, a ter um interesse, uma curiosidade em relação à sua doença. Desejam conhecer um pouco acerca do alcoolismo.
A palava alcoolismo foi usada pela primeira vez em 1849 pelo médico sueco Magnus Huss no seu trabalho “Alcoolismo Crônico”, expressão essa que se tornou o modo corrente de tratar os que apresentavam embriagues habitual, chamados a partir daí de alcoólatras, alcoólicos ou alcoolistas. Bebem repetida e excessivamente bebidas alcoólicas com prejuízos para si mesmos e para outras pessoas sendo que os danos se expandem para áreas tão diferentes como mentais, econômica, sociais, legais, etc.
Por ser o controle voluntário muito pequeno e o beber compulsivo, o alcoolismo é considerado como adição e como doença. Daí que, numa visão simples, é tido como sendo a doença que resulta do beber compulsivo e crônico.
N No entanto, do ponto de vista farmacológico e fisiológico, o alcoolismo é entendido como uma adição química que leva à necessidade de beber doses crescentes para produzir os efeitos desejados ou aliviar o desconforto da abstinência e que pode resultar na síndrome de abstinência quando esse beber é interrompido. Mas, diferentemente da adição que ocorre pelo uso de outras drogas, nem sempre o alcoólico necessita de doses crescentes da substância. Por outro lado, o alcoólico desenvolve graus variáveis e baixos de tolerância ao álcool de modo que a dose letal, aquela que leva à morte, só ocasionalmente pode ser alcançada ou ultrapassada
Do ponto de vista do comportamento, o alcoolismo é uma desordem em que o álcool se torna muito importante na vida de uma pessoa que experimenta a perda de controle em relação ao seu beber. Aí, com dependência ou não, o consumo do álcool é suficientemente intenso para causar problemas físicos, mentais, sociais, econômicas, legais, etc. A desordem é entendida como doença porque persiste por anos, é fortemente hereditária, progressivamente incapacitante e importante causa de morte. O álcool compromete a livre decisão de beber ou não e de quando parar. Ainda, diferentemente da maioria dos maus hábitos, a força de vontade vale pouco em relação ao álcool.
Do ponto de vista sociológico, o alcoolismo é tido como um desvio social mas, ele deveria desaparecer com a maturidade, como ocorre em muitas outras formas de desvio social, mas isso não acontece com o alcoolismo. Como é quase impossível submeter todo um grande grupo de indivíduos a estes o entendimento do alcoolismo pode ficar por conta da quantidade e da freqüência em que é ingerido, pelo número de internações relacionadas ao álcool, pela freqüência de mortes por cirrose ou por prisões decorrentes de mau comportamento relacionado com o uso de álcool.
É preciso ainda discernir três condições diferentes: o uso do álcool, o abuso e a dependência. Abusa do álcool aquele que tem um comportamento social desviante em relação ao seu consumo, que bebe regularmente e, o mais importante, que apresenta problemas de saúde, além de sociais e/ou profissionais em conseqüência da ingestão do álcool. O abuso pode evoluir para a dependência e aí encontraremos a compulsão para a ingestão de álcool a fim de experimentar os seus efeitos ou para evitar o desconforto da sua falta. Aqui, na dependência, também são importantes os componentes sociais e comportamentais e, mais ainda, os componentes biológicos e psíquicos traduzidos na tolerância e na compulsão, respectivamente. Nos conceitos de abuso do álcool e na síndrome de dependência do álcool está o que é entendido por alcoolismo. A psicose alcoólica, a cirrose hepática, a gastrite alcoólica, etc, ficam como complicações. Em rápidas palavras, beber sem problemas traduz o beber social, beber com problemas se constitui no abuso do álcool e beber com problemas e apresentando a dependência química caracteriza a Síndrome de Dependência do Álcool.
Acontece que um alcoólico na ativa pode procurar um médico porque está tendo problemas sexuais e para ele alcoolismo pode ser a perda de potência. Para a sua mulher, que foi espancada, o alcoolismo está ligado ao espancamento. Quando, por essa razão, ela o leva ao hospital e lá o médico faz vários testes e as provas de funções hepáticas se mostram alteradas, a enzima gama glutamil transferase se encontra elevada e o volume dos glóbulos vermelhos está aumentado, o médico o considera um alcoolista em face do quadro clínico e dos exames complementares realizados. Já um pouco melhor, no dia seguinte, o paciente sai dirigindo alcoolizado e os vizinhos dizem que ele é um alcoólico porque dirige alcoolizado. Então, afinal, o que é o alcoolismo?
Do ponto de vista da quantidade de bebida consumida, uma pessoa com 100 quilos pode beber uma grande quantidade de bebida alcoólica sem apresentar muitas manifestações, mas a mesma quantidade de bebida seria catastrófica para uma pessoa com pouco peso e epilética ou ainda para um piloto de avião com uma úlcera no estômago. Um taberneiro francês que beba mais de dois litros de vinho por dia pode não ser considerado um alcoólico pelos seus parentes e amigos próximos, mas será visto como portador de alcoolismo por um membro da família que seja israelita. Então o que vale não é a quantidade da bebida ingerida mas os sintomas que resultam.
Por outro lado, uma pessoa pode ter um problema emocional e passar a beber diariamente por um tempo e ficar preocupada com o alcoolismo enquanto que outra pessoa pode beber despreocupada pela vida a fora até que surja uma grave insuficiência hepática. Quem bebe, por algum problema específico, freqüentemente permanece capaz de controlar o uso do álcool, embora relate uma dependência psicológica, o que não ocorre com as pessoas que abusam do álcool.
Para complicar ainda mais as coisas, uma pessoa que estude a literatura sobre o alcoolismo fica com a idéia de que ele é também um problema econômico, psicológico, fisiológico ou ainda social, isso para excluir outros aspectos do problema.
A Organização Mundial de Saúde declarou que o alcoolismo é doença em 1951 ou, mais exatamente, certas formas de alcoolismo. Mas, de modo oficial, também declararam que o alcoolismo é uma doença as seguintes associações: a Associação Médica Americana, a Associação Americana de Psiquiatria, a Associação Americana de Saúde Pública, a Associação Americana de Hospitais, a Associação Americana de Psicologia, a Associação Nacional de Assistentes Sociais e o Colégio Americano de Médicos.
A dependência do álcool pode ser tomada como sinônimo de “adição alcoólica”, como “dependência fisiológica”, como o alcoolismo gama de Jellineck ou ainda e simplesmente entendida como alcoolismo.
Os critérios médicos para definir a doença do alcoolismo se baseiam nas complicações médicas e nos sintomas resultantes do beber, enquanto que os problemas sociais são mais enfatizados em outras classificações. O fato é que existe uma forte correlação entre a síndrome de dependência do álcool e as incapacidades sociais que ele ocasiona. Os parâmetros que definem o modelo médico têm correlação com os desvios sociais. Isso quer dizer que médicos e sociólogos estão falando da mesma síndrome. No entanto, nem sempre a abstinência do álcool se acompanha da recuperação social. O alcoolismo não é só um problema médico em si mas também inclui todo um conjunto de situações que resultam do beber continuado.
Mas como penetrar nesta floresta, que linhas e direções podem facilitar a compreensão do que seja o alcoolismo? Talvez a idéia mais fácil e curta seja a do Conselho Nacional de Alcoolismo dos Estados Unidos da América do Norte: “A pessoa portadora de alcoolismo não pode, de maneira segura e consistente, predizer, em qualquer ocasião em que beber, o quanto vai beber e durante quanto tempo”.
Como veremos em seguida, não é a especificidade de um problema que define o que o que é entendido como alcoolismo mas sim o número e a freqüência dos problemas relacionados com o uso do álcool. De uma maneira geral, todos os sintomas têm igual valor. Em outros termos, o diagnóstico do alcoolismo é feito pela variedade dos problemas relacionados com o álcool e não pela especificidade dos problemas. Nenhum sinal ou sintoma define, isoladamente, o alcoolismo.
As coisas ficam mais claras quando abordamos a síndrome a partir dos estudos do Prof. Dr. Griffith Edwards, da Universidade de Londres, que propôs uma descrição da síndrome a partir de sete parâmetros:
1. empobrecimento do repertório,
2. maior importância da bebida,
3. aumento da tolerância ao álcool,
4. aparecimento da síndrome de abstinência,
5. prevenção ou alívio da síndrome de abstinência pela ingestão de mais bebida,
6. percepção subjetiva da compulsão para beber e
7. reinstalação do quadro após um período de abstinência.

1. O empobrecimento do repertório se traduz em ir fixando o tipo de bebida, a freqüência, as ocasiões em que é ingerida, em de beber mais rapidamente e em quantidades maiores a ponto de esse fato ser notado pelas pessoas mais próximas, em beber sozinho.
2. O beber vai ganhando prioridade maior em relação às atividades com a família e com os amigos, em relação à vida profissional e ao próprio corpo. As outras fontes de gratificação vão esmaecendo e a bebida vai ficando cada vez mais importante. O comportamento vai mudando em função da bebida. Trajetos organizados, freqüência a compromissos sociais em que se faz uso da bebida alcoólica, etc.
3. Em consequência do aparecimento da tolerância, doses cada vez maiores são necessárias para alcançar os mesmos efeitos desejados. Com as doses maiores, vêm também efeitos tóxicos mais intensos. Há casos de dependência avançada em que ocorre o fenômeno inverso, isto é, o paciente se embriaga com doses pequenas, que antes eram bem toleradas.
Estes três parâmetros se instalam ao longo do tempo.
4. A síndrome de abstinência talvez seja a mais importante manifestação da dependência. Nela ocorrem, ao acordar, usualmente pela manhã: tremores, suores, náuseas acompanhadas ou não de vômitos, ansiedade, agitação, etc. Nos casos mais severos, o paciente pode sofrer alucinações auditivas e visuais ou ainda apresentar convulsões e evoluir para o quadro de “delirium tremens”. A síndrome da abstinência revela a condição de dependência em relação ao álcool e se instala em função dos níveis baixos de álcool no sangue, sendo essa a razão pela qual costuma aparecer pela manhã, ao despertar, após serem passadas algumas horas sem a ingestão de bebidas.
5. Os sintomas de abstinência podem ser evitados ou aliviados pela ingestão de mais álcool. É o gole matinal.
6. Compulsão para beber. É entendida como sinônimo de perda de controle. Pode haver uma perda de controle ou uma desistência do controle.
7. A reinstalação, após um período de abstinência, implica na volta rápida do quadro de tolerância ao álcool. Isso pode ocorrer após anos de abstinência. Quanto maior o grau da dependência anterior, mais rápida é a reinstalação da tolerância. É uma espécie de “memória bioquímica” que permanece no organismo. É como se diz em A.A., o doente recomeça de onde terminou.

DE AKRON PARA O MUNDO – UMA MENSAGEM SEM FRONTEIRAS – DR. LÁIS MARQUES DA SILVA

DE AKRON PARA O MUNDO – UMA MENSAGEM SEM FRONTEIRAS
Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Num primeiro momento, vou enfocar dois fatos históricos de especial importância para a Irmandade de A.A..

O primeiro está ligado à espiritualidade.
Carl Gustaf Jung foi quem mais procurou casar psicologia e espiritualidade. Teve um importante papel na criação do A.A. e também para o fato de termos um programa espiritual.
No início dos anos 30 do século passado, um americano chamado Rowland, banqueiro e ex-senador, viajou para Zurique, na Suíça, para tratar do seu problema de alcoolismo com o famoso psiquiatra Jung. Rowland recaiu algumas vezes e, após um ano de terapia, não apresentou nenhum progresso. Jung comunicou ao paciente que ele estava gastando dinheiro à toa e que não poderia ajudá-lo. Rowland perguntou se havia alguma esperança, se não havia nada que ele pudesse sugerir. A resposta foi que a única coisa que poderia fazer seria procurar uma conversão, uma profunda mudança interior. Disse que ouvira relatos de pessoas que, após uma conversão religiosa, tinham parado de beber e que isso fazia sentido para ele.
Rowland passou a freqüentar um movimento religioso, muito conhecido naquela época, os Grupos Oxford. Conseguiu a desejada conversão e parou de beber. Já sóbrio, procurou um velho companheiro de bebida, chamado Ebby, o convidou para beber e a resposta foi: eu não bebo mais. Ebby ficou espantado e perguntou: o que você quer dizer com isso? Você é um alcoólico sem esperança como eu. Rowland relatou o que lhe havia acontecido e Ebby, seguindo o mesmo caminho, conseguiu parar de beber por um longo período de tempo.
Estando sóbrio, Ebby foi visitar um velho amigo, Bill W., e recebeu dele o mesmo convite para beber e a resposta foi: não bebo mais. Aí foi a vez de Bill ficar espantado. Ebby relatou o que havia acontecido e Bill pensou que trilhar este caminho seria uma boa idéia. Procurou tratamento e, no decurso dele, experimentou um despertar espiritual. Cerca de seis meses mais tarde iniciou a primeira reunião de A.A. em Akron, Ohio.

O segundo fato histórico está ligado à solidariedade humana, à compreensão, à troca interpessoal de riquezas interiores que ocorre ao compartilhar experiências, tão característico do modo de ser de A.A. e, ao mesmo tempo, fundamento para a formação de uma comunidade, entendida como um grupo de pessoas que vivem na mesma área e que tem uma base de interesse comum, como a comunidade financeira ou um grupo de nações que têm interesses comuns. A comunidade se caracteriza como um corpo unificado de pessoas com interesse comum e que vivem numa sociedade maior e, nesse aspecto, ela é muito diferente de uma simples coletividade.
Em novembro de 1934, Bill alcançou a sobriedade e, durante seis meses, não foi bem sucedido ao tentar ajudar outros alcoólicos. Nenhum deles desejou aquilo que Bill pensou que tinha para dar. Mas, no dia das mães de 1935, estando em Akron, Ohio, sentiu-se o mal estar próprio da compulsão e teve medo de voltar a beber. Procurou então um alcoólico que pudesse entender o que sentia e foi ter com o Dr. Bob pelo que Bob, como alcoólico, podia dar a ele. Bill não procurou para dar, mas para receber e foi aí, ao receber, que conseguiu, finalmente, dar. Estava aberta a poderosa via de mão dupla.
O Dr. Bob se sensibilizou com o fato de Bill não só admitir que necessitava dele, mas também por ter agradecido pela ajuda que havia recebido, o que deu condições a ele, Bill, de se manter sóbrio. Aquele muito obrigado de Bill tocou e acalmou os sentimentos do Dr. Bob. Alguma coisa havia mudado no seu íntimo, agora ele era diferente.
Por ser um alcoólico, o Dr. Bob tinha condições de não apenas ouvir, mas também compreender e compartilhar. Experimentaram a via de mão dupla vivida em A.A., no dia a dia dos seus membros. Essa via de mão dupla é um dos elementos mais importantes na formação de uma verdadeira comunidade.
Esses foram os dois fatos históricos que considero de relevante importância para o desenvolvimento da espiritualidade e para o nascimento da comunidade de Alcoólicos Anônimos.

Num segundo momento, focamos o Programa de Recuperação.
Vinte anos depois de ter-se recuperado, Bill W. escreveu para Jung e relatou o papel que, involuntariamente, ele havia desempenhado na criação do A.A.. Em resposta, Jung, por meio de carta datada de 30 de janeiro de 1961, enfatizou a importância da experiência religiosa e das barreiras protetoras formadas pela comunidade humana e ressaltou ainda que a palavra álcool significava espírito e que era usada tanto para designar a mais alta experiência religiosa quanto o mais depravador dos venenos e colocava, finalmente, que a receita é “spiritus” contra “spiritum”, ou seja, a espiritualidade contra as bebidas chamadas espirituosas e que talvez o alcoolismo fosse uma condição espiritual. Seria a espiritualidade contra a droga álcool, “Spirit against spirits”. É um programa de conversão espiritual, de modificação profunda do ser, um programa psicológico em que se destaca a força de mensagens curtas e breves, de aforismos e provérbios. Para progredir no Programa, o alcoólico é apoiado pela existência de um sistema de apadrinhamento, uma das formas de proteção da comunidade humana. O padrinho é uma espécie de psicoterapeuta não profissional e não pago. É também um fato considerado normal, além de ser bem aceito, que o afilhado possa superar, do ponto de vista da recuperação, o seu padrinho e, se julgar conveniente, procurar outro num determinado momento da sua trajetória em A.A., e nisso, o apadrinhamento é superior à terapia tradicional. Finalmente, vejo o Programa de Recuperação como um programa importante para o estabelecimento de uma verdadeira comunidade. A palavra comunidade se refere a um grupo de pessoas que vivem numa mesma área e, numa acepção mais abrangente, que possuem interesses ou características comuns.
Quase todos os Passos do Programa de Recuperação são voltados para o autoconhecimento, para o conhecimento de si mesmo. Nos Diálogos de Platão, Sócrates diz: “Eu preciso primeiro conhecer-me, conforme a inscrição de Delfos – Conhece-te a ti mesmo”.
Praticar o Programa de Recuperação é estar na busca de si mesmo pela vida inteira e o homem só começa a ter valor quando procura conhecer a si mesmo. A jornada em A.A. é a caminhada rumo ao interior e que começa já no Primeiro Passo.
Na busca da sua individualidade, da sua singularidade espiritual, o membro de A.A. encontra a resposta à grande indagação: Quem sou eu? Enquanto fazendo o Programa de Recuperação, os alcoólicos são seres humanos voltados para a descoberta do seu mundo interior, onde vão encontrar a espiritualidade e a solução dos seus problemas íntimos e também o seu valor e a sua dignidade.
O evento, de importância fundamental para a recuperação de alcoólicos, ocorreu em Akron, Ohio, quando Bill e Bob se encontraram para fazer o que foi a primeira reunião de A.A..

A difusão da mensagem que não encontra fronteiras.
Surpreendentemente, a mensagem de A.A. expandiu-se pelo mundo, a despeito da existência de fronteiras físicas, culturais, étnicas, religiosas ou qualquer outra que se possa imaginar. É que a mensagem se dirige à nossa humanidade, à humanidade que dá sentido e valor à vida do homem, vivendo ele em qualquer parte do mundo e nos mais diferentes tipos de sociedade. Embora o A.A. possa ser entendido como uma criação da classe média americana, ele se expandiu para muitas outras culturas e grupos demográficos com características muito diferentes do meio cultural do seu nascimento. Assim, num primeiro momento, ele alcançou países de língua inglesa e os países do norte da Europa onde a cultura protestante era dominante e onde tinham surgido movimentos de natureza espiritual poderosos e duradouros, inspirados numa cultura voltada para a temperança como um modo de enfrentar o beber desintegrador.
Numa primeira onda, o A.A. havia alcançou o mundo anglo-saxão e o mundo protestante. Daí alcançou os países católicos da Europa e das Américas. Após as revoluções que aconteceram na Europa, o A.A. espalhou-se para o leste europeu e para outros países da Europa. Finalmente, tem alcançado países asiáticos industrializados, independentemente das etnias, das religiões e culturas, tornando-se um fenômeno mundial.