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13º CONGRESSO BRASILEIRO DE ALCOOLISMO

13º CONGRESSO BRASILEIRO DE ALCOOLISMO
Rio de Janeiro — 12/15 de agosto de 1999
Conferência de Abertura do Congresso

Nota: O Dr. George Vaillant, psiquiatra e psicanalista, trabalha em Harvard, é mundialmente conhecido por seu livro “The Natural History of Alcoholism”, recentemente revisto e traduzido para o português, e é há décadas respeitado como uma das maiores autoridades mundiais em alcoolismo.

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: CULTO OU PÍLULA MÁGICA?
Dr. George E. Vaillant, M.D.
Conferência ABEAD, 8/12/99

Bom dia. Lamento profundamente não saber falar seu idioma.
Hoje em dia, se preciso justificar minha convicção de que a instituição dos Alcoólicos Anônimos está mais para penicilina do que para vodu, devo respeitar as regras da medicina experimental. Se AA é semelhante a um antibiótico, eu devo demonstrar seu mecanismo de ação, devo oferecer a prova empírica de que funciona melhor do que um placebo e devo discutir seriamente os seus efeitos colaterais.
Deixem-me começar meu argumento de forma organizada. Primeiro, quais são os mecanismos mais comuns através dos quais as pessoas se recuperam de uma dependência? Certamente não através da psicoterapia. Os psicanalistas, com toda a sua compreensão e insights a respeito de necessidades orais, morrem tanto quanto o resto de nós de câncer pulmonar e doenças do coração provocadas pelo cigarro. Em minha pesquisa realizada com homens de Harvard, 46 alcoólatras receberam um total de 5000 horas de psicoterapia, uma média de 200 horas para cada homem. Um único homem recuperou-se durante a psicoterapia.
A desintoxicação tampouco é eficaz. Como disse Mark Twain, “eu achei deixar de fumar tão fácil que deixei vinte vezes”. Estudos a longo prazo demonstram que a espera pelo tratamento (placebo) é quase tão eficaz quanto a desintoxicação.
Meio século de treinamento em aversão induzida através de emetina também não mudou a história natural do alcoolismo.
E a recuperação do abuso do álcool também não depende de força de vontade. Em quase nenhum estudo relacionado à recuperação do alcoolismo a força de vontade, constatada no momento da admissão, foi um prognóstico de recuperação.
O poder que a dependência química exerce sobre os seres humanos não reside em nosso córtex. O poder da dependência em nossas mentes mora no que foi chamado de nosso cérebro de réptil. O poder localiza-se no campo das transformações celulares em células do meio do cérebro – o nucleus accumbens e o tegmentum superior. Estas transformações estão além do alcance da força de vontade, além do alcance do condicionamento e além do alcance do insight psicanalítico.
A natureza do poder que a dependência exerce sobre o cérebro humano são expressados pelo provérbio japonês, “Primeiro o homem toma uma bebida, então a bebida toma uma bebida, então a bebida toma o homem”. Não há atualmente nenhuma droga — exceto os opiáceos — que, em estudos a longo prazo, obtenham êxito no tratamento do alcoolismo. Porque, depois de algum tempo, nosso cérebro de réptil simplesmente nos convence a não tomar um remédio que estraga a nossa bebida. O mostra que o dissulfiram não é melhor do que um placebo. Não existem estudos a longo prazo sobre as novas pílulas mágicas como naltrexona e acamprosato. Desconfio que por bons motivos.
Por outro lado, há quatro fatores [3 grupos de slides] habitualmente presentes na recuperação da maioria das dependências, incluindo o fumo, o comer compulsivo e o jogo. Estes quatro fatores são supervisão compulsória, dependência de um comportamento substitutivo, novas relações de amor, e um aumento da espiritualidade ou da filiação a grupos de ajuda. A razão pela qual estes quatro fatores são mais eficazes do que a desintoxicação ou alguns meses de aconselhamento é que os quatro fatores são importantes, não para a desintoxicação, mas para EVITAR RECAÍDAS. Médicos e hospitais não curam os diabéticos, só a restrição dietética auto-imposta e a auto-aplicação de insulina podem controlar o diabetes. O ilustra que os quatro fatores esboçados são importantes para a prevenção da recaída numa amostra de comunidade composta de alcoólatras, dependentes de heroína e alcoólatras tratados. Observem que os números em cada coluna somam mais que 100%. A recuperação do alcoolismo não é espontânea.
Primeiro, a supervisão compulsória é necessária porque a força de vontade não funciona. Jacarés não atendem quando são chamados. Uma consciência externa é melhor alcançada se — sempre que aparece o impulso de usar — o dependente passar por uma experiência aversiva consistente e imediata (por exemplo, testes com drogas aleatórias) ou se lembrar de conseqüências médicas desagradáveis associada à bebida (por exemplo, uma úlcera dolorosa).
Segundo, é importante achar um comportamento que vá competir com a dependência. Tal comportamento competitivo — por exemplo fumar muito, dançar samba compulsivamente — substitui o vazio comportamental produzido por não consumir heroína ou álcool e preenche o vazio produzido pela ingestão de um medicamento como Antabuse, que efetivamente evidencia uma supervisão compulsória. O que não se pode fazer é simplesmente deixar o cérebro de réptil com sede.
Terceiro, novas relações de amor são importantes para a recuperação. Pareceu ser importante para ex-dependentes unir-se a pessoas a quem eles não tinham magoado no passado e a quem não são profundamente devedores.
Quarto, parece importante a filiação a grupos de ajuda altruísticos, por exemplo uma religião fundamentalista ou, quando em recuperação, tornar-se um conselheiro em alcoolismo. Razões hipotéticas para isto incluem que tal envolvimento espiritual produziu uma diminuição da culpa alcoólica, um aumento em esperança e moral, e talvez um substituto não farmacológico para o prazer “oceânico” produzido pela dependência . Em meu estudo, a importância da espiritualidade era relativamente baixa entre os dependentes de heroína, porque o estudo foi realizado antes que Narcóticos Anônimos se firmasse. Entre os alcoólatras tratados a porcentagem envolvida num programa espiritual era incomumente alta, porque durante oito anos estes 100 alcoólatras tiveram acesso a aconselhamento gratuito e a grupos de pacientes ambulatórias. O enfoque desta terapia era encaminhar os alcoólatras a AA. Mais tarde, eu tentarei mostrar porque AA consegue alcançar o cérebro de réptil e o bom senso não consegue.
Casualmente, AA combina estes quatro ingredientes clínicos para a prevenção da recaída, pois AA, assim como os impostos e auto-aplicação de insulina e ao contrário da desintoxicação e do tratamento clínico, pode durar para sempre. Primeiro, uma exigência básica de AA é que um membro tem que voltar e voltar às reuniões. Eles precisam escolher um padrinho para telefonar e ver com freqüência. E eles têm que “trabalhar os passos”. Cada uma destas atividades fornece uma consciência externa e uma lembrança diária de que o álcool é inimigo — e não amigo. AA também compreende que a supervisão compulsória funciona melhor se é escolhida. Nós sofremos com prazer debaixo das regras rígidas do nosso professor de dança, mas sonegamos impostos com os quais não concordamos. A disciplina de AA é sempre voluntária. Como Bill W., o fundador de AA, dizia: “Grande sofrimento e grande amor são os nossos únicos disciplinadores”.
Behavioristas cognitivos como William Miller e Allan Marlatt deram grandes passos na direção de nossa compreensão de uma prevenção eficaz da recaída. Seus princípios de prevenção da recaída, como aqueles que esbocei, usam diferentes expressões: “Evite o primeiro gole.”; “Substitua os velhos amigos com quem bebia por novos amigos sóbrios.”; “Regozije-se com o gerenciamento de sua vida.”; “Lembre-se de sua última bebedeira.” Cartazes de AA, como os mantras dos behavioristas, afirmam “Um dia de cada vez”, e “Vá com calma”.
Segundo, AA entende o que todos os psicólogos behavioristas sabem e o que muitos médicos e pais esquecem: maus hábitos precisam de substitutos. Apenas castigar não muda hábitos profundamente enraizados. Assim, AA oferece uma agradável agenda de atividades sociais e de serviço na presença de antigos bebedores encorajadores, sobretudo em épocas de alto risco, como dias de festas. AA oferece uma atenção positiva incondicional, fichas de aniversário de sobriedade, café e abraços ilimitados. Em resumo, AA oferece uma fonte substituta de gratificação da qual o indivíduo pode se tornar dependente.
Terceiro, companheirismo e amor são tão importantes para a recuperação quanto espiritualidade. AA chama tal companheirismo “a linguagem do coração”. Jung também sugeriu que seu édito “Spiritus contra spiritum” não era mais eficaz para a cura da dependência do que um segundo ingrediente – a “parede protetora da comunidade humana”. Atualmente, não podemos ter certeza de que a importância do Segundo Passo de AA —”Viemos acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia nos devolver à sanidade” — é porque ele abre o cérebro de réptil do alcoólatra para a espiritualidade ou o coração do alcoólatra para uma comunidade que perdoa. Eu acreditaria que o poder curativo do Poder Superior do indivíduo e o do seu grupo de AA casa da pessoa se superpõem. Ambos os fatores, três e quatro, parecem igualmente importantes.
As reuniões de AA estão cheias de antigos companheiros de bebida agora sóbrios com os quais se pode fazer amizade, mas a quem não se deve dinheiro. Estes são amigos de farra a quem você não nocauteou na semana passada. Do mesmo modo, um padrinho de AA, tal como um novo cônjuge, pode evitar uma recaída melhor do que um familiar com uma longa história de sofrimento, a quem você torturou durante anos. Não importa o quanto bem intencionado esteja, o cônjuge do alcoólatra inevitavelmente reacende velhas culpas e velhos ressentimentos — condicionamentos detonadores da recaída no uso do álcool.
Amor, sexo e apego, bem como a experiência religiosa, são mediados pelo lobo temporal, através do lobo olfativo. Com certeza, no escuro todos os gatos são pardos, mas é mais divertido se a gatinha sexual usar perfume. O lobo temporal, ao contrário da forca de vontade, pode afetar nosso cérebro de réptil.
Quarto. Em 1961, Carl Jung escreveu a Bill W., “A ânsia pelo álcool era o equivalente, em nível mais baixo, à sede espiritual de nosso ser pela inteireza, expressada no idioma medieval. A união com Deus”. Esta associação se repete no valioso livro de Jerome Frank, Persuasão e Cura. O modelo descrito por Frank para uma psicoterapia eficaz (e cura espiritual) assemelha-se bastante a AA. Tal modelo envolve o compartilhamento do sofrimento com um curandeiro sancionado que está disposto a falar sobre o problema do paciente de uma forma simbólica. O curandeiro sancionado deveria ter status (vários anos de abstinência), estar equipado com um inequívoco modelo conceitual do problema (o Livro Azul), e deveria criar no paciente uma expectativa de cura (reuniões de AA são os únicos lugares no mundo povoados em grande parte por alcoólatras com sobriedade estável). Finalmente, Frank nos lembra que, em Lourdes, os peregrinos rezaram um pelo outro, não por si mesmos (Décimo Segundo Passo).
Na dependência, a espiritualidade é particularmente importante porque é uma maneira de alcançar o cérebro de réptil humano. Se os jacarés estão no controle, como podemos fazer com que eles se comportem? Certamente, como muitos médicos rurais descobriram nos anos 30, sempre se pode curar alcoolismo com morfina. E no século XIX, quando fumar ópio era um luxo dos ricos, Karl Marx afirmou, “a religião é o ópio do povo”. Os opiáceos produzem a mesma sensação de paz oceânica que o encontro profundamente espiritual no êxtase religioso. A famosa declaração de Karl Marx pode mascarar um princípio terapêutico extremamente importante. A religião pode realmente fornecer um alívio que o uso da droga apenas promete. Deixem-me explicar o que eu acredito que aconteça.
Primeiro, os alcoólatras e as vítimas de outras dependências aparentemente incuráveis sentem-se derrotados, maus e impotentes. Eles invariavelmente sofrem de baixa auto-estima. Se eles quiserem se recuperar, devem ser descobertas novas e poderosas fontes de auto-estima e esperança. A espiritualidade oferece um novo alento, tanto para a esperança quanto para um maior cuidado consigo mesmo. Os alcoólatras, ao contrário da maioria dos pecadores, não são apenas desagradáveis. Freqüentemente, os alcoólatras infligiram enorme dor e prejuízo aos outros. Assim, quando sóbrio, o alcoólatra pode sentir uma culpa quase insuperável. Embora seja um tranqüilizante pobre e um antidepressivo desprezível, o álcool é talvez o solvente mais poderoso que a farmacologia moderna possui para uma consciência culpada. Em casos deste tipo, a absolvição vinda de um “poder superior a nós mesmos” se torna uma parte importante do processo curativo.
O que é a relação científica entre a religião e os receptores de opiáceo do cérebro de réptil? No calor da batalha, há dois fenômenos relacionados. Primeiro, não há ateus em trincheiras; e segundo, os gravemente feridos freqüentemente não sentem dor. Em crises graves, as epifanias espirituais e o lançamento espontâneo de endorfinas do cérebro entram de mãos dadas para propiciar o alívio da dor. Resumindo, Deus entra pela ferida. Certamente, “chegar ao fundo” é um modo de sentir-se numa trincheira em vida civil.
Mas como nós liberamos as endorfinas reptílicas próprias do cérebro na vida cotidiana? Um cientista pode produzir prazer no cérebro do jacaré inserindo dopamina ou morfina no hipotálamo. Ou, nós podemos afetar o cérebro olfativo, o lobo temporal mamífero que a evolução criou para reger o cérebro de réptil. O lobo temporal é a sede do olfato, e da emoção e — segundo estudos de epilepsia — do ideal religioso.
Em outras palavras, já que é improvável que nossos antepassados mamíferos se tenham drogado, na evolução o circuito límbico da dependência foi originalmente transmitido para facilitar o instinto gregário dos mamíferos.

PROVAS DE QUE AA FUNCIONA

Quando perguntaram ao Dr. Jack Norris, um antigo amigo e custódio não alcoólico de Alcoólicos Anônimos, como AA funciona, sua resposta foi “funciona muito bem, obrigado”. Entretanto, é difícil conseguir-se uma informação empírica sobre a eficácia de Alcoólicos Anônimos. Uma razão é que, no processo de seu longo e crônico distúrbio, os alcoólatras encontram muitos tipos diferentes de intervenções, muitas vezes simultâneas. Ao contrário do que acontece com a maioria dos antibióticos, não há como se poder fazer um estudo controlado. Segundo, ao contrário de programas clínicos, AA está mais interessado nos efeitos do programa sobre a recuperação daquele que pratica os Doze Passos, do que propriamente naquele que foi alvo do trabalho de Décimo-Segundo Passo. Terceiro, a razão para a ausência de dados é que, devido a diferenças ideológicas e rivalidade, é difícil que os clínicos avaliem AA sem idéias preconcebidas.
Mais que uma década atrás, Emrick reuniu 56 pesquisas sobre AA, 15 das quais consideraram AA superior a tratamentos alternativos. Entretanto, nenhum desses 15 relatórios de pesquisa deixava de apresentar falhas graves.
Fiquei impressionado com vários estudos recentes, que oferecem provas experimentais para a eficácia de AA. O primeiro estudo ofereceu provas de que o aumento do número de membros de AA pode ser responsável pelo decréscimo da morbidade por cirrose. Os investigadores observaram que não havia qualquer relação entre o aumento da utilização de tratamento profissional e a queda da taxa de cirrose. O aumento do número de membros de AA, entretanto, estava significativamente associado à diminuição de cirrose.
Um segundo estudo controlado veio de William Miller: um acompanhamento, de quatro a oito anos, de clientes treinados para voltar a beber socialmente. O propósito dos grupos de tratamento de Miller era a volta ao beber socialmente, não a abstinência, e certamente não envolver seus pacientes com AA. Ainda assim, a maioria dos bons resultados a longo prazo de Miller foi com os abstêmios, não com bebedores sociais. Um exame de seus dados revelou que 53% dos 13 clientes que fizeram mais de 100 visitas a AA eram eventualmente abstêmios, em contraste com apenas 20% dos 81 clientes que assistiram a menos de 100 reuniões, uma diferença estatisticamente importante.
Terceiro, eu realizei estudos de 30 anos de acompanhamento de alcoólatras em duas amostras de comunidades. Em ambas as comunidades, 40% dos alcoólatras eventualmente abstinentes eram significativamente envolvidos em AA (Vaillant, 1995). Quarto, num estudo de 30 anos de 100 alcoólatras tratados, a freqüência de AA levou à abstinência estável aqueles mesmos pacientes que, com base em suas características na admissão, teriam recebido um prognóstico de não-recuperação. Ao fim de 8 a 12 anos de acompanhamento, 57% dos que foram a AA 100 vezes ou mais chegaram a uma abstinência estável, em contraste com 11% dos homens e mulheres que não o fizeram.
Além disto, há provas indiretas que apoiam a eficácia de AA. A organização continua a crescer em todo o mundo. Há duas vezes mais membros vivendo fora dos Estados Unidos do que no país. Há três vezes mais grupos de AA per capita na Costa Rica e em El Salvador do que nos Estados Unidos. Durante os últimos 15 anos AA cresceu exponencialmente na antiga União Soviética e na Europa Oriental.
Durante os últimos 20 anos, tem havido provas crescentes de que AA é aplicável a populações muito diversas. A literatura não tem identificado nítidas diferenças de personalidade entre alcoólatras que fazem ou não uso de AA. Nem raça ou educação, nem gênero ou classe social, nem extroversão ou saúde mental distinguem os alcoólatras que freqüentam AA dos que não o fazem. A única variável consistente que distingue os membros alcoólicos de AA dos alcoólatras não AA é que os membros de AA tendem a ter maior gravidade de sintomatologia alcoólica.

EFEITOS COLATERAIS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

Desde seu início, AA produziu seus detratores. A retórica e a linguagem carregada de emoção idioma de AA destinam-se a atingir o cérebro de réptil através do sistema límbico. Isto assustou jornalistas e cientistas sociais que compreensivelmente temem os demagogias e cultos. Qualquer conjunto rígido de convicções que são rigorosa e apaixonadamente seguidas, mas não cientificamente provadas, sejam elas a vitamina C, o cristianismo fundamentalista, ou a corrida diária, tende a irritar a comunidade científica.
Em 1998, o mesmo medo latente foi posto na capa do US World News Report: “O que AA não vai lhe dizer” . O assunto da matéria de capa era o único dogma de AA: que não é seguro para os alcoólatras voltar a beber controladamente. A literatura de acompanhamento a longo prazo concorda unanimemente que a posição de AA é muito mais prudente, mas isso não impede que a comunidade médica odeie os puritanos.
Mas também é a dependência de Alcoólicos Anônimos de “Deus” e de “espiritualidade” o que faz com que muitos observadores cuidadosos considerem que AA será perigoso. Como pode a fé em Deus curar os doentes?
A bem da verdade, AA nada tem a ver com religião. O prefácio do Livro Azul afirma: “Alcoólicos Anônimos não é uma organização religiosa” (Prefácio, Segunda Edição, página XX, 1955). As bases espirituais de AA desenvolveram-se a partir da experiência intelectual de três homens, William James com sua “Variedades da Experiência Religiosa”, Carl Jung com sua advertência “Spiritus contra spiritum” e o co-fundador de AA, Dr. Bob, com seu permanente interesse por religião comparativa. Profundamente desconfiado de todas as religiões organizadas, cada um destes homens era um dedicado estudioso do conceito de cura presente em todas as religiões. Em falta de um termo melhor, deixem-me chamar esta propriedade comum de “espiritualidade”. As religiões, como as nações, opõem-se a que você tenha dupla cidadania. AA, como as Nações Unidas, espera que cada membro pertença também a outra organização.
A desconfiança em relação à religião é compartilhada por muitos – sobretudo profissionais de Ciências Sociais – que acreditam, como Sigmund Freud (Futuro de uma Ilusão, edição standard, volume 21), “Nós podemos agora argumentar que chegou provavelmente a hora de substituir os efeitos da repressão (e da religião) pelos resultados da operação racional do intelecto”. Num clima de hipocrisia vitoriana e autoritarismo moral mal consolidado, a ênfase nos aspectos neuróticos da religião foi indubitavelmente valiosa. Mas um século depois, quando o pêndulo oscilou na direção oposta para niilismo moral mal consolidado, podemos perfeitamente nos tornar mais tolerantes para com a espiritualidade.
Desde o início, AA não fez nenhuma distinção clara entre Deus e “a irmandade de AA”. Houve uma permissão tácita, se não explícita, para substituir o conceito de Deus pelo que o Jung chamou “a parede protetora da comunidade humana” – por definição, um poder superior a nós mesmos.
Realmente, o princípio de substituir drogas por pessoas pode muito bem ser grande parte do poder curativo de AA. Minha suspeita é que, nos mamíferos, o sentimento oceânico induzido pela reunião com companheiros de vida muito queridos tem um grande valor de sobrevivência. Eu acredito que o circuito neural para esta alegria oceânica tenha criado o circuito que é içado pela dependência – o circuito recompensador da dopamina.
O medo que Freud e outros cientistas sociais racionais têm de uma supostamente perigosa dependência dos AA de Deus e da espiritualidade pode ser desmistificado por um dispositivo simplista, mas heuristicamente útil. Deixem-nos dividir nosso conceito de religião em facetas úteis e em facetas perigosas, comparáveis aos efeitos colaterais de qualquer droga poderosa. Todos os tratamentos médicos têm efeitos colaterais. O Prozac pode levar à impotência, e a penicilina à anafilase. A religião leva muitas vezes a cultos e à intolerância. Minha tese é que, quando examinado deste modo, AA é notavelmente isento de efeitos colaterais.

AA É UM CULTO?

Muitas pessoas são tolerantes em relação à espiritualidade mas se preocupam com AA porque receiam que seja um culto. Eu gostaria de discutir seis características que distinguem AA de um culto. Uma preocupação com os cultos é que eles exercem controle sobre a mente e removem a liberdade de ação. Eu também me permito desconfiar de puritanismo, dietas da moda e maratonas. Sou, como qualquer outro, apaixonadamente contra uma preocupação obsessiva com correr, ou com se sentar sóbrio em duras cadeiras de igreja inalando passivamente a fumaça de cigarros alheios. Mas, se tais comportamentos me impedissem de morrer de doenças cardíacas ou de alcoolismo, eu poderia mudar de idéia.
Quando foi apresentada pela primeira vez, a cirurgia da ponte de safena não prolongou vidas, mas os regimes de exercício impostos, com o seu consentimento, aos pacientes safenados, prolongaram. Seguir os passos rigidamente seqüenciais de AA é como seguir os passos rigidamente numerados de um regime de exercícios. O propósito da rigidez não é, como no caso dos cultos, retirar sua autonomia, mas apenas que você não recaia no uso do álcool.
Uma segunda diferença entre um culto e AA é sua estrutura governamental. AA insiste que seus líderes não governam; eles servem. Um princípio fundamental em AA é que “é perigoso impor qualquer coisa a qualquer pessoa”. O organograma de AA é uma pirâmide invertida. Seus processos legislativos são excessivamente democráticos. “Nossos líderes são servidores de confiança; eles não governam”. Posições de responsabilidade em AA são definidas como “serviço sem autoridade” e são muito diferentes das mesmas em um culto. Os cultos caracterizam-se por líderes carismáticos com poderes infalíveis. Visões minoritárias são severamente castigadas.
Na verdade, um das preocupações ocultas que a profissão médica pode ter em relação a AA é sua insistência numa verdadeira democracia e seu fracasso em dar ao profissional médico altamente preparado uma autoridade especial. Os médicos consideram uma impertinência que AA às vezes desconfie dos doutores como os doutores desconfiam de AA. Em AA, como no treinamento atlético, o que se valoriza não é o aprendizado em livros, mas sim uma vivência bem sucedida. Os “vencedores” – os que estão sóbrios há mais tempo – são mais valorizados do que professores de Harvard, como eu, com teorias de como permanecer sóbrio. Eu mostro a meus próprios pacientes alcoólicos, aos quais cobro $125 por hora, que AA pode fazer o mesmo trabalho por um dólar por reunião. Perco muitos pacientes deste modo.
Uma terceira crítica aos cultos é que eles encorajam a dependência. Assim, AA tem sido criticado por seus membros ficarem tão necessitados das reuniões das 8 horas da noite quanto precisavam antes do próprio álcool. Esta carga de criação de dependência merece uma cuidadosa consideração. Os cultos certamente tiram proveito do fato de que as pessoas experimentam um alívio da angústia emocional quando se sentem íntimos do que Mark Galanther chama um “casulo social “.
Mas a cura pela filiação não pode ser limitada a cultos. Famílias, fraternidades, times esportivos exercem o mesmo poder e a mesma coesão de visão mundial. Contar honestamente a sua história a confidentes de confiança, em especial histórias de acontecimentos carregados de culpa, é uma parte essencial de diversos processos de iniciação. A oportunidade a ser “visto” e “ouvido”, por um grupo amoroso é uma das mais curativas experiências humanas e reduz a alienação social.
Quarto, os cultos acreditam que são a única saída. Por definição, cultos envolvem intolerância. Mas ao contrário das organizações evangélicas, AA só procura alguém se este alguém pedir. Em contraste com o evangelismo, AA se considera um programa de atração, não de promoção. É pegar ou largar. Há mais pragmatismo do que ideologia em AA. O formato para uma consulta de AA para um grupo em dificuldades não é uma lavagem cerebral ou uma ameaça de excomunhão, e sim: 1) Se não me engano, já vi um problema igual ao seu; 2) O que foi feito foi isto; 3) O resultado foi este; e 4) Você não precisa seguir meu conselho.
Quinto, as Doze Tradições de AA refletem o esforço de vinte anos de Bill Wilson para impedir que AA se tornasse um culto. Estes princípios incluem (a) o anonimato – um antídoto para o narcisismo (Wilson recusou um título honoris causa de Yale e a capa da revista Time para não quebrar seu anonimato); (b) a pobreza enquanto corporação – a incapacidade dos partidos políticos americanos de observar este princípio ameaça toda a democracia americana, (c) o único propósito de AA é a prevenção da recaída alcoólica – nenhuma política, nenhuma controvérsia, nenhum envolvimento em outras doenças mentais.
Sexto, e talvez o mais importante ingrediente que distingue AA de qualquer culto que conheço – inclusive o meu próprio e querido Instituto Psicanalítico Freudiano – é que AA tem senso de humor e os cultos não têm. Havia risos em todas as reuniões de AA que eu já assisti. Cultos normalmente não observam a famosa “Regra número Sessenta e Dois de AA: Não se leve tão a sério”.
Em resumo, a razão pela qual AA funciona é provavelmente porque seus membros têm uma doença tão grave que mata 100.000 americanos por ano e AA permite que o sobrevivente desesperado se reuna a uma irmandade de confiança mútua. Um padrinho de AA, como um sargento da Marinha ou um fisioterapeuta, pode ser dogmático, mas nenhum está tentando salvar almas – só vidas. Baseado nisto foi que, em 1951, Alcoólicos Anônimos receberam o Prêmio Lasker (indiscutivelmente o mais importante prêmio de Medicina da América). O prêmio considerou AA “Um grande empreendimento no pioneirismo social que forjou um novo instrumento para a ação social, uma nova terapia baseada na afinidade do sofrimento comum, algo com grande potencial para as incontáveis outras enfermidades da espécie humana.” (p.112). Uma afinidade de sofrimento comum pode não ser tão específica quanto um antibiótico, mas essa afinidade é muito mais curativa e muito menos perigosa que um culto.

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PASSO 100%

RENDIÇÃO – ADMISSÃO – ACEITAÇÃO
O Primeiro Passo nos fala de rendição. A palavra “render” me leva a outra: “derrota” e derrota para mim era algo inconcebível. Meu orgulho me impedia de enxergar qualquer tipo de derrota, mas os companheiros de A. A. conseguiram abrir uma brecha em meu orgulho, o suficiente para eu me sentir derrotado pelo álcool.
Eu me rendi, admiti e aceitei que eu era um alcoólico. Tinha algo errado em minha maneira de beber. Percebi logo cedo em A. A. que eu tinha que viver no mundo real, que a vida no mundo imaginário do alcoolismo estava me destruindo e não me levaria a lugar nenhum.
A admissão da impotência é o primeiro passo para a libertação desta obsessão mental poderosa que nos leva sempre a buscar o álcool como refúgio. Aliada a esta obsessão ou depois de satisfeita esta obsessão através da ingestão de algum gole de bebida surgia outra força tão poderosa quanto à obsessão que era a compulsão. Esta compulsão me obrigava a continuar bebendo cada vez mais. Que loucura!
Como entender que uma pessoa inteligente, segura de si, já experiente, ciente do buraco para o qual estava encaminhando não conseguia controlar a sua maneira de beber? Pois é, eu não tinha resposta para esta pergunta, mas o A. A. logo em seu Primeiro Passo para a recuperação me mostrou a dura realidade: o alcoolismo é um doença incurável, progressiva e de fins quase sempre fatais. Que triste notícia, mas junto com esta triste notícia veio outra e esta outra era confortadora e me mostrava o caminho a ser seguido: – só existe uma forma de deter este anseio louco pela bebida alcoólica: Este caminho é evitar o primeiro gole, pois é ele que põe em movimento toda esta loucura mental, esta obsessão aliada a compulsão que leva o alcoólico cada vez mais para o fundo, cada vez mais para a escuridão do fundo de poço. E é esta fabulosa sugestão que eu venho seguindo com sucesso: evitando o primeiro gole e me apoiando nos companheiros através das reuniões venho conseguindo, um dia de cada vez, conter esta destruição chamada alcoolismo. Quero destacar dois pontos muito importantes que constam em nossa literatura:
1) Nos primeiros tempos de A. A. era pensamento que somente os alcoólicos mais desesperados conseguiriam digerir esta notícias amargas, mas com o passar dos anos puderam perceber que mesmo aqueles que apenas eram bebedores potenciais poderiam ser atingidos pela experiência salvadora de A. A. e conseguiram evitar muitos anos de puro inferno em suas vidas. Cada vez mais, alcoólicos mais jovens e com um fundo de poço menos doloroso vêm alcançando A. A.
2) Existe uma pergunta de fundamental importância em nosso Primeiro Passo: Por que insistir que todo A. A. precisa chegar ao fundo de poço? E a resposta vem logo a seguir: porque para praticar os restantes onze passos de A. A. requer a adoção de atitudes e ações que quase nenhum alcoólico sonharia adotar. Quem se dispõe a ser rigorosamente honesto e tolerante? Honestidade, tolerância, compreensão, humildade, coragem e tantas outras virtudes até então desconhecidas para o alcoólico passam a ter importância fundamental na prática do restante do programa. Mas não precisamos nos desesperar, pois estas virtudes virão aparecendo pouco a pouco, um dia de cada vez, necessitamos para que isso ocorra somente ter a mente aberta e boa vontade.
(Fonte: Revista Vivência Nº 111-Jan-Fev/2008 – Onofre/Cachoeira do Campo/MG)

RENDIÇÃO
“Na Opinião do Bill”
NAS MÃOS DE DEUS
Quando olhamos para o passado, reconhecemos que as coisas que nos chegaram quando nos entregamos nas mãos de Deus foram melhores do que qualquer coisa que pudéssemos ter planejado.
Minha depressão aumentou de forma insuportável até que finalmente me pareceu estar no fundo do poço, pois naquele momento o último vestígio de minha orgulhosa obstinação foi esmagado. Imediatamente me encontrei exclamando: “Se existe um Deus, que Ele se manifeste! Estou pronto para fazer qualquer coisa, qualquer coisa!”
De repente, o quarto se encheu de uma forte luz. Pareceu-me com os olhos de minha mente, que eu estava numa montanha e que soprava um vento, não de ar, mas de espírito. E então tive a sensação de que era um homem livre. Lentamente o êxtase passou. Eu estava deitado na cama, mas agora por instantes me encontrava em outro mundo, um mundo novo de conscientização. Ao meu redor e dentro de mim, havia uma maravilhosa sensação de presença e pensei comigo mesmo: “Então, esse é o Deus dos pregadores!”

AUTO CONFIANÇA E FORÇA DE VONTADE
Quando pela primeira vez fomos desafiados a admitir a derrota, a maioria de nós se revoltou. Havíamos nos aproximado de A. A. esperando aprender a ter auto confiança. Então nos disseram que, no tocante ao álcool, de nada nos serviria a auto confiança: aliás, ela era um empecilho total. Não era possível ao alcoólico vencer a compulsão pela mera força de vontade.
É quando tentamos fazer com que nossa vontade se harmonize com a vontade de Deus, que começamos a usá-la corretamente. Para todos nós, esta foi uma das mais maravilhosas revelações. Todo o nosso problema tinha sido o mau uso da força de vontade. Tínhamos tentado atacar nossos problemas com ela ao invés de tentar fazer com que ela se alinhasse com os planos de Deus para conosco. O propósito dos Doze Passos de A. A. é tornar isto cada vez mais possível.

A FORÇA NASCENDO DA FRAQUEZA
Se estamos dispostos a parar de beber, não podemos abrigar, de forma nenhuma, a esperança de que um dia seremos imunes ao álcool.
Tal é o paradoxo da recuperação em A. A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa, a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova.

SOMENTE COM O PODER DA INTELIGÊNCIA?
Para o homem ou mulher intelectualmente auto suficiente, muitos Aas podem dizer: “Sim, éramos como você – inteligentes demais para nosso próprio bem. Adorávamos ouvir as pessoas nos chamarem de precoces. Usávamos nossa instrução para nos vangloriar, embora tivéssemos o cuidado de esconder isso dos outros. Secretamente, achávamos que poderíamos flutuar acima dos outros, somente com o poder da inteligência.
“O progresso científico nos dizia que não havia nada que o homem não pudesse fazer. O conhecimento era todo poderoso. O intelecto era capaz de conquistar a natureza. Uma vez que éramos mais brilhantes do que a maioria (assim pensávamos), os benefícios da vitória seriam nossos, automaticamente. O deus do intelecto substituía o Deus de nossos pais.
“Mas novamente o álcool tinha outras idéias. Nós, que tão brilhantemente tínhamos vencido, de repente nos convertemos nos maiores derrotados de todos os tempos. Percebemos que tínhamos que mudar ou morrer.”

A PEDRA FUNDAMENTAL DO ARCO DO TRÍUNFO
Tendo experimentado a destruição alcoólica, abrimos nossas mentes em relação às coisas espirituais. A esse respeito, o álcool foi um grande persuasor. Ele finalmente nos derrotou obrigando-nos a raciocinar.
Tivemos que deixar de fazer o papel de Deus. Isso não funcionou. Decidimos que dali por diante, nesse drama da vida, Deus ia ser nosso Diretor. Ele seria o Chefe: nós, os Seus agentes.
As boas idéias, na sua maioria, são simples, e esse conceito constitui a pedra fundamental do novo arco do triunfo, através do qual passamos à liberdade.

PRELÚDIO AO PROGRAMA
Poucas pessoas tentarão praticar sinceramente o programa de A. A., a não ser que tenham “chegado ao fundo do poço”, pois praticar os Passos de A. A. requer a adoção de atitudes e ações que quase nenhum alcoólico que ainda bebe pode sonhar em adotar. O alcoólico típico, egoísta ao extremo, não se interessa por essa perspectiva, a não ser que tenha que fazer essas coisas para não morrer.
Sabemos que o recém-chegado tem que “chegar ao fundo do poço”, do contrário pouca coisa pode acontecer. Por sermos alcoólicos que o compreendem. Podemos usar a fundo o poderoso argumento da obsessão mais alegria, como uma força que pode destruir seu ego. Só assim ele pode se convencer de que unicamente com seus recursos tem pouca ou nenhuma chance.

NÓS NÃO ESTAMOS LUTANDO
Paramos de lutar com tudo e com todos – mesmo com o álcool, pois a essa altura a sanidade voltou. Agora podemos reagir sadia e normalmente, e constatamos que isso aconteceu quase automaticamente. Vemos que essa nova atitude face ao álcool é realmente uma dádiva de Deus.
Aí esta o milagre. Não estamos lutando com ele, nem estamos evitando a tentação. Tampouco temos que prestar juramento. Em vez disso, o problema foi removido. Ele não existe para nós. Não somos nem atrevidos nem medrosos.
É assim que reagimos – enquanto nos mantivermos em boas condições espirituais.

VITÓRIA NA DERROTA
Convencido de que nunca conseguiria fazer parte e jurando nunca me conformar com o segundo lugar, eu sentia que simplesmente tinha que vencer em tudo que quisesse fazer, fosse trabalho ou divertimento. Como essa atraente fórmula de bem viver começou a dar resultado, de acordo com a idéia que eu então fazia do que fosse sucesso, fiquei delirantemente feliz.
Mas quando acontecia de um empreendimento falhar, eu me enchia de ressentimento e depressão que só podiam ser curados com o próximo triunfo. Portanto, muito cedo comecei a avaliar tudo em termos de vitória ou derrota – “tudo ou nada”. A única satisfação que eu conhecia era vencer.
Somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e à força. Nossa admissão de impotência pessoal finalmente vem a ser o leito de rocha firme sobre o qual podem ser construídas vidas felizes e significativas.

ACEITANDO AS DÁDIVAS DE DEUS
“Embora muitos teólogos afirmem que as experiências espirituais súbitas representem alguma distinção especial ou algum tipo de preferência divina, eu questiono esse ponto de vista. Todo ser humano, qualquer que sejam seus atributos para o bem ou para o mal, é uma parte da economia espiritual divina. Portanto, cada um de nós têm seu lugar, e não posso aceitar que Deus pretenda elevar alguns mais do que outros.
Dessa forma, é preciso que todos nós aceitemos qualquer dádiva positiva que recebamos com profunda humildade, tendo sempre em mente que primeiro foram necessárias nossas atitudes negativas, como um meio de nos reduzir a um estado tal que nos deixasse prontos para receber uma dádiva positiva através da experiência da conversão. Nosso próprio alcoolismo e a imensa deflação, que finalmente daí resultou, constituem na verdade a base sobre a qual repousa nossa experiência espiritual.”

FORÇAS CONSTRUTIVAS
Minha opinião era tão arraigada, como a frequentemente vemos hoje em dia nas pessoas que se dizem atéias ou agnósticas, sua vontade de descrer é tão forte, que parecem preferir a morte a uma busca sincera de Deus, feita com a mente aberta. Felizmente para mim e para muitos como eu que buscaram A. A., as forças construtivas, produzidas em nossa Irmandade, quase sempre venceram essa colossal teimosia. Abatidos e completamente derrotados pelo álcool, frente a frente com a prova viva da libertação e rodeados por pessoas que podiam nos falar do fundo do coração, finalmente nos rendemos.
E então, paradoxalmente, nos encontramos numa nova dimensão, o verdadeiro mundo do espírito e da fé. Boa vontade suficiente, mente aberta suficiente – e pronto!

NUNCA O MESMO OUTRA VEZ
Descobrimos que quando um alcoólico plantava na mente de outro a idéia da verdadeira natureza de sua doença, este jamais voltaria a ser o mesmo. Após cada bebedeira, ele diria a si mesmo: “Talvez esses Aas tenham razão”. Depois de algumas experiências assim, e muitas vezes antes do começar a ter grandes dificuldades, ele voltaria a nós, convencido.
Nos primeiros anos, aqueles dentre nós que ficaram sóbrios em A. A., eram na verdade casos horríveis e completamente sem esperança. Mas depois começamos a ter sucesso com alcoólicos moderados, e mesmo com alguns alcoólicos em potencial. Começaram a aparecer pessoas mais jovens. Chegavam muitas pessoas que ainda tinham trabalho, lar, saúde e posição social.
Naturalmente foi necessário que esses recém-chegados chegassem emocionalmente ao fundo do poço, mas eles não tiveram que chegar a todos os tipos de fundo de poço possíveis para admitir que estavam derrotados.

A ESPERANÇA NASCIDA DO DESESPERO
Carta ao Dr, Carl Jung:
“Muitas experiências de conversão, qualquer que seja a variedade, têm como denominador comum o profundo colapso do ego. O indivíduo enfrenta um dilema impossível.
“No meu caso, o dilema tinha sido criado por minha compulsão pela bebida, e o profundo sentimento de desespero foi extremamente aumentado por meu médico. Foi aumentado ainda mais quando meu amigo alcoólatra contou-me de seu veredicto de desespero com respeito ao caso de Rowland H.
“No despertar de minha experiência espiritual, veio-me uma visão de uma sociedade de alcoólicos. Se cada sofredor levasse a outro a visão científica quanto à condição desesperada do alcoólico, poderia abrir-lhe a possibilidade de uma experiência espiritual transformadora. Esse conceito foi e é a base do sucesso, que desde então A. A. tem alcançado.”

FELIZES – QUANDO SOMOS LIVRES
Para a maioria das pessoas normais a bebida significa a libertação da preocupação, do aborrecimento e da ansiedade. Significa uma alegre intimidade com os amigos e um sentimento de que a vida é boa.
Mas não foi isso o que aconteceu conosco, nos últimos tempos de nossas pesadas bebedeiras. Os velhos prazeres desapareceram. Havia um desejo ardente de gozar a vida, como nunca, e uma dolorosa ilusão de que algum novo controle milagroso nos permitisse fazê-lo. Havia sempre mais uma tentativa e mais um fracasso.
Estamos certos de que Deus nos quer ver felizes, alegres e livres. Portanto, não podemos compartilhar a crença de que esta vida seja necessariamente um vale de lágrimas, embora em certa época tenha sido exatamente isto para muitos de nós. Mas ficou claro que vivíamos criando nossa própria miséria.

EM BUSCA DA FÉ PERDIDA
Muitos Aas podem dizer a uma pessoa sem fé: “Nós desviamos da fé que tínhamos quando crianças. Com a chegada do sucesso material, achamos que estávamos ganhando o jogo da vida. Isso era emocionante e nos fazia felizes.
“Por que deveríamos nos preocupar com abstrações teológicas e deveres religiosos ou com o estado de nossas almas aqui ou no além? A vontade de ganhar nos levaria para frente”.
“Mas então o álcool começou a nos dominar. Finalmente, quando começamos a ver nosso placar marcando zero, e percebemos que mais um golpe nos colocaria fora do jogo para sempre, tivemos que buscar nossa fé perdida. Foi em A. A. que a reencontramos.”

ENTREGAR-SE SEM RESERVAS
Depois de fracassar em meus esforços para fazer alguns bêbados pararem de beber, o Dr. Silkworth novamente me lembrou da observação do professor William James de que as experiências espirituais realmente transformadoras quase sempre se baseiam num estado de calamidade e colapso. “Pare de lhes pregar sermões”, disse o Dr. Silkworth, “e dê-lhes primeiro os duros fatos médicos. Isso pode sensibilizá-los tão profundamente que talvez venham a querer fazer qualquer coisa para recuperar-se. Então sim, elas poderão aceitar aquelas suas idéias espirituais e talvez até um Poder Superior”.
Pedimos que você seja destemido e meticuloso desde o início. Alguns de nós procuramos nos agarrar às nossas antigas idéias, e o resultado foi nulo – até que nos entregamos sem reservas.

COMBATE SEM AJUDA
Na verdade, poucos são aqueles que, assaltados pelo tirano álcool, venceram o combate sem ajuda. É um fato estatístico que os alcoólicos quase nunca se recuperam, só por meio de seus próprios recursos.
A caminho de Point Barrow, no Alaska, dois garimpeiros se instalaram numa cabana com uma caixa de uísque. O tempo ficou muito ruim e a temperatura baixou para 20 graus negativos; eles ficaram tão bêbados que deixaram o fogo apagar. Quando estavam a ponto de morrer por congelamento, um deles acordou a tempo de reacender o fogo. Saiu para procurar combustível e avistou um tambor de óleo vazio, cheio de água congelada. Embaixo do gelo, avistou um objeto amarelo-avermelhado. Eles descongelaram o tal objeto, e era um livro de A. A. Um deles leu o livro e parou de beber. A lenda diz que ele se tornou o fundador de um de nossos grupos mais longínquos do norte.

O INSTINTO DE VIVER
Quando homem e mulheres ingerem tanto álcool a ponto de destruir suas vidas, cometem um ato totalmente antinatural. Contrariando seu desejo instintivo de auto preservação, parecem estar inclinados à auto destruição. Lutam contra seu mais profundo instinto.
À medida que vão progressivamente se humilhando pela terrível surra administrada pelo álcool, a graça de Deus pode penetrar neles e expulsar sua obsessão. Aqui, seu poderoso instinto de viver pode cooperar plenamente com o desejo de seu Criador de lhes dar uma nova vida.
“A característica central da experiência espiritual consiste em dar a quem a experimenta uma nova e melhor motivação, fora de qualquer proporção com qualquer processo de disciplina, crença ou fé.
“Essas experiências não podem nos tornar íntegros de uma vez; constituem um renascimento a uma nova e verdadeira oportunidade.”

“IMPOTENTE PERANTE O ÁLCOOL”
Eu vinha descendo continuamente ladeira abaixo e, naquele dia em 1934, estava acamado no andar superior do hospital, sabendo pela primeira vez que estava completamente sem esperança.
Lois estava no andar térreo, e o Dr. Silkworth estava tentando, com suas maneiras gentis, transmitir a ela o que estava acontecendo comigo e que meu caso era sem esperança. “Mas Bill tem uma grande força de vontade”, ela disse. “Ele tem tentado desesperadamente ficar bom. Doutor, por que ele não consegue parar?”
Ele explicou que minha maneira de beber, que anteriormente era um hábito, tornou-se uma obsessão, uma verdadeira loucura que me condenava a beber contra meu desejo.
“Nos últimos estágios de nosso alcoolismo ativo, a vontade de resistir já não existe. Portanto, quando admitimos a derrota total e quando ficamos inteiramente dispostos a tentar os princípios de A. A., nossa obsessão desaparece e entramos numa nova dimensão – a liberdade sob a vontade de Deus, como nós O concebemos.”

DESDE A RAIZ PRINCIPAL
O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura, sem antes admitamos a derrota total é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa sociedade toda.
É dito a todo recém-chegado, e logo ele percebe por si mesmo, que sua humilde admissão de impotência perante o álcool constitui o primeiro passo em direção à libertação de seu jugo embriagador.
Assim, pela primeira vez, vemos a humildade como uma necessidade. Mas isso é apenas o começo. Afastar completamente nossa aversão à idéia de ser humildes, obter uma visão da humildade como o caminho que leva à verdadeira liberdade do espírito humano, trabalhar para a conquista da humildade como algo desejável por si mesmo, são coisas que demoram muito, muito tempo para a maioria de nós. Uma vida inteira dedicada ao egocentrismo não pode ser mudada de repente.

ALTO E BAIXO
Quando nossa Irmandade era pequena, lidávamos somente com “casos desesperados”. Muitos alcoólicos menos desesperados tentavam A. A., mas não eram bem-sucedidos porque não podiam admitir sua desesperança.
Nos anos seguintes isso mudou. Os alcoólicos que ainda tinham saúde, família, trabalho e até dois carros na garagem, começaram a reconhecer seu alcoolismo. À medida que essa tendência crescia, jovens que mal passavam de alcoólicos em potencial passaram a juntar-se a eles. Como poderiam pessoas como essas aceitar o Primeiro Passo?
Recordando nossas próprias histórias de bebida, mostrávamos a eles que anos antes de reconhecê-lo, já havíamos perdido o controle, que mesmo naquela época nossa maneira de beber já não era um mero hábito, que era na verdade o começo de uma progressão fatal.

VÁ COM CALMA, MAS VÁ
A procrastinação na verdade é apenas preguiça.
“Tenho observado que algumas pessoas conseguem suportar alguma procrastinação, mas muito poucos conseguem viver em completa rebeldia.”
“Temos conseguido colocar muitos bebedores problema diante desta terrível alternativa: ‘Ou nós, Aas, fazemos isso, ou morreremos’. Uma vez que isto entre em sua cabeça, beber mais só vai apertar mais o laço.
“Como muitos alcoólicos têm dito: ‘Cheguei ao ponto em que ou permanecia em A. A. ou do lado de fora. De modo que aqui estou!’”
(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 2-42-49-60-87-118-121-135-168-174-209-217-218-235-242-245-246-283-305-314-322)

ADMISSÃO
“Na Opinião do Bill”
ACERCA DA HONESTIDADE
O perverso desejo de ocultar um mau motivo, atrás do bom, se infiltra nos atos humanos de alto a baixo. Esse tipo sutil e evasivo, de farisaísmo, pode se esconder sob o ato ou pensamento mais insignificante. Aprender a identificar, admitir e corrigir essas falhas, todos os dias, constitui a essência da formação do caráter e de uma vida satisfatória.
A decepção dos outros está quase sempre enraizada na decepção de nós mesmos.
De algum modo, estar sozinho com Deus não parece ser tão embaraçoso quanto enfrentar uma outra pessoa. Até que resolvamos sentar e falar em voz alta a respeito daquilo que há tanto tempo temos escondido, nossa disposição de “limpara a casa” é ainda muito teórica. Quando somos honestos com outra pessoa, isso confirma que temos sido honestos conosco e com Deus.

NA HORA DA VERDADE, SOMOS TODOS IGUAIS
No princípio, passaram-se quatro anos antes que A. A. conseguisse levar à sobriedade permanente uma única mulher alcoólica. Assim como aquelas pessoas que tiveram um fundo de poço “muito alto”, as mulheres diziam que eram diferentes; elas não precisavam de A. A. Mas, com o aperfeiçoamento da comunicação, principalmente pelas próprias mulheres, a situação mudou.
Esse processo de identificação e transmissão tem continuado. Aqueles que viviam na sarjeta diziam que eram diferentes. Ainda com mais ênfase, o membro da alta sociedade (ou o bêbado das altas rodas) dizia a mesma coisa, como também diziam os artistas e os profissionais, os ricos e os pobres, os religiosos, os agnósticos, os índios e os esquimós, os veteranos e os prisioneiros.
Mas hoje todas essas pessoas, e muitas outras, falam sobriamente do quanto todos nós, alcoólicos, somos iguais na hora da verdade.

VIVA SERENAMENTE
Quando um bêbado está com uma terrível ressaca porque bebeu em excesso ontem, ele não pode viver bem hoje. Mas existe um outro tipo de ressaca que todos experimentamos, bebendo ou não. Essa é emocional, resultado direto do acúmulo de emoções negativas de ontem e, às vezes, de hoje – raiva, medo, ciúme e outras semelhantes.
Se queremos viver serenamente hoje e amanhã, sem dúvida precisamos eliminar essas ressacas. Isso não quer dizer que precisamos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isso sim, uma admissão e correção dos erros cometidos – agora.

CRESCIMENTO PELO DÉCIMO PASSO
Naturalmente, no decorrer dos próximos anos, cometeremos erros. A experiência nos tem ensinado que não precisamos ter medo de cometê-los, desde que mantenhamos a disposição para confessar nossas faltas e corrigi-las prontamente. Nosso crescimento como indivíduos tem dependido desse saudável processo de ensaio e erro. Assim crescerá nossa Irmandade.
Devemos sempre nos lembrar de que qualquer sociedade de homens e mulheres que não podem corrigir livremente suas próprias faltas, inevitavelmente chega à decadência e até mesmo ao colapso. Esse é o castigo universal por não continuar fazendo seu inventário moral e atuar de acordo com ele, do mesmo modo nossa sociedade como um todo deve fazer, se quisermos sobreviver e prestar serviço de maneira proveitosa e satisfatória.

NÃO PODEMOS VIVER SOZINHOS
Todos os Doze Passos de A. A. nos pedem para irmos contra nossos desejos naturais; todos eles reduzem nosso ego. Quando se trata da redução do ego, poucos Passos são mais duros de aceitar do que o Quinto Passo. Dificilmente qualquer um deles é mais necessário à sobriedade prolongada e à paz de espírito.
A experiência de A. A. nos ensinou que não podemos viver sozinhos e com os problemas que nos pressionam e com os defeitos de caráter que os causam ou agravam. Se passarmos o holofote do Quarto Passo sobre nossas vidas, e se ele mostrar, para nosso alívio, aquelas experiências que preferimos não lembrar, então se torna mais urgente do que nunca desistirmos de viver sozinhos com aqueles atormentadores fantasmas do passado. Temos que falar deles para alguém.
Não podemos depender totalmente dos amigos para resolver todas as nossas dificuldades. Um bom conselheiro nunca pensará em tudo, por nós. Ele sabe que a escolha final deve ser nossa. Entretanto, ele pode ajudar a eliminar o medo, oportunismo e a ilusão, tornando-nos capazes de fazer escolhas afetuosas, prudente e honestas.

FORÇA DE VONTADE E ESCOLHA
“Nós, AAs, sabemos que é inútil tentar destruir a obsessão de beber só pela força de vontade. Entretanto, sabemos que é preciso uma grande vontade para adotar os Doze Passos de A. A. como um modo de vida que pode nos devolver a sanidade.
Qualquer que seja a gravidade da obsessão pelo álcool, felizmente descobrimos que ainda podem ser feitas outras escolhas vitais. Por exemplo, podemos admitir que somos impotentes pessoalmente perante o álcool; que a dependência de um ‘Poder Superior’ é uma necessidade, mesmo que esta seja simplesmente uma dependência de um grupo de A. A. Então podemos preferir tentar uma vida de honestidade e humildade, fazendo um serviço desinteressado para nossos companheiros e para ‘Deus como nós O concebemos’.
Conforme continuamos fazendo essas escolhas e assim indo em busca dessas altas aspirações, nossa sanidade volta e desaparece a compulsão para beber”.

CONVERSAS QUE CURAM
Quando pedimos orientação a um amigo em A. A., não devemos hesitar em lembrá-lo de nossa necessidade de completo sigilo. A comunicação íntima normalmente é tão livre e fácil entre nós que um AA pode às vezes esquecer-se de guardar segredo. Nunca deveríamos violar o santo refúgio protetor desta que é a mais curativa de todas as relações humana.
Essas comunicações privilegiadas têm vantagens incalculáveis. Encontramos nelas a perfeita oportunidade de sermos totalmente honestos. Não precisamos nos preocupar com a possibilidade de prejudicar outras pessoas e nem precisamos temer o ridículo ou a condenação. E também temos a melhor oportunidade possível para identificarmos o auto-engano.

EXAMINANDO O PASSADO
Deveríamos fazer um preciso e exaustivo exame de como nossa vida passada afetou outras pessoas. Em muitos casos descobrimos que, embora o dano causado aos outros não tenha sido grande, o dano emocional que causamos a nós mesmos o foi.
Além do mais, os conflitos emocionais danosos permanecem muito profundos, abaixo do nível da consciência, às vezes quase esquecidos. Portanto, deveríamos tentar relembrar e rever bem estes acontecimentos passados que deram origem a esses conflitos e continuam causando violentos desequilíbrios emocionais, perturbando dessa forma nossa personalidade e mudando nossa vida para pior.
Reagimos mais fortemente às frustrações do que as pessoas normais. Revivendo esses episódios e discutindo-os em estreita confiança com outra pessoa, podemos reduzir seu tamanho e portanto seu poder inconsciente.

“ADMITIMOS PERANTE DEUS”
Desde que você não esconda nada, ao fazer o Quinto Passo, sua sensação de alívio aumentará de minuto a minuto. As emoções reprimidas durante anos saem de seu confinamento e, milagrosamente, desaparecem à medida que são reveladas. Com a diminuição da dor, uma tranqüilidade restauradora toma seu lugar. E quando a humildade e a serenidade estiverem assim combinadas, pode acontecer algo de grande significação para nós.
Muitos Aas, anteriormente agnósticos ou ateus, nos dizem que foi nessa fase do Quinto Passo que de fato sentiram, pela primeira vez, a presença de Deus. E mesmo aqueles que já tinham fé, muitas vezes tomaram consciência de Deus como nunca antes.

VITÓRIA NA DERROTA
Convencido de que nunca conseguiria fazer parte e jurando nunca me conformar com o segundo lugar, eu sentia que simplesmente tinha que vencer em tudo que quisesse fazer, fosse trabalho ou divertimento. Como essa atraente fórmula de bem viver começou a dar resultado, de acordo com a idéia que eu então fazia do que fosse sucesso, fiquei delirantemente feliz.
Mas quando acontecia de um empreendimento falhar, eu me enchia de ressentimento e depressão que só podiam ser curados com o próximo triunfo. Portanto, muito cedo comecei a avaliar tudo em termos de vitória ou derrota – “tudo ou nada”. A única satisfação que eu conhecia era vencer.
Somente através da derrota é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e à força. Nossa admissão de impotência pessoal finalmente vem a ser o leito de rocha firme sobre o qual podem ser construídas vidas felizes e significativas.

GUIA PARA UM CAMINHO MELHOR
Quase nenhum de nós gostou da idéia do auto-exame, da redução do orgulho e da confissão das imperfeições que os Passos requerem. Mas vimos que o programa realmente funcionava para os outros e viemos a acreditar na desesperança da vida tal como a estávamos vivendo.
Portanto, quando fomos abordados por aquelas pessoas que tinham resolvido o problema, só nos restou apanhar o simples conjunto de instrumentos espirituais que puseram ao nosso alcance.
Nas Tradições de A. A. está implícita a confissão de que nossa Irmandade tem suas falhas. Confessamos que temos defeitos de caráter, como a sociedade, e que esses defeitos nos ameaçam continuamente. Nossas Tradições são um guia para melhores formas de trabalhar e de viver, e representam para a sobrevivência e harmonia do grupo o que os Doze Passos de A. A. representam para a sobriedade e paz de espírito de cada membro.

UM PRINCÍPIO SALVADOR
Essa prática de admitir os próprios defeitos a uma outra pessoa é, sem dúvida, muito antiga. Foi validada em todas os séculos, e caracteriza a vida de todas as pessoas espiritualmente centradas e verdadeiramente religiosas.
Mas hoje a religião não é nem de longe a única defensora desse princípio salvador. Os psiquiatras e psicólogos apontam a grande necessidade que todo ser humano tem de desenvolver percepção e conhecimento práticos de suas próprias falhas de personalidade e de discuti-las com uma pessoa compreensiva e digna de confiança.
No que se refere aos alcoólicos, A. A. vai ainda mais longe. A maioria de nós declararia que sem a corajosa admissão de nossos defeitos para um outro ser humano, não poderíamos nos manter sóbrios. Até que estejamos dispostos a tentar isso, parece evidente que a graça de Deus não nos tocará para expulsar nossas obsessões destrutivas.

NUNCA O MESMO OUTRA VEZ
Descobrimos que quando um alcoólico plantava na mente de outro a idéia de verdadeira natureza de sua doença, este jamais voltaria a ser o mesmo. Após cada bebedeira, ele diria a si mesmo: “Talvez esses Aas tenham razão”. Depois de algumas experiências assim, e muitas vezes antes do começar a ter grandes dificuldades, ele voltaria a nós, convencido.
Nos primeiros anos, aqueles dentre nós que ficaram sóbrios em A. A., eram na verdade casos horríveis e completamente sem esperança. Mas depois começamos a ter sucesso com alcoólicos moderados, e mesmo com alguns alcoólicos em potencial. Começaram a aparecer pessoas mais jovens. Chegavam muitas pessoas que ainda tinham trabalho, lar, saúde e posição social.
Naturalmente foi necessário que esses recém-chegados chegassem emocionalmente ao fundo do poço, mas eles não tiveram que chegar a todos os tipos de fundo de poço possíveis para admitir que estavam derrotados.
COMPLETA A LIMPEZA DA CASA
Muitas vezes, os recém-chegados procuram guardar para si mesmos os fatos desagradáveis referentes às suas vidas. Tentando evitar a experiência humilhante do Quinto Passo, eles tentaram métodos mais fáceis. Quase sem exceção se embriagaram… Tendo preservado no resto do programa, perguntavam-se por que tinham recaído.
Acho que a razão é que eles nunca completaram a limpeza de sua casa. Fizeram seu inventário, mas continuaram agarrados a alguns de seus piores defeitos. Eles somente pensaram que tinham perdido seu egoísmo e medo. Somente pensaram que tinham se humilhado. Mas não tinham aprendido o suficiente sobre humildade, coragem e honestidade. Até que contaram a outra pessoa toda a sua vida.

O COMEÇO DA VERDADEIRA AFINIDADE
Quando chegamos em A. A. e pela primeira vez na vida nos encontramos entre pessoas que pareciam nos compreender, a sensação de pertencer foi muito emocionante. Achamos que o problema de isolamento tinha sido resolvido.
Mas logo descobrimos que, embora não estivéssemos mais sozinhos, no sentido social, ainda sofríamos das antigas angústias do isolamento ansioso. Enquanto não falássemos, com toda franqueza, de nossos conflitos e ouvíssemos mais alguém fazer o mesmo, ainda não fazíamos parte.
O Quinto Passo foi a resposta. Foi o começo de uma verdadeira afinidade como o homem e com Deus.

O PRIVILÉGIO DE COMUNICAR
Todos devem concordar que nós, Aas, somos pessoas incrivelmente afortunadas. Afortunadas porque sofremos tanto. Afortunadas porque podemos conhecer-nos, compreender-nos e amar-nos uns aos outros tão bem.
Esses atributos e virtudes raramente caem do céu. Na verdade, a maioria de nós sabe muito bem que essas dádivas são raras e que têm sua verdadeira origem em nosso sofrimento comum e em nossa libertação comum, pela graça de Deus.
Assim sendo, somos privilegiados por podermos comunicar-nos uns com os outros numa intensidade e de uma maneira raramente alcançada por nossos amigos não-alcoólicos do mundo que nos cerca.
“Eu costumava me envergonhar de minha situação e não falava sobre isso. Mas hoje confesso francamente que tenho tendência à depressão e isso tem atraído para mim outras pessoas com a mesma tendência. Trabalhar com eles tem me ajudado bastante”.

“DESTEMIDO E MINUCIOSO”
Minha auto análise tem sido frequentemente falha. Às vezes tenho deixado de compartilhar meus defeitos com as pessoas certas; outras vezes tenho confessado os defeitos delas, em lugar dos meus, e ainda outras vezes, minha confissão dos defeitos tem sido mais de queixas, em alta voz, acerca de minhas circunstâncias e meus problemas.
Quando A. A. sugere um destemido inventário moral, isso deve parecer a todo recém-chegado que lhe estamos pedindo mais do que ele é capaz de fazer. Cada vez que ele tenta olhar para dentro de si, o orgulho diz: “Você não precisa percorrer esse caminho…” e o medo diz: “Não se atreva a olhar!”
Mas o orgulho e o medo desse tipo não passam de bichos-papões. Uma vez que façamos inventário com toda a boa vontade e nos esforcemos para fazê-lo minuciosamente, uma luz maravilhosa invade essa cena nebulosa. À medida que persistimos, nasce um tipo de confiança totalmente novo, e a sensação de alívio com a qual finalmente nos deparamos é incrível.

QUANDO OS CONFLITOS AUMENTAM
Algumas vezes eu seria forçado a examinar situações onde estava agindo mal. No mesmo instante, eu começaria freneticamente a procurar desculpas.
“Essas”, eu exclamaria, “são realmente faltas de um homem de bem”. Quando essa frase favorita fosse destruída, eu pensaria: “Bem se aquelas pessoas me tratassem sempre bem, eu não teria que me comportar da maneira que me comporto”. A desculpa seguinte seria esta: “Deus sabe muito bem que tenho terríveis compulsões. Simplesmente não posso vencê-las, só mesmo Ele vai ter que me tirar dessa”. Finalmente chegava o momento em que eu exclamaria: “Isso eu positivamente não farei! Nem mesmo tentarei”.
Claro que meus conflitos foram aumentando, porque eu estava completamente carregado de desculpas, recusas e revolta.
Numa auto-avaliação, o que nos vem à mente, quando estamos sozinhos, pode ser distorcido por nossa própria racionalização. A vantagem de falar com uma outra pessoa é que podemos obter, diretamente, seus comentários e conselhos a respeito de nossa situação.

DESDE A RAIZ PRINCIPAL
O princípio de que não encontraremos qualquer força duradora, sem que antes admitimos a derrota total é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa sociedade toda.
É dito a todo recém-chegado,e logo ele percebe por si mesmo, que sua humilde admissão de impotência perante o álcool constitui o primeiro passo em direção à libertação de seu jugo embriagador.
Assim, pela primeira vez, vemos a humildade como uma necessidade. Mas isso é apenas o começo. Afastar completamente nossa aversão à idéia de ser humildes, obter uma visão da humildade como o caminho que leva à verdadeira liberdade do espírito humano, trabalhar para a conquista da humildade como algo desejável por si mesmo, são coisas que demoram muito, muito tempo para a maioria de nós. Uma vida inteira dedicada ao egocentrismo não pode ser mudada de repente.

CONTANDO O PIOR
Embora fossem muitas as variações, meu principal tema era sempre: “Como sou terrível!” Do mesmo modo como muitas vezes, por orgulho, exagerava minhas mais modestas qualidades, também exagerava meus defeitos através do sentimento de culpa. Em todos os lugares, eu vivia confessando tudo (e mais um pouco) a quem quisesse me ouvir. Acreditem ou não, eu achava que essa ampla exposição de meus erros era uma grande humildade de minha parte e considerava isso um consolo e um grande bem espiritual.
Porém, mais tarde, percebi profundamente que na verdade não tinha me arrependido dos danos que causei aos outros. Esses episódios eram apenas a base para contar histórias e fazer exibicionismo. Junto com essa compreensão, veio o começo de um certo grau de humildade.

ALTO E BAIXO
Quando nossa Irmandade era pequena, lidávamos somente com “casos desesperados”. Muitos alcoólicos menos desesperados tentavam A. A., mas não eram bem-sucedidos porque não podiam admitir sua desesperança.
Nos anos seguintes isso mudou. Os alcoólicos que ainda tinham saúde, família, trabalho e até dois carros na garagem, começaram a reconhecer seu alcoolismo. À medida que essa tendência crescia, jovens que mal passavam de alcoólicos em potencial passaram a juntar-se a eles. Como poderiam pessoas como essas aceitar o Primeiro Passo?
Recordando nossas próprias histórias de bebida, mostrávamos a eles que anos antes de reconhecê-lo, já havíamos perdido o controle, que mesmo naquela época nossa maneira de beber já não era mero hábito, que era na verdade o começo de uma progressão fatal.

PERDÃO
Através do Quinto Passo, que é de vital importância, começamos a ter a sensação de que poderíamos ser perdoados, fosse o que fosse que tivéssemos pensando ou feito.
Muitas vezes, ao trabalhar nesse Passo com nossos padrinhos ou conselheiros espirituais, pela primeira vez nos sentimos verdadeiramente capazes de perdoar os outros, não importando quão profundamente sentíssemos que eles tivessem nos ofendido.
Nosso inventário moral nos tinha convencido de que todo perdão era desejável, mas foi somente quando fizemos resolutamente o Quinto Passo que soubemos no íntimo que éramos capazes, tanto de aceitar o perdão como também de perdoar.
(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 17-24-48-65-83-88-102-111-126-135-149-164-209-213-228-231-261-289-305-311-314-318)

ACEITAÇÃO
“Na Opinião do Bill”

TUDO OU NADA
A aceitação e a fé são capazes de produzir cem por cento de sobriedade. De fato, elas geralmente conseguem; e assim deve ser, caso contrário, não podemos viver. Mas a partir do momento em que transferimos essas atitudes para nossos problemas emocionais, descobrimos que só é possível obter resultados relativos. Ninguém pode, por exemplo, livrar-se completamente do medo, da raiva e do orgulho. Consequentemente, nesta vida não atingiremos uma total humildade nem amor. Assim, vamos ter que nos conformar, com referência à maioria de nossos problemas, pois um progresso muito gradual, às vezes é interrompido por grandes retrocessos. Nossa antiga atitude de “tudo ou nada” terá que ser abandonada.

LUZ PROVENIENTE DE UMA ORAÇÃO
Concedei-nos, Senhor, a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar. Coragem para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas das outras.
Guardamos como um tesouro nossa “Oração da serenidade”, porque ela nos traz uma nova luz que pode dissipar nosso velho e quase fatal hábito de enganar a nós mesmos.
No esplendor dessa oração, vemos que a derrota, quando bem aceita, não significa desastre. Sabemos agora que não temos que fugir, nem deveríamos outra vez tentar vencer a adversidade por meio de um outro poderoso impulso arrasador, que só pode nos trazer problemas difíceis de serem resolvidos.

LIVRANDO-SE DE UMA “BEBEDEIRA SECA”
“Às vezes nós ficamos deprimidos. Disso sei muito bem; eu mesmo fui um campeão das bebedeiras secas. Enquanto as causas superficiais constituíam uma parte do quadrado; acontecimentos que precipitavam a depressão; estou consciente de que as causas fundamentais eram muito mais profundas.
“Intelectualmente, eu poderia aceitar minha situação, mas emocionalmente não.
“Para esses problemas, certamente não há respostas adequadas, mas parte da resposta certamente se encontra no esforço constante para praticar todos os Doze Passos de A. A.”

ACEITAÇÃO DIÁRIA
“Grande parte de minha vida foi passada repisando as faltas dos outros. Essa é uma das muitas formas sutis e maldosas da auto-satisfação, que nos permite ficar confortavelmente despreocupados a respeito de nossos próprios defeitos. Inúmeras vezes dissemos: ‘Se não fosse por causa dele (ou dela), como eu seria feliz!”
Nosso primeiro problema é aceitar nossas circunstâncias atuais como são, a nós mesmos como somos, e as pessoas que nos cercam como também são. Isso é adotar uma humildade realista, sem a qual nenhum verdadeiro progresso pode sequer começar. Repetidamente precisaremos voltar a esse pouco lisonjeiro ponto de partida. Esse é um exercício de aceitação que podemos praticar com proveito todos os dias de nossas vidas.
Desde que evitemos arduamente transformar esses reconhecimentos realistas dos fatos da vida em álibis irreais para a prática da apatia ou do terrorismo, eles podem ser a base segura sobre a qual pode ser construída a crescente saúde emocional e, portanto, o progresso espiritual.

A FORÇA NASCENDO DA FRAQUEZA
Se estamos dispostos a parar de beber, não podemos abrigar, de forma nenhuma, a esperança de que um dia seremos imunes ao álcool.
Tal é o paradoxo da recuperação em A. A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa, a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova.

LIBERDADE ATRAVÉS DA ACEITAÇÃO
Admitimos que não podíamos vencer o álcool com os recursos que ainda nos restavam, e assim aceitamos o fato de que só a dependência de um Poder Superior (mesmo que fosse apenas nosso Grupo de A. A.) poderia resolver esse problema até aqui insolúvel. No momento em que fomos capazes de aceitar inteiramente esses fatos, iniciou-se nossa libertação da compulsão alcoólica.
Para a maioria de nós foi preciso grande esforço para aceitar esses dois fatos. Tivemos que abandonar nossa querida filosofia de auto-suficiência. Não o conseguimos apenas com a força de vontade; isso aconteceu como resultado do desenvolvimento da boa vontade para aceitar esses novos fatos da vida.
Não fugimos nem lutamos, mas aceitamos. E então começamos a ser livres.

NENHUM PODER PESSOAL
“ A princípio, o remédio para minhas dificuldades pessoais parecia tão evidente que eu não podia imaginar um alcoólicos recusando a proposta que lhe fosse adequadamente apresentada. Acreditando firmemente que Cristo pode fazer tudo, eu tinha a idéia inconsciente de supor que Ele faria tudo por meu intermédio – quando e da maneira que eu quisesse. Depois de seis longos meses, tive que admitir que ninguém tinha se apoderado do Mestre – nem mesmo eu.
“Isso me levou à boa e saudável conclusão de que havia muitas situações no mundo sobre as quais eu não tinha nenhum poder pessoal – que, se eu estava tão pronto a admitir isso a respeito do álcool, devia admitir também em relação a muitas outras coisas. Tinha que ficar quieto a muitas outras coisas. Tinha que ficar quieto e entender que Ele e não eu, era Deus.”

OBSTÁCULOS EM NOSSO CAMINHO
Vivemos num mundo cheio de inveja. Em grau maior ou menor, todos são contaminados por ela. Deste defeito certamente retiramos uma satisfação deturpada porém definida. Se assim não fosse, porque poderíamos tanto tempo desejando o que não temos, em vez de trabalhar para obtê-lo, ou furiosamente procurando qualidade que nunca teremos, em vez de adaptarmo-nos aos fatos, aceitando-os?
Cada um de nós gostaria de viver em paz consigo mesmo e com seus semelhantes. Gostaríamos de ser assegurados de que a graça de Deus pode fazer por nós aquilo que não podemos.
Temos visto que os defeitos de caráter baseados em desejos imprevidentes a indignos são obstáculos que bloqueiam nosso caminho em direção a esses objetivos. Agora vemos, com clareza, que estivemos fazendo exigências irracionais a nós mesmos, aos outros e a Deus.

DOIS CAMINHOS PARA OS MEMBROS MAIS ANTIGOS
Os fundadores de muitos grupos acabam por dividirem-se em duas categorias, conhecidas na linguagem de A. A. como “velhos mentores” e “velhos resmungões”.
O velho mentor vê sabedoria na decisão do grupo de assumir sua própria direção e não guarda ressentimento ao ver reduzido seu status. Seu julgamento, reforçado por considerável experiência, é saudável: ele está disposto a ficar de lado, aguardando com paciência os acontecimentos.
O velho resmungão está certamente convencido de que o grupo não pode caminhar sem ele. Ele constantemente conspira para reeleger-se e continua sendo consumido pela auto piedade. Quase todos os membros mais antigos de nossa sociedade passaram por isso, em maior ou menor grau. Felizmente, a maior parte deles sobreviveu para se transformar no velho mentor. Estes vêm a ser a verdadeira e duradoura liderança de A. A.

MAIS DO QUE CONFORTO
Quando me sinto deprimido, repito para mim mesmo declarações como estas: “O sofrimento é a pedra de toque do progresso…” “Não tema o mal”… “Isso também vai passar”… “Essa experiência pode se transformar em benefício”.
Esses fragmentos de oração trazem muito mais do que um mero conforto. Eles me mantêm no caminho da aceitação perfeita, dissolvem meus temas obsessivos de culpa, depressão, revolta e orgulho; e às vezes me dão a coragem para mudar as coisas que posso e sabedoria para perceber a diferença.

O APRENDIZADO NÃO TERMINA NUNCA
“Minha experiência, como antigo membro, é em alguns pontos paralela à sua e as de muitos outros. Todos nós descobrimos que chega o momento em que não mais podemos conduzir os negócios funcionais dos grupos, das áreas ou, em meu caso, de A. A. com um todo. Em última análise, só valemos pelo exemplo espiritual que porventura tenhamos dado. Nesta medida tornamo-nos símbolos úteis – e isso é tudo.”
“Tornei-me discípulo do movimento de A. A., ao invés do professor que eu outrora achava que era”.

A OBSESSÃO E A RESPOSTA
A idéia de que de algum modo, algum dia, vai controlar e desfrutar da bebida constitui a grande obsessão de todo bebedor anormal. A persistência dessa ilusão é incrível. Muitos a perseguem até as portas da loucura e da morte.
O alcoolismo, e não o câncer, era minha doença. Mas qual a diferença? O alcoolismo não era também um consumidor do corpo e da mente? O alcoolismo levaria mais tempo para matar, mas o resultado era o mesmo. Então decidi, que se houvesse um grande Médico que pudesse curar a doença do alcoolismo, o melhor que eu poderia fazer era procurá-Lo imediatamente.

SATISFAÇÕES DE UMA VIDA CORRETA
Como é maravilhoso sentir que não precisamos nos distinguir especialmente de nossos companheiros para podermos ser úteis e profundamente felizes. Poucos de nós podemos ser líderes destacados, e nem queremos sê-lo.
O serviço prestado com alegria; as obrigações honestamente cumpridas; os problemas bem aceitos ou resolvidos com a ajuda de Deus; a consciência de que em casa ou no mundo lá fora somos parceiros num esforço comum; o fato de que aos olhos de Deus somos todos importantes; a prova de que o amor dado livremente sempre traz retorno; a certeza de que não estamos mais isolados e sós em prisões construídas por nós mesmos; a segurança de que podemos nos ajustar e pertencer ao esquema de Deus – essas são as satisfações de uma vida correta, que jamais poderiam ser substituídas por qualquer pompa ou cerimônia ou por qualquer quantidade de posses materiais.

REVOLTA OU ACEITAÇÃO
Todos nós passamos por períodos em que somente podemos orar com o maior empenho. Às vezes, vamos ainda mais longe. Somos acometidos por uma revolta tão doentia que simplesmente não conseguimos orar. Quando essas coisas acontecem, não devemos achar que somos tão doentes. Devemos simplesmente voltar à prática da oração, tão logo possamos, fazendo o que sabemos ser bom para nós.
Uma pessoa que persiste na oração encontra-se na posse de grandes dádivas. Quando tem que lidar com situações difíceis, descobre que pode enfrentá-las. Pode aceitar a si mesma e ao mundo que a cerca.
Pode fazer isso porque agora aceita um Deus que é Tudo – e que ama a todos. Quando ela diz: “Pai nosso que estais no céu, santificado seja Teu nome”, ela quer dizer isso profunda e humildemente. Quando em verdadeira meditação e portanto livre dos clamores do mundo, sabe que está nas mãos de Deus, que seu destino final está realmente seguro, aqui e no além, aconteça o que acontecer.
(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 6-20-30-44-49-109-114-131-138-148-169-194-254-293)

FALANDO SOBRE 0 PRIMEIRO
PRIMEIRO PASSO.

“ADMITIMOS QUE ÉRAMOS IMPOTENTES PERANTE O ÁLCOOL – QUE TÍNHAMOS PERDIDO O DOMÍNIO SOBRE NOSSAS VIDAS”.

Por Emílio M.

(Nota: Sempre que me refiro ao álcool ou alcoolismo refiro-me a todas as drogas psicoativas e adicção)

01. Como entendo o alcoolismo, sua evolução, seu tratamento e o Primeiro Passo de A.A. nesta data. Escrevo por mim e não pela Irmandade. (Enumero os parágrafos para facilitar os debates nos Seminários. Alguns tópicos serão abordados em mais que uma temática por serem pertinentes).

02. O homem começou a embriagar-se antes mesmo de aprender a espremer as uvas, comendo frutas que caiam do pé e azedam com o passar dos dias. A história do antigo Egito relata que 8500 AC o alcoolismo já era uma ameaça para o povo daquele tempo. No Antigo Testamento encontramos informações de ‘pileques’ fenomenais como o de Noé e outros grandes personagens bíblicos.
Nos séculos XVIII e XIX a medicina avançou nos estudos indicando tratar-se de doença. Mas somente no século XX surgiu o reconhecimento oficial de que o alcoolismo é uma doença gravíssima, multifacetária e incurável.
Desde 1935 A.A. está alertando que o alcoolismo é uma doença e como tal deve ser tratado. Em 1949, a Associação Psiquiátrica Norte Americana reconheceu Alcoólicos Anônimos. Em 1956 a Associação Médica Americana admitiu o alcoolismo como doença. Em 1965 a Organização Mundial da Saúde, OMS, pela primeira vez em sua existência recebeu um estudo subscrito por doze cientistas especializados em alcoolismo, de diferentes países do mundo, para que esta avaliasse e estudasse, com o rigor que lhe é peculiar, se o alcoolismo seria ou não doença. Assim, em 1º de janeiro de 1967, com todo o zelo técnico e científico, esta mundialmente acatada e respeitada Organização reconheceu oficialmente o alcoolismo como doença, incluindo-a na Código Internacional De Doenças – CID N.º 08. Permaneceu no CID N.º 09 e atualmente no CID N.º 10.. O CID é o repositório oficial de todas as enfermidades que assolam a humanidade.

03. Com o surgimento do A.A. os estudos sobre o alcoolismo tiveram razoável progresso. Atualmente, na opinião de médicos (alcoologistas), de cientistas e pesquisadores, o alcoolismo é uma doença biológica, primária, progressiva, incurável e fatal, se não detida a tempo. Atinge somente aqueles que nascem com a predisposição para o alcoolismo, ou seja, entre 10 a 15% dos que fazem uso de bebidas alcoólicas, quer destiladas ou fermentadas. E alcoolista, alcoólico ou alcoólatra é o seu portador. Existem outros fatores que contribuem para o desenvolvimento do alcoolismo. Não os abordo aqui, para não alongar o texto. Ademais não é este o propósito desta temática.
Considerada uma doença de natureza complexa, multifacetada, biopsico-neuro-sócio-espiritual. Afeta o alcoólatra: física, psíquica, emocional, neurológica, social e espiritualmente.
Apesar do alcoolismo ser tão antigo quanto a raça humana, ser a terceira doença que mais mata no mundo e estar em primeiro lugar entre o uso de drogas em geral, ainda é muito incompreendida, pois durante milênios foi considerada um problema moral e não uma doença. Na Antigüidade os alcoólatras eram mantidos fora das muralhas das cidades. Junto com ladrões, prostitutas, leprosos e outros considerados degenerados morais. Eis aí as raízes do estigma do alcoolismo com as todas suas nefastas implicações e graves conseqüências.

04. Esta doença impõe sobre suas vítimas uma severa ditadura sem respeitar: raça, credo, nível de inteligência, grau cultural, condição sócio-econômica, sexo e idade. Usando palavras mais simples, digo que ele ataca homens e mulheres, ricos e pobres, letrados e analfabetos; brancos, negros e índios; magros e gordos, altos e baixos, bons e maus, crentes, ateus e agnósticos, freiras e prostitutas, padres, cardeais e canalhas. Enfim, ele vitima seres humanos, desde que dotados da predisposição, aliada a outros fatores, e que usem substâncias alcoólicas de qualquer natureza.

05. Embora existam outros critérios para o diagnóstico, é considerada alcoólatra a pessoa que, ao usar bebidas alcoólicas, sofre conseqüências negativas para si ou para outrem e, apesar disso continua bebendo, não importando com que freqüência bebe e muito menos a quantidade ou qualidade da bebida ingerida. A evolução do alcoolismo varia de pessoa para pessoa, mas ela fica entre 3 a 20 anos, podendo ser infantil ou senil. E cujo diagnóstico nem sempre é fácil.

06. Em 2 de maio de 1974, o Cardeal Seper, Prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, através, do prot. N.º 88/74, comunicou ao Cardeal Krol, então presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, o seguinte privilégio:
a – Padres que sofram da doença do alcoolismo estão dispensados da Segunda Espécie em Concelebrações, ou seja do vinho.
B – Quando celebram sozinhos, padres alcoólatras podem usar suco de uva sem fermentação. (O latim usa mustum que é justamente suco de uva sem fermentação).

07. Vejo a Igreja Católica Apostólica Romana como uma instituição ainda conservadora. Não obstante teve a louvável, corajosa e sábia iniciativa de dispensar o uso de vinho para padres alcoólatras na celebração Eucarística, um dos mais importantes Sacramentos desta Igreja.
Em seguida, o Vaticano estendeu esse mesmo privilégio aos padres alcoólatras do mundo inteiro. Obviamente, porque reconheceu, admitiu e aceitou o alcoolismo como doença, cuja recuperação consiste em evitar não só o primeiro gole, mas até mesmo a primeira gota de vinho, ainda que, consagrado. (Fogo e pólvora próximos podem explodir).
No transcurso do Concílio Vaticano II, S.S., o Papa João XXIII declarou: “Alcoólicos Anônimos É O Milagre Do Século XX”.

08. O alcoolismo continua sendo um assunto muito controvertido ainda em nossos dias. Comprovando isto examinemos algumas “Falsidades e Realidades” que envolvem essa doença.

09. “Falsidade: O álcool tem o mesmo efeito químico e fisiológico sobre todo aquele que bebe”.

10. “Realidade: O álcool, assim como qualquer outro alimento que ingerimos, afeta pessoas diferentes de maneiras diversas”.

11. “Falsidade: A dependência do álcool muitas vezes é psicológica”.

12. “Realidade: A dependência do álcool é principalmente fisiológica”.

13. “Falsidade: O álcool é uma droga que cria dependência, e qualquer pessoa que beba por tempo suficiente e em grande quantidade se tornará dependente”.

14. “Realidade: O álcool é uma droga seletivamente viciante; cria dependência em apenas uma minoria de seus usuários”. (Entre 10 a 15% dos usuários de álcool).

15. “Falsidade: As pessoas se tornam alcoólatras porque têm problemas psicológicos e emocionais que procuram aliviar através da bebida”.

16. “Realidade: Os alcoólatras têm os mesmos problemas psicológicos e emocionais que todas as demais pessoas. Estes problemas são agravados por sua dependência do álcool”.

17. “Falsidade: Se as pessoas bebessem de maneira responsável, elas não se tornariam alcoólatras”.

18. “Realidade: Muitos bebedores responsáveis tornam-se alcoólatras. Depois, porque é a natureza da moléstia – não a da pessoa – elas começam a beber irresponsavelmente”.

19. “Falsidade: Alguns alcoólatras podem aprender a beber normalmente desde que limitem a quantidade”.

20. “Realidade: Os alcoólatras jamais podem voltar a beber com segurança”.

21. “Realidade: Se o alcoolismo é uma conseqüência de problemas psicológicos, por que existem tantas pessoas com problemas psicológicos que bebem e não se tornam alcoólatras?”

22. “Realidade: Por que existem tantas pessoas sem problemas psicológicos dignos de nota que se tornam alcoólatras?”

23. “Realidade: Por que os alcoólatras que param de beber e subseqüentemente recuperam seu equilíbrio emocional e psicológico reativam a moléstia quando voltam a beber?”

24. Dizer para um alcoólatra: “Tenha força de vontade e não beba”, seria o mesmo que implorar para um epiléptico: “Use a força de vontade e não tenha uma crise agora”. Implorar ao alcoólico por quê você não para de beber? Seria o mesmo que pedir-lhe, para ele parar de respirar. O alcoolismo chega em estágios tão avançados, que o uso da bebida torna-se uma necessidade vital para o doente. Força de vontade, neste caso, é um grande empecilho. Ela só atrapalha. Pois o álcool a anulou. O indispensável é a boa vontade. A força será encontrada num grupo de A.A. Para parar de beber, o alcoólico precisa de ajuda e, quanto antes – melhor.

25. É voz corrente: “O alcoólico é um grande sem vergonha”. Ledo engano. Vejamos este dialogo:
“ Por que você esta bebendo? – perguntou o pequeno príncipe.
Para esquecer – replicou o beberrão.
Esquecer o que? – indagou o pequeno príncipe, que já se sentia triste por ele.
Esquecer que estou envergonhado – confessou o beberrão, baixando a cabeça.
Envergonhado de que? – insistiu o pequeno príncipe, que desejava ajudá-lo.
Envergonhado de beber! – O beberrão parou de falar e fechou-se em silêncio inexpugnável”.
Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe).

“Num determinado momento do seu percurso alcoólico, entra numa fase em que o mais forte desejo para deixar de beber é absolutamente inútil. Esta trágica situação surge em quase todos os casos, muito antes sequer de se suspeitar dela.
O fato é que, por razões ainda obscuras, a maior parte dos alcoólicos perdeu a capacidade de escolher quando se trata de beber. O que chamamos de força de vontade torna-se praticamente inexistente. Somos incapazes, em determinadas alturas, de conscientizar com a necessária nitidez a recordação do sofrimento e humilhação de apenas uma semana ou um mês atrás. Ficamos sem defesa perante a primeira bebida.
As conseqüências praticamente inevitáveis que daí resultam ao tomar-se nem que seja um copo de cerveja, não vêm ao espírito para nos deter. Se estes pensamentos ocorrem, eles são nebulosos e facilmente suplantados pela velha idéia já gasta, de que desta vez poderemos comportar-nos como qualquer pessoa. É um completo fracasso do tipo do instinto de defesa que impede uma pessoa de pôr a mão em cima dum fogão quente.
O alcoólico pode querer convencer-se da maneira mais despreocupada: ‘Desta vez não me vou queimar, vão ver!’ Ou talvez nem chegue mesmo a pensar de todo. Quantas vezes nos aconteceu começarmos a beber deste modo despreocupado, para depois do terceiro ou quarto copo, darmos murros no balcão do bar e dizer para nós mesmos: ‘Santo Deus, como é que comecei outra vez?’, para pensar logo de seguida, ‘Ora, hei de parar depois do sexto. ‘Ou então, ‘Para quê, agora já não vale a pena’.
Quando este tipo de raciocínio se implanta de vez numa pessoa com tendências alcoólicas, ela coloca-se com toda a probabilidade numa situação que está para além da ajuda humana e, a não ser que a internem, certamente morre ou enlouquece para sempre. Legiões de alcoólicos no decurso da História confirmaram estes fatos duros e atrozes. Mas haveria ainda outros tantos milhares de casos convincentes que teriam seguido o mesmo caminho, se não fosse pela graça de Deus, porque muitos são os que querem parar de beber e não conseguem”.
Vejamos esta afirmação de Bill: “Eu tinha caminhado continuamente ladeira abaixo, e naquele dia, em 1934, eu estava acamado no andar superior do hospital, sabendo pela primeira vez que estava completamente sem esperança.
Lois estava no andar térreo, e o Dr. Silkworth estava tentando, com suas maneiras gentis, transmitir a ela o que estava acontecendo comigo e que meu caso era sem esperança. ‘Mas Bill tem uma grande força de vontade’, ela disse. ‘Ele tem tentado desesperadamente ficar bom. Doutor, por que ele não pode parar?’
Ele explicou que minha maneira de beber, uma vez que se tornou um hábito, ficou sendo uma obsessão, uma verdadeira loucura que me condenava a beber contra meu desejo.
Nos últimos estágios de nosso alcoolismo ativo, a vontade de resistir já não existe. Portanto, quando admitimos a derrota total e quando nos tornamos inteiramente dispostos a tentar os princípios de A.A., nossa obsessão desaparece e entramos numa nova dimensão – a liberdade sob a vontade de Deus, como nós O concebemos”.

26. Já ouvi, de profissionais despreparados, afirmações absurdas como: “Se descobrirmos quais as frustrações, causas psíquicas, emocionais, ou outras que o levaram à ‘fuga’ para o álcool e, se as resolvermos, ele parará de beber imediatamente”. Para mim isto é pura balela. Felizmente, a medicina conhece, hoje, sobre o alcoolismo muito mais do que apenas algumas décadas atrás. Mas, lamentavelmente, os médicos alcoologistas ainda são em número muito reduzido. Podemos afirmar o mesmo quanto aos outros profissionais afins.
Existem patologias concomitantes, como por exemplo, Distúrbio Afetivo Bipolar, outrora PMD – Psicose Maníaca Depressiva (depressão) ou outras disfunções que, de nada adiantará tratá-las, subestimando-se o alcoolismo. O tratamento deverá ser simultâneo sob pena de sucessivas recaídas. Nestes casos os antipressivos poderão ser indicados, desde que por um psiquiatra e alcoologista, ele sabe lidar muito bem com isto – sem causar outras dependências.
Permito-me transcrever parte de um artigo médico escrito pelo Dr. Richard Hughes e o Dr. Robert Brewin, estudiosos dos efeitos e conseqüências de tranqüilizantes, diz o artigo: “…uma alta percentagem de alcoólatras – alguns têm consciência de seu problema de bebida e procuram ocultá-lo e outros não são sequer capazes de reconhecê-lo – visitam seus médicos para receitas de tranqüilizantes, porque suas queixas espelham os sintomas de ansiedade ou estresse, para o que os benzodizipínicos (calmantes) são indicados. Essas queixas – nervosismo, ansiedade, insônia e assim por diante – soam para certos médicos como um caso clássico de ansiedade, quando são, na verdade, um reflexo dos estágios iniciais do alcoolismo. Os médicos agem com muita rapidez em alcançar o receituário quando ouvem tais queixas”.

27. Ainda existem muitos preconceitos sobre o alcoolismo, assim seria prudente refletir a afirmação do Dr. Tryon Edwards, disse ele: “Aquele que é possuído por um preconceito é, possuído por um demônio, e uma das piores espécies de demônio, porque ele impede a entrada à verdade e amiúde conduz a um erro penoso”.

28. Sábio seria fazer o que disse Henry David Thoreau: “Nunca É Tarde Demais Para Abandonar Seus Preconceitos”.

29. Um alcoólatra é tão insano que chega a trocar tudo por um copo de bebida: Pais, irmãos, namorada ou esposa, filhos, dinheiro, emprego, casa, automóvel, comida, amigos, conforto, saúde, religião, sua dignidade e a própria vida.

30. O alcoólatra é um enfermo que adoece a família toda. É a doença da desagregação familiar é um vendaval, um furacão, um tornado ou um terremoto sobre as vidas alheias também. Principalmente, sobre os familiares, aqueles que ele mais ama; sobre os amigos, e sobre todos aqueles que com ele convivem. Razão pela qual os familiares deveriam, também, submeter-se a tratamento ou no mínimo participar do Al – Anon ou Alateen. Não existem culpados para o alcoolismo. Lembremo-nos dos 3 Cs.: Você não Causou, logo, não pode Curar, assim, não pode Culpar-se, mas aceitar e partir para a luta. “Um Dia De Cada Vez!”

31. A seguinte estória ilustra bem esta verdade. Um magnata texano promoveu uma grande festa com esta proposta aos convidados:
“Ofereço para quem tiver a coragem de atravessar esta piscina, 10 milhões de dólares, minha melhor fazenda ou minha filha em casamento.
Só que a piscina está infestada por tubarões assassinos, escorpiões subaquáticos e piranhas tão vorazes capazes de arrancar um braço apenas pela sua sombra projetada sobre a água. Alguém daqui deseja arriscar-se? ”
O silêncio fui quebrado por um jovem que desesperado nadava em direção à borda da piscina e dela pulou fora com a maior rapidez possível.
O texano disse ao jovem: – “Você é a pessoa mais corajosa que já conheci. Queres os 10 milhões de dólares?” Ofegante, respondeu: – “Não, não quero os 10 milhões de dólares”.
“Então quer a minha melhor fazenda?” – “Não, também, não”. – “Ah, você é muito mais esperto, quer casar-se com milha filha e herdar tudo?” – “Não, não mesmo de forma nenhuma”.
“Mas, o que quer você então meu jovem?” Resposta: – “Eu só quero saber qual foi o filho da “fruta” que me empurrou para dentro desta piscina”.
Moral da história: Não percamos tempo procurando culpados. Eles não existem. Pulemos fora da mortífera piscina do alcoolismo, hoje mesmo! Amanhã pode ser tarde demais!

TRATAMENTO:

32. Impossível, nesta breve temática, enfocar todas as abordagens terapêuticas. Até porque este não é o objetivo da mesma, de sorte que citarei o mínimo, apenas, o indispensável.

33. Sendo uma doença peculiar e gravíssima, conforme o estágio da mesma, deve-se procurar um Centro ou Clínica de reconhecida seriedade e que disponha de uma competente equipe multidisciplinar, porque multifacetária é a enfermidade. Alcoolismo é assunto para médico especializado em alcoolismo, alcoologista, coadjuvados por profissionais afins com especialização mas, não para amadores, e acima de tudo para Alcoólicos Anônimos.

34. O internamento visa desintoxicação física, avaliação e tratamento de todas as seqüelas emocionais, espirituais, psíquicas, nutricionais, sociais, neurológicas e mentais. Repor sais minerais, vitaminas e hidratação. Prevenir crises convulsivas, delirium tremens (DT), coma ou a própria morte. Início de orientação e conscientização sobre a gravidade da doença e encaminhamento para Alcoólicos Anônimos.

35. Aquele que pode internar-se é um privilegiado. Os benefícios serão maiores. Nesta internação visa-se, além dos cuidados já citados, desmontar os mecanismos de defesa tais como: negação (não assume a doença); projeção (atribui a doença a fatores externos ou a outras pessoas); racionalização (inventa desculpas para beber, as mais estapafúrdias); maximização (aumenta os problemas do dia à dia), minimização (alega que o beber o prejudica, mas nem tanto e que afinal bebe “só um pouquinho”); Isso não é tarefa fácil. Esses mecanismos se desenvolveram tão gradativativamente tal qual o alcoolismo e, se por um lado visam, ainda que ilusoriamente, preservar a auto-estima do doente, por outro lado, se transformam nas mais graves barreiras para a recuperação. Depois deste tratamento a caminhada em A.A. torna-se mais fácil e suave.
(Conheço muitos companheiros que alcançam a sobriedade, apenas freqüentando reuniões de A.A.. Mas, repito, existem casos que a intervenção e o atendimento profissional é premente. Nos primórdios de A.A. os alcoólicos, antes de ingressarem na Irmandade, eram internados. Basta ler o livro “O Dr. Bob E Os Bons Veteranos” para constatar).

36. O alcoólatra vive uma realidade exclusivista. Só dele, pessoal, mas sinceramente iludido. Ele tem sentimentos como: Raiva, medo, culpa, insegurança, tristeza, depressão, etc. Porém, expressa sentimentos opostos como: Amor, coragem, razão, segurança, alegria, euforia, etc. Arroga-se rico, embora falido; amicíssimo das mais graduadas figuras do mundo das artes, das ciências, da política, embora nem as conheça. É polivalente para resolver os problemas do universo, mas inteiramente impotente para resolver os seus próprios; especialmente, o alcoolismo, seu maior calvário. Esta longa vivência ilusória cria-lhe uma máscara encalacrada que o leva a usar de todas as manipulações e desculpas possíveis para que ninguém o desmascare. Isso é fruto da doença e não de canalhice. Para arrancar-lhe esta ‘máscara’ somente com muita habilidade, compreensão, paciência, tolerância e amor de profissionais especializados e companheiros de A.A. com uma certa caminhada.
O alcoolismo está cercada de paradoxos. Vejamos como um alcoólico, do Grupo On-line AA-Sobridade, o descreveu:
“Bebemos buscando a felicidade e encontramos a dor.
Bebemos para ser sociáveis e tornamo-nos briguentos.
Bebemos para ganhar amigos e fizemos inimizades.
Bebemos para libertar-nos e fomos escravizados.
Bebemos para saudar a vida e convidamos à morte”.
“Para a maioria das pessoas normais a bebida significa a libertação da preocupação, do aborrecimento e da ansiedade. É a intimidade alegre com os amigos e um sentimento de que a vida é boa. Mas não foi o que aconteceu conosco, nos últimos tempos”.

37. “Hoje em dia a grande maioria dos alcoólicos acolhe bem qualquer nova luz que possa ser lançada sobre a misteriosa e complexa doença do alcoolismo. Acolhemos bem novos e valiosos conhecimentos, quer provenham de um tubo de ensaio, do divã do psiquiatra ou de estudos sociais. Apreciamos com satisfação toda espécie de educação que informe o público acuradamente e modifique sua opinião a respeito do bêbado.
Cada vez mais consideramos todos aqueles que trabalham no campo do alcoolismo, como nossos companheiros na marcha da escuridão para a luz. Vemos que juntos podemos obter o que nunca poderíamos alcançar em separado ou com rivalidade”.

38. Meu padrinho, companheiro, especial e dileto amigo, de longa e profícua caminhada, o Pe. Guilherme T., diz: “O alcoolismo é a doença da cegueira, impede o alcoólatra de ver-se como doente”.

39. “Cada alma é digna de ser salva; mas …, se tiver que ser feita a escolha, os bêbados são a última classe a se tratar …”.
“Sabemos que enquanto o alcoólico se mantém afastado da bebida, ele geralmente reage do mesmo modo que as outras pessoas. Estamos igualmente convictos de que, quando ele ingere álcool, alguma coisa acontece, tanto no sentido físico como no mental, impedindo-o virtualmente de parar. A experiência de qualquer alcoólico confirmará isso plenamente.
Seriam desnecessárias e acadêmicas essas observações, se o indivíduo nunca tomasse o primeiro gole, pois este é o que põe em movimento o terrível círculo vicioso. De maneira que o problema principal do alcoólico se centraliza em sua mente, mais do que em seu corpo”.

40. Em A.A. se diz: É preferível abordar o alcoólatra quando este pedir ajuda. Concordo em parte com isso. Todavia, existem casos, cujo enfermo já perdeu, pela própria natureza da doença, a capacidade de discernimento. Então, é chegada a hora de uma intervenção habilidosamente conduzida. Esta abordagem deveria ser feita, de preferência, por um membro de A.A.
Realmente, a grande e intransferível missão de abordar, com mais probabilidade de êxito, um alcoólico cabe a um AA. Vejamos o que diz o Dr. Alberto Morales Tobón, alcoologista e psiquiatra, em seu artigo intitulado – A.A. Instituição Ou Milagre:-“… É simplesmente surpreendente como Deus, em seus inefáveis desígnios, escolheu para levar a cabo no mundo a obra redentora de A.A., precisamente um alcoólatra em seu pior estado de degradação. Porque não escolheu um eminente cientista ou um piedoso clérigo, ou ao próprio Bill W., mas em sua época de insigne corretor da bolsa e cavalheiro de Wall Street? Porque escolheu exatamente a outro bêbado, psiquicamente tão degradado como ele para ser co-autor de tão transcendental empreendimento e porque escolheu como cenário o fundo de uma cozinha? Não teria sido mais apropriado o seio de uma Universidade, o recinto de uma Academia ou o ambiente Sagrado de um Templo? Seria por acaso tão miserável aos olhos de Deus, um homem, somente pelo simples fato de estar bêbado? Ou depreciável uma cozinha por acolhê-los em seu seio? Ou será talvez porque os desígnios de Deus aos nossos olhos são indecifráveis, por que só vemos neles as nossas misérias? O tempo veio demonstrando que muitas vezes, por detrás de um bêbado desprezível, se ocultava a figura grandiosa e nobre de um homem!”
Eu acrescentaria, porque será que quando o amor de coração de mãe, de pai, de esposa ou esposo, de filhos, de amigos, de conselheiros espirituais, médicos todos sinceramente empenhados em ajudar, falha? Mas, quando um alcoólatra fala com outro dá mais certo? Simplesmente por causa da identificação. Cada qual atrai seu igual. Apesar de que nem sempre temos êxito imediato. Neste caso valeu o empenho e a certeza de que a semente foi lançada. Um dia poderá ou não germinar. Isso não depende de mim, mas do Poder Superior. Cabe-me apenas lançar a semente. Se ela germinar não é mérito meu, mas se apodrecer não será culpa minha.
Já ouvi centenas de companheiros dizerem o que eu mesmo disse muitas vezes: “Por que não ingressei em A.A. antes?” Penso que o texto seguinte poderia servir como resposta: “Ecl. 3,1-8. Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar, e tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar…; tempo de guerra, e tempo de paz”.

41. Thomas Fleming, Doutor em Medicina citou: “Duvido que alguma vez um alcoólatra desperte, olhe pela janela e diga: ‘Acho que hoje seria um belo dia para procurar reabilitação. Vou ligar para o médico’. Ele pode não estar vendo a arma, mas algum tipo de pressão, forças externas ou sua saúde motiva-o”.

42. O alcoólatra, com raras exceções, só procura o A.A. depois de sucessivas e frustradas tentativas de parar sozinho. Ou até mesmo depois de inúmeras internações hospitalares não levadas a sério (ou internamentos para “tratar dos nervos”- obviamente em hospitais não especializados), e na busca de ajuda em inúmeras denominações religiosas. Ele passa por muito sufoco e aperto. Ele é como a cana. – “A cana só dá o açúcar depois de passar por grandes apertos”.

43. Meu suplício para parar de beber foi assim: Fiz e paguei muitas promessas. Bebi ‘garrafadas’. Fiz caridade para asilos, orfanatos, creches. Troquei de bebidas. Propunha-me beber menos, só em determinados horários ou apenas nos finais de semana. Freqüentei várias denominações religiosas, orientais e ocidentais. Usei, por conta própria, aversivos (Disulfiram). Submeti-me a tratamentos em ambulatórios, clínicas de repouso, porém não especializadas. Prescreveram-me (Benzodiazipínicos) calmantes com os quais desenvolvi tolerância e dependência. Assim, passei a ser um freqüentador também de farmácias. Fiquei dependente de bares e farmácias. (Criei um novo vocábulo “barmácia”).
Até quando alguém me recomendou uma alcoologista. Ela decidiu pelo internamento, urgente, em clínica especializada. Aceitei na mesma hora. Naquele dia apresentei-me no setor de admissão. No dia seguinte acordei cedo. Quis sair do pavilhão para o pátio interno. Porém, a porta estava trancada à chave. Cabisbaixo conclui que eu não estava num hospital, mas numa cadeia. Avistei um quadro verde e, nele com giz, branco, escrevi: A Prisão Que Liberta.

44. Finalmente, cheguei em A.A. “A liberdade que aprisiona”. Onde alcancei e, progressivamente, consolidei a tão desejada sobriedade e serenidade. “Só um dia de cada vez!” Aprendi que só eu posso parar de beber, mas não posso sozinho. Que “o nunca mais vou beber” é efêmero e que o “só por hoje” é duradouro. É suave, não pesa e funciona. Que só se torna alcoólatra quem pode e não quem quer. Que jamais pedi a Deus para ser alcoólatra, logo não preciso culpar-me e nem envergonhar-me desta doença. Apenas tratar-me com seriedade.

45. Aprendi que o segredo consiste em evitar o primeiro gole. Que para mim é impossível controlar a bebida. Que era a primeira e, não a última dose que me destroçava. Que uma dose era demais e vinte ou mil seriam poucas. Aprendi que deveria evitar todos os derivados do álcool. Aprendi que nos primórdios de A.A., o fundo de poço dos pioneiros era muito maior, mas agora cada qual decide o seu próprio fundo de poço, podendo ser bem mais raso. Consegui entender que: “A adversidade é o microscópio que nos ensina a olhar a vida com mais profundidade”.

46. Aprendi que apenas admitir que sou um alcoólico é insuficiente mas, que preciso aceitar este fato nu e cru, com resignação e sem revolta ou auto-piedade. E, que eu deveria render-me. Aprendi que seria sábio se entendesse, admitisse e aceitasse que o tirano álcool me havia derrotado, roubando-me até o domínio da minha vida. E assim, admitindo está impotência, tornei-me forte. Aceitando esta derrota me senti vitorioso. E quando me rendi fiquei livre.

47. Deus foi misericordioso comigo me fez entender já na primeira reunião, que o A.A. seria minha grande saída, a tábua de salvação. Aprendi com a camaradagem e o amor dos companheiros que era importante eu participar das reuniões, ouvir e compartilhar experiências. Que falasse de mim e não dos outros. Que A.A. não é lugar para discursos e muito menos para autopromoção ou controvérsias. Mas, um lugar para recuperação. Sugeriram-me que procurasse ler, entender e praticar os princípios sugeridos para a recuperação individual e convívio na Irmandade. Que sobriedade, de muito longe é só parar de beber, mas uma reformulação e um novo de vida.

48. Aprendi que, se alguém disser para um canceroso: “Evite comer verduras que ficarás curado”, este jamais as comeria e passaria longe dos gramados e nem passaria em frente a um quartel do Exército Brasileiro só porque lá usam roupa verde – oliva. Se, lhe fosse dito: assista duas reuniões mensais e deterás o avanço do câncer, ele participaria de duas diárias. Enquanto que o alcoólatra põe em dúvida muito daquilo que lhe é dito.
Bill, afirmou: “O alcoolismo, não o câncer, é a nossa doença, mas qual a diferença? o alcoolismo também não é o consumidor do corpo e da mente? O alcoolismo leva mais tempo para matar, mas o resultado é o mesmo”.

49. É deplorável, quando um membro de A.A., levando a mensagem num Centro de Tratamento diz: “Graças a Deus, eu não precisei de internamento”. Isso é um descaso ao residente, ele se sentirá um fraco, um verme e, usará isto como argumento para insistir em sua alta.
Costumo dizer ao residente: Você é um privilegiado por estar internado neste Hospital Veja toda a infra-estrutura e profissionais de várias especialidades, que estão aqui ao seu inteiro dispor. Procure aproveitar o máximo possível este internamento. Acate e procure entender as orientações dos profissionais, dos voluntários e membros de A.A. pois, eles só querem somar forças em seu favor. Se você se empenhar estará fazendo um grande investimento em você próprio. Do contrário, estará perdendo tempo. Quanto mais você aprender sobre a doença melhor lidará com ela. Portanto, siga adiante. Não jogue fora esta chance, seria o mesmo que jogar um bilhete premiado no lixo.
No mundo inteiro, todas as Clínicas e Centros de Tratamento e sérios solicitam o apoio de membros de A.A. para auxiliarem na recuperação de seus pacientes. E, recomendam aos que recebem alta, assiduidade nas reuniões e a prática do Programa como o melhor método para a manutenção de uma sobriedade serena e segura. “Na escola da vida não há férias!”
“Os profissionais que perdem a esperança quanto à recuperação de certos alcoólatras, eles reconhecem que, após uma desintoxicação, estes podem conseguí-la e mantê-la pelo processo espiritual oferecido em A.A.”.

50. Para uma reflexão mais adequada, transcrevo partes do Primeiro Passo: “Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém, é claro. Todos os instintos naturais gritam contra a idéia de impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que, com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da Providência pode removê-la. Nenhuma outra forma de falência é igual a esta. O álcool, transformado em voraz credor, nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Uma vez que aceitamos este fato, nu e cru, nossa falência como seres humanos está completa. Porém, ao ingressar em A.A., logo encaramos essa humilhação absoluta de uma maneira bem diferente. Percebemos que somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e ao poder. Nossa admissão de impotência pessoal acaba por tornar-se o leito de rocha firma sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e significativas. Sabemos que pouca coisa de bom advirá a qualquer alcoólicos que se torne membro de A.A. sem aceitar sua devastadora debilidade e todas as suas conseqüências. Até que se humilhe desta forma, sua sobriedade – se a tiver – será precária.
Da felicidade verdadeira, nada conhecerá. Comprovado sem sombra de dúvida por uma longa experiência, este é um dos fatos da vida de A.A. O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura sem que antes admitamos a derrota completa, é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa Irmandade toda.
Inicialmente, ao sermos desafiados a admitir a derrota, a maioria de nós se revoltou. Havíamos nos aproximado de A.A. esperando ser ensinados a ter autoconfiança. Então nos disseram que, no tocante ao álcool, de nada nos serviria a autoconfiança, aliás, era um empecilho total. Nossos padrinhos afirmaram que éramos vítimas de uma obsessão mental tão sutilmente poderosa que nenhum grau de força de vontade a quebraria. Não era possível, disseram, a quebra pessoal desta obsessão pela vontade desamparada. Agravando nosso dilema impiedosamente, nossos padrinhos apontaram nossa crescente sensibilidade ao álcool – chamaram-na de alergia. O tirano álcool empunhava sobre nós uma espada de dois gumes: primeiro éramos dominados, e depois por uma alergia prenunciadora de que acabaríamos nos destruindo. Pouquíssimos mesmo eram os que aflitos desta forma, haviam saído vitoriosos lutando sozinhos. Era um fato estatístico, os alcoólicos quase nunca se recuperavam pelos seus próprios recursos. E assim parece ter sido desde a primeira vez que o homem espremeu as uvas.
Nos primeiros tempos de A.A., somente os alcoólicos, mais desesperados, conseguiram engolir e digerir esta verdade amarga. Mesmo estes “agonizantes” freqüentemente encontravam dificuldades em reconhecer quão poucas esperanças havia. Contudo, alguns o reconheceram, e tendo se agarrado aos princípios de A.A. com o mesmo fervor dos que estão se afogando e se agarram aos salva-vidas, quase que invariavelmente se tornaram sóbrios. É por isso que a primeira edição do Livro Alcoólicos Anônimos, publicado quando éramos poucos membros, tratava somente de casos desesperados. Muitos alcoólicos menos desesperados experimentavam A.A., mas não eram bem sucedidos porque não podiam admitir a sua impotência”.
Bill W., afirmou: “Porque insistir tanto em que todo AA precisa, antes de mais nada, chegar ao fundo do poço? A resposta é que poucas pessoas praticarão sinceramente o programa de A.A. a não ser que tenham atingido o fundo. Pois praticar os restantes onze passos de A.A. requer a adoção de atitudes e ações que quase nenhum alcoólico que ainda esteja bebendo sonharia adotar. Quem se dispõe a ser rigorosamente honesto e tolerante? Quem se dispõe a confessar suas falhas a um outro e a fazer reparação pelos danos causados? Quem se interessa, ao mínimo, por um Poder Superior ou menos ainda por meditação e oração? Quem se dispõe a sacrificar seu tempo e sua energia tentando levar a mensagem de A.A. ao próximo? Não, o alcoólico típico, egoísta ao extremo, pouco se interessa por estas medidas a não ser que tenha de tomá-las para sobreviver”.
E continua ele: “Sob a chicotada do alcoolismo, somos impelidos ao A.A., e ali descobrimos a fatalidade de nossa situação. Nessa hora, e somente nessa hora, é que nos tornamos tão receptivos a sermos convencidos e tão dispostos a escutar como os que se encontram à beira da morte. Prontificamo-nos a fazer qualquer coisa que nos livre da obsessão impiedosa”.

51. Em dado momento o alcoólico poderá indagar: “Como pararei de beber, se já não consigo?” “O que devo fazer?” E nós, ao abordá-lo, lhe responderemos “O que fizemos.” Isso após comentar sobre a gravidade da doença: Incurável, progressiva e fatal, se não detida em tempo. Detalhando que só ele poderá parar mas, não poderá sozinho. Conforme o caso podemos sugerir um internamento em clínica especializada.

52. Amigo, se você procurava uma solução para seu alcoolismo, já encontrou. “Fique E Participe Conosco!”
“Mas se ainda achar que é suficientemente poderoso para ganhar no jogo da vida sozinho, é assunto seu. Porém, se realmente desejar abandonar a bebida de uma vez para sempre, e sinceramente achar que precisa de alguma ajuda, sabemos que temos uma solução para você. Nunca falha, se dedicar ao nosso programa a metade do entusiasmo que você costumava dedicar à procura da próxima bebida. Seu Pai Divino jamais o Decepcionará!”
“Raramente temos visto fracassar uma pessoa que cuidadosamente seguiu nosso caminho. Os que não se recuperaram é porque não podem ou não querem se entregar completamente a este programa simples. Geralmente, homens e mulheres que, pelas suas constituições, são incapazes de serem honestos consigo mesmos. Existem tais desafortunados. Eles não têm culpa; parecem ter nascido assim. São, por natureza, incapazes de desenvolverem um modo de vida que requeira rigorosa honestidade. Suas “chances” são menores que o comum. Existem, também, aqueles que sofrem de graves desequilíbrios emocionais mentais, embora muitos se recuperem por ter a capacidade de serem honestos. …
Frente a algumas, nós recuamos. Pensamos poder encontrar maneira mais fácil. Porém, não podemos. Com toda sinceridade, imploramos que leve a sério o programa desde o início, alguns de nós tentamos apegar-nos às nossas velhas idéias. O resultado foi nulo e nos rendemos completamente.
Lembre-se que estamos tratando do álcool – destro, frustrador, poderoso! Sem ajuda, é demais para nós. Mas existe Um que é todo – poderoso. Esse Um é Deus. Que O encontre agora”.

53. Concluo fazendo minhas, as palavras de um companheiro, muito querido e de saudosa memória, afirmou ele: “Dai porque havendo aprendido isso. A vergonha que tive durante anos a fio de ser um alcoólatra, transformou-se em um desafio. Desafio de quem teve ainda um Poder Superior para abrir-lhe os olhos. E fazer com que por pouco, embora, pudesse lutar contra sua própria doença, que não tem remédio. Apenas, com um segredo tão pequeno que parece grotesco. Não beber hoje! Só hoje! Hoje não! Talvez amanhã. – Quem sabe! Com a satisfação de não ter passado. De saber que as coisas que se foram, foram e não voltam. Com a alegria de ter presente. E sobretudo com a esperança de que o presente de hoje, passado de amanhã seja a alavanca que leva a mim e aos meus companheiros para um dia feliz, para um encontro tranqüilo, em um lugar onde, certamente, o álcool não existirá nem será problema. Aprender afinal, e esquecer. Aprender afinal, a perdoar. Aprender afinal, a entender o estranho fato depois de tanto tempo, quando já começa a chover prata em meus cabelos, que existe uma Irmandade tão impressionante, que é inacreditável por si mesma. Uma Irmandade que não tem presidente, que não tem secretário e que não tem tesoureiro. Uma Irmandade que não tem carteira social, uma Irmandade que não pede dinheiro a ninguém e que não aceita doações. E que apesar disso e, talvez por isso, ligada apenas pela alegria da sobriedade sobrevive hoje em mais de 180 países do mundo. Apenas pela tranqüilidade de só hoje, hoje só e só hoje, mais uma vez não beber.
Como estou agora! Honradamente alcoólatra. Confessadamente alcoólatra. Assumidamente alcoólatra. Na ajuda dos irmãos, dos companheiros. Tentando, junto com aqueles que já estão neste caminho da luta contra o alcoolismo, levar aos que não encontraram esta vereda um pouco de facho para iluminar a saída do fundo do seu poço. Se de um lado lamento que só encontrei o A.A. aos trinta e sete anos de idade, também é verdade que dou glórias por havê-lo encontrado. Poderia não haver acontecido.
E o que falta ainda a mim? Os companheiros, aqui presentes, sabem que o alcoólatra, normalmente, perde tudo. Perde emprego; perde família; perde amigos; perde o respeito por si próprio. E sobretudo perde a esperança na vivência que virá. Então nós todos poderíamos nos louvar em duas colocações. A primeira de autor anônimo que vi escrita, um dia no fundo de uma cela, de um doente também. Escrita a carvão, em uma parede clara. Dizia este escrito o seguinte: ‘Estive doente, doente de tudo, dos olhos, da boca, dos nervos até. Dos olhos que viram mulheres tão lindas, da boca manchada de fumo e café. Estive doente, não posso pensar, eu quero um punhado de estrelas maduras, eu quero a doçura do verbo viver’. E em complemento o que me falta. Na alegria da minha sobriedade que, até este momento, foi mantida. Só por hoje! Que será ontem amanhã. Valeria apenas dizer que falta muito pouco. Na palavra do poeta ainda: ‘Tudo passa dor e riso, venturas em róseo friso, males que em roxo debruam. Passam deuses e criaturas, horas azuis ou horas escuras, nuvens que alto flutuam. Tudo passa, gesto e face mas, a esperança sempre renasce e as rosas continuam’”.

54. “Ninguém poderá desfrutar das coisas sagradas enquanto não estiver limpo.”
Desejo a todos, êxito na recuperação. A cada vinte e quatro horas consolidando a abstinência. Para chegarmos na sobriedade, na serenidade, na alegria e na felicidade, através de A.A.

55. Humildemente, sugiro aos companheiros, estudarem e praticarem a programação de A.A., contida na Literatura que está disponível nos Grupos e nas Centrais pelo preço de reposição.

56. Incluí versículos bíblicos, pertinentes a este Passo, para um maior enriquecimento do tema, porém, sem nenhuma conotação religiosa.

1Tm. 6,3-5. “ … É cego, não entende nada, é doente à procura de discussões e brigas de palavras. É daí que nascem invejas, brigas, blasfêmias, suspeitas, polêmicas intermináveis, …”

I Co. 11,21. “… e assim um fica com fome e outro se embriaga”.

I Sm. 1,14. “E lhe disse: Até quando estarás tu embriagada? Aparta de ti o teu vinho”.

Eclo. 19,2-3. “Operário beberrão nunca ficará rico. Vinhos e mulheres fazem perder o bom senso, …”
Ef. 5,18. “Não se embriaguem com vinho, …”

Gn. 19,32-36. “Vamos embriagar nosso pai para ter relação com ele. … Nessa noite, elas embriagaram o pai e a mais velha deitou-se com ele, que não percebeu nem quando ela se deitou, nem quando se levantou….“Na noite passada eu dormi com meu pai; esta noite, nós o embriagaremos de novo, e você se deitará com ele; … Também nessa noite, elas embriagaram o pai, e a mais nova deitou-se com ele, que não percebeu nem quando ela se deitou, nem quando se levantou. E as duas filhas de Ló ficaram grávidas do próprio pai”.

Gn. 9,20-25. “Noé, bebeu o vinho, embriagou-se e ficou nu dentro da tenda. Cam, o antepassado de Canaã, viu seu pai nu e saiu para contar a seus dois irmãos. Sem e Jafé, porém, tomaram o manto, puseram-no sobre seus próprios ombros e, andando de costas, cobriram a nudez do pai; … Quando Noé acordou da embriaguez, ficou sabendo o que seu filho mais jovem tinha feito. E disse: Maldito seja Canaã. Que ele seja o último dos escravos para seus irmãos’”.

Is.5,11. “Ai dos que se levantam cedo para correrem atrás da bebida forte e continuam…”.

Is.5,22. “Ai dos que são poderosos para beber vinho…”,

Is.19,14. “… bêbedo vai cambaleando no seu vômito”.

Jl..1,5. “Despertai, bêbedos, e chorai; gemei, todos os que bebeis vinho, …”

Jr. 25,16. “Beberão, e cambalearão, e enlouquecerão,”

Pr. 20,1. “O vinho provoca insolência, e o licor causa barulho: quem se embriaga com eles não chega a ser sábio”.

Pr. 23,20. “Não estejas entre os beberrões de vinho,”

Pr. 23,29-35. “Para quem são os gemidos? Para quem os lamentos? Para quem as brigas?…”.

Pr. 31,4-5. “… Não convém aos reis, beber vinho, nem aos governantes gostar de bebidas alcoólicas. Porque eles bebem, acabam se esquecendo da Lei e pervertem o direito dos pobres”.

SL. 107,27. “Balançam e cambaleiam como ébrios, e perdem todo o tino”.

Bibliografia: “Alcoolismo Os Mitos e a Realidade” – R. Milam, James e Ketcham, Katherine. “Alcoolismo o Que Você Precisa Saber” – M. Lazo, Donald. “Repercussões do Álcool e do Alcoolismo”- Soares Vargas, Heber. “O Tratamento do Alcoolismo” Edwards, Griffith. “Coletânea vol. I e II” – F., Aluízio. “Alcoolismo Doença no Mundo do Direito” – Régis Fasbender Teixeira, João. “O Caminho Dos Doze Passos” – Jonh E. Burs. , “Os Doze Passos” – W., BIll. “ Livro Azul Edição Brasileira”- Livro Azul Edição Portuguesa”. “Na Opinião Do Bill, “O Dr. Bob e Bons Veteranos”, “Textos obtidos nos Grupos Online: AA-Sobriedade e AABR”, “O Pequeno Príncipe” – .Antoine de Saint-Exupéry e “Sagradas Escrituras

O Primeiro Passo

Quando somos confrontados com nossa impotência perante agentes externos que dominam nossas vidas, com fatos duros e irreversíveis, com as grandes perdas, nos sentimos sem chão, chocados, desgovernados, na medida em que projetos,expectativas, crenças sobre controle e merecimento são sacudidas, atropeladas…
Ficamos com a impressão que esbarramos numa muralha, que esse é o fim do caminho traçado por nossos sonhos de uma vida significativa e feliz. Tentamos tudo; negamos essa realidade simplesmente não conseguindo enxergá-la.
Depois, buscamos anulá-la barganhando com os outros, com a vida e com Deus; alternamos horror, dor, medo, vergonha, culpa, raiva – até nos esgotarmos perdendo energia, força e saúde; entramos em depressão e, por fim, até nos conformamos (aquela conformação sem aceitação, com mágoa, raiva surda, cheia de inconformação). Ficamos aparentemente paralisados, bloqueados, mas como a vida é dinâmica, na verdade, permanecemos nos movendo num círculo vicioso, aprisionante, até que uma nova perspectiva de saúde e libertação pudesse aparecer.
Com nossa Programação tivemos essa oportunidade. Passos nos foram sugeridos e apontavam uma nova direção; sugeriam novas crenças sobre possibilidades e responsabilidade. Pudemos entender e reconhecer nossa impotência. Não fomos incompetentes quando não pudemos controlar o incontrolável – éramos apenas impotentes! E ao tentarmos durante tanto tempo o impossível, havíamos perdido o controle de nossas vidas!
O Passo 1 é o passo do redirecionamento do nosso olhar, do nosso foco de atenção. É o passo do desengano e da desilusão sobre o poder e controle daquilo ou daqueles que estão fora de nós, Ele nos leva a substituir nossa onipotência e tola arrogância pela humildade de refletir e admitir o que, na realidade, eu posso ou não posso modificar.
O Passo 1 trás também como conseqüência um desligamento respeitoso que preserva nosso espaço e o dos outros. O espaço necessário para podermos exercer nosso verdadeiro poder – sobre nossas vidas. Com a rendição, a submissão à realidade, sobra-nos energia, coragem para modificar o que podemos (nós mesmos) e humildade para buscar ajuda num Poder Superior.
A nós cabe, um dia de cada vez, fazer a opção de por-nos em ação, iniciando com esse Passo a caminhada para uma vida melhor, mais amorosa, real ,mais livre.
E essa é uma incrível e maravilhosa jornada!

PRIMEIRO PASSO
“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o governo sobre nossas vidas”
“Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém, é claro. É verdadeiramente terrível admitir que, com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da Providência poderá removê-la.
Nenhuma outra forma de falência é igual a esta. O álcool, transformado em voraz credor, nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Uma vez que aceitamos este fato nu e cru, nossa falência como seres humanos está completa.
Porém, ao ingressar em A.A. logo encaramos essa humilhação absoluta de uma maneira bem diferente. Percebemos que somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e ao poder. Nossa admissão de impotência pessoal acaba por tornar-se o leito de rocha firme sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e significativas.
Sabemos que pouca coisa de bom advirá a qualquer alcoólatra que se torne membro do A.a. sem antes aceitar sua devastadora debilidade e todas as suas conseqüências. Até que se humilhe desta forma, sua sobriedade – se a tiver – será precária. Da felicidade verdadeira, nada conhecerá. Comprovado por uma longa experiência, este é um dos fatos da vida de A.A. O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura sem que antes admitamos a derrota completa, é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa sociedade toda.”

Ao chegar em A.A. não foi difícil admitir minha impotência perante o álcool, pois, muito antes de concordar em ir a uma reunião de A.A., eu já havia admitido a minha incapacidade para o beber. Eu não sabia que o alcoolismo era uma doença e muito menos, que a doença estava relacionada com o meu desequilíbrio emocional, o que me levava ao copo.
Ao deparar-me com o Primeiro Passo, que sugere que eu havia perdido o domínio de minha vida, então entendi que meu problema estava resolvido, pois, havia parado de beber e minha vida voltaria ao normal. Só que isso não aconteceu. Eu estava evitando o primeiro gole, freqüentando às reuniões e prestando serviços ao grupo, mas o meu comportamento junto a família e a sociedade como um todo, havia mudado muito pouco. Porque? Esta era a pergunta. Então comecei a observar o programa de recuperação com mais atenção e ao estudar o Primeiro Passo novamente, pude perceber que o meu problema era porque eu pratiquei o Primeiro Passo pela metade – eu havia apenas admitido minha impotência perante o álcool e não a perca do domínio da minha vida. Eu não sabia que a perca do domínio estava ligada aos meus defeitos de caráter, pois, eles eram aflorados quando eu bebia. Certa vez numa discussão sobre o Primeiro Passo, um companheiro disse que em seu entendimento, “o álcool era vítima, tanto quanto o alcoólico, pois, tudo que acontecia com o alcoólico, a culpa era do álcool.” Isso me fez refletir e percebi que às vezes eu agia como se ainda estivesse bebendo e cheguei à conclusão que o motivo era porque eu não tinha feito nada para mudar o meu comportamento e sem perceber, eu agia com total desequilíbrio.
Este desequilíbrio está ligado aos meus defeitos de caráter que são: Orgulho, avareza, inveja, preguiça, luxúria, ira e gula. Esses defeitos me levaram a perca do domínio de minha vida. Portanto, para que eu consiga algum progresso na busca do equilíbrio emocional, é necessário que eu aceite a perca do domínio de minha vida, pois, só assim, praticando o Primeiro Passo na íntegra, eu terei coragem e humildade suficientes para continuar fazendo o programa de recuperação.
Refletindo sobre o desequilíbrio emocional, percebemos que a maioria de nós, alcoólicos, já cometemos e ainda continuamos cometendo desatinos em nossa vida, como por exemplo: Impondo nossas opiniões aos outros; maltratando as pessoas por pura arrogância; agindo com desonestidade diante dos compromissos; fazendo dívidas sem planejamento, para atender os desejos descabidos; tratando as pessoas de acordo com a nossa conveniência; se envolvendo em fofocas; julgando e criticando as pessoas; ficando irado quando o nosso ponto de vista não é aceito; não respeitando o direito dos outros; não admitindo os próprios erros; etc.
Isso tudo acontece porque não aceitamos a perca do domínio de nossa vida. Porém, estando em A.A. temos condições de reverter este quadro com a prática dos Doze Passos.
ALGUNS TÓPICOS PARA REFLEXÃO E DISCUSSÃO
Como estou?
• Estou tratando meus familiares da mesma forma que trato meus companheiros(as) de A.A., dando-lhes a mesma atenção?
• Aceito meus companheiros(as) de A.A. como eles são, ou tento mudá-los?
• Estou conseguindo controlar minha raiva, ou continuo como antes não levando desaforo para casa?
• Sinceramente, estou sendo honesto e responsável com os meus atos, ou tento manipulá-los?
• Continuo querendo que a minha palavra seja a última?
• Tento impor meus conhecimentos aos meus companheiros de A.A.?
• Tenho sido tolerante e tratado meus companheiros como companheiros ou já esqueci que são eles que dão suporte à minha sobriedade?
• Ajudo os companheiros(as) a fazer os serviços do grupo ou apenas critico os que fazem?

“PRIMEIRO PASSO: SUPERAR O ORGULHO”
Eduardo Mascarenhas, Médico-Psicanalista.

Durante 50 anos de experiência na recuperação de alcoólatras, os Alcoólicos Anônimos ganharam a convicção de que só é capaz de se libertar solidamente do álcool quem fizer profunda reformulação de sua personalidade. Para alcançar essa reformulação, cumpre percorrer aquilo que, no programa de recuperação adotado pelos AAs, ficou conhecido como os DOZE PASSOS.
Esses DOZE PASSOS constituem um guia, uma meta ideal. Nenhum A.A. conseguiu atravessá-lo completamente, mas tentar segui-los é uma forma de se esforçar permanentemente por um aperfeiçoamento pessoal.
Com todo respeito pela literatura dos AAs, vou me permitir descrevê-lo com as minhas palavras, tal como eu o entendi.
O PRIMEIRO PASSO é a pessoa superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer o quanto quer. Não é mais sua mão que procura o copo, mas o copo que a atrai. Ela não tem mais controle sobre o álcool, está dominada por ele.
O primeiro passo é a pessoa se dizer: “ basta de empulhação! Chega de desculpas esfarrapadas! Não posso mais continuar dizendo o dia que eu quiser eu paro de beber. Até paro, mas só por uns dias, um mês, por um ano. Depois volto à bebida com apetite redobrado”.
Por incrível que pareça, dar esse Passo é dificílimo. Primeiro porque é angustiante mesmo admitir que se está perdendo o controle sobre algo que gera tão sérias conseqüências para a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas teimam em considerar o alcoolismo não como uma doença, mas como fraqueza de caráter ou falta de força de vontade. Se muita gente já se sente humilhada em ter uma doença que é considerada como falta de vergonha na cara.
Pau d’água, degenerado, cachaceiro, bêbado, porrista e pé-de-cana são expressões que adquiriram colorido insultuoso e que só servem para reforçar o estigma que paira sobre o alcoolismo. É importante acreditar que existe tratamento para o alcoolismo, mas não apenas tratamento químico e impessoal. Às vezes, é mais fácil tomar injeção na veia, entregar o coração para uma Ponte de Safena ou a cabeça para um Valium do que confiar numa pessoa ou num Grupo de pessoas para realizar tratamento que exige certo grau de entrega pessoal.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passe na frente ou é profundamente cientista. Médicos, cirurgiões e neurologistas não são vistos como pessoas, mas como sacerdotes da técnica. Os seres humanos com seus poderes pessoais ficam excluídos tanto pela fé infantil aos milagreiros quanto pela fé igualmente infantil na parafernália dos laboratórios, cheios de tubos de ensaio. O difícil mesmo é ver gente confiando em gente.
A resistência aos Alcoólicos Anônimos passa por aí. Já houve resistências idênticas em relação à psicanálise. Aos trancos e barrancos, a psicanálise conseguiu infiltrar-se na cultura, e hoje é até chique recorrer a um psicanalista. Mas os AAs oferecem ajuda gratuita, suas reuniões não são coordenadas por “doutores”, portanto têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Além disso, o Anonimato de seus membros impossibilita que se tornem célebres, dando entrevistas ao FANTÁSTICO.
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Às reuniões dos Grupos comparecem pessoas das mais diversas camadas sociais. Ora, quem tem grana não gosta de se “misturar”. Tem medo de que pobreza pegue, e como não sabem o que vão encontrar lá, temem ficar diante de mendigos, cachaceiros e de pés-inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classes sociais menos favorecidas também tendem a se intimidar com esse tipo de encontros, pois não estão acostumadas a conviver democraticamente com endinheirados. Mas que vale a pena, isso vale.

A honestidade necessária

Desde muito cedo tive contato com o álcool. Lembro-me vagamente de um dia, devia ter sete ou oito anos de idade, num casamento, ter bebido o resto dos copos de vinho do Porto que se encontravam em cima das mesas e de ter ficado alterado. Essa foi, sem dúvida, a minha primeira experiência. Seguiram-se outras, uma das quais grave, aos dez anos. Estava a brincar em casa de um colega de escola e lembramo-nos, sem mais nem por quê, de assaltar a garrafeira do pai dele. Bebemos de tudo um pouco, pelo gargalo das garrafas e nem faço uma pequena idéia da quantidade que bebemos nem das misturas que fizemos. Cheguei a casa num estado que toda a gente reparou e, para agravar, os meus pais tinham visitas. Nunca imaginaram que eu tivesse bebido mas que estava com outro problema. Claro que o meu pai, assim que se aproximou mais de mim descobriu logo. Levaram-me para o hospital já em coma alcoólico. Depois deste triste episódio, não me lembro de ter continuado a beber até aos 15 anos, quando comecei a trabalhar. Então, bebia regularmente às refeições e, normalmente, embebedava-me aos fins-de-semana quando ia às discotecas. O álcool, desinibia-me junto das miúdas. Era um procedimento normal pois, a maioria dos meus amigos fazia o mesmo e eu não era uma exceção à regra.
Os anos foram passando e aos 17 fui para a tropa. Como tinha de estudar, controlava-me mais, pois não conseguia decorar a matéria se estivesse com os copos, mas já notava que me custava estar sem a bebida. Muitas vezes, dava por mim a pensar no vinho e na cerveja sem motivo aparente. Tinha também a sensação de que o tempo nunca mais passava, para chegar ao fim de semana e poder apanhar uma daquelas “de caixão à cova”, como lhes chamava. Também era da praxe, no meu grupo de amigos, fazer uma pequena celebração depois de qualquer teste – era mais um motivo para bebermos até não poder mais. E assim foram passando os anos.
Entretanto embarquei. O culto do álcool estava mais presente do que nunca e eu, como seu adorador, fazia questão de não ficar de fora. Claro que, com estes comportamentos, começaram a surgir os problemas a nível profissional. Nessa altura, as pessoas que trabalhavam comigo alertavam-me, diziam que assim não podia ser, que eu até era bom rapaz mas, que com a bebida estragava tudo, que a minha função era de muita responsabilidade… Enfim! Coisas a que dava valor na altura mas, passados dois dias, lá estava a repetir as mesmas proezas. Na maior parte das vezes, a minha intenção não era embebedar-me deliberadamente, apenas confraternizar com um amigo ou dois depois do serviço mas, o que é certo, é que quando começava já não conseguia parar. Claro que, no outro dia não me lembrava de grande parte das coisas que tinham acontecido. Sentia culpa, uma angústia enorme e medo de encarar as pessoas. Por vezes, aproximava-me das que me lembrava vagamente de terem estado comigo no dia anterior e pedia-lhes desculpa, envergonhado. Enfim, uma vida triste e de sofrimento. Nessa altura (1988), já tinha a noção do meu problema com a bebida, não sabia era a maneira de o resolver.
Mais tarde casei e nasceram dois filhos desse casamento. Quando bebia, procurava sempre que os meus filhos não presenciassem o pai com os copos; (também sou filho de um pai alcoólico, felizmente em recuperação, já lá vão 17 anos. Sei bem o que sofri e a sensação que tinha ao ouvir a porta da rua a abrir-se quando ele chegava). Para isso, fazia malabarismos do arco-da-velha. Comecei a beber quando estava de serviço, quando navegava, quando ia à pesca, muitas vezes também depois de jantar mas, mesmo assim, muitas das vezes e por muito que me esforçasse, não conseguia evitar que eles vissem. Foi por amor a eles e por já não conseguir viver com o álcool nem sem ele, que falei com a minha irmã e o meu cunhado e lhes contei toda a verdade. Não sei onde descobri ou quem descobriu o sítio das reuniões mas, o que é certo, é que no dia 5 de Julho de 1998, salvo erro num domingo de manhã, estava a entrar pela primeira vez numa sala de Alcoólicos Anônimos. Receberam-me com simpatia e disseram que eu era a pessoa mais importante nessa reunião, situação que me embaraçou um bocado pois queria passar despercebido. Lembro-me de ter dito quem eu era e por que razão ali estava. A sensação imediata que tive, foi de um alívio extremo, a opressão que tinha no peito desaparecera. Talvez por estar a confessar “os meus pecados” e o que tinha de mais íntimo a pessoas que nunca tinha visto na vida. Não sabia se elas iriam contar a alguém quem eu era na realidade. Senti, de fato, que tinha dividido os meus problemas, o que me agradou bastante. Continuei a ir às reuniões e cada vez me identificava mais com as pessoas que lá estavam. O meu cérebro foi descongestionando, 24 horas após 24 horas, e já conseguia rir com vontade. Comecei a olhar para a vida com outros olhos, a minha auto-estima foi aumentando, comecei a ter mais cuidado com a minha aparência e melhorei a atitude para com os outros. Isto, porque comecei a fazer o que os companheiros me sugeriam, a tentar concretizar um passo de cada vez, umas vezes melhor outras pior, mas sempre a tentar. Fui-me mantendo nas reuniões, fazendo algum serviço e tudo corria bem, até à altura em que a minha mulher me fez a proposta de comprar uma pastelaria, o que recusei logo. Expliquei-lhe que tinha medo de lidar com o “veneno” o dia todo, o que era perigoso para mim. Mas a idéia já estava na cabeça dela e nada a demovia do objetivo. E, para que um dia os meus filhos não dissessem que não tinham mais porque o pai não tinha querido evoluir, lá condescendi e o negócio foi para a frente. Claro que isso teve as suas conseqüências. Trabalhava até as 16.30 horas no meu serviço e depois ia para a pastelaria até às 24 horas. Fiquei sem tempo para ir às reuniões e fazer serviço, mas mesmo assim, muitos companheiros de A.A. passavam pela pastelaria para verem como eu estava, para me darem fé, força e esperança e me fazerem um pouco de companhia. Lia muitas vezes a literatura de Alcoólicos Anônimos e não bebia. Entretanto, outra prova de fogo estava para vir – tinha de embarcar novamente! Os fantasmas do passado vieram ao de cima, os petiscos, as festas. Toda uma série de pensamentos obscuros me assaltava constantemente mas, eu estava convicto de que se conseguia lidar com o “veneno” no dia-a-dia, também conseguiria dar-me bem quando chegasse a altura de navegar e, assim foi.
Entretanto, a minha vida deu muitas voltas. Vendi a pastelaria, divorciei-me, mas consegui resolver todos estes problemas e continuar sóbrio. Há três anos, casei novamente. Vida nova, casa nova, carro novo. Foi começar do zero. Estava feliz e sentia amor por alguém, coisa que era muito difícil acontecer no passado. Falava de quase tudo com a minha mulher, nunca discutíamos, ajudava-a no que fosse preciso e era amigo dela mas, havia uma coisa que me atormentava. Nunca lhe tinha dito quem eu era na realidade, que sou alcoólico. Para mim, a minha cabeça doente dizia: “Isso faz parte do passado, agora tens outra vida, outra mulher. O passado está definitivamente enterrado “. Havia porém, situações em que me sentia perturbado. Nos almoços de família, o meu sogro que gosta de beber uns copitos, dizia-me – “Vá, que isto até dá vida aos mortos!” eu ria-me e recusava. Como faço desporto, desculpava-me dizendo que isso era incompatível e lá me safava. Depois, as pessoas iam-se habituando e deixavam de insistir. De vez em quando a minha mulher, no desconhecimento da minha doença, perguntava-me às refeições: Então, não vai uma pinga da boa para acompanhar? Respondia-lhe que se bebesse, me cresciam os dentes e as unhas como aos lobos e a conversa parava por ali. Mas todas estas situações ficavam cá dentro, a serem “cozinhadas” na minha cabeça doente, e eu sem ver!
Um dia, à mesa, a minha mulher tinha um belo vinho para o seu almoço e, sem saber como nem porquê, peguei no copo, levei-o à boca e provei. A sensação nem foi de culpa, por estranho que pareça pois, inconscientemente, eu já me estava a mentalizar que talvez fosse uma pessoa normal (isto, imagine-se, depois de tudo o que li e de tudo por que passei!). Tinha uma companheira nova, iria ser tudo diferente mas enganei-me. Lembro-me de beber os três primeiros copos de seguida, compulsivamente, como se tivesse de recuperar o tempo perdido. Também me lembro de beber whisky e vodka. Já não era eu, era outra pessoa que não eu. Assolava-me a depressão no dia seguinte. Maiores que as dores de cabeça, eram as dores na Alma. Ao fim de quase nove anos de sobriedade, tinha recaído. Todo um trabalho deitado por terra. Os medos novamente, as sensações indescritíveis, uma angústia de apertar o peito. Poder-me-ia ter ficado de emenda, mas não. Repeti-o ainda mais umas dez vezes; urinei sangue e passei por situações vergonhosas até a minha mulher me dizer que, realmente, “me cresciam os dentes e os pelos do corpo, que não era aquela pessoa com quem se tinha casado, que queria o marido dela de volta”. E foi assim, entre lágrimas e grande tristeza que resolvi ser HONESTO com Deus e com ela. Contei-lhe tudo o que até aqui transcrevi. Não foi fácil mas, novamente se acercou de mim a sensação que tinha tido na primeira vez que entrei em Alcoólicos Anônimos, a sensação de paz e de tranqüilidade – partilhei a história da minha vida com companheiros que nunca tinha visto. Por coincidência ou por algo que não sei explicar, nos dias seguintes encontrei dois companheiros de AA que não via já há alguns anos e contei a um deles o que se tinha passado,”que me tinha ido abaixo”. Virou-se para mim e disse-me simplesmente isto – “Nós só temos dois caminhos, a sobriedade ou a morte”. Com toda a certeza, não quero a morte.
Dois dias depois, estava novamente junto dos companheiros de Alcoólicos Anônimos que, mais uma vez, me receberam de braços abertos. Se quero parar de beber e crescer em sobriedade, de certeza que é com eles que consigo pois, SOZINHO NUNCA FUI CAPAZ.

PORTA ABERTA , ENTRE SEM BATER
COMPARTILHANDO OS PASSOS

Força é a capacidade interior de resistir às dificuldades, às perdas, às desilusões e às pressões.
Força é ter coragem de enxergar os erros e assumi-los.
É não guardar ressentimentos, raiva, não ser vingativo.
É quando descobrimos que somos em Deus e não precisamos provar nosso valor aos outros.
As dores físicas, mentais e espirituais têm sobre nós um efeito contrário quando admitimos nossa fraqueza, nossa impotência, nossa perda de domínio ante os efeitos do álcool.
Fazemo-nos fortes quando acreditamos num Poder Superior a nós mesmos. O qual rege nossa existência. “Se Ele nos deu um limão… façamos uma doce limonada…”
De formas diferentes resistimos à fragilidade, buscamos força e procuramos viver. Resistir, negar ou dissimular nossa fraqueza faz parte do jogo da existência.
Infelizmente, o senso comum insiste que pessoas fracas não devem ter espaço. É a lei da natureza que seleciona a raça e privilegia os genes mais notáveis, daí as demonstrações mais bizarras de força se apresentam com mais veemência no tom de voz, na simetria da estética, nos poderes sociais, nos processos ilusórios do ter, do ser e do poder.
É bem ai que nos descobrimos como de fato nós somos: imperfeitos, eternos aprendizes e viajantes de um mundo onde o nosso amor próprio, o orgulho, a vaidade, muitas vezes falam mais alto que o bom senso e a coragem para viver e lutar pelo que de fato buscamos: a sobriedade!
Nesta nossa caminhada temos aprendido em quantas situações somos fracos e impotentes, mas também aprendemos e buscamos força para exercer uma influência positiva sobre nós mesmos, sobre as pessoas que amamos e o mundo em que vivemos.
1º Passo:
Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
“A força nascendo da fraqueza”

Pode-se perceber, com nitidez, que nos tempos atuais a tecnologia que desponta se apresenta como uma nova divindade. Uma tecnologia fascinante que aproxima pessoas e eventos distantes, mas que por vezes separa aqueles que estão próximos. Um paradoxo contemporâneo que já nos habituamos como um reflexo da modernidade ou como algo muito normal.
Cada vez mais as máquinas se tornam interativas e o contato pessoal mais distante. O perverso e doentio desta nova ideologia é que somos levados a aceitar como naturais e verdadeiros os valores que estão nos objetos externos.
Observamos que dentro do atual espírito consumista os remédios compensam qualquer dificuldade, as drogas e o álcool substituem contato e o conforto humano.
Pois é justamente o contato interpessoal, esta relação intersubjetiva, que se constitui, em Alcoólicos Anônimos a base de nossa recuperação.
Pode-se, em princípio, ter a impressão que a nossa Irmandade está na contramão da história, quando na realidade é a sociedade atual que se encontra na contramão do bom senso e da sanidade.
A nossa época já foi definida por um historiador como a “Era do Narcisismo”. Uma sociedade de pessoas egocêntricas e solitárias.
Na minha vida o alcoolismo se tornou um mergulho para dentro de mim mesmo, não como o sentido de reflexão e autoconhecimento, mas com a característica de isolamento e solidão.
Eu me sentia em constante contrate com a sociedade de um modo geral. Era antes de tudo um solitário limitado pelas minhas próprias contradições. Tinha uma personalidade em constante conflito comigo mesmo e com o outro e desta forma o álcool se tornou um anestésico para camuflar esta realidade e uma muleta para compensar minhas inadequações.
Havia me tornado um ser atormentado por desejos ardentes e tristes pesares. Sentia, diante da vida, uma fraqueza, sem força para me reerguer.
Meu ingresso em Alcoólicos Anônimos possibilitou-me verdadeira transformação na situação em que me encontrava. Da fraqueza nasceu a força que tanto necessitava através do acolhimento e carinho tão característicos em quaisquer grupos de A. A. , os quais me encantaram desde o primeiro momento.
Percebi que se tratava de uma Irmandade muito especial. Um grupo com um propósito comum no qual aprendi a conviver com o outro. A conviver com as diferenças que caracterizam uma sociedade verdadeiramente democrática.
Convivemos com diferentes pessoas respeitando os seus respectivos valores e suas maneiras próprias de encarar a vida.
Em A. A. temos a oportunidade de conhecer pessoas diversas, com personalidades distintas, com experiências alcoólicas bastante pessoais, mas que almejam um único objetivo comum: a libertação da servidão que o alcoolismo impõe.
Como Dr. Bob ressaltou: “O álcool é um grande nivelador de pessoas e A. A. também.” Nossa Quinta Tradição estabelece que A. A. tem um único propósito primordial o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre.
Bill declara em um artigo de 1946: “O primeiro registro por escrito da experiência de A. A. foi o livro Alcoólicos Anônimos, que abordou o âmago do nosso maior problema a libertação da obsessão pelo álcool.”
A questão que se põe, no entanto é: – qual é a função primordial do hábito de beber de forma obsessiva?
Antes de obter o prazer, a finalidade principal é a de evitar em pensar e a de evitar o sofrimento. O alcoolismo é então uma tentativa de não sentir a dor existencial. É uma negação da própria condição humana.
É compreensível, portanto que o alcoólico ao negar em princípio, seu próprio alcoolismo expresse, de forma subjacente, uma fragilidade e um temor ao sofrimento, um sofrimento que no meu caso antecedeu o hábito de beber. Percebendo este quadro senti a necessidade de entrar em ação para reverter aquele ciclo vicioso. Precisava adquirir uma força partindo da minha própria fraqueza.
De início uma noção da realidade: a consciência da impotência diante da obsessão pelo álcool e a aceitação de que apesar de ser uma doença incurável é perfeitamente tratável, podendo, portanto ficar inteiramente sob controle.
E assim, a partir do Primeiro Passo, adquiri a força necessária seguindo as sugestões do mesmo.
Vivo o presente dentro do plano das 24 horas. Através do inventário pessoal faço uma releitura do passado tentando tirar o melhor proveito das circunstâncias, ainda que adversas.
Esta atitude permite nortear a minha ação presente para que venha se constituir em uma base segura para o futuro.
Enfim, passado, presente e futuro podem ser vivenciados dentro do plano das 24 horas. É um plano simples e singelo, mas que funciona.
Como sempre é enfatizado em nossas reuniões: “Basta fazer certo que dá certo”.
(Fonte: Revista Vivência Nº 111 – Richard/Rio de Janeiro/RJ)

PODER SUPERIOR MANIFESTA EM NOSSA CONSCIÊNCIA COLETIVA

PODER SUPERIOR SE MANIFESTA EM NOSSA CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dr. Lais Marques da Silva
Ex- Custódio e Presidente da JUNAAB

INTRODUÇÃO

Tive a excepcional oportunidade de estar presente a nove Conferências de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. Nelas, buscaram-se caminhos para a Irmandade como um todo e procuraram-se os melhores encaminhamentos para a solução de situações que ocorreram na vida da Irmandade, encaminhamentos esses que se constituíram em fundamento para a tomada de importantes decisões. No decurso dessas grandes reuniões, os eventos se mostraram ainda mais valiosos do que o já tão significativo processo de autogestão, em si.

Todo o trabalho realizado no decurso de uma Conferência é de grande valor para a vida da Irmandade não só para o momento que passa, mas é também determinante em relação aos dias futuros. É assentado num processo de caráter fundamental, que é o da busca da Consciência Coletiva. Além de sábio em si mesmo, é, sobretudo, inspirado pelo Poder Superior, poderosa fonte de iluminação, valiosa e norteadora dos destinos de centenas de milhares de seres humanos vitimados pelo mesmo demônio, o alcoolismo, e que hoje estão presentes nos grupos de Alcoólicos Anônimos, no Brasil. Mas é também igualmente importante para a existência da Irmandade de Alcoólicos Anônimos em todo o mundo no que ela representa de caminho de salvação para milhões de seres humanos, hoje sofrendo nas garras do alcoolismo.

Coloquei neste trabalho o que vi e aprendi no convívio com os companheiros de Alcoólicos Anônimos, além do resultado da minha experiência pessoal no período em que fui presidente da Junta de Custódios e da JUNAAB, ocasião em que procurei aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, inspirado que fui pela poder da Segunda Tradição. Consciente da sua importância fundamental para os dias de hoje e para o futuro da Irmandade, coloco nas páginas desse trabalho a minha esperança de um horizonte radioso não só para os que sofrem nas garras do alcoolismo, mas para toda a humanidade.

CONSCIÊNCIA COLETIVA

Dr. Lais Marques da Silva.
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

” … um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência coletiva”.

” … que todas as decisões importantes sejam tomadas através de discussão, votação e, sempre que possível, por substancial unanimidade”.

O Que É Consciência Coletiva?

É uma condição a que se chega por meio da participação de todos os membros que compõem um grupo, usualmente em reuniões de serviço, por meio de um processo no qual se busca o conhecimento mais completo de algum assunto ou a solução para um determinado problema que tenha sido colocado em estudo, podendo resultar em se optar por ações que, eventualmente, irão ser empreendidas.

Como se desenvolve o processo?

Dando a oportunidade e até mesmo solicitando que todos os membros presentes e participantes de uma reunião para que ofereçam as suas contribuições, tanto para o estudo de um problema quanto para a sua solução. Isto significa que ninguém deve ser excluído, que ninguém deve ficar de fora. É indispensável que o coordenador seja suficientemente hábil para conter os que procuram impor as suas vontades e pontos de vista e, para isso, deve limitar o tempo de que cada membro irá dispor para apresentar a sua contribuição e, ao mesmo tempo, será necessário oferecer aos mais retraídos a mesma oportunidade e o mesmo espaço de tempo para participar no processo de busca da consciência coletiva. Não só oferecer, mas, muitas vezes, será necessário até solicitar que os mais tímidos apresentem os seus pontos de vista. O poder coletivo, desse modo, contém o poder individual, a grandiosidade do alcoólico.

Numa primeira rodada, em que cada um dos participantes da reunião, de forma seqüencial e ordenada, expõe a sua opinião acerca do assunto em estudo, pode ocorrer que as colocações fiquem muito distantes umas das outras, mas, quando se faz uma nova rodada de opiniões na qual se busca um melhor entendimento acerca do assunto, observa-se que, após pensar e meditar por algum tempo acerca do que havia sido colocado por cada um dos companheiros, anteriormente, as opiniões então emitidas vão tendendo para uma área mais central, vão ficando menos distantes entre si, vão convergindo em torno de uma idéia ou decisão que, num certo momento, surgirá como sendo apoiada por uma substancial unanimidade. As opiniões vão gradativamente tendendo para um ponto central. Não há limitação quanto ao número necessário de rodadas nem quanto ao tempo que cada uma irá consumir. O processo deverá demorar o tempo que for necessário. O que se verifica é que, numa primeira rodada, os companheiros usam a palavra para expressar apenas opiniões, na maioria dos casos, e as opiniões formam, no seu conjunto, uma plataforma instável. Já, numa segunda ou terceira rodadas, o que se observa, freqüentemente, é que as colocações são mais elaboradas, mais estudadas, já se apresentam como convicções e ainda que, pela multiplicação das vias de abordagem, faz-se um esforço para pensar de modo mais claro e profundo sobre o assunto em tela.

Todos devem ser ouvidos, é necessário que haja ampla participação, os assuntos precisam ser estudados por completo e detalhadamente diante do fato de que as decisões a serem tomadas são sempre importantes. Esse processo pode exigir um longo tempo de participação e de maturação, um esforço prolongado por parte dos participantes, e, às vezes, é conveniente que se decida por uma parada, por um momento de relaxamento para tomar um cafezinho. O importante é que não haja pressa.

Como decorrência do fato de que todos têm igual direito de participar e de opinar, resulta que o poder coletivo atua de modo a limitar o poder individual. A linguagem, o diálogo e a discussão de um determinado tema atenuam as posições conflitantes. Como todos podem interrogar, questionar e contra-argumentar, resulta que a razão supera a força e controla o exercício do poder. A linguagem tende a ser racional e as discussões pressupõem a apresentação de justificativas, de argumentos e todos devem estar abertos ao questionamento. Como nenhum companheiro detém a verdade em um sentido completo e absoluto, o processo decisório passa pela superação de diferenças e implica na convergência em torno do interesse comum e dos objetivos orientados pelos princípios de A.A., para se chegar ao consenso. As diferenças e divergências existentes podem ser superadas por meio do entendimento mútuo e diante do interesse comum.

O consenso, como forma de tomar decisões, implica em que deve haver um espaço para justificar, explicar, persuadir e convencer e que deve ser concedido a cada um dos participantes da reunião a mesma oportunidade, não cabendo dispor de força, privilégio ou autoridade especial. Portanto, não deverá existir condições para a imposição, para a violência ou para o privilégio, que são formas de exercício do poder. A razão se sobrepõe à força e é uma das formas de controle do exercício do poder. O uso de linguagem adequada torna o ambiente racional, e nele, as discussões têm o seu fundamento na apresentação de justificativas e de argumentos num ambiente que deve ser aberto à interpelação e ao questionamento.

Ocorre, na busca da consciência coletiva, que os companheiros entrem num processo de reflexão, de flexão sobre si mesmos, que olhem para dentro, quando então, freqüentemente, descobrem que não sabem tanto quanto pensavam sobre o assunto que está sendo tratado resultando que se tornem mais humildes e tolerantes e assumam atitude mais sóbria. Talvez a reunião se prolongue bastante e é possível que poucos itens de uma agenda sejam abordados ou ainda que poucas decisões sejam tomadas, mas o que é preciso ter em mente é que o processo em si é o fato mais importante e isso porque tem valor terapêutico. Ele vale, em primeiro lugar, pela evolução e pelo crescimento espiritual que propicia. A Irmandade de Alcoólicos Anônimos não é uma empresa em que a eficiência e o uso do tempo ficam em função dos resultados esperados e dos objetivos fixados por um processo administrativo. Em Alcoólicos Anônimos, tempo não é dinheiro; é saúde, é recuperação, é crescimento espiritual, sobretudo. A Irmandade de Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade em que todos procuram deter a sua doença e entrar num processo de cura, não física, mas psicológica e espiritual e a participação no serviço, especialmente no processo que leva à consciência coletiva, tem grande importância para a recuperação e para que se possa alcançar a serenidade. O próprio processo da busca da consciência coletiva é, pela sua natureza, uma maneira de diminuir a velocidade que impomos às nossas vidas, de evitar o estresse. Nele tudo se desenvolve sem obsessividade e cada membro participante vive um agora mais longo, mais demorado.

Por que é importante chegar à consciência coletiva?

Porque é um processo sábio, do qual não sairão vencedores nem vencidos. Porque, pela ampla participação, todos aceitam, ao final e ao cabo, e sem resistências psicológicas, as decisões que foram acordadas e ainda porque, em face da ampla participação, todos se sentem igualmente responsáveis pelas ações que serão tomadas e também pelas suas conseqüências. Numa visão maior, até mesmo pelos destinos da Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

O usual é que procuremos ser mais espertos e controlar uns aos outros em função de objetivos individuais ou dos interesses de pequenos grupos e isso costuma ocorrer ao nos comportarmos seguindo o modelo que recebemos no decurso das nossas vidas.

A atitude mental que se assume ao participar do processo em que se busca a consciência coletiva é a da procura da verdade em relação a uma determinada situação ou problema que está em apreciação. Ao se colocar nesta posição e abandonar a busca de provas de que está certo, o companheiro entra em contacto com uma verdade maior, transcendente, unificada e unificadora, que se manifesta no decurso do processo e, por outro lado, o desejo de buscar a verdade para uma determinada situação desperta a inspiração, cria um certo tipo de receptividade. A partir desta posição madura o companheiro se questiona se realmente o que vê é tudo que diz respeito ao problema em estudo e, usualmente, chega à conclusão de que a sua visão não é tão abrangente quanto imaginava. Passa a admitir que existem aspectos enriquecedores na visão de cada um dos outros companheiros que participam da reunião e o que há de inadequado na sua, o que traz alívio das tensões e facilita o desenvolvimento do processo.

O companheiro se dá conta de que não estava tão certo quanto pensava. Ganha conhecimento acerca de aspectos do problema que não havia identificado anteriormente. Passa a ver não somente o seu lado, a sua pequena verdade, mas uma verdade maior, mais abrangente. Colocar-se neste ato de busca da consciência coletiva, de querer a verdade ou o que é mais conveniente para a solução de determinado problema, leva a renunciar ao que antes se apegava, àquilo que via como sendo a sua verdade. É estar disposto a ver além da sua perspectiva, do seu ângulo de visão. Nas relações humanas, aquele que só conhece o seu lado, em relação a um determinado assunto em estudo, sabe realmente pouco em relação a ele. Acresce ainda que, no caso de um grupo de companheiros, quando em cooperação, o todo humano que se forma é maior do que a soma das suas partes, de modo que cada membro poderá realizar, em conjunto com os outros, mais do que conseguiria se estivesse sozinho ou em grupos sem esse entendimento.

Participar do processo que leva à consciência coletiva traz ganhos espirituais importantes para o membro de A.A., ameniza o ego e muda o seu comportamento quando, em decorrência, deixa de cultivar a separação. Acontece um importante ganho, um crescimento espiritual de grande valor para a recuperação do alcoólico.

O companheiro desiste da necessidade de vencer as pessoas com quem convive e da qual resulta, freqüentemente, em estar separado, isolado. Desiste de ser especial, diferenciado dos outros e de estar sempre com a razão, de querer que as coisas sejam do seu modo. A integração aperfeiçoa a sua individualidade, enriquece-o como indivíduo, o inclui na comunidade dos humanos e jamais diminui a sua dimensão pessoal.

Por meio da consciência coletiva, os conflitos podem ser resolvidos sem derramamento de sangue físico ou emocional e, mais ainda, com sabedoria. Sempre que se busca adequadamente chegar à consciência coletiva, os gladiadores baixam as armas e os escudos e se tornam hábeis em ouvir e entender e, sobretudo, em respeitar e aceitar os dons dos outros, bem como as suas limitações. Ao longo da busca da consciência coletiva, aceitamos que somos diferentes, mas que, por outro lado, estamos ligados aos demais membros pelas nossas feridas e pelo fato de estarmos aprendendo a lutar juntos, mais do que uns contra os outros. Os conflitos são resolvidos. Os membros aprendem a desistir de facções e de compor pequenos subgrupos. Aprendem a ouvir mutuamente e a não rejeitar.

O silêncio de quem escuta representa uma abertura, uma disponibilidade em relação ao outro. É como criar uma zona de silêncio que significa confiança no outro. Dar um lugar aos outros é indispensável para que possamos desenvolver a nossa relação existencial. A amabilidade do acolhimento, da abertura, não exclui a personalidade de quem escuta, daquele que procura o verdadeiro em meio a múltiplas verdades. Só assim se chega à plenitude do diálogo. É como viver as tarefas do mundo tais como elas se apresentam. A vida é então realizada e confirmada na concretude de cada instante, de cada dia.

A busca da consciência coletiva é uma experiência importante para por fim aos conflitos, pois, durante o processo de busca, não procuramos tirar a energia dos outros companheiros. Sempre que alguém sai vencedor, o perdedor fica deprimido, em baixa. Mas se procuramos a consciência coletiva, estaremos recebendo energia de uma outra fonte, do Poder Superior.

Na consciência coletiva está contida a filosofia do diálogo, da relação entre os membros de AA. O que importa é uma relação desenvolvida no diálogo, na atitude existencial do face-a-face, na vibração recíproca. O diálogo assim desenvolvido abre novas perspectivas em relação ao sentido da existência humana de cada um dos membros participantes porque está voltado para um novo projeto de existência e não para um passado nostálgico. O processo da busca da consciência coletiva estabelece uma nova relação entre os membros de A.A. e, numa visão maior, entre os seres humanos.

Só seria possível pensar na libertação do alcoolismo a partir da libertação do próprio alcoólico das múltiplas prisões do seu egoísmo congênito, uma vez que a liberdade se encontra no compartilhar de experiências, forças e esperanças e no despertar do outro que ainda se encontra nas garras do alcoolismo. Os membros de A.A. não cessam de se enriquecer pela convivência com outros companheiros, cujas possibilidades são multiplicadas ao infinito pela magia dos seus poderes, sempre renovados, enquanto praticando o programa de recuperação. O amor ao próximo lhe dará a chave de todas as prisões, da própria libertação, da saída para uma nova vida.

O conjunto das relações sociais tende, naturalmente, ao conflito e às contradições.

Finalmente é preciso estar sempre alerta para o fato de que a fronteira entre o bem-estar, a felicidade e a alegria de vivermos numa autêntica comunidade e o conflito, o desgaste emocional e o perigo de uma recaída está em nós mesmos. Nós somos o teatro de uma luta contínua entre as forças da vida e da morte. Tudo depende do que fazemos a cada dia, a cada instante entre o bem e o mal, pois que estão estreitamente relacionados – “o inferno não é separado do paraíso senão pela espessura de um fio de cabelo”. Neste ponto, nesta escolha, está a possibilidade do surgimento de uma nova realidade, de um novo impulso que pode levar à realização plena das mais radiosas perspectivas que podemos ter a partir da infinita riqueza contida nos Legados de A.A. e, ainda, a possibilidade de que esse novo impulso abra as portas do sonho, tão necessário à própria sobrevivência, ao mesmo tempo em que abra as portas do caminho de salvação para outros alcoólicos.

A prática da Segunda Tradição é indispensável para que o conjunto de companheiros que compõem as reuniões de serviço possam chegar à solução de problemas e encontrar caminhos para a Irmandade como um todo. Essa prática determina a qualidade do trabalho realizado e os resultados das grandes reuniões, como as que ocorrem nas conferências de serviços gerais, nas inter-áreas, nas áreas, nas reuniões de distrito, etc. e até mesmo nas reuniões que contam com um menor número de companheiros, como usualmente ocorre nas reuniões de serviço dos grupos. É a aplicação prática de um conhecimento que harmoniza o conjunto das relações sociais, que naturalmente tendem ao conflito e às contradições, e evita o domínio do homem sobre o homem, além criar condições para que ocorra a emancipação humana.

Se consultada a consciência coletiva, as decisões são realistas.

A ampla participação assegura que a realidade seja conhecida nos seus mais diferentes aspectos, que nenhuma particularidade seja omitida, que nenhuma conseqüência das decisões a serem tomadas deixe de ser considerada e avaliada. O estudo resulta sempre completo porque é o resultado da soma de todas as experiências, de todas as visões. Significa que se estuda e se decide com segurança.

Freqüentemente, o nosso narcisismo nos faz sentir que somos os guardiões de uma estrutura frágil e ameaçada e que, se não fosse por nós, tudo já estaria perdido. Isso é a manifestação de que algo está errado com a nossa saúde mental e espiritual e que é preciso colocar, lado a lado, a nossa realidade com a que é percebida pelos irmãos em quem confiamos. O fato é que a verdade compartilhada é poderosa, eleva o espírito e é por isso que interagimos quando participamos das atividades do grupo ou das que são mais ligadas ao serviço. Freqüentemente a verdade é um processo, o resultado de uma relação entre nós mesmos e os outros, que dá à verdade maior clareza e brilho. Precisamos de coragem para ver a verdade, mas ela nos fortalece, e estar dentro da realidade significa não estar alienado. Ocorre uma confiança no diálogo, na busca comum da verdade.

No conjunto, o grupo sempre aprecia melhor porque inclui membros com muitos e diferentes pontos de vista e com a liberdade assegurada de expressá-Ios por meio do processo que busca a consciência coletiva. Incorpora-se o claro e o escuro, o sagrado e o profano, a tristeza e a alegria, a glória e a lama e é por essa razão que as decisões são bem elaboradas. Não é provável que se deixe de apreciar algum aspecto importante. Como cada membro representa um padrão de referência e, se eles são muitos, o grupo de trabalho se aproxima mais e mais da realidade. As decisões são realistas e usualmente seguras.

Não ao totalitarismo

É comum pensar que as diferenças possam sempre ser resolvidas por uma autoridade maior. No passado de cada um de nós, era costumeiro apelar para a intervenção do pai ou da mãe para o entendimento de situações e para a solução de problemas. Procura-se freqüentemente até apelar para um ditador benevolente. Mas Alcoólicos Anônimos, em favor da maturidade dos seus membros, nunca pode ser totalitário.

Nós nos acostumamos, ao longo da nossa vida, a aceitar certas formas de autoridade que sempre serviram como orientação para definir a realidade em que vivemos e, sem ela, nos sentíamos confusos e perdidos. Mas a busca da consciência coletiva passa a ser o exercício através do qual sempre, e em grupo, encontramos a orientação, sempre conhecemos de uma maneira mais completa a realidade e, é bom acentuar, sem a necessidade de qualquer autoridade que não a do Poder Superior. No decurso do processo de busca da consciência coletiva, acontece o retorno da sensação de segurança, agora sob uma forma mais espiritualizada, a segurança espiritual.

A maneira menos primitiva de se resolverem as diferenças individuais é a de apelar para o que chamamos de democracia. Pelo voto, determina-se o lado que prevalece. A maioria governa. Mas este processo exclui as aspirações da minoria. Diferentemente, o processo de tomada da consciência coletiva inclui as aspirações da minoria. É como transcender as diferenças pessoais de modo a incluir, na mesma medida, a minoria. Entrar no processo que leva à consciência coletiva é ir além da democracia. Recorrer ao voto não é a solução. Apenas o consenso integra as minorias e, em realidade, até evita a sua formação. O processo pelo qual se chega ao consenso é uma aventura porque não se pode antecipar o que vai resultar, é algo quase místico e mágico, mas que funciona.

Durante o processo de busca da consciência coletiva, a autoridade fica descentralizada. Não há líderes e, ao mesmo tempo, todos são igualmente líderes. Há um verdadeiro “fluxo de liderança”. Os membros se sentem livres para se expressar e para oferecer as suas contribuições e o fazem no exato momento e na devida dimensão. Há lideranças. É o espírito de comunidade que lidera e não o individualismo.

O desenvolvimento da humildade

O processo de busca da consciência coletiva atenua o individualismo áspero que leva à arrogância e isso se faz por meio da limitação da participação e ao evitar preponderância e excessos – a velha prepotência e a conhecida manipulação. O poder individual só é contido, só é limitado, pelo poder coletivo. Este é um princípio fundamental. É exatamente o que acontece no processo de busca da consciência coletiva.

Desenvolve-se, nos membros do grupo de trabalho, um individualismo ameno que leva à humildade. Durante o processo, as dádivas de todos são apreciadas e também reconhecidas as próprias limitações e isso está na base da aceitação das nossas imperfeições. “Conhece-te a ti mesmo” é uma regra segura para chegar à humildade.

Nesse momento, fica muito claro que o problema não é a dependência e sim a real interdependência. Não só os membros se tornam mais humildes, mas também o grupo como um todo.

O grupo como um lugar seguro

As pessoas se tornam mais amenas quando participam do processo de busca da consciência coletiva porque se olham através das lentes do respeito. O grupo se torna um lugar seguro porque há aceitação e compreensão, e as pessoas sentem com uma intensidade nova o amor e a confiança. Desarmam-se. Passa a haver a paz e, sobretudo, os membros aprendem a fazer a paz.

É também um lugar seguro porque no grupo ninguém está tentando curar, converter ou mudar o outro e, paradoxalmente, é exatamente por isso que a evolução espiritual e comportamental e, ainda, a conversão acontecem. No grupo, as pessoas são livres para serem elas mesmas, livres para procurar a própria saúde psicológica e espiritual. Tudo isso faz do grupo um lugar seguro em que as pessoas podem abrir mão das suas defesas, das suas máscaras, dos seus disfarces. Aceitamos ser vulneráveis, expor as nossas feridas e fraquezas, e assim fazendo, aprendemos também a ser afetados pelas feridas dos outros. O amor surge nesse compartilhar e isso é possível porque abrimos mão da norma social de pretender sermos
invulneráveis.

Num lugar seguro, as pessoas se desarmam e aprendem a fazer a paz, que nasce do processo de busca da consciência coletiva.

Um estado de espírito muito especial

Quando nos preparamos psicologicamente para participar de uma reunião de serviço em que se vai à busca da consciência coletiva e nos sujeitamos ao processo que leva a ela, resulta o surgimento de uma atmosfera tal que, paradoxalmente, nela as pessoas falam mais baixo e, no entanto, são mais ouvidas. Nada é agitado e não se forma o caos.

Pode haver discussão e luta, mas ela é construtiva e move-se em direção ao consenso. Em realidade, entra-se no processo de formação de uma verdadeira comunidade.

Esse estado de espírito é indispensável para que se possa estar aberto para a manifestação do Poder Superior. Para a inspiração e para a voz do Espírito Santo.

Quando nos dirigimos para uma reunião de serviço, não podemos imaginar qual será o resultado dos trabalhos nem devemos interferir nele. O processo de formação da consciência coletiva é verdadeiramente um mistério.

O estado de espírito de quem vai para uma reunião de serviço

Quando se vai para uma reunião de serviço, é preciso ter em mente que a intenção, a idéia, é levar tão somente uma contribuição, uma experiência pessoal. É preciso lembrar sempre que o todo é formado pelas partes e que cada um de nós não é senão uma parte, mas uma parte realmente importante. Cabe ainda lembrar que as nossas experiências são tanto o fruto das nossas vivências, e por isso são muito ricas, quanto limitadas à esfera pessoal. Ao mesmo tempo, precisamos ter a consciência do valor da contribuição que podemos dar, mas também a de que ela será parte de um todo, de um conjunto maior, que se formará a partir das contribuições de cada um dos que estarão presentes à reunião.

O que fica dessas considerações é que a atitude de humildade é indispensável se se deseja chegar à consciência coletiva. É aceitar que, pelo menos diante do fato de se estar frente a uma manifestação do Poder Superior, a prepotência, a arrogância, o narcisismo e a agressividade possam dar lugar à humildade e à aceitação daquilo que irá resultar da soma de todos os conhecimentos e contribuições, mas, sobretudo aceitar que ao final se chegará ao melhor caminho, à melhor solução, à melhor decisão.

O que acontece quando não se busca a consciência coletiva

Muitas coisas podem acontecer. A realidade pode ser distorcida e as conclusões ou decisões podem não ser as mais sábias ou convenientes. Parte dos que compõem o grupo pode ficar excluída dos trabalhos, por ser constituída de membros mais tímidos ou por estarem dominados pelos mais prepotentes, pelos que melhor fazem uso da palavra.

Pode ocorrer que, antes de uma reunião, os componentes do grupo procurem contactar outros membros para lhes convencer acerca das suas pretensões ou postulações ou, simplesmente, conseguir adesões ou fazer acordos. Obviamente, a consciência coletiva estará sendo manipulada e aí poderiam os mais doentes chegar ao seu “dia de glória”, pois teriam manipulado até mesmo o Poder Superior. No entanto, nessas condições, a consciência coletiva não se estabelece e Ele não fala. Talvez falem outras vozes menos divinas.

Quando não se busca a consciência coletiva, o que usualmente acontece é correr o sangue emocional e até mesmo o físico. Usualmente a luta se estabelece, mas ela não leva a nada porque é caótica, é barulhenta e não construtiva.

As agressões tornam as reuniões cansativas e os resultados são nulos ou diminutos. As reuniões se tornam tanto desagradáveis quanto improdutivas. É um conflito sem frutos e que vai para lugar nenhum. As pessoas tornam-se prisioneiras das suas raivas, dos seus ressentimentos e das suas ambições pessoais desmesuradas. Outros procuram concertar as cabeças, convencer ou curar os seus companheiros e isso, muitas vezes, pode até parece ser coisa de amor, mas o fato é que fazem isso para o seu próprio conforto, em seu favor.

É fundamental que busquemos a complementação sempre que opiniões diferentes ou contrárias às nossas forem apresentadas. Devemos buscar, nessas situações, o sentido de existir, de ser. Devemos identificar, na existência dos opostos, o sentido da complementaridade. Sempre que nos incompatibilizamos uns com os outros é porque estamos medindo forças e assumindo posições antagônicas. Se buscarmos o sentido do complementar, poderemos reverter o antagonismo e somar as nossas potencial idades em torno de um propósito comum. Desse modo, não perdendo o nosso ponto de vista, identificamos um sentido maior que é a grande manifestação da Consciência Coletiva.

A insensatez

Quando não se busca a consciência coletiva, a insensatez se estabelece no grupo. Isto é, passa-se a agir de forma contrária aos próprios interesses, de forma contrária à apontada pela razão. Exatamente ao contrário da sabedoria que está no exercício do julgamento atuando com base na experiência e no uso das informações disponíveis.

No caos e na manipulação, buscam-se as atitudes contrárias aos interesses da Irmandade de Alcoólicos Anônimos, não obstante as advertências desesperadas de alguns e da existência de alternativas melhores e viáveis. A busca da insensatez torna-se trágica e, dolorosamente, um comportamento dominante. Dominados pelas paixões, os membros do grupo abandonam o comportamento racional, tornam-se passionais. A mitologia grega tinha uma figura para representar a cegueira da razão, o desvario involuntário, de cujas conseqüências os companheiros depois se arrependem, chamada Ate, filha de Eris, deusa da discórdia e da disputa. Tomados de cega insensatez, as vítimas da deusa se tornam incapazes de realizar uma escolha racional, de distinguir entre atos morais e imorais.

Onde e como o Céu e a Terra se tocam

O homem, desde tempos imemoriais, vem procurando fazer contato com as forças criadoras, com o sagrado. Procurou lugares e objetos em que o céu e a terra se encontrassem. Concebeu a montanha e a cidade sagradas, a residência real, a árvore da vida e da imortalidade, a fonte da juventude, etc.

De acordo com crenças indianas, o monte Meru seria uma montanha sagrada e sobre ela brilharia a estrela polar. Na crença iraniana, a montanha Elburz seria o ponto em que a terra estava ligada ao céu. A população budista do Laos considera sagrado o monte Zinnalo. No Edda, o Himinbjorg, que quer dizer “montanha celestial”, é considerado o ponto em que o arco-íris alcançaria a parábola do céu.

Para os povos mesopotâmicos, o Zigurate era a montanha cósmica. Na Palestina era o Monte Tabor. Para os cristãos, a montanha cósmica era o Gólgota, o lugar onde Adão tinha sido criado e sepultado e o sangue do Salvador teria sido derramado sobre o crânio de Adão, servindo para a sua redenção e esta crença ainda permanece entre os cristãos orientais. A cidade da Babilônia, como indica o próprio nome, era tida como a “porta dos deuses” pois era por meio dela que os deuses desciam para a terra.

A idéia de que o santuário reproduz o Universo, na sua essência, passou para a arquitetura religiosa da Europa cristã e para as basílicas dos primeiros séculos, do mesmo modo que as catedrais medievais reproduziam simbolicamente a “Jerusalém celestial”.

O lugar sagrado, o “Centro”, seria a zona da realidade absoluta e lá estariam os seus símbolos: a árvore da vida e da imortalidade, a fonte da juventude, etc. daí a idéia de que a estrada que leva ao “Centro” é um “caminho difícil”. Difícil também a peregrinação aos lugares sagrados como Meca, Hardwar e Jerusalém, feita em viagens cheias de perigos e realizadas por expedições heróicas. A mesma dificuldade encontra aquele que procura caminhar em direção ao seu ego, ao “Centro” do seu ser. A estrada é árdua e cheia de perigos porque representa um ritual de passagem do âmbito profano para o sagrado, do efêmero e ilusório para a realidade e para a eternidade, da morte para a vida, do homem para a divindade. Chegar ao “Centro” equivale a uma consagração; a existência profana e ilusória dá lugar a uma nova existência, a uma vida real, duradoura. Na busca da consciência coletiva o grupo de trabalho procura chegar ao “Centro”, ao ponto mais elevado.

Eu, pessoalmente, considero que é através do processo de formação da consciência coletiva, após percorrer um caminho muitas vezes trabalhoso e difícil, que estabelecemos um contato entre o céu e a terra. É por meio do processo de busca da consciência coletiva que o céu e a terra se tocam. A consciência coletiva é a voz do Poder Superior.

a conceito de substancial unanimidade e a idéia da formação de uma verdadeira comunidade centrada na busca da manifestação do Poder Superior estão na base de uma nova dimensão de divindade e permitirão que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos se aperfeiçoe de maneira progressiva e que, por meio da busca da consciência coletiva, os seus membros conquistem a mais absoluta liberdade espiritual, ficando então livres de preconceitos e de sentimentos negativos em relação aos demais companheiros.

Finalmente

Finalmente, é necessário dar passos concretos e assumir atitudes que concorram para que sejam bem sucedidas as reuniões de serviço. Assim, ficam as seguintes sugestões:

É conveniente que os assentos sejam distribuídos em círculo ou que a mesa que se vai usar seja redonda. É uma forma de equilibração e nela não há destaques.

Evite usar as palavras “eu” e “você”. Use o “nós”, de modo a se incluir no grupo.

Dirija-se ao grupo como um todo, mesmo quando falando para apenas um dos seus componentes.

Evite ficar próximo dos mais íntimos. Isso impede a formação de grupinhos separados.

Evite a discussão paralela. Não fique falando baixo com o companheiro ao lado. Alguém pode entender como crítica.

Olhe para quem estiver usando a palavra. É uma atitude de respeito.

Não fique alheio à discussão de determinado assunto enquanto se prepara para uma intervenção.

Ao se manifestar, não se afaste do que vem sendo discutido pelo grupo. De outra forma, haverá o risco de se perder o encadeamento, o raciocínio que vinha sendo desenvolvido.

Ao opinar, procure fundamentar a sua contribuição, apresentar algo de valor e não dar apenas um palpite. Diante de um palpite, os demais companheiros devem fazer perguntas como: Por quê? Quando? Onde? Etc., para forçar uma operação mental que resulte em manifestação mais elaborada.

Tenha boa vontade com os tímidos pois que, com essa atitude, irá encorajá-Ios a participar do grupo.

Não eleve a voz. Não se emocione. Não crie barreiras à comunicação.

Não diga não concordo. Discorde sem dizer não concordo.

Às vezes, é bom lançar dúvidas para forçar a reflexão e evitar o dogmatismo.

O coordenador deve evitar o papel de chefe. Quem tem chefe é bando.

Se o grupo não evoluir, em determinado momento será bom fazer uma pausa para examinar o que está dificultando o progresso da reunião. É melhor tomar essa atitude enquanto o grupo está reunido do que deixar que as críticas ocorram depois, o que seria uma atitude desleal para com o grupo. Os que não entendem do assunto em discussão, por vezes, se mostram lógicos e criativos e apresentam boas contribuições.

Tenha coragem de expor as suas opiniões, de oferecer sua experiência. Corra o risco de ser contestado, é natural. Não fique só na colocação das dúvidas.

Evite a palavra acho, até porque às vezes o companheiro que assim se manifesta, está mais do que convicto. Se tiver dúvidas, abra o jogo.

Seja generoso. Elogie. Estimule os companheiros do grupo.

Se estiver muito acima do grupo em determinado assunto, não dê aula. Procure fazer perguntas inteligentes que despertem idéias.

Passe a bola para poder recebê-Ia de volta. O processo se tornará mais dinâmico e produtivo.

Nunca procure derrotar um companheiro presente a uma reunião.

Você não veio para isso. O que se espera é que contribua com a sua experiência pessoal. Lembre-se de que o companheiro derrotado em público jamais o perdoará. Isso fere muito.

Se for tímido, procure acompanhar a evolução do assunto em estudo e isso já é uma forma de participar e de evoluir.

Evite as expressões: “é claro” e “você não entendeu”. Não culpe o grupo quando não for entendido. A reunião evolui melhor dizendo: “talvez eu não tenha sido muito claro”.

Estimule todos os companheiros presentes a prestar o seu esclarecimento, a dar a sua contribuição. Por outro lado, não seja paternal.

Lembre-se de que todos têm igual responsabilidade pelo êxito da reunião.

O dominador costuma usar a expressão: “ninguém quer trabalhar’ e o tímido se queixa de que “não o deixam participar”. Mas a verdade é que ambos demonstram a sua imaturidade.

O objetivo de cada um é cooperar. Não cabe obedecer, uma vez que todos têm o mesmo direito de participação.

É preciso que todos ofereçam as suas contribuições, a sua experiência. Participe e não fique na posição confortável de omisso. Participe, mesmo que tenha que enfrentar dificuldade em ser ouvido.

Não se alongue em excesso. Prolixidade é manifestação de falta de clareza. Ser objetivo e sintético demonstra inteligência. Falar em demasia é, às vezes, um recurso usado por quem tem o desejo de emperrar os trabalhos do grupo.

Participar implica em assumir responsabilidade de modo que se ocorrer que um companheiro não se sentir responsável, é porque não participou, não fez parte do grupo.

Evite usar frases feitas. Não empobreça o grupo. Seja criativo.

Não se impressione com a pretensa superioridade que algum participante do grupo possa ter em relação aos outros. É indispensável que haja reciprocidade para que ocorra a participação de todos.

Não se sinta desconfortável quando demonstrar o seu entusiasmo.

Participe de corpo e mente. Somos seres humanos. Estamos vivos.

Evite ser duro com os companheiros ao assumir atitudes racionais e lógicas. Ser lógico, sim, mas com amor. Igualmente, amor sem lógica é sentimentalismo, e não ajuda.

Aceite as pessoas, derrube as barreiras psicológicas. Deixe-se evoluir e contribua para a evolução dos outros. É preciso não ser impermeável e avaliar com boa vontade os pontos de vista dos companheiros. Só assim se estabelecerá um diálogo enriquecedor.

Não seja deslumbrado. As pessoas são perspicazes e críticas.

As dificuldades não devem desencorajar o grupo. É possível ir comendo o mingau quente pela beirada.

Se for inevitável a votação, que pelo menos ocorra uma longa discussão acerca do assunto de modo a alcançar substancial unanimidade.

O CHOQUE DE HONESTIDADE – DR. EDUARDO MASCARENHAS

” O CHOQUE DE HONESTIDADE ”
Dr. Eduardo Mascarenhas

Certa vez fiz uma palestra para um grupo dos Alcoólicos Anônimos, extremamente qualificado, formado por membros bem afinados uns com os outros, revelando um já
extenso trabalho prévio. Uma verdadeira orquestra sinfônica anti-alcoólica. Sendo mais preciso: não se tratava de nada anti-alcoólico, até porque os Alcoólicos Anônimos não combatem ou defendem causas. Melhor dizendo, era uma orquestra que inspirava emoções serenas e atitudes sóbrias.

Presidindo a reunião estava um rapaz simpático, desses que irradiam energias a favor e não negativas. Quando se apresentou ao grupo, disse seu nome, seu sobrenome, e declarou sua condição de alcoólatra e toxicômano. Era mais um da nova leva de “dependências cruzadas”.

Na hora do debate, ergueu-se do grupo um homem negro de elegância discreta, belo e bem falante, de uns 47-50 anos. Provavelmente um típico representante do A.A. da velha guarda, um A. A. puro-sangue, sem qualquer dependência química senão do álcool. Estávamos discutindo essa região nebulosa daqueles que bebem regularmente, mas não desbragadamente, que permanecem há anos nas quatro a seis doses por dia e que, naturalmente, sem esforço não ultrapassam esse perigoso limite. Seu corpo e sua mente reagem bem a esses níveis alcoólicos e há 20 ou 30 anos não pedem mais. Pelo menos até aquele momento.

É claro que são alcoólatras, já que não podem passar sem álcool. É claro que estão numa região de perigo. Mas também é claro que os anos e as décadas passam e eles se mantêm dentro desses explosivos limites.

A discussão estava superinteressante. Eu não sabia dar respostas, mas aprendia com os depoimentos dos presentes, os quais, diga-se de passagem, entendiam empiricamente muito mais de alcoolismo do que eu. Se eu tinha experiência conceitual e teórica sobre o alcoolismo, se eu tinha experiência clínica com meus pacientes, eles tinham experiência vivida – essa matéria prima insubstituível.

A expressão “choque de honestidade” veio desse membro clássico do A.A. que, com ela, queria salientar a tendência do alcoólatra na ativa a negar sua própria condição, construindo mil argumentos e sofismas para encobrir o óbvio e que os Doze Passos representariam o inverso dessa desonestidade embriagada e embriagadora. Os Doze Passos seriam um choque de honestidade na tendência do alcoólatra a mentir para si mesmo o tempo todo.

Essa formulação me remeteu imediatamente a apaixonadas discussões na sociedade psicanalítica, em que alguns colegas definiam a psicanálise como a busca da verdade, custe o que custar, doa o que doer. Por não ter seguido esse caminho – interessante, sem dúvida – a pessoa perderia o pé de si mesmo por não enfrentar a sua realidade a cada momento, preferindo as mordomias da ilusão. De ilusão em ilusão, esses marajás da mentira acabariam por alienar-se de sua própria verdade pessoa, tornando-se cada um deles um completo estranho dentro de si mesmo.

Resultado: neurose.
Fazer psicanálise, então, seria, reverter essa tendência vida-mansista, do prazer imediato da ilusão, às custas da verdade. O princípio da realidade deve substituir o princípio do prazer. É melhor ficar vermelho um minuto do que amarelo a vida inteira. É melhor sofrer a dor da verdade do momento do que extraviar-se nos labirintos da ilusão.

Quem não estaria de acordo com tais princípios?

Contudo, em nome deles, já foram perpetradas as maiores violências, as maiores barbaridades. Em nome da autenticidade já se perpetraram as maiores grosserias e faltas de educação. Jogar “verdades” na cada dos outros não só muitas vezes se revela inútil como francamente contraproducente. Quantos casais já se agrediram até o ponto de ruptura por causa dessa sincera busca da verdade e da franqueza? Quantos pais e filhos já não se desentenderam irreversivelmente por causa dessa franqueza rude? Quantos projetos profissionais já não naufragaram por causa dessa bem-intencionada vontade de ser verdadeiro?

Mais: quantas vezes não foi exaltada a verdade como virtude apenas para se controlar, vigiar e bisbilhotar melhor a vida alheia? Qual é a verdade que se esconde por trás dessa busca da verdade? Qual é a honestidade que inspira esse choque de honestidade?
Busca da verdade, choque de honestidade como palavras de ordem são ótimas; requerem, porém, mais refinadas diferenciações.

Para que dirá o paciente sua verdade ao psicanalista? Para que este, de posse dessa verdade, a acolha como uma das manifestações legítimas possíveis do ser? Para o psicanalista, de posse dessa verdade, incitar seu paciente a descrevê-la cada vez melhor, de modo a que este venha a melhor conhecê-la e saber como realizá-la? Ou, pelo contrário, para, insidiosa e escorregadiamente, condená-la a exortar o paciente a alguma cartilha de bem viver?

Essa diferenciação é fundamental, tanto para a psicanálise quanto para os grupos anônimos. Para que um grupo anônimo, um padrinho, estará prezando o “choque de honestidade”? Para fazer a pessoa tornar-se mais radical e completamente ela mesma, ou para fazê-la querer-se tornar outra pessoa que não ela mesma? Para auxiliá-la a viabilizar seus sonhos de modo eficaz, ou para renegar sua verdade e seus sonhos, em nome de um sistema de valores cuja procedência não se conhece direito? Enfim, o “choque de honestidade” está a serviço do enquadramento ou da libertação? Atua no sentido de levar o sujeito a assumir sua própria verdade ou a induzi-lo a renegar essa verdade em função de uma moralidade consensual?

Além dessas questões – decisivas -, existe ainda a questão da verdade máxima possível para cada pessoa a cada momento. Violar cadências não é sinceridade, é estupro. O fundamental não é a verdade, é a fecundidade. Dizer se isso será verdadeiro ou não, importa menos do que dizer se isso será fecundo ou não. A habilidade, o timing, o respeito pelo tempo do outro, pela cadência alheia, também fazem parte dessa busca da verdade, desse choque de honestidade.

O ser humano não é macaco de zoológico. Não está numa jaula aberta à visitação pública de suas mais íntimas intimidades. Ele requer privacidade, o direito de não dizer tudo a ninguém, senão a sim mesmo. Não, nem a si mesmo. O choque de honestidade, a busca da verdade têm de levar em conta essa necessidade de ilusão.

Mais ainda: o que é verdade, a honestidade, a realidade, a objetividade? Será o mesmo para duas pessoas, ou até para a mesma pessoa em momentos diferentes da sua vida?

Busca da verdade, sim, choque de honestidade, sim; só que indo mais no fundo nessas idéias – força. Senão vira moralismo, catequese, narcisismo.

O Quinto Passo não pode desconsiderar essas complicações. Não é em vão que as tradições dos grupos anônimos recomendam sobriedade de opiniões: que não se radicalize em questões polêmicas e controversas.

Choque de honestidade, sim; busca da verdade, sim; mas sem perder de vista a ética suprema dos grupos anônimos: a sobriedade.

Honestidade e verdade sem sobriedade são atitudes policialescas, moralizantes, enquadradoras. Não libertam o sujeito, aprisionam-no cada vez mais. Nas honestidades” e “verdades” alheias. Dos mais fortes. Dos grandes grupos sociais que detêm os lobbies da comunicação.

Por essas e outras, não existem autoridades nos grupos anônimos. Ninguém tem opiniões autorizadas pelas leis do grupo. Ninguém pode condenar ninguém como herege ou exercer ninguém como antiCristo.

* Dr. Eduardo Mascarenhas ( Psicanalista )

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS – CAPÍTULO IX – O DESENTENDIMENTO HISTÓRICO ENTRE GRUPOS ANÔNIMOS E PSICANÁLISE

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS
Eduardo Mascarenhas

CAPÍTULO IX
O DESENTENDIMENTO HISTÓRICO ENTRE GRUPOS ANÔNIMOS E PSICANÁLISE.
Já realizei várias dezenas de palestras em grupos anônimos. A atitude geral frente à psicanálise é de interesse e respeito.
Contudo, em alguns membros desses grupos notei, nas entrelinhas, uma ponta de suspeita. Hoje entendo muito bem suas razões.
É que muitos psicanalistas – por desinformação, inexperiência ou prevenção – consideram o alcoolismo, as toxicomanias e outras grandes compulsões (comilança, jogatina) um sintoma como outro qualquer. Logo, perfeitamente removível por uma “boa psicanálise”. A voracidade frente ao álcool ou às drogas seria sintoma tão grave 9 ou tão pouco grave) como uma fobia de sair sozinho na rua, uma mania de doença ou um complexo de inferioridade.
Claro, imaginam esses psicanalistas, que essas compulsões, como aliás qualquer sintoma, podem ser menos ou mais rebeldes. Algumas desaparecerão em meses, enquanto outras requererão anos de análise. Só uma minoria seria de tal gravidade que, por mais análise que se faça, não se alteraria. Como qualquer outro sintoma. Tudo na mente está sujeito à temida “reação terapêutica negativa”.
Apesar dos pesares, para esses psicanalistas a maioria das compulsões seria revertida em moderação.
O alcoolismo, por exemplo, seria o resultado de uma crise existencial ou de alguma carência primitiva, ambas a serem elaboradas em processo analítico. O alcoólatra bem analisado deixaria de beber compulsivamente e passaria a beber como todo mundo. Sem exageros.
O toxicômano, por outro lado, uma vez bem analisado, superaria as razões que o levaram às drogas. Descobriria seu perigo e sua capacidade química de viciar e, por isso, as abandonaria de vez. Até porque as substituiria pelo seu saboroso scoth, vodca, conhaque ou cachacinha. Ou, pelo menos, por umas cervejinhas geladas ou um vinho de vez em quando. Sem exagero, é óbvio.]Por causa dessas “teorias”, muitos alcoólatras e toxicômanos já morreram ou destruíram suas vidas depois de anos e anos de divã. Fizeram análise e mais análise à espera da tão aguardada moderação, e a voracidade aumentava cada vez mais. É justo, portanto, que muitos alcoólatras e drogados tenham ficado, no mínimo, com suspeitas e restrições em relação à psicanálise. principalmente porque conseguiram controlar sua compulsão nos grupos anônimos, onde explicitamente é recusada a hipótese da compulsão alcoólica se transformar em moderação e dos toxicômanos poderem substituir os tóxicos pelo álcool. Nem que seja a mais inocente cervejinha…
os grupos anônimos só nisso são taxativos: quem é alcoólatra jamais beberá moderadamente; e quem é toxicômano voltará às drogas se beber qualquer bebida alcoólica. Além de correr o risco de ainda desenvolver um alcoolismo. Para alcoólatras e drogados, só há um remédio: abstinência total de qualquer substância que afete a mente. A presença de uma compulsão química sugere a potencialidade para outras compulsões químicas. As dependências químicas – entre as quais se inclui o alcoolismo – se cruzam e se conectam. Quem é vulnerável à dependência a um gozo químico (gozo aqui no sentido amplo do termo, é claro) é vulnerável à dependência a qualquer gozo químico.
Portanto, para alcoólatras e drogados só existe um recurso: evitar a primeira dose. De qualquer bebida ou droga.
Essa afirmação, até onde eu saiba, é de uma novidade radical. Nunca foi formulada pela psicanálise e foi formulada pelos grupos anônimos. Eles são os criadores desse conceito fundamental: que compulsão alcoólica ou compulsão a drogas não têm cura., não podem ser controladas e, para controlá-las, impõe-se abstinência total.
As consequências catastróficas que resultaram da psicanálise não ter afirmado isso são a razão da suspeita com relação a ela. A única razão.
Vejamos agora as suspeitas de muitos psicanalistas com relação aos grupos anônimos. Comecemos pelos Alcoólicos Anônimos, Sobre eles pairam, logo de saída, aqueles típicos preconceitos elitistas: seriam grupos de mendigos de pés-inchados, que receberiam uma sopa caridosa em troca de uma boa lavagem cerebral e um bom sermão.
Dado o desespero das circunstâncias, antes isso do que nada. Nesses extremos, esse método “primitivo” poderia até funcionar. Esses deserdados do destino, em função do próprio desamparo, seriam presas fáceis para esse tipo de doutrinação. Principalmente porque, mal ou bem, receberiam alguma ajuda. algum carinho piedoso.]Também, se não funcionar, tudo bem. Esses miseráveis, pelo menos, passaram uma noite sem beber, foram alimentados e tratados.
Contudo, quando se ouve falar que os Alcoólicos Anônimos estariam cuidando de pessoas economicamente credenciadas para terapia mais “refinadas” e “científicas”, aí até essa benevolência paternalista deixa de existir.
Para esses psicanalistas, que confundem psicanálise com jargões e liturgias psicanalíticas, é difícil pensar, sem preconceitos, outras linguagens e outras liturgias. A tendência, então, é descartar-se delas, mediante desqualificação. Tudo é visto superficialmente, e vale a aparência imediata.
para esse tipo de psicanalista, não há lugar para dúvidas: os A.A. seriam grupos de índole protestante – quem sabe de espírito calvinista, misturada com aquele pragmatismo tão típico dos Estados Unidos.
A TÉCNICA DOS A.A. SERIA ESTIMULAR DEPENDÊNCIA.
A técnica dos A.A. consistiria em estimular a dependência afetiva do alcoólatra em relação ao grupo. O alcoólatra seria seduzido de mil menearas por outros alcoólatras convertidos aos A.a. para se converter também. O estado de desespero e desamparo que lhe traz o alcoolismo torna-o sensível a essa dependência e sedução. Amolecido seu coração, torna-se fácil fazer sua cabeça, inculcando nela idéias anti-alcoólicas, assimiladas em função da dependência ao grupo.
Do ponto de vista desses psicanalistas, esse procedimento pode até eventualmente funcionar, principalmente com personalidades mais austeras e rígidas ou então com aquelas bem desamparadas e carentes de afeto. Contudo, seria o avesso da psicanálise. Não se chegaria ao nervo da dependência alcoólica e, por isso, ao invés de uma autêntica libertação psíquica, apenas se trocaria de presídio: se trocaria um cárcere alcoólico por um cárcere anti-alcoólico. Na melhor das hipóteses, um mal menor.
A REPRESSÃO SEXUAL NO TRATAMENTO DO ALCOOLISMO.
Esse sistema repressivo, por sua vez, se utilizaria, para suas construções, das técnicas litúrgicas do protestantismo quem sabe calvinista: orações e arrependimentos grupais, juras públicas de perseguir a virtude – no caso, parar de beber. Com o objetivo de reprimir custe o que custar o alcoolismo, ir-se-ia pouco a pouco apertando o cerco e estabelecendo uma estratégia de repressão não só do álcool mas a tudo que o que fosse de alguma maneira “inebriante”. Como o alcoolismo é um prazer dos sentidos, todos os prazeres dos sentidos ficariam sob severa vigilância, a fim de se evitar o efeito cascata. Noutras palavras, deve-se estabelecer uma política de repressão à sexualidade mais solta e a todas as suas derivações. A invocação do nome de Deus e a retórica religiosa serviriam para produzir um clima mais solene e arrebatador: uma verdadeira hipnose mística, dentro da qual se travaria a luta do espírito contra os baixos instintos.
Cumpre desenvolver a “espiritualidade” para conter a animalidade e suas baixas bocas vorazes. Os bons sentimentos devem valer mais que os belos sentimentos. Uma vida bela importa menos que uma vida bondosa. Servir importa mais do que viver.
Assim sendo, é pouco falar de espiritualidade, de moderação. Há que saber que tipo de espiritualidade será desenvolvida, que tipo de moderação será cultivada. Existem muitos tipos diferentes de espiritualidade e moderação, desde as mais vibrantes até as mais descoloridas, desde as mais canônicas às mais dionisíacas.
A psicanálise também pode ser descrita como promotora do desenvolvimento de espiritualidade e do cultivo de moderações. Só que sem cartas marcadas desde o início do jogo. Sem tipos prévios de escolha de espiritualidades ou moderações. Quem as escolherá será o desejo do paciente e não o desejo do psicanalista nem de ninguém.
Vejamos agora o método que esses psicanalistas utilizariam para tratar o alcoolismo: sem dúvida, o trabalho sobre a chamada “transferência”.

O MÉTODO DA TRANSFERÊNCIA CURANDO O ALCOOLISMO.
O que faria o psicanalista com a dependência de seu paciente, tecnicamente chamada de “transferência”?
O paciente quando entra em análise – queira ele ou não – vai sendo possuído por vários níveis de sua mente, muitos deles primitivos, completamente estranhos ao “adulto” que ele é. Noutras palavras, o inconsciente aproxima-se do consciente, produz nele infiltrações e faz sentir a sua presença. Por que o inconsciente se aproxima? por que o paciente sente-se mais amparado estando em análise, mais confiante para lidar com “o estranho” dentro deles; ou seja, porque, pelo trabalho da própria análise, relaxam-se as primeiras resistências, as chamadas resistências de primeira linha. Além disso, o paciente fica, naturalmente, mais atento à sua mente, e aquilo que em função de sua desatenção não enxergava, passa a enxergar. Como cada nova visão puxa outra, ele vai como que puxando fios enrolados e ocultos de sua meada inconsciente.
Quando esses níveis – ou primitivos ou estranhos – do paciente aproximam-se ou infiltraram-se na consciência, ocorre um fenômeno: o paciente permanece nesse mundo e nessa realidade, mas começa, ao mesmo tempo, a ser possuído por outro mundo e outra realidade. Não se assusta com isso e nem sente que está enlouquecendo pois acompanha com clareza o sentido geral do processo. Muitas vezes esse outro mundo e essa outra realidade nem se infiltraram na consciência: já estavam há muito tempo lá produzindo sensações estranhas, mas que sua visão interior nem registrava direto. Esse novo mundo, essa nova realidade não são, necessariamente, mais, loucos ou primitivos; muitas vezes são lados seus extremamente interessantes, bonitos e criativos e que só o enriquecerão. Apenas são vividos como estranhos pela pouca familiaridade, pela ausência de convívio.
Em suma, o paciente percebe que, na realidade, jamais viveu na “realidade”, até porque essa é impossível. Viveu sempre na sua realidade psíquica, na sua maneira de enxergar e sentir o mundo. e que essa realidade psíquica não é uma, é bem mais do que uma.
Ao ter consciência de viver várias realidades psíquicas ao mesmo tempo, ele enxergará a si próprio e ao analista influenciado por essas “realidades psíquicas”. Contudo, como a convivência com o psicanalista é frequente e intensa, como estabeleceu com ele um vínculo pessoal profundo, como faz ele grandes expectativas de salvação, no eixo analisando-analista ficam intensamente marcadas essas “realidades psíquicas”.
Num certo sentido, o paciente passa a ter uma espécie de dupla visão: enxerga a realidade com seus olhos habituais, mas passa e enxergá-la também com “outros olhos”, produzindo fantasmas no vídeo. No eixo analista-analisando, esse fenômeno torna-se mais exacerbado: o paciente enxerga a si mesmo e ao psicanalista, do modo como sempre o fez e de modo “transfigurado”. Se os níveis do seu inconsciente que se aproximam da consciência forem níveis primitivos, o analisando passará a enxergar-se e ao analista com olhos progressivamente mais primitivos, quer dizer, pueris. O analista poderá ser visto como um gigante, um messias, um salvador, enquanto o paciente se enxerga como infante necessitado de salvação. Se o analista corresponde a seus anseios primitivos de menino, agora tornados vivos e atuais, ele é um Deus amantíssimo. Se não o fizer, não passa de um absoluto canalha.
Esses níveis antigos tornam-se vivos porque nos níveis profundos da mente – no inconsciente – nada muda, nada esmorece ou perde a força; nada se esquece e nada passa. Tudo o que foi é e será para sempre. O passado não passou nem passará jamais. A criança não morre nunca. A infância é imortal.
Num primeiro tempo, o psicanalista daria rédeas soltas às “transfigurações” do analisando, explicando inclusive ao paciente sua significação e como é natural e até com que eles apareçam. Elas iriam, assim, se aprofundando, até atingirem camadas profundas do paciente, onde se encontrariam as emoções, causas e motivos de todas as dependências, inclusive a alcoólica. Essas emoções, causas e motivos iriam sendo revividos, um por um, na relação com o analista, o qual os iria explicando a cada momento para o paciente. Este, pouco a pouco, lentamente, iria digerindo e elaborando essas dependências primitivas, as quais iriam a pouco e pouco também lentamente desaparecendo. Assim, o alcoolismo desapareceria sem qualquer manobra repressiva. Até pelo contrário, desreprimindo cada vez mais as emoções que o geraram. E sem recorrer a qualquer exortação anti-alcoólica.
A dependência do analisando seria utilizada para superar todas as dependências, inclusive a alcoólica, inclusive a própria dependência em relação ao psicanalista. Assim, sem mais depender do seu psicanalista, ele terminaria sua análise. Para sempre.
Bonito não? E as coisas funcionam exatamente assim. No papel. Porque no consultório elas são bem diferentes. As coisas colocadas nesses termos não dão conta da realidade. Não são, então, teorias científicas, são lendas e mitologia supostamente científicas. Visões idealizadas da “realidade”.
Já os Narcóticos Anônimos inspiram, sob certos aspectos, menos virulência crítica.
primeiro porque a idéia de drogas liga-se menos à idéia de mendigos e pés-inchados e liga-se muito mais à idéia de “jovem de classe média”. Segundo porque, exatamente por essa razão, o problema das drogas afeta os … filhos dos psicanalistas, que, muitas vezes, não sabem o que fazer. Aí não tem elitismo, elegância de discursos, retórica científica ou charme intelectual. Tem é um problema prático e, ás vezes dramático, dentro da própria casa. Aí, a realidade arromba as teorias. Em primeiro lugar, curar os filhos do vício das drogas, seja pelo método que for. Até porque depois, uma “boa análise” trará de volta aos filhos a sofisticação intelectual que eles merecem…
OS GRUPOS ANÔNIMOS SERIAM REPRESSIVOS.
Voltemos então às críticas de muitos psicanalistas aos grupos anônimos.
Não se pode negar que a linguagem clássica dos Grupos Anônimos – seus textos, seus Passos e Tradições – sejam uma linguagem mais protestante do que taoísta, marxista ou psicanalítica; mais norte-americana do que francesa ou italiana; mais anos 30 do que anos 60. Ou anos 80.
Nem poderia deixar de ser assim. Afinal essa linguagem foi formulada nos Estados Unidos, em plena recessão econômica, num clima claramente protestante e nos anos 30. Não por literatos, petas, cientistas ou filósofos. E sim por norte-americanos típicos, que representavam o espírito da época.
Por tudo isso, a linguagem dos grupos anônimos não possui a densidade filosófica chinesa nem a elegância teórica francesa. Será isso tão grave assim?
Os textos freudianos, não estão eles também marcados pelo estilo e pelas idéias que circulavam por Viena no início do século? isso, por acaso, diminuiu o brilho de sua originalidade?
Quanto à acusação de que os grupos anônimos lidam com o alcoolismo e as toxicomanias mediante uma técnica repressiva e uma estimulação à dependência em relação ao grupo, isso é uma verdade que eles nunca esconderam. pelo contrário, proclamam-na para todo mundo ouvir. Com orgulho, só que com outras palavras. Menos desqualificadoras, é claro.
Realmente, colocando-se as coisas nesses termos, como alguns psicanalistas colocam – técnica repressiva, estimulação à dependência sem fim – quase nada resiste.
Não tenhamos, porém, medo das palavras. Vamos enfrentá-las no seu próprio campo.
REPRESSÃO E DEPENDÊNCIA NÃO SÃO SEMPRE RESTRITIVOS.
Logo de saída, repressão (ou, caso se prefira, recalque) não é palavrão, apesar de ter adquirido essa conotação. Existem repressões que causam danos e prejuízos; mas existem repressões que evitam danos e prejuízos. Afinal, como o próprio Freud nos lembrou ao final de sua vida (Análise terminável e interminável, 1937), a mente humana jamais é capaz de dar conta de si completamente. Ela possui não só pontos que nenhuma psicanálise é capaz de remover, como percorrê-la em toda a sua extensão, desreprimi-la e elaborá-la é tarefa simplesmente impossível. Logo, para esses pontos não digeridos, só resta a repressão. Se ela falhar, eles aparecerão sob a forma de sintomas, infernizando a vida. A repressão, portanto, pode também ser a guardiã da vida. Repressão entende-se aqui como um mecanismo interior da mente – é óbvio -, e não como atos policiais externos.
O mesmo se pode dizer da palavra dependência, mesmo quando esta não deva ter fim. O ser humano, por natureza, é um ser dependente. A independência para ele é impossível, não passa de um sonho, de uma quimera. Trata-se, portanto, não de livrar-se das dependências e sim de administrá-las dentro do possível. Dependências em relação a que e de quem? Essa é a verdadeira pergunta.
Para os grupos anônimos, trata-se de estabelecer algum grau de dependência em relação a eles ou de recair na dependência ao álcool e à droga. As coisas não são assim por prazer ou por capricho dos grupos anônimos, mas por imposição dos fatos., Quem achar que não é assim, siga seu rumo. Não será caçado a laço.
Mas na prática essa “dependência do grupo” é meio mítica. O que existe na realidade são pessoas se relacionando com pessoas, num jogo de trocas mútuas muitas vezes agradável e prazeroso. Certamente não se “depende” mais das pessoas que dos companheiros de bar ou de noitadas cocaínicas. Para não se evitar a palavra dependência e enfrentá-la de frente, assumindo-a, se dirá então, sendo mais preciso, que há dependência não em relação ao grupo ou às pessoas, mas antes em relação a essas trocas recíprocas. O membro do grupo anônimo não é passivo. Ao se tratar, está tratando. Ao depender, está sendo objeto de dependência. Ao ser filho, está sendo pai.
Quanto ao fato dos grupos anônimos recorrerem a técnicas repressivas com relação ao alcoolismo ou às toxicomanias, essa afirmação requer esclarecimentos.
Certamente. se técnica repressiva significar algum tipo de ameaça, crítica, intimidação, algum tipo de violência, algum tipo de atitude geradora de medo, os grupos anônimos não recorrem a nenhum tipo de técnica repressiva.
Se, contudo, por repressão se quiser entender um método de conscientização sobre a limitação, da impossibilidade de sua reversão, e uma ajuda mútua para evitar a tentação, aí, tudo bem, os grupos anônimos utilizam a repressão. Tal como o cardiologista, ao estimular seu cliente hipertenso a abandonar o sal, tal como o endocrinologista ao incitar seu paciente diabético a abandonar o açúcar, tal como o neurologista ao sugerir ao seu paciente acometido de “ausências” que abandone o automobilismo. Ou tal como o psicanalista ajuda seu paciente a abandonar suas fobias, manias ou repressões. Ou será que o psicanalista não faz isso?
Se as dependências químicas e alcoólicas fossem superadas pela psicanálise, ou por qualquer outro método, eu não tenho dúvida de que os grupos anônimos a recomendariam e reformulariam – felizes – os seus princípios. Afinal, todos os seus membros poderiam voltar a beber, numa boa… Logo quem!
Não é por implicância, moralismo ou calvinismo que eles recomendam a abstinência. Nem por masoquismo, logo eles que amaram tanto as noitadas boêmias, bêbadas ou drogadas. Não nos esqueçamos jamais desse fato: os membros dos grupos anônimos foram, na maioria, notívagos, almas boêmias, gente que amava “vinho, mulheres e música”. E não ascetas, misantropos ou almas clericais. Eram pessoas superligadas aos prazeres e não, desde sempre, ligadas às bem-aventuranças da vida eterna. Essa origem marca uma imensa diferença entre os grupos anônimos e quase todos os outros grupos, seja lá do que for. Seja mesmo um grupo de psicanalistas ou artistas. Nenhum grupo humano reúne tamanha concentração de boemia, noitada e festa.
LIVRAI-NOS, SENHOR, DO… PRIMEIRO GOLE.
Quanto à idéia de “evitar a primeira dose”, na sua simplicidade prática é simplesmente genial.
Ora, se dirá, a Bíblia já disse isso muito antes, com suas parábolas para evitar as tentações. Os fumantes já descobriram que só se afastando de vez do cigarro é possível livrar-se do cigarro. Os amantes infelizes, com tanto dor, já descobriram há tantos séculos, que só se afastando daquele amor não correspondido conseguem livrar-se dessa dependência tão poderosa quanto as piores dependências, chamada paixão.
Só que, ao colocarem esse preceito, os grupos anônimos abrem um imenso filão de associações e simbolismos, que nem os fumantes, nem os amantes infelizes abriram. Resolveram de uma só tacada, não só o problema do alcoolismo, como possibilitaram o emprego dessa idéia aos mais variados campos.
Por que?
Porque ao invés de só falar de força de desejos, de conflitos de desejos, de conteúdo de desejos, abordaram o aspecto do grau particular de excitação de cada desejo, seja ele qual for. Mostraram que um mesmo desejo, nos seus estados menos excitados, não é o mesmo do que nos seus estados mais excitados. Não se trata, portanto, de mudar o conteúdo dos desejos não desejáveis. Trata-se de não incitá-lo, de não atiçá-lo.
isso vale para qualquer desejo. Até porque, além de uma certa temperatura, ninguém mais consegue controlá-lo, e ele é que controlará. No problema do desejo importa sim, primeiro, o seu grau espontâneo de explosividade: se é explosivo, fissurado, voraz; ou se é dócil, naturalmente moderado e pacato. Segundo, o grau de excitação m que ele se encontra. De acordo com esse critério, importa menos o objetivo que o desejo deseje e, muito mais, sua natureza explosiva e seu grau de excitação. Desejos vorazes demais – ou seja, compulsões – são perigosos e perniciosos seja qual for seu objeto. Face a eles só resta uma atitude: não incitá-los, mantê-los aquietados.
Ora, essa idéia aplica-se a um sem-número de circunstâncias. Aplica-se ao docinho, “só-uma-mordidinha” para quem está fazendo dieta. Aplica-se ao “só-mais-essa-apostinha”, a quem está querendo administrar a jogatina. Aplica-se ao primeiro tom áspero, no casal dominado pela compulsão da briga. Aplica-se à primeira manifestação dessa perigosa compulsão chamada preguiça àquele que se propôs fazer ginástica. Aplica-se ao aparecimento daquela primeira idéia pessimista no deprimido. Aplica-se ao aparecimento daquele primeiro sentimento de autocomiseração naquele que tem a compulsão de se sentir vítima. Aplica-se ao primeiro olhar vigilante naquele que está possuído pela compulsão dos ciúmes. E, por aí vai.
Essa recomendação dos grupos anônimos mudou minha maneira de lidar comigo mesmo e com meus pacientes. Não com relação ao álcool. Mas com relação à vida.
Essa técnica de quebrar uma compulsão, aquietando-a e evitando sua incitação, eu não conhecia. Ou melhor, até a conhecia, mas com um saber lateral, sem maiores importâncias para todas as áreas da vida. Seria para parar de fumar, acordar pela manhã e para não muito mais do que isso.
OS GRUPOS ANÕNIMOS SERIAM TÉCNICAS SUGESTIVAS.
Vamos enfrentar agora mais duas acusações: a de que os grupos anônimos “seduziriam” aqueles que os procuram para se converterem ao seu credo; e que ofereceriam “sugestões” anti-alcoólicas, no sentido negativo da palavra.
Tudo, como sempre, depende do sentido que se estiver dando às palavras. No meio psicanalítico, sabe-se muito bem o que significa seduzir e sugestionar.
Seduzir seria a atitude de substituir a verdade sobre a mente pelo discurso do elogio, do agrado, da massagem do ego, ou da promessa. Não vejo, nesse sentido, os grupos anônimos seduzindo ninguém. Pelo contrário, vejo-os oferecendo a todos os seus membros a verdade mais direta e sem retoques, não só sobre o alcoolismo e as drogas, como sobre o funcionamento geral da “personalidade”, ali chamada de “caráter”. O que são os Doze Passos senão um convite a uma verdade psíquica cada vez mais aprofundada? A técnica usada não é, do ponto de vista de sua liturgia, realizando algo semelhante ao fazer psicanalítico?
Ora, se dirá: não se interpreta o infantil, na transferência. Com esses nomes, certamente não. Mas será que, de uma forma mais empírica do que conceitual, mais apoiada na sensibilidade e na experiência do que na teoria, não estarão fazendo algo equivalente a interpretar o infantil na transferência? Não fazem análise do caráter observado não só o relato mas o comportamento do membro com relação ao grupo e aos outros membros? Tudo isso dentro de um clima emocionado que poderia perfeitamente ser chamado de transferência? Nessa “análise do caráter” não estão mostrando a seus membros como seu comportamento possui muito de infantil, o que perturba a sua vida? É verdade que os grupos anônimos não possuem o conceito psicanalítico do “infantil”, com todas as complexidades que ele implica, mas não estarão empiricamente, com outras palavras, operando com ele\? É verdade que os grupos anônimos não possuem o conceito psicanalítico da transferência, mas não estarão, também empiricamente, trabalhando com ele, verbalizando-o e interpretando-o?
Além disso, nos grupos anônimos não há “sopa”, de tipo nenhum. Nem a propriamente dita, nem qualquer outra. Não há tapinha nas costas, não há empréstimo de dinheiro, não há facilidades de emprego, não há remuneração por serviços prestados, não há auxílio médico, mesmo que ele seja necessário. O único auxílio que se oferece é o auxílio mútuo, nos assuntos diretamente ligados à compulsão. Não há promessas de cura miraculosa, nem garantias de nada. Só há promessa de trabalho. Não do grupo com relação ao dependente, mas de todos com relação a todos, sem nenhuma remuneração financeira. pelo contrário: todos têm de tirar dinheiro do próprio bolso para custear as despesas de aluguel, luz, telefone e burocracia do grupo.
Sedução como, se há tamanha austeridade?
Agora, que o dependente é acolhido com respeito, atenção, fraternidade, isso é. Que ele recebe amparo nos seus momentos de desamparo e incentivo nos seus mementos de hesitação, isto também é fato. Se vem que na exata medida que é implicitamente sugerido a ele acolher com respeito, atenção e fraternidade outros dependentes, ampara-los nos momentos de desamparo e incentivá-los nos momentos de hesitação.
É óbvio que um membro recém-chegado, com a insegurança e desconfiança que caracterizam esse estado, recebe cuidados especiais. Não que ele seja “seduzido”. Simplesmente é tratado de acordo com o grau de fragilidade que apresenta.
Ele não estabeleceu ainda uma relação de confiança com o grupo e com os outros membros, ainda está ressabiado, desconfiado, cheio de dúvidas e ultrafragilizado por estar interrompendo o uso do álcool ou das drogas sem nenhuma certeza de ser este o melhor caminho. Não percorreu ainda, nem precariamente, os Doze Passos, não perdeu ainda o medo de si mesmo e dos outros, da verdade psíquica, das palavras. Não aprendeu ainda que mostrar-se não é tão catastrófico quanto a sua cabeça supõe.
Nesse estado, é óbvio que o único método de abordá-lo é o método de se abordar um bambi. Nada de verdades chocantes, nada de gestos bruscos. Só pode haver gestos suaves e delicados. O grupo opera como uma espécie de anfitrião para uns é frágil, que pela primeira vez frequenta terras e pessoas ainda tão estranhas.
Será isto sedução? Eu preferiria chamar de delicadeza, adequação. A delicadeza adequada para a fragilidade objetiva daquele momento.
Um psicanalista opera de uma maneira diferente com um paciente recém-chegado na análise e todo cheio de recatos, pudores e temores? Sai, logo de cara, dando interpretações a torto e a direito, “dizendo verdades”, doam o quanto doerem? Ou será esse grave erro técnico, grave erro de timing típico de uma “análise selvagem” levada a cabo por pessoas sem um preparo adequado?
Será que só existe “psicanálise”, no sentido mais profundo do termo, dentro da liturgia psicanalítica? Aliás, que liturgia é essa em que palavras são as “verdadeiramente psicanalíticas”, se tudo varia tão radicalmente de analista para analista?
Quanto à acusação de que os grupos anônimos usariam de sugestões anti-alcoólicas ou antidrogas num clima de hipnose mística, é preciso esclarecer alguns pontos.
OS GRUPOS ANÔNIMOS E OS IDEAIS FREUDIANOS DE NEUTRALIDADE.
Os grupos anônimos não são freudianos, no sentido de terem se constituído com apoio em um trabalho teórico inspirado pelos princípios gerais da obra de Freud. Também não são antifreudianos, no sentido de se inspirarem em outros parâmetros.
São apenas grupos que se constituíram por uma necessidade prática e que funcionam de maneira marcadamente empírica. Quer dizer, muito mais apoiados na experiência e na observação de fatos do que na elaboração de complexos sistemas teóricos. Para eles, o que interessa é que “funcionam”. E funcionam mesmo.
O que me encanta neles, contudo, não é somente essa eficácia em assuntos tão difíceis quanto as grandes compulsões (alcoolismo, drogas, tabagismo, comilança e jogatina), mas também sua inacreditável liberdade de organização. A ausência completa de hierarquias cria uma clima ímpar de liberdade de pensamento. Além do que, a busca permanente da sobriedade (em todos os sentidos) cria uma maneira extremamente abstinente, não ostensiva, não interferente, de pensar. Nesse sentido, cultivam uma escuta e uma fala que se aproximam exemplarmente dos ideais freudianos de neutralidade, não-intrusão e não interferência.
Não bastasse isso, há ainda total ausência de punição. Ninguém pode ser punido por nada. Seja sua vida qual for! Nem sequer criticado.
Exceto o princípio da sobriedade e do autoconhecimento, não há qualquer doutrina, filosofia de vida, conselhos de bem viver, caminhos para a salvação. Nada que for polêmico ou passível de controvérsia faz parte do espírito dos grupos anônimos.
isso para mim é o moderno, o livre, o libertário. Isso sim é a garantia do pluralismo, da liberdade de ser e de pensar.
De nada adiantam mil palavras, pronunciadas por organizações hierarquizadas, com autoridades e chefias, credenciadas para vigiar e punir, para qualificar ortodoxias e desqualificar tudo o mais como heresias. Nessas circunstâncias, cada um terá a liberdade de pensamento do chefe ou do imaginário do grupo, o qual se manifesta sob a forma de consenso, de verdades óbvias por si mesmas.
Grupos constituídos com tamanho grau de liberdade, jamais vi. As instituições psicanalíticas certamente têm muito a aprender com esse tipo de organização… Tenho certeza de que, a partir daí, produzir-se-á melhor psicanálise.
Por tudo isso, a linguagem de aparência religiosa desses grupos não me impressiona. É interessante notar que, em sua literatura, não há uma técnica referente à repressão da sexualidade. Seja qual for. Não que os grupos anônimos sejam orgiásticos, pervertidos ou bacanalescos. Enquanto grupos não são. São sóbrios. Contudo, seus membros não lhes devem satisfações. Cada qual que siga seu rumo. Seja ele qual for. Desde o mais austero até o mais transgressor dos chamados “bons costumes”.
Uma coisa é certa: seja qual for o grau de austeridade ou licenciosidade que cada qual resolva exercer, de uma coisa os grupos anônimos não podem ser acusados: de serem compostos por pessoas sem “experiências de vida”. Na sua grande maioria são compostos por pessoas que viveram, até dramaticamente, quase todos os aspectos da vida, desde os chamados mais “torpes” aos chamados mais “sublimes”. Ou será que alcoólatras e drogadas são pessoas de vida austera e regrada, avessas aos prazeres da vida, da farra, das madrugadas, das folias e dos excessos Existem seres mais dionisíacos do que esses? Tão dionisíacos que se perderam no seu próprio dionisismo?
Os grupos anônimos usam a palavra “Deus”, é a verdade. Mas será Deus como cada membro “o concebe”. Os grupos anônimos falam de “desenvolvimento espiritual” e de moderação – como cada um “os concebe”. Portanto, esses conceitos dependerão da liberdade de cada um.
OS GRUPOS ANÔNIMOS ESTÃO ABERTOS A TODO SABER.
Essa descrição dos grupos anônimos não significa uma visão idealizada dos mesmos. Nos grupos de que participei pude perceber que lhes faltavam determinadas ferramentas teóricas.
Porém, a que grupo humano não faltam?
Mais: não existe nada nos grupos anônimos que impeça a aquisição de qualquer saber. O que a “consciência” do grupo não aceita são teorias que agridam os fatos, mesmo que vazadas nos termos mais elegantes e pomposos.
Por exemplo: que o alcoolismo possa ser revertido em moderação alcoólica; que o toxicômano que abandonou as drogas possa beber; que o comedor compulsivo se torne frugal por obra e graça do processo psicanalítico; que o jogador possa jogar um biribinha inocente de vez em quando.
Não que os grupos anônimos não quisessem que isso fosse possível. Logo eles, que tanto amaram essas atividades. Se fosse possível, que bom! Eles até se dissolveriam, por não terem mais razão de existir. Só que os fatos apontam em outra direção.
É só isso que eles defendem.
Pensemos, pois, em uma teoria psicanalítica que leve em conta essas evidências. Pensemos em uma teoria psicanalítica que teorize os atos e não uma ilusão que não corresponde aos fatos. Ou seja, pensemos em uma psicanálise que teorize a extrema fixação das grandes compulsões e como elas frequentemente se associam uma às outras.
Se nós, psicanalistas, fizermos isso, certamente ruirão as resistências dos grupos anônimos ao saber psicanalítico. Que cada qual respeite a área de eficácia que lhe é própria.
Além disso, se nós, psicanalistas, abandonarmos o culto religioso às nossas palavras e pudermos ter ouvidos abertos a outras palavras, muito poderemos aprender com os grupos anônimos.
Dizer a coisa em várias “línguas” não é perda de integridade conceitual. Quem sabe diz a mesma coisa de mil maneiras… e sabe ouvir as mil maneiras de se dizer a mesma coisa.

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS – CAPÍTULO VIII – O FUNCIONAMENTO DOS GRUPOS FAMILIARES DOS DEPENDENTES

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS
Eduardo Mascarenhas

CAPÍTULO VIII
O FUNCIONAMENTO DOS GRUPOS DE FAMILIARES DOS DEPENDENTES.
Não há família capaz de conviver com um dependente na ativa sem enlouquecer.
Impotente, desesperada, ela não sabe mais o que fazer. Ora perde as estribeiras e reage com grande impaciência e agressão. Ora se sente culpada e, complacente, corre atrás para desfazer as loucuras financeiras, profissionais e pessoais do bêbado ou drogado.
O dependente, por sua vez, ora se sentirá vítima da família e desamparado, ora se sentirá de costas quentes, vivendo uma perigosa impunidade, que só estimula a irresponsabilidade.
A família, sem o saber, torna-se fator de agravamento da compulsão.
Se o bêbado e o drogado enlouquecem a família, a família enlouquece-os também.
Tendo percebido isso, os Grupos Anônimos estimularam a criação de Grupos Anônimos constituídos pelos familiares dos dependentes do álcool ou das drogas.
Para suplementar a recuperação dos membros nos Alcoólicos Anônimos (A.A.) criaram-se os Al-Anon (outra maneira de abreviar Alcoólicos Anônimos); e para suplementar a recuperação dos Narcóticos Anônimos, foram instituídos os Naranon ( de novo, outra maneira de abreviar Narcóticos Anônimos).
Os Al-Anon foram a segunda modalidade de grupos anônimos a entrar em funcionamento. sua fundação data de 1947, seis anos, portanto, antes da fundação dos Narcóticos Anônimos (1953). De lá para cá, têm trazido o mais relevante auxílio ao alcoólatra e à sua família.
A história do NARANON no Brasil é também uma história peculiar quanto a dos Narcóticos Anônimos. os NARANON surgiram como desdobramento do Toxicômanos Anônimos e se chamavam TOX-ANON. Em 1990, depois de tão importantes serviços prestados à causa da recuperação dos toxicômanos no Brasil, em um ato de comovente humildade, renunciaram à sua designação e, tal como os Toxicômanos Anônimos, integraram-se aos movimentos internacionais. Os Toxicômanos Anônimos, como já disse, passaram a se chamar Narcóticos Anônimos e os TOXANON adotaram a designação de NARANON.
Nos AL-ANON e NARANON os amigos e familiares dos dependentes se reúnem para entender mais sobre a compulsão e saber enfrentar os problemas que ela acarreta.
A família que até então atrapalhava a recuperação, doravante não só não atrapalha mais, como ainda ajuda. E muito.
O dependente está agora protegido por todos os lados. Leu a literatura dos grupos anônimos e agora conhece o fundamental sobre a compulsão e seu enfrentamento. Encontra-se protegido intelectualmente. Não é mais um ingênuo e um incauto diante das astúcias de sua compulsão. Além disso está protegido emocionalmente pelos vínculos que estabeleceu com outros membros dos Grupos Anônimos. Fosse isso pouco, e, esteja onde estiver, esteja na ilha de Java ou no Japão, terá logo ali na esquina algum Grupo Anônimo ao qual recorrer. Gente de outra língua, é verdade, mas que fala a “sua” língua.
Para não esquecer um único dia os perigos de recaída, freqüenta reuniões do seu grupo, ouve depoimentos de outros dependentes, está disponível para auxiliá-los. E agora, até nos filhos, nos empregados, encontra aliados, terapeutas leigos para auxiliá-lo a aprofundar sua sobriedade.
Os grupos familiares (AL-ANON e NARANON) funcionam à imagem e semelhança dos grupos anônimos, seguindo as mesmas regras de funcionamento e os mesmos princípios. Ao invés de “evitar a primeira dose”, seu lema é “evite a primeira briga”. Sábia advertência. Afinal, alguém já viu briga, bate-boca, insulto e discussão resolver alguma coisa? Agressividade apenas puxa agressividade. É essencial quebrar esse circuito vicioso que gera tanto desentendimento, que cava abismos entre as pessoas, num progressivo afastamento. Nas reuniões desses grupos, os familiares aprendem tudo sobre dependência do álcool ou de drogas e discutem com membros mais experientes como conviver com o dependente e como auxiliá-lo com respeito e competência, e não com desrespeito ou paternalismo. A família também deve evoluir psiquicamente através da prática dos Doze Passos. Apenas – é óbvio – O Primeiro Passo é transformado. Não se trata de admitir que se perdeu o controle sobre o álcool ou a droga. Trata-se de admitir que se perdeu o controle sobre o alcoólatra ou o drogado. E sobre si mesmo, no que respeita às reações.
Os grupos familiares de alcoólatras existem no Brasil há cerca de 20 anos e os toxicômanos apareceram nos anos 80. Sem eles, os grupos anônimos não teriam a eficácia que alcançaram.
Principalmente nos seus primeiros tempos de recuperação, os dependentes estão frágeis e necessitam de maior amparo familiar. E amparo não significa apenas boa vontade e paciência. Envolve também entendimento dos processos psicológicos da cabeça do dependente e dos complexos jogos afetivos que ocorrem no interior de um casal e de sua família.
Numa família ou num casal, acaba havendo uma distribuição de papéis, como numa peça de teatro: cada qual encarna um personagem e cumpre um papel, saiba ou não saiba, queira ou não queira. E, quando um dos personagens mais marcantes dessa peça – o alcoólatra ou o drogado – vai mudando, há um desequilíbrio geral na família. Hábitos, costumes, hierarquias e rotinas são abalados, e isso gera resistência, crise, confusão. Cada qual já estava acostumado até com o tipo de sofrimento que o atingia no dia-a-dia. Dispunha-se até de um bode expiatório, responsável por todos os males da família: o dependente.
Quando este começa a recuperar-se, os outros membros da família podem reagir – sem o saber – de forma negativa.
Suponhamos um alcoólatra, pai de família, de uns 50 anos, com filhos adolescentes e enfurnado no copo há vários anos. Sua irresponsabilidade, sua incapacidade de dar-se ao respeito ou de honrar compromissos há muito o destituíram da liderança da família. A esposa e os filhos assumiram o comando. E já se acostumaram a isso. Quando esse alcoólatra pára de beber e reassume seu papel, é necessário um remanejamento na distribuição dos poderes. E – a gente sabe – poder “vicia” mais do que qualquer substância química. Embriaga a todos, sobe à cabeça e inebria. Resultado: crise.
Além disso, vem a gana da forra pelos anos de sofrimento e privação impostos pelo alcoolismo do pai e marido, cuja dívida familiar é enorme, impagável, podendo seus credores tornarem-se furiosos.
E o pior é que o alcoólatra nesses primeiros tempos de recuperação ainda está frágil, vulnerável. É quase como um adolescente ainda desesperado para enfrentar o mundo.
Muitas vezes a mulher do alcoólatra interpreta a compulsão do marido como uma rejeição, sinal de seu fracasso como mulher. E evidentemente, enxergando as coisas por esse ângulo, jamais terá serenidade para auxiliar o alcoólatra.
A FAMÍLIA SAI MELHOR DO QUE ENTROU.
A vida nos apresenta permanentes paradoxos. A família de que um dos membros é vítima de compulsão ao álcool ou a drogas fica profundamente abalada, em clara desvantagem com relação às demais. Entretanto, com a criação dos AL-ANON e dos NARANON, tudo mudou. As famílias rapidamente compreendem que amar não é sofre junto, descabelar-se junto, enlouquecer junto. Isso não é solidariedade, é bondade inútil. Ou masoquismo. Manter o pulso firme sem se irritar é a postura que ela logo aprende. com isso debela a hemorragia que a exauria.
Ao frequentar aos AL-ANON e os NARANON, as famílias dos dependentes vão adiante. Não só se conscientizam sobre a compulsão ao álcool ou às drogas, sobre as dinâmicas que elas geram, como ganham uma compreensão muito mais ampla de todos os relacionamento familiares que independem da presença do dependente na ativa.
Assim, os membros das famílias “desenvolvem” suas personalidades. Quer dizer, a família será mais refinada e “integrada” do que era antes. O que parecia uma desgraça torna-se uma benção. A compulsão, ao invés de destruir a família, pode fazê-la mais forte, e seus membros passam a se “melhores pessoas” do que eram e do que seriam se tudo tivesse acontecido.
E os filhos menores, os adolescentes, os chamados “teen-agers, aqueles que vão dos 13 aos 19 anos? Esses são ainda jovens demais para discutir nos grupos adultos. Sua presença atrapalharia a discussão, e não se poderiam discutir ao seu nível.
Tal como a psicanálise inventou os grupos de adolescentes, os Grupos Anônimos inventaram os seus: são grupos que reúnem os filhos dos alcoólatras e drogados, que ali aprendem a perder o preconceito, a vergonha e o sentimento de inferioridade, pois aprendem a entender as compulsões. aprendem, de uma só vez, a compreender seus pais, seus irmãos, e a se compreenderem melhor.
Muitos adolescentes foram salvos das drogas só porque tinham um pai ou mãe bêbados ou drogados!
SER ALCOÓLATRA OU TOXICÔMANO PODE SER VANTAGEM.
Um drogado ou bêbado, ao ingressar num Grupo Anônimo, pára de drogar-se e de embebedar-se. Ao cumprir os Doze Passos, vê desabrocharem suas potencialidades e, de lambuja, livra-se de vários sintomas neuróticos. Não bastasse isso, ocupa o tempo ocioso com coisa útil. Faz novos amigos, aliados, companheiros. E aprende tudo sobre sua compulsão, tornando-se um expert no assunto. Sua cabeça fica mais aberta e sua família mais “evoluída”. Filhos adolescentes, que poderiam ir para as drogas ou para a delinquência, retornam a um caminho mais sadio. Inacreditavelmente, sua compulsão resultou em benefícios. Para todos.
Não só se sai melhor do que entrou, como também se sai melhor do que se nunca tivesse entrado.

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS – CAPÍTULO VII – OS DOZE PASSOS

ALCOOLISMO, DROGAS E GRUPOS ANÔNIMOS
Eduardo Mascarenhas

CAPÍTULO VII
OS DOZE PASSOS.
A experiência de mais de 50 anos recuperando milhões de pessoas mundo afora trouxe aos grupos anônimos a convicção de que só controla uma grande compulsão aquele que se reformular por inteiro.
Uma grande compulsão é tão perigosa que não basta tornar-se uma pessoa normal para não ser tragado por ela. É necessário desenvolver potencialidade, superar primitividades, elevar o nível psíquico até graus de excelência.
Os Doze Passos são um guia, uma maneira didática de se alcançar um aperfeiçoamento. Não se trata de cumpri-los integralmente ou de se tornar perfeito para outro. Trata-se de cultivar níveis psíquicos superiores: pensar grande, nutrir sentimentos belos, esforçar-se por abandonar os patamares da mesquinharia. Afinal, quem não cultiva ideais mais nobres e elevados condena-se a viver ao rés do chão.
Atenção: os Doze Passos não visam a alterar os gostos e preferências de ninguém. Que cada um continue gostando ou preferindo o que quiser. que cada qual siga o seu rumo, na direção das coisas que o façam feliz. Sejam elas quais forem. Os Doze Passos visam tão-somente conter a dependência química e harmonizar melhor a pessoa com ela mesma, fazê-la conhecer-se mais profundamente e ter assim mais sabedoria para lidar consigo própria e com os outros. Não é objetivo dos Doze Passos – definitivamente não é – enquadrar pessoas em nenhum modelo de “bom comportamento”. Não se trata de adaptar. Trata-se de sensibilizar a inteligência, a sabedoria e a intuição. Para seguir o caminho que mais aprouver. Cada cabeça, uma sentença.
O PRIMEIRO PASSO PARA DEIXAR DE SER UM BÊBADO OU DROGADO.
Paradoxalmente, só há esperança de controlar uma grande compulsão quando se admite a derrota completa frente a ela. Tudo já foi feito, já foi tentado, e o resultado foi: nenhum. Ela sempre reaparece e com força redobrada.
Antes de chegar a esse ponto, nada adianta, porque a pessoa não procurará ajuda. Afinal de contas, é duro para qualquer um reconhecer que perdeu o domínio sobre uma área tão importante da vida, capaz de gerar devastadoras consequências. Além de angustiante, é humilhante num primeiro momento. Traz um amargo gosto de derrota.
O pior é que, se o alcoólatra ou o drogado se sente um fraco ou fracassado, as pessoas com quem convive geralmente pensam o mesmo dele. Assim, aquele que é acometido por alguma “doença” compulsiva não tem com quem conversar. Não tem amigos, não tem família. Não tem sequer médicos, psicólogos, psiquiatras ou psicanalistas, porque a maioria destes comunga com alguma visão preconceituosa sobre o alcoolismo ou as drogas.
Uma coisa é certa: se sermão, pito ou bom conselho adiantassem não existiria um bêbado ou drogado no mundo. Nem gordos, fumantes, jogadores compulsivos. Nem tantas coisas mais.
Cercado da incompreensão de todos – inclusive da sua própria – o dependente tende a se recolher, a ter uma vida interior secreta. Ou a cercar-se de outros dependentes. Pelo menos entre eles não será desrespeitado ou censurado. Contudo, só receberá auxílio para negar o óbvio: que é um dependente e precisa de ajuda. Os alcoólatras ou toxicômanos, quando estão na “ativa” e se reúnem fazem-no apenas para alimentar a compulsão e reforçar a negação de que ela existe. Daí a importância dos grupos anônimos, nos quais o dependente é acolhido com respeito e fraternidade. E por gente que entende do assunto: outros dependentes que conseguiram controlar sua dependência. Ninguém melhor do que um dependente em recuperação para conhecer as manhas e artimanhas dos outros dependentes e tratá-las com competência e genuína simpatia.
Tudo bem, o alcoólatra ou drogado venceu a primeira resistência e “jogou a toalha”: reconheceu sua própria realidade compulsiva. aí ingressa num grupo anônimo. Quando lhe é dito que não é um fraco, fica satisfeito. Mas quando lhe dizem que o alcoolismo ou as toxicomanias são uma doença, ele reage. Claro, quem gosta de ser portador de uma doença? Ainda mais uma doença incurável. Nesse momento, aparece a sua segunda resistência, que é reforçada pelo fato de não existir nenhum exame laboratorial capaz de comprovar a existência de qualquer transtorno orgânico como causa de compulsões. Ora, se não há órgão lesado, se não há metabolismo alterado, se a química dos tecidos e do sangue é igual à de todo mundo, por que então o alcoólatra ou o drogado deve admitir que está doente?
Entretanto, para alguns alcoólatras e drogados a informação de são portadores de uma doença provoca uma reação favorável de alívio. Pelo menos não são uns fracos de caráter e os acontecimentos de sua vida pregressa não são de sua inteira responsabilidade. Afinal muito o que fizeram foi por doença, e uma doença que vai depender do dependente ativá-la ou não. Basta evitar a primeira dose que a doença não se ativará, permanecendo aquietada, passiva e inofensiva. Uma doença que era tão ativa torna-se uma doença passiva, dócil. Que alívio!
Cabem aqui alguns esclarecimentos. Bill d Bob, os fundadores de Alcoólicos Anônimos e, por extensão, os inspiradores de todos os grupos anônimo, já o dissemos, não eram cientistas nem estavam interessados na elaboração de conceitos sofisticados. Eram homens práticos, interessados num método prático e não em filigranas.
O alcoolismo não é algo que atinge as pessoas nas pessoas, a despeito de sua vontade, e que lhes faz mal física e psiquicamente, podendo levar até a morte? Então, alcoolismo nesse sentido, é uma doença. Ele pode ser curado, estirpado, no sentido de um alcoólatra poder vir a beber moderadamente? Não. Logo, é uma doença incurável. Só isso.
Agora, o fato do alcoolismo (ou as toxicomanias) ser uma doença não quer dizer que o alcoólatra (ou o toxicômano) seja “um doente”. Não, enquanto pessoa ele é como outra qualquer. É, isto sim, portador de uma doença: o alcoolismo (ou toxicomania).
O Primeiro Passo é o passo da humildade. É reconhecer que perdeu o controle sobre o álcool. Pior: é reconhecer que perdeu o controle sobre sua vida.
O SEGUNDO PASSO PARA CONTROLAR UMA GRANDE COMPULSÃO.
É engraçado, mas admitir tratamentos físicos, hospitalares, até cirúrgicos, muitas vezes é mais fácil do que confiar numa pessoa ou num grupo de pessoas para fazer tratamento que envolvem entrega pessoa. É que a mentalidade contemporânea já está acostumada a render-se à ciência, desde que esta se apresente com seus “sacerdotes” devidamente vestidos de branco, com aparelhos, seringas e medicações. Já entregar-se a gente sem rituais técnicos é esquisito. Dá uma desagradável sensação de fracasso: “Se gente pode resolver meu problema, por que eu mesmo, sozinho, não posso fazê-lo?” Essa é uma fonte de resistências.
A psicanálise já sofreu muito com isso. Os chamados neuróticos preferiam pílulas, internações, exames, injeções vitamínicas na veia a comente “conversar”. E muitos ainda se arrebentam na vida por causa desse preconceito. Se auto-análise fosse possível, não haveria neurótico no mundo. Todos já teriam se “curado”, ajudando a si mesmos. Aliás, a psicanálise enquanto “tratamento” só existe dada a impossibilidade dessa auto-superação solitária. Mas apesar de tudo e com o passar do tempo a psicanálise foi superando essa resistência. Foi adquirindo estatuto de ciência e até desenvolvendo rituais técnicos como o uso do divã e o hábito dos analistas ortodoxos de sequer cumprimentarem seus pacientes no elevador e outras crendices mais. Hoje, tornou-se até elegante fazer psicanálise. De um sinal de fraqueza, ela tornou-se símbolo de refinamento e sofisticação.
Os grupos anônimos ainda não tiveram igual sorte. Sendo gratuitos e abertos a todo tipo de pessoa, têm mais cheiro de povo, e o elitismo detesta isso. Além do que o anonimato de seus militantes não possibilita que eles se tornem famosos e sejam reconhecidos como sumidades. Sua origem norte-americana colabora ainda mais para a sua falta de prestígio face aos gostos elitistas. enquanto a psicanálise pode apresentar Freud, de Viena; Lacan, de Paris; Jung, de Zurique; Melanie Klein, de Londres, os grupos anônimos só têm Bills e Bobs, de Ohio.
As pessoas de classe social mais alta tendem a desprezar reuniões em que se mesclam pessoas de diversas camadas sociais: “Imagine se eu vou me misturar com essa gentinha!” As pessoas de classe social mais baixa, por sua vez, não gostam desses lugares por razões inversas: “imagine eu ter de falar em público, com um português errado, na frente de doutor!” Essa é outra fonte de resistências.
Uma vez admitida a impotência diante da compulsão e reconhecida a força desta, que é superior a qualquer força individual, só resta procurar pessoas cujos métodos lhes tenham conferido força para enfrentar compulsões. só um “força superior” contra as compulsões pode enfrentar a “força superior” das compulsões.
Reconhecer nos grupos anônimos essa “força superior” é o Segundo Passo.
O TERCEIRO PASSO PARA SE LIVRAR DA DEPENDÊNCIA.
Reconhecida essa “força superior” capaz de enfrentar a força da dependência, cabe agora entregar-se de corpo e alma, o que não significa entregar-se como um anjinho crédulo, pois ninguém pode pedir a ninguém que abra mão de seu senso crítico e se deixe possuir por uma crendice sem fundamentos.
O que um grupo anônimo pede (aliás, nem pede, sugere) é que se abra mão dos preconceitos e certezas em nome de um mínimo de boa vontade. Não se pede confiança cega, mas sugere-se que seja evitada a desconfiança paranóica. Enfim, que se esteja de coração e mente abertos para sentir aquilo que de fato estiver acontecendo. Uma sincera disposição interior de se deixar tocar.
É óbvio que uma pessoa que vai uma vez a uma reunião e não volta mais não está, com sinceridade, indo. Está fingindo que vai.
Eu não sei o nome que os grupos anônimos dão a essa atitude de sair das coisas antes mesmo de haver entrado. Eu sei o nome que a psicanálise dá: resistência. E da braba, das mais primárias.
Com essa atitude interior, é melhor não ir. Até porque ir será mais um álibi, mais uma mentira que se conta a si mesmo: “Não, eu fui, eu tentei, fiz o que pude, mas não de certo”. Foi mesmo? Tentou mesmo? Fez o que pôde mesmo?
Não que eu seja contra uma pessoa ir a um lugar, verificar que não tem nada a ver e não voltar mais. Mas sejamos claros: psicanálise é coisa séria, que acumulou uma experiência de décadas; os grupos anônimos também. É presunção demais um leigo no assunto chegar, dar uma olhada e, simplesmente, sair. Com que autoridade? Com apoio em que critérios?
Pensando bem, vou rever o que acabei de dizer. Mesmo com uma atitude interior de absoluta resistência, é melhor ir a uma reunião dos Grupos de Mútua Ajuda. Quem sabe não ficará alguma semente?
O QUARTO PASSO É SE OLHAR NO ESPELHO.
Os três primeiros passos são os necessários para se reconhecer carente de ajuda, para procurar a ajuda e levar fé na ajuda que se está recebendo. São os Passos iniciais, os passos dos iniciantes. Se bem que muitos iniciados tenham que retornar a eles. Muita gente sóbria já recaiu só porque se esqueceu desses “inícios”.
O Quarto Passo é o primeiro que coloca a pessoa em contato com ela mesma.
Os grupos anônimos recomendam que seus membros sentem-se diante de um papel e comecem a fazer uma espécie de inventário de suas qualidades e defeitos.
Ora, se dirá: “Já começou o moralismo, que pensa certas coisas como qualidades e outras como defeitos: qualidades e defeitos para quem? O que é qualidade para mim é defeito para os outros. Não tem essa de qualidades e defeitos! aliás, não foi dito que os grupos anônimos não se metem na vida de ninguém, nem têm idéias pré-concebidas sobre nenhum assunto controverso? E existirá assunto mais controverso do que definir qualidades e defeitos?”
Sem dúvida, são boas questões.
Não são, porém, os grupos anônimos que definirão o que sejam qualidades e defeitos e sim a própria pessoa. A proposta é simples: que ela, talvez pela primeira vez na vida, olhe de frente para si mesma para pensar sobre quem é. Não com um olhar narcisista e complacente que vê tudo que é seu como máximo. Nem com um olhar policialesco que condena tudo. E sim com um olhar sóbrio ou, pelo menos, que se esforce para ser sóbrio. Afinal, não é para mostrar a ninguém, para ser avaliado ou julgado por ninguém. Depois de escrito, o papel pode perfeitamente ser rasgado e jogado fora.
A escrita é recomendada porque possui características diferentes da palavra falada. Em primeiro lugar, ela não tem testemunhas que possam inibir ou mudar o rumo da conversa. Em segundo, traz um tipo de concentração que somente ela é capaz de proporcionar. Ao tentar se colocar no papel, a pessoa concentra-se em si própria como jamais o fez. E com um grau de organização inédito. Idéias que nunca teve aparecem aos borbotões. Alcança níveis superiores de raciocínio. Não é em vão que as obras supremas do ser humano foram escritas sobre um papel. Em terceiro lugar, porque o que foi escrito a pessoa pode, tempos depois, reler, e isso pode despertar novas idéias.
Alguns membros de grupos anônimos descrevem quase como um milagre essa experiência de ampliação do fluxo das idéias sobre si mesmos. Não há milagre nenhum; tão-somente resultado do trabalho humano. Toda vez que alguém senta para escrever sobre um tema, sua cabeça se liga nesse tema, e fica 24 horas por dia com ele circulando; até nos sonhos ele comparece. Tudo que se olha, tudo que se lê, tudo que se conversa tem como referência secreta o tema. Nesse estado, naturalmente, a criatividade dispara e surgem idéias aos borbotões.
A psicanálise, num certo sentido, faz o mesmo com seu paciente. Só que por meio da fala. A sucessão de sessões em que ele deve falar de si concentra sua mente nele próprio, exponencia sua atenção sobre tudo que ocorre nela, sensibiliza o seu pensamento para que ele pense melhor sobre ela. Daí a amplificação do rendimento.
Nenhum milagre. Só trabalho.
Aliás, a chamada “psicanálise inaugural”, aquela feita por Freud quando não existiam ainda psicanalistas, já que ele foi o primeiro, envolveu farto trabalho de escrita.
Freud – é óbvio – não tinha com quem trocar idéias dada a originalidade do saber que estava produzindo. Era um saber que simplesmente botava de cabeça de cabeça para baixo todos os saberes do homem sobre o homem. Inspirava, assim, as maiores resistências.
Não estou nem falando das idéias de Freud sobre a sexualidade, estou falando apenas das suas idéias sobre o inconsciente. As idéias sexuais não só mobilizam as resistências naturais a idéias novas como ainda despertaram resistências morais.
Freud estava com 40 anos e não tinha com quem conversar, com quem se abrir. Encontrou então um médico alemão chamado Wilhelm Fliess, que despertou nele aquela afinidade por ele desejada. Com Fliess, trocou volumosa correspondência, na qual relatava suas descobertas e sua auto-análise. Tudo, por escrito.
Além disso, escrevia livros nos quais expunha seus próprios sonhos e as associações e interpretações que fazia deles; além dos sonhos, pensava nos seus impulsos e sintomas. Verificou, então, que a partir de certo ponto seus livros não progrediam; sua mente ficava confusa e dando voltas em círculo. Foi nesse momento que Freud descobriu como era impossível a auto-análise: a própria mente ergue resistências contra ela.
O que fazia então para contornar essas resistências?
Deixava um pouco de lado a sua auto-análise e escrevia cartas para Fliess ou tentava entender os problemas de seus pacientes. As cartas aliviavam tensões em sua mente, que, dias depois, ficava mais clara. Entender seus pacientes auxiliava-o a entender a si próprio. Olhando para eles, podia depois voltar a olhar para si, aplicando as mesmas idéias que tivera com eles. Por esse caminho indireto, sua “auto-análise” progrediu.
Num certo sentido, Fliess operou como um “padrinho” dos grupos anônimos. Trocou com Freud energias psíquicas “positivas”. O simples fato de Fliess ler as cartas já fertilizava Freud, desanuviava estranhas resistências.
A análise que Freud fazia de pacientes equivaleria ao auxílio que um membro do grupo presta a outros. Ao pensar no outro, ao tentar entendê-lo, se pensa e se entende melhor.
A escrita dos sonhos, sentimentos e sintomas que Freud realizava nos livros para produzir teorias equivaleria, nos grupos anônimos, à leitura da literatura sobre compulsões e a este Quarto Passo.
O QUINTO PASSO
Esse passo é o desdobramento natural do anterior: feito o inventário das qualidades e defeitos, identificados os aliados e os adversários na batalha contra a compulsão, resta agora ir além. Não apenas abrir-se para si mesmo, mas abrir-se para outro.
Evidentemente a escolha da pessoa aqui é decisiva. Não dá para procurar pessoas que pensam nas compulsões de formas preconceituosas. Daí, costumeiramente, um membro de um grupo procura um outro membro do grupo anônimo que lhe tenha inspirado confiança e sensação de afinidade.
Esse é um dos segredos da eficiência de tais grupos: é que eles fornecem, às pessoas que estão tomadas por compulsões, outras que também já estiveram e que conhecem a inacreditável força da compulsão. O confidente acaba falando de si mesmo e revela a quem está se abrindo que ele não é o único no mundo que sente a faz aquelas coisas secretas guardadas a sete chaves. Parte de seus problemas são problemas comuns a todos que padecem daquela compulsão. Nada mais do que reações humanas.
Essa sensação proporciona em enorme alívio, uma enorme diminuição do sentimento de culpa e da necessidade de se isolar. Se álcool para alcoólatra puxa álcool, se droga para toxicômano puxa droga, o compartilhamento, bem-sucedido para ambos, puxa mais compartilhamento.
Eu estaria desdizendo tudo o que disse até aqui se afirmasse que um alcoólatra bebe porque sente culpa, porque não tem com quem se abrir, porque está entalado, para se anestesiar e não se enxergar. Não, o alcoólatra não bebe por nenhum desses motivos. Bebe apenas porque está possuído pela compulsão de beber. E esta compulsão não pode ser explicada por nenhuma dessas razões. Esse é o motivo primário do alcoolismo. Sua causa.
Quando se afirma isso, contudo, não fica excluído que outros fatores possam exponenciar a vontade de beber para aquele que já está às voltas com ela. Não criam vontade de beber em quem não a possui. Mas sensibilizam-na em quem a possui. São causas secundárias do alcoolismo: por si mesmas não o gerariam, mas sua atuação favorece o reaquecimento da compulsão. Conter esses fatores não faz desaparecer a compulsão, mas pode auxiliar muito a mantê-la aquietada.
Essa mesma idéia sobre o alcoolismo se aplica ao tabagismo, à comilança, ao uso das drogas, à jogatina.
COMPARTILHAR É OXIGENAR AS EMOÇÕES.
Se me obrigassem a dizer numa frase o que é psicanálise e por que ela “cura”, eu não hesitaria em dizer: “Psicanálise é o cultivo do compartilhamento e ela “cura” porque o ser humano precisa partilhar com alguém seu interior tanto como necessita respirar. Compartilhar segredos com alguém em quem a gente confia é o pulmão da alma”.
Sem esse “desabotoar o peito” vão se acumulando “grilos” e emoções não resolvidas, e advirá o chamado “sufoco”. Um dos maiores castigos que se pode inflingir a um ser humano consiste em encarcerá-lo numa cela solitária, pois a ausência de outra pessoa para conversar enlouquece qualquer um. A emoção humana simplesmente não pode viver sem a emoção humana.
As emoções não compartilhadas tendem a se eletrificar, a ampliar sua carga perniciosa. Os nervos ficam à flor da pele como fios desencapados. E essa eletricidade interior desperta uma vontade danada de descarga imediata. O que não causa, mas excita a compulsão. Compartilhar é como deseletrificar emoções.
Quem já desabafou com um amigo sabe perfeitamente do que eu estou falando. Às vezes, ele só escutou, não disse uma só palavra, não fez nada e parece que ocorreu em verdadeiro milagre. O mesmo problema não parece mais o mesmo. Tudo agora parece leve, calmo, cheio de perspectivas. E nada de objetivo mudou…
COMPARTILHAR É ABSOLVER CULPAS.
O compartilhamento vai além: funciona como uma espécie de bênção, de sacramento, de absolvição. Parece até um óleo sagrado que nos legitima e nos absolve. Basta falarmos com alguém que respeitamos sobre nossos segredos que uma espécie de milagre se opera. Não foi por outro motivo que a Igreja Católica instituiu a confissão, que não passa de uma forma de compartilhamento ritualizada.
Aliviar o dependente de pesadas culpas é importante, pois há tentação de retorno à compulsão só para esquecer problemas e anestesiar remorsos; distrair-se da própria realidade de sua vida que, no fundo, tanto detesta. Afinal, quem gosta de desgoverno, descontrole, desregramento?
Compartilhar é espantar fantasmas. Isso porque a imaginação solitária imagina que as outras pessoas jamais perdoarão suas supostas falhas. Os outros vão se tornando perigosos perseguidores sem possibilidade de ternura ou compreensão. Se, depois de se comunicar com eles, esses maus pressentimentos não ocorrem, nem se confirmam, surge um imenso alívio.
DUAS CABEÇAS PENSAM MELHOR DO QUE UMA.
Efetuada a auto-análise do quarto Passo, nada mais prudente do que trocar idéias com uma pessoa amiga para checar e avaliar a própria análise. Uma pessoa de fora, não envolvida com nossos problemas, poderá enxergar aspectos que, sozinhos, jamais enxergaríamos, o que enriquece a percepção da realidade. Ainda mais se esta pessoa estiver qualificada para uma escuta enriquecedora e não-permeada de estereótipos, chavões e preconceitos.
Um psicanalista se analisa com outro psicanalista, estuda anos a fio para tornar-se esse interlocutor qualificado, esse ouvido competente.
Ora, um membro experiente de um grupo anônimo, à sua maneira, faz o mesmo. Compartilhou com outro membro experiente de um grupo anônimo, leu a literatura sobre compulsão, escutou muitos outros membros de seu grupo. Por tudo isso, qualificou-se como interlocutor. Desenvolveu serenidade. Desenvolveu sobriedade. E existe algo mais cobiçado num interlocutor do que serenidade e sobriedade?
CONVERSAR NÃO É BRIGAR.
As pessoas pensam que sabem falar e conversar. Não é verdade. Sabem falar sobre coisas exteriores, sobre assuntos irrelevantes, mas, quando vão falar de si, ou faltam as palavras ou rapidamente perdem a cabeça. As palavras deixam de ser instrumentos de comunicação e tornam-se farpas, instrumentos de agressão.
Falar é tão difícil que poucas pessoas sabem colocar em palavras precisas aquilo que sentem e que desejam. Não só para os outros, mas até para si mesmas.
Essa incapacidade de falar não só agrava frustrações, como amplia irritações com aqueles que não nos entendem. e como iriam entender se não houvesse comunicação passível de entendimento? Pior: a pessoa que não sabe se colocar em palavras vai se perdendo de si mesma, não sabendo mais o que é, o que quer e por que está insatisfeita. Perde o fio da meada e naufraga na confusão. Daí a ter a sensação de estar ficando louca, basta um passo. Tudo isso angustia, deprime, irrita, o que favorece o reaparecimento da compulsão.
O que faz um psicanalista? No fundo, escuta seu analisando e devolve suas palavras de forma mais precisa. Ou solicita ao paciente nova verbalização. em suma, ensina-o a falar. como, além disso, não se irrita com seu paciente e continua a conversar com ele, ensina-o não apenas a falar, mas também a conversar.
Por essas e outras, a psicanálise é chamada de talking cure ( a crua pela fala).
Um membro experiente de um grupo anônimo faz exatamente o equivalente com um membro recém-chegado. E, como ele já viveu aquelas situações mil vezes, parece até mago, tamanha sua capacidade de profecia e adivinhação.
O poder da palavra é imenso. Uma mesma coisa dita de outra maneira não é mais a mesma coisa. A palavra coloca tudo em foco, amplia a visão interior, a capacidade de se enxergar e enxergar o outro, além de ter o poder de expressar de forma bela e comovente. É o inverso do sufoco e da confusão. Os filmes de julgamentos são exemplares para ilustrar a potência da palavra. Quando o promotor, na acusação, descreve o réu, este nos parece um ser execrável, torpe, infame, que não merece sequer clemência, quanto mais absolvição. Se fôssemos do júri, certamente o condenaríamos. Quando, entretanto, o advogado de defesa começa a responder às acusações e a descrever os fatos com outras palavras, parece que aconteceu um milagre: somem os aspectos negativos imperdoáveis e ficam ressaltados os aspectos positivos.
O mesmo ocorre com os editoriais de jornal. No jornal que apoia o governo, os atos políticos são sempre descritos como corajosos, corretos, generosos. Já para o jornal de oposição, os mesmos atos revelam, no mínimo, incompetência, falta de espírito público. E todos provam por a+b que estão certos.
os grande líderes políticos servem-se de sua eloquência para hipnotizar as massas. Os grandes poetas fazem, pela força de seus versos, emergir beleza dos eventos mais triviais. Os grandes sedutores possuem “lábia” irresistível. Os grandes caluniadores têm língua ferina, veneno na boca.
Vivemos num mundo constituído pelas palavras. O discurso abolicionista tornou abominável a escravatura, enquanto o discurso racista sustenta no coração do branco sul-africano o apartheid. O discurso ecológico tem proporcionado uma nova visão sobre o meio ambiente, o qual vinha sendo assassinado pelo discurso do desenvolvimento de qualquer maneira, a qualquer preço.
É mera ilusão imaginar que enxergamos as coisas tais como são. O mundo dos artigos, dos discursos, dos textos, das opiniões, dos testemunhos, das teorias – ou seja, o mundo da palavra – determina muito mais nossa visão das coisas do que os nossos olhos. Enxergamos tanto pelos “ouvidos” quanto pelos olhos…
É importante que se saiba isso, pois aqueles que não estiverem conscientes desse mundo da palavra podem se tornar vítimas dele. Estarão expostos à saraivada de descrições negativas que eventualmente saiam dos lábios alheios e sem possibilidade de defesa. É que, na realidade, vivemos num tribunal, onde somos julgados o tempo todo.
E onde julgamos o tempo todo também. A todo instante – quer silenciosa, quer ruidosamente – estamos opinando sobre tudo e sobre todos. Às vezes a favor, outras contra; na dependência do humor do dia ou conforme o acúmulo de preconceitos sobre determinado assunto, preconceitos esses que têm uma história: não passam de opiniões ouvidas que se cristalizam dentro de quem as ouviu.
O julgamento não se limita aos outros, inclui a própria pessoa. e como! Dentro de cada um existe um tribunal interno em sessão permanente, com acusações, defesas e tudo o mais. Se não soubermos dominar o mundo das palavras, corremos o risco de sentir pesadas culpas e pesados remorsos. os ataques internos podem levar-nos à ruína.
Dentro e fora da gente existem a editoria do jornal, o orador eloqüente, o poeta fascinante, o sedutor apaixonante, o caluniador a que ninguém resiste. Daí as oscilações do nosso humor. Para cima, quando prevalecem fatos que enaltecem, para baixo quando predominam fatos que rebaixam.
Por isso tem importância decisiva atingir maestria nesse mundo das falas.
O Quinto Passo é o convite à prática da fala. Só falando é que se aprende a falar. Só conversando aprende-se a conversar.
A FALA MUDA E A CONVERSA QUE NÃO SE ESCUTA.
é verdade que basta prestarmos atenção para verificarmos um fluxo de falas dentro de nós. São inaudíveis e silenciosas para fora, mas são audíveis e, às vezes, até ruidosas para dentro. Na realidade, mesmo quando estamos calados, nossa mente nunca pára de falar.
Essas falas permitem-nos entender alguns dos nossos sentimentos e humores. Nem todos, porém. Alguns sentimentos e humores ocorrem sem que tenhamos a menor idéia do que significam. O fluxo de idéias se estanca, e parece só haver emoção em estado puro. A fala interior não só não penetra nesses estados de pura emoção como também não emerge deles. A mente, que nunca cessa de falar, parece aí ter ficado muda e silenciosa.
O sintoma neurótico geralmente é assim e, por isso, por causa dessa barreira de silêncio que se ergue em torno dele, gera tanta perplexidade em quem dele padece. O neurótico simplesmente não entende nada de seus sintomas, não entende nada de sua neurose. Por isso pensa até que está ficando louco.
Não é só a neurose que produz esse muro de silêncio. Nosso jeito de gostar e não gostar, de amar e de fazer amor também são enigmáticos. Assim, quase sempre é impossível descobrir a razão das paixões.
Foi justamente nessa perplexidade, pois diretamente lá não se penetra, tanto que a humanidade por milênios tentou fazê-lo e foi fragorosamente rechaçada. A mente, nos seus enigmas, não pode ser vista de frente, nem receber iluminação direta. Nu frontal, jamais.
O que fez a psicanálise? penetrou de modo oblíquo, lançou luzes indiretas. Foi lá longe, recolheu sonhos e os interpretou. Logo os sonhos, que até o surgimento da psicanálise, eram uma espécie de lixo mental, sobras que uma mente desperta e bem pensante destila quando vai dormir. A psicanálise recolheu mais lixo ainda: recolheu esquecimentos e trocas de nomes e os considerou não como casualidades ou defeitos de funcionamento cerebral, mas antes como revelações de uma atividade pensante. E ainda mais: recolheu, com o mesmo espírito, demais modalidades de atos falhos. Recolheu, acima de tudo, o lixo de idéias meio sem sentido que se associavam a partir dos pontos intensos, silenciosos e enigmáticos. Acredita a psicanálise que essas regiões silenciosas só são silenciosas nos seus epicentros, mas que falam nas suas lateralidades. Se não falam pela boca, falam pelos “cotovelos”. Bastava então ir recolhendo um monte de falas laterais, de associações laterais de idéias, de sonhos e atos falhos semi-interpretados que, a partir de um certo momento, se alcançaria uma massa crítica e emergia luz das trevas, sentido de tanto não-sentido. Do cascalho dos sonhos, dos atos falhos, das associações laterais de idéias, de todo esse lixo, apareceria ouro puro da significação, ou seja, o sentido do sintoma, da sexualidade e das paixões. Estaria, assim, decifrando o enigma das neuroses, das loucuras, dos sonhos de amor e de tantos outros sonhos. Pelo menos, até onde é possível decifrar qualquer enigma da mente humana.
A FALA MUDA E A CONVERSA QUE NÃO SE ESCUTA.
Nesse momento ficava claro que o que parecia não ter sentido, ser pura loucura ou emoção sem lógica, não era nem tão louco nem tão sem lógica assim. Pascal estava certo: o coração tem razões que a razão desconhece. Não se trata de des-razão, da razão louca. Trata-se de uma razão enigmática, estranha às razões alvares, medíocres e pseudo-sensatas. A loucura e a paixão não são anárquicas, também são lógicas.
Desfazia-se o muro de silêncio, e a mente voltava a falar mesmo ali onde parecia muda. Na realidade, nunca deixou de ser lógica ou de ter sentido. Apenas os sistemas de escuta não acompanhavam mais sua fala. O silêncio não vinha de uma fluência muda, mas de uma escuta surda. A palavra sempre esteve ali, apenas deixara de ser escutada.
Fazer psicanálise, nesse sentido, é redescobrir palavras onde antes parecia existir apenas silêncio. É restituir fala onde antes já havia fala. Só que fala silenciosa.
Só falando para alguém que nos escute e nos anime a falar mais, mesmo que num primeiro momento não se chegue a lugar nenhum, chegar-se-á a algum lugar.
Esse é o sentido intuído e não conceituado do Quinto Passo. A fala não só sensibiliza a fala, mas também sensibiliza a escuta. Da própria fala.
O CHOQUE DE HONESTIDADE.
Certa vez fiz uma palestra para um grupo dos Alcoólicos Anônimos, extremamente qualificado, formado por membros bem afinados uns com os outros, revelando um já extenso trabalho prévio. Uma verdadeira orquestra sinfônica anti-alcoólica. Sendo mais preciso: não se tratava de nada anti-alcoólico, até porque os Alcoólicos Anônimos não combatem ou defendem causas. Melhor dizendo, era uma orquestra que inspirava emoções serenas e atitudes sóbrias.
Presidindo a reunião estava um rapaz simpático, desses que irradiam energias a favor e não negativas. Quando se apresentou ao grupo, disse seu nome, seu sobrenome, e declarou sua condição de alcoólatra e toxicômano. Era mais um da nova leva de “dependências cruzadas”.
Na hora do debate, ergueu-se do grupo um homem negro de elegância discreta, belo e bem falante, de uns 47-50 anos. Provavelmente um típico representante do A.A. da velha guarda, um A.A. puro-sangue, sem qualquer dependência química senão do álcool. Estávamos discutindo essa região nebulosa daqueles que bebem regularmente, mas não desbragadamente, que permanecem há anos nas quatro a seis doses por dia e que, naturalmente, sem esforço não ultrapassam esse perigoso limite. Seu corpo e sua mente reagem bem a esses níveis alcoólicos e há 20 ou 30 anos não pedem mais. Pelo menos até aquele momento.
É claro que são alcoólatras, já que não podem passar sem álcool. É claro que estão numa região de perigo. Mas também é claro que os anos e as décadas passam e eles se mantêm dentro desses explosivos limites.
A discussão estava superinteressante. Eu não sabia dar respostas, mas aprendia com os depoimentos dos presentes, os quais, diga-se de passagem, entendiam empiricamente muito mais de alcoolismo do que eu. Se eu tinha experiência conceitual e teórica sobre o alcoolismo, se eu tinha experiência clínica com meus pacientes, eles tinham experiência vivida – essa matéria prima insubstituível.
A expressão “choque de honestidade” veio desse membro clássico do A.A. que, com ela, queria salientar a tendência do alcoólatra na ativa a negar sua própria condição, construindo mil argumentos e sofismas para encobrir o óbvio e que os Doze Passos representariam o inverso dessa desonestidade embriagada e embriagadora. Os Doze Passos seriam um choque de honestidade na tendência do alcoólatra a mentir para si mesmo o tempo todo.
Essa formulação me remeteu imediatamente a apaixonadas discussões na sociedade psicanalítica, em que alguns colegas definiam a psicanálise como a busca da verdade, custe o que custar, doa o que doer. Por não ter seguido esse caminho – interessante, sem dúvida – a pessoa perderia o pé de si mesmo por não enfrentar a sua realidade a cada momento, preferindo as mordomias da ilusão. De ilusão em ilusão, esses marajás da mentira acabariam por alienar-se de sua própria verdade pessoa, tornando-se cada um deles um completo estranho dentro de si mesmo. Resultado: neurose.
Fazer psicanálise, então, seria, reverter essa tendência vida-mansista, do prazer imediato da ilusão, às custas da verdade. O princípio da realidade deve substituir o princípio do prazer. É melhor ficar vermelho um minuto do que amarelo a vida inteira. É melhor sofrer a dor da verdade do momento do que extraviar-se nos labirintos da ilusão.
quem não estaria de acordo com tais princípios?
Contudo, em nome deles, já foram perpetradas as maiores violências, as maiores barbaridades. Em nome da autenticidade já se perpetraram as maiores grosserias e faltas de educação. Jogar “verdades” na cada dos outros não só muitas vezes se revela inútil como francamente contraproducente. Quantos casais já se agrediram até o ponto de ruptura por causa dessa sincera busca da verdade e da franqueza? quantos pais e filhos já não se desentenderam irreversivelmente por causa dessa franqueza rude? Quantos projetos profissionais já não naufragaram por causa dessa bem-intencionada vontade de ser verdadeiro?
Mais: quantas vezes não foi exaltada a verdade como virtude apenas para se controlar, vigiar e bisbilhotar melhor a vida alheia?
Qual é a verdade que se esconde por trás dessa busca da verdade? Qual é a honestidade que inspira esse choque de honestidade?
Busca da verdade, choque de honestidade como palavras de ordem são ótimas; requerem, porém, mais refinadas diferenciações.
Para que dirá o paciente sua verdade ao psicanalista? Para que este, de posse dessa verdade, a acolha como uma das manifestações legítimas possíveis do ser? Para o psicanalista, de posse dessa verdade, incitar seu paciente a descrevê-la cada vez melhor, de modo a que este venha a melhor conhecê-la e saber como realizá-la? Ou, pelo contrário, para, insidiosa e escorregadiamente, condená-la a exortar o paciente a alguma cartilha de bem viver?
Essa diferenciação é fundamental, tanto para a psicanálise quanto para os grupos anônimos. Para que um grupo anônimo, um padrinho, estará prezando o “choque de honestidade”? para fazer a pessoa tornar-se mais radical e completamente ela mesma, ou para fazê-la querer-se tornar outra pessoa que não ela mesma? Para auxiliá-la a viabilizar seus sonhos de modo eficaz, ou para renegar sua verdade e seus sonhos, em nome de um sistema de valores cuja procedência não se conhece direito? Enfim, o “choque de honestidade” está a serviço do enquadramento ou da libertação? Atua no sentido de levar o sujeito a assumir sua própria verdade ou a induzi-lo a renegar essa verdade em função de uma moralidade consensual?
Além dessas questões – decisivas -, existe ainda a questão da verdade máxima possível para cada pessoa a cada momento. Violar cadências não é sinceridade, é estupro. O fundamental não é a verdade, é a fecundidade. Dizer se isso será verdadeiro ou não, importa menos do que dizer se isso será fecundo ou não. A habilidade, o timing, o respeito pelo tempo do outro, pela cadência alheia, também fazem parte dessa busca da verdade, desse choque de honestidade.
O ser humano não é macaco de zoológico. Não está numa jaula aberta à visitação pública de suas mais íntimas intimidades. Ele requer privacidade, o direito de não dizer tudo a ninguém, senão a sim mesmo. Não, nem a si mesmo. O choque de honestidade, a busca da verdade têm de levar em conta essa necessidade de ilusão.
Mais ainda: o que é verdade, a honestidade, a realidade, a objetividade? Será o mesmo para duas pessoas, ou até para a mesma pessoa em momentos diferentes da sua vida?
Busca da verdade, sim, choque de honestidade, sim; só que indo mais no fundo nessas idéias – força. Senão vira moralismo, catequese, narcisismo.
O Quinto Passo não pode desconsiderar essas complicações. Não é em vão que as tradições dos grupos anônimos recomendam sobriedade de opiniões: que não se radicalize em questões polêmicas e controversas.
Choque de honestidade, sim; busca da verdade, sim; mas sem perder de vista a ética suprema dos grupos anônimos: a sobriedade.
Honestidade e verdade sem sobriedade são atitudes policialescas, moralizantes, enquadradoras. Não libertam o sujeito, aprisionam-no cada vez mais. Nas “honestidades” e “verdades” alheias. Dos mais fortes. Dos grandes grupos sociais que detêm os lobbies da comunicação.
Por essas e outras, não existem autoridades nos grupos anônimos. Ninguém tem opiniões autorizadas pelas leis do grupo. Ninguém pode condenar ninguém como herege ou exercer ninguém como antiCristo.
O SEXTO PASSO PARA DEIXAR DE SER UM BÊBADO OU UM DROGADO.
Se os três primeiros passos são para se incorporar ao programa de recuperação, os dois últimos passos são os passos do autoconhecimento. Depois desse trabalho preâmbulo, dessa trabalhosa caminhada, o dependente já avançou e realizou várias conquistas. Está preparado agora para ir mais fundo. Perdeu o medo do grupo, de dependência e de si mesmo. Pode agora ensaiar os primeiros passos para mudar seus modos “viciosos” e “viciados” de ser, ou seja, aqueles modos mentais de reagir e de sentir que se transformaram em hábitos mentais cristalizados, em traços do próprio caráter.
O Sexto Passo é o primeiro convite a uma reformulação do próprio caráter, dos modos “viciados” de sentir, pensar e reagir. Agora vai começar uma luta, não contra o álcool ou as drogas, mas contra si próprio, contra aquilo que se tem de pior e que contudo é tão difícil de mudar.
O SEXTO E O SÉTIMO PASSOS USAM DIRETAMENTE A PALAVRA DEUS.
A palavra Deus gera – não no chamado povão, mas nas elites culturais – as maiores resistências. Muita gente, ao ler esses Passos, pula e sente ímpetos de interromper todas as leituras sobre grupos anônimos: “Ah! Não, papo de religião, nem pensar””
Essa resistência provém de várias fontes, uma das quais é a idéia que oferece proteção mediante a prática de certos atos mecânicos ou orações que se repetem irrefletidamente. Em suma, o Deus das crendices mais primárias. Por causa disso, Freud jamais foi complacente com o fenômeno religioso. Para ele a crença em Deus provém do desamparo, quer de criança diante dos adultos, quer dos adultos destituídos de poder diante das forças poderosas que o cercam. Para compensar o desamparo, criam a ilusão de que existem figuras bondosas e poderosas que os protegerão.
Esse é o Deus dos imaturos, o Deus dos desamparados. Contra esse Deus, ergue-se a resistência das chamadas elites culturais. Afinal ela é socialmente forte o bastante para não ter de alimentar crenças nesse tipo de proteção.
Essa idéia infantilizada não provoca apenas resistências desse tipo. Provoca outros tipos de resistências, até por razões inversas, que estas sim, operam entre as camadas populares.
É que, par algumas das pessoas do chamado povão, Deus não é uma experiência interior profunda. É uma entidade exterior, meio mágica, da qual, através de ritos mágicos, se obteria simpatia e proteção. Essa atitude superficial se expande para o todo da mente, dificultando o percurso dos Doze Passos. Não por razões elitistas, mas por dificuldade de mergulhar mais fundo em si mesmo.
Uma outra razão pela qual a palavra Deus desperta tanta resistência é a sua costumeira vinculação com a idéia de renúncia, sacrifício e resignação. Deus seria alguma coisa cinza contra as cores mais alegres da vida. Sobretudo contra as cores mais vibrantes da carne…
Não bastasse isso, Deus ainda interferiria sobre nossos gostos e preferências mais íntimos, julgando-os com suas teorias de virtude e pecado. Existiriam modos virtuosos e modos pecaminosos de ser. Existiria uma lei natural, uma ordem natural das coisas, e quem a transgredisse seria um “des-naturado”, alguém nascido contra a ordem natural da vida, um “degenerado”. Munido dessas idéias, Deus sairia julgando o jeito de desejar, escolher e sentir prazer de cada um.
Essa idéia de Deus como um moralista preocupado acima de tudo em reprimir a alegria e a vida sexual das pessoas é fonte das maiores resistências para as novas gerações e para as chamadas vanguardas culturais.
contudo, esses cascalho de crendices comporta mais meticulosa garimpagem. E depois dessa garimpagem sobrará o que? O ouro puro de um Deus aprofundado, a idéia de que existem forças superiores às nossas, inclusive dentro da gente, as quais são misteriosas. A palavra místico, aliás, vem do mistério. E mistério significa a revogação da arrogância humana quando ela imagina que tudo sabe. Sempre escapa algo ao nosso saber. Todo saber é furado.
É na direção desse Deus que apontam o Sexto e o Sétimo Passos. Decerto, nos grupos anônimos, cada um é livre para crer no Deus que lhe aprouver. Ou não crer em nenhum. A palavra Deus, de acordo com as Tradições desses grupos, possui significado completamente aberta.
O SEXTO E O SÉTIMO PASSOS NOS CONVIDAM A ABANDONAR A ONIPOTÊNCIA.
Se a palavra Deus possui essa significação completamente aberta, então para que serve?
Certamente para relembrar que existem forças superiores fora das pessoas; e dentro das pessoas. Ninguém domina a vida; nem sua própria vida. Ninguém controla a cabeça. Nossos humores, desejos, sonhos e emoções tomam rumos independentes da nossa vontade: são literalmente indomáveis. Nossa vontade não é lei. Nem para nós mesmos.
Aliás, a psicanálise não fez outra coisa senão tentar depor essa idéia – no fundo moralista – da sabedoria da vontade. É essa idéia de soberania da vontade que dá lugar às idéias de virtude e pecado, de qualidades e defeitos. Parte-se do suposto de que nós somos o que queremos ser e de que tudo depende de nossa têmpera. Por isso, compulsão seria manifestação de debilidade da vontade.
Existem, contudo, na nossa própria mente, força muito superiores à força da nossa vontade. A presença não só das compulsões, mas da paranóias, das tristezas imotivadas, das oscilações de humor e da auto-estima, da instabilidade das idéias, das obsessões, das fobias, das manias não deixam margem a dúvidas: nós não mandamos nem em nós mesmos. Nossa mente manda muito mais em nós mesmos do que nós mandamos nela.
Nós sequer amamos aqueles que queremos amar e nem paramos de amar quando assim o determinamos. Nossa sexualidade segue rumos e caprichos contra os quais nada podemos fazer. Nossa agressividade é manhosa: torna-se brutal quando menos esperamos e cheia de mansidão quando tudo indicava sua brutalidade.
Não somos responsáveis por nossos gostos e preferências, pois não os escolhemos. Fomos, isto sim, escolhidos por eles. Nosso caráter, nossas reações, nosso jeito de ser não são espelho e reflexo de nossa vontade. Somos como somos e não como gostaríamos de ser.
Por isso, qualquer transformação de nosso “caráter” exige um cuidadoso trabalho, um inspirado, competente, permanente trabalho. Precisamos investir o nosso melhor sobre nós mesmos. Precisamos que outros invistam seu melhor em nós. Tudo isso, porém, ainda é pouco. Pode dar certo ou não. Depende de forças misteriosas que não conhecemos e nem controlamos, alheias a nossa vontade. Só nos resta entregarmo-nos a elas. E torcer para um “final feliz”.
Por estranho que pareça, só quando desistimos de controlar e dirigir a nossa mente é que se dá um certo desarmamento interno. As partes que nós desejávamos mudar parecem ficar menos armadas, menos defensivas e intransigentes. O tom geral fica menos imperativo, menos inquisitorial. Parece ocorrer uma certa pacificação interior. E esse estado mais pacificado costuma ser solo fértil para transformações. Quando se pressiona menos, muitas vezes se consegue mais. Não é assim fora, com as pessoas do nosso dia-a-dia? Também é assim dentro.
O Sexto e o Sétimo Passos são um convite a essa pacificação, à superação do dirigismo autoritário da vontade. Não se trata de entregar os pontos ou assistir passivamente a desmandos caóticos dos nossos impulsos. Nem se trata de rendição. Trata-se, isto sim, de humildade, de admitir limites inclusive para a força da nossa vontade. Em suma, trata-se da superação dessa mania de tudo poder chamada onipotência.
Aliás, quando os grupos anônimos renunciam aos regulamentos e punições; quando se abstêm de todo tipo de interferência na vida de quem quer que seja; quando se limitam a sugerir, sem jamais admoestar ou censurar; quando a própria sugestão deve ser formulada de modo discreto e não intrusivo; quando a própria divulgação desses grupos deve ser vazada em termos também discretos, sem estardalhaços eles estão sendo exemplarmente sóbrios e abstinentes. Estão realizando uma manobra pedagógica suprema, qual a renúncia a qualquer pedagogia.
Paradoxalmente, o ímpeto de querer melhorar os outros ensinando-os a viver, ou de querer se melhorar recitando para si próprio lições de vida, gera as maiores tensões e os ásperos desencontros, tanto da pessoa com outros, quanto da pessoa consigo mesma.
Freud advertia os jovens psicanalistas sobre os perigos de querer ajudar demais seus pacientes, o que ele chamou de “furor sanandi”. E muito da teoria freudiana do superego baseia-se nesse ímpeto pedagógico desmedido. Uma parte da mente arvora-se em dona da verdade e diz à outra como ela deve ser ou proceder: caso esta não se submeta, é atacada e enxovalhada de todas as maneiras. Essa seria a origem profunda de muitas depressões, sensações de inferioridade e sentimentos irracionais de culpa: uma parte da mente, cheia de certezas, ataca a outra, que se recusa a seguir “bons conselhos” sobre o “bem viver” e sobre os “bons caminhos”. Essa parte autoritária e conselheira seria constituída pelas figuras paternas internalizadas, o chamado “pai interno”.
para essa ausência de moderação na vontade de ajudar, só há um remédio: sobriedade.
Dizendo em outras palavras: o Sexto e o Sétimo Passos, ao relembrarem a existência de forças superiores, são um convite à superação dessa mania de tudo saber ou de tudo poder, ou seja, ao relembrarem Deus, tornam-se um convite à superação dessa mania de querer ser Deus.
ORGULHO – VAIDADE – ÓDIO.
A uma conclusão os grupos anônimos chegaram: certas emoções e reações favorecem recaídas. Não são as causas da compulsão ou dependência. Mas favorecem o seu reaparecimento.
As reações coléricas, por exemplo, são inimigas da sobriedade; a agressividade embriaga a mente até mais do que a sexualidade. O ódio solto produz mais transe do que o próprio amor: um transe ácido. áspero, azedo, o qual só encontraria efetiva descarga nas mais brutais bestilidades. Como habitualmente não se chega a esses extremos, o ódio tem de ser engolido e aí vira veneno, deprime e produz os piores humores. Excita assim o desejo de buscar o seu antídoto: a paz quimicamente produzida.
Ora, adoçar quimicamente amarguras, afogar quimicamente tristezas de depressões, serenar quimicamente ódios, vocês hão de convir, são atitudes que excitam dependências e compulsões.
Certas emoções funcionam como drogas: deixam a mente fora de si. Uma pessoa pode não só ficar bêbada de agressividade, como embriagada de orgulho e dopada pela vaidade. Ocorre uma verdadeira “viagem” sem droga, um verdadeiro “pileque” sem álcool.
E, nesse estado, a pessoa está novamente exposta à sanha de uma compulsão.
O orgulho, logo de saída, está exposto à sua compulsão porque seu orgulho não lhe permite procurar ajuda. É humilhante demais para sua auto-suficiência, para sua mania de querer resolver tudo sozinho, sem precisar de ninguém.
Ele não pode precisar de alguém para amar. Premido por sua carência e pela solidão, todavia, esse Deus auto-suficiente acaba tendo de dar o braço a torcer: reconhece precisar dos outros. Não porém de igual para igual, mas como adoradores. O orgulho não se contenta em ser querido, precisa ser idolatrado. Não requer amigos, requer adoradores.
Caso não seja idolatrado, pode ficar imediatamente colérico: “Como não fazem tudo o que eu quero e na hora? E a tempo? Como podem querer na vida outras coisas além de mim?”
O orgulhoso tem uma sensação de que tudo lhe é devido. Por mais que façam as coisas para ele, não fazem mais do que a obrigação.
Logo, o orgulhoso não se emociona por nada ou com ninguém. E evidentemente, com esses sentimentos, não pode emocionar ninguém. Não pode amar, nem despertar amor. Não pode dar ou sentir prazer. Fica condenado ao tédio. É como se aquele vinho natural que corre nas veias de todos nós e nos permite naturalmente inebriarmo-nos com a vida não existisse mais e tivesse, por força do orgulho, se convertido em vinagre. como ninguém aguenta viver senão inebriadamente, surge de novo a tentação de recorrer a algum licor alcoólico propriamente dito. Ou a alguma droga inebriante. Há que se restituir de qualquer maneira, nem que seja quimicamente, o estado de inebriamento…
O vaidoso, por sua vez, enxerga sempre os outros com “mais olhos”, a tal ponto que chega a imaginar que sequer existam “bons olhos” para enxergar alguém. Não os percebendo em si, não pode imaginá-los nos outros. O mundo passa a ser sentido então como um lugar povoado de olhos desqualificadores. Nada do que ele fizer será visto com “bons olhos”! Tudo o que houver de bom receberá, no mínimo, um “mau olhado”. A mente envenenada pelo ódio enxerga o mundo e se sente por ele enxergada sempre por uma ótica envenenada. Até o seu “olho interior” enxerga tudo com “maus olhos”. Só enxerga defeitos e é cego para tudo quanto for qualidade. Isso gera uma penosa tensão interior com sensações de inferioridade e de culpas doentias. Parece o tempo todo que se fez alguma coisa errada, que se cometeu um crime. Em termos freudianos: numa mente rancorosa haverá um superego rancoroso.
A fonte maior dos ódios e frustrações não são as realidades tantas vezes brutais da vida. Por incrível que pareça, não são. São o orgulho e a vaidade.
e o que são eles senão manifestações de uma autodivinização? A autodivinização, portanto, é importante causa de infelicidade, a qual incita as compulsões. Para curá-la, somente uma desdivinização.
O Sexto e o Sétimo Passos podem ser lidos como maneiras de conquistar essa desdivinização. ao se reconhecer Deus fora, quem sabe não se abandona a mania de ser Deus?
Se num primeiro momento a vaidade e orgulho geram tédio e cólera diante da contrariedade, num outro geram desolação e perda da auto-estima. A pessoa sente-se um deus que não deu certo, um deus fracassado, que não soube inspirar adoradores, quer dizer, pessoas que acham graça nele o tempo todo. Qualquer deslize por parte de alguém significativo torna o vaidoso um nada, um ninguém. Essa é a origem da perda da auto-estima, do complexo de inferioridade e da timidez. É que no seu inconsciente, ele se exige ser uma festa permanente. Como ninguém é, ele não consegue concretizar esse impossível ideal do seu eu. Resultado: autodesqualificação; consequência: tentar reconquistar quimicamente sua auto-estima. Remédio: Sexto e Sétimo Passos, para “cair na real” e desistir de ser Deus.
Se o orgulho e a vaidade forem muito intensos, a pessoa pode sentir-se humilhada até por precisar de adoradores. Precisar de gente, mesmo nessa condição, é humilhante demais. Pode, por isso, passar a preferir drogas e garrafas. Afinal, elas não sendo ente, não podem triunfar sobre sua humilhante fraqueza de não ser Deus. O vaidoso, humilhado por precisar de emoções alheias, não pode se inebriar com elas. Daí ao inebriamento químico basta um passo.
Essa vontade de ser Deus pode gerar outras consequências. Por exemplo, o ciúme paranóico.
Ora, se alguém é Deus, deverá ser completamente suficiente para aquele com quem está em relacionamento, ao qual, por sua vez, toca e fica em estado de permanente disponibilidade e total veneração, sua vida deve ser puro deleite.
Um simples deslize por parte dele já produz uma sensação de profunda traição e deslealdade. É como se houvesse praticado um crime de lesa-majestade, de profanação do que há de mais sagrado: “Ora, se você saboreou o néctar e a ambrosia que saem do meu ser, como pode sequer sonhar em se deleitar com algo diverso ou diferente?” Mais: “ele”, apesar de toda a sua grandiosidade, deixou-se emocionar com a emoção alheia. Como pode agora esse ser, depois de receber tão insuperável reverência, sequer pensar em outra pessoa? Não, aquele sentimento que um dia o inebriou não poderá inebriar ninguém mais.
Além disso, um Deus tudo pode. Seu amor vale tanto que uma pitada dele deverá deixar o outro para sempre grato e preenchido. Além do mais, ninguém está à sua altura e assim, ele não tem porque limitar-se a ninguém. Os outros é que devem limitar-se a ele. quando a realidade dos fatos abala essa crença, ele pode ficar fragilizado e enlouquecido de ciúmes. Imaginem se o outro pensar fazer com ele o que ele pensa fazer com o outro?
Aliás, fragilização é o que não falta a estados tão mais apoiados em crenças, sonhos e ilusões do que em fatos minimamente objetivos. quando seus ideais delirantes não são comprovados pela realidade, ele pode ficar completamente zonzo. Sentindo-se um deus fracassado, não sabe para onde foi o seu ser divino e pode imaginá-lo então naqueles que não se curvaram à sua magnificência. Esses, então. seriam magnificantes. Tornam-se aquilo que ele não pôde ser.
É que ele não sabe gostar, não sabe amar, não sabe afeiçoar-se. Só sabe adorar, divinizar.
Essa é a origem das paixões enlouquecidas e das fissuras.
quando se diviniza o outro, sente-se a angústia mais profunda diante da sua falta. Afinal, esse “outro” tornou-se portador das energias redentoras e balsâmicas: sua ausência pode gerar a maior carência, o mais intolerável vazio.
Essa compulsão a divinizar pode gerar outra consequência ainda. Ao divinizar o outro e não mais se divinizar, a pessoa pode sentir-se pequenina, tão nada, que não está mais à altura do outro divinizado. Passa a sentir-se indigna, inferior. Pisando em ovos, toda cerimoniosa. E cheia de culpa por qualquer coisinha. Claro, já pensou qualquer deslize diante de um deus?
Como “curar” todos esses estados e extravios? Deixando de acreditar que se é Deus. E deixando de acreditar que o outro seja Deus. Deus não é o eu próprio, nem o eu alheio. Não está nesse circuito dos eguinhos. Deus é algo sonhado, imaginado, pressentido. E não uma realidade pessoal encarnada.
Incitar ao descobrimento dessas “realidades” é o sentido do Sexto e do Sétimo Passos.
Superando-se a crença na existência de deuses humanos, de divindades encarnadas, chega-se a uma aliviante conclusão: ninguém preenche ninguém, no sentido absoluto do termo.
e precisa?
OITAVO PASSO NO CAMINHO DA SOBRIEDADE.
Esse Passo consiste num levantamento das perdas e danos que a vida bêbada ou drogada ocasionou; é uma espécie de inventário dos insultos, prejuízos, injustiças, deslealdade que se foram acumulando vida afora.
É evidente que, nesse passo, transparece à primeira vista um ranço moralista; parece visivelmente inspirado naquelas religiosidades cheias de culpas e penitências.
Contudo, como já dissemos, nada nos grupos anônimos deve ser levado ao pé da letra. Pode ser interpretado como cada um quiser, inclusive interpretado como algo inútil que não deva ser levado em consideração. Como nesses grupos não há autoridades, ninguém poderá criticar ou punir ninguém pela interpretação que deu pela atitude que tomou.
Interpreto esse passo não como uma exigência de penitências ou autoflagelações, mas como um convite não imperativo a meditar sobre esse tema que arrebata tantas culturas, tantos povos e religiões: os sentimentos de culpa.
De onde vêm os sentimentos de culpa? O que será um procedimento virtuoso ou culposo? Por que tem gente que se sente tão culpada e tem gente que não sente quase culpa nenhuma?
Como essas questões são extremamente polêmicas e controversas, como cada um possui opiniões diferentes sobre elas e como os grupos anônimos não entram em polêmicas e controvérsias, não se extrairá deles nenhuma cartilha ou receituário de bem viver.
Além disso, não é em “vida virtuosa” que os grupos anônimos estão interessados. Estão interessados é em como evitar recaídas nas compulsões. Só isso, nada mais do que isso. Se é fato que se preocupam com sentimentos de culpa, só o fazem porque a experiência revelou que alguns de seus membros convivem mal com esses sentimentos e retornaram, por causa deles, ao álcool ou às drogas.
Se membros dos grupos anônimos não se sentem molestados por sentimentos de culpa, nem massacrados por remorsos, que bom para eles! Permanecerão nesse Passo só por curiosidade teórica sobre o funcionamento da mente humana ou… darão o passo seguinte.
Contudo, com a maioria das pessoas, principalmente as do sexo feminino, não é assim. Atravessam a vida com um crônico sentimento de ilegitimidade, de serem impostoras, de não merecerem nada de bom. Qualquer coisinha que almejam ergue a fúria de sua consciência moral. Há então nelas a tentação de alcoolizarem-se ou drogarem-se, para embebedar culpas e entorpecer remorsos – única forma que encontram para se restituírem a alegria de viver.
Essas pessoas – é óbvio – necessitam muito mais do Oitavo Passo, desde que compreendido de uma maneira moderada e sábia.
Não se trata, portanto, de nenhuma devassa policial para produzir arrependimentos. Trata-se apenas de identificar pontos críticos para aquela mente, os quais, apesar de ativos na geração de culpas, estavam espalhados e perdidos nas brumas e neblinas mentais. Estavam lá, estavam ativos, mas a pessoa nem mais sabia que existiam. Ficavam, assim, na tocaia, gerando maus sentimentos, sem que a pessoa pudesse reagir ou fazer qualquer coisa com eles. em termos psicanalíticos: tornar conscientes as culpas inconscientes.
A psicanálise – diga-se de passagem – faz, mediante outros procedimentos técnicos, exatamente a mesma coisa. Não recorre à escrita, nem explicita um inventário específico sobre sentimentos de culpa. Contudo, através da palavra, efetua uma operação semelhante. Tanto que a sua “regra fundamental” consiste em convidar o paciente a relatar, sem censura, tudo que se passa em sua mente. Na terminologia dos Grupos Anônimos, poderia estar solicitando um “inventário” de tudo o que se passa, inclusive, evidentemente, os sentimentos de culpa conscientes e inconscientes.
Para que? para culpabilizar o paciente, para produzir remorsos e arrependimentos, aplicando penitências? Não, apenas para torná-lo mais consciente dos conteúdos psíquicos que estão ativos nele para que ele possa se aprofundar mais no entendimento das dinâmicas psíquicas que produzem os sentimentos de culpa. Tudo isso é efetuado não de uma forma teórica, intelectualizada ou livresca, e sim de uma forma vivida na relação que se estabelece com o psicanalista. Este, ao não reagir da maneira que a mente culpada e aflita esperava que reagisse, já produz um efeito ratificador. Com sua reação neutra, o psicanalista retifica e não ratifica as expectativas da mente de receber respostas primitivas. Não se trata de absolver o paciente, pois aí o paciente estaria recebendo do psicanalista um manual de valores, só que de valores liberais. Trata-se de mostrar ao paciente que suas certezas e pressentimentos não são tão certeiros assim, o que estimula a mente a uma revisão de si própria. Trata-se de abalar convicções mostrando à mente que há intuições que podem estar equivocadas. Trata-se de produzir um efeito de equivocação, o que incita a mente a maior trabalho psíquico e a não mais aceitar as coisas como estão.
Os grupos anônimos podem, por outros caminhos, chegar a esses mesmos lugares. O inventário das culpas seria feito por escrito, exatamente para diminuir certos temores da mente culpada, os quais se manifestariam como resistências. Escrever sobre as supostas culpas não significa documentá-las, torná-las uma confissão assinada e lavrada em cartório. Pelo contrário. Significa tão somente organizar melhor as idéias, longe dos olhos de quem quer que seja. Depois de escrito o inventário, ele não precisa ser lido para ninguém. Pode simplesmente ser queimado, guardado ou jogado fora.
Ou ser lido e relatado verbalmente para o “padrinho” escolhido – aquela pessoa em quem o alcoólatra sente confiança -, ou não ser lido para ninguém. A pessoa é completamente livre para decidir.
O interessante aqui é como o Oitavo Passo inclui um convite, uma sugestão de apresentar o “inventário” a alguém, o inventário, quando estiver sendo redigido, já estará, na cabeça de quem o escreve, sendo relatado a seu futuro interlocutor. Reproduz assim o relato do paciente a seu psicanalista. Só que de uma outra maneira, em uma espécie de ante-sala do relato real. Há o relato sim. Só que na fantasia de quem irá relatar, o que funciona como uma preparação para o relato posterior, como uma espécie de vacina para melhor tolerar a ansiedade que desperta o relato frente a frente, de corpo presente. Nada mais do que uma maneira delicada de superar mais gradualmente ainda ansiedades e resistências.
Como o “padrinho”, de um modo geral, é um membro experiente dos grupos anônimos, com uma longa prática de escuta e com um longo treinamento em abstinência, moderação e sobriedade, sua escuta tenderá a ser mais neutra, menos normativa. Afinal, há anos, enquanto membro de um grupo anônimo, não entra em controvérsias e polêmicas.
Assim, por caminhos aparentemente muito distanciados, o Oitavo Passo não se afasta tanto assim da ética psicanalítica. Não visa a enquadrar ninguém nas moralidades do imaginário social. Não visa nenhum corretivo moral. Visa apenas fazer a pessoa tomar melhor pé de si mesma, passar a ser mais senhora de sua própria mente, tornar-se, enfim, mais “sujeito de seus próprios desígnios”. os grupos anônimos não desejam enquadrá-la tampouco na moral do grupo. Até porque não possuem nenhuma moral, o que não quer dizer que sejam amorais. Claro que não. É que estão abertos a todas as morais, e não é sem motivo que Viver e deixar viver é um dos seus lemas.
O PROBLEMA DE “CARÁTER” E DO “DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL” PARA OS GRUPOS ANÔNIMOS.
Os grupos anônimos utilizam expressões como “defeitos de caráter” e “desenvolvimento espiritual”.
quando se referem a “defeitos de caráter”, contudo, não estão pregando nenhum modo virtuoso de ser. Estão apenas descrevendo o que a experiência lhes ensinou: que certos traços do caráter favorecem recaídas. Só isso.
Os grupos anônimos – até porque não entram em assuntos polêmicos – não estão empenhados em nenhuma eugenia psíquica ou moral, estão apenas interessados em controlar compulsões.
E quando empregam a expressão “desenvolvimento espiritual” desejam somente sugerir caminhos que a experiência revelou confiáveis para superar ameaças de recaídas. Caminhos abertos, não mais que linhas gerais, sem descer a detalhes. Não são ideais eugênicos ou pastorais que estão inspirando os grupos anônimos.
Caso contrário, os grupos anônimos seriam – não há dúvida – grupos religiosos ou de rearmamento moral, coisa que não são. Não fazem parte de nenhum exército da salvação. Salvo contra as compulsões.
Embora não tenham nada contra grupos religiosos ou de rearmamento moral; embora não façam qualquer restrição ao exército da salvação; simplesmente não opinam, não são a favor ou contra; são apenas abstinentes não só em matéria de álcool ou drogas – mas também em matéria de controvérsias.
O “CARÁTER” PARA A PSICANÁLISE E PARA OS GRUPOS ANÔNIMOS.
Os grupos anônimos observam e descrevem o caráter de uma maneira prática e empírica; não estão armados apenas pela sensibilidade, pela sabedoria, pelo aprofundamento progressivo do olhar.
Observam o que é diretamente visível. Observam em si próprios suas astúcias e as astúcias dos outros, as tendências que todos têm de enganar os outros e a si próprios. Sem intuito de vigiar ou punir, mas de conhecer e ajudar. A quem quiser ser ajudado…
Os grupos anônimos cultivam de todos os modos o autoconhecimento e o conhecimento da mente alheia, dentro dos princípios da intromissão e da sobriedade.
Eles, contudo, não param aí.
Vão além. Observam e descrevem as dinâmicas mentais do presente, mas também suas causas e consequências.
Mergulham no passado, para melhor compreenderem o presente, chegando até a mais remota infância, se necessário. Noutras palavras, observam a evolução do caráter, as influências que as pessoas que a pessoa recebeu desde a infância até hoje. Sem esquecer de seus desdobramentos, de seu porvir. Não se pode entender o caráter senão como algo dinâmico, com um passado, um presente e um futuro. O passado influi sobre o presente, é óbvio. Mas o presente influi sobre o passado, pois, a cada estado de humor de uma pessoa, corresponde um tipo diference de lembrança que ela tem do passado. O passado é sempre enxergado pela ótica do presente, pelos olhos do presente. O presente, por sua vez, influi sobre o futuro. Mas o futuro igualmente influi sobre o presente, pois faz parte do presente imaginá-lo, pressenti-lo; e conforme o que pressente sobre o depois, a mente se organiza no agora.
Os grupos anônimos trabalham não só com a idéia do infantil, como também com a idéia de inconsciente. Eles sabem perfeitamente bem que as pessoas não têm consciência plena de tudo o que se passa com elas. Por isso, vários dos Doze Passos visam a tornar conscientes esses funcionamentos inconscientes. quantas coisas aparentemente esquecidas estão ainda vivas e ativas em qualquer um de nós! Quantas coisas pressentidas no presente e pressentidas como futuro nós recusamos reconhecer que já reconhecemos, nós recusamos enxergar que já enxergamos!
Os grupos anônimos operam portanto com os mesmos métodos e princípios dos filósofos, poetas, sábios e dramaturgos de todos os tempos.
Contudo, esse não é o método psicanalítico. Não é essa a idéia freudiana de inconsciente, nem de infantil, nem de buscar no passado as causas do presente. Por mais que as pessoas possam pensar que seja. Freud jamais se interessou pelo passado propriamente dito. Nunca se interessou em remexer com velharias esquecidas da infância. Ele só se interessava pelo presente, pelo vivo, pelo atual.
A idéia freudiana de inconsciente inclui todas essas idéias de inconsciente, mas vai além, muito além dessas idéias. A cronologia, para Freud, não é linear, composta de passado-presente-futuro. A idéia de tempo para Freud é completamente diferente.
É que a memória do inconsciente é inteiramente diferente da memória tal como a entendemos. O único ponto comum da memória inconsciente com a memória consciente é que algo fica marcado e fixado na mente. No mais, tudo é diferente.
A memória consciente, já sabemos como é: seria diferente de uma percepção, algo mais pálido, um fantasma e não um objetivo real. Além disso, ela se situa no passado. Representa a lembrança de algo que passou, lembrança essa que vai se desbotando com o passar do tempo.
A memória do inconsciente não tem nada a ver com isso. Ela é tão poderosa, real e viva como uma percepção, um sonho, uma alucinação. ela não é referida ao passado, até porque nela nada se apaga nem se esquece nunca. O que aconteceu há 30 anos está vivo e fresco quanto o que está ocorrendo agora.
Noutras palavras, no inconsciente não existe presente, passado e futuro, nada passa, tudo que se instala não desaparece jamais. É um Índigo Blue que não desbota nunca. Não há esquecimento no inconsciente. Tudo o que um dia foi, é e será para sempre.
Por isso, contrariamente ao que se pensa, a psicanálise não se importa mesmo com o passado, o infantil de eras priscas e distantes. Não. Ela só se importa com o vivo, o presente, o atual. Mesmo que ele ainda seja infantil, com todas as características de eras priscas. Para o inconsciente, o passado não passou, ele é presente. A história não passou, ela está toda viva, atual, em todos os seus momentos. O passado é tão presente, o infantil é tão atual que, quando eles invadem a consciência, não são sentidos como lembranças: se estamos dormindo, aparecem como sonhos; se estamos acordados, aparecem como sintomas, com toda sua força dramaticamente concreta e atual. Ou será que alguém vive um ataque de depressão ou angústia como pálida lembrança de um passado que passou? Porque o inconsciente é assim, somos assaltados por sentimentos tão estranhos.
Essa é uma das descobertas mais revolucionárias de Freud.
ao mesmo tempo que nada passou, tudo passou. É que, para as regiões da mente que nos são mais familiares, a memória opera da maneira que estamos acostumados a pensá-la.
E a psicanálise inclui também o estudo e a observação dessas regiões. Tanto é assim que, quando estuda o caráter, inclui todas as idéias que a humanidade já fez sobre sua evolução. Só que acrescenta a estas as idéias especificamente freudianas, como, por exemplo, a do inconsciente enquanto lugar onde nada passa, onde tudo é agora, para sempre. O caráter incluiria a presença desse inconsciente. Além das outras idéias sobre o inconsciente, estas pertencentes à sabedoria dos séculos. Em suma: a psicanálise, porque observa, ao mesmo tempo, tanto os modos de funcionamento do inconsciente, quanto os modos de funcionamento do consciente, opera com duas idéias de memória, duas idéias de cronologia, duas idéias de passagem de tempo.
O método psicanalítico inclui a observação direta dos traços de caráter, inclui o rastreamento de todas as influências do passado até sua constituição presente, inclui o rechaço de tudo quanto for penoso para o inconsciente, inclui tudo isso. Mas inclui também a visão do rastreamento de um passado que não passou nem jamais passará, que está vivo e ativo no presente, e que agora faz parte do caráter.
Os grupos anônimos – que fique bem claro – nem revisam nem recusam esses conceitos. Não estão a favor ou contra essas teorias; apenas não operam, enquanto grupos, com elas. O que não significa dizer que um psicanalista ou estudioso de psicanálise que seja membro de algum grupo anônimo esteja proibido de fazê-lo e de interpretar os Doze Passos, as Doze Tradições, toda a literatura produzida por esses grupos, influenciado pelas idéias psicanalíticas. Muitos psicanalistas alcoólatras ou toxicômanos que já foram salvos pelos grupos anônimos certamente já o fizeram, até porque nenhum psicanalista está a salvo dessas compulsões.
Os grupos anônimos – que fique bem claro – não se dedicam ao estudo do caráter tendo em vista grandes revelações ou vôos teóricos. Deixam isso para filósofos, cientistas ou psicanalistas. Estudam-no apenas para identificar os traços perigosos do ponto de vista das recaídas e toda a sua idéia de “desenvolvimento espiritual” está subordinada a esse projeto supremo – o único que mantém unidos os Grupos Anônimos em todo mundo: controlar compulsões.
Se, contudo, deixarmos de lado certas aparências e certas complexificações teóricas, veremos que o método psicanalítico – não de estudar teoricamente o caráter mas de enfrentá-lo na prática clínica – não é tão diferente assim do método dos grupos anônimos. Se um psicanalista deixar de divinizar suas liturgias e de fetichizar seus rituais, admitindo assim enxergar outras liturgias e rituais, sem desqualificá-lospreviamente, poderá descobrir neles virtudes até psicanalíticas!
Logo de saída, o que é um traço de caráter? é uma maneira de sentir, agir e reagir da mente que ficou algo automatizada, que funciona por piloto automático, independente da vontade do eu. Noutras palavras, é uma parte da mente enrijecida, cristalizada, que se repete sem necessária afinação com as circunstâncias. Nesse sentido, descristalizá-la, desenrijecê-la torna-se uma tarefa importante para fazer o sujeito mais senhor de si mesmo e não sujeito a tantas repetições.
Uma boa parte de toda análise, por isso mesmo, consiste numa análise do caráter. O psicanalista identifica determinados padrões de conduta repetitivas no seu paciente e relata-os para ele, possibilitando com esse método que o paciente adquira consciência desses automatismos de sua mente, dessas suas maneiras viciadas e imperativas de agir. O paciente percebe, então, que aquilo que ele considerava seu eu, e com que se solidarizava é alguma coisa estranha a ele, alguma coisa que o domina e escraviza, uma vontade exterior à sua vontade. O que estava em sintonia com seu ser vira uma distonia. Instala-se assim um conflito entre o eu e esse traço de caráter, com o qual ele não se identifica mais e que passa a ser tratado como sintonia.
O que o paciente vai fazer com esse traço de caráter agora convertido à categoria de sintonia não vem ao caso aqui. O fato é que surgiu um novo “grilo” dentro da mente, e por isso ela abriu novas frentes de pensamento e trabalho psíquico.
Esse é o método que o psicanalista utiliza para tornar conscientes certos padrões de conduta de cuja existência a pessoa nem se dava conta, que estavam, para ela, inconscientes. Esse é o método de descristalização e desenrijecimento dessas partes cristalizadas e enrijecidas da mente, chamadas de “caráter”.
Alguns exemplos.
O psicanalista pode mostrar a um paciente como este está possuído por um tom generalizadamente voraz sem o saber. Ou, pelo contrário, como lhe falta garra, espírito de luta, como ele está tomado por uma atitude generalizadamente apática, conformista, desesperançada ou inoperante. Essa é uma “análise de caráter”.
A um outro paciente, o psicanalista pode mostrar como ele tem horror de enfrentar qualquer situação minimamente dolorosa, fazendo-o ver, com a ajuda de fatos clínicos, como esse procedimento está acabando por provocar mais dor ainda. Ou, pelo contrário, como o paciente não se dá descanso e esfrega na sua própria cara a verdade sem retoques fotografada pelo seus piores ângulos, o que o leva também a um estado de sofrimento atroz.
A um outro paciente ainda, o psicanalista pode mostrar como ele está paralisado por exigências narcísicas sobre-humanas, filhas de uma vaidade primitiva ainda não devidamente trabalhada. Ou como sua mente responde colericamente a tudo e a todos, o que gera consequências que o obrigam a mais produção de cólera, num círculo vicioso de bílis e maus-humores que arruinam o seu bem viver.
E assim por diante.
Alguns psicanalistas complementam essas descrições procurando mostrar como esses traços de caráter se constituíram ao longo da história do sujeito. Outros psicanalistas limitam-se a discutir os traços e suas implicações, pouco se importando com a sua genealogia.
Outros ainda mostram como esses traços de caráter são sobrevivências de funcionamentos primitivos da mente ( funcionamentos infantis) na mente adulta. e podem, ou não, discutir as razões históricas dessas sobrevivências. enfim, como se vê, as técnicas variam. Só uma coisa fica clara em todas elas: que o importante é tornar consciente o inconsciente, pois só assim as funções conscientes da mente podem entrar em contato com a própria mente e ter sua cota de participação.
Vejamos agora as técnicas dos grupos anônimos.
A questão da revisão do caráter não está presente apenas nesse oitavo Passo. Na realidade está presente em todos os Passos.
Primeiro Passo: reconhecer que se está possuído por uma compulsão não controlável e que se perdeu o controle sobre a própria vida. Trata-se de enfrentar o orgulho, a auto-suficiência. E desenvolver a humildade. Ou seja, reformular o caráter.
Segundo Passo: admitir que existem “forças superiores” fora de si próprio, capazes de fazer frente às “forças superiores” dentro de si próprio. Nova lição de humildade. Nova revisão de caráter.
Terceiro Passo: levar fé nessas “forças superiores” fora de si. Aqui não basta uma humildade exterior, que leva a um ato exterior, mecânico. A humildade tem de ir mais fundo, digerir e elaborar as indignações e revoltas por ter de procurar ajuda. Se não houver essa digestão e essa elaboração, não aparecerão sentimentos genuínos de entrega. Existirá uma entrega racional, não emocional. O que serão essas “forças superiores”? Cada qual é livre para se pronunciar como as concebe.
Quarto Passo: “inventário de qualidades e defeitos”. Esse passo então dirige-se diretamente ao caráter como um todo. Faz-se um levantamento geral. Em termos psicanalíticos, iniciar-se-á o processo de tornar consciente o inconsciente. dizer que fazer isso por escrito – na ausência do psicanalista, que ocupa um lugar de testemunha pública (superego) é uma experiência sem valor, não convence. Quem escreve, escreve sempre para alguém. Pelo menos para alguém dentro da sua própria mente. E, como esse Passo é sugerido pelos Grupos Anônimos, claro que, quando se escreve, está se escrevendo, consciente ou inconscientemente, para eles, que ocupam o mesmo lugar do psicanalista, “mutatis mutandis”.
Quinto Passo: compartilhamento desse inventário com o padrinho, o qual deve ter uma escuta sóbria e um discurso abstinente, sem entrar em controvérsias ou polêmicas. Existirá melhor descrição de um psicanalista? O padrinho aponta aspectos que o próprio inventariante não pôde ver e torna, portanto, conscientes aspectos inconscientes. Sem censuras ou absolvições.
Sexto e Sétimo Passos: nitidamente são um convite a um aprofundamento sobre os pontos críticos da personalidade e do caráter.
E chegamos de volta ao Oitavo Passo.
O Oitavo Passo toca os sentimentos de culpa diretamente. todavia, como o que os gera são quase sempre atos de inspiração egoísta ou agressiva, indiretamente esse Passo toca e, egoísmo e agressividade. É forçoso revisitar esses três grandes temas no fundo inter-relacionados: egoísmo, agressividade e culpa. É interessante assinalar aqui como através do seu empirismo e de sua linguagem também extraída da observação direta das grandes questões afetivas da vida, os grupos anônimos foram tangendo vários pontos também considerados centrais pela psicanálise freudiana.
AS TEORIAS BÍBLICAS, ANTROPOLÓGICAS E FREUDIANAS DA CULPA.
As questões ligadas aos sentimentos de culpa são tão importantes que cabe determo-nos algum tempo nelas, tratá-las em maior extensão.
Freud interessou-se vivamente por essas questões, as quais receberam tratamento final com sua teoria do superego (Mal estar na cultura, 1930).
Façamos uma breve resenha histórica de como a humanidade pensou o sentimento de culpa, uma espécie de história do sentimento de culpa, uma espécie de história do sentimento de culpa.
As primeiras idéias sobre sentimentos de culpa na nossa civilização judaico-cristã vieram da própria religião. Deus teria criado o mundo de acordo com um projeto divino. Se o indivíduo cumprisse esse papel, cairia nas graças de Deus. Caso contrário, cairia em desgraça e sentiria dentro de si toda a agonia de ter transgredido as leis de Deus, expressão máxima de sua vontade. O primeiro sentimento de culpa seria remorso da criatura por não ter cumprido os ideais do criador.
A partir do nascimento da ciência, um interesse menos místico e mais materialista passou a impulsionar o estudo da Natureza; surgiu, assim, entre outras disciplinas científicas, a Biologia, ou seja, a ciência da própria vida, que alcançou seu apogeu com o darwinismo no século XIX. A uma “ordem divina” agora opunha-se uma “ordem natural”, às “leis divinas” contrapunham-se dali por diante as “leis naturais”. A Natureza, com suas leis, rivalizava com Deus.
Existia não mais um projeto divino, mas um projeto da Natureza. A Natureza teria feito os homens e os bichos para cumprir determinados desígnios seus. A idéia de instintos naturais, outorgados pela Natureza, representava a forma mais acabada e completa desse divinização da Natureza. Os instintos seriam a maneira de os desígnios naturais aparecerem nos seres vivos individuais.
De acordo com a teoria dos instintos, haveria uma “Ordem Natural das Coisas”, uma “Lei Natural” da qual ninguém deveria se afastar sob pena de ser considerado uma excrescência da Natureza, uma perversão, uma anomalia, um monstro antinatural, um degenerado, um desnaturado. O sentimento de culpa adviria desse desvio da “Ordem Natural das Coisas”.
A partir do nascimento da Antropologia e da Sociologia, também no século XIX, advieram novas idéias sobre o sentimento de culpa. Cada sociedade, cada cultura precisava criar mitos e tabus para poder preservar a ordem social e cultural nela vigente. E divinizá-los como forma de torná-los eficazes. O sentimento de culpa seria decorrente da transgressão dos preceitos sustentados por tais mitos, lendas, tabus e tradições.
O marxismo, que exerceu influência de meados do século XIX em diante, foi além. Os mitos e tabus de uma determinada coletividade não estão a serviço dessa coletividade, mas a serviço da preservação da riqueza dos ricos e da pobreza dos pobres. Os valores morais e éticos de uma sociedade estão, em última instância, a serviço das classes dominantes. Os sentimentos de culpa seriam o resultado da transgressão das normas e valores burgueses a serviço dos interesses da burguesia. Trata-se, portanto, de sentimentos de alienados, vividos por incautos. Essas culpas burguesas, pela desalienação, deveriam ser superadas pela ética revolucionária. Só deve gerar culpa aquilo que for contra a revolução socialista e os verdadeiros interesses populares. Houve aqui, vê-se, uma decidida politização do sentimento de culpa.
Freud não chegou a tanto. Mas, certamente, como bom homem da ciência do século XIX e, portanto, materialista até a alma, jamais levou em conta as teorias teológicas da culpa. Sempre as desprezou, considerando-as não mais do que simples “ilusão”.
O primeiro Freud, o jovem Freud, situava-se preferencialmente na teoria antropológica da culpa. Na oposição Natureza-Cultura. O ser humano assimilaria os ideais culturais da sociedade em que vive, fazendo destes os seus próprios ideais. Contra estes, ergue-se a sua natureza, muito mais zoológica do que cultural. Produz-se desse modo um racha interior, e a luta Natureza-Cultura se transfere para uma questão de foro íntimo. Quando a Natureza massacra a Cultura, quando a animalidade domina inteiramente a psique, não há culpa. Quando a Cultura massacra a Natureza também não. Entretanto, quando há equilíbrio de forças e principalmente quando ocorre uma alternância de forças, aí sim vem a culpa: num determinado momento o lado bicho está mais forte e realiza seus prazeres; depois, porém, o lado moral se reergue e predomina, o que faz aparecer remorso e culpa.
Até aí Freud não tinha ido nada além do saber de sua época. Não havia nenhuma novidade nisso.
Finalmente, aparece a primeira novidade freudiana. O sentimento de culpa é um sentimento de culpa de natureza social sim, só que ele, nos seus níveis mais profundos, não é transmitido diretamente pela sociedade. A cultura com seus ideais, penetra na mente humana através da família. Atinge o ser humano na sua infância, quando ele ainda é ingênuo e crédulo. Daí seu grau intenso de assimilação. Daí a intensidade posterior da culpa quando houver transgressão.
Isso é verdade, mas ainda é pouco. Freud, além de introduzir as idéias de ingenuidade e credulidade, traz mais uma: a da paixão. Os filhos pequenos não apenas gostam dos pais, eles são literalmente apaixonados por eles, rendidos aos seus fascínios. Assim, como todo apaixonado, ainda mais em se tratando de apaixonados mirins, tornam-se os filhos pequenos presas fáceis para os ideais alheios, ou seja, os ideais maternos e paternos. Mais tarde, se desobedecê-los, poderá ser corroído de remorsos.
Isso também é verdade, mas continua sendo pouco. Além das idéias de ingenuidade, credulidade e paixão, Freud introduz ainda uma outra: a de desamparo. As crianças, por sua própria condição de crianças, são seres extremamente vulneráveis, dependentes e frágeis. Dependem completamente dos adultos. Em todos os níveis. Noutras palavras, são seres sujeitos a estados de desamparo. Ora, bem o sabemos, os seres desamparados vendem até a alma ao Diabo. Assim, para não perderem o amor e a proteção dos pais, as crianças fazem qualquer negócio. para agradar a esses gigantes sem os quais não podem viver, tornam-se aquilo que tiverem de se tornar. Tornam-se o desejo dos pais. Mais tarde, se o transgredirem: culpa! Ou seja, o medo de perder, na sua imaginação inconsciente, a estima dos pais e cair nas angústias do desamparo.
Novamente, isso também é verdade, mas ainda não satisfaz. Embora as idéias de ingenuidade, credulidade, paixão e desamparo fossem boas, não satisfazem a Freud. O infante é um ser sexuado cujo gozo máximo é sentir-se objeto do gozo dos pais. No relacionamento com os pais, quer gozar e fazer gozar. Não genitalmente – é óbvio, pois ainda é criança demais para isso – mas em todos os outros sentidos do termo. Nesse transe de tantos gozos físicos e psíquicos, só importa não deixar de ser objeto de tantos gozos físicos e psíquicos por parte dos pais. Nem que tenha de se identificar com eles, tornar-se cópia deles, só para enfeitiçá-los. Quebrar essa identificação poderá ser sentido como perda catastrófica desse enfeitiçamento tão desejado. Gera remorso e culpa.
Inacreditavelmente, Freud ainda não estava satisfeito. Tudo isso ainda lhe parecia pouco para explicar a violência da “consciência moral”, a impressionante selvageria dos ataques da mente desfechados contra ela própria, da fúria sádica dos sentimentos de culpa em algumas pessoas. De onde viria tamanha maldade da pessoa contra si mesma, de onde viria ódio tão implacável?
Freud primeiramente imaginou que viriam da severidade excessiva dos pais, do grau quase desumano de cobranças, críticas e censuras que certos pais exercem sobre os filhos. Os rigores da “consciência moral” seriam diretamente proporcionais à severidade dos pais. Quanto mais repressores fossem os pais, mais reprimidos seriam os filhos.
Essa idéia é boa, explica muitas coisas, é lógica. Só que é lógica demais. Simples demais. Mecânica demais. E a vida jamais se deixa decifrar por cartesianismos tão retilíneos e alvares.
Eis que, finalmente, Freud chegou à sua teoria final, depois de dez intensos anos de reflexão e prática ao longo dos quais foi desenvolvendo cada uma dessas suposições.
Em 1930, no seu Mal estar na Cultura, foi além, introduzindo a noção de agressividade e desenvolvendo-a até as suas derradeiras consequências.
Há muito tempo que Freud não acreditava mais que culpa tivesse necessariamente algo a ver com algum dano efetivamente praticado.
Claro que também tinha, porque as novas idéias de uma sociedade sobre determinado assunto não revogam as idéias anteriores. Elas continuam existindo lado a lado, coexistindo, Assim, a idéia de uma ordem divina não estava abolida pela idéia de uma ordem natural, nem essa pela de uma ordem cultural ou burguesa. Assim, existiam um Bem e um Mal revelados pelas Escrituras e continuava a haver o natural e o antinatural. Desse modo, cometer certos atos porque infringem a “ordem divina” ou a “ordem natural” deveria gerar culpa. Afinal, uma parte da mente estava identificada com esses valores, mesmo quando outros e novos valores já circulavam numa sociedade.
Quando Freud revelou na origem dos sentimentos de culpa a idéia do infantil, subverteu-os profundamente. O sentimento de culpa, nos seus níveis profundos, nada tem a ver com o fato de se estar genuinamente arrependido de um ato qualquer. Esse ato gera culpa não porque seja efetivamente considerado merecedor de arrependimento, mas porque, nos níveis profundos, desperta pressentimentos de perda de amor dos pais, pais esses que ficaram marcados, na realidade psíquica, como figuras quase onipotentes, e cuja perda não se pode tolerar. para agradá-los, e não por sentimentos genuínos, há arrependimento. Como no inconsciente nada passa, esses pais, com sua importância originária, também não passaram, Estão vivos como se fosse hoje. Tão vivos que a mente culpada nem percebe que está vivendo uma lembrança, uma recordação. Para ela, o que está vivendo é atualidade.
Aos 75 anos de idade, com um câncer roendo-lhe o céu da boca de forma extremamente dolorosa, Freud não tinha nada mais a perder. ele, que a sua vida toda havia arriscado tudo, não iria agora poupar.
Por que, perguntava ele, justamente o chamado homem virtuoso, quase santo, aquele que não pratica nenhum ato que pudesse ser considerado delituoso, por que justamente este é o mais acossado pelos sentimentos de culpa? Por inacreditável que pareça, a culpa não é proporcional ao delito, é proporcional à virtude. Quanto mais virtude, mais culpa. Quanto mais delito, menos culpa.
Freud tem aqui uma explicação na ponta da língua. É que, quanto mais virtuoso, mais frustrado. Quanto mais frustrado mais agressivo. E quanto mais agressivo, tendo de ser virtuoso, mais agressivo… consigo mesmo. Ou seja, mais culpado.
Por outro lado, quanto menos virtuoso, menos frustrado. Quanto menos frustrado, menos agressivo. E, sendo menos agressivo, sem maiores compromissos com a virtude, mais descarrega nos outros. Resultado: menos agressividade consigo próprio; menos culpa.
Essa idéia não explica tudo, mas é uma boa idéia. Não pode ser abandonada porque explica algumas coisas.
Freud lançou essa idéia para o nível infantil. Uma criança agressiva enxerga os pais à sua imagem e semelhança, tão intolerantes e furiosos quanto ela própria. Assim se constituiria o superego, cuja fúria não depende da fúria objetiva dos pais, mas da fúria subjetiva dos filhos. Quanto mais selvagens os impulsos, mais selvagens serão as punições morais. A moralidade seria o avesso da impulsividade.
O que tem isso a ver com os Grupos Anônimos? Tudo
A cólera, a agressividade, o rancor são traços de caráter considerados perigosos para recaídas. É imprescindível tomar plena consciência deles e realizar todo trabalho psíquico para tentar superá-los.
Os grupos anônimos, no seu empirismo, intuíram a conexão entre agressividade e culpa. Que quanto maior for a agressividade circulante pela mente, maior será a possibilidade da agressividade da “consciência moral”, ou seja, da culpa.
Por isso, é necessário tornar consciente toda essa potencialidade agressiva nem sempre consciente, para poder, quem sabe um dia, superá-la. Fazer inventários e meditar sobre a culpa é situar os níveis superiores da mente nesses lugares de reflexão – única possibilidade de deflagrar o trabalho psíquico.
Os grupos anônimos foram além. Intuitivamente pressentiram que, se agressividade gera culpa, o que gera agressividade é orgulho excessivo, vaidade desmedida. Como vimos no Sexto e no Sétimo Passos, quem é vaidoso ou orgulhoso demais encontra-se a meio passo da cólera. Nada gera mais ódio do que a vaidade ferida. Nada gera mais rancor e ressentimento do que o orgulho desmedido.
Esses traços de caráter, além dos sentimentos de culpa, produzem estados mentais inter-relacionados, extremamente perigosos; cortam o prazer, a alegria de viver e provocam tentações de reconquistar esse prazer e essa alegria pela via química.
O NONO PASSO EM DIREÇÃO À SOBRIEDADE.
Se a pessoa – depois de feito seu inventário de condutas geradoras de remorso e culpa – achar que deve, os grupos anônimos estimulam a ir em frente: que ela tome as providências concretas para aliviar as tensões provocadas por sua consciência moral.
Afinal, por que não?
Flagelar-se com arrependimentos secretos pode não estar adiantando nada. Então por que não tentar algo prático? Por que não procurar as pessoas que ela acha que prejudicou e colocar as coisas em pratos limpos?
A primeira vez que li o texto em que se propõe esse passo, achei-o constrangedoramente conservador. Hoje, considero-o dos mais audaciosos, modernos e criativos.
Não se trata de chegar de cabeça baixa ou de joelhos. Nem de se humilhar. Trata-se, isso sim, de recolocar de maneira digna as coisas nos seus devidos lugares. Se for esse o caso.
Afinal, por que esse compromisso, no fundo conservador, de não poder dar o braço a torcer? Por que não enfrentar o próprio narcisismo infantil e primitivo que exige estar sempre certo? Por que não aprender que errar não é vergonha, é humano, e por isso, não há nenhuma razão para se ter preconceitos contra pedir desculpas? Por que não se orgulhar de realizar esse ato, no mínimo de cortesia e civilidade e, no fundo, tão simpático?
Os grupos anônimos não estão sugerindo a ninguém que se entregue à polícia nem que faça confissões ao “companheiro conjugal” sobre aventuras sexuais fora do casamento. Não se trata de expiação, suicídio ou penitência. Até porque isso contrariaria o princípio supremo da sobriedade. O que se pretende é aliviar tensões e libertar preconceitos. Pelos caminhos mais diretos e rápidos possíveis.
Quantos anos de psicanálise não se poupam com determinados atos concretos? Por exemplo, descobrir que pedir desculpas por alguma aprontação não gera, no outro, desdém, mas respeito e admiração. Para que tanta ruminação se existe o caminho da ação?
Aliás, um certo psicanalismo, que secretamente condenava a ação e incitava à pura verbalização sem ato físico, representava, no limite, uma atitude fóbica diante do viver. Não se trata de estimular uma ação desenfreada, que oblitere a meditação. Pelo contrário. Mas temos que reconhecer que, em muitos casos, o ato substitui mil palavras e que nada mais do que ele tem a capacidade de incitar verdadeiras reflexões. Não aquelas reflexões tão a gosto do fóbico, que vive distanciado da vida, nas reflexões de quem venceu o medo de arriscar-se e atirou-se de corpo e alma na vida. Nada produz mais idéias sobre o viver do que o próprio viver.
Além disso, a vida não pára aí, ela continua. E, mais adiante, haverá todo tempo do mundo para meditar e refletir sobre a culpa e sobre o ato de pedir desculpas. Uma vez de posse de toda essa experiência, poder-se-á discuti-la extensamente com o padrinho ou com quem se desejar.
Aliás, todos nós vivemos na civilização judaico-cristã e, quer admitamos ou não, quer sejamos religiosos ou não, estamos profundamente influenciados por ela. Assimilamos por todos os poros, desde que nascemos, seus valores e ideais bíblicos, sua noção de Lei Divina, de pecado e virtude, de crime e castigo. Estamos, em todos os nossos níveis – conscientes ou inconscientes, primitivos ou superevoluídos – entranhados na moral bíblica. Ela atravessa há milhares de anos todas as áreas da nossa cultura e não poderíamos escapar dela. Assim, não tenho dúvida de que existem, além de todos os tipos de culpa que descrevi, algumas que se destacam e que eu poderia chamar de “culpas bíblicas”. Sobre essas, não adianta freudismo, nem marxismo, nem darwinismo, nem nada. Só adiantam soluções bíblicas mesmo. Como, por exemplo, arrepender-se, pedir desculpas ou reparar o dano efetivamente feito. Pelo menos, em alguma extensão. Pressinto, por isso, sabedoria intuitiva nesse Nono Passo.
Uma das defesas perniciosas de que a mente lança não é a fuga da ação, dos atos concretos, dos relacionamentos diretos naquelas regiões com que a mente deveria adquirir mais familiaridade e intimidade para poder digerir, elaborar e dissolver ansiedades. Nada empobrece mais uma pessoa nem eterniza mais sua timidez e seu medo do que evitar as situações de ansiedade, preferindo as comodidades das situações já conhecidas e controladas. Ou então preferindo refugiar-se no seu próprio mundo interior, onde fica ruminando as razões dos seus temores face àquelas situações concretas, transportadas para o interior da mente pela imaginação. Imagina-se então a vida e, nesse espaço imaginado, faz-se de tudo. O resultado, porém, é precário, pois vida imaginada, vida fantasiada, não substitui vida concretamente vivida.
O Nono Passo para mim é isso: um convite à ação, ao atirar-se desassombradamente à vida, desafiando prudências e pudores, vencendo preconceitos no fundo fóbicos e elitistas. Não se trata de circunscrevê-lo à culpa. Trata-se de não render às mil astúcias das fobias.
Será isso psicodrama? Será ato psicanalítico ou clínico do real?
O nome não importa. Importa que se confira dignidade ao concreto e à ação. Dentro, é óbvio, de certos limites. Dentro dos princípios da sobriedade. Mas que não se confunda sobriedade com fobia, pusilanimidade, covardia. Afinal é só errando que se acerta, é só caindo que se aprende a andar, é só vivendo que se aprende a viver.
Uma verdadeira psicanálise jamais deixa de mostrar isso a seu paciente: como ele faz tantas coisas só para não fazer aquelas poucas coisas que são as que deveria fazer; como inclusive ele pode utilizar a psicanálise para se defender de viver e ficar conversando e discutindo interminavelmente sobre a vida, num eterno preparativo para um jogo que não começa nunca.
Uma ação, um ato concreto bem escolhido e realizado na hora certa, pode operar milagres, dissolvendo impasses e cristalizações. Libera, então, as verdadeiras idéias e associações que estavam impedidas de aparecer pelo bloqueio do sistema fóbico. O ato serve assim, indiretamente, como recurso ímpar para tornar consciente o inconsciente.
Assim é para a psicanálise. E para os grupos anônimos.
O DÉCIMO PASSO É APROFUNDAMENTO PROGRESSIVO.
O quarto Passo – já vimos – recomendava um “inventário” geral da vida, uma meditação sobre o que a pessoa considerava suas qualidades e defeitos como maneira de mapear-se e poder montar, a partir daí, uma estratégia de auto-aperfeiçoamento.
O Décimo Passo é um desdobramento desse mapeamento. Não é um balanço da vida como um todo, e sim uma análise do dia-a-dia. Meio como escrever um diário. Como dar aquele telefonema de fim de tarde para aquele amigo. Como ir a uma sessão de análise.
Essa auto-análise sistemática pode ser útil para surpreender tentações de recaídas no nascedouro e tomar providências imediatas. Por exemplo, voltar a frequentar as reuniões dos grupos anônimos, trocar idéias com membros do seu grupo (Quinto Passo) ou prestar serviço para a recuperação de outros dependentes (Décimo Segundo Passo)
Esse método da auto-análise sistemática serve para registrar aquelas situações ou emoções críticas para a pessoa em questão, antes que se tornem críticas demais. Evidentemente o que será crítico para um poderá não o ser para outro. Ou o que pode ser crítico hoje pode não o ser amanhã. Não existem regras fixas. Tudo é radicalmente singular. Só uma coisa é crítica para todos os que possuem uma grande compulsão: tomar a primeira dose.
Esse exercício cotidiano amplia a visão interior, torna a pessoa mais conhecedora de si mesma, das suas manhas, manias e artimanhas, do seu jeitinho de se administrar.
Isso mesmo, do seu jeitinho de se administrar. Esse é um ponto decisivo na vida de qualquer um. Quem já superou aquela onipotência primária de achar que manda em si próprio já aprendeu que não se resolvem as coisas no grito e adquiriu a humildade de tornar-se hábil, não só para os outros, como até principalmente para consigo mesmo. Alguém já me disse que fazer análise é aprender a tornar-se um bom gerente de si mesmo, um bom administrador das próprias manias. Não posso deixar de estar de acordo.
A meditação diária equivale ainda a um estudo vivo sobre o funcionamento psíquico, um aumento progressivo sobre o conhecimento da chamada alma humana. Equivale em certa medida, ao efeito que sofre o psicanalista ao ler textos ou analisar os outros, efeito, sem dúvida, bumerangue: tudo o que se vê fora acaba voltando para dentro. Quando o membro do grupo anônimo está diariamente escrevendo ou conversando sobre si mesmo, ele está se colocando para fora, enxergando-se fora, colocando-se como um paciente, no papel, para poder observá-lo, o que tornará mais fácil para ele, depois, enxergar-se por dentro.
Tudo isso é muito importante, pois o portador de uma grande compulsão não pode concentrar-se em ser uma pessoa comum. Seria perigoso demais. Há uma voracidade específica nele, a qual, como uma espécie de trinitroglicerina, pode explodir a qualquer desequilíbrio brusco. Sua mente tem de estar na ponta dos cascos para lidar com essa compulsão.
é preciso evoluir, evoluir até alcançar a excelência.
O DÉCIMO PRIMEIRO PASSO É UM CONVITE AO SUBLIME.
O ser humano não é um ser animalesco, só voltado para os instintos do corpo. Não. Ele possui uma sede de transcendência. Precisa do belo, do profundo, do sublime como de ar para respirar. Precisa contemplar a Natureza, meditar sobre a grandeza do Universo. Precisa olhar os lírios do campo. Para, então, descobrir poesia na banal. Precisa poder enxergar o divino no olhar da amada, viver emoções cívicas, lutar por ideais. Faz mal viver uma vida de puras materialidades. “Overdose” de cotidiano enlouquece qualquer um.
Sem esses prazeres de “alto nível” corremos o risco de embrutecermos, tragados pela gula dos prazeres destituídos de qualquer espiritualidade.
Não há aqui nenhuma oposição moralista entre corpo e alma, entre espiritualidade e prazeres da carne.
Apenas constata-se o óbvio: a necessidade humana de um jogo mais rico e abrangente de transes, deleites e prazeres. Queremos todos ser capazes de, com a mesma potência, subir aos céus e descer à terra. Queremos todos transcender a animalesco e alcançar o patamar dos finas gestos e belas emoções.
Nem só de feijoadas vive o homem.
Esse é, para mim, o sentido do Décimo Primeiro Passo. Não é gratuito ser este um dos últimos Passos em direção à sobriedade. Esse Décimo Primeiro Passo, devidamente interpretado, representa o nível de encontro máximo consigo pr

óprio e com as forças infinitas e misteriosas do Universo. Talvez seja o passo de maior solidão e ao mesmo tempo de maior congraçamento com o todo, tal como cada um o concebe.
Ele representa um reconhecimento, sem mágoa, de nossa condição humana. Aceitamos nossa precariedade radical e nossa impotência também radical diante da grandeza mística do mistério. Aceitamos, sem medo, nossa inevitável fragilidade e nossa inesgotável vulnerabilidade. Nesse momento de superação de toda onipotência, se reconhecemos nossa precariedade e solidão, não significa que tenhamos de sofrer. pelo contrário, nesse momento nos reconciliamos com a vida como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse.
Reconciliados com a vida, estamos abertos para estados de bem-aventurança: estamos abertos para um congraçamento cósmico que se chama Deus. Como cada um o concebe, é claro.
O Décimo Primeiro Passo, por tudo isso, pode ser chamado de passo do Amor. Não o amor minúsculo das divinizações cotidianas, mas o Amor maiúsculo de religação com o imperscrutável.
ORAR, NO FUNDO, É RECITAR POEMA.
Apesar de não se dizerem religiosos ou sequer teístas, os Grupos anônimos iniciam suas reuniões como uma oração em que invocam inclusive o nome de Deus.
À primeira vista, isso pareceria uma liturgia de inspiração protestante, no mesmo estilo de agradecer ao Senhor, antes das refeições, o pão de cada dia.
Bill e Bob, os fundadores dos primeiros grupos de Alcoólicos Anônimos, provavelmente eram protestantes, ou pelo menos porque viviam numa cultura protestante como a norte-americana foram por ela influenciados. O estilo com que são redigidos os Doze Passos e as Doze Tradições não deixa margem de dúvidas. Contudo, apesar dessas fortes aparências – nunca é demais repetir – os Grupos Anônimos não são protestantes nem exigem uma interpretação protestante de suas sugestões. Cada qual as interprete como bem lhe aprouver, como uma parábola.
A oração que inaugura as reuniões, chamada Oração da Serenidade, está portanto, aberta a interpretações. Seu texto é o seguinte: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, a coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir uma das outras”.
Vocês hão de convir, é uma bela oração.
Qualquer oração, contudo, desperta resistência em muita gente. É que ela desperta lembranças desagradáveis da infância, quando era obrigado a repetir frases então complemente sem sentido. Ou, se tinham sentido, era para algum tipo de prazer.
Entretanto, não podemos ser regidos pela criança que um dia fomos. Uma oração como a da Serenidade pode muito bem ser uma forma de relembrar as dificuldades que nos acossam todos os dias e os riscos de reagirmos de modo rasteiro e primitivo. Orar pode ser ainda uma forma de convocar nossos níveis psíquicos mais altos, nossas funções mentais mais elevadas. Noutras palavras, nossas virtudes.
O processo psicanalítico é uma forma de trazer para a consciência nossos níveis primitivos e pueris ou até nossos níveis mais criativos e originais, que ficaram esparsos nas nossas poeiras mentais. A escuta e a fala do psicanalista operam, assim, de modo análogo a uma oração. Só que a fala não será vazada em termos místicos nem universais. Mas será vazada em algum estilo ou retórica, o que já represente um certo grau de quebra de neutralidade e um certo grau de sugestão, no mau sentido do termo. Como a fala do analista não é vazada em termos universais, mas singulares, termos que emergem daquele momento singular, naquele encontro singular ela também marca uma diferença. Mas essa suposta “singularidade” não é tão singular assim, pois está poderosamente influenciada pelas teorias do psicanalista e estas não são singulares nem emergiram daquele encontro singular. São universais. De certo modo, pertencem ao sistema de crenças do psicanalista, seu credo teórico, sua religião científica. Não sei se o que o psicanalista diz para seu paciente, no fundo, no fundo, não passa de uma enorme e ultradisfarçada oração, que nem ele mesmo, psicanalista, sabe qual é. O que sei é que, na segunda frase do psicanalista, quem é do meio já sabe qual é o seu credo teórico e o que ele, em última instância, estará dizendo para o seu psicanalisando.
Assim sendo, creio ser superficial rejeitar uma oração só porque tradicionalmente ela vem ligada a um sistema fechado, autoritário e doutrinário.
O problema não está na oração. Está no sistema em que ela se encontra inscrita. Até porque todo discurso, vazado em termos místicos ou não, não passa de uma forma de oração. Tudo é oração. Tudo evoca e relembra um aspecto parcial desse universo infinito chamado vida. Evoca e relembra certos aspectos e esquece outros. Ilumina e lança sombras nesse mesmo ato de iluminar. O que importa não é o fato de a fala ser uma oração. E sim o fato de ela estar a serviço de sistemas libertários ou autoritários; se ela relembra e evoca para expandir e libertar ou para restringir e aprisionar. A mesma Oração da Serenidade – como qualquer outra oração, fala, ato ou discurso – pode provocar efeitos libertários e carcerários. Tudo depende de quem emite e de quem escuta. Não há discurso, em si, livre desses perigos. O conceito de neutralidade, de não interferência, de não intrusão é bem mais complexo do que parece à primeira escuta.
Em que difere, então, a oração das outras falas? No estilo de sua redação, em seu tom solene e transcendental, com sua evocação de forças misteriosas, poderosas, cósmicas.
Mas, se na nossa cultura, solenidade, transcendência, mistério e forças cósmicas são ligadas às tradições judaico-cristãs, isso não passa de uma circunstância histórica. Na realidade essas categorias, em si, não pertencem a nenhum sistema cultural. Podem pertencer a todos. Místicos, materialistas e pagãos. Mais ainda: as tradições judaico-cristãs não são homogêneas nem estáticas. Não só se movimentam e se transformam como estão sujeitas – como qualquer tradição – às interpretações de cada um. Tanto assim que existem até padres, pastores e rabinos das mais variadas tendências: desde tendências ultraconservadoras a tendências ultraliberais. Não existem o judaísmo, o cristianismo. Nada na vida é singular e absoluto. Tudo é plural e incompleto. Uma oração pode ser considerada uma espécie de poema místico ou transcendental. Seus ritos e cadências produzem efeito de solenidade e evocação. Paira algo sagrado no ar.
E sagrado não tem necessariamente nada a ver com religião. Sagrado pode ser um determinado momento entre uma mãe e seu filho, momentos entre casais enamorados, momentos dos cidadão em alguns acontecimentos cívicos. Quando cantamos o Hino Nacional, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que uma oração cívica e não religiosa.
Quando cantamos uma canção romântica, podemos estar fazendo uma espécie de oração; só que voltada para alguém e não ao céu. Até quando cantamos o hino do nosso clube ou o samba-enredo de nossa escola estamos fazendo uma espécie de oração. Só que esportiva ou carnavalesca.
O que caracteriza a oração é que ela visa a atingir a inteligência e a razão muito mais pela emoção. E pela repetição de evocação. Nisso, por exemplo, ela se diferencia de uma palestra ou discussão.
A serviço de que ela estará? É isso que importa. A serviço da ampliação da consciência? A serviço da superação desses cárceres chamados compulsões? A serviço de tornar conscientes ou inconsciente?
O resto é falta de conhecimento sobre a teoria dos discursos. É divinização das aparências imediatas. É esquecer que tudo o que se faz sistematicamente é uma liturgia, não mais que uma liturgia e que poderia perfeitamente ser feito de mil outras maneiras, através de mil outras liturgias.
RELIGIÃO É RE-LIGAR, REENCONTRAR O FIO DA MEADA.
Também a religião pode ser vista por vários ângulos. Pode ser vista pelo ângulo místico, quando se propõe a explicar o mistério por meio da revelação feita por Deus ao homem, registrada nas Sagradas Escrituras. E estas devem ser lidas ao pé da letra. Mas outros caminhos podem ser explorados.
A palavra religião, do verbo latino “religare”, significa “re-ligar”.
Ou seja, encontrar o fio da meada, o pé das coisas; restabelecer os vínculos entre o céu e a terra, entre o fora do comum e o cotidiano, entre o mistério e o banal.
Se religião foi, para muitos, uma emboscada anti-sexual, isso nada tem a ver com o sentido mais profundo do termo. quem foi que disse que Deus tem de ser necessariamente moralista, de direita, fazendo promessas de uma vida futura para que a gente se esqueça da vida presente? Quem foi que disse que Ele é existencialmente um conservado e politicamente um reacionário:
PECAR É APENAS “ERRAR O ALVO”.
a palavra pecado, por sua vez, vem do latim “pecare” que significa tão comente “errar o alvo”. Logo, o pecador seria alguém com tendência a dar tiros e esmo e não acertar nos seus objetivos mais profundos – aqueles que lhe trariam maior grau de felicidade e realização. Instigado por “tentações”, o pecador sairia de sua rota, se extraviaria de seus caminhos, se perdendo em prazeres laterais. Daí as expressões “perdido”, “perdição”.
Entenda-se por “tentações” força de atração daqueles prazeres laterais que obrigam o “pecador” a desviar-se de seu fluxo mais central de desejos. “Tentação” é um desejo fissurado, que só pensa na sua gratificação instantânea e não se conforma em ter de se harmonizar com o todo – o conjunto dos desejos vistos de uma maneira mais global.
Ora, o que é uma compulsão senão um desejo fissurado e um prazer lateral que perturba, com sua boca voraz, a satisfação mais ampla dos desejos e prazeres? É, nesse sentido, algo que faz a pessoa perder o rumo, extraviar-se, errar o alvo.
logo, “tentação” é a maneira de dizer, uma linguagem mística o que, numa linguagem mais psicológica, se chamaria de compulsão. E “pecado”, “perdição” são as suas consequências. Não é sem motivo que alguém disse que o pecado nada mais era do que um “abuso do bom”. A busca fissurada do prazer.
Qual seria o remédio para esses males?
A convocação da serenidade e da autoridade do “Senhor” – símbolo da superação do desgoverno. Só a serenidade pode fazer frente à compulsão.
Essa convocação pode ser feita de muitas maneiras. Uma delas é através da prece.
Esse é para mim o sentido da Oração da Serenidade, proferida pelos grupos anônimos. Por conta de seu convite à transcendência das animalidades e da convocação dos níveis mais altos da mente e do sublime, faz parte, segundo esse ponto de vista, do Décimo Primeiro Passo.
Antes de passar ao próximo passo, cumpre aqui um esclarecimento, à guisa de tornar o texto mais rigoroso e cheio de precisão.
A Oração da Serenidade pelo contrário do que muitos pensam, não é uma oração universal com a qual se iniciam todas as reuniões dos grupos anônimos de mútua ajuda. No Brasil ela se tornou uma tradição – é verdade, porém, que nos Estados Unidos, por exemplo, muitas reuniões se iniciam sem oração alguma e outras se iniciam com orações diversas, entre as quais o Padre Nosso.
Fizemos essa meditação sobre ao Oração da Serenidade, portanto, como uma homenagem aos grupos brasileiros.
A rigor, pelo conteúdo do seu texto, se tivéssemos que escolher uma oração para representar o Décimo Primeiro Passo, ela seria a Oração de São Francisco, cujos versos evocam mais o sentido desse passo de entrega ao transcendente.
DÉCIMO SEGUNDO PASSO AJUDE PARA SE AJUDAR.
Esse Passo, para a minha leitura, rompe com a seqüência de aprofundamento progressivo dos onze passos anteriores. Na realidade ele não pode ser visto como o último, nessa seqüência cronológica de aprofundamentos. Creio que a localização possui o simbolismo de dar um arremate, do laço final a tudo que os Grupos Anônimos vêm pregando. É que, sem ele, toda a estrutura do que foi dito desmorona e todos os passos e tradições cairiam em pedaços. O Décimo Segundo Passo é assim o fecho de ouro, a costura que mantém calva toda forma de idéias, preceitos e conceitos. Sem ele, os Grupos Anônimos perderiam completamente sua eficácia no controle do alcoolismo, das toxicomanias. Considero-o, por tudo isso, a coluna dorsal, a viga-mestra de toda a estrutura dos Grupos Anônimos.
O que sugere ele? Que o alcoólatra ou o toxicômano auxilie outros alcoólatras e toxicômanos a controlar sua compulsão. Não por caridade ou bom-mocismo, mas principalmente por ser esta a melhor maneira de evitá-la em… si mesmo!
Por que?
Em primeiro lugar auxiliar outros dependentes é uma maneira de jamais esquecer-se de sua própria dependência. Aquele que auxilia está em contato permanente com sua própria realidade de alcoólico ou de toxicômano. Acompanhar dificuldades e tropeços dos outros é vacinar-se contra a sagacidade infinita do seu próprio tubarão.
A experiência prova que, cedo ou tarde, quem se afasta dessa militância voltará ao tóxico ou ao álcool. Manter a chama é indispensável. Cumpre não deixá-la ser apagada pelos vendavais alcoólicos, cocaínicos e outros mais.
Em segundo lugar, a cessação do uso do álcool e das drogas abre um rombo no peito do dependente. ele perde não só sua amada bebida, sua adorada cocaína, seus curtidos charos, seus comprimidos queridos, como ainda seu grupo de “amigos”, seus ambientes, seus papos em torno da aquisição desses prazeres quimicamente produzidos. É preciso preencher esse rombo, formar, formar novos amigos, novos ambientes, adquirir novos papos. os grupos anônimos oferecem tudo isso. Eles quase viram um clube. Geram amizades, até namoros. Tornam-se um local gostoso de ir no fim da tarde, para encontrar amigos. Ao invés de consumirem álcool e drogas, conversa-se sobre eles. E, nos corredores, bota-se a conversa em dia. Enfim, ocupa-se com uma atividade anticompulsão o tempo que era preenchido pela compulsão. O Décimo Segundo Passo implica o comparecimento às reuniões dos grupos anônimos, aos companheiros mais novatos ou em estado de crise.
Em terceiro lugar, essa sugestão de auxílio mútuo gera um benvindo sentimento de responsabilidade. Imagine-se um membro dos Alcoólicos Anônimos, ou dos Toxicômanos Anônimos à beira de ter uma recaída. Na hora da tentação, ele se lembrará de quantos ele ajudou e de como cada qual precisa do exemplo e do esforço do outro para não recair. Sua recaída, assim, não só afetará sua vida, como todo o trabalho de anos e tanto sacrifício para recuperar outros dependentes. Esse sentimento ajuda nas horas críticas.
Em quarto lugar, esse Décimo Segundo Passo garante que os grupos anônimos não sejam instituições de caridade. As pessoas ali se ajudam por um legítimo interesse mútuo. Isso tira o ranço de bondade piegas que, caso contrário, se infiltraria pelos grupos. E não constrange ninguém a incomodar ninguém, posto que quando se pede também se está oferecendo e, quando se recebe, está se dando. Não há dívidas ou favores.
Esses “serviços” devem ser realizados, portanto, sem nenhuma remuneração. Essa gratuidade é uma consequência lógica da idéia fundadora do Décimo Segundo Passo. Além disso, a gratuidade é importante para não perverter o ato do alcoólatra ou toxicômano que auxilia outro dependente.
A ausência do dinheiro torna essa experiência muito mais clara na sua significação e muito mais eloqüente no seu impacto.
Graças a esse Décimo Segundo Passo os grupos anônimos oferecem serviços impossíveis de serem oferecidos por qualquer tipo de profissional. Se os serviços dos grupos anônimos fossem pagos, não existiria dinheiro no mundo para pagá-los. Onde se encontrariam sumidades no assunto, em todos os cantos do mundo, disponíveis 24 horas por dia, com uma permanente boa vontade, pelo resto da vida? Nos Grupos Anônimos encontram-se essas condições. E tudo de graça!
RELEMBRAR, RELEMBRAR PARA JAMAIS ESQUECER.
O Décimo Segundo Passo é uma espécie de liturgia de rememoração. ao cuidar de outros dependentes, cada um rememora a sua dependência.
Mas não é só esse passo que proporciona esse permanente lembrar-se.
Todas as reuniões dos grupos anônimos são liturgias de rememoração. Tal como os católicos se encontram semanalmente na missa para comemorar, ou seja, memorar junto a fragilidade e os mistérios da carne (vida terrena), os grupos anônimos se reúnem para comemorar a existência dos mistérios e tentações das grandes compulsões. O fato de essa memoração ser feita em conjunto – comemoração – é importante, pois provoca um sentimento que não pode ser negado ou apagado pelas astúcias da tentação (compulsão).
Além disso, nas reuniões dos grupos anônimos, seus membros fazem depoimentos que, invariavelmente, se iniciam com: “Eu sou um alcoólatra (ou toxicômano) em recuperação”. O tempo do verbo é claro: eu sou. Não é eu fui, eu estou sendo, nada que amenize a cortante afirmação.
Isso não é feito como uma execração pública. Nada tem a ver com aqueles condenados medievais que carregavam no peito uma placa com seus crimes infamantes, para serem expostos ao público. Pelo contrário. É até uma maneira de se afirmar nem criminoso nem, como pessoa, inferior a ninguém.
Serve, contudo, para marcar a ferro e fogo a recordação. Para que o “alcoólatra ou toxicômano em recuperação” relembre sua condição de dependente, pois a mais perigosa das astúcias das compulsões se manifesta pelo apagamento dessa lembrança. Sob o fogo cruzado do desejo fissurado, a mente esquece tudo. Sai de si e vira porta-voz da fissura que a possui e dominou.
para relembrar a força da compulsão, aquele que está dando seu depoimento encerra-o dizendo ter permanecido sóbrio pelas últimas 24 horas e rogando permanecer sóbrio pelas 24 horas seguintes. Depois é depois. Não dá para prever.
E, nem precisa. Afinal os séculos e milênios são feitos nada mais nada menos do que por uma sucessão de 24 horas.