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PARTILHA DE JIMMY K. – 20º ANIVERSÁRIO DE N.A.

PARTILHA DE JIMMY K. NO JANTAR DO 20º ANIVERSÁRIO DE N.A.
Los Angeles, 18 de Agosto de 1973

O meu nome é Jimmy Kinnon, sou um adicto e um alcoólico. Há já uma hora que estou à beira das lágrimas. Mas hoje já não envergonho de chorar, desde que sejam vertidas por algo que valha a pena. Já nem me lembro do que queria dizer. Na nossa irmandade não podemos, todavia, perder de vista o nosso principal propósito: quer estejamos num ambiente social em nossas próprias casas, ou num encontro como este. Aquilo de que tenho de lembrar-me, pessoalmente, é de que estou aqui graças a pessoas que nunca aqui estarão. O recém-chegado constitui o sangue vital desta organização; sempre o foi, sempre o será. Aqueles a quem chamamos Servidores de Confiança de Narcóticos Anônimos, alguém que aceita um cargo (quer seja secretário de um grupo, representante de um grupo, “trustee”, ou qualquer outra coisa) deve preparar-se para bastante trabalho, muitas críticas, e muito daquilo que acontece sempre. Mas nós temos de crescer, e os nossos ombros ficam suficientemente largos para aguentarem estas coisas, pois a vida que nos é dada faz com que tudo valha a pena. Se não tivesse sentido e não valesse a pena, eu não estaria aqui esta noite. Se este programa não me elevasse, não me levasse mais longe, e não me fizesse sentir melhor do que alguma coisa alguma vez conseguiu na minha vida, eu não estaria aqui. Tenho a certeza disso! Estou aqui sentado nesta cadeira – sempre admirei estas cadeiras e nunca pensei poder vir a sentar-me numa.

Mas primeiro as primeiras coisas, dizem – sabem, isto é parte de um sonho tornado realidade; e um sonho prenuncia grandes mudanças, mas o progresso requer pequenas ações. Um sonho não se torna realidade devido a um grupo de pessoas, ou a um homem, ou a dois homens, ou a três homens. Torna-se realidade porque nele trabalham muitas pessoas, porque muitas pessoas põem nele esforço, porque muitas pessoas compram a ideia e levam-na por diante. Essa é uma das razões porque estamos aqui.

A maioria de vocês repararam numas fotos ali penduradas. São algumas das fotografias dos nossos primórdios. Nós começamos muito antes de NA se tornar uma realidade, mesmo em nome. Surgimos de uma necessidade. Aqueles de nós que eram membros, tinham vindo para o AA – e descobrimos que podíamos recuperar. Em AA descobrimos que muitos adictos continuavam a seguir o trilho da degradação e da morte. E achamos que deveríamos fazer algo. Mas, sabem, nós somos pessoas engraçadas, quanto mais coisas tentamos fazer juntos, mais lutamos uns com os outros e mais nos magoamos uns aos outros, destruindo justamente aquilo que tentamos construir. E essa tem sido a história de Narcóticos Anônimos até há bem poucos anos. Destruíamos ao mesmo ritmo a que construíamos. Nós somos pessoas assim e precisamos de reconhecer isso para podermos recuperar. Todos nós devemos conhecer a natureza da doença, a natureza do adicto, e a natureza da recuperação. Todas essas coisas são necessárias para crescer, e para viver, e para mudar. E nós começamos com ressentimentos; os ressentimentos fizeram-nos crescer. Antes de NA havia os GDFH, os Grupos de Drogas Formadoras de Habituação. Estes eram clandestinos, havia duas ou três pessoas que se reuniam em apartamentos, aqui e ali. Ninguém sabia onde ficavam, e eram dominados por uma ou duas pessoas. Nós não apreciamos grandemente a autoridade, não gostamos dela. Algumas das pessoas que eu conhecia da rua, da parte oriental de NA, formaram um outro grupo conhecido por Adictos Anônimos. Infringiram no nome de AA e morreram muito depressa pois estavam demasiado dominados por um só indivíduo. Um outro grupo começou no vale (San Fernando Valley) que também se chamava GDFH e era dominado por um indivíduo. Por isso descobrimos muito cedo, e a nossa experiência ensinou-nos que não podemos ter pessoas a mandarem, tipos importantes em Narcóticos Anônimos. Durante uns tempos depois de nos formarmos – há muita coisa que se passou de que não vou falar esta noite – mas devido a algumas coisas que aconteceram, e à natureza do adicto, a natureza da nossa doença, algumas pessoas foram colocadas numa posição em que voltaram a ser líderes, o Grande Pai Branco. Sabem, nós não podemos ter um Grande Pai Branco ou uma Grande Mãe, isso não funciona nesta organização. E NA morreu mais uma vez, e os nossos amigos em AA ajudaram-nos a levantar-nos, e disseram-nos, “Não deixem que isso vos incomode.” Esses eram os nossos verdadeiros amigos no início; membros de AA que acreditavam em nós, membros de AA que tinham também um duplo problema e reconheciam isso – vieram e ajudaram-nos a começar de novo. Mas isso voltou a acontecer. Uma pessoa tentava dominar todo o movimento. E sempre que acontecia nós começávamos a morrer. Porque as Tradições vão pelo cano abaixo quando tentamos isso. E uma das primeiras coisas que dissemos quando nos reunimos como grupo naquela casa, a prioridade número um, era que acreditávamos que este programa de 12 passos iria funcionar para adictos bem como para alcoólicos. Em segundo lugar, as Tradições deverão ser observadas se quisermos crescer, crescer como irmandade que se mantém de pé sozinha, sem a ajuda de Alcoólicos Anônimos. Podíamos tomar o nosso lugar enquanto irmandade, e não sermos dominados ou afiliados a nada nem a ninguém. E dissemos que iríamos manter uma sala aberta durante pelo menos 2 anos, e se nesse período um ou dois adictos mostrassem que este programa resultava para eles, teríamos achado que havia valido a pena. Foi basicamente assim que começamos. Mas discutimos durante cerca de seis semanas antes de pôr aquelas orientações no papel, e depois não as quisemos. Eu achei que quanto mais cedo nos víssemos livres das orientações, tanto melhor; pois as orientações contidas nas Tradições são suficientes para aquilo que precisamos de fazer. As Tradições irão salvar-nos de nós próprios. E é isso que é tão necessário para uma irmandade como a nossa. Deste lado fica a vida – o outro caminho é a morte, tal como a conhecemos. Mas como é difícil não voltarmos atrás! Tão difícil que é!!!

O primeiro assunto pendente que tínhamos quando nos juntamos era o nome. Eu fui o primeiro Coordenador daquilo que então se chamava – uh – nada. AANA, era assim que se chamava, e eu disse, “Não podemos fazer isso”. Vocês elegeram-me vosso coordenador, temos de arranjar outro nome, não podemos chamar-nos AANA ou NAAA. E o Comité que me elegeu coordenador vetou imediatamente aquilo que eu disse. Bem, é uma boa maneira de se começar. Na primeira noite vetaram tudo aquilo que eu disse, por isso eu achei que tinha começado muito bem. Eu não ia aturar chatices deste tipos. Eles iam acabar por descobrir aquilo que estava certo. E por isso o primeiro assunto pendente foi contactar Alcoólicos Anônimos para ver se podíamos usar o seu nome; e assim descobrimos que não podíamos. Por isso eu obtive, pelo menos, a satisfação de estar certo quanto à primeira coisa que foi vetada. Isso fez-me sentir um pouco melhor, porque vos digo, eu consigo as coisas à minha maneira a maior parte das vezes. Sei que vocês reconhecem isso, porque o mesmo se passa convosco. Somos assim. Mas tivemos muitos problemas da primeira vez que nos juntamos; porque eu sou como vocês e vocês são como eu. Vocês vão ter de me mostrar que aquilo de que falam irá funcionar, ou eu não vos apoiarei. E graças a Deus que somos assim. Acho que é isso que acaba por fazer este programa resultar. Foi muito difícil encontrar um local para nos reunirmos; depois de nos juntarmos e de decidirmos o que fazer. Não conseguíamos encontrar uma sala para nos reunirmos. Ninguém nos queria. Não confiavam em nós de nenhuma forma. E é triste irmos de um sítio para outro quando se tem algo de real a construir e ninguém nos deixa usar uma sala. Por fim acabamos por encontrar uma sala do Exército de Salvação e eles deixaram-nos utilizá-la por cinco dólares por mês. Isso foi bastante bom, mas não havia lá mais nada. Havia uma pia e um lavatório, e era tudo. Não havia uma cozinha, por isso tivemos de ir comprar um pequeno fogão eléctrico e uma cafeteira, e algumas canecas – que eu ainda guardo em casa. Encontrei-as esta semana – tive-as ao longo de todos estes anos. Costumávamos dá-las uns aos outros, pois numa semana podíamos reunirmos-nos lá em casa, e na semana seguinte noutra casa. Por isso levávamos as canecas para podermos beber café. Nessa altura, éramos poucos a ter mais do que duas canecas em casa; na verdade, éramos poucos a trabalhar. As coisas eram assim. Aqui, vêem um recorte do anúncio que publicamos num jornal a informar da nossa existência. Tínhamos uma sala, tínhamos um conjunto de orientações, e tínhamos um propósito.

Aquele primeiro grupo pode já não existir, mas nós ainda estamos vivos. A sala do Exército de Salvação ainda está lá – é agora uma igreja espanhola. Depois tivemos aquilo que chamávamos “reuniões coelho”, pois nunca sabíamos onde iriam ter lugar. Se hoje havia 5 ou 6 de nós numa reunião, decidíamos em casa de quem iríamos ter a reunião seguinte. E levávamos as canecas e as tigelas de açúcar e as leituras e reunirmos-nos lá. Não era que nós temêssemos as autoridades, mas os recém-chegados temiam. Fiz um cartaz e afixei-o na porta da igreja, dizia reunião de NA hoje às 20h30. E depois abríamos as portas e tínhamos uma dúzia de alcoólicos que vinham ajudar-nos. E depois havia um carro que se aproximava devagar e olhavam para o cartaz e fugiam. Ninguém confiava em ninguém – eles achavam que estávamos sob vigilância. Não acreditavam quando lhes dizíamos que não. E nós próprios acabávamos por não estar muito seguros de não estarmos. Pois como grupo decidimos que não iríamos ter problema com as autoridades e fomos até à Divisão de Narcóticos e dissemos-lhes, não lhes perguntamos, dissemos-lhes que íamos realizar uma reunião de adictos. E eles levantaram as sobrancelhas, mas nós éramos cinco. Um tipo lá, já não me lembro se era tenente ou capitão, ouviu-nos e disse, “Já não era sem tempo que isto acontecesse. Há anos que tento ajudar adictos, sem conseguir. Eu não consigo ajudar ninguém” E ele chamou um outro tenente para nos ouvir. E ele era um pouco antiquado que tinha a certeza que nenhum de nós conseguia recuperar. E ele ouvia o outro dizer, “Gosto desta ideia.”, “Apoio esta iniciativa.”, “Farei tudo o que possa para vos apoiar.” Todo ele era apoio. E acabou por manter a sua palavra. E perguntou a este tenente o que achava, ao que ele respondeu, “Isso não vai resultar, uma vez drogado, sempre drogado. Nunca houve nenhum a ficar melhor. Não me importa o que digas, não me importa o que estas pessoas digam, isto não vai resultar.” Por isso olhou para nós e eu não sabia o que dizer. Olhei para os outros, ninguém sabia o que dizer, até que o Pat, que estivera sempre calado, abriu a boca e disse, “Tenente, o meu nome é fulano de tal, nasci e cresci em tal sítio, fui pela primeira vez preso em tal sítio, e fui condenado a tantos anos. E gostaria, por isso, que fosse confirmar o meu cadastro. Já estive em todas as penitenciárias federais do país, excepto uma. E não uso drogas há 18 anos. Há 18 anos que não conheço as cadeias. E este programa resulta para mim. Agora o senhor vá confirmar isso, pois eu nunca estive fora da prisão desde miúdo até ter encontrado este programa..” E o tipo não sabia o que dizer. Não sei se o tipo foi confirmar tudo isto, mas a verdade é que o departamento da polícia e a Divisão de Narcóticos mantiveram a sua palavra. E nunca nos vigiaram, nunca fizeram nenhuma rusga, nunca nos apanharam a ir ou a vir de reuniões. E, pelo nosso lado, mantivemos a nossa palavra, tomamos conta de nós próprios e seguimos as Tradições o melhor que pudemos. E foi basicamente isso que nos fez crescer nos últimos doze anos. Foi em 1960 que voltamos a nascer, com cerca de quatro pessoas. E começamos o grupo de novo de acordo com o conceito original; os Passos para o indivíduo e as Tradições para os grupos. E desde então temos crescido devagar mas consistentemente. Acho que temos crescido principalmente porque não temos sido dominados por nenhum grupo de pessoas. Essa é a principal razão para a grande diferença. Mais o facto de cada vez mais adictos conhecerem o valor da prática dos 12 Passos. Costumávamos não ter adictos para responderem a chamadas de ajuda. Aconteciam coisas estranhas, quando 8 a 10 adictos num grupo caíam sobre um pobre drogado que estava a morrer num quarto dos fundos em casa da sua mãe. E caíamos sobre ele como vespas. Toda a gente apanhava um susto – tínhamos de ir em grupos porque ninguém ia sozinho ou aos pares. Tínhamos todos medo de ir usar se fossemos ter com outro adicto. Esse era outro dos mitos que havia sobre nós – que não podíamos ir ter com outra pessoa que estivesse a usar, sem que usássemos também. Uma das maiores mentiras de todos os tempos. Sabem que não tem uma ponta de verdade. E essa é uma das razões porque crescemos. Mais o facto de nós seguirmos, possivelmente, a melhor coisa que qualquer um de nós sabe fazer, estarmos dispostos a ouvir.

Uma vez demiti-me de coordenador de NA por não estarmos a seguir as Tradições. É uma coisa estranha. Não queria falar disto esta noite, mas vou mesmo falar. Pois embora passados quatro anos com reuniões, Narcóticos Anônimos ainda não existia. Como tínhamos dito que nos chamaríamos NA enquanto usássemos os Passos e as Tradições, quando isto se tornou na coutada de um só indivíduo, na realidade deixou de haver NA. Digo isto por duas razões; porque as coisas morreram e só ficaram alguns de nós, mas também porque mostra que este programa, quando começamos a vivê-lo, não podemos largá-lo, pois ele volta a crescer. Este programa não vai morrer, mesmo que todos nós nesta sala falhássemos, pois essa é a própria natureza da recuperação: que uma vez plantada a semente do conhecimento de que algo pode resultar, essa semente nunca mais irá perder-se. Alguém pegará nela e continuará o caminho. O nosso percurso já é longo. Como diz aquele anúncio de cigarros, “O teu caminho já é longo, querida, para teres chegado onde chegaste.”

E acho que vou ficar por aqui, pois já estou a levitar, estou quase a bater no tecto. Nós estamos a crescer mais depressa do que nunca. Estamos em mais estados, em mais países, e existem mais oportunidades para cada um de nós encontrar o seu lugar em Narcóticos Anônimos e transmitir a mensagem de recuperação a adictos em todo o mundo. Já não é possível restringirmos-nos à Califórnia ou aos Estados Unidos. Mas são precisas todas as nossas forças para nos mantermos neste programa. Não é um programa para quem desista logo. Mas se formos adictos nós não desistiremos assim sem mais nem menos, sem não estaríamos aqui. Vamos pegar naquilo que temos e tornarmo-nos pessoas melhores. Tenho dito muitas vezes que um homem sem um sonho é só metade de um homem, e uma irmandade sem uma visão é uma farsa. E ainda acredito que podemos realizarmo-nos vivendo um dia de cada vez. E um dia de cada vez a nossa visão e a nossa Irmandade podem tornar-se uma realidade maior. São aquilo por que ainda me interesso. Há dois anos, numa convenção, disse que enquanto fosse vivo usaria a minha voz e todas as minhas forças para prosseguir os objetivos de Narcóticos Anônimos e dessa outra irmandade maravilhosa a que pertenço, Alcoólicos Anônimos. E tenciono fazer isso. Mas vai exigir tudo de mim, e vai exigir tudo de vocês, e de todos aqueles com quem falarem e de todos aqueles a quem transmitirem a mensagem, para tornar isto uma realidade maior. Há pessoas por todo o mundo a morrerem da nossa doença e, quer acreditemos ou não, somos os únicos que podem verdadeiramente ajudá-los. Não nos esqueçamos disso. Através da nossa doença foi-nos dado – através do sofrimento – um talento para ajudar outros seres humanos como nós. Não nos esqueçamos que a temos e que somos responsáveis perante outros. Mas devemos principalmente ser responsáveis perante nós próprios e – eu raramente falo sobre Poderes Superiores, o conceito particular que eu tenho de um Poder Superior, mas acreditem que tenho um. E não sei quantas pessoas estão aqui hoje, 100, 110, 112, mas acima de todos nós, e através de todos nós, existe um poder que não há em mais nenhum lugar do mundo. É disso que se trata Narcóticos Anônimos. É disso que sempre irá tratar-se. E não estou a brincar – este é um programa de vida e de viver. Mas já estou sério há demasiado tempo e espero que nos divirtamos todos esta noite, pois é disso que se trata viver. Muito obrigado.

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ADMÍTIAMOS QUE ÉRAMOS IMPOTENTES

ADMITIMOS QUE ÉRAMOS IMPOTENTES PERANTE O ÁLCOOL – QUE TÍNHAMOS PERDIDO O DOMÍNIO SOBRE NOSSAS VIDAS”.

Esta doença impõe sobre suas vítimas uma severa ditadura sem respeitar: raça, credo, nível de inteligência, grau cultural, condição sócio-econômica, sexo e idade. Usando palavras mais simples, digo que ele ataca homens e mulheres, ricos e pobres, letrados e analfabetos; brancos, negros e índios; magros e gordos, altos e baixos, bons e maus, crentes, ateus e agnósticos, freiras e prostitutas, padres, cardeais e canalhas. Enfim, ele vitima seres humanos, desde que dotados da predisposição, aliada a outros fatores, e que usem substâncias alcoólicas de qualquer natureza.

Embora existam outros critérios para o diagnóstico, é considerada alcoólatra a pessoa que, ao usar bebidas alcoólicas, sofre conseqüências negativas para si ou para outrem e, apesar disso continua bebendo, não importando com que freqüência bebe e muito menos a quantidade ou qualidade da bebida ingerida.

Dizer para um alcoólatra: “Tenha força de vontade e não beba”, seria o mesmo que implorar para um epiléptico: “Use a força de vontade e não tenha uma crise agora”. Implorar ao alcoólico por quê você não para de beber? Seria o mesmo que pedir-lhe, para ele parar de respirar. O alcoolismo chega em estágios tão avançados, que o uso da bebida torna-se uma necessidade vital para o doente. Força de vontade, neste caso, é um grande empecilho. Ela só atrapalha. Pois o álcool a anulou. O indispensável é a boa vontade. A força será encontrada num grupo de A.A. Para parar de beber, o alcoólico precisa de ajuda e, quanto antes – melhor.

“Num determinado momento do seu percurso alcoólico, entra numa fase em que o mais forte desejo para deixar de beber é absolutamente inútil. Esta trágica situação surge em quase todos os casos, muito antes sequer de se suspeitar dela.
O fato é que, por razões ainda obscuras, a maior parte dos alcoólicos perdeu a capacidade de escolher quando se trata de beber. O que chamamos de força de vontade torna-se praticamente inexistente. Somos incapazes, em determinadas alturas, de conscientizar com a necessária nitidez a recordação do sofrimento e humilhação de apenas uma semana ou um mês atrás. Ficamos sem defesa perante a primeira bebida.
As conseqüências praticamente inevitáveis que daí resultam ao tomar-se nem que seja um copo de cerveja, não vêm ao espírito para nos deter. Se estes pensamentos ocorrem, eles são nebulosos e facilmente suplantados pela velha idéia já gasta, de que desta vez poderemos comportar-nos como qualquer pessoa. É um completo fracasso do tipo do instinto de defesa que impede uma pessoa de pôr a mão em cima dum fogão quente.
O alcoólico pode querer convencer-se da maneira mais despreocupada: ‘Desta vez não me vou queimar, vão ver!’ Ou talvez nem chegue mesmo a pensar de todo. Quantas vezes nos aconteceu começarmos a beber deste modo despreocupado, para depois do terceiro ou quarto copo, darmos murros no balcão do bar e dizer para nós mesmos: ‘Santo Deus, como é que comecei outra vez?’, para pensar logo de seguida, ‘Ora, hei de parar depois do sexto. ‘Ou então, ‘Para quê, agora já não vale a pena’.
Quando este tipo de raciocínio se implanta de vez numa pessoa com tendências alcoólicas, ela coloca-se com toda a probabilidade numa situação que está para além da ajuda humana e, a não ser que a internem, certamente morre ou enlouquece para sempre. Legiões de alcoólicos no decurso da História confirmaram estes fatos duros e atrozes. Mas haveria ainda outros tantos milhares de casos convincentes que teriam seguido o mesmo caminho, se não fosse pela graça de Deus, porque muitos são os que querem parar de beber e não conseguem”.
Vejamos esta afirmação de Bill: “Eu tinha caminhado continuamente ladeira abaixo, e naquele dia, em 1934, eu estava acamado no andar superior do hospital, sabendo pela primeira vez que estava completamente sem esperança.
Lois estava no andar térreo, e o Dr. Silkworth estava tentando, com suas maneiras gentis, transmitir a ela o que estava acontecendo comigo e que meu caso era sem esperança. ‘Mas Bill tem uma grande força de vontade’, ela disse. ‘Ele tem tentado desesperadamente ficar bom. Doutor, por que ele não pode parar?’
Ele explicou que minha maneira de beber, uma vez que se tornou um hábito, ficou sendo uma obsessão, uma verdadeira loucura que me condenava a beber contra meu desejo.
Nos últimos estágios de nosso alcoolismo ativo, a vontade de resistir já não existe. Portanto, quando admitimos a derrota total e quando nos tornamos inteiramente dispostos a tentar os princípios de A.A., nossa obsessão desaparece e entramos numa nova dimensão – a liberdade sob a vontade de Deus, como nós O concebemos”.

Um alcoólatra é tão insano que chega a trocar tudo por um copo de bebida: Pais, irmãos, namorada ou esposa, filhos, dinheiro, emprego, casa, automóvel, comida, amigos, conforto, saúde, religião, sua dignidade e a própria vida.

O alcoólatra é um enfermo que adoece a família toda. É a doença da desagregação familiar é um vendaval, um furacão, um tornado ou um terremoto sobre as vidas alheias também. Principalmente, sobre os familiares, aqueles que ele mais ama; sobre os amigos, e sobre todos aqueles que com ele convivem. Razão pela qual os familiares deveriam, também, submeter-se a tratamento ou no mínimo participar do Al – Anon ou Alateen. Não existem culpados para o alcoolismo. Lembremo-nos dos 3 Cs.: Você não Causou, logo, não pode Curar, assim, não pode Culpar-se, mas aceitar e partir para a luta. “Um Dia De Cada Vez!”

Para uma reflexão mais adequada, transcrevo partes do Primeiro Passo: “Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém, é claro. Todos os instintos naturais gritam contra a idéia de impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que, com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da Providência pode removê-la. Nenhuma outra forma de falência é igual a esta. O álcool, transformado em voraz credor, nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Uma vez que aceitamos este fato, nu e cru, nossa falência como seres humanos está completa. Porém, ao ingressar em A.A., logo encaramos essa humilhação absoluta de uma maneira bem diferente. Percebemos que somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e ao poder. Nossa admissão de impotência pessoal acaba por tornar-se o leito de rocha firma sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e significativas. Sabemos que pouca coisa de bom advirá a qualquer alcoólicos que se torne membro de A.A. sem aceitar sua devastadora debilidade e todas as suas conseqüências. Até que se humilhe desta forma, sua sobriedade – se a tiver – será precária.
Da felicidade verdadeira, nada conhecerá. Comprovado sem sombra de dúvida por uma longa experiência, este é um dos fatos da vida de A.A. O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura sem que antes admitamos a derrota completa, é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa Irmandade toda.
Inicialmente, ao sermos desafiados a admitir a derrota, a maioria de nós se revoltou. Havíamos nos aproximado de A.A. esperando ser ensinados a ter autoconfiança. Então nos disseram que, no tocante ao álcool, de nada nos serviria a autoconfiança, aliás, era um empecilho total. Nossos padrinhos afirmaram que éramos vítimas de uma obsessão mental tão sutilmente poderosa que nenhum grau de força de vontade a quebraria. Não era possível, disseram, a quebra pessoal desta obsessão pela vontade desamparada. Agravando nosso dilema impiedosamente, nossos padrinhos apontaram nossa crescente sensibilidade ao álcool – chamaram-na de alergia. O tirano álcool empunhava sobre nós uma espada de dois gumes: primeiro éramos dominados, e depois por uma alergia prenunciadora de que acabaríamos nos destruindo. Pouquíssimos mesmo eram os que aflitos desta forma, haviam saído vitoriosos lutando sozinhos. Era um fato estatístico, os alcoólicos quase nunca se recuperavam pelos seus próprios recursos. E assim parece ter sido desde a primeira vez que o homem espremeu as uvas.
Nos primeiros tempos de A.A., somente os alcoólicos, mais desesperados, conseguiram engolir e digerir esta verdade amarga. Mesmo estes “agonizantes” freqüentemente encontravam dificuldades em reconhecer quão poucas esperanças havia. Contudo, alguns o reconheceram, e tendo se agarrado aos princípios de A.A. com o mesmo fervor dos que estão se afogando e se agarram aos salva-vidas, quase que invariavelmente se tornaram sóbrios. É por isso que a primeira edição do Livro Alcoólicos Anônimos, publicado quando éramos poucos membros, tratava somente de casos desesperados. Muitos alcoólicos menos desesperados experimentavam A.A., mas não eram bem sucedidos porque não podiam admitir a sua impotência”.
Bill W., afirmou: “Porque insistir tanto em que todo AA precisa, antes de mais nada, chegar ao fundo do poço? A resposta é que poucas pessoas praticarão sinceramente o programa de A.A. a não ser que tenham atingido o fundo. Pois praticar os restantes onze passos de A.A. requer a adoção de atitudes e ações que quase nenhum alcoólico que ainda esteja bebendo sonharia adotar. Quem se dispõe a ser rigorosamente honesto e tolerante? Quem se dispõe a confessar suas falhas a um outro e a fazer reparação pelos danos causados? Quem se interessa, ao mínimo, por um Poder Superior ou menos ainda por meditação e oração? Quem se dispõe a sacrificar seu tempo e sua energia tentando levar a mensagem de A.A. ao próximo? Não, o alcoólico típico, egoísta ao extremo, pouco se interessa por estas medidas a não ser que tenha de tomá-las para sobreviver”.
E continua ele: “Sob a chicotada do alcoolismo, somos impelidos ao A.A., e ali descobrimos a fatalidade de nossa situação. Nessa hora, e somente nessa hora, é que nos tornamos tão receptivos a sermos convencidos e tão dispostos a escutar como os que se encontram à beira da morte. Prontificamo-nos a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa”.

ACONTECEU COM ELES, PODE ACONTECER COMIGO

Aconteceu com eles, pode acontecer comigo

Existem fatores comuns a todas as recaídas e com elas podemos nos proteger e ajudar os outros.

Fiquei perturbado e abalado na primeira vez que alguém do meu relacionamento pessoal recaiu. Como poderia ter acontecido isso? Que crise tão dramática teria causado essa trágica situação? Meu amigo, que felizmente voltou para A.A., parecia confuso quando tentava explicar sua recaída. Nenhuma crise, real ou imaginária, tinha ocorrido. Ele disse ter simplesmente decidido tomar “uma”

Com o passar do tempo, meu horror e preocupação iniciais dissiparam-se. Admiti ser, o meu amigo, uma pessoa incomum e, tendo ele retornado a salvo ao programa, tudo
estava bem. Mas logo, outro amigo recaiu. E mais outros. Nem todos voltaram e
alguns jamais voltarão, pois já passaram desta para outra vida.

Comecei a temer que o mesmo pudesse acontecer comigo.. Qual a causa dessas recaídas? Que acontece com uma pessoa que aparentemente parece entender e viver o programa de A.A. e, ainda assim, decide voltar a beber?

Sem perceber, senti-me atraído pelos recaídos. Comecei a estudá-los. Aproximei-me deles e procurei, tanto quanto possível, entender o que aconteceu em cada caso. Percebi ser perfeitamente possível, para mim, recair também. Eu me identificava com
esses membros de A.A. antes de suas recaídas, quando eles contavam pedaços de
minha história e expressavam meus próprios sentimentos e, então, voltavam a
beber. O que aconteceu com eles poderia suceder comigo, tinha plena certeza.
Existe alguma coerência entre os recaídos? Aplica-se a eles algum denominador
comum? Identifiquei alguns. Não se aplicam a 100% dos casos. Mas são muito
freqüentes para assustar.

Em quase todos os
casos, os recaídos, no retorno, dizem:

– “Deixei de freqüentar as reuniões”;

– “Enchi-me com as mesmas histórias e as mesmas caras”;

– “Meus compromissos lá fora me levaram a faltar às reuniões”;

– “Senti já ter recebido tudo o que as reuniões podiam me dar e procurei ajuda em
atividades mais significativas” .

Em resumo: eles deixam de comparecer às reuniões.

Há um membro de A.A. que diz: “Aqueles que não vêm às reuniões não estão presentes às reuniões para saber o que acontece com quem não freqüenta as reuniões”.
Isso é verdade.

Outro fator comum é o pouco uso dos Doze Passos. Os comentários mais comuns são:

– “Nunca fiz os Passos”;

– “Nunca passei do Primeiro Passo”;

– “Trabalhei os Passos lentamente” ou “muito depressa” ou “muito cedo”.

Na essência, esses recaídos consideram os Passos mas não os aplicam conscienciosa e sinceramente às suas vidas.

Finalmente, suponho a maioria deles não se sentia satisfeita com o dia de hoje.

– “Esqueci de viver um dia de cada vez”;

– “Comecei a antecipar o futuro”;

– “Comecei a projetar”;

– “Comecei a planejar os resultados e não a realização de minhas tarefas”.

Eles parecem esquecer que tudo o que temos é o agora. A vida continua e melhora para eles, como aconteceu com muitos de nós, mas começam a esquecer como ela foi ruim.
Então ficam pensando como o dia de hoje poderia ter sido melhor. Na minha
opinião, tendemos a esquecer os benefícios que estamos recebendo e a comparar o
dia de hoje com o que poderá ser o dia de amanhã. Isso leva ao descontentamento
quando os favores do amanhã não correspondem às expectativas. Devemos comparar
o hoje com o ontem. Somente assim podemos ter consciência, pelo contraste, das
grandes bênçãos e benesses de hoje.

O mais importante das lições que eu queria aprender: como tratar um recaído que retorna ou que pede ajuda?

Sinto-me perfeitamente à vontade para levar a mensagem aos que estão chegando pela primeira vez. Se eles quiserem me ouvir, posso falar-lhes por horas. Mas que diremos a um recaído com anos de programação, que leu o Livro Azul, que conhece os Passos e assistiu à centenas ou milhares de reuniões? Por longos anos, senti-me
impotente nessa área. Finalmente, um recaído me mostrou o que dizer a ele e,
mais importante, o que fazer. Ele me disse o que mais gostaria de ouvir e sentir quando retornou. Posteriormente, outros recaídos confirmaram seus conselhos. Ele disse que, quando um recaído volta ou quer voltar, deveríamos dizer a ele que o amamos e que estamos felizes com o seu regresso e estamos dispostos a ajudá-lo na melhor maneira possível.

Desde então, tenho dito justamente isso.

Para mim, tem sido fácil fazê-lo porque sempre estou disposto a aprender com eles. (Grapevine)
(Compartilhando a Sobriedade)

SÉTIMA TRADIÇÃO

” A SÉTIMA TRADIÇÃO E O AMOR ”

POR: EDSON H.

Quando um doente alcoólico aplica em sua vida pessoal o nosso Programa de Recuperação – os Doze Passos – sua desintegração é detida e sua unificação é iniciada. O Poder que agora mantêm-no integrados numa unidade sobrepõe-se àquelas forças que o tornaram marginalizado.”.
Bill nos diz que o mesmo princípio se aplica a cada grupo de A.A. e a Alcoólicos Anônimos de forma global.
“Se como membro de A.A. cada um de nós recusar o prestígio público e renunciar a qualquer desejo de poder pessoal; se, como Associação, insistirmos em permanecer pobre, evitando, assim, as querelas por propriedades e sua administração; se, resolutamente, declinarmos as alianças de tipo político, sectário ou de qualquer classe, evitaremos a divisão interna e a notoriedade pública; se, como uma Associação, mantivermo-nos uma entidade espiritual, preocupada apenas em levar a nossa mensagem aos alcoólatras que sofrem, sem esperar recompensa ou honorários, poderemos levar a cabo, de forma mais efetiva, a nossa missão”.
`A unidade de A.A. não pode preservar-se automaticamente. Da mesma forma como o fazemos com a recuperação pessoal, devemos dar tudo de nós para preservar a unidade. Como tudo mais em A.A., aqui também necessita de honestidade, humildade, mente aberta, generosidade e, sobretudo, vigilância.”
`Nossa Declaração de Unidade diz que devemos colocar em primeiro lugar o bem-estar comum para manter nossa Associação coesa.”E complementa afirmando que da unidade em A.A. dependem nossas vidas e as vidas daqueles que venham”.
As Doze Tradições têm a intenção de estabelecer princípios sólidos de conduta do e suas relações públicas. Elas são suficientemente consistentes para converterem-se num guia básico de proteção ao A.A. como um todo e penso que devemos aplicá-las tão seriamente à nossa vida de grupo quanto o fazemos conosco, de forma individual, com os Doze Passos de Recuperação, onde o Décimo Segundo – na parte de levar a mensagem – “é o serviço básico prestado pela comunidade A.A.” “E nosso principal objetivo e a razão primordial de nossa existência”. Portanto, diz-nos Bill, “A.A. é algo mais que um conjunto de princípios. E uma Sociedade de alcoólatras em ação. Devemos levar a mensagem, pois se não o fizermos podemos recair e, além disso, aqueles a quem não se a transmite, podem perecer. E prossegue Bill”:
“Portanto, um serviço em A.A. é tudo aquilo que, seja o que for, ajuda-nos a alcançar uma pessoa que sofre, passando por todos os degraus, desde o Décimo Segundo Passo propriamente dito, até urna chamada telefônica; desde uma xícara de café, até o Escritório de Serviços Gerais. A soma destes serviços é o nosso Terceiro Legado”.
“Os serviços incluem lugares para reuniões, cooperação com hospitais e com escritórios intergrupais; supõem a utilização de folhetos, livros e uma boa publicidade. Requerem comitês, delegados, custódias e conferências. E, não podemos esquecer, tudo isto requer contribuições voluntárias de dinheiro por parte dos membros da Comunidade”.
Conquanto saibamos que as nossas contribuições não são, de forma alguma, uma condição para pertencermos à Sociedade de Alcoólicos Anônimos, devemos nos sentir muito felizes ao colaborar financeiramente para que determinadas prestações de serviço tornem-se exeqüíveis.
Deve haver prazer em contribuir, não apenas para que obedientes à Sétima Tradição sejamos realmente auto-suficientes. Como vejo, é muito mais que isso. Nossa participação pecuniária em verdade deve representar um gesto de generosidade e de desprendimento que não pode ser substantivado como despesa e, sim, como investimento, ratificando o texto da Oração de São Francisco que diz que “é dando que se recebe”, Trata-se de uma ação espiritual. O ideal é que nunca venhamos a participar nas sacolas porque alguém usou de termos coercitivos conosco. Se coação houver, que seja de nossa própria consciência, o que ainda não é bom, já que a linguagem do coração é a que o surdo ouve, a que o cego vê e a que o mudo fala – o idioma universal de Alcoólicos Anônimos. Aqui cabe a reflexão que diz que não devemos, apenas, dar a quem pede, mas oferecera quem não ousa pedir, porque acima da generosidade que dá, está a generosidade que oferece.
É belíssima a Sétima Tradição, inclusive no que diz respeito à democratização do dinheiro. Muito além do dever, temos, todos, o direito assegurado dela participar. É nesse momento que nos é oferecida uma oportunidade de contribuir na redistribuição das bênçãos que recebemos desde que chegamos ao A.A. E quem redistribui as bênçãos recebidas, fica com todas elas. Espiritualmente, o que nos torna ricos não é o que guardamos. E o que damos. A sacola tem o aroma do amor. Amor que se afirma quando não nos esquecemos de tantos alcoólatras que se encontram nas penitenciárias, nos hospitais psiquiátricos, nos xadrezes dos distritos policiais ou em baixo de viadutos, passando fome e enfrentando as duras noites do inverno quando os cobertores que os aquecem são jornais velhos e amarelados. E o que dizer do colchão dessas pessoas? Quando colocamos o nosso dinheiro na sacola, generosamente, sabendo que uma parte dele se destinará aos nossos organismos de serviço – que realizarão o trabalho do 12° Passo, através do C.T.O., também com outros alcoólatras além daqueles que acabo de mencionar – por certo estaremos alegrando o coração de Deus. Não nos esqueçamos que a oração do Pai Nosso, usada por milhares de grupos no mundo inteiro, não nos foi ensinada no singular. Em sendo “Pai Nosso”
o seu Autor nos diz claramente que somos todos irmãos. Se, ao colocarmos o dinheiro na sacola, fazemo-lo com sovinice e frieza, não estamos observando que Aquele que tirou nossa obsessão pelo álcool, e que nos mantém sóbrios, sabe o que estamos fazendo. Nossos companheiros não sabem, porque a contribuição é anônima. Mas, Deus sabe. Ele irá aferir se estamos ou não olhando para os bêbados irmãos assumindo a condição de irmãos dos bêbados.
Frases rotineiras apresentadas aos recém-chegados, tais como “Obrigado, companheiro. Você veio nos ajudar” ou “Fique conosco porque eu preciso de você”, são importantes e legítimos subsídios para nos convencermos de que a nossa espontânea e eficiente participação financeira representa não menos que uma maneira de agilizar a chegada de novos membros visto que, por exemplo, o dinheiro destinado à criação e manutenção de CENSAAS, ISAAS, Comitês de Área, ESG. Etc. possibilita a execução de determinados serviços que os grupos isoladamente estão incapacitados de realizar. E se não estamos faltando com a verdade quando dizemos aos “ingressantes” aquelas frases, chegamos à conclusão óbvia de que a nossa participação com o dinheiro traz a contrapartida de nosso próprio benefício. Ou estaremos mentindo para os recém-chegados quando dizemos que deles necessitamos?
Quando afirmamos aos companheiros, nas reuniões, que lhes devemos as nossas vidas, abaixo de Deus, e que meios não há como resgatar a divida contraída pela nossa salvação, muitos de nós, até possivelmente por inadvertência, desatenta para a extensão dessa declaração. Estamos todos conscientizados de que todo “ingresso” representa um fator multiplicador de nossa segurança, tanto que agradecemos aos “ingressantes” o fato de virem nos ajudar. Por conseguinte, quando a nossa participação na sacola é rateada entre o dinheiro e o descaso, não estamos senão minimizando o nosso grau de reconhecimento por aquela dívida, pois se temos, muitos de nós, condições de contribuir mais generosamente para robustecer fundos que irão dinamizar tarefas que possibilitem a agilização da chegada de novos membros e não o fazemos, implicitamente estamos prejudicando àqueles a quem confessamos o nosso débito, visto que os novos “ingressantes” são tão importantes para nós quanto o são para os que nos ajudaram em nossa salvação. Não estaremos sendo contraditórios os confrontos das palavras com a ação?
A Sétima Tradição é urna célula num corpo constituído de doze e, tal como as demais, não devemos permitir que cancerize. Diferentemente do resto do mundo que, por motivos econômicos, permanentemente conflita, nessa Tradição se aloja um poderoso fator de fortalecimento de nossa Sociedade pois na medida em que obtemos recursos materiais que viabilizem a consecução da sublime tarefa de levar mais mensagens a mais alcoólatras, maior é o número de “ingressantes” e, por conseguinte, doses mais robustas de soro espiritual recebemos.
Quando não faço nada em favor dos alcoólatras ainda no cativeiro, já estou fazendo. Estou sendo parceiro do álcool nas devastações que causa, e alegar que minha omissão tem sido inconsciente não muda nada moralmente porque o homem é responsável por todos os seus atos, até mesmo os inconscientes. Não há espelho que melhor reflita a imagem do homem que as suas ações.
Deus ama àquele que dá sorrindo e, talvez, seja mais sensível ao sorriso do que ao próprio dom. Participar em A.A. não é um dever. É um privilégio.
Quando chegamos ao A.A. pela primeira vez, carregávamos toda sorte de distorções, com o egoísmo sendo mestre-sala na escola de samba de nossa miséria. Aprendemos, ao vivenciar os Doze Passos, que aquele excessivo amor ao bem próprio, sem atender ao dos outros, tinha que ser um dos alvos prioritários no bombardeio a que nos dispusemos realizar, municiados pelos projéteis que Alcoólicos Anônimos nos oferece. Mas, o egoísmo pode apresentar-se com mil e urna roupagens, não sendo inviável que, incontáveis vezes, passe imperceptível aos nossos olhos.
Não obstante o programa não recomendar que nos grupos fiquemos o resto de nossas vidas a remexer no lodaçal do nosso passado alcoólico, salvo quando nossa palavra tem por destino um `ingressante “, é de capital importância não consentirmos que os acontecimentos `daqueles tempos” evadam para o vale do esquecimento. Não devemos fazer deles – os acontecimentos – uma câmara de torturas. Entretanto, convém-nos impedir que se apaguem de nossas mentes não só para que nos ajudem a detectar os nossos instintos distorcidos – genitores de todos os males que produzíamos – como também para que possamos, pela nossa própria experiência, jamais não dar valor à angústia e ao sofrimento daqueles que na loteria da vida ainda não foram premiados com o ingresso” em Alcoólicos Anônimos, portanto, fortes candidatos à loucura, à prisão ou à morte prematura.
Nós, que no passado fomos personagens de uma peça em que o álcool era o astro, que desculpas encontraremos para dar a Deus se um dia Ele nos perguntar se nunca nos esquecemos das mulheres e dos filhos de doentes alcoólicos aos quais Alcoólicos Anônimos não conseguiu transmitir a mensagem porque fria e egoisticamente ficamos indiferentes aos apelos de reforço na sacola que muitas vezes companheiros nos trouxeram? Quando nos lembrarmos do que fazíamos às nossas crianças quando bebíamos, não podemos nos permitir esquecer das crianças daqueles que ainda não se uniram a nós. Não há como ignorar a verdade de que a criança que não é amada tem muitos nomes. Na hidrografia de A.A. o egoísmo é nascente do rio cujas águas são constituídas pela indiferença, pelo desinteresse e pela insensibilidade. No ecossistema de A.A., o desprezo pela sacola é poluente rio programa de recuperação. E não é degradável.
Somos veementes na afirmação de que o alcoolismo é uma doença de determinação fatal e que por isso reserva aos seus portador três destinos: hospitalização, presídio ou morte prematura. A sociedade, por seu turno – leiga no assunto – vê no alcoólatra um patife, um imoral, um desprezível ser desprovido de um mínimo de força de vontade, conceito em que se fundamenta para assumir sua posição de desdém e de insensibilidade. Para a sociedade, em regra, o alcoólatra é um ser asqueroso, hediondo, sórdido, imundo, repugnante e descarado, Cabe aqui perguntar:
Quando ficamos privados de Centrais de Serviços porque os recursos provenientes dos grupos que as criariam e sustentariam inexistem – e inexistem porque não damos ao cumprimento da Sétima Tradição o devido respeito e a merecida atenção – não estaremos tratando àqueles que ainda se encontram reativando a doença através da ingestão do 1° gole com o mesmo desprezo com que o faz a sociedade não esclarecida? Ela não é esclarecida, mas nós somos. Somos?
Alcoólicos Anônimos não pede e não quer o sacrifício de ninguém. Assim, se um dos nossos membros ao colocar certa quantia na sacola souber, de antemão, que com o seu gesto o litro de leite não poderá ser comprado na manhã seguinte, por favor, não coloque aquilo que em verdade significa a subtração de sua saúde e de seus familiares. Alcoólicos Anônimos não deseja comprometer a saúde de quem quer que seja. Por outro lado, envolve incoerência que eu vá à cabeceira de mesa fazer uma declaração de amor ao A.A., justificando-a com o muito com que tenho sido favorecido desde o meu `ingresso”, mas não traduzindo em ação tão decantado amor. Provamos a nos mesmos o nosso amor por alguém ou por uma causa quando os nossos atos, voluntários, naturais e até inconscientes são atos de amor, Procuremos manter bem viva em nossa mente que o bem que se faz num dia, é semente de felicidade para o dia seguinte. Por que não semear todos os dias se a colheita é nossa?
O autor conhece alguns companheiros que recordam com profundo pesar o período de suas vidas a que denominam de “fase de infidelidade” a seus grupos. Dispunham de recursos para oferecer maior contribuição na sacola, mas comportavam-se com avareza, obrigando com isso outros a participar com importâncias significativas, compensatórias do seu gesto de sovinice. Mais ainda: ficavam sem ir ao grupo por vários dias e quando reapareciam deixavam de contribuir também pelos dias de ausência, “esquecendo” que o aluguel da sala, a conta da luz e outros gastos não se interrompiam com o seu afastamento. Esses confessos admitem que se constituía numa fraude suas declarações de gratidão a Alcoólicos Anônimos posto que conquanto Deus lhes oferecesse ai mais uma oportunidade de tornar efetivas tais declarações, eles não as materializavam. Envergonhados, graças a Deus, ainda têm diante de si a visão de companheiros desempregados ou beneficiários da Previdência Social contribuindo avidamente, apesar de todas as suas dificuldades. Ao que parece – é o que dizem aqueles que se autodenominam de “infiéis” – os desempregados e os aposentados, bem compreendiam os dois seguintes trechos escritos por Bill no livro “Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade”:
1. “Recusamos o generoso dinheiro de fora e decidimos viver à nossa custa”. –
Pág. 257
2. “Em outra reunião, tratou-se do tema dinheiro em A.A. e houve uma discussão salutar. O principio de A.A. de que “não há taxas nem mensalidades obrigatórias” pode ser’ interpretado e racionalizado corno: “Não existem responsabilidades individuais ou deveres de grupo de forma alguma” e esta idéia errada foi totalmente eliminada nessa reunião. Por `unanimidade, chegou-se a conclusão que, através de contribuições voluntárias, as contas legitimas dos grupos, áreas e A.A., como um todo, precisam ser pagas – Pág. 27.
Logo no primeiro parágrafo da pág. 39 da 5ª edição em português do livro “As Doze Tradições” está escrito: “Alcoólatras auto-suficientes? Onde já se viu isso? No entanto descobrimos que é isso o que devemos ser (inexiste destaque no original)”. E prossegue: “O principio é um indicio revelador das profundas modificações ocorridas em todos nós (não há destaque no original)”.. E finaliza o parágrafo dizendo: “Uma sociedade composta apenas de alcoólatras dizer que vai pagar todas (o destaque não consta do original) as suas contas constitui, realmente, uma novidade”.Ante o transcrito, formulo duas indagações: Ocorreram ou não em todos nós as modificações a que Bill alude? Estamos de fato pagando todas as nossas contas? Lembremo-nos incessantemente que a ingratidão é a amnésia do coração. Se de fato reconhecemos que se Deus não houvesse colocado A.A, em nossas vidas talvez nem vivos estivéssemos, o mínimo que nos cabe é não consentir que jamais se apague em nós o sentimento de gratidão, já que a gratidão é a memória do coração. A maioria de nós crê firmemente que Alcoólicos Anônimos é uma criação de Deus. Não estaremos, muitos de nós, com relação à Sétima Tradição, com freqüência, assumindo uma posição ateísta? Lembremo-nos de que Deus se basta a si mesmo, mas Ele conta conosco para realizar suas tarefas.
Na página 32 do livrete “OS CO-FUNDADORES DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS” encontramos a seguinte mensagem de Bill: “A automanutenção é o conceito essencial da responsabilidade madura. Esperávamos crescer, em A.A., e nos mantermos independentes. Havíamos assumido esta responsabilidade, estamos dando conta do recado, e recusamos com firmeza quaisquer contribuições externas” (os destaques não aparecem no original). Em face desse pronunciamento de Bill, não seria ocioso aqui fazer-se um inventário:
1. A automanutenção tem sido o nosso conceito essencial da responsabilidade madura?
2. Ternos nos empenhado em nos manter independentes?
3. Estamos dando conta do recado?
4. Temos recusado com firmeza quaisquer contribuições externas?
Atentemos para a expressão `independentes” utilizada por Bill. Como todos sabemos, “independente” significa “que não depende de ninguém ou de nada, que não está sujeito a ninguém ou a nada”. Poderíamos, HONESTAMENTE, afirmar que a maioria dos nossos grupos não depende de ninguém e que não está sujeito a ninguém?
Há um registro de Bill nas páginas 39 e 40 no livro “As Doze Tradições” (5ª edição em Português) muito interessante: “Desde logo se patenteou que ao passo que os alcoólatras abriam generosamente as suas bolsas nos casos do Décimo Segundo Passo, sentiam tremenda aversão em pingar seu dinheirinho num chapéu passado numa reunião com a finalidade de atender a algum interesse do grupo”.
Uma análise corajosa desse texto nos conduzirá à conclusão do óbvio: O valor que se coloca na sacola não é do conhecimento de ninguém. Entretanto, quando se chega na sala trazendo um provável membro, todos vêem. E aí não importa que se tenha gastado R$ 50,00 de táxi para ir buscar o candidato. O importante é que todos estão vendo. E se não é isto, o que é então? Às vezes é extremamente simples entender o espírito com que Bill diz que “não existe o mais remoto perigo de A.A. ficar rico com as contribuições voluntárias de seus próprios membros!” (“A.A. Atinge a Maioridade P. 101)”.
A Sétima Tradição recomenda que não ultrapassemos a fronteira que separa a Reserva Prudente da Imprudente, acumulando fundos sem nenhum propósito determinado em beneficio de A.A., fato que não ocorre em nossos dias, no A.A. do Brasil, cuja realidade exibe inumeráveis carências ditadas, em particular, pela insuficiência de recursos financeiros. Em nosso país, a maioria dos grupos fere frontalmente à Sétima Tradição, não sendo auto-suficientes, posto que aceitam doações de fora sob a forma de salas emprestadas. E o que é pior, procuramos mascarar essa situação de fato – tantas vezes produtora de humilhação – sob o embuste de que pagamos aluguel às igrejas através da contribuição que mensalmente destinamo-lhes. Quanto? R$ 40,00 ou R$ 50,00.
Há um artigo escrito por Bill W. para a Revista Grapevine de novembro de 1947, sob o título “A CONSTITUIÇAO DE SOCIEDADES: USO E ABUSO”, onde consta em determinado trecho que a automanutenção econômica total deve ser alcançada tão logo seja possível. Depreende-se daí, pois, que o nosso co-fundador até admitia que um grupo pudesse não ser auto-suficiente durante algum tempo. Podemos entender por quê. Quando se inicia um grupo, em regra, os seus “fundadores” são de reduzido número de companheiros, circunstância que dificulta o enfrentamento de todas as despesas decorrentes de sua criação. Teremos, então, aí, a única concessão feita por Bill. Entretanto, na medida em que o tempo avança, o grupo vai tendo o número de seus componentes multiplicado, condição abortífera da justificativa da violação do princípio da automanutenção. Quando este momento é chegado, não é sensato esforçarmo-nos para “esquecer” que as limitações reais do grupo não são representadas pelas coisas que deseja fazer e não pode, mas pelas coisas que deve fazer e não faz. A Sétima Tradição não nos impõe um dever legal. mas nos impõe o dever moral.
Não constituir-se-á em inutilidade de tempo observar que Bill, em seu artigo, fez uso da expressão “econômica” e não “financeira”. Esta, tem seu significado limitado a dinheiro. Aquela engloba, além de dinheiro, bens tais como cadeiras, mesa, armários, quadro negro, giz, etc., etc. Enfim, tudo o que se fizer necessário para que um grupo funcione sem necessitar de ajuda de “fora”.
Durante não saudosos anos fomos dependentes de bebidas alcoólicas e de pessoas. Hoje, pela graça de Deus, ganhamos nossa independência do álcool. Por que, sem o mais tênue sinal de ingratidão, não nos tornamos, também, independentes em outras áreas, cada um traduzindo em.ação sua afirmativa de que agora é responsável? Que resposta daremos à nossa consciência quando ela nos questionar se estamos transmitindo, aos que conosco vêm se associar, um efetivo exemplo de pessoas responsáveis? Não há modo de ensinar mais forte do que o exemplo:
Persuade sem retórica; reduz sem porfia; convence sem debate; desata todas as dúvidas e cortam caladamente todas as desculpas. Não estaremos nós comportando-nos com um modelo antiprograma? Afinal, acomodação é prima irmã da inconseqüência e não tem qualquer grau de parentesco com a responsabilidade. Responsabilidade em A.A. é fator de unidade. Acomodação é fator de desagregação.
Quando Bill nos diz que “se, como Associação, mantivermo-nos uma entidade espiritual preocupada apenas em levar a nossa mensagem aos alcoólatras que sofrem, sem esperar recompensa ou honorários, poderemos levar a cabo de forma, a mais efetiva, a nossa missão”, ele nos concita a não termos outro tipo de preocupação que não seja a de levar a mensagem. Por que, então, sermos ingratos à Irmandade criando a preocupação paralela produzida pela nossa negligência ao participar da sacola – a geradora de recursos para a auto-suficiência dos grupos, para a criação e manutenção de lntergrupais, de Comitês de Área e de Centrais de Serviços? Em termos de auto-suficiência, estaríamos ou não causando alegria a Bill e Bob se ambos ainda estivessem vivos?
Somos uma entidade espiritual e como tal devemos ver o dinheiro como uma dádiva de Deus como meio de suprir as nossas necessidades. Não ficaremos nós, muitas vezes, antagonizando-nos a Deus impedindo-O que nos use como instrumentos para a Sua dádiva?
Há um pensamento que diz que “os grandes corações nunca são felizes. Para sê-lo, falta lhes a felicidade dos outros. De que tamanho será o coração de cada um de nós? Sabemos, todos, que podemos confiar em Deus, mas será que temos assumido um comportamento tal que Deus possa confiar em nós?”.

“SACOLA”, ALGO MAIS QUE AUTO-SUFICIÊNCIA

“Todos os Grupos de A. A. deverão ser absolutamente auto-suficientes, rejeitando quaisquer doações de fora”

Na verdade a 7ª Tradição de A. A. contém muito mais significados do que aqueles que se pode apreender de uma simples e sumária leitura de seu texto.
Quase todos os membros de um grupo de A. A., depois de algum tempo de freqüência, começam perceber que seu grupo em particular e a Irmandade, de um modo mais geral, tornaram-se para ele a coisa mais importante de suas vidas. Assim entendem, porque sabem que tudo, família, trabalho, cultura, lazer, dinheiro e o mais que possa existir, para ser usufruído, depende de sua sobriedade. Esta, a sobriedade, por sua vez, depende do grupo de A. A. e da prática do programa sugerido. Uma vez perdida a sobriedade, através da ingestão do primeiro gole, tudo o mais estará também perdido. É dura, porém inexorável, verdade do alcoólatra.
Partindo dessa premissa o alcoólatra em recuperação sente a necessidade de preservar a vida de seu grupo, como uma célula primaria de um organismo maior que é a Irmandade em seu todo. Em seguida, descobre o que lhe informa a 5ª Tradição, ou seja, que “cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre”. Para isso é necessário que a Irmandade tenha grupos com as portas abertas para recebê-los. Mas não apenas isso. Há que oferecer-lhe subsídios para a sua recuperação. Informações para a reformulação de suas vidas, através de ampla e livre troca de experiências nos grupos. Literatura de A. A. para ele se esclarecer a respeito do programa. Processos e meios para ele praticar o 12° Passo, isto é, “transmitir a mensagem de A. A. aos alcoólatras”. E para que isso tudo possa acontecer são necessários meios materiais. Há que se pagar o aluguel da sala
de reuniões, a luz, a água, o cafezinho. Há que se ter
literatura disponível para os companheiros e para os que ainda estão fora das salas de reuniões. Há ainda que se contribuir para a estrutura de serviços de A. A., ou seja, para as intergrupais, para as áreas distritais, para o Escritório de Serviços Gerais, para a Junta Nacional de Serviços, para a Conferência, Junta de Custódios, etc.
Depois de algum tempo o novo companheiro toma conhecimento de tudo isso e ler na 7ª Tradição que o A. A. rejeita qualquer doação de fora. A conclusão torna-se óbvia: tudo depende da contribuição dele e dos companheiros. Tudo depende da arrecadação da sacola dos grupos. Tudo depende das contribuições dos grupos aos escritórios de serviços e destes para os órgãos nacionais de serviços de A. A.
Fica-lhe nítida na mente a idéia de auto-suficiência da Irmandade. Mas o que haverá mais além…? Qual a natureza ética da contribuição nas sacolas? Será ele um óbolo, uma esmola, uma caridade, um ato de filantropia, um pagamento ou uma obrigação? Na verdade, a contribuição de cada membro de A. A. é muito mais do que tudo isso. É, em última análise, a conseqüência natural da maturidade do grupo.
Com efeito, um grupo amadurecido é caracterizado por uma atitude de conscientização; por uma situação grupal de cooperação entre os membros e por um sentido de amorização.
Assim vejamos. A conscientização nada mais é que o percebimento encarado de modo genérico. É cada um tornar-se cônscio de si mesmo, abrindo cada vez mais brechas na auto-ilusão que caracteriza muito os alcoólicos. É conhecer e gostar de si mesmo. É sentir sua própria importância no grupo. É aprender a ser responsável perante os companheiros. É reconhecer as conseqüências pessoais de suas ações e de suas palavras integrar-se à consciência coletiva do grupo. É vivenciar intensamente a importância do grupo para a própria sobrevivência e para o crescimento psicológico de cada um de seus membros.
Por sua vez, a cooperação ampla entre os membros de um grupo e dos grupos entre si, constitui-se na fase mais adiantada do processo de maturação grupal. Cooperar é produto de uma aprendizagem que se inicia logo que o ingressante chega. É o melhor remédio para o egocentrismo, pois a prática cooperativa vai gerando mais amor e inteligência objetiva, o que conduz a uma atitude sociocêntrica. A primeira cooperação do alcoólatra é fazer-se presente às reuniões. É ouvir os companheiros. É servir de “fundo” para que o companheiro seja “figura”. É cooperar prestando serviço ao grupo; limpar e preparar a sala para as reuniões é ato de cooperação; providenciar o café é cooperação; coordenar a reunião é cooperação; atender aos novos que chegam é cooperação; por dinheiro na sacola é cooperação. Enfim, tudo que se faz em prol do coletivo e de cada um em particular é cooperação.
Finalmente, a amorização é a aprendizagem do verdadeiro amor. Daquele amor que não é apego, que não é posse do objeto amado, que não é exclusivismo, que não pe apenas atividade sexual, que, enfim, não é condicional, porque de nada depende. Esse amor é o supremo ato de liberdade, através do qual conseguimos ver o mundo com os olhos do outro, de sentir o que se passa nele como ele o sente, de entender a realidade como ele a entende, de ser capaz de dar sem esperar recompensa.
Assim, no grupo psicológico e espiritualmente amadurecido, onde seus membros estão bem conscientizados, onde a cooperação e a amorização são uma constante, a contribuição da sacola não pode ser uma esmola, nem, por outro lado, constitui-se em uma obrigação. Ninguém precisa dar nada para freqüentar uma reunião ou ser membro de A. A.. A contribuição na sacola enquadra-se bem no conceito ético de um “direito-dever” . “Direito” porque é um privilégio que se só se estende aos membros de A. A. e “dever” porque é um puro ato individual de consciência, de participação e doação de si mesmo. Sejamos maduros, e, conseqüentemente, generosos na sacola de A. A.

Vivência n° 3

SÉTIMA TRADIÇÃO .
Há uma interdependência total entre a Recuperação, a Unidade e o Serviço. A CONSCIENTIZAÇÃO, inclui o exercício da sensação, da compreensão e do raciocínio, onde usamos a imaginação, a aspiração e a inspiração, que são revelações internas, divinas. A imaginação é função da mente, ocorre em revelação interior. Imaginando ideais, aspirando de acordo com o grau de nossa imaginação, uma ação de gratidão e com inspiração do Poder Superior, teremos sensações inusitadas e felizes de compreensão e raciocínio, que nos levam a ver bem definido o que éramos, o que seríamos se companheiros do passado não tivessem tido a clareza que agora temos, de obter meios (recursos) para agirmos como agiram (levar a mensagem) que chegou até nós e que agora pretendemos levar àqueles que ainda sofrem.
Ter consciência é ter conhecimento, ideia, noção clara de um fato ou de uma situação. Este conhecimento, será tão mais perfeito e sábio, quanto estiver vinculado ao Poder Superior, com desprendimento, amor, gratidão, sem critica só por contestar, sem colocações só para discordar, ou sem falar só para ser diferente. Quando temos consciência, do nosso verdadeiro estado de doentes, e de que nosso senso crítico está muito falho, e que nossos condicionamentos nos levam a situações inconscientes de descomportamento, às vezes por longo tempo, começamos a nos auto vigiar e a procedermos as mudanças necessárias para este objetivo maravilhoso, de vigiar-nos e ater-nos ao todo e ao fundamental e não ao acidental e a uma possível particularidade de interesse pessoal. Se nos conhecermos melhor e fiscalizarmos as motivações de nossas atitudes, estaremos tendo consciência de nosso estado e de nossos objetivos maiores: Os serviços que levam a mensagem, consolidam nossa sobriedade e felicidade. Desta conscientização depende o futuro de AA, e portanto as vidas dos doentes que virão.
CONTRI,BUIÇÃO – O MATERIAL E O ESPIRITUAL – HOMEM SER DUAL. Contribuição: Cota, quinhão, ato de contribuir. Nós os mais antigos, somos responsáveis, pelo grande equívoco, de afirmarmos e repetirmos, que o AA é de graça, que não se precisa pagar nada. Não somos obrigados a fazer nada por solicitação de AA como instituição, mas companheiros, se tivermos consciência de nossa realidade passada, presente e expectativa do futuro, contribuiremos espontaneamente e tão prodigamente quanto pudermos. Se entretanto continuarmos a exercitar nossa doença inconscientemente, acharemos sempre uma justificativa para não contribuir para com a Irmandade e acharemos até que a Irmandade deve ser grata com o pouco que fazemos, como se a Irmandade não fosse nós mesmos, uma coisa só, a partir dos Grupos, seguindo pelo Distrito, Áreas até a Conferência de Serviços Gerais. Irmãos, o AA somos nós, a responsabilidade pelas nossas vidas e de nossos irmãos doentes futuros é nossa, e sem contribuirmos generosamente, certamente teremos perdido o sentido de nossas vidas, morreremos e nossos futuros irmãos doentes não receberão por falta de contribuição nossa o que recebemos por contribuição dos que nos antecederam. Certamente companheiros, alguns de nós teremos mil razões racionalizadas, para justificar nossa não contribuição para com a Irmandade. As despesas com passagens são demais, os cartazes são muito caros, os encontros deveriam ser em alojamentos comuns, gastou-se muito com telefone , o computador foi muito caro, gasta-se muito com empregados e encargos sociais, estão nos impondo contribuições e “n” situações são enunciadas. Companheiros, quando não queremos contribuir, encontramos mil desculpas para não fazê-lo, mas quando estamos conscientes de nossas responsabilidades e necessidades, fazemos o inverso, contribuímos sim, e exigimos estudos, controle dos gastos, registros confiáveis, trabalho responsável, e aplicação dos recursos fundamentalmente no levar a mensagem certa, pelos veículos disponíveis e menos caros, à sociedade em geral, para que nossos irmãos doentes sejam atingidos e beneficiados como o fomos. Cumpramos a nossa parte, e exijamos que nossos órgão de serviço cumpram a sua. Não é deixando de contribuir e fugindo comodamente de nosso dever, que resolveremos nossos problemas. Vejam, ninguém nos obriga, mas nos obrigamos fazê-lo pela compreensão, pela gratidão e pela necessidade, não pelo perigo de bebermos, mas pela vontade de termos paz e sermos felizes, levando esse benefício a quantos pudermos. Não procedendo nós assim irmãos, poderemos morrer ou no mínimo levarmos uma vida infeliz, rancorosa, cheia de medos e sem paz; sem a habilidade de lidarmos com os problemas sem sofrermos, e ainda sem darmos a outros o que recebemos de graça por que alguém pagou, portanto paguemos para que outros recebam de graça, e sigamos nessa corrente permanente de vida e amor.
Material e espiritual: O ser humano é dual não existe homem sem ahna, nem homem sem corpo, o ser humano é corpo e alma. Sem pão e sem o alimento da alma (a oração, a meditação, a não prática do mal e a prática do bem) o homem é incompleto, desarmonioso, infeliz, sente um vazio sem lhe faltar nada objetiva e aparentemente. Portanto o material e o espiritual devem andar sempre juntos, é a maravilha da fusão do material e do espiritual para completar o ser humano.

A moeda, ou dinheiro, é apenas um instrumento de troca. Não há mal no dinheiro, pode haver mal no seu uso. O dinheiro não é um bem por si só, é para adquirir bens. Ele exerce uma função fundamental para levarmos a mensagem de AA junto com o amor, sem ele o AA morre, e isso acho que não queremos. AA não é só para nós, tornemos ele perpétuo com nossas contribuições generosas, para os irmãos do futuro e para aqueles que ainda no presente não conhecem nossa Irmandade. Rokfeler foi sábio, quando disse que deveríamos preservar nossa autonomia, com nossa auto-suficiência, o que só será conseguido com nossas contribuições responsáveis, permanentes e estáveis.

AÇÃO: Ajo quando contribuo, quando planejo, quando escolho o material e os veículos de distribuição e levo assim a mensagem. Esta açáo em caráter permanente é necessária para a perpetuação de AA. Entretanto, se não estou impregnado do espírito de gratidão pela compreensão do benefício que recebi e do amor pêlos meus irmãos doentes em AA e fora dele, talvez me seja difícil, contribuir e agir.
LEVAR A MENSAGEM CERTA: Para isso há uma função importantíssima. Conhecer AA e seus princípios, basicamente os três legados: Recuperação, Unidade e Serviço. Não posso falar nem informar sobre o que não conheço bem, sob pena de informar o que penso e o que quero e que certamente não representará os princípios de AA. Para conhecer é preciso estudar, frequentar reuniões de recuperação, temáticas, de estudos, de debates, seminários, o máximo que pudermos, e nunca saberemos demais. A humildade é fundamental. Precisamos sempre identificar o que a entidade ou a instituição quer. Se desejarem esclarecimentos científicos ou técnicos não é conosco, é para médicos e especialista, os aa(s) não devem fazer isto como aa(s). É importante termos consciência, de que informar não é dar um depoimento tradicional, é dizer o que é AA, quais seus princípios e objetivos, como funciona e onde está, citando breves experiências sobre tópicos importantes. Teremos que ser suficientemente humildes para não respondermos sobre assunto científico, médico, que não conheçamos ou sobre o qual tenhamos dúvidas. Poderemos dar indícios, do que indicará ser alguém alcoolista, mas jamais diagnosticar, deixemos isto para os médicos. Não devemos fechar questão, sempre dizer segundo entendemos ou é nossa interpretação sobre o assunto, até para não gerar controvérsia pública, a não ser coisa absolutamente clara, como não receber auxílio de fora sob qualquer forma. Sempre que possível, para palestras, a idade, o conhecimento, a profissão e a classe social do palestrante devem ser próximos da plateia respectiva. Isto é importante para que aja boa comunicação e compreensão da informação. Temos que humildemente entender que nós somos iguais entre nós, mas que lá fora a sociedade continua sendo como sempre foi, há os melhores e os piores, os comuns e os especiais, e a Irmandade deve ser bem representada para o público em geral. Nossa apresentação é importante, não por nós, mas pela Irmandade que representamos. Não é alguém que fala, é AA que está sendo apresentado. Cabelo cortado, barba feita, roupa limpa e não amarrotada, calça comprida, camisa abotoada, calcados limpos, postura simples, discreta e alegre, além do todo antes exposto, seriam atributos desejáveis para um palestrante de AA, não por ele mas pela Irmandade.

Com as considerações acima feitas, penso ter colocado o que parece necessário, útil e amoroso, para levar a mensagem aos irmãos que ainda sofrem e preservar AA para o futuro.

“Que o Poder Superior, nos encha de sabedoria, tolerância e compreensão, para acreditarmos em AA, contribuirmos conforme as possibilidades de cada um e agirmos levando a mensagem salvadora”.

A MÃE E AO PAI DE UM ABUSADOR DE DROGAS

À Mãe e ao pai de um abusador de Drogas
(material fornecido pelo Co-Anon dos USA, traduzido e adaptado por Amor-Exigente, Grupo Tikvá)

O que pode ser feito para amenizar e consolar a mãe que vê que seu filho ou sua filha está vivendo uma compulsão desesperada? Que esta compulsão, como qualquer outra doença, assumiu o controle da vida de seu filho? 0 que pode fazer para trazer seu filho de volta para a saúde e felicidade?
No relacionamento pais e filhos, há uma profunda relação emocional. Foram eles que trouxeram o pequeno ao mundo, viram seus primeiros hesitantes passos, amaram, guiaram seu filho nos anos de crescimento, rezaram e ansiaram por sua felicidade e sucesso. A criança é parte das suas vidas. Agora ele é um adulto e os pais já não têm o direito de controlá-lo e padrões de comportamento demoram a morrer; o impulso de um pai é tentar direcioná-lo como se o filho(a) ainda fosse uma criança). Freqüentemente o amor e orgulho do pai (mãe) impedem a recuperação por causa da permissividade muito grande de sua parte. Os pais perdoam, procuram desculpas para o filho/a – e anseiam com muita esperança de que o que eles (pais) estão fazendo, vai ajudar.
Se isto aconteceu contigo, perceba, aceite o fato que seu filho/a está doente. Não é fácil a experiência diária de viver com comportamento instável: seu filho pode estar mostrando hiperatividade, congestão nasal crônica, irritabilidade, mudanças de humor, noites sem sono e depressão severa.
Se o uso de drogas ficou extremado, você pode estar notando perda de peso rápida, falta crônica de energia ou de motivação, suspeição constante ou paranóia, suor nas roupas (devido a temperatura de corpo elevada) e abandono geral de higiene pessoal.
Você fica escutando e espera toda a noite ansiosamente pelo som da chave na porta, você paga contas de telefone cada vez mais altas e se preocupa com as grandes despesas em dinheiro. Você. tem medo do toque do telefone que pode significar desastre ou tragédia.
Se ele for casado e tiver uma família: você está preocupado sobre como o uso de droga pode estar afetando a sua esposa e filhos. Você talvez faça sacrifícios pessoais para que a família dele não se prive das necessidades, assumindo as responsabilidades dele tais como contas, pagamentos de aluguel, dívidas. (Alguns pais vão tão longe que chegam a culpar o cônjuge do dependente químico pelo problema de droga).
0 abusador de droga usa cocaína ou outro entorpecente porque ele está doente.
Você só pode ajudar enfrentando os fatos
• Nem você nem o cônjuge pode controlar o abuso de droga por ele; você não consegue forçá-lo a deixar de usar drogas por repreendê-lo, importuná-lo, se você for generoso ou ríspido com ele.
• Você precisará perceber e admitir que você não tem mais nenhum direito de criticar, admoestar ou exigir sobriedade deste adulto como se ele fosse um estranho.
• Você pode ajudá-lo melhor se puder convencer a sí próprio a Desligar-se – e Entregar a Deus.
Você não está se desligando e entregando a Deus…
• se você continuamente tirá-lo dos problemas
• se você assume as responsabilidades pelos problemas criados pelo uso da droga.
• Você não está ajudando se você cria desculpas para ele.
• É difícil, até mesmo doloroso, para uma mãe/pai enfrentar, por exemplo, o filho/a adulto que vive em casa sem pagar aluguel e vê o filho gastar seu dinheiro em droga (ao invés de aluguel). Você está facilitando seu filho a continuar usando drogas enquanto continuar a deixá-lo viver em casa sem custos.

COMPORTAMENTOS FACILITADORES DO FAMILIAR
Pergunte-se, honestamente, se você. não está ajudando s/filho/a, s/ cônjuge ou uma pessoa querida a continuar na droga por ter comportamentos facilitadores.

1. NEGAR – “Ele/ela não é DQ’. Ou então: “é coisa da juventude; mais tarde isto passa. Isto o leva a esperar que o DQ seja racional, controle sua bebida ou uso de drogas. Recuse-se a aceitar a culpa pelo comportamento dele, pois vc. não foi o responsável nem o indutor deste comportamento.
2. JUSTIFICAR – Buscar a racionalização (Exs: “0 trabalho exerce muita pressão sobre ele” ou então “desde que o pai morreu, tudo ficou tão difícil”.
3. GUARDAR – Esconder seus sentimentos dentro de você.
4. EVITAR PROBLEMAS – Procura manter a paz, acreditando que a falta de conflito faz um bom casamento ou relacionamento c/os filhos. Proteger excessivamente, não permitindo que tenham que se defrontar com a consequência de s/ comportamento
5. MINIMIZAR – Reduzir o impacto das ações e comportamentos do DQ: “Não é tão mau assim.” “As coisas vão melhorar quando…“
6. PROTEGER – Evitar que se exponha a imagem do DQ, proteger o DQ da dor e proteger a si mesma da dor. Esconder o fato de todos, mesmo que já saibam.
7. TRANQUILIZAR – Reduzir os próprios sentimentos, p/ evitar problemas. Passa a usar como escape tranquilizantes, comida e trabalho.
8. CULPA – Sentir-se culpado ou induzir o DQ à culpa criticando, fazendo sermões.
9. ASSUMIR RESPONSABILIDADES – Fazer tarefas que cabem ao DQ
10. SENTIR-SE SUPERIOR – tratar o DQ como criança, como inconseqüente.
11. CONTROLAR – Fazer esforços p/ que o dependente não tenha contato c/ a droga e c/ más companhias, sem usar métodos educacionais, mas sim iludindo-se (ou iludindo a ele) : “que tal não irmos à festa da Companhia esse ano?” ou então: “vamos fazer uma viagem de férias para a fazenda?”
12. AGUENTAR – Acreditar que deve aguentar porque um dia “Isso também vai passar.“
13. ESPERAR – Adiar a busca de solução “Deus vai cuidar disso.”
Lembre-se
• A culpa não é sua; ninguém é culpado.
• Não fique com vergonha dele; não proteste quando a esposa dele ou os amigos íntimos buscam ajuda de uma entidade social ou até mesmo da polícia.
• Abuso severo de drogas pode induzir a comportamento violento que, às vezes pede-se proteção.
• Evite ser envolvido com telefonemas noturnos ou gente em sua porta.
• Seja amável, seja gentil, mas não o proteja das conseqüências do seu abuso de droga.
• Expor o problema freqüentemente provoca uma crise. Isto faz o DQ, ele mesmo, querer buscar ajuda. Se o conforto dele estiver em risco, talvez ele dê o primeiro passo para a sobriedade.
Você pode ajudá-lo
• Estando pronto para sugerir recursos tais como Grupo Reviver, Narcóticos Anônimos (NA), centros de reabilitação, fazendas terapêuticas, mas só no momento certo.
• 0 momento chegará quando ele estiver realmente desesperado sobre seu uso de droga, quando ele admite que não consegue controlar isto e que ele precisa de ajuda; quando ele pedir.
• Você pode mostrar uma real preocupação e compaixão por seu filho desligando- se do problema dele. Este é amor verdadeiro.
• Uma atitude permissiva, indulgente, até mesmo com o mais amável dos motivos, não ajuda; ela machuca. Por incrível que pareça, o DQ, freqüentemente, parece saber instintivamente que você não o está ajudando ao aceitá-lo.
• Quando afinal ele se vê forçado, por causa de seu próprio sofrimento a se livrar da doença de dependência química, ele agradecerá a você por tê-lo ajudado a achar a força para dar o primeiro passo.
Busque informações sobre a doença e ajuda em grupos familiares: Grupo Reviver, Naranon, Alanon, Amor Exigente, etc…

Anete L. Blefari
Fev/2009

ESPIRITUALIDADE EM A.A.

Espiritualidade em A.A.
O que é espiritualidade?

Certa vez fizeram esta pergunta ao Dalai-Lama e ele deu uma resposta extremamente simples “Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”. Não entendendo direito, alguém perguntou novamente: mas se eu praticar a religião e observar as tradições, isso não é espiritualidade? O Dalai-Lama respondeu. Pode ser espiritualidade, mas, se não produzir em você uma transformação, não é espiritualidade.

Parece-me que o principal a ser retido desse pequeno diálogo com o Dalai-Lama, é que espiritualidade é aquilo que produz dentro de nós uma mudança. O ser humano é um ser de mudanças, pois nunca está pronto, está sempre se fazendo, física psíquica, social e culturalmente. Mas há mudanças e mudanças. Há mudanças que não transformam nossa estrutura de base. São superficiais e exteriores, ou meramente quantitativas.

Já a Espiritualidade em A.A., é algo muito sublime, o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave, o meio de que A.A. dispõe em nosso preparo para a recepção dessa dádiva, está na prática dos Doze Passos de nosso programa. Portanto, procedamos a um rápido levantamento do que temos tentado fazer até aqui.

O Primeiro Passo nos revelou um fato surpreendentemente paradoxal: descobrimos que éramos totalmente incapazes de nos livrar da obsessão pelo álcool até que admitíssemos nossa impotência diante dele. No Segundo Passo vimos que já não éramos capazes de, pôr nossos próprios meios, retornar à sanidade, e que algum Poder Superior teria que fazê-lo pôr nós, para que pudéssemos sobreviver. Em conseqüência, no Terceiro Passo, entregamos nossa vontade e nosso destino aos cuidados de Deus, na forma em que o concebemos, a título provisório, aqueles de nós que eram ateus ou agnósticos descobriram que o nosso Grupo ou AA no todo, poderia atuar como Poder Superior. A partir do Quarto Passo começamos a procurar dentro de nós as coisas que nos haviam levado à bancarrota física, moral e espiritual e fizemos um corajoso e profundo inventário moral. Em face do Quinto Passo decidimos que apenas fazer um inventário não seria suficiente, sabíamos que era necessário abandonar nosso funesto isolamento com nossos conflitos e, honestamente, confiá-los a Deus e a outro ser humano. No Sexto Passo, muitos dentre nós recuaram pela simples razão de que não desejavam a pronta remoção de alguns defeitos de caráter dos quais ainda gostavam muito, sabíamos, porém, todos, da necessidade de nos ajustar ao princípio fundamental deste passo, portanto decidimos que embora tivéssemos alguns defeitos de caráter que ainda não podíamos expulsar, devíamos de todos os modos abandonar nossa obstinada e revoltante dependência deles. Dissemos, “Talvez não possa fazer isso hoje mas, pelo menos, posso parar de protestar. Então no Sétimo Passo, rogamos humildemente a Deus que, de acordo com as condições reinantes no dia do pedido e se esta fosse a Sua vontade, nos libertasse de nossas imperfeições. No Oitavo Passo, continuamos a limpeza de nosso interior, pois sabíamos que não só estávamos em conflito conosco, como também com pessoas e fatos do mundo em que vivíamos , precisávamos começar a restabelecer relações amistosas e, para esse fim, relacionando as pessoas que havíamos ofendido, nos propusemos, com disposição, a remediar os males que praticamos. Prosseguimos nesse desígnio no Nono Passo, reparando diretamente junto às pessoas atingidas, os danos que causamos, salvo quando disso resultassem prejuízos para elas ou outros. No Décimo Passo, havíamos iniciado o estabelecimento de uma base para a vida cotidiana, conhecendo claramente que seria necessário fazer de maneira contínua o inventário pessoal, admitindo prontamente os erros que fôssemos encontrando. No Décimo Primeiro Passo, vimos que se um Poder Superior nos havia devolvido à sanidade e permitido que vivêssemos com relativa paz de espírito num mundo conturbado, valia a pena conhecê-lo melhor, através do contato mais direto possível, ficamos sabendo que o uso persistente da oração e da meditação abria, de fato, o canal para que, no lugar onde havia existido um fio de água, corresse um caudaloso rio que levava em direção ao indiscutível poder e a orientação segura de Deus, tal como estávamos podendo conhecê-lo, cada vez melhor.

Assim praticando esses passos, experimentamos um despertar espiritual e a espiritualidade em AA sobre o qual não nos restava a menor dúvida, e agora, o que diremos do Décimo Segundo Passo? A energia maravilhosa que ele desencadeia e a ação pronta pela qual leva nossa mensagem ao próximo alcoólico sofredor, e que finalmente convertem os Doze Passos em ação sobre todas as nossas atividades é a recompensa, a magnífica realidade de Alcoólicos Anônimos, é comum em quase todos os membros de AA, a afirmação de que nenhuma satisfação é mais profunda e nenhuma alegria é mais intensa e duradoura do que um décimo segundo passo bem executado, contemplar os olhos de homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida em que passa das trevas à luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um Deus amantíssimo em suas vidas, são fatos que constituem a essência do bem que nos invade, quando levamos a mensagem de AA ao irmão sofredor, isto é espiritualidade em AA.

Agora, a maior pergunta que já fizemos: o que dizer da prática destes princípios em todas as nossa atividades? Temos condições para amar a vida em todos os seus aspectos com tanto entusiasmo quanto amamos aquela pequena parcela que descobrimos, quando tentamos ajudar outros alcoólicos a alcançar a sobriedade? Somos capazes de levar às nossas vidas em família, pôr vezes bastante complicadas, o mesmo espírito de amor e tolerância com que tratamos nossos companheiros do grupo de AA? As pessoas de nossa família que foram envolvidas e até marcadas pela nossa doença, merecem de nós o mesmo grau de confiança e fé que temos em nossos padrinhos? Estamos prontos para arcar com as novas e reconhecidas responsabilidades que nos cercam? Além do mais, como podemos nos ajustar à derrota ou ao êxito aparentes? Podemos aceitar e nos adaptar a ambos sem desespero ou orgulho? Podemos aceitar a pobreza, a doença, a solidão e o luto com coragem e serenidade? A resposta de AA, a tais perguntas é:, sim tudo isso é possível, se vivenciarmos os Doze Passos de AA, isso é espiritualidade em AA, é mais maravilhoso ainda, sentir que não é necessário sermos especialmente distinguidos dentre nossos companheiros para podermos ser úteis e profundamente felizes, muitos de nós podemos ser líderes proeminentes e nem querem ser, o serviço prestado com prazer, as obrigações cabalmente cumpridas, os reveses calmamente aceitos ou resolvidos com a ajuda de Deus, o reconhecimento de que, tanto no lar como fora dele, somos confrades num esforço comum, o bem compreendido fato de que, perante Deus, todos os seres humanos são importantes, a prova de que o amor, livremente oferecido, na certa traz um retorno total, a certeza de que não mais estamos isolados e sozinhos em prisões criadas pela nossa mente, a segurança de que não somos mais desadaptados, senão que nos integramos e fazemos parte do esquema de coisas criadas pôr Deus, estas são as satisfações permanentes e legítimas de que fruímos, de uma vida correta, que nenhuma pompa ou ostentação de riquezas materiais poderá suplantar, isto é espiritualidade em AA, é dar sem esperar nada em troca, é viver e deixar viver, isto é espiritualidade em AA.
Juracy M.

VOCÊ CONHECE ESSA CARTA?

Baependi, 10 de novembro de 2010.

Estimados Companheiros de A.A.

Saudações.

No esforço conjunto da Junta de Custódios de A.A recém empossada de, ao comemorar o Cinqüentenário Mundial da Irmandade nos idos de 1985, com os pés plantados no presente, olhos fixos no futuro, vencendo toda sorte de obstáculos, achou por bem prover a Irmandade de um veículo de informação a altura dos nossos anseios que pudesse consolidar sua mensagem de esperança aos seus membros e transpor os horizontes, apresentando, de maneira sóbria e consistente, a Irmandade de Alcoólicos Anônimos aos profissionais liberais, religiosos, mestres da educação, empresários e tantas outras pessoas de boa vontade.
O sonho acalentado por muitos, aconteceu, tornou-se realidade. Hoje comemora-se, com humildade e alegria, os 25 Anos da Revista Vivência que com suas inúmeras edições, tem conseguido proclamar aos quatro cantos que Alcoolismo embora seja uma doença progressiva e de evolução crônica e fatal, é perfeitamente controlável, que existe esperança de recuperação e uma programação eficaz que tem restaurado milhões de vidas e reconstruído inúmeras famílias.
É de Goethe a afirmação – “ Nada sabe de sua arte aquele que lhe ignora a história”. A trajetória da Revista Vivência é sedimentada em momentos históricos da Irmandade de A.A.. Tudo começou nos idos de 1977, mais precisamente em 05 de abril, por ocasião da 1ª Conferência de Serviços Gerais da JUNAAB quando uma das recomendações, mais precisamente a Recomendação de número 8, da Comissão de Literatura e Publicações foi aprovada com o seguinte teor: – “Consideramos oportuno que Alcoólicos Anônimos no Brasil possua a sua Revista, a exemplo do “Grapevine” e “El Mensaje”. Para concretizar este objetivo, recomendamos aos Delegados do R.J. que elaborem um projeto, com análise de custos e possibilidade de implantação de uma nova entidade de A.A. no Brasil, para ser debatida na próxima Conferência de Serviços Gerais”. Muitos fatos aconteceram, muitas considerações, ponderações revestidas de incertezas quanto a viabilidade deste projeto, até que na Conferência da JUNAAB, em Blumenau, foi aprovada por unanimidade, a Recomendação de número 2 da mesma Comissão de Literatura e Publicações que reiterava a criação urgente da Revista Brasileira de A.A. no sentido de canalizar proveitosamente a criatividade dos A.As. do Brasil. Matéria referente a esta Recomendação foi amplamente registrada no Boletim Informativo da JUNAAB – BOB – número 30, de Maio / Junho 1984. No centro das discussões ponderava-se: estaria a Irmandade suficientemente madura para sustentar uma Revista? O que publicaria? Qual seria o nome da Revista? Tamanho, periodicidade? E o encarregado? Cientes de que Alcoólicos Anônimos não é a única saída para quem quer parar de beber, os Companheiros fazem questão de mostrar a mensagem de recuperação e como conseguiram alcançar a tão almejada sobriedade. Considerando–se que o programa de recuperação baseia-se na troca de experiências em Grupo, a Literatura de A.A. relata esse caminho encontrado pelos pioneiros e a Vivência, como veículo de informação tem conseguido estabelecer um elo entre a Irmandade de Alcoólicos Anônimos e a comunidade.
É de um Jesuíta esta reflexão:
“ Na página branca do tempo, escrevemos o que queremos.
Deus nos dá a liberdade.
Cada um escreve a sua história, o seu destino”.
Nós de Alcoólicos Anônimos que pela graça do Poder Superior resgatamos vidas através de princípios espirituais sedimentados no mandamento do amor, devemos nos conscientizar de que – “Amar quer dizer estar disponível para fazer da própria vida um dom, pronto para ultrapassar as fronteiras da existência individual e se consumir para a felicidade dos outros”.
Que o Poder Superior conceda sua graça fecunda de sobriedade a toda família de A.A. e que nos encoraje a exercitar o amor para que a página branca do tempo de nossa vida seja um ramalhete de dedicação e amor ao irmão que sofre as agruras da doença alcoolismo.
Que o Encontro da Revista Vivência seja uma oportunidade para o exercício da convivência fraterna e incentivo para continuarem a prática de levar a mensagem.
Fraternalmente.
JOSÉ NICOLIELLO VIOTTI