Monthly Archives: Abril 2014

RECUPERAÇÃO E APADRINHAMENTO

“RECUPERAÇÃO E APADRINHAMENTO”

Ninguém conseguirá efetiva¬mente ter acesso a um bebedor, problema no sentido de transmitir a mensagem de recuperação de Alcoólicos Anônimos, senão um outro alcoólico.

O Poder Superior escolheu a nós, homens e mulheres, seres completamente derrotados pelo álcool, e nos concedeu a graça para transmitir a mensagem de recuperação do alcoolismo.

Fomos nós, os escolhidos; não os médicos, políticos e clérigos ou outro ser vivente sequer.

Deus nos deu este dom, como a ninguém mais foi dado. Ele nos concedeu esta Graça.

Através de nossas experiências, sentimos necessidade de cada vez mais termos contato com outras pessoas ainda nas garras do poderoso álcool no sentido de mantermos nossa sobriedade.

Esta necessidade contínua nos leva ao apadrinhamento.

Apadrinhamento este que se inicia com uma abordagem e o convite para conhecer uma sala de Alcoólicos Anônimos. Toma-se mais efetivo quando, através do nosso conhecimento como membros, praticamos o programa de recuperação.

Sutil e simples ele nos é apresentado através dos Doze Passos, Doze Tradições ,dos Doze Conceitos.

O apadrinhamento é simplesmente um outro modo de descrever o interesse especial e contínuo de um membro experiente, que pode significar muito para um recém-chegado que vem para Alcoólicos Anônimos em busca de ajuda, desejando sinceramente parar de beber para se livrar da confusão que o alcoolismo provoca.

A experiência demonstra, claramente, que os membros que mais se beneficiam do programa de recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos e os Grupos que fazem o melhor trabalho de transmitir a mensagem aos alcoólicos que ainda sofrem são aqueles para quem o apadrinhamento é importante demais para ser deixado de lado.

Hoje, compreendemos que apadrinhamento é muito mais do que se presentear com uma ficha de ingresso o companheiro que está chegando.

Apadrinhamento é a perpetuação do nosso propósito primordial; é troca de experiência; é mudança de comportamento, é uma busca diária de transformação de vida, é honestidade, fraternidade e exemplo de recuperação.

Seomára/Alfenas/MG

Vivência n° 95 – Mai./Jun. 2005

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QUAL A IMPORTÂNCIA DA REVISTA VIVÊNCIA PARA A DIVULGAÇÃO DA MENSAGEM DE A.A.

Qual a importância da Revista Vivência para a divulgação da mensagem de A.A.

Nosso conteúdo, com abordagem cientifica, legal, humana e, sobretudo vivencial, testifica a importância de nossa missão alicerçada, honrosamente, na confortadora revelação de que, mesmo pálida e discretamente, já começamos a produzir nossa própria literatura, fruto de nossas próprias observações, produto da Vivência que vimos sedimentando ao longo dos anos, fiéis aos ideais inspiradores de Bill e Bob, consciente da dignidade de A.A., fazendo com que nossa disponibilidade seja um bem permanente e configure sempre, com Humildade e Amor. A Lição do tempo nos ensinou que é possível.
VIVÊNCIA, por isso mesmo, é uma proposta sedimentada no universo vitorioso de AA. É uma forma de atração e não de persuasão. Condensamos material de inquestionável interesse não só para quantos foram ou ainda são vitimas do alcoolismo, mas, igualmente, para aqueles que se preocupam em conhecer, no âmago, a complexidade de um problema que tantos males tem causado à humanidade.
Ela foi criada com a finalidade de veicular o pensamento da comunidade sobre o programa e os princípios da irmandade, pensamento este externado na forma de depoimentos ou comentário sobre como cada um pratica o programa sugerido de A.A., e como os princípios têm sido assimilados e praticados em proveito próprio da instituição como um todo.
Por outro lado, em se tratando de uma publicação acessível ao público em geral, a revista desempenha, também, o seu papel institucional na medida em que transmite a esse público o que é, o que faz, como faz, e o que deixa de fazer Alcoólicos Anônimos enquanto Irmandade. Neste particular é com indisfarçável satisfação que registramos sua plena aceitação, principalmente por parte da comunidade profissional que conosco comunga do mesmo propósito primordial, dentro de uma mesma visão e com a mesma abordagem acerca do problema do alcoolismo.
Assim, quanto à sua finalidade, não restam dúvidas de que a VIVÊNCIA tem preenchido este seu duplo papel, em que pese o fato dos seus primeiros números haverem sido editados em caráter experimental. A nossa dificuldade não está, pois, na revista em si como publicação, mas na quase impossibilidade de mantê-la como órgão financeiramente autônomo dentro da estrutura dos nossos serviços considerados essenciais.
Sabem os que lidam no campo empresarial das comunicações, e nele no particular de jornais e revistas, que as publicações desse gênero vão buscar seus recursos financeiros na venda de espaços para a publicação de anúncios e de matéria de cunho institucional por parte de empresas e instituições. A nossa revista, muito embora tenha também o público externo como destinatário, não pode, por força de um nosso princípio tradicional, buscar nessa fonte os recursos financeiros de que necessita. Neste caso é a própria Irmandade que terá de arcar com o sustento financeiro da sua revista, seja por meio de assinaturas seja por meio de venda avulsa por parte das Centrais e Intergrupais de Serviços.
Apesar das dificuldades o número de assinantes vem aumentando e aumentará muito mais quando cada um fizer do seu companheiro, amigo, parente ou colega de serviço mais um assinante da nossa revista.
Ao longo de toda a sua história, a Revista Vivência vem contribuindo, de forma decisiva, para firmar e para difundir a cultura de A.A., importante e fundamental fator de coesão e de unidade. Tem sido também, o veículo de expressão das experiências pessoais de numerosos membros da Irmandade, assim como o meio disponível que lhes tem possibilitado expressar as suas visões, emoções, experiências e esperanças, ou, simplesmente, servido para contar as suas histórias. Ela tem sido a expressão da alma de A.A. e, por isso, traz toda a riqueza da criação humana.
Que a partir dessa nova baliza, sinalizando no sentido de um horizonte de novas realizações, todos os companheiros de A.A., irmanados, se lancem para o futuro animado pela consciência do seu valor, com esperança e amor pela Irmandade de A.A. e, sobretudo, com fé.

PRUDÊNCIA, MEMÓRIA E DOCILITAS NA RECUPERAÇÃO DO ALCOOLISMO

Prudência, Memória e Docilitas
na Recuperação do Alcoolismo

Luiz Ferri de Barros (1)

1. Apresentação
Neste artigo apresentarei, de forma breve e despretensiosa, algumas reflexões a respeito da filosofia de recuperação adotada pelos grupos anônimos de auto-ajuda, particularmente a adotada pela Irmandade dos Alcoólicos Anônimos (AA), à luz da doutrina das virtudes cardeais de Santo Tomás de Aquino.
Creio que este tipo de abordagem cumpre dois importantes objetivos. O primeiro refere-se à possibilidade de um melhor entendimento sobre as origens remotas e o significado profundo da filosofia de desenvolvimento espiritual contida nos Doze Passos dos AA (2), programa de recuperação que também é adotado pela maioria dos outros grupos anônimos de auto-ajuda. O segundo aspecto de interesse nessa análise é a demonstração de que há lugares em que a atualidade da filosofia de Tomás de Aquino não se trata apenas de anseio por uma educação moral ao meio de uma sociedade “sem valores”.
De fato, nos grupos de auto-ajuda, mesmo que não se conheça a origem de diversas proposições, as pessoas praticam filosofias de crescimento espiritual que as levam a tentar cultivar virtudes. Sob certo aspecto, talvez seja possível dizer que muitos grupos de auto-ajuda constituem-se em raras instâncias sociais onde a educação moral é, muitas vezes, direta e explícita e não se dá por intermédio de uma “educação invisível”- para usar a consagrada expressão do educador espanhol Garcia Hoz.
Para efeitos desta análise, assumirei a interpretação da doutrina de Santo Tomás conforme exposta por intérpretes contemporâneos, apresentados por Lauand (3), em especial enfatizando a existência de quatro virtudes cardeais e o fato de que a prudência é considerada a primeira delas. Discutirei então o papel da memória e também da docilitas como partes quase-integrais da prudência.

2. O Vício, as Quatro Virtudes Cardeais e os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos
Em AA, o alcoolismo em si, em geral, não é designado como vício. Pelo contrário, a entidade foi a primeira grande defensora da tese de que o alcoolismo constitui-se numa doença, já em 1935, quando de sua fundação.
Pesquisas científicas posteriores comprovaram este fato e na década de 60 a OMS (Organização Mundial de Saúde) reconheceu o caráter de doença no beber compulsivo do alcoólatra.
Assim, no sentido de combater preconceitos, educar o público e principalmente aliviar a dor moral do alcoólatra em recuperação, como mencionado, a palavra vício, em geral, não é utilizada, embora haja, na literatura de AA, algumas ocasiões em que ela aparece.
Descontadas as conotações pejorativas da palavra e sua freqüente inadequação em ambientes de recuperação, e mesmo considerando o caráter de doença do beber compulsivo, não se pode condenar a sabedoria popular simplesmente dizendo que seja errado designar-se o alcoolismo como um vício. De fato, pode-se perceber na linguagem corrente, segundo o Aurélio (4), acepções da palavra perfeitamente condizentes com o proceder do alcoólatra na ativa, tais como:
– “costume de proceder mal; desregramento habitual”.
– “conduta ou costume censurável ou condenável (…)”
e, ainda, em sentido mais profundo, que os AA muito discutem:
– “inclinação para o mal (nesta acepção opõe-se a virtude).”
Vale, portanto, recuperar-se a idéia popular de vício, até para que se entenda com clareza que é por meio de um programa de crescimento espiritual (os 12 Passos e demais elementos da filosofia de AA), incentivando a prática de virtudes, que se consegue dar continuidade à recuperação das dependências. Em AA não basta parar de beber. Até porque não se acredita, a partir de mais de 60 anos de experiência acumulada, que seja possível apenas parar de beber. Para que não se volte a beber, diz a experiência, é preciso dispor-se a passar por profundas mudanças pessoais, na verdade a reformulação completa da cosmovisão e do estilo de vida (um processo de metanóia, pode-se dizer), o que se obtém pela prática do programa de desenvolvimento espiritual.
Enquanto a medicina classifica o alcoolismo como uma doença biopsicossocial, a AA não abdicou de sua classificação original, considerando-a como uma doença física, mental e espiritual não apenas porque o etilismo afeta o espírito como porque para recuperar-se é necessário recuperar igualmente o espírito. Como disse Jung, em carta dirigida a um dos co-fundadores de AA, “álcool em latim é spiritus e usa-se a mesma palavra para a mais alta experiência religiosa assim como para o mais perverso veneno. A fórmula auxiliadora é pois: spiritus contra spiritum. (5)”
O alcoolismo é uma doença progressiva; a partir de um determinado ponto, o sofrimento moral constitui ao mesmo tempo uma das maiores dores do alcoólatra e um dos maiores obstáculos à sua recuperação.
Não é por outro motivo que a realização de um “minucioso e destemido inventário moral”, por escrito, constitui-se num dos primeiros passos do programa de recuperação (quarto passo). Ao enfrentar o quarto passo, o alcoólatra em recuperação vai deparar-se novamente com o vício, em todas as suas frentes. No quarto passo, para quem o pratique conforme sugestão dos primeiros AA, serão examinadas, principalmente, as deturpações dos instintos, o que se dá quando, desenfreados, os instintos deixam de cumprir seus papéis naturais de auto-preservação e crescimento e passam a ser forças destrutivas. A pessoa é convidada a examinar seu comportamento e suas convicções no que se refere a alguns assuntos especialmente sensíveis, tais como sexo, dinheiro, poder e, à falta de melhor roteiro de aceitação universal, para empreender o inventário é sugerida reflexão a respeito de cada um dos sete pecados capitais.
Todo esse esforço justifica-se para combater o que os AA denominam de “defeitos de caráter”, ao mesmo tempo motivos e conseqüências do alcoolismo. Podem também ser chamados de “defeitos de personalidade”. “Alguns chamariam de ‘índice de desajustes’. Outros se incomodariam bastante se se falasse em imoralidade, e mais ainda se se falasse em pecado. Contudo, todos os que sejam razoáveis concordarão em um ponto: que há bastante de errado em nós alcoólicos, havendo muito que fazer se esperamos conseguir a sobriedade, o progresso e a verdadeira capacidade de enfrentar a vida” (6).
Diversos comportamentos constelados do alcoólatra na ativa, frutos dos “defeitos de caráter” e dos “instintos desenfreados”, poderiam, com liberdade de expressão, ser igualmente designados como vícios, em qualquer dos três sentidos citados acima e em especial enquanto opostos à virtude. Daí a necessidade de entregar-se à mudança, dispondo-se a tentar uma prática mais virtuosa, para poder-se liberar das amarras da dependência.
Analisando-se detidamente a filosofia de recuperação dos AA, pode-se identificar que ela propicia condições excepcionalmente favoráveis para o cultivo das quatro virtudes cardeais definidas por Santo Tomás: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança.
PRUDÊNCIA

Sendo a Prudência a virtude primeira e, para os clássicos, uma virtude intelectual, que consiste na “arte de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade (…) pelo límpido conhecimento do ser” (7), é naturalmente inacessível a quem se mantenha continuamente alcoolizado. A conquista da abstinência é, portanto, a primeira contribuição objetiva que o grupo oferece ao novo membro. A manutenção da abstinência e a prática da filosofia de recuperação permitirão o cultivo e o fortalecimento da prudência em outras formas, algumas das quais comentarei no tópico seguinte.
JUSTIÇA
A Justiça, entendida classicamente como “dar a cada um o que lhe é de direito”, é cultivada, de forma inequívoca, no oitavo e nono passos, que sugerem fazer “uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado” e fazer “reparações diretas dos danos causados a tais pessoas”. E também no décimo passo encontra-se um preceito relacionado à justiça: “Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.
Vale comentar que os antigos em AA esclarecem com nitidez que as reparações do nono passo não significam necessariamente pedir perdão e nem podem se resumir ao pedido de perdão quando existe a possibilidade da reparação plena. Por exemplo, não é o caso de se desculpar por uma dívida, é o caso de pagá-la. A pronta admissão de um erro pessoal, junto a outras pessoas, é também um ato de dar ao outro o que lhe é de direito, no caso, a razão: o outro estava certo, não eu – admitir isto é um ato de justiça.

FORTALEZA
A Fortaleza, em alguns de seus aspectos principais, tais como o considerar a “vulnerabilidade do homem como seu ponto de partida” e considerar a “aceitação do sofrimento para alcançar um bem maior” (8), é uma virtude explicitamente cultivada pela filosofia de recuperação de AA.
Para o alcoólatra (etimologicamente: aquele que adora o álcool, idolatra o álcool), deixar de beber consiste de fato em ato heróico. Até porque, mesmo considerando que as pessoas só buscam recuperar-se quando já estão no “fundo do poço”, o período inicial de abstinência é caracterizado por uma intensificação significativa do sofrimento. Enfrentar a síndrome de abstinência aguda e, em seguida, a síndrome de abstinência prolongada, representa justamente um grande esforço que o alcoólatra em recuperação está realizando, aceitando o sofrimento imediato em função de um bem maior que busca para si mesmo e para os que ama: atingir a sobriedade e a serenidade.
A valorização da consciência a respeito da própria vulnerabilidade encontra-se expressa com absoluta limpidez no seguinte Princípio de Ouro: “A fraqueza é a força” . Os Princípios de Ouro, em AA, são uma coleção de cerca de 30 aforismos que de forma sintética ilustram e complementam a filosofia de recuperação apresentada ao longo da extensa literatura do grupo. Na realidade, o primeiro passo de recuperação (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”), entremeia-se, ele também, com esse mesmo componente da fortaleza que está implicado na admissão da vulnerabilidade.
TEMPERANÇA
Com relação ao álcool, AA não é um movimento de Temperança, e isto é explicitamente declarado em sua literatura (9). O portador da doença do alcoolismo caracteriza-se precisamente por sua incapacidade de controlar a ingestão de álcool. A doença é considerada incurável e a possibilidade de recuperação consiste em se alcançar uma disciplina que permita o controle da doença a partir da abstinência total. É possível para o alcoólatra controlar seu alcoolismo e permanecer sem beber, entretanto não é possível que ele volte a beber moderadamente, sem perder o controle.
Esta negação da possibilidade de comedimento com relação ao álcool é extremamente importante e encontra-se já no primeiro passo: “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”. Antes da realização do primeiro passo, a maioria dos ingressantes em AA almeja alcançar a temperança, a possibilidade de beber socialmente, sem perder o controle. Ressalte-se, inclusive, que embora o alcoolismo seja uma doença que atinge grandes faixas da população mundial (cerca de 10% dos indivíduos), poucos são os médicos que a conhecem adequadamente. É comum que os médicos, movidos pela idéia da temperança, aconselhem seus pacientes alcoólatras a “maneirarem” com a bebida, atitude que está fora do alcance e que apenas retarda a recuperação.
Em outros aspectos da vida, entretanto, pode-se com segurança afirmar que a temperança é uma virtude que tentam praticar muitos dos que seguem a filosofia de AA. Para a própria manutenção da abstinência recomendam-se cuidados com a alimentação e o descanso, por exemplo. Indica-se que a compulsão do alcoólatra não se restringe à sua maneira de beber, estendendo-se para várias de suas atividades, podendo ser igualmente nociva em outras áreas, inclusive no trabalho (o que hoje se denomina workaholics).
Outra questão extremamente discutida em AA, e muito valorizada, é a necessidade de se adquirir controle emocional, sendo necessária uma permanente vigilância de si mesmo para evitar a vivência de estados excessivamente alegres (euforia) ou excessivamente tristes (depressão), visto que estes extremos são perigosos para a manutenção da abstinência. Esta tentativa de conservação de equilíbrio, de comedimento em relação às próprias emoções, relaciona-se também à prática da virtude da temperança (10).

3. Prudência, Memória e Docilitas na Recuperação
A Prudência, como já mencionado, é a primeira das quatro virtudes cardeais e, por essa razão, vale determo-nos a examinar alguns de seus aspectos com mais atenção.
Embora sua definição no sentido em que a considerava Santo Tomás (Prudentia), de acordo com Lauand, já tenha sido apresentado no início deste artigo (“arte de decidir-se com base no conhecimento objetivo da realidade (…) pelo límpido conhecimento do ser”) cabe alguns comentários a respeito do sentido atual da palavra.
Lauand (11), na linha de Garrigou-Lagrange, aponta para o sentido de indecisão, de excessiva cautela que o termo prudência adquiriu na atualidade, distanciando-se de seu significado original que indicava exatamente a disposição de agir de forma pronta e corajosa, tomando o partido do que é justo a partir da capacidade de enxergar a realidade de forma límpida. Estes autores chamam a atenção para o fato de que, atualmente, a prudência adquire uma conotação negativa. Nas palavras registradas por Garrigou-Lagrange, em 1926: “De fato, em muitos dicionários, a definição dada a prudência faz pensar num tipo de virtude totalmente negativa, que nada tem de virtude a não ser o nome. Seria a prudência uma qualidade negativa?” (12)
Não há dúvida quanto ao empobrecimento do conceito e, a rigor, pode-se dizer que a expressão latina prudentia não encontra na nossa prudência – e em nenhuma outra palavra – tradução adequada. Entretanto, cautela em si mesma, desde que não represente covardia, pode ser fruto da prudência (no sentido original), quando instruída por uma avaliação correta e justa da realidade. Neste sentido não parece necessário a condenação do significado atual da palavra tout court, bastando que se alerte para sua anterior amplitude extraordinariamente mais rica.
Este ponto é importante porque em AA, com relação ao álcool principalmente, os dois significados de prudência são decisivos. A cautela que se aprende a exercitar, caracterizada pelo cultivo de uma série de atitudes e comportamentos, é indispensável para a manutenção da abstinência. Trata-se de uma cautela (sentido atual de prudência) inspirada na consciência a respeito da própria condição de alcoólatra, porque a pessoa adquiriu a perspectiva de enxergar-se a si mesma, ao álcool e ao mundo com limpidez (sentido anterior de prudência).
Creio, assim, que cautela, precaução e cuidados não se excluem da prudência enquanto virtude primeira que atua sobre o agir, desde que não estejam a serviço da omissão, da covardia e outros comportamentos imorais.
Esclarecidas essas questões quanto ao significado de prudência enquanto virtude, é indispensável considerar que para Santo Tomás existem diversas outras virtudes que a compõem de forma indissolúvel, sendo suas partes quase integrais, como ele diz. Memória e docilitas são as duas virtudes quase integrais da prudência que analisarei aqui, dado sua relevância na recuperação do alcoolismo, especialmente se essa recuperação é enxergada como um processo de re-educação – o que consiste na minha tese central para entendimento dos grupos de auto-ajuda.
O termo memória não carece de esclarecimentos nesse momento. “Docilidade”, a tradução corrente de docilitas, encontra-se dicionarizado de forma adequada para uma boa correspondência com o significado latino original (“Qualidade ou caráter de quem se submete ao ensino, de quem aprende facilmente; de quem é fácil de conduzir, de guiar”) (13). Entretanto, prefiro manter o uso da expressão latina, como o faz Lauand, porque na linguagem corrente o termo em português permite também uma interpretação, se não pejorativa, destituída da força de significado de sua acepção original – uma verdadeira “dimensão moral: a atitude interior de humildade receptiva” (14).
A memória faz parte da prudência, segundo Santo Tomás, porque, como já dizia Aristóteles, “a virtude intelectual é gerada e desenvolvida pela experiência e pelo tempo. Ora, prossegue Tomás, a experiência resulta da memória de casos repetidos (…). Por onde e conseqüentemente a prudência exige a memória de casos multiplicados. (15)”
A linguagem, o grande fruto e a grande alavanca da cultura humana, permite o acúmulo das experiências individuais passadas e presentes, ampliando a possibilidade de conhecimento de cada pessoa para muito além do universo de suas próprias vivências. A possibilidade de aproveitar-se desse cabedal de sabedoria dos outros, sejam os contemporâneos ou os antigos, multiplicando a memória de cada um, exige docilitas e é por isso que a docilitas faz parte da prudência.
Reconhecer-se como alcoólatra e realizar o primeiro passo (“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool (…)”) é, nitidamente, um ato de prudência, pois consiste na percepção límpida de uma realidade inquestionável que, até então, o alcoólatra na ativa vinha negando.
Manter-se abstinente é igualmente um ato de prudência pois significa a única ação justa que o alcoólatra pode desempenhar frente à bebida a partir do reconhecimento de seu alcoolismo.
Parar de beber, entretanto, como se diz em AA, não é o maior problema. O problema é não voltar a beber. Para não voltar a beber – isto é: para manter a prudência -, memória e docilitas são, então, fundamentais. A memória individual é fundamental, para que não se perca de vista o sofrimento anterior à abstinência. A experiência do grupo, representando a memória da experiência dos antigos e dos outros companheiros contemporâneos, é imprescindível para iluminar o caminho de como se vencer a obsessão pela bebida e de como realizar o processo de mudanças pessoais que representa o crescimento espiritual, única senda reconhecida como capaz de manutenção permanente da abstinência. Para o desfrute desta “memória dos outros”, a experiência dos antigos e dos contemporâneos, é necessário que se pratique a docilitas.
Em AA se diz que “força de vontade” não é suficiente para se parar de beber. O necessário é que se tenha “boa vontade” (16) para entregar-se ao programa de recuperação. Esta boa vontade solicitada do novato nada mais é do que a docilitas, por excelência a virtude do aprendiz. A força de vontade isoladamente não resolve porque é praticada por conta própria, a partir de referências exclusivamente pessoais e como tentativa de fazer valer a supremacia egóica. A boa vontade geralmente resulta em sucesso porque permite à pessoa abrir-se para compartilhar as “experiências, forças e esperanças” de todo o grupo, assim passando a efetivamente desfrutar do apoio indispensável para a recuperação.
O sexto e sétimo passos, por alguns chamados de “passos da transformação”, permitem, por sua própria leitura, identificar a docilitas como uma virtude central da programação de AA: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter” e “Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”. Estes passos vêm logo após a realização do inventário moral, onde se identificam os “defeitos de caráter” e é importante que se diga que, em AA, é corrente a noção de que o Poder Superior só faz a parte d’Ele se cada um fizer a sua.
Memória é uma virtude de difícil prática, pois que o homem, por natureza, é um ser que esquece, não sendo por outro motivo que em árabe Homem é designado por “Insan”, termo cujo significado etimológico é “esquecedor” (17).
Por isto a continuidade de freqüência às reuniões é importante, mesmo para os que já se encontram em estados avançados de recuperação. É comum ouvir-se depoimentos de pessoas que dizem que estão na reunião para não esquecer que são alcoólatras. Não é outro o motivo porque todos o membros de AA, ao prestarem depoimentos nas reuniões, apresentam-se seguindo um mesmo padrão: “Meu nome é Fulano, eu sou um alcoólatra…” A infinita repetição, antes de ser uma técnica behaviorista de ensino já era uma fórmula presente no Oriente, onde na palavra dhikr mesclam-se os significados de memória e repetição (18). Mais que isto, creio que a apresentação em que se declina a condição de alcoólatra, seguida de um depoimento pessoal em que normalmente se expõem fatos e sentimentos de natureza íntima, corresponde à prática de um tipo de meditação profunda que Santo Tomás considerava como a quarta lei da memória (19). Esta repetição praticada por todos beneficia não apenas os oradores mas também os ouvintes, em especial os novatos, às vezes ainda em processo de negação da doença pois, como diz o provérbio oriental: “A repetição deixa sua marca até nas pedras. (20)”
A repetição em AA por vezes é tão marcante que há membros do grupo que chegam a se incomodar com companheiros que, anos a fio, falam praticamente a mesma coisa em seus depoimentos, sem alterar suas falas. Os antigos em AA dizem que isto não tem a menor importância se está servindo para manter a abstinência do companheiro. Na verdade, há um aforismo em AA que enuncia o seguinte: “Eu falo para mim mesmo. Porque o meu ouvido é o que está mais próximo de minha boca e eu sou o primeiro a ouvir”. Considerando esta obviedade, talvez se possa interpretar que a fala só se alterará quando a necessidade de memória daquele depoimento específico for superada.
Em AA respeitam-se igualmente os antigos e os ingressantes. Os antigos, denominados desta maneira, representam a experiência acumulada e o ideal a ser atingido. Os especialmente dedicados à Irmandade e mais solícitos no apoio aos outros são considerados “velhos mentores”: são representantes supremos da memória coletiva.
O ingressante, quando pela primeira vez chega a uma reunião, é tratado por todos como sendo “a pessoa mais importante”. O novato é importante porque ele representa o futuro e a renovação da Irmandade mas, principalmente, porque ele é um elemento de memória para todos os presentes. Quem chega pela primeira vez numa sala de recuperação, normalmente apresenta-se em estado lastimável, desorientado, cheio de problemas, muitas vezes embriagado. A pessoa que vai procurar o grupo está no auge de seu alcoolismo. O contraste entre seu estado e o estado dos que estão em abstinência, em recuperação, reforça, pelo efeito demonstração, a determinação de continuar sem beber entre os membros do grupo. O alcoólatra em recuperação rememora os tempos de seu próprio sofrimento quando se depara com outro na ativa.
É necessário que se diga, também, que a importância do ingressante não se restringe a este efeito quase que cruel. Pelo contrário, todo o grupo de AA está animado pela inspiração da quinta Tradição (21) e os AA sabem que ajudar outro alcoólico a atingir a sobriedade é uma das melhores maneiras de conservar a própria, o que se encontra enunciado no décimo segundo passo (“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”). Este décimo segundo passo não pode ser confundido como sendo uma sugestão meramente altruísta, ao feitio filantrópico. Ele se constitui numa necessidade porque baseiase na constatação de que “É dando que se recebe” (22), enunciada nos Princípios de Ouro de AA da seguinte forma: “Só conservamos o que temos dando-o a outros”.
Esta reciprocidade que se dá no décimo segundo passo corresponde a um tipo de ato de mão dupla, onde o sujeito é ao mesmo tempo doador e beneficiário de determinada ação, à moda do que se encontrava presente nas línguas antigas, pela conjugação de uma forma verbal não existente entre nós (23). Talvez não seja exagero dizer que, neste caso citado, para a manutenção da prudência do alcoólatra em recuperação e o despertar da prudência no ingressante, o que está em curso é um intercâmbio de memórias. Em troca da experiência de recuperação (a memória coletiva) que lhe oferecem os membros do grupo, o novato oferece a todos a sua situação pessoal como memória viva do alcoolismo ativo.
Lembrar-se do período de alcoolismo ativo é quase uma necessidade para que o alcoólatra seja capaz de manter-se em abstinência. Passado o período crítico inicial dos primeiros meses, não é raro que a pessoa, à medida que vai reconstruindo sua vida, resolvendo melhor os seus problemas, volte a pensar que é capaz de controlar a bebida, podendo beber socialmente. O alcoolismo é a Doença da Negação, como se costuma dizer, e o Homem é “Insan” (esquecedor), como dizem os árabes… Por isto a necessidade de manter a freqüência às reuniões. Entretanto, mesmo freqüentando reuniões, há de se ter cuidado com as distorções de que a memória é capaz e para tanto existem também sugestões na literatura do grupo, uma das quais, pelo menos, é perfeitamente condizente com as concepções de memória enquanto virtude, conforme entendida por Santo Tomás.
A recomendação expressa para “recordar-se do último porre” é uma orientação de ordem moral, no sentido de manter-se a memória a serviço da prudência, fiel à realidade dos fatos. Isto porque com o alívio do intenso sofrimento a que estava submetido na ativa, o alcoólatra aos poucos vai se esquecendo das agruras e recordando-se apenas das coisas boas que o álcool lhe proporcionara no passado. No limite, desenvolve o que se denomina “memória eufórica”, que se caracteriza pela exaltação plena dos prazeres vividos e esquecimento total ou negação das vivências de sofrimento. Esta deformação da memória leva infalivelmente à recaída. Para ela não se manifestar e não frutificar é que se deve exercitar a lembrança dos últimos porres, das dores, dos vexames e humilhações.
Este é um exercício de memória adequado para que, no caso do alcoólatra em recuperação, seja possível manter a memória como uma virtude fiel à prudência. Nas palavras de Pieper: “A ‘boa’ memória, entendida como requisito de perfeição da prudência, não significa senão uma memória ‘fiel ao ser’(…) O falseamento da recordação, em oposição à realidade, mediante o sim ou o não da vontade, constitui a mais típica forma de perversão da prudência”.(24)
APÊNDICE

OS 12 PASSOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS (25)
“1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”

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1- O autor é mestre em Educação pela USP, escritor, consultor em Dependência Química, atualmente desenvolvendo pesquisa de Doutorado sob o título “Re-educação – A Alquimia dos Grupos Anônimos de Auto-Ajuda”. O presente estudo originou-se a partir das reflexões suscitadas pelo curso de Pós-Graduação da FEUSP: “A educação para as virtudes na tradição ocidental”.
2- Vide Apêndice, ao final do texto.
3- Lauand, Luiz Jean. Provérbios e Educação Moral – A filosofia de Tomás de Aquino e a Pedagogia do Mathal. HotTopos. São Paulo, 1997.
4- Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Nova Fronteira. 1 edição, 11 re-impressão. Rio de Janeiro s/d.
5- Jung, Carl Gustav. C. G. Jung Letters. Routledge & Keagan. London, 1976. pág. 625. Carta a Bill Wilson, em 30 de janeiro de 1961.
6- Alcoólicos Anônimos. Os Doze Passos e as Doze Tradições. JUNAAB – Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. São Paulo, 1995. pág.42.
7- Lauand, op. cit,.págs. 30 e 31.
8- São, respectivamente, o princípio e a conclusão do tratado de Pieper sobre a fortaleza. Cfr. Josef Pieper Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960, p. 173 e ss. e p. 194 e ss.
9- Alcoólicos Anônimos. Folheto 44 Perguntas.
10- Para o tema da temperança, veja-se o livro de Pieper, recolhido no já citado volume Virtudes Fundamentais, Lisboa, Aster, 1960.
11- Op. Cit. págs. 30 e 31.
12- Garrigou-Lagrange, Reginald. La prudence – sa place dans l’organisme des virtus. Revue Thomiste, École de Théologie Saint-Maximin (Var), Année 31, Nouv. Série IX, 1926, p. 411. Apud Lauand op. cit. Tradução minha.
13- Ferreira. op. cit.
14- Lauand. op. cit. pág. 117.
15- Tomás de Aquino. Suma Teológica II-II, 49, 1. 2ª. ed., Ed. bilíngüe em 10 vols. Tradução de Alexandre Corrêa. EST-Sulina-UCS, Rio Grande do Sul, 1980.
16- Alcoólicos Anônimos. Os Doze Passos e as Doze Tradições. op. cit. pág. 29.
17- Lauand. op. cit. pág. 97.
18- Ibidem. pág. 97.
19- Ibidem. pág. 112.
20- Ibidem. pág. 112.
21- “Cada grupo é animado de um único propósito primordial — o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”.
22- Oração de S. Francisco, citada na literatura de AA.
23- Trata-se da voz média do grego, que encontra um correspondente no verbo depoente latino. Em ambos os casos, trata-se de indicar uma ação que é ao mesmo tempo ativa e passiva, como nascor, nascer (eu nasço ou sou nascido?), morior (morrer será um verbo ativo?). Exemplo sugestivo, no presente estudo, é o do verbo loquor, falar: ao externar, comunicando-me com outros, é que me dou conta de meus próprios pensamentos (devo esta nota ao Prof. Luiz Jean Lauand).
24- Pieper, J. Das Viegespann, München, Kösel, 1964, pág. 29. Apud Lauand. op. cit. pág. 113.
25- Publicados pela primeira vez em 1939, no livro Alcoólicos Anônimos. O título do livro foi adotado como nome oficial da Irmandade que havia sido fundada em 1935.

PRINCÍPIOS ACIMA DE PERSONALIDADE

PRINCÍPIOS ACIMA DE PERSONALIDADE
A boa vontade é melhor ferramenta, aplicada no serviço.
1. Doar -se é viver de maneira certa pelo motivo certo.
2. O último estágio da liberdade é perder o medo de conviver em equilíbrio com a realidade de um adicto.
3. O fruto de um serviço desenvolvido com amor atinge sua perfeição na colheita, e esta chega sempre em boa hora.
4. É só por hoje.
5. Mais será desvendado.
6. Só por hoje você não precisa usar nunca mais.
7. Que através de um contato sincero com Deus, nenhum adicto, vivendo recuperação, precise morrer sem oportunidades de encontrar uma nova maneira de viver.
8. Deus, mostre em cada um de nós um sentido do seu propósito.
9. O nosso objetivo é permanecermos em recuperação só por hoje, e levar a mensagem aos adictos que ainda sofrem.
10. A adicção é uma doença que envolve muito mais do que o uso de drogas, portanto nossa responsabilidade tem que ser mais do que, apenas, não usar.
11. Não há nada de vergonhoso em ser um adicto, desde que aceitemos honestamente o nosso dilema e comecemos a agir positivamente.
12. Podemos ver um pouco de nós mesmos em cada comanheiro e ver um pouco deles em nós.
13. As únicas alternativas à recuperação são: as prisões, instituições, abandono e morte.
14. A cada dia nos é dada uma nova oportunidade.
15. Para nós só existe uma maneira de viver:
16. Só dando podemos manter o que temos.
17. Já pagamos pelo direito a recuperação com a nossa dor.
18. A nossa mensagem de recuperação se baseia na nossa experiência.
19. Não podemos esquecer, quando usamos, perdemos.
20. Nós nos tornamos livres para viver.
21. De acordo com os princípios de recuperação, tentamos não nos julgar, estereotipar ou moralizar.
22. O coração da programação pulsa quando dois adictos partilham a sua recuperação.
23. Viver este programa nós dá um relacionamento com um Poder Maior do que nós, corrige defeitos e nos leva a ajudar os outros.
24. Onde tem havido erro, o programa nos ensina o espírito do perdão.
25. Nossas vidas estão em jogo, mas se colocarmos a recuperação em primeiro lugar, o programa funciona.
26. Somos responsáveis pela nossa recuperação.
27. A principal ferramenta da recuperação é o adicto em recuperação.
28. Em recuperaão respostas são oferecidas, problemas são solucionados.
29. Este é um programa para aprender.
30. Aceitação leva à recuperação.
31. Praticando o programa, perdemos o medo do desconhecido. Somos libertados.
32. Não podemos fazer tudo de uma só vez. Vá, mas vá com calma
33. Três princípios espirituais são indispensáveis: honestidade, mente aberta e boa-vontade.
34. Quanto mais rapidamente nós encaramos nossos problemas na sociedade, no dia à dia, mais rapidamente nos tornamos membros aceitáveis, responsáveis e produtivos dessa sociedade.
35. Não podemos esquecer que, para nós, uma dose é demais e mil não bastam.
36. Os passos são a solução. Os passos são a garantia da nossa sobrevivência. Os passos são a nossa defesa da adicção, uma doença mortal.
37. Estar limpo tem que estar em primeiro lugar.
38. Ao nos sentirmos derrotados, ficamos prontos.
39. O Primeiro Passo nos ensinou que não somos impotentes apenas perante as drogas, mas somos impotentes, principalmente, perante a adicção.
40. Livrando-nos de todas as nossas reservas e restrições, nós nos rendemos.
41. Aceitação social não significa recuperação.
42. Quando damos o melhor de nós o programa funciona.
43. A rendição significa que não temos mais que lutar.
44. Estamos dispostos a fazer o que for necessário para ficarmos limpos, até o que não gostamos de fazer.
45. Não é onde estamos que conta, mas para onde estamos indo.
46. Insanidade é repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes.
47. Muitos de nós compreendem Deus, simplesmente, como sendo aquela força que nos mantém limpos.
48. Há momentos na nossa recuperação em que a decisão de pedir ajuda a Deus é a nossa maior fonte de força e coragem.
49. Percebemos que o Poder Superior que nos trouxe para este programa ainda está conosco, e continuará nos guiando se O deixarmos.
50. Medo é falta de fé.
51. A auto-avaliação honesta é uma das chaves da nossa recuperação.
52. Queremos encarar nosso passado de frente, vê-lo como realmente foi e libertá-lo para podermos viver no hoje.
53. Todos temos qualidades, muitas delas recém encontradas no programa.
54. Nossos defeitos crescem no escuro e morrem à luz da exposição.
55. Temos que abandonar todas as máscaras.
56. Onde antes tínhamos teorias espirituais, começamos agora a despertar para a realidade espiritual.
57. Se não somos humildes, somos humilhados.
58. Precisamos de uma mudança de personalidade, se quisermos nos manter limpos.
59. Aprendemos que estamos crescendo, quando cometemos novos erros, em vez de repetir os antigos.
60. Você está exatamente onde deveria estar.
61. Mesmo não estando inteiramente prontos, estamos caminhando na direção certa. Estamos crescendo para uma consciência amadurecida.
62. A humildade resulta de sermos mais honestos conosco.
63. Somos verdadeiramente humildes quando aceitamos e tentamos, honestamente, ser quem somos.
64. A humildade é tão importante para nos mantermos limpos, como comer e beber são importantes para a nossa sobrevivência.
65. Chegou a hora de pedirmos a Deus ajuda e alívio.
66. Temos que compreender que não somos perfeitos, sempre haverá espaço para o crescimento.
67. Se quisermos realmente ser livres, ouviremos atentamente o que os companheiros tiverem a nos dizer.
68. Fé é a nossa estrada para o crescimento espiritual.
69. O crescimento não é resultado de um desejo, é resultado de ação e oração.
70. Aceitar os defeitos dos outros pode ajudar a nos tornar mais humildes e pode abrir o caminho para que os nossos próprios defeitos sejam removidos.
71. Perdoamos aos outros, possivelmente somos perdoados e, finalmente, nos perdoamos e aprendemos a viver no mundo.
72. Só por hoje, podemos viver e deixar viver.
73. A prática do programa faz o trabalho externo para reparar os destroços das nossas vidas.
74. Não nos tornaremos pessoas melhores, julgando os erros dos outros.
75. Quando percebemos a nossa necessidade de sermos perdoados, temos a tendência de perdoar mais.
76. Aprender a viver bem é, em parte, aprender a saber quando precisamos de ajuda.
77. Com o tempo muitos milagres vão acontecer.
78. O tempo limpo fala por si.
79. A paciência é uma parte importante da nossa recuperação.
80. O amor incondicional que experimentamos vai rejuvenescer a nossa vontade de viver.
81. Hoje, temos uma escolha.
82. Muitas das nossas principais preocupações e dificuldades vêm da nossa experiência de viver sem drogas.
83. Temos o direito de nos sentirmos bem.
84. É nos mostrado que temos que ser honestos ou usaremos novamente.
85. Não é vergonhoso recair, a vergonha está em não voltar.
86. Depois de atravessarmos um período difícil, podemos prontamente concordar que é sempre mais escuro antes do amanhecer.
87. É melhor engolirmos o nosso orgulho do que morrermos.
88. A melhor maneira de demostrarmos gratidão é levar a mensagem da nossa experiência, força e esperança ao adicto que ainda sofre.
89. O programa permite que nos tornemos membros produtivos e responsáveis da sociedade.
90. Honestidade exige prática, e nenhum de nós alega ser perfeito.
91. Crescimento significa mudança.
92. Manutenção espiritual significa recuperação contínua.
93. O isolamento é perigoso para o crescimento espiritual.
94. Mais cedo ou mais tarde teremos que caminhar com as nossas próprias pernas e encarar a vida como ela é.
95. A recuperação começa com a rendição.
96. Os fracassos são apenas contrariedades temporárias, e não os elos de uma corrente inquebrável.
97. A honestidade e a empatia são essenciais para a recuperação.
98. Nenhum adicto que tenha se rendido totalmente a este programa deixou de encontrar a recuperação.
99. Qualquer adicto limpo é um milagre, e manter o milagre vivo é um processo contínuo de conscientização, rendição e crescimento.
100. Aprendemos a não nos envolver emocionalmente com os problemas.
101. Aprendemos que se uma solução não for prática, ela não é espiritual.
102. Não temos todas as respostas ou soluções, mas podemos aprender a viver sem drogas.
103. Não temos que compreender este programa para que ele funcione. Só temos que seguir as sugestões.
104. Os Doze Passos são essenciais para o processo de recuperação.
105. Quando as drogas se vão e o adicto trabalha o programa, acontecem coisas maravilhosas.
106. Nossas ações é que são importantes. Deixamos os resultados com nosso Poder Superior.
107. Um abraço amigo pode fazer toda a diferença do mundo.
108. Hoje, seguros no amor da irmandade, podemos olhar outro ser humano nos olhos e sermos gratos por sermos quem somos.
109. Só por hoje meus pensamentos estarão concentrados na minha recuperação, em viver e apreciar a vida sem drogas.
110. Só por hoje terei fé em alguém de confiança, que acredita em mim e quer ajudar na minha recuperação.
111. Só por hoje terei um programa. Tentarei segui-lo o melhor que puder.
112. Só por hoje tentarei conseguir uma melhor perspectiva da minha vida.
113. Só por hoje não terei medo, pensarei nos meus novos companheiros, pessoas que não estão usando drogas e que encontraram uma nova maneira de viver. Enquanto eu seguir este caminho não terei nada a temer.
114. Ter aceitação é algo essencial para nossa recuperação.
115. Preocupação é falta de fé.
116. O contato com o Poder Superior preenche o vazio dentro de nós que nada podia preencher.
117. Viver só por hoje alivia a carga do passado e o medo do futuro.
118. O nosso Poder Superior sempre nos dá a força e a orientação que precisamos.
119. Existe algo que pode ser sentido nas reuniões.
120. Tudo o que sabemos está sujeito à revisão, especialmente o que sabemos a respeito da verdade.
121. Através de um esforço de mente aberta, começamos a confiar no relacionamento diário com Deus.
122. Uma maneira de permanecermos em contato consciente com o Poder Superior, especialmente nos momentos difíceis, é fazer uma lista das coisas pelas quais somos gratos.
123. Nosso Poder Superior está acessível a todo momento.
124. Algumas coisas temos que aceitar, outras temos que modificar. A sabedoria para perceber a diferença vem com o crescimento no nosso programa espiritual.
125. Com ajuda do nosso Poder Superior, não teremos que usar nunca mais.
126. Mantemos o milagre vivo em contínua recuperação através de atitudes positivas.
127. A honestidade rigorosa é a ferramenta mais importante que temos para aprender a viver no hoje.
128. Embora seja difícil de praticar a honestidade é extremamente recompensadora.
129. A nossa mente aberta nos permite ouvir algo que pode salvar nossa vida.
130. Temos que estar dispostos a fazer o que for necessário para nos recuperarmos.
131. Honestidade, mente aberta e boa-vontade trabalham lado à lado.
132. Este programa é parte vital da nossa vida diária.
133. Não devemos esquecer das nossas qualidades, enquanto nos esforçamos para eliminar nossos defeitos.
134. Hoje, aceitamos a responsabilidade pelos nossos problemas, e vemos que somos igualmente responsáveis pelas nossas soluções.
135. Hoje exigimos menos e damos mais.
136. NA é como um bote salva vidas num mar de isolamento, desesperança e caos destrutivo.
137. Nosso estado espiritual é o alicerce de uma recuperação bem sucedida, que oferece crescimento ilimitado.
138. Deixando de controlar, ganhamos um poder muitíssimo maior através da rendição.
139. As nossas preces parecem funcionar, assim que entramos no programa de NA e nos rendemos a nossa doença.
140. O nosso programa não é religioso, é espiritual.
141. A imagem do tipo de pessoa que gostaríamos de ser é apenas um vislumbre da vontade de Deus para nós.
142. Quando, finalmente, tiramos os nossos motivos egoístas do caminho, começamos a descobrir uma paz que nunca imaginamos ser possível.
143. A moralidade forçada não tem o poder que vem a nós, quando escolhemos uma vida espiritual.
144. Aprendemos que, se rezarmos com regularidade, não sentiremos dor com tanta frequência ou com tanta intensidade.
145. Com a mente aberta temos um olhar novo a cada dia.
146. Para alguns, oração é pedir a ajuda de Deus; meditação é escutar a resposta de Deus.
147. Acalmar a mente, através da meditação, traz uma paz interior que nos põe em contato com o Deus dentro de nós.
148. O equilíbrio emocional é um dos primeiros resultados da meditação.
149. Rezamos porque nos traz paz e devolve nossa confiança e coragem.
150. À medida que buscamos o nosso contato pessoal com Deus, começamos a desabrochar como uma flor ao sol.
151. Temos que dar livremente e com gratidão o que nos foi dado livremente e com gratidão.
152. Para mantermos a paz de espírito, nós nos esforçamos para viver aqui e agora.
153. Nós que já estivemos no abismo do desespero, sentimo-nos afortunados por ajudar os outros a encontrar a recuperação.
154. Só podemos levar a mensagem a alguém que esteja pedindo ajuda.
155. Às vezes, o poder do exemplo é a única mensagem necessária.
156. Aprender a ajudar os outros é um dos benefícios da recuperação.
157. Um adicto sozinho está em má companhia.
158. A prática de princípios espirituais no nosso dia à dia nos conduz a uma nova imagem de nós mesmos.
159. Não podemos negar a outros adictos a sua dor, mas podemos levar a mensagem de esperança que nos foi dada por companheiros adictos em recuperação.
160. Deus nos ajuda, quando ajudamos uns aos outros.
161. Somos uma visão de esperança.
162. Somos exemplos de que o programa funciona.
163. A felicidade que temos em viver limpos é uma atração para o adicto que ainda sofre.
164. Nós nos recuperamos para uma vida limpa e feliz.
165. Os Passos são um novo começo.
166. Quando admitimos plenamente no nosso íntimo que somos impotentes perante a nossa adicção, damos um grande passo na nossa recuperação.
167. Se a obsessão ou compulsão se tornar grande demais, fique sem usar cinco minutos de cada vez. Os minutos se transformarão em horas, as horas em dias e, assim, você quebrará o hábito e ganhará alguma paz de espírito.
168. O verdadeiro milagre acontece quando você percebe que foi, de alguma maneira, libertado da necessidade de drogas. Você parou de usar e começou a viver.
169. O primeiro passo para a recuperação é parar de usar.
170. A nossa recuperação tem que envolver muito mais do que a simples abstinência.
171. Recuperação é uma mudança ativa nas nossas idéias e atitudes.
172. Uma boa idéia é irmos a uma reunião por dia, pelo menos nos primeiros noventa dias de recuperação.
173. As reuniões não só nos mantêm em contato com o que passamos, como também nos aproxima de onde podemos chegar na nossa recuperação, principalmente.
174. Temos que nos abrir e aceitar o amor e a compreensão de que precisamos para mudar.
175. Esforçamo-nos nos nossos problemas mais óbvios e abrimos mão do resto.
176. Limpos nós encaramos o mundo juntos.
177. Nosso esforço comum é a recuperação.
178. Os nossos novos amigos na irmandade irão nos ajudar.
179. Aprendemos novas maneiras de viver. Não estamos mais limitados as nossas velhas idéias.
180. Podemos começar pedindo ajuda e experimentando as sugestões das pessoas nas reuniões.
181. Aprendemos que servir aos outros fará com que saíamos de nós mesmos.
182. O apadrinhamento é uma via de mão dupla.
183. Descobrimos que confiar nos que tem mais tempo é uma força, não uma fraqueza.
184. Aprendemos a manter o programa em primeiro lugar e a ir com calma nos outros assuntos.
185. Aprendemos que o programa não funciona quando tentamos adaptá-lo à nossa vida. Temos que aprender a adaptar nossa vida ao programa.
186. Hoje, buscamos soluções, não problemas.
187. A liberdade para mudar parece vir depois da aceitação de nós mesmos.
188. As palavras nada significam até que as coloquemos em ação.
189. Aprendemos que, só dando, conservamos o que temos.
190. Não importa o quanto nós damos, há sempre outro adicto em busca de ajuda.
191. A experiência demora claramente que quem aproveita mais o programa são aqueles que dão importância ao apadrinhamento.
192. Só conservamos o que temos com vigilância.
193. A liberdade do indivíduo vem dos Doze Passos. A liberdade coletiva vem das Doze Tradições.
194. Tudo estará bem, enquanto os laços que nos unem forem mais fortes do que aqueles que nos afastariam.
195. Já não temos mais o uso de drogas ou nossa ignorância como desculpa para sermos irresponsáveis.
196. Quando admitimos honestamente as nossas falhas, encontramos a humildade.
197. Nunca seremos perfeitos.
198. Não devemos desistir. A nossa tarefa é seguir em frente.
199. Devemos persistir, por mais difícil que seja o nosso progresso.
200. Quando a dor de permanecermos na mesma se tornar maior do que nosso medo de mudança, iremos certamente entregar-nos.
201. Aquilo que gostaríamos de vir a ser, encontra-se espelhado a nossa volta, nos adictos em recuperação que vivem de acordo com os princípios.
202. Precisamos largar nossas reservas, desculpas, racionalizações e ilusões, e seguir na nossa recuperação.
203. Nunca conseguiremos esquecer o milagre que começou a acontecer conosco.
204. Graças a trabalharmos os Passos, os nossos espíritos feridos e cansados começaram a sarar.
205. Humilde é o estado ideal para um adicto se encontrar.
206. Estamos no caminho certo, na direção certa. Cada Passo que damos significa progresso.
207. Fazemos as reparações por que as devemos.
208. Se ainda sentimos raiva de algumas das pessoas do nosso passado, precisaremos praticar o princípio do perdão.
209. Embora a recuperação seja um processo para vida inteira, vivemos apenas o dia presente.
210. É necessário tornar-mos humildes, se quisermos viver uma vida limpa e seguir um caminho espiritual.
211. Sabemos que não somos nem mais, nem menos importantes do que os outros.
212. A nossa fé nos dá razão para esperarmos o melhor.
213. Aquilo que estamos a experimentar praticando os Passos é um despertar do espírito.
214. Sabemos hoje, que um Poder Superior está a cuidar de nós.
215. Hoje, podemos testemunhar um milagre simplesmente olhando para o espelho.
216. As mudanças dos nossos modos de vida são as reparações mais significativas que podemos fazer.
217. A nossa recuperação é também uma forma de fazermos reparações a nós próprios.
218. O nosso passado é apenas isso: o passado. Não devemos nos agarrar a ele.
219. Ao pensarmos menos em nós próprios, aprendemos a amar-nos mais.
220. Praticando o programa estamos livres para sonhar e para procurar realizar nossos sonhos.
221. O nosso Poder Superior convidou-nos a viver, e nós aceitamos o convite com gratidão.
222. Estamos a tornar-mos aquilo que sempre deveríamos ter sido: seres humanos completos.
223. Rezamos por um determinado tipo de poder: o poder e as forças para realizar a vontade de Deus.
224. A rendição tornou-se o alicerce da nossa recuperação.
225. Devemos colocar a oração e a meditação no topo da nossa lista de prioridades.
226. A nossa concepção de um Poder Superior cresce e muda através da oração e da meditação.
227. O nosso despertar espiritual abriu-nos para a satisfação, o amor incondicional e a liberdade pessoal.
228. Começamos a sentir humildade quando abrimos as nossas mentes à possibilidade de existência de um Poder Superior a nós mesmos.
229. Hoje podemos, finalmente, começar a compreender aquilo que o milagre da recuperação tem para nos dar.
230. O vazio espiritual que sentimos no inicio da nossa recuperação tem se transformado em gratidão, em amor incondicional e num desejo de servir a Deus e aos outros.
231. Um pequeno ato de generosidade pode fazer maravilhas.
232. Cada vez que dizemos a alguém que é possivel, reforçamos a nossa crença na recuperação.
233. Não podemos obrigar ninguém a parar de usar. Não podemos remover, como que por magia, a solidão ou a dor de alguém. Não podemos “dar” a outra pessoa os resultados de trabalhar os Passos, nem podemos crescer por ela. Enfim, somos impotentes em relação as outras pessoas.
234. Não é da nossa conta decidir quem está ou não, pronto para ouvir a mensagem de recuperação. Podemos apenas transmitir a mensagem, não podemos determinar quem ira recebê-la
. 235. Qualquer pessoa que peça ajuda tem o direito a nossa compaixão, a nossa atenção e a nossa aceitação incondicional.
236. O exemplo de uma vida vivida de acordo com os princípios espirituais é, potencialmente, a mensagem mais poderosa que podemos transmitir.
237. Quando servimos anonimamente, a voz da gratidão, mesmo em silêncio, não deixa de ser ouvida.
238. É no caminho aberto pelos Doze Passos que se inicia a nossa jornada futura.
239. Convém lembrar-nos que ninguém se recupera física, mental e espiritualmente de um dia para outro.
240. A nossa abstinência é só o início. A nossa única esperança de recuperação reside numa profunda mudança emocional e espiritual.
241. Não podemos nos esquecer que a libertação da doença da adicção é apenas diária.
242. Praticar e viver os Passos conduz-nos a um despertar espiritual. O Primeiro Passo é o início dessa viagem espiritual.
243. Ser devolvido à sanidade constitui um processo para toda vida.
244. Ao constatar que não temos todas as respostas começamos a sentir um pouco de humildade.
245. Algumas das sugestões mais fortes que podemos receber de outros adictos são: irmos as reuniões, pedirmos ajuda, rezarmos e trabalharmos os Passos.
246. Uma mente aberta permite-nos assimilar idéias novas ao desligar-nos do problema e caminharmos em direção a uma solução espiritual.
247. Para mudar é necessário determinação, tempo e coragem.
248. Aprendemos que não precisamos ser perfeitos para viver uma vida espiritual.
249. Nossa coragem é demonstrada, não pela nossa falta de medo, mas sim pela ação que tomamos apesar do medo.

UMA AULA DE ESPIRITUALIDADE

Uma aula de espiritualidade

A leitura de Variedades da Experiência Religiosa, de Williams James, reservou “gratíssimas surpresas” a este companheiro.

Foi como se eu tivesse realmente “pronto” – no quarto ano de A.A. – para ler o texto do filósofo norte-americano William James, considerado o “pai da moderna psicologia”. Li Variedades da Experiência Religiosa como quem estuda: com cuidadosa atenção e anotando passagens importantes num bloco de papel. Como não encontrei uma edição em português, recorri a um volume em espanhol, numa biblioteca pública, e isso por si só tornou minha leitura ainda mais atenta.

Foram muitas e gratíssimas as surpresas. A experiência foi notável, não só por confirmar para mim aspectos da espiritualidade que eu já havia percebido, por meio da prática do programa de A.A. – a exemplo da consideração do autor de que “Deus é real desde o momento em que produz efeitos reais”, mas também porque me abriu novas e valiosas perspectivas de crescimento espiritual, ao esclarecer sensações que já tinham me assaltado mas que não conseguia identificar com clareza. Caso desta passagem:
“A prece ou a comunhão íntima com o espírito transcendental – seja ‘Deus’ ou ‘lei’ – constitui um processo onde o fim se cumpre realmente, e a energia espiritual emerge e produz resultados precisos, psicológicos ou materiais, no mundo fenomenológico.”.

Ao final da leitura sobrou para mim uma certeza: a de que o crescimento espiritual constante poderá me conduzir a um estado em que minhas preces deixem de ser meramente súplicas (como foram até agora e acredito que assim continuarão por tempo indeterminado) e assem a representar um estado mais elevado, em que eu possa louvar e amar a Deus como Ele merece ser louvado e amado – para que a semente de Sua presença dentro de meu próprio espírito possa se tornar plenamente efetivada.

Confesso que, de início, não achava que fosse ler o livro inteiro, mas apenas dois dos 20 capítulos, os que tratam da conversão (que eu entendo como despertar espiritual). Findos os dois capítulos (cada capítulo corresponde a cada uma das 20 conferências realizadas por James na Universidade de Edimburgo, na Inglaterra, entre 1901 e 1902), compreendi que tinha aberto uma arca de tesouro, passando a devorar tudo.

Há no livro um aspecto que, logo de saída, me fisgou: a generosidade do mestre, que não dá um passo sem relatar detalhadamente casos verídicos (alguns envolvendo alcoólicos), além de citar bastante outros autores e pesquisadores – como é o caso destas palavras , creditadas ao professor Leuba, contemporâneo seu e também precursor da psicologia da religião:
“Deus não é conhecido, não é compreendido, é simplesmente utilizado, às vezes como provedor material, às vezes como suporte moral, às vezes como amigo, às vezes como objeto de amor. Se demonstrar sua utilidade, a consciência espiritual não exige mais nada.
Existe Deus realmente?
O que é?, são perguntas irrelevantes.
Não é a Deus que encontramos na análise última dos fins da espiritualidade, mas sim a vida, maior quantidade de vida, uma vida mais ampla, mais rica, mais satisfatória. O amor à vida, em qualquer e em cada um de seus níveis de desenvolvimento, é o impulso religioso”.

Outra citação, creditada pelo autor a Frederic Myers: “Se perguntarmos a quem dirigir a prece, a resposta (curiosamente, é certo…) há de ser isso não tem demasiada importância; a prece não é uma coisa puramente subjetiva, significa um incremento real da intensidade de absorção de poder espiritual – ou graça -, mas não sabemos suficientemente o que ocorre no mundo espiritual, para saber como atua a prece, quem toma conhecimento dela, ou por que tipo de canal é outorgada a graça”.

James também afirma que “o ponto religioso fundamental é que na prece e energia espiritual – em outros momentos adormecida – torna-se ativa e realmente se efetua uma obra espiritual de algum gênero”. Ele constatou, em suas extensas pesquisas sobre homens e mulheres que conseguiram despertar seu íntimo espiritual , que “o novo ardor que acende o peito dessas pessoas consome, com seu fulgor,as inibições inferiores que antes as perseguiam e imuniza-as da porção vil de suas naturezas. A magnanimidade, antes impossível, agora parece fácil; os convencionalismos insignificantes e os vis incentivos, antes tirânicos, agora não mais as subjugam”.

Muito antes da fundação de A.A., James já utilizava palavras muito familiares a todos nós, membros da Irmandade: “O despertar espiritual pode advir por um crescimento gradual ou abruptamente (por crisis), mas em qualquer desses casos parece ter chegado ‘para ficar’…”. Citando Starbuck, outro contemporâneo seu, James comenta que o efeito do despertar espiritual consiste em proporcionar “uma mudança de atitudes com relação à vida, que é constante e permanente, ainda que os sentimentos flutuem…”.
Essa singela colocação, “ainda que os sentimentos flutuem”, produziu em mim um efeito balsâmico. É que durante um bom período de minha recuperação pessoal, vivia com medo de que minhas oscilações emocionais constituíssem um grande risco. É certo que preciso continuar muito atento a meus altos e baixos emocionais, mas o fato é que tal reflexão veio confirmar o que eu já vinha percebendo há algum tempo. Ou seja, que, como ser humano, estou sujeito a uma certa gangorra de sentimentos, que nem sempre, contudo, leva a
uma recaída alcoólica.

Um pouco mais de esclarecimento, sobre os meus temores de recaída, chegou-me com essa reflexão: “Enquanto a nova influência emocional não alcançar um tom de eficácia determinante, as mudanças que produz são inconstantes e volúveis e o homem volta a recair em sua atividade original.
Mas quando uma emoção nova consegue uma certa intensidade, atravessa-se um ponto crítico, conseguindo-se uma revolução irreversível equivalente à produção de um novo estado natural”.

E é muito significativo que, 35 anos antes da fundação de A.A., William James, confrontando o “santo” (para o autor, santa é toda pessoa com faculdades espirituais fortes e desenvolvidas) e o “homem forte” (refere-se ao conceito de super-homem, de Nietzche), tenha escrito: “(…) No entanto, é possível conceber uma sociedade imaginária na qual não caiba a agressividade mas sim apenas a simpatia e a justiça – qualquer pequena
comunidade de verdadeiros amigos conduz a essa sociedade. Quando consideramos abstratamente esta sociedade, ela seria, em grande escala, o paraíso, já que cada coisa boa se produziria sem nenhum desgaste. O santo se adaptaria perfeitamente a essa sociedade.
Suas maneiras pacíficas seriam positivas para seus companheiros e não haveria ninguém que se aproveitasse de sua passividade. Portanto, o santo é, abstratamente, um tipo de homem superior ao ‘homem forte’, porque se adapta a essa sociedade mais elevada concebível, sem depender para nada o fato desta sociedade vir a se concretizar ou não jamais”. Impossível não fazer uma analogia com A.A.

Nessa altura de minha programação pessoal, estou amplamente convencido de que a vasta literatura de A.A. é mais do que suficiente para minha recuperação constante – só por hoje. Lendo o livro de William James , pude sentir uma enorme satisfação também pelo fato de estar bebendo das águas de um dos regatos dos quais Bill W. se serviu. E uma grande necessidade de compartilhar minha experiência com os leitores da revista.

Vinte e quatro horas a todos.

Juan, São Paulo/SP

Vivência nº 65 – – maio/junho 2000

OBRIGADA VIVÊNCIA

Obrigada VIVÊNCIA

(Anônima)

Recebemos este depoimento pelo correio. Uma bela surpresa. Pena que a companheira não se identificou para a revista.

É sempre uma alegria chegar em casa num dia qualquer e, quando menos espero, me deparar com você, embrulhada num papel pardo, ao pé da porta, aguardando serenamente minha chegada ou de meu companheiro. Sorrio assim que te vejo, ainda de longe você é inconfundível! Te pego, entro em casa, te coloco sobre uma mesa, vou fazer “primeiro as coisas primeiras” sabendo que, na primeira folga…
VIVÊNCIA é como uma reunião de A.A. dentro de casa .Leio /ouço os depoimentos, as seções de informações, as piadas, os eventos, as notícias de todas as regiões do Brasil e do mundo. De repente, a identificação. No último número, li facetas da história de minha vida na vida de um longínquo alemão, que não conheço e todavia talvez o conheça melhor que muitas pessoas que convivem com ele, do outro lado do mundo. Choro, dou risada. Comungo.
Pertenço. Compartilho a revista com meu companheiro, com quem já compartilhei o copo e agora compartilho abstinência e recuperação.
Sou alcoólica que leva uma vida feliz e serena, amparada por um programa sábio e simples, feito por homens e mulheres como eu, sobreviventes das chicotadas do álcool. Partilho com vocês o privilégio reservado a tão poucos: uma segunda vida acompanhada de uma segunda chance de aprender a viver. Quantos seres humanos receberam esta graça?
Com dezoito ou setenta anos, pouco importa, cada um de nós pôde perceber que, evitando o primeiro gole só por hoje, nos encontramos para trocar experiências, forças e esperanças, e praticando Recuperação, Unidade e Serviço, podemos nos tornar cada vez mais simplesmente nós mesmos, realizar sonhos que na ativa já havíamos abandonado, modificar desejos e amar o dia de hoje seja ele como for.
Às vezes me deixo levar pelos (des) caminhos da doença: raiva, medo, ressentimento, culpa. Graças a um Poder Superior, tal como O concebo (pela generosidade de A.A.), tendo podido sair deles bem antes que me levem ao copo, pois a cada reunião vocês me mostram de novo o mapa da estrada principal, e posso voltar correndo para ela logo que percebo meus desvios.
Outras vezes, me deixo tomar pela doença até mesmo dentro da Irmandade, permitindo que minha intolerância, impaciência, veneno, ansiedade e outros vômitos espirituais azedem meu dia e o dia dos que me cercam, empestando o ambiente ao meu redor. Quando isso acontece, é porque não percebi o mal a tempo. E se já aconteceu, o jeito é reconhecer, aceitar, ver se há reparações a fazer e tocar pra frente.
Se o “preço da liberdade é a eterna vigilância”, em A.A. essa vigilância é leve e chega a ser doce, mesmo quando exige enfrentar dores e adversidades.
Hoje, a única coisa que desejo ardentemente é continuar vigilante, evitando este primeiro gole, e atuante, fazendo o que me for possível, ao longo desse dia, para melhorar a mim mesma e, quem sabe, com isso, até ajudar mais alguém, tal como fui ajudada e continuo sendo.

VIVÊNCIA faz parte dessa minha vida, como a Irmandade e o programa de Recuperação. Obrigada.

VIVÊNCIA N.° 81 JAN/FEV 03.

REVISTA VIVÊNCIA

O QUE É A REVISTA VIVÊNCIA?
A revista “Vivência” é a nossa “reunião impressa” para os membros de A.A do Brasil. Redigida, revisada e lida por membros de A.A. e outras pessoas interessadas no programa de A.A. de recuperação do alcoolismo, “Vivência” é uma corda salva-vidas que une um alcoólico com outro.
“Vivência” comunica a experiência, força e esperança de seus colaboradores e reflete um amplo espectro geográfico da experiência atual de Alcoólicos Anônimos com a recuperação, a unidade e o serviço. Publica também artigos de pessoas não alcoólicas, que colaboram espontaneamente com a Revista.
As páginas da “Vivência” são a visão de como cada membro de A.A., de maneira individual, aplica em sua vida o programa de recuperação, e é um fórum para as mais variadas e divergentes opiniões de A.A. do Brasil.
Os artigos não pretendem ser comunicados oficiais de Alcoólicos Anônimos enquanto irmandade, e a publicação de qualquer artigo não implica que Alcoólicos Anônimos e a revista “Vivência” estejam de acordo com as opiniões expressas.
A Revista é editada bimestralmente e todas as colaborações são bem-vindas.

PORQUE SER UM ASSINANTE DA VIVÊNCIA?
A revista VIVÊNCIA, criada sob a inspiração da GRAPEVINE, tem desempenhado satisfatoriamente a sua função, não apenas na troca de experiências, mas também na divulgação da literatura, de eventos e na transmissão da mensagem de AA para os possíveis alcoólicos, seus familiares, para os profissionais da área de saúde, e para a comunidade em geral. A VIVÊNCIA registra a evolução da nossa Irmandade no Brasil a cada dois meses, através de fatos gerados na JUNAAB e das informações recebidas de todas as Áreas. A cada número ela traz notícias sobre Encontro Estaduais, Regionais, Convenções, Conferências, Seminários e outros eventos que refletem o nível de consciência compartilhada a cerca de nossos princípios. A VIVÊNCIA é um excelente meio de divulgação de alcoólicos Anônimos junto à comunidade em geral, um eficaz instrumento do CTO, constituindo-se também extraordinário canal interno de comunicação permanentemente aberto. Externamente é o nosso cartão de visitas para a sociedade. Além disso traz indispensável contribuição para o fortalecimento da nossa preciosa UNIDADE. Os relatos de experiências por companheiros e companheiras de todo o País são recursos adicionais para o melhor entendimento e prática dos TRÊS LEGADOS.

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b) Destacar o Programa de Recuperação de A. A. através dos depoimentos de companheiros que chegam à redação.
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