Monthly Archives: Março 2015

A.A.: A PONTE DE VOLTA À VIDA – SAULO F.

alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas, se alguém caminha de noite, tropeça, porque lhe falta a luz.

“Meu criador, agora desejo que me aceites como sou, por inteiro, bom e mau. Peço que removas de mim todo e qualquer defeito de caráter que me impeça de ser útil a Ti e aos meus companheiros. Conceda-me forças para que ao sair daqui, eu cumpra as tuas ordens. Amém!”

A.A.: A PONTE DE VOLTA À VIDA
Saulo F.
(dr.saulofilardi@gmail.com)
“Nós não somos um corpo físico vi- vendo uma experiência espiritual, mas sim Espírito vivendo uma experiência terrena” (Teilhard de Chardin)

O título sugerido pelo SÉTIMO ENCONTRO COM OS VETERANOS em Cachoeira do Campo – Ouro Preto – Minas Gerais, pressupõe o seguinte: Primeiro, que, quando estávamos no que chamamos militância alcoólica, não vivíamos, vegetávamos. Segundo, que o ingresso na Irmandade de Alcoólicos Anônimos serviu para alguns como ponte para retornarmos à vida que havíamos perdido, ou, até mesmo, que nunca tivemos, dada a precocidade com que certos companheiros começaram a beber. Para se captar melhor a idéia que desenvolveremos a seguir, imaginemos esta ponte o mais realisticamente possível. Ao longo de sua extensão, há duas portas e cada uma delas se abre para um espaço que lhe é pertinente. Nesses dois espaços, ou nessas duas ilhas haverá uma mudança na individualidade de cada um dos passantes, por intermédio da conscientização. Mais ou menos dentro daquela linha do “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Para ser mais exato, convém já de início estabelecer uma diferença entre as duas ilhas alcançadas pela ponte da boa vontade. É que a segunda não é propriamente uma ilha. É um continente. Melhor é o próprio planeta. É a terra toda, onde o sol do Espírito nunca se põe.
A PRIMEIRA PORTA
Neste anfiteatro tão confortável onde estamos, não há um encontrista que seja, mesmo entre aqueles nossos amigos de A.A., que hesite em acreditar que o firmar-se em A.A. representou para cada alcoólatra um restabelecimento da sanidade mental, para usar uma expressão textual de nossa literatura, pois que a loucura desconcertante ficou para trás. Somos todos, aqui e alhures, lá e cá, em todos os quadrantes da terra, no mundo inteiro onde existe o programa, testemunhas expressivas da mudança ocorrida tão logo nos conscientizamos das primeiríssimas verdades nele expressas (primeiro passo) e as colocamos em prática. A vida do alcoólatra em abstinência, volto a repetir a idéia, ganha em ausência de doidice, e é quando ele substitui o chamamento irresistível para as garrafas por um desejo de ajustar-se à sociedade dos considerados normais (esta mesma sociedade que demonstrou, em estatística de rejeição social, que de todos os casos apresentados à pesquisa, apurou que o maior índice de rejeição social recaiu mesmo nos alcoólatras).
Esta fase inicial do alcoólatra na Irmandade significa que a primeira porta foi aberta por ele. Esta travessia engloba o ingresso formal ou não, frequência às reuniões e a evitação da bebida. Este primeiro estágio costuma propiciar, frequentemente, uma espécie de lua de mel com a vida e é de duração efêmera (embora Bill não a considere tão efêmera assim, pois, a julga presente durante o primeiro ano de abstinência). De qualquer forma, reduzida ou não, ela faz lembrar o castelo fantástico da tradição budista, que serve de injeção de ânimo para os caminhantes do Espírito, quando extenuados estão, assim como extenuados estávamos na época do ingresso. Como conseqüência, o ingressante passa horas e dias como se estivesse no céu. Atenção! Furto essa imagem de um companheirinho, extremamente simples, oriundo da área rural, e provavelmente analfabeto, que assim se expressou na sua segunda reunião, uma semana depois do ingresso: “parece que estou no céu!”. Isto se passou há mais de três décadas e meia no grupo Renascer de Venda Nova/BH, e, na época, só havia uma reunião por semana, aos domingos. Nunca mais vi o João, de cujo nome, entretanto, jamais iria esquecer.
O Espírito de Deus fizera uma marca em João, o simples. Uma marca inesquecível, assim como inesquecível fora a marca incrustada no coração do primeiro de nós, meio advogado, meio engenheiro, meio corretor da bolsa, de boa cultura e escrita fácil, quando exclamou sozinho em seu quarto de hospital: Ah! Então esse é o Deus de que falam os pregadores! Naquele momento, era-lhe dado o salvo conduto para a missão espinhosa que a Vida lhe atribuiu, o “plus” necessário de energia para poder suportar o ambiente de confusão mental dos ex-bêbados, com os quais deveria se meter, e como líder! Inoculou-se nele, do Alto, o gérmen necessário de tolerância e sabedoria para que ele pudesse completar obra tão ingente.
Estes acontecimentos transcendentais, para não dizer miraculosos, nos fazem lembrar novamente que o homem é espírito. É espírito, embora pareça ser matéria, provisoriamente. Levamos tempo para descobrir que o centro de decisões da nossa vida não nos pertence, embora tenhamos a veleidade, a fatuidade, a leviandade, a ingenuidade, a vaidade (e tantos outros “ades” que pudesse colecionar) de a cada instante, de forma menor, desafiarmos Deus, exigindo que seja feita a minha vontade, não a Dele! É o que o psicoterapeuta Norberto Keppe, imigrante radicado no Brasil, intitulou de teomania. Quer dizer, desafiar Deus. Achar-se melhor que Ele. Invejá-lo! Tal atitude costuma passar despercebida, porque acontece, no mais das vezes, em nível semi consciente.

A SEGUNDA PORTA
Após atravessarmos o umbral daquela primeira porta, a que nos deu acesso ao A.A. vitoriosamente, logo começamos a vislumbrar à nossa frente uma segunda porta. É, como a primeira, uma bela e majestosa porta, mas, enquanto aquela possui, em alto relevo, ramagens entrelaçadas de flores multicoloridas, arabescos que mais parecem anunciar um clima de festa (a do ingresso), esta segunda porta é uma réplica daquela do templo de Delfos na Grécia antiga, e encimando-a a mesma inscrição atribuída aos sete sábios gregos: “conheça-te a ti mesmo, e conhecerás a ti e ao universo”. Chamemos a atenção para o seguinte, como reforço do primado do espírito, que aqui postulamos. Note-se que na sequência desta frase, somente a primeira parte é mais conhecida: conheça-te a ti mesmo. A expressão “conhecerás a ti e ao universo”, denota que todo o período não foi escrito, como muitos pensam, com o propósito específico de se analisar o mundo psicológico do ser humano. Aliás, naquela época, a psicologia ainda nem existia como ciência autônoma, tendo sido parida muitos anos mais tarde do ventre da honorável filosofia. Esta máxima tinha o destino de chamar a atenção, para o que já afirmamos aqui: que o ser humano é antes Espírito, e para tal direção deve voltar a sua mente. Conhecer a mim mesmo é o mesmo que conhecer o universo porque tudo que existe neste universo infinito tem a mesma natureza divina. Tal afirmação se prestava como uma anunciação do nosso parentesco com Deus. Também, foi o que quis dizer Hermes de Trimegisto, outro cidadão da Grécia antiga, quando cunhou aquela expressiva frase “o que está em cima é o mesmo que está em baixo”, ou o que o Nazareno quis dizer com o “assim na terra como no céu”. Sobre o pensamento grego, aliás, não resisto em lembrar-me, do que já se disse sobre ele: “nós pensamos como pensamos porque os gregos pensaram como pensaram”.
Depois desta reflexão, que tomei emprestada, mas verdadeira, vou apresentar aos dignos participantes uma pergunta crucial. Arrisco-me a dizer que ela é o xis da questão no estágio avançado da segunda porta. Observem-na e tentem respondê-la: Creio que todos nós, sem exceção, já concordamos que o A.A. trouxe os alcoólicos de volta para a vida. Mas para que vida? Ou, seria melhor, para que modalidade de vida? Seria para o padrão de viver integral, completo, maravilhoso? É como se Bill estivesse nos questionando permanentemente: “Da felicidade verdadeira” conhecemos?
Pois bem, se a resposta for positiva não haverá necessidade de se adentrar a segunda porta. Já está tudo bem. Se a resposta for negativa, ou seja, se ainda nos falta qualidade de vida emocional e espiritual, como é expresso no poema de Maria Cristina Magalhães (publicado na revista “O Cruzeiro, de nove de outubro de 1968”), então a segunda porta, a do autoconhecimento, terá que ser aberta, e seremos convidados a entrar. O poema a seguir, retrata com maestria a mediocridade e a pequenez da espécie humana. Lamentavelmente, é verdade, estamos apenas meio acordados. Nossa escala de valores obedece à prioridade dos sentidos físicos, todos eles caixa de ressonância da matéria e não do espírito. Observem o poema:

Vivem \ Pensam que vivem \ Embora não tenham conhecido a vida \ Fazem suposições \ Querem dominar tudo \ Mas esquecem de dar o primeiro passo \ Para a conquista do próprio ser \ Para o domínio do mundo interior
Eu penso que um dia \ Todos se voltarão \ Para as próprias almas \ Como quem respira \ Por enquanto não passam de estátuas \ Que querem ser colocadas no alto \ Para ser adoradas \ Pobre humanidade ausente!

Conclusão? Que se quisermos ser livres, devemos abrir a segunda porta, a porta do autoconhecimento. Uma vez lá, vamos nos juntar àquela plêiade de homens e mulheres que lá se encontram e que correspondem à nata da civilização humana.
Ali, juntamente com todos, alcoólicos ou não, vamos por mãos à obra e descartar o que não for justo, harmonioso, bom, à semelhança do que escreveu Paulo, o apóstolo, nos seus conselhos. Em vez de sermos estátuas colocadas no alto para sermos adorados, como alertou-nos o poema, adoraremos o Divino.
Assim, como, no século XIX O adorou o português Antônio Correia:

Espírito do Abismo e das Alturas \ Que em tudo quanto vive se derrama:\ Já luz antes de ser a chama! \ Criador que se fez obra das criaturas! \ Alma que deu alma às pedras duras! \ Amor tão desamado que nos ama! Gênio que inspira a noite, e a treva inflama, \ Desde as ondas às verdes espessuras. | Centro e fusão de todas as distâncias; \ Velhice-mãe de todas as infâncias; \ E futuro de quanto há de morrer… \ Possa a minha alma ver-te, um só segundo, \ Presente e em ti, pretérito do mundo, \ Infinito imortal do verbo ser!

Este ar de eternidade que se respira no poema faz lembrar a afirmação de Cristo, “Em verdade, em verdade eu vos digo: antes de Abraão existir, eu Sou”, ou o koan Zen Budista, uma espécie de “pegadinha” ou quebra-cabeça espiritual, quando o mestre, confrontando o discípulo, para aferir o desenvolvimento dele, indaga: “qual era o rosto de seus antepassados antes de nascerem?”.
Peço permissão para insistir na verdade de que o modelo de vida voltado para o Alto dá mais “lucro”, um tipo de lucro com o qual não estamos acostumados, mas que, certamente, é mais gratificante.
Veja no texto de Oliver Wendell Holmes como, figuradamente, ele nos ensina que, no que diz respeito á estatura espiritual de cada um, podemos evoluir de um modesto estágio para outros cada vez maiores, aqui na Terra mesmo:

“Ergue para ti mansões mais imponentes, ó minha alma, /Enquanto as estações ligeiras passam / Abandona o teu passado de abóbada baixa! / Que cada novo domo seja maior que o anterior, / Cubra-te do céu com uma cúpula cada vez mais vasta, / Até que finalmente te vejas livre, / Deixando tua concha pequena no mar agitado da vida!

Chegou a hora, que tem o nome de agora – aliás, não existe outra hora – a hora de atravessarmos a segunda porta. Caramba! Eu notei e você também haverá de notar que a aprendizagem que se nos apresenta é semelhante ao que já sabíamos. Expressando-me de outra forma, encontraremos do outro lado ferramentas que nós já havíamos utilizado, com êxito, para abandonar a bebida. Isto é, perceberemos, naquele ambiente de iniciação, ferramentas indispensáveis tanto para parar de beber, como para esse novo projeto de vida com qualidade.
AINDA SOBRE A SEGUNDA PORTA
“Nesse dia, ele percebeu o que os mestres sempre estiveram dizendo: que é você quem cria todas as suas emoções – seu inferno e seu céu, seu amor e seu ódio” (OSHO)
Uma das ferramentas lá encontráveis atende pelo nome, para nós conhecidíssimo, de R E N D I Ç Ã O.
Antes, no início do programa de A.A., me submeti à idéia de que era impossível conviver com a bebida socialmente e que teria que abandoná-la. Era uma questão de vida ou de morte, praticamente.
Por isto Bill nos disse: ”tal é o paradoxo da recuperação em A.A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa, a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova”.
Que tal aplicarmos a mesma ferramenta nos demais problemas da existência, em particular nas dificuldades emocionais? Esta metodologia não é de forma alguma estranha à literatura da Irmandade. Aqui estamos apenas sublinhando-a. Curiosamente, porém, o que não nos ameaça de morte, ao menos com tanto espalhafato como a bebida, tende a ser desconsiderado, ou minimizado. Assim não nos apercebemos imediatamente que os desamores capitais (nome no meu entender mais apropriado para pecados capitais – Xô ,sentimento de culpa!) podem ser eficientemente combatidos com a mesma ferramenta da rendição.
Tem a palavra o terceiro passo: “e os fatos parecem ser estes: quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. Portanto, a dependência, como se pratica em A.A., é realmente um meio de ganhar a verdadeira independência do espírito”.
Estou seguro de que há uma sinonímia entre as palavras dependência, utilizada no Passo Três, e rendição, embora não sejam sinônimas no léxico. Ambas, dependência a um Poder Superior e rendição repercutem positivamente na redução e na extinção do ego psicológico, obstáculo de passagem, para o nosso viver, da Grande Luz, que é Deus.
As ferramentas encontradas após a transposição do portal do autoconhecimento não são poucas. Algumas delas você já encontrou no pequeno livro intitulado “Os Doze Passos”, não é mesmo? É claro que não faz parte de nosso propósito aqui uma extensa enumeração desses recursos do que poderemos intitular de tecnologia espiritual. Mas, cuidemos rapidamente de mais um: o SÓ POR HOJE.
Há muitos anos, na década de oitenta, tomei contato com os ensinamentos de um escritor norte americano chamado Vernon Howard. Tratava-se de pensamento positivo, certamente, mas visto sob um ângulo inteiramente de acordo com as escolas místicas orientais e ocidentais. Nele fala o autor sobre o poder de descartar, ou seja, como diz em determinado ponto, devo tirar o problema do único lugar onde ele existe: minha mente! Ensina que o crescimento do ser humano pode ser conseguido desatravancando os pensamentos que não me são úteis. Atente-se para o fato de que tal idéia quase mágica potencializa-se com aquela de que Deus habita dentro de mim, constante em toda a sabedoria oriental.
O alcoólatra, ainda que em abstinência, que tristeza! – é um exímio colecionador de pensamentos inúteis, sombrios e prejudiciais. Então todo esse lixo mental se volta contra ele e agrava ainda mais a situação, num ciclo vicioso interminável. Muitos que não conseguiram manter fidelidade ao programa de recuperação na Irmandade, não o conseguiram porque se perderam no cipoal das questões mal resolvidas. Mas há os que permanecem no programa. Contudo, uma fração deles reage de forma acovardada, e a outra se infla de um orgulho desmedido. E não fica por aí: com presença, quero crer majoritária, há aqueles que ora se acovardam, ora se enchem de arrogância, numa dança esquizofrênica.
Todo esse entulho mental cujo poder de fogo de desgovernar o ser humano é formidável advém de uma raiz única, qual seja a crença de que nós somos o corpo, de que nós somos a mente, de que nós somos a nossa emoção. Na medida em que nos identificamos, imprópria e falsamente, com o aspecto material da vida, o sofrimento torna-se inevitável, eis que não há perfeição no corpo, na mente e na emoção e a vida se transforma em uma pilha de frustrações, e numa perseguição inalcançável de fantasmas.
Neste momento faço a mim mesmo duas perguntas: Será que tive a concordância sua de que o nosso livre arbítrio nos permite escolher tanto os pensamentos harmoniosos e úteis (ainda que pareçam totalmente inverídicos no momento), como igualmente expulsar aqueles que causam atraso na vida humana?
Por outro lado, terão concordado, de que deveremos nos identificar com o Espírito de Deus, e não com o espírito de porco? Ruim a expressão, quase indelicada, mas verdadeira. Sem querer parecer dogmático ou radical, temos todos “dentro” de nós algo mais: um princípio divino, semelhante à idéia que os hinduístas denominam de atmã.
Lembremo-nos de que as idéias espirituais se entrelaçam e são interdependentes entre si. A concordância com as duas é fundamental para o exercício imaginativo para o qual peço a colaboração delicada de todos os amigos. É um trabalho de faz de conta. Para valorizar o resultado, se quiser, feche os olhos e relaxe o corpo e a mente: imagine que no interior de seu ser resplandece uma pedra preciosa e fulgurante. Dê-se ao luxo, inclusive, de escolher a cor, não importando ser ela de um vermelho-brilhante, como as chamas de uma fogueira; ou de um azul límpido de metileno, presente no céu de brigadeiro; ou até dourada como o sol a pino; ou ainda de um branco translúcido como as supostas asas de um anjo Como queira. Esta luz que emana desta gema, ela, sim, é você, eternamente linda. Não há mais espaço para os problemas, pois eles pertencem aos pés de poeira espirituais, e aos pés de chinelo emocionais, aos que não se viram fulgurantes por “dentro”.
Esta história de cores me faz recordar um companheiro, de apelido Delegado, também do Grupo Renascer, que partiu recentemente, não antes, porém, de completar um século entre nós. Ele se enchia de emoção ao repetir na cabeceira de mesa que o A.A. é uma “explosão colorida!”. Estou descobrindo, saudoso companheiro Delegado, que cada um de nós é também uma formidável explosão colorida! Escute aí de cima, querido companheiro, a orientação Sir Thomas Browne, “trazemos dentro de nós as maravilhas que buscamos fora de nós próprios”.
Todavia, voltemos ao “Só por hoje”, antes de encerrar. Penso que, afora os grupos religiosos, afora as correntes filosóficas, não há no mundo outra irmandade que preze mais o momento presente que a Irmandade de AA, mas a todos suplantando com muita folga. Para o membro de AA, o agora não pode ser teórico. Eis que com relação àquilo que tanto nos incomodava, temos que afirmar: “Hoje eu não bebo!”. Convivemos diariamente com o momento presente, já que para nós é uma necessidade de vida. Como Kipling, aprendemos a dar “ao minuto fatal todo valor e brilho”. Por intermédio desta filosofia de vida, nos libertamos da compulsão alcoólica, dizendo de nós para nós mesmos: “agora não”!
Pois bem, a utilidade desta ferramenta, para uns chamada de Só Por Hoje, e para outros de momento presente, ou de agora, não esgotou a sua utilidade depois de nos ajudar a resolver o problema alcoólico. O fato é que, pela intimidade que já temos com ela, o trabalho fica até facilitado ao atravessarmos a segunda porta. Você gostaria de exemplos? São muitos: humildade só por hoje, o que já é alguma vantagem. Melhor só por hoje do que nunca. Agora não vou me irar, pelo menos enquanto não contar até dez ou até mil, enquanto não concentrar-me em engolir a saliva ou fazer respirações profundas. Agora vou trabalhar nem que seja um pouquinho; quem sabe amanhã trabalharei mais. Agora não terei inveja porque a luz de Deus brilha dentro de mim e ele me fez um ser único, indispensável, logo incomparável. Somente agora não comerei tanto; quero esperar pelos sinais internos do aparelho digestivo. Este me dará, tão rapidamente quanto necessário, o retorno se está saciado ou não. Não ficarei triste; ao contrário me alegrarei. É que agora compreendi que estou feliz porque quero estar, pois ainda que os problemas sejam sufocantes, se a cada segundo daqui para frente eu me tranquilizar, chegará um ponto em que todas as questões que me preocupavam desaparecerão como um rolo de fumaça ao vento. Nunca é demais lembrar, como já se disse, que o hábito é uma segunda natureza, ou quase, e esta segunda natureza é plasmada no agora, de acordo com meu livre arbítrio. Não tenho poder sobre o ontem ou sobre o amanhã, mas o agora é de Deus e me pertence.
Ao terminar, reverentemente, com o intuito de prestar homenagem a alguém que citei nestes escritos – o companheiro João dos idos de setenta e quatro do poderoso grupo Renascer – dele quero pedir a benção, onde quer que ele esteja. Benção, companheiro João! Representante desta grande legião dos simples, que guardaram para mim, há trinta e oito anos, uma cadeira em Alcoólicos Anônimos.

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REFLEXÕES SOBRE A SEGUNDA TRADIÇÃO DE A.A.

Reflexões sobra a segunda Tradição de A.A.
“Ao longo dos anos, todos os desvios possíveis de nossos Doze Passos e Doze Tradições foram tentados. Nada mais inevitável, uma vez que somos em alta escala um bando de individualistas egocêntricos. Estes mesmos desvios criaram um amplo processo de tentativas e erros que, graças a Deus, colocou-nos onde hoje estamos” – escreveu Bill W.”.
“Os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos, que no símbolo de A.A. estão representados pela palavra RECUPERAÇÃO, são para nós membros, o inicio de uma longa caminhada em busca do cumprimento de uma missão que nos foi confiada quando ultrapassamos pela primeira vez os umbrais de uma sala de AA”.
Os 12 Passos é o início de uma escalada constante e ascendente em busca da sublimação.
“No livro “Alcoólicos Anônimos” é descrito o alcoolismo no ponto de vista do alcoólico. Nele estão codificadas as idéias espirituais da Irmandade e os esclarecimentos e aplicações dos Doze Passos ao dilema do alcoólatra”.
“As Doze Tradições de AA, dizem respeito à vida da própria Irmandade. Delineiam os meios pelos quais AA mantém sua Unidade e se relaciona com o mundo exterior, e a sua forma de viver e desenvolver-se e também, a visão clara dos princípios através dos quais funciona o Grupo de Alcoólicos Anônimos”.
A.A. é um programa espiritual. Não basta “botar a rolha na garrafa”. Requer o estudo e a prática dos 36 princípios sugeridos. Sem os Passos, continuamos “Bêbados Secos” – tão brabos, tão auto-suficientes, tão isolados dos outros, tão cheios de auto-piedade, como quando bebíamos. Sem os Doze Passos, qualquer raiva ou frustração pode provocar uma recaída.
Sem os Passos, continuamos sendo inseguros, rígidos, inflexíveis, arrogantes e incapazes de discutir alguma coisa com calma e respeito mútuo. Sem os Passos, continuamos sendo pessoas cheias de raiva e de ódio de NÓS MESMOS, que descarregamos nos outros, na família e em nosso Grupo de AA.
Cada uma de nossas Tradições está baseada na aceitação do desejo de servir uns aos outros e a Alcoólicos Anônimos como um todo.
Atrás de cada uma das Doze Tradições está a Unidade. O seu objetivo maior. E somente através de uma atitude recíproca de Serviço é que podemos trabalhar juntos em espírito de humildade e harmonia para assegurar o bem estar comum de todos nós. Somente através desta atitude estaremos prontos para servir em vez de dirigir, levando nossas mensagens a outros sofredores do alcoolismo.
A chave da Segunda Tradição está na grande Graça de termos permanente entre nós a ação divina, que nos ajuda a estar juntos, presidindo ao nosso propósito comum, nas manifestações da consciência do grupo, fazendo dos servidores de AA os executores desta vontade e lembrando-nos sempre que como única autoridade em A.A, existe um Deus amantíssimo que nos governa e ilumina.
O nivelamento e a igualdade de propósitos entre todos os membros, ou o é “proibido proibir”, a não obrigatoriedade, a não exclusão e a ausência de regras direcionam a Irmandade ao longo dos anos, para um segmento cada vez mais admirado e compreendido dentro da sociedade.
E, principalmente entre seus membros, que absortos na contemplação de todas estas dádivas, se esquecem por completo do seu inicial ceticismo, da sua desconfiança e da arrogância. Ou do seu egoísmo, como também da sua prepotência, todos estes, comportamentos comuns nos primeiros dias em AA, vivenciados pela maioria de nós, os seus membros.
A consciência coletiva de AA a nível mundial, parece concordar em seis pontos que definem um grupo de AA:
1. Todos os membros de um grupo são alcoólicos;
2.Como grupo, são inteiramente auto-suficientes;
3.O propósito primordial de um grupo é o de ajudar aos alcoólicos a se recuperarem através dos Doze Passos;
4.Como grupo, ele não possui nenhuma outra afiliação;
5.Como grupo, ele não emite opinião sobre quaisquer assuntos alheios;
6.Como grupo, sua norma de procedimento para com o público é baseada na atração ao invés da promoção, e seus membros mantém o anonimato pessoal a nível de imprensa, rádio, televisão, cinema e internet.

Hoje em dia são raros os grupos que elaboram regimentos internos ou estatutos, embora nos primórdios de AA fossem considerados desejáveis. Muitas vezes, quanto mais regras e leis fossem adotadas, maior número de problemas criava. Assim, gradativamente, a maioria das antigas normas foi cedendo lugar à força dos costumes. Entretanto, uma filosofia herdada dos primeiros grupos vem se provando acertada: quanto mais bem informados são os membros de um grupo, tanto mais eles participam das decisões e mais saudável e feliz será o grupo, onde geralmente irão diminuir as divergências, críticas e os problemas.
A maioria de nós também aprende que a recuperação do alcoolismo não é uma dádiva para ser agarrada egoisticamente para si própria. Significa também responsabilidade por servir a outros, tanto dentro como fora de AA.
Nosso entendimento é que toda espécie de trabalho tem que ser realizado para se manter um grupo de AA em funcionamento.
É através do trabalho dos membros do grupo que os doentes alcoólicos de uma comunidade ficam sabendo que AA existem e de como pode ser encontrado. É através do Serviço em AA que são atendidos os pedidos de ajuda e são mantidos os contatos necessários com o restante do AA a nível local, nacional e internacional e o Grupo fica informado, não se isolando.
Nos grupos, os membros encarregados destes serviços são chamados de Servidores, que escolhidos pelos demais membros executam suas atividades por períodos limitados, proporcionando a rotatividade. Como lembra a Segunda Tradição: “Nossos líderes são apenas Servidores de Confiança; não têm poderes para governar”.
Portanto, aprender a aceitar a responsabilidade dentro do grupo é um privilégio. Devidamente manejada, pode ser útil à recuperação. Muitos membros de AA descobriram e constataram que as obrigações (diga-se Serviços) representam uma excelente maneira de fortalecer a própria sobriedade.
É longo o aprendizado que se obtém através da Segunda Tradição:
-Questiona: de onde recebe o AA a sua direção?
-Mostra que a única autoridade em AA é um Deus amantíssimo que Se manifesta através da consciência do grupo.
-Preocupa-se com a formação de um grupo.
-Preocupa-se com as dores resultantes do crescimento.
-Propõe os comitês rotativos;
-Questiona se AA tem uma verdadeira liderança.
-Exemplifica os Velhos mentores e os velhos resmungões.
-Mostra que os líderes não governam: eles apenas servem.
-Propõe a busca constante de um saudável exercício da consciência do grupo.

Por isto, a reunião de serviço de um grupo base, transforma-se em um bem extremamente necessário. Não é o local para se digladiar. Não se precisa ir com o espírito preparado para isto ou para aquilo. Precisa-se sim, estar com a mente aberta, disposto a conhecer, participar e ver as coisas como funcionam de forma objetiva.
Diante de nossa própria imperfeição, para exercitar a consciência do grupo, nem sempre tem sido assim. Temos que reconhecer que “é a nossa idéia” ou o “nosso ponto de vista”, ou a “minha maneira de coordenar”, que tem nos atrapalhado e muito.
Muitas vezes até tem criado um desestímulo de participar em outras reuniões, depois que “o que e, como eu queria, não foi aceito”.
É claro que existe sempre uma verdade dentro de cada um de nós. Mas, temos que lembrar também, que existe esta ou outra verdade dentro do outro. Na dúvida, pesquisar a literatura passa a ser uma “obrigação”, para não “cairmos em tentação”!
Na preparação de uma consciência de grupo, que tal conhecer a agenda antes da reunião de serviço, para se ter a idéia já formada no momento que estiver sendo discutida? Não é bom ser objetivo e rápido nas conclusões?
Falar pouco, mas objetivo, às vezes indo até a exaustão, são dinâmicas para uma reunião de serviço onde se trabalha a consciência coletiva, informando-a com detalhes e linhas mestres dos tópicos para análises. Assim, o voto será consciente.

É quem coordena que estimula a participação dos demais. É ele quem esclarece as dúvidas. Talvez ele até fale demais. Mas é porque é ele quem deve direcionar o assunto. Não é ele quem conduz a consciência do grupo .
Tem assuntos que precisam de uma reflexão mais demorada. BEM mais estudada. Mas outros, pelas próprias colocações da coordenação e em seguida uma “amostra” colhida entre alguns participantes, já podem ser levados em votação.
Nesta dinâmica, tem-se a oportunidade de se verificar o amadurecimento consciente do grupo. Por outro lado, também, o desconhecimento e o desinteresse da minoria.
Tanto maioria quanto minoria, duas correntes que atuam nas reuniões de serviços têm que reconhecer suas importâncias nestas reuniões. Uns, procurando estimular o conhecimento mais profundo da prática do Terceiro Legado – Serviço em AA – que não se restringe apenas ao seu grupo, quando nos encargos. Outros, admitindo suas limitações. Sendo este o momento de humildemente se ver que tudo que ambos procuram, nada mais é do que melhorar a forma de praticar o 12º Passo, dentro do seu próprio grupo e na sua comunidade.
Nisso tudo, o importante é que para nós, as feridas causadas pelo alcoolismo devam ser cicatrizadas. E que jamais, outras sejam abertas em sobriedade, no programa de recuperação que nos é oferecido.
No fundo, o que nos compete, é ver no membro de AA, aquele ser humano que quer e quis parar de beber. Ver no membro de AA aquele que ama o grupo e os companheiros e ainda, aqueles que um dia ainda virão. Ver no membro de AA a esperança de que a mensagem de Bill e do Dr. Bob jamais será por ele, o membro, esquecida. Porque ele continuará a transmiti-la. Ver no membro de AA a fé, a esperança e o amor. Ver no membro de AA, a sua capacidade e o seu devotamento à irmandade, sua garra, sua disposição, sua conscientização no programa e seu novo sistema de vida dentro do grupo.
O nosso Deus amantíssimo, a nossa autoridade, a nossa consciência de grupo surgem quando, em nosso propósito primordial, não nos apegamos aos fatos alheios ao Programa de recuperação de cada um.
Que importa, se o companheiro é originário do mundo do crime, se praticou roubos, sedução, vadiagem, homossexualismo, tóxico ou se deu o seu nome trocado? Nada importa. “O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber” e, posterior a este desejo é dito: em AA ninguém vigia ninguém, mostrando assim a opção até para “o voltar a beber”.
É bem verdade, a vida particular pode e deve ser reformulada. Mas, jamais julgada. Salvo pela própria pessoa. Que me adianta saber se a transação imobiliária que alguém fez foi desonesta? Ou saber se o elemento continua gostando do sexo com a pessoa do seu próprio sexo, ou mantendo o relacionamento familiar em desacordo. A vida de cada um a cada um pertence. O programa do meu companheiro é dele. O do Grupo é meu na medida que procure e saia dali fortalecido. Reforçado. Conscientizado da minha impotência ao 1º Gole. Com a mente aberta e despojada de ódio, orgulho, rancor e incompreensão.
A manifestação da consciência coletiva de um grupo, implica em conhecimentos. Senão, iremos sempre encontrar membros ou servidores que insistirão em querer que prevaleça dentro do grupo, a sua opinião, a sua condição sócio-econômica, intimidando inclusive aos demais. Em alguns casos, a “personalidade forte” de alguns membros também contribui para a subserviência de um grupo.
Muito ainda há que ser dito sobre a Segunda Tradição.

PRUDÊNCIA, MEMÓRIA E DOCILITAS NA RECUPERAÇÃO DO ALCOOLISMO

Prudência, Memória e Docilitas
na Recuperação do Alcoolismo

Luiz Ferri de Barros (1)

1. Apresentação
Neste artigo apresentarei, de forma breve e despretensiosa, algumas reflexões a respeito da filosofia de recuperação adotada pelos grupos anônimos de auto-ajuda, particularmente a adotada pela Irmandade dos Alcoólicos Anônimos (AA), à luz da doutrina das virtudes cardeais de Santo Tomás de Aquino.
Creio que este tipo de abordagem cumpre dois importantes objetivos. O primeiro refere-se à possibilidade de um melhor entendimento sobre as origens remotas e o significado profundo da filosofia de desenvolvimento espiritual contida nos Doze Passos dos AA (2), programa de recuperação que também é adotado pela maioria dos outros grupos anônimos de auto-ajuda. O segundo aspecto de interesse nessa análise é a demonstração de que há lugares em que a atualidade da filosofia de Tomás de Aquino não se trata apenas de anseio por uma educação moral ao meio de uma sociedade “sem valores”.
De fato, nos grupos de auto-ajuda, mesmo que não se conheça a origem de diversas proposições, as pessoas praticam filosofias de crescimento espiritual que as levam a tentar cultivar virtudes. Sob certo aspecto, talvez seja possível dizer que muitos grupos de auto-ajuda constituem-se em raras instâncias sociais onde a educação moral é, muitas vezes, direta e explícita e não se dá por intermédio de uma “educação invisível”- para usar a consagrada expressão do educador espanhol Garcia Hoz.
Para efeitos desta análise, assumirei a interpretação da doutrina de Santo Tomás conforme exposta por intérpretes contemporâneos, apresentados por Lauand (3), em especial enfatizando a existência de quatro virtudes cardeais e o fato de que a prudência é considerada a primeira delas. Discutirei então o papel da memória e também da docilitas como partes quase-integrais da prudência.

2. O Vício, as Quatro Virtudes Cardeais e os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos
Em AA, o alcoolismo em si, em geral, não é designado como vício. Pelo contrário, a entidade foi a primeira grande defensora da tese de que o alcoolismo constitui-se numa doença, já em 1935, quando de sua fundação.
Pesquisas científicas posteriores comprovaram este fato e na década de 60 a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconheceu o caráter de doença no beber compulsivo do alcoólatra.
Assim, no sentido de combater preconceitos, educar o público e principalmente aliviar a dor moral do alcoólatra em recuperação, como mencionado, a palavra vício, em geral, não é utilizada, embora haja, na literatura de AA, algumas ocasiões em que ela aparece.
Descontadas as conotações pejorativas da palavra e sua freqüente inadequação em ambientes de recuperação, e mesmo considerando o caráter de doença do beber compulsivo, não se pode condenar a sabedoria popular simplesmente dizendo que seja errado designar-se o alcoolismo como um vício. De fato, pode-se perceber na linguagem corrente, segundo o Aurélio (4), acepções da palavra perfeitamente condizentes com o proceder do alcoólatra na ativa, tais como:
– “costume de proceder mal; desregramento habitual”.
– “conduta ou costume censurável ou condenável (…)”
e, ainda, em sentido mais profundo, que os AA muito discutem:
– “inclinação para o mal (nesta acepção opõe-se a virtude).”
Vale, portanto, recuperar-se a idéia popular de vício, até para que se entenda com clareza que é por meio de um programa de crescimento espiritual (os 12 Passos e demais elementos da filosofia de AA), incentivando a prática de virtudes, que se consegue dar continuidade à recuperação das dependências. Em AA não basta parar de beber. Até porque não se acredita, a partir de mais de 60 anos de experiência acumulada, que seja possível apenas parar de beber. Para que não se volte a beber, diz a experiência, é preciso dispor-se a passar por profundas mudanças pessoais, na verdade a reformulação completa da cosmovisão e do estilo de vida (um processo de metanóia, pode-se dizer), o que se obtém pela prática do programa de desenvolvimento espiritual.
Enquanto a medicina classifica o alcoolismo como uma doença biopsicossocial, a AA não abdicou de sua classificação original, considerando-a como uma doença física, mental e espiritual não apenas porque o etilismo afeta o espírito como porque para recuperar-se é necessário recuperar igualmente o espírito. Como disse Jung, em carta dirigida a um dos co-fundadores de AA, “álcool em latim é spiritus e usa-se a mesma palavra para a mais alta experiência religiosa assim como para o mais perverso veneno. A fórmula auxiliadora é pois: spiritus contra spiritum. (5)”
O alcoolismo é uma doença progressiva; a partir de um determinado ponto, o sofrimento moral constitui ao mesmo tempo uma das maiores dores do alcoólatra e um dos maiores obstáculos à sua recuperação.
Não é por outro motivo que a realização de um “minucioso e destemido inventário moral”, por escrito, constitui-se num dos primeiros passos do programa de recuperação (quarto passo). Ao enfrentar o quarto passo, o alcoólatra em recuperação vai deparar-se novamente com o vício, em todas as suas frentes. No quarto passo, para quem o pratique conforme sugestão dos primeiros AA, serão examinadas, principalmente, as deturpações dos instintos, o que se dá quando, desenfreados, os instintos deixam de cumprir seus papéis naturais de auto-preservação e crescimento e passam a ser forças destrutivas. A pessoa é convidada a examinar seu comportamento e suas convicções no que se refere a alguns assuntos especialmente sensíveis, tais como sexo, dinheiro, poder e, à falta de melhor roteiro de aceitação universal, para empreender o inventário é sugerida reflexão a respeito de cada um dos sete pecados capitais.
Todo esse esforço justifica-se para combater o que os AA denominam de “defeitos de caráter”, ao mesmo tempo motivos e conseqüências do alcoolismo. Podem também ser chamados de “defeitos de personalidade”. “Alguns chamariam de ‘índice de desajustes’. Outros se incomodariam bastante se se falasse em imoralidade, e mais ainda se se falasse em pecado. Contudo, todos os que sejam razoáveis concordarão em um ponto: que há bastante de errado em nós alcoólicos, havendo muito que fazer se esperamos conseguir a sobriedade, o progresso e a verdadeira capacidade de enfrentar a vida” (6).
Diversos comportamentos constelados do alcoólatra na ativa, frutos dos “defeitos de caráter” e dos “instintos desenfreados”, poderiam, com liberdade de expressão, ser igualmente designados como vícios, em qualquer dos três sentidos citados acima e em especial enquanto opostos à virtude. Daí a necessidade de entregar-se à mudança, dispondo-se a tentar uma prática mais virtuosa, para poder-se liberar das amarras da dependência.
Analisando-se detidamente a filosofia de recuperação dos AA, pode-se identificar que ela propicia condições excepcionalmente favoráveis para o cultivo das quatro virtudes cardeais definidas por Santo Tomás: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança.
PRUDÊNCIA

Sendo a Prudência a virtude primeira e, para os clássicos, uma virtude intelectual, que consiste na “arte de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade (…) pelo límpido conhecimento do ser” (7), é naturalmente inacessível a quem se mantenha continuamente alcoolizado. A conquista da abstinência é, portanto, a primeira contribuição objetiva que o grupo oferece ao novo membro. A manutenção da abstinência e a prática da filosofia de recuperação permitirão o cultivo e o fortalecimento da prudência em outras formas, algumas das quais comentarei no tópico seguinte.
JUSTIÇA
A Justiça, entendida classicamente como “dar a cada um o que lhe é de direito”, é cultivada, de forma inequívoca, no oitavo e nono passos, que sugerem fazer “uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado” e fazer “reparações diretas dos danos causados a tais pessoas”. E também no décimo passo encontra-se um preceito relacionado à justiça: “Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.
Vale comentar que os antigos em AA esclarecem com nitidez que as reparações do nono passo não significam necessariamente pedir perdão e nem podem se resumir ao pedido de perdão quando existe a possibilidade da reparação plena. Por exemplo, não é o caso de se desculpar por uma dívida, é o caso de pagá-la. A pronta admissão de um erro pessoal, junto a outras pessoas, é também um ato de dar ao outro o que lhe é de direito, no caso, a razão: o outro estava certo, não eu – admitir isto é um ato de justiça.

FORTALEZA
A Fortaleza, em alguns de seus aspectos principais, tais como o considerar a “vulnerabilidade do homem como seu ponto de partida” e considerar a “aceitação do sofrimento para alcançar um bem maior” (8), é uma virtude explicitamente cultivada pela filosofia de recuperação de AA.
Para o alcoólatra (etimologicamente: aquele que adora o álcool, idolatra o álcool), deixar de beber consiste de fato em ato heróico. Até porque, mesmo considerando que as pessoas só buscam recuperar-se quando já estão no “fundo do poço”, o período inicial de abstinência é caracterizado por uma intensificação significativa do sofrimento. Enfrentar a síndrome de abstinência aguda e, em seguida, a síndrome de abstinência prolongada, representa justamente um grande esforço que o alcoólatra em recuperação está realizando, aceitando o sofrimento imediato em função de um bem maior que busca para si mesmo e para os que ama: atingir a sobriedade e a serenidade.
A valorização da consciência a respeito da própria vulnerabilidade encontra-se expressa com absoluta limpidez no seguinte Princípio de Ouro: “A fraqueza é a força” . Os Princípios de Ouro, em AA, são uma coleção de cerca de 30 aforismos que de forma sintética ilustram e complementam a filosofia de recuperação apresentada ao longo da extensa literatura do grupo. Na realidade, o primeiro passo de recuperação (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”), entremeia-se, ele também, com esse mesmo componente da fortaleza que está implicado na admissão da vulnerabilidade.
TEMPERANÇA
Com relação ao álcool, AA não é um movimento de Temperança, e isto é explicitamente declarado em sua literatura (9). O portador da doença do alcoolismo caracteriza-se precisamente por sua incapacidade de controlar a ingestão de álcool. A doença é considerada incurável e a possibilidade de recuperação consiste em se alcançar uma disciplina que permita o controle da doença a partir da abstinência total. É possível para o alcoólatra controlar seu alcoolismo e permanecer sem beber, entretanto não é possível que ele volte a beber moderadamente, sem perder o controle.
Esta negação da possibilidade de comedimento com relação ao álcool é extremamente importante e encontra-se já no primeiro passo: “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”. Antes da realização do primeiro passo, a maioria dos ingressantes em AA almeja alcançar a temperança, a possibilidade de beber socialmente, sem perder o controle. Ressalte-se, inclusive, que embora o alcoolismo seja uma doença que atinge grandes faixas da população mundial (cerca de 10% dos indivíduos), poucos são os médicos que a conhecem adequadamente. É comum que os médicos, movidos pela idéia da temperança, aconselhem seus pacientes alcoólatras a “maneirarem” com a bebida, atitude que está fora do alcance e que apenas retarda a recuperação.
Em outros aspectos da vida, entretanto, pode-se com segurança afirmar que a temperança é uma virtude que tentam praticar muitos dos que seguem a filosofia de AA. Para a própria manutenção da abstinência recomendam-se cuidados com a alimentação e o descanso, por exemplo. Indica-se que a compulsão do alcoólatra não se restringe à sua maneira de beber, estendendo-se para várias de suas atividades, podendo ser igualmente nociva em outras áreas, inclusive no trabalho (o que hoje se denomina workaholics).
Outra questão extremamente discutida em AA, e muito valorizada, é a necessidade de se adquirir controle emocional, sendo necessária uma permanente vigilância de si mesmo para evitar a vivência de estados excessivamente alegres (euforia) ou excessivamente tristes (depressão), visto que estes extremos são perigosos para a manutenção da abstinência. Esta tentativa de conservação de equilíbrio, de comedimento em relação às próprias emoções, relaciona-se também à prática da virtude da temperança (10).

3. Prudência, Memória e Docilitas na Recuperação
A Prudência, como já mencionado, é a primeira das quatro virtudes cardeais e, por essa razão, vale determo-nos a examinar alguns de seus aspectos com mais atenção.
Embora sua definição no sentido em que a considerava Santo Tomás (Prudentia), de acordo com Lauand, já tenha sido apresentado no início deste artigo (“arte de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade (…) pelo límpido conhecimento do ser”) cabe alguns comentários a respeito do sentido atual da palavra.
Lauand (11), na linha de Garrigou-Lagrange, aponta para o sentido de indecisão, de excessiva cautela que o termo prudência adquiriu na atualidade, distanciando-se de seu significado original que indicava exatamente a disposição de agir de forma pronta e corajosa, tomando o partido do que é justo a partir da capacidade de enxergar a realidade de forma límpida. Estes autores chamam a atenção para o fato de que, atualmente, a prudência adquire uma conotação negativa. Nas palavras registradas por Garrigou-Lagrange, em 1926: “De fato, em muitos dicionários, a definição dada a prudência faz pensar num tipo de virtude totalmente negativa, que nada tem de virtude a não ser o nome. Seria a prudência uma qualidade negativa?” (12)
Não há dúvida quanto ao empobrecimento do conceito e, a rigor, pode-se dizer que a expressão latina prudentia não encontra na nossa prudência – e em nenhuma outra palavra – tradução adequada. Entretanto, cautela em si mesma, desde que não represente covardia, pode ser fruto da prudência (no sentido original), quando instruída por uma avaliação correta e justa da realidade. Neste sentido não parece necessário a condenação do significado atual da palavra tout court, bastando que se alerte para sua anterior amplitude extraordinariamente mais rica.
Este ponto é importante porque em AA, com relação ao álcool principalmente, os dois significados de prudência são decisivos. A cautela que se aprende a exercitar, caracterizada pelo cultivo de uma série de atitudes e comportamentos, é indispensável para a manutenção da abstinência. Trata-se de uma cautela (sentido atual de prudência) inspirada na consciência a respeito da própria condição de alcoólatra, porque a pessoa adquiriu a perspectiva de enxergar-se a si mesma, ao álcool e ao mundo com limpidez (sentido anterior de prudência).
Creio, assim, que cautela, precaução e cuidados não se excluem da prudência enquanto virtude primeira que atua sobre o agir, desde que não estejam a serviço da omissão, da covardia e outros comportamentos imorais.
Esclarecidas essas questões quanto ao significado de prudência enquanto virtude, é indispensável considerar que para Santo Tomás existem diversas outras virtudes que a compõem de forma indissolúvel, sendo suas partes quase integrais, como ele diz. Memória e docilitas são as duas virtudes quase integrais da prudência que analisarei aqui, dado sua relevância na recuperação do alcoolismo, especialmente se essa recuperação é enxergada como um processo de re-educação – o que consiste na minha tese central para entendimento dos grupos de auto-ajuda.
O termo memória não carece de esclarecimentos nesse momento. “Docilidade”, a tradução corrente de docilitas, encontra-se dicionarizado de forma adequada para uma boa correspondência com o significado latino original (“Qualidade ou caráter de quem se submete ao ensino, de quem aprende facilmente; de quem é fácil de conduzir, de guiar”) (13). Entretanto, prefiro manter o uso da expressão latina, como o faz Lauand, porque na linguagem corrente o termo em português permite também uma interpretação, se não pejorativa, destituída da força de significado de sua acepção original – uma verdadeira “dimensão moral: a atitude interior de humildade receptiva” (14).
A memória faz parte da prudência, segundo Santo Tomás, porque, como já dizia Aristóteles, “a virtude intelectual é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo. Ora, prossegue Tomás, a experiência resulta da memória de casos repetidos (…). Por onde e conseqüentemente a prudência exige a memória de casos multiplicados. (15)”
A linguagem, o grande fruto e a grande alavanca da cultura humana, permite o acúmulo das experiências individuais passadas e presentes, ampliando a possibilidade de conhecimento de cada pessoa para muito além do universo de suas próprias vivências. A possibilidade de aproveitar-se desse cabedal de sabedoria dos outros, sejam os contemporâneos ou os antigos, multiplicando a memória de cada um, exige docilitas e é por isso que a docilitas faz parte da prudência.
Reconhecer-se como alcoólatra e realizar o primeiro passo (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”) é, nitidamente, um ato de prudência, pois consiste na percepção límpida de uma realidade inquestionável que, até então, o alcoólatra na ativa vinha negando.
Manter-se abstinente é igualmente um ato de prudência pois significa a única ação justa que o alcoólatra pode desempenhar frente à bebida a partir do reconhecimento de seu alcoolismo.
Parar de beber, entretanto, como se diz em AA, não é o maior problema. O problema é não voltar a beber. Para não voltar a beber – isto é: para manter a prudência -, memória e docilitas são, então, fundamentais. A memória individual é fundamental, para que não se perca de vista o sofrimento anterior à abstinência. A experiência do grupo, representando a memória da experiência dos antigos e dos outros companheiros contemporâneos, é imprescindível para iluminar o caminho de como se vencer a obsessão pela bebida e de como realizar o processo de mudanças pessoais que representa o crescimento espiritual, única senda reconhecida como capaz de manutenção permanente da abstinência. Para o desfrute desta “memória dos outros”, a experiência dos antigos e dos contemporâneos, é necessário que se pratique a docilitas.
Em AA se diz que “força de vontade” não é suficiente para se parar de beber. O necessário é que se tenha “boa vontade” (16) para entregar-se ao programa de recuperação. Esta boa vontade solicitada do novato nada mais é do que a docilitas, por excelência a virtude do aprendiz. A força de vontade isoladamente não resolve porque é praticada por conta própria, a partir de referências exclusivamente pessoais e como tentativa de fazer valer a supremacia egóica. A boa vontade geralmente resulta em sucesso porque permite à pessoa abrir-se para compartilhar as “experiências, forças e esperanças” de todo o grupo, assim passando a efetivamente desfrutar do apoio indispensável para a recuperação.
O sexto e sétimo passos, por alguns chamados de “passos da transformação”, permitem, por sua própria leitura, identificar a docilitas como uma virtude central da programação de AA: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter” e “Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”. Estes passos vêm logo após a realização do inventário moral, onde se identificam os “defeitos de caráter” e é importante que se diga que, em AA, é corrente a noção de que o Poder Superior só faz a parte d’Ele se cada um fizer a sua.
Memória é uma virtude de difícil prática, pois que o homem, por natureza, é um ser que esquece, não sendo por outro motivo que em árabe Homem é designado por “Insan”, termo cujo significado etimológico é “esquecedor” (17).
Por isto a continuidade de freqüência às reuniões é importante, mesmo para os que já se encontram em estados avançados de recuperação. É comum ouvir-se depoimentos de pessoas que dizem que estão na reunião para não esquecer que são alcoólatras. Não é outro o motivo porque todos o membros de AA, ao prestarem depoimentos nas reuniões, apresentam-se seguindo um mesmo padrão: “Meu nome é Fulano, eu sou um alcoólatra…” A infinita repetição, antes de ser uma técnica behaviorista de ensino já era uma fórmula presente no Oriente, onde na palavra dhikr mesclam-se os significados de memória e repetição (18). Mais que isto, creio que a apresentação em que se declina a condição de alcoólatra, seguida de um depoimento pessoal em que normalmente se expõem fatos e sentimentos de natureza íntima, corresponde à prática de um tipo de meditação profunda que Santo Tomás considerava como a quarta lei da memória (19). Esta repetição praticada por todos beneficia não apenas os oradores mas também os ouvintes, em especial os novatos, às vezes ainda em processo de negação da doença pois, como diz o provérbio oriental: “A repetição deixa sua marca até nas pedras. (20)”
A repetição em AA por vezes é tão marcante que há membros do grupo que chegam a se incomodar com companheiros que, anos a fio, falam praticamente a mesma coisa em seus depoimentos, sem alterar suas falas. Os antigos em AA dizem que isto não tem a menor importância se está servindo para manter a abstinência do companheiro. Na verdade, há um aforismo em AA que enuncia o seguinte: “Eu falo para mim mesmo. Porque o meu ouvido é o que está mais próximo de minha boca e eu sou o primeiro a ouvir”. Considerando esta obviedade, talvez se possa interpretar que a fala só se alterará quando a necessidade de memória daquele depoimento específico for superada.
Em AA respeitam-se igualmente os antigos e os ingressantes. Os antigos, denominados desta maneira, representam a experiência acumulada e o ideal a ser atingido. Os especialmente dedicados à Irmandade e mais solícitos no apoio aos outros são considerados “velhos mentores”: são representantes supremos da memória coletiva.
O ingressante, quando pela primeira vez chega a uma reunião, é tratado por todos como sendo “a pessoa mais importante”. O novato é importante porque ele representa o futuro e a renovação da Irmandade mas, principalmente, porque ele é um elemento de memória para todos os presentes. Quem chega pela primeira vez numa sala de recuperação, normalmente apresenta-se em estado lastimável, desorientado, cheio de problemas, muitas vezes embriagado. A pessoa que vai procurar o grupo está no auge de seu alcoolismo. O contraste entre seu estado e o estado dos que estão em abstinência, em recuperação, reforça, pelo efeito demonstração, a determinação de continuar sem beber entre os membros do grupo. O alcoólatra em recuperação rememora os tempos de seu próprio sofrimento quando se depara com outro na ativa.
É necessário que se diga, também, que a importância do ingressante não se restringe a este efeito quase que cruel. Pelo contrário, todo o grupo de AA está animado pela inspiração da quinta Tradição (21) e os AA sabem que ajudar outro alcoólico a atingir a sobriedade é uma das melhores maneiras de conservar a própria, o que se encontra enunciado no décimo segundo passo (“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”). Este décimo segundo passo não pode ser confundido como sendo uma sugestão meramente altruísta, ao feitio filantrópico. Ele se constitui numa necessidade porque baseiase na constatação de que “É dando que se recebe” (22), enunciada nos Princípios de Ouro de AA da seguinte forma: “Só conservamos o que temos dando-o a outros”.
Esta reciprocidade que se dá no décimo segundo passo corresponde a um tipo de ato de mão dupla, onde o sujeito é ao mesmo tempo doador e beneficiário de determinada ação, à moda do que se encontrava presente nas línguas antigas, pela conjugação de uma forma verbal não existente entre nós (23). Talvez não seja exagero dizer que, neste caso citado, para a manutenção da prudência do alcoólatra em recuperação e o despertar da prudência no ingressante, o que está em curso é um intercâmbio de memórias. Em troca da experiência de recuperação (a memória coletiva) que lhe oferecem os membros do grupo, o novato oferece a todos a sua situação pessoal como memória viva do alcoolismo ativo.
Lembrar-se do período de alcoolismo ativo é quase uma necessidade para que o alcoólatra seja capaz de manter-se em abstinência. Passado o período crítico inicial dos primeiros meses, não é raro que a pessoa, à medida que vai reconstruindo sua vida, resolvendo melhor os seus problemas, volte a pensar que é capaz de controlar a bebida, podendo beber socialmente. O alcoolismo é a Doença da Negação, como se costuma dizer, e o Homem é “Insan” (esquecedor), como dizem os árabes… Por isto a necessidade de manter a freqüência às reuniões. Entretanto, mesmo freqüentando reuniões, há de se ter cuidado com as distorções de que a memória é capaz e para tanto existem também sugestões na literatura do grupo, uma das quais, pelo menos, é perfeitamente condizente com as concepções de memória enquanto virtude, conforme entendida por Santo Tomás.
A recomendação expressa para “recordar-se do último porre” é uma orientação de ordem moral, no sentido de manter-se a memória a serviço da prudência, fiel à realidade dos fatos. Isto porque com o alívio do intenso sofrimento a que estava submetido na ativa, o alcoólatra aos poucos vai se esquecendo das agruras e recordando-se apenas das coisas boas que o álcool lhe proporcionara no passado. No limite, desenvolve o que se denomina “memória eufórica”, que se caracteriza pela exaltação plena dos prazeres vividos e esquecimento total ou negação das vivências de sofrimento. Esta deformação da memória leva infalivelmente à recaída. Para ela não se manifestar e não frutificar é que se deve exercitar a lembrança dos últimos porres, das dores, dos vexames e humilhações.
Este é um exercício de memória adequado para que, no caso do alcoólatra em recuperação, seja possível manter a memória como uma virtude fiel à prudência. Nas palavras de Pieper: “A ‘boa’ memória, entendida como requisito de perfeição da prudência, não significa senão uma memória ‘fiel ao ser’(…) O falseamento da recordação, em oposição à realidade, mediante o sim ou o não da vontade, constitui a mais típica forma de perversão da prudência”.(24)
APÊNDICE

OS 12 PASSOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS (25)
“1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”

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1- O autor é mestre em Educação pela USP, escritor, consultor em Dependência Química, atualmente desenvolvendo pesquisa de Doutorado sob o título “Re-educação – A Alquimia dos Grupos Anônimos de Auto-Ajuda”. O presente estudo originou-se a partir das reflexões suscitadas pelo curso de Pós-Graduação da FEUSP: “A educação para as virtudes na tradição ocidental”.
2- Vide Apêndice, ao final do texto.
3- Lauand, Luiz Jean. Provérbios e Educação Moral – A filosofia de Tomás de Aquino e a Pedagogia do Mathal. HotTopos. São Paulo, 1997.
4- Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Nova Fronteira. 1 edição, 11 re-impressão. Rio de Janeiro s/d.
5- Jung, Carl Gustav. C. G. Jung Letters. Routledge & Keagan. London, 1976. pág. 625. Carta a Bill Wilson, em 30 de janeiro de 1961.
6- Alcoólicos Anônimos. Os Doze Passos e as Doze Tradições. JUNAAB – Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. São Paulo, 1995. pág.42.
7- Lauand, op. cit,.págs. 30 e 31.
8- São, respectivamente, o princípio e a conclusão do tratado de Pieper sobre a fortaleza. Cfr. Josef Pieper Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960, p. 173 e ss. e p. 194 e ss.
9- Alcoólicos Anônimos. Folheto 44 Perguntas.
10- Para o tema da temperança, veja-se o livro de Pieper, recolhido no já citado volume Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960.
11- Op. Cit. págs. 30 e 31.
12- Garrigou-Lagrange, Reginald. La prudence – sa place dans l’organisme des virtus. Revue Thomiste, École de Théologie Saint-Maximin (Var), Année 31, Nouv. Série IX, 1926, p. 411. Apud Lauand op. cit. Tradução minha.
13- Ferreira. op. cit.
14- Lauand. op. cit. pág. 117.
15- Tomás de Aquino. Suma Teológica II-II, 49, 1. 2ª. ed., Ed. bilíngüe em 10 vols. Tradução de Alexandre Corrêa. EST-Sulina-UCS, Rio Grande do Sul, 1980.
16- Alcoólicos Anônimos. Os Doze Passos e as Doze Tradições. op. cit. pág. 29.
17- Lauand. op. cit. pág. 97.
18- Ibidem. pág. 97.
19- Ibidem. pág. 112.
20- Ibidem. pág. 112.
21- “Cada grupo é animado de um único propósito primordial — o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.
22- Oração de S. Francisco, citada na literatura de AA.
23- Trata-se da voz média do grego, que encontra um correspondente no verbo depoente latino. Em ambos os casos, trata-se de indicar uma ação que é ao mesmo tempo ativa e passiva, como nascor, nascer (eu nasço ou sou nascido?), morior (morrer será um verbo ativo?). Exemplo sugestivo, no presente estudo, é o do verbo loquor, falar: ao externar, comunicando-me com outros, é que me dou conta de meus próprios pensamentos (devo esta nota ao Prof. Luiz Jean Lauand).
24- Pieper, J. Das Viegespann, München, Kösel, 1964, pág. 29. Apud Lauand. op. cit. pág. 113.
25- Publicados pela primeira vez em 1939, no livro Alcoólicos Anônimos. O título do livro foi adotado como nome oficial da Irmandade que havia sido fundada em 1935.

AA E A REDE SOCIAL – EDUARDO RUDGE

Revisão da literatura: AA e a rede social
Resumido por Eduardo Rudge
Social network variables in Alcoholics Anonymous
A literature review
Clinical Psychology Review 28 (2008) 430–450
D.R. Groh a, *, L.A. Jason a, 1, C.B. Keys b, 2
a Center for Community Research, 990 W. Fullerton Ave., DePaul University, Chicago, IL, 60614, USA
b Department of Psychology, 2219 N. Kenmore Ave., DePaul University, Chicago, IL, 60614, USA
Received 2 May 2007; received in revised form 23 July 2007; accepted 27 July 2007
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Alcoólicos Anônimos (AA) é o programa mais comumente utilizado para a recuperação de abuso de substâncias e um dos poucos modelos a demonstrar resultados positivos de abstinência. Embora pouco se saiba quanto aos mecanismos subjacentes que resultem na eficácia desse programa, um aspecto frequentemente referido é o apoio social.
A fim de se obter uma visão sobre os processos do trabalho desenvolvido em AA, o presente documento analisou 24 trabalhos examinando a relação entre AA e as variáveis da rede social. Vários tipos de apoio social foram incluídos na revisão, tais como, apoio estrutural, apoio funcional, apoio geral, apoio específico para o álcool e ajuda na recuperação. De um modo geral essa análise constatou que o envolvimento em AA está relacionado com uma série de mudanças positivas, qualitativas e quantitativas nas redes de apoio social. O maior impacto de AA é relacionado à rede de amigos, com menos influência na rede entre familiares e outras. Complementarmente, foi verificado ser de grande valia para a recuperação o apoio de outras pessoas em AA, e os indivíduos com rede social de suporte negativo para abstinência beneficiaram-se ao máximo com o envolvimento em AA. Além disso as variáveis de suporte social consistentemente mediadas pelo impacto de abstinência de AA sugerem que o apoio social é o mecanismo da eficácia de AA na promoção de um estilo de vida sóbrio.
São feitas recomendações para futura investigação e prática clínica.
Muitos trabalhos têm demonstrado a baixa efetividade dos tratamentos de internação e ambulatoriais para alcoolismo, como os trabalhos comparando os resultados entre os que receberam tratamento e aqueles que não foram tratados. Apesar do sucesso quanto aos tratamentos convencionais de curto prazo, estudos sugerem melhorias significativamente reduzidas ao longo do tempo. As taxas de recaída são elevadas, com a maioria dos pacientes terem retornado aos níveis de consumo de álcool pré-tratamento, em um ano após. Além disso, uma revisão da literatura sobre a eficácia do tratamento de substâncias de abuso indica alta incidência de índices de recaída em um ano para tratamentos de desintoxicação e adjacentes, por profissionais de saúde.
Atualmente existe crescente interesse por grupos de ajuda mútua e autoajuda que influenciem nos tratamentos, oferecendo uma alternativa ao tratamento profissional ou pós-tratamento. Diferentemente dos tratamentos tradicionais, os programas de ajuda mútua e autoajuda são livres, com encontros e frequência voluntária, caracterizados por trabalhar juntos em um problema comum, com liderança autoescolhida e troca de experiências.
Em geral a terapia de autoajuda tem sido relatada como mais eficiente e menos dispendiosa do que a terapia tradicional liderada por profissionais.
Talvez o exemplo mais conhecido deste grupo de ajuda mútua para apoiar a abordagem de abstinência seja o de Alcoólicos Anônimos.
Alcoólicos Anônimos (AA) foi criado em 1935 como um grupo de autoajuda para as pessoas em recuperação de alcoolismo, mantendo a sobriedade através de sua ênfase na espiritualidade, apoio social, bem como no programa dos 12 Passos.
Atualmente mais pessoas recorrem ao AA para recuperação de alcoolismo do que qualquer outro programa ou tratamento, e no mundo são estimadas mais de 2 milhões de pessoas filiadas, em 150 países. Os seus membros são encorajados a progressos no sentido da recuperação, em seu próprio ritmo, por meio da partilha de experiências, força e esperanças. Os membros admitem a sua impotência perante o álcool através de sua própria autopercepção, na medida em que progridem nos 12 Passos.
Diferentemente dos tratamentos convencionais, não há tempo estabelecido de tratamento e não há envolvimento profissional, muito embora o AA possa ser utilizado em conjunto com outros tratamentos envolvendo profissionais.
Para ser membro de AA o único requisito é o desejo de parar de beber.
Não há encargos, taxas ou registros quanto às suas reuniões semanais.
Numerosos estudos têm indicado os bons resultados da participação de AA quanto ao uso de álcool. Além disso, estudos de meta-análise sobre a efetividade da participação de AA relacionavam-se a resultados positivos quanto ao comportamento de beber e modestamente ligados à saúde psicológica, funcionamento social, situação de emprego e situação legal. Entretanto nem todos os estudos concluíram por ter o AA melhores resultados do que os tratamentos alternativos.
Os pesquisadores frequentemente debatem sobre o rigor e a qualidade dos resultados na literatura de AA, que tem sido tradicionalmente criticada pela falta de estudos longitudinais. No entanto, bem recentemente foi dado um grande passo para preencher esse vazio. Os pesquisadores promoveram um ensaio controlado no qual pessoas em tratamento por abuso de substâncias foram randomizadas para receber, ou orientação standard ou orientação intensiva por grupos de autoajuda. Participantes dos grupos de 12 Passos obtiveram melhores resultados quanto ao uso de álcool e drogas em 6 e 12 meses, e o envolvimento com os 12 Passos foi o mediador que favoreceu esses melhores resultados.

Os mecanismos favorecedores da abstinência com o envolvimento em AA são pouco claros, e tem sido sugerido aos pesquisadores que examinem os mecanismos pelos quais o AA ajuda na mudança de comportamento. Os pesquisadores indicaram os mecanismos de espiritualidade, autoeficiência, superação e apoio social, que são o foco da presente revisão. O apoio social geralmente é considerado pelos profissionais de tratamento como um significativo benefício dos grupos de autoajuda para o abuso de drogas.
Adicionalmente, AA possui diversos fatores comuns a grupos religiosos, redes sociais e instituições de caridade. Por exemplo, muitas vezes membros permanecem na organização muito tempo depois de se tornarem sóbrios. Eles tendem a incorporar AA em sua vida diária como um recurso social e usam o AA como uma oportunidade de serviço comunitário. De fato, nota-se que o apoio social é um componente de tal forma integrado em AA que reparte com os 12 Passos o desenvolvimento da abstinência. Por exemplo, um passo incentiva os membros a preparar uma lista de pessoas a quem tenham ofendido, para que se façam as devidas reparações.
O apoio social tem sido descrito como um metaconceito que inclui várias facetas. Embora o apoio social possa ser definido como um processo pelo qual o auxílio é trocado com outras pessoas, a fim de facilitar metas de adaptação, ele apresenta um conceito complexo que deve ser dividido em várias dimensões.
Como sugerido pela literatura do apoio social, este trabalho faz diferença entre estrutura e função. O apoio estrutural quantifica a composição do apoio social individual e pode incluir elementos como o número, a interconectividade e os diferentes tipos de relacionamentos. Por outro lado, o apoio funcional avalia a medida em que membros da rede proveem significativo e útil auxílio uns aos outros. No que se refere às relações entre os aspectos estruturais e funcionais, redes sociais que são maiores e que oferecem mais relacionamentos de suporte, podem promover uma recuperação mais efetiva.
Este trabalho também classifica o apoio social por generalidade e especificidade, tal como sugerido por pesquisadores.
Enquanto que o apoio geral (global) promove o bem-estar abrangente, o apoio específico é diretamente vinculado a certas funções (e.g. , uso de álcool ou abstinência).
Um modelo criado com o propósito específico de abstinência promove abstinência, enquanto que o apoio geral sustenta o funcionamento psicológico. Os meios do apoio geral tipicamente combinam numerosas variáveis (tanto funcionais como estruturais), como o número de pessoas numa rede e a significância do suporte para obter uma estimativa global da rede de apoio social.
Aqueles que recebem mais apoio geral apresentam níveis mais elevados de bem-estar subjetivo, que é ligado ao resultado do pós-tratamento do abuso de substâncias. Em contrapartida, o efeito social específico depende que o relacionamento promova um encorajamento positivo específico para a abstinência/recuperação ou encorajamento negativo específico para o uso de álcool. Por exemplo, Zywiak et al. verificaram que as pessoas que permaneceram em contato com a rede social de pré-tratamento que estimulava o uso de álcool estavam mais propensas a recaídas. No entanto as pessoas cuja rede social refletia menor uso, tinham mais propensão a manter abstinência.
Quando os tipos de apoio – geral e específico – são comparados empiricamente, o apoio álcool-específico é considerado indicador de maior consistência em resultados de tratamento.
Este trabalho revê a literatura sobre o apoio social e variáveis da rede social em Alcoólicos Anônimos. Uma revisão desse tipo não foi publicada previamente e é importante para o campo da psicologia clínica por diversas razões.
Embora estudos anteriores tenham demonstrado uma limitada eficácia dos tratamentos tradicionais para alcoolismo, AA é um dos programas de recuperação que demonstraram resultados positivos para abstinência.
Entretanto a tendência predominante na psicologia é de se evitar estas intervenções de autoajuda que ficam fora do ambiente profissional e são baseadas no voluntariado e anonimato.
A psicologia clínica tem muito a ganhar focalizando-se neste popular e frequentemente efetivo modelo de recuperação.
A compreensão dos mecanismos através dos quais o AA promove a abstinência poderia ajudar os clínicos a desenvolver tratamentos mais eficazes do que os paradigmas existentes.
A compreensão de quais os tipos de pessoas que melhor se beneficiam com o apoio social em AA poderá ajudar os profissionais de tratamento a fornecer referências mais bem informadas aos seus pacientes.

UNICIDADE DE PROPÓSITO

Unicidade de Propósito
George E. Vaillant, M.D.
Custódio Classe A (não alcoólico)
Junta de Serviços Gerais de A.A.

A “Unicidade de Propósito” é essencial para o tratamento do alcoolismo. O motivo para merecer tão exagerado enfoque é o de superar a negação. A negação associada ao alcoolismo é astuta, desconcertante e poderosa e afeta ao paciente, a quem o ajuda e à comunidade. A menos que o alcoolismo se mantenha incessantemente em primeiro plano, outros assuntos irão usurpar a atenção geral.
Os trabalhadores no campo da saúde mental e da pesquisa têm uma grande dificuldade com a Quinta tradição de A.A. – “Cada Grupo é animado de um único propósito primordial: o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”. Uma vez que estes trabalhadores costumam admirar o sucesso e a fácil disponibilidade geográfica de Alcoólicos Anônimos, pode-se compreender que desejem ampliar a composição dos membros para incluir pessoas que abusam de outras substâncias. Também percebem que o uso apenas do álcool é cada vez menos freqüente, e o abuso de várias drogas combinadas é mais comum. Estes trabalhadores da saúde mental consideram que a unicidade de propósito de A.A. é antiquada e exclusivista. Acham que essa Tradição é uma relíquia dos primeiros dias de A.A. e que os jovens, os pobres e as minorias com antecedentes criminais serão excluídos. Além do mais, quando não há fácil disponibilidade de um centro profissional para o tratamento de drogas ou um Grupo de Narcóticos Anônimos (NA) é difícil para estes profissionais entender porque A.A. com sua tradição de trabalho do Décimo Segundo Passso, não intervém para preencher esse vazio.
Como trabalhador na área da saúde mental e pesquisador, acredito que há dois argumentos que anulam essas preocupações. O primeiro, a Terceira Tradição de A.A., “Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber”, faz com que A.A. não seja exclusiva. A cada ano A.A. acolhe entre seus membros muitos milhares de alcoólicos pobres, alcoólicos com problemas de drogas, alcoólicos pertencentes às minorias e alcoólicos condenados pela Justiça. A.A. não exclui ninguém que tenha o desejo de parar de beber.
O segundo argumento, que a “Unicidade de Propósito”, como necessária para superar a negação, é ainda mais poderoso. Se houver a opção de escolher, ninguém irá querer falar do alcoolismo. Ao contrário: dedicam-se muitas manchetes à adicção às drogas, e investem-se muitos fundos para sua pesquisa e para atrair a atenção de profissionais clínicos para essa área. Depois de dois anos de trabalho no Centro Federal de Tratamento de Narcóticos de Kentucky, eu, um simples professor assistente, fui convidado para falar a respeito da adicção à heroína. Em fins dos anos 90, como professor titular e depois de 25 anos de pesquisa sobre o alcoolismo e sua enorme morbosidade, finalmente me pediram para falar sobre o álcool na minha cidade natal. O tema que me propuseram foi “Porque o álcool é bom para a saúde”. Em poucas palavras, o maior obstáculo para o tratamento do alcoolismo é a negação.
Comecei minha carreira psiquiátrica num Centro de Saúde Comunitária profundamente dedicado. A comunidade tinha manifestado sua opinião de que o abuso do álcool era seu maior problema. Depois de dez anos em operação, o centro se limitava a tratar os problemas segundo, terceiro e quarto da comunidade. Não se dedicavam recursos ao tratamento do álcool.
Trasladei-me a outro Centro Comunitário de Saúde Mental que também havia, ouvido seus cidadãos e tinha aberto um ambulatório para o tratamento do alcoolismo. Foi-me pedido para cobrir o posto de co-diretor da clínica e fui o último psiquiatra contratado por esse centro de saúde mental. Significativamente, eu não tinha experiência com o alcoolismo, mas nenhuma outra pessoa queria o trabalho.
Com exceção do tabaco, o álcool é um problema de saúde e familiar maior que todas as demais drogas. O abuso do álcool custa ao país mais que os gastos totais orçados para todas as doenças de pulmão e câncer. Depois do fumo e da obesidade, o abuso do álcool é talvez a terceira causa de mortes no país. Entretanto, é terrivelmente difícil tomar conhecimento deste perigo. O abuso do álcool cobra 100.000 vidas ao ano, e nos pavilhões médicos e cirúrgicos custa de duas a seis vezes mais tratar 25% dos pacientes com problemas de alcoolismo, do que tratar os demais pacientes. Entretanto, as residências médicas e cirúrgicas, tão conscientes dos gastos neste século XXI, excluem invariavelmente o alcoolismo de seus programas. Não há tempo suficiente, dizem, para prestar atenção ao alcoolismo. Parta combater esta negação, o princípio da “Unicidade de Propósito” de A.A. é uma necessidade.
Dito de outra maneira, o sucesso de A.A. documentado experimentalmente no tratamento do alcoolismo se deve, mesmo em parte, a que os Grupos de A.A. são o único lugar do mundo no qual o foco é o alcoolismo e unicamente o alcoolismo. Simplesmente, não há outra maneira de superar a negação.

Transcrito, com permissão, do texto em español no boletim oficial do GSO, Box 4-5-9, Vol. 36, no. 1 / Fev./ Mar 2003
http://www.aa.org/subpage.cfm?page=27

Resenhas: O Dr. George Eman Vaillant, nascido em 1934 nos EUA, é psiquiatra e psicanalista, trabalha em Harvard; é mundialmente conhecido por seu livro “A História Natural do Alcoolismo”, de 1983, recentemente revisto e traduzido para o português e é há décadas respeitado como uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo. Em dezembro de 1999 esteve no Brasil para proferir uma palestra na ABEAD (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas). Nessa ocasião também deu uma entrevista para as páginas amarelas da revista Veja.
Grande amigo de A.A., quando escreveu o artigo acima era Custódio não alcoólico da Junta de Serviços Gerais nos EUA (lá, são 21 Custódios, 14 alcoólicos – Classe B, e 7 não alcoólicos – Classe A), encargo que ocupou até 2004 quando foi substituído por outro médico e também professor de Harvard, o Dr. Bill Clark.

Consulte também o folheto “Outros Problemas além do Álcool” escrito por Bill W. em 1958 e distribuído nos ESL´s com o código 220.

VIVÊNCIA – TRANSMITIR A MENSAGEM DE A.A. AO ALCOÓLICO QUE AINDA SOFRE

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 102 JUL/AGO 2006
C T O
Transmitir a Mensagem de A.A. ao Alcoólico que Ainda Sofre

“Nenhum de nós estaria aqui, se alguém não tivesse tido tempo para explicar-nos alguma coisa, para nos dar uns tapinhas nas costas, para levar-nos a uma ou duas reuniões, para fazer numerosos atos de bondade e consciência em nosso favor”.

O 12º Passo nos diz: “Tenho experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossa atividades”.
A 5º Tradição reza: “Cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre”.
Nos perguntamos: – por que será que em A.A., por duas vezes nos é pedido para que informemos ao alcoólico que ainda sofre? Por que será que os fundadores de A.A. deram tanta importância para o fato de que a mensagem deve chegar ao alcoólico que ainda bebe?
Aprendemos em A.A. que os Doze Passos são para nossa recuperação individual e as 12 Tradições, para vivermos em unidade nos Grupos.
O que é transmitir a mensagem? – Deixar passar além, conduzir. Fazer passar de um ponto ou de um possuidor ou detentor para outro, transferir.
Os Doze Passos são para nossa recuperação individual, portanto, se aplicam à minha pessoa, individualmente. Eu não trabalho os Passos do outro. Trabalho os meus Doze Passos.
É pelo resultado da prática desses Doze Passos que eu sou visto pela sociedade que convivo.
Quem me conheceu alcoolizado vê essa diferença hoje. Queiramos ou não, transmitimos à sociedade o que os Doze Passos nos fizeram e esta nos põe na balança, nos avalia, nos julga. Nós sentimos isso todos os dias.
Este é o conteúdo da 11ª Tradição: Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção.
Se formos a um baile, nos divertimos, dançamos, bebemos refrigerantes e ainda somos discretos, a sociedade nos vê e poderá dizer: “Esse aí, antigamente bebia muito”. “Esse casal aí estava se separando por causa da bebida”. “Como mudou essa pessoa depois que parou de beber! Era um caso perdido. Como será que isso aconteceu?”
Ou então: “Aquele ali que tem um emblema de A.A. no carro dele, estava passando para trás seus amigos”. “Esse sujeito parou de beber, mas continua negador de contas. É um safado”. “Parou de beber, mas em casa continuam as brigas”.
Onde nós passamos, para aqueles que nos conhecem, transmitimos a mensagem de A.A. pela atração. É isso que nos recomenda a 11ª Tradição. Mesmo não querendo, passo a ser um espelho da Irmandade. Abrindo ou não o meu anonimato, estou sempre transmitindo a mensagem de A.A.
O mar transmite grandeza. O lago calmo nos transmite paz. A rosa transmite um doce aroma. A escuridão nos transmite medo. A criança nos transmite inocência. Não há necessidade de se colocar placas para isso, assim como não precisamos abrir nosso anonimato para que pessoas notem nossa mudança.
Isso, no meu entender, é transmitir a mensagem que aprendemos nos Doze Passos.
O que é levar a mensagem? Fazer chegar, estender, levar para fora.
Levar a mensagem nos diz a 5ª Tradição: Cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre.
Faço questão de ressaltar: – a Mensagem deve ser levada pelo Grupo. Grupo é unidade, é mais do que um, portanto, com o conhecimento do Grupo, a mensagem, incluindo folhetos e endereços, será levada aos outros por dois ou mais companheiros. Nunca, mas nunca mesmo, sozinhos.
A.A. nos ensina que devemos trabalhar com os outros. Os outros, aqui são os companheiros de A.A., a sociedade e os doentes do alcoolismo.
“Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome. Eu estarei no meio deles”. Precisa-se dizer mais? Porque ser ingrato e se omitir de levar a mensagem com outro?
Muitos companheiros nos dizem ter abordado pessoas que precisariam estar em A.A. e essas não entenderam a mensagem. Fizeram isso sozinhos, não atendendo o que nos diz a 5º Tradição. Não o fizeram em Grupos.
Um fato importante. Devemos nos despojar dessa confiança imoderada que temos em nós mesmos. Muitas vezes, ela está arraigada em nós tão profundamente, que já nem percebemos o domínio que exerce sobre nosso coração. O nosso egoísmo, a preocupação com a nossa pessoa e amor próprio são precisamente as causas de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior, na provação de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Por isso, julgamos os outros e somos os “donos da verdade”.
Exemplo está na história do filho pródigo: “Dá-me o que é meu que eu vou vencer sozinho”. Só o Poder Superior pode lhe dar a vitória. Aí você volta para a casa de Seu Pai, ou ao seu Grupo e reconhece sua impotência, “em aceitar as coisas que não podemos modificar”.
É satisfazer o ego quando se diz no Grupo: Fiz sozinho minha parte; errou, não cumpriu o que sugere a 5ª Tradição.
O mesmo acontece com aqueles membros que, ao invés de levar a mensagem de A.A., levam a sua própria mensagem e ainda, ferindo a 8ª Tradição que diz: “Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre nãoprofissional”, procuram levá-la misturando com a medicina ou dados estatísticos para se vangloriarem de sua mesquinha inteligência. Pensam que para levar a mensagem de A.A. têm de ser eloquentes, ter conhecimentos gerais além da literatura de A.A..
Se assim acontece, esse membro deve voltar ao 12º Passo e praticar esses princípios em todas as suas atividades.
Cito um exemplo prático e verdadeiro de um Grupo que foi formado por seis membros. Em março de 2006, esse Grupo completou cinco anos de formação. E sabem quem estava lá? Uns 20 membros e entre eles, hoje, apenas três dos presentes na formação do Grupo há cinco anos. Três membros que nunca coordenaram uma reunião por dificuldades na leitura. Mas lá estavam os três juntos, continuando a levar a mensagem de A.A..
Há companheiros que se afirmam como bons AAs, porque participaram de diversos eventos, se fazem presentes em reuniões de Distrito, de Serviços, etc. Essas pessoas são como aquelas que já leram receitas de bolo, mas nunca experimentaram fazer o bolo. Não sentiram o prazer de fazer o bolo nem mesmo de apreciá-lo.
Tanto Bill como Bob afirmam nos livros de A.A., que o mais importante para a nossa sobrevivência, além da prática dos Doze Passos, é a prática da 5ª Tradição. É levar a mensagem.
O membro de A.A. já entrosado no programa das 24 horas, e que está concentrando suas energias no dia de hoje em busca da sobriedade e da serenidade pode perguntar ou perguntar-se de onde vem a força de Alcoólicos Anônimos? A força vem do despertar para um Poder Superior, da disposição de, em Grupo, levarmos aos outros que sofrem de alcoolismo a informação, através da 5ª Tradição, de como chegamos à sobriedade e de como a nossa vida mudou radicalmente para melhor.
Quando recebemos a força através da amizade dos companheiros do Grupo, do despertar espiritual e da execução do 12º Passo, nós, em A.A., passamos a conviver em unidade, recuperação e serviço. Nesse espírito de grupo, se a amizade não for o suficiente, então nos resta a fé, e se a fé às vezes for pouca, a prestação do serviço ao companheiro é um rio que irriga o deserto. Mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
Lembremo-nos finalmente, da última mensagem do Dr. Bob: – “Meus queridos amigos em A.A.. Fico bastante emocionado ao ver diante de mim um vasto mar de faces, com o sentimento de que, possivelmente alguma pequena coisa eu fiz há alguns anos para tornar este encontro possível… Nenhum de nós estaria aqui, se alguém não tivesse tido tempo para explicar-nos alguma coisa, para nos dar uns tapinhas nas costas, para levar-nos a uma ou duas reuniões, para fazer numerosos atos de bondade e consciência em nosso favor. Assim não deixemos nunca chegar a um grau de tal complacência presunçosa, que não nos permita dar ajuda ou tentar dá-la, a nossos irmãos menos felizes, já que ela tem sido tão benéfica para todos nós”.

João / Toledo / PR
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VIDA QUE DÁ VIDA

O coração de A.A. é um alcoólico transmitindo a mensagem a outro alcoólico.
Enquanto outros métodos fracassam, este funciona, porque é o resultado do programa de recuperação sugerido, ou seja, o crescimento espiritual, fruto da humildade e da gratidão (12º Passo).
Desde os seus primeiros dias, A.A. vem recebendo a cooperação de profissionais das mais diversas áreas de atividades para fazer chegar a sua mensagem a outros alcoólicos.
A mensagem de A.A. também é divulgada através da imprensa, observando os Três Legados, cumprindo-se assim, o nosso propósito primordial (5ª Tradição).
Para que seja cumprido com eficácia esse propósito, é necessária a formação do Comitê Trabalhando com os Outros (CTO), com a finalidade de organizar, estruturar, padronizar e facilitar a divulgação da mensagem de A.A.

(Manual de Serviço)
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Vivência Nº 102 Julho / Agosto 2006.

VIVÊNCIA NA MADRUGADA

VIVÊNCIA NA MADRUGADA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 JUL/AGO/SET 1993

ALCOOLISMO
Guedes – S. Lourenço da Mata

O alcoolismo surge na vida de um ser humano como o nascer de um rio.
Este, ao pesquisarmos sua origem, vem de um lugar bem longínquo: de um olho d’água, de uma serra ou mesmo de uma colina.
Na proporção em que desce, torna-se cada vez mais forte e largo. E, para que ele possa passar, vai destruindo e machucando tudo e a todos à sua volta, deixando atrás de si, tristezas, amarguras, abandonos, lágrimas … Corre desenfreado e só é barrado quando chega ao destino final: O OCEANO.
Do mesmo modo somos nós. Dificilmente sabemos quando começamos a beber. E o pior de tudo, é não percebermos a sua evolução e os danos causados a tudo e a todos que nos cercam. Nossos familiares, por desconhecimento, escondem e até contribuem para a ocorrência de tal fato, quando, impensadamente, encobrem ou tentam encobrir todas as atribuições que o alcoólico deixa de cumprir.
A sociedade, que tanto o influenciou para esta degradante jornada, o joga na sarjeta. Como o rio, o bebedor vai descendo desenfreadamente para o OCEANO de lama e que tem como final “A MORTE PREMATURA”.
O rio pode, parcialmente, mudar o seu curso natural, porém, dificilmente o seu destino. Quanto ao alcoolismo, podemos
estacioná-lo. Basta o bebedor problema admitir ser impotente perante
o álcool e ter perdido o controle da situação. Quer ele queira ou não, tornou-se escravo do álcool e só vive para ele e do qual passou a ser defensor absoluto, e que com o tempo, como num redemoinho, se envolve mais e mais.
A chave da situação está tão somente na admissão de que fracassou (como todos fracassam na acirrada batalha diante do alcoolismo).
Para obter a abstinência, tem que reter o olho d’ água (primeiro gole)
do rio chamado alcoolismo e ir aterrando todo o leito até o oceano de lama, com os ingredientes contidos nos Doze Passos. De nada adianta fecharmos o olho d’ água (Primeiro Passo) se não aterramos todo o Curso do rio, reflorestando, revitalizando,reconstruindo pontes e cidades (os Doze Passos). Sem isso, não estaremos fazendo a reforma necessária, podendo ainda, assim, haver uma avassaladora enchente chamada recaída.
Para que tal catástrofe não ocorra, temos que estar sempre inteirados e absorvidos com a programação e seguindo as sugestões contidas
nos Doze Passos e nas demais literaturas.

Vivência n° 25 JUL/AGO/SET 1993

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“Se não aprendermos com nossas experiências, estamos destinados a repeti-las.”

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 89 – MAI/JUN 2004

ALCOOLISMO:
A DOENÇA DO ESQUECIMENTO

Inúmeros companheiros em seus depoimentos costumam dizer que alcoolismo é a doença do esquecimento. Eu mesmo já me flagrei com tal afirmativa.
Hoje, ela é para mim tão preciosa e verdadeira, como a qualidade de vida que A.A. proporciona ao alcoólico que busca praticar os princípios sugeridos pela Irmandade. Posso, num instante, esquecer-me de onde vim, posso esquecer-me da profundidade do meu fundo de poço e naquele instante acontecer o desastre.
Somos individualmente, células de um grupo, e este, célula de um formidável conjunto, que mediante seus órgãos de serviço, tem maravilhado o mundo por suas características peculiares, como a inexistência de chefias e hierarquias, como a realidade espantosa da 7.ª Tradição, de difícil entendimento para a maioria dos seres humanos. E isso funciona. E isso cresce. E isso tem sido aceito pelos mais conservadores profissionais, clérigos, sociedades herméticas e isso não questiona política, religião, raça, sexo, cor. Nada proíbe, nem mesmo que os seus membros voltem a beber. Transcende à mais perfeita democracia. É tão suave e harmônico, que muitas vezes, reuniões há em que não se pronuncia a palavra “álcool”.
Por vezes, tais reuniões são tão espiritualizadas, que nos permitem o esquecimento. São tão filosóficas que se iniciam e terminam como se estivéssemos “embriagados” pelo néctar dos deuses e nem nos lembramos que faltou nessa reunião o bêbado, o traste humano, a alma, o motivo, o motor de Alcoólicos Anônimos.
Baseados nesse paraíso que encontramos, nesse oásis de sobriedade, achamos que a vida é assim e introjetamos a serenidade adquirida e nos esquecemos conjuntamente da verdadeira origem de A.A., da mesma forma que pode ocorrer o meu esquecimento pessoal.
A nossa sobriedade melhora, a nossa vida melhora, e passamos a projetá-la sobre os que estão chegando e as temáticas aos novos e ao público são recheadas de espiritualidade apenas. Mais uma vez a doença do esquecimento nos impede de lembrar que nas origens foi escrito: “Alergia física e obsessão mental”, registrado no “Livro Azul” mediante a percepção fantástica do Dr. Silkworth, o que mais tarde se comprovou nas abordagens malsucedidas do Bill, quando o mesmo tentava empurrar “goela abaixo”, espiritualidade e Deus a seres que tinham perdido a fé em si mesmos. Bastou que o nosso Bill falasse em doença, que o Dr. Bob estacionou seu alcoolismo e A.A. floresceu. E essa é a realidade. Todo alcoólatra é neurótico, nem todo neurótico é alcoólatra. Este, sutilmente descobriu o álcool como anestésico de suas sofridas neuroses e isso ocorreu porque o seu organismo já vinha quimicamente e neuroquimicamente esperando por tal anestésico, enquanto que os demais neuróticos continuam sofrendo com as suas angustias, porque o elixir mágico não lhes “fazia a cabeça”. Essa diferença é notável. Os neuróticos não alcoólatras apresentam perfis psicológicos muito semelhantes aos neuróticos alcoólatras. Evitar o esquecimento é reportar-se às origens. Alcoolismo é doença física.
Salvo melhor juízo, sugiro reflexão profunda aos companheiros temáticos.

(Dr. Emanuel F. Vespucci; Dra. Darci P. de Almeida)

VIVÊNCIA N.° 89 MAI/JUN. 2004.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 JUL/AGO/SET 1993

VIDA VAZIA?…
Danton – Ribeirão Preto

Um dia desses fui visitar um companheiro, que está afastado do grupo e, consequentemente, na “ativa”.
Este companheiro me recebeu bem e desenvolvemos um “papo” amigável e cordial.
Este companheiro falou bem do programa de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, continua aceitando ser um alcoólico, mas julga que para ele, durante o período em que esteve frequentando o grupo, “A SUA VIDA ESTAVA VAZIA…”
Ao sair, após aquele diálogo, comecei a imaginar: “MINHA VIDA TAMBÉM NÃO ESTARIA VAZIA?…”
Iniciei então, uma viagem introspectiva através do meu ego, inventariando minha existência. Voltei no tempo e no espaço e me encontrei na época de minhas bebedeiras, às rodas de “amigos” de então e deparei-me com uma “vida cheia”, onde não me faltava o que fazer. Sempre existia algo a ser feito (sempre em torno de uma garrafa).
Nessa viagem, pude novamente encontrar as mazelas vividas, o fundo do poço onde, por fim, me lancei. Sim, minha vida estava “cheia”, repleta de dor, sofrimento e desencontros. A solidão se tornou minha companhia, e os “amigos” de antes, passaram a me ignorar, pois eu nada mais tinha para oferecer e através de alguns goles “comprar” as amizades.
O tempo passou. Tive a felicidade de encontrar ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, onde pude deter a marcha do meu alcoolismo. Os anos foram se passando e uma nova motivação encontrei em minha vida: a satisfação de viver na SOCIEDADE, desfrutando de uma vida feliz e serena, onde muitos dos companheiros de A.A. se tornaram verdadeiros AMIGOS, aos quais nada precisei oferecer para desfrutar de suas amizades.
Assim sendo, hoje posso tranquilamente dizer: MINHA VIDA ESTÁ CHEIA, cheia de amor, paz, felicidade e acima de tudo, cheia de SOBRIEDADE, que posso compartilhar com tantos outros companheiros de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS…

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 25 JUL/AGO/SET 1993

DAR DE GRAÇA
Rosana C. – Rio de Janeiro

Conheci a Irmandade há 10 meses.
Hoje não bebi.
Você já parou para se lembrar de quantas oportunidades perdeu ou deixou de ganhar, na vida profissional?
Quantas mentiras de doenças, morte de alguém ou pneu furado você inventou para não trabalhar naquele dia? Naquele dia – ou no dia seguinte – com vômitos, dor de cabeça e de barriga, mau hálito, culpa, remorso, vergonha, devendo ao dono do botequim? E o cheque que você passou e não anotou no canhoto?
Hoje foi assim, porque ontem não bebi. Não tendo bebido, sou grata a um exército de companheiros que me ajudam.
Talvez você nem saiba da existência deles. É uma legião de voluntários nos grupos e nos organismos de serviços de A.A. São as pessoas que fazem café,
as que varrem o grupo, são os RSGs, os delegados e suplentes, plantonistas, coordenadores, tesoureiros, pessoal da literatura, do CTO; enfim, centenas de pessoas que estão “atrás das câmeras”; que são responsáveis por seu grupo aberto hoje; responsáveis pelo funcionamento de A.A. como um todo e, é claro, com a ajuda do Poder Superior.
Você já parou para imaginar se poderia ser uma dessas pessoas ativas, participantes, interessadas e preocupadas com a Irmandade, com seu grupo
e com as Tradições?
SERVIÇO É DAR DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA SE RECEBE.
Pense nisso e mãos à obra!

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 44 – NOV/DEZ 1996

QUE TAL ESSE PLANO DAS VINTE E QUATRO HORAS?
B.P.

Antes de mais nada, o que diz o plano das vinte e quatro horas? Ele diz: “Viva a vida um dia de cada vez, Tanto para ficar longe da bebida, como para conduzir todas as outras atividades de sua vida; não deixe o ontem ou o amanhã desviá-lo do que você pode fazer hoje”.

“Esse plano das vinte e quatro horas é o mais engenhoso artifício de falsidade intelectual e auto decepção que eu já vi! Vocês me dizem que tudo o que tenho de fazer é permanecer sóbrio apenas por hoje – quando eu sei muito bem que vocês esperam que eu abandone a bebida para sempre. Quem está brincando com quem? E, assim que eu aplicar o plano das vinte e quatro horas em “todas as minhas atividades”, como poderei realizar algum trabalho, se não planejar antes?”

Estas eram as palavras que eu gostaria de ter gritado a cada um, e a todos, quando cheguei em A.A. Não o fiz somente porque não tive coragem para tanto. Mas, intimamente, bem lá no fundo, frequentemente o fazia para mim mesmo.
Nos anos subsequentes, vim a acreditar que o plano das vinte e quatro horas é a mais extraordinária receita para a produtividade, serenidade, e, sobretudo, felicidade que o homem jamais imaginou. Então, por alguns minutos, vamos examinar os quês e os porquês, os quando e os para quês.
Nos meus dias de ativa, eu tinha que viver no passado, ou no futuro. Eu oscilava, alternadamente, entre o esplendor das glórias do ontem (na maioria, frutos da minha imaginação), o remorso e o ressentimento das derrotas do passado. Ou entregava-me a sonhos sobre o que poderia fazer amanhã, ou torturava a mim mesmo com os medos de onde eu poderia falhar. Decididamente eu não conseguia viver o hoje. Isso demandaria mais ação e mais responsabilidade do que eu seria capaz.
O plano das vinte e quatro horas tem sido a minha chave para a libertação dessa prisão. Ele é a arte de se viver onde temos condição de agir, de concentrar nossos esforços apenas no momento certo para aquilo que nos seja possível realizar – neste exato momento. Este é o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de beber ou deixar de fazê-lo, o único instante em que eu posso fazer algo a respeito de levar a mensagem, e, nesse sentido, fazer algo a respeito de todas as atividades em minha vida.
Isso quer dizer que eu não posso fazer planos para o futuro? Positivamente, não. Significa que posso planejar as minhas ações, mas não projetar o resultado. Significa que, se a coisa mais importante que eu devo fazer neste instante (primeiro as coisas primeiras), é planejar algo para amanhã, para o mês que vem, ou para o próximo ano, preciso dedicar-me neste momento para isso.
Por que o plano das vinte e quatro horas funciona? Ele tem funcionado para mim porque divide a vida em segmentos que tornam possível manejá-la – uma coisa de cada vez. Faz lembrar aqueles velhos filmes de cavalaria, onde o mocinho, perseguido pelos índios, sempre se esconde em um estreito desfiladeiro, de onde ele pode eliminá-los, um de cada vez. Lembro-me que nos meus tempos de escola, o instrutor de remo costumava nos dizer, quando chegávamos aos últimos quatrocentos metros da regata, que devíamos esquecer os quatrocentos metros restantes, e simplesmente ir em frente, concentrados apenas em movimentar aquele remo para frente e para trás, uma vez mais.
Os quatrocentos metros, a tribo de índios, toda uma vida, não são controláveis mas, uma remada, um índio, um dia, nós podemos manejar neste exato momento.
Outra razão pela qual o plano das vinte e quatro horas funcionou para mim, é que ele oferece recompensas emocionais pelos êxitos obtidos. Se eu disser que nunca mais tomarei um gole enquanto viver, estarei em meu leito de morte antes de saber se o fiz. E, se for atropelado por um caminhão, nunca ficarei sabendo. Assim, a vida torna-se uma eterna busca por um objetivo que, provavelmente, eu nunca tenha a satisfação de alcançar. Mas se eu decido que não tomarei um gole hoje, no fim do dia eu saberei que consegui. Isso é uma conquista e, como todas as conquistas, traz satisfação. Faço o mesmo, dia após dia, e estou empilhando conquistas, adquirindo, assim, um equilíbrio que me é muito precioso – e, por essa razão, uma conquista que não estou propenso a abandonar – a cada que passa.
Além do mais, a conquista pode se tornar uma rotina, tanto quanto o álcool. Um pequeno triunfo nos faz bem; assim, ansiamos por mais um pouquinho. Quanto mais a gente consegue, mais a gente quer e, de repente, estamos fisgados – fisgados por um hábito que é construtivo, e não destrutivo.
Eu tinha que fazer, do plano das vinte e quatro horas, um hábito. Quando aderi a ele, displicentemente, e não funcionou e nem fazia sentido. Eu desconhecia o velho chavão de que, para o alcoólico em recuperação, a ação tem que vir antes do entendimento e da fé. Eu não havia compreendido que temos que dirigir o nosso modo de pensar para a forma correta, em vez de fazer o contrário.
Nos últimos dias das minhas bebedeiras, eu não tinha fé – nenhuma fé: nem mesmo da existência de um Poder Superior bondoso. Afinal, se houvesse algum Poder Superior, ele teria que ser maldoso, do contrário, por que teria ele escolhido a mim para ficar sem a coisa mais relaxante da vida – beber?
Assim, quando meu padrinho disse-me para agradecer a Deus, todas as manhãs, pelo dia que passou e pedir-lhe ajuda para o dia que tenho pela frente, eu disse a ele que não acreditava em Deus. Ele respondeu: “Faça assim mesmo”.
Então, finalmente, decidi colocar o plano das vinte e quatro horas de uma forma habitual. Eu o associaria a alguma coisa que faço todos os dias – tomar banho, por exemplo. Todas as manhãs, no chuveiro, eu estabeleceria as bases para as vinte e quatro horas daquele dia. Gradualmente, isso foi evoluindo, para se tornar, na acepção da palavra, um programa. Provavelmente, isso vai gastar um bocado de água, mas, pelo menos, água é bem mais barata do que vodca.

O Programa Funciona mais ou menos assim:

1. Primeiramente, agradeço a Deus pela minha sobriedade durante o dia anterior.
2. Depois, procuro em minha mente por algo que eu tenha feito melhor do que eu teria feito antes. Algum pequeno triunfo sobre um defeito de caráter – alguma pequena aplicação de coisas que eu tenha aprendido em A.A. E agradeço a Deus por isso. Isto é a parte do negócio de se adquirir o equilíbrio e de se ter sucesso por acréscimo. Porém, mais do que isso, é um remédio específico para o meu mais mutilante defeito – a falta de amor-próprio. O fato de estar ciente do que fiz corretamente, a cada dia, tem imperceptivelmente feito por fertilizar todas as raízes do meu debilitado amor-próprio..
3. Digo a mim mesmo que sou um alcoólico. Eu sei que a mente humana, reflexivamente, apaga as lembranças desagradáveis, e estou decidido a contra-atacar esse reflexo, a fim de que eu jamais venha a achar que estou seguro e posso beber normalmente. Por isso, imagino uma bebida em minha mente (usualmente, um martini gelado) e então, conscientemente, relembro algum horrendo incidente alcoólico. Assim, eu tenho bem atadas, em minha mente, a bebida e a inevitável consequência. Tenho feito isto por inúmeras milhares de manhãs e creio que não me seria possível procurar por um trago sem, ao mesmo tempo, vislumbrar um quadro detalhado do resultado. Construí o meu próprio anti reflexo.
4. Decido não tomar um gole no dia que está começando, e peço a Deus que me ajude a levar avante esta decisão. Nos primeiros meses e anos eu podia prever, com certeza, situações, no dia que nascia, onde eu sabia que estaria exposto à bebida – um almoço de negócios com um grupo de bebedores da pesada, ou fazendo hora no aeroporto de Cleveland. Podia visualizar a situação iminente em detalhes e dizer a mim mesmo, “estou decidindo agora (no chuveiro), que eu não vou tomar um gole quando a situação ocorrer”.
5. Por último, eu decido por um “Dia Especial”. Vim para o A.A. com tantas falhas e defeitos de caráter, que nem ao menos podia contá-los. Ainda tenho uma boa parte deles. Se, por um lado, intelectualmente, eu anseio por livrar-me deles, por outro, emocionalmente, ainda os acho meio engraçados. Com esse conflito em minha cabeça, o problema de trabalhar em cima deles se assemelha com tentar trocar um aperto de mão com um polvo. Desse modo, eu pego um defeito de caráter e concentro-me nele durante aquele dia, e peço a Deus que me ajude a ser bem sucedido.

A Prática

Naturalmente esse programa diário não chega pré-fabricado em frente à minha porta. Ele se desenvolve com a prática.
Em poucos meses, ele me provou a existência de um Deus benevolente.
No dia em questão, eu sabia que teria de trabalhar até tarde da noite e teria um tempo ocioso na Grand Station, esperando pelo último trem. Antevendo a situação, tomei a decisão de não me atirar para a minha costumeira série de “duplos” no bar, e pedi ajuda para manter-me firme na decisão. Na manhã seguinte, surpreendi-me ao compreender que eu passara uma hora na estação, lendo um jornal, sem que tivesse passado pela minha cabeça a ideia de beber.
Eu poderia ter sido capaz de evitar que uma mudança de ideia se tornasse uma compulsão, ou que uma compulsão me levasse à ação, mas houve um Poder, muito maior que eu mesmo, para barrar até mesmo o pensamento vindo de minha própria consciência.
Desse dia em diante, eu vim a acreditar.
Os cinco passos da “ducha matinal” podem parecer meio complexos. Todos eles se resumem em se estar agradecido a Deus pela sobriedade e pelo crescimento, em admitir-se como alcoólico, e pedir ajuda para a manutenção da sobriedade e do crescimento – só por hoje.
É fácil: ao examinar o processo, você notará que eles se incorporam a cada um dos Doze Passos, exceto o de “levar a mensagem”, que é parte do Décimo Segundo – só por hoje.
Talvez, esta seja uma maneira um pouco lenta de se adquirir sobriedade e crescimento. Mas, antes de mais nada, a sobriedade é uma muda, plantada recentemente. Se eu agir afoitamente e puxá-la com força pelo caule, com a intenção de fazê-la crescer mais rapidamente, corro o risco de arrancá-la inteira da terra. Mas, se eu adubar as raízes, dia após dia, estarei, certamente, garantindo uma colheita segura e saudável.
Em outras palavras, resistir à compulsão do primeiro gole é como colocar uma nave espacial em órbita. É imprescindível que haja uma forte impulsão para que seja vencida a primeira etapa da atração da gravidade para tirar a nave do chão. Mas, uma vez em órbita, basta uma pequena correção, de vez em quando. É assim que funciona o plano das vinte quatro horas – um simples check-up diário e uma pequena correção, para nos manter longe da tentação daquele primeiro gole.

Um Plano Espiritual

Em meus próprios esforços na aplicação do plano das vinte e quatro horas, tomei a liberdade de interferir em nossa Oração da Serenidade. Acrescentei sete palavras – e todas elas são a mesma palavra – “hoje”.

Concedei-nos Senhor, a Serenidade necessária “hoje” para aceitar “hoje” as coisas que não podemos modificar “hoje”,
Coragem “hoje” para modificar “hoje” aquelas que podemos “hoje”
E Sabedoria “hoje” para distinguir umas das outras.

Então, esta é a receita para a produtividade, a serenidade e, acima de tudo, a felicidade que A.A. tem me proporcionado. E é por essa razão que eu posso dizer do fundo do meu coração: “Obrigado Senhor por eu ser um alcoólico”.

As religiões, as seitas e outros movimentos e irmandades, têm seus códigos de conduta. Seus membros podem respeitá-los, ou deixá-los de lado. A aplicação não é uma questão de vida ou morte. Mas, nós em A.A., temos o nosso plano das vinte e quatro horas, e a nossa razão para aplicá-lo é a própria vida.

Best of the Grapivine

Vivência 44 – NOV/DEZ 1996
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 81 – JAN/FEV 2003

Por que eu não permanecia em A.A.

Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos, eu precisava e queria parar de beber. Mas aconteceram coisas relacionadas ao meu desempenho sexual que me deixaram preocupado.

Companheiros, em 1988 eu chegava em Alcoólicos Anônimos saído de uma clínica. Devido ao que tinha acontecido comigo, eu de imediato admiti minha impotência perante o álcool. Fiquei apenas alguns meses e voltei a beber.

Sou casado, pai de dois garotos, um de dezesseis anos e outro de doze. Tenho uma maravilhosa esposa que não me abandonou durante esses dezoito anos em que estamos casados.

Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos, eu precisava e queria parar de beber. Mas aconteceram coisas relacionadas ao meu desempenho sexual que me deixaram preocupado. Eu sempre achei que sendo pontual na cama, podia fazer o jogo – bebo mas não te falta sexo. O que de nada adiantava, se no outro dia eu amanhecia e perguntava se nós havíamos feito sexo, já que não me lembrava de nada. Eu só funcionava bêbado.

Parando de beber, eu não conseguia ereção e isso começou a me amedrontar. Fiquei com receio de que minha esposa viesse a reclamar do meu desempenho. Eu não a conhecia. Não compartilhei com meus companheiros esse problema. Um dia voltei a beber. Voltei a ser o machão que achava que era, mas também voltaram os problemas. Disseram-me que conhaque com cerveja era muito bom. Só que eu não fiquei só nisso. Voltei a me embriagar todos os dias achando que agora era o homem que minha esposa precisava. Muito rápido, lá estava eu voltando para a clínica. Foram seis anos indo a grupos de A.A. Eu não conseguia permanecer, devido a esse problema.

Imaginem vocês, eu, bêbado, suando, exalando álcool pelos poros, insistindo com minha esposa com brutalidade e ela virando o rosto para o outro lado, pois eu insistia em beijá-la. Talvez por respeito ela cedia, e eu me achava o grande machão. Houve vezes em que eu disse que não ia mais parar de beber, pois o álcool me ajudava muito nesse sentido. Mera ilusão. Minha esposa não queria sexo todos os dias, queria sim, o esposo sóbrio ao lado dela.

Em abril de noventa e quatro, no dia primeiro, dia da mentira, voltei para Alcoólicos Anônimos, já que durante seis anos eu não bebi mais sossegado. Sabia da solução e precisava dar um basta naquela vida em que me encontrava. Naquele sofrimento, comecei a frequentar reuniões, compartilhar com meus companheiros, falei em cabeceira de mesa. As coisas mudariam, contanto que eu não bebesse.

Companheiros, mudou mesmo. Era coisa da minha cabeça, estava dentro de mim, funcionar ou não. A vontade de ficar sem beber foi maior, e isso passou desapercebido. Hoje estou feliz, estou caminhando para três anos. Sou feliz, pois tenho vocês para compartilhar meus problemas, tenho fé, acredito em Deus por mais sérios que sejam os problemas, eu não devo beber. Devo sim, falar com um companheiro.

Agradeço a todos vocês, companheiros de Alcoólicos Anônimos, e também à minha esposa. Eu não a conhecia, não sabia a maravilha que tinha dentro de casa.

Hoje, quando fazemos sexo, é com todo amor, sem suor, sem brutalidade, todo cheiroso e, principalmente, sem bebida.

Vinte e quatro horas de sobriedade.

(Brito)

VIVÊNCIA N.° 81 JAN/FEV DE 2003.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº153 JAN/FEV 2015

PASSAGEM
LIVRE

“Mesmo sem beber, percebeu que o seu passado cheio de medos, culpas,
inveja, ressentimentos, ainda estava “dando as cartas”.

Sou membro de A.A. há muitos anos e até o dia de hoje não voltei a ingerir o primeiro gole de álcool. Tenho tratado de manter a frequência assídua e envolvimento permanente em meu Grupo base para não voltar a beber e
assim permanecer aprendendo com meus companheiros e companheiras de vida nova, a prática dos nossos prin-cípios espirituais de recuperação, unidade e serviço.
Escrevo para compartilhar o que tenho aprendido sobreos meus ressentimentos.

Durante meu alcoolismo ativo eu os carregava comigo para onde quer que fosse, ia dormir e acordava com eles (às vezes até sonhava com os ditos cujos), que sempre transbordavam de mim e respingavam em quem estivesse por perto, prolongando rusgas e provocando novos danos.

Sem me aperceber disso, eu dedicava todas as horas dos meus dias, ocupava todos os meus pensamentos e gastava todas as minhas energias para ressentir (e reagir a) o que eu acreditava que eram minhas
razões, mágoas, ofensas e impressões de ser incompreendido, traído, usado ou injustiçado. Ou então, eu ressentia as minhas supostas alegrias
até que estas se transformavam em euforias insanas e totalmente inadequadas. E é claro que eu sempre encharcava tudo isso com álcool, me anestesiando e me retirando da minha própria realidade, que ia ficando entupida de lixo emocional e espiritual “em todas as minhas atividades”.

Quando tudo isso ficou insuportável e inviável, ainda na condição de jovem adulto conheci A.A.,identifiquei meu alcoolismo e comecei minha jornada de recuperação e mudança íntima, como uma tartaruga: lenta, mas
persistentemente. No começo, vivi muitos meses na lua de mel no Grupo, desfrutando as maravilhas verdadeiras da simples abstinência diária do álcool: dormir, acordar, me alimentar, me cuidar, dar conta das tarefas do dia, partilhar nas reuniões, saber como foi o dia dos meus companheiros e companheiras, lembrar claramente de tudo isso, sentir dignidade por ser mais um e felicidade por estar entre os meus iguais.

Mas, de novo me vi às voltas com turbilhões emocionais secos, que me deixavam perplexo e imprestável, de tão exausto: medos irracionais, invejas dolorosas, irritabilidade descontrolada, ataques de autopiedade e culpa, sentimentos de total inadequação e descrença em mim, indecisões prolongadas, ansiedades e angústias profundas – e a lista vai longe. Assim, para não
voltar a beber precisei praticar os Passos Um, Dois e Três muitas vezes ao dia, não mais apenas em relação à bebida, mas a tudo isso que podia me levar de volta à ela e que “aparecia” dentro de mim bem no meio das minhas relações familiares, dos assuntos profissionais, dos acontecimentos corriqueiros nos ônibus, comércios e ruas da vida, e também nos serviços e vínculos no
Grupo base.

Como eu podia estar passando por tudo isso “de novo” se estava sem beber? Lentamente comecei a perceber que meus sofrimentos atuais me eram “familiares” e estavam de volta porque tinham raízes na minha história de
vida e não na bebida (que, porém, sempre as agravara).
E compreendi então que eu não conseguiria me livrar deles apenas evitando o primeiro gole e tudo mais que pudesse me levar à recaída alcoólica. Foi por isso que me dispus a mergulhar nos Passos Quatro e Cinco, tive que despejar em cima da mesa da minha consciência aquele velho, cheio e pesado saco de ressentimentos que eu carregava desde a infância e a adolescência,
estudá-los um por um, compartilhá-los e receber retornos preciosos sobre como o meu passado estava dando as cartas no meu presente e me impedindo de ser mais plenamente feliz, útil e livre.

Por exemplo, tendo sofrido violência física e psicológica ao longo de toda a minha infância, e tendo atuado no papel de vítima passiva (mas muito
manipuladora) desde então, entendi que eu não poderia ser verdadeiramente feliz no presente se não “fizesse as pazes” com essas circunstâncias passadas e se não executasse mudanças pessoais orientadas de forma minuciosa e corajosa.

Acredito que só então pude me beneficiar do potencial dos Passos Seis, Sete, Oito e Nove em minha vida, pois pude me dispor a passar a agir com base nos novos conhecimentos sobre a minha pessoa e a minha história: perdoando a mim e àqueles que eu acreditava terem me prejudicado, tomando atitudes para consertar/melhorar o que era possível “do meu lado da rua” e passando a valorizar o que eu antes chamava de “resto”: as qualidades humanas presentes naquelas mesmas pessoas e em mim, os bons momentos que vivemos juntos, a saúde, as dádivas da vida e da sobriedade se renovando discreta e miraculosamente um dia de cada vez.

Passei a poder frear meus velhos impulsos, duvidar das minhas velhas razões, me abster de julgar, rir de mim sem ser sarcástico, mas com bondade e humor.
Comecei a rogar ao Poder Superior do meu entendimento – e a encontrar em mim mesmo doses de tolerância, compaixão, ternura, admiração, gratidão, confiança e alegria que jamais encontrara antes. E nem preciso me
preocupar se são doses grandes ou pequenas, pois quase sempre são suficientes para lidar com as circunstâncias da minha vida diária de maneiras novas e sempre melhores para mim e para os outros.

Enquanto escrevo, me dou conta que já estou vivendo de um jeito onde não tem mais lugar para a prática do ressentimento: toda vez que percebo qualquer emoção ou reação indesejável em mim, não importa mais o que ou quem possa ter desencadeado isso. Ao invés de ressentir, reprisar, remoer e sofrer pelo já acontecido, procuro o quanto antes me inventariar,
meditar e rogar por ajuda, aceitando-a. Procuro ver se devo fazer alguma reparação e então simplesmente perdoar e entregar tudo mais – especialmente os meus desejos em relação ao caso – e me render aos seus desfechos e resultados, aceitando-os e me ajustando o melhor que puder, discretamente e levando adiante o que recebo, “em todas as minhas atividades”. Acredito que estes são os meus Passos Dez, Onze e Doze.

Mas, não é só isso. Ocorre que a minha vida só funciona nesse modo se o meu cotidiano estiver atrelado ao do Grupo base. É assim que me mantenho
treinando a criação e a manutenção de laços humanos baseados em unidade, espiritualidade, não julgamento, aceitação incondicional do outro, exercício de autonomia, mas com limites, propósito coletivo único,não afiliação a outros empreendimentos, autossuficiência financeira com planejamento,
prudência e parcimônia, cuidadosa organização das atividades coletivas, retribuição graciosa de tudo quanto recebemos, anonimato,humildade e simplicidade.

Desse modo, nessa semana pude aceitar bem, tanto uma profunda tristeza, como a notícia de que alguém muito querido está se despedindo da vida, quanto uma profunda alegria, com um reencontro depois de muitos anos de separação. São dois exemplos singelos de situações diante das quais, anteriormente, eu me afogaria nos velhos turbilhões emocionais dos
ressentimentos. Ou seja, em minha nova vida, as ferramentas espirituais estão funcionando como uma vacina contra eles. Tomando as minhas doses dessa vacina, aplicadas diariamente na convivência fraterna e solidária do Grupo base, obtenho livre passagem em minha própria vida, sob quaisquer circunstâncias.
Posso fluir com o universo, a natureza e a comunidade humana, dar sentido e utilidade à minha própria vida, com felicidade e gratidão.

G.A.

Vivência nº 153 – Jan/fev 2015
VIVÊNCIA

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 95 – MAI/JUN 2005

VIVENDO À MANEIRA DE A.A

“O desejo de parar de beber e a luta contra a vontade de beber.”

Após alguns meses em Alcoólicos Anônimos e mantendo-me abstêmio de bebidas alcoólicas, evitando o 1º gole, um dia de cada vez, questiono o fato de ainda sentir vontade de beber. Será que quando procurei A.A., eu realmente tinha o desejo de parar de beber? – Sim! Mas também, a esperança de um dia poder voltar a beber, assim como o desejo de um dia não sentir mais vontade de beber. Sentia necessidade de parar de beber por haver perdido o controle sobre minha vontade.
Analisando agora essa minha vontade, percebo que eu sinto falta muito mais que do prazer pelo sabor da bebida, é do efeito que a bebida alcoólica me proporcionava, como: aliviar a ansiedade, relaxar-me, despreocupar-me, sentir-me alegre, motivado, inspirado, auto confiante, ter fluência verbal, fazer amigos, me emocionar, abraçar a todos como irmãos, fazer planos para o futuro, apaixonar-me pela vida, superar-me, buscar o êxtase, enfim: estar de bem com a vida.
Pensando assim, concluo que beber havia sido bom para mim. Habituara-me, então, a beber todos os dias, principalmente se as “coisas” não iam bem. Era como um “remédio para todos os males”. A bebida alcoólica tornara-se a minha companheira íntima. Surgiu assim a compulsão quando minha tolerância ao álcool aumentou e com ela a quantidade de bebida que eu ingeria; bebidas mais fortes, procurando estar de estômago vazio, tudo em busca do efeito desejado, mas nunca me satisfazia, por mais que eu bebesse. Veio então a DEPENDÊNCIA FÍSICA: meu organismo reclamava a presença do álcool. Para trabalhar, atendendo a pacientes em odontologia, tomava sedativos durante o dia a fim de controlar os tremores e suportar a abstinência do álcool. Devido à minha profissão, o acesso à farmacoterapia e a receituários facilitava a “auto medicação” e tomava diuréticos para controlar a retenção de líquidos. Antiarritímicos para controlar os batimentos cardíacos e polivitamínicos para compensar a alimentação irregular.. Enfim, num medo desesperado, tentava monitorar meu organismo, “movido à álcool, para que não entrasse em pane”. Uma dependência psicológica já existia: precisava do álcool mais do que tudo, incluindo família, profissão, amigos e Deus. Mas já não fazia o efeito desejado, somente o efeito indesejado de estar sempre mal quer tivesse bebido ou não.
Tentei controlar-me várias vezes, beber socialmente, como se diz, e descobri não ser capaz. Sentia-me obrigado a beber mesmo que eu não desejasse. Passei a sentir medo de ficar sem o álcool; medo da vida, do dia, da noite, dos compromissos, das consequências de meus atos. Medo de Deus e de mim mesmo. Parecia que eu iria implodir a qualquer momento. Havia me transformado em um “escravo voluntário do álcool”. Não havia mais nenhuma vantagem em beber a não ser pelo prazer mórbido de não sofrer a dor da separação de minha companheira.
A busca pelo efeito desejado tornara-se obsessão. O sonho de bem-estar virou um pesadelo de matar. Já não podia mais parar nem seguir adiante. O álcool havia se transformado em meu inimigo íntimo.
Aqui me pergunto: – Como posso, após tudo que passei, ainda sentir vontade de beber? A resposta só pode ser: insanidade, loucura. Sintomas dessa terrível doença do alcoolismo que em A.A. vim a saber-me portador. Uma doença de origem física, mental, emocional e espiritual. Incurável, de caráter progressivo e fatal, mas que pode ser detida se eu assim o desejar. Então, o que fazer com essa minha vontade?
Procurar VIVER À MANEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS!
No programa de recuperação de A.A., nos Doze Passos, encontrei a resposta: “RENDIÇÃO”: Admitindo a minha impotência perante o álcool, 1º Passo, acreditando que Deus poderá me devolver à sanidade, 2º Passo, e entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, 3º Passo.
Creio que a vontade de Deus para comigo está expressa providencialmente nos 12 Passos de A.A.
Hoje, em recuperação, acredito estar no caminho certo, em busca da sobriedade desejada que considero ser mais que simplesmente beber ou não beber, e sim, viver bem, à maneira de A.A., livre da escravidão do álcool, trocando a dependência da bebida pela dependência de um Poder Superior a mim mesmo, Deus, através da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Aprendi em A.A. que a porta para uma nova vida se abre apenas pelo lado de dentro e que a chave está ao meu alcance e se chama BOA VONTADE.
Hoje, pela vontade de Deus, também sinto muita “VONTADE DE VIVER”, graças à Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

Newton/Americana-SP

VIVÊNCIA Nº 95 – MAIO/JUNHO 2005.

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 64 – DE MAR/ABR/2000

Partilhando um privilégio…

Nos idos de 1979, um AA brasileiro escreveu uma carta para Lois, a esposa de Bill W. e co-fundadora da Irmandade Al-Anon. A resposta de Lois veio um mês depois. Publicamos ambas as cartas, que o companheiro nos enviou como colaboração.

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Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 1979.

Querida Lois:

Você não pode imaginar a minha satisfação por estar-lhe escrevendo. Definitivamente, trata-se de um privilégio contatar a figura histórica que é a esposa do inesquecível Bill, um dos dois homens usados por Deus como suas ferramentas na criação e construção de Alcoólicos Anônimos.
Não tenho como não registrar a minha gratidão por tudo o que você fez por Bill durante o longo tempo de seu alcoolismo ativo, como também pelo muito que você deu de sí após a fundação de nossa Irmandade. Você é uma mulher fantástica e sou grato a Deus porque você nasceu. Poucos sabem, não fosse você e talvez A.A. nem existisse.
Sou também muito agradecido a Deus pela vida de Bill, Bob e Anne. O Deus vivo conhece bem àqueles a quem Ele escolhe para realizar suas tarefas.
Quando cheguei a Alcoólicos Anônimos, Bill já havia falecido. O Senhor já o havia levado para a morada celestial. Tenho a esperança de que um dia seremos vizinho na casa do Senhor.
Quero aproveitar a oportunidade para perguntar se Bill recebia ficha quando celebrava seus aniversários de sobriedade. Ele ficava eufórico? Como era o comportamento dele?
E quanto a você, amava-o muito?
Creia, ficarei imensamente feliz se puder responder a essa carta.
Peço desculpas por estar incomodando; não pude resistir à tentação de escrever.
Com votos de felicidade e antecipadamente agradecido,

Edison H.
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Querido Edison:

Grata por sua carta de 26 de dezembro, a qual lí com grande prazer.
Eu fiquei com Bill por meu bem-estar e também porque o amava. Sem ele iria sentir-me muito infeliz.
Em muitas partes dos Estados Unidos, as fichas não são entregues em aniversários, os quais celebram-se com bolos e uma festa depois das reuniões.
No caso de Bill, os primeiros grupos realizavam anualmente uma grande festa, vindo gente de todas as partes e isso acontecia em outubro ou novembro. Bilhetes eram vendidos. Às vezes Bill não lembrava quando tomara seu último gole. Pessoalmente, ele nunca deu muita atenção à passagem de seu aniversário. Para ele o mais importante era manter-se sóbrio por hoje. Isso lhe era suficiente. Bill lutava muito para obter a humildade verdadeira.
Você já leu os livros que ele escreveu? Através desses livros você poderá formar um retrato de Bill, o homem. Além do livro “Alcoólicos Anônimos”, ele escreveu “Os Doze Passos”, “As Doze Tradições” e “A.A. Atinge a Maioridade”. Existe uma compilação dos escritos de Bill no livro intitulado “Na Opinião do Bill”. Este último é esplêndido e o leio sempre que posso.
Você escreve em inglês muito bem. Você é americano vivendo no Brasil? Ou um brasileiro que aprendeu um inglês perfeito?
Eu também escrevi um livro chamado “Memórias de Lois”, que fala muito sobre Bill e o início de A.A.
Tudo de bom para você e escreva outra vez.
Com gratidão,

Lois

Vivência nº 64 – MAR/ABR 2000
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 89 – MAI/JUN 2004

“O Tal fundo de poço”

e meu Primeiro Passo

“Ela se sentiu como se estivesse entrando no túnel do tempo, indo para o futuro, um futuro brilhante, claro, iluminado pelo Poder Superior.”

Quando fui procurar a Irmandade, sem saber da existência do “tal de fundo de poço”, eu já havia atingido o meu limite, senão eu não teria ido procurar ajuda.

Cada um que chega, mesmo que não admita que está bebendo exageradamente, é porque já atingiu o máximo; sua resistência física e emocional já estão abaladas.

Não importa o tempo que eu passei bebendo. O que importa é a maneira como eu bebia, a quantidade exagerada de álcool que eu ingeria.

Por alguns anos fui forte para beber. Orgulhava-me disso. Pouca bebida não me derrubava, precisava beber “todas” para fazer a cabeça.

Eu gostava da tonturinha, não do sabor da bebida. Não gostava do sabor, tanto é que desenvolvi uma maneira muito prática: virava o copo sem respirar, de uma vez só.

Com o passar do tempo, um só copo já me derrubava, sentia náuseas, não conseguia dar passos firmes ou rápidos, meu fígado parecia estar solto.

Lembro-me que uns dias antes de conhecer a Irmandade, meu marido chegou de viagem e me levou para uma outra praia.

Queria que eu saísse um pouco de casa. Fui contrariada e ali fiquei eu, sentada próximo a um quiosque, vendo uma criança brincar na areia.

Meu desespero foi tão grande de ver aquela criança brincando tão feliz que eu queria pular no pescoço dela. Insanidade total, meus amigos.

E ainda assim achava que não bebia exageradamente. Quer dizer: acho que eu sabia, mas não queria admitir.

Mentia para mim mesma, tentava me enganar, enganar meus filhos. Claro que eles, que não eram bobos, percebiam essa tal de negação, a minha negação, as mesmas histórias que inventava para convencer a mim mesma que não bebia exageradamente.

Mais tarde, já na Irmandade, vim a saber que as pessoas com grande resistência ao beber é que são as fortes candidatas a desenvolver a doença do alcoolismo. E eu sou uma delas.

Conheço uma pessoa a quem só uma taça de vinho serve para embriagá-la. Essa não vai desenvolver a doença nunca porque ela não consegue beber mais que isso.

Eu era o contrário, uma garrafa de vinho não bastava, eu precisava de muita bebida para me embriagar e tinha o maior orgulho disso.

Meu filho mais velho também é um forte candidato a desenvolver a doença. Já o caçula e a menina, não aguentam beber. Eles têm verdadeiro pavor de bebida alcoólica. Se experimentaram? Claro que sim, mas nós, os pais, já estávamos em recuperação e pudemos auxiliá-los.

Sofri muito com a minha doença, mas não fui eu só quem sofreu.

Meus filhos sofreram também. Hoje posso afirmar, por ter vivido em minha pele, que o alcoolismo não destrói somente a pessoa que bebe, ele atinge os familiares, todos os que estão ao redor.

Por que demorei tanto a procurar ajuda? Porque, como na maioria dos casos, os familiares não somente escondem, como também super protegem o alcoólico, pela vergonha que sentem da situação, principalmente em se tratando de uma mulher. Não vaza nada: tudo fica escondidinho.

É tão simples, tão normal ver um homem bêbado caído na sarjeta, dormindo em bancos de praça, dormindo na areia. Nesses casos quase ninguém aponta o dedo. Com a mulher é diferente. Olham com asco e falam: “- olha só, aquela não tem vergonha na cara”. Eu era uma bebedora caseira, como brincam comigo no grupo. Nunca bebi em bares, nem na sociedade. Só bebia em casa.

Eu bebia “todas” antes de sair para as baladas e quando voltava para casa “completava o tanque”.

Minha vida mudou completamente, não tenho nem um pouquinho de saudade daquele tempo.

Hoje quero mais é viver com alegria, poder brincar com meus amigos, com meus filhos, dar gargalhadas, que hoje são verdadeiras, espontâneas; não preciso mais fingir alegria, porque ela está dentro de mim. Faz parte da minha personalidade.

Quando criança e adolescente eu era uma garota alegre, feliz. Com o desenvolvimento da doença, esqueci aquela criança. Ela ficou lá adormecida porque minha insanidade não me deixava acordá-la.

Mas chegou o dia que Deus, em sua infinita sabedoria, colocou seu dedo sobre meu nariz e falou: agora chega, menina; você já fez tudo o que queria fazer; agora é minha vez. Você já bebeu a sua parte, já magoou, já prejudicou, já se agrediu em demasia, já fez um monte de besteira. Vamos dar uma virada de 360 graus.

Não foi meia virada não. Foi uma virada total. Senti como se eu estivesse entrando no túnel do tempo, indo para o futuro, um futuro brilhante, claro, iluminado pelo Poder Superior.

Foi através Dele e de uma força maior que meus passos me conduziram a uma sala de A.A.

Dificuldades? Quem não as tem? Nem saberia viver sem elas; estaria mentindo se dissesse que minha vida é um mar de rosas, que todas as noites mergulho em uma banheira cheia de pétalas de flores.

Não é nada disso. Mas aprendi a tirar o melhor proveito do meu dia, aproveitar cada minuto como se fosse o último,

Isso aprendi com meus companheiros de A.A., que meu Poder Superior colocou em meu caminho.

Obrigada, companheiros, por vocês terem criado raízes em minha vida.

M. de Fátima

Vivência nº 89 – Maio/Junho 2004

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 11 – JUL/AGO/SET 1989

COMO SE LIBERTAR DO ALCOOLISMO ?
Eduardo Mascarenhas

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Nos meados de 1984, o psicanalista Eduardo Mascarenhas publicava no jornal “Última Hora”, uma série de artigos sobre Alcoólicos Anônimos. Primeiro sobre a irmandade como instituição, depois sobre o programa oferecido por ela para aqueles que, reconhecendo ter o problema, poderiam aproveitar para resolvê-los. É o primeiro desses artigos sobre o programa de A.A. sugerido nos 12 Passos que transcrevemos agora, pois, decorridos mais de 5 anos, os nossos leitores, alguns pela primeira vez, terão oportunidade de ler como um profissional da saúde vê esta parte do programa de recuperação sugerido por
A.A.
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A experiência em todo o mundo, acumulada nos seus 49 anos de existência, durante os quais recuperou milhões de alcoólatras, trouxe ao A.A. a convicção de que só se liberta real e solidamente do álcool aquele que fizer uma profunda reformulação de sua personalidade. Pra alcançar esta reformulação cumpre percorrer aquilo que na tradição dos AAs ficou conhecido como os Doze Passos.
Claro, os 12 Passos são um guia, uma meta. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente. Não se trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito. Trata-se, isso sim, de esforçar-se permanentemente para um aperfeiçoamento pessoal. OS 12 PASSOS SÃO UMA MANEIRA DIDÁTICA DE SE ALCANÇAR ESSE APERFEIÇOAMENTO. NÃO SÃO SAGRADAS ESCRITURAS, NEM PRETENDEM SER A PALAVRA DE DEUS.
Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou me permitir descrevê-los com as MINHAS palavras, tal como eu os entendi. Tentarei descobrir neles uma coerência semelhante à coerência psicanalítica. Na realidade, bem que se poderia descrever Os 12 Passos do processo psicanalítico. Não seriam muito diferentes dos do A.A.
1º Passo – Superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer.. Ao invés de dominar o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano após ano, o equilíbrio de forças está pendendo mais para o copo do que para a mão. Não é mais a mão que procura o copo. É o copo que atrai a mão.
Outra coisa: chega de empulhação. Chega de desculpas do tipo, páro quando quero. Realmente até que se pára quando se quer. Por um dia, uma semana, um mês, até por um ano. Só que depois se volta, e com força redobrada. Parodiando a frase de Oscar Wilde sobre o parar de fumar: “Parar de fumar é tão fácil, que já parei 10 vezes”.
Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o álcool (ou que já o perdeu há muito tempo) é, evidentemente, o primeiro passo para deixar de ser um biriteiro.
Por incrível que pareça, esse passo é dificílimo e o ego luta com todas as suas forças contra ele. Primeiro porque é angustiante, mesmo, se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências sobre a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas insistem em considerar o alcoolismo não uma doença como outra qualquer, mas sim, uma fraqueza de caráter, uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se muita gente já se humilha de ter uma doença indiscutivelmente física como o diabetes, por exemplo, imagina admitir uma doença que nem doença é considerada pela maioria, mas sim, falta de vergonha na cara. Realmente é difícil se admitir perdendo domínio sobre o álcool, pois o alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado estigma. Pau-d’água, degenerado, cachaceiro, desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque, porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão de convir, são expressões que adquiriram
cores claramente insultuosas.

2º Passo – Acreditar que exista um tratamento para o alcoolismo.
Não um tratamento, apenas químico, técnico, impessoal. ´mais fácil tomar uma B12 na veia, entregar o coração para uma cirurgia de ponte safena, a cabeça para um Vallium da vida, do que confiar numa pessoa, ou grupo de pessoas, para realizar um tratamento em que participe algum grau de ENTREGA PESSOAL.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula e cheia de crendices, a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passar na sua frente e dele esperar milagres, ou é profundamente cientificista. No primeiro caso, a confiança é depositada num gurú com forças extraterrestres, um ET da alma. No segundo, a confiança é depositada, na “Ciência”, com seus sacerdotes vestidos de branco, dando entrevistas ao Hélio Costa para o Fantástico. Por isso, os médicos, os cirurgiões, os neurologistas, inspiram alguma confiança. Não eles, enquanto pessoas, mas sim enquanto SACERDOTES DA TÉCNICA. Em ambos os casos – quer na fé infantil a um Deus todo poderoso e milagreiro, quer na fé, igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, cheios de tubos de ensaio, fios, ratos e computadores. Os seres humanos, com seus poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí que o difícil, mesmo, é gente
confiar em gente. Não em gurus divinizados, mas em gente mesmo.
As resistências ao A.A. passam por aí. Só que, imagino, devem ser maiores ainda. É que, aos trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido como um “semi-sacerdote da Ciência”. Hoje é até chique fazer psicanálise. Os AAs porque são gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas por “doutores”, têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Não exalam, assim o discreto charme da pequena burguesia artística e intelectual.
Além disso, o anonimato de seus líderes não possibilita que se tornem celebridades a serem adoradas, entrevistadas pela televisão e pela imprensa. O fato de sua origem norte-americana – e não européia – colabora, ainda, para uma certa perda de prestígio, do tipo aristocrático. Enquanto a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de Zurich; Lacan, de Paris; os AAs possuem como fundadores, Bill e Bob, de Ohio…
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Também o fato de, nas sessões de A.A. se reunirem pessoas de diversas camadas sociais. O elitismo não gosta disso. As pessoas de classe social mais alta, dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar esse tipo de reunião. O pior é que sem nem saber do que se trata. Imaginam, logo, mendigos cachaceiros, de pés inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classe social mais baixa, também dominadas pelo elitismo, tendem a se intimidar com esse tipo de encontro por motivos simetricamente opostos. Imaginam que estarão na Academia de Letras, tendo de fazer discursos. “Eu, abrir meu coração pra cachaceiro?”, diz o doutor, dominado pelo “Scotch”; “Eu, ter que falar diante de doutor?”, diz o cidadão proveniente das camadas populares, dominado pela cachaça. E tome resistência. E tome mais pileques ainda…
Em suma, o segundo passo para se livrar do alcoolismo é recuperar a crença e a esperança de que existe algo que possa ser feito. Uma força superior à vontade, capaz de enfrentar a essa outra força superior à vontade, que é o alcoolismo.

Vivência nº 11, de JUL/ SET de 1989,

copiado do jornal “Última Hora” de 30/05/84.

VIVÊNCIA

REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 79 – SET/OUT 2002

“Como tenho me libertado da luxúria?”

Quando alcancei a sobriedade, me comprometi comigo mesmo a não sair com mulheres durante, pelo menos, um ano. Todos, e cada um dos dias de minha vida, havia vivido à espera de que apareceria a mulher de meus sonhos, uma espécie de fada madrinha que transformaria de forma mágica minha realidade. Os sentimentos de inferioridade, a dor, a solidão e a angústia desapareceriam. O mundo do qual tanto queria fugir se transformaria em um paraíso. Tudo seria diferente a partir de então.
Nem preciso dizer que esse compromisso era um dos motivos das coisas ruins pelas quais passei durante a síndrome de abstinência. Três meses e meio de verdadeiro inferno de dor emocional, e até mesmo física.
Eu contava os meses que faltavam para que o ano se completasse e eu pudesse ter uma “relação sadia” com uma mulher, a fim de preencher o grande vazio que em mim se fazia notar. Teoricamente, “coloquei isso nas mãos de Deus”.
Com o desejo sexual eu não me atrevia a brincar. Para qualquer imagem ou “gatilho” eu respondia imediatamente com, uma oração. Eu sabia que se se deixasse que essa imagem se hospedasse em minha mente, mais cedo ou mais tarde partiria para a ação e perderia a sobriedade.
Descobri que eu necessitava muito mais que um “contato de emergência” de última hora com Deus. Como meus olhos viam muito mais do que o desejado, comecei a rezar antes que a mulher se aproximasse. As coisas iam muito melhor, mas ainda não era suficiente. Além de rezar para ela, saía rezando rua abaixo para outras pessoas, companheiros do programa, colegas de trabalho, família, viajantes – indo com atitude de dar em vez de receber. Isso foi o que mais me ajudou a superar esse problema.
Então se manifestou claramente a luxúria de amor romântico, de desejar que uma mulher preenchesse aquele vazio interior que há em mim e que só Deus pode preencher. O que foi então que eu ví? Vi que no mais profundo do meu coração nunca havia renunciado à dependência de relacionamento e que nunca a havia colocado nas mãos de Deus. Sabia, num nível intelectual, que eu ignorava, e que ignoro, aquilo que é bom para mim, que as minhas idéias mais brilhantes são as responsáveis por eu estar aqui.
Eu fiz o que me disseram: “Ponha seus relacionamentos aos cuidados de Deus; deixe de buscar, coloque-os nas mãos de Deus e, quando você estiver preparado, se Deus considerar que é benéfico para você, colocará alguém em sua estrada. Deixe de lutar, renda-se”. E eu fiz exatamente desse modo.
Teria que estar mais alerta, mais atento. Mas isso não era tudo. Faltava algo mais, mas, o que era? Faltava a renúncia profunda e incondicional de um Sexto Passo. O Sexto Passo nos diz que temos que estar dispostos a que Deus elimine de dentro de nós nossos defeitos de caráter. Estar disposto significa que aceitamos viver sem eles, que podemos conceber a vida sem orgulho, sem auto-piedade, sem egocentrismo, etc. Renunciamos na raiz de nosso ser, em nosso coração, em nossa alma. Muito mais difícil do que pareça a princípio! No Sexto Passo nossa tarefa se “limita” a renunciar. No Sétimo a Lhe pedir, sem o exigir; isso é o que significa humildemente. A Deus corresponde fazer o resto como e quando Ele decidir.
Hoje sinto de verdade uma necessidade da presença de Deus e de aprofundar de alguma maneira esse contato com Ele, o que venho conseguindo através do Décimo Primeiro Passo. E foi então que descobri a necessidade tão grande que eu tinha de amar e que a solução estava em praticar atos de amor… teria que dar a alguém… rezar para alguém, fazer algo pelos demais, oferecer-lhes minha atenção e meu afeto; praticar o Décimo Segundo Passo. E que resultados surpreendentes venho obtendo ao ajudar aqueles que ainda sofrem por causa do alocoolismo, principalmente o recém-chegado!

(Anônimo)

Vivência – Setembro/Outubro 2002
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 66 – JUL/AGO 2000

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MISTÉRIOS DO LIVRO AZUL

“Em todas as partes, o Livro Azul tem um acento de
realidade, e está escrito com inteligência e técnicas
inusitadas…” (Harry Emerson Fosdick)

Alguns membros de A.A. expressam sua opinião de que o livro Alcoólicos Anônimos pode ser suficientemente compreendido com a primeira leitura, e que contém pouco ou nada digno de ser repassado posteriormente, quer para referências ou mesmo para estudos. Isso pode valer para pessoas com o dom de compreensão instantânea e a capacidade de lembrar-se totalmente.

Contudo, existem advogados não-alcoólicos muito capazes, que sempre voltam aos livros básicos da sua profissão. O mesmo acontece com engenheiros, navegadores, editores e cirurgiões. Será possível que o cérebro do alcoólico, até há pouco tempo confuso e deteriorado pela desnutrição, pelo ressentimento, pela ansiedade e por convicções desastrosas, possa reter permanentemente os pontos essenciais de um volume que tem tantas páginas, com uma só leitura?

Uma coisa é certa: Eu não tenho capacidade de aprendizagem tão poderosa. Frequentemente, preciso reler pontos do nosso Livro Azul. E, tal como acontece com outros companheiros, geralmente tenho a impressão de que “foram feitas mudanças” no texto desde a minha última leitura e frases inteiras foram “acrescentadas”, significados foram “alterados” e partes do texto que me lembro com clareza, “desapareceram” sem deixar rastro.

Para isso, encontro duas possíveis explicações:

1) Quando estou dormindo, duendes entram em minha casa e mudam o livro, usando pequeníssimos computadores e impressoras, chegando ao ponto de duplicar as anotações à mão que eu mesmo fiz três meses antes, nas margens das páginas.

2) Ou então, minha memória é falível (se eu consegui adquirir a minha sanidade, como o Livro Azul promete no Segundo Passo, e se o programa está dando a mim algum progresso espiritual) e, na realidade, o que acontece é que eu vou percebendo significados novos que me escaparam na leitura anterior.

A teoria dos duendes tem o seu atrativo, afinal, é mais “fácil” para o meu ego acreditar neles do que na possibilidade de que eu esteja errado. Nesse caso, além de brincalhões, esses duendes são também muito benevolentes, pois até agora todas as “mudanças” feitas no livro foram úteis para mim. E “eles” parecem fazer mudanças idênticas nos livros dos demais companheiros, que também falam de novos significados que perceberam no texto dos seuslivros…

Na verdade, além da necessidade de corrigir a minha própria memória errática, existe outra razão pela qual devo reler ocasionalmente o Livro Azul: é que às vezes ouço afirmações de membros de A.A. que me confundem. Por exemplo, na nossa região, escutamos com freqüência que “não existem obrigações em A.A.”

Evidentemente, tais oradores têm uma cópia do Livro Azul que não foi revisada pelos duendes, porque, através de todo o meu exemplar do livro, eu encontro obrigações, às vezes três ou quatro numa só página. Aqui estão algumas delas, e os grífos são meus:

– “Devemos buscar uma base espiritual da vida…”

– Se estamos planejando deixar de beber, não deve haver reservas de nenhuma classe, nem a menor noção de que algum dia seremos imunes ao álcool.”

– “Sobretudo, nós os alcoólicos devemos nos libertar desse egoísmo. Devemos fazê-lo ou o egoísmo nos matará.”

– “Devemos estar dispostos a fazer reparos…”

– “Esses sentimentos devem ser controlados…”

– “Pedimos que nos dê força e orientação para fazer o mais correto, sem nos importar com as consequências pessoais que se derivam disso… Não devemos nos atemorizar por nada…”

Essas são somente algumas amostras da grande quantidade de deveres contidos no Livro Azul. Além disso, existem nele centenas de frases que contém palavras como: “absolutamente”; “essencial”; “necessariamente”; “indispensável”; “completamente”; “conscientemente” e “sem falta”. São palavras que significam obrigações para qualquer mente que não esteja procurando uma brecha para escapar.

É verdade que essas obrigações não são forçadas para o recém-chegado e nem impostas pelos membros antigos de A.A., nem por nenhuma lei ou regulamento feitos pelo homem. Nesse sentido, não existe mesmo nenhuma obrigação; nós alcoólicos temos a liberdade de beber e a liberdade de descartar totalmente os Doze Passos. Se o fizermos, ninguém nos imporá multas e nem nos expulsará da Irmandade. O “máximo” que poderá nos acontecer, é chegar a enlouquecer ou morrer…

(El Mensaje, dez.1975)

(Vivência nº 66 – Jul/Ago 2000)

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 65 – MAI/JUN 2000

COMPORTAMENTO TEM CURA

O relato abaixo vai deixando entrever um
novo modo de vida.

Sou um alcoólico em recuperação. Meu fundo de poço culminou em anos de
tentativas frustradas, depressões e mentiras. Na minha última recaída, lá
estava eu, chegando em casa daquele jeito. Já era madrugada. Olhei minhas
filhas pequenas dormindo como anjos. Não consegui entrar no quarto de casal, onde dormia a esposa. Uma dor horrível apertava meu peito. Fracassei de novo. Não sabia se chorava ou estourava os miolos. O desejo de morrer
surgiu. Parei na sala, cai de joelhos e roguei novamente a um Poder
Superior: “Ajude-me, não aguento mais!” Peguei uma caneta e escrevi que
estava cansado da vida e que a bebida, esse poder superior a mim, tomara
conta do meu viver.

Eu achava que podia controlar o primeiro gole (grande mentira) e, o que é
pior, tinha começado a cruzar dependências, numa poderosa e suicida
mistura… Profissionalmente ainda mantinha o controle, normalmente até o
fim do dia, quando uma irresistível e incontrolável força me guiava ao bar. O pior é que, mesmo acompanhado, estava só. Tinha saudades das boas
lembranças de um beber moderado, das risadas e do descompromisso. A
companhia da minha família e o crescer das crianças eram trocados pela
companhia de pessoas doentes como eu, que era uma laranja podre entre as
boas, como diz um bom companheiro.

Naquela noite, decidi que iria procurar ajuda. Precisava preencher esse
vazio interior que estava acabando comigo. Já conhecia o programa dos Doze
Passos através de uma irmandade paralela que frequentei e que não consegui
levar a serio. Sabia da existência de um grupo de A.A. (há anos passava em
frente, mas nunca havia entrado para conhecer). Decidi ir lá e, no dia e
horário previsto, lá estava eu, parado em frente a porta. Confesso que tentei manipular a mim mesmo para não entrar: o que estava fazendo ali, o
que iriam pensar de mim?? – todas aquelas coisas que o orgulho e a
prepotência trazem à tona. Lembrei-me da impotência perante o álcool, mas
não queria admitir que tinha perdido o controle. Lembrei-me do remorso das
noites anteriores e isso bastou. Entrei, sentei-me na ultima fila e vi pessoas conversando normalmente. Ofereceram-me chimarrão, apresentaram-se e
disseram que, se o problema era a bebida, eu estava no lugar certo. Senti no olhar de alguns companheiros mais antigos a preocupação de um pai para com seu filho. Isso me bastou. Ali era o meu lugar, senti-me importante.

Participei de mais quatro reuniões antes de ingressar como membro. Escolhi
um ex-colega de colégio para padrinho. Aceitei as sugestões de ir com calma
(primeiro as primeiras coisas), evitar o primeiro gole custe o que custar,
bem como evitar os lugares da ativa. Foi difícil no começo. Procurei me
enturmar com o pessoal e me envolver com o grupo, na medida do possível.

Coisas boas tem acontecido desde então. Supri minha necessidade de ir ao bar
chegando ao grupo antes das reuniões, fato que tem me proporcionado boas
amizades, uma conversa amiga e um abraço sincero, além de tomar aquele bom chimarrão e partilhar forças e esperanças com quem já passou pelo que estou passando. Hoje sinto que estou conseguindo preencher aquele vazio interior, com prece, meditação e ação positiva. Aprendi a me render as sugestões do programa e, o que é melhor, aprendi a me conhecer através da abertura da caixa preta (quarto passo), que culminou em um fundo de poço de mágoas, vergonhas e total descontrole. Partilhei um honesto Quinto Passo e me senti aliviado. Procuro entregar minha vontade e minha vida aos cuidados de um Deus de amor, através desse programa de vida. Os Passos são maravilhosos e merecem ser feitos com calma e coragem. Todo dia merecem observação. Mesmo inventariando-me constantemente, sei que o melhor que
faço ainda é pouco e que não dá para virar santo de um dia para o outro.
Apenas posso me vigiar e rogar a compreensão da vontade de um Poder Superior em relação a mim, deixando que Ele controle o resto. Com honestidade, mente aberta e boa vontade, busco um novo viver.

Recuperar a ação é um processo lento e sutil, exige coragem. Não basta
tampar a garrafa, há a necessidade de saber o porque desse comportamento
doentio, porque cheguei a esse ponto, o que espero da vida e o que posso
fazer para mudar. Aos poucos, as respostas vem a tona.

Alcoolismo é uma doença de comportamento. Alcoolismo não tem cura, mas
comportamento tem. Sou grato a essa obra e só posso pagá-la com serviço:
limpando cinzeiros, estendendo a mão ao irmão que sofre. Nosso grupo
completara 25 anos e sinto-me honrado por participar. Atualmente coordeno o
grupo. É um trabalho sério, tenho medo e me vejo seguidamente rogando a um Poder Superior, para que Ele aja através de mim. Busco na consciência
coletiva do grupo as sugestões do melhor agir. Assim consigo controlar a
prepotência de querer ser mais do que um servidor de confiança. Agradeço a
essa obra e a meus irmãos(as) de doença (e a vocês da VIVÊNCIA, pela revista que tem me ajudado tanto quanto as reuniões).

Resta desejar a todos a esperança de um amanhã melhor, fruto da realidade do hoje e do passado, que, bom ou ruim, deve servir de exemplo para que não
cometamos mais os mesmos erros.

Jean R. /Caxias – RS

Vivência nº 65 – Mai/Jun. 2000
VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 22 OUT/NOV/DEZ 1992

VER CRISTO NO BÊBADO

A vida é um dom de Deus. Em Alcoólicos Anônimos lidamos com vidas humanas.
Alcoólicos Anônimos não é o único lugar onde se para de beber. Mas, seguramente, é um dos melhores. Jamais vimos alguém se arrepender de
ter parado de beber em A.A. Pelo contrário. A cada reunião, nos deparamos com manifestações de alegria daqueles que, finalmente, encontraram solução para seus problemas de excesso no beber.
“Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. esteja sempre ali. E por isso: Eu sou responsável”.
Esta é nossa declaração de responsabilidade adotada na Convenção Internacional comemorativa do trigésimo aniversário de A.A., em 1965.
Esta responsabilidade é individual e intransferível. Somos pessoalmente responsáveis por todos aqueles que nos pedem socorro. Não podemos transferir esta responsabilidade. O doente alcoólico que nos procura
precisa ser atendido na hora, sem demora, ou pode morrer.
Não fomos resgatados de um mundo encharcado de álcool por nossos próprios merecimentos, mas exclusivamente pela graça de Deus. Com a sobriedade, adquirimos respeito, dignidade, direito de andar de cabeça erguida, de ser, novamente, participante de um sadio convívio social.
Para permanecermos sóbrios, é necessário dividir esse divino presente com outras pessoas. Encerrar-se numa torre de marfim, fugir dos compromissos com o alcoólico sofredor é atitude egoísta, incompatível
com nossa condição de agraciados pelo Poder Superior. Ou distribuímos nossa sobriedade com outros e crescemos ou guardamos esse tesouro escondido a sete chaves, enfraquecemos e bebemos. E, para o alcoólico, beber é morrer. Não há escapatória. É uma imutável lei de causa e efeito.
Deus está presente em cada bêbado que encontramos. Não serviremos
a Deus sem servir ao homem. Se não servimos ao homem de carne e osso presente, visível, palpável, às vezes até aborrecido em suas bebedeiras,
para nos lembrar do que realmente somos, como poderemos servir a
Deus, que é espírito invisível, intocável? Esta é nossa mensagem natalina. Ver Cristo no bêbado. O Cristo caído, rejeitado, humilhado, maltrapilho e faminto, o Cristo abjeto e desprezado por todos, sofrendo e morrendo, vomitando e vomitado, nas prisões, nas indigências dos hospitais e nas sarjetas, é este Cristo escárnio da humanidade que nos pede uma palavra
de esperança, uma promessa de recuperação, de retorno à dignidade humana através do programa de recuperação de Alcoólicos Anônimos.

Tenham todos um Santo Natal e felizes abordagens no Ano Novo.

Vivência nº 22 – Out/Nov/Dez 1992