Monthly Archives: Maio 2014

NÃO ME DIGA QUE NÃO SOU ALCOÓLATRA

NÃO ME DIGA QUE NÃO SOU ALCOÓLATRA

“O ALCOÓLATRA

– O MAIS DOENTE DOS HOMENS”

-Não me diga que eu não sou um alcoólatra

Por favor, não me diga que eu não sou um alcoólatra. Você põe em perigo a minha vida se o fizer. Se você me convencer a tomar um gole, “apenas unzinho”, eu poderia morrer por causa dele.

Estou escrevendo este artigo porque eu sou um alcoólatra, um dos cinco milhões neste país e amigos bem-intencionados continuam a me dizer que eu não sou. “Um alcoólatra? Não seja bobo! Você, não!”, eles dizem. “Oh, talvez você tenha bebido um pouco demais, mas você estava sob um bocado de tensão naquela hora. Isso já acabou agora. Vamos lá, cara – diga até onde eu viro”.

Já conheci alcoólatras, esforçando-se para eliminar o álcool de suas vidas, que vacilaram e que disseram “até onde virar”. Já vi a triste armadilha deste vicio se fechar sobre eles novamente. Já os vi morrer disto. A maioria dos alcoólatras morre disto.

– Os equilibristas da corda bamba

Isto, porque o alcoolismo é uma doença fatal, caso se permita seguir o seu curso. Ela pode ser retida caso a vítima pare de beber, mas não pode ser curada! Uma longa abstemia não faz diferença alguma. Um alcoólatra que não tocou em bebida durante vinte anos é tão alcoólatra quanto sempre havia sido. Dizer a tal pessoa que ela não tem uma doença incurável e fatal é absolutamente uma loucura – e quase sempre é exatamente o que a vítima quer ouvir.

Ninguém fica contente em ser alcoólatra. A maioria de nós que está fazendo um programa de recuperação – e nós representamos apenas uns patéticos 6 ou 7% dos cinco milhões vitimados – temo-nos esforçado para aceitar dolorosamente um fato nu e cru: nós somos FISICAMENTE DIFERENTES em nossa reação ao álcool. NÓS NÃO PODEMOS BEBER. Do reconhecimento constante desta realidade depende nossa felicidade, nossa sanidade e nossas vidas. Mas nós somos tais como equilibristas na corda bamba: um pequeno empurrão pode nos mandar voando lá para as profundezas.

Porque, então, são as pessoas bem-intencionadas culpadas, algumas vezes, de nos darem este empurrão?

Em primeiro lugar, amigos que gostam da gente não querem que sejamos alcoólatras por causa da má repercussão que tal palavra ainda causa. A ciência médica finalmente rotulou o alcoolismo justamente como ele é: uma doença. Portanto, quando um amigo tenta lhe dizer que você não é um alcoólatra, ele pensa que está sendo gentil com você.

Em segundo lugar, muita gente ainda concebe uma visão fixa e estereotipada do que é um alcoólatra – um lixo humano caído na sarjeta ou um imprestável milionário convalescendo, numa boa, em Campos do Jordão. Se você não se enquadra em nenhuma destas duas categorias, eles acham impossível acreditar que você perdeu a sua tolerância ao álcool.

Em terceiro lugar, a admissão que é um alcoólatra perturba alguns de seus amigos porque é uma ameaça aos hábitos de beber de alguns deles mesmos. ” Se esse cara é um alcoólatra”, eles dizem a si mesmos com um certo desconforto, “eu, o que sou?”

Existe pouca lógica em tal reação. Somente um em quinze ou dezesseis bebedores se torna um alcoólatra. Mas eu tenho tido uma nítida impressão, em muitas ocasiões, de que a pessoa que me está assegurando, em voz alta, que eu não poderia ser um alcoólatra, estava verdadeiramente tentando assegurar-se a si próprio.

E, finalmente, os alcoólatras, muitas vezes, têm de encarar forte oposição por parte de parentes próximos, os quais pensam que admitir tal fato trará desgraça ou desaprovação para a família. Há pouco tempo, uma boa amiga minha morreu de alcoolismo. Com a idade de 43 anos, os médicos chegaram à conclusão de que suas deficiências físicas indicavam que ela era uma alcoólatra desde muitos anos. Ainda assim, seis meses antes dela morrer, o pai dela me disse impacientemente que ela não era uma alcoólatra e mencionou o nome de uma dúzia de mulheres que bebiam mais e se comportavam pior do que ela.

Todos os amigos e conhecidos dela também tinham lhe assegurado que ela não era uma alcoólatra. A maioria ainda pensa que ela morreu de um ataque do coração, uma mentira que os jornais fielmente reproduziram.

A única maneira pela qual o alcoólatra pode começar um programa de recuperação é através do reconhecimento da sua doença. Isto nunca é fácil, porque esta admissão, invariavelmente, carrega consigo uma tendência mortal de justificar, racionalizar e negar qualquer coisa que possa acarretar o fim da bebida. Acreditem-me, eu sei, eu mesmo passei por isto.

-Uma compreensão cruel

Há alguns anos, três bons amigos meus aparentavam ter problemas com a bebida; então eu obtive e li o livro “ABC sobre o alcoolismo” de Marty Mann, com a ideia de ajudá-los. Muitos anos depois, o meu próprio comportamento em relação ao álcool estava suficientemente anormal e deprimente para me fazer buscar novamente este livro. Eu o li de novo e li também “Apenas mais um” de James Lamb Free. Foi uma experiência trágica. Eu tentei freneticamente me esquivar. Busquei todas as maneiras de provar que eu não era um alcoólatra, mas a evidência era forte demais.

Que evidência? Bem, em um de seus estudos clássicos, o Dr E. M. Jellineck fez uma lista das características mostradas pela vítima do alcoolismo em três estágios sucessivos da doença. Eu descobri que muitas descrições eram aplicáveis ao meu próprio comportamento… Apagamentos, por exemplo. Estes são episódios que envolvem falta de memória, mas não devem ser confundidos com “desmaios”. Houve muitas ocasiões quando eu pude jogar cartas competentemente a noite inteira e não me lembrar ou lembrar muito pouco disto no dia seguinte. Uma vez eu guiei 120 milhas de San Francisco até minha casa, em Pebble Beach e acordei no dia seguinte não me lembrando de ter feito tal viagem.

– O Remorso do dia seguinte

Muitos outros sintomas assinalados pelo Dr. Jellineck apareciam na minha atitude de bebedor, apesar de que, assim como muitos alcoólatras, eu normalmente conseguia escondê-los de meus amigos. Bebidas escondidas, evasivas sobre os hábitos de beber, remorso excessivo no dia seguinte – os sinais estavam muito claros. Eu ainda estava anos de distância da sarjeta, mas já estava à caminho. Não aparentava ser um alcoólatra.

Obviamente não agia como tal. Mas quando finalmente descrevi os meus sintomas a um médico, ele confirmou meu receio – eu era um deles!

Lembro-me muito bem da reação de meus amigos íntimos. Foi quase violenta: escárnio, negativas, zanga, provas infinitas de que eu não poderia ser um alcoólatra. Calmas e maravilhosas palavras para um homem que implora por uma bebida!

Bem-vinda justificativa para começar tudo de novo!

Eu sei que essas reações eram baseadas na ignorância – concepções falsas do que é um alcoólatra e como a doença se manifesta. Ninguém sabe tudo sobre o alcoolismo; até para os especialistas, alguns aspectos dele continuam a ser um mistério. Permitam tentar corrigir algumas concepções das mais erradas.

Para começar, por favor, não considere o alcoólatra uma criatura moralmente fraca. Na verdade, ele pode ter mais força de vontade do que você. Mas ele é um doente – o mais enfermo dos homens.

Em seguida, não limite a imagem na sua mente do alcoólatra ser um lixo nos últimos estágios da doença. Aí está lixo na sarjeta, perto da insanidade e da morte. Foi recentemente que ele se tornou um alcoólatra? Não teria sido há cinco anos, quando se tornou lavador de pratos?

Não teria sido há dez anos, quando a mulher dele pediu o divórcio? Não teria sido há quinze anos quando ele perdeu o emprego no banco? Não foi há vinte anos, quando ele começou a beber escondido para se certificar de que obtinha “a conta certa”? Não foi há vinte e cinco anos, quando ele sofreu os primeiros apagamentos? A ciência moderna sabe que ele se havia tornado um alcoólatra vinte e cinco anos atrás e que era tão alcoólatra então, quanto é agora.

Tente se lembrar que o alcoolismo é uma doença como um iceberg – os sintomas estão, na sua maior parte escondidos, logo no começo. Na realidade, durante os primeiros cinco ou dez anos, os alcoólatras geralmente tomam muito cuidado em parecer bebedores sociais normais. É o bêbado da pesada ou um porrista eventual o que se comporta mal.

O alcoólatra aparentemente fica sóbrio, mas é ele que cai fora primeiro de uma festa de coquetéis, muitas vezes com o pretexto de “ter trabalho para fazer”, mas vai para casa ou para um bar longe do caminho e satisfaz a sua cruel necessidade compulsória.

Não se deixe levar pelas aparências. A minha mulher Virgínia, que se recuperou do alcoolismo quando tinha 29 anos, é uma mulher jovem e enérgica. As pessoas quando a conhecem e sabem da sua doença, invariavelmente protestam: “Você não pode ser uma alcoólatra; parece tão saudável quanto uma criança!” Ela é uma alcoólatra – e parece tão jovem quanto qualquer vítima da doença que muito cedo tenha sido abençoada por uma recuperação.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS deixa as estatísticas a cargo das autoridades médicas e dos grupos de pesquisa. Mas é geralmente um fato aceito, que no começo, 24 anos atrás, a média de idade dos membros AAs era 50 anos ou mais, porque somente os fins-de-linha eram considerados alcoólatras. Hoje, graças principalmente ao notável trabalho educacional do Conselho Nacional do Alcoolismo, pessoas mais jovens estão se juntando a vários programas de recuperação. A maioria dos recém-chegados ao A.A. hoje em dia, varia desde adolescentes a pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Eles estão reconhecendo a doença mais cedo.

– A linha invisível

Isto me leva a uma última recomendação. Algumas vezes, ao jovem alcoólatra recuperado é dito que ele deve ter tido um caso ligeiro, uma vez que o caso não progrediu muito e que ele certamente deve ser capaz de tomar uma cervejinha ou um vinhozinho. Em primeiro lugar, não existe um “caso ligeiro”. O alcoólatra que atravessa a linha invisível é – e sempre será – um alcoólatra toda a sua vida. E não existe ” o alcoólatra parcial”.

Ou você é ou não é. Em segundo lugar, não importa se a bebida fatal é vinho, cerveja ou uísque Burbon 100º – ou até mesmo um xarope à base de álcool. É o álcool que causa dano, em qualquer forma.

Portanto, tente nos ajudar. Recomende àqueles que podem ser bebedores-problema que procurem em qualquer catálogo telefônico da cidade onde moram o tel. de ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, e perguntem onde encontrar uma sala de um Grupo de A.A. em todo o País. Mas não lhes diga que eles não são alcoólatras. Se você estiver errado e eles acreditarem, eles podem morrer…

Transcrito do Folheto impresso em Edição Comemorativa dos 40 Anos de A.A. no Brasil. SETEMBRO 1987

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TERCEIRA TRADIÇÃO – “O ÚNICO REQUISITO PARA SER MEMBRO DE A.A. E O DESEJO DE PARAR DE BEBER”

TERCEIRA TRADIÇÃO – “O ÚNICO REQUISITO PARA SER MEMBRO DE A.A. É O DESEJO DE PARAR DE BEBER”

Esta tradição tem um imenso significado. Realmente, A.A. diz a qualquer pessoa que tenha um problema com álcool: “és membro de AA, a partir do momento em que tu decidires. Podes dizer que és um de nos e ninguém te pode proibir. Independentemente de quem és, a que ponto desceste ou qual a gravidade dos teus problemas emocionais – mesmo dos teus crimes – não podemos negar-te A.A.
Não queremos deixar-te de fora. Não temos medo nenhum de sermos prejudicados, por muito retorcido ou violento que possas ser. O que realmente queremos é que tenhas as mesmas chances que nos tivemos de alcançar a sobriedade. Assim, passas a ser um membro de AA no momento que decidires”.
Foram precisos anos de dolorosas experiências para estabelecer este principio de associação. Nos primeiros tempos, nada parecia tão frágil , tão fácil de quebrar, como um grupo de AA. Quase nenhum dos alcoólicos de que nos aproximávamos nos dava atenção: a maior parte dos que se juntavam a nos, eram como velas tremulas num vendaval. A sua chama vacilante apagou-se, vezes sem conta, para não voltar a acender-se. O nosso pensamento permanente, não formulado, era: “ qual de nós será o próximo?”
Um membro dá-nos uma vivida imagem desses dias: “ a uma dada altura” conta ele, “ todos os grupos de AA tinham imensas regras de admissão. Todos estavam aterrados com a ideia de que alguma coisa ou alguém fizesse virar o barco, e nos lançasse à todos de volta para a bebida. O escritório da nossa fundação pediu a cada grupo que enviasse a sua lista de regras “protetoras”. A lista completa era enorme. Se todas essas regras estivessem em vigor em todo o lado, ninguém teria conseguido ser membro de AA, de tal modo era a nossa ansiedade e o nosso medo.
Estávamos decididos a só admitir em AA aquela classe hipotética de pessoas a que chamávamos “alcoólicos puros”. Para além da sua maneira excessiva de beber e dos consequentes resultados desastrosos, não podiam ter outros problemas. Assim, mendigos, vagabundos, asilados, reclusos, homossexuais, loucos e mulheres da vida ficavam definitivamente de fora. Sim senhor, cuidaríamos apenas dos alcoólicos puros e respeitáveis! Quaisquer outros iriam destruir-nos, sem duvida. Para além disso, se recebêssemos estas pessoas estranhas, que diriam de nós as pessoas decentes? Erguemos uma vedação de malha fina à volta de AA.
Isto parece cómico. Talvez pensem que nos, os mais antigos éramos muito intolerantes. Mas posso dizer-vos que, naquela altura, a situação não tinha nada de engraçado. Éramos inflexíveis porque sentíamos que as nossas vidas e lares estavam ameaçados, e isso não tinha graça nenhuma. Intolerantes, dizem? Bom, tínhamos medo. Naturalmente, começamos a agir como a maior parte das pessoas, quando estão assustadas. Afinal não é o medo a verdadeira causa da intolerância? Sim, éramos intolerantes.
Como podíamos, nessa altura, adivinhar que todos esses medos eram infundados? Como podíamos saber que milhares destas pessoas, por vezes assustadoras, teriam recuperações espantosas, e se iriam converter nos melhores colaboradores e amigos mais íntimos? Como acreditar que AA viesse a ter uma taxa de divórcios muito inferior à media? Como prever nessa altura que pessoas tão desordeiras viessem a tornar-se os nossos principais mestres de paciência e de tolerância? Poderia alguém, nesse tempo, imaginar uma sociedade que incluísse todos os possíveis tipos de carácter, e que superasse com facilidade todas as barreiras de raça, credo, filiação politica e de idioma?
Por que é que AA abandonou finalmente todas as suas regras de admissão? Por que é deixamos que cada um decida por si próprio se é ou não alcoólico e se quer juntar-se a nós ou não?
Por que é que ousamos dizer, ao contrario das experiências de sociedade e de governo em todo o lado que nunca podemos castigar nem expulsar ninguém, que nunca podemos obrigar ninguém a pagar seja o que for, acreditar seja no que for ou obedecer seja o que for?
A resposta a isto, como veremos agora na terceira tradição, era simplicíssima. A experiência afinal ensinou-nos que privar um alcoólico de toda e qualquer oportunidade era, por vezes assinar a sua sentença de morte e, muitas vezes, condena-lo a um infindável sofrimento. Quem se atreveria a ser juiz e carrasco do próprio irmão doente?
Á medida que os grupos foram tomando consciência destes fatores, as regras de admissão foram finalmente abandonadas.
Sucessivas experiências dramáticas confirmaram esta determinação, ate que ela se tornou nossa tradição universal. Eis dois exemplos:
Estávamos no segundo ano do calendário de AA, só existiam dois grupos de alcoólicos anónimos sem nome e em dificuldades, que tentavam manter-se voltados para a luz. Um recém-chegado apareceu num desse grupos, bateu a porta e pediu para entrar. Falou francamente com o membro mais antigo do grupo. Em pouco tempo, provou que o seu caso era desesperado e que acima de tudo queria ficar bem ”Mas”, perguntou, “será que deixam juntar –me ao vosso grupo? Uma vez que sou vitima de outra adicção ainda mais estigmatizante do que o alcoolismo, podem não me querer entre vós, ou quererão?”
lá estava o dilema. O que deveria o grupo fazer? O membro mais antigo chamou outros dois e em segredo, colocou-lhes aquela situação explosiva: “ QUE FAZEMOS”, perguntou. Se o mandamos embora, ele não tardará em morrer. Se o deixamos ficar. só Deus sabe os problemas que irá causar. Qual deve ser a resposta – sim ou não?”.
Ao principio, os antigos só olharam para as objeções. “ nós lidamos só com alcoólicos. Não devíamos sacrificar este individuo pelo bem de todos os outros?”
Assim continuou a discussão enquanto o destino do recém-chegado oscilava na balança. Então, um dos três falou de formas diferentes. “ Aquilo que nós realmente tememos, é a nossa reputação. Temos muito mais medo do que as pessoas possam dizer, do que dos problemas que este estranho alcoólico possa trazer. Enquanto falávamos, passavam-me pela mente cinco palavras “O QUE FARIA O MESTRE?”. Não se disse mais nada. Que mais se podia ter dito?
Radiante, o recém-chegado mergulhou nas tarefas do decimo segundo passo. Incansavelmente, levou a mensagem de A.A. a dezenas de pessoas. Como este grupo foi dos primeiros, desde então essas dezenas multiplicaram-se em milhares. Nunca prejudicou ninguém por causa da sua outra dificuldade. A.A. tinha dado o seu primeiro passo na formação da terceira tradição.
Pouco depois de este homem com o duplo estigma ter pedido admissão, um outro grupo de A.A. aceitou como membro um vendedor a quem chamaremos ED. Era muito dinâmico e atrevido como qualquer vendedor. Tinha, pelo menos, uma ideia por minuto sobre como melhorar A.A.; vendia estas ideias aos seus companheiros com o mesmo entusiasmo com que distribuía cera para polir automóveis. Havia, porem, uma que não era muito vendável. ED era um ateu. A sua obsessão preferida era a de que A.A. podia funcionar melhor sem esse “disparate Deus” .
Intimidava todos, e todos esperavam que ele em breve fosse beber – pois na altura, A.A. tendia para o lado da devoção. Devia haver um forte castigo, pensava-se para a blasfémia. Para confusão de todos, ED mantinha-se sóbrio.
Finalmente chegou a sua vez de falar numa reunião. Trememos, pois sabíamos o que estava para vir. Prestou homenagem à comunidade, contou como a sua família se tinha reencontrado, exaltou a virtude da honestidade, recordou as alegrias do trabalho de decimo segundo passo e então, lançou a bomba. ”Não suporto esta coisa de Deus”, exclamou. “ Não passa de uma aldrabice para pessoas fracas. Este grupo não precisa disso e eu não suporto a ideia. Que vá para o inferno!”
Uma enorme onda de indignação abateu-se sobre a reunião, levando os seus membros a uma única resolução: “Fora com ele!”
Os mais antigos chamaram-no de lado. Disseram-lhe com firmeza, “Aqui não podes falar assim”. Terás que parar ou sair”.
Muito sarcástico ED. Respondeu: “Não me digam! Ai é assim?”
Aproximou-se de uma estante e tirou um maço de papeis. Em cima estava o prefacio do livro “Alcoólicos Anónimos” , então em preparação. Leu alto , “O ÚNICO REQUESITO PARA SER MEMBRO DE AA É O DESEJO DE PARAR DE BEBER” . implacavelmente, ED continuou ; QUANDO VOCES ESCREVERAM ESTA FRASE, significava isso mesmo, ou não?
Desanimados os membros mais antigos olharam uns para os outros, pois sabiam que tinham sido apanhados. Assim ED ficou .
Ed não só ficou, como ficou sóbrio – mês após mês. Quanto mais tempo se mantinha abstinente, mais alto falava – contra Deus. O grupo estava numa angustia tão grande que toda a tolerância fraterna desapareceu. Quanto mais quando murmuravam uns para os outros: “quando é que o tipo se vai embebedar?”
Bastante tempo depois , ED conseguiu um emprego de vendedor que o levou para fora da cidade. Ao fim de alguns dias, chegaram as noticias. Enviou um telegrama a pedir dinheiro, e todos sabiam o que é que isso significava. Depois passou a telefonar. Naqueles dias nos íamos a qualquer lado para fazer o trabalho de decimo segundo passo, por muito prometedor que o caso parecesse. Mas desta vez ninguém se mexeu. “Deixem-no sozinho” deixem-no tentar por si próprio; talvez aprenda a lição.”
Uma noite, cerca de duas semanas depois, ED entrou furtivamente na casa de um membro e, sem que a família soubesse, meteu-se na cama.
Ao amanhecer, o dono da casa e outro amigo tomavam o café da manha.
Nisto, ouviu-se um barulho nas escadas. Para consternação destes ED apareceu. Com um sorriso brincalhão, disse “ então, já fizeram a vossa meditação matinal?”
Pressentiram rapidamente que ele falava mesmo a sério. Aos bocados, lá foi contando a sua historia.
Num estado vizinho, ED tinha-se alojado num hotel barato.
Depois de todos os seus pedidos de ajuda terem sido ignorados, estas palavras soavam na sua mente febril: “Abandonaram-me.”
Fui abandonado pelos meus iguais. Isto é o fim… não há mais nada”.
As voltas na cama, a sua mão roçou numa cómoda próxima, tocando num livro. Ao abri-lo. Leu. Era a Bíblia. ED nunca chegou a dizer mais nada do que viu e sentiu naquele quarto de hotel. Foi em 1938. desde então nunca mais bebeu.
Hoje em dia, quando os membros antigos que conhecem ED se reúnem, exclamam: E se tivéssemos conseguido expulsar ED por blasfémia? O que lhe teria acontecido, e a todos os outros que mais tarde ajudou?”
Foi assim que a mão da providência nos deu, cedo, um sinal de que qualquer alcoólico é um membro da nossa sociedade quando ele próprio diz que é.

AS 12 PROMESSAS DE A.A. COMENTADAS

AS 12 PROMESSAS DE A.A. COMENTADAS

Tema abordado na XV CONVENÇÃO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.

1) VAMOS CONHECER UMA NOVA LIBERDADE E ALEGRIA

Esta primeira promessa se realizará para todos os membros da irmandade que seguirem os 12 Passos sugeridos para Alcoólicos Anônimos. Isto porque com a prática de tais passos, sofreremos uma verdadeira transformação em nossas vidas, deixando para trás todo o sofrimento do alcoolismo ativo. Se formos laboriosos, honestos, humildes, receberemos a graça de conhecer e vivenciar a verdadeira liberdade e a verdadeira alegria.

2) NÃO IREMOS ARREPENDER-NOS PELO PASSADO, NEM QUEIRAMOS ESQUECÊ-LO POR COMPLETO.

Mesmo que quiséssemos, não poderíamos modificar o nosso passado alcoólico, pois não nos é dado o poder de modificá-lo. Não deveremos, porém, arrepender-nos, pois será dele que tiraremos toda s as lições para vivenciarmos uma vida melhor, utilizando para tanto os instrumentos que nos é facilitado pela nossa irmandade.
O passado servirá para nós como um ponto de referência para não errarmos mais. Henry Ford, certa vez observou com sabedoria que a experiência é o maior valor que a vida pode nos oferecer se estivermos dispostos a aproveitar a mesma para o nosso auto crescimento.
Cresceremos graças a disposição de encarar e retificar nossos erros, convertendo-os em vantagens. Este passado doloroso poderá ser de infinita valia para outras famílias que ainda lutam com o problema do alcoolismo.
Apeguemo-nos a este pensamento: Nas mãos de Deus, o passado escuro é a maior riqueza e a chave para a vida e alegria dos outros. Com ele, você poderá evitar-lhes a miséria e a morte .

3) COMEÇAREMOS A COMPREENDER A PALAVRA SERENIDADE E CONHECEREMOS A PAZ

Encontramos muitas pessoas em A.A., que antes pensavam c omo nós, que humildade era sinônimo de fraqueza. Eles nos ajudaram a nos reduzir ao nosso verdadeiro tamanho. Com seu exemplo, nos mostraram que a humildade e o intelecto poderiam ser compatíveis, contanto que colocássemos a humildade em primeiro lugar.
Quando um bêbado está com uma terrível ressaca, porque bebeu em excesso ontem, ele não pode viver bem hoje. Mas existe outro tipo de ressaca que todos nós experimentamos, bebendo ou não. É a ressaca emocional, resultado direto do acúmulo de emoções negativas de ontem e, às vezes, de hoje – raiva, medo, ciúme e outras semelhantes.
Se quisermos viver serenamente o hoje e o amanhã, sem dúvida precisaremos eliminar essas ressacas. Isso não quer dizer que precisemos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isso sim, uma admissão e correção dos erros cometidos agora. Só assim, conheceremos a serenidade e atingiremos a paz.

4) NÃO IMPORTA QUANTO DESCEMOS NA ESCADA, POIS PODEREMOS VER O QUANTO NOSSA EXPERIÊNCIA BENEFICIARÃO A OUTROS.

Todos nós sabemos que durante a nossa atividade alcoólica, decaímos bastante na escala moral, social, financeira, familiar, etc. Contudo, atualmente, para nós, isso pouco importa, pois o que nos interessa atualmente é sabermos que a nossa experiência passada servirá para que outros não cometam os mesmos erros e consequentemente, não trilhem a mesma jornada de sofrimentos.
Nossa descida na escada servirá como farol luminoso para que outros barcos não naufraguem na mesma noite de tempestade.

5) AS SENSAÇÕES DE INUTILIDADE E AUTOPIEDADE DESAPARECERÃO.

Todo alcoólico, pela própria natureza e progressão da doença, sente-se um inútil na família, no trabalho, quando ainda o tem, e na sociedade em que vive. Dele se apodera o sentimento da auto piedade tão conhecido de todos nós. Somos os incompreendidos, as vítimas, os párias da sociedade e honestamente acreditamos que somos injustiçados, pois nada fizemos para merecer este destino.
Com o conhecimento e principalmente a prática criteriosa dos 12 Passos, com um destemido inventário moral, com a reparação dos erros cometidos, certamente deixaremos de ser inúteis e a auto piedade desaparecerá. Voltamos a ser úteis e integrados às nossas famílias, nossos trabalhos e na sociedade em que vivemos.

6) PERDEREMOS O INTERESSE PELAS COISAS EGOÍSTAS.

Egoísmo-egocentrismo. Todo alcoólico sofre este defeito de caráter. Achamos que essa é a causa de nossas dificuldades. Impulsionados por uma centena de formas de medo, auto ilusão, interesse próprio e auto piedade, pisamos em nossos semelhantes e eles revidam. Aí descobrimos que nossas atitudes e decisões são baseadas no egocentrismo, daí o revide dessas pessoas.
Geralmente somos ambiciosos, exigentes e indiferentes ao bem estar dos outros. Se quisermos alcançar a sobriedade e combater tal defeito de caráter, nossa própria recuperação e crescimento espiritual terão que vir em primeiro lugar. Entre nós, membros de A.A. existe ainda uma grande confusão a respeito do que é material e do que é espiritual. Tudo depende de uma questão de motivo. Se usarmos nossos bens materiais de forma egoísta, então estaremos sendo materialistas.
Mas, se usarmos para ajudar os outros, então o material ajuda o espiritual. Havendo discernimento quanto a tudo isso, deixaremos de lado o egoísmo e passaremos a dar a nossos atos a amplitude de atos altruístas, sempre visando o bem do próximo e consequentemente o bem comum.

7) GANHAREMOS INTERESSE PELOS NOSSOS SEMELHANTES.

A.A. é mais que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisaremos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair e aqueles, a quem não foi dada a verdade podem perecer. Deveremos compartilhar a Fé reencontrada com outros. O que se pode dizer de muitos membros de A.A. que, por muitas razões, não podem constituir família?
No início muitos deles se sentem sozinhos, magoados e abandonados, quando veem tanta felicidade conjugal ao seu redor.
Se não pode ter este tipo de felicidade, A.A. pode lhes oferecer satisfações igualmente válidas e duradouras. Basta tentar arduamente procurá-las.
Cercados de tantos amigos AAs., os chamados “solitários” não se sentirão mais sós. Em companhia de outros homens e mulheres, podem se dedicar a inúmeros ideais, pessoas e projetos construtivos. Todos os dias vemos esses membros que ganharam interesses pelos seus semelhantes prestarem relevantes serviços e receberem, de volta grandes alegrias.
À medida que progredimos espiritualmente e nos sentimos emocionalmente seguros passaremos a desenvolver o hábito de viver em sociedade ou fraternidade com todos os que nos cercam. Quando passarmos a dar de nós mesmos, sem esperar nada em troca, descobriremos que as pessoas serão atraídas para nós como nunca foram antes.

8) VAI MUDAR NOSSA ATITUDE E NOSSO MODO DE ENFRENTAR A VIDA.

Com o nosso progresso advindo da prática criteriosa dos 12 PASSOS, sentiremos as mudanças acontecerem em nossa vida como que por milagre. As atitudes negativas, ou defeitos de caráter que tanto nos caracterizaram no passado serão substituídos por atitudes positivas, revitalização de vida, prática de virtudes antes impensadas. Com relação ao nosso alcoolismo, se vier alguma tentação, dela nos afastaremos como se fosse uma chama quente. Reagiremos com inteligência e constataremos que isto acontece automaticamente. Veremos que nossa atitude face ao álcool nos foi dada sem ter que pensar ou fazer qualquer esforço. Simplesmente, veio! Aí está o milagre.
Não estamos lutando contra o álcool, nem evitando a tentação. Fomos colocados, seguros e protegidos, numa posição de neutralidade. O problema foi simplesmente resolvido.

9) MEDO DE GENTE E A INSEGURANÇA FINANCEIRA NOS DEIXARÃO.

No alcoolismo ativo nos embriagávamos para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Sem dúvida, o depressivo e o arrogante são personalidades que A.A. e o mundo possuem em abundância.
Nós de A.A. vivemos num mundo caracterizado por medos destrutivos, como nunca houve na história. Em seu inventário praticado constantemente o alcoólico deverá tentar corrigir suas principais falhas humanas ou defeitos de caráter: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Aos poucos e com muita paciência, vai conseguindo êxito em sua empreitada.
Cada vez mais perderemos o medo de gente, voltaremos a nos socializar; nossa vida financeira voltará a se organizar, como consequência de nossa mudança e de nosso progresso dentro da irmandade. Ao sentirmos a força da espiritualidade apoderar-se de nós, ao desfrutar da paz de espírito, ao descobrir que poderíamos enfrentar a vida com êxito, ao ficar conscientes da presença de Deus, começamos a perder o medo do hoje, do amanhã e do futuro. Nascemos de novo.

10) INTUITIVAMENTE, SABEREMOS CONTORNAR AS SITUAÇÕES QUE ANTES NOS DEIXAVAM PERPLEXOS.

Com a prática dos passos veremos que temos que dar continuidade ao inventário pessoal e corrigir novos erros por ventura cometidos. Entramos no mundo do Espírito. Nossa próxima função é crescer em compreensão e valor. Isto não acontece de um dia para outro.
Deverá continuar para toda vida. Se os defeitos de caráter por ventura insistirem em voltar, pediremos imediatamente a Deus que os remova. Discutiremos tais problemas com outras pessoas e se causamos danos vamos repará-los na hora.
Aí está o milagre. Não estaremos lutando contra nada, nem evitando a tentação, fomos colocados em uma posição de neutralidade, seguros e protegidos. Os problemas foram simples mente removidos. Não existem para nós. Não estaremos nem orgulhosos, nem medrosos.
Assim reagiremos enquanto nos mantivermos em boas condições espirituais. Contornaremos com intuição as situações que antes nos deixavam absortos e perplexos.

11) DE REPENTE, RECONHECEREMOS QUE DEUS ESTÃO FAZENDO POR NÓS O QUE NÃO PODÍAMOS FAZER SOZINHOS.

Descobriremos que temos uma prorrogação diária do nosso problema e esta prorrogação depende da manutenção de nossa condição espiritual. Cada dia é um dia em que devemos levar a visão da vontade de Deus a todas as nossas atividades. “Como posso servi-lo melhor? Sua vontade e não a minha seja feita”. Estes são os pensamentos que devem nos acompanhar constantemente. Podemos exercer nossa força de vontade nestes termos.
O 11° Passo nos sugere a meditação e a oração. Homens melhores que nós as utilizaram constantemente. E funciona, sempre que tenhamos a atitude correta.
Agindo assim, de repente reconheceremos que Deus suprirá nossas deficiências e fará por nós aquilo que não podemos fazer sozinhos.

12) ESTAS PROMESSAS SÃO EXTRAVAGANTES? ACHAMOS QUE NÃO. ESTÃO SENDO REALIZADAS ENTRE NÓS, ÀS VEZES RAPIDAMENTE, E OUTRAS MAIS DEVAGAR, MAS SEMPRE SE REALIZARAO SE TRABALHARMOS POR ELAS.

Praticando conscientemente os Passos chegaremos a hora que teremos que transmitir a mensagem e praticarmos os princípios neles contidos em todas as nossas atividades. O prazer de viver será o nosso tema e a Ação será a palavra chave. Teremos que experimentar o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca.
Teremos que levar nossa mensagem ao alcoólico ainda sofredor. Agindo assim estaremos contribuindo para que todas as promessas, aqui enunciadas, deixem de ser meras promessas e se transforme na mais concreta realidade. Concluímos dizendo que a chave para a concretização das 12 Promessas, é a prática ininterrupta dos 12 Passos. Estes realizam aqueles. (Fim)

Fontes:
– Livro Alcoólicos Anônimos
– Livro 12 Passos
– Livro Na Opinião de Bill.

O PASSO DO MILAGRE

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 38 – NOV/DEZ DE 1995

O PASSO DO MILAGRE

O Quarto Passo é o passo do autoconhecimento.
O Quinto Passo é o Passo do Milagre.
Veja porque o companheiro acha isso.

Eloy T.

Se, simplesmente parássemos de beber sem fazer qualquer outra coisa em nosso favor, seria como nas inúmeras vezes que paramos anteriormente – por pouco tempo.
Parar de beber, em A.A., tem um significado mais amplo e implica, consequentemente, em maiores responsabilidades. Parar de beber em A.A. significa buscar os meios de não voltar a beber. Devemos repetir sempre o que disse Bill W.: “Não posso afirmar que jamais beberei, mas posso afirmar que não pretendo voltar a beber”. Para tanto, é preciso que se opere em mim uma mudança. Mas, mudar o quê? Como posso saber o que mudar? Mudar o que está errado, é claro. Mas, o que está errado? Como saber as respostas para essas perguntas?
A resposta está no Quarto Passo. Preciso conhecer-me, e conhecer-me a fundo. Preciso seriamente rever o meu passado, examinar a minha conduta, estudar as minhas atitudes; preciso saber porque agia desta ou daquela maneira. Meu comportamento frente aos fatos da vida foram, constantemente, ditados por minhas virtudes e por meus defeitos. Portanto, todos os fatos e os atos são importantes e merecem ser longamente estudados à luz de demorada e repetida meditação. Devo dedicar ao Quarto Passo quantas horas forem necessárias: dias, ou semanas, talvez. Ele (o Quarto Passo) só terá atingido o seu objetivo quando eu puder afirmar: “Agora eu me conheço; sei quem sou e porque o CRIADOR me colocou neste mundo e me deu esta vida”. O Quarto Passo é o Passo do autoconhecimento. É o destruidor da falsa imagem que projetei para minha própria satisfação. Agora sei quem sou e posso enfrentar a realidade.
Da mesma forma que o Quarto Passo nos assustou, o Quinto Passo também nos encherá de medos. Já não basta saber que não sou a pessoa boa que me acostumei a admirar? Terei, ainda, que mostrar aos outros, desvendar o segredo? Na verdade, os segredos que carrego comigo, por si, nenhuma importância têm, mas, se desvendados, revelarão quem verdadeiramente sou.
Mas, o Quinto Passo que Bill denominou: “O passo da reconciliação consigo mesmo”, bem poderia chamar-se “O Passo do Milagre”. Sim, do Milagre! No momento que rompo as barreiras do medo, abro com outro o meu coração. No momento que que revelo a alguém a pessoa que sou, sem máscaras ou disfarces, nesse mesmo momento, qual um milagre, tudo muda. Em um único segundo esvai-se o medo, desaparece a culpa que dá lugar ao perdão. Estou perdoado, e perdoado pelo simples propósito que tenho de mudar minha vida. Agora gosto de mim apesar da minha feiura, de meus defeitos; esses defeitos que de agora em diante serão minha permanente preocupação. De fato, redimir-se do passado é organizar o presente com vistas ao futuro. Feito o Quinto Passo, posso afirmar: “Estou salvo”. Agora parto em busca de uma vida melhor; do encontro com um irmão, parto à procura de outros irmãos; reconciliado comigo mesmo, irei me reconciliar com todos.
Desta afirmações conscientes, nasce a nova ótica da vida e do mundo, a alegria de viver. Nada mais tenho a temer, pois adquiri a capacidade de dar e receber.

Vivência nº 38 – Novembro/Dezembro 1995

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Uma luz no fim do túnel
Estava começando uma segunda vida
Os primeiros tempos de sobriedade

o dia seguinte, domingo, comecei a ler os folhetos que tinham-me dado durante a reunião, evidentemente continuava bebendo mas com a curiosidade e o desejo de conhecer o A.A. não esquecendo o que tinha visto e escutado em minha primeira reunião, assim como meu ingresso na Irmandade. Peguei um dos folhetos que me deram na reunião, cujo título era “Você deve procurar o A.A.?”, abri-o e havia doze perguntas que somente eu poderia responder, não era nenhum questionário médico nem coisa parecida, também não era dever de casa para preenchê-lo e entrega-lo no grupo, simplesmente era para ver se as
perguntas tinham algo a ver comigo e com meu modo de beber, verificar se me identificava com cada pergunta, eis o conteúdo do folheto:
Somente você poderá determinar se o programa de A.A. – a maneira de viver de A.A. – tem algum sentido para você e pode ajudá-lo.
É uma decisão que você terá de tomar por sua própria conta. Ninguém em A.A. poderá fazê-lo por você.
Nós, que hoje somos membros, ingressamos em A.A. porque reconhecemos que a bebida havia se convertido em um problema que não podíamos controlar sozinhos. A princípio, muitos de nós não
queríamos admitir que não conseguíamos mais beber normalmente. Porém, quando membros veteranos de A.A. nos contaram que, para eles, o alcoolismo era uma doença que, como a diabete, podia ser detida, começamos a procurar em nós mesmos os sintomas dessa enfermidade.
Encaramos os fatos referentes a esta doença em particular, da mesma forma com que enfrentaríamos qualquer outro problema sério de saúde. Demos respostas honestas às perguntas realistas sobre nossa maneira de beber e seus efeitos na nossa vida cotidiana.
Eis algumas perguntas que tivemos de responder.
Sabemos por experiência própria que qualquer pessoa que responder SIM a QUATRO ou mais destas doze perguntas, tem claras tendências para o alcoolismo (e poderá já ser um alcoólico).
Por que não tentar, você mesmo, responder a estas perguntas? Lembre-se que não há desonra em admitir que você tem um problema de saúde. Se existe realmente um problema, o importante é solucioná-lo.
(1) Já tentou parar de beber por uma semana (ou mais), sem conseguir atingir seu objetivo?
Muitos de nós “largamos a bebida” muitas vezes antes de procurar A.A. Fizemos serias promessas aos nossos familiares e empregadores. Fizemos juramentos solenes. Nada funcionou até que ingressamos em A.A. Agora não lutamos mais. Não prometemos nada a ninguém, nem a nós mesmos.
Simplesmente esforçamo-nos para não tomar o primeiro gole hoje. Mantemo-nos sóbrios um dia de cada vez.
(2) Ressente-se com os conselhos dos outros que tentam faze-lo parar de beber?
Muitas pessoas tentam ajudar bebedores problema. Porém, a maioria dos alcoólicos ressente-se com os “bons conselhos” que lhes dão.
(A.A. não impõe esse tipo de conselho a ninguém.
Mas, se solicitados, contaríamos nossa experiência e daríamos algumas sugestões práticas sobre como viver sem o álcool).
(3) Já tentou controlar sua tendência de beber demais, trocando uma bebida alcoólica por outra?
Sempre procurávamos uma fórmula “salvadora” de beber. Passamos das bebidas destiladas para o vinho e a cerveja. Ou confiamos na água para “diluir” a bebida. Ou, então, tomamos nossos goles sem misturá-los. Tentamos ainda beber somente em determinadas horas. Porém, seja qual for a fórmula adotada, invariavelmente acabamos embriagados.
(4) Tomou algum trago pela manhã nos últimos doze meses?
A maioria de nós está convencida (por experiência própria) de que a resposta a esta pergunta fornece uma chave quase infalível sobre se uma pessoa está ou não a caminho do alcoolismo, ou já se encontra no limite da “normalidade” no beber.
(5) Inveja as pessoas que podem beber sem criar problemas?
É obvio que milhões de pessoas podem beber (às vezes muito) em seus contatos sociais sem causar danos sérios a si mesmos, ou a outros. Você parou alguma vez para perguntar-se por que, no seu caso, o álcool é, tão frequentemente, um convite ao desastre?
(6) Seu problema de bebida vem se tornando cada vez mais sério nos últimos doze meses?
Todos os fatos médicos conhecidos indicam que o alcoolismo é uma doença progressiva. Uma vez que a pessoa perde o controle da bebida, o problema torna-se pior, nunca desaparece. O alcoólico só tem, no fim, duas alternativas: (1) beber até morrer ou ser internado num manicômio, ou (2) afastar-se do álcool em todas as suas formas. A escolha é simples.
(7) A bebida já criou problemas no seu lar?
Muitos de nós dizíamos que bebíamos por causa das situações desagradáveis no lar. Raramente nos ocorria que problemas deste tipo são agravados, em vez de resolvidos, pelo nosso descontrole no beber.
(8) Nas reuniões sociais onde as bebidas são limitadas, você tenta conseguir doses extras?
Quando tínhamos de participar de reuniões deste tipo, ou nos “fortificávamos” antes de chegar, ou conseguíamos geralmente ir além da parte que nos cabia. E frequentemente continuávamos a beber depois.
(9) Apesar de prova em contrário, você continua afirmando que bebe quando quer e para quando quer?
Iludir a si mesmo parece ser próprio do bebedor problema. A maioria de nós que hoje nos encontramos em A.A., tentou parar de beber repetidas vezes sem ajuda de fora. Mas não conseguimos.
(10) Faltou ao serviço, durante os últimos doze meses, por causa da bebida?
Quando bebíamos e perdíamos dias de trabalho na fábrica ou no escritório, frequentemente procurávamos justificar nossa “doença”.
Apelamos para vários males para desculpar nossas ausências. Na verdade, enganávamos somente a nós mesmos.
(11) Já experimentou alguma vez “apagamento” durante uma bebedeira?
Os chamados “apagamentos” (em que continuamos funcionando sem contudo poder lembrar mais tarde o que aconteceu) parecem ser um denominador comum nos casos de muitos de nós que hoje admitimos ser alcoólicos. Agora sabemos muito bem quais os problemas que tivemos nesse estado “apagado” e irresponsável.
(12) Já pensou alguma vez que poderia aproveitar muito mais a vida, se não bebesse?
A.A., em si, não pode resolver todos os seus problemas. No que se refere, porém, ao alcoolismo, podemos mostrar-lhe como viver sem
os “apagamentos”, as ressacas, o remorso ou o desconsolo que acompanham as bebedeiras desenfreadas. Uma vez alcoólico, sempre
alcoólico. Portanto, nós em A.A. evitamos o “primeiro gole”. Quando se faz isto, a vida se torna mais simples, mais promissora e muitíssima
mais feliz.
Qual foi a contagem?
Respondeu SIM quatro vezes ou mais? Em caso positivo, é provável que você tenha um problema sério de bebida, ou poderá tê-lo no futuro.
Por que dizemos isto? Somente porque a experiência de milhões de alcoólicos recuperados nos ensinou algumas verdades básicas a respeito
dos sintomas do alcoolismo – e de nós mesmos.
Você é a única pessoa que poderá dizer, com certeza, se deve ou não procurar o A.A. Se a resposta for SIM, teremos satisfação em mostrar lhe como conseguimos parar de beber. Se ainda não puder admitir que você tem um problema de bebida, não faz mal. Apenas sugerimos que você encare sempre a questão com mentalidade aberta.
Se algum dia precisar de ajuda, teremos satisfação em recebê-lo em nossa Irmandade Estava mais do que comprovado que eu era um alcoólatra, quase todas as perguntas estavam confirmando minha condição, eu respondia SIM em quase a totalidade das perguntas.
Não tinha outra coisa a fazer senão tentar no A.A., ver como aqueles companheiros da reunião fizeram para conseguir abandonar a bebida, como seria que eles estavam fazendo quando tinham vontade de beber?, o quê poderia substituir o vazio da bebida?, eram muitas perguntas sem resposta . . . . por enquanto.
Peguei o outro folheto para tentar entender melhor, o título era “Alcoólicos Anônimos em sua comunidade”, o texto dizia:
A Irmandade funciona através de mais 95.000 Grupos locais em mais de 160 países.
Vários milhões de alcoólicos têm alcançado a sobriedade em A.A., mas seus membros reconhecem que seu programa não é sempre eficaz com todos os alcoólicos e que alguns necessitam de aconselhamento e tratamento profissional.
A.A. preocupa-se unicamente com a recuperação pessoal e a contínua recuperação individual dos alcoólicos que procuram socorro na Irmandade. O movimento não se dedica à pesquisas sobre o alcoolismo ou ao tratamento médico ou psiquiátrico, e não apoia quaisquer causas – embora os membros de A.A. possam participar como indivíduos.
O movimento adotou a política de “cooperação mas não afiliação” com outras organizações que se dedicam ao problema do alcoolismo.
Alcoólicos Anônimos é auto-suficiente através de seus membros e Grupos, recusando contribuições de fontes externas. Os membros de A.A. preservam seu anonimato pessoal ao nível de imprensa, filmes e outros meios de comunicação.
Como A.A. vê o Alcoolismo?
O alcoolismo é, em nossa opinião, uma doença progressiva – espiritual e emocional (ou mental) tanto quanto física. Os alcoólicos que conhecemos parecem ter perdido o poder para controlar suas doses de bebidas alcoólicas.
Como funciona A.A.?
A.A. pode ser descrito como um método para tratamento de alcoolismo, no qual os membros ajudam-se mutuamente, compartilhando entre si uma enorme gama de experiências semelhantes em sofrimento e recuperação do alcoolismo.
Que são os Grupos de A.A.?
A unidade básica em A.A. é o Grupo local (do bairro ou cidade) que é autônomo, salvo em assuntos que afetem outros Grupos de A.A. ou à Irmandade como um todo. Nenhum Grupo tem poder sobre seus membros.Só nos Estados Unidos e Canadá, se tem conhecimento de que mais de 1.000 Grupos funcionam em hospitais e cerca de 1.900 em instituições correcionais. Os grupos geralmente são democráticos, assistidos por “comitês de serviços” de curtos períodos de mandato. Desta maneira, nenhum Grupo de A.A. tem uma liderança permanente.
Que são Reuniões de A.A.?
Cada Grupo realiza reuniões regulares, nas quais os membros relatam entre si suas experiências – geralmente em relação aos “DOZE PASSOS” sugeridos para a recuperação, e às “DOZE TRADIÇÕES” sugeridas para as relações dentro da Irmandade e com a comunidade de fora. Existem reuniões abertas para qualquer pessoa interessada, e reuniões fechadas somente para alcoólicos.
Quem são os membros de A.A.?
Pessoas que acham que têm problemas com sua maneira de beber são bem vindas para
assistir a qualquer reunião de A.A. Elas tornam-se membros simplesmente ao decidir que querem sê-lo.
Membros de A.A. são homens e mulheres provenientes de todos os níveis de vida, desde adolescentes até pessoas com 90 anos de idade, ou mais, de todas as raças, de todos os tipos de afiliações religiosas formais, e mesmo sem nenhuma.
Onde você pode Encontrar A.A.?
Procure por “Alcoólicos Anônimos” na lista telefônica. Nas capitais e nas grandes cidades do Brasil, um Escritório de Serviços Locais de A.A. poderá responder suas perguntas ou colocar você em contato com membros de A.A.
Se A.A. não constar na lista telefônica local, escreva para ESG – Escritório de Serviços Gerais. Caixa Postal 3180. CEP 01060-970, São Paulo – SP
Que é o ESG – Escritório de Serviços Gerais?
Este escritório serve como central nacional de informações. A literatura de A.A. do Brasil é publicada e distribuída pela JUNAAB. O ESG é a secretaria da JUNAAB – Junta de Serviços Gerais de A.A. do Brasil, composta por nove custódios, sendo seis alcoólicos – membros de A.A.
e três não alcoólicos – amigos de A.A.
Nem a JUNAAB ou o ESG tem “autoridade” sobre os membros de A.A. ou Grupos.
Ambos são responsáveis perante os Grupos e, anualmente, apresentam um relatório à Conferência de Serviços Gerais, que incluem Delegados selecionados pelos Grupos de A.A., dois em cada área (Estado) do Brasil.
O que você pode esperar de A.A.?
1. Os membros de A.A. ajudam qualquer alcoólico que demonstre interesse em ficar sóbrio.
2. Os membros de A.A. podem visitar o alcoólico que deseja ser ajudado – embora eles possam sentir que seja melhor para o alcoólico solicitar tal ajuda antes.
3. Eles podem auxiliar a providenciar uma internação hospitalar. Os escritórios de serviços de A.A. freqüentemente sabem onde existem hospitais para tratamento de alcoolismo, embora A.A. não seja afiliado a qualquer estabelecimento hospitalar.
4. Os membros de A.A. têm satisfação em compartilhar suas experiências com qualquer pessoa interessada, seja em conversações ou em reuniões formais.
O que A.A. não faz?
1. A.A. não recruta membros, ou tenta persuadir alguém se juntar ao A.A.
2. Não mantém registro de seus membros ou de suas histórias.
3. Não se dedica e nem patrocina pesquisas.
4. Não se liga a agências sociais, embora os membros de A.A., Grupos e escritórios de serviços cooperem frequentemente com elas.
5. Não fiscaliza, nem tenta controlar seus membros.
6. Não faz diagnósticos ou prognósticos médicos ou psicológicos.
7. Não proporciona serviços de enfermagem ou desintoxicação, hospitalização, medicamentos ou qualquer tratamento médico ou psiquiátrico.
8. Não oferece assistência religiosa.
9. Não se dedica à educação ou propaganda a respeito do álcool.
10. Não fornece abrigo, comida, roupas, empregos, dinheiro ou outros serviços de beneficência ou assistência social.
11. Não fornece orientação em questões domésticas ou vocacionais.
12. Não aceita dinheiro em pagamento por seus serviços ou quaisquer contribuições de fontes de fora do A.A.
13. Não emite cartas de referência para juntas de livramento condicional, advogados, tribunais de justiça, agências sociais, empregadores, etc.
NOTA: Um membro de A.A., individualmente, pode fazer algumas dessas coisas, de forma privada e pessoal, mas não como membro de A.A. Muitos profissionais no campo do alcoolismo também são membros de A.A. Seu trabalho profissional, porém, NÃO tem nada a ver com sua condição de membro de A.A. Alcoólicos Anônimos, como tal, não pretende ter competência para realizar serviços profissionais como os relacionados acima.
Alcoólicos Anônimos ® é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.
O único requisito para ser membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de A.A. não há necessidade de pagar taxas ou mensalidades; somos autossuficientes, graças às nossas próprias contribuições.
A.A. não está ligado a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, nenhuma organização ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apoia nem combate quaisquer causas.
Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade.
A história de A.A. está repleta de nomes de não alcoólicos, profissionais e leigos, que se interessaram pelo programa de recuperação de A.A. Milhares de nós devemos nossas vidas a essas pessoas e nossa divida de gratidão não tem limites.
A posição de A.A. no Campo do Alcoolismo.
Alcoólicos Anônimos é uma irmandade mundial de homens e mulheres que se ajudam mutuamente a manter a sobriedade e que se oferecem para compartilhar livremente sua experiência na recuperação com outros que possam ter problemas com seu modo de beber.
Estava tudo batendo, o conteúdo dos folhetos com o que tinha presenciado na reunião do sábado, fazia sentido e não encontrei nenhuma contradição. Reconheço que havia entrado dentro de mim alguma energia “positiva” no momento que levantei o braço e desejei não sofrer mais e ingressar em Alcoólicos Anônimos. Lembrava-me de cada depoimento dos companheiros daquele grupo, eram diferentes, mas pensavam e falavam igual a mim, acreditei que tinha tomado
uma boa decisão em querer me juntar a eles, senti-me um pouco mais forte e menos só. Na segunda e terça feiras fiquei sem fazer nada e meditando muito, queria não beber mais, mas pelo menos precisava tomar uma dose, até porque meu corpo se debatia com minha mente, a
compulsão física tomava conta de mim e brigava com minha mente que desejava não beber mais, eu queria ser e ter o que aqueles companheiros do grupo tinham. Foi difícil, mas não impossível,
na quarta-feira consegui não beber mais uma gota de bebida alcoólica após trinta e um anos consecutivos ingerindo diariamente álcool, passei o dia lendo os folhetos e o livro que o Henrique tinha me dado de presente no sábado anterior quando veio falar comigo em casa. Vi as
horas daquela quarta-feira passarem bastante depressa, eu estava conseguindo, mas, e no dia seguinte será que continuaria tudo igual?, lembrei-me daquele cartaz “só por hoje”, bastava no dia seguinte lembrar novamente que seria “só por hoje” e assim sucessivamente cada dia que se passa. As horas iam passando e olhava a ficha simbólica e o cartão de ingresso, no cartão estava impressa a Oração da Serenidade, lia e relia tentando não meramente ler a literatura, mas
sentindo profundamente o conteúdo e significado da mesma, desejava ter serenidade para poder terminar o dia sem beber. Durante as refeições da quarta-feira, preferi não tomar nenhuma bebida, bebia fora das refeições e comia muito doce, chupava balas porque a falta de álcool no meu corpo pedia açúcar, precisei mudar alguns hábitos e me sentia diferente, queria ter força para não beber e consegui. A noite na hora de ir dormir eu não estava acreditando o que tinha acontecido, “eu não tinha bebido” e não conseguia dormir de tanta felicidade, dava voltas na cama para pegar no sono, mas a alegria me dava insônia, lembrava-me da minha infância na véspera do Natal quando o Papai Noel iria trazer brinquedos, demorava em dormir por causa da ansiedade. Não fui na reunião do grupo na quarta-feira, mas voltei na de sábado de carona com o Henrique, tive a oportunidade de fazer uso da palavra, queria que todos soubessem que não estava mais bebendo desde a ultima quarta-feira, portanto estava já no meu quarto dia de
sobriedade, quando sentei na cadeira para falar minha boca estava muito seca e pastosa por causa dos nervos e meu coração e minhas emoções andavam a mil, disse “meu nome é Xavier e sou um alcoólatra”, normalmente teria direito a fazer uso da palavra dez minutos, mas me limitei a expressar minha alegria por não estar bebendo, não sabia mais o que dizer, não entendia nada sobre o A.A. e após alguns minutos agradeci e desejei muita sobriedade para os companheiros que estavam ali presentes. Ganhei livros de A.A., dava para me dedicar à leitura em casa, pois tinha tempo disponível e a distribuidora de laticínios estava devagar quase parando.
Os companheiros do Grupo de A.A. tinham-me sugerido que de inicio frequentasse noventa reuniões consecutivas, mas ainda algo reticente e me conhecendo bem, optei por ir somente aos sábados me resguardando como margem de segurança as reuniões das quartas feiras, pensei que se somente fosse nos sábados e não estivesse me sentindo legal teria a alternativa de ir também nas quartas-feiras, como tinha conseguido parar de beber achei melhor assim, pois se gastasse toda minha munição (quartas-feiras e sábados) e não estivesse bem
poderia voltar a beber porque não teria nenhuma outra alternativa. Nas primeiras semanas de sobriedade aproveitei para ler ao máximo diversas literaturas de Alcoólicos Anônimos, nunca gostei de ler em toda minha vida, mas estava tratando de um assunto da mais alta importância, afinal tratava-se de minha própria vida. A leitura dos livros de A.A. era muito fácil de ser lida, as letras eram de bom tamanho, e o texto e linguagem simples de entender, cada vírgula no seu devido lugar, palavras muito fortes e abrangentes, toda a literatura de A.A. é escrita por membros alcoólatras para outros membros alcoólatras, com o coração agradecido daqueles que se salvaram da loucura ou da morte, é para ser “sentida” a não simplesmente lida. Estava muitíssimo feliz por não estar bebendo, nos primeiros meses senti como estava mudando, aos seis meses de sobriedade tinha “desinchado” e emagrecido vinte e três quilos, de manhã quando fazia a barba na frente do espelho estava gostando de ver meu rosto que também mudava semana após semana, aquele modo de viver, meus novos amigos e companheiros, a leitura e a pratica das sugestões propostas por A.A. para viver uma nova vida estavam dando certo para mim, cheguei até mudar os moveis da sala de lugar, sentia no ambiente de casa pequenas mudanças que ocorriam dias após dia.
Fico triste quando vejo inúmeras pessoas chegando ao A.A. e acabam não ficando, querendo e tentando parar de beber e não conseguem, sempre foi assim e sempre o será, o A.A. não é para quem precisa, mas sim para quem quer.
Fui aos poucos sabendo algo mais sobre a Irmandade e pela experiência dos companheiros o que era bom ou não para continuar na caminhada da sobriedade, percebi que quando mais dava de mim mesmo mais recebia em sobriedade contínua, uma entre muitas coisas que dava certo era ajudar a outro alcoólico, participei ativamente em serviços dentro da irmandade espontaneamente e voluntariamente, eu era o principal beneficiado nos diversos serviços, fui muito bem apadrinhado pelo Henrique, até hoje estamos no mesmo grupo, vemo-nos pelo menos duas vezes por semana, andei com ou sem ele durante todos esses anos tentando levar a mensagem àqueles que ainda sofrem e estão envoltos nas malhas do alcoolismo, eu também sou padrinho de outros que chegaram na irmandade depois de mim, infelizmente alguns
já faleceram por não ter levado a serio o programa, meus conceitos e valores sobre a vida mudaram radicalmente, pois amando e ajudando a quem precisa me sinto gratificado, a prática da humildade tem sido de máxima importância para modificar meu egoísmo e orgulho. Desde 1994 decidi ser doador de meus órgãos após minha morte, algo que nunca teria pensado em fazer quando bebia, hoje me sinto um privilegiado por estar onde estou e ser quem sou, só por hoje.
Uma das coisas que muito me influenciou e atraiu em A.A. foi quando escutava falar os companheiros de um “Poder Superior” tal e como cada um o “concebe”, achei que era convidativo “confiar” em algo ou alguém que pudesse fazer o que durante tanto tempo eu tinha tentado fazer, mas este P.S. (abreviado) não era imposto pela Irmandade, podia ou não acreditar, pois era o assunto de cada um de nós. Achei-o atrativo porque tinha um sentido bem diferente daquele Deus divulgado na maioria das religiões, na minha infância onde eu via Deus como um
poder “castigador” do pode ou não pode fazer e dependendo do que fizesse era considerado “pecado”. Esta palavra (P.S.) era bem mais leve e podia ser concebida da maneira que eu quisesse, nunca vi durante toda minha vida alguma religião, organização, associação ou entidade
que falasse num Deus ou Poder Superior ou ainda Força Superior, a la carte, e ainda sem estar obrigado a acreditar nele(a). Esta era a proposta do A.A., me oferecer uma serie de ferramentas para não voltar a beber, me modificar e crescer numa nova vida como “outro” individuo
totalmente oposto ao que eu tinha sido e vivido durante meus trinta e um anos de ativa do alcoolismo. A partir do momento em que eu não estava mais bebendo, minha mente tinha clareado e podia dar valor a tudo o que estava acontecendo ao meu redor, minhas faculdades
mentais faziam com que raciocinasse e falasse racionalmente, bem diferente do passado quando raciocinava anestesiado sob os efeitos do Dr. Álcool. Não estava proibido de voltar a beber, o problema era meu, pois que eu me lembre ninguém nunca me obrigou nem pôs bebida em minha boca, fui eu sempre sozinho quem bebeu porque assim o quis, agora que tinha parado de beber bastava que eu quisesse esticar o braço uns quarenta centímetros e pegar no copo para voltar a beber.
Entre outras literaturas li um poema do Borges que me agradou muito e não poderia deixar de transcrever:
Instantes
Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais os entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida; claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.
(Jorge Luiz Borges, argentino, falecido na Suíça em 1987, é considerado um dos maiores escritores do século).
Sem duvida alguma esta poesia dava-me vontade de viver novamente, de apreciar tudo o que me cercava, cheguei as vezes a olhar para praça em frente minha casa desde meu quarto, admirava tudo aquilo que estava vendo, escutando os pássaros cantar, nunca tinha prestado
atenção a esse tipo de coisas, percebi a grandiosidade da natureza e o quanto eu era minúsculo.
Continuei firme em minha recuperação, se estava dando certo, porque iria desistir?, não senti mais vontade nem tive compulsão por bebida alcoólica, sabia que se tentasse experimentar se estava curado poderia ser fatal, aprendi em A.A. que a doença somente pode ser detida e não
tem cura, é como uma vela que pode ser apagada mas se voltar a acender continua queimando até chegar ao toco, acaba num piscar de olhos e não tem mais volta. Tenho visto vários membros de A.A. recaírem e em pouco tempo voltar ao estagio onde pararam e se afundarem ainda mais até chegar à morte, é por isso que a doença é progressiva, mas o programa de recuperação de A.A.
quando praticado e levado a serio permite progredir como individuo tanto quanto o avanço da doença, eu entendo que se deve crescer mais um pouco para ter uma margem de segurança e não ficar no limite em cima do muro tentando equilibrar-se para não cair. Aprendemos e
conseguimos a nos relacionar com o mundo externo, temos os mesmos problemas que qualquer um lá fora, mas nossa paz interna permite-nos enfrentar a realidade sem pânico, friamente, buscando sempre solucionar nossos problemas da melhor maneira e com as alternativas que melhor nos convém. A recuperação diária é uma tarefa para toda a vida, há dias em que aparecem problemas de difícil solução, somos postos à prova e parece ser necessário que seja assim, são obstáculos que não aparecem por acaso, pois estamos dispostos a levar alguma experiência positiva de cada problema, tentando sobrepô-lo e crescer em sabedoria e conhecimento.
O A.A. não me da nenhuma garantia que eu fique sóbrio enquanto eu estiver vivo, eu sou o único responsável pela minha sobriedade, o único que pode fazer algo para mim mesmo para “permanecer” sóbrio a cada vinte e quatro horas, A.A. põe as ferramentas à disposição bem na
minha frente, no chão, eu preciso abaixar-me para pegá-las. Sei que continuando em A.A. estou com minha turma, são pessoas iguais a mim com um passado diferente, nada a ver, o que nos une é o mesmo problema; permanecer sóbrios porque se bebemos não conseguimos controlar nosso modo de beber, uma vez dentro da sala de reunião somos todos iguais, ninguém é mais nem menos que outro, não há nenhum “chefe” em A.A., aqueles que são servidores de confiança o
fazem por um período determinado em forma de rodízio, são escolhidos pelos outros membros para representá-los, mas nunca como chefes. Há na Irmandade todo tipo de pessoas da sociedade, padres, advogados, militares, escritores, artistas, muitas pessoas famosas tanto no plano nacional como internacional, é assim que funciona o A.A., um lugar para quem tem o sincero desejo de abandonar a bebida, e consegue, para isso basta à pessoa “querer”.
Tenho me dedicado durante todos estes anos, em recuperação, ao estudo e prática do programa de A.A., conheci muitas pessoas interessantes, sinto-me bem comigo mesmo e feliz por ter conseguido me tornar alguém sociável, conheço e cumprimento meus vizinhos, e as pessoas do bairro onde moro, vejo até as vezes o padre da paróquia que diga-se de passagem também é um gringo simpático, atualmente, quando volto para minha casa e abro o portão da garagem para
estacionar meu carro, minha cachorra pastora belga, a “Lora”, fica me aguardando contente e abanando seu rabo e, quando desço do carro pula sobre mim para brincar, bem diferente que há nove anos atrás quando chegava com meu carro ela corria se esconder para os fundos seu rabo entre as pernas porque me temia, mas, o que será que aconteceu para ela ter mudado tanto?, a resposta é que a cachorra tem o dom de sentir o estado de humor de qualquer pessoa e na realidade ela não mudou absolutamente nada, quem mudou fui eu.
Por outro lado, Augusta continua freqüentando o Grupo de Al-Anon, ela também faz sua parte para viver uma vida melhor, chegamos mutuamente a nos aceitar para um convívio eficaz.
Tenho participado uma ou outra vez de reuniões Al-Anon em grupos de outros bairros, minha intenção é escutar o que familiares de alcoólicos tem a dizer no seu dia a dia, isto me dá muito a refletir, pois tenho observado pelos relatos dos membros que tenho muitos defeitos que poderia melhorar.
A prática do programa de A.A. não me faz sentir um “santo”, mas levo agora uma vida normal, participo de festas, casamentos e qualquer tipo de reunião festiva, aqueles que sabem de minha historia e me viram como o “animador” das festas. Ficam admirados com meu comportamento atual, outros que me conheceram já na sobriedade ficam sempre a minha volta conversando sobre assuntos os mais variados possíveis.
No capitulo introdução deste livro agradeço aos reclusos e gostaria de explicar porque, durante estes anos todos estando em serviço em A.A. ou seja, levando a mensagem àqueles que ainda sofrem, seja em palestras, programas de radio, imprensa escrita, e também participando em reuniões de Alcoólicos Anônimos na penitenciaria do Carandiru em São Paulo, tive oportunidade de conhecer membros de A.A. que estavam atrás das grades, lembro-me de ter encontrado um deles numa sala de A.A. na cidade, depois dele ter sido solto após cumprimento da pena, foi uma grande alegria nos encontrar lá fora nesse mundão, a gente se cumprimentou e abraçou. Também
me correspondi durante alguns anos com membros de A.A. de língua francesa, a maioria do Canadá, é outra formula de recuperação, pois através das cartas a gente escreve coisas que nem sempre dá vontade de contar no depoimento na sala de reunião “ao vivo” ou “cara a cara”, entre estes correspondentes do Canadá havia um que tinha o dom da arte da pintura, ele me enviou pelos correios um quadro que tinha pintado para mim dentro da prisão, ele está ainda encarcerado
e o será até o fim de seus dias porque sua pena a cumprir é perpetua.
A vida continua, meus dois filhos Alain e Xavier agora estão trabalhando na França desde maio de 1999, nunca os influenciei para que fossem trabalhar em Paris, naturalmente as coisas aconteceram assim, quando em 1982 queria a qualquer preço que meus filhos fossem educados e
criados em um pais “civilizado” as coisas não se concretizaram do jeito que “eu” queria, la em Lesigny falava sempre com eles em francês e proibia que se falasse o português em casa, parece inacreditável como este “Poder Superior” tem-me mostrado sua força, vejo hoje porque a vida de nossos filhos não nos pertence, podemos guiá-los e explicar o que é o bem ou o mal mas nunca obriga-los que façam as coisas que nós queremos, precisamos muito Augusta e eu trabalhar o “desprendimento” pois o amor de pais costuma ser egoístico de modo exagerado, afinal, tudo o que é difícil na vida é o que nos convém fazer, minha experiência me provou isso. Em agosto de 1999 tive um desentendimento com o Xavier numa conversa telefônica, não me dei bem e transcrevo a seguir o texto da carta que lhe enviei: “Meu querido filho Xavier, recebemos tua última carta que era especialmente dirigida a mim, ficamos todos muito contentes e felizes toda vez que temos notícias suas, eu particularmente lhe agradeço muito por sua carta, ela ficou guardada encima da mesa do computador na espera de ser respondida no momento oportuno, não por falta de tempo, mas porque precisava saber o quê iria responder”.
Fiquei muito emocionado com sua carta, aliás, esta sua viagem é importante para mim justamente porque talvez o azar o levou até os lugares onde eu vivia exatamente quando tinha sua idade. Na verdade pelo fato de você ter viajado a Europa, tal como você menciona em sua
carta, sabia que você iria me conhecer e entender um pouco melhor quem eu sou.
Em primeiro lugar, devo lhe pedir desculpas pelo tom que falei com você naquela madrugada de sábado para domingo quando você me ligou na saída de seu serviço, não importa saber ou comentar o porque eu estava alterado, pois simplesmente perdi mais uma vez o total controle sobre mim mesmo, e na verdade após ter falado com você pelo telefone fiquei bem pior, passei o domingo todo na cama, estive praticamente três dias sem me alimentar, depois passou. Foi na terça feira seguinte (após ter recebido sua carta) que pedi à mamãe para lhe ligar por duas razões, a primeira porque ela não havia tido a oportunidade de conversar com você no sábado anterior porque foi até a casa da avó, e em segundo lugar porque eu queria lhe pedir desculpas
pois sabia que você poderia não estar bem, assim, como que foi ela quem discou seu número de telefone já pedi para que pedisse desculpas em meu nome sem eu interferir na conversa de vocês dois.
Concordo com você que poderemos conversar sobre minha vida na França na primeira oportunidade que tivermos de fazê-lo, mas posso desde já lhe adiantar algumas coisas sobre mim. Realmente fui muito ambicioso, até o extremo mesmo, de maneira doentia, era minha única
razão para viver, ter, possuir e ser o melhor, essas eram minhas principais motivações, mas no fundo de mim mesmo, no meu íntimo, ainda tinha aquela sensibilidade e emoção a flor da pele que foi marcada pela doença do meu pai, totalmente impotente numa cadeira de rodas, de minha mãe lutando sozinha contra tudo e contra todos para sustentar e levar a família adiante, e também pelas desgraças ocorridas aos meus irmãos mais velhos e minha irmã sozinha com
várias filhas e enfraquecida para enfrentar a vida.
Resumindo, eu aparentava uma coisa por fora, e era outra por dentro. Sempre gostei de comer e beber bem, como você já sabe, pessoas assim na França são chamadas em “argot” de “finegueule”.
A comida não me fazia nenhum mal bem ao contrário, mas a bebida que me proporcionava momentos inesquecíveis, não podia imaginar que poderia me afetar ao longo do tempo com o consumo abusivo tal como eu fazia para me sentir aliviado de minhas angústias provocadas por minhas emoções doentias. Aos 27 anos de idade vivia em função dos meus ambiciosos objetivos, mas muito isolado das pessoas, meus relacionamentos eram somente profissionais ou de farra, tinha problemas para me relacionar com as pessoas, tinha minha casa
própria desde os 25 anos, passava todo meu tempo livre fazendo reformas e decorando minha casa. Em dezembro de 74 conheci à mamãe, justamente num sábado a noite em Paris, tinha
trabalhado o dia todo em casa e um amigo e colega de trabalho o Gérard veio me buscar em casa para sairmos dar umas voltas em Paris, foi esse 12 de dezembro de 74 que conheci à mamãe no “Le Caveau de la Huchette” na Rue de La Huchette no começo perto da rue St.
Jacques, este era meu lugar para minhas saídas noturnas, aonde a maioria das vezes acabava de manhãzinha após ter bebido bastante durante a noite toda. Deste dia em diante minha vida mudou e muito, pois você sabe que gosto muito da mamãe, ela preencheu um vazio muito grande que havia dentro de mim. Acho que deste ponto em diante vai ficar para uma próxima vez. Hoje faz exatos três meses que você viajou para França, o tempo passa depressa, eu estou muito feliz
por você, tenho tentado trabalhar bastante meu egoísmo, é claro que em nossa casa há um vazio sem sua presença, mas você tem que construir sua vida com bases sólidas, e tenho certeza que irá conseguir, estou torcendo para que seja assim.
Xavier, te amo muito e você sabe disso, que Deus o proteja.
Beijos do seu pai”.

UMA CARTA AOS ADICTOS – DRA. MARÍLIA TEIXEIRA MARTINS

Uma carta aos adictos
Meus 50 anos em 12 Passos ® Por Marília Teixeira Martins – 01/02/2009
Muita gente me questiona, como posso entender o que se passa na alma, no “coração” e na cabeça de um dependente químico, sendo eu apenas uma profissional de saúde e não pertencer a nenhum grupo de mútua-ajuda. E a cada pessoa que me dirige essa pergunta, deixo como resposta uma reflexão ou outra pergunta:- Então, para ajudar um hipertenso, preciso ser também hipertensa? E a quem possui o transtorno bipolar de humor ou quem sofre de depressão, bulimia, anorexia ou até mesmo de esquizofrenia? Para compreendê-los e ajudá-los preciso de fato também ser portadora desses diagnósticos?
E hoje, aos meus 50 anos de vida, acrescento à minha resposta os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos, uma bela filosofia de vida que tive o prazer em conhecer e vivenciar, ainda que não alcoólica e/ou adicta.
Bill e Bob me foram apresentados há algum tempo, através da literatura específica de Alcoólicos Anônimos; e quando entrei em contato com suas primeiras linhas algo novo me aconteceu. E a cada passo, dos 12 descritos, que eu lia e percorria, me vinham respostas precisas e exatas para um emaranhado de sentimentos que eu experimentava naquele momento de minha vida. Como se eu vivenciasse um novo despertar, que somado ao o que o mundo científico me apresentava, a vida me pareceu bem mais simples do que eu imaginava, e por isso mais bela.
Os 12 princípios me apontavam uma direção, como uma bússola que não deixa seu navegante em alto mar se desviar de sua rota.
E fui seguindo, ora para o Sul, ora para o Norte, mas com tranqüilidade e leveza, na certeza de que eu havia descoberto um tesouro. Encontrá-lo era uma questão de tempo. Bastava seguir aquela rota, aquele mapa que caiu em minhas mãos e me tornaria uma pessoa mais rica em sabedoria e direção. E assim fui eu, em busca deste tesouro, passo a passo, e no meu ritmo. E nos caminhos mais escuros e sombrios, fazia uma pausa, desligava o barco e descansava, me contentando apenas em receber o leve toque de uma brisa em meu rosto.
Há poucos meses completei 50 anos de vida. Uma idade que me faz relembrar com intensidade alguns momentos que vivenciei. E nesta rede de lembranças peguei-me refletindo sobre um sentimento em especial: o sentimento de impotência. Impotência diante da minha idade que avança a cada dia, impotência diante do outro e de suas escolhas, diante da morte de um ente querido, diante de um amor que se foi ou diante de um caminho escolhido e percorrido por um filho.
Por quantas vezes, cometo os mesmos erros esperando resultados diferentes? E do alto de minha arrogância, preciso me curvar e acreditar humildemente que eu não preciso caminhar sozinha e que, acima de mim existe um Poder Maior que pode devolver-me a “sanidade”, às vezes perdida. ( Einstein dizia: “Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes).
Por quantos momentos em minha vida, me esbarro no limite do possível e preciso acreditar e contar com o impossível, me embriagando de esperança e fé, acreditando e entregando as minhas vontades e minha vida aos cuidados de Deus, o único que com o seu infinito Amor me acolhe, me protege e me transforma a cada dia, a cada 24 horas.
E ao longo dessa minha caminhada me pergunto: quantas pessoas eu feri, magoei, fiz e faço sofrer, mesmo que de forma não intencional? Por quantas vezes sou teimosa, imatura, mesquinha e imperfeita? E para me transformar em uma pessoa melhor, é preciso me renovar, revendo e reaprendendo o real significado do exercício do perdão, admitindo e reconhecendo meus erros e minhas falhas, procurando transformá-los em futuros acertos. E àqueles mais profundos, enraizados e sombrios, pedir humildemente a Deus que os remova e me livre de minhas imperfeições.
Por quantas vezes, preciso vestir-me com a roupa da humildade e da sensatez e me propor a reparar danos causados a mim, a um filho, a um pai, a um professor, a um paciente, a um amigo e até mesmo a algum desconhecido?
Por quantas noites me recolho em meu quarto, em meu canto e faço uma retrospectiva pessoal e destemida de meus atos e comportamentos, me propondo prontamente a admitir e reparar meus erros? E é assim, dessa forma, que vou aprendendo a me relacionar intimamente comigo mesma, com os adictos e principalmente com Deus, rogando a Ele todos os dias, através de orações, preces, meditações e principalmente, através da leitura de Sua palavra, que me mostre sua vontade e me dê forças para alcançá-la.
E hoje, só por hoje, procuro levar e transmitir tudo o que aprendo a outro ser humano, através de meus conhecimentos científicos, através das minhas experiências e vivências, através da minha caminhada cristã ou mesmo através de uma borboleta ou de um passarinho, que por acaso, adentram na janela de minha sala à procura de uma saída e em busca da liberdade perdida. Procuro levar a toda pessoa, adicta ou não, a mensagem de que esses 12 princípios e passos do A.A., com certeza nos tornam pessoas melhores, mais sensíveis, mais felizes e porque não dizer, mais sábias e libertas, a cada dia, a cada 24 horas.
E é desta forma, seguindo-os e aplicando-os primeiramente em minha vida, baseando-me na Palavra viva de Deus e associando-os aos meus conhecimentos científicos e técnicos que, mesmo não sendo adicta, posso olhar, escutar e compreender de forma empática, o que um dependente químico traz em seu coração e em sua alma e, junto com ele redescobrirmos um novo estilo de vida e um jeito diferente e saudável de viver.
Na verdade, este relato, diferente de outros que já escrevi, não deve ser considerado um artigo propriamente dito e sim um texto, fruto de uma auto-reflexão baseada não só em minha experiência pessoal e espiritual, como também em alguns estudos técnicos e científicos.
Carl Gustav Jung (Psiquiatra Suíço, fundador da Psicologia Analítica), por exemplo, em meados de 1934 passou a acreditar que o dependente químico necessita de um relacionamento com Deus para sua libertação dos químicos, admitindo assim que apenas a sua abordagem analítica não era suficiente para o tratamento da dependência química.
“Em 1961, Bill Wilson e Carl Jung trocaram cartas a respeito do papel de Jung na formação de Alcóolicos Anônimos. O próprio Bill nunca deixou de insistir que o “fundador primordial” de A.A. foi Carl Gustav Jung, que plantou as raízes de A.A. alguns anos antes da famosa reunião entre Bill & Bob em Akron, Ohio, em 1935.”
Em uma dessas cartas para Bill Wilson em Janeiro de 1961, Jung escreveu, em referência a um paciente de nome Roland H, que ficou sob os seus cuidados clínicos em 1931.
…”Sua fixação pelo álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval, pela união com Deus.”…
…”Veja você que “álcohol” em latim significa “espírito”; no entanto, usamos a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos.
“A receita então é “spiritus” contra spiritum”.
Referências Bibliográficas:
1. O caminho dos 12 passos – Tratamento de dependência de álcool e outras drogas – John E. Burns – Edições Loyola – 2ª edição
2. Alcoólicos Anônimos na Bahia: http://www.aabahia.org.br/billjung.htm
Murray Stein (Murray Stein, Ph.D. é um Analista de formação na Escola Internacional de Psicologia Analítica, em Zurique, na Suíça. Ele internacionalmente palestras sobre temas relacionados com a Psicologia Analítica e suas aplicações no mundo contemporâneo.) faz também uma referência às cartas trocadas entre Carl Jung e Bill Wilson em seu livro “Jung – O mapa da alma – Uma Introdução”:
“Quando Bill Wilson, co-fundador dos Alcoólicos Anônimos, escreveu a Jung em 1961 e o informou sobre o ocorrido com Roland H. (um paciente a quem Jung tinha tratado por alcoolismo no começo da década de 1930), Jung o respondeu admitindo que o terapeuta é essencialmente impotente ao tentar vencer a dependência de um paciente de uma substância. Jung dizia – na minha paráfrase de sua carta – “Você precisa de um símbolo, de um análogo que atraia a energia que foi para a bebida. Tem que encontrar um equivalente que seja mais interessante do que beber todas as noites, que atraia o seu interesse mais do que uma garrafa de vodca”.
Um símbolo poderoso é requerido para provocar uma importante transformação num alcoólico, e Jung falou da necessidade de uma experiência de conversão.”

TRADIÇÕES X COSTUMES

TRADIÇÕES X COSTUMES
Já faz algum tempo em que estando em recuperação, cheguei à conclusão de que: sou um alcoólico tradicional, ou seja, um bebedor problema, um alcoolista praticante, um alcoólatra de carteirinha, e até mesmo um pinguço contumaz. Cheguei à conclusão também que o que me levou a ser tudo isto citado anteriormente foi: o abuso de minha vontade, meus medos e fraquezas, meus hábitos ou costumes, meu egocentrismo e minha falta de humildade.
Quando conheci a Irmandade de Alcoólicos Anônimos me identifiquei como membro na primeira reunião, e posso afirmar que foi: empatia e identificação imediata, uma resposta as minhas perguntas mais desesperadas, admissão imediata de impotência perante o álcool e tomada de consciência de que era um doente. Depois de algumas 24 horas de abstinência e recuperação descobri que os anos a fio de alcoolismo me tornaram uma pessoa: amarga, insatisfeita com a vida, depressiva, triste, nervosa, solitária e etc. Tinha bebido pensando em conseguir “ser igual e aceito” e acabei me tornando “o diferente e desprezado” .
Hoje em dia, tento praticando a programação de AA, que está contida nos seus 36 princípios que são: os Doze Passos, as Doze Tradições e os Doze Conceitos, me tornar uma pessoa melhor, me aceitar mais, aprender a conviver em sociedade e desejando e gostando cada vez mais de viver sóbrio, assim como desejando também que a Irmandade continue a cumprir o seu propósito primordial que é levar a mensagem e ajudar o alcoólico que ainda sofre.
Como foi e está sendo bom ter recebido estas “dádivas divinas”. Dádivas porque recebi gratuitamente e divinas porque hoje acredito que a mão de Deus me deu um empurrãozinho em me fazer admitir que precisava de ajuda e me direcionar a uma sala de AA.
Cheguei, me identifiquei e fiquei porque o AA me deu a liberdade para tanto quando não exigiu nada de mim, não me obrigou a aceitar nenhum tipo de vertente religiosa ou política, a me afiliar a qualquer movimento, causa ou Instituição alheia, não me cobrou mensalidades, contribuições ou dízimos de qualquer espécie e etc… e tal. E isto me foi garantido pelas 12 Tradições forjadas nas experiências vividas por nossos companheiros no passado , conforme as tentativas de acerto e erros se sucediam para melhor adequar a nossa convivência interna como membros de AA, convivência de nós membros de AA e da Irmandade de AA com o mundo exterior, levando em conta a nossa realidade como seres humanos e a da Irmandade no que diz respeito ao seu fim específico.
Quando conheci o AA, adeqüei-me a meu Grupo conforme me foi conveniente na época, pois, realmente precisava de ali ficar para tentar vencer o alcoolismo, e aceitei os costumes do meu Grupo. Com o passar das 24 horas e aos poucos fui tomando ciência dos nossos 36 princípios e vi que tinha tido a felicidade de ingressar em um Grupo de AA que faz da literatura e sua correta interpretação desprovida de anseios e interesses pessoais e das recomendações da JUNAAB o seu esteio para a recuperação, a unidade e o serviço.
Tais costumes que posso até chamar de sadios são: o tipo de arrumação das cadeiras do Grupo e da reunião em si (Californiano), os horários e dias de funcionamento do Grupo, o modo como funciona a coordenação das reuniões e quais os deveres e as liberdades dos coordenadores das mesmas em presidi-las, o modo em que é realizada as partilhas e a oração da serenidade, e assim por diante.

Tive também o privilégio de ver sendo colocados em prática outros costumes que, no meu entendimento, não são tão sadios assim. Costumes esses que não tiveram no seu início os requisitos da coletividade exercida na consciência “coletiva e esclarecida” do Grupo e dos principais propósitos e anseios da Irmandade de AA como um todo.
Infelizmente, estes “não sadios Costumes” se iniciaram dos anseios incontrolados de um ou dois companheiros mais antigos daquele Grupo em fazer dos seus desejos a verdade para os demais companheiros que, por serem mais novos na Irmandade, acabam também eles incorporando como certos os mesmos assim como sua prática, e isto se dá por falta de conhecimento sobre a literatura de AA ou por falta de um bom apadrinhamento no que se refere as Tradições de AA.
Qual é na verdade o intuito e o propósito de empurrar uma ficha amarela de ingresso ao recém chegado na primeira reunião, senão “obrigá-lo” a sentir que foi ingressado contra a sua vontade em uma Irmandade na qual nem sabe ainda se realmente quer fazer parte? Porque não esperar algum tempo ou tempo suficiente para que o recém chegado realmente se sinta fazendo parte de AA e somente depois disso perguntar ao mesmo se ele tem o interesse em possuir uma ficha de ingresso explicando que tal “suvenir” é somente uma lembrança comemorativa do seu ingresso em uma nova vida sóbria e cheia de significado, ou poreque não deixar que o mesmo sozinho descubra a existência de tais fichas e se a quiser se pronuncie a respeito?
Qual é na verdade o intuito de um membro mais antigo na Irmandade e que se encontra na coordenação da reunião ou fazendo sua partilha ou depoimento citar trechos transcritos ou decorados da Bíblia, citando os capítulos e versículos do mesmo uma vez que sabe que AA não está ligado a nenhuma seita ou religião? Porque não falar da espiritualidade e fé que individualmente se alcançou de modo amplo e geral, assim não se colocaria em risco o aparecimento de barreiras, nem se criaria discórdias que acabam aparecendo quando se enaltece a crença em determinada religião ou se firma um preconceito sobre esta ou aquela prática religiosa? O que pensaria um ingressante que tem como base de sua formação religiosa o Torá (Judaísmo), o Alcorão (Islamismo), o Vedas (Hinduísmo) ou outro livro sagrado ou religião específica de sua criação?
Com certeza não se sentiria a vontade, ou, poderia pensar que para fazer parte da Irmandade ou se recuperar do alcoolismo teria que agüentar um maluco pregando aos quatro ventos o valor de sua religião ou sua crença, ou pior ainda, achar que tem obrigatoriamente que se converter em outra religião diversa da sua para se salvar das chicotadas do alcoolismo e fazer parte de AA. Esse preço é caro demais para muitos alcoólicos que ainda sofrem se não o for para todos, levando-se em conta é claro, a natureza dos seres humanos quando se sentem acuados ou obrigados a fazer algo contra a sua vontade.
Uma vez ouvi de um velho mentor. Os princípio de AA são simples o que os complicas são as pessoas. Assim como ouvi também que um Grupo de AA para assim ser chamado, tem que estar dentro e de acordo com todas as 12 tradições sem exceção de nenhuma. E, também me foi ensinado que quanto mais um grupo se afasta dos “Costumes” mais está inserido nas Tradições.
Estas perguntas ou afirmativas? Não me cabe respondê-las ou fazer com que sejam aceitas. Somente as coloco aqui para reflexão.

Renato F. (Campos dos Goytacazes/RJ)