Monthly Archives: Janeiro 2016

CLINTON TRUMAN DUFFY (1898 – 1982)

8.6. Clinton Truman Duffy (1898-1982)
Box 4-5-9, Abr. Mai. / 2007 (pág. 5-6) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_april-may07.pdf
Título original: “Clinton T. Duffy, el jefe de prisión que reformó ‘la Q’”

Em 1950, quando vários milhares de membros de Alcoólicos Anônimos se reuniram em Cleveland para a Primeira Convenção Internacional, um dos principais oradores foi Clinton T. Duffy, então diretor da Presidio de San Quintín, na Califórnia. “O Sr. Duffy viajou viajado mais de 3.200 km para estar conosco em Cleveland”, escreveu Bill W., cofundador de A.A. “Logo vimos porquê. Veio porque é um grande ser humano. Novamente os AAs nos perguntamos até que grau nossa reputação chegou a ser superior ao nosso caráter”.
Mas ao Sr. Duffy, já bem conhecido por seus trabalhos inovadores na reforma dos presídios, deveu-lhe parecer que a reputação de A.A. era bem merecida. Embora sempre tivesse presente a segurança do presidio, se dispôs a buscar imediatamente métodos seguros para a reabilitação dos presidiários quando tomou posse como diretor do Presidio de San Quintín em 1940. Pouco tempo depois de iniciar sua função soube do programa de A.A. e no começo da década de 1940, introduziu o programa de A.A. em San Quintín, uma prisão conhecida como “a Q” no jargão dos condenados. “Havia graves problemas para solucionar; mas o Sr. Duffy os aceitou e sua fé acabou sendo recompensada”, disse Bill mais tarde.
Este foi um dos primeiros programas dentro dos muros das prisões – uma grande conquista porque então A.A. tinha apenas seis anos de existência e o livro Alcoólicos Anônimos tinha sido publicado dois anos antes. Duffy disse na Convenção de Cleveland que somente os alcoólicos poderiam entender o problema do alcoolismo: “Eles, e somente eles, conhecem o caminho do retorno porque eles próprios tinham feito a agitada viagem de ida e de volta”.
O Sr. Duffy também disse que um recluso que tenha participado do programa de Alcoólicos Anônimos no presidio tem uma possibilidade três vazes maior de superar o período de liberdade condicional do que aquele que evitou o programa, de acordo com uma reportagem do Akron Beacon Journal. Disse que esses homens raramente transgredem as condições de liberdade ou cometem outro crime. E tampouco eram propensos a perder seu emprego por absenteísmo ou abandono.
O Sr. Duffy tinha participado do lançamento do programa de San Quintín diante do ceticismo dos demais oficiais da prisão. Também permitiu que membros de A.A. de fora viessem participar das reuniões, uma prática muito ousada naquele tempo. Em toda a história de A.A. não se celebrou uma reunião em circunstâncias mais tensas que aquela primeira reunião em San Quintín, lembra Duffy. “Os membros de fora ficaram assombrados com o ambiente e os presos assombrados pelos visitantes do ‘mundo livre’”. O Sr. Duffy fez um discurso de boas-vindas, mas o que relaxou a tensão foi a fala de um membro de A.A. de fora do presídio.
O Sr. Duffy muitas reuniões de A.A. posteriormente quando membros de A.A. visitavam o presidio. Ficava impressionado com as histórias de pessoas de todas as classes e condições, e ouvir suas explicações a respeito da maneira com que A.A. tornou possível recobrar sua dignidade e o respeito dos seus concidadãos como consequência de ter seguido o programa. Também recebia cartas de membros de A.A. oferecendo sua ajuda parta reabilitar um membro de A.A. do presidio. No dia 28 de novembro de 1943, Bill W. visitou o Grupo de San Quintín como orador convidado porque tinha um forte desejo de ver o progresso daquele projeto sem precedentes.
O Sr. Duffy recebeu relatórios de agentes de liberdade condicional a respeito de antigos presos que tinham recobrado o respeito das suas comunidades com a ajuda dos Grupos de A.A. Disse que a generosidade dos AAs servia como inspiração não apenas para os presos, mas também para os administradores do presidio. “Sua colaboração entusiasmada nos fez possível ampliar o programa aqui na Califórnia”. Também disse que o primeiro preso secretário de um Grupo de A.A. ofereceu-se como voluntário para ser transferido ao Presidio de Folsom para organizar ali um Grupo de A.A.
Este programa pioneiro de San Quintín despertou o interesse de muitos presídios de outras partes dos EUA. Em 1952, a revista Grapevine publicou que havia 78 Grupos de A.A. nos presídios dos EUA e um na África do Sul. Atualmente (2007) cálculos indicam haver aproximadamente 2.500 Grupos deste tipo na América do Norte com a participação de 65.000 reclusos pelo menos.
O Sr. Duffy foi, por natureza e formação, o administrador penitenciário ideal para considerar a possibilidade de que A.A. funcionasse atrás dos muros. Por vezes foi chamado um “condenado a cadeia perpétua” e San Quintín porque nasceu ali em 1898. Seu pai tinha sido guarda e a família morava no recinto da instituição. Casou-se com Gladys Carpenter, seu amor desde criança, que também morava em San Quintín onde seu pai era capitão da guarda. Criado naquele ambiente, o jovem Duffy conheceu muitos reclusos e já na tenra idade começou a se preocupar com o bem-estar dos prisioneiros.
“Na minha infância, San Quintín não era uma prisão modelo”, ele diz. “Havia muitos guardas sádicos com poder demais e oportunidades de agir com sadismo. Havia muitos lugares onde se podia abandonar um homem até apodrecer e muito pouco lazer para evitar que isso acontecesse. Havia amargura demais, ódio demais, desamparo demais, brutalidade demais, sujeira demais, humilhação demais”.
San Quintín era ainda uma das prisões mais duras do país quando o Sr. Duffy se incorporou no sistema como secretário do diretor do presidio em 1929. Continuou servindo como secretário de outros diretores, e chegou a ser considerado no sistema penitenciário como administrador competente, capaz de levar os projetos a bom termo, e era muito respeitado tanto pelos reclusos como pelos demais administradores. Em 1937 foi nomeado secretário da Junta de Condenações e Liberdade Condicional.
Enquanto isso, San Quintín tinha-se transformado no que o Sr. Duffy chamou “um paraíso dos sádicos” com guardas que recorriam à tortura e à violência para controlar os prisioneiros recalcitrantes. Preocupado com as noticias que lhe chegavam de San Quintín, o governador da Califórnia, Culbert Olson, despediu todos os membros da junta de diretores de presídios. A nova junta despediu o diretor de San Quintín e nomeou o Sr. Duffy para substitui-lo por um período de experiência de 30 dias.
Com o apoio da junta, o Sr. Duffy imediatamente começou a eliminar tantos males da vida carcerária quantos lhe foi possível, incluindo os guardas cruéis, as masmorras e tudo aquilo que tinha contribuído para converter San Quintín num autentico calvário para os 6.000 prisioneiros. “Tive muitos objetivos e alcancei a maior parte deles”, escreveu em1962, “mas a coisa que mais queria, não tinha autoridade para consegui-la… Podia eliminar os instrumentos de tortura, mas não podia eliminar os instrumentos da morte”.
Conforme Duffy explica no seu livro intitulado “88 homens e uma mulher”,publicado em 1962, seu maior desejo era eliminar a pena de morte. Apesar de ser contra a pena de morte viu-se obrigado a participar de 90 execuções, uma obrigação que o deixava destroçado e perplexo. E de grande importância, devido seu apoio ao programa, o álcool teve algo a ver com os crimes capitais e com outros delitos cometidos pelos homens e mulheres que estavam encarcerados.
O Sr. Duffy serviu como diretor do presidio de San Quintín desde 1940 até 1952, quando foi promovido à Adult Authority (Autoridade Adulta), um posto que lhe deparou oportunidades mais amplas de ajudar na reabilitação dos ex-detentos. Já nessa época, tinha-se convertido numa lenda viva no campo das instituições correcionais e foi o primeiro diretor de San Quintín que podia passear pelo pátio da prisão sem guardas e falar com os detentos. Fez amigos entre os detentos e ficava encantado ao ouvir o sucesso daqueles que cumpriam com as condições da liberdade condicional e se incorporavam como cidadãos livres, membros de suas comunidades. Um escritor descreveu-o numa revista como “o chefe de prisão mais competente do mundo, não apenas pelas reformas que iniciou nas penitenciárias, mas também por seu elevado grau de compaixão”.
Quando depois de 12 anos saiu do posto de diretor do presídio, tinha servido mais tempo nesse posto que qualquer outro diretor de San Quintín. “Foi um trabalho que me agradou muito num lugar que eu gostava muitíssimo”, disse e acrescentou que San Quintín foi o único lar que conheceu na sua vida. Disse que ia sentir a falta de seus amigos dos dois lados dos muros e sua participação num programa de formação profissional e tratamento“que eu estabeleci e que contribuiu para a reabilitação de muitos homens que de outra maneira poderiam passar tida sua vida encarcerados”. A.A. foi sem dúvida parte integrante do programa do Sr. Duffy em San Quintín. Sua intuição tinha-lhe dito desde o começo que A.A. poderia funcionar nos presídios tão bem quanto no mundo livre. Iria ser especialmente importante para ajudar as pessoas postas em liberdade condicional a evitar as circunstâncias que poderiam evitar a reincidência. Como explicou um administrador de presidio da Califórnia, “Se podemos manter estas pessoas sóbrias na liberdade condicional, podemos mantê-las fora da prisão”.
O Sr. Duffy aposentou-se em 1962, depois de servir dez anos como membro da junta de Autoridade adulta. Depois trabalhou como diretor executivo do Conselho sobre Alcoolismo da Cidade de São Francisco e presidente da Fundação Sétimo Passo, organização que ajuda os ex-detentos a retornar à sociedade. Nos seus últimos anos morou em Walnut Creek, Califórnia, onde morreu depois de uma longa doença em 1982. Houve reportagens póstumas a seu respeito nos meios de comunicação de todo o país.

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Dr. HARRY EMERSON FOSDICK (1878 – 1969)

8.5. Dr. Harry Emerson Fosdick (1878-1969)
Box 4-5-9, Inverno (Dez.) 2011 (Pág. 8-9) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_winter11.pdf
Título original: “Reseña inicial impulsa el Libro Grande de A.A.”.

O Livro Grande (Livro Azul, no Brasil) Alcoólicos Anônimos, foi qualificado de muitas maneiras desde sua primeira publicação em 1939, incluindo “estranho” pelo New York Times e “curioso” pela Revista da Associação Médica Americana nas críticas literárias publicadas em outubro daquele ano. Entretanto, algumas pessoas, muitas das quais trabalhavam diretamente com os alcoólicos nas suas respectivas profissões também reconheciam a mudança radical inerente à forma de A.A. tratar o alcoolismo e ofereceram seu apoio aquele grupo que estava começando a encontrar seu caminho.
Um destes profissionais foi o Dr. Harry Emerson Fosdick, um bem conhecido ministro da Igreja Riverside da cidade de Nova York, que escreveu uma resenha muito favorável ao livro e apoiou com entusiasmo seus métodos. Seu apoio inicial supôs um grande impulso para a Irmandade e deu credibilidade à forma inovadora de tratar o alcoolismo esboçada no texto básico de A.A.
O Dr. Fosdick, um amigo não alcoólico de A.A., tinha uma fé profunda no processo e nos procedimentos de A.A., e percebeu a grande ajuda que poderia supor para os membros do clero e outros profissionais que lutavam para ajudar e compreender os muitos alcoólicos com quem tinham contato diariamente. Na sua resenha, aparecida poucos meses depois da publicação do livro em 1939, dizia, em parte, “Este livro extraordinário merece atenção esmerada de toda pessoa interessada no problema do alcoolismo. Sejam as vítimas, amigos das vítimas, médicos, clérigos, psiquiatras ou assistentes sociais… este livro irá lhes dar, melhor que qualquer outro livro conhecido por este escritor, uma perspectiva interna do problema enfrentado pelo alcoólico”.
Na sua resenha, o Dr. Fosdick defendia o emergente grupo e seu itinerário para a recuperação. “Este livro nos apresenta a experiência acumulada de cem homens e mulheres que foram vitimas do alcoolismo – muitos deles considerados irremediáveis pelos especialistas, e que ganharam a libertação, recuperaram sua sanidade e o domínio de si próprios. Suas histórias são detalhadas e circunstanciais, de intenso interesse humano. Atualmente, na América estão aumentando os casos da doença do alcoolismo. A bebida ofereceu uma fuga fácil da depressão. Um oficial do exercito inglês na Índia, ao ser repreendido por beber em excesso disse levantando o cálice: ‘Esta é a via mais rápida de sair da Índia’; da mesma maneira, muitos americanos utilizam as bebidas fortes para fugir dos seus problemas até que, para sua grande consternação, descobrem que, embora sejam livres para começar a beber, não são livres para parar…
Este livro não é sensacionalista em nenhum sentido. Distingue-se pelo seu senso comum, sua moderação e a ausência de exagero e fanatismo. É um relato detalhado, sério, tolerante e compreensivo do problema do alcoólico e das técnicas com as quais seus coautores ganharam a liberdade”.
Depois de ter manifestado seu forte apoio ao Livro Grande, o Dr. Fosdick também reconheceu que trabalhar com os alcoólicos pode ser um grande desafio para os clérigos e outras pessoas que convivam de perto com os efeitos do alcoolismo. “Cada ministro religioso que também é um conselheiro pessoal, já teve que lidar com casos de alcoolismo”,escreveu posteriormente. “Por muitos anos tive medo de fazê-lo. Quase preferia qualquer outro tipo de anormalidade antes que me enfrentar com um caso de alcoolismo”.
Mas, “Alcoólicos Anônimos… é uma benção para os clérigos”, escreveu na sua autobiografia “O viver destes dias”, publicada em 1956. “Como podemos conhecer o alcoólico – sua obsessão compulsiva pela bebida, a escravidão desesperada contra a que luta em vão, uma não cumprida decisão após outra de parar de beber que acaba em mais um fracasso? Quando falamos com um alcoólico, ele sabe que porque nós nunca estivemos onde ele está, não podemos compreender sua situação. Mas quando um ex-alcoólico, que passou pelos mesmos duros sofrimentos e se libertou através dos Doze Passos, fala com um alcoólico, podem-se produzir resultados maravilhosos”.
Bill W. muito frequentemente reconhecia o papel que desempenharam muitos dos defensores iniciais de A.A. e os clérigos, em particular, ajudando a dar forma aos princípios espirituais de Alcoólicos Anônimos e dando-os a conhecer àqueles que os precisavam. Num artigo da revista Grapevine de setembro de 1957, escreveu o seguinte: ”Com a mais profunda gratidão, reconheço aqui a dívida que A.A. tem com os clérigos; não fosse o que fizeram por nós, A.A. nunca teria nascido; quase todos os princípios que utilizamos chegaram através deles. Apropriamo-nos do seu exemplo, sua fé e, até certo grau, das suas crenças, e os transformamos em nossos. Quase no sentido literal, os AAs lhes devemos nossas vidas, nossas fortunas e a salvação que a cada um de nos lhe correspondeu encontrar”.
Portanto, embora as palavras utilizadas para descrever o Livro Grande em seus primeiros tempos tenham sido “estranho” e “curioso”, outra palavra, como indicou o Dr. Fosdick teria que ser “extraordinário”.

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Dr. HARRY M. TIEBOUT (1896 – 1966)

8.4. Dr. Harry M. Tiebout (1896-1966)
Grapevine, Julho de 1966.
Por Bill W.

Quando este número da Grapevine chegar aos seus leitores, todas as pessoas de A.A. já terão tomado conhecimento do falecimento do nosso muito querido amigo, o Dr. Harry M. Tiebout, psiquiatra, o primeiro da sua categoria a apresentar-nos para todo o mundo. Seus dons, um exemplo valoroso, sua profunda compreensão das nossas necessidades e trabalho constante em favor da nossa Irmandade têm sido – e sempre serão, de um valor incalculável.
Começou assim: estávamos no começo do ano de 1939 e o livro Alcoólicos Anônimosestava a ponto de ser impresso. Para nos ajudar a fazer as últimas correções do livro, havíamos distribuído várias cópias mimeografadas do manuscrito. Uma cópia foi parar nas mãos de Harry. Embora grande parte do conteúdo estivesse então contra suas próprias ideias, leu o nosso livro com grande interesse. E o que foi ainda mais importante, após ler o livro, resolveu mostra-lo a um par de seus pacientes, que agora conhecemos como Marty e Grenny. Eram dois de seus pacientes mais difíceis e aparentemente desajuizados. A princípio, o livro causou-lhes pouca impressão. De fato, o uso frequente da palavra “Deus” enfureceu tanto Marty que pegou o livro e o jogou pela janela, foi-se embora aborrecida do elegante sanatório onde se encontrava e se atirou numa tremenda bebedeira.
Grenny não foi tão longe com sua rebeldia; acolheu o livro friamente. Quando finalmente Marty voltou a apresentar-se, tremendo violentamente, perguntou para o Dr. Harry o que poderia fazer agora, ele simplesmente sorriu-lhe e disse: “É melhor que volte a ler esse livro”. De volta para seu quarto, Marty resolveu folhear o livro mais uma vez. Uma frase em especial chamou sua atenção: “Não podemos viver com ressentimento”. Assim que pode aceitar esta ideia sentiu-se cheia de “uma experiência espiritual transformadora”.
Imediatamente, assistiu a uma reunião. Aconteceu na Rua Clinton, onde vivíamos Lois e eu. De volta à Blythewood, encontrou a Grenny cheia de curiosidade. Estas foram as primeiras palavras que lhe dirigiu: “Grenny, já não estamos mais sozinhas”.
Este foi o começo da recuperação de ambas – recuperações que perduram até hoje. Ao ver estes acontecimentos, Harry ficou maravilhado. Apenas uma semana antes, as duas haviam resistido obstinadamente a todos os seus métodos. Agora falavam e o faziam abertamente. Para Harry, esta era a realidade – a nova realidade. Por ser um cientista e homem de valor, Harry não vacilou, nem por um momento, em reconhecer este fato. Colocou de lado suas próprias convicções a respeito do alcoolismo, sob suas manifestações neuróticas, e, rapidamente, se convenceu de que em A.A. existia algo, talvez algo muito importante.
Durante todos os anos posteriores, muitas vezes colocando em risco sua posição profissional, Harry continuou dando respaldo a A.A. Tendo em conta sua posição profissional, isso requeria um grande sacrifício.
Permitam-me que compartilhe com os senhores, alguns exemplos concretos. Em um de seus primeiros pronunciamentos médicos, aquele famoso respeito à “Rendição”, declarou que o processo de diminuir o ego não só era o básico dos princípios de A.A., como também, absolutamente fundamental, na prática da psiquiatria. Esta atitude requeria tanto humildade como conhecimento. Será sempre um ilustre exemplo para nós.
Não obstante, isso era um mero começo. Em 1944, com a ajuda do Dr. Kirby Collier de Rochester e Dwight Anderson de Nova York, Harry havia persuadido à Sociedade Médica Norte Americana do Estado de Nova York a permitir que eu, um leigo, lesse um pronunciamento sobre A.A. em sua reunião anual. Cinco anos mais tarde, o mesmo trio, novamente encabeçado por Harry, persuadiu a Associação de Psiquiatria Norte Americana a me convidar a ler outro pronunciamento – nessa ocasião, ante a sua Reunião Anual em Montreal em 1949. A.A. tinha então uns cem mil membros e muitos psiquiatras já haviam visto de perto o impacto que causávamos em seus pacientes.
Para nós AAs que estivemos presentes nesta reunião, foi um momento muito emocionante. A minha apresentação seria sobre “a experiência espiritual”, segundo o ponto de vista de A.A. Certamente, ninguém levou a sério! Para nosso grande espanto, o pronunciamento foi muito bem aceito – ao menos, a julgar pelos muitos aplausos.
Em seguida, se aproximou de mim, um distinto cavalheiro, Apresentou-se como um dos ex-presidentes da Associação de Psiquiatria Norte Americana. Com grande entusiasmo, disse-me “Sr. W. é bem possível que eu seja o único entre meus colegas aqui presentes que realmente acredita na ‘experiência espiritual’ do mesmo modo que o senhor. Em certa ocasião, eu mesmo tive um despertar muito parecido com o seu, uma experiência que tive em comum com dois amigos íntimos, Bucke e Whitman”.
Naturalmente, perguntei-lhe: “Mas, porque parece que seus amigos gostaram do pronunciamento?”. Replicou-me algo como: “Olhe, nós psiquiatras sabemos o quão difíceis são os senhores, os alcoólicos. O que comoveu a meus colegas não foram as afirmações que o senhor fez em seu pronunciamento. mas o fato de que A.A. pode levar a sobriedade aos alcoólicos em grande número”.
Visto dessa forma, sentia-me ainda mais profundamente comovido pelo magnífico e generoso tributo que se havia prestado a A.A. Sem demora, meu pronunciamento foi publicado na Revista de Psiquiatria Norte Americana e a nossa sede de Nova York foi autorizada pela Associação para fazer e distribuir todas as cópias que desejássemos. Nessa época, A.A. já havia começado a se difundir no exterior. Só Deus sabe o quanto esse artigo, ao ser reproduzido por nós e presentado aos psiquiatras de países distantes pelos Grupos de A.A. recém-formados, acelerou enormemente a aceitação mundial de A.A.
Poderia continuar falando sem parar a respeito de Harry, contando-lhes as suas atividades no campo global do alcoolismo, de seu marcante serviço em nossa Junta de Custódios. Poderia contar-lhes da nossa grata amizade, recordando, particularmente, seu bom humor e seu riso contagioso. Mas o espaço que me foi destinado é muito pequeno.
Transcrito do livro “A Linguagem do Coração”, pag. 433 a 435. Junaab, código 104.
Veja mais em:
http://www.silkworth.net/tiebout/tiebout_papers.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Harry_Tiebout

Postado por CAHist

RUTH HOCK CRESCELIUS (1911 – 1986)

8.3. Ruth Hock Crescelius (1911-1986)
Box 4-5-9, Ago. Set. / 1986 (pág. 7-8) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_aug-sept86.pdf
Título original: “…Un ejemplo que no olvidaremos nunca”.

O dia 4 de maio de 1986, A.A. perdeu a mulher que o cofundador Bill W. descreveu como“um dos verdadeiros pioneiros de A.A.”. Ruth Hock Crecelius. Ruth, primeira secretária não alcoólica de Bill W., foi quem datilografou o manuscrito original do Livro Grande e também ajudou a formular as palavras que se referem a Deus nos Doze Passos. Ao ser o primeiro “membro do pessoal” do escritório que mais tarde se converteria em Escritório de Serviços Gerais de A.A. – ESG foi pioneira em abrir a passagem a todos os empregados e membros do pessoal que lhe seguiram.
Todos que assistiram a abertura da Convenção Internacional do 50º Aniversário de A.A. em Montreal no ano passado (1985). Ficaram em pé para ovaciona-la enquanto era presenteada com a copia cinco milhões do Livro Grande. A multidão que participou na mesa de trabalho dos Arquivos Históricos, nunca irão esquecer o emocionante discurso que ela fez nessa ocasião. Todos têm na memória a imagem de uma mulher bonita, vivaz e cordial, que não aparentava a idade que tinha.
Ruth Hock tinha 24 anos quando, em 1937, respondeu o anuncio de um jornal e foi contratada como secretária de uma empresa de nome Honor Dealers, que ficava no número 17 da Rua William, em Newark, Nova Jersey. Não fazia nem ideia da aventura a que se estava lançando – porque os proprietários da empresa eram Bill W. e Hank P., este, o primeiro bêbado novayorquino a alcançar a sobriedade depois de Bill. Logo descobriu que o escritório tinha mais a ver com ajudar alguns bêbados anônimos do que realmente fazer os trabalhos típicos de um comércio.
Bill começou a trabalhar no Livro Grande em março ou abril de 1938. Ruth, que datilografou o manuscrito, lembrou que Bill costumava chegar ao escritório com um bloco de papel amarelo (à esquerda), onde tinha feito um rascunho de cada capítulo do livro.“Aquelas anotações eram fruto de muitas reflexões depois de haver discutido os prós e os contra durante muitas horas com qualquer um que tivesse interesse no assunto”. Bill ditava enquanto ela datilografava na máquina de escrever. Justamente antes de terminar o manuscrito (de acordo com o que Bill conta no livro “A.A. Atinge a Maioridade”), estourou no escritório mais uma das muitas batalhas que o texto suscitava. Encontravam-se presentes Fitz M., Hank P., Ruth e Bill e estavam discutindo os Doze Passos. A ênfase em “Deus” e, noutro lugar do texto as palavras “ficar de joelhos”, ofendiam a Hank, quem se referiu ademais às palavras de Jimmy B. Os dois estavam convencidos de que essas palavras iriam afugentar milhares de alcoólicos. “Bill não cedeu. Não quis mudar nenhuma palavra”. E Fitz o apoiou, Ruth, adotando uma posição intermediária “tratando de refletir a opinião dos não alcoólicos” recomendou-lhes que fossem mais transigentes e manifestou-se favorável a colocar “menos fraseologia doutrinal”. E assim concordaram em usar a frase “Um Poder superior a nós mesmos”, e acrescentar as palavras “Deus como cada um o conceba”. Foram suprimidas as palavras “de joelhos” e colocou-se a frase introdutória “Eis os passos que demos, e que são sugeridos como um programa de recuperação” (Livro Azul, pág. 88/3/1, Junaab, código 102).
Ruth Hock aparecia numa das fotos de grupo que foram usadas para ilustra o artigo de Jack Alexander publicado na Saturday Evening Post, e depois ajudou a organizar os voluntários que responderam a grande avalanche de pedidos de ajuda em consequência do artigo. Despediu-se do escritório em 1942 para se casar, mas através das décadas manteve contato por correspondência e fazendo visitas esporádicas. O que Bill escreveu a respeito de Ruth no livro “A.A. Atinge a maioridade”, poderia ser tomado como o mais eloquente obituário:

“Ruth Hock foi a moça não alcoólica dedicada que escreveu ao ditado um monte de páginas, trabalhando durante meses na maquina de escrever enquanto o livro Alcoólicos Anônimos estava em preparação, com frequência sem salário recebendo em substituição ações da Works Publishing, que, naquele então, não tinham valor algum. Com profunda gratidão, lembro como seu conselho sábio, seu bom humor e sua paciência contribuíram para resolver as intermináveis disputa sobre o conteúdo do livro. Muitos veteranos, também com gratidão, lembraram as calorosas cartas que ela escrevia quando estavam sozinhos lutando para manterem-se sóbrios… Despediu-se de nós levando consigo os melhores votos de milhares de membros. Deu-nos um exemplo que não esqueceremos nunca”.

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REVERENDO SAMUEL SHOEMAKER (1893 – 1963)

8.2. Reverendo Samuel Shoemaker (1893-1963)
Grapevine, Fevereiro de 1967.
Por Bill W.

O Dr. Shoemaker era uma dessas pessoas indispensáveis para A.A. Se ele não se houvesse ocupado tanto de nós em nossos primeiros dias, nossa Irmandade hoje não existiria. Portanto, sua recém publicada biografia, intitulada “I Stand by the Door”, algo como, “Espero na Porta”, tão bem redigida por sua esposa Helen, é um símbolo comovedor da grande dívida que temos para com ele e para enriquecer nossa compreensão desse magnífico amigo.
Para começar, permitam-me que familiarize as novas gerações com o “Sam” que os mais velhos conhecemos tão bem nos primeiros dias de A.A. e nos anos posteriores. Com este fim, gostaria de falar da sua presença na Convenção Internacional de 1955, realizada em St. Louis. Menciono as seguintes palavras de nosso livro de história “A.A. Atinge a sua Maioridade” – Junaab, código 101.
“O Dr. Sam não demonstrava ser nem um dia mais velho do que quando o conheci há vinte e um anos, em seu dinâmico Grupo da casa paroquial do Calvário em Nova York. Quando começou a falar, produziu nos ali reunidos no Auditório Kiel, o mesmo impacto que havia produzido em Lois e em mim anos antes. Como sempre, chamava o pão de pão e o vinho de vinho; seu ardente entusiasmo, sua sinceridade e sua transparência diáfana serviam para reforçar o efeito de sua mensagem. Apesar de todo seu brio e eloquência, Sam nunca perdeu o bom senso. Era um homem que nunca vacilava para falar de seus próprios pecados. Apresentou-se como testemunha do poder do amor de Deus, tal como o teria feito qualquer membro de A.A.
A presença de Sam diante de nós era outra evidência de que a Providência havia se utilizado de muitos canais para criar Alcoólicos Anônimos. E nenhum mais visivelmente necessário que o canal aberto por Sam Shoemaker e seu Grupo de Oxford na geração anterior. Os princípios de autoexame, o reconhecimento dos defeitos de caráter, de reparações pelos danos causados e dos trabalhos com outros, adotados pela Irmandade em seus primórdios, nos vinham direta e exclusivamente do Grupo de Oxford e de Sam Shoemaker, seu líder na América do Norte naquela época. Aparecerá sempre em nossos anais como a pessoa cujo exemplo e ensinamentos contribuíram muito para criar o clima espiritual no qual os alcoólicos podiam sobreviver e se desenvolver. A.A. tem uma dívida eterna de gratidão para tudo o que Deus nos enviou através de Sam e seus amigos dos dias de infância de A.A.”
Creio que qualquer pessoa que leia o livro de Helen Shoemaker “I Stand by the Door”, será uma pessoa melhor depois de tê-lo feito. Este relato vívido e comovedor de Sam em sua vida privada, em seu trabalho pastoral e em sua vida pública nos oferece um amplo e detalhado retrato de um dos melhores seres humanos de nossos tempos.
Transcrito do livro “A Linguagem do Coração”, pag. 445-446. Junaab, código 104.
Veja mais em:
http://www.silkworth.net/dickb/samshoemaker3.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Sam_Shoemaker
http://www.amazon.com/Stand-Door-The-Life-Shoemaker/dp/B000Q9P2S0

Postado por CAHist

Dr. WILLIAM DUNCAN SILKWORTH (1873 – 1951)

8.1. Dr. William Duncan Silkworth (1873-1951)

Box 4-5-9, Inverno (Dez.) 2010 (Pág. 4- 6) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_winter10.pdf
Título original: “William Duncan Silkworth: ‘El pequeño doctor que amaba a los borrachos’”

Bill W. dizia com frequência que o programa de A.A. tinha uma grande dívida com a religião e a medicina. Atribuía o mérito da contribuição religiosa ao Grupo de Oxford e ao Dr. Sam Shoemaker e ao mesmo tempo indicava que os princípios espirituais vinham da antiguidade e eram universais, portanto, propriedade comum da humanidade.
Enquanto à contribuição da medicina, atribuía grande parte do mérito ao Dr. William Duncan Silkworth, o médico que tinha tratado dele no Hospital Towns de Nova York em1934. A gratidão. A gratidão que Bill sentia por Silky, como ele o chamava, parecia não ter limites, e nos últimos anos de vida, Bill tratou de ajudá-lo inclusive, financeiramente.
Quais foram as principais contribuições do Dr. Silkworth a Bill e a A.A.? Houve varias. Uma delas foi mostrar a Bill a natureza mortal e incurável do alcoolismo ao defini-la como “uma alergia física junto como uma obsessão mental”. O Dr. Silkworth iria-se converter num forte defensor da crença de que o alcoolismo tem uma causa física além de causas emocionais e mentais. Defendeu esta crença em artigos publicados em revistas de medicina.
Outra contribuição foi sua resposta compreensiva e favorável à iluminação espiritual que Bill teve no Hospital Towns em dezembro de 1934, uma experiência que colocou Bill no caminho para a sobriedade permanente e mudou para sempre sua vida (outro médico poderia ter considerado essa experiência como um sinal de transtorno mental ao invés de um possível ponto de mudança na recuperação de Bill).
Depois que Bill saiu do hospital, o Dr. Silkworth lhe deu permissão para voltar e contar sua história a outros pacientes alcoólicos, uma prática que mais tarde se converteria na tradição de “levar a mensagem”. Embora atualmente seja uma pratica habitual, membros de A.A. ir visitar alcoólicos hospitalizados, o Dr. Silkworth estava correndo risco profissional ao permitir que Bill fizesse isso em 1935. Depois, quando A.A. se converteu num movimento e publicou o Livro Grande em 1939, o Dr. Silkworth deu seu aval escrevendo “A opinião do médico” que aparece no começo do livro em todas as edições.
Finalmente, O Dr. Silkworth continuou sendo amigo de A.A. e recomendava o programa a outros médicos. Ao rever seu histórico poder-se-ia dizer que foi a pessoa certa no momento certo para o que Bill e A.A. precisavam.
William Duncan Silkworth foi por formação e por temperamento o tipo de médico que poderia ser atraído pela difícil especialidade de tratar alcoólicos e outros adictos.
Nascido no Brooklin em 1873 mostrou desde muito cedo interesse pela medicina e os seus aspectos emocionais e mentais. Por natureza era uma pessoa compassiva que poderia manifestar um profundo interesse pelos seus pacientes independentemente da especialidade que tivesse escolhido.
Em 1892 matriculou-se na Universidade de Princeton. Foi um bom aluno e em 1896iniciou seus estudos práticos de medicina no Hospital Bellevue. Este era o lugar ideal para iniciar uma carreira de medicina na especialidade do tratamento do alcoolismo e a adição às drogas, embora este não tivesse sido seu objetivo no início. Mas, como registrado num artigo da Grapevine publicado em 1951, descobriu enquanto trabalhava no Bellevue que se sentia atraído pelos alcoólicos e estes por ele.
“Quando ninguém podia acalmar um bêbado alterado, O Dr. Silkworth podia fazê-lo” dizia um artigo da Grapevine. “E descobriu, para sua surpresa, que os bêbados mais difíceis falavam com ele tranquilamente – e inclusive mais surpreendente, muitos deles choravam. Pareceu evidente que ele exercia – ou era exercido através dele, algum tipo de influencia degeladora nas gelas fontes da vida do alcoólico”.
Em 1902 casou-se com Marie Antoinette Bennett, que seria sua companheira a vida toda num casamento muito unido. Tiveram apenas um filho que morreu uma semana depois de nascer. O Dr. Silkworth tinha todas as qualidades para ser um bom homem de família e é possível que a energia que poderia ter consagrado a criar filhos a dedicara ao trabalho.
Apesar da sua excelente formação e talento, o Dr. Silkworth passou por alguns anos de desilusão antes de descobrir a sua verdadeira vocação. Tentou montar um consultório particular, mas descobriu que seria mais conveniente trabalhar regularmente em hospitais. Durante a Primeira Guerra Mundial passou dois anos como membro do corpo psiquiátrico do Hospital do Exercito dos EUA em Platsburg, Nova York. Por coincidência, esta foi a mesma base militar em que Bill W. teve sua formação de oficial, mas os dois não se conheceram durante esse período. O Dr. Silkworth também passou vários anos no corpo médico do Instituto Neurológico do Hospital Presbiteriano de Nova York, atualmente conhecido como Columbia-Presbyterian. Durante algum tempo teve um bom salário e parecia estar a caminho de se tornar rico
Mas na quebra da Bolsa de 1929 perdeu toda sua poupança e viu-se obrigado a aceitar um posto de trabalho no Hospital Charles B. Towns, por um salário de 40 dólares semanais. Aparentemente um grande revés na sua vida, isto resultaria ser um caso proverbial de que, “não há mal que por bem não venha”. Foi lançado na carreira de médico especializado no tratamento do alcoolismo e da drogadicção. Uma consequência disso foi a de ter a Bill W. como paciente e dar-lhe conselho e ajuda importantes.
Na sua história pessoal, Bill descreve o Hospital Towns como um hospital renomado a nível nacional para a reabilitação mental e física dos alcoólicos. Foi-lhe recomendado pelo seu cunhado, o Dr. Leonard Strong. “Sob o chamado tratamento da beladona (1)começaram a clarear meus sentidos”, escreveu Bill sobre a sua primeira estadia no Hospital Towns. “A hidromassagem e exercícios suaves me ajudaram muito. E o melhor de tudo, conheci um médico muito amável que me explicou que, embora sem dúvida eu fosse um homem egoísta e bobo, havia estado gravemente doente, física e mentalmente”.
Isso foi o começo de sua amizade e no início, parecia ao Dr. Silkworth que Bill tinha boas chances de conseguir a sobriedade. Muito poucos de seus pacientes se mantinham sóbrios por longos períodos de tempo, mas ele nunca perdeu a esperança, Bill, com os novos conhecimentos adquiridos a respeito da natureza do seu alcoolismo, saiu do hospital acreditando ter solucionado o problema. O conhecimento de si mesmo iria salvá-lo.
Mas Bill voltou a beber e retornou ao Hospital Towns. “Pareceu-me que tinha chegado o fim; as cortinas tinham-se fechado”, escreveu. “Informaram a minha mulher, exaurida e desesperada, que tudo acabaria com um ataque cardíaco durante um delirium tremens, ou acabaria tendo um edema cerebral talvez em menos de um ano. Logo seria entregue ao coveiro ou internado num manicômio”.
Ao sair novamente do hospital, Bill se manteve um tempo sóbrio antes de se jogar novamente na que ia ser sua última bebedeira em novembro de 1934. Quando voltou ao Hospital Towns pela terceira vez (2), estava considerando seriamente um programa espiritual que um velho amigo tinha-lhe apresentado. Durante essa terceira internação teve a deslumbrante experiência espiritual que aparece descrita no Livro Azul (página 45). Quando Bill relatou a experiência ao Dr. Silkworth, o médico disse-lhe: “Alguma coisa lhe aconteceu que eu não compreendo, Bill. Mas, seja qual for a experiência que você teve, e melhor que se agarre a ela; é muito melhor que o que você tinha até pouco tempo atrás”.
Depois de sair do hospital, Bill começou a levar a mensagem a outros alcoólicos, contando-lhes sua própria experiência espiritual e insistindo em que a eles poder-lhes-ia acontecer o mesmo. Mas nenhum desses alcoólicos alcançou a sobriedade, e passado um tempo, o Dr. Silkworth lhe sugeriu que talvez pudesse ter mais sucesso se deixara de pregar e se focasse no aspecto médico da sua condição explicando-lhes que tinham uma doença incurável e não poderiam voltar a beber nunca mais.
Refletindo sobre essa sugestão, Bill mudou seu foco justamente antes de viajar para Akron onde estava destinado a conhecer o Dr. Bob. Parecia uma ironia que Bill, não tendo nenhuma informação de medicina, comunicasse esta informação médica ao Dr. Bob que era um médico já experiente. Mas o fez com todo sucesso e o Dr. Bob, depois de mais uma viagem à embriaguez, manteve-se sóbrio o resto da sua vida e contribuiu enormemente para lançar A.A. no Meio Oeste dos EUA.
De volta à cidade de Nova York, Bill formou um Grupo que entre seus membros havia alguns alcoólicos tratados no Hospital Towns. Continuava a apresentar a ideia do Dr. Silkworth de que o alcoolismo é uma reação alérgica. Em 1937, o Dr. Silkworth publicou dois artigos na revista The Medical Journal, nos que tratou desta então polêmica abordagem. Além disso, comentou também a respeito de certa “psicologia moral”, que estava ajudando alguns alcoólicos a alcançar a sobriedade, referindo-se aos esforços de Bill. Mais tarde, num artigo publicado na revista médica The Lancet, o Dr. Silkworth fazia uma explanação sobre esse tema. E, embora ainda não fosse usada na medicina a palavra “alergia” para indicar uma causa do alcoolismo, já existiam fortes evidencias de que essa condição tinha um componente físico.
O Dr. Silkworth continuou trabalhando no Hospital Towns e durante os seis últimos anos da sua vida também tratou pacientes no Hospital Knickerbocker, onde contava com uma assistente de nome Teddy, que também parecia ter o dom de ajudar os alcoólicos.
Em 1951, o Dr. Silkworth parecia disfrutar de boa saúde e ainda conseguia tratar pacientes. Mas já tinha 78 anos de idade e precisava caminhar mais lentamente. Não tinha plano de pensão nem outros recursos para se aposentar, mas Bill idealizou um plano que tornaria possível ao doutor continuar a trabalhar e ao mesmo tempo viver com sua mulher em condições mais cômodas. Através de seus contatos no campo do alcoolismo, Bill soube que um centro de tratamento em Dublin, New Hampshire, precisava um diretor clínico. Na visão de Bill este posto poderia servir como uma residência de aposentadoria. Os Silkworth poderiam morar lá como se fosse um centro de férias na montanha e o hospital contaria com a pericia do doutor e sua experiência no campo do alcoolismo. Bill também desenvolveu um plano para arrecadar fundos para o centro e assim contribuir para torna-lo solvente.
Sem dúvida era um bom plano, mas antes de poder implementá-lo, o Dr. Silkworth morreu de ataque cardíaco no dia 22 de março de 1951, Seu obituário, que apareceu no New York Times, mencionou seu serviço a A.A. A Fundação do Alcoólico também lhe rendeu homenagem; no texto, provavelmente obra de Bill, descrevia o doutor como “o primeiro e talvez o melhor amigo de Alcoólicos Anônimos” e reconhecia sua profunda compreensão de A.A. no seu começo e o animo que lhe dava numa época em que a falta de compreensão ou uma palavra de desalento poderia ter acabado com a Irmandade. “Era um homem santo… Podia salvar vidas que eram irrecuperáveis por qualquer outro meio. Um homem assim, não pode morrer no sentido literal. Nosso amigo nos deixou… apenas por um momento”.
Veja também: http://www.barefootsworld.net/aasilkyloveddrunks.html
N.T. (1): Para saber mais sobre a “Cura da Beladona”, ver em:
http://translate.google.com.br/translate?hl=ptBR&langpair=en|pt&u=http://anonpress.org/faq/25&ei=fnoJUYaII5SM9ATUqYDIDQ
http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&langpair=en|pt&u=http://chipsontheweb.net/history/bella.htm&ei=fnoJUYaII5SM9ATUqYDIDQ
N.T. (2): Vários historiadores e documentos oficiais de A.A. atestam que foram quatro internações de Bill W. no Towns Hospital, e não três como sustenta o artigo. Teriam sido elas: a primeira no outono de 1933, a segunda em julho de 1934, a terceira em 17 de setembro de 1934 e a quarta em 11 de dezembro de 1934. Um exemplo:
“Bill Wilson, cofundador de Alcoólicos Anônimos (A.A.), foi internado no Towns Hospital quatro vezes entre 1933 e 1934. Em sua quarta e última estadia, ele mostrou sinais de delirium tremens e foi tratado com a cura Belladonna. Ele teve seu “Hot Flash” – despertar espiritual, ao se submeter a esse tratamento, na segunda ou terceira noite após a internação, dependendo da fonte. Quando ele saiu do Towns Hospital depois de uma estadia de sete dias, ele nunca voltou a beber novamente…”.
http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_B._Towns

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UNICIDADE DE PROPÓSITO DE A.A.

7.48. Unicidade de propósito de A.A.
Box 4-5-9, Fev. Mar. 2003 (pag. 3-4) => http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_feb-mar03.pdf
Título original: “Unicidad de propósito”.

A “Unicidade de Propósito” é essencial para o tratamento do alcoolismo. O motivo para merecer tão exagerado enfoque é o de superar a negação. A negação associada ao alcoolismo é astuta, desconcertante e poderosa e afeta ao paciente, a quem o ajuda e à comunidade. A menos que o alcoolismo se mantenha incessantemente em primeiro plano, outros assuntos irão usurpar a atenção geral.
Os trabalhadores no campo da saúde mental e da pesquisa têm uma grande dificuldade com a Quinta tradição de A.A. – “Cada Grupo é animado de um único propósito primordial: o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”. Uma vez que estes trabalhadores costumam admirar o sucesso e a fácil disponibilidade geográfica de Alcoólicos Anônimos, pode-se compreender que desejem ampliar a composição dos membros para incluir pessoas que abusam de outras substâncias. Também percebem que o uso apenas do álcool é cada vez menos frequente, e o abuso de várias drogas combinadas é mais comum. Estes trabalhadores da saúde mental consideram que a unicidade de propósito de A.A. é antiquada e exclusivista. Acham que essa Tradição é uma relíquia dos primeiros dias de A.A. e que os jovens, os pobres e as minorias com antecedentes criminais serão excluídos. Além do mais, quando não há fácil disponibilidade de um centro profissional para o tratamento de drogas ou um Grupo de Narcóticos Anônimos (NA) é difícil para estes profissionais entender porque A.A. com sua tradição de trabalho do Décimo Segundo Passo, não intervém para preencher esse vazio.
Como trabalhador na área da saúde mental e pesquisador, acredito que há dois argumentos que anulam essas preocupações. O primeiro, a Terceira Tradição de A.A., “Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber”, faz com que A.A. não seja exclusiva. A cada ano A.A. acolhe entre seus membros muitos milhares de alcoólicos pobres, alcoólicos com problemas de drogas, alcoólicos pertencentes às minorias e alcoólicos condenados pela Justiça. A.A. não exclui ninguém que tenha o desejo de parar de beber.
O segundo argumento, que a “Unicidade de Propósito”, como necessária para superar a negação, é ainda mais poderoso. Se houver a opção de escolher, ninguém irá querer falar do alcoolismo. Ao contrário: dedicam-se muitas manchetes à adição às drogas, e investem-se muitos fundos para sua pesquisa e para atrair a atenção de profissionais clínicos para essa área. Depois de dois anos de trabalho no Centro Federal de Tratamento de Narcóticos de Kentucky, eu, um simples professor assistente, fui convidado para falar a respeito da adição à heroína. Em fins dos anos 90, como professor titular e depois de 25 anos de pesquisa sobre o alcoolismo e sua enorme morbosidade, finalmente me pediram para falar sobre o álcool na minha cidade natal. O tema que me propuseram foi “Porque o álcool é bom para a saúde”. Em poucas palavras, o maior obstáculo para o tratamento do alcoolismo é a negação.
Comecei minha carreira psiquiátrica num Centro de Saúde Comunitária profundamente dedicado. A comunidade tinha manifestado sua opinião de que o abuso do álcool era seu maior problema. Depois de dez anos em operação, o centro se limitava a tratar os problemas segundo, terceiro e quarto da comunidade. Não se dedicavam recursos ao tratamento do álcool.
Trasladei-me a outro Centro Comunitário de Saúde Mental que também havia, ouvido seus cidadãos e tinha aberto um ambulatório para o tratamento do alcoolismo. Foi-me pedido para cobrir o posto de codiretor da clínica e fui o último psiquiatra contratado por esse centro de saúde mental. Significativamente, eu não tinha experiência com o alcoolismo, mas nenhuma outra pessoa queria o trabalho.
Com exceção do tabaco, o álcool é um problema de saúde e familiar maior que todas as demais drogas. O abuso do álcool custa ao país mais que os gastos totais orçados para todas as doenças de pulmão e câncer. Depois do fumo e da obesidade, o abuso do álcool é talvez a terceira causa de mortes no país. Entretanto, é terrivelmente difícil tomar conhecimento deste perigo. O abuso do álcool cobra 100.000 vidas ao ano, e nos pavilhões médicos e cirúrgicos custa de duas a seis vezes mais tratar 25% dos pacientes com problemas de alcoolismo, do que tratar os demais pacientes. Entretanto, as residências médicas e cirúrgicas, tão conscientes dos gastos neste século XXI, excluem invariavelmente o alcoolismo de seus programas. Não há tempo suficiente, dizem, para prestar atenção ao alcoolismo. Parta combater esta negação, o princípio da “Unicidade de Propósito” de A.A. é uma necessidade.
Dito de outra maneira, o sucesso de A.A. documentado experimentalmente no tratamento do alcoolismo se deve, mesmo em parte, a que os Grupos de A.A. são o único lugar do mundo no qual o foco é o alcoolismo e unicamente o alcoolismo. Simplesmente, não há outra maneira de superar a negação.
Resenhas biográficas:
O Dr. George Eman Vaillant (1), nascido em 1934 nos EUA, é psiquiatra e psicanalista, trabalha em Harvard; é mundialmente conhecido por seu livro “A História Natural do Alcoolismo” (2), de 1983, recentemente revisto e traduzido para o português e é há décadas respeitado como uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo.

Grande amigo de A.A., quando escreveu o artigo acima era Custódio (não alcoólico) da Junta de Serviços Gerais nos EUA (lá, são 21 Custódios: 14 alcoólicos – Classe B, e sete não alcoólicos – Classe A), encargo que ocupou de 1998 até 2004 quando foi substituído por outro médico e também professor de Harvard, o Dr. Bill Clark.
N.T. (1): Em agosto de 1999, o Dr. Vaillant esteve no Brasil para participar do 13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo celebrado no Rio de Janeiro entre os dias 12 e 15 de agosto de 1999. Na ocasião, deu uma entrevista a Lucila Soares da revistaVeja, publicada nas Páginas Amarelas da Edição 1611 de 18 de agosto de 1999, com o título “O porre é grotesco”. Veja a entrevista em:
http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx
http://adroga.casadia.org/news/porre_grotesco.htm
Leia a palestra que o Dr. Vaillant proferiu no13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo celebrado no Rio de Janeiro entre os dias 12 e 15 de agosto de 1999,sobre “A.A. – Culto ou Pílula Mágica”, em:
http://aabr.com.br/ver.php?id=266&secao=10
Você também poderá ler no Box 4-5-9, Fev. Mar. 2003 (pag. 3-4) o artigo escrito pelo Dr. Vaillant “Unicidade de propósito” em:
http://www.aa.org/newsletters/es_ES/sp_box459_feb-mar03.pdf.
N.T. (2): No Brasil este livro é publicado pela Editora Artmed. Pode ser encontrado entre outros sítios, em:
http://compare.buscape.com.br/a-historia-natural-do-alcoolismo-revisitada-vaillant-george-8573072628.html#precos
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/432016/a-historia-natural-do-alcoolismo-revisitada/

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