Monthly Archives: Novembro 2013

REPENSAR

1. ALCOÓLICOS ANÔNIMOS é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças a fim de resolver o seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.O único requisito para se tornar membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de A.A. não há taxas ou mensalidades; somos auto-suficientes graças às nossas próprias contribuições. A.A. não esta ligado a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político, nenhuma organização ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apóia nem combate quaisquer causas.Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudar outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade.“
2. • Alguns de nós se recusam a acreditar em Deus, outros não podem e ainda outros, embora acreditem na existência de Deus, de forma alguma confiam que Ele levará a cabo este milagre.• OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES. pg. 21
3. Foram as mudanças que vi nas novas pessoas que vierampara a Irmandade que me ajudaram a perder o medo emudaram minha atitude negativa em positiva. Podia ver oamor em seus olhos e estava impressionado pelo muito que asobriedade “Um dia de cada vez” significava para eles. Elesolharam honestamente para o Segundo Passo e vieram aacreditar que um Poder Superior a eles, iria restituí-los àsanidade. Isto fez com que eu tivesse fé na Irmandade eesperança que funcionaria também para mim. Descobri queDeus era um Deus amoroso, não aquele Deus punidor que eutemia antes de chegar ao A.A.. Descobri que Ele tinha estadocomigo durante todas aquelas horas em que eu estava comproblemas antes de vir para o A.A..Hoje sei que foi Ele que me levou para A.A. e que eu sou ummilagre.
4. (As promessas) estão sendo cumpridas entre nós às vezes rapidamente e outras lentamente. As promessas mencionadas nesta passagem estão vindo pouco a pouco para a minha vida. O que me deuesperanças foi colocar o Programa em ação. Os Passos me permitiram ver e fixar objetivos em minha recuperação. Velhos hábitos e comportamentos dificilmente morrem.Praticando os Passos, tenho condições de fechar a porta ao bêbado que era e abrir-me novas avenidas como um alcoólico sóbrio. Fazer reparações diretas e indiretas são importantes para mim. A medida que reparorelacionamentos e comportamentos do passado, posso com mais facilidade viver uma vida sóbria!Embora tenha algum tempo de sobriedade há horas em que “as coisas velhas” do passado precisam ser cuidadas e o Programa de Recuperação sempre funciona, quando eu o pratico.
5. As promessas de A.A. Livro Alcoólicos Anônimos pg1121. Se formos cuidadosos nesta fase de nosso desenvolvimento, ficaremos surpresos antes de chegar à metade do caminho.2. Estamos a ponto de conhecer uma nova liberdade e uma nova felicidade.3. Não lamentaremos o passado, nem nos recusaremos a enxergá-lo.4. Compreenderemos o significado da palavra serenidade e conheceremos a paz.5. Não importa até que ponto descemos, veremos como a nossa experiência pode ajudar outras pessoas.6. Aquele sentimento de inutilidade e auto-piedade irá desaparecer.7. Perderemos o interesse em coisas egoístas e passaremos a nos interessar pelos nossos semelhantes.8. O egoísmo deixará de existir.9. Todos os nossos pontos de vista e atitudes perante a vida irão se modificar.10.O medo das pessoas e da insegurança econômica nos abandonará.11.Saberemos, intuitivamente, como lidar com situações que costumavam nos desconcertar.12.Perceberemos, de repente, que Deus está fazendo por nós o que não conseguíamos fazer sozinho
6. AS 12 PROMESSAS DE A.A.• Tema abordado naXV CONVENÇÃO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.Alcoólicos Anônimos, Capítulo 6, Entrando em Ação, página 103 da edição brasileira do cinqüentenário de AA, página 65 da edição portuguesa) publicado com autorização.Direitos autorais de Alcoholics Anonymous World Services, Inc.; publicado com permissão
7. • Raramente vimos alguém fracassar tendo seguido cuidadosamente nosso caminho. Os que não se recuperam são pessoas que não conseguem ou não querem se entregar por completo a este programa simples, em geral homens e mulheres que, por natureza, são incapazes de ser honestos consigo mesmos. Existem pessoas assim. Não é sua culpa, parecem ter nascido assim. São naturalmente incapazes de aceitar e desenvolver um modo de vida que requeira total honestidade. Suas chances são inferiores à média. Existem, também, as que sofrem de graves distúrbios mentais e emocionais, mas muitas delas se recuperam, se tiverem a capacidade de serem honestas.• Nossas histórias revelam, de uma forma geral, como costumávamos ser, o que aconteceu e como somos agora.
8. Esta promessa se realizará para todos os membros da irmandade que seguirem os Doze Passos sugeridos por Alcoólicos Anônimos. Isto porque com a prática de tais passos, sofreremos uma verdadeira transformação em nossas vidas, deixando para trás todo o sofrimento do alcoolismo ativo. Se formos laboriosos, honestos, humildes, receberemos a graça de conhecer e vivenciar a verdadeira liberdade e a verdadeira alegria.
9. Mesmo que quiséssemos, não poderíamos modificar o nosso passado alcoólico, pois não nos é dado o poder de modificá-lo. Não deveremos, porém, arrepender-nos, pois será dele que tiraremos todas as lições para vivenciarmos uma vida melhor, utilizando para tanto os instrumentos que nos é facilitado pela nossa irmandade. O passado servirá para nós como um ponto de referência para não errarmos mais. Henry Ford, certa vez observou com sabedoria que a experiência é o maior valor que a vida pode nos oferecer se estivermos dispostos a aproveitar a mesma para o nosso auto crescimento. Cresceremos graças à disposição de encarar e retificar nossos erros, convertendo-os em vantagens. Este passado doloroso poderá ser de infinita valia para outras famílias que ainda lutam com o problema do alcoolismo. Apeguemo-nos a este pensamento: “ Nas mãos de Deus, o passado escuro é a maior riqueza e a chave para a vida e alegria dos outros. Com ele, você poderá evitar-lhes a miséria e a morte”.
10. Encontramos muitas pessoas em A.A., que antes pensavam como nós, que humildade era sinônimo de fraqueza. Eles nos ajudaram a nos reduzir ao nosso verdadeiro tamanho. Com seu exemplo, nos mostraram que a humildade e o intelecto poderiam ser compatíveis, contanto que colocássemos a humildade em primeiro lugar. Quando um bêbado está com uma terrível ressaca, porque bebeu em excesso ontem, ele não pode viver bem hoje. Mas existe outro tipo de ressaca que todos nós experimentamos, bebendo ou não. É a ressaca emocional, resultado direto do acúmulo de emoções negativas de ontem e, às vezes, de hoje – raiva, medo, ciúme, inveja e outras coisas semelhantes. Se quisermos viver serenamente o hoje e o amanhã, sem dúvida precisaremos eliminar essas ressacas. Isso não quer dizer que precisemos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isso sim, uma admissão e correção dos erros cometidos agora. Só assim, conheceremos a Serenidade e atingiremos a PAZ.
11. • Todos nós sabemos que durante a nossa atividade alcoólica, decaímos bastante na escala moral, espiritual, social, financeira, familiar, etc. Contudo, atualmente, para nós, isso pouco importa, pois o que nos interessa atualmente é sabermos que a nossa experiência passada servirá para que outros não cometam os mesmos erros e consequentemente, não trilhem a mesma jornada de sofrimentos. Nossa descida na escada servirá como farol luminoso para que outros barcos não naufraguem na mesma noite de tempestade.
12. Todo alcoólico, pela própria natureza e progressão da doença, sente-se um inútil na família, no trabalho, quando ainda o tem, e na sociedade em que vive. Dele se apodera o sentimento da auto piedade tão conhecido de todos nós. Somos os incompreendidos, as vítimas, os parias da sociedade e honestamente acreditamos que somos injustiçados, pois nada fizemos para merecer este destino. Com o conhecimento e principalmente a prática criteriosa dos Doze Passos, com um destemido inventário moral, com a reparação dos erros cometidos, certamente deixaremos de ser inúteis e a auto piedade desaparecerá. Voltamos a ser úteis e integrados às nossas famílias, nossos trabalhos e na sociedade em que vivemos.
13. Egoísmo e egocentrismo. Todo alcoólico sofre este defeito de caráter. Achamos que essa é a causa de nossas dificuldades. Impulsionados por uma centena de formas de medo, auto-ilusão, interesse próprio e auto piedade, pisamos em nossos semelhantes e eles revidam. Aí descobrimos que nossas atitudes e decisões são baseadas no egocentrismo, daí o revide dessas pessoas. Geralmente somos ambiciosos, exigentes e indiferentes ao bem estar dos outros. Se quisermos alcançar a sobriedade e combater tal defeito de caráter, nossa própria recuperação e crescimento espiritual terão que vir em primeiro lugar. Entre nós, membros de A.A. existe ainda uma grande confusão a respeito de que é material e do que é espiritual. Tudo depende de uma questão de motivo. Se usarmos nossos bens materiais de forma egoísta, então estaremos sendo materialistas. Mas se usarmos para ajudar os outros, então o material ajuda o espiritual. Havendo discernimento quanto a tudo isso, deixaremos de lado o egoísmo e passaremos a dar a nossos atos a amplitude de atos altruístas, sempre visando o bem do próximo e conseqüentemente o bem comum.
14. • A.A. é mais que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisaremos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair e aqueles, a quem não foi dada a verdade podem perecer. Deveremos compartilhar a Fé reencontrada com outros. O que se pode dizer de muitos membros de A.A. que, por muitas razões, não podem constituir família? No inicio muitos deles se sentem sozinhos, magoados e abandonados, quando vêem tanta felicidade conjugal ao seu redor.Se não pode ter este tipo de felicidade, A.A. pode lhes oferecer satisfações igualmente válidas e duradouras. Basta tentar arduamente procurá- las.Cercados de tantos amigos A.As., os chamados “solitários” não se sentirão mais sós. Em companhia de outros homens e mulheres, podem se dedicar a inúmeros ideais, pessoas e projetos construtivos. Todos os dias vemos esses membros que ganharam interesses pelos seus semelhantes prestarem relevantes serviços e receberem, de volta grandes alegrias. À medida que progredimos espiritualmente e nos sentimos emocionalmente seguros passaremos a desenvolver o hábito de viver em sociedade ou fraternidade com todos os que nos cercam. Quando passarmos a dar de nós mesmos, sem esperar nada em troca, descobriremos que as pessoas serão atraídas para nós como nunca foram antes.
15. Com o nosso progresso advindo da prática criteriosa dos Doze PASSOS, sentiremos as mudanças acontecerem em nossas vidas como que por milagre. As atitudes negativas, ou defeitos de caráter que tanto nos caracterizaram no passado serão substituídos por atitudes positivas, revitalização de vida, prática de virtudes antes impensadas. Com relação ao nosso alcoolismo, se vier alguma tentação, dela nos afastaremos como se fosse uma chama ardente. Reagiremos com inteligência e constataremos que isto acontece automaticamente. Veremos que nossa atitude face ao álcool nos foi dada sem ter que pensar ou fazer qualquer esforço. Simplesmente, veio! Aí está o milagre. Não estamos lutando contra o álcool, nem evitando a tentação. Fomos colocados, seguros e protegidos, numa posição de neutralidade. O problema foi simplesmente resolvido.
16. No alcoolismo ativo nos embriagávamos para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Sem dúvida, o depressivo e o arrogante são personalidades que A.A. e o mundo possuem em abundância. Nós de A.A. vivemos num mundo caracterizado por medos destrutivos, como nunca houve na história. Em seu inventário praticado constantemente o alcoólico deverá tentar corrigir suas principais falhas humanas ou defeitos de caráter: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Aos poucos e com muita paciência, vai conseguindo êxito em sua empreitada. Cada vez mais perderemos o medo de gente, voltaremos a nos socializar; nossa vida financeira voltará a se organizar, como conseqüência de nossa mudança e de nosso progresso dentro da Irmandade. Ao sentirmos a força da espiritualidade apoderar-se de nós, ao desfrutar da paz de espírito, ao descobrir que poderíamos enfrentar a vida com êxito, ao ficar conscientes da presença de Deus, começamos a perder o medo do hoje, do amanhã e do futuro. Nascemos de novo.
17. Com a prática dos passos veremos que temos que dar continuidade ao inventário pessoal e corrigir novos erros por ventura cometidos. Entramos no mundo do Espírito. Nossa próxima função é crescer em compreensão e valor. Isto não acontece de um dia para outro. Deverá continuar para toda vida. Se os defeitos de caráter por ventura insistirem em voltar, pediremos imediatamente a Deus que os remova. Discutiremos tais problemas com outras pessoas e se causamos danos vamos repará-los na hora. Aí está o milagre. Não estaremos lutando contra nada, nem evitando a tentação, fomos colocados em uma posição de neutralidade, seguros e protegidos. Os problemas foram simplesmente removidos. Não existem para nós. Não estaremos nem orgulhosos, nem medrosos. Assim reagiremos enquanto nos mantivermos em boas condições espirituais. Contornaremos com intuição as situações que antes nos deixavam absortos e perplexos.
18. Descobriremos que temos uma prorrogação diária do nosso problema e esta prorrogação depende da manutenção de nossa condição espiritual. Cada dia é um dia em que devemos levar a visão da vontade de Deus a todas as nossas atividades. “Como posso servi-lo melhor? Sua vontade e não a minha seja feita”. Estes são os pensamentos que devem nos acompanhar constantemente. Podemos exercer nossa força de vontade nestes termos. O Décimo Primeiro Passo nos sugere a meditação e a oração. Homens melhores que nós as utilizaram constantemente. E funciona, sempre que tenhamos a atitude correta. Agindo assim, de repente, reconheceremos que Deus suprirá nossas deficiências e fará por nós aquilo que não podemos fazer sozinhos.
19. • Praticando conscientemente os Passos chegará à hora que teremos que transmitir a mensagem e praticarmos os princípios neles contidos em todas as nossas atividades. O prazer de viver será o nosso lema e a Ação será a palavra chave. Teremos que experimentar o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca.Teremos que levar nossa mensagem ao alcoólico ainda sofredor. Agindo assim estaremos contribuindo para que todas as promessas, aqui enunciadas, deixem de ser meras promessas e se transforme na mais concreta realidade. Concluímos dizendo que a chave para a concretização das 12 Promessas, é a prática ininterrupta dos 12 Passos. Estes realizam aquelas. • Fontes: – Livro Alcoólicos Anônimos – Livro Os Doze Passos e As Doze Tradições – Na opinião de Bill.

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COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – EPÍLOGO – UMA VEZ ALCOÓLATRA, SEMPRE ALCOÓLATRA

EPÍLOGO:

UMA VEZ ALCOÓLATRA,
SEMPRE ALCOÓLATRA

Um dos fatos espantosos sobre o alcoolismo é que, enquanto o alcoolismo pode ser detido e o alcoólatra pode levar uma vida feliz e útil, ele não pode esquecer-se de que é um alcoólatra e que precisa continuar sua atividade na Alcoólicos Anônimos pelo resto da vida. A história seguinte vai demonstrar isso melhor do que qualquer coisa que já encontrei.
Pouco depois que me tomei ativo na Alcoólicos Anônimos e comecei a fazer uso da palavra, falei em uma reunião da AA, em uma pequena cidade não muito longe de casa. Na audiência, notei um padre católico que tinha dito aos membros do grupo que estava lá como padre, na esperança de que pudesse ajudar católicos com problemas de bebida. Depois que falei, ele chamou-me até a cozinha e contou-me que não estava lá como padre, mas que tinha um sério problema de bebida. Daquele dia em diante, tornamo-nos amigos muito íntimos.
Fomos juntos a muitas reuniões. Ele parou de beber e se tomou um membro muito ativo na AA. Falamos juntos em muitas reuniões da AA, já que as pessoas ficavam ansiosas por ouvir um juiz de direito e um padre católico que eram alcoólatras confessos. Esse padre era membro de uma das maiores ordens religiosas do mundo. Galgou as classes de sua ordem religiosa e, vários anos atrás, foi chamado a Roma e feito provincial, nos Estados Unidos, daquela ordem religiosa. Cerca de um ano atrás, o Conselho de Alcoolismo nos Estados Unidos publicou os nomes de 22 ou 23 personalidades que eram alcoólatras confessos e que tinham parado de beber. Essa lista continha os nomes de senadores e congressistas, governadores, atores famosos, atletas famosos, e um dos nomes era o de meu amigo, padre Estêvão.
Poucos meses atrás, minha esposa e eu celebramos nossas bodas de ouro. Decidimos dar uma festa e convidar todos os meus velhos e íntimos amigos. Um dos convites que mandei foi para meu querido amigo padre Estêvão. Enquanto minha esposa estava repassando a lista daqueles que viriam à festa, mencionou que padre Estêvão ainda não tinha confirmado sua presença. Eu disse: “Bem, o padre Estêvão é um homem muito ocupado. Ele voa por todos os Estados Unidos visitando os vários grupos da Ordem. Ele tem de ir ao Vaticano um par de vezes por ano. Talvez esteja em Roma. Pro­vavelmente não recebeu o convite. Mas o padre Estêvão estará aqui se recebeu o convite”.
Cerca de cinco dias antes da festa, quando cheguei do trabalho, minha esposa disse: “Bem, o padre Estêvão não virá à festa”. Eu exclamei: “Que pena!”. Ela perguntou: “Você sabe por que ele não vira à festa?”. “Não.” Ela disse: “Ele está bebendo”. “Eu não acredito nisso.” Ela disse: “Bem, aqui está a carta dele”.
Aqui está a carta que o padre Estêvão escreveu, acompanhada da carta que ele tinha enviado para cada um dos membros de sua Ordem. Aqui está, também, a carta que eu lhe escrevi.

29 de maio de 197–

Queridos Bill e Ellie,
Parabéns pelas bodas de ouro próximas! Minhas preces estarão com vocês e com todos que se reunirem nesse dia feliz – mas eu sinto muito, pois não estarei fisicamente presente.
Talvez o modo mais fácil de explicar minha ausência seja pedir-lhes que leiam o “anúncio” anexo que estou fazendo circular. Confio que ele dirá o suficiente para explicar que somente um obstáculo sério impede-me de estar por perto para compartilhar com vocês, com a família e com os amigos a alegria de seu aniversário de casamento.
Deixe-me assegurar-lhes que eu estou me beneficiando imensamente com este interregno em minha vida. O programa aqui procura satisfazer nossas necessidades em todos os setores da vida, e estou correspondendo diligentemente às oportunidades. Não sei, no momento, quanto tempo serei um “convidado” aqui mas, de qualquer maneira, provavelmente por mais algumas semanas. Sendo assim, peço para reprogramar uma visita minha e espero que nossos caminhos se cruzem, outra vez, em futuro próximo.
Exatamente, agora, estou no período neutro entre a conclusão de meu terceiro período como provincial e minha próxima atribuição. Planejo tirar uns poucos meses, no outono, para fazer algumas atualizações (Teologia, Sagrada Escritura, Práticas pastorais etc.) antes de começar a próxima fase de minha vida.
Portanto, não sei para onde serei finalmente escalado, mas espero que seja por perto, de modo que eu possa reunir-me outras vezes a algumas das amizades preciosas que tenho tido e deixado escapar durante os últimos anos, em virtude da pressão dos deveres oficiais. Estes estão afastados de mim, agora, e estou ansioso por desfrutar de algumas das coisas de que mais gosto – especialmente manter contato com velhos amigos.
Como você vai apreciar, Bill, uma das primeiras coisas que farei em meu retorno (depois de ver alguns membros da família) será uma ronda pelos grupos da AA, para deixar a turma saber que não desapareci da face da Terra! Entrarei, por exemplo, em contato com um grupo, dentro dos próximos dias, para deixá-los saber o que aconteceu em minha vida. Sei que você vai entender – e eu dou muito valor a isso.
Deus nos abençoe a todos.
Sincera e agradecidamente,
Padre Estêvão

* * *

20 de maio de 197–

Meus queridos confrades,

Como vocês verão, é muito difícil para mim escrever esta carta, mas sinto que devo esclarecer publicamente as razões de meu afastamento para repouso, sobre o qual vocês devem ter ouvido falar qualquer coisa. Se vocês conhecem o “Guest House” (Casa de Hóspedes) impresso no alto da página, conhecem o problema e o programa: trata-se de um centro para tratamento da doença do alcoolismo em padres e religiosos. Eu vim para cá, no dia 27 de abril.
O período de transição desde minha carta de intenção relativa ao cargo de provincial, em outubro de 197–, trouxe esperados problemas de ajustamento para mim, mesmo depois de meu período ter terminado, em princípios de abril. Eu estava, vejo agora, vulnerável e até enfraquecido. Para ajudar, cometi o engano de usar alguma medicação tranqüilizante, drogas que alteram o humor. Elas, em combinação com crescente quantidade de vinho durante a missa, até missas extras, reativaram meu alcoolismo, ainda que com consumo limitado. Eu sabia que estava em dificuldades e precisava de ajuda, temeroso de que as coisas ficassem piores e eu bebesse mais. Minha tolerância para qualquer álcool diminuiu através desses anos de sobriedade, como é característico nesta doença. Assim, vim diretamente para “Guest House”, para terapia. Este tem sido um tempo de reeducação, aconselhamento, descanso físico e exercício e, sobretudo, atividade espiritual, um tempo para tirar o álcool e a medicação do meu organismo, um tempo para meditar sobre como e por que mantê-los fora de minha vida. Senti que deveria “vir a público” com vocês, por meio desta carta, de forma que eu possa começar a nova fase de minha vida, sem o fardo de tentar esconder o que aconteceu, ou de ter outros tentando evitar a inevitável divulgação das “novidades”.
Certamente, agora, conheço muito melhor a insidiosa natureza desta doença. Reconheço que não utilizei os remédios disponíveis para mim, em meu programa da AA. Os outros remédios que procurei foram ineficazes.
Talvez a franca confissão de meu problema, nesta carta, e minha pronta aceitação de ajuda encorajem outros a procurar o auxílio necessário. Confio que minha experiência aguce a vigilância de outros que estejam enfrentando os mesmos perigos. Acima de tudo, rezo para que meu otimismo sobre a ajuda disponível contenha uma mensagem para todos nós.
Eu, na verdade, lamento a ansiedade que tenho causado para o padre provincial e seus consultores, mas conforto-me com a preocupação e a compreensão demonstradas por eles, pela minha família, pelas comunidades, por meus amigos da AA. Agradeçam a Deus comigo, porque agora tudo vai bem.
É bom ser um membro da Ordem em tempos bons – e ainda melhor, em tempos maus. Por favor, rezem por mim, assim como eu o faço por vocês. Mas não sintam pena de mim. Eu não tenho pena de mim. Sinto­me somente grato porque sabia o suficiente para aceitar ajuda quando dela precisei. Possamos, todos nós, ser tão afortunados em tempo de necessidade.

Em Cristo,
Estêvão _____________

9 de junho de 197–

Querido padre Estêvão,
Muito obrigado por sua carta de congratulações, seus votos e suas preces, que nos foram enviados por ocasião de nossas bodas de ouro. Nossas bodas foram maravilhosas, com muitos amigos felizes rodeando-nos. Sentimos muito a sua falta.
Não sei por que qualquer um que seja, há algum tempo, membro da AA deva se sentir chocado ao ouvir que algum membro teve uma recaída. Nós todos sabemos que o maior dom que o homem possui é o dom da sobriedade. E todos sabemos que ele somente vem até nós, um dia de cada vez. Ainda assim, o ego do homem é tão grande que, não importa o quanto ele saiba, esse ego o destrói, por mais arduamente que o homem tente vencê-lo. Sempre há acontecimentos, na vida, que nos impedem temporariamente de reconhecer a vontade de Deus. Assim, por um momento, quando do recebimento de sua carta, eu fiquei chocado e triste. Momentos depois, dei graças a Deus. Muito rapidamente, eu me senti capaz de relembrar um agosto, anos atrás, quando aconteceu comigo a mesma coisa que aconteceu a você, depois de eu ter sido um membro ativo da Alcoólicos Anônimos por 36 meses.
Poucos dias depois que isso aconteceu, recebi de você uma carta maravilhosa, a qual tenho mantido na gaveta de minha escrivaninha, por todos estes anos. Eu a tiro de lá e a leio muitas vezes. Talvez você tenha esquecido o que me falou naquela ocasião, mas tirei uma cópia da mesma e a anexo, porque os conselhos que você me deu naquela época têm, por todos esses 19 anos, me mantido sóbrio. Mas, muito mais importante, me têm mantido feliz. Você afirmou: “Eu sinto que Deus vai usar essa experiência para torná-lo muito mais compreensivo do que você tem sido, mais gentil e útil aos outros. E, muito embora você tenha de pagar esse preço sozinho, todos nós vamos colher e ganhar com seu sacrifício. Talvez Deus tenha deixado você suportar essa cruz para que eu – ou alguém mais – não tenha de suportá-la”.
Eu sinto, e talvez isso ainda seja arrogância de minha parte, talvez não, que Deus criou-me para um propósito principal – ajudar alcoólatras sofredores, trazer a paz de Deus e o respeito próprio a outros que Deus criou e que têm o mesmo problema que você e eu temos. Uma vez que sinto que este é meu principal propósito na vida, tenho seguido uma regra de que nada mais, neste mundo, tem qualquer importância, desde que não interfira em meu principal propósito na vida. Isto tem tornado minha vida interessante, fascinante e, mais que tudo, válida. É por esta razão que, embora há muitos anos eu tenha perdido completamente a obsessão pela bebida, permaneço ativo na AA que, no fim das contas, foi o veículo para a grande mudança em minha vida. Compareço, no mínimo, a cinco reuniões da AA por semana, e agora que ouvi o que aconteceu a você, decidi aumentar esse número para seis.
Eu sinto que seu problema não começou quando você começou a tomar tranqüilizantes, a usar mais vinho na missa e a rezar mais missas. Seu problema começou quando você ficou tão absorvido pelo seu trabalho da Ordem, que isso adquiriu prioridade sobre o principal objetivo para o qual você foi criado – ajudar outros alcoólatras. E aí surgiu em você a necessidade de tomar tranqüilizantes e mais vinho, para lidar com a vida. Quanto mais tempo eu permaneço sóbrio, mais posso reconhecer o alcoolismo, como eu o compreendo, em tão grande número de pessoas, até mesmo em milhões de pessoas que nunca tomaram um só drinque em suas vidas. Vejo isso tão alastrado em integrantes de minha própria profissão. E vejo isso especialmente alastrado no sacerdócio e em outras pessoas cujas vidas são devotadas à religião. Estou escrevendo desta maneira com a esperança de que eu possa inspirar em você os mesmos pensamentos que tenho sobre mim mesmo, e de que você venha a reconhecer que o que aconteceu comigo é a mesma coisa que lhe aconteceu. E que você venha a descobrir, como me disse, que essa experiência irá torná-lo muito mais compreensivo do que você tem sido, mais gentil e útil aos outros; e, muito embora você tenha de pagar esse preço sozinho, todos nós vamos colher e ganhar com esse seu sacrifício.
Gostaria de ter a oportunidade de sentar-me com você, para compartilhar minhas experiências e meu amor, como fizemos tantos anos atrás, nos primeiros tempos da AA, quando viajávamos juntos para tantas reuniões, e falávamos juntos em tantas reuniões. Mas a idade e a distância tornam isso impossível. Contudo, gostaria de compartilhar um par de outras experiências que tive.
Há algum tempo, falei em uma convenção estadual da Alcoólicos Anônimos. Havia outro orador na convenção, que era um padre católico. Ele disse que, quando começou a freqüentar a AA, ele tinha um padrinho dedicado que ficava levando-o a reuniões, reuniões e mais reuniões. Uma noite, ele disse a seu padrinho: “Sabe, tenho de cortar essas idas a todas essas reuniões. Estou negligenciando meu trabalho na igreja. Estou despendendo mais tempo na AA do que em meu trabalho na igreja”. O padrinho virou-se para ele e disse: “Ouça, estúpido, você não tem um problema de religião. Você tem um problema de bebida”.
Algum tempo depois de ter tido minha segunda recaída, falei em uma reunião em Springfield, Massachusetts. Depois da palestra, um veterano da AA veio até mim e disse: “Juiz, você está ajudando um bocado de gente. Está mantendo um monte de gente sóbria. Um sujeito esperto como você, um sujeito inteligente como você, com toda essa instrução. Você continua tendo essas recaídas uma após a outra. Você está mantendo um bocado de nós afastado da mesma coisa”. “Mas agora”, ele continuou, “permita-me dar-lhe um conselho. Você já fez a sua parte. Daqui por diante, deixe algum outro ter as recaídas.”
Gostaria de transmitir-lhe um outro conselho que recebi, e espero que ele possa valer-lhe. Depois que voltei, outro veterano da AA me disse: “Quando você volta de uma recaída, à AA, não importa por quanto tempo você tenha estado na AA, não importa quanto você tenha estudado os Passos ou tentado praticá-los, você não volta para onde parou. Você volta como uma pessoa novinha em folha, que não sabe absolutamente nada sobre o programa da AA. É como chegar à solução errada para um problema de matemática. Você não volta para descobrir onde cometeu o engano. Você começa a resolver o problema todo de novo, desde o comecinho”. Acreditei nisso e tive de fazê-lo.
Quanto mais tempo permaneço na AA, quanto mais tempo eu vivo, mais posso ver em tudo a bondade da vontade de Deus. Como você sabe, seis anos atrás minha filha Maureen morreu. Não houve qualquer tragédia em minha vida que de algum modo se comparasse a essa. Ela deixou três filhos. Eu não conseguia ver a vontade de Deus nisso. Eu tinha levado milhares de pessoas à AA. Não havia ninguém que eu quisesse mais, que absorvesse o programa da AA, do que Maureen. Ela era tão jovem e tão bonita! Tinha um senso de humor tão maravilhoso! Eu queria que ela continuasse a levar a maravilhosa mensagem da AA para os alcoólatras que sofrem, por muito tempo depois que eu morresse. Centenas de amigos da AA vieram, naquele momento, para me ajudar. Contei a muitos deles por que eu me sentia tão mal. Um companheiro me disse: “Talvez, Bill, Deus tenha entendido que você estava melhor preparado do que ela para levar avante essa mensagem. Talvez a morte dela vá levar uma mensagem ainda maior do que a que você vinha transmitindo no passado”. Nada se tem provado mais verdadeiro do que essa afirmação. Acho que ela se aplica a você. Ninguém que eu tenha encontrado na AA está melhor preparado que você para levar a mensagem da AA aos alcoólatras que sofrem. Talvez Deus desejasse que você tivesse uma mensagem mais forte e melhor.
Na noite em que voltei de Oak Hill, após minha última (pelo menos espero que seja a última) recaída, Brandão levou-me para Springfield, para uma reunião da AA. Chegamos cedo e havia somente uma pessoa na cozinha: nosso amigo Artur. Ele estava fazendo café e eu entrei. Ele veio até mim e disse: “Olá, juiz, como vai?”. Eu respondi: “Artur, estou horrível”. Ele disse: “O que você quer dizer com ‘estou horrível’?”. Eu respondi: “Acabo de sair de um centro de tratamento para alcoólatras em Oak Hill”. Ele me abraçou e disse: “Bem, graças a Deus você está de volta”. Eu disse: “Sim, Artur, eu estou de volta, mas eu não vou conseguir. Eu sou um dos 25% dos alcoólatras sem esperança, que nunca vão absorver o programa. Eu vou morrer um bêbado desesperançado e sem valor”. Bem, como você sabe, padre Estêvão, Artur e eu não éramos em nada semelhantes. Artur era mais velho do que eu. Ele era americano e eu, irlandês. Ele era protestante e eu, católico. Ele era republicano e eu, democrata. Ele disse: “Bill, por favor, não nos deixe. Nós queremos você, nós precisamos de você, nós amamos você”.
Acredito firmemente que esta foi a mensagem de Deus todo-poderoso que me apontou o propósito de minha criação. Acredito firmemente que o alcoólatra que sofre me quer, precisa de mim e me ama. Embora você não possa ouvir minha voz como eu ouvi a de Artur, havia alguma coisa, em seu tom, que a fazia diferente de qualquer outra voz que eu já tinha ouvido. Apresso-me a transformar em palavras para você a mensagem que tenho e que acredito ter recebido de Deus: nós queremos você de fato, nós precisamos de você, nós amamos você.
Eu sei que Deus o abençoará.
Respeitosamente seu,
Bill

Segunda, 10 de agosto de 195–

Querido Bill,

Quando você receber esta, espero e rezo para que sua recente aflição se tenha tornado apenas uma desagradável lembrança. Você sabe que fiquei muito triste por não estar mais à mão para oferecer alguma ajuda que estivesse ao meu alcance. Mas sei que tão logo você a pediu, houve muita disponível. Mesmo que você tenha conseguido, em retorno, somente um pouco do auxílio que tem dado aos outros, estou certo de que foi mais do que suficiente! Como eu disse a Ellie, estarei preso aqui até depois da festa de Assunção, mas planejo voltar por um breve período, depois disso. E pode estar certo de que vou aparecer para vê-lo, tão logo eu esteja próximo daí.
Penso, Bill, que tenho uma idéia do pesar e do desânimo que preenchem seu coração e sua alma, neste momento. Claro que desconheço qualquer dos detalhes, mas não acho que sejam importantes, agora. Acho que o grande perigo, agora, é que isso se torne uma experiência de humilhação em vez de uma de humildade. Sei que você experimenta uma grande sensação de fracasso, mas eu veria isso da seguinte maneira: o fracasso esteve em não usufruir, de alguma forma, da graça de Deus. Seja o que for que tenha acontecido, você deve ter perdido a mão de Deus, quando buscou por ela. Mas o que é importante lembrar é que essa mão ainda está lá, esperando que você a ela se agarre! Uma das grandes verdades do consolo em nossa fé é que a graça de Deus é um infinito regato, uma fonte eterna e inesgotável de força para nós. Portanto, mesmo que você tenha perdido a oportunidade de se agarrar à graça, em sua dificuldade, há ainda mais do que o suficiente esperando por você. Apenas, atire-se em direção à misericórdia de Deus e comece a andar novamente.
Não estou minimizando o quão difícil tudo isso vai ser, Bill. Bem fundo em meu coração sinto que Deus vai usar essa experiência também para torná-lo muito mais compreensivo do que você tem sido, mais gentil e útil aos outros. E, muito embora você tenha de pagar esse preço sozinho, todos nós vamos colher e ganhar com seu sacrifício. Talvez Deus tenha deixado você suportar essa cruz para que eu – ou alguém mais – não tenha de suportá-la. Talvez ele a tenha dado a você porque sabia que você teria muito menos probabilidade de sucumbir ao peso dela do que o restante de nós. Minhas preces por você são ainda mais fervorosas, porque compreendo que essa é uma provação que Deus pode ter dado a você, em vez de a mim. Os caminhos dele são misteriosos e tudo que podemos fazer é nos abandonarmos em suas mãos.

Impresso na Gráfica de Edições Paulinas – 1984
Via Raposo Tavares, Km 19 – 05531 – SÃO PAULO

O autor desta obra só descobriu que era alcoólatra depois que foi declarado morto, num hospital, devido a uma convulsão alcoólica.
A partir de então, filiou-se à Alcoólicos Anônimos e encontrou a razão da vida e a verdade a respeito de si mesmo. Na sua convivência com todos os tipos de pessoas, nas palestras que proferiu e ouviu, na ajuda que deu e recebeu de outros alcoólatras, começou a compreender a verdade central do alcoolismo: o álcool está nas garrafas, mas o alcoolismo está nas pessoas. E soube que tinha um mundo para conquistar, o mais importante de todos os mundos: a conquista de si mesmo.

Conscientizar
ep
edições paulinas

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 20

20

Até este ponto, tenho tentado explicar por que me considero feliz por ser um alcoólatra. Compreendo que essa expressão é provavelmente enganosa, visto que eu não tomo um só drinque há mais de 18 anos. A maioria das pessoas iria presumir que não sou mais alcoólatra. Essa é justamente outra das noções falsas a respeito do assunto. Nada é mais verdadeiro, e nada é mais mal compreendido, do que: uma vez alcoólatra, sempre alcoólatra. Uma vez que um pepino se transforme em picles, ele nunca mais voltará a ser pepino de novo. Uma vez que o corpo humano perca a tolerância ao álcool, esta está perdida para sempre e não pode ser recuperada. Só que, por não beber mais, não sofro de todos os horrores e misérias, de todos os remorsos e as doenças que o álcool me causava.
Talvez, em vez de dizer que me considero feliz por ser um alcoólatra, eu devesse dizer que me considero feliz porque me tornei um alcoólatra. Se não me tivesse tornado alcoólatra, eu jamais, em nenhuma circunstância, teria conhecido a Alcoólicos Anônimos. Se nunca tivesse ido à Alcoólicos Anônimos, nunca teria aprendido a viver. Nunca teria usufruído de todos os benefícios que um ser humano pode receber de Deus. Deus todo-poderoso criou-me e criou todo ser humano que já existiu para conhecê-lo, amá-lo e ser feliz com ele. Não no futuro, mas aqui neste mundo, belo e maravilhoso, que ele também criou. E quando o viu, disse que ele era bom.
Essa alegria e essa felicidade com Deus são possíveis a todo ser humano, mas raras pessoas as alcançam. Elas não as alcançam pela mesma razão por que, durante os primeiros 50 anos de minha vida, eu não as alcancei. Deus fala conosco e nos ensina por intermédio de outros seres humanos. A maioria das pessoas vive em um mundo tão estreito, tão egoísta, tão arrogante, que elas não estão interessadas em ouvir Deus falar-lhes por intermédio dos outros que ele criou, nem têm a oportunidade de entrar em contato com homens e mulheres de todas as raças, credos e graus de educação, de cada uma das camadas da vida.
Enquanto me aproximava apenas de pessoas que tinham minha idade, meu grau de educação, minha raça e meu credo, eu vivia em um mundo muito estreito. Ouvia somente as experiências de homens e mulheres que vivem naquele mesmo mundo estreito. A expressão “a metade das pessoas do mundo não conhece como a outra metade vive” não é exata. Seria mais apropriado e mais exato dizer que 99% das pessoas não sabem como os outros 99% vivem. Porque fui forçado, contra minha vontade, a me tornar membro da Alcoólicos Anônimos, que é composto de homens de todas as posições sociais e de todos os credos, é que fui forçado a me aproximar deles. Eles compartilharam suas experiências, sua força, suas esperanças e seu amor comigo. Como resultado disso, encontrei todas as coisas que na vida valem a pena.
Quais são as coisas da vida que valem a pena, que hoje tenho e que não tinha, e nunca teria tido, se não fosse alcoólatra? Talvez a maior coisa que homens de todas as posições sociais me deram seja um coração agradecido. Gratidão é a cobertura de açúcar sobre o bolo da vida. Comparando a minha vida de hoje com a que tive antes de entrar para a AA, entendo que um homem pode ter tudo neste mundo, mas, se não tiver gratidão, não tem absolutamente nada. O coração e a mente transbordantes de gratidão obtêm um sentimento de felicidade e de alegria que é indescritível.
Tenho uma amiga que ascendeu socialmente. Ela fala com um sotaque afetado. Onde quer que vá jantar e o anfitrião ou garçom pergunte se ela desejaria algo mais, ela sempre diz: “Eu estou completamente satisfeita”. Essas palavras, eu penso, expressam tão bem quanto quaisquer outras o que acontece à pessoa quando ela está repleta de gratidão pelas bênçãos da vida. Quando uma pessoa termina sua refeição, se está completamente satisfeita, não deseja nada mais do que está na mesa. Quando o ser humano tem o coração e a mente transbordando de gratidão, ele não quer nem precisa de mais nada em todo este mundo.
Quando cheguei à AA, os membros mais antigos disseram-me que, desde que eu ficasse agradecido por minha sobriedade, eu nunca iria querer nem precisar de outro drinque. Como eu estava tão apavorado com o que um outro drinque iria me fazer, procurei, diariamente, ser grato pela sobriedade. Vagarosamente, gradualmente, muito vagarosamente, comecei a descobrir outros benefícios na gratidão, além de não querer um outro drinque. Quanto mais agradecido eu me tornava, menos precisava de qualquer outra coisa. Quanto menos preocupado eu ficava, quanto menos temia, mais contente ficava com a vida. Exatamente como o calor, o entusiasmo e o sentimento reconfortante que obtive com o primeiro drinque. Cada dia, luto mais e mais para obter o calor, o entusiasmo, a felicidade, a alegria que vêm de um coração agradecido.
Outra coisa que considero que vale a pena e que obtive somente porque era alcoólatra, unido, há anos, à irmandade da Alcoólicos Anônimos, é a alegria que vem da amizade. Quando cheguei à AA, disseram-me que uma de minhas grandes necessidades era a necessidade de amigos. Senti-me insultado quando os veteranos disseram-me que eu não tinha amigos. “Como?”, eu disse. “Tenho mais amigos que qualquer um em meu condado. Estou sendo eleito, de forma esmagadora, pelo partido democrático, no condado mais republicano do Estado.” Mas, hoje, eu sei que não tinha amigos verdadeiros. Não somente isso, mas sei que pouquíssimas pessoas, neste mundo, já experimentaram a alegria e o contentamento que vêm de uma amizade verdadeira. A maioria das pessoas é como eu era. Tem companheiros de botequim. Tem companheiros sociais. Tem companheiros de “buracos”, companheiros de golfe, companheiros de política, mas não tem amigos. Na AA, aprendi que um amigo é alguém que sabe tudo sobre você e ainda assim o ama.
Na sociedade em que vivemos, os homens se vangloriam e se jactam de seus bens. Eles ocultam suas deficiências. Temos vergonha de nossos defeitos de caráter. Temos vergonha de nossas falhas. Temos vergonha de nossos enganos. Na AA, aprendi que ter vergonha das próprias falhas e dos próprios defeitos de caráter é envergonhar-se de ser humano. Mas, em nossa sociedade, homens e mulheres são ensinados a ter vergonha de ser humanos. Assim, eles escondem de todas as pessoas – até mesmo de si próprias – suas falhas, seus defeitos de caráter, seus erros e seus enganos. Onde os escondemos? Onde os enterramos? Nós os escondemos e os enterramos profundamente dentro de nós mesmos. E lá eles se infeccionam e nos destroem, porque nunca os trazemos à tona, à luz do dia.
Quando vim à AA, pela primeira vez, fiquei surpreso ao ouvir homens e mulheres se levantarem em uma reunião pública e contar todos os seus defeitos de caráter e suas falhas, descrever seus ódios, medos, ciúmes, arrogância e egoísmo. Isso, eu disse, na época, eu nunca conseguiria fazer. Isso nunca vou fazer. Mas eu estava também surpreso diante de sua felicidade, paz de espírito, contentamento e pelo companheirismo que demonstravam uns para com os outros. Vagarosa e relutantemente, pouco a pouco, eu trouxe à tona, de dentro de mim mesmo, pedaço a pedaço, as falhas, os defeitos de caráter, os enganos, as omissões, os erros e o raciocínio distorcido que tinham arruinado minha vida. Trouxe tudo isso à tona vagarosamente, gradualmente, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, até que também comecei a ter a paz de espírito, a alegria, a felicidade que qualquer pessoa consegue alcançar, eliminando, trazendo à luz do sol de um mundo maravilhoso.
Hoje, desfruto do conforto, da felicidade e da alegria que vêm do fato de eu ter milhares de pessoas a quem posso chamar de amigos, porque essas pessoas sabem tudo sobre mim. Tenho contado a eles tudo sobre mim. Tenho compartilhado com eles minhas experiências, minha força, minha esperança e meu amor. E por isso eu sou muito grato.
Deixem-me, agora, relatar um dos maiores benefícios que eu jamais teria encontrado se nunca tivesse sido alcoólatra e, por isso, forçado a aderir à Alcoólicos Anônimos. É a coisa que me ajuda a conseguir o que Deus, quando me criou, pretendeu que eu conseguisse, ou seja, ser feliz aqui na Terra.
Discutindo o tema “Vá com calma” com meus amigos alcoólatras, finalmente fiquei convencido de que é absolutamente impossível ser feliz e estar com pressa ao mesmo tempo. Reavaliando minha vida, eu agora sei que a razão por que não era feliz: era por estar sempre com pressa. Se vocês meditarem sobre isso por algum tempo, vão ficar tão convencidos quanto estou de que pressa e felicidade não podem existir, no mesmo indivíduo, ao mesmo tempo. Exatamente como óleo e água não se misturam, exatamente como fé e medo não se misturam, também pressa e felicidade não se misturam. Não se pode, ao mesmo tempo, estar com pressa e completamente livre de tensão. Não se pode ser completamente feliz quando não se está completamente livre de tensão.
É a pressa que causa a impaciência, ou talvez seja a impaciência que causa a pressa. Não importa o que possa ser, quando estou impaciente, não me sinto feliz. Em toda a minha vida, até chegar à AA, eu tinha sido impaciente.
Quando estou com pressa para chegar a algum lugar ou para fazer alguma coisa, agora procuro perguntar a mim mesmo: “Quanto isto é importante?”. Quando faço uma honesta avaliação de mim mesmo, quando faço uma avaliação honesta do que estou fazendo, então percebo que não é, de modo algum, importante que faça aquela coisa com pressa, ou que chegue depressa aonde quer que esteja indo. Os americanos são gente com pressa. Não preciso demonstrar isso. Há uma história de um homem da cidade de Nova York que estava com um visitante da China. Eles entraram na estação do metrô, na rua Quatorze, para ir até a rua Quarenta e Dois. O nova-iorquino disse ao chinês: “Vamos esperar pelo expresso. No expresso economizam-se 4 minutos entre a rua Quatorze e a rua Quarenta e Dois”. Ao que o chinês observou: “E o que você fará com esses 4 minutos?”.
Quando estou com pressa para chegar a algum lugar ou para fazer alguma coisa, minha mente está ocupada com chegar lá ou fazer aquela coisa. A mente humana não pode ocupar-se de duas coisas ao mesmo tempo. Durante todo o tempo em que minha mente está ocupada em chegar ou fazer, perco a oportunidade de me concentrar em dádivas de Deus de que disponho e que me fazem feliz.
Fui criado em uma pequena comunidade na qual havia dois irmãos que eram meio estultos. Eram pintores e colocadores de papel de parede. Chamavam-se Manuel e Sílvio. Todos, na cidade, costumavam rir de Manuel e Sílvio. A expressão favorita deles era: “O que não fizermos hoje, faremos amanhã”.
Levei muitos anos para me recuperar da ofensa e do insulto que recebi dos veteranos da AA, quando lá apareci pela primeira vez, os quais estavam sempre me dizendo: “Não complique as coisas, estúpido”. Eu ficava realmente ofendido quando aqueles companheiros, sem muita educação, chamavam-me de estúpido – a mim, membro do Colégio Americano de Advogados de Júri, uma organização honorária de advogados cuja participação está limitada aos mil melhores advogados do mundo. Que coragem tiveram esses companheiros para me chamar de estúpido! Mas, agora, que sou feliz, agora que compreendo quão pouco importante é que eu faça as coisas ou que chegue lá, agora agradeço a Deus por saber que sou estúpido, porque estou realizando o que Deus me criou para realizar. É ser feliz aqui na Terra.
Porque eu sou alcoólatra, fui até a Alcoólicos Anônimos. A Alcoólicos Anônimos mudou minhas atitudes e meus objetivos. Parei de tentar conquistar amigos e influenciar pessoas. Estou concentrado em me tornar um amigo para mim mesmo. Sou a única pessoa no mundo com quem sempre estarei. É importante que eu me influencie. É muito mais fácil para mim influenciar­me do que influenciar qualquer outro. É muitíssimo mais importante para mim. É de enorme importância para minha vida espiritual – a única vida que leva a alguma coisa – que eu me familiarize comigo, que aprenda a gostar de mim e que aprenda a me amar. Porque é somente assim que posso seguir o mandamento que Cristo ensinou. Que eu ame meu semelhante como a mim mesmo.
Para eu gostar de mim e me amar, tenho de aceitar total responsabilidade por mim mesmo. Não posso mais culpar meus ancestrais irlandeses pelo meu beber. Não posso mais culpar meus pais, meus professores e minha igreja pelas minhas falhas e meus defeitos de caráter. Essas, hoje sei, são desculpas. Na exata medida em que alguém mais, ou alguma coisa, levar a culpa por todas as coisas que estão erradas comigo, essas coisas permanecerão erradas. “É assim que sou” não é desculpa para que eu não seja o que deveria ser ou o que, se tentar, posso ser.
Certo dia, recentemente, estava jantando em um restaurante, quando um antigo companheiro político entrou mancando e sendo guiado por sua esposa. Fui até sua mesa para conversar e perguntei-lhe como ia passando. Ele disse: “Bem, veja, Bill, nós estamos ficando velhos. Já duramos mais do que devíamos. Eu estou apenas esperando para morrer. Costumamos vir aqui, um par de vezes por ano, e isso é tudo que fazemos”.
Eu disse: “O que você faz o resto do tempo?”.
Ele disse: “Eu me sento em minha varanda e olho pela janela”. Desejei-lhe boa saúde e disse até logo. Mas, no caminho de volta para minha mesa, agradeci a Deus por ser alcoólatra.
Uma outra atitude mudou, graças a Deus. Nós somos ensinados, na sociedade na qual vivemos, que, quando alcançamos certa idade cronológica, é muito tarde para mudar. Nosso trabalho está feito. Deveríamos nos aposentar e esperar para morrer. Ouvimos isso tão freqüentemente que realmente acreditamos nisso. Mas isso não é verdade. Enquanto Deus nos deixar viver e respirar, podemos melhorar e crescer, em especial espiritualmente. Podemos nos tornar melhores e melhores, com o passar dos anos. Se eu não fosse alcoólatra, nunca teria sabido disso e, ou teria morrido muitos anos atrás, ou estaria sentado em minha varanda, olhando pela janela.
Por que agradeci a Deus por ser alcoólatra, no dia em que me afastei de meu companheiro no restaurante? Eu o fiz porque a AA me tem dado um novo objetivo na vida. No passado, eu tinha a mesma meta que meu amigo. Minha meta era economizar dinheiro, permanecer no mesmo trabalho, conseguir uma grande aposentadoria e o que pensava ser o mais alto objetivo que alguém poderia obter. Qual era ele? É a chamada segurança. Meu amigo encontrou a segurança e, quando a encontrou, descobriu que não tinha conseguido absolutamente nada. A segurança destrói o sabor da vida. Segurança é o fim da vida. Essa é a razão por que, quando os homens se aposentam, eles morrem. Conheço centenas de aposentados. Ainda não morreram fisicamente mas, até onde tenho sido capaz de observar, estão mortos espiritualmente. Por mim, preferia estar fisicamente morto do que estar morto espiritualmente e continuar vivendo.
Dr. Wayne W. Dyer, em seu formidável livro Your Erroneous Zones, diz: “Mas há um tipo diferente de segurança que vale a pena ser perseguido: é a segurança interior de confiar em si mesmo para lidar com qualquer coisa que possa nos atingir. Essa é a única segurança duradoura, a única segurança real. As coisas podem ser destruídas, a depressão pode levar seu dinheiro, sua casa pode ser retomada, mas você pode ser uma rocha de auto-estima. Você pode acreditar tanto em sua força interior que as coisas ou os outros serão vistos como um mero apêndice, agradável mas supérfluo, à sua vida”. E, então, ele acrescenta essas importantes palavras: “Segurança pode então ser redefinida como o conhecimento de que se pode lidar com tudo, inclusive com o não ter segurança”. Sem dúvida alguma, o maior presente que o pessoal da AA ofereceu-me foi um novo Deus. Um Deus como eu o concebo. Não como você o concebe, nem como qualquer outra pessoa no mundo o concebe, mas um Deus como eu o concebo. Este Deus é tão diferente do Deus para quem eu rezava e a quem adorava antes de entrar para a AA que não mais reconheço, de modo algum, o velho Deus como Deus. Eu sei hoje que o Deus que tinha quando entrei para a AA não era meu Deus. Era o Deus de alguma outra pessoa. Era o Deus sobre o qual me ensinaram. Jamais poderia entender o Deus que tinha sido incutido em minha mente por meus pais, pela Igreja e pelos doutores em Teologia e Filosofia com os quais tinha estudado.
O Deus que eu tinha quando cheguei à AA era um Deus punitivo. Ele premiava o bom. O mau, ele condenava à maldição eterna, no inferno. Ensinaram-me que devia amar a Deus, mas eu tinha medo de Deus. Vivia em constante pavor de Deus, porque esse mesmo Deus, sobre o qual me haviam ensinado, sabia que eu era mau e eu sabia que estava condenado ao inferno. Hoje sei que, exatamente como o medo e a fé não podem existir em nossa mente ao mesmo tempo, não podemos amar qualquer pessoa ou coisa da qual tenhamos medo.
A maioria das religiões, a maioria dos doutores em Filosofia, a maioria dos doutores em Teologia perdeu-se em sua interpretação de justiça. A maioria das pessoas é tão arrogante e egoísta que não pode imaginar qualquer forma de justiça que exceda ou que seja melhor do que a forma humana de justiça. Somente alguém que tenha sido parte da administração da justiça por muitos anos e então, pela graça de Deus, tenha sido forçado a compartilhar suas experiências, força e esperanças com aqueles que são vítimas da assim chamada justiça do homem, pode compreender quão injusta é a justiça do homem. A verdadeira justiça não pode ser distribuída nunca por alguém que não compreenda profundamente o objeto de sua justiça.
É triste o fato de que os homens, apesar de suas pretensões de inteligência, não entendam, na realidade, outros homens. Eles, de fato, não entendem a si mesmos. O homem não compreende o homem. Mas meu Deus o compreende. Meu Deus nunca criou um homem mau. Meu Deus somente criou homens e mulheres bons. Seres humanos não se tornam maus. Eles têm a aparência de serem maus porque ficam doentes. Ouvi um companheiro dizer, certa vez, na AA: “Deus não cria lixo. Homens doentes transformam perfeição em lixo”.
Nenhum homem com algum senso de justiça iria punir pessoas doentes. A civilização tem amadurecido até o ponto em que os homens não mais punem as pessoas pelas doenças que eles reconhecem. O problema é que o homem ainda não amadureceu até o ponto de reconhecer a mais devastadora de todas as doenças, doença mental e doença espiritual, porque em nossa civilização moderna os chamados homens bons são segregados dos chamados homens maus. Os chamados homens bons nunca são capazes de observar, reconhecer ou admitir a doença dos chamados homens maus. Como fui obrigado, pelo alcoolismo, a aproximar-me dos chamados homens maus do mundo, tive a oportunidade que é dada a uns poucos de compreender em profundidade quão verdadeiras foram as palavras do poeta quando escreveu: “Em homens que homens proclamam maus/ Eu ainda encontro tanta bondade,/ Em homens que homens proclamam divinos/ Eu encontro tanto pecado e defeito,/ Que não ouso traçar uma linha divisória/ Entre os dois, quando Deus não o fez”.
Com esse novo tipo de Deus que a participação na AA propiciou-me, posso viver sem medo, em paz, conforto e felicidade e com amor e fé no Deus que conhece, que compreende e que me tem conhecido e compreendido desde o dia em que nasci. Meu Deus jamais me castigou. Meu Deus nunca puniu qualquer pessoa que ele criou. Em virtude de meu entendimento errôneo de Deus, em virtude de meu entendimento errôneo dos seres humanos, em virtude de meu entendimento errôneo de mim, eu me confinei, sozinho, dentro de uma cela cercada por paredes que eu mesmo tinha construído. As paredes do medo, do ódio, do remorso, do ressentimento. Ao se fecharem essas paredes sobre mim, em desespero e sem esperanças eu implorei pelo socorro de Deus.
Foi o pessoal da AA que abriu um buraco na parede, estendeu suas mãos e me ajudou a vir para um mundo belo e maravilhoso. Meu Deus, o Deus que os homens e mulheres da AA me deram, não é um Deus punitivo. Não é um Deus de ira. Não é um Deus de vingança. Meu Deus é a essência do amor mais puro. Meu Deus implantou em mim e em vocês, quando nascemos, a centelha do amor divino, e nada do que eu faça enquanto estiver mental ou espiritualmente doente pode jamais extingui-la.
Ainda mais do que meus amigos da AA, que sabem tudo sobre mim e ainda assim me amam, meu Deus sabe tudo sobre mim e sei que ele, apesar disso, me ama. Com esse novo Deus que conheço, amo e compreendo, eu posso caminhar pela vida completamente sem medo. Não tenho de implorar para que ele atenda a meus desejos ou a minhas necessidades. Meu amigo vai me satisfazer em toda necessidade, como um puro e querido amigo. Esse meu Deus é capaz de me atender em cada coisa que eu precise para ser feliz, para atingir o tipo de felicidade que ele, quando me criou, reservou para mim. Não tenho de pedir a Deus para me perdoar pelos pecados que cometi quando estava doente. Meu Deus sabia que eu estava doente. Pelo que sei, meu Deus pode me ter feito doente para me fazer feliz. Com esse tipo de Deus eu posso caminhar pela vida, completamente sem medo. Sem medo de qualquer acontecimento da vida, porque meu Deus tem o completo controle de todos os acontecimentos da vida. Meu Deus nunca permite que algo de ruim aconteça.
Meu Deus não julgou apropriado dar-me sabedoria para distinguir os bons dos maus acontecimentos. Meu Deus não me deu sabedoria para entender por que acontecem coisas que não posso compreender. Mas meu Deus me deu fé para aceitá-las como elas acontecem. Eu sei hoje que não tenho capacidade ou sabedoria para julgar os acontecimentos da vida, quando eles acontecem, porque meu julgamento é o julgamento dos homens e não o julgamento de Deus. Mas meu Deus me abençoou por me ter permitido viver em dois mundos. Em meu mundo velho, eu usava minha mente humana para julgar acontecimentos, e todos os meus julgamentos, ou praticamente todos eles, foram errados. Deste mundo novo no qual vivo, posso relembrar o mundo velho no qual vivia e vejo, agora, que cada coisa que me aconteceu, aconteceu com o objetivo de me levar, contra a vontade, para o outro mundo. Viver neste mundo novo, com este Deus novo, é uma alegria, porque é um mundo sem medo. É um mundo de fé – fé não somente em Deus, mas fé em mim mesmo e fé em cada pessoa deste mundo.
Com esse tipo de fé que me foi dada pelo pessoal da Alcoólicos Anônimos, perdi o medo que aflige quase toda pessoa, neste mundo, o medo da morte. Não sei o que acontece com o homem depois da morte, da mesma forma que não sei o que vai me acontecer, na Terra, amanhã, mas sei que a morte é criação de Deus, tanto quanto o nascimento, e meu Deus deu-me fé para saber, pelos milagres que tenho presenciado na AA, que nada que Deus faz é ruim e nada que Deus cria é destrutivo ou passível de ser destruído. Portanto, minha fé neste Deus querido assegura-me que, pela eternidade, serei parte desse Deus querido.
Sei perfeitamente que não há muita gente no mundo que possa aceitar esta filosofia de vida. Estou plenamente consciente de que o que eu penso sobre meu Deus contradiz os ensinamentos que a maioria dos homens por todo o mundo tem aceito. Sei que há muitos que, se terminarem este livro, vão dizer, ao modo cristão: “Pai, perdoa-lhe porque ele não sabe o que está dizendo”. Não espero que muitas pessoas aceitem minhas idéias sobre este assunto. Tudo o que sei é que estas idéias trouxeram-me felicidade, prazer, contentamento e alegria como poucos homens já alcançaram. Por isso, toda noite agradeço a Deus por ser um alcoólatra.
Porque sou um alcoólatra, libertei-me da dor, da impaciência, da frustração que resultam de sermos escravos do tempo. Quando cheguei à AA, os companheiros mais antigos disseram-me que eu não tinha de parar de beber para sempre. Tudo o que tinha de fazer era permanecer, com a ajuda de Deus, longe de um drinque por um único dia. Um deles sugeriu-me o seguinte: “Tudo o que você tem de fazer é não beber agora”. Por mais estranho que possa parecer, isso tem funcionado por muitos anos. O que é importante, portanto, é que não estou bebendo agora. Ao praticar isso por muitos anos, aprendi uma coisa de fundamental importância sobre a vida. É que o único tempo importante em minha vida ou em sua vida é o agora.
Meu Deus não conhece tempo. Meu Deus sempre foi e sempre será. O homem inventou o tempo. O homem inventou o tempo como uma conveniência de escrituração comercial. E, desde que o inventou, a maioria dos homens tem sido escrava e estado presa a ele. Quando o homem inventou esse catálogo fictício chamado tempo, colocou nele três colunas. Uma das colunas fictícias no livro do tempo é rotulada de “ontem”. A outra coluna fictícia é chamada de “amanhã”. A coluna da realidade é agora.
Sob a coluna de “ontem”, o homem registra todos os acontecimentos e circunstâncias do passado. Essa coluna é preenchida com remorso, arrependimento, tristezas, enganos, erros. Mas tudo o que lá está mencionado já se foi. Foi-se para sempre. Nunca poderá ser mudado. Todas as nossas lágrimas, todo o nosso remorso, todos os nossos arrependimentos, não podem apagar uma única linha desse registro. A maioria das pessoas sabe disso, mas não pode esquecer. E por não poder esquecer, o conteúdo dessa coluna fictícia ofusca a coluna da realidade chamada “hoje”.
A outra coluna fictícia é chamada “amanhã”. Nela registramos todas as nossas expectativas, esperanças e sonhos. Mas o amanhã nunca chega. Tudo o que temos é o hoje. Tudo o que temos é o agora. Todo o tempo precioso do agora, que despendemos ao nos concentrarmos sobre as outras duas colunas, destrói a coluna da realidade que é chamada de “agora”.
A Alcoólicos Anônimos ensinou-me a me concentrar no agora. Eu sei que é verdade o que Abraham Lincoln disse: “Todo homem é precisamente tão feliz quanto se decide a sê-lo”. Como todo ser humano que Deus já criou com seu desejo de felicidade, eu quero ser feliz. Se quiser ser feliz, tenho de ser feliz agora e me determino, tanto quanto “não esqueço as algemas do tempo”, a ser feliz. Não há nada mais verdadeiro em todo o mundo do que as palavras que proclamam: “Não há alegria ou tristeza, mas o pensamento cria uma ou outra”. Se quiser ser feliz, e eu quero, então tenho de ser feliz agora. E assim me concentro, agora, em pensamentos felizes.
A Alcoólicos Anônimos deu-me um outro grande presente. É o presente que os homens têm procurado através dos séculos. Durante séculos, o homem tem procurado a fonte da juventude. Os homens têm procurado a fonte da juventude por anos, pois têm sido levados, enganosamente, a pensar que os dias mais felizes de nossa vida estão na juventude. Eles interpretaram erroneamente a expressão de Cristo de que venham a ele as criancinhas porque delas é o reino dos céus. Cristo estava falando do espírito do homem. O espírito do homem não envelhece. O homem espiritual torna-se mais jovem a cada tique-taque do relógio. Os homens despendem grandes esforços em acrescentar anos à sua vida e negligenciam a coisa mais importante, que é acrescentar vida a seus anos.
Diferentemente da maioria das pessoas, não tenho o menor medo da velhice. Não penso em me aposentar, uma vez que todo dia, desde que cheguei à AA com 50 anos de idade, a cada tique-taque do relógio, minha vida espiritual está ficando cada vez melhor. Por que deveria eu interromper esse grande processo que Deus me concedeu?
Conhecendo a mim mesmo como hoje me conheço, por causa de minha associação com outros alcoólatras, sei que, por toda a minha vida, eu desejei estar entre os jovens de coração. Mas nunca estive até que cheguei à AA. E então Deus me empurrou para dentro da AA. Quando vim à AA pela primeira vez, a associação era composta principalmente por homens idosos. Pelo fato de o alcoolismo ter sido cada vez melhor compreendido através dos anos, hoje a participação na AA está se tornando mais e mais jovem. Rapazes estão vindo para a AA e eu estou me associando a esses rapazes. Saio, quase toda noite da semana, com o carro cheio de jovens. Algumas vezes, a idade cronológica de todos os ocupantes do carro juntos é menor que a minha. Mas, em espírito, somos todos da mesma idade e, o que é importante, somos todos exatamente iguais e somos naquele momento, agora, muito felizes.
Espero não ter dado a meus leitores uma impressão errada. Posso facilmente ver como, ao ler alguns dos parágrafos deste último capítulo, alguém poderia chegar à conclusão de que esse sujeito ou é um grande contador de vantagens ou é um louco. Ele está sempre dizendo que é feliz, que está eternamente em estado de euforia, que ele nunca tem qualquer medo, preocupação, remorso ou arrependimento.
Evidentemente, isso não é verdade. Não faço tal afirmação. Não estou sempre em estado de euforia. Eu tenho preocupações, tenho medos, tenho arrependimentos, porque sou humano e os seres humanos os têm. Cometo enganos, ainda tenho defeitos de caráter nos quais estou trabalhando. Eu sempre apresentarei falhas. Sempre apresentarei defeitos de caráter enquanto for um ser humano.
Meu Deus poderia ter criado um ser humano que fosse perfeito, que não tivesse defeitos de caráter, que não tivesse deficiências e que não cometesse um só engano. Meu Deus poderia ter criado um ser humano que não precisasse relembrar seus erros e enganos nem sentir qualquer remorso. Mas ele preferiu não fazê-lo. Ele escolheu dar ao homem uma vontade livre e, quando o fez, ele compartilhou com sua própria divindade a glória da realização.
Como todo membro da AA, não reivindico perfeição espiritual. Nós reivindicamos apenas o progresso espiritual. Tudo o que reivindico é que estou no caminho certo.
Durante os primeiros 50 anos de minha vida, viajei ao longo do caminho errado. Eu estava perdido e só e em todo tipo de dificuldade. E então um outro ser humano, um membro da AA, mostrou-me que eu estava no caminho errado e apontou-me o caminho certo. Não há muita diferença entre o caminho errado e o caminho certo. Nenhum caminho é fácil. Ambos os caminhos têm colinas, montanhas e vales. Ambos têm buracos. Ambos têm desvios que saem da estrada principal – e é fácil se perder e bem difícil encontrar o caminho de volta –, mas há uma grande diferença entre os dois caminhos.
O caminho errado, pelo qual viajei durante 50 anos, era um caminho solitário e desolado. Eu viajei por todo ele completamente só. O caminho certo é cheio de pessoas que por anos têm viajado através dele. Elas conhecem os buracos. Conhecem as colinas, as montanhas e os atalhos. Formam uma multidão fraternal de pessoas nessa estrada, todas ansiosas por se ajudar mutuamente, de tal modo que quando caio, quando desanimo, quando tomo um atalho e me perco, elas estão lá para me devolver ao caminho certo. Elas estão lá para me animar, para me encorajar e para me ajudar.
Vocês devem lembrar-se de um capítulo anterior em que o psiquiatra disse que eu era como Napoleão, que não tinha mundos para conquistar, que deveria ter um “hobby”. O pessoal da AA disse-me que eu tinha, sim, um mundo para conquistar. O mais difícil de todos os mundos para conquistar. Tinha o mundo de mim mesmo para conquistar. Alguém disse certa vez: “Aquele que conquista a si mesmo é maior que aquele que conquista um país”. Nisso, hoje, eu acredito de todo coração. Hoje, tenho um objetivo na vida. Hoje, tenho uma meta na vida. Essa meta é fazer de mim um homem melhor e descobri que o modo de fazer isso é ajudando os outros a se tornarem homens melhores.
Encontrei um “hobby”. E acho que é o “hobby” mais interessante e mais fascinante que alguém possa ter. Eu gosto de plantar sementes. Não sementes de vegetais ou sementes de flores. Gosto de plantar as sementes do programa da AA. Assim como aconteceu com o plantador de sementes da Bíblia, nem todas as sementes que planto caem em um solo fértil. Algumas caem sobre rochas, outras caem entre ervas daninhas, são sufocadas e morrem. Mas, de vez em quando, algumas das sementes que planto caem no coração de um homem ou mulher que tem vontade de parar de beber. E eu gosto de observar essas sementes crescerem. Gosto de ver a cor vermelha desaparecer de seus rostos e olhos. Gosto de ver suas mãos pararem de tremer. Gosto de ver a expressão de tristeza e solidão desaparecer de suas faces. A primeira vez que eles vêm até mim e me dizem o quanto estão tentando ajudar outro ser humano, eu sei que tenho outro caminhante no caminho da vida.
Uma pequena parte do meu “hobby” tem sido escrever este livro. Se apenas cem cópias forem impressas, se somente uma pessoa ler este livro e decidir viajar comigo ao longo deste caminho, terei – ainda que de forma bem modesta – oferecido minha retribuição a meu Deus por todas as bênçãos que ele tem derramado sobre mim e sobre os meus. E terei, uma vez mais, certeza de que a oração que eu rezava quando criança, de que poderia algum dia tornar-me um instrumento da paz de Deus, terá sido atendida.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 19

19

Se eu não fosse um alcoólatra, nunca teria ido à Alcoólicos Anônimos. E, se eu nunca tivesse aderido à Alcoólicos Anônimos, nunca teria experimentado um dos maiores benefícios de que dispomos por sermos seres humanos. É a capacidade de rir, especialmente a capacidade de rir de si mesmo. Quando um alcoólatra, um alcoólatra na ativa, está no estado de torpor em que o álcool o coloca, ele pode rir. É o riso que aparece porque ele está naquele torpor e porque não compreende quão estúpido ele é. É uma situação completamente diferente da de quando um alcoólatra fica sóbrio, tem a mente clara, relembra a sua conduta, compreende quão estúpido foi o que fez e, ainda assim, é capaz de rir, porque agora ele não está mais se comportando estupidamente. É exatamente a condição que os tranqüilizantes produzem.
A melhor história que conheço, a qual descreve o que acontece quando se tomam tranqüilizantes, é a história da pessoa que foi se consultar com um médico. Sua queixa era de que ela molhava a cama à noite. O médico lhe disse que esse problema era causado por seus nervos, e que seria possível ajudá-lo receitando-lhe Librium. Quando o paciente perguntou-lhe o que era Librium, o médico disse que era um tranqüilizante suave. Em meus anos na AA, tenho ouvido falar de muitas pessoas que morreram por dose excessiva de tranqüilizante suave. O médico assinou a receita para o tranqüilizante. Então, não viu mais o paciente por muitos meses. Um dia, ele o encontrou na rua. Ele disse: “Olá, José, como está passando?”.
José respondeu: “Oh, muito bem, doutor. Perfeitamente bem”.
O médico perguntou: “Bom, isso é bom. Você parou de molhar a cama?”.
“Oh, não”, disse José, “eu ainda molho a cama, mas agora não me incomodo mais com isso”.
Muitas coisas aconteceram durante o tempo em que eu bebia; coisas tão estúpidas que agora, com a mente clara, posso lembrar-me delas e ainda rir de minha estupidez.
Uma noite, bem tarde, eu estava seguindo as ordens de meu médico. Como a maioria dos alcoólatras, eu tinha ido a muitos médicos. Esse médico específico era o meu favorito porque me havia dito o que eu queria ouvir. Que eu não era alcoólatra. É totalmente óbvio para mim, hoje, por que tantos médicos dizem aos alcoólatras que eles não são alcoólatras. Segue-se, como uma questão de bom raciocínio, que, quando o hábito de beber do médico, o padrão de beber do médico é o mesmo que o do paciente, o paciente não vai conseguir um diagnóstico muito bom.
As queixas que apresentei a esse médico foram as mesmas queixas de todo alcoólatra. Que eu andava muito nervoso, muito emotivo. Que eu não conseguia dormir a noite. Ele garantiu-me que eu não era alcoólatra, porque conseguia parar de beber. Ele me disse que, se eu fosse um alcoólatra, jamais seria capaz de parar de beber. Claro que sei, hoje, que isso é o maior absurdo que alguém já disse, porque um alcoólatra ativo, que bebe excessivamente, tem de parar de beber por certos períodos ou não fica vivo.
O médico disse-me que meu estado provinha do fato de eu me dedicar a um trabalho muito difícil. Sendo juiz de direito, em uma das mais importantes cortes criminais do Estado, e juiz da Vara de Família, realizava um trabalho emocionalmente muito cansativo. Ele disse: “Você tem de mandar pessoas para a prisão, tem de afastar crianças de seus pais e, sem dúvida, precisa de alguma coisa para dormir à noite. Porque quando você vai trabalhar pela manhã, precisa ter a cabeça clara”.
Ele continuou: “Eu poderia receitar pílulas para dormir, mas elas viciam”. (Como se o álcool não viciasse!) “Sugiro que, antes de ir para cama, à noite, você tome um par de drinques bem fortes. Deguste-os e não os tome de um gole só. Beberique-os cerca de uma hora antes de ir para a cama e assim você vai ficar muito cansado e vai dormir. Você vai ter uma boa noite de sono e vai estar com a cabeça clara, pela manhã.” Eis aqui, eu pensei, um médico fantástico, maravilhoso mesmo.
Claro que percebi que o médico realmente não tinha a mínima idéia de quão tenso e quão desgastante era meu trabalho. Se ele tivesse a mais leve idéia de quanto meu trabalho afetava meus nervos e emoções, ele teria receitado uma dose de álcool muito maior do que dois drinques fortes, antes de eu ir para cama. Assim, no tocante à quantidade do remédio que deveria tomar, tornei-me meu próprio médico.
Eu estava seguindo o conselho médico, com minha própria quantidade, por algum tempo, e o tinha testado até que descobri que, para sentir sono, a quantidade de que eu precisava ficava entre meio litro e um litro de uísque. Eu também tinha descoberto que, muito freqüentemente, esse sono vinha muito repentinamente e eu desmaiava antes de subir as escadas e ir para cama. Portanto, adotei um plano segundo o qual, depois do terceiro ou quarto drinque, eu começava a me despir, de modo que estaria preparado em caso de cair no chão da sala de visitas e teria, pelo menos, despido a maior parte de minhas roupas.
Nessa noite, eu tinha tirado praticamente toda a minha roupa, exceto minhas calças, quando a campainha começou tocar. Ela ficou tocando e minha esposa veio até o alto da escada e disse: “Bill, você me faria o favor de atender à porta? Alguém deve estar em terrível dificuldade”. Fui até a porta e lá encontrei quatro pessoas que disseram ser de Massachusetts e que desejavam casar-se. Compreendi que eu não estava nem apropriadamente vestido, nem apropriadamente sóbrio para executar uma cerimônia de casamento. Portanto, tentei livrar-me deles. Mas eles colocaram-me em uma situação realmente incômoda e eu não estava em condições de agüentar uma situação realmente incômoda. Assim, eu disse: “Entrem”. Consegui, da melhor maneira que pude, chegar até uma cadeira sem cambalear e imediatamente sentei-me e os convidei a fazer o mesmo.
Agora, que tinha concordado em executar a cerimônia, eu tinha um grande problema. É o mesmo problema que todo alcoólatra tem quando está em estado de embriaguez. Eu não ousaria deixar aquelas pessoas, as quais nunca tinha visto antes e provavelmente nunca mais iria ver, saberem que eu estivera bebendo. O alcoólatra ativo tem uma personalidade muito estranha. Não importa que ele saiba que está embriagado. Não importa que ele saiba que o álcool o está matando, contanto que mais ninguém o saiba. Assim, com o objetivo de me proteger, eu usei a habilidade que todo alcoólatra tem – a de representar. Todos os alcoólatras são grandes atores. Eles têm de ser grandes atores para evitar que os outros saibam que eles são alcoólatras.
Portanto, enchi-me de um ar judicial e, com grande dignidade, olhei para eles e disse: “Vocês têm a licença?”. Eles apresentaram-me um pedaço de papel. Eu não estava com óculos e, mesmo se estivesse, no estado de embriaguez em que me encontrava naquela noite, eu não teria sido capaz de ler. Poderia tranqüilamente ter sido um pedaço de papel higiênico. Com grande dignidade e solenidade, dei a entender que examinara o papel de ponta a ponta. Então, com uma voz profundamente judicial, eu disse: “Tudo aqui parece estar em perfeita ordem”.
Ora, eu sabia que, se começasse a procurar meus sapatos, meias, gravata e paletó, aquele pessoal seria capaz de notar que eu estava embriagado. E eu não estava certo de que, mesmo que começasse a procurá-los, iria encontrá-los. Assim, teria de usar minha inteligência para resolver aquele problema. Examinei as quatro pessoas e perguntei: “Quais de vocês desejam se unir pelos laços do matrimônio?”. Tendo descoberto os dois que eu iria casar, instruí-os a puxar um par de cadeiras para perto de mim. Nós iríamos ter um casamento sentados.
Depois que eles estavam sentados diante de mim, eu disse, austeramente: “Tirem seus sapatos e meias”. Eles me olharam com surpresa e perguntaram: “Por que temos de tirar nossos sapatos e meias?”. Ao que eu respondi, na mais austera voz que podia exibir: “Vocês não podem casar-se neste Estado usando sapatos e meias”. E eles responderam: “Oh, nós não sabíamos disso”. E ambos começaram imediatamente a tirar seus sapatos e meias. Depois que eu lhes fiz umas poucas perguntas, pronunciei-os marido e mulher, disse-lhes para colocar seus sapatos e meias e informei-os de que estavam casados. Desejei-lhes boa sorte e eles foram embora de minha casa.
Se qualquer pessoa me tivesse dito, depois que eles saíram de minha casa, que eu era impotente perante o álcool e que minha vida se tornara incontrolável, eu teria me sentido altamente insultado. Porque tenho, como vocês vêem, a habilidade que todo alcoólatra tem de racionalizar, e eu estava muito orgulhoso de mim mesmo, porque tinha sido capaz de – com a grande habilidade que eu tinha – manejar as coisas em estado de embriaguez.
Eu costumo falar em muitas ocasiões, em reuniões da AA, em Massachusetts. Desde que uma das coisas que aprendemos na AA é corrigir o mal que causamos, eu queria corrigir a descuidada cerimônia de casamento que tinha realizado enquanto embriagado, já que, tenho certeza, os quatro voltaram para Massachusetts e devem ter perguntado a muita gente: “Você sabia que não se pode casar naquele Estado calçando sapatos e meias?”.
Em uma dessas ocasiões, quando estava falando em Massachusetts, lá se encontrava uma senhora de Boston. Ela, uma excelente oradora, falou sobre sua juventude. Falou de todas as bebedeiras, cantos, danças, farras e festas de que tinha participado. Então disse: “E, com tudo isso, ainda sou uma solteirona”. Depois que ela falou, contei minha experiência de casar umas pessoas de Massachusetts sem sapatos e meias, com o objetivo de desagravar o pessoal do meu Estado, por ter criado a impressão de que nós temos costumes um tanto esquisitos.
Então, comentei o maravilhoso depoimento que a senhora de Massachusetts havia feito. Enquanto falava sobre isso, eu disse: “E sempre ouvimos coisas novas e maravilhosas na AA. Alguma coisa nova e alguma coisa diferente. Mesmo esta noite”. E prossegui: “Não posso entender como, com todas essas festas, farras e diversões de que minha amiga participou quando jovem, não posso entender como ela ficou solteirona”. Diante disso, ela pulou de sua cadeira, arrancou o microfone de minhas mãos e disse: “É porque eu sempre me recusei a tirar os sapatos e as meias!”.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 18

18

Provavelmente, a razão mais importante para que me considere feliz por ser alcoólatra é que, por intermédio de minha filiação à AA, encontrei um Deus em quem tenho uma fé implícita. Sempre acreditei em Deus e sempre pensei que crença e fé em Deus fossem idênticas. Mas na AA descobri que há uma enorme diferença entre acreditar em Deus e ter fé em Deus. Fé em Deus e crença em Deus são duas coisas distintas, tão diferentes como o dia e a noite. Talvez possa explicar isso dizendo que eu sempre acreditei que Richard Nixon era presidente dos Estados Unidos e tinha os mais vastos poderes, mas certamente nunca tive fé nele. Eu não podia confiar implicitamente nele.
O maior presente que a Alcoólicos Anônimos me deu foi ensinar-me a acreditar e a entender que eu poderia entregar minha vontade e minha vida a Deus, como eu o entendia. Na AA encontrei um Deus que eu podia entender. Todos os milagres que presenciei na AA, finalmente vim a entender, tinham ocorrido em virtude da amabilidade, da bondade e do amor de Deus por todos aqueles que ele criou.
Meus pais ensinaram-me que Deus premiava o bom e punia o mau. Já que a conduta de minha vida não tinha sido boa, eu não estava habilitado a receber recompensas; assim, falsamente acreditava que tudo o que me havia acontecido tinha sido a mim infligido por Deus, que estaria punindo-me pela minha conduta e por minhas ações. Tive de aprender, por anos de associação com homens que todos condenavam como maus, que todas as coisas ruins que lhes tinham acontecido tinham sido infligidas a eles por eles próprios e de modo algum por Deus.
Eu levei anos conhecendo a vida de outras pessoas para compreender que havia uma profunda verdade nas palavras do poema: “Em homens que homens procla­mam maus,/ Eu ainda encontro tanta bondade,/ Em homens que homens proclamam divinos,/ Eu encontro tanto pecado e defeito,/ Que não ouso traçar uma linha divisória/ Entre os dois, quando Deus não o fez”. A verdade é que a maioria das pessoas deste mundo teme a Deus, como eu o fiz. A verdade é que os homens não podem amar nada que temam.
As pessoas mentem a si próprias, como eu o fiz, quando proclamam aos céus que amam a Deus, mas têm medo dos eventos da vida. Se acredito implicitamente num Deus que é onipotente e todo-poderoso, que pode fazer qualquer tipo de milagre – e eu acredito, porque vi isso acontecer –, se acredito que Deus não é capaz de qualquer outra coisa senão amar, se acredito que ele é o único controlador dos acontecimentos da vida, não posso temer coisa alguma que aconteça neste mundo. Medo e fé não podem existir, na mesma mente, ao mesmo tempo.
Vejo homens e mulheres correndo para a igreja com rosto triste e amedrontado, implorando a Deus que os perdoe por seus pecados; rezando, contritos, para que não sejam punidos por Deus por sua má conduta e seus erros. Eles caminham pela vida à margem de um precipício. Eles temem constantemente o perigo iminente. Ainda assim, proclamam ao mundo que acreditam em Deus.
Esse novo Deus que a AA e o pessoal da AA deram a mim, e que eu jamais teria recebido se não fosse alcoólatra – já que a única razão que me levou à Alcoólicos Anônimos foi ter problemas com a bebida –, tem alimentado a minha vida com alegria e conforto e retirado de mim o medo, o medo dos acontecimentos do amanhã, o medo da dor, o medo do sofrimento, o medo da tragédia e o medo da morte.
Não sei qual é a aparência de Deus. Não sei onde Deus mora ou onde está. Não tenho idéia de sua postura ou de sua forma. A AA, pelo menos, tirou de mim o egoísmo que me dominava, que me fazia acreditar que não havia possibilidade de existir postura, forma ou poder que fosse maior do que a postura e a forma do homem. Não conheço a forma ou a postura de Deus, mas sei que há um poder maior do que eu, diferente de mim, tão repleto de amor e bondade como eu seria incapaz de conceber: um Deus que criou todas as coisas, que sabe todas as coisas, que vê todas as coisas, que dirige todas as coisas e sempre essas coisas são boas – boas para o mundo, boas para as pessoas do mundo e boas para tudo no mundo.
Sei que há aqueles que vão ler este livro e dizer que estes são os pensamentos de um homem insano, e talvez sejam. E, se forem, então prefiro ser insano, porque estes são os pensamentos de um homem feliz, com paz de espírito, com conforto e absolutamente sem medo.
Qualquer que seja a postura ou forma que possa ter esse poder que eu encontrei na AA, que é maior que eu, maior que tudo no mundo e maior que todos no mundo, eu sei, por uma razão específica, que é a essência do amor. Eu sei, porque tenho visto, em milhares de ocasiões diferentes, que o amor pode sobrepujar tudo. O amor cura, o amor acalma, o amor traz alegria, o amor traz felicidade, o amor traz paz de espírito, o amor faz o mundo valer a pena. O amor faz a morte valer a pena. O amor faz as tragédias valerem a pena.
Acredito que todo homem, todo ser humano que já foi criado, tenha nele, plantada por Deus que o fez, essa centelha de amor que é parte de Deus. Portanto, acredito que Deus está comigo. Que Deus está em mim. Que eu sou parte de Deus, uma parte muito pequena, infinitesimal, microscópica de Deus mas, não obstante, uma parte de Deus. Talvez uma parte de Deus não maior do que um grão de areia, mas, ainda assim, uma pequena parte de Deus. Se eu permitir que aquela parte de Deus, que o amor de Deus que foi colocado em mim, se acenda e controle minha vida, então eu me torno tão invencível quanto Deus, tão indestrutível quanto Deus.
Com esse pensamento em mente, tenho não apenas o entendimento, mas também o sentimento do que quer dizer a oração do Senhor: “Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu”. Eu entendo agora como Cristo, que dizia que Deus estava dentro dele, que proclamava que era o Filho de Deus, podia efetuar aqueles milagres. Em minha filiação à AA, tenho visto tantos milagres quantos estão escritos na Bíblia: quando o amor de Deus que está nos indivíduos é dado a outro indivíduo. Tenho visto os milagres da AA e sei que eles são os milagres de Deus. Sei também que são os milagres do amor.
Uma vez sabendo que estão implantados em cada indivíduo, ao nascer, a fome e o desejo de amor, eu sei agora por que os homens sofrem, sei por que os homens odeiam, sei por que os homens têm medo. Sei agora por que os homens são solitários. Sei agora por que os homens cometem crimes atrozes. Por toda sua vida eles têm buscado esse amor, essa necessidade de amar que foi plantada dentro deles por Deus todo-poderoso, quando foram criados.
Há ampla prova de que homens morrem por falta de amor. Tem sido verificado, sem qualquer dúvida, que bebês colocados em um orfanato ou em uma casa onde eles não recebem amor, afeição, afago, o canto de ninar, a carícia que a criança necessita ter de sua mãe e de seu pai, morrem por falta de amor. Essas crianças foram mantidas aquecidas e alimentadas apropriadamente. Todas as outras necessidades que são implantadas por Deus nos seres humanos – a necessidade de calor, a necessidade de água, a necessidade de comida, a necessidade de abrigo, a necessidade de sexo – todas elas foram satisfeitas, mas elas não tiveram amor. Sendo assim, Deus as leva para ele.
Agora que sei que todo ser humano é faminto de amor, sinto grande alegria em dá-lo para todo aquele que encontro. Tenho visto essa necessidade em seres humanos de todas as idades. Vejo-a em bebês, em crianças, em adolescentes, em pessoas de meia-idade e mesmo nos idosos que morrem em casas de repouso. Eu vejo não somente sua necessidade, mas vejo a resposta em seus olhos e em sua expressão quando o amor lhes é dado.
O amor é não somente a mais bela e maravilhosa força do mundo, mas é também a mais mal compreendida. O amor não tem valor efetivo até que seja posto em ação. Há outras forças no mundo que não entendo. Eu não poderia fazer um desenho da eletricidade, mas sei que a eletricidade tem força. Só sei que ela tem força quando é posta em ação. A única maneira pela qual eu posso dizer que a força elétrica está ligada em minha casa é quando aperto o botão para fazer funcionar algo que é movido a eletricidade. Uma vez que aperto o botão, sei que a força está ligada. A mesma coisa é verdadeira com o amor. Eu poderia sentar-me em meu quarto até o dia do Juízo Final, determinado a amar todas as pessoas do mundo, mas ninguém no mundo iria receber a força daquele amor e os benefícios daquele amor até que eu tivesse praticado um ato de amor.
São Paulo reconheceu a auto-suficiência do amor sobre tudo o mais, quando disse não importar o que o homem seja, não importar o que ele faça, não importar que conduta sua vida possa ter – se ele não tiver amor, ele é somente um bronze que soa ou um címbalo que tine. Eu me descrevo, antes de chegar à AA, de um modo um pouco diferente. Uso linguagem de botequim para dizer que tudo que eu era não passava de um grande saco de eloqüente ar quente. A maior surpresa que tive em minha vida foi quando me dei conta de que, em todos os meus 50 anos, jamais havia aprendido coisa alguma sobre o amor.
Ainda assim, dois mil anos antes de eu nascer, São Paulo, no capítulo 13 da Epístola aos Coríntios, tinha descrito o que é o amor. No versículo 4, ele disse: “O amor é paciente e prestativo. O amor não é invejoso, não se ostenta. Ele não se incha de orgulho e nada faz de inconveniente. O amor não procura o seu próprio interesse. Ele não se irrita, não guarda rancor. Ele não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
Quando me tomei honesto comigo mesmo, como era proposto pelo programa da Alcoólicos Anônimos, comecei a fazer minucioso e destemido inventário moral de mim mesmo, como sugere um dos passos, e percebi que não tinha um único atributo de amor. Eu não era paciente. Não era generoso. Era invejoso. Era extremamente orgulhoso, arrogante e rude. Procurava os meus próprios interesses. Era irritável. Guardava rancor. Eu me rejubilava diante do errado. Não podia suportar coisa alguma e não podia enfrentar coisa alguma.
Que rude despertar foi para mim, que por toda a minha vida tinha estado cego para todos esses defeitos que mantiveram afastado de mim o maior poder que Deus me havia dado, o poder de amar! Eu era como um homem que tivesse vivido por 50 anos, numa casa que estivesse suprida de eletricidade e de todo o equipamento de que a força elétrica precisa para funcionar, com todos os benefícios que eu poderia ter usufruído por 50 anos, e tivesse estado completamente cego para o fato de que minha casa estava suprida e equipada com todas essas coisas maravilhosas, prontas a trazer felicidade e alegria para minha vida.
É igualmente estranho para mim que, por toda a minha vida, eu ignorasse completamente a diferença entre acreditar em Deus e ter fé em Deus. Porque até sobre isso as antigas Escrituras tinham falado muito efetivamente. São Lucas descreveu como Cristo falou a seus discípulos e chamou-os: “Oh, homens de pouca fé”. Ele disse: “Não fiqueis preocupados. Não fiqueis ansiosos sobre vossas vidas, o que ides comer, nem sobre vosso corpo, o que devereis vestir”.
Ele disse: “Atentai para os pássaros do campo. Eles não semeiam nem colhem. Não têm armazéns nem celeiros e, ainda assim, Deus os alimenta. Quanto mais valeis vós do que as aves! E qual de vós, estando ansioso, preocupado ou amedrontado, pode prolongar um pouco a duração de sua vida? Olhai os lírios do campo, como eles crescem. Eles não fiam nem tecem. Ainda assim, eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está viva e amanhã será atirada ao forno, quanto mais vai ele vestir-vos, homens de pouca fé”.
Eu não poderia dizer-lhes quantas centenas de vezes ouvi esses versos antes na igreja e, mesmo assim, por 50 anos, minha vida esteve cheia de medo, ansiedade, solidão, ressentimento. E eu acreditei, como nenhum homem que já tenha vivido antes, que tinha sido amaldiçoado por Deus. Eu, na igreja, prestava mais atenção aos sermões que se referiam à justiça e à ira de Deus do que aos sermões que falavam no amor de Deus. Tive de entrar para a AA para ver os milagres que o amor de Deus tinha construído. Agora que conheço Deus, agora que sei que ele me ama, agora que meu Deus não tem ira, não tem vingança, que meu Deus é todo amor, eu perdi o medo, perdi os ressentimentos, perdi o remorso e o ódio. Portanto, por que não me sentiria feliz por ser um alcoólatra? Quando fiz o minucioso e destemido inventário moral, atento a todos os meus defeitos de caráter, atento a todas as minhas falhas que tinham afastado de mim o poder do amor de Deus, soube então que tinha um mundo para conquistar. O mais importante mundo de todos os mundos. Tinha de conquistar a mim mesmo. Eu sabia muito bem que era totalmente verdadeiro o que tinha sido escrito anos antes. Que aquele que conquista a si próprio é maior do que aquele que conquista uma cidade. Assim comecei, e ainda estou engajado, e estarei enquanto viver, na maior luta na qual qualquer homem já esteve engajado. Aquela que lhe traz as maiores vitórias, a maior paz de espírito e a maior serenidade e esperança. Ela é a conquista de mim mesmo.
A primeira vez em que fui capaz de observar o tremendo poder do amor aconteceu no começo de minha atividade na AA. Certo dia, uma senhora trouxe à minha casa um homem que estava em terrível estado de alcoolismo. Ele estava se embriagando há seis meses, bebendo dia e noite sem parar. Tenho visto poucas pessoas fora de um hospital em estado tão ruim. Conversei com ele por quase duas horas sobre alcoolismo. Tudo o que ele fez foi ficar sacudindo a cabeça. Ele estava terrivelmente desidratado de tanto beber. Todos os alcoólatras ficam desidratados. Assim, fui dando a ele copos de água gelada.
Depois de quase duas horas, perguntei-lhe se gostaria de ir comigo a uma reunião da AA, naquela noite, e ele disse que sim. Fiquei bastante orgulhoso de mim mesmo pelo modo como eu lhe tinha explicado o alcoolismo, e por quão convincente eu tinha sido em minha conversa com ele. Apanhei-o, naquela noite, e levei-o à reunião. Pelas sete noites seguintes, levei-o a reuniões.
Na sétima noite, no caminho de volta da reunião, ele me olhou e disse: “Posso perguntar-lhe uma coisa, juiz? Onde o conheci?”.
Eu respondi: “Sua esposa o trouxe à minha casa, na semana passada”.
“Não me lembro de ter estado em sua casa. Você tem certeza de que eu estive em sua casa?”
“Claro que sim, você esteve lá por várias horas.”
“Nem mesmo sei onde você mora.”
“Bem”, eu disse, “você lá esteve, e foi lá que eu e você nos conhecemos.”
Nós rodamos por cinco ou seis quilômetros e ele ficou silencioso, sem dizer mais nada. Finalmente, ele me disse: “Foi você o sujeito que ficou me dando água gelada?”.
“Sim, eu fui o sujeito que ficou lhe dando água gelada.”
Que bela coisa aquilo fez para meu ego! Toda a eloqüência, toda a conversa, todas as perguntas e todas as coisas que eu tinha tentado fazer para ajudar aquele homem com seu problema não tinha tido qualquer efeito sobre ele. A única coisa de que ele conseguia se lembrar era de que alguém, em algum momento, tinha sido gentil com ele.
Há uma citação em algum lugar da Bíblia e eu não consigo encontrá-la ou lembrá-la inteiramente. Algo sobre dar um copo de água fresca a um estranho. Não me lembro do trecho da Bíblia ou do que ele diz, mas eu vi e sei o que o dar quatro ou cinco copos de água fresca teve a ver com o acender da centelha do amor em um indivíduo. E eu vi o milagre de quatro copos de água gelada.
Um dos milagres, que me aconteceram desde que entrei para a AA e encontrei um novo tipo de Deus é o milagre que tenho visto ocorrer a centenas de outras pessoas que vieram à AA. É este: todo dia de minha vida eu estou agradecido a Deus por ele ter dado aos seres humanos o mais perfeito corpo, a mais perfeita máquina que já foi inventada. Tenho o mesmo corpo hoje que tinha quando vim à AA pela primeira vez. Mas, naquela época, todo dia de minha vida eu achava que tinha sido amaldiçoado, porque Deus me havia dado um corpo tão imperfeito, tão fraco e tão inadequado.
Como todo alcoólatra, durante o tempo em que bebia, tive grandes problemas com meus rins. Eu constantemente sofria de diarréia. Meu estômago sempre me incomodava. Era o vomitador campeão do mundo. Nada é mais desagradável do que vomitar e defecar ao mesmo tempo. Toda noite, minhas roupas de cama ficavam molhadas de suor. Pobre de mim! Naturalmente, jamais culpei o álcool por isso. Devo ter comido alguma coisa que não me fez bem. Devo ter sido envenenado. Eu tinha um vírus permanente. Mas depois que encontrei esse novo Deus, depois que comecei a ser honesto comigo mesmo, fiquei maravilhado ao ver que perfeito instrumento ou máquina Deus todo-poderoso tinha feito ao criar o corpo humano.
O corpo humano é o único instrumento que já foi inventado, a única máquina que já foi inventada que pode reproduzir a si própria e continuar se reproduzindo ao infinito. É a única máquina já inventada que pode consertar a si mesma e, acima de tudo, é a única máquina já inventada que pode guardar e proteger a si mesma. É a única máquina já inventada que tem um sistema de alarme ligado a cada uma de suas peças, que dá alarme em forma de dor, advertindo as pessoas de que alguma coisa está errada em alguma parte específica de seu corpo.
Quando um ser humano introduz veneno em seu organismo, não somente álcool, que é veneno, mas qualquer tipo de veneno, o corpo do ser humano, sem qualquer instrução de seu cérebro, imediatamente se põe a trabalhar para forçar o veneno para fora. Os rins começam a funcionar mais rapidamente que o normal, para forçar o veneno a sair do corpo em forma de urina. Seu estômago se põe a trabalhar e o faz vomitar. Seus intestinos se põem a trabalhar. Seus pulmões se põem a trabalhar. Cada poro de seu sistema se abre e o veneno é forçado a sair de seu corpo, sem a interferência de sua vontade. Muitas, muitas vezes, contra sua vontade.
Agora eu sei por que tive de passar por todas aquelas doenças, todo aquele remorso, toda aquela miséria. Por tudo isso, eu agradeço a Deus todo-poderoso.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 17

17

Um dos maiores dons com que Deus presenteou os seres humanos é a capacidade de reavaliação. Poucos entendem o valor desse grande patrimônio. E mesmo aqueles que o entendem não sabem dele tirar vantagem. Cientistas que se têm dedicado à completa investigação dos fatos dizem-nos que, de todas as criaturas de Deus, o homem é a única que tem a capacidade de relembrar os acontecimentos do passado e de refletir sobre eles. É lamentável que, embora tenhamos a capacidade de relembrar qualquer evento do passado, examiná-lo e, dessa forma, aprender com ele, nós não o façamos.
Os homens relembram e examinam, muitas vezes em suas vidas, os eventos que lhes trouxeram honra, glória e grande sucesso. Eles escondem e deliberadamente esquecem suas falhas, enganos e erros. Todos nos lembramos e nos vangloriamos daquela vez em que nós marcamos o gol e ganhamos o jogo, mas nunca relembramos ou falamos sobre as vezes em que perdemos.
Minha experiência me tem ensinado que não aprendo absolutamente nada com os meus sucessos. Aprendo somente com meus fracassos. Penso que o que acontece é que, se eu pudesse instantaneamente rever e reexaminar todos os enganos, fracassos e culpas de meu passado, poderia corrigir os enganos e erros de julgamento que cometi quando e se o evento ocorresse outra vez. O fato é que os acontecimentos se repetem através de toda a nossa vida. O triste é que a maioria dos seres humanos, por não reexaminar os enganos e fracassos do passado, continua a cometer os mesmos enganos e erros por toda a sua vida. Não há dúvida para mim de que isso ocorre porque nós não nos utilizamos do tremendo valor das instantâneas revisões e recordações do passado.
De todas as muitas razões pelas quais me considero feliz por ser alcoólatra, esta, acredito, está entre as mais importantes. A razão é: o homem não quer relembrar seus erros ou enganos do passado. Ele os esconde. É somente porque sou membro da Alcoólicos Anônimos que tenho sido forçado, contra a minha vontade, a rever os acontecimentos da vida e a tentar corrigi-los e modificá-los e acertar pelos meus enganos.
Não há outro lugar no mundo onde homens e mulheres possam sentar-se, uns com os outros, e abertamente discutir os erros, pecados, omissões, ressentimentos, medos e a solidão que sentiram no passado, e discutir, uns com os outros, o que eles têm feito para retificá-los. Experimentem ir a qualquer coquetel, qualquer acontecimento social, qualquer organização fraternal ou cívica – e eu pertenço a tantas, como qualquer pessoa que conheço – e tudo o que vocês ouvirão ser discutido em qualquer dessas funções, tudo o que vocês ouvirão em qualquer lugar em que possam ir, onde homens e mulheres se reúnam para trocar experiências da vida, tudo o que vocês ouvirão ser discutido serão os sucessos, honras e glórias do passado.
Se eu tivesse admitido todos os acontecimentos desonrosos de minha vida, teria sido banido de todas organizações a que pertenço. Ninguém jamais foi impedido de ser admitido na Alcoólicos Anônimos. Como vou a muitas reuniões da AA e ouço experiências de homens que poderiam ter sido banidos de qualquer outra organização, sou forçado, se for honesto comigo mesmo, a usar a capacidade de reavaliação que Deus me deu para relembrar os acontecimentos vergonhosos de minha vida, para relembrar os erros, os enganos e as omissões do passado, para considerar seriamente por que eles aconteceram e para fazer alguma coisa sobre os mesmos. Por isso, continuo a agradecer a Deus todo-poderoso, porque, por meio disso, acredito sinceramente que agora posso evitar a maioria dos erros, a maioria dos enganos e a maioria das coisas vergonhosas de minha vida.
A maioria das reuniões da AA são abertas ao público. Não é preciso ser alcoólatra para ir a essas reuniões. De fato, eu nunca teria ido a uma reunião da AA se tivesse pensado que todos os presentes à reunião eram alcoólatras. Disseram-me que haveria pessoas que eram cidadãos patrióticos, desejosos de servir aos outros, que estavam interessados em alcoolismo e que, por isso, iam a essas reuniões. Por considerar-me um cidadão desse tipo, fui à minha primeira reunião.
Gostaria de sugerir a todos que lerem este livro que tentem reunir a coragem para ir a uma dessas reuniões – pelo menos a uma. Tentem ver “o outro lado da vida”, como eu fiz. Tenho levado muitas pessoas que não pensam ter qualquer tipo de problema de bebida a participar de uma dessas reuniões. Todas elas saíram absolutamente fascinadas. É uma experiência inigualável.
Muitas dessas pessoas eram grandes viajantes, viajantes internacionais, que foram às mais variadas partes do mundo para ver como os outros vivem, para estudar a cultura dos outros. Isso lhes proporcionou uma maravilhosa experiência e a oportunidade, quando voltaram para casa, de ir a vários eventos sociais e se tornar o centro das atenções ao falar sobre o que viram, aprenderam e ouviram. Na verdade, acho que essa é a principal razão pela qual homens viajam.
Se essas mesmas pessoas fossem a uma reunião da AA, pela primeira vez em suas vidas iriam ver pessoas felizes, cordiais, expressando amor, cheias de vida e alegres, nenhuma delas com um drinque em sua mão. Nenhuma delas meio embriagada. Ouviriam homens e mulheres admitindo, sem vergonha alguma, todas as desgraças e todas as falhas de seu passado. Agora haveria realmente, para essas pessoas, alguma coisa sobre o que falar. Elas têm algo em que os outros estão realmente interessados. Elas têm o melhor instrumento que já tiveram para se tornar o centro das atrações, e isso não lhes custa absolutamente nada. Tentem, vocês vão gostar.
Sem dúvida alguma, há sempre a chance – admito que seja uma chance muito remota, mas há uma chance – de que talvez vocês possam ouvir algo que abra sua mente para enganos do passado. E isso pode (apenas pode) fazer com que vocês queiram participar novamente. E talvez (somente talvez) isso venha a mudar toda a sua vida.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 16

16

Alcoolismo é, sem dúvida, a mais devastadora e destruidora força que este mundo já conheceu. Ele não somente destrói todos os valores humanos, como tem sido, desde o dia em que foi inventado pelos egípcios, milhares de anos antes do nascimento de Cristo, a causa de mais dores, mais problemas, mais sofrimentos, mais mortes, mais crimes, mais pobreza do que qualquer outra coisa. Todos sabem que o alcoolismo é destrutivo e que tem causado muitos problemas e aborrecimentos, mas a maioria das pessoas desconhece completamente o que é o álcool e quantos alcoólatras existem.
Ao que eu sabia, não há a menor dúvida de que o alcoolismo é a causa número um de mortalidade neste mundo. As estatísticas, naturalmente, não mostram isso. A razão pela qual as estatísticas não refletem este fato é que aqueles que organizam as estatísticas também não sabem distinguir quem é alcoólatra. Os médicos que assinam os atestados de óbito raramente, se é que alguma vez o façam, indicam como causa primária da morte o alcoolismo. Há duas razões para tanto. Em primeiro lugar, o médico é, em média, tão ignorante sobre alcoolismo quanto qualquer indivíduo.
Estou bem familiarizado com vários médicos que são membros da Alcoólicos Anônimos, e todos eles me contaram que, na Faculdade de Medicina, não receberam qualquer ensinamento sobre alcoolismo; que o tempo médio despendido com o alcoolismo na Faculdade de Medicina é de uma hora. Disseram-me que, apenas dois ou três anos após terem descoberto que eram alcoólatras, aprenderam algo sobre a doença.
A segunda coisa que ocorre é que o alcoólatra, por ter vergonha de sua doença, a esconde do médico. Tão estranho quanto possa parecer, o alcoólatra que se sente muito doente vai ao médico e, mais freqüentemente do que diz a verdade, mente a ele sobre a causa de sua doença. Se todo paciente que está sendo tratado de hipertensão, insônia, problemas cardíacos, úlceras, pancreatite, contasse ao seu médico, quando este lhe pergunta o quanto bebe, que ele consome cerca de um litro de uísque por dia, o médico concluiria que beber um litro de uísque por dia é a causa de sua hipertensão, úlcera, problemas de coração e estômago. Os pacientes alcoólatras, porém, não contam isso a seus médicos. Todo alcoólatra é um mentiroso quando se trata de falar sobre o quanto ele bebe. De fato, um dos sinais mais seguros de alcoolismo revela-se quando alguém cessa de se vangloriar sobre o quanto consegue beber e começa a mentir sobre quão pouco ele bebe.
Alcoolismo – não há qualquer dúvida sobre isso – é a principal causa de crimes em todo o mundo. Normalmente, as estatísticas não revelam isso, e a razão por que as estatísticas não mostram o fato é que as pessoas que cometem crimes têm mais vergonha da quantidade que bebem do que dos crimes que cometem. Juízes de direito, promotores e escrivães que compilam as estatísticas são completamente ignorantes sobre o que seja alcoolismo e, assim, a causa do crime nunca é registrada como alcoolismo.
Eu fui juiz de uma corte criminal por quase 18 anos. Durante aqueles 18 anos, milhares de pessoas que tinham cometido crimes foram levadas à minha presença. Tinham cometido crimes enquanto estavam embriagadas. Antes de alguém ser sentenciado, é obrigado a ficar de pé diante do escrivão e responder a certas perguntas. Uma das perguntas que são feitas é: “Você faz uso de bebidas alcoólicas?”. A resposta é sempre: “Sim”. A pergunta seguinte é: “Até que ponto você faz uso de bebidas alcoólicas?”. E a resposta é sempre: “Eu bebo socialmente ou moderadamente”.
Nos 18 anos em que permaneci no Tribunal, ninguém dos que já tive diante de mim levantou-se e, de pé, respondeu àquela pergunta com as palavras: “Eu bebo excessivamente e sou um alcoólatra”. Todavia, sei, hoje, tendo participado da AA durante os últimos cinco anos em que estive na magistratura, que praticamente todo aquele que cometeu um crime enquanto estava embriagado – e a maioria dos crimes são cometidos por pessoas que estão embriagadas – era alcoólatra.
Se considerados culpados, esses réus são, então, mandados para as prisões estaduais ou para as penitenciárias, onde os dirigentes não têm qualquer conhecimento sobre alcoolismo. Tenho ouvido as histórias de centenas e centenas de presidiários que finalmente chegaram à AA depois de terem, por anos e anos, entrado e saído da prisão e da cadeia, e eles contam que nunca, durante seu confinamento numa cadeia ou prisão, alguém sequer mencionou-lhes que poderiam ter um problema com o álcool. Isto é, na verdade, uma acusação muito triste à nossa sociedade moderna.
Leio os jornais todos os dias. Vejo os noticiários na televisão todos os dias. Não se passa um dia sem reportagens nos jornais, na televisão e no rádio sobre trágicas histórias acontecidas no dia anterior. Crimes atrozes são cometidos. Assassinatos e raptos, bombas terroristas, seqüestros de aviões, terríveis acidentes em estradas. A cada vez, a história termina dizendo: “Parece não haver qualquer causa explicável para o acidente. As autoridades estão investigando”. É triste que os repórteres de jornal, rádio e televisão, bem como as autoridades, não saibam a causa, quando esta pode ser facilmente descoberta pela leitura das entrelinhas. Eu sei a causa, e também o sabem um milhão de membros da Alcoólicos Anônimos que conhecem a natureza do alcoolismo.
Vivo em uma cidade de cerca de 20.000 habitantes. Sei que na sexta-feira, sábado e domingo, na véspera de feriados e em cada feriado do ano, o alarme de incêndio em minha cidade soará quatro vezes mais do que no resto da semana. Como é que sei isso? Porque eu sei, pela minha própria experiência e pelas experiências que tenho tido e partilhado com milhares de outros alcoólatras, que os alcoólatras bebem mais pesadamente nos fins de semana, nos feriados e na véspera de feriados. Sei que quase sempre que um grande incêndio ocorre no meio da noite, sem dúvida, algum bêbado adormeceu com um cigarro na mão, ou deixou o fogão aceso, ou agiu de alguma outra forma descuidada, como somente um alcoólatra poderia fazer. Os jornais dão grande publicidade à tragédia. Eles dão grande publicidade para a quantidade de dinheiro envolvida, para a terrível perda de vidas, mas nem uma só vez mencionam a causa.
Por anos, nossa nação vem gastando bilhões de dólares na luta contra a pobreza. Entretanto, nada tem sido feito contra a principal causa da pobreza neste país. Por quê? Porque as pessoas que estão administrando e dirigindo a luta contra a pobreza – legisladores do Estado, membros do Congresso, presidentes, governadores, pessoas do Departamento de Bem-Estar – são todas completamente ignorantes sobre a doença do alcoolismo. Mas eu estou trabalhando com alcoólatras há já 22 anos. Eu entro nas casas de alcoólatras. Meu coração sofre pela pobreza das famílias de alcoólatras. Elas não têm o suficiente para comer. Não têm um lugar decente para viver. Não têm roupas. São privadas de tudo, mas em toda casa de alcoólatra há grande quantidade de cerveja ou uísque.
Para mim, essa situação é uma triste condenação da sociedade em que vivemos e das pessoas que são responsáveis pelo funcionamento de nossa sociedade. Todos esses problemas, todos esses aborrecimentos, todas essas tragédias e seu tremendo custo têm sua base diretamente na ignorância – ignorância de um problema que pode ser resolvido.
Bem recentemente, uma das maiores histórias que sacudiu jornais, revistas e televisão, e da qual houve mais cobertura que qualquer outra em toda a minha vida, foi o relato de um homem que queria morrer e que foi até a Suprema Corte dos Estados Unidos para obter permissão para ser fuzilado ao amanhecer. Ele conseguiu seu desejo e quase todos, neste país, consideraram isso uma coisa maravilhosa. Ele tinha tido um julgamento justo. O fato de ele ser executado ao amanhecer seria um grande exemplo para outros criminosos.
Aquele homem não sabia que era alcoólatra. Os jurados que o condenaram não sabiam que ele era alcoólatra. O juiz que o sentenciou à morte não sabia que ele era alcoólatra. Os nove ministros da Corte Suprema, que permitiram sua morte, não sabiam que ele era alcoólatra. Não tinha havido qualquer menção de seu alcoolismo, em qualquer um de seus julgamentos. Ele próprio não tinha mencionado esse fato, nem seu advogado ou qualquer pessoa relacionada com ele, nem mesmo os membros de sua família.
Mas eu sabia que ele era alcoólatra. Sabia disso porque uma das histórias que foram contadas a seu respeito era que ele tinha tido permissão para fazer um último pedido antes de ir ao pátio para ser morto. E qual foi seu último pedido? Seu último pedido foram seis garrafas de cerveja.
Nenhum homem ou mulher que não fosse alcoólatra quereria seis garrafas de cerveja antes de ser morto. Mas com esse homem, assim como comigo e com qualquer outro alcoólatra que já viveu, o álcool é o elixir da vida. É muito mais importante do que a própria vida.
Tenho apenas um propósito em mente, ao escrever este livro, e é o de que umas poucas pessoas possam ler este livro e obter um pouco de informação sobre o maior problema que existe em todo este mundo. Talvez, entre seus poucos leitores, haja um legislador, um congressista, um médico, um juiz, um advogado ou um promotor que encontre algo neste livro que possa mudar sua opinião sobre o maior problema com que nós todos nos defrontamos. Isto é muito difícil.
Descobri ser extremamente difícil tentar induzir pessoas, que estão em contato com alcoólatras todos os dias, a comparecer a reuniões da AA. Tenho convidado juízes de direito, promotores, advogados, médicos, clérigos e conselheiros de liberdade condicional a virem comigo a reuniões, mas eles estão sempre muito ocupados para aprender a coisa mais importante que deveriam saber para desempenhar seus deveres e para ajudar pessoas, desamparadas e desesperadas, que vêm à sua presença procurando auxílio. Eles estão sempre muito ocupados para compreender o problema, porque têm uma noção falsa e preconcebida de que todos eles sabem o grande problema que isso representa e estão certos de que conhecem tudo sobre ele.
Talvez – sim, somente talvez – alguns poucos sejam inspirados a descobrir algo sobre isso. Talvez aqueles poucos comecem a espalhar a semente para outros. E talvez algum dia – certamente não durante minha vida, mas talvez algum dia –, num futuro distante, este mundo, em virtude disso, acabe por se tornar o tipo de mundo que Deus todo-poderoso planejou para vivermos, quando criou o mundo e as pessoas.
Não tenho meios de aferir quanta influência este livro possa ter sobre o futuro do mundo no qual Deus concedeu-me a oportunidade de viver. Eu sei que, 40 anos atrás, dois homens sentaram-se em frente a uma xícara de café e trocaram suas experiências, sua força, suas esperanças e seu amor, um com o outro. Ambos eram bêbados; ambos eram alcoólatras. Eles saíram e conseguiram um terceiro homem e trocaram suas experiências, sua força, suas esperanças e seu amor com ele. E hoje há mais de um milhão de pessoas, com suas famílias, cujas vidas foram completamente mudadas.
Quando cheguei à AA, disseram-me que, se quisesse manter tudo o que obtive na AA, teria de doá-lo aos outros, e essa é a única razão pela qual este livro está sendo escrito. Na esperança de que talvez eu possa alcançar, por meio da palavra escrita, um pouco mais de gente do que tenho alcançado pela palavra falada. O resto está nas mãos de Deus. Deus não tem pressa. Deus sempre foi e sempre será. Deus não tem noção de tempo. Os homens inventaram o tempo e isso os tem mantido algemados desde então. Portanto, deixo os resultados nas mãos de Deus.
Tentei, antes, fazer alguma coisa a respeito desse problema devastador. Tenho escrito para muitos cidadãos proeminentes, pessoas que estariam em posição de prestar grande ajuda para a solução desse tremendo problema, mas tudo que sempre recebi foi uma polida carta acusando o recebimento das minhas. Recentemente, escrevi ao governador do Estado. Abaixo está a transcrição dessa carta:

Senhor governador:
Gostaria de aproveitar esta oportunidade para congratulá-lo por sua decisão de desvincular o Programa de Reabilitação do Alcoólatra do Departamento de Higiene Mental e de estabelecer um departamento separado. Como alcoólatra recuperado, minha humilde opinião é de que essa decisão constitui o ato mais progressista que o senhor já realizou como governador deste Estado. Duvido que existam algumas poucas pessoas, além de alcoólatras recuperadas, que reconheçam o tremendo potencial desse ato.
Em princípio, deixe-me enfatizar que não estou interessado em qualquer emprego e não iria, em quaisquer circunstâncias, aceitar um se me fosse oferecido; mas, porque, nos últimos 20 anos, tenho sido muito ativo no grupo que tem tido mais sucesso no trabalho com alcoólatras do que qualquer outro grupo na história deste mundo, ou seja, a Alcoólicos Anônimos. E sinto-me levado a oferecer algumas sugestões para assegurar que a decisão que o senhor tomou seja bem­sucedida.
Durante os últimos 20 anos, em meu trabalho voluntário na Alcoólicos Anônimos, tenho sido convidado para falar em instituições mentais, prisões, institutos correcionais e cortes de justiça, em quase todos os Estados do leste dos Estados Unidos. Tem sido bastante constrangedor para mim o fato de este grande Estado ter ficado atrás de tantos outros Estados menores, na ajuda que têm oferecido para que se faça alguma coisa acerca da doença mais dispendiosa e destruidora de que sofre a humanidade. O triste disso é que, enquanto o alcoolismo é sem dúvida a mais destruidora de todas as doenças, não somente para o indivíduo que a tem, mas também para a sociedade, é uma doença contra a qual é possível fazer-se alguma coisa.
Compreensivelmente, mas infelizmente, os Estados – em um esforço para ajudar – têm, em quase todos os casos, se voltado para o aspecto psiquiátrico, o médico e o jurídico, como fontes de auxílio. O que há de verdade relativamente ao assunto é que, embora o alcoolismo seja a mais mal compreendida de todas as doenças, as três profissões que têm a opinião mais errônea sobre a mesma, e cujos profissionais são inflexivelmente contra o método para recuperação que tem tido o maior sucesso, são aquelas para as quais o Estado se tem voltado. Durante anos, o Estado tem, de fato, despejado milhões de dólares em um buraco de rato e, em vez de ajudar o alcoólatra, isso tem tornado a situação ainda pior.
Em minha própria experiência, antes de ficar suficientemente desesperado a ponto de ir para a Alcoólicos Anônimos, procurei o conselho e a orientação de muitos médicos e psiquiatras. Eu era um alcoólatra na acepção da palavra. Qualquer alcoólatra no mundo teria percebido isso. E, ainda assim, todos esses médicos e psiquiatras disseram-me que eu não era alcoólatra e que poderia beber com moderação. Durante meus anos na AA, tenho ouvido milhares de alcoólatras recuperados contarem a mesma experiência.
Os poucos psiquiatras e médicos e, ainda em menor número, juízes de direito que, desesperados, se voltaram para a Alcoólicos Anônimos, vão todos contar-lhe que os conselhos médicos, psiquiátricos e legais, além de não serem de qualquer valia para si próprios ou para qualquer dos pacientes e pessoas que eles tentaram ajudar, foram realmente prejudiciais.
Há, dentro do Estado, milhares de pessoas bem-educadas, capazes e competentes, que são dedicadas a esta causa porque sentem que foram abençoadas por se terem livrado da maldição do alcoolismo e que, portanto, iriam, com grande alegria, auxiliar nesse esforço verdadeiramente válido. Se seu novo programa for apropriadamente aumentando, posso prever ótimos resultados.
Por mais de 18 anos, fui juiz de direito de um condado. Durante grande parte daquele tempo, fui alcoólatra ativo, completamente ignorante do fato de que eu era alcoólatra, tremendamente interessado em ajudar alcoólatras e, mesmo assim, causando-lhes grande mal, porque não compreendia a doença. Reconsiderando isso agora, com o conhecimento que obtive, reconheço que bem mais de 90% das pessoas que vieram a mim acusadas de sérios crimes eram alcoólatras que não sabiam disso. Eu não sabia, o promotor não sabia, os jurados não sabiam, os guardas e o pessoal do departamento correcional não sabiam, nem a polícia daquela cidade sabia disso.
O triste mesmo é que muitas, senão todas, dessas pessoas eram encarceradas por anos nas prisões deste Estado, sem que tivessem tido a oportunidade de ao menos ouvir de outras pessoas que o problema residia no fato de elas serem alcoólatras. Eu, pessoalmente, conheço centenas dessas pessoas que, pela graça de Deus, finalmente encontraram alguém que entendesse seu problema. Elas podem contar-lhe que passaram anos na prisão esperando pelo primeiro dia que saíssem e pudessem tomar um copo de cerveja. É uma vergonha que essa condição exista neste grande Estado. Um dos meus amigos mais próximos e mais queridos, o homem que mais está fazendo pela causa do alcoolismo nas prisões de outro Estado, é um homem que eu, pessoalmente, mandei para a cadeia, condenado por assassinato, e que passou anos esperando pelo dia em que pudesse sair da prisão para matar-me e aos meus cinco filhos.
No meu trabalho com a Alcoólicos Anônimos tenho visitado quase todas as prisões estaduais e instituições mentais do Estado. Mesmo que as estatísticas não o indiquem – porque quem prepara as estatísticas não reconhece um alcoólatra – o fato é que em uma instituição de dois mil prisioneiros, ou em uma instituição mental de cinco mil pacientes, 60% a 70% dessas pessoas aí estão porque são alcoólatras. Todavia, seria excepcional se, em uma reunião da AA, houvesse cinqüenta a cem pessoas que sequer suspeitassem que talvez o alcoolismo seja um problema. Isso é uma vergonha, mas ocorre porque o pessoal dessas instituições não toma conhecimento da doença.
Os chefes dos departamentos são médicos, psiquiatras ou advogados, e eles não somente não sabem coisa alguma sobre a doença como são inflexíveis em sua atitude. As instituições mentais deste Estado gastam milhões de dólares com tranqüilizantes e barbitúricos. Distribuem-se esses tranqüilizantes e barbitúricos para os pacientes e ninguém na instituição sabe que um tranqüilizante, um barbitúrico ou uma pílula para dormir é justamente outra forma de álcool. O álcool, embora os bebedores sociais não gostem de admiti-lo, é um narcótico. E mudar de álcool, que é um narcótico, para uma pílula para dormir, que é outro narcótico, é o mesmo que mudar de conhaque para uísque, ou de uísque para cerveja.
Talvez o senhor nem mesmo chegue a ver esta carta e, se o fizer, provavelmente não terminará de lê-la. Mas se o senhor o fizer e acreditar que pode haver alguma verdade no que digo, eu estaria mais do que pronto a, voluntariamente, oferecer qualquer sugestão que o senhor possa desejar.
Com os melhores votos de sucesso e saúde, e de um Alegre Natal e Feliz Ano Novo, me despeço…

Tudo o que recebi do governador do Estado foi o mesmo tipo de polida nota de recebimento que, pela minha experiência em lidar com políticos, eu sabia ter sido escrita por um de seus secretários e assinada com um carimbo. Portanto, tenho certeza de que o governador nem mesmo viu a carta que lhe escrevi. Talvez algum repórter de jornal, de televisão ou de rádio vá por acaso ler este livro, tomar conhecimento de minha carta ao governador e assim levá-la à sua atenção. Pela minha experiência, sei que políticos são muito mais sensíveis à televisão, jornais e rádio do que aos sinceros esforços de um de seus cidadãos.