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O QUE SÃO RECAÍDAS? ACONTECEM POR ACASO?

O QUE SÃO RECAÍDAS ? ACONTECEM POR ACASO ?

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O QUE SÃO RECAÍDAS? ACONTECEM POR ACASO?
Por: Emílio M.

01). – Denominamos de recaída quando alguém abstêmio ou sóbrio graças à A.A. se embebeda. Isto pode acontecer nos primeiros dias, meses ou até depois de vários anos de abstinência ou sobriedade. Aqueles que passaram por esta desafortunada experiência, declaram que deram sorte para o azar, esquecendo sua impotência alcoólica e desenvolvendo excessiva confiança
quanto à sua capacidade para controlar a bebida. Porém, a maioria confessa seu afastamento das reuniões de A.A. e do convívio com outros membros. Atribuindo prioridade aos assuntos sociais, de negócios ou de outra natureza e exagerando nestas atividades cansaram e perderam suas defesas emocionais, mentais e espirituais. Alguns se supunham “curados”; e, esquecendo da
programação proposta pela nossa Irmandade, ingeriram o 1º gole, reativando a doença de que são portadores.

02). – Assim fica bem entendido que no alcoolismo, como em qualquer outra doença, a falta de cuidados com o tratamento, as recaídas acontecem, independente do tempo que se esteja sem beber. Sendo verdadeiro que, quanto maior o período de abstinência ou sobriedade, menor a possibilidade de recair, muito mais verdadeiro é que, a atribulação que ela imporá muito
maior será.

03). – Por experiência própria afirmo que nada, neste mundo, é mais calamitoso e tenebroso do que a recaída alcoólica. Ela sempre existiu e continuará existindo, pois nenhum de nós está curado ou vacinado contra o alcoolismo; assim, qualquer desleixo poderá ser fatal. Como a bússola aponta para o pólo norte – a mente do alcoólico, pela peculiaridade da doença,
aponta para o álcool. Para aqueles que nem eu, portadores de patologia associada (comorbidade). No meu caso graves surtos de depressão endógena do tipo bipolar (Outrora denominada de PMD – Psicose Maníaca Depressiva), os cuidados devem ser redobrados. Preciso tratar destas patologias concomitante, caso contrário o perigo é extraordinariamente maior e associar
isso, a prática dos princípios de A.A. deve ser levada a sério – Só Por Hoje – até a morte chegar, mas não pelo alcoolismo ativo.

04). – “A idéia de que de algum modo, algum dia, vai controlar e desfrutar da bebida constitui a grande obsessão de todo bebedor anormal. A persistência dessa ilusão é incrível. Muitos a perseguem até as portas da loucura e da morte”.

05). – A experiência de A.A. explica o que são as recaídas, que elas não acontecem por acaso e que podem ser evitadas desde que a manutenção da sobriedade tenha prioridade máxima.

06). – Considerando a gravidade de uma recaída permito-me tecer alguns comentários, que poderão ajudar-me e, quiçá, ajudar-te:

06A). – É indispensável eu estar alerta aos sinais que antecedem uma recaída, alguns dos quais passo a descrever: a) Coloco em segundo plano as reuniões de A.A; b) Compareço mas falo dos outros ou até de mim mesmo, porém fico na defensiva; c) Critico nossos servidores, a coordenação, a experiência, mesmo papo de insanidade eu ouvia sim, mas no botequim.

06B). – Substituo as idéias e sugestões da programação pelas minhas próprias. Ignoro que os Passos são Doze e não dois. Desejo praticar o programa ao meu modo, pois no meu caso pode ser diferente. Desenvolvo displicente autoconfiança, tipo – Beber? Eu? Jamais! Isso nem me passa pela cabeça, afinal já sofri tanto. Sou alcoólatra, mas não sou burro. Assim mantenho uma abstinência teimosa e sofrida. Faço pouco caso quanto a gravidade do alcoolismo, doença tríplice, incurável e fatal. Esqueço que é Só Por Hoje! Que só eu posso, mas não posso sozinho.

06C). – Na solução de problemas, julgo-me auto-suficiente e não recorro ao Terceiro Passo, até porque, nem acredito no Segundo.

06D). – Será que alguma vez disse ou pensei: “Eu faço o meu Quarto e Quinto Passos nas reuniões de A.A. ou só na presença de Deus?” Se assim for, me declaro irresponsável ou no mínimo mal informado. Isso é conversa fiada. Não liberta. Não funciona. Não resolve. Não alivia. Não gera sobriedade. Só tumultua e piora cada vez mais. Além disto o Quinto Passo é bem claro: “Admitimos Perante Deus, Perante Nós Mesmos E Perante Outro Ser Humano, A
Natureza Exata De Nossas Falhas”. E não perante Outros Seres Humanos. Existem particularidades que só revelo ao meu padrinho de Quinto Passo e a mais ninguém.

06E). – “Prontificamo-nos Inteiramente A Deixar Que Deus Removesse Todos Esses Defeitos De Caráter”. Esses, Quais? Aqueles que identifiquei no Quarto Passo; verbalizei no Quinto e agora, com a ajuda d’Ele, aos pouco, os eliminarei trabalhando o Sexto Passo.

06F). – Será que como posso semear a mais bela, formosa e rica de todas as sementes, a da humildade, preconizada no Sétimo Passo, em terreno infestado por ervas daninhas ou num matagal? Se minha casa está alugada para um mau, como posso alugá-la para um bom? Como posso obter humildade, se trapaceio até na programação de A.A. – questão de vida ou morte?

06G). – Como posso relacionar os prejudicados e repará-los? Se ainda me julgo o único prejudicado?

06H). – Como posso, fazer os inventários: Relâmpago, Diário e Periódico? Se continuo chafurdando no lamaçal deixado pela pior das enchentes, a
alcoólica?

06I). – Como posso desfrutar da quietude interior, da paz e da harmonia possibilitadas pela prece e a meditação? Se continuo me rebelando contra Deus? Como posso entrar em consonância com a Consciência Divina se continuo embrulhado nos meus defeitos e na própria vida?

06J). – Posso até levar a mensagem aos sofredores, mas e quanto ao despertar espiritual prometido para quem pratica o programa? Como posso exercer os princípios, inseridos nos Passos, em todas as minhas atividades diárias, se nem os conheço?

06L). – De muito longe, mas muito longe mesmo sobriedade é só parar de beber. Preciso modificar-me e para melhor. Fui convidado para o banquete dos Doze Passos. Não quero contentar-me apenas com as migalhas do Primeiro e parte do Décimo Segundo Passo. Seria insensatez.

06M). – Quero ser feliz, mas não sei como ou não faço a minha parte. Busco a felicidade nas coisas e não dentro de mim. Valorizo mais o ter do que o ser, o material do que o espiritual, a promoção do que a atração, a força de vontade do que a boa vontade, o intelecto do que a humildade e sou mais fachada do que alicerce. Assim raciocinando e agindo traço metas além do meu potencial, porque tenho medo de não ganhar o suficiente ou de perder aquilo
que já tenho. Desta forma exijo demais de mim e dos outros, afinal a felicidade está nas coisas e não em mim.

06N). – Desafortunadamente, penso, ajo e trabalho compulsivamente. Não doso minhas atividades. Exagero! Descuido dos horários das refeições, do sono e do lazer. Sinto cansaço físico e mental. Estou esgotado! E acaso não deveria estar?

06O). – Fico mal humorado, triste, ranzinza, azedo, irritado, tumultuado, confuso, preocupado, revoltado, com raiva, muito nervoso, frustrado e deprimido.

06P). – O ideal seria dedicar-me oito horas ao trabalho; oito horas entre atividades comunitárias, A.A. e lazer; finalmente oito horas para o necessário repouso.

06Q). – Se não estiver agindo assim é melhor PARAR, em inglês escreve-se HALT, Hunger = Fome; Anger = Raiva; Loneliness = Solidão e Tiredness = Cansaço. Portanto, diante da Fome; Raiva; Solidão ou isolamento e Cansaço ou fadiga. Pare, pois sinalizam perigos de recaída iminente.

06R). – Se eu continuar nesse porre seco, crio uma visão de túnel, isto é, tenho uma idéia empobrecida dos perigos que me cercam. Não consigo avaliar aquilo que está acontecendo comigo e em torno de mim. Começo a me queixar de A.A., das reuniões, dos companheiros, dos familiares, do trabalho, dos amigos, do clero, dos subalternos, dos superiores, dos governantes, da mídia, do cachorro, do gato, do mundo e acima de tudo de mim mesmo. Julgo que tudo está difícil. Que ninguém colabora comigo e, o pior, que nem me entendem. Os mecanismos de defesa se reinstalam. (Negação, racionalização, projeção, minimização…). Lembra-se deles ou já os esqueceu? Procuro saídas erradas como: viagens, praias, pescarias. (Posso e devo desfrutar desde lazer, desde que não seja como mera fuga geográfica).

06S). – Já sei tudo sobre a doença e à Irmandade. Sou professor em A.A. Mas, continuo com os velhos hábitos. Por puro orgulho, mascarado de vergonha, rejeito ajuda embora saiba que funciona sempre. Mas, só para os outros, não para mim. Daí caio na pior das armadilhas, para melhorar um pouco dos “nervos” uso calmantes – (Benzodizipínicos).

06T). – Mesmo quando tudo está bem e sinto euforia, preciso vigiar-me, pois a idéia de beber pode surgir e diluir os horrores do alcoolismo ativo, cedendo lugar à falsa idéia de que “uma só bebida” poderia não ser tão ameaçadora, perigosa ou fatal. Mas, repito, meu grande espinho – na carne, na mente e na alma – é a depressão profunda. Para aliviá-la recorro aos Benzodiazipínicos que, fatalmente, me induzem ao copo. Por gratidão registro aqui o zelo que os meus dois padrinhos me dispensam quando decido visitar o inferno. O padrinho Amaury com firmeza mas também com a polidez que sempre o caracterizou, habilidosamente, me persuade que retorne ao Grupo de origem e revele minha desventura. O padrinho Guilherme, que é padre me presta socorro com conotação Divina. Aborda-me com dureza, mas profundo amor cristão – indo
muito além do habitual. Ele faz lembrar aquela estampa de Jesus segurando no colo a ovelha que esteve perdida.

06U). – Agora me restam duas saídas: Retornar à A.A. e reconquistar a alegria de viver em paz ou mergulhar na desgraça bêbada cujo infortúnio conheço e os que me são queridos também.

06V). – Alguns anos atrás assistia, numa rede de TV, a maratona de idosas.
Aquela que corria em primeiro lugar, com uma diferença de mais ou menos 18 metros em relação à segunda colocada sofreu uma queda. O repórter perguntou-lhe: “A Sra. caiu?” Ela, rapidamente, enquanto se levantava respondeu: “Não Sr., eu não caí – eu me levantei!”.

06X). – Não posso esquecer que cada qual atrai o seu igual. E o meu igual está numa sala de A.A. ou no bar. Assim, apesar da eventual vergonha, da culpa e da humilhação reassumo a programação com maior empenho e honestidade. Compartilharei com os companheiros meu infortúnio sem minimizar. (Melhor no grupo que adotei). Nunca é demais lembrar que no A.A.
serei sempre muito bem vindo e compreendido. Só um insano pensa diferente.
Reconquistar a sobriedade perdida e a alegria de viver está ao alcance de qualquer recaído que o desejar.

06Z). – O grande antídoto para as recaídas é a prática do programa de A.A. na sua globalidade: Recuperação – Unidade – Serviço. Lembrando-me que a recaída é o fruto do acúmulo de emoções negativas não verbalizadas nas reuniões. Acúmulo que me leva à bebedeira seca ou “porre seco” e dai ao garrafão. Agora valorizarei muito mais a freqüência nas reuniões E as
experiências dos AAs. “Na Escola Da Vida Não Há Férias!” Penso que o companheiro que recai constantemente, mesmo freqüentando reuniões, corre o perigo de perder a esperança de tudo, até de A.A. Isso pode ser fatal. É brincar de roleta russa.

07). – O psiquiatra, Dr. William D. Silkworth foi pioneiro no tratamento do alcoolismo nos Estados Unidos da América do Norte. (Foi o médico que internou e tratou o Bill W.). E, na longínqua década de 30 escreveu o artigo que, pelo seu valor histórico transcrevo na íntegra:
“O Dr. Silkworth acreditou que essas recaídas têm ocorrido simplesmente porque o alcoólatra deixou de seguir as direções (A.A. Grapevine, Vol. III, Nº 8): ‘A “recaída” do alcoólatra, como é conhecida em Alcoólicos Anônimos, fornece um exemplo perfeito de como a natureza humana pode ser confundida com o comportamento do alcoólatra. A “recaída” é uma reincidência que
acontece após o alcoólatra ter parado de beber e tenha ingressado no programa de recuperação de A.A. As “recaídas” geralmente ocorrem nos primeiros estágios do aprendizado do alcoólatra em A.A., antes dele ter tempo de aprender o suficiente a técnica e a filosofia de A.A. para dar-lhe
uma base firme.
Porém as “recaídas” podem também ocorrer após um alcoólatra ter sido membro de A.A., por muitos meses, ou ainda por diversos anos e é neste tipo, sobretudo, que alguém encontra uma semelhança marcante entre o comportamento do alcoólatra e o das vítimas “normais” de outras enfermidades.
Ninguém está assustado pelo fato das reincidências não serem incomuns entre os pacientes tuberculosos cuja doença havia sido estacionada. Porém aqui está um fato surpreendente – a causa é geralmente a mesma daquela que conduz o alcoólatra para as “recaídas”… A mesma tragédia pode ser encontrada em pacientes cardíacos…
Em ambos os casos, cardíacos e tuberculosos, os atos que determinaram as reincidências foram precedidos por pensamentos errados. O paciente em cada caso ponderou a si mesmo e achou que estava curado da sua própria realidade perigosa. Ele deliberadamente se desviou do seu conhecimento de que havia sido vítima de uma doença muito séria. Tornou-se confiante em excesso e decidiu que não teria que seguir as instruções médicas. Agora, isto é precisamente o que acontece com o alcoólatra – o alcoólatra parado de beber, ou o alcoólatra em A.A. – que tem uma “recaída”. Obviamente ele pensa durante algum tempo, antes de tomar uma bebida e finalmente toma. Ele começa antes a pensar coisas erradas e mete-se finalmente no curso que o leva à uma “recaída”. Não há mais razão para atribuir a “recaída” ao comportamento do
alcoólatra do que há para atribuir uma recaída do tuberculoso ao comportamento do tuberculoso, ou um segundo colapso cardíaco ao comportamento do cardíaco.
A “recaída” do alcoólatra não é um sintoma de uma condição psicótica…O paciente simplesmente não seguiu as direções. Para o alcoólatra, A.A. oferece as direções. Um fator profilático vital, especialmente para o alcoólatra, é a emoção encorajadora. O alcoólatra que aprende algumas técnicas ou os mecanismos de A.A., mas não capta a filosofia ou o espírito,
pode cansar-se de seguir as direções; não porque ele seja um alcoólatra, mas porque ele é humano. As regras e os regulamentos aborrecem quase todo mundo, porque eles são restritivos, proibitivos e negativos. A filosofia de A.A., todavia, é positiva e proporciona ampla emoção encorajadora, um desejo encorajador de seguir voluntariamente as direções.’

08). – Transcrevi o artigo de um profissional da década de 1930, a seguir fragmentos de um artigo desta década. São do Dr. Lais Marques Da Silva, ex-presidente da JUNAAB, Custódio não alcoólico. Grande amigo dos AAs., e até hoje nosso incansável colaborador, escreveu ele:
“As recaídas são fatos observados com freqüência. Ignoramos na quase totalidade dos casos, suas causas e mecanismos, mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial a recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo…
Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as explicações habituais?
Não havia chegado ao fundo do poço. Não estava pronto. Não fez o que eu aconselhei, ou ainda, recaiu porque não freqüentava mais o grupo? Será que o grupo se detém sobre o programa de recuperação de A.A?” Mais adiante prossegue: “A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle”.

09). – Freqüentar ou não lugares onde servem bebidas? Pessoalmente evito ou vou acompanhado de um AA. Bill W. afirma: “Geralmente não evitamos um lugar onde haja bebida – se temos uma verdadeira razão para estar lá. Isso inclui bares, clubes noturnos, bailes, recepções, casamentos, até simples festinhas. Você vai notar que incluímos uma importante restrição. Assim,
pergunte a você mesmo: “Tenho alguma boa razão social, comercial ou pessoal para ir a esse lugar?” “Ou espero roubar um pouco de prazer vicário do ambiente?” Então, vá ou se afaste, de acordo com o que lhe parecer melhor.
Mas, antes de decidir, esteja certo de que sua base espiritual é sólida e de que seu motivo para ir é bom. Não pense no que você vai obter na ocasião.
Pense no que você pode levar. Se não tiver firme, talvez seja melhor você trabalhar com um outro alcoólico!”

11). – Permitam que explore um pouquinho mais esse particular. Já descobrimos muitas maneiras de lidar com situações onde outros bebem e podendo nos sentir bem sem beber. Não podemos impedir que os outros bebam, nem renunciar ao prazer da companhia deles, embora seja mais sensato estar com quem não bebe. As pessoas que não podem comer camarão, peixe, nozes,
morangos ou doces não se escondem em cavernas. Porque o faríamos nós?

11A). – No inicio da abstinência, é recomendável mantermo-nos afastados dos copos e dos lugares onde bebem. Podemos dar desculpas para não ir às festas onde beber é o grande divertimento. É importante afastarmo-nos destas situações se elas nos causam mal estar. Tendo mesmo que ir e sabendo de antemão a hora que começa a festa, podemos chegar mais ou menos quando o jantar é servido. Muitos de nós fazemos isto. Se houver uma noitada de copos depois do jantar é melhor sair mais cedo. Poucos ou ninguém notará nossa saída. Chegando antes do jantar, dirijo-me ao bar e peço um refrigerante num copo com uma rodela de limão e gelo. Ninguém saberá se é ou não uma bebida alcoólica. Assim posso confraternizar sem precisar suportar as investidas do garção e sua bandeja. A experiência acumulada de A.A. sugere várias formas de como lidar com êxito nestas situações. Ademais, qualquer companheiro mais
antigo pode dar dicas de como lidar melhor com essas armadilhas. Se preferir dar desculpas, as seguintes parecem razoáveis. Não estou bebendo por razões de saúde. Estou fazendo dieta. Estou tomando antibiótico. O álcool me causa um tremendo mal estar. Já bebi tudo o que tinha direito. Já bebi tudo o que podia e descobri que não me cai bem. Tenho uma espécie de alergia ao álcool.
Muito obrigado, hoje não quero beber nada.

11B). – Atualmente, minha explicação é muito mais direta, honesta, sincera, eficaz – não bebo porque sou portador da doença do alcoolismo e, se eu beber um único gole não consigo mais parar, mesmo depois de estar completamente bêbado. Com esta explicação já recebi vários pedidos de ajuda. “Olha meu pai, minha mãe, meu tio, meu cunhado …” e por ai afora.

12). – Os relatos dos recaídos são estarrecedores. A maioria detona tudo aquilo que ainda haviam preservado. Muitos não suportando tamanha desventura se suicidam. O desespero, o transtorno emocional, espiritual e até mental e o agravamento da insanidade é tão intenso que os impedem de raciocinar que todo suicida sempre mata a pessoa errada. Citarei alguns casos:

12A). – Um padre, 18 anos sóbrio, recaiu numa tarde. Na madrugada seguinte enforcou-se na sacristia da igreja.

12B). – Um bom pai, de ótima família e reputação ilibada recaiu num final de semana. Na noite de domingo enforcou-se num pessegueiro.

12C). – Um consagrado jornalista, detentor do maior premio do jornalismo brasileiro, bebeu e na mesma noite suicidou-se com um tiro na cabeça.

12D). – Um companheiro magnífico, no desespero entre beber ou não, ao invés de pedir ajuda, jogou-se do alto de um prédio.

12E). – Outro companheiro bebeu. Internou-se e não suportando a desesperança, suicidou-se cortando as duas jugulares com um pedaço de vidro dentro do hospital.

12F). – Um homem bem sucedido, em quase tudo. Estava sem beber, mas sem a programação. Sentia-se muito infeliz. Enforcou-se numa viga da garagem.

13). – Muitas centenas de companheiros que recaíram, não tiveram uma segunda oportunidade. Alcançaram a morte bebendo. A insanidade reinstalada é tão traiçoeira que impede enxergar a saída que, sabemos estar logo ali.

14). – “Sabemos que enquanto o alcoólico se mantém afastado da bebida, ele geralmente reage do mesmo modo que as outras pessoas. Estamos igualmente convictos de que, quando ele ingere álcool, alguma coisa acontece, tanto no sentido físico como no mental, impedindo-o virtualmente de parar. A experiência de qualquer alcoólico confirmará isso plenamente. Seriam desnecessárias e acadêmicas essas observações, se o indivíduo nunca tomasse o primeiro gole, pois este é o que põe em movimento o terrível círculo vicioso…”.

15). – Nossa maior ameaça, desde os primórdios de A.A., é a recaída. De sorte que resumirei alguns relatos do Livro Azul, inicio com a catastrófica relutância de um companheiro, homem inteligente, de boa família, honrado, querido, bem casado, pai admirável, filhos educados, bem relacionado, dinâmico, trabalhador, responsável, honesto, recordista na 2ª Guerra Mundial, exímio vendedor, dono de uma lucrativa revenda de automóveis, normal em tudo, salvo, seu alcoolismo. Quando bêbado tornava-se violentíssimo. Foi internado num manicômio. Após sua alta, Bill W., lhe contou sobre seu alcoolismo e recuperação. Rapidamente parou de beber.
Restabeleceu sua família. Assumiu o cargo de vendedor na empresa da qual fora proprietário. Tudo andou bem durante algum tempo. Não se desenvolveu espiritualmente. Veio o desencanto. Embebedou-se umas seis vezes em rápidas sucessões. Em cada recaída, analisava as possíveis motivações. Ele concluiu ser um alcoólico típico e que se continuasse bebendo voltaria ao manicômio e perderia tudo. Apesar disso bebeu com a desculpa, de ter discutido com o
chefe. Saiu para visitar um cliente. Entrou num restaurante para comer algo.
Não pensava em beber. De repente teve a idéia de misturar uma dose de uísque no copo de leite. Sentiu-se fortalecido e repetiu a receita várias vezes.
Assim, retornou ao sanatório com a ameaça de perder a própria vida.

16). – Podemos chamar isso de loucura. É inacreditável como a obsessão pelo álcool dribla até a inteligência privilegiada. Já atribuímos nossas recaídas a circunstâncias tais como: depressão, ciúme, inquietação, irritabilidade, nervosismo, cólera e etc. Parecem boas razões, mas falsas – face ao sofrimento que a bebida exige e impõe.

17). – O comportamento do alcoólico é tão louco como alguém com o impulso de ziguezaguear pelo meio do trânsito intenso. Fica feliz correndo entre os carros em movimento; continua se arriscando, apesar das recomendações contrárias. É classificado como esquisito. Sofre inúmeras fraturas; interna-se para tratamento; recebe alta e continua com sua maluquice, até fraturar a coluna ou o crânio e ficar paraplégico ou morrer. A obsessão pelo álcool supera tudo aquilo que podemos imaginar. Alguns podem julgar a comparação exagerada e louca. Mas, não é. Nós que mordemos a isca do alcoolismo sabemos que, basta substituir a palavra ziguezaguear pelo 1º
gole. Todavia, apesar de tão bem informados sobre a doença, por que não o evitamos? A compulsão é tão intensa e traiçoeira que faz lembrar uma forma de loucura, ou qual outra designação um quadro de recaída poderia receber?
Qual será a razão deste comportamento suicida? Sabendo ele, pela própria experiência, que um único gole o leva a catastróficos resultados, e ao mesmo cortejo de sofrimentos e humilhações. Cadê aquela força de vontade que quase nunca nos falhou em relação a outros assuntos? Este é um enigma para o qual ainda não temos uma resposta satisfatória. Todavia, sabemos que se o
alcoólico evitar a bebida, o que é plenamente possível, (todos já comprovamos isso) poderá reagir como outro homem qualquer ou até melhor. Com o 1º gole acionamos o terrível circulo vicioso de insanidade física, mental e espiritual que dificulta, cada vez mais, o desejo de parar de beber.
Qualquer AA poderá corroborar esta verdade. Podemos apresentar inúmeras desculpas para justificar uma recaída; algumas até com certa lógica, porém todas carecem de fundamentação, face ao tremendo sofrimento que exigem e impõem. Que diríamos para alguém que, sentindo uma brutal dor de cabeça, a golpeasse com uma marreta para aliviar a dor? O alcoólatra por longo tempo alimenta a idéia maluca de que um dia poderá controlar a bebida; até
descobrir ser isso absolutamente impossível. Para nós e, principalmente, para os não alcoólicos este é um fato de difícil compreensão. Se queimarmos parte do nosso corpo ou levarmos um grande choque elétrico teremos muito cuidado com o fogo e a eletricidade; e por que, em relação à bebida alcoólica, nosso comportamento é tão diferente e até inconcebível?
Ingenuamente e sinceramente iludidos juramos beber somente uma e, após a terceira dose, esmurramos o balcão dizendo: ‘Estou novamente embriagado, que posso fazer ?..Bem pararei na sexta dose…ou então… De que adianta parar agora?”

18). – As peripécias de Frederico, bom filho, bom namorado, bom marido, bom pai de filhos bem encaminhados, bom amigo, bom profissional, dono de uma empresa, bem relacionado, mas também bom de copo. Internou-se para tratar “dos nervos”. Era sua primeira experiência deste tipo. Sentia-se envergonhado e humilhado. O médico lhe informou da gravidade do seu
alcoolismo. Foi abordado; não aceitou nosso programa. Tinha certeza que, com a humilhação e arrependimento impostos, não beberia até o fim de sua vida.
Ademais, seu conhecimento e firme determinação, seriam a solução definitiva do problema. Não deu mais notícias, até o dia em que se internou novamente e mandou chamar Bill W., contando-lhe a história que transcrevo na íntegra:”Fiquei muito impressionado com o que vocês me explicaram sobre o alcoolismo e, francamente, não acreditei que seria possível eu tornar a beber. Apreciei bastante suas idéias sobre essa loucura momentânea que antecede o 1º gole,
mas confiava em que não podia acontecer a mim depois do que havia aprendido.
Raciocinei que eu não era um caso tão avançado, como a maioria de vocês, e que normalmente havia tido êxito na resolução dos meus problemas pessoais.
Portanto, eu teria êxito onde vocês haviam fracassado. Pensei ter toda razão em sentir-me confiante e que era somente questão de pôr em prática minha força de vontade e ficar atento”.
“Neste estado mental prossegui com meus negócios e durante algum tempo tudo andou bem. Não me era difícil recusar bebidas e comecei a pensar que talvez houvesse tomado muito a sério um assunto tão simples. Um dia fui a Washington para apresentar um depoimento sobre contabilidade a um órgão do governo. Já havia estado fora de minha cidade durante este período de sobriedade, de modo que não havia nada de excepcional nessa viagem.
Fisicamente, sentia-me ótimo. No negócio, tudo correu bem; estava contente e sabia que os meus sócios também estariam. Era o fim de um dia perfeito, sem uma nuvem no horizonte.
Voltei ao meu hotel e me vesti para o jantar, sem nenhuma pressa. Ao entrar na sala de refeições, veio-me à mente a idéia que seria delicioso tomar um par de coquetéis com o jantar. Só isso. Nada mais. Pedi um coquetel e minha comida. Depois, pedi mais um coquetel. Após o jantar, decidi dar um passeio.
Quando voltei ao hotel, achei por bem tomar só ‘um’ antes de deitar, e entrei no bar. Lembro-me haver de tomado vários outros nessa noite e muitos na manhã seguinte. Tenho uma vaga lembrança de estar num avião, rumo a Nova Iorque, e de encontrar um amigável chofer de táxi no aeroporto, ao invés de minha esposa. O chofer me dirigiu por vários dias. Sei muito pouco sobre para onde fui, o que fiz ou o que falei. Então, veio o hospital, com o terrível sofrimento físico e mental.
Logo que recuperei minha faculdade de pensar, rememorei cuidadosamente essa noite em Washington. Não somente me havia descuidado, como não havia oposto a mínima resistência ao 1º gole. Desta vez não havia considerado as conseqüências, nem por um instante. Havia começado a beber tão descuidadamente, como se os coquetéis fossem refrescos. Agora lembrei-me que meus amigos alcoólatras me haviam previsto que, se eu tivesse uma mente alcoólica, o momento e o lugar surgiriam e eu iria beber novamente. Haviam dito que embora eu construísse uma defesa, ela algum dia cairia face a alguma desculpa insignificante para beber. Bem, foi precisamente isso o que aconteceu, e, mais do que isso, o que havia aprendido sobre o alcoolismo nem sequer me veio à mente. Soube, a partir desse momento, que eu tinha uma
mente alcoólica. Vi que a força de vontade e o conhecimento próprio não me viriam ajudar nesses estranhos momentos cegos. Nunca havia entendido as pessoas que diziam não conseguir dominar um determinado problema. Agora, entendia.
Dois membros de A.A. vieram visitar-me. Sorriram – fato que não aprecei muito – e depois me perguntaram se eu me considerava um alcoólico e se desta vez me encontrava realmente superado. Tive que concordar com ambas as proposições. Deram-me uma porção de provas de que uma mentalidade alcoólica, como a que eu havia exibido em Washington, era uma condição desesperada.
Citaram casos às dúzias de suas próprias experiências. Este processo apagou a última chama de convicção de me sair vitorioso sozinho.
“Então, eles me expuseram a solução espiritual e o programa de ação que cem deles haviam seguido, com êxito. Embora não fosse beato, as suas proposições não eram difíceis de aceitar intelectualmente. Mas o programa de ação, embora inteiramente lógico, era um tanto drástico. Significava que eu teria de atirar pela janela os conceitos de minha vida inteira. Isso não foi
fácil. Mas a partir do momento em que decidi pôr em prática o programa, tive a curiosa sensação de que minha condição alcoólica estava remediada, como de fato já se provou que estava”.
“Igualmente importante foi a descoberta de que os princípios espirituais resolveriam todos os meus problemas. Desde aquele dia entrei num modo de vida mil vezes mais satisfatório e, espero, muito mais útil do que o viver anterior. Meu antigo modo de vida não era mau, porém, não trocaria os meus melhores momentos pelos piores que agora tenho. Não voltaria àquela vida,
nem que pudesse”.

19). – Outro alcoólico parou de beber aos trinta anos, porque tinha grande ambição profissional. Obteve considerável sucesso. Aposentou-se aos cinqüenta e cinco anos. Reativou seu alcoolismo. Dois meses depois se internou, confuso e humilhado, num nosocômio. Apesar dos internamentos, sua fortuna e invejável força de vontade – morreu de alcoolismo, logo após. Esta
poderia ser mais uma grande lição entre milhões de outras. Para sermos enterrados em sobriedade precisaremos sepultar a esperança de que um dia seremos imunes ao álcool. Para sermos alcoólatras e alcançar a morte, não precisamos beber muito e nem por muito tempo.

20). – O alcoólatra é como a cana, ela só dá o açúcar depois de passar por grandes apertos. Se alguém disser para um canceroso, evite comer verduras e ficará curado Ele jamais as comerá e passará longe de gramados por serem verdes e dos quartéis, só porque lá usam roupa verde – oliva. Se, lhe fosse dito – assista duas reuniões mensais e deterás o câncer, ele participaria de
duas diárias. Por outro lado o alcoólatra duvida até daquilo que lhe é dito por técnicos qualificados. Bill, afirmou:
“O alcoolismo, não o câncer, era minha doença, mas qual a diferença? O alcoolismo também não era um consumidor do corpo e da mente? O alcoolismo levaria mais tempo para matar, mas o resultado era o mesmo. Então decidi, que se houvesse um grande Médico que pudesse curar a doença do alcoolismo, o melhor que eu poderia fazer era procurá-Lo imediatamente”.

21). – Todos nós conhecemos Os Doze Passos de A.A. sugeridos para a recuperação, talvez muitos não conheçam as seguintes “armadilhas” para uma dolorosa recaída:
“A.- Comece a faltar às reuniões por qualquer motivo, real ou imaginário.
B.- Critique os métodos utilizados por outras pessoas que não estejam em completo acordo com os que você emprega. C.- Alimente a idéia de que algum dia você poderá beber novamente e converter-se em bebedor controlado; C.- Deixe que os outros membros do seu grupo façam o trabalho do Décimo Segundo Passo por você, já que você vive muito ocupado. E.- Adquira consciência de sua “Antigüidade” e olhe cada recém-chegado com ceticismo e ironia. F.-
Sinta-se tão satisfeito com seus pontos de vista acerca do programa, que se considere um “velho mentor”. G.- Organize dentro do seu grupo um “clã”, um “grupinho” de poucos membros que absoluta e totalmente concordem com suas idéias. H.- Diga em segredo ao recém-chegado que você não tem necessidade de levar a sério alguns dos Doze Passos. I.- Permita que se aprofunde em sua mente, mais e mais, a grande ajuda que você presta a outras pessoas e não trate de lembrar de que o programa de A.A. está ajudando você. J.- Desqualifique de imediato o membro que haja sofrido uma recaída. L.- Cultive o hábito de emprestar ou pedir dinheiro emprestado a seus companheiros e comece a afastar-se das reuniões para evitar encontros desagradáveis. M.-
Convença-se de que o programa de vinte e quatro horas é vital para os “novos”, porém, você já “superou” esta etapa”. FUJA DELAS).

22). – Não preciso entrar em pânico caso surja uma leve vontade de beber, mas, se for compulsão preciso pedir ajuda urgente, nem que ela seja por telefone.

23). – O fato concreto é que eu devo estar preparado para o revezes da vida.
Chova ou faça sol, não preciso beber. Aconteça em minha família um nascimento ou um óbito não precisa beber Observando a beleza da natureza, um abalo sísmico ou um grande terremoto não preciso beber. Na paz ou na guerra não preciso beber. O relato que transcrevo, me fortalece:
“No dia em que a calamidade de Pearl Harbor caiu sobre os Estados Unidos, um grande amigo de A.A. – o padre Edward Dowling, que não era alcoólico, mas tinha sido um dos fundadores do esforçado grupo de A.A., em St. Louis estava passando por uma rua dessa cidade. Como muito de seus amigos – geralmente sóbrios – já tivessem bebido para esquecer as implicações do desastre de Pearl Harbor, o padre Ed estava angustiado com o pensamento de que seu
querido grupo de A.A. provavelmente fizesse o mesmo”.
Então um membro, sóbrio há menos de um ano, se pôs a caminhar junto e entabulou com o padre Ed uma animada conversa – principalmente a respeito de A.A. O padre Ed viu, com alívio, que seu companheiro estava perfeitamente sóbrio.
“Como é que você não tem nada a dizer sobre Pearl Harbor? Como você pode suportar semelhante golpe?”
“Bem, respondeu o novato, cada um de nós de A. A. já teve o seu Pearl Harbor particular”. Logo, por que deveríamos – nós, bêbados – nos sentir derrotados com esse golpe?”

24). – Nunca fiz e jamais farei a apologia da recaída, porém ouso dizer que ela tem uma “virtude”, a de convencer um cabeça dura – que nem eu – que o 1º gole estraçalha qualquer alcoólico. Bill W. escreveu uma carta para um companheiro recaído. Ela corrobora com minha assertiva. Eis parte dela:
“Nosso crescimento espiritual e emocional em A.A. não depende tanto do sucesso como de nossos fracassos e contratempos. Se você tiver isso em mente, acho que sua recaída terá o efeito de chutá-lo – escada acima, em vez de para baixo”.
“Nós AAs, não tivemos nenhum professor melhor do que a velha Senhora Adversidade, a não ser naqueles casos em que recusamos o ensinamento”.

25). – Transcrevo o relato abaixo por parecer-me patético, dramático e hilariante: “Então, certo dia, Morgan, nosso homem irlandês, teve uma idéia.
Ele disse: “Já trabalhei no ramo da publicidade e tinha um bom relacionamento com as emissoras de rádio. Conheço muito bem Gabriel Heatter e estou certo de que ele nos daria uma ajuda”. Assim, ele foi ver Heatter e logo voltou todo sorridente. “Garantido”, ele disse, “Gabriel vai nos
ajudar”. Naquela época, o Sr. Heatter estava numa rede nacional de rádio com um programa chamado “Nós, o povo”, que consistia de entrevistas com a duração de três minutos. Ele logo se interessou por nossa história. Ele planejou uma entrevista para Morgan, a fim de que esse descrevesse rapidamente sua queda e sua recuperação, para então lhe perguntar a respeito
de alguns fatos sobre A.A. e depois fazer uma propaganda do livro. Achamos que isso era simplesmente formidável. E ainda mais que seria divulgado por uma rede de alcance nacional.
…Nesse meio – tempo, Gabriel Heatter tinha marcado a data para a entrevista de Morgan. Faltava apenas uma semana, e todos nós estávamos nervosos. Tendo em mente alguns fracassos anteriores, alguém mencionou uma nota de precaução: – o que aconteceria se Morgan, recentemente com alta do sanatório, estivesse bêbado no dia de sua entrevista radiofônica! Uma dura experiência nos dizia que isso era possível. Como poderia tal calamidade ser evitada?
Muito gentilmente sugerimos ao ressentido Morgan que ele teria que ser trancado num lugar, até a noite da entrevista radiofônica. Foi necessário que Henry apelasse a todas as suas astúcias de vendedor para convencê-lo, porém, o conseguiu. A única coisa que faltava resolver era onde e como poderíamos trancá-lo. Henry (Foi ateísta) que tinha agora sua fé totalmente restaurada, solenemente declarou que “Deus proveria”. Ele se lembrou de que um dos prósperos recém – chegados era sócio do Clube Atlético de Downtown.
Se pagássemos as despesas, poderíamos usar um quarto com duas camas?
Resmungando espalhafatosamente, Morgan foi conduzido para o cativeiro.
Durante vários dias, revezamos para vigiá-lo durante vinte e quatro horas, nunca lhe permitindo que saísse do alcance de nossa vista.
… Uma hora antes da transmissão radiofônica, todos os nossos membros e familiares reuniram-se ao redor de seus rádios para esperar pelo grande momento. Tal como tinha sido previsto, Gabriel falou exatamente na hora marcada. Em todos os lares de nossos membros de New York, sentiu-se alívio quando a voz de Morgan foi ouvida. Ele tinha conseguido chegar ao local da entrevista, sem estar bêbado. …”

26). – Hoje não precisamos ficar trancafiados para evitarmos o 1º gole.
Dispomos de todos os recursos espirituais no Programa de vida sugerido por A.A..
Um companheiro questionou dois especialistas em alcoolismo, sobre: Pedro e
Paulo pararam de beber no mesmo dia. Pedro com ajuda de A.A. e Paulo não.
Dez anos sem beber se passaram, quando ambos se encontraram e juntos beberam. O sofrimento de Paulo foi insignificante se comparado com o de Pedro. Porque Pedro sofreu tanto? Com certeza qualquer membro de A.A. tem a resposta. A minha é que: Pedro transitou pelo caminho da espiritualidade e da busca de um melhor equilibro emocional; já tinha boa conscientização e
razoável conhecimento da doença e, isto implica em mais responsabilidade, logo o tormento é muito maior.
E Paulo? Paulo continuou vivendo na “ignorância”; tenho afirmado: bendita e santa ignorância.
Muitos dos que recaem indagam por que uma recaída exige e impõe tanto sofrimento? No meu entendimento e experiência – por inúmeras razões, principalmente, por eu ter conhecido os dois lados da moeda: a desgraça bêbada e a graça da alegria em sobriedade; porque, recaindo, percebo que neutralizo meu processo de crescimento espiritual e emocional; a desesperança torna-se minha triste aliada; reinicio uma caminhada rumo à deterioração física e a morte está à minha espreita. E, ainda, porque no alegre convívio com os companheiros interei-me da fatalidade do alcoolismo e criei consciência das cruéis armadilhas que nele se escondem; desenvolvi a
convicção de que é muito melhor curtir a sobriedade do que morder a isca envenenada e amarga do alcoolismo. Certamente todos já ouvimos: “Não troco os meus piores dias em sobriedade, pelos melhores no alcoolismo ativo”.
Naturalmente, todos sabemos que é Só Por Hoje! E só pela graça de Deus e até quando Ele quiser! Mas, que bom seria se este – Só Por Hoje – que amanhã ontem será, pudesse somar-se, progressivamente, até quando estiver num lugar onde o alcoolismo não será mais ameaça e muito menos problema.

Bibliografia: “Livro Azul Edição Brasileira” – “Livro Azul Edição
Portuguesa”. “Na Opinião Do Bill”, “44 Pergunta e Resposta”, “AA Atinge a
Maioridade”, “Os Doze Passos”, Revistas Vivência”, “Grupos Online:
AA-Sobriedade e AABR”, “Coletânea vol. I e II” – F., Aluízio. Temáticas de
Emílio M. e “O Tratamento do Alcoolismo” Prof. Edwards, Griffith.

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PARTICIPAÇÃO COM RESPONSABILIDADE

” PARTICIPAÇÃO COM RESPONSABILIDADE ”

A RESPONSABILIDADE DOS GRUPOS COM OS SERVIÇOS MUNDIAIS
Os grupos de A. A. têm hoje em dia a responsabilidade final e autoridade suprema pelos nossos serviços mundiais. (Conceito I)

A RESPONSABILIDADE DELEGADA (CONFERÊNCIA/ JUNTA DE CUSTÓDIOS)
Em benefício de A. A. como um todo, a nossa Conferência de Serviços Gerais tem a principal responsabilidade de manter os nossos serviços mundiais. Mas a Conferência também reconhece que a principal iniciativa e responsabilidade ativa, na maioria desses assuntos, deveria ser exercida principalmente pelos Custódios, membros da Conferência quando eles atuam entre si como Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos. (Conceito VI)

A RESPONSABILIDADE NO SERVIÇO
Quase todas as sociedades e governos, hoje, apresentam sérios desvios do princípio muito sadio de que cada responsabilidade operacional deve ser acompanhada de uma autoridade correspondente para acompanhá-la. É por isso que temos tido tanto trabalho em discussões precedentes ao definir as autoridades e responsabilidades dos Grupos de A. A., da Conferência, dos Custódios e das nossas corporações de serviço ativo. Tentamos fazer, certamente, com que a autoridade em cada um desses níveis seja igual à nossa responsabilidade. Então tentamos relacionar esses níveis entre si de tal maneira que esse princípio seja mantido completamente. (Conceito X)

A RESPONSABILIDADE COM A AUTO-SUFICIÊNCIA
Para que A. A. possa manter-se livre de quaisquer influências externas, precisamos assumir a responsabilidade com a manutenção dos nossos grupos e organismos de serviços em todos os níveis.
“Os serviços abrangem, desde a xícara de café até a Sede de Serviços Gerais para a ação nacional e internacional. A soma de todos esses serviços é o Terceiro Legado de A. A. Tais serviços são absolutamente necessários para a existência e crescimento de A. A. Aspirando simplicidade, muitas vezes nos perguntamos se poderíamos eliminar alguns dos serviços atuais de A. A. seria maravilhoso não se ter preocupações, nem políticas, nem despesas e nem responsabilidades! Mas isso é apenas um sonho acerca de simplicidade; isso, na verdade, não seria simplicidade. Sem seus serviços essenciais, A. A. se converteria rapidamente numa anarquia disforme, confusa e irresponsável. ” (A. A. Atinge a Maioridade, pg. . 122; 5ª Ed, 2001)

A RESPONSABILIDADE NO SERVIÇO DO GRUPO
“A. A. jamais deverá organizar-se como tal; podemos porém criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços” (Nona Tradição)

A RESPONSABILIDADE DOS SERVIDORES DE CONFIANÇA
Não obstante, os grupos de A. A. reconheceram que para os propósitos dos serviços mundiais, a “Consciência de Grupo de A. A.”, como uma totalidade, tem certas limitações. Não pode atuar diretamente em muitos assuntos de serviço porque não está suficientemente informada sobre os problemas em questão. É também verdade que a Consciência de Grupo, durante de muito distúrbio, não é sempre o guia mais seguro, porque temporariamente podem impedir o seu funcionamento de forma inteligente e eficiente. Portanto, quando a Consciência de Grupo não pode ou não deve atuar diretamente, quem deveria atuar no seu lugar? A segunda parte da Segunda Tradição nos dá a resposta quando descreve os líderes de A. A. como “servidores de confiança”. Esses servidores devem estar sempre prontos para fazer pelos Grupos o que os grupos não podem ou não devem fazer por si mesmos.
Conseqüentemente, os servidores tendem a usar as suas próprias informações e julgamento, às vezes a ponto de discordar de uma opinião mal informada ou preconcebida do Grupo.
Portanto, será observado que nos serviços de mundiais de A. A. confiamos numa pequena porém idônea minoria — nos cento e tanto membros da C. S.G. — para atuar como Consciência de Grupo de A. A., em muito dos nossos assuntos dos nossos serviços. Como em outras sociedades livres, confiamos nos nossos servidores (cf. Conceito III), embora sabendo que na eventualidade de falharem nas suas responsabilidades ainda teremos ampla oportunidade para adverti-los ou substituí-los. (Conceito V)

A RESPONSABILIDADE NA RECUPERAÇÃO
“Algumas pessoas se opõem firmemente à posição de A. A. de que o alcoolismo é uma doença. Sentem que esse conceito tira dos alcoólicos a responsabilidade moral. Como qualquer A. A. sabe, isso está longe de ser verdade. Não utilizamos o conceito de doença para eximir nossos membros da responsabilidade. Pelo contrário, usamos o fato de que se trata de uma doença fatal para impor a mais severa obrigação moral ao sofredor, a obrigação de usar os Doze Passos de A. A. para se recuperar”. (Na Opinião do Bill – pág. 32)

A RESPONSABILIDADE NO APADRINHAMENTO
“Todos os padrinhos são necessariamente líderes. Os valores são tão grandes quanto podem ser. Uma vida humana e geralmente a felicidade de toda uma família está em jogo. O que o padrinho diz ou faz, como prevê as reações dos seus afilhados, como controla e se apresenta bem, como faz as suas críticas e como controla bem o seu afilhado, através de exemplos espirituais pessoais – essas qualidades de liderança podem constituir toda a diferença entre a vida e a morte”. (Conceito IX)

A RESPONSABILIDADE COM A TRANSMISSÃO DA MENSAGEM
Quando qualquer um, seja onde for,
estender a mão pedindo ajuda,
quero que a mão de A. A.
esteja sempre ali.
E por isto: Eu sou responsável”.

— Declaração do 30º aniversário
Convenção Internacional de 1965

“(…) O Escritório de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos é muito mais do que o principal portador da mensagem de A. A. ele tem apresentado A. A. ao mundo conturbado em que vivemos. Tem encorajado a propagação de nossa Irmandade em todos os lugares. A. A. World Services, Inc. está pronto para atender às necessidades especiais de qualquer grupo ou indivíduo isolado, seja qual for a distância ou o idioma. Seus muitos anos de acumulada experiência estão disponíveis para todos nós. (…)

Esse é o legado de responsabilidade dos serviços mundiais que nós, os membros mais antigos que vão desaparecendo, estamos deixando a vocês, os A.As de hoje e de amanhã. Sabemos que vocês vão guardar, sustentar e estimar esse legado mundial como a maior responsabilidade coletiva que A. A. já teve. (Bill W. – Na Opinião do Bill, pág. 332)

Isaias

Bibliografia:

– Doze Conceitos para Serviços Mundiais
– Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade
– Doze Passos e Doze Tradições
– Na Opinião do Bill

CRESCIMENTO E LIDERANÇA A PARTIR DA INTERPRETAÇÃO E ESTUDO DOS CONCEITOS

1° Ciclo dos Doze Conceitos Para SERVIÇOS MUNDIAIS
APRESENTAÇÃO
“ CRESCIMENTO E LIDERANÇA A PARTIR da INTERPRETAÇÃO E ESTUDO Dos CONCEITOS”.
AUTORIA :- WILMA –DF

“ TRADUZEM os “DOZE CONCEITOS PARA SERVIÇOS MUNDIAIS”,UM número de Princípios que se tornaram tradicionais nos nossos serviços .São uma Interpretação da estrutura de serviços mundiais de A.A. ,que mostram a evolução pela qual eles chegaram á sua forma atual .EM Síntese ,pretendem os Conceitos registrar o “ porquê” da nossa estrutura de tal maneira que a valiosa Experiência do Passado e as lições tiradas dessa Experiência Nunca devam ser esquecidas ou perdidas”

“ Os Conceitos tentam apresentar uma Estrutura na qual todos possam trabalhar em prol de bons resultados com o mínimo de atritos .”
“ CADA Conceito é um grupo de Princípios relacionados ,que se inicia dando aos Grupos De A.A. a Responsabilidade Final e a Autoridade Suprema pelos nossos Serviços Mundiais ,consubstanciadas pelas Razões centralizadas na SEGUNDA TRADIÇÃO .”

“ Para conseguir a ação eficiente , os Grupos precisam delegar uma Autoridade operacional ,escolhendo que tenham plenos poderes para falar por e atuar por eles , onde a CONSCIÊNCIA de Grupo possa ser ouvida .È onde identificamos o Princípio da ampla Autoridade e Responsabilidade delegadas aos “servidores de Confiança”, respeitando-se a clara Tradição Dois DE A.A. transferindo-se para a Conferência de Serviços Gerais De A.A. .,a Verdadeira voz ativa e a Consciência efetiva de toda a nossa Irmandade “.
“Para que em todos os níveis possa haver um Equilíbrio contínuo no relacionamento perfeito entre a Autoridade Suprema e a Responsabilidade delegada , atitudes teriam que ser definidas . O “ Direito de DECISÃO “dá aos nossos Líderes de Serviço uma discrição adequada e Liberdade de Ação , competindo-lhes dentro do Sistema dos seus Deveres e Responsabilidades , a ação de como eles podem interpretar e aplicar a sua própria autoridade e responsabilidade para cada problema
ou situação em particular , conforme elas aparecem .Essa espécie de Liderança moderada deveria ser a essência do “ DIREITO de DECISÃO”.
“ Todos nós desejamos profundamente tomar parte . “Queremos um relacionamento de A.A. em SOCIEDADE IRMANADA ..” É o nosso ideal mais importante , que a união espiritual de A.A. nunca inclua membros Considerados de Segunda Classe”
“ O Direito de Participação é um corretivo a autoridade Suprema , porque atenua as suas asperezas ou o seu mau emprego .” O Direito de Participação dá a cada servidor o direito de Voto de acordo com a sua Responsabilidade .e a Participação garante além do mais que cada junta de serviço ou Comitê tenha sempre a posse de diversos elementos e pessoas com talento e que assegurarão um funcionamento eficiente”.
“ Os Direitos de Apelação “ e de “PETIÇÃO “, certamente , têm em vista o problema total da proteção e melhor aplicação possível dos sentimentos e da Opinião das minorias “.Protege e encoraja a Opinião da Minoria e dá certeza que as queixas podem ser ouvidas e tratadas adequadamente .Acreditamos que jamais estaremos sujeitos à Tirania ,seja das MAIORIAS ou DAS MINORIAS , desde que cuidadosamente definamos o Relacionamento entre elas.”

“ O maior perigo da Democracia sempre será a “ Tirania “de uma Maioria apática ,egoísta ,não Informada ou mal Humorada .Acreditamos que o espírito da Democracia sempre sobreviverá na nossa Irmandade e na Estrutura de nossos Serviços , a despeito dos contra-ataques que serão desfechados . Felizmente, não estamos obrigados a manter uma administração que obrigue obediências e imponha Punições .Precisamos apenas manter no Alto nossas Tradições , que constitua e exerça as
nossas diretrizes nelas contidas, de maneira a levar continuamente a nossa Mensagem àqueles que sofrem.”
“ São os custódios que garantem a boa administração da Junta de Serviços Gerais,tendo Liberdade e de Ação na ausência da Conferência . Deles é esperada uma Liderança da formulação política de A.A. e sua adequada execução .Eles são os guardiões ativos das nossas DOZE TRADIÇÕES .Eles devem funcionar quase exatamente como os Diretores de qualquer organização de Negócios .”
“ Eles precisam ter ampla autoridade para realmente administrar e conduzir os negócios de A.A. simultaneamente compreendendo que a CONFERÊNCIA é o verdadeiro Reduto da Suprema Autoridade Sobre Serviço , por que dessa maneira como Regra geral ,sejam os assuntos sérios sempre resolvidos dentro de uma cooperação harmoniosa e feliz
“ A unificação da Estrutura de Serviços no Brasil deveria ser reavaliada á Luz do Conceito VIII e esperamos que neste ciclo o assunto possa ser abordado com precisão ,esclarecimento e impessoalidade , onde as experiências contidas neste Conceito possam se com as experiências já vivenciadas neste curto espaço de Unificação Dos órgãos de Serviço no BRASIL.” POR outro lado também esperamos que a liderança em A.A. seja um tema apresentado sem distorções e com exemplos de como se tornar ou alcançar esta necessidade Vital Dentro de A.A.”.

“O entendimento mais aprofundado sobre a SEGUNDA TRADIÇÃO poderá nos trazer uma melhor compreensão quando tratarmos das responsabilidades de serviço em A.A. com a sua correspondente autoridade de serviço equivalente, quando tratarmos do DÉCIMO CONCEITO” . PORTANTO, que em todos os Níveis possamos identificar esta correspondência e assim nossos Grupos sejam melhor informados.”
“ Necessitamos repassar minuciosamente aos grupos a essência e a praticidade do CONCEITO XI, principalmente sobre que consiste nossa estrutura subordinada de Serviço e sua composição e atribuições á nível de JUNTA”.
“ Questionamento SOBRE o que é a ATA de Constituição da CONFERÊNCIA ,SOBRE o conteúdo do ART.12 da ata da Constituição ou sobre as Garantias GERAIS DA CONFERÊNCIA acontecerão no decorrer deste grandioso evento.”
“ Precisamos ,prezados companheiros[as]estar de mentes e corações abertos e espíritos desarmados para assim alcançarmos mais um pouco além ,daquilo que conhecíamos quando aqui chegamos”
“ A aplicabilidade no dia a dia em nossos grupos ,dos Princípios contidos nos “ DOZE CONCEITOS para SERVIÇOS MUNDIAIS” , dignificará mais e mais o membro , o GRUPO e a nossa gloriosa IRMANDADE .

Fraternalmente,
Lúcio

Felizmente, a nossa Irmandade é abençoada com toda a sorte de liderança verdadeira – o pessoal ativo de hoje e os líderes em potencial de amanhã, de acordo com cada nova geração de membros capazes que vão aparecendo. Temos uma abundância de homens e mulheres cuja dedicação, estabilidade, visão e habilidades especiais os tornam capazes de lidar com qualquer serviço que lhes possa ser designado. Somente temos que procurar esse pessoal e confiar nele para que nos sirva.
Em algum lugar da nossa literatura há uma declaração que diz o seguinte: “Os nossos líderes não dirigem por mandato, lideram pelo exemplo”. Com efeito, dizemos para eles: “Atuem por nós, mas não mandem em nós.”
Um líder no serviço de A.A. é, portanto, um homem (ou uma mulher) que pode pessoalmente colocar princípios, planos e normas em ação de maneira tão delicada e efetiva que leva o resto de nós a querer apoiá-lo e ajudá-lo na sua tarefa. Quando um líder nos guia pela força excessiva, nos revoltamos; mas quando ele se torna um submisso cumpridor de ordens e não usa critério próprio, então ele realmente não é um líder.
Uma boa liderança elabora planos, normas e idéias para melhoramento da nossa Irmandade e seus serviços. Mas nos assuntos novos e importantes, todavia, consultará amplamente antes de tomar decisões e atitudes. Boa liderança também é saber que um excelente plano ou ideia pode vir de qualquer um, de qualquer lugar. Conseqüentemente, uma boa liderança muitas vezes substituirá os seus acalentados planos por outros que são melhores e dará crédito aos seus autores.
A boa liderança nunca se esquiva. Uma vez segura de que tem ou pode obter apoio geral suficiente, ela toma decisões livremente e as coloca em ação, desde que, naturalmente, essas ações estejam dentro do esquema da sua autoridade e responsabilidade definidas.
Um político é um indivíduo que está sempre tentando “arranjar para as pessoas aquilo que elas querem”. Um estadista é um indivíduo que sabe cuidadosamente discernir quando fazê-lo e quando não. Ele reconhece que mesmo as grandes maiorias, quando muito perturbadas ou não informadas, podem, às vezes, estar completamente enganadas. Quando tal situação aparece, ocasionalmente, e algo de importância vital está em jogo, é sempre dever da liderança, mesmo que em pequena minoria, tomar posição contra a tormenta, usando toda a sua habilidade de autoridade e persuasão para efetuar uma mudança.
Nada, no entanto, pode ser mais prejudicial à liderança do que a oposição, apenas com o intuito de ser oposição. Nunca pode ser: “Vai ser da nossa maneira ou nada”. Esse tipo de oposição é geralmente causado por um orgulho cego ou um desejo de domínio que nos leva a bloquear algo ou alguém. Há então a oposição que dá seu voto dizendo: “Não estamos satisfeitos.” Nenhuma razão verdadeira nem mesmo é dada. Isso não serve. Quando requisitada, a liderança tem sempre que apresentar as suas razões, e que sejam boas.
Então, também um líder precisa reconhecer que mesmo as pessoas mais orgulhosas ou raivosas podem algumas vezes estar totalmente certas, enquanto as mais calmas e humildes podem estar enganadas.
Esses pontos são ilustrações práticas das diversas discriminações cuidadosas e das pesquisas profundas que a liderança verdadeira tem sempre que tentar exercer.
Outro qualificativo para a liderança é o dar-e-receber, a habilidade de transigir sem rancor sempre que possa fazer progredir uma situação que aparenta ser a direção certa. Fazer concessões é muito penoso para nós, beberrões de “tudo ou nada”. Entretanto, não podemos nos esquecer de que o progresso é quase sempre caracterizado por uma série de concessões vantajosas. Não podemos, entretanto, fazer concessões sempre. Uma vez ou outra é realmente necessário fincar os pés numa convicção sobre um assunto, até que ele se esclareça. (…)
Liderança, muitas vezes, tem pela frente críticas pesadas e às vezes de longa duração. Isso é um teste ácido. Há sempre os críticos construtivos, os nossos amigos de verdade. Nunca podemos deixar de ouvi-los atenciosamente. Devemos estar dispostos a deixar que eles modifiquem as nossas opiniões ou que as mudem completamente. Muitas vezes, também, teremos que discordar e fazer pé firme sem perder a sua amizade.
Há então aqueles que gostamos de chamar de nossos críticos “destrutivos”. Conduzem pela força, são politiqueiros, fazem acusações. Talvez sejam violentos, maliciosos. Eles soltam boatos, fazem fofocas para atingir seus alvos – tudo pelo bem de A.A., naturalmente! Mas em A.A., já aprendemos, afinal, que esses sujeitos, que devem ser um pouco mais doentes do que nós, não são tão destrutivos assim, dependendo muito de como nos relacionamos com eles.
Para começar, deveríamos ouvir cuidadosamente o que eles dizem. Algumas vezes estão dizendo toda a verdade; outras vezes somente parte da verdade, embora freqüentemente eles estejam racionalizando até o ridículo. Se estivermos por dentro de toda a verdade, parte da verdade ou sem verdade alguma, pode ser igualmente desagradável para nós. Essa é a razão pela qual temos que ouvir tão cuidadosamente. (…) Há poucos meios melhores de auto pesquisa e de desenvolvimento de genuína paciência do que a prova a que nos submetem esses membros bem-intencionados, mas erráticos. Isso é pedir muito e, às vezes, não conseguiremos, mas precisamos continuar tentando.
Agora chegamos ao atributo da mais alta importância: o da visão. Visão é, penso, a habilidade de fazer boas estimativas, tanto para o futuro imediato como para um futuro mais distante. Alguns podem achar esse tipo de esforço como se fosse uma espécie de heresia, porque nós de A.A. estamos constantemente dizendo a nós mesmos: “Um dia de cada vez.” Mas esse princípio valioso realmente refere-se à nossa vida mental e emocional e quer dizer principalmente que não somos tolos para lamentar o passado nem sonhar com o futuro de olhos abertos.
Como indivíduos e como uma irmandade, iremos certamente sofrer se deixarmos toda a tarefa do planejamento para o amanhã nas mãos da Providência. A verdadeira Providência Divina foi dar a nós, seres humanos, uma considerável capacidade de antevisão e Ela evidentemente espera que a usemos. Por isso, precisamos distinguir entre desejos fantasiosos sobre um amanhã feliz e o presente uso das nossas forças de estimativas bem pensadas. Isso pode determinar a diferença entre progresso futuro e infortúnio imprevisto.
Visão é por isso a própria essência da prudência, uma virtude essencial, se é que existe uma. Naturalmente, podemos muitas vezes cometer erros de cálculo quanto ao futuro, como um todo, ou em parte, mas o pior é recusar-se a pensar nele.
Precisaremos constantemente desses mesmos atributos – tolerância, responsabilidade, flexibilidade e visão – entre os líderes de serviços de A.A. em todos os níveis. Os princípios de liderança serão os mesmos, seja qual for o tamanho da atividade. (…)
Agradecemos a Deus pelo fato de Alcoólicos Anônimos ter sido abençoado com tanta liderança em todos os seus setores. (Os Doze Conceitos para os Serviços Mundiais, p. 54-7)

(VIVÊNCIA – Março/Abril 2001)

AS 12 PROMESSAS DE A.A. COMENTADAS – TEMA ABORDADO NA XV CONVENÇÃO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS

” AS 12 PROMESSAS DE A. A. COMENTADAS ”

Tema abordado na XV CONVENÇÃO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.

1) VAMOS CONHECER UMA NOVA LIBERDADE E ALEGRIA

Esta primeira promessa se realizará para todos os membros da irmandade que seguirem os 12 Passos sugeridos para Alcoólicos Anônimos. Isto porque com a prática de tais passos, sofreremos uma verdadeira transformação em nossas vidas, deixando para trás todo o sofrimento do alcoolismo ativo. Se formos laboriosos, honestos, humildes, receberemos a graça de conhecer e vivenciar a verdadeira liberdade e a verdadeira alegria.

2) NÃO IREMOS ARREPENDER-NOS PELO PASSADO, NEM QUEIRAMOS ESQUECÊ-LO POR COMPLETO.

Mesmo que quiséssemos, não poderíamos modificar o nosso passado alcoólico, pois não nos é dado o poder de modificá-lo. Não deveremos, porém, arrepender-nos, pois será dele que tiraremos todas as lições para vivenciarmos uma vida melhor, utilizando para tanto os instrumentos que nos é facilitado pela nossa irmandade.
O passado servirá para nós como um ponto de referência para não errarmos mais. Henry Ford, certa vez observou com sabedoria que a experiência é o maior valor que a vida pode nos oferecer se estivermos dispostos a aproveitar a mesma para o nosso autocrescimento.
Cresceremos graças a disposição de encarar e retificar nossos erros, convertendo-os em vantagens. Este passado doloroso poderá ser de infinita valia para outras famílias que ainda lutam com o problema do alcoolismo.
Apeguemo-nos a este pensamento: Nas mãos de Deus, o passado escuro é a maior riqueza e a chave para a vida e alegria dos outros. Com ele, você poderá evitar-lhes a miséria e a morte.

3) COMEÇAREMOS A COMPREENDER A PALAVRA SERENIDADE E CONHECEREMOS A PAZ

Encontramos muitas pessoas em A. A., que antes pensavam como nós, que humildade era sinônimo de fraqueza. Eles nos ajudaram a nos reduzir ao nosso verdadeiro tamanho. Com seu exemplo, nos mostraram que a humildade e o intelecto poderiam ser compatíveis, contanto que colocássemos a humildade em primeiro lugar.
Quando um bêbado está com uma terrível ressaca, porque bebeu em excesso ontem, ele não pode viver bem hoje. Mas existe outro tipo de ressaca que todos nós experimentamos, bebendo ou não. É a ressaca emocional, resultado direto do acúmulo de emoções negativas de ontem e, às vezes, de hoje – raiva, medo, ciúme e outras semelhantes.
Se quisermos viver serenamente o hoje e o amanhã, sem dúvida precisaremos eliminar essas ressacas. Isso não quer dizer que precisemos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isso sim, uma admissão e correção dos erros cometidos agora. Só assim, conheceremos a serenidade e atingiremos a paz.

4) NÃO IMPORTA QUANTO DESCEMOS NA ESCADA, POIS PODEREMOS VER O QUANTO NOSSA EXPERIÊNCIA BENEFICIARÃO A OUTROS.

Todos nós sabemos que durante a nossa atividade alcoólica, decaímos bastante na escala moral, social, financeira, familiar, etc. Contudo, atualmente, para nós, isso pouco importa, pois o que nos interessa atualmente é sabermos que a nossa experiência passada servirá para que outros não cometam os mesmos erros e consequentemente, não trilhem a mesma jornada de sofrimentos.
Nossa descida na escada servirá como farol luminoso para que outros barcos não naufraguem na mesma noite de tempestade.

5) AS SENSAÇÕES DE INUTILIDADE E AUTOPIEDADE DESAPARECERÃO.

Todo alcoólico, pela própria natureza e progressão da doença, sente-se um inútil na família, no trabalho, quando ainda o tem, e na sociedade em que vive. Dele se apodera o sentimento da auto piedade tão conhecido de todos nós. Somos os incompreendidos, as vítimas, os párias da sociedade e honestamente acreditamos que somos injustiçados, pois nada fizemos para merecer este destino.
Com o conhecimento e principalmente a prática criteriosa dos 12 Passos, com um destemido inventário moral, com a reparação dos erros cometidos, certamente deixaremos de ser inúteis e a auto piedade desaparecerá. Voltamos a ser úteis e integrados às nossas famílias, nossos trabalhos e na sociedade em que vivemos.

6) PERDEREMOS O INTERESSE PELAS COISAS EGOÍSTAS.

Egoísmo-egocentrismo. Todo alcoólico sofre este defeito de caráter. Achamos que essa é a causa de nossas dificuldades. Impulsionados por uma centena de formas de medo, auto ilusão, interesse próprio e auto piedade, pisamos em nossos semelhantes e eles revidam. Aí descobrimos que nossas atitudes e decisões são baseadas no egocentrismo, daí o revide dessas pessoas.
Geralmente somos ambiciosos, exigentes e indiferentes ao bem estar dos outros. Se quisermos alcançar a sobriedade e combater tal defeito de caráter, nossa própria recuperação e crescimento espiritual terão que vir em primeiro lugar. Entre nós, membros de A. A. existe ainda uma grande confusão a respeito do que é material e do que é spiritual. Tudo depende de uma questão de motivo. Se usarmos nossos bens materiais de forma egoísta, então estaremos sendo materialistas.
Mas, se usarmos para ajudar os outros, então o material ajuda o espiritual. Havendo discernimento quanto a tudo isso, deixaremos de lado o egoísmo e passaremos a dar a nossos atos a amplitude de atos altruístas, sempre visando o bem do próximo e consequentemente o bem comum.

7) GANHAREMOS INTERESSE PELOS NOSSOS SEMELHANTES.

A. A. é mais que um conjunto de princípios; é uma sociedade de alcoólicos em ação. Precisaremos levar a mensagem, caso contrário, nós mesmos poderemos recair e aqueles, a quem não foi dada a verdade podem perecer. Deveremos compartilhar a Fé reencontrada com outros. O que se pode dizer de muitos membros de A. A. que, por muitas razões, não podem constituir família?
No início muitos deles se sentem sozinhos, magoados e abandonados, quando veem tanta felicidade conjugal ao seu redor.
Se não pode ter este tipo de felicidade, A. A. pode lhes oferecer satisfações igualmente válidas e duradouras. Basta tentar arduamente procurá-las.
Cercados de tantos amigos AAs., os chamados “solitários” não se sentirão mais sós. Em companhia de outros homens e mulheres, podem se dedicar a inúmeros ideais, pessoas e projetos construtivos. Todos os dias vemos esses membros que ganharam interesses pelos seus semelhantes prestarem relevantes serviços e receberem, de volta grandes alegrias.
À medida que progredimos espiritualmente e nos sentimos emocionalmente seguros passaremos a desenvolver o hábito de viver em sociedade ou fraternidade com todos os que nos cercam. Quando passarmos a dar de nós mesmos, sem esperar nada em troca, descobriremos que as pessoas serão atraídas para nós como nunca foram antes.

VAI MUDAR NOSSA ATITUDE E NOSSO MODO DE ENFRENTAR A VIDA.

Com o nosso progresso advindo da prática criteriosa dos 12 PASSOS, sentiremos as mudanças acontecerem em nossa vida como que por milagre. As atitudes negativas, ou defeitos de caráter que tanto nos caracterizaram no passado serão substituídos por atitudes positivas, revitalização de vida, prática de virtudes antes impensadas. Com relação ao nosso alcoolismo, se vier alguma tentação, dela nos afastaremos como se fosse uma chama quente. Reagiremos com inteligência e constataremos que isto acontece automaticamente. Veremos que nossa atitude face ao álcool nos foi dada sem ter que pensar ou fazer qualquer esforço. Simplesmente, veio! Aí está o milagre.
Não estamos lutando contra o álcool, nem evitando a tentação. Fomos colocados, seguros e protegidos, numa posição de neutralidade. O problema foi simplesmente resolvido.

9) MEDO DE GENTE E A INSEGURANÇA FINANCEIRA NOS DEIXARÃO.

No alcoolismo ativo nos embriagávamos para afogar nossos sentimentos de medo, frustração e depressão. Sem dúvida, o depressivo e o arrogante são personalidades que A. A. e o mundo possuem em abundância.
Nós de A. A. vivemos num mundo caracterizado por medos destrutivos, como nunca houve na história. Em seu inventário praticado constantemente o alcoólico deverá tentar corrigir suas principais falhas humanas ou defeitos de caráter: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Aos poucos e com muita paciência, vai conseguindo êxito em sua empreitada.
Cada vez mais perderemos o medo de gente, voltaremos a nos socializar; nossa vida financeira voltará a se organizar, como consequência de nossa mudança e de nosso progresso dentro da irmandade. Ao sentirmos a força da espiritualidade apoderar-se de nós, ao desfrutar da paz de espírito, ao descobrir que poderíamos enfrentar a vida com êxito, ao ficar conscientes da presença de Deus, começamos a perder o medo do hoje, do amanhã e do futuro. Nascemos de novo.

10) INTUITIVAMENTE, SABEREMOS CONTORNAR AS SITUAÇÕES QUE ANTES NOS DEIXAVAM PERPLEXOS.

Com a prática dos passos veremos que temos que dar continuidade ao inventário pessoal e corrigir novos erros por ventura cometidos. Entramos no mundo do Espírito. Nossa próxima função é crescer em compreensão e valor. Isto não acontece de um dia para outro.
Deverá continuar para toda vida. Se os defeitos de caráter por ventura insistirem em voltar, pediremos imediatamente a Deus que os remova. Discutiremos tais problemas com outras pessoas e se causamos danos vamos repará-los na hora.
Aí está o milagre. Não estaremos lutando contra nada, nem evitando a tentação, fomos colocados em uma posição de neutralidade, seguros e protegidos. Os problemas foram simplesmente removidos. Não existem para nós. Não estaremos nem orgulhosos, nem medrosos.
Assim reagiremos enquanto nos mantivermos em boas condições espirituais. Contornaremos com intuição as situações que antes nos deixavam absortos e perplexos.

11) DE REPENTE, RECONHECEREMOS QUE DEUS ESTÃO FAZENDO POR NÓS O QUE NÃO PODÍAMOS FAZER SOZINHOS.

Descobriremos que temos uma prorrogação diária do nosso problema e esta prorrogação depende da manutenção de nossa condição espiritual. Cada dia é um dia em que devemos levar a visão da vontade de Deus a todas as nossas atividades. “Como posso servi-lo melhor? Sua vontade e não a minha seja feita”. Estes são os pensamentos que devem nos acompanhar constantemente. Podemos exercer nossa força de vontade nestes termos.
O 11° Passo nos sugere a meditação e a oração. Homens melhores que nós as utilizaram constantemente. E funciona, sempre que tenhamos a atitude correta.
Agindo assim, de repente reconheceremos que Deus suprirá nossas deficiências e fará por nós aquilo que não podemos fazer sozinhos.

12) ESTAS PROMESSAS SÃO EXTRAVAGANTES? ACHAMOS QUE NÃO. ESTÃO SENDO REALIZADAS ENTRE NÓS, ÀS VEZES RAPIDAMENTE, E OUTRAS MAIS DEVAGAR, MAS SEMPRE SE REALIZARAO SE TRABALHARMOS POR ELAS.

Praticando conscientemente os Passos chegaremos a hora que teremos que transmitir a mensagem e praticarmos os princípios neles contidos em todas as nossas atividades. O prazer de viver será o nosso tema e a Ação será a palavra chave. Teremos que experimentar o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca.
Teremos que levar nossa mensagem ao alcoólico ainda sofredor. Agindo assim estaremos contribuindo para que todas as promessas, aqui enunciadas, deixem de ser meras promessas e se transforme na mais concreta realidade. Concluímos dizendo que a chave para a concretização das 12 Promessas, é a prática ininterrupta dos 12 Passos. Estes realizam aqueles. (Fim)

Fontes:
– Livro Alcoólicos Anônimos
– Livro 12 Passos
– Livro Na Opinião de Bill.

O VELHO MAL DO NOVO SÉCULO – EDUARDO MACHADO – EDUCADOR E DR FREDERICO MACHADO – PSIQUIATRA

O velho mal do novo século

Geraldo (todos os nomes citados são fictícios) é, quase sempre, um sujeito simples e pacato. É também um excelente pedreiro, o que poderia lhe garantir uma razoável qualidade de vida, uma vez que profissionais como ele estão muito procurados e valorizados no mercado.
Miriam é uma mulher bem sucedida na sua profissão. Ou era, até algum tempo atrás. Trabalha no mercado de capitais, vive a tensão diária da Bolsa que sobe e desce, refletindo “a força da grana que ergue e destrói coisas belas…”. Tem uma família legal, marido e dois filhos, uma casa bonita, dois carros na garagem, viagem de férias para o exterior, uma vida boa. Quase sempre.
Marcos trabalha num laboratório farmacêutico. É coordenador de uma equipe de vendas. À noite, dá aulas no curso de Administração de uma faculdade particular. Trabalha muito, “rala” muito, para garantir um padrão de vida razoável para sua família.
Conheço Geraldo, Miriam e Marcos. São gente como a gente. Geraldo, apesar de simples, ou até em razão disso, quando não bebe vive e compartilha em sua família valores preciosos no dia a dia: amizade, respeito, honestidade, dignidade. Quando não bebe…
Miriam, com seu bom nível econômico e social, tem a vida que muita gente queria ter. Marcos, apesar da correria e da trabalheira, também não pode reclamar.
Mas, eles têm um problema em comum. Um imenso problema. São alcoólatras.
Geraldo sabe, Marcos desconfia e Miriam ainda não se deu conta.
No mundo e na vida de Geraldo o álcool sempre existiu.
As vagas lembranças de infância que têm do pai, sumido no mundo, cheiram
a cachaça. No caminho de casa, da obra, há sempre um boteco, um “colega
de copo e de cruz”, uma saideira.
Miriam começou com uma taça de vinho, à noite, prá relaxar antes
de dormir. Passou para a caipirinha, agora bebe vodka pura.
Marcos adora o happy hour com a turma, nas sextas-feiras. Aos poucos, todo dia passou a ser sexta-feira…
O alcoolismo é geralmente definido como o consumo constante, consistente e excessivo de bebidas alcoólicas num nível em que este comportamento interfere na vida pessoal, familiar, social ou profissional de uma pessoa.
É formalmente reconhecido como doença pelo Código Internacional de Doenças (CID), referência F-10.2, e tem enorme impacto social e econômico no mundo inteiro. Com exceção do tabagismo, o alcoolismo gera aos governos um prejuízo econômico maior do que todos os problemas de consumo de outras drogas combinados. Mas como o álcool age no cérebro humano?
As substâncias (drogas) que interferem e afetam o funcionamento das células cerebrais podem ser agrupadas em três categorias, de acordo com o tipo de efeito desencadeado nos neurônios:
1- Drogas psicolépticas são aquelas que sedam, inibem o funcionamento dos neurônios como, por exemplo, os calmantes, os indutores de sono, ansiolíticos, remédios para convulsões, epilepsia, etc.
2- Drogas psicoanalépticas são aquelas que excitam, estimulam o funcionamento dos neurônios. Cafeína, encontrada no café, em chás, em alguns refrigerantes, nos chamados “energéticos”, na cocaína, no crack, etc.
3- Drogas psicodislépticas são aquelas que podem estimular e inibir áreas e funções cerebrais distintas. São os alucinógenos como o LSD, os chás de cogumelo, xaropes, mescalina, heroína, maconha, entre outros.
Pensando nesse quadro, podemos nos perguntar: em qual desses três grupos o álcool se enquadra?
A resposta mais comum é que o álcool é uma substância excitante. Pessoas quando bebem, em geral, ficam desinibidas, falantes. O tímido fica extrovertido, o retraído se abre, o cauteloso se arrisca.
É comum ouvir depoimentos de pessoas que dizem: “comecei a beber na adolescência para me desinibir, me enturmar, me sentir a vontade, e acabei virando alcoólatra”. Imenso engano. O álcool, na verdade, é uma droga exclusivamente inibidora do funcionamento cerebral.
Do ponto de vista biológico e social, somos organismos em constante evolução. E a central de controle desse processo evolutivo é o cérebro humano, onde são gerados os nossos pensamentos, desejos, impulsos, a capacidade de julgar, o senso de responsabilidade e culpa, enfim, o nosso temperamento e comportamento social. O cérebro humano evoluiu do nosso antepassado humanoide, estruturando-se em áreas anatômicas com funções distintas e interações curiosas entre elas. A maior parte do cérebro humano é composta por células (os neurônios) que têm função excitatória, ou seja, que disparam continuamente impulsos, desejos, vontades, pensamentos em direção à satisfação das nossas carências e necessidades.
Ao longo da nossa jornada evolutiva, o cérebro humano desenvolveu um grupo de células especiais. Apenas nós, humanos, entre todas as espécies animais que habitam o planeta, as possuímos nessa quantidade. Elas estão localizadas na parte frontal do cérebro, logo atrás da testa, e têm uma função super nobre: avaliar, julgar e, principalmente, INIBIR os estímulos disparados pelos neurônios excitatórios, elaborando o sofisticado processo de separar o certo do errado, o que devo do que não devo fazer, o que é justo do que é injusto, forjando um comportamento HUMANO, civilizado, social, ético, balizado por crenças e valores transmitidos pela cultura, pelas religiões, pela tradição, pela Educação familiar e formal.
Na parte frontal do cérebro humano acontece, assim, um processo permanente de julgamento, de análise crítica, o que nos diferencia da maioria dos animais que são escravos de seus impulsos e instintos. Agimos, não apenas movidos pelo impulso dos nossos desejos, mas pela capacidade de decidirmos, levando em consideração se esses desejos são razoáveis, e como afetam os direitos dos outros.
Mas tudo isso tem um preço, como Freud nos ensinou. Aliás, a palavra ensinar (marcar com um sinal), em se tratando do processo de formar, educar e civilizar um ser humano, desde sua primeira infância, é caracterizada pelo NÃO!
Não pode, não faça isso, não suba aí, não se arrisque, não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, não cobiçarás as coisas alheias…
Para suportar o peso desse controle crônico dos nossos desejos, é preciso ter uma motivação ética, um sentido maior para a vida, a capacidade de sair do egoísmo em direção ao altruísmo, caso contrário seremos tão somente vítimas de uma brutal repressão, o que leva à insatisfação crônica, à frustação e ao adoecimento.
Aí reside o grande atrativo do álcool. Num primeiro estágio, o de bebedor social, ele “inibe as nossas inibições”, liberando, dessa forma, os impulsos e desejos gerados pelos neurônios excitatórios. Então, o tímido sobe na mesa e faz um discurso, o inseguro fica ousado, o retraído transforma-se num sedutor. Esquecemos nossas neuras, culpas, compromissos, limites, etc…
No passo seguinte, o problema não é mais parar de beber, mas o que colocar no lugar da bebida para me permitir fazer as coisas que não consigo de “cara limpa”. Entramos, então, na fase do vale-tudo!
Um agravante é que inúmeras pessoas têm uma predisposição genética que dificulta o autodomínio. São os transtornos de impulso, que manifestam-se no consumo descontrolado de comida, compras, jogo, sexo, no correr riscos, o que pode levar à compulsão.
Ao inibir nossa capacidade de inibição, o álcool atua como um potencializador e liberador de impulsos, desejos e instintos, sem medir consequências, sem pensar no dia seguinte. Nessa fase, o alcoólatra, como outros dependentes químicos, têm todas as características de um doente crônico.
Um dos agravantes mais trágicos do alcoolismo é que ele não é visto pela maioria das pessoas, a começar pelo próprio alcoólatra, como doença. É o caso de Miriam e Marcos que ainda bebem, como dizem, socialmente, com algumas escorregadas em pileques que, cada vez mais, fogem ao controle. Para eles, de bebedores sociais à dependência, uma longa, sofrida e inexorável trajetória será percorrida.
Até chegarem a este nível, serão rotulados progressivamente como pessoas inadequadas, inconvenientes, fracas, indesejáveis, sem caráter, mentirosas, manipuladoras, desonestas, violentas e até marginais. E, com o tempo, seu comportamento, sob efeito do álcool, vai confirmar tudo isso.
O dependente torna-se, aos poucos, um mentiroso profissional e contumaz e, o pior, que precisa acreditar na própria mentira, uma vez que sua compulsão é mais poderosa que todas as boas intenções, as promessas de que vai parar, de que pode parar quando quiser, os conselhos, os gestos de ajuda.
Outro problema é que o álcool está presente, desde tempos imemoriais, nos hábitos e na cultura da maioria das sociedades, o que torna seu acesso fácil e, mais que isso, atraente e incentivado pela mídia. Apesar de todas as restrições legais, as fábricas de cerveja, por exemplo, continuam sendo as maiores patrocinadoras dos principais eventos esportivos mundiais, o que é, no mínimo, um contrasenso.
Pesquisas e estatísticas confirmam que o abuso de álcool por tempo prolongado pode causar inúmeros males, como câncer, hepatite, cirrose, gastrite, úlcera, danos cerebrais, desnutrição, problemas cardíacos, problemas de pressão arterial, além de transtornos psicológicos.
Com o passar do tempo, percebe-se com clareza a evolução do bebedor social para o dependente. O alcoólico perde progressivamente a capacidade de controlar a quantidade de bebida que ingere até chegar a um ponto em que a falta do álcool o leva à síndrome de abstinência, o que gera um círculo vicioso de bebida, ressaca, mais bebida, mais ressaca.
Geraldo conhece todo esse tortuoso e sofrido caminho. Ainda conseguia trabalhar, de terça a sexta, mas o pagamento da semana era bebido no sábado e no domingo. Segunda-feira era resservado à ressaca. Na terça ele se apresentava novamente, cada vez mais trôpego, trêmulo, enfraquecido e incapaz.
As crises constantes, a perda de dignidade, o estigma social levaram a família de Geraldo a buscar, desesperadamente, uma ajuda. Primeiro, nos postes do centro da cidade, onde cartazes anunciam um produto que deve ser misturado à comida do alcoólatra. Segundo a propaganda é tiro e queda. Foi mais queda do que tiro.
O pastor de uma igreja identificou uma legião de demônios em Geraldo e lhe prometeu um milagre. Aumentou a arrecadação do seu dízimo, mas Geraldo não diminuiu a dose.
Geraldo pode morrer em breve, de cirrose, de tombo, de briga ou de uma doença oportunista qualquer. Mas seu carrasco estará bem identificado: seu cérebro, que não consegue lidar com o álcool.
O AA (Alcoólicos Anônimos) foi uma esperança real. Lá Geraldo conheceu vários dos seus iguais. Ouviu sua história contada pela boca e pela vida de muitos e acreditou que era possível vencer a sede sem fundo que ardia em seu peito.
Por semanas ficou sem beber. Sentiu-se tão forte e seguro que no aniversário de uma sobrinha, festinha de família (que mal pode ter?) aceitou um copo de cerveja. Amanheceu caído à porta do bar da esquina, a alma afogada na derrota, as calças encharcadas de urina.
O fundo do poço o levou a uma comunidade terapêutica, uma ONG ligada a uma igreja, que funciona numa fazenda. Lá se busca a recuperação de dependentes. Iniciou ali um longo processo de reconstrução do corpo e da alma, ambos destroçados.
Nesse processo de reconstrução o maior desafio passa pelo exercício de re-ligação com nossa verdadeira essência e dignidade, uma vez que o dependente, em geral, mergulha na mais profunda miséria física e moral, perdendo qualquer referência de respeito dios outros e de auto-estima.
Seu cerébro, embotado pelo álcool, se esquece que evoluímos e nosso organismo evoluiu conosco, desenvolvendo a capacidade de inibirmos de forma civilizada nossos impulsos e desejos, integrando, ordenando (colocando ordem) no corpo, na mente, na alma. Na dimensão espiritual, Inácio de Loyola dizia que é preciso “ordenar os sentidos”. Em outras religiões e filosofias de vida, encontramos o mesmo princípio. É o que nos define como humanos.
Re-humanizados, podemos reencontrar o sentido e o prazer de abrirmos mão da realização sem medida dos nossos desejos (egoísmo), e encontrar prazer e felicidade também na realização do desejo do outro (altruísmo). Esse é o caminho da cura, nos re-ligarmos (o sentido mais nobre da re-ligião) ao propósito de sermos humanos, de, mais que viver, aprender a con-viver.
Geraldo está na fazenda. Suas mãos trêmulas, a dor da abstinência, aquela sede implacável, tão suas conhecidas, estão sendo tratadas com medicação e carinho. Lá, médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, voluntários, toda uma equipe especializada sabem que cuidar do corpo é necessário, mas curar a alma é imprescindível. Por isso, além dos remédios, há quem o ouça com paciência, entenda, acolha, acalme, oriente. Ali não há porque mentir, esconder, camuflar. Todos sabem de cor os detalhes mais sórdidos dessa história.
Na fazenda, aos poucos, uma outra história vai sendo montada e contada.
Há um horário a ser cumprido. De dormir e acordar, de trabalhar e rezar (é, ali se reza) e se alimentar.
Ao lado da capela há uma horta comunitária, uma carpintaria, uma oficina de artesanato.
Geraldo, assim que suas mãos passaram a tremer menos e seu corpo se recuperou dos pilrques recentes (até engordou, ficou corado…), se destacou nos reparos do telhado onde havia goteiras, no conserto de uma parede trincada, na construção de um sanitário novo.
Reconstrução… o novo… a vida, Geraldo parece ter encontrado uma brecha de luz entre as trevas da dependência. Marcos ainda procura um caminho. Miriam ainda não sabe…

Eduardo Machado – Educador
eduardomachadobh.blogspot.com
edujmmachado@gmail.com
Frederico Machado – Psiquiatra
CRM-MG 22856 – 031-32414265

VIVERE – DRA MARÍLIA TEIXEIRA MARTINS – PSICOLOGA

“VIVERE”
Por Marília Teixeira Martins
A primeira vez que entrei em contato com a Revista Vivência, senti uma leve e agradável sensação. Como se eu tivesse conhecido alguém e no primeiro encontro ter me identificado com ela, a ponto de nascer daí à possibilidade de uma bonita e forte amizade. Sua capa e nome muito me chamaram a atenção, afinal “Vivência” é o conhecimento adquirido através da experiência vivida, significado este que, além de atraente e cativante, motivou-me a percorrer e conhecer de perto o conteúdo interno que a revista poderia oferecer, não só a mim mas, principalmente a cada adicto que, incessantemente busca e anseia por sua liberdade dos químicos. E só para complementar, a palavra “Vivência” vem do Latim “Vivere”, que em nossa língua quer dizer: “estar vivo” ou “viver”. E foi exatamente o que pude perceber ao longo de sua leitura. Ela não oferece apenas conhecimentos teóricos sobre o alcoolismo mas, acima de tudo, a idéia de movimento, convidando a todos, independentemente de serem alcoólicos ou não, a fazerem uma viagem para dentro de si mesmos e, conseqüentemente, uma viagem em direção à vida!
Admiro o fato de ter sido construída cuidadosamente de “dentro para fora”. Ela vem da alma, o que para mim, pessoal e profissionalmente faz uma enorme e significativa diferença. Vindo da alma, entendo que não podemos e nem temos o direito de questionar nada, afinal em se tratando de emoções e sentimentos, não existe certos ou errados, eles simplesmente “são o que são, e é assim que devemos recebê-los com todo o nosso respeito.
Recuperação no meu entender é, acima de tudo, movimento e um contar contínuo de histórias, de uma alma para outras almas. Histórias que precisam de liberdade e espaço para serem divididas e partilhadas em todas as suas nuances, tons e dimensões. E a Revista Vivência faz exatamente isso: oferece a grande oportunidade aos adictos de realizarem este processo tão importante em suas recuperações. Como também, proporcionando a nós profissionais, a compreensão cada vez maior do que se passa no coração e na alma dos dependentes químicos.
E foi assim, acompanhando dia a dia, mês a mês, ano a ano os seus artigos e depoimentos, que nasceu e concretizou-se uma forte amizade entre eu, psicóloga que se dedica a este tema por vários anos e a Revista Vivência. Amizade esta que me acompanha desde que dei os meus primeiros passos profissionais em direção ao estudo e tratamento da dependência química, doença tão complexa e séria que, infelizmente, cada vez mais faz parte do nosso dia a dia.
E, para finalizar este texto, tomo a liberdade de deixar uma pequena sugestão em prol da recuperação de todos: que sejam suficientemente fortes para buscarem e caminharem em direção à luz, mesmo estando ainda em algumas “sombras”. Que sejam suficientemente corajosos para darem o primeiro passo a favor de suas próprias vidas e, suficientemente humildes para pedirem ajuda em qualquer trecho de suas caminhadas. Não deixem de sorrir por mais difícil que possa parecer, não deixem de cantar, ainda que seja um pequeno trecho de uma música preferida e, principalmente, não deixem de acreditar na vida, na recuperação e em um Poder Superior, o único capaz de transformar dor em amor.
Deixo também o meu carinho e respeito a todos os adictos que enfrentam com garra suas recuperações e que optaram ou estão a caminho de uma terra linda chamada sobriedade. Desejo a todos muita luz em suas caminhadas e muita paz em seus corações. E que, a cada passo dos 12 percorridos, possam receber o suave toque da serenidade.

Marília Teixeira Martins
BH/MG – 08/09/2013

HOJE É O DIA MAIS FELIZ, NÃO BEBI

HJ É O DIA MAIS FELIZ , Ñ BEBI.

Muitas pessoas se perguntam, entre um drinque e outro, se são candidatas ao alcoolismo.
Na maioria dos casos, falta alguém que possa orientar, dar um conselho ou mesmo bater um papo.
O que este livreto traz é exatamente isto: uma pessoa que se dispôs a relatar idéias e experiências para aqueles que têm ou possam vir a ter problemas com o álcool.
Uma pessoa das mais qualificadas para discutir os problemas que afligem nossas mentes.
Ninguém mais ninguém menos do que o psicanalista Eduardo Mascarenhas. Este livreto reúne algumas crônicas publicadas no jornal Última Hora, no período de 17 de maio a 04 de junho de 1984, que falam de alcoolismo e contam como os Alcoólicos Anônimos trabalham para
ajudar a diminuí-lo. Talvez elas tragam respostas para algumas das nossas dúvidas.
Talvez sirvam para esclarecer o que é realmente o alcoolismo e como funcionam os grupos dos Alcoólicos Anônimos.
Eduardo Mascarenhas colocou algumas idéias no papel, nós as encaminhamos até as suas mãos.
O resto só depende de você.
Com grande curiosidade, aguardei a anunciada vinda do Dr., Eduardo Mascarenhas para assistir a uma reunião de Alcoólicos Anônimos, em meu grupo.
Eu sou um alcoólatra há algum tempo fazendo o programa sugerido por Alcoólicos Anônimos para me manter distante do álcool. É necessário dizer, que antes de vir para o A.A., já havia tentado de muitas formas controlar a minha bebida. Entre outras; busquei o auxílio da psicanálise. Tudo que adquiri com isto foi apenas uma consciência maior de quão problemática era a minha mente. E continuei a beber muito e cada vez mais. Ficou evidente para mim que eu não conseguia responsabilizar meus traumas pela minha bebida. E a decadência continuou, já que, como vim a saber mais tarde, o alcoolismo é uma doença, além de incurável, progressiva. Assim é que
só após muita desventura e tangido pelo sofrimento, foi que resolvi procurar o A.A. em desespero, embora sem esperança. Não cabe, nesta oportunidade, dizer mais sobre o que ocorreu, além de que, não mais bebi e vivo uma nova vida feliz, sem a bebida. Restou, contudo, da fase mais amarga de minha vida, do meu “fundo de poço”, uma revolta generalizada contra todos os profissionais de saúde com quem fui buscar ajuda e que não me disseram a verdade da
minha doença, antes acenando uma oportunidade de em conhecendo as causas motivadoras, poder beber sem problemas. Esta foi a razão da minha curiosidade sobre a visita do Dr. Mascarenhas ao meu grupo de Alcoólicos Anônimos. Mas o que me foi dado ver foi essa conhecida e ilustre figura de psicanalista, humildemente, querendo aprender a razão do sucesso dos Alcoólicos Anônimos na recuperação de alcoólatras. A tal ponto que, antes de tudo, teve a preocupação de nos conhecer. De conhecer a nossa literatura básica que enfeixa as sugestões de nosso programa. Estudou-a. Fez, posteriormente, em nosso grupo uma palestra quando, com humildade, disse ter tido oportunidade de conhecer no A.A. como estamos certos, ao dizer que não são os problemas que levam ao alcoolismo. Que o alcoolismo é uma doença de causas desconhecidas – mas que ninguém se torna alcoólatra porque tem problemas. Reconheceu, também, naquela palestra, a existência de uma tênue e sutil linha divisória que separa as áreas de atuação da Medicina e dos Alcoólicos Anônimos no tratamento do alcoolismo. E, colocando-se rigorosamente dentro de sua área de especialização, usando seu talento e sua vivência, com o suave tempero de seus sentimentos, escreveu os magníficos artigos publicados em sua coluna de “Última Hora”, que estão reunidos neste livro.
Dentro da filosofia da irmandade de Alcoólicos Anônimos, ninguém fala pela obra, mas sinto a satisfação de dizer, em meu nome, na certeza de que serei endossado pelos membros de nossa irmandade, que os artigos do Dr. Eduardo Mascarenhas primam, acima de tudo, pela
sobriedade, traduzindo um testemunho intenso daquilo que lhe foi conhecer em A.A..
O conteúdo de seus artigos dizem isto de forma clara e revelam que seu convencimento, de que só o A.A. pode apresentar a resposta ao problema do alcoolismo, longe de ser um convencimento entusiasta é a conseqüência de uma evidência, que não poderia ser recusada pela sua sensibilidade. Mais uma vez, embora não falando pelo AA como um todo, sinto-me na
responsabilidade de agradecer ao Dr. Eduardo Mascarenhas pelo seu comportamento sem preconceitos diante do nosso programa, bem como pela coragem de expressar na imprensa as suas percepções, correndo o risco de desagradar até os honestos e bem-intencionados cientistas
que persistem em utilizar diferentes terapias de recuperação de alcoólatras. A estes, desejo amplo sucesso, pois a posição dos Alcoólicos Anônimos a respeito, está exposta no livrete “Alcoólicos Anônimos e a Classe Médica”, no qual em síntese, o A.A. se diz como a única forma de deter o alcoolismo, deixando aos outros o julgamento sobre a eficiência do programa de A.A. (tal eficiência é hoje reconhecida internacionalmente. E, em nosso país, de forma bastante patente,
pelo programa PREA do DINSAN, em implantação em todo o Território Nacional.)
Ao Dr. Eduardo Mascarenhas, o meu mais sincero reconhecimento. Como um A.A., sei avaliar a importância para cada um de nós alcoólatras, da divulgação de nossa mensagem. E, quando a nossa mensagem é transmitida de forma sóbria, como o foi em seus artigos, estou certo de que os mesmos atrairão muitos que, como eu ignorei por muito tempo a gravidade de sua doença. O uso do álcool remonta às épocas imemoriais. Há milênios a humanidade descobriu seu efeito liberado, euforizante e dionisíaco. Já nas tribos primitivas, o álcool participava das festas e até dos ritos religiosos. O próprio cristianismo utiliza o vinho como símbolo do sangue de Cristo. Pode-se dizer que não há comemoração humana, pública ou privada, de que alguma forma de bebida não participe. Até aí muito bem. Afora os eternos moralistas, sempre dispostos a enxergar em tudo quanto for prazer alguma trama de Satanás, ou seus sucessores contemporâneos, que sempre descobrem um jeito de dizer que tudo que é gostoso dá câncer (americano, então, adora essas descobertas supostamente científicas), todos hão de convir que um pilequinho de vez em quando não há de fazer mal a ninguém e ate dá um realce, um brilho. Tanto é assim que Humphrey Bogart o grande ator norte americano de Casablanca – numa tirada de humor chegou a dizer que a natureza fez o homem com duas doses a menos. Quer dizer, se no seu sangue corresse uma pitada de vinho, seria menos mal-humorado, irritadiço e careta, e muitos de seus problemas estariam resolvidos. Não sei se Humphrey Bogart estava certo. Sei, contudo, que um grande número de pessoas pensa como ele, a ponto de corrigirem diariamente, através de drinques, essa suposta falha da natureza. O problema é que nesse afã de colocar a vida em ordem, milhões de pessoas começam com duas doses, mas com o passar do tempo, não param por aí. Daí a pouco esticam para três, espicham para quatro e, quando dão por si, já estão com uma garrafa debaixo da cama. Grande parte da população bebe e isso não acontece. Entra ano, sai ano e, espontaneamente, mantêm a moderação. Esses bebedores, é óbvio, não têm com que se preocupar. Um drinque para eles!
Entretanto, com uma porcentagem relativamente alta (13% dos bebedores se transformam em problema), a moderação de hoje transforma-se no desespero de amanhã. Começa-se a beber na
adolescência, a seguir bebe-se normalmente e moderadamente até os 30 – 35 anos. Daí por diante, as doses vão aumentando pelos mais variados motivos. Quando chega-se à meia-idade, já se está bebendo descontroladamente e, quer admitindo ou não, já são alcoólatras. Não se pode afirmar que o alcoolismo seja hereditário. Houve herança de sangue ou contágio psíquico?
As causas do alcoolismo são misteriosas. O alcoolismo acomete homens e mulheres, brancos, negros e amarelos, pobres e ricos. Atinge indiscriminadamente pessoas de todos os tipos físicos e de todo tipo de temperamento. Gordos e magros, altos e baixos, pessoas bem- sucedidas e mal-sucedidas, tímidos e extrovertidos, gulosos e frugais, personalidades alegres ou tristes, ativos ou preguiçosos, angustiados ou tranquilos, todos estão sujeitos à dependência do álcool. E discutível que o alcoolismo seja hereditário, se bem que filhos de alcoólatras talvez possuam possibilidades um pouco maiores do que outros. Será, porém, herança física ou herança de hábitos psíquicos, assimilados ao longo do convívio familiar? No mundo dos problemas mentais, esta pergunta sempre é de difícil resposta. Houve herança de sangue, ou na realidade o que houve foi uma espécie de contágio psíquico, completamente independente de fatores genéticos de nascença? De qualquer maneira as estatísticas muito pouco significam. Muitos filhos de alcoólatras não se tornam alcoólatras e muitos filhos de não-alcoólatras se tornam alcoólatras. Alguns filhos de alcoólatras, até como defesa aos horrores da infância, tornam-se avessos a qualquer tentação etílica. O alcoolismo deve ser assim definido como uma doença sem uma causa específica cientificamente conhecida. O fato é que cerca de 13 % dos bebedores têm uma relação com o álcool diferente dos 87 % restantes. Seu corpo e sua mente parecem reagir de modo pernicioso. A esses 13 % só se pode recomendar uma coisa: mantenham-se afastados do copo. Acima de tudo como não se cansam de repetir os Alcoólicos Anônimos – evitem a primeira dose. Ingerida a primeira dose é como se sangue tivesse sido lançado à água e um tubarão que navegava nos seus mares interiores enlouquecesse, e ninguém segurasse mais sua fissura enlouquecida. Não se esqueça de que a força de vontade é a primeira que fica no pileque. Já na primeira dose, estão bêbados e aí a personalidade está exposta às mais variadas desculpas e justificações. As desculpas mais esfarrapadas, nesse estado mental, tornam-se super-razoáveis e, antes de acabar a noite, já se acabou a garrafa toda. É pior do que um cigarro para quem deixou de fumar, um doce para
quem está de dieta. Reiniciada a fissura, torna-se extremamente difícil controlá-la. E o mais grave é que parece que surge uma espécie de forra por todas as doses não bebidas. Bebe-se o que se
deixou de beber no período sóbrio O alcoolismo afeta diretamente 8 milhões de brasileiros. Como, por razões culturais, afeta mais homens do que mulheres, geralmente afeta o cabeça da família. Logo, dezenas de milhões de brasileiros são indiretamente atingidos pelo alcoolismo. São mulheres e crianças espancadas, são famílias morrendo à mingua, pois o homem da casa perdeu emprego e tudo que tinha, inclusive o respeito e a estima dos amigos e parentes. O alcoolismo é, disparado, a causa mais frequente das internações psiquiátricas, a causa mais frequente das aposentadorias precoces, dos acidentes de trabalho, da mendicância. Isto mesmo, boa parte dos mendigos é alcoólatra, em estado avançado da doença. Os acidentes de trânsito e os homicídios também são facilitados pelo uso desbragado do álcool. O alcoolismo, na esmagadora maioria, deve ser encarado como uma doença absolutamente incurável O alcoolismo não deve ser considerado uma fraqueza de caráter ou falta de vergonha na cara, se bem que possa gerar fraqueza de caráter e falta de vergonha na cara. Não confundimos, contudo, causas com consequências. O alcoolismo deve ser considerado uma doença, da qual o alcoólatra é uma vítima. Ninguém torna-se alcoólatra porque quer. Torna-se alcoólatra independentemente de seus sinceros esforços. Além disso, o alcoolismo, na sua esmagadora maioria de casos, deve ser considerado como uma doença incurável. Não incurável no sentido de que o alcoólatra esteja condenado a beber até morrer. Mas incurável no sentido de que o alcoólatra raríssimamente conseguirá voltar a beber com moderação. Se conseguir passar uns tempos sem beber, caso retome ao álcool, rapidamente retornará a obsessão.
Daí a recomendação suprema daqueles que entendem do assunto porque o sentiram na própria carne os alcoólatras que abandonaram o álcool: evite a primeira dose… Como já disse, o alcoolismo não seleciona sua vítima. Pessoas de todas as raças, de todos os tipos físicos, de todos os tipos de temperamento de todas as classes sociais podem tornar-se alcoólatras. Homens e mulheres, velhos e moços, gente bem ou mal-realizada na profissão e no amor, pobres e ricos, enfim, qualquer um pode um dia descobrir-se escravizado pelo álcool. Aquele atleta de ontem, que acordava com o nascer do sol e apresentava a mais férrea força de vontade, pode perfeitamente tornar-se o pau-d’água de amanhã. Na realidade, cerca de 13% de quem bebe se tornarão alcoólatras. E a chance é esta mesma: puramente lotérica. O fato de pertencer ou não a família que tenha alcoólatra não afeta signifícamente a possibilidade. Se por um lado os filhos de alcoólatras assimilam hábitos, por outro, desenvolvem anticorpos psíquicos, por terem sentido tão próximos os efeitos trágicos de conviverem com bêbados inveterados. Já disse também que o alcoolismo é uma doença incurável. Não incurável no sentido de que, uma vez alcoólatra, alcoólatra até morrer. Não! O alcoólatra pode, perfeitamente, jamais voltar a ingerir uma gola de álcool. Porém, se por descuido, ingeri-lo, rapidamente voltará a beber descontroladamente. Daí a regra suprema de alcoólicos Anônimos, na sua experiência de mais de meio século tratando de alcoólatras: evitar a primeira dose. É que, no alcoólatra, quem fica primeiro de pileque é a força de vontade.
Os efeitos físicos do álcool, ingerido moderadamente, são irrelevantes. Não chega a fazer mal, nem também chega a fazer bem. Os prós e os contas se anulam. Um de seus problemas é o alto teor calórico. Enquanto um grama de açúcar contém quatro calorias, um grama de álcool contém sete.
Logo, álcool engorda quase o dobro de doce. É, portanto, uma das principais causas da obesidade. Além disto, possui a propriedade de abrir o apetite e relaxar a força de vontade, daí ser considerado um aperitivo, servido antes das lautas refeições. Não bastasse isto, ainda vem acompanhado de gordurosos salgadinhos e dos super engordativos amendoins e castanhas de caju, isso para não se falar de torresmos e outras coisas mais. Porque os bebedores inveterados nem sempre são gordos? Porque substituem o comer pelo beber. Duas doses de uísque, vodca, gim ou cachaça equivalem do ponto de vista do engordar a um belo filé bem-temperado, ou a cinco ovos cozidos. Por que, então, os bebedores inveterados nem sempre são gordos? Porque muitos deles substituem o comer pelo beber. O problema do álcool, contudo, é que apesar de oferecer calorias; é um alimento pobre. Não possui proteínas nem vitaminas, nem sais minerais. Não é, pois, nutritivo. Pelo contrário. O álcool ingerido em grandes quantidades, dificulta a assimilação pelo intestino, de vitaminas, principalmente a vitamina BI. Como essa vitamina é essencial para a saúde dos nervos, os alcoólatras podem ficar com os nervos afetados. Além disto, a carência de proteína, somada ao efeito tóxico direto do álcool, afeta poderosamente o fígado. É que, ao contrário do quem se pensa, o álcool não é eliminado se não em 5% pela urina e pelo suor. Ele é quimicamente transformado no fígado, que lança os produtos do álcool decomposto para o sangue, resultando daí uma parte da chamada ressaca da manhã seguinte. Ora, um fígado super solicitado e pouco alimentado acaba pifando. Surge, então, uma doença mais mortal do que o câncer: a cirrose hepática. O álcool ingerido em grandes doses e por muitos anos, além de afetar os nervos e o fígado, afeta os rins e o cérebro. O alcoólatra por isso fica inchado (retenção de água no corpo) e acaba ficando ruim da cabeça (são os delírios e alucinações). É como se vivesse um pesadelo acordado. Um dos perigos do alcoolismo crônico é o delirium tremens. Afora o pesadelo acordado, o alcoólatra começa a tremer pelo corpo todo, sua temperatura sobe acima do normal e o suor é abundante. Se não for convenientemente tratado, pode morrer de febre ou por desidratação. Outro perigo da ingestão do álcool é que, em grandes doses, ele pode levar a uma parada cardíaca e respiratória. O chamado pileque lá pelos dois gramas de álcool por litro de sangue (embriaguez profunda). Contudo, se a dose no estômago for grande e a absorção continuar, pode chegar aos quatro gramas, dose fatal para muita gente. Poucas pessoas resistiriam a seis gramas de álcool por litro de sangue. O fato de uma pessoa estar com o estômago vazio realmente acelera o tempo de absorção. Uma vez no sangue, a absorção do álcool pelos tecidos é relativamente rápida. Em hora e meia já espalhou por todos os órgãos. Sua eliminação, contudo, é bem mais lenta. Leva 12 horas para se eliminar 70% do álcool ingerido e 24 horas para eliminá-lo completamente. Logo, se alguém tomou até as 3 da manhã 10 doses de
uísque, as 9 horas da manhã ainda estará, como se estivesse, com umas quatro ou cinco doses no organismo; às 3 horas da tarde, com umas 3 doses e só às 3 horas da madrugada do dia seguinte estará sem nenhuma dose no organismo: Por isso, certas pessoas ficam embriagadas, ou de ressaca, tanto tempo depois da farra. O problema do tratamento do alcoolismo é complicado e nem sempre bem-sucedido. A primeira parte do tratamento consiste, obviamente, numa
desintoxicação e numa reposição de proteínas, vitaminas e sais minerais. Dado o perigo de se voltar a beber, essa parte do tratamento, geralmente, deve ser feita em condições hospitalares.
Essa, contudo, é a parte mais fácil. O problema é como fazer o alcoólatra não voltar a beber. Como disse, o alcoolismo, enquanto tendência a beber desbragadamente, é incurável. Basta uma dose e o alcoólatra quase sempre voltará a beber desbragadamenle, inclusive para tirar a barriga da miséria. Por isto, é tão frequente a reinternação dos alcoólatras. Muitas vezes, a psicanálise profunda mostra-se insuficiente para alguns casos de alcoolismo. Para se tornar abstêmio e sóbrio, o alcoólatra deve ser cercado dos maiores cuidados. Pode, transitoriamente e sob supervisão médica, recorrer a certas drogas que criam um horror à bebida. Porém isto é um quebra-galho, não é solução definitiva. Por esta razão, o alcoólatra deve fazer uma prolongada psicoterapia, para auxiliá-lo a resolver conflitos sem o auxílio do álcool. Minha experiência, contudo, revela que até uma psicanálise profunda para muitos casos é insuficiente. Por isso, ex-bebedores inveterados, que conhecem como ninguém as dificuldades do não beber, se reuniram em associações de Alcoólicos Anônimos. Li a literatura, compareci a uma de suas reuniões e fiquei com a melhor impressão possível. O auxílio é completamente gratuito e realizado por pessoas abnegadas e idealistas, sem credo religioso e político, enquanto membros de AA. Como estou escrevendo sobre esse tema tão importante que é o alcoolismo, não poderia deixar de dizer alguma coisa sobre esta organização de ex-bebedores, que existe há mais de meio século, encarregada de auxiliar alcoólatras na “ativa” a parar de beber: A.A. ou seja, os Alcoólicos Anônimos. O tratamento do alcoolismo é difícil. Claro, internar um alcoólatra num hospital é fácil. Ali ele ficará afastado da garrafa, se desintoxicará e se recuperará das carências vitamínicas e alimentares que o alcoolismo costuma provocar. Porém, o problema é: como fazer um alcoólatra não voltar a beber? Aí reside a dificuldade do tratamento. O período hospitalar é relativamente simples. O problema é depois. Um corretor da bolsa de valores de Nova York impressionado pelo número de recaídas de alcoólatras, ele próprio um alcoólatra com várias recaídas mas, que conseguira se manter sóbrio, sem beber, bolou um método de prevenção de recaídas. Partiu do princípio de que ninguém entende mais de alcoolismo do que quem já o sentiu na própria carne. E foi congregando ex-bebedores até fundar uma organização, nos Estados Unidos em 1935, e hoje espalhada por todo o mundo em mais de 180 países, chamada: “Alcoólicos Anônimos”. O A.A. não é uma entidade secreta, tipo Ku-Klux-KIan da bebida. Noto que as pessoas, de um modo geral, já ouviram falar do A.A., mas não sabem exatamente do que se trata. Frequentemente possuem uma visão negativa e preconceituosa, considerando-os, sei lá, uma sociedade secreta, de moralistas místicos, uma espécie de seita religiosa contra tudo que for prazer, vida, poesia, liberdade, enfim, algo meio para o repressivo, o deprimente, o lúgubre.
Confesso que eu próprio tinha uma impressão lá meio desse tipo. O tal do “não vi” e “nem gostei”.
As classes, mais intelectualizadas, então, possuem um franco preconceito. Consideram o A.A. algo de baixo nível, talvez dirigidos por militares místicos, aposentados, da extrema direita, com crenças obscurantistas aqueles generais reformados que moram num apartamento monárquico na Tijuca, de vida austera, que acham até o Papa comunista e que é uma imoralidade a missa não ser mais rezada em latim. Ou então o A.A. seria uma sociedade secreta que se reúne em subsolos escuros, onde seus membros cantam canções evangélicas de gosto duvidoso, que estão sempre dispostos a enxergar Satanás ou pecado em tudo que for alegria, prazer, ou festas. Uma espécie de Ku- Klux-Klan antialcoólica. Ou ainda o A.A. seria uma instituição de caridade deprimente, dirigida por uma ideologia filantrópica igualmente deprimente. Recentemente, fui convidado por um de seus membros, para uma reunião. Era um edifício comercial de Copacabana, num conjunto de salas arejadas, sem qualquer clima de seita e de mistérios. As salas poderiam ser de um cursinho de vestibular. Não havia ninguém encapuzado. Nem um símbolo esotérico nas paredes, nenhum clima místico, nenhum aspecto lúgubre ou de pessoas metidas a boas, caridosas ou filantrópicas. Fui recebido por um dirigente (coloco em grifo porque, na realidade, não existem dirigentes). Um senhor simpático, jovial, de uns 50 anos de idade. Uma pessoa completamente normal, sem ser metida a virtuosa e pasmem sem nenhum preconceito contra o álcool ou os prazeres da vida. Não posso revelar seu nome, dado o compromisso de anonimato que ele tem, enquanto membro de A.A.. Por que esse anonimato? Para evitar que certos membros do A.A. tenham a tentação de se celebrizar usando este título. Aliás, também não era o seu caso mas pode ser o de muitos para não ser tornada pública sua condição de alcoólatra ou de ex-bebedor. Aliás, esse compromisso de anonimato só diz respeito aos grandes canais de comunicação de massa. Em comunicações pessoais, um membro do A.A. pode, se assim o desejar, para quem quiser esse fato. É óbvio que, por razões éticas, não devo revelar o nome de outros membros de A.A., ou mesmo de sessão de grupo terapia. Seria o fim da picada se um paciente de grupo revelasse confidências de um companheiro de grupo. A razão pela qual um membro do A.A. não deve usar sua condição de ter superado a doença do alcoolismo para se celebrizar não tem nada de moralista, místico ou esotérico. A razão é simples. É extremamente prática. É para evitar conflitos, ciúmes, disputas indesejáveis entre membros do A.A. o que desestabilizaria o clima radicalmente democrático e sem hierarquia da Organização. Daqui a pouco, um membro do A.A. estaria utilizando seu prestígio para se tornar político, fazer negócios ou até anúncios de televisão. Isso subverteria o espírito da Organização. Se algum membro quiser ser político, fazer negócios ou anúncios de TV, tudo bem. Mas faça-o como cidadão e não como membro de A.A.. Aliás, como cidadão um membro do A.A. pode fazer o que quiser. Até ser um beberrão. Disse que A.A. é uma organização aberta e democrática. Diria, até, moderna. Confesso que a literatura que oferece tem um ranço um pouco americano e antigo. Pudera, foi escrita por americanos há mais de 50 anos. Fica aqui, pois, uma sugestão para a A.A.: sem trair suas tradições, que são importantes para a sobrevivência de qualquer instituição, se poderia escrever uns livros mais atualizados com os novos tempos e acima de tudo, mais brasileiros, mais capazes de retratar a nossa cultura e nossa vida. Ou seja, ex-bebedores brasileiros escrevendo para futuros ex-bebedores brasileiros, Mas esse é um detalhe. A literatura psicanalítica, por exemplo, padece de vícios equivalentes. Contudo, em nome de uma imagem pública que retrate com maior fidelidade o que é, de fato, o A.A., creio que essa modernização da literatura seria importante. No A.A. não existem líderes e liderados e todos são voluntários. No A.A. não existem dirigentes nem dirigidos (nem trabalho remunerado exceto é óbvio, o trabalho de secretária etc), cada A.A. é completamente autônomo de outros Aas e de uma organização internacional. São princípios éticos e técnicos. O único ponto em comum. Todo trabalho é voluntário. Os mais experientes e de maior devoção e liderança (é óbvio) terão participação mais ativa na instituição. Tudo no A.A. é voluntário. Inclusive parar de beber. Comparece às reuniões quem quer e não há qualquer moralismo com respeito ao álcool. Ninguém será exortado a parar de beber e nem criticado por não parar de beber. Tudo também é gratuito. Quem quiser e puder fará contribuições financeiras, as quais também serão sigilosas, para evitar honrarias e constrangimentos. Mas, nada de fartura de grana, aplicações financeiras, lucros e mordomias, nem auxílios diretos a ninguém. Tudo isto geraria muito mais problemas do que benefícios. Dentro em pouco apareceriam espertalhões faturando a grana que administram e outros espertalhões, mais pobres, fingindo serem alcoólatras, ou quererem parar de beber, só para faturarem algum. A única condição para ser membro do A.A. é a condição sincera de parar de beber.
Na visita que fiz a uma das reuniões dos Alcoólicos Anônimos, num conjunto de salas arejadas, sem nenhuma aura de mistério, num edifício comercial, em Copacabana, nada de senhas, portinholas, sinais cabalísticos. Para surpresa minha, encontrei pessoas absolutamente normais e diria, até, saudáveis, alegres e joviais. E olha que não era aquela alegria jovial de padre interessado em mostrar as maravilhas de sua fé. Não, eram uma alegria e uma jovialidade absolutamente normais. Gente como a gente, conversando descontraidamente, prestando depoimentos despojados e sinceros, sem qualquer sabor de proselitismo ou catequese. Alguns mais bem-vestidos, outros menos bem-vestidos, mas ninguém ostentando riqueza ou ostentando pobreza. Eram, mais ou menos, umas vinte pessoas. Algumas delas, membros do A.A. há mais tempo, com 5, 10 e 15 anos de vida sóbria, sem recaída no álcool. Outras, com algumas recaídas; outras, ainda, frequentando as reuniões pela primeira vez, indecisas se iriam ou não permanecer.
À mesa, sentava-se uma senhora extremamente simpática, sem nenhuma afetação. Transparecia a serena confiança de que já é experiente na matéria. Sua função era meramente coordenadora. Suas intervenções eram sóbrias (em todos os sentidos) e revelavam uma personalidade fina e sensível, sem jamais querer tirar uma de benfeitora ou de bondosa. Acolhedora, sim, metida a benfeitora, não. Transparecia, também, ser uma pessoa não moralista e que deve levar uma vida como todo mundo. Decididamente jamais demonstrou qualquer ranço carola ou piegas. Quem quisesse poderia fazer uso da palavra e a ela competia controlar o tempo. De um modo geral as pessoas prestavam depoimentos sobre suas vidas, seu temperamento, como entraram e saíram do seu alcoolismo. Algumas possuíam um nível cultural mais alto; eram profissionais liberais e a fala era mais sofisticada. Outras possuíam menos escolaridade e a fala era mais simples. Porém isto não era o importante. O importante era a sinceridade e a emoção com que passavam os seus depoimentos. A sincera vontade de ajudar sem, contudo, invadir a liberdade de ninguém. Tudo muito simples, emocionado e emocionante. Em algumas horas parecia-me estar diante de uma sessão psicanalítica de grupo. A única diferença é que todos ali possuíam um problema comum o alcoolismo e não havia um psicoterapeuta. Era um grupo que cuidava do grupo. Um dos meios de se evitar a própria recaída no álcool é auxiliar outros alcoólatras. Depois que soube que esses grupos se reuniam sempre, cada vez com um coordenador diferente, durante umas duas horas, e comparecia quem quisesse, a quantas reuniões quisesse. Alguns membros do A.A. que, por serem personalidades públicas e que não poderiam arriscar alguma eventual queda no anonimato, ou vazamento do sigilo no grupo, se reuniam a portas fechadas, em grupos especiais. Um membro do A.A. pode, se quiser, passar as horas de todos os seus dias nessas reuniões. Afinal, esse amparo emocional é fundamental para evitar-se a recaída. Percebi no A.A. uma coisa muito interessante, razão pela qual não há aquele insuperável clima de bom-mocismo, de almas caridosas, de benfeitores. É que os membros mais experientes descobriram que uma das melhores maneiras de evitar suas próprias recaídas no álcool é auxiliarem outros alcoólatras a evitar a bebida. Logo, ao ajudarem os outros, estão, ao mesmo tempo, tendo um prazer fraterno e ajudando a si próprios. Não há também clima moralista, nem com relação ao álcool. Ninguém é contra o álcool ou advoga cruzadas por algum tipo de lei seca. Não. Reconhecem o álcool como uma das boas coisas da vida. Só que não foi para a vida deles. Sabem que 87% das pessoas que bebem não se tornam alcoólatras e, por isto, não têm qualquer razão para evitar a bebida. Infelizmente, contudo, eles caíram naqueles 13% que, em vez de consumirem o álcool, são pelo álcool consumidos. Não são, portanto, contra o álcool. São contra o alcoolismo. Nenhum membro de A.A. se considera um degenerado, um fraco de caráter ou um sem-vergonha na cara. Sabe muito bem que ninguém bebe, ao ponto de se tornar um alcoólatra, porque quer. Bebe porque sofre de uma terrível compulsão. Para um membro do A.A., o alcoolismo é apenas uma doença, como outra qualquer, como o diabetes, por exemplo, a hipertensão arterial. Tal como os diabéticos têm de se conformar com uma dieta de açúcar, os hipertensos com uma de sal os alcoólicos terão de se conformar com uma dieta de álcool. Pelo fato de ser portador de um doença o alcoolismo o alcoólatra não é uma pessoa doente. O alcoolismo tal como o diabetes é considerado por eles uma doença incurável. Não incurável no sentido de que o alcoólatra esteja condenado a beber até morrer, mas, incurável no sentido de que, se um alcoólatra que abandonou a bebida voltar a ela, o fará de novo, de uma forma incontrolável. O fato de se considerarem portadores de uma doença o alcoolismo não significa que se considerem pessoas doentes. Como pessoas não são melhores ou piores do que ninguém. Tal como os diabéticos e os hipertensos, algumas pessoas que padecem da incapacidade de beber moderadamente serão
grandes pessoas. Exatamente como as que não padecem dessa incapacidade. Um membro do A.A. fala de si nas reuniões exatamente como um diabético fala sobre seu diabetes num grupo de diabéticos. É interessante se assinalar que no A.A. existe uma figura chamada Padrinho (ou Madrinha). O Padrinho é um membro do A.A. já experiente na capacidade de evitar a bebida. Um membro recente do A.A. escolherá o seu Padrinho. Esse é uma espécie de irmão mais velho, de
amigo qualificado e se compromete com o novato a estar à sua disposição. Pode ser acordado até de madrugada. Aliás, ele, por experiência própria, sabe que é exatamente nessas altas horas da
noite, as chamadas “horas do lobo”, que as tentações etílicas se exacerbam. Esse Padrinho funciona como uma espécie de amigo e confidente das horas difíceis, o que, todos sabemos, é importantíssimo para todo mundo alcoólatra ou não. O clima desse relacionamento não tem nada de misterioso, obscuro ou esotérico. É um relacionamento entre pessoas comuns, que se tomaram amigas pelo convívio e pela disponibilidade de se ajudarem mutuamente sobre um problema comum que possuem, o alcoolismo. Disse mutuamente porque, repito, para um membro de A.A. auxiliar alguém a se libertar do álcool não é um ato apenas filantrópico, caridoso ou humanitário. Não. Representa uma maneira de se ajudar a si mesmo. Vejo com a maior simpatia que instituições como esta não só já prestou, presta e prestará inestimável serviço, como ainda representa modelo de instituição moderna e democrática. Creio que no século XXI a humanidade recorrerá cada vez mais a instituições desse tipo. Existirão grupos de Obesos Anônimos, de Diabéticos Anônimos, de Asmáticos Anônimos, de Alérgicos Anônimos, de Fumantes Anônimos, de Neuróticos Anônimos, de Toxicômanos Anônimos e tantos outros mais. Será a própria sociedade tratando a própria sociedade. Sem nada de médicos, psiquiatras, psicanalistas, psicólogos. Pessoas que viveram na própria carne certos problemas e aprenderam a controlá- los ou superá-los, por isso estão aptas a auxiliar pessoas com problemas semelhantes. Acima de tudo, esse tipo de instituição não depende de nenhum INAMPS da vida e está fora do jugo estatal ou dos interesses de grandes empresas. Não se fala tanto de democracia, de organização da sociedade, de fortaleza de suas instituições? Que é preciso para que a sociedade esteja fora do inevitável autoritarismo do estado? Pois bem, instituições como esta fortalecem a sociedade civil tornando-se mais autônoma do jogo das influências políticas. É a própria sociedade se auto-administrando, buscando nela própria a solução de seus problemas, fora da intervenção do Governo e dos interesses econômicos. Aliás, esta é uma boa maneira de se diminuir a corrupção, a politicagem, os tráficos de influência, as mordomias, a arrogância dos tecnocratas. Chega de tecnocratas, de especialistas sabichões. Vamos dar ao cidadão comum a plenitude de sua cidadania. Instituições como o A.A., apesar de não possuírem qualquer coloração política, ideológica ou religiosa, são, nesse sentido de libertar a sociedade do jugo do Estado e dos interesses econômicos, profundamente políticas.
No AA não existem almas bondosas, apenas ex-bebedores ajudando bebedores e a si mesmos.
Por que disse que são instituições não-filantrópicas e ou de caridade? Porque no A.A.não existem almas bondosas. É que um ex- bebedor ao auxiliar um bebedor está também auxiliando a si próprio para não recair no álcool. É isto mesmo. Em experiência de mais de meio século, em todo o mundo, o A.A. descobriu que uma das coisas mais importantes para um ex-bebedor não voltar a beber, é dedicar parte do seu tempo auxiliando outros bebedores ou ex-bebedores a manterem-se longe do primeiro gole. Logo, é um altruísmo interessado, o que traz um clima mais descontraído à instituição.
Não há lugar ali para exageradas gratidões ou cobranças. E nem para ninguém sair se sentindo com a tentação de, vaidosamente, se considerar benfeitor ou melhor do que ninguém. Tudo portanto sem heróis ou justifícadores. Tudo muito humano. O que é bom. Não é à toa que uma conhecida minha mulher bela, alegre e festiva – membro do A.A. de algum lugar neste país, certa ocasião me disse:
Eduardo, eu frequento as reuniões do A.A. porque estava entornando demais, é verdade, e tinha de colocar um paradeiro nisso. Mas não é só isso, não. Eu gosto de frequentá-las. Lá eu rio, porque são encontros humanos, no fundo, alegres, sinceros e descontraídos. E sem aquele clima de fofocas, competição, maledicências, exibicionismo. Sobretudo, sem aquela hipocrisia e aquela máscara social que todo mundo enverga quando se encontra em festas ou outros tipos de reuniões Sociais. Nas reuniões sinto uma genuína camaradagem. Não há ninguém patrulhando ninguém, é gente disponível para auxiliar gente. Solidariedade sem invasão. Pura solidariedade. Acho este depoimento exemplar, porque auxilia a desmistificar a idéia de seita, de sociedade secreta, de reuniões lúgubres e deprimentes que muita gente faz do A.A.. Quero dizer que coincide exatamente com a impressão que colhi da reunião que participei. Não há misticismo ou esoterismo no A.A. Tudo muito simples, muito arejado, muito simpático, muito moderno. Aliás, me faz lembrar muito de psicanálise de grupo. A sessão de grupo é exatamente isto, tudo singelo e sem mistério, completamente diferente do que imaginam as pessoas que dela nunca participaram.
Não há contradição em frequentar reuniões do AA e fazer uma boa psicanálise. Quando disse que achava ótimo instituições sem técnicos Universitários no assunto (médicos, psiquiatras, psicanalistas, psicólogos etc.), longe de mim considerar esses profissionais, entre
os quais me incluo, dispensáveis; cada um no seu lugar. O A.A. inclusive, jamais hostiliza ou entra em conflito com a medicina oficial e a psicanálise. Um membro do A.A. pode perfeitamente (e, em muitos casos, deve) ser paralelamente auxiliado por um médico ou por um psicanalista. O A.A. não oferece serviços médicos e psicanalistas. Tal como os médicos e psicanalistas não oferecem
serviços como os do A.A.. Cada qual tem seu valor específico, sua região própria de influência. Não há contradição entre frequentar o A.A. e fazer uma psicoterapia. Pelo contrário. São métodos que se complementam e se enriquecem mutuamente. O A.A. é por isso extremamente cauteloso, para não invocar para si mais do que pode oferecer. Seus membros empenham-se, no mundo todo, em manter o melhor relacionamento com os profissionais da Saúde. E os bons médicos e os bons psicanalistas mantêm os melhores relacionamentos com os grupos de A.A.. Claro que alguns médicos e psicanalistas, movidos por uma excessiva vaidade profissional, por uma presunção de que sabem e resolvem tudo, já não pensam assim. E não subestimamos que, por trás dessa
hostilidade, existam interesses inconfessáveis e exclusos: temem diminuir o número de clientes ou temem perder o prestígio por se considerarem os únicos salvadores da humanidade. Essa, Freud explica… Inclusive, muitos membros do A.A. são médicos, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. Foram bebedores-problemas ou estão tentando deixar de beber. É sentir na própria carne o limite da sua própria ação profissional. Outros membros do A.A. estão sendo ou foram por muito tempo psicanalisados. E se tornaram estudiosos da alma humana, principalmente no que se refere ao alcoolismo. Já leram tudo, sabem muito mais do que um psiquiatra ou psicanalista sobre o assunto.
Tiveram, pois, mesmo que não sendo nos bancos universitários, uma formação acadêmica invejável. Tratam, há anos, de alcoólatras e sentiram na própria carne o alcoolismo. Por tudo isto, respeito profundamente o conhecimento que adquiriram ao longo de sua experiência e tenho muito que aprender com eles. Samba não se aprende na escola. Tratar de alcoolismo, também. A meus pacientes de consultório que forem alcoólatras, não hesitarei em recomendar que eles procurem também o A.A.. Farei isto com a mesma naturalidade com que indicarei um gastroenterologista a um paciente que sofra de uma úlcera gástrica ou duodenal. Pelo que conversei com membros experientes de A.A., percebi que eles, no seu trabalho de auxiliar alcoólatras a se manterem afastados do copo (e para tal é decisivo mantê-los afastados do primeiro gole), encontram graus de dificuldade que variam de pessoa para pessoa. Alguns alcoólatras respondem maravilhosamente aos métodos do A.A.. Outros, aos trancos e barrancos, com recaídas e tropeços, acabam chegando lá. Uma parte, contudo, revela-se particularmente rebelde. Principalmente abandonam o A.A. antes mesmo de terem, na realidade, entrado. Esses, evidentemente, ficam excluídos dos benefícios desse método apropriado pela experiência de décadas. Isso não é problema do A.A.. Na psicanálise, acontece o mesmo. Alguns pacientes respondem espetacularmente à terapia. Outros resistem. Relutam, se debatem, são ossos duros de roer, mas chegam lá. Uma parte, contudo, simplesmente comete o grau mais pernicioso da resistência ao tratamento: o abandono. Aí, realmente, não há o que fazer. Felizmente, tanto no A.A. quanto na psicanálise, este último caso não é regra geral. O problema do A.A., à diferença da psicanálise, é que lá não existem resultados mais ou menos satisfatórios. Ou se consegue fazer um alcoólatra abandonar o álcool, ou se fracassa. Fazer um alcoólatra controlar a doença e beber moderadamente é impossível. Dada a natureza exata do próprio alcoolismo. Por esta razão, os resultados estatísticos da psicanálise para os pacientes em geral serão necessariamente melhores. Contudo, se um psicanalista for tratar de um alcoólatra, tenho graves dúvidas em considerar melhores resultados estatísticos do que do A.A. – A porcentagem de recuperação de alcoólatras no A.A., apesar dos pesares, é bastante alta. A esmagadora maioria daqueles que levam o método às últimas consequências consegue jamais voltar a beber. Pelas dificuldades próprias ao tratamento do alcoolismo e, principalmente, de alguns alcoólatras, creio que uma combinação entre o A.A. e a psicoterapia seria o ideal. Por exemplo: para muitos casos seria muito conveniente uma terapia do casal, que poderia ser feita por um psicanalista, ou até uma terapia com a família inteira. É que a família de um alcoólatra está toda comprometida. Já está um time viciado em certos padrões de relacionamento.
Os AAs também pensaram nisto. Rapidamente reconheceram a importância da família na recuperação do alcoólatra. Para tanto, surgiu uma instituição chamada AL-ANON, sigla que também significa ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. O ALL-ANON se bem apresentado aos AAs e seguindo seus mesmos métodos e princípios, é uma instituição autônoma. Lá, em vez dos alcoólicos, reúnem-se as famílias e os amigos dos alcoólatras. Em algumas de suas reuniões, os alcoólatras não podem comparecer (reuniões fechadas). Por quê? Para se poder conversar mais livremente e
espontaneamente sobre a doença em si.
No início da recuperação, o alcoólatra necessita de amparo familiar.
O AL-ANON existe há cerca de mais de 15 anos no Brasil e estou certo de que sem ele o A.A. não teria jamais a eficácia que alcançou. É que o alcoólatra, principalmente nos seus primeiros tempos de recuperação, está frágil e necessita de maior amparo familiar. E amparo familiar não significa apenas boa vontade e paciência. Significa também entendimento dos processos psicológicos da cabeça do alcoólatra. Entendimento dos complexos jogos afetivos que ocorrem no interior de um casal e de uma família. Numa família ou num casal acaba havendo uma distribuição de papéis e como uma peça de teatro. Cada qual encarna um personagem, saiba ou não saiba, queira ou não
queira. E quando um dos personagens mais marcantes dessa peça (o alcoólatra), sem dúvida o protagonista do drama familiar, vai mudando seu papel, há um desequilíbrio geral no seio da família. É que, mesmo quando é para melhor, o ser humano resiste às mudanças. Cada qual já estava acostumado ao seu papel, viciado na sua rotina, viciado até no tipo de sofrimento que ocorria no dia-a-dia. Já existia até o bode expiatório, o responsável por todos os males da família que, evidentemente, era o alcoólatra. Quando este começa a recuperar-se e ainda está frágil, vulnerável, melindroso, irascível, inconscientemente, os outros membros da família podem adotar atitudes de oposição a essa mudança. E eu, como psicanalista, sei da espantosa capacidade do inconsciente humano de sabotar, de jogar pra baixo, de desestimular, quando assim o quer, cortar esse barato. Tomar consciência dessa astúcia do inconsciente, portanto, é fundamental.
O alcoólatra, nos primeiros tempos de recuperação, é como um adolescente, ainda despreparado para enfrentar o mundo: pode ser metido a forte, mas, no fundo, é fraco e instável e sujeito demais às influências, familiares. Tal como no tratamento dos adolescentes, muitas vezes é recomendável uma terapia familiar. No tratamento dos alcoólatras, o alcoólatra em recuperação é como aquela amendoeira recém-plantada. Qualquer ventinho ou ato de vandalismo, será o suficiente para lesá-la na sua fragilidade. Seu pequenino tronco, por isto, tem de ser cercado de todos os cuidados. Anos depois, porém, quando se tomar uma amendoeira adulta, não precisará mais desses cuidados ou proteção. Seu tronco poderoso, que sustenta sua majestosa copa, suportará todos os trancos ou colisões da vida. O alcoólatra é uma amendoeira… Quando o alcoólatra se recupera, ocorre uma crise política em sua casa. Vou citar um exemplo de dinâmica familiar complicada, só à guisa de ilustração. Suponhamos um alcoólatra, pai de família de uns 50 anos, filhos adolescentes e enfurnado no copo há vários anos. Ora, sua irresponsabilidade, sua incapacidade de honrar compromissos há muito destituiu-o da liderança do lar. A sofrida esposa e os filhos assumiram o comando familiar. E já se acostumaram a isso. Quando esse alcoólatra se recupera, há uma crise política em sua casa. Terá de haver um replanejamento na distribuição dos poderes. E, a gente sabe, poder vicia, tanto ou mais do que o álcool. Embriaga todos, sobe para a cabeça e inebria. Resultado: crise de sucessão presidencial. Afora isso, vem a gana da forra pelos anos de sofrimento e privação impostos pelo seu alcoolismo. Sua dívida familiar é maior do que a dívida externa brasileira e seus credores podem tornar-se mais intransigentes do que o FMI e os banqueiros internacionais juntos. Como ele (o alcoólatra) ainda está se recuperando, sua economia interna e profissional encontra-se ainda em recessão. Isso a gente vê cristalinamente em qualquer relacionamento, alcoólatra ou não. Por exemplo: quando num casal aquela mulher resolve ser gente, levantar a cabeça e andar pelos próprios pés, costuma gerar o maior tumulto. Nos primeiros tempos, o marido se insurge e até os filhos se insurgem. Por isto, muitas sucumbem antes de haver cessado a tempestade. É mesmo muito bom andar, ou viajar, com as sensações, mas será que gostaria de entrar com sua canoa em um redemoinho, andar de bicicleta de ladeira abaixo, sem freio, numa rua cheia de buracos, ou viajar em um avião em um ciclone? Bem, as frustrações e consequentemente as depressões das pessoas que vivem com um alcoólatra são exatamente assim. Elas se sacodem, dão voltas, agarram-se, e depois atiram-se contra as rochas do desespero. Ficam, literalmente, fora de controle, arrebentadas por horas, dias, meses e mesmo anos!
Por força de minha profissão, venho de longa experiência com famílias desorganizadas e crianças perturbadas, prova de forma conclusiva, em que o alcoolismo é o fator destrutivo predominante.
Toda pessoa que vive e convive com um alcoólatra sabe quão difícil é conciliar sua própria vida com a do bebedor problema e encontrar, verdadeiramente um clima normal. Mesmo que não existam problemas de ordem material ou financeira, mas diante de sua bebedeira cada vez mais constante, a tendência aliás muito natural, é o familiar ou amigo culpar o bebedor compulsivo de todas as suas mais variadas dificuldades. Em nossa busca de conhecimento, nem sempre a resposta será aquilo que esperamos ou aquilo que queremos saber. As pessoas de sentimentos nobres e que se encontram envolvidas com um grave problema de alcoolismo, desejam inteiramente saber como eliminá-lo. Entretanto, este problema, por si só, jamais será eliminado sem o próprio alcoólatra manifestar esse desejo. Mas eliminar as neuroses, o aprender conviver e viver feliz e em paz é possível. O portador da doença do alcoolismo é, consequentemente, o responsável principal pelos danos e males causados, uma vez que ele foi atingido, e não tem culpa, por uma doença incurável, irreversível, progressiva, de fim fatal; a mais devastadora de todas as doenças e, não sendo ela, contagiosa, é profundamente contagiante. Uma doença da família. Atinge um mínimo de cinco pessoas. Muitas vezes, essas pessoas buscam auxílio aos membros do clérigo, médicos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e, em casos extremos, da polícia. Estamos convictos do melhor caminho, de como melhor encontrar a chave do bem viver e conviver. Como encontrar soluções harmonizantes para o problema crônico ou agudo. Este caminho são os GRUPOS FAMILIARES AL-ANON E ALATEEN. Um numero cada vez maior de familiares e amigos de alcoólatras estão buscando apoio aos Grupos de Al-Anon e Alateens. Estes grupos são uma irmandade de esposas, parentes, filhos e amigos de bebedores problemas, a fim de encontrar força e esperança, através da experiência para resolver as suas aflições, padecimentos, decepções e frustrações; as fobias que os levam ao medo, insegurança e ao desespero. O programa que os Al-Anons e Alateens oferecem é baseado nos Doze Passos e Tradições de Alcoólicos Anônimos, adaptados às suas necessidades para atingir a “Reabilitação” individual de cada participante. Este programa mostra uma forma genial, que utilizado com absoluta honestidade traz a força e a coragem; a fé e a esperança para enfrentar situações as mais imprevisíveis e difíceis possíveis. Al-Anon não é parte integrante dos AAs, ela é uma Irmandade absolutamente independente, cuja técnica de terapia em Grupo traz a completa “reabilitação” da pessoa solitária, neurótica, confusa e infeliz. Seus princípios básicos são sólidos, tanto do ponto de vista médico psiquiátrico, quanto espiritual. Para mim, o programa de Al-Anon e Alateen é simplesmente “chocante”, genial mesmo. Potencialmente é a ação mais significativa para conduzir as famílias e amigos de alcoólatras para um modo de vida sadio e sem conflitos. Os Al-Anons e Alateens não colocam como primordial o bebedor problema parar ou não de beber. Entretanto, ajudará o familiar ou amigo a modificar sua atitude, em relação aos próprios problemas, eliminando as frustrações e profundas ansiedades. Com esse novo comportamento, o bebedor problema voluntariamente tem se voltado e aceito participar e praticar o programa de recuperação proposto pelos Alcoólicos Anônimos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o alcoolismo é considerado uma doença e é a 3ª doença que mais mata no mundo! Só perde para o enfarte e o câncer, os quais, em muitos casos, quase não são uma doença em si, pois se confundem com o processo natural de envelhecimento. Um velhinho de 102 anos quando morre, não se diz se morreu de câncer ou do coração. Já se diz que morreu de velhice. O alcoolismo, não. Esta é uma doença mesmo, que não tem nada a ver com a velhice, com seus efeitos devastadores sobre o corpo e a mente e que pode perfeitamente ser evitada. Basta parar de beber. Mas aí é que está o problema. Internar um alcoólatra num hospital, desintoxicá-lo e recuperá-lo é fácil. O difícil é que ele não volte a se tornar biriteiro. É tão difícil que a Medicina, a Psicanálise e a Psiquiatria já de há muito reconhecem a limitação de sua ação. Por essas e outras, é que surgiram as instituições como o A.A.. Como sempre, a humanidade, quando se defronta com um problema de difícil solução, põe sua imaginação criadora para funcionar e inventa novas soluções. Foi isto que aconteceu em 1935, época em que o alcoolismo alcançava proporções tão alarmantes nos EEUU, que houve até tentativa de resolvê-lo por métodos policiais. A tristemente célebre Lei Seca, com todos os Al Capones, a Máfia e filmes de gangsters, é um exemplo dessa invariável e ineficiente tentativa policialesca de resolver o problema. Contudo, como a vida não é um caso de polícia, baixou em outras pessoas a inspiração de resolver seus problemas por métodos não policialescos e mais profundos. Bill W., um americano que trabalhava na Bolsa de Valores de Nova York, conseguira com o auxílio de um médico especialista em alcoolismo, o Dr. Willíam Silkworth, libertar-se da compulsão de beber. Bill partia do princípio de que somente um alcoólatra poderia ajudar outro alcoólatra. Somente um alcoólatra conhecia as manhas e artimanhas de outro alcoólatra e lhe poderia inspirar a confiança necessária na dificílima tarefa de se tornar sóbrio Ninguém é alcoólatra porque quer, mas apenas porque não consegue
parar de beber. Digo erroneamente, porque o alcoolismo não é um vício, é uma doença.
É preciso que a gente perceba essa sutil diferença, porque ela acaba criando as maiores confusões. Vício é uma palavra que traz em si umam série de significações negativas e completamente injustas, com pessoas que tiveram a infelicidade de sofrer a doença. Poderia ser diabetes, hipertensão, reumatismo, só que é o alcoolismo. Se o vício por um lado, recebe um aspecto correto do alcoolismo, que é a compulsão irresistível de beber, por outro estigmatiza o alcoólatra como um fraco de caráter. Ora, convenhamos, não é nada disto. Ninguém se toma alcoólatra porque quer, torna-se alcoólatra simplesmente porque, apesar de todos os mais sinceros e comoventes esforços, não consegue deixar de beber. Poder-se-ia argumentar: então, por que começou a beber? Ora, quem aos 15 anos não começa a tomar seus chopinhos depois da praia, seu cuba-libre nas festinhas, sua caipirinha de vodka ou de cachaça, seu vinhozinho no Natal? Se tiver mais grana, quem não tomará seu champanhe na passagem do ano? Seu uísque no baile? E quem iria adivinhar que, anos depois, se tomaria um alcoólatra? Deixemos, pois, de ser hipócritas e de sair pichando, denegrindo, estigmatizando os outros por suas dificuldades. Se o alcoólatra bebe, não é por falta de vergonha na cara. Bebe, primeiro. Porque todo mundo bebe. E bebe desconsoladamente porque possui uma doença que pode acometer qualquer um: o alcoolismo. Aliás falta de vergonha na cara é sair por ai encontrando explicações fáceis e cômodas para problemas difíceis e incômodos. Você que está lendo este Livro e eu que estou escrevendo, que, moderadamente, entornamos socialmente nossas gostosas doses etílicas em ocasiões sociais, podemos, perfeitamente, sem percebermos, tornar-nos amanhã escravos do álcool. Perfeitamente padecer desta doença o alcoolismo e simplesmente não sabermos. Como já se disse, se 87 % de nós jamais beberão descontroladamente, 13 % o farão. Tudo muito lotérico. É mais fácil se tomar alcoólatra do que acertar no milhar, jogando semanalmente no bicho. É infinitamente mais fácil do que acertar na quina da loto. Portanto, mais delicadeza do nosso julgamento não fará mal a ninguém. Inclusive a nós mesmos, pois quem com julgamentos apressados fere, com julgamentos apressados poderá ser ferido… Vergonha na cara não é o que falta ao alcoólatra. A vergonha que ele sente de beber desbragadamente é tamanha, que bebe mais ainda para embriagar a própria culpa. Um dos líderes do A.A. que me considera um amigo me confiou: “Eduardo, eu antes de virar biriteiro barra pesada, cheguei até a morar no Copacabana Palace. Depois, é óbvio, fui perdendo tudo: dinheiro, profissão e até a família. Acredite se quiser, tornei-me mendigo. Mendigo, mesmo, tipo cata sobras de comida. Quando ia pedir esmola, tomava mais umas e outras, para ganhar coragem. Mais coragem para pedir esmola e me assumir como mendigo, mas me assumir como alcoólatra, não. A palavra me fazia mal demais. Mendigo, sim; alcoólatra, não!” Conversamos com ele, e outro líder do A.A. que também se tornara mendigo. Hoje, uma pessoa completamente normal, extremamente simpática e ativa. Chegamos a concluir que talvez o que estraçalha o alcoólatra seja a vergonha na cara demais! Tanto é assim que o alcoólatra luta com todas as suas forças para, primeiro, não reconhecer serenamente que possui uma doença: o alcoolismo; segundo, resiste a mais não poder para procurar ajuda para se tratar dessa doença.
Depois de um longo papo entre Bill e Bob, o segundo jamais voltou a beber. Mas, voltando á historia do A.A., Bill W., que há 6 meses não bebia, foi fazer uma viagem de negócios, de Nova York para Ohio. O negócio não saiu e Bill sentia-se tentado a beber. Percebeu, então, que, para salvar-se, precisaria levar sua mensagem a outro alcoólatra. Esse, por acaso, era um médico – o Dr. Bob. Encontrou-se com ele de manhã e as mãos do médico estavam trêmulas. Bill, inclusive, pagou-lhe uma cerveja, para aliviar-lhe a tensão. Depois disso, conversaram longamente e o Dr. Bob jamais voltou a beber. Desse encontro, nasceu o A.A.. Bill W. é o A.A. n° 1 e o Dr., Bob o n° 2.
Hoje, são milhões no mundo inteiro, É interessante notar o espírito fundador do A.A.: Bill foi procurar outro alcoólatra, não só como benfeitor, mas para se ajudar a si mesmo… Em 10 de junho de 1935, fundou-se o A.A.. Logo, a 10 de junho de1985, o A.A. completou 50 anos, durante os quais salvou milhões de vidas. Houve, nesse dia, uma reunião pública à qual estive presente como conferencista convidado, comemorando o seu jubileu de ouro. Só no Grande Rio existem cerca de 500 grupos de A.A.. No Brasil, cerca de mais de 3.000. Por um lado, é muito; por outro, muito pouco, tamanho o número de alcoólatras existentes na nossa terra. Dia chegará em que os alcoólicos perderão sua vergonha de se reconhecerem como portadores, de uma doença. Com isto, reconhecerão serenamente sua doença e procurarão aqueles que, de fato entendem do assunto: Alcoólicos Anônimos. Nesse dia, teremos muito maior número de grupos de A.A. por este país afora e muito menor número de pessoas destruídas pela bebida. O próprio Ministério da Saúde reconhece os inestimáveis serviços do A.A.; tanto é assim, que vários hospitais convocam membros do A.A. para prestar-lhes auxílio. E o alcoólatra, depois de deixar a internação, prossegue sua recuperação nos grupos de A.A. existentes. É preciso mudar a mentalidade que ainda existe sobre o alcoolismo, pois essa mentalidade dificulta, enormemente, a recuperação dos alcoólatras. “Alcoolismo” volto a insistir não é resultado de um caráter frouxo, de uma força de vontade débil, de falta de vergonha na cara. É uma doença, como qualquer outra. Portanto, não diminui ninguém. Um bebedor descontrolado não deve, pois, sentir-se envergonhado por sua condição. Não há gente que tem reumatismo, que tem alergia, que tem asma, que tem pressão alta, que tem diabetes, que tem problemas glandulares? Isto é vergonha? Pois o alcoolismo é a mesma coisa. Há gente que simplesmente possui uma compulsão irresistível de beber. Pode, ao lado disto, ter a maior força de vontade, a maior integridade de caráter, o maior valor pessoal. Só no fato de ter-se tornado um ex-bebedor, o alcoólatra já demonstra uma invulgar força de caráter. Temos que, de uma vez por todas, fazer uma diferença: o alcoolismo é uma coisa, o valor pessoal, outra. É claro que o alcoólatra na ativa está com seu valor comprometido. Porém um alcoólatra, que aprendeu a controlar sua doença, que realizou profundas transformações na sua personalidade beberrona, é um cidadão qualificado para qualquer atividade. Enfim, é gente como a gente. Como todos nós, haverá ex- bebedores de extraordinária criatividade e capacidade de liderança e outros com menos. Entretanto, só o fato de terem-se tornado ex- bebedores já soma pontos… Demonstraram uma invulgar força de caráter. Como me dizia, outro dia, um líder do A.A.: “Você vê como são as coisas. Quando um doente qualquer deixa o hospital, sua família o recebe de braços abertos. Comemora a sua volta, tendo alta. Quando, entretanto, um alcoólatra deixa o hospital, sua família o recebe com a tentação de lhe dizer: vê se de agora em diante você toma vergonha na cara!” Realmente, essa mentalidade tem de acabar, pois ela é uma das causas geradoras, não diria do alcoolismo, mas, certamente, da dificuldade do alcoólatra superar sua compulsão de beber e se recuperar para a vida. Estamos falando sobre um assunto muito sério e que só não é tratadomais a sério por causa de inconfessáveis interesses econômicos da indústria etílica. E principalmente, por causa desses desatualizados preconceitos culturais. Olha que não tenho nada contra o álcool em si. Pessoalmente, bebo enquanto perceber que o faço com natural moderação: não pretendo deixar de fazê-lo. Como um delegado nacional do A.A. bem humoradamente me relembrava a frase de um grande poeta brasileiro: “O melhor amigo do homem não é o cachorro, é o uísque”. Claro, para quem pode pagar, talvez até seja verdade. Isto, porém, é verdade para 87 % dos bebedores. Contudo, para 13 %, se puderem, é bem melhor terem um cachorro. Senão, viverão uma existência de cão. Os membros do A.A. não têm nada contra o álcool. São radicalmente contra leis secas e outras providências policialescas. O fato de uma parte da população não poder conviver numa boa com o álcool não deve ser motivo para o resto ter de privar-se de seus humanos prazeres. Muitos A.A. inclusive, mantêm bebidas alcoólicas em casa, e outros membros de sua família bebem regularmente. Podem, perfeitamente, servir bebida a amigos seus não-alcoólatras. Seu problema não é com o álcool em si. É com o alcoolismo. Rigorosamente falando, não é nem com o alcoolismo. E com o seu alcoolismo e com o alcoolismo daqueles que os procuram para serem auxiliados e com os quais assumiram compromissos de honra. O abstêmio é diferente do sóbrio. O primeiro tem um nível inferior de convivência com o alcoolismo. Um A.A. jamais recomendará a um outro alcoólatra, ou à sua família, que esconda bebidas, quebre garrafas ou tome providências equivalentes àquela piada do tirar o sofá da sala. Afinal, um A.A. é um ser humano, um cidadão comum e que pretende prosseguir vivendo no planeta terra, sem revoluções islâmicas de aiatolás, ou tentações de se mudar para Passárgada, inclusive porque, lá, sendo amigo do rei, é bem possível que lhe seja oferecido um saboroso vinho francês, ou delicioso scotch envelhecido… Aliás, um verdadeiro A.A. faz uma categórica diferença entre ser abstêmio e ser sóbrio. Ser abstêmio para um AA é um nível inferior de convivência com o alcoolismo. A personalidade continua uma personalidade alcoólica, apenas controlada. O abstêmio pode tornar- se um anti-alcoólatra fanático, substituindo a compulsão de beber pela compulsão de combater o álcool. No fundo, embebedam-se do prazer de combater bêbados, embriagam-se de lutar contra embriagados, inebriam-se de não ser ébrios. O abstêmio é, pois, um alcoólatra de cabeça para baixo. A sobriedade, não. Ela é muito mais profunda e é completamente diferente da abstemia. É um nível superior de convivência com a doença alcoólica. É uma transformação radical da personalidade bêbada. É uma nova e revolucionária atitude diante da vida, diante dos outros e de si mesmo. É a assimilação profunda da moderação. Em todos os sentidos, em todos os níveis. É uma ultrapassagem dos apetites desordenados, das fissuras e voracidades. Para se chegar à personalidade sóbria, contudo, exige-se um prolongado trabalho, que os AAs chamam de OS DOZE PASSOS: Os Aas fazem uma profunda diferença entre uma pessoa que conseguiu simplesmente deixar de beber e uma outra que tenha alcançado a sobriedade. Para um A.A., uma coisa é ser abstêmio, outra é ser sóbrio. Ser abstêmio é difícil, mas alguns alcoólatras o conseguem, até definitivamente. A maioria, entretanto, que chega a alcançar o grau de abstêmio, o faz por certos períodos, voltando, posteriormente a beber desordenadamente. Alguns passam seis meses sem beber e seis meses tirando a barriga da miséria. Outros passam três anos sem
beber e outros tantos embriagados. É uma espécie de oscilação de períodos de vacas secas e vacas bêbadas. O lema do abstêmio clássico deveria ser: “Beber é coisa de homem; parar de beber, coisa de macho”. A grande meta de um A.A. é alcançar a sobriedade. Sobriedade em todos os sentidos. Inclusive de não se embebedar com a idéia de que superou o alcoolismo e, por isto, poderá, de agora em diante, voltar a beber, sobriamente. Essa idéia pode ser inebriante, mas revela uma visão pouco sóbria sobre a própria sobriedade. A sobriedade de um alcoólatra passa pela humildade de se reconhecer impotente diante da bebida. Se tomar o primeiro gole, corre o risco de ver sua sobriedade ruir e voltar a ser devorado pelo tubarão etílico que navega por seus mares interiores. Para um A.A., o alcoolismo é uma doença. E uma doença sem cura. Ele jamais poderá voltar a beber. Seu corpo e sua alma reagem, fissurada e enlouquecidamente, caso circule sangue alcoolizado por suas veias. Não beberei hoje, pelas próximas 24 horas. Amanhã, eu não sei.
Depois é depois. Pode ser que venha a beber. E, se o fizer, tudo bem. Iniciarei tudo de novo.
Um A.A., também em nome da sobriedade, jamais pronunciará frases pouco sóbrias do tipo “jamais beberei de novo”. Não. A sobriedade implica conviver-se eternamente com a possibilidade da recaída. “Não beberei hoje, pelas próximas 24 horas. Amanhã, eu não sei. Depois é depois. Pode ser que venha a beber. E, se o fizer, tudo bem. Iniciarei tudo de novo. Se não tiver forças, procurarei outro membro de A.A., frequentarei suas reuniões, até me internarei, se necessário for. Acima de tudo, jamais me deixarei embriagar pela minha auto-suficiência, me inebriar pela minha vaidade. Também serei sóbrio nas minhas autocríticas e nos meus constrangimentos. Não me enxovalharei, nem terei ressacas morais. Sobriamente, reconhecerei minhas falhas, sobriamente, me censurarei, sobriamente, me arrependerei e, sobriamente, me empenharei por reconquistar minha sobriedade. Quando se luta contra forças superiores, há que se ter a humildade de reconhecê-las enquanto tal. O que não significa, também, autocomplacência, autopiedade. Há que ser sóbrio inclusive no perdão e na compreensão de si mesmo. Se a culpa, o remorso, o autoenxovalhamento, a vergonha, a ressaca moral podem ser desbragados, a autocompreensão, a autocomplacência, também. Existem tanto a intolerância quanto o perdão desmedidos”. Por estas e outras, os AAs possuem uma bela oração, que eles chamam de Oração da Serenidade: “Concedei-me Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar. Coragem para modifica aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras”.
Sem carolice, pieguice, ou sentimentalismo barato, vocês hão de convir, é uma bela oração. Bem mais bela do que aquelas que, como papagaios carolas, fomos, tantas vezes, obrigados a, pateticamente, repetir. É preciso que recuperemos o sentido moderno e não piegas da oração. A oração, no fundo, é um poema. É como ouvir uma bela canção. Seus versos, sua melodia, seu compasso e sua cadência produzem um conteúdo poético e dramático (no bom sentido do termo)
da maior importância. Quando Milton Nascimento canta Teotônio Vilela como o Menestrel das Alagoas, ou canta O que será, de Chico Buarque, isso é uma oração. Não vamos, por justas indignações do nosso passado, quando a religião foi, deploravelmente, enfiada goela abaixo, nos insurgir contra tudo que tiver o nome de oração. Quando cantamos o Hino Nacional, nos comícios das diretas, estamos fazendo uma oração política. Quando cantamos o hino do nosso time de
futebol, estamos fazendo uma oração esportiva. Quando cantarolamos Michael Jackson. Caetano Veloso ou Roberto Carlos, estamos fazendo uma oração romântica, coreográfica ou sexual. Tudo isto é muito importante. E não vamos nos esquecer de uma coisa. A palavra “religião” significa religar, ligar de novo; encontrar o fio da meada; sacar o que está acontecendo; cair na real, sem deixar de viajar por luas, planetas e estrelas; restabelecer os vínculos entre céu e terra. Em todos os sentidos. Se a religião para nós foi uma emboscada anti-sexual, antivida, antipoesia, antiliberdade, isso não tem nada a ver, a se ligar de novo na sexualidade, na vida, na poesia, na liberdade. Deus não é necessariamente algo moralista lúgubre, corta barato de direita, que fica fazendo promessas de uma vida futura, para que a gente se esqueça da nossa vida presente. Quem foi que disse que Deus é existencialmente um conservador e politicamente um reacionário? Deixemos de ser crédulos para podermos acreditar. Deixemos de ser sentimentais, para podermos nos entregar aos sentimentos. Deixemos de respeitar Deus, para podermos descobri-lo e respeitá-lo. A palavra pecado não vem daquela hedionda noção do bem e do mal que nos ensinaram nos catecismos dos colégios. Pecado vem do latim pecare, que significa, tão somente, errar o alvo. Por que estou falando de oração, Deus e religião? Para que nós possamos entender os DOZE PASSOS do A.A.. Como disse, numa série de artigos que escrevi sobre “Os Sete Pecados Capitais”, a palavra pecado não vem daquela hedionda noção do bem e do mal que nos ensinaram nos catecismos dos colégios. Pecado vem do latim pecare, que significa tão somente, “errar o alvo”. Ou seja, perder o pé das coisas, o pé de si mesmo, o fio da meada. É só isto. A fissura, a compulsão, a escravidão a qualquer coisa só é ruim porque nos faz ficar prisioneiros de um aspecto da vida e não nos permite vivê-la como um todo. Daí, uma terminologia do A.A., mas que pode, à primeira vista, parecer meio repressiva, careta, antiga. Vamos, então, nos libertar do vício de escutar certas palavras ou frases como tendo que, necessariamente, significar sempre as mesmas coisas. Olha que nesse sentido, ouvir as palavras como necessariamente significando que certas coisas é pecado, é tornar-se prisioneiro e viciado em certas significações. Vamos nos deixar embriagar pelas palavras como se elas fossem sempre um novo copo. Talvez seja uma boa maneira de não se tornar alcoólatra.. A experiência em todo o mundo, acumulada nos seus anos de existência, durante os quais recuperou milhões de alcoólatras, trouxe ao A.A. a convicção de que só se liberta real e solidamente do álcool aquele que fizer uma profunda reformulação de sua personalidade. Para alcançar essa reformulação, cumpre percorrer aquilo que na tradição dos AAs ficou conhecido como OS DOZE PASSOS. Claro, OS DOZE PASSOS são um guia, uma meta ideal a ser conquistada. Nenhum A.A. conseguiu atravessá-los completamente. Não se trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito, Trata-se, isto sim, de esforçar-se permanentemente para um aperfeiçoamento pessoal. OS DOZE PASSOS são uma maneira didática de se alcançar esse aperfeiçoamento. Não são as Sagradas Escrituras, nem pretendem ser a palavra de Deus. Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou-me permitir descreve- lós com as minhas palavras, tal como eu os entendi. Tentarei descobrir neles uma coerência semelhante à coerência psicanalítica. Na realidade, bem se poderia descrever “OS DOZE PASSOS” do processo psicanalítico. Não seriam muito diferente dos do A.A. 1° Passo Superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer. Em vez de dominar o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano após ano, o equilíbrio de forças está perdendo mais para o copo do que para a mão. Não é mais a mão que procura o copo. É o copo que atrai a mão. Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o álcool é dificílimo e esse é o primeiro passo. É angustiante se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências para a vida. Outra coisa: Chega de empulhação. Chega de desculpas do tipo paro quando quero. Realmente até que se para quando se quer. Por um dia, uma semana, um mês, até um ano. Só que depois se volta e com forças redobradas. Parodiando a frase de Oscar Wilde sobre o parar de fumar: Parar de beber é tão fácil, que eu já parei 10 vezes. Reconhecer que já está perdendo o domínio de sua própria vida (ou que já o perdeu há muito tempo) é, evidentemente, o primeiro passo para deixar de ser um biriteiro. Por incrível que pareça, este caso é dificílimo e o ego luta com todas as suas forças contra ele. Primeiro, porque é angustiante, mesmo, se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências sobre a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas insistem em considerar o alcoolismo não como uma doença como outra qualquer, mas, sim, uma fraqueza de caráter, uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se muita gente já se humilha de ter uma doença indiscutivelmente física, como o diabetes, por exemplo, imagine admitir uma doença, que nem doença é considerada pela maioria, mas, sim, falta de vergonha na cara. Realmente é difícil se admitir impotente perante o álcool, pois o alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado estigma. Pau-d’água degenerado, cachaceiro desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque, porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão de convir: são expressões que adquiriram cores claramente insultuosas. 2º Passo – Acreditar que exista um tratamento para o alcoolismo. Não um tratamento apenas físico, técnico, impessoal. É mais fácil tomar uma B-12 na veia, entregar um coração para uma cirurgia de ponte de safena, a cabeça para um Valium da vida, do que confiar numa pessoa, ou em grupo de pessoas, para realizar um tratamento de que participe algum grau de entrega pessoal. É que a mentalidade contemporânea ou é crédula e cheia de crendices, a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passar na sua frente e dele esperar milagre, ou é profundamente cientifista. No primeiro, neurologistas inspiram confiança. Não eles, como pessoas, mas sim como sacerdotes da técnica. Em ambos os casos – quer na fé infantil a um Deus poderoso e milagreiro, quer na fé igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, neurologistas inspiram confiança. Em ambos os casos – quer na fé infantil a um Deus poderoso e milagreiro, quer na fé igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, cheios de tubos de ensaios, fios, ratos e computadores – os seres humanos, com seus poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí que o difícil, mesmo, é gente confiar em gente. Não em gurus divinizados, mas em gente mesmo. As resistências do A.A. passam por ai. Só que, imagino, devem ser maiores ainda. É que, aos trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido como um semi-sacerdote “da ciência”. Hoje é até chique fazer psicanálise. Os AAs, porque são gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas por doutores, têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Não exalam, assim, o discreto charme da pequena burguesia artística e intelectual. Além disto, o anonimato de seus líderes não possibilita que se tornem celebridades a serem adoradas, entrevistadas pela TV e pela imprensa. O fato de sua origem norte-americana – e não européia – colabora, ainda para uma certa perda de prestígio do tipo aristocrático. Enquanto a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de Zurich; Lacan, de Paris; os AAs possuem como fundadores Bills e Bobs, de Nova York e Ohio. As pessoas de classe social mais alta, dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar as reuniões de pessoas de diversas camadas sociais. O pior é que, sem saber do que se trata, imaginam, logo, mendigos, cachaceiros, de pés inchados, entoando musicas evangélicas. As pessoas de classe social mais baixa, também dominadas pelo elitismo, tendem a se intimidar com este tipo de encontro, por motivos simetricamente opostos. Imaginam que estão na academia de letras, tendo que fazer discursos. Eu abrir meu coração para cachaceiro? Diz o doutor, dominado pelo Scotch. Eu ter de falar diante do doutor? Diz o cidadão proveniente das camadas populares dominado pela cachaça. E tome resistência. E tome mais pileques ainda… Em suma, o 2° Passo para se livrar do alcoolismo é recuperar a crença e a esperança de que existe algo que possa ter efeito. Uma força superior à vontade, capaz de enfrentar essa outra força superior à vontade que é o alcoolismo. O 3º Passo consiste em entregar-se de corpo e alma a esse tipo de ajuda, não entregar-se como anjinho crédulo. Claro que não. Ninguém pode pedir a ninguém que abra mão de seu senso crítico e se deixe possuir por uma crendice tola. O que o A.A. pede é que se abra mão da arrogância, dos preconceitos e das certezas, da mania da auto- suficiência, da presunção de se considerar dono da verdade. Abrir mão disso, em nome de uma atitude de um mínimo de boa vontade. O A.A. não pede confiança cega, mas pede que se evite a desconfiança paranóica. Enfim, que se esteja de cabeça aberta para ver e ouvir e de coração aberto para sentir aquilo que de fato esteja ocorrendo. É óbvio que, com ostras e rochedos, não há A.A., ou psicanálise no mundo que seja capaz de dar jeito. O que o A.A. e a psicanálise pedem é uma sincera disposição interior de se deixar tocar, caso o que estiver sendo oferecido demonstrar merecer sua confiança, em suma, que se entre no barato ou na viagem que esteja sendo proposto de espírito desarmado. Pelo menos, movido pela curiosidade de ver onde aquilo vai dar. É óbvio que uma pessoa que vai uma vez a uma reunião do A.A., ou a uma sessão de psicanálise e se manda não está, com sinceridade. Simplesmente, não deu chance, deixou-se levar por uma primeira impressão que, por acaso, foi negativa. Eu não sei o nome que os AAs dão a essa atitude de se sair das coisas antes mesmo de haver entrado. Eu sei o nome que a psicanálise dá: resistência. E da braba. E das mais primárias. Com essa atitude interior é melhor não ir. Porque ir é mais uma alta empulhação, mais um álibi, mais uma mentira que se conta a si mesmo. Não; eu fui, eu tentei, fiz o que pude, mas não deu certo. Foi mesmo? Tentou mesmo? Fez o que pôde mesmo? É presunção demais, e arrogância demais: um leigo no assunto dá uma olhada e sai, chegando a conclusões negativas. Psicanálise e A.A. não existem para prejudicar pessoas. Existem e desenvolveram métodos de trabalho com um único propósito de ajudar pessoas. Não que eu seja contra uma pessoa ir a um lugar, verificar que não tem nada a ver, e não voltar mais. Porém, vamos abrir o jogo. A psicanálise é coisa séria, feita por gente séria, que acumulou uma experiência de 90 anos. O A.A. também é coisa séria, feita por gente séria, que acumulou experiência equivalente. É presunção demais e arrogância demais: um leigo no assunto dar uma olhada e sair, chegando a conclusões negativas. Psicanálise e A.A. não existem para prejudicar pessoas. Existem e desenvolvem métodos de trabalho com o único propósito de ajudar pessoas. Se a psicanálise pode, ainda que levianamente, ser acusada de existir para faturar grana de ricos desocupados, o A.A. nem disto pode ser acusado, pois não cobra um tostão de ninguém. Seus líderes naturais não podem nem tornar-se celebridades e posar de benfeitores, pois nem são revelados publicamente seus nomes!
O 4º Passo, recomendado pelo A.A. aos alcoólatras que estejam realmente disposto a parar de beber e reconstruir suas vidas, é um passo óbvio: que eles comecem a se conhecer melhor, que comecem a prestar mais atenção ao jeito de ser da própria personalidade, suas manhas e artimanhas, seus truques, birras e manias; a mentirada que conta para si próprio e para os outros. Enfim, que se inicie um sincero caminho de busca da verdade. Não com um olhar complacente
que desculpa tudo. Nem com um olhar policialesco que condena tudo. Mas sim com um olhar amigo, sóbrio e sensato, capaz de reconhecer qualidades e apontar defeitos, capaz de fraternalmente perdoar se for o caso e, construtivamente, criticar se também for o caso. O 4° Passo é uma espécie de inventário de qualidades e defeitos. É investir no autoconhecimento, pelo menos, um pouco daquilo que se investia na bebida, a qual, num certo sentido, funciona como autoconhecimento. É como cantava Vicente Celestino: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer…” A busca da verdade, custe o que custar, doa a quem doer, é um processo mais difícil do que se pensa; com ele, erguem-se as tentações da vaidade, do orgulho e do narcisismo. Freud jamais se cansou de sublinhar a importância dessa resistência. Eu não hesitaria em dizer que a psicanálise é o cultivo do compartilhamento e ela cura porque o ser humano precisa tanto de compartilhar com alguém seu interior, como de ar para respirar. Aliás, compartilhar segredos com alguém em quem a gente confia é o pulmão da alma. O triste disso é que a vaidade, o orgulho e o narcisismo não sacam que a busca da verdade não é contra ele. A medida que a investigação se aprofunda, a pessoa vai descobrindo que as vergonhas, as humilhações, os sentimentos de bode expiatório e culpa são montados e, com isto, consegue desmontá-los. No fim do percurso, a vaidade, o orgulho e o narcisismo, em vez de considerarem a busca da verdade um inimigo, terá na consideração seu maior amigo. Aí a pessoa ficará vaidosa de sua coragem interior, orgulhosa por ser verdadeira, até narcisamente encantada com suas próprias conquistas interiores. Estará liberta da vergonha; das culpas, dos sentimentos desmedidos de humilhação. Esses, sim, ferem brutalmente a auto-estima.
O alcoólatra bebe para não ver. Não vendo, torna-se presa fácil de culpa, vergonha e humilhações. Tornando-se presa fácil para esse sofrimento, é obrigado a beber. Bebe para anestesiar a alma.
O 5º Passo é o desdobramento natural do 4o Passo e é algo decisivo. É o compartilhamento; é o compartilhar a verdade interior com alguém que inspire confiança; à medida que essa confiança se amplia, atreve- se a mais ousados compartilhamentos. Isto é fundamental. Se me pedissem para definir numa frase o que é a psicanálise e por que ela cura, eu não hesitaria em dizer: a
psicanálise é cultivo do partilhamento e ela cura porque o ser humano precisa tanto partilhar com alguém seu interior, como de ar para respirar. Aliás, compartilhar nosso segredo com alguém em quem a gente confia é o pulmão da alma. Sem isso, inevitavelmente virá o sufoco. Vão-se acumulando tantos grilos dentro da gente que, no fim de algum tempo, viramos uma pasta.
A essência do processo psicanalítico é uma pessoa contar a alguém aquilo que se passa verdadeiramente com ela. O A.A., por caminhos diferentes, chegou à mesma conclusão que a psicanálise; compartilhar e libertar. Depois falarei mais sobre o compartilhamento. Cheguei ao
5º Passo.
1º Admitir que já não controlo o álcool;
2° Buscar ajuda levando fé e dando chance;
3º Se entregando de corpo e alma a essa ajuda;
4° Devolver a visão interior, inspirando a busca da verdade;
5º Compartilhar de que se confie as próprias emoções.
Parei no compartilhamento, que eu reputo um passo decisivo. É que a emoção precisa desabotoar o peito e deixar sangrar aquilo que guarda dentro, senão: explode coração. As emoções não compartilhadas, principalmente aquelas que guardamos como segredos trancados a sete chaves, vão-se eletrificando, ampliando sua carga perniciosa, sua capacidade de nos fazer sofrer. O compartilhamento opera como uma deseletrificação da mente. Só assim a gente deixa de ficar com os nervos à flor da pele, como fios desencapados. E, sabemos, uma das razões que leva o alcoólatra ao álcool é a eletricidade interior que ele precisa de alguma forma se dar. Além disto, o compartilhamento, realizado numa boa, funciona como uma bênção, um sacramento, uma absolvição. É incrível mas é verdade. O compartilhamento absolve, abençoa e, acima de tudo legitima nossas emoções reduzindo imensamente os pesados sentimentos de culpa. Quem
já desabafou com um amigo, colocou as coisas em pratos limpos, sabe do que estou falando. Sabe que o compartilhamento efetuado em certas condições é capaz de produzir milagres. É capaz até de serenar sonhos frustrados. É isto mesmo. Só o fato de compartilharmos nossas frustrações com alguém já sacia em parte a nossa sede. Novamente parece um milagre. Nada aconteceu, os sonhos não foram realizados e é como se tivessem, em parte, sido. Como o copo é muito usado como amigo confidente e o álcool para afogar as mágoas, compartilhar é um bom substitutivo para a bebedeira. Aliás, minto. É o contrário. O copo e o álcool é que já entraram como substitutivo de compartilhamento que não pode se efetuar… Esta é uma das causas do alcoolismo. A gente pensa que sabe falar. Mas quando o papo chega à zona do agrião, desaparece nossa capacidade de conversa. Outra importância do compartilhamento é que, através dele, é que aprendemos a falar e conversar. A gente pensa que sabe falar e conversar, mas não é verdade. Á gente sabe falar sobre coisas exteriores, sobre assuntos irrelevantes mas, quando chega à zona do agrião ( falar de você mesmo, do seu interior), desaparece nossa capacidade de conversar. Na segunda frase ou estamos paralisados de medo ou de rancor ou já estamos aos berros e brigando ou discutindo. Mais ainda. Uma das coisas mais difíceis que existem é colocar em palavras exatas e precisas aquilo que se sente, que se deseja, que se aspira. Não só colocar para alguém, mas colocar para nós mesmos.
Aí surge o maior problema. É que, quando a gente não consegue colocar em palavras as nossas emoções, nosso pensamento perde a capacidade de acompanhá-las, de entendê-las. Perde o fio da meada e surge uma das mais dolorosas sensações mentais; a confusão. Quando a confusão fica muito forte, tem-se a nítida impressão de que se está ficando louco. O que faz um psicanalista?
Coloca em palavras mais exatas e precisas as emoções que lhe são contadas em palavras menos exatas e menos precisas. Com isto, o psiquiatra, descobre o fio da meada, diminui a confusão e amplia significativamente a visão interior. Seu método: Ensinar seu paciente a falar.
Um membro mais experiente do A.A. faz exatamente isto com o alcoólatra que o procura. Funciona exatamente como um psicanalista E, como ele é um ex-bebedor, sabe como ninguém colocar em palavras a alma do bebedor. As sessões do A.A. também funcionam por este método. Parecem sessões de análises de grupo. Vou pular o 6º e o 7º Passos, os quais abordarei adiante, juntamente com o 11°. O 8º Passo, que os A.A. recomendam àqueles que sinceramente desejam parar de beber, consiste em fazer um levantamento de perdas e danos que a vida bêbada ocasionou. Enfim, é um inventário dos insultos, dos prejuízos, das injustiças, das deslealdades que o alcoólatra realizou. Não somente enquanto estava alcoolizado, mas em toda sua vida. É que o A.A. está convencido de que uma das causas do alcoolismo é um acúmulo de culpas que ficam gravadas na memória emocional. Elas geram mal-estar interior, uma inquietação, uma incapacidade de se inebriar pela vida que acaba desaguando na necessidade de se inebriar artificialmente através do álcool. Os A.A. estão convencidos de que o alcoolismo é fruto de corações que se melindram e acumulam ressentimento. É que, no fundo, somente emoções inebriam emoções. Porém, quando a culpa consciente ou inconsciente ultrapassam um determinado nível, nossas emoções já não se sentem com o legítimo direito de receber emoções de mais ninguém, principalmente daqueles que mais prezamos. Assim, os relacionamentos vão aos poucos perdendo o brilho, perdendo a cor, perdendo a luz e vai-se tornando necessário embebedar-se para recuperar a capacidade de viver, de se emocionar, de emocionar os outros. Embebedar-se para enfrentar a culpa e o remorso. Embebedar- se para resgatar a alegria perdida. Além disto, os AAs estão convencidos de que o alcoolismo é fruto de corações que se melindram facilmente. E acumulam o fel do ressentimento. Em pouco tempo, estão “um pote até aqui de mágoa”. Ora, com tanto fel circulando nas veias é impossível amar e se fazer amado. Gostar e se fazer gostado, se embevecer e se fazer objeto do embevecimento, comover-se e se fazer comovido. Como a mente humana precisa desesperadamente de viver algo inebriada e sentir-se inebriante e como isto deixa de ocorrer, surge a tentação etílica. É que o vinho natural que corre em nossas veias virou vinagre. Daí uma necessidade de recorrer-se ao vinho exterior, e tome pileque… O levantamento das culpas tem a ver com o levantamento do fel e da bílis que se é capaz de produzir. Claro, ninguém perpetra desatinos, desacatos e despautérios quando o amor predomina sobre o rancor, quando a doçura é mais forte do que a amargura, quando o sentimento prevalece sobre todo o ressentimento. Fazer um levantamento das culpas é também um ato de poderosa humildade Mas a humildade bem dosada é decisiva, pois é o único antídoto contra o orgulho e a vaidade desmedidos. E são eles os principais responsáveis pela produção de tanto ódio. São o fígado da alma, onde se destila tanto veneno, tanta bílis, tanto fel. Já falei, até agora, sobre:
1º Passo parar de empulhacão e reconhecer que já é biríteiro;
2º Passo confiar numa boa em algum tratamento;
3º Passo entrar de ponta a cabeça nesse tratamento (A.A. epsicanálise);
4º Passo iniciar uma metódica auto-análise;
5º Passo compartilhar seus segredos com quem você confia e entenda do assunto(A.A. e psicanálise);
6º e 7º Passos abordarei posteriormente;
8º passo – fazer um inventário das aprontações e das pessoas com quem se aprontou.
Parei neste 8º Passo, que pode ter, para algumas pessoas, que tenham ficado indispostas com as religiões, um ranço de catecismo, de confissão de pecados, de céu e inferno, de uma meia culpa, de penitências carolas. Não que o cristianismo, numa leitura profunda de seus maiores pensadores, seja isso. Contudo, concordo que o cristianismo vulgar tal como é assimilado pelas massas tenha colaborado e muito para um sentimento ante religioso. Eu, pessoalmente, até conhecer e ter estudado anos junto com um frei franciscano, de rara inteligência e profundidade o frei Archangelo Buzzi tinha exatamente essa implicância e cheguei a nutrir um prolongado sentimento ante religioso. Realmente, entender Deus como um senhor barbudo, vestido de branco, disposto a enxergar pecado em tudo quanto fosse prazer e propondo um cultivo masoquista da culpa, a virtude sendo uma coisa lúgubre, sem brilho e sem cor, num clima de franco baixo astral, o céu sendo algo monótono e pueril, com anjinhos barroco tocando harpa em cima das nuvens, é demais. Um Deus que só chamava de amor a certos sentimentos assexuados, piegas e açucarados, tudo mais sendo considerado astúcias de Satanás, a alegria quase se resumindo a euforias infantilizadas de anúncios de TV, marcas de água mineral também é demais. Um Deus que condenava toda a originalidade e o desassombro existenciais, que só pensavam em aflitos e enfermos, como se existir uma juventude cheia de vida e uma alegria que se desfile pelas passarelas do samba fosse já quase uma imperdoável frivolidade, e ainda um Deus politicamente de uma direita reacionária, indisposto com justas lutas democráticas dos trabalhadores, propondo-lhes, em vez disto, uma apática resignação nesta vida em troca de recompensas somente em vidas futuras. Tudo isto foi fermentando um generalizado sentimento ante religioso. Cristianismo é religião, nada tem a ver necessariamente com virtude e pecado, salvação e perdição. A religiosidade, em vez de se tornar expressão dos níveis supremos da reflexão e da emoção humanas, por pouco se confunde com crendices infantis em divindades milagreiras, portanto, somente capaz, de sensibilizar parcelas incultas e desesperadas da população. Ora, cristianismo e religião não tem necessariamente nada a ver com isso. Deus é o amor, virtude e pecado, salvação e perdição, culpa e absolvição – são entendimentos de suprema complexidade e não podem ser descritos de forma primária e caricata. Os AAs jamais pensarão
em aceitar esse 8o Passo em termos primários. Se bem que, como em todas as instituições, existam pessoas de nível de reflexão de profundidades rasas.
Os AAs conferem importância, sim, aos sentimentos de culpa. Quem, no mundo, poderia desconsiderá-los? Eles existem, são poderosíssimos e arruínam muitas vidas, levando algumas até a buscarem salvação no álcool. A psicanálise sempre conferiu a maior importância para os
sentimentos de culpa. Freud, por exemplo, os estudou exaustivamente e, descobriu que nem todos os sentimentos de culpa são iguais. Existem sentimentos de culpa por prejuízos realmente causados, por deslealdades realmente praticadas, por injustiças realmente perpetradas. São os sentimentos de culpa racionais, justos, devidos. E outros, não. Não têm nada a ver. São irracionais.
O que fazer com os do primeiro tipo? Só cabe, na medida do possível, tentar repará-los, de alguma maneira. Nada favorece mais o aparecimento de genuínos sentimentos embevecidos e embevecedores, inebriados e inebriantes, do que estarmos, minimamente, de alma limpa, não fazendo com os outros, pelo menos, muito mais do que fizeram conosco. Digo, minimamente, pelo menos, porque não se trata de ser santo. Nem se tornar alma pura e imaculada. Somos humanos e isso seria impossível. Além disto, não há avaliação de realidade sem que o eu puxe a brasa para sua sardinha., todos nossos julgamentos são sempre meio parciais. Tudo bem, ninguém é perfeito. Ninguém é santo e nem precisa ser, para sentir a consciência tranquila. Porém, tudo tem limite. Depois de certo ponto, começamos a ferir demais nosso senso instintivo de justiça e aí a barra pesa, os remorsos se assanham, as culpas vão a mil. Daí os AAs preconizarem seu 9º Passo: para se libertar do álcool, é que o alcoólatra, na medida do possível, tenta reparar suas culpas, procurando, inclusive, novamente, se possível, as pessoas que foram insultadas ou prejudicadas por ele, para tentar colocar a vida em pratos limpos. Obviamente, os AAs não vão exigir de ninguém gestos sobre-humanos como, intempestivamente, procurar uma delegacia de polícia para ser condenado por um delito por acaso cometido, ou gestos afins. Também não vão exigir de ninguém que saia relatando em minúcias seus delitos matrimoniais para quem está casado. Relatos desse tipo acabam gerando muito mais mal do que bem. Quem não se sente bem ao ver alguém que nos aprontou alguma vir, dignamente, nos pedir desculpas? Outra coisa. Nessa caminhada não se trata de ir como um invertebrado, de cabeça baixa, com uma humildade excessiva. Não. Basta buscar as pessoas lesadas, de cabeça erguida, de coração aberto, apenas para recolocar as coisas nos seus devidos lugares. Esse tipo de ação, na esmagadora maioria das vezes não só produz naquele que é procurado uma surpreendeníe boa recepção, como até desfaz mágoas ou provoca admiração. Quem não se sente bem ao ver alguém que lhe aprontou alguma chegando dignamente para lhe pedir desculpas? Os AAs recomendam, entretanto, que isto deve ser feito, mas desde que não prejudique terceiros. Caso contrário, ao se limpar a barra com alguns, estará se sujando com outros. Além disso, muitas vezes, nesse tipo de reparação, é preciso lutar poderosamente contra o orgulho e a vaidade. Ter que engolir em seco e fazer das tripas coração, E isto é bom, é muito bom. Primeiro, porque, objetivamente falando, não é uma humilhação. Só o orgulho e a vaidade desmedidos vivem esse gesto como uma humilhação. Segundo, porque é fundamental e decisivo para o alcoólatra quebrar o orgulho e a vaidade excessivos. Nada melhor para isto do que exercitar, na prática da vida, a digna humildade. Sabem por que é tão importante quebrar a arrogância e a presunção? Porque esta é a origem mais profunda das mágoas e do ressentimento (sentimentos típicos de alcoólatras ) e que os levam a beber. E também esta é a origem profunda dos sentimentos neuróticos de culpa, ou seja, daquelas dores de consciência irracionais que simplesmente não têm nada a ver. Já descrevi:
1° Passo Chega de empulhação e assuma que é biriteiro;
2° Passo Confie que existe tratamento para você: não é de remedinhos nem internação. Porque isso não resolve nada, só as terapias psicológicas (incluindo as do A.A.) podem mantê-lo
definitivamente afastado do copo;
3º Passo entre de cabeça e peito aberto nessas terapias, dando uma chance para elas provocarem sua eficácia; ir a 10 sessões e abandonar é como não ir,
4º Passo Comece a fazer uma sistemática auto-análise;
5º Passo Encontre alguém em quem você confia e entenda do assunto para compartilhar seus segredos; guardá-los só para si não basta; o compartilhamento prolongado e sistemático é fundamental;
6º e 7º Passos abordarei posteriormente;
8° e 10º Passos Primeiro faça um levantamento das pessoas com quem você aprontou; depois, procure-as sempre que possível, com uma digna boa vontade, para tentar colocar as coisas em pratos limpos. Estes dois últimos passos são fundamentais, por vários motivos. Primeiro, diminuir sentimentos de culpa. Segundo, melhorar as relações das pessoas, em geral, com você. Terceiro, ajudar a quebrar o orgulho e a vaidade que são a principal fonte do rancor, da mágoa e do
ressentimento. Este ponto é fundamental. Uma pessoa orgulhosa e vaidosa em excesso é, necessariamente, toda melindrosa, toda cheia de não-me-toques e reage a qualquer coisinha com os mais intensos sentimentos de vergonha, humilhação, depressão, ódio, mágoa e ressentimento.
Uma pessoa com ódio no coração não pode se inebriar pela vida e só se inebria no álcool.
Claro, o orgulho e a vaidade divinizam o próprio eu. Como um reizinho que merece todas as coisas e para quem os outros existem respeitando sua majestade; tudo que sair dessa escrita dará bode,
humilhação, indignação. Como fazem isso comigo? Eu ter de fazer essas coisas, ir à luta? Esperar a minha vez? Daí para o ódio, a mágoa, o ressentimento, a autopiedade, a sensação de vítima de um mundo cruel, incompreendido pela sociedade, não custa. O pior é que a pessoa com ódio no coração não pode se inebriar pela vida. Como ninguém aguenta viver não-inebriadamente, vai ter que buscar o álcool para voltar a se sentir inebriado. Só que aí vira ébrio mesmo. A fonte maior do ódio e do ressentimento não estão sendo nem as frustrações da vida. Por incrível que pareça, isto é verdade. A fonte maior do ódio e do ressentimento são o orgulho e a vaidade. Orgulho e vaidade geram ódio e ressentimento. Ódio e ressentimento cortam o barato da vida. Cortado o barato da vida, só resta beber, inclusive porque ninguém aguenta uma pessoa odienta e ressentida ao seu lado. Jamais ela despertará sentimentos inebriados e inebriantes em ninguém.
Mas não é só isto. O orgulho e a vaidade geram uma divinização do eu, uma sensação de, eu posso tudo, tudo me é devido. Ora, essa sensação é um tremendo corta barato. Por que? Porque, por mais que alguém faça alguma coisa para um orgulhoso e vaidoso, não faz mais do que a obrigação, Logo ele não se emociona, nem se inebria por nada nem por ninguém. Resultado; tédio. Resultado: tome pileque. Mais ainda. O orgulho e a vaidade, colocando o próprio eu nas alturas, geram um impressionante sentimento de autopiedade, auto-indulgência, autocomplacência. O eu se perdoa de tudo. Culpados são sempre os outros, isto é óbvio. Gera- se uma personalidade querelente meio delinquente e acusadora, para diminuir o seu sentimento de culpa. Mas eu não disse que o sentimento de culpa é um dos responsáveis pelo alcoolismo? Logo, esse seria um fator anti-alcoólico. É verdade, porém, que existe o reverso dessa indulgência – A vaidade e o orgulho excessivo, eu também disse, geram poderosos sentimentos de intolerância, rancor, mágoa, ressentimento, vingança. A mente possuída e envenenada por esses sentimentos enxerga o mundo pela ótica envenenada por intolerância, ódio, rancor, vingança e ressentimento. Noutras palavras, passa a enxergar as pessoas à imagem e à semelhança de si próprio. Ora, isso gera enorme sentimento de culpa. Não de culpas justas e racionais, mas de culpas que não têm nada a ver com a realidade. Nada a ver com o que as pessoas realmente são. Isto dá uma sensação de ameaça, medo e insegurança impressionantes. O mundo é vivido como perigoso, hostil e vingativo, mais do que de fato é. Gera uma verdadeira paranóia. Resultado: para reduzir esse terror; tome álcool…
Outra coisa ainda. Todos nós possuímos, dentro da cabeça, uma consciência moral, um senso de justiça. A psicanálise deu a essa parte da mente até um nome técnico: superego, esse olhar interno que nos avalia, esse juiz interno que não funciona independentemente do resto da personalidade. Claro, tudo é farinha do mesmo saco, vinho da mesma pipa. Assim, se uma personalidade é amorosa, gentil e justa, esse juiz interno tenderá a ser amoroso, gentil e justo.. Seu olhar será atento e seu julgamento justo, fraterno e construtivo. Entretanto, se uma personalidade é rancorosa, intolerante, violenta, acusadora, implacável, implicante, vingativa, saiam de baixo. Esse olho interior nos enxergará com os piores olhos e nos avaliará de uma forma brutal. Estará sempre disposto a enxergar defeitos, é cego para nossas qualidades, insensível aos nossos esforços, implicante e está sempre esperando a hora de nos enxovalhar, nos humilhar, nos reduzir a pó. E tome culpa, tome angústia, tome complexo de inferioridade, tome timidez, tome insegurança, tome depressão. E tome álcool. A vaidade e o orgulho geram rancor e intolerância. E estes geram o superego sádico. Essa consciência moral, rígida e brutal é responsável pelos sentimentos neuróticos de culpa.
A psicanálise dá a esse tipo rancoroso de juiz interno o nome de superego sádico.
A vaidade e o orgulho geram o rancor e a intolerância. O rancor e a intolerância geram o superego sádico. O superego sádico gera sentimentos poderosos e irracionais de culpa. Resultado: mais
alcoolismo. Quebrar, portanto, a vaidade e o orgulho excessivo é decisivo para alcoólatra, fundamentalmente. Daí a importância que o A.A. concede aos 8o e 9o Passos. Pedir desculpas não é só colocar a vida em pratos limpos, como ainda é um excelente exercício para se quebrar o orgulho e a vaidade. Assim, através desses passos, diminui-se a culpa sadia aquela que
vem na justa medida das aprontações e diminui, ainda, de lambuja a culpa doentia, aquela que vem de consciência moral rancorosa e que não guarda proporção com o tamanho da aprontação.
O 10° Passo contra o alcoolismo. Na realidade não passa de um aprofundamento do 4º Passo, a auto-análise sistemática. A cabeça humana desenvolve aquilo que ela pratica. Por isto, um maestro escuta uma sinfônica inteira sem perder uma nota do mais humilde dos oboés e o mais afastado dos violinos. Um técnico de futebol enxerga, no campo, espaço e manobra que jamais um torcedor enxergaria. Assim é também com a visão interior. Vejo isso por exemplo, em mim mesmo, lembro-me dos meus primeiros tempos de psicanalista, ou de pacientes de psicanálise. Tinha a maior dificuldade para enxergar esse festival de emoções que existem nos nosso interiores. Hoje, 20 anos depois, a velocidade e a precisão do meu olhar são centenas de vezes maiores; rápida e precisamente, saco o que está acontecendo comigo e até com os meus pacientes. Ao ler uma carta enviada, em questão de segundos entro no barato do que está escrito e começo rapidamente a formular as primeiras sacações. Isto não é mérito. É apenas questão de prática. Longe de mim achar que todo mundo deve desenvolver essa percepção psicológica. Há algumas coisas na vida tão interessantes quanto ela. Desenvolver, por exemplo, a percepção artística, a percepção política e tantas outras percepções. Às vezes, fico boquiaberto com a capacidade de certos coreógrafos em bolar passos para seus bailarinos e a destes de executá-los. Contudo, um mínimo de percepção é necessário a todo mundo, sob o risco de adoecermos. Agora, então, para pessoas já adoecidas e, em recuperação, como o alcoólatra, isto é fundamental. Daí a insistência dos AAs nesse cultivo da auto-análise, da visão interior. Entender o que se passa consigo e com os outros não resolve tudo, mas que ajuda bastante, ajuda. O 12° Passo preconizado pelos AAs é, de alguma forma, tornar-se membro do A.A., exercer algum tipo de militância ativa na recuperação dos alcoólatras Quem foi rei nunca perde a majestade. Quem foi alcoólatra nunca perde a inclinação etílica.
Não é difícil para mim reconhecer a sabedoria desse tipo de recomendação. Claro; alcoolismo é barra pesada e há sempre períodos de recaídas. Nada melhor, portanto, do que investir aquelas energias investidas no álcool em alguma atividade anti-alcoólica. Há que ser prudente com o tubarão etílico que há em todo alcoólatra. Ele está sempre à espreita, pronto para atacar e possuir, com sua goela larga e manobra certeira, a personalidade. Se quem já foi rei nunca perde a majestade, quem já foi alcoólatra nunca perde a inclinação etílica. Ela pode ficar quietinha, não incomodar mais. Mas, atenção: não jogue sangue (ou melhor, vinho) na água. Daí a insistência de se evitar o primeiro gole.
Uma militância na recuperação de alcoólatras não só preenche o rombo deixado pelo não beber, como ainda gera um sentimento profundo de responsabilidade com um ideal. Um A.A. de 15 anos, por exemplo, tem compromissos demais consigo mesmo e com os outros e pensará 100 vezes antes de beber. Além disso, como me dizia bem um líder do A.A., humoradamente: “O AA acaba virando uma cachaça…” Intencionalmente, deixei 3 passos excluídos. E que os considero como da mais complexa compreensão e, numa leitura apressada, podem gerar as maiores reticências.
Refiro-me aos 6°, 7º e 11° Passos.
Os 3, na sua redação original, não deixam margem a dúvidas. Tratam da necessidade da crença numa força superior, da fé na existência de Deus. Não necessariamente do Deus dessa ou daquela religião. Mas de Deus como cada um o concebe. Ora, a palavra Deus gera as maiores resistências. Os ateus ou materialistas pulam e sentem ímpeto de fechar a página. Ah! Não, papo de religião, nem pensar. Mas as resistências não vêm somente daí. Daí vêm as resistências frontais, talvez até mais fáceis de serem contornadas, se as coisas ficarem bem esclarecidas. Sei que não é fácil contorná-las, mas dá perfeitamente para chegar lá. Se eu fosse um A.A., não me intimidaria muito com esse tipo de resistência. Por que? Porque na maioria das vezes ela não é uma resistência a
Deus, como expressão do mais complexo dos sentimentos. É, sim, uma resistência das idéias infantilizadas de Deus, que povoam, não os níveis superiores da reflexão humana mas os seus níveis mais rasteiros. É o Deus dos catecismos decorados, o pai milagreiro que oferece proteção mediante a prática de certos atos mecânicos ou orações que se repetem como papagaio. Em suma, o Deus das crendices mais primárias. É daí, exatamente daqueles que dizem acreditar em Deus e praticam algum culto, que creio, virão as mais difíceis resistência: Deus paia eles, no fundo, não é uma experiência interior profunda. É uma entidade exterior meio mágica, da qual, através de ritos mágicos, se obteria a simpatia e proteção. Deus, para os AAs de alto nível, certamente, não tem nada a ver com isto. Quando um A.A. de alto nível fala a palavra Deus, não está falado nem do Deus interpretado (e muito bem) por Freud, nem do Deus interpretado pela sociologia. Interpretação de Deus por Freud: a impotência e a ingenuidade da criança, seu desamparo emocional e seu despreparo intelectual fazem- na enxergar os adultos como seres todo-poderosos, em cujos braços nada de mal lhe acontecerá. Se estiver bem com eles, tudo estará bem na sua vida. Se estiver mal, tudo estará mal. No fundo, Deus, seria papai e mamãe, visto pelos olhos crédulos da criança. Se o adulto cresce fisicamente, mas não cresce emocionalmente, mais tarde se tornará presa fácil para prosseguir acreditando num Deus desse tipo. A sociologia oferece uma interpretação igualmente interessante: A necessidade dos interesses de uma determinada classe social se manterem a salvo das tentações de outras classes sociais faz com que elas sacralizem os valores que defendem os seus interesses. Com o passar dos séculos, essa sacralização fica mais forte ainda. Daí para a idéia de Deus, de seus mandamentos e desígnios, basta um pulo. Tudo que interessa à classe que domina a sociedade é sacralizado e apresentado como expressão direta da vontade de Deus.
Para muitos, Deus não é uma experiência interior, mas uma entidade meio mágica.
Daí surgem as idéias de direito sagrado, direito natural, direito de vida, ordem natural das coisas etc. etc. Ora, de que tudo isto seja chamado de Deus, eu não tenho dúvida. Agora que, caso sejam depurados esses sentimentos, não sobrará mais nada para Deus, é, tenho as maiores dúvidas.
Creio que por mais garimpagem que se faça de todo esse cascalho de crendices, sobrará, aí sim, mais do nunca, o ouro da existência de algo que nos transcende. A primeira vez que entrei em contato com os AAs estranhei de cara que 3 de seus 12 Passos falassem de Deus. Conversando com alguns AAs, fui entendendo o que isso significava. Num certo sentido, a psicanálise, com outras palavras, diz as mesmas coisas. Freud, por exemplo, diz que o ser humano se move na vida em busca de uma plenitude, de um congraçamento cósmico que ele chama de “estado oceânico” e que bem se poderia chamar do encontro com Deus. O eu luta com todas as suas forças para, com seus próprios recursos, sem precisar de nada ou de ninguém, alcançar essa plenitude, esse
congraçamenlo cósmico, esse “estado oceânico”. Quer bastar-se a si mesmo, ser auto-suficiente, ser, portanto, Deus. Quando constata que por si só ele se completa e nem se basta, ou seja. quando constata que não é Deus, várias coisas podem acontecer. Primeira: O eu renuncia em parte a sua condição de Deus. Tudo bem; precisa dos outros. Não de igual, para igual, mas sim como adoradores. O eu deixa de ser um Deus de absoluta auto-suficiência, ou se torna um Deus necessitado de adoradores. Essa é a origem profunda do orgulho, da arrogância, da presunção, do narcisismo. Se os outros não se comportarem direitinho como adoradores, esse eu auto-divinizado sente a maior indignação e não hesita em desfechar sobre as pessoas sua fúria divina. Como não fazem tudo o que eu quero, a hora e a tempo? Como não advinham meus mais secretos desejos, não cumprem meus desígnios? Como podem ter outras coisas na vida além de mim? Esta é a origem profunda do rancor, da mágoa e do ressentimento desmedidos. Não ser o centro da festa, homenageado o tempo todo, por tudo e por todos, significa para o eu divinizado, humilhação ou vergonha. Com o passar do tempo pode passar a se sentir um Deus esquecido, um Deus que não deu certo, um Deus fracassado e falido. Esta é a origem da perda da auto-estima, do complexo de inferioridade, da timidez, da insegurança, da depressão. Sentindo-se um Deus fracassado, fica carente e acaba por divinizar os outros, É que ele não sabe gostar, não sabe amar, não sabe se afeiçoar. Só sabe divinizar. Aí podem pintar as maiores fissuras, as maiores dependências, as maiores paixões, numa ruim. Enquanto se sente ainda um Deus não fracassado, ele não sente culpa nenhuma (já se viu Deus sentir culpa? Afinal os outros não existem para servi-lo e adorá-lo?). Essa ausência de culpa permite toda sorte de aprontações com uma inacreditável auto-complacência, auto-piedade. Quando se sente um Deus fracassado, diviniza os outros (agora ele não é ninguém e os outros é que são Deus), Passa a se sentir indigno, inferior, pisando em ovos, todo cerimonioso e cheio de culpa por qualquer coisinha. Claro, já pensou pisa na bola diante de Deus? Olhem, então, em que enrascada se mete um eu que insiste em se considerar Deus. Que a vida obrigou a se sentir Deus fracassado; cai- lhe profunda insegurança e depressão. Poderá morrer no álcool para repor o brilho perdido. Se o vinho humano humilha a pessoa, ela se volta para o vinho da natureza.
E tome pileque! Se o orgulho e a vaidade forem tão intensos, o eu pode sentir-se humilhado por precisar até de adoradores. “Não! Um Deus precisar de gente para se sentir bem; é humilhante demais!”. Como, entretanto, só a emoção humana inebria a emoção humana, esse eu divinizado, se sentir-se humilhado por precisar dessas emoções alheias, não pode se inebriar com elas. O que fazer? Ninguém agüenta viver sem um mínimo de inebriamento, sem estar minimamente
embriagado por algo. Seu vinho humano as emoções dos outros ou humilha ou, então, há que se recorrer ao vinho da natureza, ao vinho dos deuses, ao vinho das parreiras, ao vinho da Escócia, ao vinho dos canaviais. E tome pileque… O álcool, aqui representa, pois: a incapacidade do eu de se embriagar, se embebedar, se inebriar com o vinho humano das emoções, do amor e das paixões. O álcool, porque de alguma forma inebria, entra no lugar do verdadeiro álcool natural, que é o amor, a sensualidade, a poesia. O alcoólatra substitui o amor aos outros pelo amor ao copo ou à garrafa.
Há uma outra razão por que ele prefere o copo e a garrafa às pessoas. É que, ao contrário das pessoas, o copo e a garrafa são mais dóceis e estão sempre à mão. Ele, o alcoólatra, os adora porque eles (garrafa e copo) são adoradores de absoluta submissão e docilidade. Além disto, o álcool está dentro de seu corpo, sempre inebriando a sua alma. Não é como as pessoas que ora estão perto e ora estão longe; ora estão nos inebriando e inebriados por nós, ora estão inebriando e inebriados por outrem. Não, o álcool, não. Um eu que insiste em ser Deus pode tomar-se alcoólatra ainda por outra razão. Desprezando o amor aos homens, só aceita o amor divino. Afinal, um Deus só pode ser amado por outro Deus. O álcool, por todo o seu poder de viciar, por todo o seu poder irresistível de inebriar e embebedar, por seu poder até de matar, de mudar o humor e ou, o sentimento das pessoas, pode passar a ser temido e admirado como uma espécie de Deus. Assim, ingeri-lo é como receber uma espécie de sacramento, uma espécie de eucaristia. Beber, aí, torna-se uma busca enlouquecida de Deus. O alcoólatra ama e gosta das pessoas. Mas nele sobrevivem núcleos emocionais poderosos. Descrevi até agora algumas das coisas que podem acontecer quando o eu insiste cm ser Deus e como isso pode levar ao alcoolismo. Não é que o alcoólatra seja só isto; não ame, não goste das pessoas. Claro que não. Mas é que dentro dele sobrevive, núcleos emocionais poderosos desse tipo. Se o eu renuncia, porém, à condição de Deus, numa boa, deixará de se divinizar e de divinizar os outros. Se tornará apenas gente inebriando gente e sendo por gente inebriada. O risco do alcoolismo será imensamente menor. Desdivinizando-se, a pessoa descobrirá que, apesar das pessoas a completarem parcialmente, não a completam totalmente, não lhe traduzem a plenitude, o congraçamento com o cosmos, o estado oceânico. Aí descobre que somente em Deus, nos momentos de fé profunda, obtém esse nível de plenitude.
Para se curar do alcoolismo há que se fazer desdivinização ampla, geral e irrestrita de si próprio e dos outros. Só se sentindo humano e não divino, só sentindo os outros humanos e não divinos, é que uma pessoa se livra da arrogância, da vaidade, do orgulho, da mágoa e do rancor, por um lado; e da culpa excessiva, da submissão dos outros, da insegurança, do complexo de inferioridade, por outro. É só renunciando à condição de Deus que se pode verdadeiramente descobrir Deus. Até o alcoolismo que, no fundo, é uma busca inesperada de congraçamento, de unidade com o cosmo, deixa de existir.
Por que? Porque descobrir Deus é descobrir o próprio congraçamento, a própria unidade com o cosmo.