Monthly Archives: Dezembro 2014

ENTÃO VOCÊ AMA UM ALCOÓLICO

ENTÃO VOCÊ AMA UM ALCOÓLICO…

Tenha coragem, existe esperança!

O ALCOOLISMO É UMA DOENÇA

A primeira coisa que você deve saber, acreditar e aceitar é que os alcoólicos sofrem de uma doença verdadeira – uma doença que afeta todos que os rodeiam.

A Associação Médica Americana e muitas outras autoridades no mundo inteiro declaram que os alcoólicos sofrem de uma doença sobre a qual não tem controle. O alcoolismo não é causado por fraqueza de vontade, imoralidade ou desejo de fazer sofrer os outros.

Progressos científicos na compreensão desta doença redefiniram idéias antigas, baseadas na superstição, ignorância e preconceito. O sucesso deste enfoque está provado pela poderosa evidência de milhares de recuperações em Alcoólicos Anônimos, Al-Anon e Alateen.

Ao aceitar a idéia de que o alcoolismo é uma doença para a qual as pessoas que bebem de forma problemática, aqueles que se preocupam com elas podem encontrar alívio, não terá motivo para se envergonhar do alcoolismo – ou temê-lo.

APRENDA OS FATOS
Tire da cabeça tudo o que você pensa que sabe sobre o alcoolismo. Depois dedique-se a aprender sobre a doença.

Leia tudo o que for possível sobre a doença do alcoolismo. Grande quantidade de informação pode ser encontrada em bibliotecas públicas na internet.

Ir às reuniões abertas de Alcoólicos Anônimos pode proporcionar, em primeira mão, conhecimentos sobre o alcoolismo dos próprios alcoólicos em recuperação. As reuniões abertas podem ser assistidas por qualquer pessoas interessada no problema do alcoolismo. O AA geralmente é encontrado na lista telefônica.

AGORA AJUDE-SE
Não espere para procurar ajuda. Qualquer pessoa que tenha sofrido com os efeitos da maneira de beber de outra pessoa enfrenta tensões e pressões emocionais constantes e precisa de ajuda para aliviá-las. Você encontrará alívio, compreensão, apoio e calorosa ajuda num Grupo Familiar Al-Anon. Como disse um membro, ali você “aprenderá a viver de novo”.

Os Grupos Familiares Al-Anon (Al-Anon e Alateen) são formados por esposas, maridos, pais, companheiros, filhos e outros parentes e amigos de alcoólicos. Com quase 28.000 grupos no mundo inteiro, pode ser que exista um nas proximidades. Os membros são compassivos, bem informados e conhecem por experiência, problemas exatamente como os seus porque eles também os têm!

O Al-Anon pode estar na lista telefônica. Se não estiver ligue para o AA ou para o serviço local de informação sobre alcoolismo.

Não hesite em assistir por se sentir um estranho; qualquer pessoa que sinta que sua vida possa ter sido afetada pela maneira de beber de outra pessoa é bem vinda.

Fale com os membros antes e depois da reunião; discuta suas dificuldades com eles. Conversas com membros do Al-Anon que compartilham problemas similares o ajudarão a aceitar que o alcoolismo é uma doença, e não um pecado. Compartilhar este conhecimento pode ajudá-lo a iniciar a sua recuperação.

ALGUNS IMPORTANTES “FAÇA” E “NÃO FAÇA”

Se o alcoólico de sua vida ainda está bebendo, aprender o que não fazer é uma parte importante do programa. Substituir essas atitudes por outras mais positivas é igualmente importante.

– Não trate o alcoólico como criança; considere esta pessoa como se estivesse sofrendo de alguma outra doença.

– Participe regularmente de reuniões de Al-Anon e encontre um grupo onde você possa se sentir à vontade.

– Não fique controlando para ver quanto o alcoólico está bebendo, procurando bebidas escondidas, ou jogando bebida fora.

– Procure ajuda entre as reuniões ligando para os companheiros e lendo a Literatura Aprovada pela Conferência (LAC) do Al-Anon diariamente.

– Não aborreça o alcoólico sobre a bebida. Jamais discuta quando ele estiver sob os efeitos do álcool.

– Lembre-se de que não podemos controlar, causar ou curar o alcoolismo.

– Não faça sermões, repreenda ou entre em discussões com o alcoólico.

– Participe, pelo menos de seis reuniões antes de decidir se o Al-Anon é para você.

Essas sugestões podem levar a uma disposição mental mais satisfatória. Todos esses Faça e Não Faça têm boas e sólidas razões que surgiram da experiência de muitos membros.

Os alcoólicos sofrem de sentimentos de culpa muito além do que o não-alcoólico pode imaginar. Fazê-los lembrar dos fracassos, negligência com a família e amigos, ou erros sociais, é perda de esforço. Isso apenas torna a situação pior.

A tática do “se você me amasse” é igualmente inútil. Lembre-se de que o alcoolismo é compulsivo por natureza e não pode ser controlado pela força de vontade. Igualmente inúteis são as promessas, adulações, argumentações e ameaças. Não ameace, a menos que esteja preparado para cumprir a ameaça.

Fique em guarda contra a atitude de julgar mais perfeito. Hostilidade e desprezo não podem curar uma doença e são atitudes inconvenientes.

Às vezes uma crise – a perda do emprego, um acidente ou uma prisão – podem convencer o alcoólico da necessidade de ajuda. Em ocasiões como essas, mimos e superproteção não são úteis. A crise pode ser necessária para a recuperação.

Não faça nada para evitar que essas crises aconteçam – não cubra cheques sem fundo, não pague contas atrasadas, não dê desculpas ao patrão em nome dele. O sofrimento que você está tentando aliviar por meio dessas atitudes pode ser exatamente aquilo que o alcoólico precisa para perceber a seriedade da situação.

SE O ALCOÓLICO PEDIR AJUDA
Muitas vezes, o primeiro sinal do desejo de parar de beber, por parte do alcoólico, ocorre ao final de um período de desespero e falta de esperança. Pode acontecer durante o remorso de uma ressaca, ou pode ser precipitado por uma crise.

É aí que o o seu conhecimento sobre alcoolismo e suas atitudes mais sensatas em relação ao alcoólico serão de grande ajuda. À desesperada pergunta: “O que devo fazer?” simplesmente diga que existe muita ajuda disponível. Se ele pedir sugestões, você pode ser específico, mencionando o AA e outros recursos de ajuda que você possa ter encontrado.

Entretanto, lembre-se de que este resultado não pode ser forçado e pode não ocorrer nunca. O alcoólico precisa estar pronto para receber ajuda antes de poder ser ajudado. Nem mesmo insista para que o alcoólico utilize a palavra “alcoólico”. Até mesmo uma frase como: “Talvez eu tenha um problema com a bebida”, pode significar o reconhecimento da necessidade de ajuda.

Quando ficar claro que o alcoólico quer ajuda, uma conversa com um membro de AA pode ser o próximo passo – não solicitado por você, mas pelo alcoólico.

Seja qual for a medida a ser tomada, a decisão precisa ser do alcoólico. Deve ficar bem claro que ele está dando este passo livremente.

Nessa hora, você pode ajudar a si mesmo mantendo-se em estreito contato com os companheiros e seu Grupo Al-Anon. O Al-Anon pode continuar a ajudar, que o alcoólico ainda esteja bebendo, ou não.

O CAMINHO DE VOLTA
Para os alcoólicos que não adotam o programa de AA, a época da recuperação pode ser difícil. Lembre-se constantemente do Lema “Vá com calma”. Não espere recuperação imediata e completa para o alcoólico ou para a família. Assim como a doença do alcoolismo levou um longo tempo para se desenvolver, a convalescença também é um processo lento. Podem ocorrer o que conhecemos como “bebedeiras secas”, isto é, tensões emocionais do alcoólico que não tem nada a ver com a bebida. Seja paciente. Nessas ocasiões, você pode achar que as coisas estão piores do que quando ele bebia, mas não estão. Paciência e tolerância vão ajudar a passar essas horas difíceis.

Durante um ano ou mais, depois de parar de beber, a fadiga extrema pode ser um dos sintomas do alcoólico pela falta do álcool. Não tente forçar as coisas. Planeje suas próprias atividades e continue a ir às reuniões do Al-Anon.

Não seja superprotetor. Os alcoólicos em recuperação precisam aprender a viver num mundo onde se consome álcool e responder por si mesmos.
Previna-se contra ciúmes e ressentimentos com relação ao método de recuperação escolhido. Muitos alcoólicos precisam de reuniões diárias de AA. Apenas lembre-se que é um tratamento para uma doença. Seja grato ao fato do alcoólico procurar recuperação mesmo que isso signifique que ele se ausente de casa para receber ajuda.
À medida que o alcoólico se livrar dos velhos amigos, hábitos e fantasmas das bebedeiras, haverá tempo para outros entusiasmos, inclusive o AA. Incentive a mudança. Quando você começar a encontrar atividades interessantes para si mesmo no Al-Anon, isso tira o foco do alcoólico e você se torna responsável por sua própria felicidade. Ambos estarão no caminho de uma nova vida juntos, cada um a seu próprio modo.
Todos podem ter recaídas e retrocessos. Não os leve a sério. Acredite que foi formada uma base firme para a recuperação. Se você achar que um dos dois cometeu erros, aprenda com esses erros e esqueça-os. Desligue-se das decepções e retrocessos e siga em frente!
O caminho a trilhar não é sempre fácil, mas pode ser cheio de maravilhosas recompensas. A recuperação dos efeitos do alcoolismo é possível. O Al-Anon pode ajudar.
Os Grupos Familiares Al-Anon são uma associação de parentes e amigos de alcoólicos que compartilham sua experiência, força e esperança, a fim de solucionar os problemas que têm em comum. Nós acreditamos que o alcoolismo é uma doença que atinge a família e que uma mudança em nossas atitudes pode ajudar na recuperação.
O Al-Anon não está ligado a nenhuma seita, religião, movimento político, organização ou instituição, não se envolve em qualquer controvérsia, nem endossa ou se opõe a qualquer causa. Não existem taxas para ser membro. O Al-Anon é auto-suficiente através das contribuições voluntárias de seus próprios membros.
O Al-Anon tem apenas um propósito: prestar ajuda a familiares e amigos de alcoólicos. Fazemos isso, praticando os Doze Passos, encorajando e compreendendo nossos parentes alcoólicos, bem como acolhendo e proporcionando alívio a familiares de alcoólicos.

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O DILEMA DO CASAMENTO COM UM ALCOÓLICO

O DILEMA DO CASAMENTO COM UM ALCOÓLICO

A Opinião de um Membro de AA

Embora ela (a esposa) possa ter aprendido no Al-Anon que ninguém pode entender as motivações de outra pessoa, se sente frustrada pela incapacidade de entender “o que aconteceu com meu casamento”.
A explicação seguinte, por um alcoólico sóbrio em AA, é oferecida como um ponto de vista da situação de um homem. Pode ou não ser típica, mas ajuda a esclarecer um pouco a atitude do alcoólico recuperado.
“Conversei com muitas pessoas em AA sobre problemas conjugais e suas causas, e o que tenho a dizer aqui é uma espécie de resumo daquilo que sei, baseado em minha própria experiência e naquilo que ouvi de outros.
“O problema sexual do alcoólico que parou de beber parece vir de um condicionamento tão complicado que é difícil, senão impossível, explicar mesmo as versões que conheço. Quero enfatizar que minhas conclusões não se aplicam a casos gerais, mas apenas a certas situações.
“Acho que muitas vezes poderíamos obter um quadro mais nítido do problema se levássemos mais em conta as razões que deram origem ao casamento e como as personalidades básicas dos parceiros reagem uma à outra. Por exemplo, uma das características conhecidas do alcoólico é a dependência. Sua tendência é procurar uma esposa maternal, alguém em que possa se apoiar. Por conseguinte, quando encontra a mulher com que quer se casar, é uma mulher que tenha instinto maternal altamente desenvolvido e que, por sua vez, queira um homem para mimar e proteger.
“Poderia parecer que duas pessoas desse tipo realmente se completariam e, portanto, realizariam um casamento ideal, pois, cada um supriria as necessidades do outro. Mas para começar, um relacionamento mãe-filho não é bastante confiável para um casamento adulto. Independente do alcoolismo, eles já estão se encaminhando para problemas.
“Depois, quando o alcoolismo acentua a dependência do alcoólico e o fardo se torna demasiado para a esposa, ela se refugia em autopiedade e ressentimento.
“Sua atitude frente a ele, embora possa ser inconsciente, não consegue transformá-lo num homem de responsabilidade. A atitude dele frente a ela, à medida que sua maneira de beber se torna cada vez mais compulsiva, é de um desapontamento inconsciente de que ‘mamãe’ falhou esperando que ele crescesse.
“Quando este homem encontra a sobriedade em AA e realmente pratica o programa dos Doze Passos, com certeza ocorrerão mudanças no seu relacionamento conjugal para as quais nenhum dos dois está preparado. Ele toma a decisão de crescer, de assumir suas responsabilidades, de fazer sua sobriedade valer em termos de vida adulta. Ele quer vencer sua dependência e deixar para trás o negócio de ‘mamãe’. Mas esse desejo, por si só, não pode mudar a atitude ou o comportamento da esposa, e a brecha entre eles aumenta. Eles jamais poderão voltar às primeiras fases do casamento, pois, ele já não quer se apoiar nela.
“Como desde o início sua esposa tem sido para ele uma imagem maternal, talvez ele também tenha sentimentos profundamente arraigados a respeito de suas relações sexuais com ela, e isso tenderá a fazer com que se afaste dela como parceira no casamento.
“Não estou dizendo que isso seja claramente compreendido pelas pessoas envolvidas em tal situação, mas o sentimento existe e pode transformar o relacionamento do casal em algo que nenhum deles acha tolerável.
“Outra maneira de tentar visualizar essa dificuldade é compreender que o alcoólico é basicamente inseguro e, portanto, procura um parceiro mais forte. Quer seja a imagem da mãe, a imagem do pai ou a imagem de Deus, em sua mente ele criará aquela que sua necessidade exige e cuidadosamente a protege de qualquer coisa que possa expor sua fraqueza ou reduzir sua importância na sua mente.
“Conheci muitos homens alcoólicos que eram tão fortes e masculinos que ninguém jamais imaginaria que fossem dependentes, particularmente de uma mulher. Eles podem se queixar de suas esposas de modo superficial: ‘ela é uma péssima cozinheira, uma dona de casa desleixada, não faz nada a não ser ir ao cinema e jogar cartas’. Mas essas queixas são apresentadas apenas como uma desculpa para beber e, portanto, nada significam. Eles nunca falam de suas esposas como pessoas fracas, desamparadas ou burras. Isso eles nunca fariam, porque estariam destruindo o baluarte de proteção que suas esposas representam para eles, seu escudo contra um mundo ameaçador.
“O alcoólico muitas vezes atribui à esposa características e atitudes que existem unicamente em sua mente. Ele pode coloca-la numa posição de superego, uma espécie de divindade, não uma divindade meiga e indulgente, mas punidora. Isso também satisfaz uma de suas maiores necessidades. Vencido por esse terrível sentimento de culpa, o alcoólico, na realidade, quer ser punido porque quer que sua culpa seja aliviada. E quando ela o censura, o insulta, briga com ele, o ‘culpado’ sente um alívio como se tivesse pago pelos seus pecados. Desse modo, ela está fazendo o jogo dele e possibilita que ele encontre desculpas para continuar bebendo. Ela, ao mesmo tempo, aliviou seus sentimentos reprimidos quanto à irresponsabilidade e negligência do marido, e nessa interação doentia, o casamento com um alcoólico muitas vezes continua ano após ano sem que ninguém faça qualquer coisa para quebrar esta rotina destrutiva.
“Se ela é carinhosa e sofredora, sua imagem aumenta o sentimento de culpa do marido e o impele ainda mais na sua busca de esquecimento no álcool.
“Mas em ambos os casos, quer ele esteja bebendo ou tenha ficado sóbrio, inconscientemente ele a forçou a permanecer num pedestal onde a considera inacessível. Sendo alcoólicos, nós nos sentimos como uns patifes que não temos o direito de fazer amor com uma pessoa que ocupa tão sublime posição em nossas vidas. Em alguns casos, sentimos que participamos de prazeres do ‘diabo’ e, por conseguinte, não nos sentimos à vontade com um ‘anjo’.
“Algumas vezes, por causa de sórdidas complicações que podem acontecer durante os apagamentos, ou mesmo devido ao julgamento deturpado provocado pela euforia alcoólica, ele pode equacionar álcool e sexo como males, e tendo tomado medidas para vencer sua dependência pelo álcool, também se afasta do sexo.
“Em outros casos, as dificuldades para fazer um ajustamento sexual depois da sobriedade podem também ser devidas a uma atitude muito rígida por parte da esposa. Digamos que uma crise levou o alcoólico para AA. Ele começa a corrigir seus defeitos de caráter e está aprendendo a olhar a vida com mais realismo. À medida que luta para fazer esta lenta escala de volta à sanidade, sua esposa talvez continue a relembrar suas falhas do passado. Ela pode se ressentir com a dedicação dele ao AA, que o leva a tantas reuniões. Em outras palavras, ele está crescendo ao passo que ela está encalhada em seus velhos ressentimentos que a mantêm zangada e confusa.
“Parece-me que a única esperança de resolver dificuldades desse tipo é a esposa recorrer ao Al-Anon, onde ela pode aprender a compreender sua situação mais claramente, e como vencer seus defeitos que contribuíram para a discórdia no seu casamento. Quando ela descobrir que não está inteiramente isenta de culpa em tudo o que aconteceu, eles podem seguir adiante juntos e estabelecer um relacionamento de respeito, tolerância e afeição mútuos”.

Trecho extraído do livro O DILEMA DO CASAMENTO COM UM ALCOÓLICO, LAC B-4, Págs: 41 à 45.

A ORAÇÃO DA SERENIDADE E A RECUPERAÇÃO EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

A ORAÇÃO DA SERENIDADE E A RECUPERAÇÃO EM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

CICLO DE LITERATURA
Área 1 – Setor 5 – Distrito 29
OS DOZE PASSOS
Dias 3 a 5 de outubro de 2014
Na cidade do Rio de Janeiro

Dr. Laís Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Depoimentos, feitos por membros de A.A. em reuniões de grupos, frequentemente mostram que os alcoólicos na ativa procuravam ter controle absoluto sobre os seus sentimentos e sobre o seu ambiente. Na chamada “fase ativa”, bebiam para relaxar, para ficar “altos”, para ficar espirituosos, para abrandar a dor – para controlar. Mas, no mundo real, as coisas não são assim e a verdade é que o nosso ânimo depende, em boa medida, de situações e até de pessoas, e elas estão fora do nosso controle. Bebiam também para negar esta dependência.

Ao usar o álcool, procuravam negar a limitação da vontade e também a sua dependência e, aí, ela se tornava absoluta. Procuravam o controle ilimitado e a negação da dependência. Mas, existir como ser humano significa ser limitado e não há absolutos nem ilimitados no nosso humano poder.
___________________

O A.A. mostra que somos tanto parcialmente dependentes como também capazes de ter algum grau de controle, que é, desse modo, apenas parcial. Mostra, também, que a verdade é que o ser humano está sempre ajoelhado, a meio caminho entre estar de pé e de estar deitado. Nem sobre pedestal, nem rastejando.

A Irmandade de A.A. sugere: “Levante-se com as suas pernas, pois você pode fazer algumas coisas, mas não todas as coisas”. O A.A., por outro lado, modera a tendência para a grandiosidade dizendo: “Ajoelhe-se, você pode fazer algumas coisas, mas não todas as coisas”.

Há um jogo de “pode” e “não pode” que é sintetizado, magistralmente, na Oração da Serenidade: ”Concedei-nos Senhor a Serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar (não pode), coragem para modificar aquelas que podemos (pode) e sabedoria para distinguir umas das outras”. ElA retrata a condição humana em relação ao “pode” e “não pode” e mostra o caminho para esse reconhecimento a partir do qual a paz e a serenidade de espírito podem ser alcançadas.

O alcoólico “na ativa” é uma pessoa que “tem” que beber, mas “não pode” beber. Mais tarde, ao longo da prática do programa de recuperação, o alcoólico percebe que não abre, propriamente, mão da “liberdade de beber” mas que ganha a “liberdade de não beber” e compreende que o alcoólico não é uma pessoa que “não pode beber” mas sim uma pessoa que “pode não beber”, que dispõe de um novo poder, o de não beber. É preciso aceitar o paradoxo para poder entender melhor a natureza humana e esse jogo do “pode” e “não pode”, que é de importância fundamental para se dar conta do nosso humano modo de ser e alcançar a serenidade. Assim, o alcoólico percebe e compreende toda a dimensão de grandeza contida na Oração da Serenidade.

A Oração da Serenidade é comumente atribuída ao teólogo protestante Reinhold Niebuhr que a apresentou nos anos 1940 e, segundo consta, o A.A., em suas reuniões, teria começado a usá-la no ano de 1942. O segredo do poder dessa oração está na sua linguagem humilde, nas suas lições simples e na sua história não particularmente romântica. É uma mensagem tanto pessoal quanto universal, tão fácil de entender quanto difícil de aplicar na prática. É uma oração simples, mas poderosa e útil, um guia para a integração espiritual, para o equilíbrio emocional, para nos relacionarmos com a nossa vida e ainda para alcançarmos algum grau de serenidade.
Até aqui, nos detivemos no primeiro tesouro da oração, que poderíamos chamar de “conhece a ti mesmo”, célebre dito de Sócrates. O filósofo não estava voltado para o fundamento da teoria das coisas (arké), mas sim para a nossa relação conosco mesmo, com os outros e com o mundo. Sócrates tomou as palavras do dito de uma inscrição, existente num templo na cidade de Delfos, na Grécia, para construir a sua filosofia. Ele não estava preocupado com as coisas: riqueza, fama e poder, mas com o caminho de acesso à verdade e aqui, não uma verdade qualquer, mas com a verdade que transforma o nosso próprio ser, ou seja, que promove a nossa auto transcendência. Vamos refletindo acerca do que é preciso mudar quanto a nossas ações e atitudes e de como podemos fazer para modificá-las. Isso é algo que podemos fazer sempre e, assim, vamos nos construindo gradativamente; como um artista constrói a sua obra de arte, vamos nos moldando e aperfeiçoando ao longo do caminho de recuperação. Nesse ponto, é oportuno lembrar outro pensamento muito importante na história da humanidade, esse de Píndaro, pensador e poeta grego: “Homem, torna-te o que tu és”.

O outro tesouro da oração está na busca da sabedoria necessária para distinguir as coisas porque, sem a sabedoria para distinguir a diferença entre as coisas que podemos modificar e as que não podemos, a oração não teria resultados práticos. O modo pelo qual aprendemos a ter sabedoria é aprendendo a praticar o discernimento. Ao discernir o suficiente para aceitar as coisas que não podemos mudar, tornamo-nos também capazes de mudar alguma coisa que está na nossa capacidade, ou seja, mudar a nossa atitude diante das coisas. Ao aprendermos a desistir de qualquer atitude de força, estamos identificando o que está nos levando a não aceitar a realidade, e chegamos a um nível de serenidade na vida que, às vezes, nos assusta, mas também assusta observar que a maioria das pessoas no mundo ainda não tem uma chave, um modo, para tornar as suas vidas mais fáceis e felizes, e essa inabilidade leva a conflitos de toda ordem. Fazer a Oração da Serenidade é um modo de criar paz no mundo, e ao nos dedicarmos à nossa recuperação individual, podemos curar também o mundo.

Nesse ponto, é indispensável que nos detenhamos no estudo do conceito da palavra discernir, assim, ela significa: 1-perceber, reconhecer 2-discriminar mentalmente, reconhecer coisas como separadas e diferentes 3- distinguir, discriminar 4-perceber características distintas ou peculiares, como entre centenas de cores 5- discriminar o certo do errado. O discernimento trata do aprender a separar a verdade, da mentira; a ilusão, da realidade; a fantasia, dos fatos; o impulso emocional, da orientação intuitiva; de ser vitimado, do sentir-se vítima. Trata de reconhecer a diferença entre uma pessoa que pode ser tida como de confiança daquela que nos trai.

O estudo do significado da palavra discernir é indispensável porque é a partir da prática do discernimento, exercido em relação aos fatos da vida, que fazemos a escolha entre o bem e o mau e essa escolha ocorre exatamente no momento que antecede as nossas ações sendo que é a partir desse discernimento e dessa escolha, que agimos, segundo critérios que entendemos necessários para a vida moral, a boa vida, a vida moralmente adequada. A liberdade de escolha é fundamental para o que entendemos como moral, que é um conjunto de costumes adotados a partir das escolhas que fazemos entre o bem e o mal, isto é, a partir de uma posição ética. A moral é um conjunto de regras de conduta consideradas válidas e a ética é o estudo da conduta do ponto de vista do bem e do mal, do que é bom e do que é ruim. Ao longo do processo de recuperação, os companheiros adotam um comportamento orientado a partir de uma posição ética e assim desenvolvem um comportamento moral, uma vida moralmente adequada. A partir de uma posição ética e da boa moral, o membro de A.A. passa a ter caráter, a ser uma pessoa de caráter, entendido este como o conjunto de qualidades de um indivíduo que lhe determinam a conduta e a concepção moral; ademais, os princípios, muito claros e bem definidos, dessa ética estão nos 36 Princípios de A.A.; e tudo isso é um verdadeiro milagre.

A prática do discernimento é necessária para aprendermos a confiar em nós mesmos e a nos amar. É necessária para sermos capazes de viver de modo maduro e adulto e também para que possamos ter a oportunidade de desenvolver relações sadias.

Quando dedicamos atenção excessiva às coisas que não podemos modificar, estamos gastando uma energia física, emocional e mental que poderíamos direcionar para outra direção. Aceitar que há coisas que não podemos modificar não nos torna acomodados, pois o fato de aceitar se constitui num ato de fé, pois que confiamos que Ele fará as coisas certas, se nos submetemos à Sua vontade. Fazemos então a escolha de deixar fluir e ter fé nos resultados.

Um dos maiores desafios está em imaginar como as nossas vidas poderiam ser diferentes do que são agora.Frequentemente os nossos hábitos, profundamente enraizados, são os nossos maiores inimigos, e identificá-los já representa ter percorrido a metade do caminho. Partindo do fato de que os hábitos ganham poder por meio da repetição, o foco real e a perspectiva de olhar para nós mesmos e para os nossos hábitos está em perguntar: “É dessa maneira que eu realmente desejo viver?”. Como estabelece a Oração da Serenidade, este ato de auto investigação não é nada menos do que um ato de coragem. E fica uma pergunta já feita por um grande escritor: “Se você deseja colocar as coisas nos lugares certos, você deveria começar por você ou pelos outros?”

Como estabelece a oração, devemos aceitar as adversidades, provações e sofrimentos como sendo o caminho para a paz. Cada pessoa se defronta com obstáculos no curso da sua vida e isso é natural. Não devemos olhar para esses obstáculos como representando um potencial de frustração ou falha, mas como oportunidades de crescimento e aprendizado, e então poderemos ir além, transcender as nossas circunstâncias.

A palavra rendição tem uma conotação negativa; nós a associamos com resignação, falha ou fraqueza. Mas a Oração da Serenidade rearruma a noção de rendição como sendo um ato de fé e de confiança. A sabedoria da oração reside em mudar uma vida de “e se eu?” sem fim por uma vida de confiança em poderes que estão além de nós mesmos.

Há algo de universal na calma celebração, no entender o nosso próprio potencial, no reconhecer os nossos limites e a nossa capacidade de transcender.

A PRIMEIRA MULHER QUE FOI EXPULSA DO AA

A primeira Mulher que foi expulsa do AA
E tornou-se a razão da nossa Tradição #3

A pioneira de AA Sybil Corwin fala de história…

Isto me foi passado por um amigo. Penso que vocês gostem deste pedacinho de nossa história sobre um dos “porquês” de termos Tradições.

Esta é a história de Irma Livoni. Todos os anos por volta desta época, eu tento contar esta verdadeira história sobre o que aconteceu em 7 de Dezembro de 1941 (Dia da Invasão de Pearl Harbour pelos Japoneses) mas não só por isso e sim para contar o que aconteceu a uma das poucas mulheres que estava em AA naqueles tempos e sobre uma carta que ela recebeu pelo correio na segunda-feira, dia 8 de Dezembro, que literalmente, a expulsou de AA.

Em Dezembro de 1984, eu estava sóbrio há já 2 anos e meio, e trabalhando com meus padrinhos B ob e Sybil Corwin desde Janeiro. Sybil parou de beber em Março de 1941 e a esta altura estava, portanto, sóbria a 43 anos. Estávamos voltando para casa de carro de uma reunião e ela me perguntou a data (ela só sabia que era domingo). Eu a informei que era 8 de Dezembro e que no dia anterior (7 de Dezembro) fora o aniversário do Dia da Invasão de Pearl Harbour.

Ela disse: “Matt, eu já te contei sobre Irma Livoni?” “Não,” respondi. “Quem é ela?” Ela disse: “Bem, quando chegarmos em casa, entre para um café e eu te conto uma estória sobre a história de AA e algumas das razões pelas quais temos a nossa Tradição 3. Aliás, Matt, você sabia que nossa literatura fala especificamente de “pederastas, doidos varridos e mulheres decaídas” ? e já que eu e você somos pelo menos duas de tais pessoas, deveríamos estar especialmente agradecidos à Tradição 3. Eu lhe mostro quando chegarmos em casa.”

Eu ri alto e bom som uma vez que a Sybil possuía um grande senso de humor e ela já fora uma dançarina de boite antes de ficar sóbria, sabe, daquelas que cobravam 10 centavos por cada dança, e desde então já se divorciara duas vezes e era uma mãe solteira além de alcoólica naquele tempo, portanto descrevê-la como “uma mulher decaída” não estava longe da verdade de então.

Ela me disse que era muito diferente nas décadas dos anos 30 e 40 para uma mulher que fosse alcoólatra. Sybil disse que era um tempo quando as mulheres usavam chapéus e luvas e “mulheres de respeito” dificilmente seriam vistas em bares ou em festas de arromba. Nossos estudos dos Passos às quintas-feiras haviam resolvido para não abordar as Tradições antes de chegarmos ao Passo 12, portanto, imaginei que estas não seriam muito importantes e pensava que provavelmente eu morreria de tédio com esta conversa, mas ela prendeu minha curiosidade falando que nossa literatura se referia a “pederastas, doidso varridos e mulheres decaídas”, então concordei em entrar para um café. Além disso, Sybil já estava sóbria há mais tempo que eu tinha de vida. Eu não discutia muito com ela…

Em casa, Sybil pegou seu exemplar do Grande Livro. E disse, tome, quero que você me encontre as tradições aqui e leia para mim a Tradição 3. Aquele exemplar era a primeira edição do Livro Grande. Muito maior que o meu. Eu perguntei falando do tamanho do livro: “É por isso que chamam de Livro Grande ou Grande Livro?” Ela disse, “exatamente. Bill mandou imprimi-lo em folhas grandes, com amplas margens em volta do texto para que as pessoas achassem que estavam recebendo algo “volumoso” pelo seu dinheiro.”

Eu olhei no final do livro onde pensei que estariam as Tradições, mas não as encontrei. Disse: “Eu não consigo encontrá-las Sybil.” Ela respondeu: “É claro. Isto é porque ainda não tinhamos quaisquer tradições pelos idos de 1941 quando eu ingressei, e Matt, AA estava em risco mortal de se destruir, e é por isso que agora temos as Tradições.” Então ela me mandou procurá-las no meu exemplar da 3ª edição e no meu livro dos 12 mais 12.

Eu não a li por inteiro. Só o enunciado sob o título, e ela então começou a me contar a história de IRMA LIVONI.

Irma era uma de suas afilhadas. Também ingressou em 1941, logo após ela mesma. Sybil a acolheu em sua casa. (Ela me contou que naquele tempo, o fundo de poço de muitos era bem fundo, sem casa, sem trabalho, sem relógio, sem carro, nada). Sybil disse que era muito diferente naquele tempo para uma mulher ser uma alcoólatra. Que a maioria delas havia queimado todas as pontes atrás de si de acesso às suas famílias, e eram olhadas por cima e depreciadas, muito mais que os alcoólatras masculinos. Sybil contou que ela ficou observando o AA ajudar Irma a ficar sóbria, limpa e construir uma nova vida e conseguir sua primeira moradia através da sobriedade.

Aí ela contou que no dia 5 de Dezembro de 1941, um grupo auto-proclamado de membros assinou uma carta dirigida a Irma e a postou no correio dois dias antes do Dia de Pearl Harbour, naquela mesma sexta-feira, 5 de Dezembro.

Eis uma cópia dessa carta.

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ALCOÓLICOS ANONIMOS
Caixa Postal 607
Hollywood, C alifornia

5 de Dezembro de 1941

Irma Livoni
939 S. Gramercy Place
Los Angeles, California

Prezada Sra. Livone:

Emu ma reunião do Comitê Executivo do Grupo de Alcoólicos Anonimos de Los Angeles, tida em 4 de Dezembro de 1941, foi decidido que sua freqüência às reuniões do grupo não era mais desejada até que viessem a ser dadas certas explicações e planos para o futuro que satisfaçam o comitê. Esta decisão foi tomada por razões que deverão ser claramente evidentes para a senhora. Foi decidido que, se assim desejar, poderá comparecer diante dos membros deste comitê e declarar sua atitude.

Esta oportunidade lhe será concedida entre a data atual e 15 de Dezembro de 1941. V.Sa., pode comunicar-se conosco no endereço acima até aquela data.

Caso não deseje comparecer, considerarmos o assunto encerrado e sua participação encerrada.

Alcoólicos Anonimos, Grupo Los Angeles
Mortimer, Frank, Edmund, Fay D., Pete, Al

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Eu estava atônito. “Como eles puderam fazer isto Sybil?” É porque nós não tinhamos quaisquer guias de orientação, quaisquer tradições para nos proteger dos bem intencionados. AA era ainda muito nova, e as pessoas faziam muitas coisas pensando que estavam protegendo a Irmandade.”

Sybil então me disse para fechar os olhos e imaginar que eu estava naquele tempo e cenário. Ela explicou novamente que o dia 7 de Dezembro era o dia da invasão de Pearl Harbour, um domingo. Ela disse que naquele domingo, todo mundo em Los Angeles estava com medo de que a cidade também seria atacada e bombardeada. A energia foi desligada e a cidade estava às escuras, tanto que se temia tal ataque. Ela contou que no dia 8, segunda-feira, o Presidente Roosevelt discursou dizendo que aquela data viveria na infâmia e que daquele fato em diante estávamos em guerra com o Japão e com a Alemanha.

E foi naquele dia que Irma recebeu a carta. Naquele tempo só existia uma única reunião em todo o estado da California, quando a própria Sybil havia ingressado em 1941. Em Dezembro pode ser que já havia outros 2 ou 3 grupos, mas Irma não tinha para onde ir, ninguém a quem recorrer, e não havia nenhum outro grupo na California a que ela pudesse pedir ajuda.

“Imagine,” disse Sybil. “Somente 1 ou 2 reuniões em todo o seu estado, e você sendo rejeitado pela própria família e pela sociedade e pelo único grupo de pessoas que estavam do seu lado, seu grupo de AA todo. Imagine eles fechando a porta na sua cara e lhe mandando tal carta.”

Eu estremeci ao pensar nisso. Era época natalina, as lojas estavam decoradas e a pobre Irma ficou sozinha. Eu viajei mentalmente para pensar como era em 1984, quando já havia cerca de 2000 reuniões por semana só na California do Sul, e então imaginei como seria não haver nenhuma ajuda para um alcoólatra desesperado.

Sybil me contou que a Irma nunca mais voltou a uma reunião, deixou o AA e morreu de alcoolismo. Ela chegou a escrever ao Bill sobre o incidente, e eu não posso lhe dizer que esta foi a razão, mas parece que o trecho seguinte da Tradição 3 se aplica exatamente sobre tal situação.

Trecho da Tradição 3, do livro 12+12, página 141:

“… de que jamais puniríamos ou privaríamos quem quer que fosse de fazer parte de AA; de que jamais devemos compelir qualquer um de pagar seja o que for; acreditar ou conformar-se com o que quer que fosse. A resposta a isto agora contida na Tradição 3 é simples por excelência. Finalmente, a experiência tinha nos ensinado de que, privar a qualquer alcoólico da oportunidade integral, era freqüentemente ditar-lhe a sentença de morte, e não raro condená-lo à miséria (desgraça) infindável. Quem ousaria ser juiz, júri e carrasco de seu irmão doente?”

JUIZ, JÚRI E CARRASCO. Me lembro de olhar para estas palavras repetidamente. A cada vez pareciam-me crescer cada vez mais.

JUIZ, JÚRI E CARRASCO
JUIZ, JÚRI E CARRASCO
JUIZ, JÚRI E CARRASCO
Na realidade, eu não havia notado “carrasco” quando li este trecho a primeira vez no meu grupo de estudos. Mas agora, senti-me mal novamente por esta pobre senhora. Puxa. Estas palavras passaram a ter um significado muito mais profundo agora do que da leitura anterior. Então eis que, 23 anos mais tarde, e em cada 7 e 8 de Dezembro, sempre me lembro da Irma Livoni, e imagino o quanto sou afortunado de agora termos tradições. Penso também o quanto eu foi feliz de conhecer a Sybil e afortunado por ela ter-se se proposto a ser minha madrinha.

Anos mais tarde, entendi que tudo que ela me havia ensinado era tesouro, mas em 1984 eu ainda não fazia idéia de quem a Sybil era realmente nem quanto eu era feliz por tê-la como madrinha. Ela era uma peça ambulante da história viva mas eu só entendi o quanto era importante isso para compreender porque nós fazemos algumas coisas tais como a história que ela me contou de que antes eles nunca diziam “Olá Sybil” ou ninguém dizia “Olá, meu nome é Matt e eu sou um alcoólico” naqueles tempos idos.

Além de ser uma das primeiras mulheres em AA, Sybil foi a primeira mulher a oeste do Mississippi. Ela também se tornou e coordenou o escritório central de Los Angeles por 12 anos, e tornou-se uma amiga intima de Bill e Lois. Ela e seu Bob até costumavam passar férias com eles. Ela costumava me contar todo tipo de histórias sobre Bill Wilson e as coisas que ele dizia a ela.

Ele sempre se interessou muito em saber como o AA funcionava para as mulheres, já que naquele tempo havia muito poucas no AA mundial. Marty Mann chegou antes de Sybil; mas poucas das que vinham ficavam sóbrias.

Naquela noite aprendi que ninguém pode ser expulso de AA. Podemos convidar um bebado que nos perturbe a ficar quieto, ou podemos convidá-lo para fora da sala naquele dia, mas não votamos para expulsar quem quer que seja de vez.

Nem desprezamos qualquer pessoa por causa de nossas linhas guia, e nossas tradições nos dizem que ninguém tem que acreditar em nada (ninguém sequer precisa gostar de mim) nem tem que aceitar conformadamente qualquer coisa; não têm que se vestir de alguma maneira definida, ou fazer a barba, ou pagar qualquer coisa. Mesmo que eu volte novamente a ficar bêbado, ainda continuarei a ser bem vindo a uma reunião de A.

Esta é, portanto, a história de Irma Livoni. Passe isto adiante a vontade, para qualquer um que voce ache que possa se interessar em saber um pouco mais do como e porque as tradições surgiram. Para mim, esta história da rosto e forma à Tradição 3, o rosto de uma mulher que nunca conheci, e que foi expulsa de AA. Que voltou a beber e morreu.

Notas:
(Este relato foi escrito originalmente em 1984)

Sybil foi a primeira mulher a ficar sóbria em AA a oeste do Rio Mississippi. Ao se recuperar de uma ressaca em uma sauna pública de Los Angeles, ela se deparou com um exemplar da revista Saturday Evening Post datado de 1 de Março de 1941, e leu o artigo de Jack Alexander sobre Alcoólicos Anonimos. Ela escreveu ao AA de New York, e Ruth Hock, secretária de Bill W., respondeu-lhe uma semana depois, levando-a a ingressar no “Grupo Mãe” de AA em Los Angeles. Sybil permaneceu sóbria por toda sua vida, administrou o Escritório Central de Los Angeles por muitos anos e antes de sua morte, tornou-se o membro sóbrio mais antigo de AA.

O companheiro John M, dos Steppers da OIAA, ele próprio acabando de completar 43 anos, teceu os seguintes comentários adicionais a esse respeito:

Grato por postar isso Ewart. Eu participei de reuniões com a Sybil C nos anos 70 em Los Angeles e ouvi suas partilhas muitas vezes. Penso que a nossa “cotovia” Toni (também membro dos Steppers atuais) também a conheceu. Sybil faleceu em 1998. Ela era muito eloqüente e ela mesma uma parte importante da história de AA. Permaneceu sóbria por quase 60 anos de sua longa vida. Ela com certeza tornou-se a mulher sóbria mais antiga de AA ao falecer.
… … … Naquele tempo, eu mesmo vi uma cópia carbono da tal carta datilografada do Comité Executivo e o texto que você passou é exatamente esse, exceto que ela foi assinada pelos membros com seus nomes completos. Essa cópia está arquivada no Escritório Central de LA…

Mas, informações posteriors afirmam que Irma Livoni parece não ter morrido de voltar a beber como se acreditou e temeu. Ela teria vivido outros 35 na vizinha cidade de Long Beach e morreu em 1974… Esta última informação vem do grupo no Yahoo Amantes da História de AA (AA History Lovers-yahoogroups), que vem pesquisando o assunto há algum tempo.

Mas é indubitável que este caso teve um forte impacto sobre Bill W e tornou-se o alicerce por trás da Terceira Tradição de AA.

NÓS TEMOS O QUE TEMOS

Nós temos o que temos
Outubro de 2001
Nas reuniões do meu grupo, sempre é lembrada uma frase para verificar como estamos: nós temos o que temos, o importante é o que fazemos com isso.
Quando fazia faculdade, frequentei as reuniões de A.A. em Iowa por dois anos e lá aprendi uma pergunta para adicionar na minha lista do Décimo Passo: Ainda estou aprendendo?
Essas duas ideias me ajudam a parar com meu permanente descontentamento com um trabalho que parecia ser indigno pra mim. Mesmo me sentindo constrangido de dizer para meus novos amigos o que faço pra ganhar a vida, os fatos comprovam uma história diferente.
Com dez anos de sobriedade, recém-formado, qualificado como escritor, tinha planos de escrever um livro de grande sucesso que fosse publicado. Mas precisava pagar minhas contas. Comprei um terno para ir a entrevistas, fui para casa e fiquei de joelhos naquela tarde, orei para que a vontade de Deu fosse realizada na minha busca por emprego.
Em menos de dez minutos, meu telefone tocou. No hospital da cidade, onde eu tinha trabalhado como zelador nas férias da faculdade, queriam saber se eu poderia cobrir as férias dos funcionários. Depois de uma rápida reunião com o encarregado, ganhei um trabalho fixo de trinta horas semanais que pagaria minhas contas, me daria um seguro saúde, me daria tempo livre para as reuniões e deixaria as manhãs livres para escrever. Eu não estava empolgado com o trabalho, mas a situação era inacreditável. E vamos lembrar: foram eles que me ligaram.
“Veja”, disse para mim mesmo, “estou sóbrio, trabalhei os Passos, ganhei HUMILDADE, posso fazer isso por um ano, talvez dois. E usarei o terno se tiver que me candidatar para um trabalho DE VERDADE.”
Seis anos depois…
O terno novo foi usado em dois casamentos. Uma caixa de papelão lotada de manuscritos, a maioria não publicada, ocupa o chão do armário do meu escritório. Entre os manuscritos, estão a minha tese do mestrado, meu curriculum e cópias de formulários e inscrições para todas as editoras das redondezas e também para algumas editoras mais distantes.
Depois de muitas mudanças de horário, várias promoções por merecimento, orações ardentes e temerosas, e incessante disputa entre as minhocas dentro da minha cabeça, ainda estou limpando o chão, indo a reuniões, prestando serviço, apadrinhando outras pessoas e escrevendo pelas manhãs. Recentemente, depois de pedir para trabalhar período integral, fui procurado para chefiar o departamento. Convidaram-me mais uma vez. É um trabalho de verdade, respeitável, desafiador, bem pago e uma contribuição genuína a uma organização voltada à prestação de serviços. E a melhor parte: não precisava usar terno nesse trabalho.
Tive que dizer para eles que meu coração está em outro lugar. Fazer o trabalho básico é o que eu preciso, não preciso de mais responsabilidade. Mas fiquei grato pela consideração e disse que poderia mudar de opinião no futuro.
Não menti. Mas a verdade é que trabalhar no mais baixo escalão me mostrou coisas a meu respeito que eu não tinha visto em vários Quartos e Quintos Passos: eu lutava constantemente com controle e apego. Megalomania infantil AINDA me instiga a transformar cada pequena disputa numa questão moral. Um perverso instinto por infelicidade insiste que eu tenho que estar certo. Não tenho muita habilidade para gerenciar. E também não tenho a fibra emocional necessária para lidar com um trabalho que exigisse mais de mim, não conseguiria continuar escrevendo – o que estou determinado a fazer.
A parte do trabalho que sempre me surpreende, na verdade, é o prazer que tenho pelas pequenas maneiras de ser útil – servir – aos outros, deixando-os gratos de verdade. Minha mente alcoólica, ainda viva e cacarejando, tenta evitar esses sentimentos, dizendo que esse não é meu trabalho de verdade.
Mas o real teste para mim é não permitir que o medo e a repugnância pelo contato próximo com pessoas muito doentes, debilitadas e morrendo atrapalhe minha conexão com meu Poder Superior. Se aparecem sentimentos de vitimização, injustiça, absurdo, fraude ou ironia cáustica (os que minha mente doente cultivava para beber), minhas circunstâncias presentes me forçam a ENCARAR tais sentimentos no meu dia a dia de trabalho como uma fraqueza que eu ainda não dominei.
No começo da minha sobriedade, perdi casamento, negócio, propriedade e dinheiro. Por isso pensei que sabia tudo sobre humildade. Mas imagine você de joelhos, limpando vômito do carpete da sala de espera do setor de emergências. Você dá uma olhada e vê na sala uma ex-namorada, embalando seu bebezinho e tentando descobrir se aquele é mesmo você. Faça o teste com seu detector de ego com esta imagem.
Ou então encontrar a ex, que conseguiu tirar quase tudo de você naquele divórcio hostil. Ela está chegando da loja com um brinquedo caro na sacola enquanto você carrega dois sacos de lixo para fora. Um de vocês tem que dar passagem. Você deveria dizer alguma coisa, certo? Mas seus princípios insistem que você seja civilizado. Talvez ficar de boca fechada seja a melhor alternativa. E você sabe que tem muito mais trabalho a ser feito no seu departamento.
Organizar a bagunça e limpar a sujeira que os outros fazem, meu trabalho é esse. É para isso que eu sou pago. E aprendo que ver a bagunça que os outros alcoólicos fazem na sua vida é uma espécie de garantia para meu trabalho.
Claro que eu poderia compor uma vida mais cinematográfica. Isso é fácil. Se ganhasse para escrever (o que eu amo) – se eu não fosse mais um homem da limpeza. Afinal, sou um cara humilde. Ou se eu fosse rico e famoso, não me importaria. Só não quero abrir mão de outras coisas que tenho: um casamento amoroso, amizades duradouras, pertences modestos, boa saúde. É isso que peço para Deus quando estou ressentido com o que tenho.
Mas depois chego ao fim de outro dia de sobriedade e pergunto: “ainda estou aprendendo?”
Ah, sim, realmente estou aprendendo. E então admito que não é tudo como eu quero. Mas vou a reuniões e me lembro que, embora fosse uma situação crucial, eu também não queria ficar sóbrio.
Isso dá a história um novo sentido. Agradeço ao meu Poder Superior por me dar todo tempo e determinação necessários para ficar sóbrio e também para escrever esse próximo romance, o que vai me levar para o topo. É a história de um cara de meia idade, do qual todo mundo desistira. Mas de repente ele tem uma ideia sensacional de…
Bem, vocês podem imaginar o resto.
(Ernest S.
York Harbor, Maine).

P.S.: Do livro Sobriedade Emocional – A próxima fronteira, pags. 44 à 46.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – ALGUMAS HISTÓRIAS

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
(Algumas Histórias)
Agradecemos à valiosa e brilhante colaboração do membro de AA que nos mandou o texto abaixo por email. Gostaríamos apenas de salientar que apesar da obra de Jung ter, em minha opinião, influenciado na formação dos 12 passos de AA, eles são fruto da prática de milhões de alcoólicos ditos “irrecuperáveis” e que conseguiram pararam de beber graças a essa Irmandade. Infelizmente, apesar do grande incentivo que a irmandade de Alcoólicos Anônimos tem recebido da Igreja nas últimas décadas (foi declarada como o MILAGRE DO SÉCULO pelo papa, ou seja, obra direta de Deus) tem ocorrido uma tendência NEGATIVA por parte de certas “alas” revolucionárias da Igreja que tem falado que AA faz parte da “nova era” e que, portanto é coisa do demônio. Igrejas Evangélicas também estão dizendo que tanto o alcoolismo como a dependência de outras drogas são influências do Demônio, ocultando que se trata de uma DOENÇA INCURÁVEL.
Esses “grupos estranhos” de religiosos só não estão queimando bruxas devido à lei atual que condena esse tipo de crime. A música pode ser nova, mas a letra ainda é bem antiga. Não é admissível que em pleno século XX essas pessoas ainda encarem a dependência química como se ainda estivessem no século XIX.
Hoje sabemos bastante sobre a dependência química, mas quando o AA surgiu NADA EXISTIA que pudesse servir de alívio para milhões de alcoólatras que morriam no único lugar que existia na época – SANATÓRIOS. O AA foi uma verdadeira revolução no tratamento de alcoólicos considerados sem esperança e serviu como ponto de partida para outras irmandades de 12 passos.Outro fato que gostaria de lembrar é que a Lei Seca (que proibia a venda de bebidas alcoólicas nos EUA) terminoum 1933, o que coloca Bill e Bob (fundadores do AA) como “trangressores da lei” e são chamados Carlnhosamente por um amigo meu de “maconheiros” da época.
Muitos companheiros novos não conhecem esta história que já contei uma vez aqui na lista. Hoje me animei em re-remete-la ao grupo, me desculpem aqueles que já a receberam.
Um companheiro me pediu que contasse a história da correspondência trocada entre Carl Jung e Bill W, a história é um pouco longa, está documentada pelo AA, mas eu não encontrei todos os documentos que queria ter à mão para ser mais preciso, de forma que vou contar com minhas palavras, me perdoem qualquer imprecisão, mas uma parte importante desta história é o significado que adquiriu para a minha recuperação.
Muito pouca gente em AA sabe que Bill W. atribuía ao psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (26/07/1875 – 06/06/1961) um preponderante papel na corrente de eventos que vieram a resultar na criação de Alcoólicos Anônimos. De fato, afora o depoimento pessoal de Bill W, a participação de Jung só veio a ser documentada por uma tímida troca de correspondência havida entre os dois no ano de 1961.
Bill W. mandou uma carta ao Professor Jung em 23/01/1961 relatando os fatos, este respondeu (não sei a data da resposta) e logo em seguida morreu. As duas cartas são belíssimas, mas eu não consegui achar as cópias das traduções que foram publicadas num dos primeiros exemplares da Revista Vivência.
Também não consegui achar o texto original em inglês na Internet.
Mas achei outros documentos preciosos sobre o assunto, de forma que resolvi juntar tudo e contar a história para vocês com as minhas palavras, o que equivale a preparar um novo texto sobre o assunto sabendo, de antemão, que ele ficará aquém da história real, esta sim, empolgante!
Antes de mais nada é preciso situar a importância de Jung no campo da Psiquiatria e/ou Psicanálise como queiram. Dos três homens reconhecidos como os precursores do estudo da psique humana (Freud, Adler e Jung) apenas Jung defendia que o homem seria algo mais do que simples bioquímica. Dos três só Jung aceitava abordar a ideia do espírito humano, só Jung era capaz de admitir a existência de uma dimensão espiritual no ser humano. Não podemos, entretanto, nos esquecer de que, desde o final do século passado até bem pouco tempo atrás, a vanguarda intelectual e científica do Planeta rechaçava tanto a existência de Deus, como a eventual existência de uma dimensão espiritual que fosse concernente à condição humana. Por favor, não sou psiquiatra, nem psicólogo, nem médico. Não tenho religião, mas também não sou ateu. Não sou contra Freud e Adler, nem tampouco sou a favor de Jung. Estou apenas contando uma história… uma história real!
Pois bem, no início da década de 30 (em 1931) o Dr. Jung teve como seu paciente, na Suíça, certo homem de nome Rowland Hazard, americano, natural de Rhode Island, que fora atrás do Dr. Jung em uma desesperada tentativa de parar de beber. Depois de um ano de tratamento. Este homem recebeu alta e um mês depois estava bêbado e desesperado outra vez. De volta aos cuidados do Dr. Jung este senhor Rowland H. lhe perguntou se havia alguma esperança para o seu caso uma vez que a perícia do Dr. Jung lhe parecia ser, até então, a última possibilidade.
Humildemente o Dr. Jung disse a este homem que seu problema, o alcoolismo, estava além de suas possibilidades como médico e cientista, disse ainda que o próprio alcoolismo estava além da capacidade de compreensão da ciência naquele momento. “Roland, lhe disse Jung, eu não teria encorajado você a fazer o tratamento se não achasse que os meus conhecimentos poderiam ser úteis a você. Eu cheguei mesmo a acreditar, durante algum tempo, que você poderia ser um desses raros casos em que a medicina poderia ser útil. Não obstante é preciso admitir que a minha ciência fracassou.”
“Não tenho nenhuma chance?” perguntou Rowland desesperado.
“Rowland, sabemos de casos em que, eventualmente, algum alcoólatra se recupera, em todos estes casos o doente experimenta uma espécie de despertar espiritual ou conversão religiosa, mas este despertar espiritual é incerto, em seu lugar eu tentaria me aproximar desta possibilidade, procurando viver num ambiente religioso, propício ao desenvolvimento espiritual.” Foi mais ou menos esta a resposta de Jung para o infeliz Rowland H.
De volta aos EUA este homem integrou-se aos Grupos Oxford constituído por homens e mulheres que pregavam uma mensagem muito simples de renovação dos valores cristãos. Conforme transcrito por Bill W. os membros dos Grupos Oxford renovavam-se para a fé através da prática de passos muito simples:
1. Admitimos que fomos derrotados
2. Resolvemos fazer uma honesta avaliação de nosso caráter e nossas atitudes
3. Conversamos sobre isto, sem reservas, com outra pessoa.
4. Reparamos os danos que causamos aos outros
5. Levamos esta mensagem a outras pessoas sem pensar em recompensas
6. Rezamos a Deus na forma em que cada um o concebe.

Em essência eram estes os passos praticados pelos integrantes dos Grupos Oxford que desejavam renovar suas vidas e sua fé.
Passando férias em Vermont, estado natal de Bill W, este Sr. Rowland foi levado ao encontro de um conhecido alcoólatra, um encrenqueiro chamado Ebby Thatcher, amigo de muitos anos de Bill W., o Ebby T. que veio a falecer em avançada idade sem nunca ter alcançado a graça de uma sobriedade duradoura, e que mesmo assim Bill W., até o fím da sua própria vida, apontava como seu padrinho.
Pois Rowland levou esta mensagem a Ebby T., na forma do passo Cinco dos Grupos Oxford, falando de sua vida, de seu alcoolismo, de sua experiência com Jung e de como buscava sua recuperação através de um programa de ação e de renovação religiosa com os demais membros dos Grupos Oxford. Isto foi em 1934, quando Ebby T. havia se metido em encrencas com a justiça local por dirigir bêbado e em seu medo e desespero foi apresentado ao Sr. Rowland H. por outro membro dos Grupos Oxford, que era filho do Juiz da cidade.
Sóbrio, Ebby T. foi levado de Vermont para Nova York aonde veio a se encontrar com Bill W., seu amigo de infância e de farras e bebedeiras juvenis, para quem levou esta mensagem.
Estes fatos ocorreram entre 1932 (quando Rowland Hazard é informado por Jung que a solução para o seu alcoolismo não pode ser dada pela medicina, mas pode ser encontrada num ambiente espiritual) e o final de 1934 quando Ebby diz a Bill W. que parou de beber por que agora tinha uma fé (o que produziu um extraordinário impacto em Bill W., um agnóstico).
Pois bem, em 1933 andou frequentando os Grupos Oxford de Nova York, onde conheceu o tal Rowland H. (e seu empenho em conversar honestamente com os outros sobre seu alcoolismo) um senhor de nome Jim Newton (que frequentava os Grupos Oxford desde 1923) e que residia em Akron, Ohio, desde 1926, onde fora o responsável pela introdução do movimento na cidade. Pois em 1933 o Sr. Jim Newton (que não era um alcoólico) fica sabendo pelo Sr. Rowland H. que os Grupos Oxford podem ajudar a recuperar alcoólicos. O Sr. Jim Newton voltou para Akron com esta nova informação, bastante útil para os demais membros da comunidade local que se preocupavam seriamente com o sofrimento de homens como o Dr. Bob, por exemplo.
Eis então que tanto Bill W. quanto o Dr. Bob já tinham em mente, através das mensagens passadas pelos membros dos Grupos Oxford, que o alcoolismo poderia ser contido pelo desenvolvimento espiritual do alcoólico. Esta ideia não devia ser muito clara para eles. O Dr. Bob era um homem religioso e não obstante bebia; o que poderia haver de errado com sua fé? (deveria ser o que ele pensava) e Bill não tinha religião, então como poderia alcançar um estágio espiritual em que se veria livre da “compulsão alérgica” pela bebida, como descrevia o alcoolismo o Dr. Silkworth? Estas deveriam ser, certamente, as angústias de ambos quando afinal se conheceram.
Mas antes ainda ocorreram alguns fatos dignos de nossa atenção que vou descrever. Lembrem-se que estamos falando de Carl Jung e Bill W., ou melhor, sobre os fatos que levaram estes homens a trocar uma correspondência em 1961, quase quarenta anos depois que esta cadeia de acontecimentos foi deflagrada a partir do início do tratamento do alcoolismo de Rowland Hazard na Suíça, em 1931.
Pois bem, quando Bill W. e Ebby T. se encontraram em Nova York Bill W. já havia recebido os fatos sobre o alcoolismo do Dr. Silkworth conforme ele nos revela no Livro Azul. Bill fora informado pelo médico que era alcoólico, que o alcoolismo era uma grave doença física e mental, uma espécie de alergia, incurável e que ele estava condenado a beber até a sua morte (como disse o próprio Dr. Silkworth a respeito de Bill no texto em que apresentou a primeira edição do livro azul em A Opinião do Médico) “em fins de 1934 atendi um paciente que, embora tivesse sido um competente e bem sucedido homem de negócios, ERA UM ALCOÓLICO DE UMA ESPÉCIE QUE EU VIERA A CONSIDERAR SEM ESPERANÇAS” (sic).
Quando no fim do mês de novembro de 1934 Bill W. recebeu Ebby T. em sua casa este não bebia fazia dois meses. Ebby fora detido depois de invadir com seu carro a cozinha de uma senhora. Esta, acuada no único canto que restara inteiro viu, estarrecida, Ebby colocar a cabeça para fora da janela do carro e perguntar se ainda havia um café. Detido por insanidade Ebby foi solto graças à intervenção do filho de um Juiz e de Rowland H. que depois de alguma conversa com Ebby resolveram se responsabilizar por ele perante o Juiz que determinara sua detenção.
Sóbrio, Ebby adicionou – ao conhecimento que Bill já havia recebido do Dr. Silkworth a respeito do alcoolismo – o endosso do Dr. Jung a esta opinião (de que a doença era incurável, inalcançável ao conhecimento médico e científico da época) mas também noção de que havia outra dimensão para a doença além da FÍSICA e ESPIRITUAL, havia a dimensão ESPIRITUAL, conforme apontada por Jung e justamente nesta poderia estar uma chave para o alcoólico alcançar a sobriedade, e esta chave parecia ter sido encontrada pelo Rowland H. mencionado por Ebby e pelo próprio Ebby.
Ebby encontrou Bill bebendo e aquela foi a última vez que Bill bebeu. Dali Bill foi para o hospital onde teve sua experiência espiritual. Do hospital Bill saiu direto para o convívio com os Grupos Oxford de Nova York, convencido de que deveria se dedicar a passar a mensagem que recebera de Ebby para outro alcoólico a fim de vencer sua insaciável compulsão pelo álcool.
Nos diversos escritos que deixou e em trechos de palestras que proferiu e depoimentos que fez Bill relata que sua experiência espiritual consistiu no reconhecimento de sua derrota perante o álcool seguida de um vislumbra mento de que uma corrente de alcoólicos pelo mundo (uns conversando com os outros sobre seus problemas, tal como ocorrera entre Rowland e Ebby e depois entre ele e Ebby) poderia ser uma resposta, uma saída para o alcoolismo.
Assim tentando fazer enquanto procurava reorganizar sua vida profissional é que foi parar em Akron, Ohio, em maio de 1935, para onde fora mandado por investidores de Nova York, interessados em adquirir uma companhia local. Até então Bill não fora capaz de converter nem um bêbado sequer.
Em Akron o Grupo Oxford conduzido por Jim Newton já obtivera uma significativa vitória contra o alcoolismo. Um certo membro da família Firestone, de nome Russell, fora alcançado pela mensagem e havia parado de beber, pelo menos temporariamente. Animado o grupo dedicava-se a tentar ajudar um outro alcoólico, marido de uma das integrantes deste grupo, um médico de boa reputação, que era o Dr. Bob.
Bill W. conta-nos que sua tentativa de realizar negócios em Akron fracassou. Foi quando ele se viu assaltado pelo desejo de beber. Ele estava no Hotel Mayflower e, no seu desespero lembrou-se que, apesar de não ter resultado em nenhuma “conversão” à causa da abstinência seu intenso trabalho com outros bêbados tinha produzido resultado em pelo menos uma pessoa, nele mesmo, ele não havia bebido! A solução, então, era achar um bêbado para conversar e quem poderia compreender melhor esta sua necessidade, e ajuda-lo, senão um membro dos Grupos Oxford? E é assim, resolvido a pedir apoio a um membro dos Grupos Oxford locais, que ele se dirige ao telefone público no saguão do Hotel Mayflower à procura de um religioso que pudesse entendê-lo e ajuda-lo, que lhe desse ao menos uma forma de encontrar os Grupos Oxford locais.
Neste telefone público Bill coloca o dedo sobre o número do Reverendo Walter Tunks, ministro da família de Harvey Firestone, patrão de Jim Newton e pai de Russell, o homem cujo alcoolismo havia sido assistido pelo programa dos Grupos Oxford. O Reverendo Tunks não teve dificuldades em identificar Henrietta Seiberling para Bill W. Isto foi em 11 de maio de 1935. O grupo de Henrietta começara em abril algumas pequenas reuniões com o Dr. Bob, com o intuito de ajuda-lo em seu alcoolismo, mas ele continuava bêbado, apesar de parecer estar imbuído de um desejo de parar de beber. Para Henrietta o telefonema de Bill era um sinal… E não deve ter sido muito difícil para Bill convencer Henrietta a lhe ajudar a encontrar um bêbado, não era o encontro da fome com a vontade de comer (muito menos da sede com a vontade de beber) mas algo bem próximo…
No dia seguinte Bill teve o primeiro de seus diversos encontros com o Dr. Bob que vieram a resultar na sobriedade contínua deste à partir de 10/06/35 até sua morte.
Vamos agora dar um salto de 10/06/1935 até 23/01/1961 quando Bill escreve sua carta para Jung (curiosamente, Bill W. veio a falecer em 24/01/1971).
Em 23 de janeiro de 1961 Bill W. escreveu para Carl Jung uma carta em que relatava a este, de forma bem resumida, mais resumida ainda do que a apresentada aqui, os fatos resultantes da última conversa havida entre Carl Jung e seu paciente alcoólico Rowland Hazard. Um importante homem de Rhode Island, dono de moinhos e senador, mas não obstante, um irrecuperável beberrão.
Como era de seu estilo Bill W. se apresenta de uma forma direta e agradece ao Dr. Jung por sua humildade e honestidade, ao declarar ao paciente Rowland H. que sua doença estava além do alcance de sua ciência, demonstrando a Jung um sincero sentimento de gratidão em seu nome e em nome dos demais alcoólicos que vieram a se recuperar graças a AA.
E aqui é preciso destacar que AA já era, em 1961, uma irmandade de projeção mundial, cujos resultados, no campo do alcoolismo, despertavam simpatia e respeito por toda a parte.
A resposta de Carl Jung a esta carta foi um dos documentos mais bonitos que já li em toda a minha vida e, infelizmente, não tenho uma cópia comigo, de forma que falar desta carta para vocês é como falar do gosto de uma fruta para quem nunca experimentou, é muito difícil. Ainda mais que estou falando de um texto que li pela última vez há uns cinco anos atrás. Mas lá vai:..
Inicialmente O Dr. Jung agradece pela gentileza de Bill e diz a este sobre sua admiração pelo AA e, mais ainda, pelo fato de estar, de alguma forma, implicado na cadeia de eventos que vieram a resultar no seu surgimento. Jung diz que se lembrava de seu paciente Rowland H. e que havia pensado muito, ao longo dos anos, sobre ele e o alcoolismo.
Jung afirma para Bill que a sede do alcoólatra pela bebida sempre lhe parecera extremamente semelhante à sede do homem pelo absoluto. E que ao pensar em alcoolismo sempre lhe vinha a mente as palavras do Salmo 41: “Assim como o cervo suspira pelas fontes das águas / assim minha alma suspira por ti, ó Deus./ A minha alma tem sede do Deus forte e vivo,/ quando irei e aparecerei diante da face de Deus?” etc. e tal, sugiro aos companheiros a leitura completa deste Salmo e ressalto que Jung não o transcreveu por completo nesta carta para Bill.
Jung ressaltou ainda que sempre achara interessante que no Latim a mesma palavra que designava o pior veneno, álcool (spiritu) era utilizada para identificar a alma humana, o espírito humano, sendo que Jung destaca que sempre achara que havia uma razão para isto, ou seja, não era à toa que os romanos não sentiam necessidade de duas palavras, deveria haver uma razão para isto. E para Jung esta razão era clara: o álcool era uma resposta pobre que o homem dava ao seu “anelo” (anseio pelo absoluto) enfim, ao seu anseio por Deus.
Jung disse mais. Disse para Bill que estava agora, mais do que nunca, convencido que a resposta ao alcoolismo era espiritual e que tanto o alcoólico como o homem comum só poderiam chegar a um genuíno despertar espiritual por um destes três caminhos:
1. através de uma experiência repentina e gratuita como ocorrera a São Paulo, por exemplo, e ao próprio Bill e, neste caso, Jung enfatizava que se os alcoólicos viessem a depender de um despertar espiritual deste tipo morreriam todos ou a maioria, pelo menos, uma vez que este tipo de evento é raro e imprevisível;
2. através de uma educação aprimorada de espírito, aplicada desde a mais tenra idade, como era a oferecida aos monges budistas tibetanos por exemplo;
3. através de um contato honesto e absolutamente sincero com outro ser humano, como era praticado em AA e fora revelado a Bill W. em seu próprio despertar espiritual o que por si só evidenciava o caráter espiritual da revelação de Bill W. e da irmandade de AA.
Quando estive diante desta correspondência entre estes dois homens me dei conta do verdadeiro milagre de AA, que se manifesta na comunicação entre os alcoólicos, onde o que mais ajuda e é útil para o outro é a capacidade inata que cada homem tem de se revelar da forma mais despojada possível, no intuito de ajudar a si próprio e ao próximo. O milagre e que são os piores de todos os meus defeitos os que me ajudam e ajudam os outros a encontrar a verdadeira dimensão humana, que se encontra, em última análise, na minha dimensão espiritual onde posso me fazer liberto dos grilhões que me são impostos pelas minhas limitações de ordem física ou mental.
A dimensão espiritual, apontada por Jung para Rowland H., foi o portal por onde Bill e todos nós alcoólicos, desde então, tivemos que atravessar para nos livrar das garras do álcool sobre os nossos físicos e nossas mentes, da prisão descrita por Silkworth para Bill (lembram, doença incurável, FÍSICA e MENTAL … nada sobre sua dimensão espiritual).
Não fomos só nós que nos libertamos do álcool…
Muitos dos que amamos e que genuinamente também nos amam, como nossos familiares e amigos, ou como o próprio Silkworth (vejam a diferença entre seu depoimento para a primeira edição do livro azul e o depoimento para a segunda edição) foram e estão sendo fortemente influenciados por tudo de bom que ocorre conosco. Vamos lembrar do Silkworth céptico que na primeira noite após o despertar de Bill diz apenas: “agarre-se a isto, pois é ao menos melhor do que o que você tinha ontem” disse referindo-se ao que Bill lhe dizia sobre seu despertar espiritual.
Bom Dr. Silkworth, que já havia tratado mais de 4 ou 5 mil alcoólicos quando Bill lhe chegou às mãos, “mais um para enterrar” deve ter pensado e, no entanto, ele passou a ver aos poucos o seu ceticismo sendo destruído, uma porta sendo aberta onde antes nem sequer parede ele enxergava.
Aqui é importante falar sobre a questão espiritual nos primórdios de AA. Que é uma questão CRUCIAL até hoje para nós!
Muitos de nós que hoje tentamos impingir grandes doses de fé e religião goela abaixo dos ingressante deveríamos lembrar que nosso co-fundador Bill W. era um agnóstico quase que ateu.
Outros de nós, religiosos, que ficam se queixando que homens sem religião falam demais em Deus, Poder Superior também poderiam se lembrar que outro co-fundador, o Dr. Bob era um homem de fé e de religião.
Para mútuo beneficio (e de todos nós que estamos vivos graças a obra deles) estes dois homens tiveram que descobrir uma estreita faixa de caminho (em meio ao atoleiro de desentendimentos) por onde ambos poderiam andar com segurança em direção a uma vida melhor. Eles souberam superar estas divergências e se ajudaram, nos deixando esta herança de fraternidade e tolerância que é o AA.
Ao chegar em AA eu era um ateu (mais para o agnóstico, que sou hoje, do que para o ateu clássico) de forma que fiquei fascinado com o desafio de enfrentar a questão espiritual tal qual era esta apresentada no programa de AA. É fascinante, na leitura do primeiro capítulo do Livro Azul (A História de Bill) acompanhar o esforço de Ebby para conceituar um Poder Superior para Bill. No final das contas foi algo muito próximo ao que ocorreu comigo.
Eu também tive que reconhecer, primeiro, que o álcool era um poder superior a mim, já que me dominava e, ao admitir que estava derrotado pelo mesmo álcool que havia derrotado outros alcoólicos iguais a mim não tive como deixar de reconhecer que havia um outro Poder Superior, a mim e ao álcool e, provisoriamente, até que eu pudesse entender o que estava ocorrendo, eu aceitaria, conforme sugerido, que este Poder Superior era o próprio AA e seu programa, já que eu estava ali diante de pessoas que, flagrantemente, sofriam de uma doença igual a minha e, não obstante, estavam ali sem beber.
É muito importante entender isto, por que esta é a essência da comunicação entre dois alcoólicos. O alcoólico hesitante e teimoso que eu era deveria, em primeiro lugar, perceber que estava ouvindo coisas de pessoas que entendiam o que se passava comigo. Então estas pessoas não deveriam falar sobre o que faziam ou sobre como viviam, mas deviam falar sobre como se SENTIAM quando bebiam. Eu sou grato aos companheiros que me receberam por que nenhum deles deu muita importância, em seus depoimentos, ao dinheiro ou status que tinham ou deixavam de ter antes, durante ou depois da bebida. Isto não é importante para quem chega. Não era importante para mim.
Bill só acreditou em Ebby por que sabia que Ebby era um bêbado igual a ele. Esta é a primeira fase de um contato: provocar a identificação, à partir daí eu estava mais atento do que nunca ao que aqueles homens e mulheres iriam me dizer.
Convencido de que estava com pessoas que me entendiam eu me sentia pronto para ouvir mais e então recebi as más notícias. Praticamente as mesmas que Bill escutou do Dr. Silkworth: que o alcoolismo é uma doença física e mental (a dimensão ESPIRITUAL foi acrescida pelo próprio Bill, um agnóstico, por influência indireta de Jung, através de Rowland H. e Ebby T. como já vimos) progressiva, incurável e de término fatal, “que o alcoólico é vítima de uma espécie de alergia que o condena a beber até contra sua vontade” (com a ajuda da medicina esta abordagem evoluiu para a descrição atualmente aceita por nós que diz respeito aos mecanismos de negação, compulsão e obsessão).
Estes foram os fatos que recebi e são os fatos que mudam a cabeça do alcoólico ao ponto dele nunca mais beber em paz, como ocorreu com o próprio Bill, e como nos é relatado, todos os dias, pelos companheiros que infelizmente recaem. O alcoólico nunca mais bebe em paz por que nunca mais bebe inocentemente, depois de um contato deste ele sabe que é um doente, sabe que não bebe por prazer, sabe que bebe por que está doente e que pode morrer disto, como beber em paz?
Foi neste momento, depois que eu estava absolutamente convencido da minha inapelável derrota para o formidável inimigo, que os companheiros me disseram que havia uma alternativa, havia uma saída e que eles a encontraram.
Como eu disse me mostraram uma porta onde eu nem sabia que existia uma parede.
Para passar por este portal espiritual não era preciso sequer acreditar em Deus, bastava acreditar num Poder Superior e esta ideia era perfeitamente aceitável nos termos em que me havia sido proposto pelo grupo. O primeiro e o segundo passo foram dados por mim quase que imperceptivelmente. E era óbvio que o programa tomar-se-ia mais fácil se eu viesse a readquirir a sanidade prometida pelo segundo passo… e foi o que ocorreu.
E aqui é importante dar uma parada por que se revela a importância da participação de Jung em toda a gênese de AA, pois foi Jung quem admitiu, como médico e como cientista a existência de uma dimensão espiritual onde a doença se manifestava e onde se encontrava e até hoje se encontra a única saída para a doença. Pois temos que admitir que foi a evidência da recuperação de Ebby T. (a quem Bill reconhecia como igual) o elemento que o levou a refletir naquela hipótese, a espiritual.
Considerando esta hipótese é que Bill dá início a uma extraordinária jornada de desenvolvimento espiritual que lhe permitiu coordenar, ao lado dos demais pioneiros de AA, a construção de um conjunto de ferramentas espirituais que hoje são mais do que um legado só para a nossa irmandade, mas que representam uma dádiva para toda a humanidade que, à partir da contribuição de AA, usou destes instrumentos simples para organizar irmandades voltadas para o enfrentamento do sofrimento humano provocado por diversos outros tipos de doenças (neuróticos, narcóticos, jogadores e tantos outros grupos anônimos) e até para a própria medicina que aproveitou partes da experiência de AA como no caso das terapias de grupo, etc. e etc.
Deus, na forma em que o concebo, revelou-se ao homem (Bill W.) com os defeitos certos para levar sua mensagem. Se esta revelação tivesse ocorrido a qualquer membro de uma seita ou igreja provavelmente os milhões de alcoólicos não filiados a estes grupos prosseguiriam morrendo. Revelando-se a um agnóstico, quase ateu, Deus, da forma que eu o aceito, entregou ao homem certo a tarefa de ajudar a todos os demais. Este agnóstico turrão, este homem orgulhoso, que não se dobrava a nada nem a ninguém, este Bill W. seria o homem que teimosamente insistiria em manter o patrimônio espiritual de AA acessível a todos, num patamar acima de qualquer diferença que se possa estabelecer entre dois seres humanos.
E para que este Bill W., louco teimoso e perigoso não viesse também a querer, por sua vez, formar sua própria Igreja ou Seita, este mesmo Deus toma o extremo cuidado de só permitir o início de sua caminhada depois de colocar ao seu lado um homem (que é o Dr. Bob) com os atributos espirituais suficientes para frear os seus ímpetos de grandeza.
O patrimônio espiritual de AA só se tomou um patrimônio de toda a humanidade por que nos recusamos a mexer com qualquer outra coisa que não seja o nosso próprio alcoolismo. Não sendo nem o AA e nem os AA pretendentes a dirigir nada nem a ninguém a não ser os nossos próprios destinos é que deixamos para todo o resto da humanidade este legado, disponível para ser utilizado onde cada um julgar que seja apropriado.
E foi assim, pelo menos eu acho que foi assim, que dois ex-agnósticos (Bill e Jung) legaram ao mundo o patrimônio espiritual de AA.
Um abraço do,
Armando de Brito
As raízes de Alcoólicos Anônimos
A correspondência entre Bill W. e o Prof. Dr. Carl C. Jung 23 de janeiro de 1961 Ilustre Prof. Dr. Carl C. Jung, Zurique — Suíça
Esta carta, portadora de meu profundo agradecimento, estava pendente de ser escrita e remetida, faz bastante tempo.
Permita-me, preliminarmente, apresentar-me como Bill W., co-fundador da Sociedade de Alcoólicos Anônimos. Embora seguramente tenha o senhor ouvido falar sobre nós, duvido ser do seu conhecimento que determinada conversa que manteve com um de seus pacientes – o Roland H. – nos inícios dos anos 30, representou um papel decisivo na fundação de nossa comunidade. Embora Roland H. tenha falecido já faz algum tempo, a recomposição de sua extraordinária experiência, durante o período em que esteve sob seu tratamento, faz parte definitiva da história de A. A. Nossa lembrança do que era relatado por ele, sobre a experiência que obteve com o senhor, é a seguinte: Havendo esgotado outros meios para sua recuperação de alcoolismo, mais ou menos em 1931 se tomou seu paciente. Acredito que permaneceu sob seu tratamento pelo período de um ano. Sua admiração pelo senhor era infinita e o deixou com um sentimento de muita confiança.
Para sua enorme tristeza, pouco tempo depois voltou a beber. Convencido de que era seu “último recurso”, regressou aos seus cuidados. Imediatamente houve a mencionada conversa entre os dois e que viria a ser o primeiro elo da corrente de felizes acontecimentos que conduziriam à fundação de Alcoólicos Anônimos.
Seu relato dessa conversa era o seguinte; primeiro, o senhor lhe falou francamente de sua desesperança com relação ao êxito de qualquer tratamento médico ou psiquiátrico. Essa sua declaração, tão sincera e humilde, foi, sem dúvida alguma, a pedra angular sobre a qual construímos nossa sociedade.
Vinda do senhor, em quem tanto confiava e admirava, o impacto sobre ele foi terrível. Foi aí, então, que ele lhe perguntou se havia alguma outra esperança, e o senhor respondeu que podia haver, desde que ele chegasse a ter algum tipo de experiência espiritual ou religiosa; em resumo, uma genuína conversão. O senhor lhe explicou como uma experiência como essa, acontecendo, poderia dar-lhe ânimo, quando nada mais poderia fazê-lo. Fez, ainda, a observação de que, embora ditas experiências tenham trazido, algumas vezes, recuperação a alcoólicos, eram elas, sem dúvida, raras, recomendou-lhe que buscasse um ambiente religioso e esperasse o melhor. Esta, creio eu, foi a essência de sua mensagem.
Pouco tempo depois o Roland H, reuniu-se aos Grupos de Oxford, um Movimento Evangélico, na época com muito sucesso na Europa e, pelo que acredito, do seu conhecimento. Por isso, certamente se recordará de sua especial ênfase aos princípios do auto exame, confissão, restituição e o entregar-se ao serviço de seus semelhantes. Eles recomendavam muito a meditação e a oração. Nesse ambiente, o H. encontrou a experiência da conversão que o libertou da compulsão pelas bebidas alcoólicas.
Ao regressar a Nova Iorque, começou a trabalhar ativamente nos Grupos de Oxford aqui existentes, então dirigidos pelo Ministro Episcopal, Dr. Sam Shoemacker, que havia sido um dos fundadores desse movimento aqui e era portador de uma forte personalidade, com imensa sinceridade e convicção. No período entre 1932 e 1934, os Grupos de Oxford já haviam recuperado um bom número de alcoólicos, e Roland H., sabendo que podia identificar-se com eles, se dedicou a ajudá-los.
Um deles havia sido meu companheiro de colégio e se chamava Edwin T. Ebby. Ele já havia sido ameaçado de prisão, porém Roland e outro ex – alcoólico conseguiram a anulação do processo criminal e o ajudaram a conseguir a sobriedade.
No entretempo, eu havia percorrido os caminhos do alcoolismo e havia sido, também, ameaçado com o presídio. Para sorte minha, estava sob tratamento médico com o Dr. William Silkworth, que tinha uma extraordinária capacidade para entender os alcoólicos. Mas, assim como o senhor havia reconhecido que fracassara diante do caso do Roland H., ele, também, reconhecera o mesmo em relação a mim.
Sua teoria era a de que o alcoolismo teria dois componentes: uma obsessão que conduz o paciente a beber contra sua vontade e interesses, além de determinado tipo de deficiência metabólica que ele denominava alergia. A compulsão, ou obsessão do alcoólico, fará com que seu consumo imoderado de bebidas continue e a alergia o destruirá, enlouquecendo-o ou matando-o prematuramente. Embora eu fosse um dos poucos com que ele se empenhava em ajudar, finalmente viu-se obrigado a falar-me francamente da nulidade de qualquer esperança; eu, também, precisava ser motivado por algum outro fator, disse-me. Para mim, essa declaração foi um golpe fatal. Assim como Roland H. havia sido escolhido pelo senhor para sua experiência de conversão, meu maravilhoso amigo Dr. Silkworth fez comigo. Conhecendo o que se passava comigo, meu amigo Edwin T. (Ebby) veio visitar-me em minha casa, me encontrando embriagado. Estávamos em novembro de 1.934. Fazia já alguns anos, eu considerava Ebby um caso sem esperança. Agora, ali estava ele em evidente estado de “libertação”, o que se devia, sem qualquer dúvida, ao seu ingresso nos Grupos de Oxford, fazia pouco tempo. Porém, o evidente estado de tranquilidade, o oposto da usual depressão, era tremendamente convincente. Como ele padecia do mesmo mal, podia comunicar-se comigo com facilidade. Reconheci, imediatamente, que eu tinha que encontrar uma experiência igual a dele, ou morreria. Novamente recorri a ajuda do Dr. Silkworth e, mais uma vez, consegui a sobriedade, obtendo, assim, uma visão mais clara da experiência de libertação de meu amigo Ebby e da aproximação de Roland H. até ele.
Livre do álcool novamente, me senti muito deprimido. Isto, parece, tinha por causa minha inabilidade em ter algum tipo de fé. Ebby me visitou novamente e repetiu a fórmula simples dos Grupos de Oxford. Depois que ele foi embora me senti mais deprimido ainda. Possuído pelo mais drástico desespero, gritei: “Se existe um Deus, então que se manifeste!”
Imediatamente me vi envolvido em enorme quantidade de luz, de fantástico impacto e dimensão, alguma coisa de tamanha importância que fiz questão de registrar nos livros “Alcoólicos Anônimos” e “A.A. chega a Sua Maioridade”, dois livros básicos que lhe estou enviando. Minha libertação do álcool foi imediata. Em seguida verifiquei que era um homem livre. Pouco tempo depois dessa experiência, meu amigo Ebby veio me visitar no hospital e me presenteou com um livro intitulado “Variedade de Experiências Religiosas”, de William James. Este livro me fez ver que a maioria das experiências de conversão, de qualquer classe que seja, tem como denominador comum uma total destruição do ego. O indivíduo se enfrenta em um dilema impossível. No meu caso, o dilema havia sido criado pela minha maneira compulsiva de beber e pelo profundo sentimento de desesperança, havia sido penetrado por meu médico e, muito mais ainda, pelo meu amigo alcoólico, quando me informou do veredito do senhor em relação ao Roland H.
No despertar da minha experiência espiritual, foi surgindo a ideia de uma sociedade de alcoólicos, identificados entre si, transmitindo suas experiências para outros, semelhante a uma corrente. Se cada doente alcoólico levasse a outro alcoólico a informação de que não havia esperança de recuperação par por parte da ciência, seria lógico esperar-se dele uma disposição para tentar uma experiência espiritual transformadora. Este pensamento provou ser a pedra fundamental do êxito de Alcoólicos Anônimos. Ele faz com que as experiências de conversão de todas as variedades, descritas por William James, estejam disponíveis em quantidades sempre crescentes em beneficio de outros. As recuperações estáveis, durante o último quarto de século, chegam a aproximadamente 300.000. Nos Estados Unidos e no mundo, atualmente, existem 8.000 grupos de AA (nota: cm 1974 se estimava o número de membros em 725.000, e o número de grupos, em todo o mundo, em 22.500).
Assim é que ao senhor, ao Dr. Schcoemacker dos grupos de Oxford, a William James e ao meu próprio médico, Dr. Silkworth, nós de A.A. devemos tantos benefícios. Como o senhor pode ver agora, claramente, esta surpreendente sucessão de acontecimentos felizes começou, na realidade, faz muito tempo, em seu consultório e se baseou,
fundamentalmente, em sua percepção humilde e profunda.
Muitos estudiosos de A.A. são seus atentos leitores. Por sua convicção de que a criatura é muito mais do que inteligência, emoção, um pouco de matéria orgânica e química, o senhor é muito admirado por nós. O crescimento de nossa sociedade, o nascimento de suas Tradições, a Estrutura de seu funcionamento, poderão ser do seu conhecimento através dos livros e folhetos que remeto em anexo.
Também estou certo que lhe interessará saber que, além da experiência espiritual”, muitos membros de A.A. possuem uma variada gama de fenômenos psíquicos, cuja força em conjunto é considerável. Permita-me assegurar-lhe que seu lugar de afeto na história de A.A. é inigualável,
Com meus profundos agradecimentos,
William G. Wilson (Bill W.)
A Resposta de Jung 30 de janeiro de 1961 Mr. William G. Wilson P.O. Box 459, G.C.S.
N.Y. 17, N.Y.
Estimado senhor W.
Agradeço sua simpática carta.
Não voltei a receber notícias de Roland H. e, constantemente, me pergunto o que teria acontecido com ele. Na nossa conversa, que ele relatou fielmente a vocês, houve um aspecto que não lhe levei ao conhecimento. O motivo que tive para não dizer-lhe tudo é que, naquele tempo, eu devia ser extremamente cuidadoso no que dizia, por haver-me dado conta de que minhas declarações eram interpretadas erradamente. Por isso, decidi ser muito cauteloso com o Roland.
Porém, o que eu realmente pensava era o resultado de várias experiências com casos semelhantes ao dele. Sua fantástica necessidade do álcool era equivalente, no nível mais baixo, a sede espiritual de nosso Ser pela integridade, expressada em linguagem medieval: – a união com Deus. (Nota: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira minha alma por ti, ó Deus!” – Salmos 42.1) Como pode alguém formular tal percepção em uma linguagem que não seja mal interpretada em nossos dias?
A única forma correta e legítima para dita experiência é que ela ocorra realmente com você, e somente acontece quando estiver transitando pela estrada que conduza a uma compreensão mais elevada. Pode ser conduzido a essa meta por um ato de pura graça, por meio de um contato pessoal e honesto com semelhantes, ou através de uma educação aprimorada da mente, mais além dos confins do mero racionalismo. Observo, por sua carta, que Roland escolheu a segunda hipótese, que foi, em face das circunstâncias, logicamente a melhor. Estou firmemente convencido de que o principio do mal, que prevalece neste mundo, deriva da necessidade espiritual não identificada diante da perdição. Quando nada é contraposto por meio da verdadeira percepção, ou pela muralha protetora da comunidade humana, uma criatura comum não protegida por uma ação do Alto e isolada pela sociedade, não pode resistir ao poder do mal, o qual, de forma muito inteligente, denominamos demônio. Porém, ouso desses termos perpetrar tamanhos horrores, que o melhor é manter-me longe deles o mais possível.
São essas as razões pelas quais eu não me considerava em condições para dar explicações suficientes e completas ao Roland H., porém me arrisco com o senhor, já que deduzo, de sua honesta e sincera carta, que adquiriu um ponto de vista que supera as equívocas trivialidades que geralmente se escutam a respeito do alcoolismo.
Como sabe, álcool em latim é spiritrus; e se usa a mesma palavra para descrever as experiências religiosas mais elevadas, como para o veneno mais depravador.
Uma fórmula lógica é, pois, Spiritus contra Spiritum.
De V. Sa., atentamente,
Carl C. Jung.
(Traduzido da Revista El Mensaje Para a Revista Vivência por Luiz M.)

TRAGA MAIS UM

TRAGA MAIS UM
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR:
1. Por que o AA parou de crescer?
2. Por que os grupos estão esvaziando?
3. Por que os ingressantes não estão ficando?
4 -AONDE ESTAMOS ERRANDO?
A resposta as perguntas é uma só: Como membros de AA,nós paramos de fazer o 12º passo com o bebedor problema, o possível novo membro de AA. Somos servidores que não fazemos o trabalho básico da irmandade: levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre ( o que ainda está bebendo). Nossa sugestão é TRAGA MAIS UM através da abordagem direta.
“Quando outras atividades não resolvem, isto funciona” Texto do 7º capitulo do Livro Azul referindo-se ao 12º passo. Bill sempre usou os princípios da recuperação para resolver os problemas de AA.
Bill escreveu no “AA Atinge a Maioridade” o seguinte:”Nos anos que se seguirão, AA certamente cometerá erros. A experiência nos ensinou que não devemos ter medo de fazê-los, desde que continuemos dispostos a admitir nossas falhas e a corrigi-las prontamente.
Nosso crescimento como indivíduos tem dependido desse salutar processo de tentativas e erros. Também acontecerá ao nosso crescimento como irmandade.
Lembremo-nos sempre que qualquer sociedade de homens e mulheres que não puder corrigir seus próprios erros certamente entrará em declínio senão em colapso.
Assim como cada membro de AA deve continuar a fazer seu inventário moral e a se corrigir, também desse modo deve a sociedade, se queremos sobreviver e se pretendemos servir bem e com eficiência.” Bill
1 – POR QUE O AA PAROU DE CRESCER?
Sem visitantes e novatos não podemos crescer. TRAGA MAIS UM e isto se resolveria.
Os nossos meios de divulgação na sociedade não tem dado resultado. Os visitantes não tem chegado nos grupos por estes meios ( com raras e insignificantes exceções). Os trabalhos de CTO não tem conseguido trazer novos membros em quantidade mínima para manter o AA em crescimento.
2 – POR QUE OS GRUPOS ESTÃO ESVAZIANDO?
Sem visitantes e novatos o grupo se esvazia. TRAGA MAIS UM e isto se resolveria.
O grupo deveria ser animado de um único propósito: transmitir a mensagem ao alcoólico que ainda sofre
(o visitante e o novato), se não temos visitante e novato o grupo desanima, não tem vida, não atrai, se esvazia e morre.
O visitante e o novato nos disciplinam: Se não fizermos o certo; ELE VAI EMBORA.
A – MENSAGEM.
O VISITANTE E O NOVATO DISCIPLINAM NOSSA MENSAGEM.
Se eu não contar como eu era e como estou agora; ELE VAI EMBORA.
Se eu for a cabeceira de mesa para dar aula do programa e não mostrar como apliquei o programa para melhorar minha vida; ELE VAI EMBORA.
Se eu der retorno de depoimento, ou der vazão aos meus anseios de prestígio, poder, orgulho, prepotência, auto-suficiência etc; ELE VAI EMBORA.
Enfim qual é a mensagem de AA? A MENSAGEM DE AA É O ALCOÓLICO EM RECUPERAÇÃO. A mensagem de AA não é o programa de AA e nem a exposição de seus princípios. A MENSAGEM É A HISTÓRIA DO SEU DESPERTAR ESPIRITUAL.
“A MENSAGEM É TRANSMITIDA PELA LINGUAGEM DO CORAÇÃO E ESTA QUALQUER UM É CAPAZ DE ENTENDER E DE USAR.”
Muitos companheiros tem imitado na sua mensagem a forma de falar do profissional terapeuta, educador ou teólogo e esquecem que esses profissionais falam do alcoolismo dos outros e por isto podem divagar sobre psicoterapias, princípios espirituais (12 passos desvinculados da prática) ou fazer generalizações, mas nós falamos da nossa vida, esta é a grande força de nossa irmandade, é o que lhe dá identidade, eficiência e qualidade na transmissão da mensagem.
B – UNIDADE
O VISITANTE E O NOVATO PRESERVAM NOSSA UNIDADE.
Ninguém vai deixar explodir descontroles emocionais com visitante no grupo. Nossos anseios pessoais tem que ser silenciados em benefício de todos, vamos ter que encontrar formas de resolver nossas diferenças sem destruir o grupo. Os novos diante de um desentendimento dos mais antigos, VOLTAM PARA O BAR.
Se a autoridade no grupo não for a Consciência Coletiva e tivermos um chefe, o visitante pode não se identificar E SE AFASTAR.
Enfim o visitante e o novato nos fazem praticar as tradições preservando nosso grupo. TRAGA MAIS UM e você vai ver seu grupo praticando as tradições, até a 7ª melhora.
3 – POR QUE OS INGRESSANTES NÃO ESTÃO FICANDO?
Se um não ficar, não desanime. Continue e traga mais um . No começo Bill trabalhou 6 meses sem conseguir trazer nenhum e ele não desistiu, aperfeiçoou seus métodos e salvou a minha vida.
Sem visitantes e novatos na sala esquecemos de contar a nossa história de recuperação e as diferenças internas ameaçam nossa unidade. Sem mensagem e sem unidade, não existe espiritualidade, o grupo não tem atração. Ao companheiro só resta o afastamento.
A solução é TRAZER MAIS UM. Contar sua história de recuperação, usando a linguagem do coração e a praticar as tradições para manter o grupo.
4 – AONDE ESTAMOS ERRANDO?
ESTAMOS ERRANDO PORQUE PARAMOS DE TRAZER MAIS UM, PARAMOS DE FAZER O 12º PASSO.
Parece que fomos vitimados pelo núcleo de nossa doença, o egocentrismo, nos recusamos a doar todo o tesouro que recebemos. Se não fizermos um 10° passo reconhecendo nosso erro e corrigi-lo, estamos fadados ao fracasso como liderança e a morte como irmandade. Nossa liderança atual não tem sido capaz de analisar a situação e propor saídas. É urgente que se reconheça a situação crítica que estamos vivendo, e nos dispormos a perguntar aonde estamos errando? E buscar respostas.
Temos a certeza que nossos servidores atuais são abnegados, gratos e apaixonados pelo nosso AA e tem capacidade de liderança, mas precisam se abrir, saindo da negação e pensar outras práticas diferentes das atuais, priorizando as atividades que possam reverter esse quadro. Nossa sugestão é voltar a priorizar o trabalho do 12º passo, junto ao bebedor problema, transmitindo-lhe a mensagem de AA. Todos os trabalhos atuais devem ser mantidos que serão novamente importantes quando os grupos voltarem a crescer.
Na nossa opinião a situação atual pode ser explicada a partir da “Mudança na Matriz”, que foi o tema de uma Conferência Nacional no início dos anos noventa, que reconhecia que nossa irmandade não conhecia e nem se utilizava do programa de AA. E desenvolveu um esforço para conhecê-lo; incentivou as reuniões literárias e temáticas, neste momento apareceu com destaque um novo membro de AA que se diferenciou do conjunto. Era o companheiro que tinha facilidade de ler e interpretar a literatura. Inicialmente esse companheiro começou a defender o conhecimento do programa de AA que era maravilhoso e devia ser praticado por todos, neste intuito começou a cobrar e a discriminar os companheiros que não tinham a mesma facilidade de ler e interpretar, chamou seus depoimentos de “cachaçal” denegrindo-os, diziam que eles não conheciam a mensagem de AA, inibindo-os inicialmente e depois impedindo-os de levarem a mensagem, pois diziam em tom ameaçador: “você está preparado para transmitir a mensagem?” ou “ conheça a literatura para transmitir a mensagem correta”, “cuidado a mesma mensagem que salva pode matar”. Enfim, induzindo os companheiros a não levarem a mensagem sem saber. Acabaram por criar um corpo de companheiros especiais aptos a transmitirem a mensagem, eram muito parecidos com professores da programação de AA. Organizaram os CTOs e passaram a trabalhar com as “terceiras pessoas”, restringindo dràsticamente nossa penetração na comunidade. . O pessoal do “cachaçal”se afastou dos trabalhos e até dos grupos, eles não eram mais portadores da mensagem de AA, só o “professoral” podia transmitir a mensagem. Foi a vitória da razão sobre a emoção, foi um duro golpe na linguagem do coração, a perda da afetividade na irmandade foi muito profunda. Muitos não voltarão. Vejam as últimas palavras, cheias de afetividade, do Dr. Bob na sua última participação em uma Convenção, antes de nos deixar: “E mais uma coisa: Nenhum de nós estaria aqui hoje se alguém não tivesse usado seu tempo para explicar as coisas para nós, para nos dar uma palmadinha nas costas, para nos levar a uma ou duas reuniões, para fazer numerosas pequenas ações generosas e atenciosas em nosso benefício.”
Aquele companheiro que trazia mais um deixou de fazê-lo e o CTO não conseguiu trazer novos companheiros na quantidade mínima para manter nossa irmandade em crescimento. Não estamos conseguindo renovar nossos servidores, nossas dificuldades financeiras são ameaçadoras, estamos mantendo a duras penas a estrutura de AA que herdamos dos tempos em que se trazia mais um. Ou reconhecemos esta situação e fazemos um 12º Passo coletivo, admitindo prontamente nossa falha e pedimos desculpas ao pessoal do “cachaçal” e solicitamos a sua ajuda para nos ensinar a fazer abordagens ou pereceremos. No nosso Manual de Serviço no capítulo “O Legado de Serviço de AA”, Bill nos diz o que é o serviço em AA. E temos feito o que lá é sugerido; temos levado a mensagem, feito todo o serviço que ajude a alcançar uma pessoa que sofre, seja pelo telefone, servindo café, mantendo a sala aberta, fazendo o Escritório local e nacional funcionar, participando da estrutura de AA local, nacional e internacional. Temos colocado em prática,dentro de nossas limitações, as orientações do manual do CTO . Apesar de estarmos fazendo tudo isto temos uma constatação que os números indicam que o AA no Brasil esta decrescendo. Hoje já não temos 6.000 grupos e sim 4.300 grupos e que a grande maioria dos grupos está esvaziando, em muitos abnegados companheiros estão mantendo as portas abertas sem perspectiva de melhoras. A fragilidade dos grupos reflete na fragilidade dos órgãos de serviço e vice-versa, não existe renovação de servidores, falta dinheiro, etc…….É urgente que perguntemos: aonde estamos errando? Apesar de toda a dedicação de nossos servidores o quadro não se inverte. É preciso reconhecer que nossas práticas não estão dando resultados, não adianta esperar resultados diferentes se as práticas são as mesmas. Nossa proposta é manter todos os serviços que estamos desenvolvendo, mas estabelecer uma prioridade de ação: O trabalho intensivo com o bebedor problema, o possível novo membro de AA , a nossa oportunidade de ajudar e crescer.
Nos últimos 20 anos temos priorizado atividades de estudos de nossos princípios, uma conscientização necessária para a mudança na matriz, agora é hora de colocar em prática essa conscientização, mas os grupos estão sem visitantes e novatos e nós temos a opção de continuar estudando e ver o AA desaparecer ou aceitar que negligenciamos no trabalho do 12º Passo, arregaçar as mangas e trazer mais um para seu grupo. É hora de superar discriminações e juntar o que tem de bom no” cachaçal e no professoral” .
Se nos comprometermos a trazer mais um este ano para o nosso grupo e se nosso grupo tem hoje 5 membros o ano que vem terá 10 membros , no segundo ano terá 20, em 3 anos teremos 40 companheiros no grupo, em 5 anos já seriamos 160 membros , nesta altura já teríamos pelo menos mais três grupos na região. Isto não é utopia, nos anos 80 , nos tempos em que se trazia mais um e os companheiros contavam suas histórias de vida em recuperação, o AA crescia nessa velocidade e vigor. Só na Serra foram criados nesse período uns dez grupos.

TODOS OS NOSSOS PROBLEMAS ATUAIS TEM UMA SÓ SOLUÇÃO;
TRAGA MAIS UM.
Nas últimas décadas o AA não tem estimulado a prática de abordagem. Os mais veteranos não fazem este trabalho e os novos não tem com quem aprender e nem são estimulados, pelo contrário são desestimulados , pois segundo os veteranos deveriam primeiro conhecer a literatura para levarem a mensagem correta, o fato é que vamos ter que aprender juntos a fazer este trabalho vital para o AA. Nossa proposta é criar nos grupos uma COMISSÃO DE ABORDAGEM. Que seria uma forma de organização que teria a função aprender e estimular a prática da abordagem.
A COMISSÃO DE ABORDAGEM estimulará os seus integrantes a desenvolverem sua habilidade pessoal no trabalho de abordagem ao bebedor problema, o possível novo membro de AA.
Este trabalho realizado de forma coletiva tem várias vantagens:
1º – Os mais habilidosos para esta atividade estarão compartilhando sua experiência, o resultado é que mais companheiros estarão aptos para executarem o 12º passo e quem ganhará com isto será o grupo e por extensão todo o AA.
2º – Para executar este trabalho de forma coletiva é necessário marcar uma hora, um local, programar a abordagem, isto disciplina a nossa vontade pessoal de fazer o 12º passo, criando um compromisso com os companheiros e com o grupo, desta forma com certeza, estaremos realizando mais abordagens do que faríamos por iniciativa individual.
3º – Este trabalho feito coletivamente ameniza os possíveis erros individuais e os méritos do possível crescimento do grupo seriam de todos, da consciência coletiva, por ter optado por trabalhar em grupo. Evitando dessa forma o estímulo a personalismos, tão em choque com o princípio do anonimato, que como declara nossa 12ª tradição :” É a humildade em ação”.
Sozinho eu não posso transformar essa realidade. Mas

QUE COMECE POR MIM.