Monthly Archives: Junho 2014

ELRICK B. DAVIS

Alcoólicos Anônimos Firma os Pés Aqui
Por Elrick B. Davis

Nos três artigos prévios, Mr. Davis falou de Alcoólicos Anônimos, uma organização de ex-bebedores reunidos para acabar com seu hábito de beber e salvar outros da bebida em excesso. Este é o quarto de uma série.
Compreensão
O que “pega” o bebedor patológico que, finalmente, chegou a um estado tal que está querendo ouvir um membro ativo dos Alcoólicos Anônimos, é que o alcoólico recuperado não somente compreende, o que apenas outro alcoólico pode saber, mas grande parte dos bebedores não reformados pensa que ninguém deve saber, porque ele nunca contou a ninguém, e suas dificuldades e escapadas deve ser o segredo de sua própria história.
O fato é que a história de todos os alcoólicos é sempre a mesma; alguns foram adictos por mais tempo que outros, e alguns aprontaram muito pele cidade – isso é tudo. O que eles devem ter ouvido nos hospitais de tratamento que freqüentaram, ou dos psicanalistas que consultaram, ou do médico que cuidou deles após uma bebedeira ou em casa, os convenceu de que o alcoolismo é uma doença. Mas eles tem certeza de que (a) a sua forma da doença é diferente da de qualquer um outro e (b) que neles ainda não atingiu,de alguma maneira, o estágio incurável.
O médico chefe lhe disse: “Se você voltar a tomar alguma bebida, estará de volta.” O Psicanalista afirmou: “Psicologicamente,você ainda não se adaptou. O seu subconsciente ainda está querendo voltar para sua mão, em busca de proteção” O medico de família ou outro dirá ” se você não largar a bebida, vai morrer.”
Reprovação
Advogados,clérigos,sócios ou patrões,pais e esposas,também estão propensos a ouvir confidencias e aceitar confissões sem se queixar. Mas o clérigo: “Sua forma de beber é pecado.” O sócio ou o patrão “Você vai ter de para com isso ou vai ter de dar o fora” A esposa ou os pais: “Seu comportamento está partindo meu coração.” E qualquer um: ” Porque você não tem força de vontade e passa a agir como homem.”
“Mas,” o alcoólico sussurra em seu coração. “Ninguém a não ser eu próprio sabe que tenho necessidade de beber para liquidar esse sofrimento tão duro de suportar.”
Ele começa a apresentar as desculpas para o alcoólico recuperado que veio lhe falar. Não consigo dormir sem uma dose. Preocupações. Problemas de negócios. Dívidas. Dores no estômago. Excesso de trabalho. Raiva. Desapontamento. Fobias de medo profundas. Cansaço. Problemas familiares. Solidão.
O catálogo não vai mais adiante quando o membro de Alcoólicos Anônimos começa a disparar uma lista adicional.
“Conversa fiada,” diz. “Não venha com essas desculpas pra cima de mim. Eu mesmo usei todas elas.”
Compreensão
E então conta a sua própria historia de alcoólico, certamente tão ruim, talvez muito pior do que a do beberrão. Eles trocam experiências. Antes que de por conta o alcoólico abordado contou a seu novo amigo coisas que ele não admitia nem para ele mesmo. Uma psiquiatria rude e incisiva, mas que funciona, já que os membros curados da Seção de Cleveland de Alcoólicos Anônimos todos estão reintegrados à sociedade para testemunhar. E essa é a razão para os encontros semanais da irmandade. São reuniões de depoimentos. Os membros se reúnem para encontrar novas vitimas para curar, e para ajudarem-se uns aos outros. Durante anos suas vidas, social e emocional, tinham sido deprimentes. Agora eles dão uns aos outros, uma sociedade mais rica para substituir a antiga. Portanto, as festas familiares da irmandade e os pic-nics.
Em nenhum momento eles esquecem de que um alcoólico na ativa é uma pessoa muito doente. Em nenhum momento podem esquecer que até mesmo os profissionais da medicina que conhecem a natureza da doença, não tem direito a achar que a falha na recuperação é uma prova de perversidade moral no paciente. Se um homem está morrendo de câncer, ninguém diz: “Porque você não usa sua força de vontade e extermina esse câncer.” Se ele está tossindo os pulmões para fora devido a tuberculose,ninguém diz: ” Reaja e pare de tossir. Seja homem.” Eles podem dizer ao primeiro:”Faça a cirurgia antes que seja tarde demais;” ao segundo: “Vá se tratar ou acabará morrendo.”
Religião
Alcoólicos recuperados falam desta maneira para seus companheiros na ativa. Eles dizem: “Você é um homem muito doente. Fisicamente doente – você tem alergia ao álcool. Nós podemos leva-lo a um hospital onde você vai eliminar todo esse veneno. Mentalmente doente. Nós sabemos como curar isso. E espiritualmente doente. ” Para curar sua doença espiritual você vai ter de admitir Deus. De o nome e defina Deus da maneira que melhor lhe convier. Mas se você está realmente querendo fazer qualquer coisa para ficar bem, se for verdade mesmo – e sabemos que é – que você bebe mesmo quando não quer e não sabe porque acaba bêbedo, você deve para de mentir para si mesmo e adotar uma forma espiritual de vida. Você está pronto para aceitar ajuda?”
E o milagre é que, para alcoólicos que concordaram por puro desespero, simplesmente o esquema funciona.
Só em Cleveland há 50 alcoólicos, todos notoriamente ex-beberrões, agora membros de Alcoólicos Anônimos para comprovar. Nenhum é um fanático da proibição. Nenhum teve discussões a respeito da legitimidade do uso de bebidas alcoólicas por pessoas que estão física, neurológica e espiritualmente aptas a consumi-las. Eles simplesmente sabem que alcoólicos não podem beber e viver, e que sua doença “incurável” tinha sido conquistada.

Tradução: DS17AA – Setor 05 – Área RJ
Comp. Ricardo Gorobo MCD
Com permissão do Cleveland Plain Dealer Parte 5 – Publicado em 26 de Outubro de 1939

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ALCOÓLICOS ANÔNIMOS FIRMA OS PÉS AQUI

Alcoólicos Anônimos Firma os Pés Aqui

Por Elrick B. Davis
Nos artigos anteriores,Mr. Davis falou de Alcoólicos Anônimos,uma sociedade informal de bebedores que se uniram para vencer o hábito de beber. Este é o último de cinco artigos.
Sem enxerto
É difícil para os céticos admitir que ninguém ainda tenha conseguido se infiltrar em Alcoólicos Anônimos, a sociedade informal de ex-bêbedos que existe apenas para se curarem uns aos outros, e fazer dela um esquema para ganhar dinheiro. Ou então que alguém não vai conseguir. A completa informalidade da sociedade parece ser o que a salvou dessa ameaça. Os membros não pagam taxas. A sociedade não tem”staff” pago. As festas são “Buffet”. As reuniões são realizadas nos lares de membros que as possuem grandes o suficiente para estes encontros, ou em lares de pessoas que podem não ser alcoólicas, mas são simpatizantes com o documento.
Freqüentemente um bêbedo está necessitando de hospitalização no momento em que é contatado. Ele próprio deverá pagar o que for necessário. Sem dúvida ele não tem o dinheiro; mas provavelmente sua família sim. Ou seu patrão adiantará o dinheiro para salvá-lo, e posteriormente descontará do seu salário. Ou membros curados da sociedade o ajudarão a conseguir crédito, se é que ele ainda tem um resquício. Ou velhos amigos ajudarão.
Neste momento, membros da Irmandade de Alcoólicos Anônimos de Cleveland estão procurando em bairros populares e casebres por um homem, outrora eminente, desta cidade. Um amigo médico dos tempos de melhores dias pediu-lhes que o encontrassem. Esse amigo pagará a conta do hospital e o que for necessário para resgatar essa vítima de uma “incurável” fissura e devolve-lo à saúde física, caso a sociedade o encontre.
A sociedade publicou um livro chamado “Alcoólicos Anônimos ” que vende a US$3,50. Pode ser encomendado de um endereço anônimo, Worlds Publishing Co., Caixa 657, Church Street Annex Post Office, New York City, ou comprado da Irmandade de Cleveland da Sociedade.
Não há lucro pecuniário para ninguém com esse livro.
Descreve a história da sociedade e explana seus princípios na sua primeira metade. A segunda e última metade é o relato de casos de curas representativos selecionados entre alguns dos 100 primeiros alcoólicos curados ingressantes nesta sociedade. Foi escrito e copiado pelo membro de New York que trouxe a sociedade para Ohio. Ele levantou dinheiro com seu crédito pessoal para custear a edição do livro. Ele gostaria de ser ressarcido por esse empréstimo. É um livro de 400 páginas, pelo qual qualquer editora cobraria o mesmo preço. Cópias compradas da Irmandade local, rendem a essa sociedade, um dólar cada.
O Reverendo Dr. Dilworth Lupton, pastor da 1st Unitarian Church de Cleveland, encontrou em uma revista religiosa um comentário entusiástico do livro pelo Re. Harry Emerson Fosdick, e a enviou para o presidente da Irmandade local. Foi igualmente noticiado em algumas revistas médicas.
A Fundação
Para lidar com o dinheiro advindo do livro, e de doações ocasionais de pessoas interessadas em ajudar ex-bêbedos a curar outros bêbedos “incuráveis”, foi criada a Fundação do Alcoólico, com uma junta de sete diretores.
Três deles são membros de A.A.. Quatro são não alcoólicos, mas novaiorquinos de reconhecido interesse por movimentos humanitários. Dois dele acontece serem igualmente membros da Fundação Rockfeller, mas isso não associa,de forma alguma as duas Fundações.
O primeiro problema da Irmandade em Cleveland foi encontrar um hospital que aceitasse admitir um bêbedo e que efetuasse os cuidados médicos prévios a qualquer tratamento. Hospitais não gostam de ter alcoólicos como pacientes, eles são incômodos. E a Sociedade exige que assim que o bêbedo tenha sido medicado e esteja em condições de receber visitas, seja permitido que membros da Sociedade tenham livre acesso a seu leito. Isso foi concertado. A sociedade local gostaria de amealhar um fundo de 100 dólares para deixar com o hospital como prova de boa fé. Mas se aceitar fazê-lo será apenas com contribuições voluntárias de membros.
Enquanto isso, os membros, tendo financiado suas próprias curas, gastam enorme quantidade de tempo e não menos de dinheiro para ajudar novos membros. Psiquiatras dizem que o alcoólico para se curar precisa de um “hobby” . Seu velho “hobby” era unicamente o álcool. O “hobby” de A.A. é curar uns aos outros. Telefonemas, selos postais, gastos de gasolina, pertencem a cada indivíduo. É hospitalidade para com os novos membros. Uma regra da sociedade é que um abraço acolhedor de cada membro esteja sempre aberto para qualquer outro membro que necessite falar ou se aquietar, o que pode incluir uma cama ou uma refeição a qualquer tempo.

FUROR CURANDIS

“Furor Curandis”

Oscar Rodolpho Bittencourt Cox – Médico

Como médico fui atraído para as questões que envolvem a doença do alcoolismo pela forma dos resultados obtidos no meu trabalho quando comecei a encaminhar ou sugerir ao cliente a ida a Alcoólicos Anônimos.
A doença, considerada como tal pela O.M.S. (Organização Mundial de Saúde) é incurável, progressiva e de determinação fatal. Quando não interrompido o seu processo, compromete o homem em toda sua estrutura física, psíquica, comportamental, emocional, laborativa, afetiva, portanto, vivencial, de forma tal que compromete e deteriora o próprio habitat deste animal homo sapiens.
Assim sendo, o alcoolismo estará influenciando meu trabalho como médico – perito da Previdência Social – é aquele médico responsável pela avaliação da capacidade laborativa. Seja doença do trabalho ou previdenciária, as questões do alcoolismo influenciam.
Eu, como os colegas, não tínhamos paz de labor em função dos tumultos muitas vezes cotidianos.
Não sei em que momento comecei a sugerir àqueles que na minha frente apareciam alcoolizados ou mesmo cheirando a cachaça às 7 horas da manhã, que procurassem um tal de A.A. que funciona próximo, no interior de uma igreja.
Com o passar do tempo, observava melhor tranqüilidade no meu local de trabalho e conseqüente melhor produtividade.
Coincidiu haver um encontro de Alcoólicos Anônimos na cidade em que trabalhava para o qual, médico conhecido da localidade, iria falar. Fui lá para assistir, passar o dia, ou seja, momentos com Alcoólicos Anônimos como estamos fazendo aqui neste ciclo. Houve almoço comunitário (mocotó e feijoada) oferecido a todos os presentes pelo Escritório Local de Alcoólicos Anônimos – A.A..
Lá, surpresa eu tive, quando alguém se aproximando, ofertou-me um livro: “12 Passos de A.A. – O livro verde, com a dedicatória parecida com:” Ao médico, pelo que nos tem ajudado, A.A. agradecido Nilópolis, idos de 1980 “.
– O que eu ajudei?
– A quem ajudei?
– Como ajudei?
– Quando ajudei?
Todo o programa de recuperação ligado a Alcoólicos Anônimos, é de atração e não de promoção.
Vi-me atraído pelos meus resultados no trabalho após o singelo ato de apenas citar a presença de Alcoólicos Anônimos.
Saí em campo para saber do que se tratava e nesta caminhada meu currículo soma a ser: médico em centros de recuperação para dependentes químicos; exercer encargos em associações ligadas ao estudo do álcool e outras drogas como a A.B.R.A.D. (associação Brasileira de Alcoolismos e Drogas); participação em congressos, encontros e seminários; participação na elaboração, instalação e funcionamento de centros de recuperação pelo Brasil; escrever trabalhos e teses; ministrar cursos; exercer o encargo de Custódio Não-Alcoólico na Junta de Serviços Gerais de A.A. no Brasil, portanto, participar da estrutura de serviços da irmandade que naqueles idos de 1980 mal sabia me expressar a respeito destas questões.
Foi necessária esta apresentação como exemplo do que acho quanto à maneira com que os profissionais são atraídos a estes conhecimentos sobre doença tão avassaladora como abrangente.
É o método atual de abordagem terapêutica, a partir da ação de A.A..
As faculdades na área da saúde nos preparam para que possamos curar e para tal assumimos total responsabilidade no fluxograma terapêutico a partir da elaboração do diagnóstico.
Ledo engano, iremos nos envolver como cita o autor Luiz Renato Carazzai na sua brilhante síntese: “Furor Curandis” a semelhança “vista apenas nos familiares mais envolvidos”.
Carazzai, brilhantemente, aplica ao 12 Passos de A.A. para o profissional que sentindo-se atraído pelo programa de recuperação, parte para aplicar estes conhecimentos em sua clínica e ou em seu trabalho profissional.
Eu sugiro que trabalhando com alcoólicos que estão em negação, resistências e vivenciando todos os meandros “malignos” da doença, freqüentamos os grupos de familiares e amigos de alcoólicos – Al-Anon (AL de Alcoólico e Anon de Anônimo), pois acabamos nos envolvendo com a doença como familiares. Nós passamos descontando as horas de repouso ou mesmo de sono. Não diria mais sonhos, pois podemos adoecer de tal modo que vivenciaremos pesadelos.
As negações, as resistências que caracterizam a doença, tem fundamento na bioquímica cerebral e agora podemos colocar dois lembretes como substrato para o nosso entendimento e aceitação das sugestões já que a impotência do profissional para com os resultados do tratamento é total:

1º Proteínas agem nos circuitos de recompensa do cérebro criando comandos que impedem o exercício da vontade de escolher beber ou não. Cria circuitos de recompensa – traduzidos pela negação que se cronifica. Há ações de proteínas que neste nível regulam a expressão ou atividade dos gens;

2º parando de beber, havendo queda nas proteínas acima citadas, surgem novas proteínas que estimularão por outras vias recordações prazerosas do beber quando acionadas lembranças, recordações e mesmo contrariedades. Também estas proteínas neste nível estarão regulando a expressão ou atividade dos gens.

Somos impotentes e percebam:

“Uma parte central do Circuito de Recompensa do Cérebro modifica sua atividade e estrutura depois do uso crônico de substâncias que induzem a dependência (o álcool é uma delas): a via que se estende dos neurônios produtores de Dopamina (Neurotransmissor) da área tegmental ventra – A.T.V. Até as células sensíveis a Dopamina no Núcleo Acumbens (N.A.). Essas alterações contribuem significativamente para a tolerância, a dependência e o desejo insaciável que provocam o uso repetitivo da droga e levam às recaídas mesmo depois de longos períodos de abstinência”.

Os usuários ficam extremamente sensíveis a coisas que lembrem o consumo passado, vulneráveis a recaídas sob estresse e incapazes de controlar sua necessidade de procurar drogas.
Participei durante anos, na década de 80, no Espírito Santo, no Conselho Regional do Serviço Social do estado, de reuniões aos sábados, onde Assistentes Sociais de grandes empresas capixabas se reuniam para estudos sobre alcoolismo. Quando questionado por uma assistente social que mais tarde se tornou professora em alcoolismo dando cursos para empresas sob patrocínio de Empresa de Medicina do Trabalho em Belo Horizonte e hoje, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (U.F.E.S.), que não podia trabalhar na área por não ter este problema e, portanto não ter identificação lhe perguntei: – Qual o problema que tinha? Respondeu: – Quando bebo leite passo mal e fico irritada etc…Disse-lhe: – Então, comente com seus clientes na empresa, quando necessário, estas suas questões humanas.
Na seguinte reunião do grupo, esta assistente social apresentava “um sorriso de orelha a orelha”, pois tinham acabado as barreiras entre ela, profissional, e seus clientes, funcionários da empresa.
Não há condição de uma abordagem à questão do alcoolismo se a parte humana de todos, profissional e doente, não vier em forma de comparação, similitude e mesmo conforto.
Passaremos agora a citar passo a passo atenções ou complementos do que Carazzai também sintetiza: os 12 passos para profissionais. Neste ciclo entendo como aprofundamento importante:
1º Passo: Passo da Importância e do Desgoverno: “A Chamada”.
Do alto dos meus mais de 15 anos de formado em medicina vejo que não curo nada. Posso com o meu saber ajudar aqueles que desejam melhorar a sua qualidade de vida. Portanto, posição oposta àquela com que saímos das faculdades. Há desse modificar a escola. Nos dois primeiros anos de formado, o profissional de saúde já se acha desmotivado, ou procura sua realização por outros caminhos ou se acomoda ao sistema. Eu sempre procurei e procuro outros caminhos.
Também conheço profissionais e terapeutas que procurando “tratar” seus pacientes, adoeceram, e muitos já morreram.
Em se tratando de alcoolismo estamos diante de uma questão de energia e precisamos aprender técnicas de “salvamento” como é necessário aprender quando salvamos alguém de morrer afogado em mar revolto.

Ao profissional também é sugerido o desligamento emocional da questão em pauta para poder passar ao seu cliente alcoolista fundamento básico de tomar consciência plena da necessidade de mudar, evidenciando na vida do alcoolista seqüelas da doença em todos os seus aspectos da vida. Necessidade de reavaliação do ser humano. Para evitar a sabotagem ao tratamento, há necessidade de se estar preparado para os sucessivos confrontos com fatos.

2º Passo: Passo do acreditar na existência de forças superiores a si mesmo.

Como relatei atrás, minha percepção mostra verdadeiros milagres (etmologicamente é tudo aquilo que causa admiração) com meus clientes. Há algo maior do meu modo de atuar logo, eu profissional, só preciso criar espaços para esta energia maior (para A.A. é um Poder Superior – P.S. – como cada um o conceba) atuar. Este espaço será maior quão maior for a consciência da impotência e mais profundo o contato com seu próprio descontrole.
Para os resultados na aplicação deste passo, a medida exata oportunismo e envolvimento necessários a um aconselhamento objetivo e prático. Hora da sua própria experiência de vida à semelhança daquele leite que tanto perturbava a assistente social.
O suporte psicosocial à abstinência (A.A. sugere que o 1º gole seja evitado) se faz necessário para que a área temporal do cérebro comece a se desenvolver já que é a sede da espiritualidade segundo pesquisas mais recentes (espiritualidade – é a auto-estima, ou seja, como eu me trato e conseqüentemente irei tratar o outro). É esta área do cérebro que bioquimicamente se interpões às estruturas compulsivas acima mencionadas.
Portanto. Compreensão e identidade são fundamentais, assim como objetividade, similitude, conhecimento da realidade do paciente, seus medos, suas angústias, suas dúvidas, seus anseios e suas crenças.

3º Passo: Agora que abstêmico, consciente de mim mesmo, e com crenças em uma energia maior, tenho que entregar-me totalmente a ela.

Partimos do princípio que o indivíduo tem a experiência de ter que do controlar o seu beber e obteve insucessos e decepções com seu resultado. Observou os “malignos” já referidos, portando compete ao profissional não “atrapalhar” facilitando com explicações, desculpas, que atuam na realidade do paciente facultando o poder de manipulação da doença. O paciente deve se entregar à sua recuperação, ter uma observação aguda para o fenômeno o que depende da confiança entre o profissional e o cliente.
A confiança é mola mestre do 3º passo. É o combustível que moverá o mecanismo terapêutico. A consciência do passado é a mola propulsora neste passo e a observação das questões conflitantes no grau da compreensão do cliente é a fundamental. Nada forçado, apenas confrontando à consciência. Ao profissional compete a criatividade no aumentara percepção do cliente em seu ritmo de opções e escolhas.
Se o profissional tiver a vivência do processo, poderá atuar reforçando sempre a certeza de que o tratamento indicado é extremamente necessário e tão eficaz quanto mais ampla for a participação do paciente.

Por causa dessas necessidades, nos E.U.A. é sugerido que estes profissionais freqüentem os grupos de mútua ajuda para familiares e amigos como também, antes de serem admitidos nos centros de tratamento, passem pelo processo como pacientes.
Para que eu acredite no tratamento, é necessário a percepção e o contato com os benefícios que ele traz.

4º Passo / 5º Passo / 6º passo / 7º Passo:
São passos para que possamos saber o que estamos entregando a esta energia maior e o desenvolvimento de sentidos mais sutis como a intuição e a concentração.

Biologicamente o homo sapiens do dizer do astrônomo norte-americano Carl Sagan (*1934 – †1996): É o primeiro momento que o cosmos toma consciência de si mesmo. Também temos a definição de ser o animal portador de consciência interna, ou seja, consciência da existência de si mesmo.
Posso, portanto, através o conhecimento dos meandros de minha existência, conversamos comigo mesmo, pedir a esta energia maior que abastece – já tenho agora as percepções dos ganhos e benefícios que a recuperação está me proporcionando – o que desejo para mim: remoções de defeitos e possibilidade para expor e exercer meus dons.
Os profissionais possibilitam ao paciente meios concretos para desenvolver um inventário: apresentar roteiros objetivos, questionários, identificação de características morais e atitudes a serem avaliadas; estimular, reforçar e reativar motivações; incentivar participação em grupos para haver trocas de experiências identificadoras. O profissional passa a uma atitude colaboradora e compreensiva, mas nunca protecionista e permissiva.
É programa reformador numa ampla proposta de discussão de todos os dados levantados sem quaisquer bloqueios pessoais. São passos do profissional ouvir o paciente e criatividade de cada vez mais estimula-lo na abertura de si mesmo.
Pessoas da mistura exata da eterna busca da perfeição com a consciência da impossibilidade em alcança-la. O processo tem que estar em andamento sem interrupção de obstáculos concretos ou abstratos, desmascarados pelo profissional ao criar subsídios necessários à crescente percepção do cliente.
O profissional deve estar preparado para identificar sérios e graves entraves à progressão do tratamento.
A motivação pela motivação.

8º passo / 9º passo: Agora é o levantamento das pessoas prejudicadas e a ação nas reparações salvo impedimentos quanto ao envolvimento de terceiros.

Cada vez mais urge ao profissional estimular conhecimento da história de vida do cliente. Percebe-se quão importante ao próprio profissional não ter medo da similitude com sua própria história e neste ponto é significativo o fato do desligamento emocional deste terapeuta quando é balizado com cliente que consegue dar soluções melhores que as suas.
Humildade e Aceitação – qualidade a serem buscadas pelo educador terapeuta. Por isto, ordem de prioridades são buscadas.

10º Passo: Inventário diário para se manter aprumado e pareado com a recuperação.

A percepção de sentimentos, sua identificação e ação em explicita-los. A estratégia de aperfeiçoamento é fundamental.
“As chamadas armadilhas podem e devem ser desfeitas, antes que o desconforto originado seja mais forte que a perspectiva de alívio e o indivíduo recorra ao recurso já conhecido, o álcool”.
“Evidenciar ganhos enquanto estes não são tão evidentes e possibilitar a conquista de novos enquanto se processa a reeducação social, esse são os objetivos do 10º passo”.
Inventário com clareza, objetividade, imparciabilidade.
O profissional possibilita espaço para catarse, esclarecimento, aprendizado, obtenção de alívio.

11º Passo: Todos os outros passos culminam na condição de meditar com as energias maiores segundo a própria concepção, de modo que, se desenvolva a concentração e intuição já citadas.

Surge um vínculo maior que Carl Yung (*1975 – + 1961) cita como “consciente coletivo”. Na região católica aprende-se como “Fonte de Água Viva”, por exemplo.
Treinar o “parar para pensar” condicionado à confirmação consciente da necessidade de aceitar suas limitações.

12º Passo: Corresponde à distribuição de todos os novos conhecimentos, experiências, vivências da nova qualidade de vida em todas as atividades seja do cliente como do profissional. Ambos embuídos da assertividade de suas próprias vivências: é o chamado despertar _ motivação básica que orienta e impulsiona todas as ações do indivíduo.

Trata-se de uma recuperação e resgate espiritual.

Lembretes e Necessidades da atividades Médicas no Alcoolismo:

Médico desempenha papel importante:

• Identificação do alcoolista;
• Tratamento das síndromes clínicas / psiquiátricas associadas ao etilismo;
• Condução do processo de desintoxicação;
• Encaminhamento aos programas de reabilitação;
• Aconselhamento dos pacientes quanto ao tratamento hospitalar / ambulatorial;
• Regular o tratamento medicamentoso durante a reabilitação.

Falta aos médicos:

• Diagnosticar os problemas relacionados ao uso do álcool com freqüência, em todas as especialidades, principalmente nos estágios inicias;
• Reconhecer o abuso do álcool como sendo problema primário;
• Conhecimento e treinamento específicos;
• Programas de treinamento formal em alcoolismo – educação médica continuada-.
Para encerrar, conto uma história:

Jesus foi procurado por um seguidor no Mar da Galiléia que lhe perguntou o que deveria fazer para seguir o caminho do mestre já que, os milagres ele, seguidor, via como muito longe de suas possibilidade.
Jesus respondeu com a oração do Padre Nosso: Paralelo dos 12 Passos com o Padre Nosso:
1º Passo: O sinal inicial para a chamada: “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool e que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.

Pai nosso que estais nos corações /
nos céus santificado seja o vosso nome ® 2º Passo: Viemos a acreditar que um Poder
superior a nós mesmos poderia devolvermos a sanidade.

Venha a nós o vosso reino,
Seja feita a vossa vontade
Assim na Terra como no céu. ® 3º Passo: Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida
aos cuidados de Deus, na forma em que o concebíamos.

O pão nosso de cada dia nos
Daí hoje ® Lema: Só por hoje

4º Passo: Fizemos minuciosos e destemido
inventário moral de nós mesmos.
5º Passo: Admitimos perante Deus, perante
nós mesmos e perante outro ser humano,
a natureza exata de nossas falhas.
6º Passo: Prontificamos inteiramente a queixar
Perdoai as nossas ofensas que Deus removesse todos esses defeitos de
caráter.
7º Passo: Humildemente rogamos a Ele que nos
livrasse de nossas imperfeições.

8º Passo: Fizemos uma relação de todas as pessoas
que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a
reparar os danos a elas causados.

Assim como nós perdoamos
A quem nos tem ofendido
9º Passo: Fizemos reparações diretas dos danos
causados a tais pessoas, sempre que possível salvo
quando faze-lo significasse prejudica-las ou a outrem.

E não nos deixeis
Cair em tentação ® 10º Passo: Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando
estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

Mas,
Livrai-nos do mal ® 11º Passo: Procuramos através da prece e da meditação, melhorar
nosso contato consciente com Deus, na forma em que o
concebíamos rogando apenas o conhecimento de sua vontade em
relação a nós e forças para realizar essa vontade.

A finalidade: o resultado de todo este processo: ® 12º Passo: Tendo experimentado um
Despertar Espiritual graças a esses Passos,
Procuramos transmitir essa mensagem e
Praticar estes princípios em todas as
Atividades.

Os 12 Passos na Espiritualidade que dão força a cada uma pessoa para viver bem e estar bem, um dia de cada vez:

1º Passo: – Honestidade –
2º Passo: – Esperança –
3º Passo: – Fé –
4º Passo: – Coragem –
5º Passo: – Integridade –
6º Passo: – Boa Vontade –
7º Passo: – Humildade –
8º Passo: – Auto-Disciplina –
9º Passo: – Amor –
10º Passo: – Perseverança –
11º Passo: – Espiritualidade –
12º Passo: – Serviço –

Bibliografia:
1 – Compartilhando a Sobriedade – JUNAAB- Jan.2003.

2 – Você e o Alcoolismo – Ricardo Esch – Qualitymark Editora – 1991.

3 – “Cérebro Viciado” – Eric Nestler / Robert Malenka – Schientific American – Ano 2 Abr, 2004 P. 56 – 63.

OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS

OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS

Dr. Lais Marques da Silva,
Ex-custódio e presidente da JUNAAB.

O silêncio que se observa nas reuniões dos grupos de A.A. cria uma atmosfera de confiança e respeito recíprocos entre o alcoólico que faz o seu depoimento e os demais companheiros. O olhar daquele que faz o seu depoimento encontra calor humano e resposta por parte daqueles que o escutam em silêncio, tudo isso levando a uma comunhão de interioridades. O silêncio permite o estabelecimento de uma abertura, de uma disponibilidade pessoal em relação àquele que oferece a sua experiência além de facilitar o aparecimento de uma relação marcada pelo sentimento de confiança, fundamental para a comunicação, para que se possa abrir para o outro, para que haja o relacionamento que possibilita o desenvolvimento de liames profundos e para o surgimento de amizades verdadeiras. Confiar é indispensável para se livrar de doenças e é manifestação de fé em si mesmo, nos outros e no Poder Superior. O silêncio é o caminho que leva ao encontro consigo mesmo e com o outro.

O silêncio de quem escuta um depoimento transmite a seguinte mensagem a quem o faz: eu sei que você tem valor, sei que você é apenas um doente, sei que você é um ser humano e que, como eu, sofre de uma devastadora enfermidade. Por tudo isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito, a minha compreensão e a minha compaixão, esta, entendida como a consciência profunda do
sofrimento de outra pessoa associada ao desejo de ajudá-la.

Dar atenção ao próximo é ato de amor, e a maneira mais comum e importante do exercício da atenção é escutar. Mas aprendemos na escola a ler e a falar, mas não a escutar, a despeito de que as pessoas, na sua vida diária, passam muito mais tempo escutando do que falando ou escrevendo. Mas é difícil escutar bem e, na maioria dos casos, as pessoas simplesmente não escutam ou praticam uma escuta seletiva em que ficam atentos apenas ao que lhes interessa ou para encontrar o
momento certo em que uma conversa possa ser encerrada.

Para escutar, é necessário calar, silenciar, abrir os ouvidos e se por
atentamente a escutar quem fala. Ouvir profundamente significa auscultar, prestar atenção, dar ouvidos, compreender, acolher, entender, examinar, discernir.

É preciso estar disposto a se esforçar para conseguir escutar Verdadeiramente. O esforço para escutar o depoimento de um companheiro vem do fato de entender que ele necessita da nossa atenção e que é digno dela. Por outro lado, a atenção dedicada pelo companheiro que ouve um depoimento também lhe beneficia, pois
resulta no seu próprio crescimento que, por outro lado, ocorre a partir do conteúdo daquilo que está recebendo. No momento de silêncio, em que ouvimos atentamente o depoimento de um companheiro, suspendemos todos os nossos juízos, pensamentos e preocupações. Desapegamo-nos do nosso próprio ser. Esse silêncio nos convida a superar os obstáculos do preconceito, da exclusão, da falta de diálogo e da falta de solidariedade.

Podemos avaliar, a partir das considerações que vimos fazendo, a importância de se estar em um ambiente em que se desfrute de um profundo e acolhedor silêncio quando nos lembramos de situações que, muitas vezes, marcaram muito as nossas vidas. Recordamos de várias situações das quais saímos nos sentindo muito mal por não termos conseguido dizer o que desejávamos. Não é que tenhamos sido muito
exigentes, mas, apenas, que tivemos dificuldade em articular calmamente o que desejaríamos ter dito e o resultado é que ficamos frustrados, raivosos e nos sentindo culpados. Quando podemos, descarregamos essa raiva em alguém e o que resulta é que as pessoas que estão à nossa volta fecham seus ouvidos para as nossas colocações, resultando que fica, por mais essa razão, ainda mais afastada a esperança de se entrar em harmonia com os outros. Podemos também, por decoro, jogar a raiva para dentro e, nesse caso, vamo-nos tornando progressivamente mais descontentes e tendemos a abandonar o convívio daquelas pessoas ou até mesmo a abandonar uma instituição a que pertencêramos.

No entanto, ao contrário, desfrutando do silêncio respeitoso reinante nas reuniões dos grupos, os alcoólicos têm oportunidades repetidas de, calmamente, ir se desenvolvendo e se tornando progressivamente mais capazes de realizar uma comunicação plena sem que ocorra o fechamento dos ouvidos por parte dos que ouvem o depoimento. Desfrutando do silêncio do grupo, pelo contrário, muitos companheiros vêm curtindo a sensação positiva de liberdade, de alívio e de relaxamento que vem depois de terem podido passar as suas mensagens, de terem participado e colaborado. À medida que os depoimentos se sucedem, o raciocínio vai ficando cada vez mais claro, as idéias vão sendo arrumadas, a qualidade do relacionamento com os companheiros do grupo vai melhorando.

Na verdade, a língua presa e o sentir-se culpado são manifestações longínquas de falta de afirmação pessoal, de incapacidade de ser assertivo e aí vale notar que a falta de auto-estima está na raiz do problema. Sem acreditar que temos valor, não seremos capazes de fazer as nossas colocações, de expressar as nossas necessidades de modo convincente e, nessa condição, os nossos argumentos irão
falhar e recuaremos ou concordaremos quando o que desejávamos era dizer não.

A essa altura, é importante destacar que o amor ao próximo é uma via de mão dupla porque, estando dirigido para aquele que faz o depoimento, o faz perceber a concentração, a atenção e o amor que lhe chegam da parte de quem o escuta, e o faz se sentir gratificado. Quem faz o depoimento doa a sua experiência, valiosa e única, e quem o escuta, o receptor, se torna, desse modo, também doador, na medida em que oferece ao depoente a sua atenção e o seu amor. Escutar com
atenção total e completa, avaliando cada palavra e entendendo cada frase, é a verdadeira forma de escutar, que exige um grande e indispensável esforço de concentração ao dedicar o seu tempo apenas a quem faz o seu depoimento, colocando de lado as suas preocupações, os seus pensamentos. É um esforço amoroso. Fazê-lo é prova de estima e consideração e, quem escuta, ao valorizar o depoimento, faz o depoente se sentir valorizado. Sentindo-se assim, o depoente ficará estimulado a fazer relatos de maior conteúdo. Fica disposto a oferecer a
sua estima e, com isso, estabelece-se um ciclo, ascendente e criativo, de evolução e de crescimento. Mas esse ciclo virtuoso exige atenção, concentração e, portanto, esforço, e não poderá ocorrer senão em ambiente de silêncio completo. O barulho, as conversas e os movimentos de pessoas dentro do grupo tiram a atenção, quebram a concentração e todo o riquíssimo processo fica comprometido.
A escuta atenta implica em contenção e em afastamento da própria personalidade e isso leva à aceitação do outro. Por outro lado, percebendo-se aceito, o companheiro que faz o seu depoimento sente-se menos exposto, menos vulnerável e isso cria um caminho para que o companheiro possa abrir-se mais completamente.
Importa ainda considerar que, freqüentemente, o depoente recebe atenção amorosa depois de muitos anos de um grande vazio e, às vezes, até pela primeira vez na vida.

O fato importante e fundamental para a recuperação do alcoólico, e que só é possível no ambiente silencioso dos grupos de A.A., é que o companheiro só ganha consciência da importância da sua individualidade na medida em que é reconhecido como tal pelos outros companheiros, pelas outras consciências. Isso ocorre na família, posteriormente na vida social e, especialmente, nos grupos de A.A.. A
identidade da consciência individual, subjetiva, depende desse Reconhecimento uma vez que a identidade do eu só ocorre através da identidade do outro que me reconhece como tal e que, por outro lado, depende também de que eu o reconheça.
Este é um mecanismo extremamente importante na construção do indivíduo, pois que indispensável para o crescimento da sua própria humanidade. E isso acontece no ambiente respeitoso e silencioso dos grupos de A.A..

A compaixão que é despertada nos companheiros dos grupos, numa atmosfera marcada pelo silêncio, significa que eles sentem no coração um impulso forte para ajudar aquele que faz o seu depoimento a se livrar do seu sofrimento. É uma saudável atitude da mente e do corpo que procura aliviar a dor e o sofrimento de outros seres humanos. A compaixão é a resposta espontânea de um coração que está aberto
para os companheiros do grupo. Resulta, então, que as pessoas se sentem mais próximas e mais confortáveis no convívio mútuo. Pensam nas outras pessoas, chegam a uma compreensão madura de si mesmas e das suas relações com os outros.

Não há sentimento mais denso e mais enriquecedor que a compaixão. Nem mesmo a nossa própria dor pesa tanto quanto a que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogando conosco, começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento, dor que é prolongada
por muitos ecos, ou seja, pelas lembranças que conservamos e que voltam à nossa consciência repetidas vezes. Esses sentimentos compõem a espiritualidade e aumentam a nossa dimensão humana; despertam o amor ao próximo, o sentimento de fraternidade.

O sofrimento é uma experiência universal e, por isso, deveria existir mais compaixão no mundo. O problema está em que, freqüentemente, não nos encontramos abertos para sentir dor. Se fugimos dela e nos defendemos, isto significa que também nos fechamos para o aparecimento da compaixão. Mas não é preciso ser santo para sentir compaixão, ela é a resposta natural de um coração aberto em
relação a outro ser humano.
Usualmente estamos com os corações fechados para sentir dor. Afastamo-nos da dor, nos fechamos, nos defendemos. Neste caso, a fonte da compaixão permanece fechada e saímos do que é verdadeiro e próprio do ser humano para o que é fabricado, decepcionante e fonte de confusão, isso quando nos voltamos para as coisas do mundo que nos cercam.

Compaixão não é o mesmo que tristeza. As pessoas usualmente têm uma aversão ao sofrimento, à tristeza, mais do que uma abertura em relação a ela. Assim, dizemos que uma pessoa é “baixo astral” e nos afastamos dela porque nos faz sofrer. Afastamo-nos ou fazemos alguma coisa para aliviar a nossa tristeza.
Fazemos isso por nós. Mas se prestarmos atenção à diferença entre tristeza e compaixão, veremos que, na compaixão, não há fixação nem aversão e que a condição de abertura em relação ao sofrimento do outro é realmente a grande motivação para uma resposta hábil e efetiva. A tristeza incomoda, a compaixão abre o coração para o sentimento de amor ao próximo, para o fato de sermos irmãos.

Nos grupos, não há uma atmosfera de tristeza, como se poderia imaginar e as pessoas que não conhecem o A.A. pensam que lá existe muita tristeza. Ao contrário, o ambiente é alegre, composto por pessoas vitoriosas e que têm os seus corações abertos ao sofrimento, que sentem compaixão; e a alegria se traduz em saúde e é uma forma de terapia. Agora é possível imaginar o quanto de silêncio e respeito é necessário existir numa reunião de grupo para que se vá absorvendo essas realidades, sentindo essas tênues diferenças, mesmo não estando
consciente delas.

O silêncio respeitoso propicia o surgimento da empatia, que é a tendência para sentir o que se sentiria caso estivesse na situação e nas circunstâncias experimentadas por outra pessoa. Os companheiros abrem, então, os seus corações porque aprendem como é o verdadeiro amor, como é grande o valor da oração e que é pelo amor e pela dor que os homens se elevam do seu chão cotidiano. Isso acontece justamente em momentos difíceis, em que o amor se tornou aparentemente impossível e o coração parece ter se transformado em pedra. Só o silêncio cria as condições para que tão importante aprendizado ocorra.

O silêncio permite que se desenvolva uma interação entre os companheiros dos grupos e que essa mesma interação se desenvolva dentro de um padrão de relação entre as pessoas que poderia ser entendido pelo binômio eu-tu, relacionamento direto e profundo, do olho no olho. O olho é a porta da alma e isso é conhecido desde os egípcios que pintavam as faces de perfil e sempre com um grande olho.
Também nos mosaicos bizantinos os artistas retrataram as figuras humanas com olhos grandes, desproporcionais.

Graças ao desenvolvimento da solidariedade, da compaixão, do amor ao próximo e, em especial, à sinergia que o silêncio propicia, um fraco mais um fraco não mais são dois fracos e sim um forte. Do mesmo modo, uma asa mais uma asa significam uma ave completa, que pode voar, e que, por ser inteira, recupera a sua liberdade e ganha altura. Em A.A. ouvimos, com frequência, os seus membros dizerem que são pássaros de uma asa só e que, por isso, têm que estar sempre juntos. Mas é importante enfatizar que, num grupo, só estarão realmente juntos quando em sintonia, que só é possível dentro de um ambiente marcado por um silêncio respeitoso.

Há também uma forma de relacionamento que se faz com as coisas e aí o binômio é outro, é o eu-isso. Muitas vezes, os seres humanos entram numa relação com os outros seres humanos no modo de eu-isso e aí a qualidade do relacionamento inter-humano se deteriora, pois que deixa de ser eu-tu. O pior é que esta relação, que reduz a dimensão humana da outra pessoa, ocorre freqüentemente. O relacionamento eu-isso é marcado pela idéia de posse, que não existe na relação eu-tu. No decurso das nossas vidas, nos relacionamos com pessoas e coisas e
muita gente se relaciona com as outras pessoas como se elas fossem coisas, procurando tirar vantagem de uma relação que, neste caso, não tem a qualidade de ser verdadeiramente humana.

O relacionamento nos grupos de A.A. tem a qualidade do eu-tu, relacionamento precioso, mas que necessita de uma abertura do coração e de uma atmosfera de silêncio respeitoso, indispensáveis ao estabelecimento de troca de interiores. A qualquer quebra de atenção durante um depoimento, a relação eu-tu se desfaz e deixa de haver as trocas enriquecedoras de interiores. Vale lembrar que as reuniões de A.A. são eventos em que se fala e que dão espaço e suporte para uma
profunda mudança existencial.

A compreensão empática, que só ocorre quando há silêncio, significa que sentimos, precisamente, os sentimentos e os significados pessoais daquilo que está sendo relatado pelo companheiro. É como se os que ouvem em silêncio estivessem dentro do mundo privado daquele que faz o seu depoimento, de modo que é possível entender não só o significado do que é conscientemente relatado, mas também o que está abaixo do nível de consciência. Ouvimos até o inaudível pois que, no silêncio, nos tornamos mais sensíveis e capazes de entender até o que
não é relatado num depoimento. É ir além das suas dimensões. Há uma expansão da interioridade do ser humano em direção ao outro.

O silêncio cria condições para que aquele que faz o depoimento abra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal e isso é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o companheiro que faz o depoimento precisa ser ouvido e compreendido e não apenas escutado, como se fosse simplesmente um isso, uma coisa falante, um dispositivo eletrônico ou uma pessoa a pregar no deserto. O grupo de A.A. propicia o espaço de visibilidade necessário em que a grandeza fugaz da frágil existência humana possa aparecer além do fato de que a nossa existência só pode se desenvolver no estar-junto dos homens nesse mundo que nos é comum. Ademais, o silêncio também cria condições para uma comunicação ilimitada, o que é da máxima importância porque a própria verdade é comunicativa e desaparece quando não existe comunicação.

Desfrutando de um silêncio respeitoso, o companheiro pode abrir-se
inteiramente, pode estar realmente presente, de corpo e alma, diante dos demais companheiros, aceitando-os e sendo aceito por eles. Esta presença, inteira e completa, de si mesmo, faz com que o companheiro fique presente também para os outros; os outros sentem a sua presença. Este aspecto é de extrema importância, pois muitas vezes estamos falando com uma pessoa que, como se diz, não está nem
aí e encontra-se dispersa em seus pensamentos e interesses pessoais enquanto falamos. Freqüentemente ficamos falando sozinhos, o outro está presente, mas, em realidade, não está. Deste modo, entendemos a necessária ênfase quando falamos de presença inteira e completa. Conhecemos pessoas que estão sempre presentes e disponíveis e que significam muito para nós. Não há o eu sozinho, há sempre o eu-tu, na sua totalidade. Quando existe o silêncio empático, sente-se a presença
inteira e completa das pessoas.

Aquele que faz o depoimento também se identifica, também ganha dimensão no processo de comunicação. O relacionamento do eu com o tu quebra o isolamento, integra as pessoas. É preciso estar presente para se tornar presente para os outros. Como acentuei, às vezes, conversamos com pessoas que parecem estar muito distantes, pensando em outras coisas ou, como se diz, estão no mundo da lua e
isso destrói o relacionamento entre seres humanos e, especificamente, o tu da relação eu-tu.

É importante lembrar ainda que a fala é poderosa e que, ao fazer o seu
depoimento, o companheiro está consciente do que está relatando e que a sua fala vem do coração. Estar consciente é indispensável para entrar no reino dos humanos e para o estabelecimento de uma base indispensável para a vida espiritual. Em realidade, é preciso estar consciente tanto da fala quanto das ações. Sendo verdadeiro e oferecendo a sua enriquecedora experiência de vida, o companheiro se torna um pólo de atração, e mais, ao ser consciente e honesto, a
sua mente se torna mais serena e mais aberta e o seu coração mais feliz e mais pacífico. O estabelecimento de uma relação de harmonia virtuosa com o grupo traz luz ao coração e claridade à mente.

Numa atmosfera marcada pelo silêncio, estabelece-se uma vibração recíproca a partir do face-a-face, do olho-no-olho, da comunicação profunda que permite que se veja, no fundo do olho das pessoas, o que vai no seu interior; o silêncio respeitoso é indispensável para que se estabeleça essa relação profunda. Por outro lado, a comunicação superficial, feita por monossilábicos, frases gravadas e esperadas, torna as pessoas ansiosas, resultando que voltam às suas exposições, aos seus temas ou explicações porque não se sentem percebidas. O
companheiro que faz o seu depoimento fala dos seus sentimentos, de emoções escondidas, reprimidas e que geram doenças. Desabafar, confidenciar, partilhar a intimidade, segredos e pecados, neste ambiente muito especial, é de grande poder curativo, é excelente terapia. Por outro lado, somente quem vive a experiência de ouvir o outro é capaz de amá-lo na sua totalidade, de todo o coração, e isso
significa dar-se por gratuidade, sem reservas, de coração a coração e sentir a experiência da alegria, do medo, da coragem, do descontentamento, do sofrimento, do desejo e da tristeza.

O relacionamento que se estabelece no grupo é gratuito. Um companheiro oferece o seu depoimento, a sua experiência, e os outros membros do grupo oferecem o seu silêncio respeitoso, a sua compreensão, o seu amor de irmão. Não há nenhum interesse interposto na relação entre o membro que faz o depoimento e os demais que o escutam. Um doa a sua riqueza interior, a sua experiência, e os outros a aceitam respondendo com um sentimento de compaixão e de compreensão.

Essa é uma relação muito rica e enriquecedora que pode acontecer entre seres humanos quando assentada na reciprocidade, na capacidade de entender e de amar o próximo. Um ser só cresce com os outros dentro deste tipo de relacionamento. O silêncio possibilita o estabelecimento da via de mão dupla. Permite a manifestação da palavra com todo o seu poder e que, por sua vez, conduz à
reciprocidade, entendida como um poderoso mecanismo totalizador capaz de fazer com que todos fiquem envoltos em uma só atmosfera, que cria as condições para que aquele que faz o depoimento encontre o seu interior, a sua subjetividade e que se identifique como sendo uma pessoa, um ser humano, porque também não há o tu sem o eu. A elevada compreensão cria condições para que haja paz entre os
seres humanos.

Não estamos acostumados ao silêncio, à sua dimensão profunda, tão profunda que assusta, amedronta e angustia porque nos coloca diante de nós mesmos e o medo ocorre porque não nos conhecemos.

Tudo isso ocorre dentro da liberdade de tomar a decisão de prestar o seu depoimento que, no silêncio respeitoso e na relação empática, conduz a uma relação inter-humana profunda, que é o fundamento da existência em A.A..
Meditando acerca do conteúdo dos depoimentos e se abrindo para a dor e o sentimento de compaixão, os membros do grupo estarão ganhando dimensão humana e espiritualidade e isso numa época em que as pessoas se permitem esquecer cada vez mais daquilo que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.

O silêncio atinge e penetra o coração humano e é aí que está a nossa
interioridade, o lugar onde somos o que somos.

Estas considerações foram feitas a partir de uma prática que sempre me encantou em A.A.. Muitos companheiros, após o seu depoimento, agradecem dizendo:
“Obrigado pelo silêncio de vocês”. Isso sempre me tocou muito e passei a meditar e a procurar o porquê, e penso que encontrei a sua essência.

ATITUDES QUE DIFICULTAM A COMUNICAÇÃO EM REUNIÕES DE SERVIÇO

” ATITUDES QUE DIFICULTAM A COMUNICAÇÃO EM REUNIÕES DE SERVIÇO ”

Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

1. Jamais procure derrotar um dos participantes. Você não veio para vencer e sim para cooperar. Não faça a guerra, faça o amor. Além do mais, o derrotado em público jamais o perdoará.

2. Não diga “é claro”, “você não entendeu”. Não ponha culpa no grupo. Diga: “eu não consegui me expressar bem” ou “eu não fui muito claro”.

3. Não pense muito em você, se você é muito tímido. Pense no assunto que está em discussão.

4. Não carregue o grupo nas costas. Estimule todos os seus componentes a cumprir a sua tarefa. Não seja paternal. Todos são responsáveis pelo êxito do grupo.

5. O dominador se desculpa dizendo que ninguém quer trabalhar. O tímido diz que não o deixam participar. O fato é que ambos são imaturos.

6. Não obedeça; coopere. Lembre-se de que é livre.

7. Não seja parasita. Ofereça a sua colaboração e a sua experiência ao grupo. Ele precisa da sua participação.

8. Não espere ser convidado. Participe, mesmo que haja dificuldades.

9. Evite alongar-se demais. Prolixidade é sinal de confusão mental. Ser sintético é sinal de inteligência.

10. Cuidado para que, quando esteja falando demais ou de menos, você não esteja sabotando o grupo.

11. Lembre-se de que a participação implica em responsabilidade e se você não se sentir responsável, você não é parte do grupo.

12. Abandone as frases feitas. Seja criativo.

13. Não se impressione com os títulos que alguém possa ter. É preciso procurar a reciprocidade para que haja colaboração.

14. Não tenha vergonha de ser entusiasta. Transmita calor humano. Você não é robô.

15. Evite ser lógico sem amor porque aí a lógica é implacável. Evite o amor sem lógica, porque aí é sentimentalismo.

16. Não crie barreiras psicológicas. Deixe-se modificar e modifique o grupo.

17. Não seja impermeável. Aceite, mesmo que provisoriamente, o ponto de vista de um companheiro. Só dessa forma o diálogo será possível.

18. Não seja primário, deslumbrado ou mágico. O homem comum é perspicaz e o moderno é crítico e criativo.

19. Não desestruture o grupo diante de problemas. Divida as dificuldades.

20. Se necessária a votação, ela deverá ser realizada após longa discussão de modo a ser alcançada substancial unanimidade.

APADRINHAMENTO

TRADUÇÃO FEITA PELO: Dr. Lais Marques da Silva, ex- Presidente da Junta de Custódios.

Este foi o primeiro trabalho escrito sobre apadrinhamento e o seu título original era “Apadrinhamento em A.A… suas Obrigações e Responsabilidades”e foi Impresso pelo Comitê Central de Cleveland.

Prefácio
Cada membro de A.A. é um padrinho em potencial de um novo membro e deveria reconhecer claramente as obrigações e deveres de uma tal responsabilidade.
A aceitação da oportunidade de levar o plano de A.A. para aquele que sofre no alcoolismo compreende responsabilidades muito reais e criticamente importantes. Cada membro, ao praticar o apadrinhamento de um alcoólico, deve lembrar que está oferecendo o que é, frequentemente, a última chance de reabilitação, de sanidade, ou mesmo, de vida.
Felicidade, saúde, segurança, sanidade e vida de seres humanos são as coisas que temos que manter em equilíbrio quando apadrinhamos um alcoólico.
Nenhum membro é suficientemente sábio para desenvolver um programa de apadrinhamento que possa ser aplicado, com sucesso, a todos os casos. Nas páginas seguintes, no entanto, delineamos um procedimento que é sugerido e que, suplementado pela própria experiência do membro, tem-se mostrado bem sucedido.

Ganhos pessoais de ser um padrinho
Ninguém colhe todos os benefícios de qualquer irmandade a que esteja ligado a menos que, de coração, se engaje nas suas importantes atividades. A expansão de Alcoólicos Anônimos para campos mais largos e o benefício maior para um número crescente de pessoas resulta diretamente do acréscimo de uma nova pessoa, de membros ou associados que são de valor.
Qualquer membro de A.A. que não tenha experimentado as alegrias e satisfações de ajudar outro alcoólico a retomar o seu lugar na vida, ainda não terá percebido completamente os benefícios que pode auferir desta irmandade. Por outro lado, deve ficar claramente guardado na mente que a única razão possível para levar um alcoólico para o A.A. é o benefício daquela pessoa. O apadrinhamento nunca deve ser feito para:
1-aumentar o tamanho do grupo;
2-satisfação ou glória pessoal ou, ainda,
3-porque o padrinho sente, como sendo do seu dever, refazer o mundo.
Até que um membro de A.A. tenha assumido a responsabilidade de colocar um trêmulo e impotente ser humano de volta no caminho para se tornar um membro saudável, útil e feliz da sociedade, ele não terá desfrutado a completa sensação de ser um membro de A.A..

Fonte de nomes – indicações para apadrinhamento
A maior parte das pessoas tem, entre os seus próprios amigos e relações, alguém que se beneficiaria dos nossos ensinamentos. Outros têm seus nomes dados por igrejas, por doutores, empregadores ou por algum outro membro que não pode fazer um contacto direto.
Por causa da ampla gama de atividades do A.A., os nomes frequentemente chegam de lugares não usuais e inesperados. Esses casos deveriam ser contatados assim que todos os dados como: estado civil, relações domésticas, estado financeiro, hábitos de beber, emprego, e outras informações facilmente acessíveis, estivessem em mãos.

É o cliente potencial um candidato?
Muito tempo e esforço poderiam ser poupados ao se conhecer, tão cedo quanto possível, se:
1- A pessoa realmente tem um problema com a bebida?
2- Sabe que tem um problema?
3- Deseja fazer alguma coisa acerca do seu beber?
4- Deseja ajuda?
Às vezes, as respostas a essas questões não podem ser obtidas até que o candidato potencial tenha tido alguma informação sobre o A.A. e de ter uma oportunidade de pensar. Frequentemente são dados nomes, que depois de uma verificação, mostram que o candidato potencial não é, de forma nenhuma, um alcoólico ou ainda que está satisfeito com o atual modo de viver. Não deveríamos hesitar em descartar esses nomes das nossas listas. Devemos estar certos, no entanto, de fazer com que o potencial candidato saiba onde pode nos alcançar em qualquer data futura.

Quem deveria se tornar membro?
O A.A. é uma irmandade de homens e mulheres ligados pela sua inabilidade de usar o álcool em qualquer forma razoável com proveito ou prazer. Obviamente, qualquer novo membro introduzido poderia ser do mesmo tipo de pessoa, sofrendo da mesma doença.
A maior parte das pessoas pode beber razoavelmente, mas estamos somente interessados naquelas que não podem. Bebedores de festas, bebedores sociais, festeiros e outros que continuam a ter mais prazer do que dor no seu beber, não são de interesse para nós.
Em alguns casos, um indivíduo pode acreditar que é um bebedor social quando ele definitivamente é um alcoólico. Em muitos desses casos, mais tempo deve passar antes que a pessoa esteja pronta para aceitar o nosso programa. Pressionar tal pessoa antes que esteja pronta pode arruinar as suas chances de, em algum momento, se tornar um membro de A.A., com sucesso. Não se deve excluir a possibilidade de uma ajuda futura ao se pressionar demais no início.
Algumas pessoas, embora definitivamente alcoólicas, não têm desejo ou ambicionam melhorar o seu modo de viver e, até que elas o façam… o A.A. não tem nada a oferecer.
A experiência tem mostrado que idade, inteligência, educação, situação ou a quantidade de bebida alcoólica ingerida tem pouco, se tem, a ver com o fato de uma pessoa ser ou não um alcoólico.

Apresentando o projeto
Em muitos casos, a condição física de uma pessoa é tal que deveria ser hospitalizada, se possível. Muitos membros de A.A. acreditam que a hospitalização, com tempo suficiente para planejar o futuro, livre das preocupações domésticas e das preocupações com negócios oferece uma vantagem significativa. Em muitos casos, o período de hospitalização marca o início de uma nova vida. Outros membros são igualmente confiantes no fato de que qualquer pessoa que deseje aprender sobre o projeto de vida de A.A. pode fazer isso em seu próprio lar ou enquanto engajado nas ocupações normais. Milhares de casos são tratados de cada modo, que tem-se mostrado satisfatórios.

Passos sugeridos
Os seguintes parágrafos delineiam um procedimento sugerido para apresentar o projeto de A.A. ao possível candidato, em casa ou no hospital.

Qualificar-se como um alcoólico
1-Ao atender a um novo possível candidato, tem-se mostrado melhor que o padrinho se qualifique como sendo uma pessoa normal que tem encontrado felicidade, contentamento e paz por meio do A.A.. Deve tornar claro, imediatamente, que você é uma pessoa engajada nas coisas da vida, em ganhar a vida. Fale que a única razão para acreditar que é capaz de ajudá-lo é que você mesmo é um alcoólico que tem tido experiências e problemas que podem ser semelhantes ao dele.

Relate a sua história
2-Muitos membros têm achado desejável iniciar imediatamente com a sua história pessoal com a bebida como um meio de obter a confiança e cordial cooperação do possível candidato.
É importante relatar a história da sua própria vida de bebedor e fazê-lo de um modo que irá descrever um alcoólico, mais do que falar de uma série de situações humorísticas de bêbados em festas. Isso capacitará a pessoa a ter uma visão clara de um alcoólico e deveria ajudá-lo a decidir definitivamente se é um alcoólico.

Inspire confiança no A.A.
3-Em muitos casos, o possível candidato irá tentar vários meios de controlar o seu beber, incluindo atividades de recreio, igreja, mudança de residência, mudança de associações e várias outras atitudes visando o controle. Esses meios irão, naturalmente, se mostrar sem sucesso. Focalize a sua série de esforços malsucedidos para controlar o beber … os resultados infrutíferos e ainda o fato de que você se tornou capaz de parar de beber com a prática dos princípios de A.A.. Isso encorajará o futuro candidato para olhar com confiança a sobriedade em A.A., a despeito dos muitos fracassos anteriores que tenha tido com outros planejamentos.

Fale de vantagens adicionais
4-Fale francamente ao possível candidato que ele não poderá entender rapidamente todos os benefícios que estarão chegando por meio do A.A.. Relate a felicidade, a paz de espírito, saúde e, em muitos casos, os benefícios materiais que são possíveis através do entendimento e da aplicação do modo de viver de A.A..

Fale da importância de ler o livro
5-Explique a necessidade de ler e de reler o livro de A.A.. Destaque que esse livro dá uma descrição detalhada das ferramentas do A.A. e dos métodos de aplicação dessas ferramentas para construir um fundamento de reabilitação para viver. Esse é um bom momento para enfatizar a importância dos doze passos e dos quatro absolutos.

Qualidades necessárias para o sucesso em A.A.
6-Faça saber ao possível candidato que os objetivos de A.A. são prover os meios e modos para um alcoólico voltar ao seu lugar normal na vida. Desejo, paciência, fé, estudo e aplicação são o mais importante em determinar cada planejamento individual de ação para ganhar inteiramente os benefícios de A.A..

Reintroduza a fé
7-Desde que a crença em um Poder Superior a nós mesmos é o coração do projeto de A.A. e de que o fato de que essa idéia é frequentemente difícil para uma nova pessoa, o padrinho deveria tentar introduzir o inicio de um entendimento acerca dessa importante característica.
Frequentemente, isso pode ser feito por um padrinho ao relatar a sua própria dificuldade de captar um entendimento espiritual e falar sobre os métodos que usou para superar suas dificuldades.

Ouça a sua história
8-Enquanto falando ao recém chegado, ganhe o tempo para ouvir e estudar as suas reações a fim de que você possa apresentar a sua informação de um modo mais efetivo. Deixe-o falar também. Lembre … vá com calma.

Leve a diversas reuniões
9-Para dar ao novo membro um quadro amplo e completo do A.A., o padrinho deveria levá-lo a várias reuniões a conveniente distância da sua casa. Assistir diversas reuniões dá ao novato a oportunidade de selecionar um grupo em que se sinta mais feliz e confortável e é extremamente importante para deixar que o possível candidato tome a sua própria decisão em relação a que grupo irá se juntar. Acentue que ele será sempre bem-vindo a qualquer reunião e que pode mudar de grupo se assim desejar.

Explique o A.A. à família do possível candidato
10-Um padrinho bem sucedido aceita o esforço e faz qualquer empenho necessário para ficar certo de que as pessoas próximas e com interesse maior no seu doente (mãe, pai, esposa, etc,) sejam inteiramente informadas acerca do A.A., seus princípios e seus objetivos. O padrinho cuida para que essas pessoas sejam convidadas para reuniões e as mantém informadas, a todo momento, da situação corrente do possível candidato.

Ajude o possível candidato a se antecipar às experiências a serem vividas em um hospital.
11-Um possível candidato irá ter mais benefício de um período de internação se o padrinho descrever a experiência e ajudá-lo a se antecipar a elas, preparando o caminho daqueles membros que irão chamá-lo.

Consulte os membros antigos de A.A.
Essas sugestões para o apadrinhamento de uma nova pessoa nos ensinamentos de A.A. não são completas. Elas pretendem somente dar uma moldura e um guia geral. Cada caso individual é diferente e deveria ser tratado como tal. Informação adicional para o apadrinhamento de uma nova pessoa pode ser obtida a partir da experiência de um companheiro mais experiente nesse tipo de serviço. Um co-padrinho, com experiência, trabalhando com um novo companheiro no apadrinhamento de um possível futuro membro tem-se mostrado satisfatório. Antes de assumir a responsabilidade de apadrinhamento, um membro deveria estar certo de que é capaz de realizar a tarefa e de estar disposto a dar seu tempo, esforço e meditação que uma tal obrigação implica. Pode acontecer que ele queira selecionar um co-padrinho para compartilhar a responsabilidade ou pode sentir necessário solicitar a outro companheiro que assuma a responsabilidade pela pessoa que ele tenha localizado.

Se você vai ser um padrinho, seja um bom padrinho.

O DESAFIO DO MEDO

O Desafio do Medo
Marília Teixeira Martins & Leonardo Ramalho – 10/01/2008
Medo, um sentimento natural que nasce quando nos surgem estímulos reais ameaçando nossa integridade física, emocional, moral ou social. Sua função é sinalizar que existe um perigo e normalmente identifica onde este perigo se encontra. É uma defesa que todos nós temos para não nos expormos às situações reais de risco sem proteção e cuidados. Ignorá-lo é se colocar exatamente no alvo dos perigos. Negá-lo é o mesmo que negar a própria capacidade em defender-se e defender sua integridade, dizendo de forma simbólica a si mesmo que não existe nenhum tipo de ameaça. Bloqueá-lo ou evitar senti-lo é um convite para um sentimento mais intenso, que poderá levar a uma imobilização diante de alguns fatos e acontecimentos.
Por outro lado, vivenciá-lo é dar chance a si mesmo de proteger-se. Aquele que sufoca seu medo gasta sua energia neste movimento e retira de si a percepção necessária para lidar com os desafios externos inevitáveis, não reunindo forças necessárias para combater suas fragilidades momentâneas e humanas. É preciso converter o medo em garra para lutar a favor de sua segurança, sem contudo enfrentar situações de risco real de peito aberto, “entrando de cabeça” na ameaça e o no perigo. Enfim, é preciso entendê-lo como uma oportunidade para o desenvolvimento de estratégias mais adequadas de crescimento e proteção. Mas, se contudo ele se torna tão poderoso ao ponto de levá-lo a fortes dores e sofrimentos emocionais e físicos, não desista. Muitas vezes descobrir o que o medo simboliza e representa em você e em sua vida é mais profundo do que se pode imaginar. E em alguns casos, para explorá-lo e chegar a estas respostas com mais segurança é necessária uma ajuda profissional. Existem técnicas muito eficazes neste sentido, principalmente nas linhas cognitivo-comportamental ou racional-emotiva que visam, de uma forma relativamente “rápida” e objetiva modificar reações emocionais intensas, suavizando ou eliminando comportamentos prejudiciais à saúde.
Em meu consultório é comum aparecerem casos onde o medo ocupa de forma intensa um grande espaço na vida das pessoas; na verdade, o que tenho percebido é que qualquer acontecimento diferente de suas rotinas as levam a sentirem medo, o que é de certa forma natural principalmente para os dependentes químicos, que vivenciam os primeiros passos da recuperação. Para alguns, sentir medo já passa a significar, muitas vezes, a própria recaída; pois não conseguem aceitá-lo como um alerta, ou uma forma de proteção necessária para manter sua sobriedade. O medo é o sinal amarelo de um semáforo que pede atenção. Normalmente traz o sentimento de desamparo. Contudo, admiti-lo faz com que se busque um cuidado maior, seja através da melhoria da qualidade de vida, de uma cuidadosa reflexão ou até mesmo de um alento espiritual. Vale salientar, que para os grupos de mútua-ajuda a programação dos 12 Passos lembra que sozinho é muito difícil e que pedir ajuda, quando se está fragilizado, é essencial para uma boa recuperação e serenidade. Portanto sentir medo não significa necessariamente que haverá a recaída. Significa apenas um sinalizador de que está sendo necessário um investimento maior na recuperação.
Sendo assim, existem dois caminhos a optar: O primeiro é deixar o medo se ocupar e se transformar maior do que a recuperação e a própria vida. Com certeza é um caminho perigoso, pois paralisa o desenvolvimento de estratégias adequadas para sua segurança, inibindo também a utilização de “ferramentas” adquiridas ao longo do processo e da caminhada percorrida até então. E o segundo é desafiá-lo, ou seja, aprender a lidar com as ameaças de forma que o medo se transforme em aliado e não em inimigo. Com o despertar da coragem para assumir o medo, entra-se num “campo batalha” com “armas” adequadas para vencer os reveses da vida. E isto só pode acontecer se existe permissão interna para “lutar” com garra e sabedoria. Enfim, entrar em contato com o medo significa movimentar-se em favor da recuperação e da vida._____________