Monthly Archives: Abril 2013

O PONTO DE VISTA MÉDICO SOBRE A.A.

O PONTO DE VISTA MÉDICO SOBRE A.A.
Desde o apoio inicial dado a Alcoólicos Anónimos pelo Dr. Silkworth, médicos e associações médicas de todo o mundo têm-nos manifestado a sua aprovação. A seguir transcrevem-se excertos de testemunhos dados por médicos na reunião anual * da Associação Médica do Estado de Nova Iorque, onde foi apresentada uma comunicação sobre A.A.:
Dr. Foster Kennedy, neurologista:
“A organização de Alcoólicos Anónimos apela a duas das maiores fontes de energia conhecidas pelo ser humano – a religião e o instinto de associação com os seus semelhantes … o “instinto gregário”. Eu considero que a nossa profissão deve reconhecer este magnífico instrumento terapêutico. Se não o fizermos, teremos que nos declarar culpados de esterilidade emocional e de termos perdido a fé que move montanhas, sem a qual a medicina pouco pode fazer”.
Dr. G. Kirby Collier, psiquiatra:
“Tenho sentido que os Alcoólicos Anónimos são um grupo com uma identidade própria, e que os seus melhores resultados podem ser alcançados sob a sua própria orientação, como consequência da sua filosofia. Qualquer procedimento terapêutico ou filosófico que registe um índice de recuperação da ordem dos 50% a 60% tem de merecer a nossa consideração”.
Dr. Harry M. Tiebout, psiquiatra:
“Como psiquiatra, tenho reflectido longamente sobre a relação entre a minha especialidade e A.A. e cheguei à conclusão de que a nossa função específica pode muitas vezes consistir em preparar o terreno para que o paciente aceite qualquer tipo de tratamento ou ajuda exterior. A função do psiquiatra, como agora a concebo, é a de quebrar a resistência interna do paciente, para que floresça o que tem dentro de si, sob a acção do programa de A.A.”.
Falando sob os auspícios da Associação Médica Norte Americana, numa emissão da NBC em 1946, o Dr. W. W. Bauer fez, entre outras, a seguinte declaração:
“Os Alcoólicos Anónimos não fazem nenhum tipo de cruzada; eles não são uma associação anti-alcoólica. Sabem apenas que nunca mais podem beber álcool. Eles ajudam outros com problemas semelhantes… Neste ambiente, o alcoólico frequentemente supera a sua excessiva concentração em si próprio. Aprendendo a depender de um poder superior e a deixar-se absorver no trabalho com outros alcoólicos, ele mantém-se sóbrio dia após dia. Os dias transformam-se em semanas, as semanas em meses e anos”.
O Dr. John F. Stouffer, Chefe de Psiquiatria do Hospital Geral de Filadélfia, referindo-se à sua experiência com A.A., disse:
“Os alcoólicos que recebemos aqui no nosso hospital são, na maioria, aqueles que não têm meios para pagar um tratamento particular, e o A.A. é, de longe, a melhor coisa que temos para lhes oferecer. Mesmo entre aqueles que ocasionalmente voltam a ser internados aqui no hospital, notamos neles uma profunda transformação de personalidade. Mal os reconhecemos”.
A Associação Psiquiátrica Americana solicitou em 1949 que fosse redigida uma comunicação por um dos membros mais experimentados de A.A. para ser apresentada na reunião anual da Associação nesse mesmo ano. O pedido foi atendido e a comunicação foi publicada em Novembro de 1949 no American Journal of Psiquiatry (Revista de Psiquiatria Americana).
(Esta comunicação está agora publicada e disponível em forma de folheto ao preço nominal em quase todos os grupos de A.A. ou no GSO, Box 459, Grand Central Station, New York, NY 10163, com o título “Três Comunicações a Sociedades Médicas por Bill W.” – previamente intitulado “Bill sobre Alcoolismo” e antes disso, “Alcoolismo, a Doença”).

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PROCURANDO VALORES

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” 15 PONTOS ”

Quinze pontos para um alcoólico ter em conta quando confrontado com a vontade de beber.

A pessoa mais infeliz do mundo é o alcoólico crônico que tem uma ânsia persistente de gozar a vida como já em tempos o fez, mas que não consegue concebê-la sem álcool.
Tem com isso uma obsessão confrangedora e julga que, por um milagre de controlo, o conseguirá.
A sobriedade, que deverá ser a sua principal preocupação, é, sem dúvida, a coisa mais importante da sua vida. Você pode pensar que o seu trabalho a sua vida familiar ou qualquer outra coisa pode ser mais importante. Mas pense que, se não estiver sóbrio e não se mantiver sóbrio, tem poucas probabilidades de ter um emprego, uma família, alguma sanidade ou até mesmo a própria vida. Se estiver convencido de que tudo na vida depende da sua sobriedade, terá muito mais probabilidades de ficar e de se manter sóbrio. Se der prioridade a outras coisas, está apenas a reduzir as hipóteses que tem de ficar sóbrio.

1. Cultive a aceitação contínua do fato de que a sua escolha é entre uma maneira de beber infeliz e com bebedeiras e privar-se da mais pequena bebida que seja.

2. Cultive com entusiasmo a gratidão por ter tido a felicidade de descobrir o que estava errado antes que fosse demasiado tarde.

3. Prepare-se para encarar, como sendo natural e inevitável, que durante um certo período de tempo (que pode ser bastante longo) você vai sentir:
a) um desejo irritante e consciente por uma bebida;
b) um impulso súbito e compulsivo para tomar apenas uma bebida;
c) a ânsia, não tanto pela bebida em si, como pelo conforto aliciante e pelo bem-estar que uma bebida ou duas lhe proporcionavam.

4. Lembre-se que as alturas em que não lhe apetece beber deve ser aproveitado para criar a força para não beber quando lhe apetece.

5. Cultive e pratique um plano diário de uma forma de pensar e agir que lhe permita viver esse dia sem tomar uma bebida, sejam quais forem as contrariedades que possam surgir, ou seja, qual for a maneira em que o possa assaltar a sua antiga ânsia de beber.

6. Não se permita pensar, nem sequer por uma fração de segundo: ” É uma pena ou uma injustiça cruel que eu não possa beber como as chamadas pessoas normais”.

7. Não se permita pensar nem falar de qualquer prazer real ou imaginário que em tempos teve com a bebida.

8. Não se permita pensar que uma bebida ou duas poderiam melhorar uma má situação ou pelo menos que seria mais fácil de suportá-la se bebesse. Substitua isto pelo seguinte pensamento: “Uma bebida só tornará tudo pior? uma bebida significa uma bebedeira”.

9. Minimize a situação. Pense, ao ver um cego ou uma pessoa deficiente, como eles ficariam felizes se o seu problema pudesse ser resolvido apenas não tomando uma bebida hoje. Pense com gratidão a sorte que tem em ter um problema tão simples e tão pequeno.

10. Cultive e alimente a satisfação da sobriedade:
a) que bom que é estar livre da vergonha, da humilhação e da autocondenação;
b) que bom que é estar livre das conseqüências ou do começo de uma bebedeira que antes nunca tinha conseguido evitar;
c) que bom que é estar livre do que as pessoas pensavam e falavam de si e da piedade e desprezo misturados que tinham por si;
d) que bom que é estar livre do medo de si próprio.

11. Faça e volte a fazer a lista das compensações da sobriedade, tais como:
a) a simples possibilidade de comer e dormir normalmente, de acordar contente por estar vivo contente por ter estado sóbrio ontem e contente por ter o privilégio de se manter sóbrio hoje;
b) a capacidade de enfrentar o que a vida proporciona, com paz de espírito, respeito próprio e em posse de todas as suas faculdades.

12. Cultive uma associação de idéias que o ajude:
a) associe uma bebida à única causa de toda a infelicidade, vergonha e humilhação que já conheceu;
b) associe uma bebida à única coisa que pode destruir a sua nova felicidade reencontrada e que pode tirar-lhe o respeito por si próprio e a sua paz de espírito.

13. Cultive a gratidão:
a) a gratidão de poder ter tanta coisa por um preço tão baixo;
b) a gratidão de ser apenas uma bebida o preço da felicidade que a sobriedade lhe proporcionou;
c) a gratidão pela existência de AA e por você o ter encontrado a tempo;
d) a gratidão por você ser apenas a vítima de uma doença chamada alcoolismo e de não ser um degenerado, um fraco e imoral, nem ser a vítima por suas próprias mãos de um vício, nem uma pessoa de sanidade duvidosa;
e) a gratidão por tal como aconteceu a outros, você vir a seu tempo a não sentir a falta ou a ânsia de uma bebida que decidiu não tomar.

14. Procure maneiras de ajudar outros alcoólicos? e lembre-se que a melhor maneira de ajudar os outros é mantendo-se sóbrio.

15. E não se esqueça de que, quando o coração lhe pesa, quando a resistência está em baixo e a mente agitada e confusa, você pode encontrar muito conforto num amigo verdadeiro e compreensivo. Você tem esse amigo em AA (Alcoólicos Anônimos).

• Fonte: “Alcoólicos Anônimos – Portugal”

UNIDADE PARTICIPATIVA

Muito se falou e se fala a respeito da Unidade. Mas, o que é ela?

Para mim, Unidade é uma palavra muito grande; ainda que tenha poucas letras,
seu significado é muito profundo. Gostaria de me referir um pouco ao que é Unidade participativa, como a compreendo, porque já ouvi muito falar sobre
esse tema, mas parece que se entende muito pouco sobre ele, já que
presenciei fatos que deixam muito a desejar nesse sentido.

Para mim, Unidade é trabalhar por um bem comum sem recriminar outros que não pensam da mesma forma que eu. Para manter a Unidade, devemos respeitar os acordos, concordando pessoalmente com eles ou não. Se não respeitamos o
combinado, estaremos dividindo nossas forças, já que os que estão conosco
estão felizes, mas aqueles que não estão conosco se desapontam e assim a
Unidade não se torna fato.

Se alguém não concorda com os demais em determinados pontos que estão
discutindo, deve expor suas idéias com argumentos. Se quiser impor suas
idéias sem fundamentá-las, só conseguirá despertar a ira alheia. Se percebe
e aceita que suas idéias não convenceram aos demais, acata então as posições
da maioria sem colocar obstáculos. Isso para mim é Unidade compartilhada.

Também considero muito importante, para a preservação da Unidade, o respeito
pelos princípios estabelecidos, especialmente os Serviços Gerais. Quando
esses princípios são transgredidos autoritariamente, pensando-se que os fins
justificam os meios, a Unidade se rompe. Alguns se rebelarão, tirando o
apoio dos transgressores e dividindo a causa, já que outros apoiarão as
transgressões, terminando tudo em separação. É claro que assim todos
perderão.

Além disso, a Unidade deveria estar sempre acima da amizade. Se pusermos a
amizade acima dos princípios estabelecidos para tentar alcançar objetivos
pessoais, estaremos só fingindo estar unidos. Muitas vezes confunde-se a
amizade com a Unidade. Quando, por exemplo, acontece um aniversário e muitas
pessoas se reúnem para felicitar um amigo, isso é amizade. Unidade
representa muito mais do que estar feliz numa festa, vai mais além da mera
amizade.

A Unidade que deve prevalecer em nossa Irmandade é uma Unidade fortalecida
por nossa enfermidade comum, e também baseada nos princípios e no espírito
de nossas Tradições pelo bem de nossa Irmandade; estabelecida por um Poder
Superior; baseada no respeito mútuo de todos os integrantes. Isso nos dará
um futuro estável e duradouro, para o nosso bem e para o bem dos milhares
que se somaram a esta nobre causa que é Alcoólicos Anônimos.

Vivência nº 65 mai/jun. 2000

Aprendendo a perdoar a si mesmo
Algumas pessoas prejudicam outras e pedem perdão, que pode ser aceito ou não; mas há algumas atitudes em que o único prejudicado é você mesmo.

Se você vive apontando seu dedo indicador constantemente para seu próprio nariz, cuidado!

A culpa varia de acordo com crenças e valores que cada um traz consigo desde a infância, e que muitas vezes não corresponde mais aos valores e crenças atuais. Culpa, remorso, arrependimento, são inimigos constantes de algumas pessoas e traz junto a humilhação, vergonha, o medo e a maior conseqüência: a autopunição.

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios, pois está relacionado com a capacidade – e leia-se também dificuldade – que cada um tem de se amar e se aceitar. As pessoas não se amam por acreditarem terem feito algo muito terrível, às vezes isso até corresponde à verdade, mas muitas vezes não.

Algumas chegam ao máximo de se culparem por terem nascido e sentem-se como um grande fardo. Para compensarem essa rejeição sentida em algum momento de sua vida, passam a vida tentando mostrar aos outros o quanto são úteis, importantes, como que para provarem para si próprias que são merecedoras da vida.

Procure observar se busca aprovação e reconhecimento de pais, amigos, das pessoas em geral, se está sempre à disposição de todos, cedendo em quase tudo, pela necessidade inconsciente de agradar, ser aceito, mas que muitas vezes confunde-se com a desculpa de querer ajudar e que na verdade oculta a busca pelo amor e atenção.

Por exemplo, as pessoas por não se sentirem amadas quando crianças e não acreditarem em si mesmas passam a ignorar os próprios sentimentos e recorrem à fuga pela comida, como forma de compensação e obtenção do prazer. Com isso, se culpam e como punição, engordam.

Não conseguindo eliminar alguns quilos, mais culpas e assim, desviam o foco da origem de tudo para a comida. O foco passa a ser emagrecer e não o que as levou a engordar. Negam a si mesmas a subnutrição emocional que sentem e que pode levá-las a sentimentos de vazio e fome.

A comida passa a representar uma maneira de alimentar e preencher um vazio emocional. Ou seja, inconscientemente desviam a atenção dos problemas para a necessidade de emagrecer, os problemas continuam ou aumentam por não serem resolvidos e acabam consumindo mais calorias do que o corpo necessita, engordam, culpam-se, punem-se, criando-se assim, um círculo vicioso.

O perdão oferece saída para esse círculo vicioso, como uma escolha consciente de mudança. Será que a verdadeira causa está sendo considerada? Do contrário, tudo tende a piorar. Será que essa fome, esse vazio, não seria a necessidade, também inconsciente, de amor? É preciso perceber que a comida não será transformada em afeto, amor, mas apenas em gordura quando consumida de forma descontrolada. Por que não buscar outras fontes de prazer?

Uma maneira de cultivar a culpa é estar sempre exigindo perfeição de si mesmo. A anorexia e bulimia são exemplos disso. Nunca há satisfação consigo mesmo, gerando culpa, insatisfação e uma enorme dificuldade de se perdoar. Tudo que faz poderia ser melhor. Não importa o que faça ou conquiste. Ou o pior, não importa quem se é, parece que nunca é o bastante.

Para se livrar disso tudo faça uma lista de tudo aquilo que você se culpa, daquilo que fez e não fez. Seja honesto consigo mesmo. Depois, pense sobre as motivações que o fizeram fazer certas escolhas, agir de determinada forma e, ao invés de se culpar, punir ou se castigar, comece a lembrar que muitas escolhas foram feitas porque era o melhor que se podia fazer naquele momento e que na verdade, tudo foi avaliado com valores da época e que nem sempre serão os mesmos neste momento. Nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Para perdoar-se é preciso rever todas suas crenças, valores, que muitos esquecem que com o tempo podem, e devem, se modificar. Analisar o que fez ou deixou de fazer para poder mudar e crescer é válido, como sentir remorso pela dor que pode ter causado a alguém e pedir perdão. Mas se esse remorso começar a dominar sua vida, estará alimentado seu papel de vítima e a autopiedade. Livre-se disso. Você deve aprender e crescer com a experiência passada e isso não quer dizer se punir eternamente por algo já feito.

Perdoar a si mesmo exige uma completa honestidade e integridade para que se alcance a cura de tantos males, de tanta falta de amor-próprio. É um processo de reconhecer a verdade, assumir a responsabilidade pelo que fez, aprender com a experiência, reconhecer os sentimentos que motivaram determinados comportamentos, abrir seu coração para si mesmo, ouvir seus medos, curar certas feridas e isso você pode conseguir sendo amoroso e responsável consigo mesmo.

Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos. Mude o que não acredita mais, livre-se de tudo que te faz mal, cure a ferida que mais lhe dói, cure sua vida emocional. A verdadeira cura é fazer as pazes consigo mesmo. O poder curativo do perdão e do amor talvez seja o remédio mais poderoso que temos. E está nas mãos de cada um de nós. E você pode começar com você mesmo!

Aprenda a perdoar a si mesmo pelos seus erros e pecados. Mas não os repita
Perdoar.
Aqui temos uma palavra com sentido perturbado e mal interpretada, e freqüentemente com características virtuosas. A palavra grega traduzida como “perdoar” significa literalmente cancelar ou remir Já em latim per + dorare, cujo significado é dar plenamente. Portanto, se houver algum sinônimo para perdoar, somente poderá ser amar. O dar plenamente refere-se a permitir que aquele que errou, tente outra vez e tenha a oportunidade de poder tomar uma atitude de valor. Essa situação de erro, obviamente jamais será esquecida, e aquele que diz: “perdôo, mas não esqueço”, não perdoou, faltou algo, não foi pleno.

Desde que o ser humano habita esse planeta comete infinitos erros e através do reconhecimento do mesmo foi um dos fatores que o fizeram a evoluir, errar foi preciso.

Alguém disse que para ser feliz é necessário promover cinco perdões; perdoar-se, perdoar seu pai, perdoar sua mãe, perdoar o outro e perdoar o mundo.

Por que nos surpreendemos quando vemos a incompetência em outros e nos devastamos quando ela ocorre em nos mesmos?

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios do ser humano, pois está relacionada com a capacidade de auto aceitação, ou seja, a auto estima.Às vezes a pessoa não se perdoa porque, quando se olha no espelho, só enxerga dor. Sua mente é assombrada pelo famoso “E se…”

Esse é o problema.É preciso separar o erro que foi cometido daquilo que voce é. Você cometeu um erro, não é o erro. Por isso nunca julgue situações passadas com valores do presente. Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos senão não conseguirá se perdoar.

Outro erro freqüente é considerar perdoar como sinônimo de desculpar, que, no entanto são duas atitudes bastante distintas. Desculpar significa tirar a culpa, e só é possível tirar a culpa de quem não a tem, e foi injustamente acusado. Quando se tem culpa, nem Deus desculpa, Ele perdoa. Na justiça comum, inocentar é desculpar, a culpa não era do réu, e perdoar, é declarar o culpado solto e independente, jamais, livre, pois a liberdade é uma atitude imanente, não é uma concessão.

Atualmente e sempre, centenas de milhares de “profetas”, mestres, gurus, contos, cânticos, mantras, fábulas, histórias, práticas, apostilas, vivências, cursos, enfim, uma infinidade de meios de exercitar o perdão é ressaltada nas revistas, nos jornais, nas televisões, nos centros de umbanda, nas igrejas católicas, nas mesquitas, nas sinagogas, nos espaços esotéricos, nos salões protestantes…
Mas, o grande desafio é que a humanidade não sabe perdoar.

Perdoar é o sinônimo da fraqueza e deixou de ser um sinal de nobreza de alma e pureza de coração.

Li numa revista uma vez uma declaração fantástica: “Caso você encontre quaisquer erros nesta revista, por favor, lembre-se que eles foram colocados ali de propósito. Tentamos oferecer algo para todos. Algumas pessoas estão sempre procurando erros e não desejamos desapontá-las”.

Aprenda a rir de seus erros. Aprenda a rir de si mesmo, mas não perca a lição.

Perdoar a si mesmo requer enfrentar os próprios medos, julgamentos, injustiças, limitações, olhar para a própria vida e lembrar de quantas vezes já errou e quantas vezes já acertou. Somos seres humanos, estamos em constante processo de aprendizagem e evolução. E nesse caminho acertamos e erramos, alem disso os tempos mudam, os valores também.

Por exemplo, você deixaria seu filho em uma escola onde ele seria castigado com palmatória caso não se comportasse conforme as regras da instituição? Acredito que não, mas nossos avós foram educados deste modo, e naquela época era normal. No Brasil, antigamente era costume nas festas de formatura os alunos presentearem seus professores com palmatórias, como sinal de submissão à autoridade.

Por isso relembro novamente nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Uma curiosidade contanto é que último país ocidental a abolir o uso da palmatória foi a Inglaterra, em 1989. Em 2004, contudo, o parlamento inglês voltou a debater a legitimidade do uso dos castigos físicos como medida educacional corretiva em crianças.

No exemplo que utilizei parece clara a situação, mas não se iludam. Não faz muito tempo que Cingapura, país de regime político autoritário e um sistema financeiro importante, localizado na Ásia, impôs uma pena judiciária de chibatadas a um jovem norte-americano que transgrediu as severas leis daquele país traficando drogas.
Apesar do liberalismo ‘oficial’ e aparente permissividade educativa dos norte-americanos, a maioria da população dos EUA consultada não apenas aprovou a pena judiciária de Cingapura para o crime de tráfico de drogas como gostaria que sua justiça também fizesse uso de castigos físicos para transgressores da lei. Para reforçar essa atitude repressiva, uma pesquisa divulgada declara que 61% dos pais norte-americanos aprovavam castigos físicos como uma forma de punição válida, e 57% disseram acreditar que até mesmo bebês de seis meses podem merecer uma surra.

Agora voce deve estar se perguntando o que isso tem a ver com aprender a perdoa-se? Tudo.

Perdoar significa rever crenças, valores, paradigmas, preconceitos e utilizei um exemplo aparentemente simples para demonstrar que nem tudo é tão simples como julgamos ser inicialmente. Por isso perdoar-se ás vezes é tão difícil. Ficamos presos em nossa próprias armadilhas mentais e nos tornamos reféns psicológicos de nossa próprias regras, sendo o único modo de se libertar é rever suas crenças.Isto é mudar.

Em “Aforismos para a Sabedoria de Vida” Arthur Schopenhauer diz que “Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com freqüência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave”.

Agora eu lhe pergunto, você é ou não é a pessoa mais importante com que tem ligação ou convive?

Você realmente acredita que nunca mais irá errar e deixar-se louco da vida de novo? Claro que irá.

O problema não é errar, mas repetir ou persistir no mesmo erro, seja ao menos neste aspecto desagradável da vida, criativo. Erre das mais diversas formas, mas, por favor, cometa erros diferentes somente assim voce crescerá. Ninguém aprende com os acertos, somente aprendemos com os nossos erros. Parece insensato falar isso, mas é a mais pura verdade.Sua experiência de vida, sua personalidade, seus defeitos e qualidades vêm de seus erros não dos seus acertos, pois, somente mudamos quando erramos, ninguém muda quando está acertando.

Por isso é tão importante aprender a perdoar-se.Para poder evoluir.

CONHEÇA O PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO
OS 12 PASSOS – O PROGRAMA DO DIA

Os Doze Passos

O Sucesso do programa de A.A. deve-se ao fato de que quem não está bebendo tem uma excepcional facilidade de ajudar um bebedor problema. Quando um alcoólico recuperado pelos passos, relata seus problemas com a bebida, descreve como está sua sobriedade e o que encontraram em A.A. e abordam um provável ingressante a experimentar essa possibilidade.
O centro desse programa sugerido é baseado em doze passos que estão descritos a seguir:

Primeiro Passo
1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
Quem se dispõe a admitir a derrota completa? Quase ninguém, é claro.
Todos os instintos naturais gritam contra a idéia da impotência pessoal. É verdadeiramente terrível admitir que, com o copo na mão, temos convertido nossas mentes numa tal obsessão pelo beber destrutivo, que somente um ato da Providência pode removê-la.
Nenhuma outra forma de falência é igual a esta. O álcool, transformado em voraz credor, nos esvazia de toda auto-suficiência e toda vontade de resistir às suas exigências. Uma vez que aceitamos este fato, nu e cru, nossa falência como seres humanos está completa.
Porém, ao ingressar em A.A., logo encaramos essa humilhação absoluta de uma maneira bem diferente. Percebemos que somente através da derrota total é que somos capazes de dar os primeiros passos em direção à libertação e ao poder. Nossa admissão de impotência pessoal acaba por tornar-se o leito de rocha firme sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e significativas.
Sabemos que pouca coisa de bom advirá a qualquer alcoólico que se torne membro de A.A. sem aceitar sua devastadora debilidade e todas as suas conseqüências. Até que se humilhe desta forma, sua sobriedade – se a tiver – será precária.
Da felicidade verdadeira, nada conhecerá. Comprovado sem sombra de dúvida por uma longa experiência, este é um dos fatos de vida de A.A. O princípio de que não encontraremos qualquer força duradoura sem que antes admitamos a derrota completa, é a raiz principal da qual germinou e floresceu nossa Irmandade toda.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Segundo Passo
2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
A partir do momento em que lê o Segundo Passo, a maioria dos novos em A.A. enfrenta um dilema, às vezes bastante sério.
Quantas vezes os temos ouvido reclamar: “olhem o que vocês fizeram conosco. Convenceram-nos de que somos alcoólicos e que nossas vidas são ingovernáveis. Havendo nos reduzido a um estado de desespero absoluto, agora nos informam que somente um Poder Superior poderá resolver nossa obsessão. Alguns de nós se recusam a acreditar em Deus, outros não conseguem acreditar e ainda outros acreditam na existência de Deus, mas de forma alguma confiam que Ele levará a cabo este milagre. Pois é, nos meteram num buraco sem saída, tudo bem, mas e agora, para onde vamos?”
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Terceiro Passo
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de um Poder Superior, na forma em que O concebíamos.
A prática do Terceiro Passo é como abrir uma porta que até então parecia estar fechada à chave. Tudo o que precisamos é a chave e a decisão de abrir a porta. Existe apenas uma só chave, e se chama boa vontade. Uma vez usada a chave da boa vontade, a porta se abre quase que sozinha. Olhando-se através dela, ver-se-á um caminho ao lado do qual há uma inscrição que diz: “Eis o caminho em direção àquela fé que realmente funciona.”
Nos primeiros dois passos estivemos refletindo. Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mas também percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em A.A., estava ao alcance de qualquer um.
Essas conclusões não requereram ação; requereram apenas aceitação.
Como todos os outros, o Terceiro Passo pede uma ação positiva, pois é somente através de ação que conseguimos interromper a vontade própria que sempre impediu a entrada de Deus – ou, se preferir, de um Poder Superior – em nossas vidas. A fé é necessária certamente, porém a fé isolada pode resultar em nada. Podemos ter fé, mas manter Deus fora de nossas vidas.
Portanto, o nosso problema agora é descobrir como e por que meios específicos, poderemos deixá-lo entrar. O Terceiro Passo representa nossa primeira tentativa de alcançar isso. Aliás, a eficácia de todo programa de A.A. dependerá de quão bem e sinceramente tenhamos tentado chegar à decisão de “entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos” .
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Quarto Passo
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
A Criação nos deu os instintos por alguma razão. Sem eles não seríamos seres humanos completos. Se os homens as mulheres não se esforçassem a fim de se sentir seguros, a fim de conseguir alimento ou construir abrigo, não sobreviveriam; se não se reproduzissem, a Terra não seria povoada; se não existisse o instinto social, se os homens não se interessassem pelo convívio com seus semelhantes, não haveria sociedade. Portanto, estes desejos – pela relação sexual, pela segurança material e emocional, e pelo companheirismo – são perfeitamente necessários e naturais, e certamente dados a nós por Deus.
Contudo, estes instintos, tão necessários para nossa existência, freqüentemente excedem bastante suas funções específicas. Fortemente, cegamente e muitas vezes simultaneamente, eles nos impulsionam, dominam e insistem em dirigir nossas vidas.
Nossos anseios pelo sexo, pela segurança material e emocional, e por posição importante na sociedade, nos tiranizam com freqüência.
Quase deturpados desta forma, os desejos naturais do homem causam-lhe grandes problemas, aliás quase todos o problemas que existem. Nenhum ser humano, por melhor que seja, fica livre destas dificuldades. Quase todo problema emocional grave pode ser considerado como um caso de instintos deturpados. Quando isso acontece, nossas grandes qualidades naturais, os instintos, tornam-se empecilhos físicos e mentais.
O Quarto Passo representa nosso esforço enérgico e meticuloso para descobrir quais foram, e são, esses obstáculos em cada um de nós. Queremos descobrir exatamente como, quando e onde nossos desejos naturais nos deformaram. Queremos olhar de frente a infelicidade que isto causou aos outros e a nós mesmos.
Descobrindo quais são nossas deformidades emocionais, podemos nos encaminhar em direção à correção delas.
Sem um esforço voluntário e persistente para lograr isso, haverá pouca sobriedade e felicidade para nós. Sem um minucioso e destemido inventário moral, a maioria de nós verificou que a fé que realmente funciona na vida diária permanece fora de alcance.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Quinto Passo
5. Admitimos perante o Poder Superior, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
Todos os Doze Passos de A.A. nos pedem para atuar em sentido contrário aos nossos desejos naturais, todos desinflam nosso ego. Quando se trata de desinflar o ego, poucos passos são mais duros de aceitar que o Quinto.
Mas, dificilmente, algum deles é mais necessário à obtenção da sobriedade prolongada e à paz de espírito do que este.
A experiência de A.A. nos indicou que não podemos viver sozinhos com insistentes problemas e os defeitos de caráter que os causam e agravam. Caso tenhamos passado o holofote do Quarto Passo sobre nossas vidas, e se ele tiver realçado aquelas experiências que preferimos não lembrar, se chegamos a aprender como os pensamentos e as ações erradas feriram a nós e a outrem, então se toma mais imperativo do que nunca desistir de viver sozinhos com esses fantasmas torturantes de ontem. É preciso falar com alguém a esse respeito. Tão intensos, porém, são nosso medo e a relutância de fazê-lo que, ao início, muitos AAs tentam contornar o Quinto Passo. Procuramos uma maneira mais fácil que geralmente consiste na admissão ampla e quase indolorosa de que, quando bebíamos, éramos, às vezes, maus elementos. Então, para completar, acrescentamos descrições dramáticas desse lado de nosso comportamento quando bêbados que, em todo caso, nossos amigos provavelmente já conhecem.
Mas, das coisas que realmente nos aborrecem e marcam, nada dizemos. Certas lembranças penosas e aflitivas, dizemos para nós mesmos, não devem ser compartilhadas com ninguém. Essas serão nosso segredo. Ninguém deve saber. Esperamos levá-las conosco para a sepultura.
Contudo, se a experiência de A.A. serve para algo, ela nos diz que a esse procedimento, não só falta critério, como também, é uma resolução perigosa. Poucas atitudes atrapalhadas causaram mais problemas do que recusar-se a pratica do Quinto Passo. Algumas pessoas são incapazes de permanecer sóbrias, outras recairão periodicamente enquanto não fizerem uma verdadeira “limpeza de casa”.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Sexto Passo
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
“Este é o passo que separa os adultos dos adolescentes …”
Eis o que declara um clérigo muito querido que, por sinal, é um dos melhores amigos de A.A. Ele prossegue para explicar que qualquer pessoa cheia de disposição e honestidade suficientes para, repetidamente, experimentar o Sexto Passo com respeito a todos seus defeitos – em absoluto sem qualquer reserva – tem realmente andado um bom pedaço no campo espiritual e, portanto, merece ser chamado de um homem que está sinceramente empenhado em crescer à imagem e semelhança do Criador.
Evidentemente, a tão discutida pergunta sobre se Deus pode – e quer, sob certas condições – remover os defeitos de caráter, será respondida afirmativamente pela quase totalidade dos membros de A.A. Para eles, esta proposição não será apenas teoria; será simplesmente uma das maiores realidades de suas vidas. Geralmente oferecerão suas provas em exposição semelhante a esta: “É claro, estava vencido, completamente derrotado. Minha própria força de vontade simplesmente não funcionava no caso do álcool. Mudanças de ambiente, os melhores esforços de parentes, amigos, médicos e clérigos nada adiantaram no caso do meu alcoolismo. Simplesmente não conseguia parar de beber, e nenhum ser humano parecia ter a capacidade de me ajudar. Porém, quando me dispus a “limpar a casa” e, roguei a um Poder Superior, Deus, como eu o compreendia, que me libertasse, então minha obsessão para o beber sumiu. Simplesmente foi arrancada de mim.”
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Sétimo Passo
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
Já que este passo trata tão especificamente da humildade, deveríamos fazer uma pausa aqui para pensar sobre o que é a humildade e o que a sua prática poderá significar para nós.
Realmente, conseguir maior humildade é o princípio fundamental de cada um dos Doze Passos de A.A., pois sem um certo grau de humildade, nenhum alcoólico poderá permanecer sóbrio.
Além disso, quase todos os AAs descobriram que sem desenvolver esta preciosa virtude além do estritamente necessário à sobriedade, não terão muita probabilidade de serem felizes.
Sem ela, não podem viver uma vida de muita utilidade ou, com os contratempos, convocar a fé que enfrenta qualquer emergência.
A humildade, como palavra e ideal, tem passado bem mal em nosso mundo, não somente é mal entendida a idéia, mas, freqüentemente a palavra em si desagrada profundamente. Muitas pessoas não praticam, mesmo ligeiramente, a humildade como um modo de vida. Uma boa parte da conversa cotidiana que ouvimos, e muito do que lemos, salienta o orgulho que o homem tem de suas próprias realizações.
Com grande inteligência, os homens de ciência vêm forçando a natureza a revelar seus segredos. Os imensos recursos que atualmente podem ser utilizados, prometem tamanha quantidade de bens e confortos materiais que muitos chegaram a acreditar que como obra do homem em breve chegaremos a desfrutar o milênio.
A pobreza desaparecerá, e haverá tanta abundância que todos, amplamente garantidos, terão realizados todos os seus desejos.
Em teoria parece ser assim: uma vez satisfeitos os instintos primários de todos, pouca coisa restará que possa levá-los à discórdia. Então, o mundo se tornará feliz e livre para concentrar-se no desenvolvimento da cultura e do caráter. Apenas com sua própria inteligência e esforço, os homens terão construído seu próprio destino.
Certamente nenhum alcoólico e, sem dúvida, nenhum membro de A.A. quer condenar os avanços materiais. Nem entramos em debate com muita gente que ainda se agarra com tanta paixão à crença de que satisfazer os nossos desejos básicos é o objetivo principal da vida. Porém, estamos convencidos de que nenhuma classe de pessoas no mundo jamais se atrapalhou tanto tentando viver segundo tal pensamento, como os alcoólicos.
Há milhares de anos vimos querendo mais do que a nossa parcela de segurança, prestígio e romance. Quando parecíamos estar obtendo êxito, bebíamos para viver sonhos ainda maiores e quando estávamos frustrados, mesmo um pouco, bebíamos até o esquecimento.
Nunca havia o suficiente daquilo que julgávamos querer. Em todos esses empenhos, muitos dos quais bem intencionados, ficamos paralisados pela nossa falta de humildade. Havia nos faltado a perspectiva para enxergar que o aperfeiçoamento do caráter e os valores espirituais deveriam vir primeiro e que as satisfações materiais não constituíam o propósito da vida. De forma bem caracterizada, havíamos confundido os fins com os meios. Ao invés de considerar a satisfação de nossos desejos materiais como meios pelos quais podíamos viver e funcionar como humanos, entendemos que estas satisfações constituíam a única finalidade e objetivo da vida.
É verdade que a maioria de nós considerava desejável um bom caráter, porém mais como algo de que se iria necessitar para estar satisfeito consigo mesmo.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Oitavo Passo
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
Os Oitavo e Nono Passos se preocupam com as relações pessoais.
Primeiro, olhamos para o passado e tentamos descobrir onde erramos; então, fazemos uma enérgica tentativa de reparar os danos que tenhamos causado; e, em terceiro lugar, havendo desta forma limpado o entulho do passado, consideramos de que modo, com o novo conhecimento de nós mesmos, poderemos desenvolver as melhores relações possíveis com todas as pessoas que conhecemos.
Eis uma incumbência difícil. É uma tarefa que poderemos realizar com crescente habilidade, sem contudo jamais concluí-la. Aprender a viver em paz, companheirismo e fraternidade com qualquer homem e mulher, é uma aventura comovente e fascinante. Todo AA acabou descobrindo que pouco pode progredir nesta nova aventura de viver sem antes voltar atrás e fazer, realmente, um exame acurado e impiedoso dos destroços humanos que porventura tenha deixado em seu passado. Até certo ponto, tal exame já foi feito quando fez o inventário moral, mas agora chegou a hora em que deveria redobrar seus esforços para ver quantas pessoas feriu e de que forma. Esta reabertura das feridas emocionais, algumas velhas, outras talvez esquecidas e ainda outras, sangrentas e dolorosas, dará a impressão, à primeira vista, de ser uma operação desnecessária e sem propósito. Mas se for reiniciada com boa vontade, então as grandes vantagens de assim proceder vão se revelando tão rapidamente que a dor irá diminuindo à medida que os obstáculos, um a um, forem desaparecendo.
Tais obstáculos, contudo, são muito reais. O primeiro e um dos mais difíceis, diz respeito ao perdão.
Desde o momento em que examinamos um desentendimento com outra pessoa, nossas emoções se colocam na defensiva. Evitando encarar as ofensas que temos dirigido a outro, costumamos salientar, com ressentimento, as afrontas que ele nos tem feito. Isto acontece especialmente quando ele, de fato, tenha se comportado mal.
Triunfalmente nos agarramos à sua má conduta como a desculpa perfeita para minimizar ou esquecer a nossa.
Devemos, a essa altura, nos deter imediatamente. Não faz sentido um autêntico beberrão roto, rir-se do esfarrapado.
Lembremo-nos de que os alcoólicos não são os únicos afligidos por emoções doentias. Além do mais, geralmente é um fato que, quando bebíamos, nosso comportamento agravava os defeitos dos outros. Repetidamente abusamos da paciência de nossos melhores amigos a ponto de esgotá-los, e despertamos as piores reações naqueles que, desde o início, não gostaram de nós. Em muitos casos estamos, na realidade, em frente a co-sofredores, pessoas que tiveram suas desditas aumentadas pela nossa contribuição.
Se estamos a ponto de pedir perdão para nós mesmos, por que não começar por perdoar a todos eles?
Ao fazer a relação das pessoas às quais prejudicamos, a maioria de nós depara com outro resistente obstáculo. Sofremos um choque bastante grave quando nos damos conta que estávamos preparando a admissão de nossa conduta desastrosa cara a cara perante aqueles que havíamos tratado mal. Já foi bastante embaraçoso, quando em confiança, havíamos admitido estas coisas perante Deus, nós mesmos e outro ser humano. Mas a perspectiva de chegar a visitar ou mesmo escrever às pessoas envolvidas, agora nos parecia difícil, sobretudo quando lembrávamos a desaprovação com que a maioria delas nos encarava. Também havia casos em que havíamos prejudicado certas pessoas que, felizmente, ainda desconheciam que haviam sido prejudicadas.
Por que, lamentávamos, não esquecer o que se passou? Por que devemos considerar até essas pessoas? Estas eram algumas das maneiras em que o medo conspirava com o orgulho para impedir que fizéssemos uma relação de todas as pessoas às quais tínhamos prejudicado. Alguns de nós, contudo, tropeçaram em um obstáculo bem diferente. Apegamo-nos à tese de que, quando bebíamos, nunca ferimos alguém, exceto nós mesmos. Nossas famílias não sofreram porque sempre pagamos as contas e raramente bebemos em casa. Nossos colegas de trabalho não foram prejudicados, porque geralmente comparecíamos ao trabalho.
Nossa reputação não havia sofrido, porque estávamos certos de que poucos sabiam de nossas bebedeiras e aqueles que sabiam nos asseguravam, às vezes, que uma boa farra, afinal de contas, não passava de uma falha de um bom sujeito. Que mal, portanto, havíamos cometido realmente. Certamente nada que não pudéssemos consertar com algumas desculpas banais.
É claro que esta atitude é o resultado final do esquecimento forçado. É uma atitude que só pode ser mudada por uma busca profunda e honesta de nossas motivações e ações.
Embora em alguns casos não possamos fazer reparação alguma, e em outros o adiamento da ação seja preferível, deveríamos, contudo, fazer um exame acurado, real e exaustivo da maneira pela qual nossa vida passada afetou as outras pessoas. Em muitas instâncias descobriremos que, mesmo que o dano causado aos outros não tenha sido grande, o dano emocional que causamos a nós mesmos foi enorme. Embora, às vezes, totalmente esquecidos, os conflitos emocionais que nos prejudicaram se ocultam e permanecem,em lugar profundo, abaixo do nível da consciência.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Nono Passo
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
Bom-senso, um cuidadoso sentido de escolha do momento, coragem e prudência – eis as qualidades que precisamos ter quando damos o Nono Passo.
Após haver elaborado a relação das pessoas as quais prejudicamos, refletido bem sobre cada caso específico e procurado nos imbuir do propósito correto para agir, veremos que o reparo dos danos causados divide em várias classes aqueles aos quais nos devemos dirigir. Haverá os que deverão ter preferências, tão logo estejamos razoavelmente confiantes em poder manter nossa sobriedade. Haverá aqueles aos quais poderemos fazer uma reparação apenas parcial, para que revelações completas não façam a eles e a outros mais danos do que reparos. Haverá outros casos em que a ação deverá ser adiada, e ainda outros em que, pela própria natureza da situação, jamais poderemos fazer um contato pessoal direto.
A maioria de nós começa a fazer certos tipos de reparos a partir do dia em que nos tornamos membros de Alcoólico Anônimos.
Desde o momento em que dizemos às nossas famílias que verdadeiramente pretendemos tentar adotar o programa, o processo se inicia. Nesta área, raramente existirá o problema de escolher o momento ou ter cautela. Queremos entrar pela porta gritando as boas novas. Após voltar de nossa primeira reunião ou, talvez, após haver terminado de ler o livro Alcoólicos Anônimos, geralmente queremos nos sentar com algum membro da família e admitir, de uma vez, os prejuízos que temos causado com nosso beber. Quase sempre queremos ir mais longe e admitir outros defeitos que fizeram com que fosse difícil viver conosco. Esse será um momento bem diferente e em grande contraste com aquelas manhãs de ressaca em que oscilamos entre insultar a nós mesmos e culpar a família (e todos os outros) pelos nossos infortúnios. Nesta primeira sessão, basta fazer uma admissão geral de nossos defeitos. Poderá ser pouco prudente, a esta altura, reviver episódios angustiantes. O bom-senso sugerirá que devemos ir com calma.
Embora possamos estar inteiramente dispostos a revelar o pior, precisamos nos lembrar que não podemos comprar nossa paz de espírito à custa dos outros. O mesmo procedimento se aplicará no escritório ou na fábrica.
Logo pensaremos em algumas pessoas que conhecem bem nossa maneira de beber e que foram as mais afetadas pela mesma.
Porém, mesmo nestes casos, precisaremos usar de um pouco mais de discrição do que com nossa família. Talvez nada queiramos dizer por algumas semanas ou até mais. Primeiro, desejaremos estar razoavelmente seguros de que estamos firmes no programa de A.A. Então, estaremos prontos para procurar estas pessoas, dizer-lhes o que é A.A. e o que estamos tentando fazer. Isso explicado, podemos admitir livremente os danos que causamos e pedir desculpas. Podemos pagar ou prometer pagar, as obrigações financeiras ou outras, que tivermos. A recepção generosa da maioria das pessoas perante tal sinceridade freqüentemente nos assombrará. Até nossos mais severos e justificados críticos, com freqüência nos acolherão bem na primeira tentativa.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Décimo Passo
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
Quando vamos praticando os nove primeiros passos, estamos nos preparando para a aventura de uma nova vida.
Mas, ao nos aproximarmos do Décimo Passo, começamos a nos submeter à maneira de viver de A.A., dia após dia, em tempo bom ou mau.
Então, vem a prova decisiva: podemos permanecer sóbrios, manter nosso equilíbrio emocional e viver utilmente sob quaisquer condições?
Uma olhada contínua sobre nossas qualidades e defeitos e o firme propósito de aprender e crescer por esta forma, são necessidades para nós. Nós alcoólicos aprendemos isso de maneira difícil. Em todos os tempos e lugares, é claro, pessoas mais experientes adotaram a prática do auto-exame e da crítica impiedosa. Os sábios sempre souberam que alguém só consegue fazer alguma coisa de sua vida depois que o exame de si mesmo venha a se tornar um hábito regular, admita e aceite o que encontre e, então, tente corrigir o que lhe pareça errado, com paciência e perseverança.
Um ébrio não pode viver bem hoje se está com uma terrível ressaca, resultante do excesso de bebidas ontem ingerido. Porém, existe outro tipo de ressaca que todos experimentamos, bebendo ou não. É a ressaca emocional, fruto direto do acúmulo de emoções negativas sofridas ontem e, às vezes, hoje – o rancor, o medo, o ciúme e outras semelhantes. Se queremos viver serenamente hoje e amanhã, sem dúvida temos que eliminar estas ressacas. Isto não quer dizer que devamos perambular morbidamente pelo passado. Requer, isto sim, a admissão e correção dos erros agora. No inventário podemos pôr em ordem o nosso passado. Feito isso, nos tornamos de fato capazes de deixá-lo para trás. Se nosso balanço é feito com cuidado e se tivermos obtido paz conosco mesmo, segue-se a convicção de que os desafios do amanhã poderão ser encarados à medida em que se apresentem.
Embora todos os inventários, em princípio, sejam iguais, a ocasião os faz diferentes. Há o “relâmpago”, feito a qualquer hora, toda vez em que nos encontremos enredados. Existe o do fim de cada jornada, quando revisamos os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas. É neste verdadeiro balancete diário que creditamos a nosso favor ou debitamos contra nós as coisas que julgamos bem ou mal feitas. De tempo em tempo, surgem as ocasiões em que, sozinhos ou assessorados pelos nossos padrinhos ou conselheiros espirituais, fazemos a revisão atenta de nosso progresso durante a última etapa. Muitos AAs costumam fazer uma “limpeza geral” em cada ano ou período de seis meses. Outros de nós também preferem a experiência de um retiro, onde isolados do mundo exterior, calma e tranquilamente, podem proceder à auto-revisão e à meditação sobre os resultados.
Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Décimo Primeiro Passo
11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
A oração e a meditação são nossos meios principais de contato consciente com Deus.

Nós AAs somos pessoas ativas, desfrutando a satisfação de lidar com as realidades da vida, geralmente pela primeira vez em nossas vidas, tentando denodadamente ajudar o primeiro alcoólico que aparecer. Portanto, não é de se estranhar que, com freqüência, façamos pouco caso da meditação e da oração séria como não sendo coisas de real necessidade. Sem dúvida, chegamos a considerá-las como algo que possa nos ajudar a enfrentar uma emergência, mas, a princípio, muitos dentre nós são capazes de entendê-las como expressão de um Dom misterioso dos religiosos, do qual poderemos esperar qualquer benefício de Segunda mão. É possível que não acreditemos em nada destas coisas.
Para certos ingressantes e para aqueles antigos agnósticos que ainda se apegam ao grupo de A.A. como sua “força superior”, as afirmações sobre o poder da oração, apesar de toda a lógica e a experiência que a comprovam, podem não convencer e até desagradar bastante. Aqueles entre nós que uma vez já se sentiram assim, certamente podem Ter por eles simpatia e compreensão. Recordamo-nos muito bem da revolta que se levantava em nosso íntimo contra a idéia de genuflexão perante qualquer Deus. Outros, usando lógica convincente, “provavam” a não existência de Deus. E os acidentes, a doença, a crueldade e a injustiça do mundo? E todas essas criaturas infelizes, resultados diretos da pobreza e de um conjunto de circunstâncias incontroláveis? À vista desses fatos, não poderia haver justiça e, conseqüentemente, qualquer Deus.
Às vezes, argumentávamos de outra maneira. Está certo, nos dizíamos, a galinha provavelmente veio antes do ovo. Sem dúvida o universo teve algum tipo de “origem primeira”; o Deus do átomo, quem sabe, se transformando sucessivamente em frio e calor. Mas certamente não havia indicação alguma da existência de um Deus que conhecia e se interessava pelos homens. Gostávamos de A.A. e não hesitávamos em dizer que operava milagres. Todavia, ante a meditação e a oração, sentíamos o mesmo retraimento do cientista que se recusava a realizar certa experiência por temor de Ter que derrubar sua teoria predileta. É claro que no fim resolvemos experimentar e, quando surgiram resultados inesperados, nós vimos as coisas diferentes; de fato, sentimos de forma diferente e acabamos capitulando totalmente diante da meditação e da oração. E isso, descobrimos, pode acontecer com qualquer pessoa que experimente. Acertou quem disse que “os chacoteadores da oração são, quase sempre, aqueles que não a experimentaram devidamente.”

Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.
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Décimo Segundo Passo
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
No Décimo Segundo Passo de A.A., o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave. Chegou a oportunidade de nos voltarmos para fora em direção de nossos companheiros alcoólicos ainda aflitos. Nessa altura, estamos experimentando o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca. Agora começamos a praticar todos os Doze Passos em nossa vida diária para que possamos todos, nós e as pessoas que nos cercam, encontrar a sobriedade emocional. Quando conseguimos ver em que o Décimo Segundo Passo implica, vemos que se trata do amor que não tem preço.

Este passo também nos diz que, como resultado da prática de todos os passos, cada um de nós foi descobrindo algo que se pode chamar de “despertar espiritual”. Para os AAs novos, este estado de coisas pode parecer dúbio ou improvável. Eles perguntam: Que querem dizer quando falam em “despertar espiritual”?

É possível que haja uma definição de despertar espiritual para cada pessoa que o tenha experimentado. Contudo, os casos autênticos, na verdade, têm algo comum entre si. Estas coisas comuns entre eles são de fácil compreensão. Quando um homem ou uma mulher experimenta um despertar espiritual, o significado mais importante disso é que se torna capaz de fazer, sentir e acreditar em coisas como antes não podia, quando dispunha apenas de seus próprios recursos desassistidos. A dádiva recebida consiste em um novo estado de consciência e uma nova maneira de ser. Um novo caminho lhe foi indicado, conduzindo-o a um lugar determinado, onde a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Foi transformado em um sentido bem real, pois lançou mão de uma fonte de força que, de um modo ou de outro, havia negado a si próprio até aqui. Encontrou-se possuindo um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se supunha totalmente incapaz. O que recebeu foi um presente de graça, contudo, geralmente, pelo menos em uma pequena medida, tornou-se pronto para recebê-lo.

Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições.

Bill prezou muito o que recebeu e acreditou que era bom para os outros, dizendo: “Humildemente ofereci-me a Deus, como o concebia, para que ELE
fizesse de mim como ELE queria”. Bill disse: “Coloquei-me sob SUA proteção sem reservas. Admiti pela primeira vez que dependendo de mim eu nada era; que sem ELE eu estava perdido. Enfrentei sem medo os meus pecados e preparei-me para que meus novos amigos os arrancassem, raízes e galhos. Não
bebi mais desde então”.
Dois mensageiros

Onde poderia escapar de minhas dúvidas sobre todas as crenças
que eu já tinha tido medo
de perguntar?

Senti-me preso em meu quarto de hotel, preso pela minha própria an-siedade e indecisão. Os acontecimen-tos da noite anterior tinham sacudi-do fortemente o alicerce espiritual já fraco do meu programa de A.A.. Apesar das condições que eu atribuí à aceitação de um Poder Superior a mim mesmo, permaneci sóbrio du-rante quase quatro anos. Agora, eu estava cheio de medo do abandono por um Deus no qual eu nunca ti-nha realmente acreditado.
O quarto enfatizou o meu deses-pero. Era um esconderijo. Eu estava me escondendo do meu chefe, cujo desafio para minha fé me fazia sentir impotente e sozinho. E estava me escondendo de tudo que estivesse a-lém daquelas paredes, porque minha insegurança fez com que tudo e to-dos se tornassem uma ameaça. Era como nos velhos tempos, quando o melhor que eu conseguia fazer era
levar minha garrafa para um lugar secreto e me isolar do mundo.

O sermão havia começado no jantar e continuou até
tarde da noite.

Mas saber que estava me escondendo só aumentou o meu tormento. Onde mais eu poderia ir? Onde poderia esca-par de minhas dúvidas sobre todas as crenças que eu já ti-nha tido medo de perguntar? Em uma sóbria me respondeu.
Achei o número na lista te-lefônica de Chicago, mas não liguei, e sabia que estava evi-tando a Irmandade que tinha salvado a minha vida. Minha mente se voltou para a noite anterior. O sermão havia co-meçado no jantar e continuou até tarde da noite. Meu chefe tinha entusiasticamente ex-posto em suas bases, as cren-ças cristãs. A força de suas convicções e suas exortações, cuja fé eu deveria abraçar, só serviu para aumentar o receio que eu tinha da rendição a qualquer coisa, além de A.A. como uma fonte de ajuda para alcoólicos. Reagindo na defen-siva, eu tinha combatido os seus argumentos com as frases que tinha aprendido: Deus na forma em que O concebia-mos… Viemos a acreditar em um Poder Superior a nós mês-mos… Sua vontade em relação a nós… Mas eram palavras ditas com a cabeça, e não com o coração. Elas eram lançadas como uma cortina de fumaça para esconder minhas dúvidas interiores.
Enquanto conversávamos, o po-der dos sinais de perigo aumentou. Meu dia de palavras vãs para o Se-gundo e o Terceiro Passos estavam chegando ao fim, e eu podia sentir o vazio em minha alma. “Como?”, eu me perguntava, “você começa a acreditar em algo que você pregou acreditar o tempo todo?”.
Pensei novamente em ir a uma reunião. Mas estava com medo, as-sustado com a minha própria hipo-crisia, com medo de sua exposição. Mesmo se eu pudesse encontrar conforto lá, rodeado pelo único po-der que estava disposto a aceitar, não estava disposto a experimentar a solidão vazia que viria depois de deixar Deus, na forma em que eu O concebi, depois da reunião.
A necessidade de sair do meu quarto se tornou mais urgente, mas, para onde deveria ir? Para o restaurante do hotel? Talvez até ao bar para beber um pouco, só para me sentir parte de algo? Nenhuma das opções era aceitável.
Finalmente, decidi sair do hotel para encontrar uma lanchonete em algum lugar. A decisão não fazia qualquer sentido, e eu sabia disso. Uma tempestade se anunciava lá fora. Chicago era uma cidade estra-nha. Não estava com fome. Mesmo assim me vesti o terno, gravata e, sobretudo e desbravei a noite de neve. Eu não tinha idéia de para onde estava indo. Mas Alguém sa-bia.
Deus estava prestes a se apre-sentar. Atravessei a Michigan A-venue e tinha andado uns poucos metros além do meio-fio, quando um homem saiu de uma porta som-bria. Ele estava com barba por fa-zer e roupas muito sujas, como se não as trocasse há muito tempo. Havia furos na ponta da touca en-
cardida, puxada para baixo firme-mente, em torno de suas orelhas pa-ra afastar o frio congelante.
Suas mãos mergulharam profun-damente nos bolsos do casaco do E-xército, desbotado e encardido. “Ei, senhor, você pode me ajudar?”. Mi-nha reação inicial foi ignorá-lo. Mas parei impulsivamente. Ele era muito mais jovem do que parecia, à pri-meira vista, talvez tivesse uns vinte e tantos anos. “Você pode me em-prestar $0,50 para um hambúrguer, senhor? Não como desde ontem.”
Enquanto ele falava, o velho aro-ma de vinho barato já conhecido me inundou, dominando o frescor da neve que caía. Parte de mim quis recusar. Eu sabia que o dinheiro não seria gasto em um hambúrguer. Mas me lembrei de como era, como a ne-cessidade de uma bebida poderia re-virar entranhas e provocar dor no corpo todo. Lembrei-me de como a primeira golada poderia acalmar os

“Pensei novamente em ir a uma reunião. Mas estava com medo, assustado com a minha própria hipocrisia, com medo de sua exposição.”

demônios, mesmo que apenas por pouco tempo. Retirei um dólar e o mostrei com a mão trêmula. Eu que-ria dizer algo mais, que uma outra escolha era possível. Mas eu não consegui. “Obrigado, senhor”. Mur-murei que estava tudo bem, e co-mecei a me afastar. “Ei, senhor, sabe onde posso encontrar uma reunião
de A.A. por aqui?”. As pa-lavras me atingiram com uma força estrondosa. Senti uma dormência latejando pelo meu corpo. Eu desconfiava de meus ouvidos. “O quê?”, perguntei incrédulo. “Uma reunião de A.A. Eu… Eu não consigo pa-rar de beber”.
A incongruência da situa-ção foi esmagadora. Por que um mendigo sujo perguntaria a um respeitável empresário sobre uma reunião de A.A.? Como ele seria capaz de pensar que eu saberia? No entanto, à medida que olhava para ele em silêncio e atordoado, vi o de-sespero que havia tido há tan-tos anos, eu tinha a resposta.
“Eu não sei”, consegui di-zer. Senti-me de repente flutu-ante. “Mas nós vamos encon-trar juntos. Eu também sou um alcoólico”. Encontramos um telefone público nas proxi-midades. Liguei para o Escri-tório Central para saber da lo-calização da próxima reunião. Meu amigo alcoolizado preci-sou me dizer onde estávamos.
“O Grupo Semente de Mostarda”, disse a voz amigá-vel de uma mulher. “Você está a apenas um quarteirão de lá.” Outro choque. Enquanto eu procurava o número de tele-fone do A.A. no meu quarto, havia notado um anúncio se-parado sobre o Grupo Semente de Mostarda.
Pareceu-me um nome in-teressante e me chamou aten-ção. Mas com a minha igno-rância da geografia de Chica-go, parecia estar a quinze qui-lômetros do meu hotel. Não es-
tava. Estava a menos de dois
quarteirões de distância. A reunião já havia começado quando entra os na sala.
Fomos direcionados para duas cadeiras no lado externo do semi-círculo de participantes. Um mi-crofone de mão estava sendo pas-sado para cada pessoa. Minha mente estava cambaleando. Levou algum tempo até eu tomar conhe-cimento do assunto em discussão. Era o Terceiro Passo.
Eu me senti como se estivesse vivendo uma fantasia, preso de al-guma forma em uma conspiração de coincidências, além da minha compreensão. Lembrei-me do meu primeiro dia em A.A., quando me disseram para orar, acreditando ou não. Eu era um ateu alcoólico que bebia diariamente e era incapaz de permanecer sóbrio por muito tem-po.
Com a sobriedade em jogo, es-tava disposto a tentar. Nos últimos quatro anos, eu rezava, porque es-tava com medo de agir diferente. Mas eu ainda não acreditava que isso pudesse dar certo. Agora, ten-tando compreender os aconteci-mentos que me levaram a esta reu-nião, a este encontro particular, me perguntava, seria possível?
O microfone foi de repente pa-rar na minha mão. Antes de falar pensei nas palavras do Terceiro Passo: Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O con-cebíamos. Então entendi. Esta não era uma fantasia. Não tinha havido coincidências, nenhum acidente do destino.
Na minha angústia, Deus me enviou dois mensageiros: um para me mostrar que eu estava perdido, o outro para me mostrar o cami-nho. Eu partilhei. Falei sobre o
meu tormento anterior, sobre os meus sentimentos, sobre meus me-dos.
Disse a eles sobre como descobri o nome desse grupo, sem saber o significado dessa descoberta. Contei como tinha encontrado o meu novo amigo, que agora estava ao meu la-do. E sobre como Deus (como eu es-tava começando a entender) tinha nos trazido a esta reunião.

R.H.^
Culver City, Califórnia

Este depoimento foi extraído do livro
“Despertar Espiritual – Viagens do Espírito”, que em breve estará disponível para aquisição
nos Escritórios de
Serviços Locais.

Fonte:
Revista Vivência – nº 125
Maio e Junho de 2010
Livro Azul Capítulo 11

UMA PERSPECTIVA DE VIDA PARA SI

Para a maior parte das pessoas normais, beber significa sociabilidade, camaradagem e uma imaginação viva. Quer dizer libertação de cuidados, do tédio e de preocupações. É a intimidade alegre com amigos e o sentimento de que a vida é boa. Mas não era assim para nós nos últimos tempos em que bebíamos em excesso. Os antigos prazeres tinham desaparecido. Já não eram senão recordações. Nunca conseguíamos reencontrar os grandes momentos do passado. Havia um desejo persistente de gozar a vida como a tínhamos conhecido e uma confrangedora obsessão de que um novo milagre de controlo tornaria isso possível. Havia sempre mais uma tentativa e um novo fracasso.
Quanto menos os outros nos toleravam, mais nos afastávamos da sociedade, da própria vida. À medida que nos tornávamos súbditos do Rei Álcool, habitantes trêmulos do seu reinado demente, o nevoeiro gelado que é a solidão abatia-se sobre nós, tornando-se cada vez mais espesso e sempre mais escuro. Alguns de nós procurávamos lugares sórdidos, na esperança de encontrar companhia compreensiva e aprovação. Por momentos conseguíamos – depois vinha o esquecimento total e o horrível despertar para defrontar os terríveis Quatro Cavaleiros do Apocalipse: o Terror, a Confusão, a Frustração e o Desespero. Os bebedores infelizes que leiam estas linhas e eles vão compreender!
De vez em quando, uma pessoa que beba muito, mas esteja sem beber na altura, dirá: “Não me faz falta nenhuma. Sinto-me melhor. Trabalho melhor e divirto-me mais”. Como ex-bebedores problema que somos, esta saída faz-nos sorrir. Sabemos que essa pessoa é como uma criança a assobiar no escuro para afugentar o medo. Só se ilude a si própria. No fundo, daria tudo por beber meia dúzia de copos e ficar na mesma. Vai pôr de novo à prova o velho jogo, porque não está feliz com a sobriedade que tem. Não consegue imaginar a vida sem álcool. Chegará o dia em que não vai ser capaz de conceber a vida nem com álcool nem sem álcool. Conhecerá então como poucos a solidão. Estará no momento de saltar para o vazio. Vai então querer que chegue o fim.
Já mostramos como saímos do fundo. Poderá dizer: “Sim, estou disposto. Mas terei que ficar condenado a uma vida em que me sentirei estúpido, aborrecido e triste, como a de certas pessoas “virtuosas” que conheço? Eu sei que tenho de passar sem álcool, mas como é que é possível? Você tem algum substituto adequado?”
Sim, há um substituto e é muito mais do que isso. É pertencer a Alcoólicos Anônimos. Aí vai encontrar a libertação da inquietude, do tédio e da preocupação. A sua imaginação vai ser estimulada. A vida terá finalmente um significado. Os melhores anos da sua vida estão para vir. Foi isso que encontramos nesta comunidade e assim será para si também.
“Como é que isso me poderá acontecer?”, pergunta. “Onde posso encontrar essas pessoas?”
Você vai encontrar esses novos amigos no sítio onde vive. Perto de si, há alcoólicos a morrer sem nenhum auxílio, como náufragos de um barco que se afunda. Se vive numa grande cidade, há centenas deles. Da classe alta e da classe baixa, ricos e pobres; estes são os futuros membros dos Alcoólicos Anônimos. Entre eles encontrará amigos para toda a vida. Vai ficar ligado a eles por novos e maravilhosos laços, porque terão escapado juntos do desastre e, lado a lado, irão começar uma caminhada em conjunto. Então perceberá o que significa dar de si próprio para que os outros possam sobreviver e redescobrir a vida. Aprenderá o pleno significado de “Ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Pode parecer incrível que estas pessoas venham a ser felizes, respeitadas e de novo úteis. Como podem sair de uma tal infelicidade, má reputação e desesperança? A resposta concreta é que, se estas coisas aconteceram entre nós, elas também podem acontecer consigo. Se o quiser acima de tudo e estiver disposto a utilizar a nossa experiência, estamos certos de que lhe acontecerá também o mesmo. Ainda estamos na era dos milagres. A nossa própria recuperação é testemunho disso.
A nossa esperança é de que este modesto livro, uma vez lançado na onda mundial do alcoolismo, seja agarrado pelos bebedores derrotados que seguirão as nossas sugestões. Estamos certos de que muitos se porão de pé para empreender a caminhada. Eles encontrarão outros, ainda doentes, e assim, poderão formar-se grupos de Alcoólicos Anônimos em todas as cidades e aldeias, que serão verdadeiros abrigos para aqueles que precisam de encontrar uma solução.
No capítulo “Trabalhando com os outros” você ficou com uma idéia de como abordamos e ajudamos os outros a recuperar a saúde. Suponha agora que, por seu intermédio, várias famílias adotaram este modo de vida. Você vai querer saber algo mais acerca de como proceder a partir daí. Para lhe dar uma idéia do que o espera, talvez o melhor seja descrever como cresceu a Comunidade entre nós, o que a seguir descrevemos em poucas palavras: Há anos, em 1935, um dos nossos membros fez uma viagem a uma certa cidade do oeste do país. Do ponto de vista de negócios, a viagem correu mal. Se ele tivesse obtido êxito, o seu empreendimento ter-se-ia podido recompor financeiramente, o que na altura, parecia ser de uma importância vital. Mas o negócio terminou em litígio e fracassou por completo. O processo foi acompanhado de muito rancor e controvérsia.
Com amargura e desencorajado, ele viu-se desacreditado e praticamente falido, num sítio desconhecido. Ainda fisicamente debilitado e sóbrio apenas há alguns meses, viu bem que a sua situação era perigosa. Queria muito falar com alguém, mas com quem?
Numa tarde sombria, ele andava de um lado para o outro no hall do hotel a pensar como iria pagar a sua conta. Num canto da sala havia uma vitrina com uma lista das igrejas locais. Ao fundo, uma porta dava para um bar sedutor. Lá dentro, ele podia ver gente bem disposta. Aí, ele poderia encontrar companhia e descontração mas, a não ser que bebesse uns copos, ele não iria possivelmente ter coragem para meter conversa e passaria um fim de semana solitário.
É claro que não podia beber, mas nada o impedia de se sentar a uma mesa com um refresco. Afinal de contas, não estava ele sóbrio há já seis meses? Talvez se pudesse permitir beber sem perigo, digamos, três copos – e nem mais um! O medo apoderou-se dele. A situação era perigosíssima. Era outra vez a velha e insidiosa loucura do primeiro copo. Com um arrepio, deu meia volta e dirigiu-se para onde estava a lista das igrejas. A música e a conversa alegre do bar ainda lhe chegavam aos ouvidos.
Pensou nas suas responsabilidades – na sua família e em todos aqueles que morreriam sem saber que havia uma saída para a recuperação; sim, todos aqueles alcoólicos! Devia haver muitos naquela cidade. Telefonaria a um clérigo. Voltou-lhe a razão e deu graças a Deus. Escolheu uma igreja ao acaso na lista telefônica, entrou numa cabina e pegou no auscultador.
A chamada ao clérigo conduziu-o a um habitante da cidade que, embora tivesse sido um homem competente e respeitado, estava então no auge do desespero alcoólico. Era a mesma situação de sempre: o lar ameaçado, a mulher doente, os filhos perturbados, contas por pagar e a reputação desfeita. Ele tinha uma vontade desesperada de deixar de beber, mas não via saída, pois tinha tentado seriamente muitas formas de escape. Dolorosamente consciente de que havia algo em si de anormal, o homem não compreendia inteiramente o que significava ser alcoólico. *
Quando o nosso amigo lhe descreveu a sua experiência, ele concordou que, mesmo com toda a sua força de vontade, nunca tinha conseguido parar de beber por muito tempo. Admitiu que uma experiência espiritual era absolutamente necessária, mas o preço parecia–lhe muito elevado com base no que lhe era proposto. Contou como vivia numa aflição constante de que descobrissem o seu alcoolismo. Tinha naturalmente a obsessão, comum a muitos alcoólicos, de que só poucas pessoas sabiam do seu problema. Por que razão, argumentava ele, deveria perder o que lhe restava ainda do seu trabalho, só para afligir a família ainda mais, ao admitir estupidamente a sua grave condição a pessoas de quem dependia para ganhar a vida? Disse que faria tudo, mas isso não.
Intrigado, contudo, convidou o nosso amigo para sua casa. Algum tempo depois, justamente quando estava convencido de que já dominava o seu problema de álcool, apanhou uma tremenda bebedeira. Para ele, foi a bebedeira que pôs fim a todas as bebedeiras. Percebeu que tinha de enfrentar honestamente os seus problemas para que Deus lhe concedesse ajuda.
Um dia, pegou o touro pelos cornos, e dispôs-se a dizer àqueles de quem tinha medo qual tinha sido o seu problema. Para sua surpresa, verificou que era bem aceite e que muitos estavam a par do seu alcoolismo. Pegou no carro e fez a ronda das pessoas a quem tinha prejudicado. Visitou-as uma a uma a tremer, porque isso poderia significar a sua ruína, muito em particular para uma pessoa com a sua profissão.
À meia noite voltou para casa, exausto mas muito contente. Desde esse dia nunca mais voltou a beber. Como se verá mais adiante, este homem representa atualmente muito para a sua comunidade, e em quatro anos, reparou os maiores danos causados em trinta anos de alcoolismo.
A vida porém não foi fácil para estes dois amigos. Defrontaram-se com muitos problemas. Aperceberam-se ambos de que tinham de se manter ativos espiritualmente. Um dia telefonaram para a enfermeira chefe de um hospital local. Explicaram-lhe o que precisavam e perguntaram-lhe se tinha um paciente alcoólico de primeira classe.
“Sim”, respondeu ela, “Temos um que é um caso muito sério. Acabou de bater numas enfermeiras. Fica completamente doido quando está a beber, mas é uma ótima pessoa quando está sóbrio, embora tenha cá estado oito vezes nos últimos seis meses. Parece que foi um advogado muito conhecido na cidade, mas neste momento está atado à cama”. **
Tratava-se realmente de um candidato mas, pela descrição, não parecia muito prometedor. Nessa altura, a aplicação de princípios espirituais em tais casos não era tão bem aceite como é agora. Mas um dos amigos disse: “Ponha-o num quarto privado. Vamos vê-lo”.
Dois dias depois, o futuro membro dos Alcoólicos Anônimos olhava com um ar vidrado para os dois à beira da sua cama: “Quem são vocês e porque estou neste quarto privado? Estive sempre numa enfermaria”.
Um dos visitantes disse: “Viemos dar-lhe um tratamento para o alcoolismo”.
O desespero estava estampado na cara do homem ao dizer: “Oh! é inútil. Não há nada que me valha. Sou um homem perdido. As últimas três vezes, embebedei-me ao voltar para casa. Tenho medo de sair da porta. Não consigo compreender isto”.
Durante uma hora, os dois amigos contaram-lhe as suas experiências com o álcool. Repetidamente ele dizia: “Sou eu. Sou assim mesmo. Bebo tal e qual como vocês”.
Explicaram ao doente que ele sofria de uma intoxicação aguda, que degradava o organismo do alcoólico e lhe destorcia o espírito. Falou-se muito sobre o estado mental que antecede o primeiro copo.
“Sim, sou tal e qual”, disse o doente, “é o meu retrato. Vocês sabem realmente do que estão a falar, mas não vejo de que é que isso me pode servir. Vocês são pessoas de respeito. Eu também fui, mas agora já não sou nada. Pelo que me dizem, sei melhor do que nunca, que não consigo parar de beber”. Ao ouvir isto, os dois visitantes desataram a rir. “Não vejo onde é que está a graça”, disse o futuro membro dos Alcoólicos Anônimos.
Os dois amigos falaram da sua experiência espiritual e explicaram–lhe o plano de ação que tinham posto em prática.
Ele interrompeu-os: “Já fui um praticante muito convicto, mas neste caso, não me serviu de nada. Nas manhãs de ressaca rezava a Deus e jurava que nunca mais bebia uma gota de álcool, mas às nove da manhã já estava bêbedo que nem um cacho”.
No dia seguinte, encontramos o candidato mais receptivo. Tinha estado a pensar no caso. “Talvez vocês tenham razão,” disse ele. “É possível que Deus consiga tudo”. E acrescentou, “Apesar de Ele ter feito pouco por mim quando lutava sozinho contra o álcool”.
Ao terceiro dia, o advogado entregou a sua vida aos cuidados e orientação do seu Criador e declarou-se inteiramente disposto a fazer o que fosse preciso. A sua mulher foi vê-lo, mal se atrevendo a ter esperança, embora tivesse notado já alguma diferença no seu marido. Ele tinha começado a viver uma experiência espiritual.
Nessa mesma tarde, ele vestiu-se e saiu do hospital convertido num homem livre. Tomou parte numa campanha política, fez discursos, frequentou centros de reunião de todos os gêneros, passando muitas vezes as noites em claro. Perdeu por pouco a eleição a que se candidatou e não foi eleito. Tinha porém encontrado Deus e, ao encontrar Deus, encontrou-se a si próprio.
Isto foi em Junho de 1935. Nunca mais voltou a beber. Também ele se tornou um membro respeitado e útil na sua comunidade. Ele tem ajudado outros a recuperarem-se e desempenha um papel importante na igreja, da qual esteve afastado muito tempo.
Assim, como se viu, havia naquela cidade três alcoólicos que sentiam que tinham de dar aos outros o que tinham encontrado, ou se afundariam de novo. Depois de vários fracassos para encontrar outros, apareceu o quarto. Veio por intermédio dum conhecido que tinha ouvido a boa notícia. Tratava-se de um jovem irresponsável, cujos pais não conseguiam perceber se ele queria ou não deixar de beber. Eram pessoas profundamente religiosas e muito abaladas pela obstinação do filho em não querer nada com a igreja. Sofria terrivelmente com as suas bebedeiras, mas parecia não se poder fazer nada por ele. Consentiu, no entanto, em ir para o hospital, onde lhe deram precisamente o mesmo quarto recentemente desocupado pelo advogado.
Recebeu três visitantes. Ao fim de pouco tempo disse: “Faz sentido a maneira como vocês apresentam a questão espiritual. Estou pronto para pôr mãos à obra. Ao fim e ao cabo, acho que os meus velhotes tinham razão”. E assim, se juntou mais um à Comunidade.
Durante este tempo, o nosso amigo do incidente do hotel ficou nessa cidade mais três meses. Quando regressou a casa, deixou lá o seu primeiro conhecimento, o advogado e o jovem irresponsável. Estes homens tinham descoberto algo de completamente novo na vida. Embora soubessem que tinham de ajudar outros alcoólicos para eles próprios se manterem sóbrios, esse motivo em si mesmo tornou-se secundário. Era superado pela felicidade que descobriram em se darem aos outros. Eles partilhavam as suas casas, os seus escassos recursos e dedicavam de boa vontade as horas livres aos companheiros que sofriam. Dia e noite, estavam dispostos a levar um novo homem para o hospital e a visitá-lo em seguida. O número deles aumentou. Passaram por uns quantos fracassos dolorosos, mas nesses casos esforçavam-se por introduzir os familiares num modo de vida espiritual, trazendo deste modo conforto a muita inquietação e sofrimento.
Passado ano e meio, estes três homens obtiveram êxito com mais sete. Como se viam frequentemente, era rara a noite em que não houvesse um pequeno grupo de homens e mulheres que se encontravam em casa de um deles, felizes pela sua libertação e sempre a pensarem como encontrar um meio de levar a sua descoberta a recém-chegados. Para além destes encontros informais, estabeleceu-se em breve o costume de se reservar uma noite por semana para uma reunião, a que poderiam assistir todos os interessados num modo de vida espiritual. Além da camaradagem e sociabilidade, o objetivo fundamental era o de proporcionar a ocasião e lugar para os novos interessados falarem dos seus problemas.
Pessoas de fora começaram a interessar-se. Um homem e a sua mulher puseram a sua casa, que era grande, à disposição deste conjunto de pessoas tão estranhamente diverso. Este casal tornou-se desde então tão entusiasta com a idéia que dedicou a sua casa a esta obra. Muitas mulheres em estado de confusão vieram a esta casa para encontrar companhia carinhosa e compreensiva entre outras mulheres que conheciam o problema, para ouvir da boca dos maridos alcoólicos o que lhes tinha acontecido, para serem aconselhadas sobre a maneira como hospitalizar e tratar os seus obstinados maridos quando tropeçassem de novo.
Muitos homens, ainda atordoados pela sua experiência no hospital, transpuseram o limiar dessa casa para a liberdade. Muitos alcoólicos que ali entraram, saíram com uma resposta. Eles ficavam rendidos perante essa gente alegre que ria das suas próprias desgraças e compreendia as deles. Impressionados por aqueles que os visitavam no hospital, capitulavam mais tarde por completo ao ouvirem num quarto dessa casa, a história dum homem, cuja experiência se assemelhava à deles. A expressão na cara das mulheres, esse algo indefinível no olhar dos homens, a atmosfera estimulante e eletrizante do lugar, conjugavam-se para lhes fazer perceber que tinham encontrado o seu abrigo.
O modo prático de abordar os problemas, a ausência de qualquer forma de intolerância, a informalidade, a genuína democracia, a fantástica compreensão dessas pessoas, eram irresistíveis. Eles e as suas mulheres saiam animados com a idéia do que poderiam agora fazer por um amigo doente e pela sua família. Sabiam que tinham um grande número de novos amigos e era como se conhecessem estes estranhos desde sempre. Tinham presenciado milagres e certamente que um milagre também lhes iria acontecer. Eles tinham-se apercebido da Grande Realidade: o seu Deus de Amor e Criador Todo Poderoso.
Atualmente, esta casa já é pequena para os seus visitantes semanais, cujo número atinge em regra os sessenta ou oitenta. Os alcoólicos vêm de longe e de perto. Famílias percorrem longas distâncias, vindas de cidades vizinhas, para participarem nestas reuniões. Numa localidade situada a trinta milhas há quinze membros dos Alcoólicos Anônimos. Tratando-se de uma cidade grande, pensamos que um dia o número de membros será da ordem das centenas. ***
Mas a vida entre os Alcoólicos Anônimos não se limita à participação em reuniões e a visitas a hospitais. No dia a dia, procura-se resolver questões antigas, ajudar a restabelecer divergências familiares, advogar filhos deserdados perante pais ainda furiosos, emprestar dinheiro e procurar emprego a membros, nos casos em que as circunstâncias o justifiquem. As boas-vindas e a cordialidade são extensivas a todos, por mais desacreditados que estejam ou por mais baixo que tenham caído – desde que a sua intenção seja séria. Distinções sociais, rivalidades e invejas triviais não se levam a sério e são motivo para rir. Como náufragos do mesmo navio, salvos e unidos por um mesmo Deus, com o coração e o espírito atentos ao bem-estar dos outros, as coisas que têm grande importância para outros, deixam de ter grande significado para eles. E como é que poderiam tê-lo?
Em circunstâncias não muito diferentes, está a acontecer o mesmo em muitas cidades do Leste. Numa delas há um hospital muito conhecido para tratamento da adicção ao álcool e drogas. Há seis anos um dos nossos membros esteve lá internado. Muitos de nós sentimos, pela primeira vez, a Presença e o Poder de Deus dentro destas paredes. Temos uma grande dívida de gratidão para com o médico de serviço, porque pondo inclusivamente em risco o seu trabalho, expressou a sua confiança no nosso.
Quase todos os dias, este médico sugere a um dos seus pacientes que receba a nossa visita. Como compreende o nosso trabalho, seleciona com intuição os que estão dispostos e prontos para recuperar numa base espiritual. Muitos de nós, que somos antigos pacientes desse hospital, vamos lá para dar ajuda. Para além disso, nesta mesma cidade do Leste, há reuniões informais, como as que descrevemos, e onde se podem agora ver dezenas de membros. Tal como acontece com os nossos amigos do Oeste, criam-se amizades com a mesma facilidade e encontra–se o mesmo espírito de ajuda mútua. Viaja-se muito entre Leste e Oeste, o que nos faz prever um grande crescimento com este útil intercâmbio.
Esperamos que um dia todo o alcoólico em viagem possa encontrar um grupo de Alcoólicos Anônimos no seu destino. Até certo ponto isto já se tornou uma realidade. Alguns de nós somos vendedores e viajamos de um lado para o outro. Grupos de dois, três e cinco de nós surgiram noutros sítios através do contacto com os nossos dois maiores centros. Aqueles de nós que viajam visitam-nos com a maior frequência possível. Esta prática permite-nos ajudá-los e, ao mesmo tempo, evitar certas distrações sedutoras pelo caminho, que qualquer homem que viaje pode testemunhar. ****
Assim crescemos e, você também pode “crescer”, ainda que seja apenas com este livro para o ajudar. Acreditamos e temos esperança de que ele contenha tudo o que precisa para começar.
Sabemos no que está a pensar. Diz para si mesmo: “Estou nervoso e sozinho. Eu não vou conseguir”. Mas consegue. Esquece-se de que acaba de encontrar uma fonte de energia muito maior do que a sua própria. Com um tal recurso, conseguir o que nós conseguimos, é só uma questão de boa vontade, paciência e trabalho.
Conhecemos um membro de A.A. que vive numa grande cidade. Estava lá apenas há umas semanas, quando descobriu que aí havia uma maior percentagem de alcoólicos do que em qualquer outra cidade do país. Isto passou-se apenas alguns dias antes de se escreverem estas palavras (1939). As autoridades mostravam-se apreensivas com o problema. Ele entrou em contacto com um eminente psiquiatra, que tinha assumido determinadas iniciativas para cuidar da saúde mental na comunidade. O médico era muito competente e mostrava-se extremamente interessado em adotar qualquer método de trabalho que tratasse o problema. Perguntou então ao nosso amigo o que ele tinha para oferecer.
O nosso amigo descreveu-lhe o nosso método e o efeito foi tão positivo que o médico concordou em experimentá-lo nos seus pacientes e noutros alcoólicos de uma clínica onde trabalha. Foram igualmente tomadas disposições junto do psiquiatra chefe de um grande hospital público para escolher ainda outros casos que faziam parte do contínuo fluxo de miséria que passava regularmente por essa instituição.
Deste modo o nosso diligente companheiro terá em breve muitos amigos. Alguns deles poderão cair para talvez nunca mais se levantarem, mas se a nossa experiência pode servir de critério, mais de metade dos que foram abordados tornar-se-ão membros dos Alcoólicos Anônimos. Quando uns quantos homens nesta cidade se tiverem encontrado a si próprios e descoberto a alegria de ajudar outros a enfrentarem de novo a vida, o processo não parará, enquanto todo o alcoólico dessa cidade não tiver a sua oportunidade de recuperação – se ele puder e quiser.
“Mas”, pode ainda dizer: “Não terei o benefício de entrar em contacto com os que escreveram este livro”. Quem sabe! Só Deus pode decidir isso, de modo que tem de se lembrar que você depende realmente é Dele. Ele mostrar-lhe-á como criar o grupo de que tanto precisa. *****
É intenção do nosso livro oferecer apenas sugestões. Temos consciência do pouco que sabemos. Tanto a si como a nós, Deus fará constantemente revelações. Peça-Lhe na sua meditação da manhã o que pode fazer em cada dia por aquele que ainda sofre.
As respostas virão se estiver tudo em ordem consigo próprio. Mas é óbvio que não pode transmitir aos outros aquilo que não tem. Empenhe-se para que a sua relação com Ele seja boa e acontecer-lhe-ão coisas extraordinárias a si e a muitos outros. Isto é para nós a Grande Realidade.
Abandone-se a Deus como O concebe. Admita os seus erros perante Ele e perante os seus semelhantes. Limpe os destroços do passado. Dê livremente do que encontrar e junte-se a nós. Estaremos consigo na Comunidade do Espírito e, ao percorrer a Estrada de um Destino Feliz, encontrará seguramente alguns de nós.
Que Deus o abençoe e o guarde – até lá.
NOSSAS VIDAS E A DOS QUE VIRÃO DEPENDEM DA UNIDADE.

As vidas dos doentes alcoólicos presentes e futuros dependem de nossa Unidade, nossa Unidade depende de nossa Recuperação mais profunda, e esta depende de nosso amor pelo outro, ou mantemos a unidade ou o A.A. morre e nossas artérias mundiais deixariam de transportar a graça vivificante de Deus.

Observando, com atenção, chegamos à chave do estranho paradoxo. Somos obrigados inicialmente a submetermo-nos aos princípios de recuperação. Dependemos da obediência aos princípios espirituais. Se nos afastamos demais dos princípios do A.A. o castigo é certo, e rápido; adoecemos e morremos. A princípio nos obrigamos, depois vemos que essa obediência nos agrada e faz muito bem.
Verificamos que o trabalho com os outros é fundamental, propagamos a mensagem de A.A.

Sem um grupo a maioria vê que não consegue se recuperar de maneira permanente. Surge a compreensão de que somos parte de um grande todo; que nenhum sacrifício pessoal é suficientemente grande para preservar a Unidade de nossa Irmandade.

Sem uma boa recuperação, que só advêm com o tempo bem aproveitado com o exercício dos Doze Passos e com a continuidade permanente desse exercício, não haverá serenidade, felicidade duradoura nem paz em nossos corações.

O conflito ou a discordância respeitosa não exclui nem tira a paz de ninguém. Isto não é fácil, exige o exercício permanente dos Doze Passos.

A recuperação é básica para a Unidade, sabemos por experiência, que não se vivenciara bem as tradições nem os conceitos sem uma boa recuperação e permanência nesse programa para toda a vida. A recuperação não consiste numa intelectualização de conhecimento dos princípios de nossa Irmandade, mas na prática tranquila, persistente e organizada desses princípios, sem sofrimento
pelo possível pequeno e vagaroso progresso alcançado, em todos os momentos de nossas vidas. A compreensão, e aceitação dos princípios de A.A. que até podem nos fazer parar de beber é uma coisa, mas o exercício de fato desses princípios é que trazem como consequência a felicidade, a paz e a capacidade de exercer a tolerância no exercício dos processos que consolidam a Unidade. Como é difícil a mudança de um comportamento, por largo período de tempo condicionado a pensar, entender, sentir e agir doentia e inconscientemente. Éramos autômatos inconscientes do erro. Com a vivência da filosofia de nossa Irmandade, passamos tanto quanto possível, desse estado inconsequente e lamentável de vida, para o estado do exercício consciente do acerto, e aos poucos, sempre um pouco mais, para o estado de autômatos inconscientes desse acerto; isto é maravilhoso, mas o progresso é lento e exige muita disciplina e permanente vigilância no exercício da mudança, por longo tempo; daí decorre a paz e a possibilidade da Unidade permanente. Erro e acerto aqui tem a conotação, de estarmos mais distantes ou mais próximos dos princípios de A.A., respectivamente.

O segredo da força das tradições, são que elas tem origem na experiência de vida e estão arraigadas no amor. Elas confessam nossas falhas como sociedade, defeitos esses que nos ameaçam; elas nos dão as normas para a harmonia e para mantermos a Unidade enquanto Deus quiser.

Vidas atuais e as que virão dependem da Unidade.

O indivíduo não se recupera sozinho e aí surge a compreensão do sentimento holístico, ou de que ele faz parte do grande todo. Nenhum sacrifício é grande demais para preservar a Irmandade.

O indivíduo entende que o clamor dos desejos e ambições deve ser silenciado, sempre que prejudiquem o grupo. Este precisa sobreviver para que o indivíduo não pereça.

O homem livre se associa voluntariamente ao interesse comum. A.A. é assim. A sede mundial de nossa Irmandade não dá ordens, ao contrário, é nossa maior transmissora das lições aprendidas com as experiências, mas nós obedecemos suas sábias sugestões, bem como de nossa Conferência, por tratar-se da expressão da consciência coletiva de cada instância.

Os que quebram o anonimato ou pretendem ser os dons da verdade, não percebem que estão inconscientemente perseguindo o estrelato ou as antigas e perigosas ambições, e que estão lançando a semente de nossa própria destruição como sociedade; assim ocorre também com aqueles que ferem outros princípios de nossas tradições e do terceiro legado, não tendo a visão do todo e de proteger nossa Irmandade, para que ela chegue também aos nossos futuros irmãos de doença, como
chegou até nós.

Nosso primeiro dever, quanto ao futuro de A.A., é o de manter em plena força o que agora temos. Só o mais vigilante cuidado pode assegurar isto. Estejamos unidos para enfrentar e vencer nossas falhas e crises. As experiências são melhor compreendidas, pela troca permanente das mesmas e assim estaremos garantindo o futuro dos novos que sempre chegam e da nossa própria Irmandade.
Pensemos profundamente naqueles que ainda virão a A.A., queiramos que encontrem o que encontramos, e ainda mais se for possível. Nenhum esforço, cuidado e vigilância, será grande demais para preservar a constante eficiência e força espiritual de A.A.

As tradições nos levam à Unidade, elas são um código de ética para a convivência harmônica. A Unidade é uma das qualidades mais preciosas que A.A. tem, dela dependem nossas vidas. Assim como a sobriedade, que é para o indivíduo vida longa e feliz; a Unidade, que é diferente e muito mais profunda que a união, é a mesma coisa para a nossa Irmandade como um todo. Só viveremos se permanecermos em Unidade.

Vidas atuais e as que virão dependem da Unidade.

Uma grande força para ela é o amor, a dedicação que temos por nossos companheiros e por nossos princípios. Embora muitos se esforcem violentamente para obter a sobriedade, nossa Irmandade nunca teve de lutar pela Unidade perdida. Deus a protege e nos envia as soluções.

As diferenças, quando respeitadas, identificam cada indivíduo e fortalecem a Unidade. Não devemos ter medo do atrito dos pontos de vista opostos, isto é democrático. Devemos, isto sim, evitar a destruidora raiva e o perigoso ressentimento, pois com eles a Unidade sofre e pode até morrer, levando junto
nossa Irmandade. Por isso não há castigo para os erros, nem mesmo para os mais graves.

Temos sempre um sério desafio. Conviver com pessoas doentes e diferentes! Os pensamentos e sentimentos desagregadores inconscientes e inconsequentes, persistem de maneira excludente e criam sérios problemas à Unidade, em nossa Irmandade. Conviver com as diferenças, significa praticar a tolerância. Isto não significa aceitar a intolerância dos prepotentes, pois tolerância não significa
ausência de princípios, significa acreditar na prática dos três legados:
Recuperação, Unidade e Serviço, nas soluções negociadas, justas e dignas, que os legados nos sugerem, de maneira respeitosa, mas firme.

A troca de experiências em torno dos campos de atividade de nossa Irmandade, deve ser exercida com plenitude e sabedoria, trazendo a diferença de cada um ao enriquecimento global da boa vontade, tolerância e compreensão na nossa convivência e em nossas diretivas. No entanto é necessário que cada um faça a sua parte, num grande esforço coletivo. Se quisermos Unidade, e consequentemente
a continuidade de nossa Irmandade, temos que investir e muito nos princípios básicos de A.A., sem radicalismo e competência exclusiva. O futuro de nossa Irmandade, será feito pelos que acreditam nos seus princípios, e isto será com o beneplácito do Poder Superior, garantindo a Unidade presente e futura.
O Grande Despertar para a Mensagem de A.A.

Nos dias atuais, a Irmandade de Alcoólicos Anônimos tem aproximadamente 6.000 Grupos em todo o Brasil, onde cerca de 90.000 membros participam ativamente, considerando-se uma média de 15 membros por Grupo. As informações dizem que o Brasil é o país onde o AA mais cresce e já no ano de 2001 representava um índice de 18,4% dos membros de AA fora do berço da Irmandade: Estados Unidos e Canadá. Estima-se ainda que o Brasil possui mais ou menos 10 milhões de pessoas dependentes do álcool.
O Programa de Recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos representa um verdadeiro compartilhar de experiências, proporcionando um novo aprendizado de vida. Nele compartilham-se histórias e dificuldades e se descobre que não estamos sozinhos. Descobre-se que outros já passaram por sofrimentos bem parecidos. Que superaram suas dificuldades. Que estão vivendo uma nova vida! É quando surgem dois esquecidos sentimentos: o de perdoar-se e também o de aceitar-se! É como se o coração estivesse aumentando em si mesmo a sua influência!
Quando recebemos a mensagem e chegamos logo em seguida a um Grupo, nos envolvemos num misto de curiosidade, ansiedade e grande dose de vontade para saber de imediato a cerca de tudo que nos convença a abandonar a bebida.
E já nos primeiros dias, quando identificamos o clima espontâneo das reuniões e ouvimos atentamente sobre o alcoolismo visto como doença, passamos daí para frente a encarar a nossa vida com um pouco mais de amor e fé. Começamos a nos espiritualizar. Passamos a nos amar mais. E nestes momentos, invariavelmente, nos surpreendemos muitas vezes fazendo por nós, algo que nunca e em momento algum já tivéssemos feito anteriormente. Ou o que é pior, (ou melhor), ou alguém feito para nós! Os nossos “valores” começam a ressurgir das cinzas!
Este despertar vivenciado já nos primeiros dias é a base de nossa programação. É através dele que descobrimos a Humildade, a Tolerância e a Aceitação. É através dele que nos “encantamos” pela Irmandade e passamos a nos envolver mais e mais dentro de um princípio de Gratidão. É a Gratidão que nos Abre a Mente e nos impulsiona à Prestação de Serviços dentro de AA e pelo AA.
Ninguém quer ser alcoólico. Ninguém nasce alcoólatra. Ninguém decide: vou beber para perder meu emprego. Perder minha família, perder meus amigos! Ou para desafiar aos pais. Ninguém quer ter a imagem de um “pé inchado”, “pedinte” ou “daquele velho de pele enrugada” que não saí do balcão do bar, que muitas vezes foi o primeiro a abri-lo, para tomar a “primeira” da manhã!
Mas, infelizmente esta é uma das faces expostas da doença do alcoolismo que parte de nossa sociedade apenas vê. Outras facetas existem e em todos os segmentos. Foram estas visões estigmatizantes e degradantes, vistas pela sociedade que criaram os porquês da negação da doença, fazendo com que exista uma ilusória preservação da auto-imagem, que só faz alongar o sofrimento do doente alcoólico, impedindo-o de encontrar um Grupo de Alcoólicos Anônimos, onde acertadamente encontrará outros iguais em plena Recuperação e Sobriedade!
Identificar o alcoolismo como doença demora muito, em virtude da negação da própria pessoa em admitir-se impotente perante ao álcool. Enquanto a pessoa não reconhecer a sua própria doença, não haverá um tratamento eficaz.
Admitir-se impotente perante o álcool é um dos maiores gestos de grandeza, para nós que ainda não “aprendemos” a beber, durante todos estes anos de tentativas e “derrocadas” pelo álcool, além dos sofrimentos causados àqueles em nossa volta!
A Programação de AA sugere um Plano de 24 horas evitando o Primeiro Gole. Repetindo-se a cada 24 horas ou a cada momento presente! Onde o importante situa-se em: Não ir ao Primeiro Gole!
Sugere ainda, que você seja o seu próprio fiscal ou o “eterno vigilante” de sua Sobriedade. O Programa recomenda a freqüência às reuniões, principalmente daquele Grupo onde você ingressou, o seu Grupo Base, mas, que visite também outros Grupos, para conhecer novas experiências.
Nos Grupos sempre se encontram “velhos mentores”. São aqueles membros com um pouco mais de experiências que ainda freqüentam, compartilhando suas histórias de como se livraram do álcool e como superaram todos os seus problemas e assim “dando de graça o que de graça receberam” exercitam o princípio da Gratidão para com a Irmandade.
Por outro lado, a freqüência às reuniões assegurará que os antigos hábitos, gradativamente, passarão a ser substituídos por uma reformulação de vida, com o resgate da auto-estima e do amor próprio, alicerçados na Honestidade, Boa Vontade e Mente Aberta propostas pelo Programa de Recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos.
Participando de AA descobrimos que o alcoolismo é uma doença que atinge todas as camadas sociais e de todas as idades haja vista o fluxo de seus membros. Descobrimos também o excelente relacionamento que existe com os segmentos da Sociedade no campo da Medicina, no campo da Justiça, no campo da Educação e junto a Imprensa.
Descobrimos que como “formiguinhas”, existe em cada Comunidade, um “batalhão” de abnegados Servidores sempre atentos e dispostos à levar a Mensagem Seja Onde For!
Descobrimos que para os Serviços em AA não existe a remuneração para os seus membros.
Descobrimos que para ser membro não se paga taxa ou mensalidades.
Descobrimos que o Anonimato é um dos maiores alicerces espirituais que a Irmandade possui. Que ninguém é identificado nem lá entre os iguais e nem quando sair de cada reunião. Que seus testemunhos são mantidos em sigilo absoluto: “Quem você vê aqui, O que você ouve aqui. Quando sair daqui. Deixe que fique Aqui”.
Descobrimos que os Princípios da Irmandade são colocados acima das Personalidades de cada um. Descobrimos que é uma Obra de Amor! Vale a pena conhecer. Vale a pena participar!
CAMPOS S.
Oitavo Passo Como Preparar

Para entender o Oitavo Passo:- Mamãe! Sara me bateu! Roberto berrou como um louco.- Mas ele me chutou primeiro Sara se defendeu.- Sim, mas ela pegou meu jogo.- Ele não devia ser tão melindroso.E por aí vai…

Isso parece familiar, não parece? Pois é, as crianças adoram culpar os outros por seus problemas e detestam aceitar responsabilidades. De vez em quando, nós adultos as obrigamos a aceitar responsabilidade e as constrangemos a um pedido de desculpas forçado. Mas elas nunca dizem espontaneamente: “Sinto muito. Comportei-me mal. Errei”.

No Oitavo Passo começamos a crescer; a fazer o que as pessoas amadurecidas espiritualmente fazem: aceitar a responsabilidade de nossos atos, sem levar em conta o mal que os outros nos fizeram. Por isso que no Sexto Passo é feita a advertência de que aquele Passo é o que separa os adultos dos adolescentes. Se quero crescer tenho que ir em frente, a diferença de comporta-mento do adulto e do adolescente é a maturidade, é a capacidade de assumir a responsabilidade pelos atos praticados.

Por isso é que o Sétimo Passo nos fala de humildade, pois sem essa virtude primordial não conseguiremos ir em frente. Até aqui em nossa caminhada só estivemos lidando com material nosso: o inventário do Quarto Passo era só nosso e de mais ninguém.

Nossas admissões no Quinto Passo foram de falhas nossas e de mais ninguém. Os defeitos de caráter do Sexto Passo e as imperfeições do Sétimo Passo também são nossos, de mais ninguém. No Oitavo Passo, continuamos a nos examinar, porém levando em conta os que foram prejudicados por nós. Com a ajuda de um Poder Superior, recordamos os nomes e as fisionomias das pessoas que prejudicamos. Nossa tarefa neste Passo é tão somente fazer uma relação de nomes, apreciando cuidadosamente cada um desses nomes com atenção e procurando perceber os diferentes tipos de reação que teremos com cada nome individualmente.

A alguns estremecemos, outros teimamos em achar que não deve fazer parte dessa lista e há ainda aqueles que achamos que somente nos prejudicaram. A esta reação devemos ser cautelosas, pois podemos estar incorrendo no grave defeito da racionalização. Esta reabertura das feridas emocionais, algumas velhas, outras talvez esquecidas e ainda outras, sangrentas e dolorosas, pode nos dar a impressão de ser uma operação desnecessária e sem propósito, porém, se formos firmes e precisamos ser, as vantagens de se continuar fazendo a lista vão se revelando e a dor irá diminuindo à medida que os obstáculos forem desaparecendo.

Segundo citação em nosso livro os Doze Pa-sos e as Doze Tradições: “Tais obstáculos, contudo, são muito reais”.

“Chegou a hora de limparmos o entulho desse passado nos retratando com essas pessoas. E para que isso seja possível, pedimos orientação a Deus para a elaboração desta relação.”
O primeiro e um dos mais difíceis, diz respeito ao perdão. Desde o momento em que examinamos um desentendimento com outra pessoa, nossas emoções se colocam na defensiva. “Evitando encarar as ofensas que temos dirigido a outro, costumamos salientar, com ressentimento, as afrontas que ele nos tem feito”. Ao fazer a relação das pessoas às quais prejudicamos, a maioria de nós depara com outro resistente obstáculo.

Sofremos um choque bastante grave quando nos damos conta que estávamos preparando a admissão de nossas condutas desastrosas cara a cara perante àqueles que havíamos tratado mal. Por que, lamentávamos simples-mente não esquecer o que passou? Será que não podemos deixar algumas pessoas de fora? Por que considerar todas? Estas são algumas das prerrogativas que o medo conspira com o orgulho para impedir que façamos a lista completa.

Isto sem contar que, não raro, nos passa pela cabeça que os únicos prejudicados fomos nós mesmos. As armadilhas preparadas pelo nosso ego são muitas e devemos ter o cuidado de detectá-las e desarmá-las para que as mesmas não impeçam o nosso crescimento.

À medida que vamos vencendo o medo e o orgulho e nos damos conta de que a relação é necessária e nos vai fazer bem; pode nos ocorrer uma pergunta: – “Que tipos de danos podemos fazer às outras pessoas? “Podemos definir os danos como o choque entre instintos; os desejos que cada ser humano tem individualmente, principalmente nas áreas de segurança física e material, convívio social e sexual, que podem causar prejuízos materiais, emocionais e espirituais.”Podemos dividir os danos em três grandes categorias:

Danos Materiais: Ações que afetaram um indivíduo de forma tangível, como, por exemplo, tomar dinheiro emprestado e não pagar conforme combinado, gastar exorbitantemente, pão-durismo, gastar na tentativa de comprar amizade ou amor, fazer contratos e recusar-se a agir de acordo com o prescrito no mesmo, etc.

Danos Morais: Comportamento impróprio em ações e conduta morais ou éticas, envolvendo os outros em nossas más ações, dando maus exemplos para crianças, amigos ou quem quer que nos tome por modelo, estando preocupados com atividades egoístas e completamente alheios às necessidades dos outros. Infidelidade conjugal, promessas quebradas, insultos verbais, mentiras, falta de confiança, etc.

Danos Espirituais: Atos de omissão por negligenciar nossas obrigações com nós mesmos, com a família, com a comunidade. Por exemplo, não demonstrar gratidão para com aqueles que nos ajudaram, evitar progredir em áreas como as da saúde e educação, não dar atenção aos que fazem parte de nossas vidas, deixando de incentivá-los, etc.As idéias fundamentais do Oitavo Passo:

Reparação: No contexto dos Doze Passos, a idéia de reparação é definida como reparar os danos do passado. A reparação pode ser tão simples quanto um pedido de perdão ou tão complexa quanto a reparação por prejuízos físicos ou financeiros.

Perdão: O perdão é parte essencial do Oitavo Passo. Quando colocamos este Passo em ação e começamos a fazer uma lista das pessoas que prejudicamos, imediatamente pensamos nos danos que os outros nos causaram. Talvez esta reação seja um mecanismo de defesa, um meio de evitar a admissão de culpa. Talvez não. Não importa porque nos sentimos assim. O importante é cuidarmos do problema. Precisamos perdoar os que nos magoaram.

O perdão não é emoção. É decisão. Só pode ser real com a ajuda de Deus. Só Ele nos pode dar a graça, o desejo e a capacidade para eximir os que nos magoaram. Sozinhos, deixamos o rancor, a amargura e o ressentimento se inflamarem e tomar conta. O Oitavo Passo é o começo do fim do nosso isolamento de nossos semelhantes e de Deus.

Obrigado companheiros e companheiras pelo crescimento que vêm me proporcionando e obrigado Revista Vivência pela oportunidade.

Rogéria/MG Fontes: • Os Doze Passos e as Doze Tradições de A.A.• Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade. • Os Doze Passos para os Cristãos.
Revista Vivência – Matéria do Mês – Edição 118
PRECE E MEDITAÇÃO.

DIZ O DÉCIMO PRIMEIRO PASSO, PASSO TÃO ESQUECIDO, Que “Procuramos através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que o concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.

A Prece, a Contemplação e a Meditação são nossos meios de encontro e contato com o Deus que cada um de nós possa acreditar. Temos as preces de petição ou súplica, a de confissão, a de intercessão, a de louvor e a de gratidão. Quando falamos em prece, logo pensamos em pedido, é sinônimo de pedido, geralmente feita em hora de apuro, raramente se ouve falar em prece de louvor ou de agradecimento. Orar é nutrir nossa alma de Deus, pois isto é tão vital para o ser humano, quanto comer e amar. A prece pode ser do intelecto, que é a repetição formal de orações que nos ensinaram, ou a prece do coração, que permite uma conversa mais intimida e amorosa com Deus.

Para satisfazermos nossa fome de Deus, precisamos orar e meditar intensamente com o coração, que é o que nos liga a nossa dimensão espiritual. Quando vivemos exclusivamente no mundo material, sem oração sincera e desejada intensamente, vivemos numa síndrome de carência espiritual. Esta carência é expressa de diversas formas, como distúrbios vagos e difusos, insatisfação, um grande vazio, depressão, bem como sentimento de uma vida sem sentido.

A Prece é a busca, a Meditação é o encontro; são nossos meios de busca e contato com o Deus que podemos conceber, aceitar e acreditar.

Para o contato com Deus da minha compreensão, foi preciso ao longo do tempo abrir a carcaça do meu eu objetivo e permitir que meu Eu interior se manifestasse, criando assim como se poderia dizer um sensórium ou um órgão que perceba o contato com esse Deus.

O conceito de espiritualidade precisou estar bastante claro em minha mente, para que eu entendesse o profundo sentido espiritual dos Doze Passos: Os defeitos me afastam, as virtudes me aproximam da Divindade e dos outros seres humanos. Essa proximidade é a base da espiritualidade, que leva-me a uma verdadeira fé, e a uma mais reta conduta, amando a mim mesmo, aos outros e a Vida, levando-me a uma profunda paz e a um discernimento que não deixa a menor dúvida sobre os erros e acertos em minha vida.

A espiritualidade se manifesta em um novo estado de consciência, onde tenho a percepção, compreensão, entendimento, sensações das coisas da vida e do Universo, que eu jamais pensaria fosse possível atingir, isto tudo num crescente despertar espiritual.

A verdade relativa se divide em cada mente, criando realidades diferentes. Por isto há tantas religiões, filosofias e caminhos respeitáveis, para chegar a mesma Essência Divina, da qual podemos ter concepções diferentes. Procurei a minha verdade e o meu caminho conforme A.A. propõe-me, utilizando-me da mente aberta, libertando-me das influências da cultura e de minha formação no passado. Meditar era coisa para monges orientais, não para mim. Preces formais e com exteriorização eram minhas preces, sem sentimento nem entendimento, e que quase sempre eram feitas por obrigação introjetada.

Um grande erro meu era eu não rever os meus conceitos, regras, hábitos, costumes, etc. de minha formação. Aprendi assim e assim é, sempre foi assim e assim será. Muitas vezes a religião em que alguém está não satisfaz suas necessidades espirituais, disto temos constatações em toda a história da humanidade, e isto aconteceu comigo também. Por isto, eu buscava desesperadamente em tudo meu bem-estar e paz, quando Ele que é a fonte de tudo, estava e está dentro de mim mesmo desde sempre, como diz-me A.A.

No segundo passo A.A. diz-me: Conceba um Deus. O que é o Poder Superior para mim? De que, entendo, ele é composto? Ele tem uma forma humana? É a Natureza? É Energia? Como eu tenho visto estes aspectos Divinos? Qual o propósito da vida? Qual é a verdade? A verdade existe? Fazer perguntas pode parecer uma pretensão desmedida. Contudo não o é. Fazer uma pergunta não é pretender respondê-la, é motivar as pessoas a descobrirem por si mesmo uma verdade. A.A. me pede que eu imagine e forme a imagem de meu Deus. Foi o que fiz, e Ele está aqui dentro, e preciso pelas minhas atitudes deixa-Lo expressar-se em mim mesmo.

No Terceiro Passo eu entregava minha vida a Ele, mas ficava rondando por perto e muitas vezes a tomava de volta. Ele nada dizia diretamente, mas sussurrava suavemente em meu interior, e deixava eu seguir meu rumo, e tive que voltar a entregar de novo, cada vez mais e mais, para que Ele pudesse agir, e isto já vem acontecendo.

Todos os demais Passos, o 1º, e do 4º ao 10º, preparam espiritualmente o doente para a sua nova vida, mas estamos vendo aqui o meu entendimento e experiência sobre a oração e a meditação.

Fechando a preparação espiritual, o décimo primeiro passo me pede Prece, Contemplação e Meditação.

A Contemplação é concentrar-se num assunto, numa ideia ou objeto específico. A Meditação é manter a mente quieta e depois completamente vazia, livre para acolher sentimentos, ideias e imagens. A mente ocidental usa mais a contemplação, e a mente oriental usa mais a meditação, que é aquietar e esvaziar a mente; é um conceito mais difícil de captar e requer muito mais exercício, mas é nela que é procedido o mais aprofundado contato com a mente Divina. Estamos tão treinados para pensar e analisar que as tentativas de esvaziar a mente desafiam a nossa capacidade. O espírito analítico é contrário à contemplação e à meditação, e precisamos nos livrar dele quando começamos a explorá-las. É comum uma distração mundana, uma coceira na orelha, um zumbido de mosquito ou a ideia de que, se eu continuar fazendo o exercício da contemplação por mais tempo, vou acabar perdendo o telejornal ou a novela.

A escolha entre a contemplação e a meditação, ou o uso de ambas, é pessoal. As duas não tem limites quanto as buscas e as respostas, que são infindas e cada vez mais profundas e benfazejas.

Das preces existentes eu só praticava a de petição formal e as vezes exteriorizadas; frequentava cultos por hábito e costume, estas ações nada me trouxeram. Eu as praticava porque se praticava, era usual, eu ia na onda.

A prece informal, seja de petição, de gratidão ou de louvor, que brota do meu interior espontaneamente e com entusiasmo, mudou o meu conceito de prece, e teve origem em meu desenvolvimento espiritual. É falar com Ele, que é amoroso, perdoa-me e entende-me, aliás, a reta conduta bem como a vida que segue a vontade Divina em todos os sentidos, são formas de prece. A vida deve ser uma Prece. Hoje a única prece de petição que faço, é pedindo o conhecimento de Sua vontade e de forças para realizá-la, aliás peço isto para todos. Todas as demais que faço são de confissão de gratidão e de louvor.

A meditação é o caminho para a felicidade e um meio de unir-me ao Deus do meu entendimento pela harmonização.

Benefícios que obtenho com a oração e a meditação: saúde corporal, espiritual e paz. A própria cura quântica afirma isso, porém após, é verdade, A.A. ter disso conhecimento.

Sem a Meditação eu não teria atingido algum grau de equilíbrio emocional e de domínio da vida, deixando de ser o dono da verdade, e abrindo a mente para ver o quanto o meu meio ambiente no passado, o familiar, o cultural e o religioso, condicionaram-me e amarraram-me, tirando-me a capacidade de pensar o mais independente e livre possível. Isto é uma grande conquista, largar essas amarras e voar livre com Ele, deixando para traz esses grilhões.

Custei a compreender a grandiosidade e a importância da meditação na minha vida e em A.A..

Foi preciso eu querer, organizar-me e agir. Se não sei o que quero, não chego a lugar algum, mas hoje tenho bem definido meu norte. Se não estou bem e continuo fazendo as mesmas coisas, só obterei o mesmo resultado, não estar bem.

Escolher o local, o horário, sentar-me confortavelmente, respirar fundo e lentamente algumas vezes, relaxar o meu corpo percorrendo-o todo com a minha mente, esvaziando-a e postando-me imóvel e suavemente a em nada pensar, voltando mansamente ao vazio quando o motorzinho da minha mente voltar a passar os filmes diversos do pensamento que teima em permanecer em ação, e pedir que Ele me mostre e a todos os seres do universo, o caminho ou Sua vontade, e Lhes dê forças para utilizá-La em Sua senda.

O encontro com Deus é possível, real, e transformou-se no grande objetivo de minha vida, a mais reta conduta possível e a meditação é que me levam a minha sobriedade, paz e a felicidade.

Ao examinarmos as vidas dos iluminados, notamos a paz e a vida compassiva que levaram e levam diante das provações e atribulações.

Procuro ver as boas coisas da vida e não só os desastres. Às vezes chego aonde eu não quero, porque não soube escolher o caminho, ou porque isso é pelo que eu devia passar para crescer redescobrindo-me, e eu não sabia, Ele é quem sabe.

Jamais envergonho-me hoje do que fiz ou fui, com tudo só aprendi. Enterrei o velho homem e renasci para a vida, com a graça benevolente do meu Deus.

A meditação cumpre o papel de cuidar de meu espírito, dá-me o norte seguro, mesmo em meio às tempestades. O Dr Bob ensinou muito bem isto.

Junto-me as pessoas que vivem alegres. Aprendo com elas. Sou feliz. Se puder sempre ajudo as que querem, não há porque perder tempo com as que não querem como diz Bill W.

O melhor horário para meditar é ao levantarmos, mas sempre é tempo, porém não após agitações.

Meditar não é cochilar nem dormir, é aquietar e esvaziar a mente e permitir que Ele se manifeste.

Como é que se consegue pensar em nada?

Quando pensava que não estava pensando, estava pensando que não pensava; continuei, mesmo sem muito sucesso, a tentar suavemente em nada pensar. Hoje, por breves décimos de segundos, ou alguns segundos as vezes, já consigo esvaziar totalmente a mente.

Toda a dificuldade está na mente, mas a facilidade também. Acredito que posso viver em sintonia com o Deus do meu entendimento, e compreendo assim, melhor, todas as religiões, que passaram a ter o meu mais profundo respeito.

Vigiar o pensamento, sentimentos e ações é algo profundamente necessário para mim, pois aí, o que falo e escrevo, sai mais filtrado e mais livre de meu terrível ego, que me trai inconscientemente se eu não estiver profundamente vigilante, e ai vejo fantasmas onde eles não existem, tendo origem em condicionamentos motivados pela família, pela cultura, pelas religiões, etc., como já dito, e estes determinam meu amanhã, será a minha colheita.

Reavivei três tópicos importantes:

1 – Não importava a religião que eu tinha, nem se a tinha. Se eu amasse ao Deus do meu entendimento, a meu próximo e a mim mesmo, estava tudo bem.

2 – Que eu revisasse sempre meus conceitos com relação a toda orientação que recebi, referente a minha alimentação, aos cuidados com o meu corpo e com a minha vida, pois isto faz parte de minha reformulação em A.A. e Deus é vida.

3 – Que a prece com a contemplação e a meditação não é o único, mas é o melhor caminho, para que eu busque o domínio da vida e das emoções, e a harmonia com meu Poder Superior. Minha vida e minha mente deve ser o grande santuário onde o Deus da Vida seja constantemente reverenciado.

A estas reflexões e consequentes atitudes, convida-me o tão esquecido Décimo Primeiro Passo, as venho tentando fazer cada vez mais.

UMA NOITE DE LUAR

“Alcoólicos Anônimos não fecha a porta a ninguém que se apresente a nós com o problema alcoólico.”

O fato de Alcoólicos Anônimos não fazer qualquer exigência para que um alcoólico se torne membro representa para muitos a diferença entre a vida e a morte.
A cultura do A.A. brasileiro, no entanto impõe uma série de exigências que ao longo de décadas, acabaram por se transformar em costumes muito enraizados, difíceis de serem banidos do dia-a-dia de nossos grupos, sem atentar para esse detalhe tão significativo.
Paralelamente a essa grave dificuldade de nos adaptar ao comportamento mundial da Irmandade assistimos o desenrolar de um movimento que teve ainda na década de 80 e chegado ao início dos anos 90 com o nome de “O Grupo: – Mudança na Matriz”, tema da Conferência de Serviços Gerais de 1992 – Brasília/DF.
Tamanha era a consciência da necessidade de uma radical mudança no nosso proceder para com os recém-chegados, que aquela Conferência aprovou, por unanimidade, uma recomendação sugerindo a “NÂO FORMALIZAÇÃO DE INGRESSO NAS REUNIÕES DE A.A.”.
Tal sugestão foi recebida com muita alegria pelos que sempre lutaram a favor da aplicação dos nossos princípios tradicionais, mas o mesmo não ocorreu com aqueles que insistiam e ainda hoje insistem na defesa do antigo costume nacional, de fazer a solene entrega de fichas de ingresso ou por tempo de abstinência.
Após tantos anos de luta para conscientizar os servidores responsáveis por tal violação direta da TRADIÇÃO TRÊS de A.A. seria o caso até mesmo de se desistir de tocar neste assunto inusitadamente tido como delicado e polêmico.
Não deveria ser assim, uma vez que nossas vidas dependem exclusivamente da nossa disposição em aderir aos princípios básicos de nossa recuperação.
Se nos afastamos demais diz a experiência “o castigo é certo e rápido; nós adoecemos e morremos”.
Não é necessária uma pesquisa muito acurada em nossos textos para se concluir que Alcoólicos Anônimos não fecha a porta a ninguém que se apresente a nós com o problema alcoólico. Tem ela total liberdade, ou pelo menos deveria ter, para permanecer em nosso meio o tempo que quiser, mesmo sem admitir prontamente o seu problema e muito menos que deseja fazer parte do Grupo a partir desta ou daquela data.
Por experiência própria sabemos que a negação é um dos principais sintomas da nossa enfermidade. Como então poderíamos exigir que alguém admitisse para nós que é um alcoólico e que por essa razão aceitar nossa ajuda para parar de beber? O que nos leva a exigir isso das pessoas, sabendo que elas poderão estar ainda muito doentes, despreparadas para admitir algo tão doloroso e estigmatizante quanto o alcoolismo?
Ainda em 1946, antes mesmo das palestras de Bill W. sobre as Normas de Procedimento mais adequadas à nossa irmandade que se transformaram em nossos Doze Princípios Tradicionais, já se publicara a informação que o número de regras para ser membro era ZERO.
Estranho é constatar que ainda hoje mais de 60 anos depois, ainda se vê praticamente a totalidade de um país com mais de 5.000 grupos insistirem na violação desse princípio tão fundamental como se nada valesse a tão dolorosa experiência do nosso passado.
Diante de fato tão grave, não há como desperdiçar uma oportunidade como esta oferecida pela nossa Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos – VIVÊNCIA, para dizer aos nossos irmãos do Brasil que acordem!
Não temos mais o direito de ser juiz, júri e carrasco dos nossos irmãos sofredores.
Deixemo-los chegar e ficarem calados nos assistindo, nos observando, até que concluam que o nosso “Modo de Vida” é bom e pode servir para eles também.
Deixemo-los perceber que ao conquistar a sobriedade conquistamos também o atributo da tolerância, algo raro de se encontrar na personalidade doentia de um alcoólico na ativa.
Percebendo nossas exigências descabidas e sem propósitos podem sim se afastar definitivamente de nós.
Ao fazê-lo, poderão estar assinando suas próprias sentenças de morte, mas no fundo, de quem terá sido a culpa?
Portanto, se não queremos carregar conosco este remorso, melhor seria agir como é correto agir, dizendo ao recém-chegado: – você será um membro de A.A. no momento em que assim o quiser.
Por isso, basta mesmo:

O DESEJO!
NADA MAIS!!!

Neto/Sobradinho/DF

Vivência nº107 – Mai./Jun./2007.

” QUEM É MEMBRO DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS? (1946) ”

(A Tradição Três originou-se deste artigo de Bill W., publicado na revista The A.A. Grapevine).

A primeira edição do livro “Alcoólicos Anônimos” faz esta breve declaração, a respeito de afiliação: “O único requisito para ser membro é o sincero desejo de parar de beber.

Não pertencemos a nenhuma seita ou denominação religiosa, em particular, nem nos opomos a nenhuma delas. Simplesmente almejamos ajudar os afligidos por esse mal”. Isso expressa nossos sentimentos na época em que nosso livro foi publicado, isto é, em 1939.

Desde esse dia todos os tipos de experiência com membros foram tentados. O número de regras estabelecidas para ingresso de membros (e infringidas em sua maioria) era enorme. Há dois ou três anos atrás, o Escritório Geral pediu aos grupos que enviassem as listas de suas regras para afiliação. Quando elas chegaram, registramos uma por uma. Foram necessárias muitas folhas de papel. Um breve estudo dessa infinidade de regras nos levou a uma conclusão surpreendente.

Se todas essas regras realmente tivessem sido seguidas, por toda parte, teria sido praticamente impossível qualquer alcoólico ter ingressado em Alcoólicos Anônimos. Cerca de nove entre dez de nossos mais antigos e melhores membros jamais poderiam ter sido aceitos!

Em alguns casos, teríamos também sido desencorajados pelas exigências a nós impostas. Os primeiros membros de A.A., em sua maioria, teriam sido rejeitados porque recaíam muito, porque sua moral era péssima, porque tinham tanto problemas psíquicos como com o álcool. Ou ainda, acredite ou não, porque não tinham vindo das melhores classes da sociedade.

Nós, os mais antigos, poderíamos ter sido excluídos por não ler o livro “Alcoólicos Anônimos” ou por nosso padrinho ter se recusado a confiar em nós, como candidatos, e assim por diante. O modo como nossos “alcoólicos dignos” têm as vezes tentado julgar os “menos dignos” é, como engraçado. Imaginem, se vocês puderem, um alcoólico julgando Outro!

Uma vez ou outra grupos de A.A. resolvem ir criando regras. Do mesmo modo, quando um grupo começa a crescer rapidamente, ele enfrenta muitos problemas sérios. Mendigos começam a mendigar. Membros ficam bêbados e às vezes levam outros, a ficarem bêbados como eles. Os que têm problemas psíquicos caem em depressão ou agridem os companheiros.

Fofoqueiros se justificam, denunciando os Lobos e os Chapeuzinhos Vermelhos do lugar são alcoólicos absolutamente, mas de qualquer modo continuam vindo. “Recaídos” tiram partido do bom nome de A.A. para conseguir empregos para si mesmos. Outros recusam aceitar todos os Doze Passos do programa de recuperação. Alguns vão mais longe, dizendo que esse “negócio de Deus” é besteira e completamente desnecessário.
Nessas condições, nossos membros mais conservadores do pro grama ficam assustados. Essas condições assustadoras devem ser controladas, eles acham, de outro modo A.A. certamente ir ruína total. Eles vêem com alarme para o bem do movimento!

A essa altura o grupo entra na fase dos regulamentos e regras. Atas de Constituição, estatutos e regras para ser membros são emitidas, e a autoridade é garantida aos comitês para que filtrem os nomes dos indesejáveis e disciplinem os violadores. Então os mais antigos do grupo, agora revestidos de autoridade, começam a se ocupar. Os desobedientes são jogados para fora, na desgraça. Os respeitáveis intrometidos atiram pedras nos pecadores. Com relação aos pecadores, estes ou insistem em ficar, ou então formam um novo grupo para si mesmos. Ou talvez se juntem a uma turma mais afim e menos intolerante da vizinhança. Os mais antigos logo descobrem que as regras e os regulamentos não funcionam muitos bem. As tentativas, em sua maioria, causam ondas de dissensão e intolerância no grupo, e essa condição é agora reconhecida como sendo a pior para a vida do grupo.

Depois de um período, o medo e a intolerância diminuem e o grupo sai são e salvo. Todos aprenderam muito. Assim é que poucos de nós estão com medo daquilo que qualquer recém-chegado possa fazer para a reputação ou para a eficiência de A.A. Aqueles que recaem, aqueles que mendigam, aqueles que escandalizam, aqueles com problemas psíquicos, aqueles que se rebelam quanto ao programa, aqueles que tiram partido de reputação de A.A. —todos esses raramente prejudicam, por muito tempo, um grupo de A.A, Alguns deles vêm a ser nossos mais respeitados e queridos amigos. Alguns têm ficado para pôr à prova nossa paciência, apesar de estar sóbrio. Outros se afastam.

Nós começamos a vê-los não como ameaças, mas como nossos professores. Eles nos obrigam a cultivar a paciência, a tolerância e a humildade. Nós finalmente percebemos que eles são somente pessoas mais doentes do que nós, que nós que os condenamos somos os fariseus, cuja falsa justiça leva nosso grupo ao mais profundo prejuízo espiritual.
Todo A.A. mais antigo treme quando se lembra dos nomes das pessoas que uma vez condenou, pessoas que ele confidencialmente havia dito que nunca ficariam sóbrias, pessoas que ele tinha certeza que deveriam ser colocadas para fora de A.A., para o bem do movimento. Agora que algumas dessas pessoas estão sóbrias, há anos, e podem ser encontrados entre seus melhores amigos, os membros mais antigos pergunta para si mesmo: “E se todos tivessem julgado essas pessoas, como eu uma vez fiz? E se A.A. tivesse batido a porta na cara delas? Onde elas estariam hoje?”

Por isso é que julgamos o recém-chegado cada vez menos. Se o álcool é um problema incontrolável para ele e ele deseja fazer algo a respeito, isso é suficiente para nós. Não nos preocupamos se o seu caso é grave ou brando se sua moral é boa ou má, se ele tem outras complicações ou não. A porta de nosso A.A. permanece aberta e, se ele passa por ela e começa a fazer finalmente algo a respeito de seu problema, ele é considerado membro de Alcoólicos Anônimos. Ele não assina nada, não faz nenhum acordo, não promete nada. Nós não exigimos nada, Ele se junta a nós por sua própria vontade. Hoje em dia, nas maiorias dos grupos, ele nem mesmo tem que admitir que é um alcoólico. Ele pode em ingressar A.A., pela simples suspeita de que possa ser um alcoólico, de que já possa apresentar os sintomas fatais de nossa doença.

Naturalmente esse não é o caso de todos aqueles que estão em A.A. As regras para ser membro ainda existem. Se um membro insiste em vir embriagado, nas reuniões ele pode ser levado para fora; podemos pedir para alguém tirá-lo dali. Mas, na maioria dos grupos, ele pode voltar no dia seguinte, se estiver sóbrio. Embora ele possa s para fora de um clube, ninguém pensa em colocá-lo para fora de A.A.

Ele é um membro, contanto que diga que é. Conquanto esse amplo-conceito de afiliação ao A.A. ainda não seja unânime, ele representa hoje a principal corrente do pensamento de A.A. Não queremos negar a ninguém a oportunidade de recuperar-se do alcoolismo. Queremos ser justos, tanto quanto possível, sempre ficando ao alcance de todos.
Talvez essa tendência signifique algo muito mais profundo do que uma mera mudança de atitude sobre a questão de afiliação. Talvez isso signifique que estamos perdendo totalmente o medo daquelas violentas tempestades emocionais que às vezes cruzam nosso mundo alcoólico; talvez isso mostre nossa confiança de que depois da tempestade vem a bonança; uma calma que é mais compreensão, mais compaixão, mais tolerância do que qualquer outra que jamais conhecemos.

* Fonte: (A Tradição de A.A., Como se Desenvolveu, por Bill W.págs. 13, 14, 15, 16, 17).

Caminhando juntos: CTO e Vivência

Qual é o objetivo do CTO?

– É fazer cumprir nossa 5ª Tradição: “Cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre” .

O Comitê Trabalhando Com os Outros organiza, estrutura e padroniza a divulgação da mensagem de A.A., pois nenhum alcoólico poderá ser ajudado se não souber o que é A.A. e onde poderá ser encontrado.

Como utilizar a Revista Vivência para o CTO atingir seus objetivos?
Na página 01 da Revista, no Preâmbulo, há uma síntese do que é Alcoólicos Anônimos. Nossos Passos e Tradições na 2ª capa e os Conceitos. Da página 60 em diante, onde A.A. pode ser encontrado: os endereços.

As Comissões do Comitê Trabalhando Com os Outros:
Muitas vezes utilizamos “terceiras pessoas” para fazer a mensagem de A.A. chegar ao alcoólico. Bill utilizou um profissional da Medicina: Dr. Silkworth; um ministro religioso: Reverendo Walter Tunks, a Irmã Ignatia e a Sra Henrietta Seiberling.
O CCCP é a comissão responsável pelo bom relacionamento entre Alcoólicos Anônimos e a imensa gama de Profissionais da Organização que pretende “dar assistência” aos alcoólicos.

Como utilizar a Revista Vivência para a CCCP atingir seus objetivos?
No 1° contato com o profissional, o companheiro da CCCP leva uma Revista Vivência e oferece ao profissional. No dia da Reunião com os funcionários, oferece alguns exemplares para os mesmos.
A CIP é a Comissão do CTO que informa o público em geral sobre o Programa de Recuperação de Alcoólicos Anônimos. Ela mantém viva a imagem da Irmandade junto à Comunidade informando principalmente os profissionais sobre o trabalho que pode ser feito com o alcoólico ativo.
Como utilizar a Revista Vivência para a CIP atingir seus objetivos?
Informações dirigidas a segmentos específicos: A Imprensa: A TV quer fazer um programa sobre alcoolismo e convida A.A. No 1° contato com o repórter, levar um exemplar da Revista Vivência. A Medicina: o médico psiquiatra chama A.A. para colaborar com o hospital psiquiátrico: presenteá¬lo com um exemplar da Revista Vivência. A Justiça: juízes, promotores, delegados, como funciona A.A.? Há revistas com depoimentos de detentos; levar um exemplar. A Educação: Universidades, Estagiários: presentear o Reitor e depois os estagiários que chegam aos grupos. A Religião: vamos formar um grupo; precisamos do salão da Igreja. Ao informar o religioso o que é A.A., levar uma revista. As Organizações Não-Governamentais, por exemplo, Casas de Recuperação; temos grupos de apoio; levar a cada 15 dias um exemplar e sortear entre os internos. Assinatura-Cortesia: Na Comunidade onde se localiza o grupo: Ao Profissional, ao Religioso, à Assistente Social, ao Médico, etc. Nas Reuniões de Informação ao Público: montar um “stand” com literatura de A.A. e exemplares da Vivência. Um RV presente para a divulgação da Revista:
a) falar sobre a revista, folheando¬a;
b) deixar a pessoa folhear também;
c) abrir na página: Como saber se alguém é alcoólico?
d) Além de oferecer a assinatura, se notar que a pessoa está interessada, oferecer um exemplar da Vivência.
A CIT é a Comissão que leva a mensagem de A.A. aos internos dos hospitais, Clínicas e Casas de Repouso. Levando a mensagem de A.A., esta comissão reforça a possibilidade do paciente alcoólico continuar sóbrio após a alta através da freqüência aos grupos de A.A.
Como utilizar a Revista Vivência para a CIT atingir seus objetivos?
A Revista Vivência traz depoimentos de companheiros que estiveram internados, saíram da internação e foram direto a um Grupo de A.A. Presentear o Diretor da Instituição com um exemplar. No dia da Reunião do Grupo de Apoio, sortear um exemplar entre os pacientes. Eles irão aguardar este momento. A Oração da Serenidade: falar durante o depoimento e mostrar a 4ª capa da revista.
A CIC é a Comissão que leva a mensagem de A.A. aos presídios, penitenciárias e Instituições Correcionais. O que faz a Comissão de Instituições Correcionais? Primeiro: palestras aos funcionários do presídio; é importantíssimo que eles tenham a noção exata de como a Irmandade vê o alcoolismo, sua proposta de recuperação e que tipo de atividade A.A. pretende desenvolver junto aos presos. Segundo: reuniões com os reeducandos alcoólicos.
Como utilizar a Revista Vivência para a CIC atingir seus objetivos?
No 1° contato com o Diretor do Presídio: levar uma Revista Vivência. Presentear os funcionários e os reeducandos.

Outras Sugestões:
Revista Vivência no Apadrinhamento
Revista Vivência nas Abordagens (12° Passo)
Revista Vivência nas SIPATs
Revista Vivência nos Velórios

Vivência n° 95 – Mai/Jun. 2005

Responsabilidade no apadrinhamento

O apadrinhamento é uma necessidade, não uma obrigatoriedade.

O que é apadrinhamento? Apadrinhamento é um processo que faz parte da evolução humana, onde alguém se dedica a outro com o objetivo de legar-lhes recursos espiritiais, morais, intelectuais, contribuindo dessa forma para o crescimento interior do indivíduo e disseminando assim desarmonia e progresso social. Na história humana sempre vamos encontrar dois indivíduos: o discípulo e o mestre. Entretanto, poucos evidenciam com tais títulos a maioria permanece anônima, onde sempre alguém aprende algo com alguém. Isso acontece nos grupos familiares, profissionais, sociais, religiosos etc. Alcoólicos Anônimos como irmandade não poderia jamais prescindir desse processo evolutivo – o apadrinhamento -, porquanto nele está calcada a base da recuperação.
Assim sendo, caminhemos com o raciocínio de A.A. tocando apenas alguns pontos dos princípios que a nossa irmandade abraça, para vermos o poder e a maravilha que a dedicação e a devoção, essas formas de amor propriamente dito, podem criar.

Primeira Tradição: ademais, ele descobre não poder reter essa dádiva sem preço se por sua vez não entregá-la aos outros. Essa descoberta nos faz compreender o tamanho da nossa responsabilidade em favor da nossa própria sobrevivência; criando oportunidades para que outros se recuperem, por isso em A.A. sempre vai haver alguém necessitando de ajuda e outros proporcionando essa ajuda, ou seja, sempre haverá afilhados e padrinhos. Todavia é muito lento o processo para alcançarmos essa consciência de nos dispormos a ser afilhados e nos dedicarmos a apadrinhar.

Nos momentos de dificuldade, quando nos sentímos engolidos por problemas que parecem querer nos destruir, recorremos inevitavelmente a alguém mais experiente, e somos orientados dentro dos princípios e da experiência de A.A., encontrando o caminho a seguir e o restabelecimento da paz em nosso mundo interior. Por esse processo, aumenta a nossa confiança no programa e no nosso amor por aqueles que nos ajudam.
Quando, por outro lado, alguém nos procura em busca de soluções diante de problemas cruciais e, pela graça de Deus, temos a experiência que a situação requer proporcionando a esse alguém a paz, o conforto, a harmonia e principalmente uma direção, sentímos crescer dentro de nós uma fé, uma alegria que palavras não descrevem. Diante do exposto, de forma elementar, podemos perceber que o trabalho constante com e para o outro é base indispensável para a recuperação e o crescimento espiritual de todos nós. Podemos dizer que estamos trabalhando para outros, quando de qualquer forma a nossa ação implique na recuperação de alguém. E assim compreendemos de uma vez por todas, que a vida de todos nós depende de um apadrinhamento consciente propriamente dito, que só funciona quando ele é responsabilidade e só existe responsabilidade onde houver humildade. Por isso, vejamos aqui dentro do programa alguns aspectos em que se evidenciam o apadrinhamento:

Segundo Passo – “O padrinho continua, tome por exemplo o meu caso”…

Terceiro Passo -“chegou a hora de depender de alguém ou de alguma coisa…” É claro que o seu padrinho explicará que a vida do nosso amigo está ingovernável.

Quarto Passo – “a essa altura do andamento do inventário, somos socorridos por nossos padrinhos”.

Livro Azul – Capítulo 1 – “O amigo de aulas me visitava e contei-lhe…”

Nesses textos e muitos outros vamos encontrar a figura decisiva do padrinho consciente do que está fazendo, se doando de alguma forma para que seu irmão menos experiente alcance o que ele já possui. Por isso, apadrinhar em A.A. consiste em guiar o ser humano para dentro do programa de recuperação, unidade e serviço, sugerido por Alcoólicos Anônimos. E para essa realização ter resultados positivos, requer um certo grau de experiência com os Doze Passos, Doze Tradições, Doze Conceitos, Manual de Serviços, CTO, Livro Azul etc., bem como paciência, tolerância, confiança em sí, no outro e em Deus, como também honestidade, responsabilidade, compreensão e acima de tudo humildade – em outras palavras, amor.

Dar de graça o que recebeu de graça no apadrinhamento é ver nascer o verdadeiro sentimento de gratidão e reconhecer também a necessidade da responsabilidade em se doar a A.A. como um todo. No Serviço, estar na ação propriamente dita, também existem muitos afilhados e padrinhos, mas são comuns as dificuldades, pois são poucos os que querem ser afilhados, e os que são padrinhos, apadrinhar sob o manto sagrado das Tradições.
Vamos no caminho do apadrinhamento descobrir uma nova qualidade de vida, ouvindo e falando na linguagem do coração, tornando-nos instrumentos de Deus.

“Nunca precisamos tanto como agora do ‘caminho certo’ e a descoberta deste caminho é obra pessoal de cada um; mas exigirá o alicerce do amor e da sabedoria”.

“Quanto mais unidos e integrados estivermos e mais eficientes forem os resultados do apadrinhamento, melhores condições teremos de atingir o nosso verdadeiro objetivo, um novo ser humano”.

(P. Falcão/AM)

(Vivência nº77 maio/junho 2002)

“BEM ESTAR DOS PARTICIPANTES DE A. A.”

Entre as substâncias consideradas drogas lícitas, está o álcool como uma das mais preocupantes, cujo problema não é seu consumo, mas seu abuso, levando a ser considerado como uma dependência.

O alcoolismo é reconhecido como doença de causas múltiplas pela Organização Mundial de Saúde, quando o ato de ingerir bebidas alcoólicas passa a ser um problema, ao invés de ser um prazer.

Reconhecer que está doente e desejar o tratamento é a fase mais importante e, talvez, a mais difícil no processo de recuperação do alcoolista.

Fundado em 1935, Alcoólicos Anônimos é baseado em um programa pessoal, de “Doze Tradições” e a orientação é feita através de “Doze Passos”, com a meta de levar os participantes do Grupo a uma conscientização de evitar o primeiro gole, com o objetivo de não perderem o controle da doença.

Assim, irão recuperando sua auto-estima e sua imagem frente à família, aos amigos, ao ambiente de trabalho, à sociedade.

Como propósito para pertencer ao Grupo de Alcoólicos Anônimos, cita-se a união voluntária para uma ajuda mútua e para ajudar outros a conseguirem manter uma sobriedade serena.

Como requisito único para pertencer ao referido Grupo basta o sincero desejo de abandonar a bebida. Os companheiros dos Grupos de Alcoólicos Anônimos valorizam cada membro pela decisão de parar de beber, pois um alcoolista entende melhor o outro, o que representa o medo, o que são as ideias, as reações, etc., podendo-se dizer que falam a mesma linguagem. Consequentemente, a observação e o entendimento do outro alcoolista leva à consciência crescente de si mesmo e alivia suas próprias ansiedades.

Nota-se a utilização de uma metodologia com uma programação simples, mantendo todo o trabalho em cima do conceito de alcoolismo como doença, não deixando de observar que a doença pode estender-se às outras áreas da vida do indivíduo.

A força do Grupo de A.A. está, para sua própria manutenção, tanto em cada participante antigo que, ao compreender, aceitar e sentir as dificuldades do novo ingressante permite que este se modifique e enriqueça, quanto em cada novo ingressante, o qual representa sempre um fortalecimento para o antigo membro do Grupo.

A descrição dos alcoolistas à gnose e suas histórias pessoais esclarecem três ideias principais, isto é, que eram alcoolistas e não conseguiam dirigir suas vidas com acerto, em segundo lugar, que provavelmente nenhum ser humano seria capaz de aliviar seu alcoolismo e, em terceiro, que Deus podia e o faria, se Ele fosse procurado.

A princípio, parece levar o indivíduo a um egocentrismo fazendo-o pensar em si mesmo, em primeiríssimo lugar e, paralelamente, a encontrar algo que esteja acima do homem, ou seja, uma fé, denominada por eles de Poder Superior.

Os que conseguem deixar de lado o preconceito e expressar, pelo menos, a disposição para acreditar num Poder Superior aos seres humanos, começarão a ver os resultados, mesmo antes de definir ou compreender totalmente esse Poder (Deus).

Um alívio muito grande é sentido no momento em que se conscientizam de que não precisam ligar-se às concepções de Deus formuladas por outras pessoas, mas à sua própria.

No momento em que se conscientizam e colocam o Poder Superior como seu Mentor, tornam-se cada vez mais interessados neles mesmos e em seus projetos e planos, começando a pensar mais no que podem ofertar à vida no presente, perdendo, aos poucos, o medo do hoje, do amanhã e do depois.

Percebendo através de um inventário pessoal que estavam prejudicando sua auto-estima, revisam sua conduta, detalhadamente, perguntando-se porque tinham medo e pedindo ao Poder Superior que o remova.

O clima de afetividade e aceitação entre os membros do Grupo de Alcoólicos Anônimos favorece que façam um inventário pessoal, sem medo de serem censurados ou discriminados. Falar com alguém sobre seus próprios defeitos torna-se difícil, mas aprendendo a controlar o orgulho, o alcoolista consegue falar de si para outra pessoa.

Tentando reparar os danos causados no passado, procura não se basear na vontade própria. Para acabar a sensação de autopiedade, ninguém de fora pode julgar alguma situação íntima, podem sim, rezar a respeito, pensando, principalmente, no bem do outro.

Para isso, precisam inicialmente entender a palavra serenidade, o que significa conhecer a paz, uma nova liberdade e alegria.

Ao vencer a doença espiritual, tentam vencer a mental e física. Começam em outra fase a reagir com os processos cognitivos, isto é, crescimento em compreensão e valores. A autenticidade existente entre eles favorece a cada um colocar-se frente a frente, entrando em contato com suas vidas e consigo mesmos.

O poder de ajudar não está centralizado em um só indivíduo, mas, sim, cada participante é facilitador de seu próprio crescimento e do Grupo.

A troca de experiências favorece o seu projetar no outro que, por conseguinte, possibilita uma identificação que promove a auto-conscientização e a percepção do sentimento egocêntrico.

A exposição de conteúdos pessoais favorece a prática da humildade e do autoconhecimento.

Considerando os Grupos de Alcoólicos Anônimos como de ajuda mútua, consegue, através de sua informalidade e aceitação do outro como doente, sem recriminações, por serem iguais, propor uma meta, ou seja, uma programação diária e prática de sucesso, no aqui e agora, de evitar o primeiro gole e de não beber durante as próximas 24 horas.

Para a realização deste trabalho foi feito um levantamento de elementos-conteúdo do bem-estar subjetivo relativo à consciência de Grupo, através de um questionário/entrevista com dez perguntas, aplicadas a dez alcoolistas em recuperação.

Foi possível verificar que a situação com a vida em geral dos participantes respondentes do Grupo de A. A. é relativamente boa, já que os resultados positivos foram encontrados frente aos seus julgamentos de estados de ânimo.

Todos os participantes respondentes experimentavam mais tempo em estados agradáveis do que desagradáveis.

O mesmo pode ser dito quanto aos participantes respondentes do Grupo de A. A. que experienciam o bem-estar subjetivo como sendo o grau de felicidade na presença às reuniões, havendo predomínio de afetos positivos sobre afetos negativos na troca de experiências, ou seja, nos depoimentos dados pelos companheiros.

Existe uma consciência interna por parte dos integrantes do Grupo de A. A., de concordância e satisfação com a obra, enquanto que externamente vem-se cada vez mais, admitindo-se a taxa de sucesso dessa “Irmandade” com forte conteúdo de espiritualidade.

As relações interpessoais se dão em clima de muito respeito e seriedade com o sofrimento do outro.
O vínculo amarra os participantes nessa teia de responsabilidade, divididos e atuantes, carregados de emoções positivas no ser útil ao companheiro.

Pode-se, então, inferir que o participante do Grupo de Alcoólicos Anônimos é um organismo total que funciona como um conjunto, onde se conscientizam tanto o afeto positivo como o afeto negativo como subdimensões de um mesmo ser e que experimenta a felicidade quando, no seu conjunto, o afeto positivo predomina sobre o afeto negativo.
A consciência de “posso, mas não devo e não quero beber” é fundamental para os indivíduos continuarem sendo membros do Grupo de A.A.

A consciência do grupo é fundamental para a continuidade desta Irmandade e a felicidade é o principal estado de ânimo encontrado relativo ao sentimento do alcoolista durante as reuniões.
Atualmente é notório o reconhecimento da taxa de sucesso dos Grupos de Alcoólicos Anônimos.

* Civani C. Mendes – Pedagoga e Psicóloga
* Verônica Baer – Comunicadora Social e Psicóloga
* Carlos Américo Pereira – Psicólogo Social

Vivência 92 – Nov/Dez 2004

Vivendo a maneira de A.A.

“O desejo de parar de beber e a luta contra a vontade de beber.”

Após alguns meses em Alcoólicos Anônimos e mantendo-me abstêmio de bebidas alcoólicas, evitando o 1° gole, um dia de cada vez, questiono o fato de ainda sentir vontade de beber. Será que quando procurei A.A., eu realmente tinha o desejo de parar de beber? – Sim! Mas também, a esperança de um dia poder voltar a beber, assim como o desejo de um dia não sentir mais vontade de beber. Sentia necessidade de parar de beber por haver perdido o controle sobre minha vontade.

Analisando agora essa minha vontade, percebo que eu sinto falta muito mais que do prazer pelo sabor da bebida, é do efeito que a bebida alcoólica me proporcionava, como: aliviar a ansiedade, relaxar-me, despreocupar-me, sentir-me alegre, motivado, inspirado, autoconfiante, ter fluência verbal, fazer amigos, me emocionar, abraçar a todos como irmãos, fazer planos para o futuro, apaixonar-me pela vida, superar-me, buscar o êxtase, enfim: estar de bem com a vida.

Pensando assim, concluo que beber havia sido bom para mim. Habituara-me, então, a beber todos os dias, principalmente se as “coisas” não iam bem. Era como um “remédio para todos os males”. A bebida alcoólica tornara-se a minha companheira intima. Surgiu assim a compulsão quando minha tolerância ao álcool aumentou e com ela a quantidade de bebida que eu ingeria; bebidas mais fortes, procurando estar de estômago vazio, tudo em busca do efeito desejado, mas nunca me satisfazia, por mais que eu bebesse. Veio então a dependência física: meu organismo reclamava a presença do álcool. Para trabalhar, atendendo a pacientes em odontologia, tomava sedativos durante o dia a fim de controlar os tremores e suportar a abstinência do álcool. Devido à minha profissão, o acesso à farmacoterapia e a receituários facilitava a “auto-medicação” e tomava diuréticos para controlar a retenção de líquidos. Antiarrítmicos para controlar os batimentos cardíacos e polivitamínicos para compensar a alimentação irregular. Enfim, num medo desesperado, tentava monitorar meu organismo, “movido à álcool”, para que não “entrasse em pane”. Uma dependência psicológica já existia: precisava do álcool mais do que tudo, incluindo família, profissão, amigos e Deus. Mas já não havia o efeito desejado, somente o efeito indesejado de estar sempre mal quer tivesse bebido ou não.

Tentei controlar-me várias vezes, beber socialmente, como se diz, e descobri não ser capaz. Sentia-me obrigado a beber mesmo que eu não desejasse. Passei a sentir medo de ficar sem o álcool; medo da vida, do dia, da noite, dos compromissos, das conseqüências de meus atos. Medo de Deus e de mim mesmo. Parecia que eu iria implodir a qualquer momento. Havia me transformado em um “escravo voluntário do álcool”. Não havia mais nenhuma vantagem em beber a não ser pelo prazer mórbido de não sofrer a dor da separação de minha companheira.

A busca pelo efeito desejado tomara-se obsessão. O sonho de bem-estar virou um pesadelo de matar. Já não podia mais parar nem seguir adiante. O álcool havia se transformado em meu inimigo íntimo.

Aqui me pergunto: Como posso, após tudo que passei, ainda sentir vontade de beber? A resposta só pode ser: insanidade, loucura. Sintomas dessa terrível doença do alcoolismo que em A.A. vim a saber-me portador. Uma doença de origem física, mental, emocional e espiritual. Incurável, de caráter progressivo e fatal, mas que pode ser detida se eu assim o desejar. Então, o que fazer com essa minha vontade?

Procurar VIVER À MANEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS!

No programa de recuperação de A.A., nos Doze Passos, encontrei a resposta: “RENDIÇÃO”: Admitindo a minha impotência perante o álcool, 1° Passo, acreditando que Deus poderá me devolver a sanidade, 2° Passo, e entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, 3° Passo.

Creio que a vontade de Deus para comigo está expressa providencialmente nos 12 Passos de A.A.

Hoje, em recuperação, acredito estar no caminho certo, em busca da sobriedade desejada que considero ser mais que simplesmente beber ou não beber, e sim, viver bem, à maneira de A.A., livre da escravidão do álcool, trocando a dependência da bebida pela dependência de um Poder Superior a mim mesmo, Deus, através da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Aprendi em A.A. que a porta para uma nova vida se abre apenas pelo lado de dentro e que a chave está ao meu alcance e se chama BOA VONTADE.

Hoje, pela vontade de Deus, também sinto muita “VONTADE DE VIVER”, graças à Irmandade de Alcoólicos Anônimos.

“No programa de recuperação de A.A., nos Doze Passos, encontrei a resposta: RENDIÇÃO”

(Newton /Americana-SP)

VIVÊNCIA 95 – Mai/Jun. 2005

O Passo do milagre
Eloy T.

Se, simplesmente, parássemos de beber sem fazer qualquer outra coisa em nosso favor, seria como nas inúmeras vezes que paramos anteriormente – por pouco tempo.

Parar de beber, em A.A., tem um significado mais amplo e implica, conseqüentemente, em maiores responsabilidades. Parar de beber em A.A. significa buscar os meios de não voltar a beber. Devemos repetir sempre o que disse Bill W.: “Não posso afirmar que jamais beberei, mas posso afirmar que não pretendo voltar a beber”. Para tanto, é preciso que se opere em mim uma mudança. Mas, mudar o quê? Como posso saber o que mudar? Mudar o que está errado, é claro. Mas, o que está errado? Como saber as respostas para essas perguntas?

A resposta está no Quarto Passo. Preciso conhecer-me, e conhecer-me a fundo. Preciso seriamente rever o meu passado, examinar a minha conduta, estudar as minhas atitudes; preciso saber porque agia desta ou daquela maneira. Meu comportamento frente aos fatos da vida foram, constantemente, ditados por minhas virtudes e por meus defeitos. Portanto, todos os fatos e os atos são importantes e merecem ser longamente estudados à luz de demorada e repetida meditação. Devo dedicar ao Quarto Passo quantas horas forem necessárias: dias, ou semanas, talvez. Ele (o Quarto Passo) só terá atingido seu objetivo quando eu puder afirmar: “Agora eu me conheço; sei quem sou e porque o CRIADOR me colocou neste mundo e me deu esta vida”. O Quarto Passo é o Passo do auto-conhecimento. É o destruidor da falsa imagem que projetei para minha própria satisfação. Agora sei quem sou e posso enfrentar a realidade.

Da mesma forma que o Quarto Passo nos assustou, o Quinto Passo também nos encherá de medos. Já não basta saber que não a pessoa boa que me acostumei a admirar? Terei, ainda, que mostrar aos outros, desvendar o segredo? Na verdade, os segredos que carrego comigo, por si, nenhuma importância têm, mas, se desvendados, revelarão quem verdadeiramente sou.

Mas, o Quinto Passo que Bill denominou: “O passo da reconciliação consigo mesmo”, bem poderia chamar-se “O Passo do Milagre”. Sim, do Milagre! No momento em que rompo as barreiras do medo, abro com outro o meu coração. No momento em que revelo a alguém a pessoa que sou, sem máscara ou disfarces, nesse mesmo momento, qual um milagre, tudo muda. Em um único segundo esvai-se o medo, desaparece a culpa que dá lugar ao perdão. Estou perdoado, e perdoado pelo simples propósito que tenho de mudar minha vida. Agora gosto de mim apesar de minha feiúra, de meus defeitos; esses defeitos que de agora em diante serão minha permanente preocupação. De fato, redimir-se do passado é organizar o presente com vistas ao futuro. Feito o Quinto Passo, posso afirmar: “Estou salvo”. Agora parto em busca de uma vida melhor; do encontro com um irmão, parto à procura de outros irmãos; reconciliado comigo mesmo, irei me reconciliar com todos.
Destas afirmações conscientes, nasce a nova ótica da vida e do mundo, a alegria de viver. Nada mais tenho a temer, pois adquiri a capacidade de dar e receber.

(Vivência – Nov/Dez 95)

Trabalhando a Tolerância

Assim que entrei numa sala de reunião de A.A., reconheci minha condição de alcoólico, disse “sim” e fiquei no Grupo.

Mais tarde, a caminho de completar quatro anos de abstinência, esgotou-se a minha tolerância para ouvir depoimentos tão diferentes do meu e para não beber.

Tolerância era o meu forte, mas aceitar as reclamações em casa porque eu bebia, isso não. Também não conseguia aceitar os absurdos praticados por quase todo alcoólico na ativa, mas ia “tolerando” tudo e todos.

Todos diziam que eu era um “exemplo” de aceitação e eu mesmo pensava assim. O resultado foi a volta ao copo, porque eu não tinha aceitado nem a mim mesmo…

Na verdade, eu confundia tolerância com aceitação. Admitia ser alcoólico, mas isso foi fácil para mim, afinal, eu não cheguei a Alcoólicos Anônimos?

Difícil foi aceitar que perdi para o álcool. Aceitar verdadeiramente a derrota. Foi preciso que eu ficasse pronto para que um Poder Superior atuasse sobre, dentro e por mim.

E o que é “ficar pronto”?

No meu caso, foi reconhecer em primeiro plano a autenticidade da derrota, o que é o mesmo que aceitação. Diante dessa derrota, passei a aceitar plenamente a minha condição de alcoólico, com todas as implicações trazidas pelo meu passado.

Comecei a perceber a diferença entre tolerância e aceitação tomando o cuidado de não me deixar levar pelo comodismo, uma armadilha que se faz passar por aceitação.

Vi que são muitas as aceitações às quais somos submetidos na caminhada da recuperação.

A cada Passo é preciso verificar se estou sendo apenas tolerante, se não estou ficando revoltado diante das adversidades da vida e se a aceitação não virou comodismo.

No percurso que iniciei há dez anos com o Primeiro Passo, despertei para outras aceitações: – ser cobrado em casa por meu passado, divergências entre minha esposa e outros familiares, expressões grosseiras com as quais ela se referia a eles, mesmo na ausência deles, e que muito me machucavam… tudo isso, eu já sabia, seria superado com o tempo e com o exemplo.

Percebendo que eu não me aborrecia mais com aquelas situações criadas pelo meu alcoolismo ela buscou no Al-Anon o seu próprio espaço.

Cobranças e divergências tomaram-se coisas do passado. Já podemos dizer que existe aceitação de ambas as partes.

Havia outra coisa que me deixava revoltado: o pouco que eu ganhava pelo meu trabalho profissional. Hoje é menos ainda, mas eu já sei me conduzir, pela graça de Deus, com esperança em dias melhores.

Enfim, não sou mais aquele “tolerante” interiormente revoltado e que vivia se machucando. Aceitei a minha condição de alcoólico, os dissabores do relacionamento no início da recuperação, tanto em casa quanto com os companheiros.

Aceito sem comodismo as necessidades de hoje, porque acredito que o melhor está por vir. Sei que há muito a alcançar e que a tolerância também é necessária, pois tolerar é admitir e respeitar outras opiniões (enquanto aceitar é receber de bom grado).

A tolerância é externa ao coração. Ela sempre faz bem ao nosso semelhante, mas nem sempre traz o nosso tão sonhado bem-estar.

A aceitação é interna, parece vir de dentro do coração.

Que um Poder Superior possa sempre nos trazer a aceitação necessária a mais vinte e quatro horas de sobriedade.

Vivência 62 – Nov/Dez 1999

Reconquista

“A.A. ‘me devolveu’ tudo o que o álcool me roubou.”

Olá gostaria de ser chamado assim: Jonicc!
Bem, a minha vida no campo do alcoolismo foi um fiasco total. Comecei com pequenos goles aos 13 anos, uma maravilha! Um mundo de novas descobertas, mas como tudo tem seu preço, comigo foi diferente. O álcool me cobrou um preço muito alto; não tive como pagar, então ele me levou o que o dinheiro não compra:
– minha dignidade, o respeito, o caráter, enfim tudo que o ser humano tem de bom.
No principio os problemas são pequenos, o sofrimento e a tristeza vão e vêm; depois o problema aumenta. Passei a discutir com a família, com os colegas, deixei de dividir sentimentos e emoções. As preocupações se instalam: culpas, sofrimento e queixas psicossomáticas, insegurança e tensão; a morte ronda por perto; tudo é insano.
Aos poucos a revolta vem! Gritos, xingamentos, o desespero é total, a perda do interesse se instala. Negligenciei deveras.
Quem sofreu foi minha família. Confesso: – eu achava que sofria, mas hoje tenho convicção que fiz meus familiares sofrerem muito mais.
Não bebia muito nem pouco, mas bebi o suficiente para conhecer Alcoólicos Anônimos.
A única maneira de conhecer de perto o que estava acontecendo comigo foi visitando uma sala de A.A.
Lá descobri o que realmente eu era, o que eu queria que alguém tivesse me dito há muito tempo atrás: – um doente alcoólico! Não o que as pessoas me falavam: – um vagabundo, descarado, um cachaceiro irresponsável.
Eu só queria saber a verdade. Queria uma justificativa para aquela compulsão excessiva pelo álcool, um desejo louco, depois do 1ºgole não tinha mais freio; eu queria parar, mas não conseguia; uma força além da minha era maior; um ser incapacitado cheio de defeitos de caráter, orgulho e maldade; achava que era um ser perfeito, sempre apontando os defeitos que estavam nas pessoas, nunca em mim.
Agradeço a Alcoólicos Anônimos pela reconquista! Por ter-me devolvido tudo o que o álcool me roubou. Sei o significado de viver sem beber, viver apenas 24horas!
Agora entendo que A.A. não é para parar de beber e sim, para viver sem beber!
Infinitas 24horas de sobriedade e muita serenidade.

Jonicc/ Paulo Afonso/ BA

Vivência nº109 – Set./Out. 2007.

SOBRIEDADE TOTAL

Dr. Roberto Lucato
Advogado e Jornalista Limeira/São Paulo

Em termos de mídia, existem determinados assuntos de pouca repercussão e podemos dividi-los em dois segmentos: aqueles cujo potencial de abrangência é de fato reduzido e isto faz com que sejam menos comentados e outros curiosamente importantíssimos, porém, socialmente apresentam-se como reprováveis e assim, são jogados debaixo do tapete.
Necessariamente, os assuntos pertencentes a este segundo grupo relacionam-se com as mazelas socioeconômicas, muito discutidas em campanhas eleitorais, porém, de difícil solução, como observamos, porque não se transportam do papel à prática.
Uma destas questões é o alcoolismo e, na semana passada, passou sem maiores comentários o registro de 70 anos do A.A. mundial.
É verdade que Alcoólicos Anônimos não possui grandes credenciais em matéria de marketing, ao contrário, a Irmandade tem um sistema próprio de interagir socialmente e, obviamente constitui-se por anônimos, o que já coloca seus membros em uma interessante situação de igualdade.
De reconhecimento do problema comum, da incurabilidade da doença e finalmente, de uma disciplina que, alcançada, reconduz o alcoólico à convivência familiar e, por extensão, ao meio profissional em que, teoricamente, ele estava inserido. Mas não é devido a este conjunto de tradições que os alcoólicos desmereçam elogios e maior visibilidade entre a opinião pública.
O fato é que, há 70 anos, o sistema de recuperação do alcoólico é eficiente; o que falta, isto sim, é um tratamento mais direto da doença e, extensiva te, do problema.
Não perderia nosso precioso tempo inserindo neste comentário estatísticas recentes e antigas sobre os avanços do alcoolismo na sociedade, especialmente entre os jovens. Basta ligarmos o televisor e lá aparecerá, a todo instante, uma dessas mulheres descomunais associando prazer à bebida, como é vinculada a sensação prazerosa – mas sem propaganda oficial – às drogas ilícitas, e isto exerce uma enorme influência entre os que defino “seres em formação”. O que não aparece na propaganda diz respeito à progressão do consumo, e isto me parece ser uma bomba de efeito retardado porque ninguém consome uma garrafa de aguardente ou uma caixa de cerveja na primeira vez que experimenta estas bebidas.
Para chegar lá o indivíduo vai se entregando, pouco a pouco, às peregrinações do inconsciente, de um cérebro a cada dia mais voltado à necessidade de reencontrar aquela sensação. Um cérebro, também destruído, incapaz de discernir entre sensatez e irracionalidade; falido no processo de monitorar atividades diárias, avaliando o certo e o errado, o nocivo e o saudável.
Por estas e outras entendo e valorizo o A.A. como são absolutamente importantes outras organizações anônimas como CVV e NA, pois o drama da bebida parece institucionalizado.
Até se inventa um nome adequado para aceitar o alcoólico: bebedor social! Mas tudo isso não passa de uma profunda hipocrisia. O álcool, mais do que nunca, está se incorporando em festas, travestido de estimulante. Portanto, se temos de conviver com ele, o melhor que temos a fazer é ficar atentos. Especialmente alertas na incorporação da bebida a determinados hábitos entre as gerações que se formam, tentando afastá-lo e, naquela em que os prejuízos já se encontram visíveis e mensuráveis, encaminhá-la ao A.A..
Não é fácil este segundo expediente, pois o convencimento desta condição é o ponto de partida. O início de um encaminhamento franco e amigo, destituindo uma situação inconscientemente suportável, mas, na prática, causadora de estragos de proporções imprevisíveis, da sala de estar ao trânsito.
Que as tradições ao A.A. sejam mantidas por mais 700 anos, auxiliando na recuperação dos alcoólicos, seus empregos e fundamentalmente, do seio familiar. E tudo isso feito de uma maneira aparentemente tão simples: evitando, só por hoje, o primeiro gole.

Vivência n° 97 – Set/Out. 2005

PARA SER UM A.A.

SÓ POR HOJE, procurarei viver o dia que passa apenas, sem procurar resolver ao mesmo tempo os problemas da minha vida inteira. Por hoje, apenas, poderei executar qualquer coisa que me encheria de pavor se tivesse de realizá-la pelo resto da minha vida.

SÓ POR HOJE, sentir-me-ei feliz. Farei verdadeira aquela frase de Abraham Lincoln: “Muita gente se sente feliz só porque se convence que o é.”

SÓ POR HOJE, procurarei fortalecer minha inteligência. Aprenderei qualquer coisa de útil. Lerei qualquer coisa que exija esforço, pensamento e concentração.

SÓ POR HOJE, procurarei me ajustar aos fatos, em vez de procurar ajustar tudo que existe a meus próprios desejos.

SÓ POR HOJE, exercitarei minha alma de três maneiras: procurarei fazer um benefício a alguém, sem contá-lo a quem quer que seja. Farei pelo menos duas coisas que não desejaria fazer só por exercício. E hoje, se alguma coisa me magoar, não o revelarei a ninguém.

SÓ POR HOJE, procurarei mostrar a melhor aparência possível, vestir-me bem, falar baixo, agir delicadamente, não fazer críticas e não tentarei corrigir nem dar ordens a ninguém, a não ser a mim próprio.

SÓ POR HOJE, estabelecerei um programa de ação. É possível que eu não o siga à risca, mas tentarei. Livrar-me-ei de duas pragas: a pressa e a indecisão.

SÓ POR HOJE, dedicarei uma meia-hora a mim próprio para silencio e repouso. Durante essa meia-hora procurarei divisar uma perspectiva mais clara de minha vida.

SÓ POR HOJE, não hei de ter medo. Especialmente, não hei de ter medo de apreciar a beleza e de acreditar que aquilo que eu der ao mundo, o mundo me devolverá.

VIVÊNCIA N°. 53, p. 6 – mai/jun. de 1998.

” CONCEITO V ”
Isaias

“Através da nossa estrutura de serviços mundiais, deveria prevalecer um tradicional “Direito de Apelação”, assim nos assegurando de que a opinião da minoria seja ouvida e de que as petições para a reparação de queixas pessoais sejam cuidadosamente consideradas. ”

O Direito das minorias se manifestarem, é um dos aspectos da Democracia, consagrado em nossa Irmandade, e que Alcoólicos Anônimos, como caso único talvez no mundo, vem conseguindo provar na prática, que pode existir. Sejam estas minorias do nosso quadro de funcionários, comitês, juntas ou entre custódios.

“Direito de Apelação”
Indo mais além, este conceito estimula estas minorias a apresentar um relatório das minorias quando A.A. puder vir a ser afetado como um todo, por um erro da maioria. As minorias às vezes podem estar certas. Mesmo quando estão total ou parcialmente erradas, forçam-nos a um debate completo dos assuntos de importância. A bem-ouvida maioria, é portanto, a nossa principal proteção contra uma maioria desinformada, mal informada, impetuosa ou irada.

“Direito de Petição”
Garante que qualquer pessoa da nossa estrutura de serviço, servidor ou funcionário, possa apresentar uma queixa pessoal, levando em mão o seu protesto, para a Junta de Serviços Gerais. É uma garantia, quanto ao uso indevido do poder, por aqueles que possuem autoridade.

Estes Direitos visam permitir a proteção total das minorias e melhor aplicação possível dos seus sentimentos . Utilizando o que a opinião das minorias possa ter de bom, temos conseguido resolver um dos grandes desafios da Humanidade através dos tempos; a Democracia, por isto dizemos que “A.A. é a Democracia que deu certo”.

Este conceito é também a garantia da liberdade individual, que em A.A. é da maior importância. Senão vejamos: qualquer alcoólico é um membro de A.A. a partir do momento que assim se declare. Ninguém pode impedir que ele seja, tem o direito de tomar parte. Não podemos exigir que ele acredite em nada, nem mesmo que pague alguma coisa. Nossas são certamente uma grande lista de privilégios e liberdades das minorias.

A Segunda Tradição, é clara quando define a consciência de grupo como a autoridade final pelos serviços mundiais de A.A. e assim deve ser com todos os assuntos de importância com que nos defrontamos. Mas como reconhecidos pelos grupos, para os serviços, a “consciência de grupo de A.A.” como uma totalidade tem certas limitações. Nos assuntos de serviço esta consciência nem sempre pode ter todas as informações necessárias para a tomada de decisão, por não estar suficientemente informada sobre os problemas em questão. Outro ocasião seria durante um período de muito distúrbio, que impedisse o seu funcionamento de forma clara e inteligente. Numa ocasião assim, esta consciência não é sempre o guia mais seguro. Portanto quando a consciência do grupo não pode ou não deveria atuar diretamente, quem deve atuar no seu lugar? Dentro da própria Segunda Tradição, temos a resposta, quando descreve os líderes como servidores de confiança. Estes devem estar prontos para fazer o que os grupos não podem ou não devem fazer por si mesmos. Neste momento os servidores tendem a usar suas próprias informações e julgamentos, chegando às vezes a discordar de uma opinião mal informada, mal esclarecida ou preconcebida de um grupo.

Nos serviços muitas vezes confiamos numa pequena, porém idônea minoria, nos cento e poucos membros da Conferência de Serviços Gerais para atuar como a consciência de grupo em A.A., em muito de nossos assuntos de serviço.

Como em outras sociedades, também temos os nossos mecanismos de defesa para o caso de servidores de confiança falharem em suas responsabilidades. Temos uma ampla oportunidade para adverti-los ou substituí-los.

Até aqui vimos a preocupação de A.A. com a liberdade e proteção de cada membro e a boa vontade de todos os membros em confiar em servidores capazes e conscientes para trabalharem por nós, dentro de suas diversas capacitações.

A Ata de Constituição da nossa Conferência, já inclui a proteção e o respeito pelas minorias. O nosso “Terceiro Legado” método de escolha de delegados, é um exemplo disto. A não ser que receba dois terços dos votos, o candidato da maioria da assembléia da sua área, terá que colocar o seu nome numa sacola junto com um ou mais candidatos da minoria desta mesma assembléia. Então por sorteio os candidatos da minoria têm a mesma chance que os da maioria.

A democracia funciona pela vontade da maioria, por menor que seja essa maioria. Ao fazermos concessões pelos sentimentos e várias vezes demonstrada sabedoria das minorias, podemos por vezes negar essa princípio de decisão final da democracia por um simples voto da maioria. Todavia o nosso método do Terceiro Legado, usado nas eleições dos nossos delegados e servidores dos Organismos de Serviços, consolidou a unidade, aumentou a cooperação e o verdadeiro espírito democrático por especial deferência à opinião da minoria.

A Conferência de Serviços Gerais movida pela respeito às minorias somado ao desejo de unidade e certeza, debate por vezes longamente, questões importantes de diretrizes, salvo quando da necessidade de uma decisão imediata ou antecipada. A Ata de Constituição consagra o respeito pela opinião da minoria, quando prevê que nenhum voto da Conferência possa ser obrigatório para os Custódios da Junta, a não ser que represente dois terços do “quorum” da Conferência. Isto dá aos custódios o direito do veto quando a maioria não é muito grande.

Este generoso reconhecimento de privilégios das minorias, somado aos Direitos de “Apelação” e de “Petição”, assegura a todas as minorias, seja de grupos ou de indivíduos, os meios para bem desempenhar suas tarefas nos serviços, confiante e harmoniosamente. Felizmente não estamos obrigados a manter uma administração que obrigue obediências e imponha punições. Precisamos apenas manter uma estrutura de serviço, que preserve as nossas Tradições, que pratique e exerça as diretrizes nelas contidas, de maneira a transmitir continuamente a nossa mensagem àqueles que ainda sofrem.

Este Conceito é hoje a Garantia de que jamais estaremos sujeitos à tirania, seja das maiorias ou pior ainda, de pequenas minorias investidas de poder absoluto, para isto basta que definamos claramente, o relacionamento entre elas.

Encerramos, lembrando que este trabalho é uma síntese do Conceito V, contido no livro “DOZE CONCEITOS PARA SERVIÇOS MUNDIAIS” por Bill W., publicado por Alcoholics Anonymous World Services, Inc. e traduzido e impresso no Brasil com autorização pelo Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. Esta literatura, deve ser consultada para conhecimento e estudo do texto integral.

* Isaias ( Ex. Custodio Região Sudeste )

AUTOSUFICIÊNCIA
– Uma das razões para o respeito e admiração que a sociedade em geral tem por Alcoólicos Anônimos

Não aceitamos doações de pessoas que não façam parte da nossa Irmandade, nossas despesas são pagas às próprias contribuições voluntárias dos membros, mas para falarmos de autosuficiência, precisamos primeiro saber o que significa esta palavra:

Segundo o dicionário, auto-suficiente é aquele que se basta a si mesmo, agora, em Alcoólicos Anônimos, a meu ver, divide-se em três partes:

1) Membro auto-suficiente: Como membro de Alcoólicos Anônimos, devo procurar ser auto-suficiente, buscando para isso a sobriedade em primeiro lugar, me tornar menos dependente de meus familiares, amigos, patrões, empregados e etc.; devo buscar a auto-suficiência financeira tão logo seja possível, enfim, devo procurar andar com minhas próprias pernas.

2) Grupo auto-suficiente: Assim como o membro, o grupo de Alcoólicos Anônimos deve ser auto-suficiente, e para que isto aconteça, os membros do grupo devem tomar conhecimento e o mais importante, tentar pôr em prática os princípios a seguir:
– Unidade: um grupo unido está caminhando para a auto-suficiência, grupo desunido nunca será auto-suficiente.
– Liderança (Servidores): grupo com boa liderança não tem problemas com falta de servidores, pois sem estes, consequentemente, o grupo não será auto-suficiente.
– Membros: o grupo, para proporcionar boa recuperação para seus membros, deve buscar na recepção, abordagem e fraternidade, a sua auto-suficiência, para que aqueles que nos visitam ou chegam pela primeira vez, se sintam em casa. Na recepção de novos membros devemos falar como Alcoólicos Anônimos realmente funciona. Não devemos faltar com a verdade. Devemos falar sobre a sacola, o que ela representa e sua finalidade.
– Autonomia: (não confundir com independência): um grupo, para ser auto-suficiente precisa saber exatamente o que significa a autonomia de grupo. Ter conhecimento de que somos interdependentes, a nível mundial. O grupo deve tomar suas decisões levando sempre em consideração os outros grupos e o A.A. como um todo.
– CTO: um grupo que não transmite a mensagem jamais será autosuficiente, pois estará em franca decadência em todos os sentidos.
– Órgãos de Serviços: um grupo que não apoia o seu Distrito, EsSL, Área e o ESG, não será auto-suficiente, pois desconhece e não participa da evolução e do crescimento de Alcoólicos Anônimos como um todo.
– Anonimato: um grupo que não respeita o anonimato de seus membros está falhando em seu propósito, desobedecendo aos princípios de A.A. e colocando em risco a abstinência, sobriedade e serenidade de seus membros.
– Literatura: um grupo que não faz suas reuniões de estudos de nossa literatura, não chegará a ser auto-suficiente, pelo simples fato de que seus membros desconhecem como realmente A.A. funciona, dificultando assim sua Recuperação, sua Unidade e consequentemente, seu Serviço.
– Reuniões de Serviço: um grupo que não faz suas reuniões de serviço, não será auto-suficiente, porque a consciência coletiva não é consultada, e isto implica em alguém fazer as coisas sozinho, tornando-se um ditador ou muitas vezes fazendo valer a sua vontade, inibindo desta forma a participação de todos os membros nas decisões importantes que o grupo deve tomar.
– Temática: são importantes as discussões sobre temas da nossa literatura, isto fortalece o membro, o grupo e o A.A. como um todo.
– Sacola (dinheiro): tenho certeza de que um grupo unido, com boa liderança e frequência, sabendo o que é exatamente a autonomia do grupo, o CTO fazendo o seu trabalho, apoiando e recebendo o apoio de seus Órgãos de Serviços, promovendo suas reuniões temáticas, de estudo de literatura e de serviços, com todos os membros conhecendo os princípios de A.A., não terá problemas com a sua sacola. A sacola será sempre suficiente para pagar as despesas do grupo, contribuir para com o Distrito, EsSL, Área e ESG. Um grupo assim, com certeza, será auto-suficiente.

3) Orgãos de Serviços: tendo membros e grupos de A.A. auto-suficientes, com certeza, teremos órgãos de serviços auto-suficientes, para que todos juntos cumpramos o nosso propósito promordial, a nossa Quinta Tradição.

Temos problemas de auto-suficiência em nossos grupos. Para solucioná-los devemos procurar identificá-los, e buscar respostas para estas questões. Como? Fazendo todos um inventário. Um honesto inventário, de nós mesmos e do nosso grupo. Para que, juntos, detectemos nossas deficiências e unidos busquemos soluções dignas de homens e mulheres, AA’s em recuperação, vivendo um dia de cada vez, com respeito, dignidade e auto-suficiência, nosso, de nossos grupos e de Alcoólicos Anônimos como um todo.

Portanto, mãos à obra; se cada um fizer sua parte, certamente nossos membros, grupos e A.A. como um todo serão auto-suficientes.

Infinitas vinte e quatro horas de sobriedade e serenidade.

Anônimo
Ilha do Governador/RJ

” PERGUNTAS SÔBRE A TERCEIRA TRADIÇÃO ”

1 – Qual o único requisito para se tornar membro de A.A.?

2 – Por quê esta Tradição é plena de significado?

3 – O princípio de filiação expresso na Terceira tradição foi estabelecido logo de início? Por quê?

4 – O A.A. já teve outras regras de ingresso? Quais?

5 – As precauções e regras de ingresso adotadas no início de A.A. eram fruto da intolerância dos mais velhos?

6 – Que fatos revelaram que os temores dos mais velhos eram infundados, a ponto de terem abandonado todas as regras de ingresso?

7 – Privar um alcoólico da oportunidade que tivemos (ou estamos tendo)pode significar…

8 – Mendigos, vadios, débeis mentais, homossexuais, prostitutas, dependentes de outras drogas ou possuidores de alguma tara, podem fazer parte de A.A.?

9 – Ateus, agnósticos, membros de minorias étnicas ou religiosas podem fazer parte de A.A.?

10 – Portadores de alguma deficiência ou limitação física podem fazer parte de A.A.?

11 – Pobres, desempregados ou analfabetos, podem fazer parte de A.A.?

12 – Ladrões, assassinos, criminosos ou encarcerados em geral, podem fazer parte de A.A.?

13 – Quando um alcoólico é considerado membro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos?

“MAIS SOBRE A TERCEIRA TRADIÇÃO ”

(Artigo escrito por Bill W. para a Grapevine de fev°/1948)

A Terceira Tradição é uma declaração bem genérica; Ela é muito abrangente.

Muita gente pode considerá-la por demais idealista para ser prática. Ela diz a todo alcoólico do mundo que pode tomar-se membro de A.A. e continuar sendo enquanto o disser. Em poucas palavras, Alcoólicos Anônimos não tem regulamentos e nem regras para alguém se tornar membro.

Por que é assim? Nossa resposta é simples e prática. Não queremos levantar a menor barreira entre nós e nossos companheiros alcoólicos que ainda sofrem, nem mesmo para nos proteger. Sabemos que a sociedade vem exigindo que ele se ajuste às suas leis e aos seus costumes. Porém a essência de sua enfermidade é o fato de que não tem podido, ou não tem querido, ajustar-se nem às leis humanas nem às leis divinas. De fato, o alcoólico na ativa é um inconformista rebelde. Quão bem o sabemos! Cada um de nós foi, em certo tempo, um rebelde, Por isto, temos que compreendê-lo. Precisamos entrar na caverna obscura onde ele se encontra e demonstrar-lhe que o entendemos, Compreendemos que ele está demasiadamente debilitado e confuso para ultrapassar obstáculos. Se os colocarmos em seu caminho, é possível que não se acerque de nós e pereça. Pode ver-se privado de sua oportunidade.

Assim é que, quando nos pergunta, “Há imposição de condições?”, respondemo-lhe, com prazer, “Não, nenhuma”.Quando nos replica, com ceticismo, “Mas tem que haver coisas que terei que fazer ou crer” expomos, “Em Alcoólicos Anônimos não se ouve dizer” Você tem que.”Talvez, com tom cínico, nos pergunte”:
“Quanto me vai custar tudo isto?” Podemos dar um sorriso e dizer, “Nada. Em A.A. não há quotas nem contribuições (obrigatórias).” Desta forma, em escassa uma hora, nosso amigo se vê despojado de seu receio e de sua rebeldia. Seus olhos começam a se abrir para um novo mundo de amizade e compreensão. Mesmo que seja um idealista na bancarrota, seu ideal já não é uma quimera. Após anos de solitária busca, se lhe desponta a luz do dia. De pronto lhe salta aos olhos a realidade de Alcoólicos Anônimos. Porque Alcoólicos Anônimos lhe está dizendo: “Temos algo para oferecer de inestimável valor, basta que você esteja disposto a recebê-lo. Nada mais”.Para nosso novo amigo, isto é tudo e sem mais rodeios, converte-se num dos nossos.

Entretanto, nesta Tradição há uma restrição da maior importância. Tal restrição tem a ver com o nosso nome – Alcoólicos Anônimos. Entendemos que quando dois ou três alcoólicos se reúnem no interesse da sobriedade, podem chamar-se um grupo de A.A., contento que, como grupo, não tenham outra afiliação. Nossa intenção é clara e inequívoca. Por motivos óbvios, queremos que só se use o nome de Alcoólicos Anônimos em conexão com atividades direta e exclusivamente relacionadas com o A.A. Não podemos imaginar nenhum membro de A.A. estabelecendo, por exemplo, Grupos de A.A. “antiproibicionistas”, ou “republicanos”, ou “comunistas”. Poucos de nós gostariam que se desse nome aos nossos grupos segundo denominações religiosas Não podemos emprestar, sequer indiretamente, o nome de A.A. a outras atividades, por mais nobres que sejam. Se o fizermos, nos veremos desesperadamente comprometidos e divididos. Cremos que Alcoólicos Anônimos deve oferecer a sua experiência ao mundo inteiro para que a utilizem como possam ou como queiram. Porém, nunca o seu nome. Disto, não temos a menor dúvida.

Portanto, sejamos sempre inclusivos, nunca exclusivos. Ofereçamos ao mundo inteiro tudo o que temos, exceto o nosso nome. Que desapareçam, assim, todas as barreiras e que, deste modo, conservemos nossa unidade. Que Deus nos conceda vida longa – e útil.

Tradução: Edson H.

” TERCEIRA TRADIÇÃO ”

Por B.L., Manhattam, N. Y
O único requisito para ser membro de A.A. é o querer deixar de beber”

O AUTOR EXPRESSA:
“As Doze Tradições em minha experiência, têm sido vitais para conservar-me sóbrio, e também têm sido úteis em todos os meus assuntos”.
(Este artigo foi publicado originalmente na Revista Grapevine e republicado na Revista “EL MENSAJE” de março de 1974)

Ninguém procurou medir a sinceridade ou a qualidade de minha motivação para me recuperar quando, pela primeira vez, transpus o umbral de A.A. Nossa Terceira Tradição está fundamentada na experiência de grupo, e sua sabedoria tem sido realmente demonstrada em minha experiência pessoal. É uma arma poderosa para salvaguardar minha própria recuperação.

Quando pela primeira vez busquei A.A., faz uns 25 anos, não podia cumprir quase nenhum dos requisitos necessários para afiliar-me a qualquer agrupamento decente. Nos meses precedentes, havia estado apenas embriagado, e tomado por uma angústia que poucos, fora os alcoólicos, podem compreender. Não poderia preencher qualquer questionário ou requerimento. Não tinha endereço, pois carecia de domicílio, nem telefone, nem referências. Meus últimos patrões haviam advertido a todos para que não me permitissem cruzar sua porta. Minha família fizera o mesmo. Não tinha religião, nem emprego, nem mesmo roupa — além da que vestia. Não poderia pagar um único centavo, se esse fosse o preço. Face minha conduta passada, não tinha como comprovar que merecia algum tipo de atenção ou ajuda. Estava sujo e maltrapilho. Tinha tão somente uma doença sumamente indesejável para oferecer a Alcoólicos Anônimos, e isto era a única coisa que o A.A. me pediu.

Estava tão gelado interiormente, tão deserto e entorpecido que, conquanto não tivesse abrigo, não notava o cruel clima invernal nesse dia de janeiro quando pela primeira vez entrei, como um morto em vida, no velho clube de Nova Iorque. Não podia controlar aqueles tremores, simulava que eram gestos deliberados, se bem que horríveis. Minha boca esta pastosa; não havia bebido um trago há aproximadamente 36 horas. Sabia, por tenebrosa experiência, que tinha que me agüentar mais um minuto; fazer com que minhas pernas dessem mais um passo; procurar pensar em algum momento feliz de minha vida (ou inventário); reforçar minha vontade uma vez mais, para depois tomar uma, depois de haver constatado de que se tratava deste assunto em Alcoólicos Anônimos. Ou, misericordiosamente, talvez morrer de repente. Não tinha forças para pedir ajuda. Estava assumindo este perigoso risco — aproximar-me de estranhos que, segundo me haviam dito, não perguntavam nomes e haviam sido também bêbados. Eu queria observar sem ser observado.

Conquanto eu não soubesse o que esperar, fui preparado para mentir, naturalmente. Tinha que estar. Se alguém me perguntasse se bebia muito, mentiria: A quantidade não tinha relação com a pessoa em que me tomara ou com o que fazia. Se me perguntassem o que iria fazer para conseguir um trago, teria que mentir, porque se dissesse a verdade seguramente seria castigado. Se me perguntassem como me comportava quando em estado de embriaguez, teria que mentir, em parte para que não viessem a saber que eu tinha lacunas mentais, e em parte para esconder pequenos pedaços da vergonhosa verdade que recordava.
Como isto ocorreu em 1945, antes que fosse escrita nossa Terceira Tradição, a alcoólica anônima que contatou comigo pela primeira vez não tinha uma guia de orientação escrita para decidir a quem se poderia admitir em A.A. para oferecer-lhe ajuda. Mas tinha compaixão.

Não começou perguntando abruptamente: “Você é um alcoólico?” Se tivesse feito, eu teria respondido, com a minha habitual indiferença: “Claro que não.” Tampouco me perguntou: “Você quer deixar de beber?” Em meu estado, a pergunta pareceria absurda e estúpida. Justamente o que eu desejava e mais necessitava no mundo naquele momento era um trago forte.
Mas tinha medo de bebê-lo, fato que fixou meus pés dentro das portas do velho edifício tendo por intenção encenar.
Porém, ela me viu espreitando ao derredor, e, com voz natural, me perguntou: “Está tendo problemas com a bebida?” Fiquei estupefato. Era justamente a pergunta para a qual não havia preparado ma mentira. Antes de dar-me conta do que estava sucedendo, disse-lhe a verdade. Admiti.
“Pois bem, eu também sou uma alcoólica”, disse-me. “Entre e conversemos sobre o assunto”.

Falava com facilidade, sem demonstrar emoção. Eu cria quê para mim já não haveria qualquer surpresa, não podia fazer outra coisa além de olhar sem acreditar no que via. Ela parecia tão serena, tão contente, tão limpa e respeitável. Como podia ela dizer que era uma alcoólatra. Sentamo-nos e começou o meu aprendizado. Não fiz nenhuma pergunta, e em conseqüência, não tive que ser cauteloso e nem estar alerta; Podia ouvir com total e intensa atenção. Falou-me sobre sua doença, o alcoolismo, e sobre sua recuperação em A.A. Isso foi para mim um alívio maior, mais agradável, que qualquer trago que tivesse chegado a beber. Talvez minha cara tenha permanecido congelada, mas meu coração se derreteu, e tinha que assoar o nariz constantemente.

Temendo a resposta, não me animava a perguntar aquilo que meu coração pedia: “Me permitirão, por favor, ingressar?” Sabia que não o merecia e, por isso, procurei parecer casual quando murmurei: “Como pode alguém ingressar?” Ela me respondeu que o mero fato de estar ali significava que eu desejava ajuda, e que se eu queria ser membro de A.A., então já era.

Espero nunca esquecer a sensação de alívio que essas palavras me deram. Especialmente, devo recordá-las quando me incomoda a chegada de “sujeitos impróprios» que às vezes se intrometem nos dias de reuniões de A.A., limpos, agradáveis, sóbrios, ordenados. Um grupo nas cercanias de minha casa “proibiu” a entrada a dois alcoólicos. São tipos impossíveis, disseram-me, totalmente indesejáveis.

Talvez aqueles membros que desejariam elaborar as regras para afiliação em A.A. agora, ou ser os guardiões de seus locais, sejam indivíduos em cuja vida de bebedeira fossem virtuosos a tal grau que os torne merecedores do privilégio de poder dar assistência ao A.A. Mas nenhum dos membros que conheço reclama tais méritos, e sei que eu não posso fazê-lo. Como podem ver, agora sou tão intolerante com os elaboradores de regulamentos, como eles são com os doentes alcoólicos que consideram indesejáveis.

Eu não tomava parte rias exclusões, mas durante os meus primeiros dias em A.A. vi o cabeça da matilha que apedrejava um alcoólico até tirá-lo do lugar onde poderia ter encontrado ajuda. Tínhamos muitas regras de ingresso naquela época. Era um estorvo porque havia que modificá-las quase semanalmente tendo por objetivo não permitir a entrada dos “indesejáveis” e receber somente os “corretos”. Algumas vezes, o sargento guardião desta semana acabava sendo excluído na semana seguinte porque chegara bêbado. EU.

È impensável que tanta gente maravilhosa, incluindo os não-conformistas, os excêntricos, e os dementes, que formam tão verdadeiro aporte a nossa quantidade, tivessem saído de A.A. se impuséssemos algumas exigências para que se tornassem membros, distintas do desejo de recuperarem-se.

Muito embora agora reconheça que ê impossível julgar o conteúdo do coração de uma pessoa, e seria arrogância tentá-lo, às vezes ainda o faço. Tenho me escutado ao telefone, julgando se os solicitantes são dignos de nossa ajuda e se merecem o nosso amor.
Até cheguei a fazer a um bêbado uma pergunta tão horrível como: “Realmente deseja deixar a bebida para o resto da vida?” Ou, “Você já teve contato anteriormente com o A Como se o haver sido membro anteriormente fosse um requisito para admissão, ou, talvez, motivo de desqualificação. Ou, “que tipo de drogas você usa?”Também tendo sido impaciente com os recaídos, esquecendo-me de que esta bebedeira poderia se sua última, como o foi uma das minhas (até hoje)”.

De fato, somente agora me decidi que não me importa a brusca e hipócrita impressão que de A.A. faz fulano; nem quero concordar com aquele fanático tão rude em questões espirituais; nem me permito engolir aquela piedade fingida de outros membros de A.A. Temo que do coração estou rechaçando a qualquer um que não se adapte aos meus elevados e poderosos requisitos de associação. È como se cada vez que desdenho um alcoólico por qualquer razão, acrescente um tijolo a mais no muro que resguarda a minha recuperação, ou que pelo menos a mantém tíbia e cômoda para mim. E se continuo adicionando tijolos de exclusão em meu muro de segurança, vocês já sabem onde irei parar: separado dentro dos muros que construí; de regresso para onde estava antes de A.A. A solidão.

Uma das primeiras pessoas com quem estabeleci contato, me sugeriu mais tarde, que podia fazer-me merecedor de meu ingresso, se eu assim desejasse. E eu desejava fazê-lo desesperadamente, já que me sentia afogado pela enorme dívida de gratidão para com A.A. Acredito que não haveria podido suportar a carga de dever tanto se AA. me tivesse deixado desenvolver pensando que tudo isto eu o estava fazendo por uma indigna pessoa. Mas me asseguraram que os membros de A.A. se mantêm sóbrios procurando beneficiar a mim.
Também foi um grande alívio quando se me foi dito que, em certo sentido, eu podia pagar essa dívida simplesmente conversando com alguém, algumas vezes, da mesma maneira como me haviam falado. E, além disso, não me foi sugerido que ajudasse somente ao limpo, ao acomodado, ao não drogado, ao não grosseiro, ao sincero, ao não fanático, ao devoto ou ao ímpio.

Aparentemente, para mim, o preço de nossa Irmandade de A.A. (Primeira Tradição), e de nossa confiança mútua (Segunda Tradição), se as desejo, requer da aceitação não escasseada para com os companheiros — um amor que pode reclamá-lo qualquer um que o deseje. Pode ser que não o expresse, ou pode atuar como se não o desejasse, mas se o desejo de fato existe em seu coração, mesmo que ele não se aperceba disso, já é suficiente.

Tradução: Edson H.

” CONCEITO IV ”
Dr. Lais Marques da Silva
Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Através da estrutura da nossa Conferência, deveríamos manter em todos os níveis de responsabilidade um tradicional “Direito de Participação”, tomando cuidado para que a cada setor ou grupo de nossos servidores mundiais seja concedido um voto representativo em proporção correspondente à responsabilidade que cada um deve ter.

Para iniciar a exposição de um Conceito para Serviços Mundiais, no nosso caso, o Conceito IV, será necessário nos determos sobre o significado da palavra conceito. Aí é preciso que, pelo pensamento, possamos representar as características gerais daquilo que desejamos transmitir. Vemos então que estamos no mundo da abstração, das idéias. Teremos que definir, caracterizar por meio de palavras essas idéias e opiniões.
Estamos, portanto, no mundo da abstração, bem mais difícil de lidar. Enquanto que, no caso dos Passos e das Tradições, há idéias-síntese que dão clareza ao que se quer expor, como: “Os Passos são para o alcoólico viver e as Tradições são para a Irmandade viver” ou “os Passos ensinam a viver e as Tradições ensinam a conviver”, em relação aos Conceitos fica difícil condensar ou apresentar sínteses claras, como estas.
A idéia básica, existente no IV Conceito, é a da participação, entendida como ato ou efeito de participar, ou seja, de ter ou tomar parte, de associar-se pelo pensamento, pelo sentimento ou por meio de ação. A participação está relacionada às nossas necessidades espirituais e todos nós sentimos profundamente o desejo e a necessidade de tomar parte. Para isso, a Irmandade de Alcoólicos Anônimos foi idealizada como um grupamento humano, constituído por irmãos, irmanado. Temos como ideal comum, e mais importante, que a união espiritual dos membros de A.A. não permita o aparecimento de grupos de membros de primeira e de segunda classes e, para isso, entendemos que a ampla participação de todos os membros deva sempre ser assegurada.
O IV Conceito se constitui numa salvaguarda contra a autoridade absoluta, suprema. Isso porque, toda vez que se abre espaço para o aparecimento de uma autoridade absoluta, surge a tendência para um domínio excessivo, que se expande para todas as coisas, grandes e pequenas.
A experiência tem mostrado que nunca se pode colocar num grupo de pessoas toda a autoridade e em outro grupo toda a responsabilidade porque, sempre que isso ocorre, a harmonia verdadeira perde o espaço indispensável para existir e, sem ela, não há condições para viver uma vida feliz e pacífica. É aí que a participação se coloca como elemento essencial para a prevenção de situações de desgaste que contém no seu bojo o germe da desintegração, o agente que corrói a unidade. É preciso buscar sempre o equilíbrio entre autoridade e responsabilidade. Quem tem a responsabilidade por alguma coisa precisa de um grau de manobra que possibilite dar conta da responsabilidade que tem e esse poder de manobra precisa estar associado um grau de autoridade. Tudo na medida adequada, dentro da harmonia, fundamental ao bem-estar comum, à paz.
O princípio da participação faz com que nenhum grupo de membros seja colocado com autoridade absoluta sobre um outro, sendo que isso leva a uma forma incorporada de existir, entendida a palavra “incorporada” como um modo de fazer parte de um corpo. Acresce que, sendo esta característica acrescida do fato de não existir autoridade absoluta, o que resulta é uma forma horizontal de relacionamento e a inexistência de uma hierarquia, que é uma forma vertical de relacionamento comum nas instituições governamentais e, em especial, nas organizações militares.
Uma forma pela qual se manifesta o direito de participação é o direito de voto que todo membro de A.A. possui sendo que, no ato da votação, não há superiores nem inferiores.
O direito de participação é uma salvaguarda e é indispensável para evitar o mau uso e as asperezas causadas por uma autoridade suprema. Participar, por outro lado, implica em ajustar-se ao todo, ao corpo social e implica em aceitar uma saudável e necessária disciplina, pois que só assim teremos condições para nos tornarmos os “servidores de confiança” de que fala a Segunda Tradição de A.A., sem ter poderes para governar.
O ajustamento a um corpo social e a participação nas suas atividades tem uma importância fundamental para a recuperação do alcoólico e para uma significativa mudança no seu comportamento. Em primeiro lugar, o seu novo modo de ser o leva a uma forma de convivência inteiramente diferente da que tinha e que vai se tornando cada vez mais pacífica, em decorrência do crescimento espiritual que o convívio em A.A. proporciona. A participação no grupo social cria condições para uma troca de conhecimento e de experiências entre os membros de um grupo de A.A. que, por seu lado, leva a um acentuado enriquecimento de cada ser humano que, caracteristicamente, cresce espiritualmente no convívio com outros seres humanos.
É importante notar que, com o tempo, a participação evolui para uma condição mais rica e enriquecedora de relacionamento, que é a de cooperação. Aí já está presente a aceitação do outro, o reconhecimento da sua individualidade, do seu valor. Fica estabelecida uma forma de existir mais dinâmica e evoluída nos relacionamentos interpessoais que resulta em um ganho de dimensão humana significativo. Isso ocorre quando se passa para a cooperação porque o convívio entre seres humanos mostra que só coopera quem ama e só se ama quem coopera. Aí, amar o próximo, aceitar o outro como é e como irmão é de inestimável importância para o crescimento na dimensão humana, para o crescimento que todo membro de A.A. experimenta ao longo da sua convivência nos grupos.
De um ponto de partida aparentemente tão simples, de um singelo “Direito de Participação”, resulta um fato da maior importância para qualquer ser humano, que é crescer espiritualmente, ganhar dimensão humana, realizar-se dentro do seu projeto de vida, viver uma vida verdadeiramente humana e de continuo enriquecimento pessoal. Então, teremos todos a felicidade de desfrutar de uma serena sobriedade, de uma qualidade de vida que nos torna imensamente felizes em A.A. e é isso que vivenciamos intensamente em cada encontro de A.A. e por esta razão estamos hoje, aqui, vivendo as alegrias de um convívio de irmãos que se amam, que desfrutam de serena sobriedade.

O Quinto Passo é uma celebração da vida

Precisamos nos sentir seguros em três áreas da vida: sexual, social e emocional.

Tem gente que diz que o problema do Quarto Passo é o Quinto Passo. A idéia de relatar a alguém aquilo que você pôs no papel inibiria o ato de escrever. Todavia, será que isso não funciona ao inverso também? Saber que alguém está ali, disposto a ajudar você nesse processo de limpar a casa, poderia servir de incentivo.

As pessoas brincam demais falando que começaram seu Quarto Passo, dizendo: “mas foi até aí que eu cheguei”.

Isso é uma grande pena, porque a recompensa de terminar o Passo é imensa. Não estou falando de um clarão vindo do nada, mas do início de um processo, o processo de simplesmente fazer amizade com a pessoa mais importante que você não conhece: você mesmo. É disso que de fato todo o resto do programa trata.

Olhar para você pela primeira vez pode ser assustador. Para mim foi o problema de confundir o Quinto Passo com o sacramento católico da confissão que conheci desde menino. Ficava deprimido cada vez que pensava em entrar naquela pequena caixa azul chamada confessionário. Havia vergonha e culpa grudadas nesse ritual, e não tinha conexão com a minha vida cotidiana. Eu havia pecado e devia receber absolvição.

Estando ainda acorrentado às lembranças do que para mim se havia tornado um ritual de ódio a mim mesmo, naturalmente evitei os Passos de “faxina de casa” por muito tempo (e os Doze Passos e as Doze Tradições ainda por cima mencionam os mesmos pecados). Talvez A.A. não fosse um programa religioso, mas com certeza me lembrava algumas práticas religiosas bastante deprimentes.

Hoje em dia, toda essa experiência contém um significado completamente novo para mim, positivo e levantador do moral. Dizem que a verdade machuca. Não é a verdade que machuca, é a negação. Depois de ser aceita, a verdade faz a gente se sentir muito bem. Um irmão religioso que realiza retiros para homens em A.A., na minha área, diz: “Tudo o que você precisa está bem na sua frente”. Que declaração poderosamente verdadeira e maravilhosa! Tudo o que preciso, mesmo as coisas que ainda não sei que não me servem, porque ainda estou pensando que gosto delas. Dá-se a elas o nome de defeitos de caráter. Gosto de chamá-las de esconderijos. São bebidas debaixo de um disfarce, objetivos de uma curta visão ou indignos. (As palavras são importantes. O jeito como converso comigo é o que decide como me sinto e como me comporto.)

Agora, enxergando instintos bem direcionados, e como meus desejos naturais tornam a mim e a outras pessoas infelizes, tudo faz sentido. Não quero continuar sendo infeliz. Então, quando hoje penso em “pecados”, penso na palavra “transgressões”, como está no Pai Nosso. Os pecados são transgressões. De início, não vi que a nossa literatura diz que preciso estar seguro em três áreas da minha vida: sexo, sociedade e minhas emoções.

Nunca li que tinha emoções retorcidas, dificuldades emocionais ou excessos de emoção negativa, nem que a imposição irracional dos meus instintos sobre outras pessoas era a causa de muita infelicidade para mim. O que eu pensava é que esses Passos eram a respeito de ser “bonzinho”. E são mesmo. Mas eu preciso começar por ser verdadeiro.

Olhando de novo para a maneira que confundi os Passos Quarto e Quinto com o sacramento católico da confissão, me recordo que a absolvição nunca me ajudou em nada, mas me colocava no que chamavam de “estado de graça”, que era uma coisa que eu imaginava me qualificasse para posar para quadros sagrados. Nos Passos Quarto e Quinto não estou procurando absolvição, mas sim aceitação procuro uma chance de olhar outro alcoólico olho no olho, uma chance de fazer uma conexão humana que estenderá uma ponte sobre o vazio dentro de mim, e para lá onde a culpa me fez ficar com medo de olhar.

Em A.A. fala-se muito sobre graça, mas o pessoal raramente diz o que é isso. Para mim é tempo e espaço numa atmosfera segura, onde eu possa olhar para o meu comportamento passado e lidar com ele sem medo. E quando falo de “comportamento” não me refiro apenas a “atos pecaminosos”. O comportamento inclui percepções, pressuposições, sentimentos, ilusões e motivações, bem como ações. A graça me concede o espaço vital de que necessito, onde não me sinto julgado nem tenho confirmada a minha experiência anterior de mim mesmo.

Para mim, o problema real com os Passos Quarto e Quinto não era “o que vai ser se eu for julgado?”, mas sim “o que vai ser se não for julgado?”. É que não saberia como reagir a uma imagem de mim que já não tivesse desenvolvido na minha imaginação distorcida.

Para todos e todas que tomam esses Passos comigo, eu falo: “Aceito você, mesmo antes de saber quem você é. Na atmosfera da graça, fico contente esperando descobrir. Sei que a minha humanidade vai sair enriquecida nesse processo. E quando acabar, ambos estaremos mais prontos para nos desapegarmos das coisas que fizemos, e que fizeram mal a nós e aos outros”. Os Passos Quarto e Quinto significam a celebração da vida em todas as suas maravilhosas possibilidades, através do contato com as nossas próprias experiências e as dos outros. São mais um Passo em direção ao tema de todos os Passos: a alegria de viver.

( Jim N. Grapevine)

VIVÊNCIA N.°75 JAN/FEV 2002

O QUE É DESLIGAMENTO EMOCIONAL

Desligamento não significa deixar de amar,significa que não posso fazer pelo outro aquilo que ele precisa fazer.

Desligamento não é cortar a comunicação, é a admissão de que não posso controlar uma outra pessoa.

Desligamento não é facilitação, mas deixar que haja aprendizado através das consequências naturais

Desligamento é admitir impotência, o que significa que a solução não está nas minhas mãos.

Desligamento não é tentar mudar ou culpar o outro, é fazer o melhor para mim mesmo.

Desligamento não é cuidar do outro, mas sim importar-se com o outro.

Desligamento não é consertar, mas dar apoio.

Desligamento não é julgar, mas permitir que o outro seja um ser humano.

Desligamento não é ficar no meio, controlando os resultados, mas deixar que os outros influam nos seus próprios destinos.

Desligamento não é ser protetor, é permitir que o outro encare a realidade.

Desligamento não é negar, mas aceitar.

Desligamento não é azucrinar, rejeitar ou discutir, porém descobrir minhas próprias limitações e corrigí-las.

Desligamento não é ajeitar tudo de acordo com os meus desejos, mas viver cada dia que vier e cuidar de mim mesmo(a) nesse dia.

Desligamento não é me arrepender do passado, mas crescer e viver o presente.

Desligar-se é temer menos e amar mais.

(Autor desconhecido – Traduzido da revista
“Alcoholism and Addiction – Outubro 1986)

Vivência nº 48 de Julho/Agosto 1997

AS DUAS FASES DA SOBRIEDADE
Meu padrinho morreu depois de uma recaída, aos 44 anos de idade e quatro de sobriedade, quando eu estava há dois anos no A. A. Alguns meses depois, um parente próximo também perdeu a sobriedade de aproximadamente sete anos em A. A., embora não tenham sido de sucesso total. Estas duas experiências negativas, de pessoas muito próximas de mim, levaram-me a questionar minhas oportunidades de permanecer no programa.
Quando estava com um ano e meio de sobriedade, tive sérias dúvidas sobre minhas possibilidades de continuar nesta caminhada.
Nos vários anos que se seguiram à minha experiência em A. A., devotei-me muito a pensar nos recaídos e naqueles que tinham dificuldade para manter a sobriedade. Procurei descobrir as motivações de seus problemas não somente para ajudá-los mas, sobretudo, para que o mesmo não acontecesse comigo.
Pouco depois, relacionei-me com alguns membros de A. A. que, com cinco, dez ou quinze anos de sobriedade, tinham recaído desastradamente. Alguns se recuperaram mas outros se perderam completamente. Isto me levou a um estudo mais aprofundado desse maravilhoso programa de Alcoólicos Anônimos.
Comecei a notar a existência de duas fases distintas em nossa jornada para a sobriedade.
É indiscutível: as duas fases têm inúmeras subfases. Na minha humilde opinião, os alcoólicos que continuam a ter ou meter-se em dificuldades após vários anos de programa – diga-se, muitos anos livres do álcool – são, geralmente, aqueles que não conseguiram passar da primeira para a segunda fase.
A primeira fase começa com a admissão de sermos impotentes perante o álcool e de que perdemos o domínio sobre nossa vida.
Esta admissão, sendo verdadeira, torna o restante do programa “obrigatório” . A esta altura, todavia, os demais Passos parecem não ter qualquer relação com o nosso problema de bebida e muitos saltam do Primeiro para o Décimo Segundo Passo, onde começamos a pôr em ação certos sentimentos adquiridos quando tivemos a coragem de admitir nosso problema.
Cedo começamos a nos libertar da compulsão pela bebida, provavelmente porque o Décimo Segundo Passo nos põe frente a frente com alcoólicos sofredores que nos relembram o passado. Isto nos manterá sóbrios por enquanto. É o estágio chamado lua-de-mel, empolgação ou das nuvens cor-de-rosa. Se começamos a olhar para os outros Passos, fazemo-lo rapidamente, não nos conscientizando da importância de cada um. É muito provável que o orgulho em geral e o orgulho de estar sóbrio em particular crie barreiras à penetração no programa com mais profundidade. Se não entrarmos na segunda fase neste ponto, começamos a perder o interesse pelas reuniões e a nos envolver excessivamente com nossos próprios negócios.
A segunda fase é necessária para uma sobriedade alegre e duradoura. Nesta fase, devemos trabalhar com mais seriedade aqueles Passos trabalhados levemente. Ainda estamos aflitos com ressentimentos não revolvidos e, muitas vezes, cheios de autopiedade.
“Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e a porta vos será aberta”.
Quando começamos a fazer isto e a rever os Doze Passos em profundidade, percebemos haver muito mais nestes Passos do que jamais sonháramos. Mesmo sendo agnóstico, quando cheguei ao A. A., agora penso ser o Terceiro Passo o centro do meu programa e os Passos restantes raios partindo do núcleo para a periferia. Entregando minha vontade e minha vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebo, é fácil de dizer mas difícil de fazer. É muito fácil para a personalidade alcoólica assumir o comando de sua própria vida e, então, naufragar.. Somente através da tentativa confirmada de praticar inteiramente este programa estou apto para fazer progressos no Terceiro Passo, o qual me leva à segunda fase.
Possivelmente não há limite do aprofundamento de cada um nesta fase. Como seres humanos, somos todos imperfeitos. Necessitamos trabalhar constantemente a fim de obter a paz e a serenidade, nossas companheiras no caminho da sobriedade. Medos, frustrações, raivas, ressentimentos: permitir que estes sentimentos nos façam apreensivos ou inquietos são indicadores da falta de progresso. Com a ajuda de Deus e de meus companheiros de A. A., espero ter o privilégio de permanecer neste programa pelo resto de meus dias. Algum dia, num futuro distante, talvez esteja em condições de me aproximar da realização completa do Terceiro Passo.
(fonte: Grapevine. Reimpresso na RV com permissão)

Vivência n° 23

AJUDANDO E SENDO AJUDADO!
Em nossa rotina diária, vivendo em sociedade, observamos e participamos de todo um emaranhado de manifestações de solidariedade, que são relações vitais à sobrevivência da Humanidade. Auxiliamos as pessoas em suas diversas atividades e delas também recebemos auxílio, num ciclo que começa com o nascimento e nos acompanha até a morte.
Essa troca de assistência se dá unilateralmente cada vez que é posta em prática, ou seja, se recebo hoje um benefício de uma pessoa amiga, posso retribuí-lo amanhã, mas raramente se vê, nas relações do cotidiano, uma interação imediata quando se fala em troca de auxiliares – com exceção quando se fala em Alcoólicos Anônimos.
É interessante e maravilhoso quando paramos para refletir e vislumbramos como foi importante para a nossa recuperação individual dentro de A.A., ver uma pessoa que compareceu à nossa sala de reuniões, tendo muitas vezes somente o espírito de curiosidade, acabar se identificando com o nosso programa, decidir se levantar, ir até a cabeceira de mesa e ingressar em Alcoólicos Anônimos. É magnífico o sentimento de alegria que um ato singelo como esse representa para a vida de um alcoólico, procurando se recuperar dentro da Irmandade.
Analisando mais a fundo essa situação, vemos que aquele recém-ingressado, não procurou A.A. para nos prestar ajuda, mas sim para recebê-la.
Partindo daí, podemos avaliar a importância de nossa Irmandade: poderia existir um gesto mais nobre e mais fraterno do que se sentir ajudado ao ver outra pessoa se ajudando?
Dentro de Alcoólicos Anônimos, vemos isso acontecer e olhando ao redor, concluímos: sem dúvida, é um dos poucos lugares onde essa reciprocidade ocorre. A literatura de nossa Irmandade nos mostra fartamente a existência dessa interação de auxílio. O Capítulo 11 do livro “Viver Sóbrio”, tratando do apadrinhamento em A.A., lembra que o membro não tem nenhuma obrigação de recompensar o padrinho, em espécie alguma, por este tê-lo ajudado. Ele ou ela o faz porque ajudar aos outros os auxilia a manter a sua própria sobriedade, estando cada membro livre para aceitar ou recusar ajuda. Se aceitar, não tem débito a pagar.
Esse binômio singular de ajudar e ao mesmo tempo ser ajudado, que é uma tônica em Alcoólicos Anônimos, nos leva à conclusão de que é fundamental à manutenção de nossa sobriedade, a sincera disposição de nossa parte em prestar socorro aos irmãos alcoólicos que ainda padecem da atividade de sua doença.
Isso nos conduz ao Terceiro Legado. O Serviço dentro de A.A. é de vital importância para que tenhamos uma sobriedade feliz. A partir do momento em que cada membro se obriga a participar das atividades relacionadas à nossa Irmandade, ele se afasta cada vez mais das decepções de seu alcoolismo. Quando nos impomos a responsabilidade pelo irmão alcoólico, nós dizemos com sinceridade: “Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. esteja sempre ali, e por isto: Eu sou responsável”.
Partimos para o auxílio, nossa sobriedade cada vez mais se sedimenta no substrato firme que é a entrega de nossa vontade e nossa vida nas mãos do PODER SUPERIOR.
(Kennedy L. – Machado/MG)

Vivência n° 25

ELES SÃO ENCANTADORES
Fulton Oursler
Jornalista e Escritor Estadunidense, Editor da Revista Reader’s Digest e Custódio de A.A.
“SÃO SENSÍVEIS, IMAGINATIVOS, POSSUIDORES DE UM SENSO DE HUMOR E UMA PERCEPÇÃO DA VERDADE UNIVERSAL.”
Embaixo, no fundo da escala social da sociedade de A.A. estão os párias, os intocáveis e os sem casta, todos sem previlégios e todos conhecidos por um epíteto já muito gasto dos parentes. Eu sou um parente; conheço o meu lugar; não estou reclamando, mas espero que ninguém fique chateado se eu me aventurar a fazer a melancólica confissão que existem horas, oh, muitas horas em que eu gostaria de ser um AA. A razão disso é porque considero as pessoas de A.A. as mais encantadoras do mundo!
Esta é a minha considerada opinião. Como um jornalista, tem sido minha sorte me encontrar com a maioria das pessoas consideradas encantadoras.
Enumero entre meus amigos muitas estrelas do teatro e do cinema; escritores são a minha dieta diária. Conheço homens e mulheres dos dois partidos(Democrata e Republicano) . Tenho participado de festas na Casa Branca. Tenho jantado com reis, ministros e embaixadores e digo, após esta lista que pode ser estendida, que eu prefiro uma noite com meus amigos do A.A. do que com qualquer outra pessoa ou grupo de pessoas que eu possa indicar.
Me pergunto por que considero tão encantadoras estas lagartas alcoólicas que encontraram suas asas de borboletas em A.A?
Existem muitas razões e vou nomear algumas: As pessoas de A.A. são o que elas são e foram o que foram porque são sensíveis, imaginativos, possuídos de um senso de humor e uma percepção da verdade universal.
Eles são sensíveis, o que significa que eles se machucam facilmente e isto ajuda a se tornarem alcoólicos. Mas quando encontram sua recuperação são mais sensíveis que
nunca, receptivos à beleza e à verdade e ávidos sobre as glórias intangíveis desta vida. Isto os torna companheiros encantadores.
Eles são imaginativos e isto ajuda a fazer deles alcoólicos. Alguns bebem para fustigar sua imaginação com grandes esforços. Outros, bebem somente para apagar visões insuportáveis que surgem em sua imaginação, mas quando encontram sua recuperação, sua imaginação é receptiva a novos encantamentos e sua conversa é cheia de cores e luzes e é isto que os torna companheiros encantadores, também.
Eles são possuídos de um senso de humor e mesmo quando estão bebendo são conhecidos por dizer coisas engraçadas.
Muitas vezes são forçados a se transmitir um pouco à sério e a dizer coisas da vida que os levam a procurar escape na garrafa, mas quando encontram sua recuperação, seu senso de humor encontra uma liberdade abençoada e são capazes de alcançar um estado divino onde podem rir de si mesmos: o auge da auto conquista.
Vá a uma reunião e escute as risadas. E do que eles estão rindo? Das lembranças horríveis sobre as quais almas mais fracas se encolheriam em remorsos inúteis. Isto faz deles pessoas maravilhosas com quem estar à luz dos candelabros. São possuidores de um sentido da verdade universal, que muitas vezes é uma coisa nova em seus corações.
O fato de que esta harmonia com o universo de Deus nunca tenha sido despertada neles, muitas vezes é a razão porque bebem e o fato disto haver despertado, finalmente é quase sempre a razão porque são devolvidos para as boas coisas da vida.
Fique com eles até o final da reunião e escute-os dizer sua oração. Eles encontraram um Poder Superior a eles mesmos a que eles servem diligentemente. Isto dá a eles um encanto que nunca foi visto nem na terra nem no mar; isto faz você saber que Deus é realmente encantador porque as pessoas de A.A. refletem Sua misericórdia e o Seu perdão.
Vivência nº 122 de Nov / Dez 2009

DA DERROTA À VITÓRIA

“Apesar de todas as dificuldades do cotidiano sinto-me bem mais leve e à vontade para dizer o quanto o Poder Superior operou maravilhas e quanto estou feliz”.
Ao ingressar em A.A. vinha de uma derrota tão grande que havia chegado ao ponto de, ajudado pela bebida, recusar até mesmo ouvir a palavra Deus, pois conseguia “provar” que Ele não existia.
Quanta imbecilidade! Dos vinte anos aproximadamente, que passei bebendo, além de pelo menos quatro internações em decorrência da ingestão demasiada de bebida alcoólica, boa parte deles vivi (ou vegetei) num mundo criado por mim e para mim, no qual outras pessoas não tinham sequer direito de opinar.
Essa barreira, alicerçada pelo orgulho e arrogância, ainda permaneceu após anos de desobediência aos Doze Passos sugeridos para recuperação, acúmulo de sofrimento e desgaste, além de uma recaída alcoólica.
Por incrível que pareça. estava em A.A. sugerindo aos outros como agir em casos de dificuldades, embora eu mesmo caminhasse a passos muito curtos em direção à tão sonhada reformulação de vida. Eles conseguiam transpor os obstáculos impostos e eu, mesmo demonstrando ou, tentando demonstrar algum equilíbrio esbarrava em velhos e conhecidos inimigos acima exemplificados. Porém, um dia chegou a hora de renunciar.
Essa renúncia começou a ser ensaiada há alguns anos, quando visitei um Grupo em cuja parede estava exposto o seguinte:

Existem três tipos de pessoas que são infelizes:
1) As que não sabem e não perguntam;
2) As que sabem e não ensinam;
3)As que sabem, ensinam e não praticam.
Nas reuniões que eu participava, pelo menos era honesto comigo ao afirmar que ainda não me encontrava em condições de dizer que estava feliz, apesar de alguns anos sem beber.
Graças a Deus chegou o dia de poder afirmar o contrário. E como foi bom! Hoje, apesar de todas as dificuldades do cotidiano sinto-me bem mais leve e à vontade para dizer o quanto o Poder Superior operou maravilhas e quanto estou feliz.
Quando recordo que o comentário do Sétimo Passo afirma: “Percebemos que não era necessário sermos sempre levados à humildade por cacetadas e pancadas. Tanto poderíamos atingi-la procurando-a voluntáriamente como pelo sofrimento incessante”. Enquadro-me exatamente nessa situação, pois era o que me acontecia.
Doravante, continuar melhorando cada vez mais é a meta a ser alcançada, pois, uma vez derrubada a barreira que tanto me atrtapalhou, as coisas tornaram-se mais fáceis e, com certeza, assim como pretendo não voltar ao primeiro gole, também não vejo porque me submeter contra a vontade de Deus, ao sofrimento desnecessário e devastador.
Hoje estou imensamente agradecido e a melhor forma de demonstrar essa gratidão é exatamente ajudando aos que ainda não encontraram o caminho. E o que é melhor: repassando o que realmente sinto; sugerindo inclusive que a saída está bem mais próxima do que se imagina, pois, quando transmitimos somente o que possuímos, sem fazer uso de “capas”, tais como: Sou feliz, sou isso, sou aquilo… A verdade prevalece.
Descobri também que o único Ser que, de fato é, chama-se Deus; eu, como humano sempre estou e quero estar, por mais 24 horas: sóbrio, sereno e feliz.
A.M / Belém/PA

“TRÊS GERAÇÕES SALVAS POR A.A.

– Procuramos a “Sala dos Milagres”

Nos anos de 1965, quando eu trabalhava em uma Paróquia de minha cidade, percebi um movimento de reuniões no fundo da Igreja.
Notei que aqueles participantes eram os mesmos que eu havia visto na rua caídos, sujos e até mal cheirosos.
Fiquei muito curioso e perguntei ao vigário que reunião era aquela, pois, os membros da mesma (aqueles que eu via na rua) estavam todos limpos, com barba feita e até um casal que costumava mendigar para conseguir uns trocados para beber estava bonito.
Para manter o anonimato o vigário respondeu-me: – Eles estão reunidos na “Sala dos Milagres”, meu filho!
Após cinco anos o álcool começou a perturbar toda a minha família. Tudo começou com meu pai. Foi um grande sofrimento, principalmente para mim, que recebia telefonemas de minha mãe dizendo: – Meu filho busque seu pai, ele está caído na carpintaria; ele está bêbado, não tem condições de voltar para casa. A mesma cena repetiu-se várias vezes, com meu pai chorando em meu ombro dizendo: – Meu filho ajude-me, não aguento mais essa vida, vejo que estou fazendo meus onze filhos e sua mãe sofrerem.
Foi no sofrimento que lembrei das palavras do vigário: “Sala dos Milagres”. Fui lá bater à porta e pedir ajuda para meu pai. Na mesma semana começaram a “trabalhar” com ele e eu sempre dizendo: – Papai, vá assistir a uma reunião, você vai gostar, tudo pode mudar!
Com muita dificuldade ele foi assistir às reuniões. Ficou caladinho por váfrios dias, até que um dia eu não aguentei e perguntei: – Papai, o senhor está frequentando as reuniões de A.A.? Balançando a cabeça, com um sorriso lindo ele disse um sonoro “sim”. Como a minha família ficou feliz com a sobriedade do nosso pai! A paz voltou a reinar em nosso lar.
Infelizmente, nós filhos, não sabíamos que o alcolismo é uma doença e, penso eu, que é hereditária. Três anos depois eu estava bebendo todo final de semana e logo a semana inteira, totalmente dominado pelo álcool.
A situação havia se invertido e meu pai sempre dizendo: – Zezé meu filho, você também é um alcoólico, venha comigo assistir a uma reunião. Mas eu sempre negava dizendo que eu não era alcoólico e que conseguia parar a hora que eu quizesse. Papai e mamãe lutaram muito comigo e muitas lágrimas rolaram por suas faces, pois viam que eu estava ficando doente. Sofri muito com minha teimosia, minha esposa e filhos também. Eu estava perdendo minha família, derrotado fisicamente, mentalmente, socialmente e financeiramente.
Certo dia eu estava sentado à porta de minha residência passou um companheiro de copo e falou: – Olá, José, você está mal, ainda não tomou nenhuma? Com firmeza falei: – Não vou beber mais e estou indo para a reunião de A.A. Admirado ele pediu-me para esperá-lo porque só iria a sua casa trocar de roupa e voltaria para ir comigo. Este foi o grande companheiro que o Poder Superior me enviou neste momento difícil de minha vida.
Chegando à sala de A.A. debilitado física, moralmente, chorando muito, eu implorei ao coordenador e demais presentes à reunião: – Pelo amor de Deus, me ajudem, pois não aguento mais!
No mesmo instante eu escutei um choro ainda mais alto no fundo da sala. Era o choro de meu pai dizendo assim: – Meu filho, aqui é nossa casa, você agora está no lugar certo e você não vai mais morrer de alcoolismo, tenho certeza disso!
Emocionados abraçamo-nos e choramos juntos com todos os companheiros.
Lembro-me, como se fosse hoje do olhar daqueles companheiros dizendo-me dizendo-me: – Nós vamos ajudar. Aquele “Sim” do meu pai dentro de A.A. salvou a minha vida e de mais dois de meus irmãos.
Papai dedicou-se muito a A.A. e procurava seguir fielmente os Doze Passos; trabalhou muito no 12º Passo que é levar a mensagem aos alcoólicos que sofrem e obteve muito êxito. Ele faleceu em 2000 deixando-me a tarefa de tentar novamente fundar um grupo de A.A. numa cidade vizinha. Em 2007 reuni os companheiros de meu grupo e fomos em dois carros, meu filho e eu. Deu certo, formamos o Grupo “Viva a Vida”.
A maior alegria que meu pai sentiu dentro da sala de A.A. eu também senti ouvindo meu filho dizer um mês depois da inauguração do grupo que ele era alcoólico e queria ingressar.
Neste momento fiquei com vontade de gritar: – Obrigado meu Deus, obrigado papai, com o seu “Sim” em Alcoólicos Anônimos acabou de salvar também seu neto.
Sempre ouvia papai dizer que não iria deixar seus filhos morrerem no alcoolismo, pois ele era um A.A.
Papai, onde quer que você esteja continue pedindo proteção e orando a Deus não só por seus filhos e netos, mas por todos aqueles que ainda precisam de ajuda para sair do alcoolismo. Você foi um grande A.A.

J. Vicente/MG

Rev. Vivência nº 116 – NOV/DEZ / 2008

TER AFILHADOS
– A reflexão de um padrinho, que continua atual mesmo depois de 21 anos.
“SEM UM NOVATO PARA APADRINHAR, NÃO SEI O QUE SERIA DE MIM”.

“Muitas vezes ouço em depoimentos o seguinte: “Dou graças à Deus por meu padrinho”, ou “Meu padrinho me salvou”. ou ainda, “Sem meu padrinho, não sei o que teria feito.”
Não há dúvida alguma quanto à grande vantagem que tem um novato em A.A., quando consegue um bom padrinho. Muitos de nós devemos nossa sobriedade, às vezes de anos e contínua, à paciência e perseverança, à bondade e mesmo à dureza dos mais velhos em A.A., principalmente nos nossos primeiros dias.
Entretanto, um grande número de nós, padrinhos e madrinhas, dizemos (ou deveríamos dizer): “Graças à Deus pelo meu afilhado”, ou ” Foi meu afilhado quem me salvou”, ou ainda “Sem um novato para apadrinhar, não sei o que seria de mim”. Muitas vezes, mais do que eu gostaria de admitir, foi um novato que me salvou no exato momento em que eu precisava ouvir algo, foi um afilhado que telefonou para me trazer um pacote de problemas que eu teria de ajudar a resolver. E nesses assuntos dele, havia algo em particular que me abriu os olhos para alguma coisa que EU deveria estar fazendo a respeito de minha própria vida, a respeito de mim mesmo, naquele momento.
O novato, evitando aquele primeiro gole e seguindo nosso programa, acabaria por descobrir que o problema achou sua solução e acreditaria que aquela MARAVILHA de padrinho havia resolvido tudo. Entretanto, com o correr do tempo, todos nós sabemos, os padrinhos são reconhecidos exatamente por aquilo que são – alcoólicos como os novatos, lutando com seus próprios problemas, um dia de cada vez, em sobriedade.
Assim, como padrinho, gosto de espalhar por aí o quanto os afilhados me ajudam! Um veterano em A.A. que esteja procurando soluções para certas dificuldades, talvez descubra que o truque se tornar padrinho de alguém e que isso não falha! Quando tudo mais parece não dar certo, o que funciona é isto: SER PADRINHO.(Grapevine , junho de 1980)
Serenas 24h com sobriedade à todos!

VIVÊNCIA Nº 73 – SET / OUT 2001

COMO SE LIBERTAR DO ALCOOLISMO ?
Eduardo Mascarenhas
Jornal “Última Hora” de 30.05.84
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Nos meados de 1984, o psicanalista Eduardo Mascarenhas publicava no jornal “Última Hora”, uma série de artigos sobre Alcoólicos Anônimos. Primeiro sobre a irmandade como instituição, depois sobre o programa oferecido por ela para aqueles que, reconhecendo ter o problema, poderiam aproveitar para resolvê-los. É o primeiro desses artigos sobre o programa de A.A. sugerido nos 12 Passos que transcrevemos agora, pois, decorridos mais de 5 anos, os nossos leitores, alguns pela primeira vez, terão oportunidade de ler como um profissional da saúde vê esta parte do programa de recuperação sugerido por
A.A.
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A experiência em todo o mundo, acumulada nos seus 49 anos de existência, durante os quais recuperou milhões de alcoólatras, trouxe ao A..A. a convicção de que só se liberta real e solidamente do álcool aquele que fizer uma profunda reformulação de sua personalidade. Pra alcançar esta reformulação cumpre percorrer aquilo que na tradição dos AAs ficou conhecido como os Doze Passos.
Claro, os 12 Passos são um guia, uma meta. Nenhum AA conseguiu atravessá-los completamente. Não se trata, pois, de virar santo ou se tornar perfeito. Trata-se, isso sim, de esforçar-se permanentemente para um aperfeiçoamento pessoal. OS 12 PASSOS SÃO UMA MANEIRA DIDÁTICA DE SE ALCANÇAR ESSE APERFEIÇOAMENTO. NÃO SÃO SAGRADAS ESCRITURAS, NEM PRETENDEM SER A PALAVRA DE DEUS.
Com todo respeito pelas tradições do A.A., vou me permitir descrevê-los com as MINHAS palavras, tal como eu os entendi. Tentarei descobrir neles uma coerência semelhante à coerência psicanalítica. Na realidae, bem que se poderia descrever Os 12 Passos do processo psicanalítico. . Não seriam muito diferentes dos do A.A.
1º Passo – Superar o orgulho, a vaidade, o narcisismo e reconhecer que já não bebe só quando quer e o quanto quer. Ao invés de dominar o álcool, é o álcool que já está dominando. Ano após ano, o equilíbrio de forças está pendendo mais para o copo do que para a mão. Não é mais a mão que procura o copo. É o copo quie atrai a mão.
Outra coisa: chega de empulhação. Chega de desculpas do tipo, páro quando quero. Realmente até que se pára quando se quer. Por um dia, uma semana, um mês, até por um ano. Só que depois se volta, e com força redobrada. Parodiando a frase de Oscar Wilde sobre o parar de fumar: “Parar de fumar é tão fácil, que já parei 10 vezes”.
Reconhecer que já está perdendo o domínio sobre o álcool(ou que já o perdeu há muito tmpo) é, evidentemente, o primeiro passo para deixar de ser um biriteiro.
Por incrível que pareça, esse passo é dificílimo e o ego luta com todas as suas forças contra ele. Primeiro porque é angustiante, mesmo, se sentir perdendo o controle numa área de tão sérias consequências sobre a vida como um todo. Segundo, porque as pessoas insistem em considerar o alcoolismo não uma doença como outra qualquer, ma, sim, uma fraqueza de caráter, uma falta de força de vontade, de autodomínio. Se muita gente já se humilha de ter uma doença indiscutivelmente física como o diabetes, por exemplo, imagina admitir uma doença que nem doença é considerada pela maioria, mas, sim, falta de vergonha na cara. Realmente é difícil se admitir perdendo domínio sobre o álcool, pois o alcoolismo, infelizmente, ainda é um pesado estigma. Pau-d’água, degenerado, cachaceiro, desenfreado, bêbado, pessoa que vive no pileque, porrista, viciado, alcoólatra, pé-de-cana, vocês hão de convir, são expressões que adquiriram
cores claramente insultuosas.
2º Passo – Acreditar que exista um tratamento para o alcoolismo.
Não um tratamento, apenas químico, técnico, impessoal. ´mais fácil tomar uma B12 na veia, entregar o coração para uma cirurgia de ponte safena, a cabeça para um Vallium da vida, do que confiar numa pessoa, ou grupo de pessoas, para realizar um tratamento em que participe algum grau de ENTREGA PESSOAL.
É que a mentalidade contemporânea ou é crédula e cheia de crendices, a ponto de se entregar ao primeiro santo milagreiro que passar na sua frente e dele esperar milagres, ou é profundamente cientificista. No primeiro caso, a confiança é depositada num gurú com forças extraterrestres, um ET da alma. No segundo, a confiança é depositada, na “Ciência”, com seus sacerdotes vestidos de branco, dando entrevistas ao Hélio Costa para o Fantástico. Por isso, os médicos, os cirurgiões, os neurologistas, inspiram alguma confiança. Não eles, enquanto pessoas, mas sim enquanto SACERDOTES DA TÉCNICA. Em ambos os casos – quer na fé infantil a um Deus todo poderoso e milagreiro, quer na fé, igualmente infantil nas parafernálias e engenhocas dos laboratórios americanos, cheios de tubos de ensaio, fios, ratos e computadores. Os seres humanos, com seus poderes pessoais, estão excluídos. Conclui-se daí que o difícil, mesmo, é gente
confiar em gente. Não em gurus divinizados, mas em gente mesmo.
As resistências ao A.A. passam por aí. Só que, imagino, devem ser maiores ainda. É que, aos trancos e barrancos, a psicanálise infiltrou-se na cultura e o psicanalista acabou sendo reconhecido como um “semi-sacerdote da Ciência”. Hoje é até chique fazer psicanálise. Os AAs porque são gratuitos e porque suas sessões não são dirigidas por “doutores”, têm mais cheiro de povo e menos perfume de elites iluminadas. Não exalam, assim o discreto charme da pequena burguesia artística e intelectual.
Além disso, o anonimato de seus líderes não possibilita que se tornem celebridades a serem adoradas, entrevistadas pela televisão e pela imprensa. O fato de sua origem norte-americana – e não européia – colabora, ainda, para uma certa perda de prestígio, do tipo aristocrático. Enquanto a psicanálise possui Freud, de Viena; Jung, de Zurich; Lacan, de Paris; os AAs possuem como fundadores, Bills e Bobs, de Ohio…
Como nossa sociedade é profundamente elitista, tudo isso conta. Também o fato de, nas sessões de A.A. se reunirem pessoas de diversas camadas sociais. O elitismo não gosta disso. As pessoas de classe social mais alta, dominadas pelo elitismo, tendem a desprezar esse tipo de reunião. O pior é que sem nem saber do que se trata. Imaginam, logo, mendigos cachaceiros, de pés inchados, entoando músicas evangélicas. As pessoas de classe social mais baixa, também dominadas pelo elitismo, tendem a se intimidar com esse tipo de encontro por motivos simetricamente opostos.. Imaginam que estarão na Academia de Letras, tendo de fazer discursos.. “Eu, abrir meu coração pra cachaceiro?” , diz o doutor, dominado pelo “Scotch”; “Eu, ter que falar diante de doutor?”, diz o cidadão proveniente das camadas populares, dominado pela cachaça. E tome resistência. E tome mais pileques ainda…
Em suma, o segundo passo para se livrar do alcoolismo é recuperar a crença e a esperança de que existe algo que possa ser feito. Uma força superior à vontade, capaz de enfrentar a essa outra força superior à vontade, que é o alcoolismo.
Artigo publicado pela Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos –
Vivência nº 11, de JUL/ SET de 1989, copiado do jornal “Última Hora” de 30/05/84.

ANONIMATO – ALICERCE ESPIRITUAL DAS NOSSAS TRADIÇÕES
Esquecer da minha vaidade!
Fortalecer o alicerce dos princípios

O Quarto Passo de A.A. mostra o quanto é prejudicial ao ser humano quando ele excede as funções específicas dos seus instintos naturais. Mal controlados, esses instintos nos levam a anseios por sexo, por bens materiais e por posições importantes na sociedade, nos causando grandes problemas ou quase todos os problemas que existem. Nenhum ser humano está livre destas dificuldades. por melhor que ele seja.

Durante muito tempo lutamos contra a idéia de que outras pessoas pudessem nos mostrar que tínhamos um problema. Achávamos sermos o centro das atenções e os donos da verdade e o “EU” era o que sempre prevalecia. Muitas vezes chegamos a dizer: “Eu sei o que estou fazendo, não sou mais criança, quem paga as minhas contas sou eu e não preciso que ninguém se meta em minha vida ou diga o que eu devo fazer ou não”.

Achávamo-nos o personagem principal em tudo que queríamos fazer, e as opiniões dos outros não adiantavam nada, mas com o passar do tempo sentimos que não podíamos mais lutar sozinhos. Chegamos ao fundo do poço e veio a admissão. Admitimos ser impotentes perante o álcool e muitas coisas mais. Conhecemos A.A. e em nossas vidas entram os seus princípios e com eles vêm algumas perguntas: Porque os princípios estão acima? Porque não podemos aceitar que alguém pague nossas despesas? Porque não podemos filiar-nos a uma entidade semelhante à nossa? E mais, por que não podemos aparecer de frente e diante de uma câmera de televisão?

A resposta a estas perguntas e algumas outras vem do fato de que tudo isso já foi tentado antes, e o que ganhamos foi uma grande e maravilhosa experiência: “As nossas Tradições”. Portanto, ambições pessoais não têm lugar diante desses princípios. A humildade e o sacrifício são as coisas que prevalecem em prol do bem comum.

A experiência nos mostra que um membro de A.A. é parte integrante de um grupo, e o grupo é uma pequena parte de um todo. O membro, como servidor do grupo, está sempre exposto à Consciência Grupal, nos serviços prestados por ele. E assim, trabalhando todos unidos e com um único propósito, a mensagem chega com mais qualidade até aqueles que precisam de A.A., pois esse é o único objetivo de nossa Irmandade e será sempre.

Assim sendo, se esquecermos de nossas vaidades pessoais, se pensarmos no nosso semelhante com amor e no desejo de ver nossa Irmandade crescer cada vez mais, fortaleceremos o alicerce dos nossos princípios e nossa sobriedade.
Os Passos, as Tradições e os Conceitos para Serviços Mundiais de A.A. são os princípios aos quais temos que nos submeter para alcançar a recuperação e assim poder levá-la à outros. “Princípios Acima da Personalidades” significa que, embora não exista um governo central, o conteúdo espiritual dos princípios prevalece ante as nossas investidas.

Através da prática desses principios, alcançamos um determinado gráu de recuperação espiritual fazendo-nos obedecer a limites de nossa atuação como membro de A.A. em busca da divulgação sobre a nossa Irmandade e não a autopromoção e ambição pessoal. Passamos a ver também o tamanho da responsabilidade que cada um de nós tem com Alcoólicos Anônimos, compartilhando nossa Unidade, que é o nosso bem mais precioso.

Em algum lugar da nossa literatura está escrito que, ou vivenciamos os Doze Passos como membros e as Doze Tradições como Grupo, ou experimentaremos a dissolução e a morte.

Para ilustração desse nosso trabalho, vamos fazer algumas conotações a respeito.
Alguns compositores e escritores costumam definir o título de seus artigos e após digitá-lo colocam o seu nome, para garantir o direito autoral, a propriedade intelectual, e ser reconhecido de acordo com o seu nível de vaidade. Aqui está a primeira conotação da Décima Segunda Tradição de A.A., que nos recomenda colocar os princípios acima das personalidades. Está mais do que provado que esta recomendação funciona e faz bem para o nosso crescimento espiritual.

No dia-a-dia dos nossos Grupos temos encontrado também inúmeros exemplos referentes a este assunto. Temos a história de um companheiro que no início da sua programação resolveu arrumar o Grupo que ele participava. Varreu, limpou cinzeiros, fez o café e deixou tudo em ordem. Após esse trabalho, ficou na porta do grupo, esperando os companheiros chegar e elogiar tal atitude. Foi uma grande frustração, pois não ouviu da parte de nenhum companheiro referência ao serviço que ele havia prestado. Isso não significava dizer que a Irmandade e os companheiros não reconhecem ou não valorizam o serviço. Neste momento a questão é de impessoalidade; quem fez o melhor no serviço não foi o companheiro, foi o Grupo, que confiou tal serviço a ele por saber que o resultado seria aquele.

Outro exemplo que guardamos na memória é de um médico que durante uma viagem foi a um determinado Grupo de A.A. e presenciou a chegada de um novo companheiro – na metade da reunião – onde fora vivamente saudado por alguns membros do Grupo. Notou que o coordenador sinalizou para o orador que se encontrava na cabeceira de mesa encerrasse logo sua participação, para que o recém-chegado pudesse ser chamado. Em sua oratória recheada de termos técnicos, o participante não teve dúvidas em informar aos presentes que a bebida alcoólica é prejudicial à saúde, provoca sequelas graves, discorrendo com detalhes as suas consequências. Quando terminou seu discurso despediu-se de todos, pois ainda tinha compromisso em outro Grupo de A.A. e não poderia permanecer por mais tempo. Foi aplaudido em sua saída, mas sobre o alcoólico que ele disse ser, ninguém ficou sabendo de nada. O Grupo tinha acabado de ouvir uma palestra profissional e não
o depoimento de um membro de A.A. Logo ficou sabendo que se tratava de um médico, ingressado recentemente naquele Grupo.

Quando alguns membros não conseguem conter a tentação de se mostrarem melhores, mais inteligentes e mais importantes, quem perde é a Irmandade, pois trata-se de algo perigoso que sempre cria problemas para quem quer aparecer e para os demais que vivenciam as situações protagonizadas. É sempre um risco para a programação do alcoólico, pois as emoções dessa natureza podem deixar o membro a um passo do álcool. Essa preocupação todos nós, membros de A.A. conscientes, teremos que ter sempre. Pois em casos de recaídas nos perguntamos: como ficam a imagem e o conceito de A.A. junto ao público em geral?
Baseado nesse contexto, Alcoólicos Anônimos aprovou e procura seguir a sua “Décima Segunda Tradição”, cujo prefácio nos mostra que o Anonimato é o Alicerce Espiritual das Nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os Princípios Acima das Personalidades.

Para que seja possível compreender, aceitar e vivenciar os preceitos de nossas Tradições é necessário que tenhamos anteriormente nos dedicado aos Passos.
Assim como cada Passo do Programa de Recuperação nos prepara para o próximo passo, o conjunto dos Doze Passos nos prepara para a aceitação das Doze Tradições.

Para poder entender melhor as Tradições é necessário limpar primeiro a casa, reconhecer nossos erros, admitir nossos defeitos de caráter e buscar em um Poder Superior a correção daqueles defeitos que sozinhos não poderemos corrigir. Sem desinflar o Ego, e ter caminhado por bastante tempo na estrada da humildade, pouco assimilaremos desses princípios espirituais.

A compreensão do preceito, de que é preciso colocar em primeiro lugar os Princípios de A.A. acima de qualquer coisa, nos encaminha rumo ao nosso objetivo: fazer a vontade de nosso Poder Superior e não a nossa.

Assim, como os Doze Passos sugeridos para a nossa recuperação nos instrui a viver, as Doze Tradições nos leva não só a conviver, mas também a colocarmos os Princípios acima de nossas personalidades. Se não esquecermos nossos anseios pessoais em favor do bem estar comum, estamos fadados ao desaparecimento.

O ego sempre leva a situações dolorosas, a nós e principalmente aos outros. Cabe lembrarmos que o perigoso apego à nossa personalidade tem nos levado a determinadas situações, e não os princípios espirituais que regem a nossa Irmandade.
Não podemos colocar o carro à frente dos bois, assim como não podemos colocar a personalidade à frente dos princípios.
Infelizmente, presenciamos ao longo dos dias alguns grupos fechando as suas portas, porque alguns servidores se eternizaram no serviço sem permitir o rodízio, colocando suas personalidades acima dos princípios, que nos indicam e nos incentivam ao apadrinhamento nos trabalhos como forma de desprendimento e amor aos companheiros novos.

Enquanto os princípios nos sugerem mantermos a mente aberta para a recuperação e para novos assuntos da Irmandade, alguns Grupos desobedecem às Recomendações da Conferência, estimulados pela personalidade de algum membro.

Enquanto os princípios nos estimulam à gratidão pela nossa vida e pela vida da nossa Irmandade, alguns companheiros não estimulam a participação e as contribuições em A.A., motivados pela personalidade.
Insuflados pela personalidade, ainda existem companheiros quie não estimulam o trabalho do CTO, enquanto os princípios nos sugerem levar adiante a mensagem de A.A., pois não temos fronteiras.
Enquanto os princípios mostram que a ambição dos meus anseios pessoais deve silenciar toda vez que ameace prejudicar o grupo, vemos companheiros se ausentarem das reuniões de serviço porque uma das suas sugestões não foi aceita, atitude motivada pelo ego e pela personalidade.

Os princípios nos sugerem exercitarmos a humildade, pois sem esta a recuperação está comprometida. Mesmo assim, vemos como fruto da presença da personalidade a busca constante de STATUS por parte de alguns companheiros.
Vemos sintoma claro de se colocar a personalidade acima dos princípios por parte de algum servidor que passou o encargo, não mais apoiar o novo comitê de serviços porque está fazendo mais do que ele fez ou não está fazendo o que ele quer. Lideramos pelo exemplo e não por mandatos.

Se minha personalidade me motiva a pensar que aquele serviço continua por minha causa, os princípios lembram-me que já havia alguém esperando por mim quando cheguei, e que com amor e humildade terei que dar continuidade.

Por quanto tempo ainda e quantas vezes teremos que lutar entre a personalidade e o princípio? É importante refletirmos melhor sobre esta questão em nossos grupos o quanto antes. Precisamos de discernimento no compartilhar, conhecimento de nós mesmos e dos princípios de A.A. para vivermos melhor com os outros.

Nossa responsabilidade primordial é transmitir a mensagem a tantos alcoólicos quanto possível, sem promoção pessoal, sem buscar vantagens, sem deixar que o ego se infle, pelo trabalho desenvolvido em nome de A.A., tendo como maior ingrediente a preservação da nossa Irmandade através da humildade, expressa pelo anonimato.

Não foram nossos feitos e nem nossas qualidades, não foi por nossa busca insana pelo poder, prestígio e fama, que fomos para A.A., mas pelos escândalos da sarjeta, das irresponsabilidades ou das loucuras que cometemos. Por isso, lembremos sempre da necessidade de não exaltarmos nossas personalidades. Nossos anseios pessoais devem ser abolidos em favor do bem comum, sem o qual não existiríamos.

Aprender a respeitar os princípios de A.A. e seguir aquilo que nos é sugerido torna-se expressão viva da humildade, do viver em grata contemplação com o Poder Superior que é a razão de tudo, assim como fazer nosso trabalho com amor, dedicação e muita gratidão.

O caminho a percorrer na procura do nosso objetivo, encontra-se em todo o conjunto de princípios oferecido por nossa Irmandade, mais precisamente implícito em cada uma das Doze Tradições, que começa com a Primeira Tradição dizendo: “Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar”, e a Décima Segunda conclui dizendo: “Lembrando sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”.

É somente com essa sequência de sacrifícios que podemos viabilizar tanto a vida em Grupo, que é a forma com que melhor nos recuperamos e trabalhamos, quanto a existência e perpetuação da própria Irmandade.

Mais vinte e quatro horas de sobriedade e serenidade para todos nós.

Jerônimo
Juazeiro/CE

” PERGUNTAS SOBRE O TERCEIRO PASSO ”

1 – Por que a prática do Terceiro Passo é como abrir uma porta que até então parecia fechada?

2 – O que precisamos para “abrir a porta”? Qual é a “chave da porta”?

3 – Nos dois primeiros passos refletimos: somos impotentes perante o álcool e a fé, nem que seja no A.A. está ao nosso alcance. Estas conclusões requerem apenas aceitação, O quê, além disso, requer o Terceiro Passo?

4 – Nossa Vontade quase sempre impediu a entrada de Deus (Poder Superior em nossas vidas. Em que o Terceiro Passo nos auxilia?)

5 – Por quê a eficiência de todo o Programa de A.A. depende de quão bem e sinceramente tentemos chegar à decisão de entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus na forma em que O concebíamos?

6 – Seu espírito prático faz este passo parecer difícil ou impossível para você?

7 – Como entregar a vontade e a própria vida aos cuidados de Deus que pensamos poder existir?

8 – O egoísmo às vezes fecha a porta aberta pela chave da boa vontade. Concorda? Que fazer para abri-la outra vez?

9 – “Todos os homens e mulheres que ingressam e pretendem permanecer em A.A., sem mesmo se aperceber disso começaram a praticar o Terceiro Passo”. Por quê?

10 – Quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. Esta afirmação faz sentido para você? Por quê?

11 – Somos realmente independentes em nossa vida cotidiana?

12 – Compreendemos perfeitamente as “coisas” das quais nos tornamos dependentes nos tempos atuais?

13 – Temos certeza de que nossa inteligência, apoiada pela força de vontade, pode muito bem controlar nossa vida interior e garantir nosso êxito no mundo em que vivemos? Será que isto funciona?

14 – Por toda parte se vêem pessoas cheias de ódio e medo, a sociedade se fragmentando em pedaço. Cada fragmento diz ao outro; “Nós estamos certos e vocês estão errados”. Será este estado de coisas resultante do fato de que cada indivíduo, cada facção, esteja tentando assim exercer o papel de Deus?

15 – Reconhecemos que a palavra dependência é repugnante para muitos psiquiatras, muitos psicólogos e particularmente para os alcoólicos, pois existem formas prejudiciais de dependência, tais como…..

16- A dependência de um grupo de A.A., ou de um Poder Superior, já produziu algum efeito pernicioso?

17- O que poderá ser feito pela vontade própria e coragem nua a respeito dos problemas que se recusam a ser solucionados, a respeito do ódio, da inveja e dos problemas que teimam em continuar a existir?

18 – Uma sobriedade maior, graças o reconhecimento do alcoolismo e à assistência a algumas reuniões, é certamente uma boa coisa. Porém, fatalmente estará longe de ser uma sobriedade permanente, uma vida feliz e útil. O que poderá nos conduzir ao resultado desejado?

19 – Por que se diz que só é possível praticar os outros Passo do Programa quando Terceiro Passo tenha sido experimentado com determinação?

20 – Todos os Doze Passos requerem um esforço pessoal contínuo para se adaptar aos seus princípios e, assim se espera, à…

21 – Todo o nosso problema resultou do abuso da vontade. Havíamos tentado atacar nossos problemas com ela ao invés de modificá-la para que esteja de acordo com a vontade de Deus para conosco. Já havia pensado nisso?

22 – Cada vez que aparecer um momento de indecisão ou distúrbio emocional, podemos fazer uma pausa, pedir silêncio e dizer simplesmente…

” TERCEIRO PASSO ”

“DECIDIMOS ENTREGAR NOSSA VONTADE E NOSSA VIDA AOS CUIDADOS DE DEUS, NA FORMA EM QUE O CONCEBÍAMOS”.
Por: Emílio M.

01. O que é como entendo e tento praticar o Terceiro Passo de A.A., nesta data, em meu nome e não no da Irmandade. (Enumero os parágrafos para facilitar os debates nos Seminários).

02. “Nos dois primeiros passos estivemos refletindo. Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mas, também, percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em A.A., estava ao alcance de qualquer um. Essas conclusões não requerem ação, apenas aceitação”.

03. Este é o Passo da fé, da fé em ação, da ação firme; da fé em marcha, positiva e constante. É o passo da conversão, da serenidade, da coragem e da sabedoria.

04. Refletindo sobre os três primeiros passos concluo que: Perdi O Governo Da Minha Vida, Encontrei Um Governador, Deixo-O Governar.
“Não precisamos nos desculpar com ninguém por depender do Criador. Temos boas razões para descrer daqueles que acham que a espiritualidade é o caminho da fraqueza. Para nós ela é o caminho da força. O veredicto, através da história, é que os homens de fé são corajosos. Confiam em seu Deus. Nunca nos desculpamos por nossa fé n’Ele. Ao contrário, tentamos deixá-Lo demonstrar, através de nós, o que Ele pode fazer”.

05. Com freqüência ouço dizer: “Não percebo a diferença entre o Segundo e o Terceiro Passo. Eles parecem iguais”. De fato, um complementa o outro mas a diferença é significativa. Exemplifico: Eu acredito que um campeão mundial de Fórmula 1 dirige muito melhor do que eu, só que prefiro ficar no volante. Não seria muito mais sensato eu entregar a direção para ele e ficar bem tranqüilo, chegando ao destino inteiro, descansado e seguro?

06. Os Três Primeiros Passos são a base, o alicerce sólido, sobre o qual vou reedificar minha nova vida. Do Quarto ao Nono Passo tenho todo o material para esta reedificação e, com o exercício do Décimo ao Décimo Segundo Passo, encontro os recursos para a manutenção. Só fachada bonita não resolve. Se a base não for firme, tudo poderá ruir. Igualmente, faltando a conservação, a fachada ficará feia e, sem atrativos, será desprezada.

07. A.A. me deu a chave. A hora é agora, mas a decisão é minha. Sei que a eficácia deste programa de vida depende do melhor empenho na prática deste Passo. Assim como o êxito de qualquer outro empreendimento depende do quão bem eu o entregue nas mãos de Deus.

08. Ora, queira eu ou não, minha vida pertence a Deus, pois foi d’Ele que a recebi, e por empréstimo, até o dia que Ele quiser. Até quando serei chamado para dela prestar contas. Se eu acredito em Deus mas não entrego a minha vontade e minha vida aos cuidados d’Ele, sem reserva de domínio e incondicionalmente, estaria assinando o meu próprio atestado de imbecilidade.

09. Esta minha decisão, se eu não complicar, será simples, embora não fácil. Os ingredientes básicos são: mente aberta, boa vontade, honestidade, humildade e disposição. Esta decisão é um ato de sabedoria. Com essa entrega só levo vantagens. Vejamos: Estou diante de um problema para resolver. Peço orientação Divina. Busco opiniões de companheiros mais experientes sobre o assunto. Analiso os prós e contras. Entrego nas mãos de Deus. Paro com a preocupação, sinônimo de sofrimento por antecipação, desgastante e complicador e, só torno a ocupar-me dele no dia do seu desenlace. Assim, não estarei exaurido nem tenso, mas sereno e tranqüilo e a probabilidade de sucesso é maior. Se permaneço o tempo todo com angustiante preocupação, chegará o dia `D’ e a hora `H’ e estarei tão tenso e nervoso que a possibilidade de fracasso é imensa. Os meus problemas são do tamanho que os imagino, muitos se resolvem de forma diferente da prevista e outros por si mesmo. (“Não Se Leve Muito A Sério” – Regra 62).

10. Evito criar problemas, mas quando os tenho, ao resolvê-los, exercito bom aprendizado. A solução está no problema. Ademais, em A.A., aprendi que: “O Que Não Tem Solução, Solucionado Está”! E que “Deus É A Solução”! Oportuno lembrar: “Não Se Preocupe, Ocupe-Se”! Desde que comecei a entregar nas mãos de Deus tudo o que faço, sinto-me mais confortável, seguro e feliz. Quando tudo dá certo, O louvo, e quando algo sai errado, já não me culpo. Não me condeno e até agradeço; poderia ter sido pior. (Nem sempre consigo empregar esta sabedoria).
“O Crescimento Espiritual, Tal Qual Roma, Não É Alcançado Em Um Único Dia”.

11. Se os vestibulandos ou candidatos a outros concursos adotassem o Terceiro Passo, eles teriam mais êxito. Acontece que a maioria, na hora dos exames, está tão preocupada e tensa, que gera esquecimento de questões conhecidas, mesmo daquelas estudadas horas antes. Devolvida a folha de exames, as respostas se apresentam na ponta da língua, porque o fato gerador de tensão cessou. O médico coreano, Dr. J.S.Yum, disse: “Mantenha Os Pés Quentes E A Cabeça Fria”.

12. A Mágica: Fé, aliada a ação. A fé desprovida de ação é bananeira que já deu cacho; é um relógio suíço, com pontualidade britânica, mas não tem ponteiros nem mostrador, trabalha sem informar a hora –será ele útil? É uma faca que não tem cabo e que se perdeu a lâmina! Se quero chegar na Europa preciso comprar a passagem, sair de casa e embarcar. Como ganharei na loteria sem apostar? Será que choverá na minha horta, se ainda não estou preparado e disposto para cultivá-la? “Ação É A Palavra Mágica”!

13. Um clérigo acompanhou um camponês que mudou-se para um matagal danado de ruim. Ao despedir-se, para encorajá-lo o clérigo disse-lhe: – “Tenha fé em Deus, meu filho, e verás como Ele te ajudará a prosperar”. Seis anos depois, o mesmo clérigo, foi visitar o camponês e, encontrando aquele matagal transformado em várias culturas, num belo jardim e pomar; o ilustre visitante disse-lhe: – “Viu, meu filho, como valeu apenas você ter fé”? Resposta do camponês: – “É, reverendo, a fé foi e é importante sim, mas se não fosse minha enxada, foice, cortadeira, machado, etc. e muito suor, o senhor teria encontrado aqui um matagal muito pior do que há seis anos atrás”.

14. “Já foi dito: “Você tem a fé, e eu tenho as obras. Pois bem! mostra-me a sua fé sem obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé’. … De fato, do mesmo modo que o corpo sem o espírito é cadáver, assim também a fé, sem obras ela é cadáver “.

15. A Conversão: O Dicionário Aurélio define: “1)- Ato ou efeito de converter-(se), … 2)- A rejeição ou aceitação de certo número de atitudes …”.
Sem conversão é impossível a recuperação. O Terceiro Passo é o Passo da conversão sim, porque propõe reformulação de valores. Aqueles ébrios que A.A. converteu são hoje excelentes pessoas, profissionais respeitados, admirados e responsáveis chefes de família. Nos convertemos de ébrios para uma vida sóbria.
“À medida que nos aproximamos da verdade, vamos encontrar muitas coisas que antes nos iludiam e que agora são simples ninharias, obrigando-nos a modificar nossa escala de valores”.

16. O terapeuta em alcoolismo, John B., afirma: “Todo alcoólatra ou dependente químico é uma criatura sensível e sedenta de Deus. E na busca desesperada de Deus, por não tê-Lo encontrado ou tendo-O encontrado e não – identificado, O encontrou pela porta errada do álcool ou outras drogas e transformou um veneno letal em seu próprio deus”.

17. Isso aconteceu comigo. Afastei-me do Deus verdadeiro. Passei a procurá-Lo no álcool. Sofri e fracassei, mas finalmente O reencontrei. Hoje, meu propósito é não afastar-me d’Ele. Posso chegar a Deus pela busca voluntária ou na base de cacetadas. Conheci, na prática, os dois caminhos.

18. A Serenidade: O Dicionário Aurélio define: “1). Qualidade ou estado de sereno. 2). Suavidade, paz, tranqüilidade”
Aprendi, em A.A., que serenidade é a capacidade para aceitar aquilo que não posso modificar, como: meu alcoolismo, as outras pessoas, as instituições, a programação das emissoras de rádio e televisão, o que publicam as revistas, os jornais, as bobagens que ainda falam sobre o alcoolismo, etc. Serenidade é a capacidade de viver em paz, apesar dos problemas não resolvidos. Alegro-me em saber que posso modificar-me. Depende só de mim. Viver em paz, em serenidade num ambiente calmo e tranqüilo, até eu consigo. Não há mérito nenhum nisto. Agora, viver sereno e calmo num ambiente tumultuado e adverso só será possível para aqueles que praticam o Programa.

19. Pintores famosos do mundo inteiro foram convidados para um grande concurso com esta proposta: – “Vocês devem pintar um quadro capaz de refletir serenidade”. Concorreram quadros retratando as mais belas paisagens como: famosos e belos jardins, plácidos lagos cercados pela natureza; grandes e formosas planícies multicolores, predominando o verde nas mais variadas tonalidades; exuberantes montanhas com frondosas árvores e rochas, cujas alturas eram salpicados de gelo e, em seus picos por eternas geleiras. O quadro vencedor retratava uma assustadora ressaca, uma tormenta no mar, um verdadeiro maremoto. Aparecia também, além do mar e da praia, parte do continente com arbustos retorcidos pelo vendaval. Num dos arbustos um pássaro, em seu ninho, que apesar da plumagem molhada e desalinhada, serena e tranqüilamente cuidava de seus filhotes.
Diante dos protestos dos participantes, os julgadores explicaram: “Vejam, apesar de todo o vendaval e condições desfavoráveis ele manteve-se tranqüilo e sereno”.

20. A Coragem: Assim definida pelo dicionário Aurélio: “1). Bravura em face do perigo. 2). Intrepidez, ousadia. 3. Resolução, franqueza, desembaraço. 4). Perseverança, constância, firmeza”.
Coragem é assumir-me como sou, com meus defeitos e virtudes, mas empenhado em modificar-me para melhor sem com isso gerar conflitos comigo. Coragem não é eu enfrentar um leão selvagem, mas transformar meus defeitos em qualidades e minha falhas em aprimoramentos. Coragem é eu modificar tudo quanto estiver ao meu alcance.

21. “Todos os Doze Passos requerem um esforço pessoal contínuo para se adaptar a seus princípios e, assim se espera, à vontade de Deus”.

22. “Não desanimes. Freqüentemente é a última chave do molho que abre a fechadura”.

23. “O sucesso consegue-se com decisão, confiança, persistência; e não, com desânimo, indecisão, lamúrias …”.

24. “Não se assuste com a escuridão da noite; pela manhã o sol brilhará novamente”.

25. “Os dias prósperos não vêm por acaso; nascem de muita fadiga e muita persistência”.

26. “Quando se busca a montanha, não se dá importância às pedras do caminho. O sacrifício de subi-la é compensado pela paisagem que descortinamos do alto”.

27. “Devemos ter o espírito de luta aliado ao de iniciativa, assim como o de resignação, a fim de melhor nos adaptarmos às circunstâncias e vencermos as dificuldades que a cada passo se nos deparam na vida”.

28. “Não vos desespereis na adversidade; ela é, freqüentes vezes, uma transição necessária para a boa fortuna”. – “O Melhor Está Por Vir”!

29. Sabedoria: O dicionário Aurélio a define assim: “1). Grande conhecimento; erudição, saber, ciência. 2). Qualidade de sábio. 3). Prudência, moderação, temperança, sensatez, reflexão: Os sofrimentos deram-lhe grande sabedoria. 4). Conhecimento justo das coisas, razão … 5). Rel. Conhecimento inspirado nas coisas divinas e humanas: um dos sete dons do Espírito Santo é a sabedoria”.
Sabedoria é eu sair da direção e entregar-me nas mãos de Deus. Ele não é o reserva a quem recorro nas emergências, mas o Titular. Ele é o Ator Principal, eu, um mero adjunto, apenas um instrumento à Sua disposição. Sabedoria é a capacidade para discernir entre as coisas que posso e devo modificar e aquelas que não. Logo, aceito. Sabedoria é eu procurar entender e fazer a vontade de Deus; com a força que d’Ele virá. Sabedoria é eu recorrer a Ele através da prece, da oração e da meditação, canais de comunicação gratuitos a minha disposição.
Vejamos este fato corriqueiro. Estou viajando no meu carro bem “firme” ao volante. Sou o titular `absoluto’, mas na hora do perigo, do sufoco, grito: Deus ajuda-me – e nesta hora entrego- Lhe o volante. Mas, até aqui Ele foi um mero reserva. Passado o susto, tomo-Lhe o volante e assumo a titularidade.
“O verdadeiro sábio avalia claramente o quanto ainda ignora e se torna desde logo humilde e simples, condescendente e solitário, fraternal e honesto”.
Há um velho ditado (salvo engano) alemão que pode ser aplicado aqui: “Poucos de nós sabem o quanto temos que saber, para saber que pouco sabemos”.

30. “Começamos a ser realmente felizes quando descobrimos e seguimos nossa divina identidade”.

31. “Nas horas de sofrimento, eleve seu pensamento para O Todo Poderoso… Tenha calma e paciência, quem recorre à providência sempre sai vitorioso”.

32. A Maior Burrice: Acredito em Deus, mas não me entrego. Se não quero me entregar é porque quero ser maior e mais do que Ele.
“Assim, todos os nossos recursos humanos a serviço da vontade, careciam de poder suficiente; fracassaram por completo… Cada dia é um dia em que devemos levar a visão da vontade de Deus a todas as nossas atividades.
Ouvi falar da `vontade fraca’ do alcoólico, mas eu sou uma pessoa com uma das mais fortes vontades da Terra! Agora sei que minha incrível força de vontade não é o bastante para salvar a minha vida.
Meu problema não é de `fraqueza’, mas de direção. Quando, sem me diminuir, aceito honestamente minhas limitações e me volto para a orientação de Deus, minhas piores faltas tornam-se meus maiores valores.
Minha forte vontade, dirigida corretamente, me mantém trabalhando até que as promessas do programa tornem-se minha realidade diária”.

33. A Melhor Saída: para o meu alcoolismo, A.A.. Para a minha vida, Deus. Todas as fórmulas para uma vida feliz repousam num ideal Superior.
“Quando uma porta se fecha para nós, há sempre outra que se nos abre. Em geral, porém, olhamos com tanto pesar e ressentimento para a porta fechada, que não nos apercebemos da outra que se abriu”.
“O Acaso É, Talvez, O Pseudônimo Que Deus Usa, Quando Não Quer Assinar Suas Obras”!

34. O Segredo: “Só Por Hoje!”, com a ajuda mútua e Divina. Sim, porque sem esta ajuda, não suportaria resolver os inúmeros problemas causados pelo devastador alcoolismo ativo. Antes, encobertos pela ebriedade e insanidade, mas agora bem salientes e visíveis, por estar sem beber e ter que encara-los de frente.
“Explica-se, então, que é possível praticar com êxito outros Passos do programa do A.A., somente quando o Terceiro Passo tenha sido experimentado com determinação e persistência. Esta afirmativa poderá surpreender os recém – chegados que até agora experimentaram apenas uma deflação continua e uma crescente convicção de que a vontade humana de nada serve. Ficaram convencidos, e com razão, que além do álcool existem muitos outros problemas que também não se vencem apenas com a força de vontade. Contudo, agora parece que há certas coisas que somente o indivíduo pode fazer. Sozinho, e à luz das circunstâncias que o rodeiam, ele precisa desenvolver a boa disposição. Quando adquirir este estado de espírito, ele é a única pessoa que poderá decidir a se esforçar. Tentar fazer isto é um ato de vontade própria”.

35. A Falsidade: Os efeitos do álcool e suas enganadoras promessas. No sofrimento emocional ou espiritual eu recorria a ele. Nunca falhava, a solução era imediata; porém efêmera e complicadora. Sempre que usei esse atalho só me ferreteei. O atalho da geladeira ou do boteco. Se o atalho fosse o melhor caminho, não precisaríamos da estrada.

36. A Verdade: Deus e Suas garantias, este é o caminho. Pode ser mais longo e demorado, porém, eficaz e seguro. Não falha e é duradouro e com o acréscimo muito de conduzir à recuperação; à uma vida mais útil, sóbria, feliz, harmoniosa, mais amadurecida e repleta de tantas outras benesses que conhecemos muito bem. Assim abandonei o atalho e sigo pelo caminho.
“Não percas a tua fé entre as asperezas do mundo. Ainda que os teus pés estejam sangrando, segue para frente, erguendo-te para a luz celeste, acima de ti mesmo.
Crê e trabalha… esforça-te no bem, e espera com paciência.
Tudo passa e tudo se renova na Terra, mas o que vem do Alto permanecerá.
De todos os infelizes, os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmos; porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé, da esperança, e prosseguir vivendo.
Eleva, pois, o teu olhar e caminha… Além da noite escura, brilha a alvorada radiante!
Hoje é possível que a tempestade amofine o teu coração e atormente o teu ideal, fustigando-te com a aflição ou ameaçando-te com a morte; não te esqueças porém, de que, Amanhã será outro dia…”.

37. O Efêmero: “O Nunca Mais”! Ele mal floresce e já fenece. Os valores materiais, a busca da fama, das conquistas, do poder, do dinheiro e do sucesso pessoal. Os valores materiais acima dos espirituais “O ter acima do ser”. “Vaidade nada mais que vaidade, tudo vaidade”.

38. O Duradouro: O “Só Por Hoje”! Os valores espirituais. A prática do programa. “O ser acima do ter!” A observância dos preceitos da religião que cada um de nós, livremente, adotou, se é que adotou.

39. O Paradoxo: Quanto mais dependente de Deus, mais independente me torno. Mesmo a dependência de pessoas, quando prudente, sensata e madura é benéfica. Se dependo do padeiro, não preciso fazer o pão; se dependo do carteiro, não preciso ir ao correio; se disponho da faxineira, ela fará a faxina. Como dependo da eletricidade, desfruto de um maior conforto. Hoje dependo do computador, da Internet, logo, posso ajudar e ajudar-me mais e melhor. Para ver de perto abro bem os olhos, mas para enxergar longe, fecho os olhos e reflito.
“Verificamos não haver necessidade de que ninguém tenha dificuldade com a espiritualidade do programa. Boa vontade, honestidade e uma mente aberta são os elementos essenciais à recuperação. Mas são indispensáveis.
Sou bastante honesto para me aceitar como sou e deixar que isto seja o “eu” que deixo os outros verem? Tenho a boa vontade para ir a qualquer distância e fazer o que for necessário para manter-me sóbrio? Tenho a mente aberta para ouvir o que preciso ouvir, pensar o que preciso pensar, e sentir o que preciso sentir?
Se minha resposta a estas questões é “sim”, sei bastante sobre a espiritualidade do programa para manter-me sóbrio.
À medida que continuo a praticar os Doze Passos, caminho em direção ao coração da sobriedade verdadeira: serenidade comigo mesmo, com os outros e com Deus, como eu O entendo”.

40. “A filosofia da auto-suficiência não está dando fruto. Evidentemente trata-se de uma avalancha esmagadora cuja realização final é a ruína”.

41. “Reconhecemos que a palavra `dependência` é tão repugnante para muitos psiquiatras e psicólogos como para os alcoólicos. Como nossos amigos profissionais, estamos cientes de que existem formas erradas de dependência, e experimentamos muitas delas. Nenhuma mulher ou homem adulto, por exemplo, deveria ter demasiada dependência emocional dos pais. Deveriam ter-se apartado há muito tempo, e se não o fizeram, deveriam despertar desde já para este fato. Justamente esta forma errada de dependência tem levado muitos alcoólicos rebeldes a concluir que qualquer tipo de dependência é intolerável e prejudicial. Mas, a dependência de um grupo de A.A. ou de um Poder superior jamais produziu qualquer efeito pernicioso”.

42. “Portanto, como faria um indivíduo de boa disposição para seguir entregando sua vontade e sua vida aos cuidados de um Poder Superior? Vimos bem quando decidiu contar com A.A. para a solução de seu problema alcoólico. Agora, porém, deve ter-se convencido de que tem problemas que não só o álcool, e que alguns deles se recusam a ser solucionados apesar da máxima determinação e coragem que ele possa reunir. Eles simplesmente não desaparecem; tornam-no desesperadamente infeliz e ameaçam sua recém-encontrada sobriedade. Nosso amigo ainda é vitimado pelo remorso e sentimento de culpa cada vez que pensa no ontem. A amargura ainda o domina quando resmunga sobre aqueles que continua invejando e odiando. Sua insegurança financeira o atormenta e o pânico o assalta sobre as pontes deixadas atrás, que o álcool conseguiu queimar e como desmanchar aquela embrulhada danada que lhe custou o afeto da família e que o separou dela? Nada poderá ser feito com apenas a sua coragem e a vontade desassistida. Certamente, chegou a hora de depender de Alguém ou Alguma Coisa”.

43. “É quando tentamos adaptar a nossa vontade à de Deus que começamos a usá-la corretamente. Para todos nós esta foi uma revelação maravilhosa. Todo nosso problema resultou do abuso da vontade. Havíamos tentado atacar nossos problemas com ela ao invés de modificá-la para que estivesse de acordo com a vontade de Deus para conosco. A função dos Doze Passos de A.A. é tornar isto cada vez mais possível, e o Terceiro Passo é aquele que abre a porta”.

44. O Grande Teste: Tudo quanto estou afirmando pode parecer abstrato e teórico, mas na verdade é concreto, sólido, palpável condensado, consistente e realizável. Tudo isso está sendo comprovado por milhões de AAs., de boa vontade, em 147 países no mundo, com a solução de seus problemas alcoólicos do dia-a-dia, antes sem solução. Tudo isso foi testado a ferro e fogo, na ponta das baionetas, nos campos minados, nos bombardeios aéreos, na mira dos fuzis, das bazucas e dos canhões. Tudo isso passou pelo crivo das balas da Segunda Guerra Mundial. Companheiros nossos, incluindo o co-fundador do A.A. no Brasil, lutaram com bravura e destemor, desde as praias de Salermo até o Alaska, com menos recaídas emocionais dos AAs. que ficaram no conforto de suas casas e, até mesmo dos soldados não alcoólicos. Será que preciso de mais argumentos?
“Deus Fez Os Abismos Para Que O Homem Compreendesse As Montanhas”.

45. “Quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes, na verdade, nos tornamos. Portanto, a dependência, como se pratica em AA, é realmente um meio de se obter a verdadeira independência de espírito.
Na vida diária, fica-se surpreso ao descobrir o quanto somos realmente dependentes e quão inconscientes somos dessa dependência. Toda casa moderna tem fios elétricos que levam força e luz a seu interior. Aceitando nossa dependência dessa maravilha da ciência, descobrimos que somos pessoalmente mais independentes, que nos sentimos mais à vontade e em segurança. A força corre onde ela é necessária. Silenciosa, certamente a eletricidade, essa estranha energia que tão poucas pessoas entendem, vem de encontro às nossas necessidades diárias mais simples.
Embora aceitemos prontamente esse princípio de saudável dependência em muitos de nossos assuntos temporais, muitas vezes resistimos fortemente a esse mesmo princípio, quando nos pedem que o apliquemos como um meio de crescer espiritualmente. É claro que nunca conheceremos a liberdade sob a dependência de Deus, até que tentemos buscar Sua vontade em relação a nós. A escolha é nossa”.
“Deus nos guia sempre, dando-nos a orientação de nossa vida. Mas precisamos ser receptivos, para ouvir Sua voz, sabendo-a interpretar através da circunstância que cercam nossa vida, levando-nos ao maior progresso espiritual de nosso ser. Procure meditar silenciosamente, para ouvir a voz de Deus, que o guia, sem jamais abandoná-lo”. “O Senhor te guardará de todo o mal; ele guardará a tua vida”.
“Eis o como e o porquê de tudo isto. Antes de mais nada, tivemos que deixar de fazer o papel de Deus. Não resultava. Depois decidimos, a partir daí, que seria Deus que nos ia dirigir neste drama da vida. É Ele quem orienta e nós somos os Seus agentes. Ele é o Pai e nós os Seus filhos. A maioria das boas idéias são simples e este conceito foi a pedra angular do novo arco de triunfo pelo qual passamos para a liberdade”.
“Uma vez assumida esta atitude com sinceridade, seguiu-se um conjunto de coisas extraordinárias. Tínhamos um novo Empregador. Sendo todo poderoso, Ele providenciava tudo o que precisávamos se nos mantivéssemos perto d’Ele e desempenhássemos bem o Seu trabalho. Assentes nesta base, deixamos progressivamente de estar tão absorvidos em nós mesmos, nos nossos pequenos planos e projetos. Interessa-nos cada vez mais em compreendermos como poderíamos contribuir para a vida. À medida que sentíamos afluir esta nova força, que gozávamos de paz de espírito, que descobríamos que podíamos encarar a vida satisfatoriamente, que nos tornávamos conscientes da Sua presença, começamos a perder o nosso medo do presente, do amanhã e da vida depois da morte. Tínhamos renascido”.
“Estávamos agora no Terceiro Passo. Muitos de nós dissemos ao nosso Criador, como O concebíamos: `Ofereço-me a Ti, meu Deus, para que Tu edifiques através de mim e faças de mim o que quiseres. Liberta-me da escravidão do ego para que melhor possa cumprir a Tua vontade. Remove as minhas dificuldades e que a vitória sobre elas sirva de testemunho do Teu Poder, do Teu Amor e do Teu modo de vida àqueles que eu possa ajudar. Que eu faça sempre a Tua vontade!’ Pensamos bem antes de dar este passo, assegurando-nos que estávamos prontos, que já nos podíamos abandonar totalmente a Ele”.

47. Humildemente, sugiro aos companheiros para estudarem e praticarem a programação de A.A., contida na Literatura, disponível nos Grupos e nas ESLs, pelo preço de reposição.

48. Os versículos Bíblicos, pertinentes a este Passo, os incluí para enriquecimento do tema porém, sem nenhuma conotação religiosa.

I Co. 2, 5. “Para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus..”

1Pd. 5,7. ” Coloquem nas mãos de Deus qualquer preocupação, pois é ele quem cuida de você.”

I Tm. 1,19. “Conservando a fé, e uma boa consciência, a qual alguns havendo rejeitado, naufragaram no tocante à fé;”

Ap. 3,20-21. ” Já estou chegando e batendo à porta. Quem ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entro em sua casa e janto com ele, e ele comigo. Ao vencedor, darei um prêmio:…”

At. 21, 14. “… Faça-se a vontade do Senhor; e calamo-nos.”

Eclo. 1, 1. ” Toda sabedoria vem do Senhor e está com ele para sempre.”

Eclo. 1, 23. ” Se você deseja ter sabedoria, observe os mandamentos…”,

Eclo. 14, 20-21. “Feliz o homem que se dedica à sabedoria, que reflete com inteligência, que medita no coração sobre os caminhos da sabedoria e com a mente penetra os segredos dela.”

Ef. 5,17. “Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.”

Gl.3, 25. “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.”

Hb. 11, 1. “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam…”,

Hb. 11, 6. “Ora, sem fé é impossível agradar a Deus…”;

Lc. 17, 6. “Respondeu o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.”

Mt. 6, 25-34. “Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros? Quem de vocês pode crescer um só centímetro, à custa de se preocupar com isso? E por que vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, lhes digo: ‘Nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, muito mais ele fará por vocês, gente de pouca fé!
Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. Pelo contrário, em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo todas essas coisas. Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade.”

Mt. 8, 26. “Ele lhes respondeu: Por que temeis, homens de pouca fé?…”

Mt. 9, 29. “Então lhes tocou os olhos, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé.”

Mc.11, 22. “Respondeu-lhes o Senhor: Tende fé em Deus.”

Pr. 1, 7. “O respeito a Deus é o princípio do saber, porém os idiotas desprezam a sabedoria e a disciplina.”

Pr. 4, 8-9. “Conquiste a sabedoria, e ela o exaltará. Abrace-a, e ela o honrará…”.

Pr. 8, 11. “Porque a sabedoria vale mais do que as pérolas…”,

Pr. 16, 3. “Confie a Deus o que você faz, e seus projetos se realizarão.”

Pr. 16, 9. “O homem planeja o seu caminho, mas é Deus quem lhe dirige os passos.”

Rm. 5, 2. “Por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus.”

Rm. 14, 22. “A fé que tens, guarda-a contigo mesmo diante de Deus…”

Rm. 15, 13. “Ora, o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz na vossa fé, para que abundeis na esperança pelo poder do Espírito Santo.

Sl. 37, 5. “Ponha a sua vida nas mãos de Deus, confie nele, e ele o ajudará.”

Sl. 121, 2-8. “O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não dormitará. …O Senhor te guardará de todo o mal; ele guardará a tua vida. O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre.”

Tg, 1, 3. “Sabendo que a aprovação da vossa fé produz a perseverança;”

Tg. 2, 14-26. “Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Por acaso a fé poderá salvá-lo? …Pois bem! Mostra-me a sua fé sem obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé’. … De fato, do mesmo modo que o corpo sem o espírito é cadáver, assim também a fé: sem obras ela é cadáver.”

* Bibliografia: “Os Doze Passos”- “Livro Azul Edição Brasileira” – “Livro Azul Edição Portuguesa”- “A.A. Atinge A Maioridade” – “Na Opinião Do Bill” – “Coletânea I E Ii.”- F., Aluízio. “Otimismo Em Gotas” -Dantas, O. R. – Minutos De Sabedoria” – Torres Pastorino, Carlos. “Novo Dicionário Da Língua Portuguesa” – F. H. B. , Aurélio. “Sagradas Escrituras” – Edição Pastoral. “Salmos Na Linguagem De Hoje” – Sociedade Bíblica Do Brasil.

CONFORTO RADICAL

“…começamos a nos submeter à maneira de viver de A.A., dia após dia, em tempo bom ou mau.”

Há pouco tempo, num sábado, fiquei chocado ao visitar João, um velho amigo e companheiro de muitos anos em A.A. João tinha sido sempre um membro fiel às reuniões e dedicado a viver os Doze Passos de Recuperação. Por isso fiquei espantado por encontrá-lo entregue à cama. Sete meses atrás, fez uma cirurgia séria e não se levantou mais. Ele não me explicou a natureza dessa outra doença, mas senti que ele mesmo se convenceu de que “nunca mais” iria escapar da cama e desse aniquilamento. João sente-se confuso, desorientado e com uma profunda depressão que o leva a pensar em apertar o gatilho de um revólver.

Diante dessa situação, fomos conversando e tentamos aplicar os três primeiros Passos de A.A. à sua situação atual. Afinal, João está vivendo uma experiência de impotência total e absoluta, que inclui fraqueza, desorientação, incapacidade de sentar-se na cama e de alimentar-se sozinho. Está conhecendo, para além da impotência perante o álcool, a mais completa impotência perante a vida e a morte. Mas, em vez dessa experiência ser uma desgraça (como lhe pareceu a princípio), a verdade é que está se tornando uma graça de Deus – uma porta para o Segundo Passo.

Prostrado ali, no seu leito de dor, João está vindo a acreditar que um Poder Superior – o Deus da sobriedade, que por muitos anos já o libertou do alcoolismo – esse Poder Superior à fraqueza, à morte, à depressão e ao desespero – pode sim devolvê-lo à sanidade. Talvez não recupere mais a saúde do corpo abatido, mas é possível, sim, recuperá-la nos pensamentos e nas emoções!

Assim, em vez de pensar que é um “coitado”, “esquecido” ou “castigado” por Deus, João pode lembrar-se do que já sabe pelos seus longos anos de A.A.: que esse Deus da sobriedade nunca se esquece de ninguém e é também Deus de misericórdia – o Deus amantíssimo da Segunda Tradição – que só perdoa e ama e faz tudo concorrer para o bem dos que Nele confiam.

E foi desse modo que eu e João, dois velhos amigos e companheiros de A.A., chegamos junto ao Terceiro Passo. Assim como, anos atrás, nós dois conseguimos aceitar nosso alcoolismo e nossa necessidade de A.A., chegamos a aceitar nossa total impotência perante a vida e a morte, e celebramos juntos o Terceiro Passo: decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados do Deus da sobriedade!

Eu sou mais velho do que João e imagino que não está longe o dia de eu também me encontrar, talvez, preso numa cama. Contanto que eu não esteja mais preso à garrafa e com meus horizontes reduzidos ao tamanho de um copo, quero seguir o exemplo de A.A. que conheço no João. Quero, como ele, estar pronto para praticar os Passos Um, Dois e Três de maneira radical.

Em 1984, quando descobri que tinha um câncer de bexiga, comecei a me desesperar. Mas o Poder Superior enviou-me um companheiro de A.A. que é médico e que me acalmou com duas frases: “Nosso Poder Superior já está nos salvando da terceira doença que mais mata. Será que Ele não vai cuidar desse problema???”. Esse companheiro me ajudou a agarrar a sabedoria de A.A. contida no Terceiro Passo, e só por hoje!

Por isso confio que, chegando à minha última experiência de impotência, terei a graça de celebrar os primeiros três Passos de A.A. de maneira radical.

(Pe. Guilherme, Curitiba/PR)

Vivência 71 – Maio/Jun 2001

EU ERA “O BOM”

“Levei quarenta anos para reconhecer!”

Meu nome é Murilo, hoje eu não bebi. Digo enfaticamente “hoje” porque dentro da filosofia de A.A. aprendi a viver um dia de cada vez. Permitindo que o passado só me sirva de lição e consulta nos momentos que eu determinar e não mais me martirizo com os problemas do passado nem me aflijo com o imaginário do futuro.
Quando cheguei em A.A. minha vida estava um inferno. Embora muito enfermo fisicamente e emocionalmente tinha muito orgulho, era prepotente; achava-me excelente em tudo; muito sábio, muito humilde, muito caridoso, muito verdadeiro, enfim tinha o conceito próprio como a melhor das criaturas, vítima de tudo e com grande desprezo pelas demais pessoas.
Eu era o bom!
Esta confusão toda estava muito bem escondida dentro de mim e levei quarenta anos para reconhecer; até hoje tenho dificuldade de expor meus defeitos de caráter, mas graças aos depoimentos dos companheiros percebo meus terríveis defeitos e hoje já consigo falar nestes buscando melhorar.
O álcool me levou às outras drogas e busquei A.A. pelo uso diário e incontrolável da cocaína e considerava-me perfeito, correto e justo. Quanta iniqüidade pratiquei! Só pude perceber freqüentando as reuniões de A.A.
Graças às nossas reuniões e ao nosso Poder Superior, reconhecendo minha grande ignorância, minha falsidade e outros tantos defeitos de caráter minha vida tornou-se muito melhor. Já não necessito sustentar aquelas falsas imagens de que me faziam valer, que me parecem terem sido meu sustentáculo, valores distorcidos e enganosos.
Agora que meu orgulho abre espaço aos primeiros suspiros de humildade tudo em minha vida é mais leve e minhas emoções são confortáveis enquanto me aceito como ser ignorante, passível de erro, porém grande vencedor.
Estou vencendo o terrível monstro que sempre foi meu maior inimigo: eu mesmo ou parte de mim e consigo vencê-lo vivendo minha vida de 24 em 24 horas graças aos ensinamentos que recebi em salas de reuniões de Alcoólicos Anônimos e graças ao Poder Superior.
Através dos depoimentos de companheiros, através de nossa literatura e através dos desabafos que fiz em meus depoimentos surgiram novos vínculos de relacionamento distantes dos de outrora.
Dentro de A.A. encontrei uma sintonia com Deus na forma como O concebo, me permitindo fazer uma conexão com forças espirituais que jamais havia encontrado.
Muito Obrigado!

Sérgio M.B./Laguna/SC

Vivência nº109 – Set./Out. 2007.

OLHANDO PARA DENTRO

OLHANDO PARA DENTRO

Os Quatro Absolutos
Honestidade – Altruísmo – Amor – Pureza

OS QUATRO ABSOLUTOS

Entramos nesse grande Grupo do qual tanto ouvimos falar, mas ao qual nunca tínhamos comparecido. Do vestíbulo vimos uma placa na parede distante que dizia ” Vá com calma”. Nos voltamos à esquerda para deixar nosso casaco e na outra ponta da mesma parede uma placa dupla alertava, ” Primeiro as Primeiras Coisas “. Então,voltada para a frente da Sala, no alto, acima da plataforma vimos com a maio letra de todas, ” Só pela Graça de Deus “. Então, quando nossos olhos baixaram, ali, exatamente em frente ao pódio havia outra com quatro palavras. ” Honestidade, Altruísmo, Pureza, Amor “.
Nos próximos dez minutos, enquanto estávamos sem ser notados na ultima fila das cadeiras esperando o início da reunião, muitos pensamentos agitaram-se em uma mente que verdadeiramente estava aturdida por esse primeiro contato cara a cara com os Quatro Absolutos após tão longo tempo.
Nós começamos a buscar destemidamente nosso progresso em direção a esses Absolutos após longos anos de sobriedade. O Resultado dava pena, muito baixo. Nos lembramos de um depoimento recente, no qual um humilde e paciente irmão contava sua história e frisava seu enorme sentimento de gratidão como um ingrediente fundamental de seus quinze anos de sobriedade.
E listando as coisas com as quais se sentia grato, mencionou como é confortável ser completamente honesto. Certamente não disse nada para se orgulhar. Simplesmente disse que contou à sua mulher e a seus amigos a verdade da melhor maneira que pode, nada de estórias de pescador para acomodar as coisas. Era honesto com dinheiro e coisas materiais, etc…
Esse era realmente um companheiro humilde e agradecido. Certamente não se parecia em nada com o homem desenhado no cartaz, falando para uma grande platéia, batendo na mesa e com o queixo empinado proclamando em alto e bom som que era mais humilde do que qualquer um dos presentes, e que podia provar isso.
Apenas pense em ” completa honestidade” . Não seria a eterna e interminável busca da verdade na qual ninguém atinge a perfeição?
O que os Quatro Absolutos significam para a maioria de nós? Palavras são como ferramentas. Como qualquer outra ferramenta se tornam em emperradas e enferrujadas quando não utilizadas. E, o mais importante, devemos nos familiarizar com as ferramentas, compreendê-las, e sempre aprimorar nossa perícia em usá-las. Do contrário, o produto final, se é que haverá algum, será pateticamente pobre.
Nós estamos nos lembrando de um amigo da irmandade, orgulhoso como outros alcoólicos de poder mudar rapidamente de um hobby ou interesse para outro, sem na realidade, fazer nada em nenhum deles. ( Isso lembra alguém que você conhece?) Certa vez esse amigo decidiu que com trabalhos manuais resolveria alguns problemas, acalmaria seus nervos, e talvez fosse o meio para encontrar serenidade e equilíbrio. Providenciou uma coleção impressionante de catálogos de ferramentas com amigos já adictos ao hobby da marcenaria.
Comprou uma cara coleção de ferramentas, uma porção de equipamentos. Contratou um carpinteiro para construir uma oficina em seu porão, instalar o equipamento e montar prateleiras sob medida para abrigar suas ferramentas. Mas no fim das contas,nem uma única apara, nem um grão de serragem batizou aquele chão. Essas ferramentas serviam apenas como pretexto para manter nosso amigo ocupado quando não ia às reuniões, não executada serviços do Décimo Segundo Passo ou se engajava em outra qualquer alegre atividade em A.A.
Quantos de vocês serão completamente honestos e admitirão que colocaram os Quatro Absolutos em um pedestal, um pouco enferrujado talvez pela falta de uso mas bom ainda para ser mostrado. Figuradamente, quantos de nós ainda mantemos uma oficina para os Absolutos, quantos admitiremos que não muitas aparas e serragem abençoaram esse chão como fruto do nosso trabalho? Ou mesmo tendo assumido que a atividade persistiu, quantos admitirão que o produto final não merece nenhum prêmio por qualidade?
Essa falta de qualidade apenas significa falta de objetivos ou a falta de qualquer esforço para alcançar esses objetivos.
Temos de reconhecer os Absolutos como parâmetros para os mais altos e finos objetivos de qualquer homem. Mas o reconhecimento só não é o suficiente. Somos obrigados a usar as ferramentas.

Honestidade
Nós devemos nos perguntar incessantemente, “É verdadeiro ou falso?” . Pois a honestidade é a busca eterna da verdade. É de longe o mais difícil dos Quatro Absolutos, para qualquer um, ma se principalmente para nós nessa irmandade. O bebedor problema desenvolve grandemente a arte de enganar. Muitos ( e assumimos a culpa) simplesmente viramos a página e relaxamos. Isto é errado. A verdadeira virtude na honestidade reside na busca dedicada e persistente dela. Não há zona de meio termo, de relaxamento, ou é toda a força adiante constantemente ou não é a honestidade o que estamos procurando. A incansável busca da verdade o libertará, mesmo que você não a encontre totalmente. Nós não temos de escolher e de perseguir a falsidade. Tudo o que temos a fazer é relaxar em nossa busca da verdade que a falsidade nos encontrará.
A busca da verdade é a mais nobre expressão do espírito. Se um ser humano dedicar-se de corpo e alma a fazer ou a produzir algo de bom, a sua engenhosidade por si só cuidará de sua honestidade. O mais nobre dos prazeres que podemos ter, é descobrir uma grande e nova verdade e abandonar velhos conceitos. Quando não é ativamente buscada, a verdade raramente vem à luz, ao contrario da falsidade que vem. A verdade é vida e a falsidade a morte espiritual. É um imperecível e incansável instinto para a verdade o que conta. Honestidade não é uma política. Tem de ser um constante e consciente estado de espírito.
A perfeição está perto de ser irmã gêmea da honestidade, mas a imperfeição e o exagero são pelo menos “priminhos” da desonestidade. Nós temos a capacidade de poder nos convencer a acreditar em quase qualquer coisa, graças à racionalização, (outra de nossas especialidades) e portanto é bom iniciar e terminar nosso inquérito com a pergunta,” É a verdade?” Qualquer homem que ama buscar a verdade é precioso para qualquer irmandade ou sociedade. Qualquer violação intencional da honestidade fere não só a saúde do transgressor, mas a irmandade como um todo. Por outro lado, se formos honestos até os limites de nossa habilidade, o apetite básico para a verdade nos outros, que pode estar adormecido, mas não morto, levantar-se-á majestosamente para se juntar a nós. Como na sobriedade, é o poder do exemplo que faz o trabalho.
É mais simples parecer do que ser honesto. Nós devemos lutar para sermos exatamente aquilo que parecemos ser. É mais fácil ser honesto com os outros do que conosco mesmo. Nossos auto inventários ajudam, pois o homem que se conhece está pelo menos às portas da honestidade. Quando tentamos aumentar nossa estatura aos olhos dos outros, a desonestidade está por trás. Quando a falsidade se manifesta estamos retornando ao velho carrossel, porque a falsidade não apenas discorda da verdade,mas discute com as outras formas de falsidade. Se lembra?
Uma coisa é desejar devotadamente que a verdade esteja do nosso lado, e é exatamente outra o querer sinceramente estar do lado da verdade. A honestidade poderia parecer o mais duro de nossos Quatro Absolutos e ao mesmo tempo, o mais excitante desafio. Nossa sobriedade é um dom, mas a honestidade é uma graça que precisamos conquistar e lutar constantemente para proteger e aumentar. “É verdadeiro ou falso?” Vamos fazer dessa, uma incessante pergunta com toda a força da sobriedade e inteligência que dispomos.

Altruísmo
A primeira vista, altruísmo parece ser o mais simples de todos para compreender, definir e cumprir. Mas nós temos um longo caminho a percorrer, pois éramos mestres exatamente do oposto, durante nossos dias de bebida.
Uma visão cuidadosa mostrará que o altruísmo no seu sentido mais delicado, é a maneira pela qual devemos nortear a nossa forma de viver. Não é fácil ser descrito em detalhes, mas em uma ultima análise nos trará o desapego que é a pedra de toque espiritual, o significado real de nosso anonimato. Continuando com o método de questionamento para compreender o absoluto, sugerimos que se pergunte incessantemente, para julgarmos o que estamos para fazer, pensar ou decidir, “Como isso afetará o outro companheiro?”
Nosso altruísmo deverá incluir não somente o que fazemos para os outros, mas também o que fazemos para nós mesmos. Eu certa vez ouvi um companheiro da antiga dizer que esse era um programa 100% egoísta a um respeito,a saber o fato de que temos de manter nossa própria sobriedade e a sua qualidade antes de podermos ajudar aos outros de uma forma máxima. Nós já sabemos que precisamos nos dar aos outros para mantermos a nossa própria sobriedade, num espírito de completo desapego sem nenhum desejo de recompensa. Como conciliar essas duas premissas.
Bem, por um lado, ganhamos na proporção direta em que efetivamente ajudamos aos outros. Quantos de nós realizaram trabalhos em hospitais simplesmente porque precisávamos disto para permanecermos sóbrios? Aqueles que pensam apenas em sua necessidade e pouco refletem no fato de que estão realmente fazendo um bem para aqueles que estão no hospital, estão perdendo o barco. Sabemos, pois costumávamos atender a pedidos em hospitais da mesma forma como tomávamos comprimidos de vitaminas.
Certa vez,no início de nossa programação sóbrio, fomos chamados a atender uma paciente feminina. Não havia muitas mulheres prestando serviço naquela época e os homens eram chamados para ajudar. Nunca esquecerei da ansiedade a caminho daquela enfermaria. E após quase duas horas de enriquecedora conversa, deixamos uma das mulheres mais nobres com quem jamais encontrei, preocupada se tínhamos sido de ajuda, ferido, ou talvez não ter conseguido passar a mensagem. Algumas de suas perguntas permaneceram conosco. Pensamos depois em melhores respostas, e voltamos várias vezes a visitá-la.
Somos ajudados em nossa longa jornada para o altruísmo por nossa grande missão de compreender, o que as vezes parece tão precioso quanto a graça da própria sobriedade. Mas a qualidade não pode ser restrita apenas ao que fazemos pelos outros. Temos de ser altruísta até mesmo em nossa busca de auto preservação. A maior parte da nossa ajuda aos outros vem do exemplo de nossas próprias vidas.
Há alguma proteção contra esse primeiro gole que relaciona nosso pensamento ao que ele possa fazer pelos outros, aqueles cujo amor altruísta nos guiaram no início e aqueles quais nós por nossa vez viemos mais tarde a guiar? Nós somos de novo lembrados do ultimo verso de um poema anônimo. “Devo me lembrar enquanto caminho para dias de Sobriedade, com altos e baixos, o que devo aparentar para aquele que sempre me segue.”

Amor
Nós freqüentemente aprendemos mais com as perguntas do que com as respostas. Você alguma vez ouviu uma pergunta que o levou a pensar por dias, e até semanas? As perguntas que não tem uma resposta fácil são freqüentemente a chave para a verdade. No entanto ,nesse artigo a respeito dos Quatro Absolutos, somos confrontados com perguntas que devemos nos perguntar repetidamente durante nossa vida. A integridade de nossas respostas a essas perguntas determinará a qualidade de nossa vida, e pode determinar a continuidade de nossa sobriedade.
Uma boa pergunta a nos fazermos no tocante ao amor poderia ser, “Isso é feio ou é bonito?” Nós somos especialistas em fealdade. Nós realmente estivemos lá. Nós não somos especialistas em beleza, mas já provamos dela um pouco, e estamos famintos por mais. Amor é beleza. Vindo das profundezas do temor, agonia física, tortura mental e estagnação espiritual, nós nos sentimos completamente mal amados, impregnados de auto-piedade, envenenados pelos ressentimentos e devorados por um ego orgulhoso que com o álcool trouxe uma completa cegueira. Nós recebemos compreensão e amor de estranhos e progredimos quando por nossa vez o devolvemos a novos estranhos. É simples assim. Felizmente para nós o amor está inspirando desde o início; até mesmo no jardim de infância que é aonde muitos de nós ainda estamos.
A velha canção diz que o “amor é a coisa mais maravilhosa do mundo” (Love is the many splendoured thing). Ao darmos, nó o recebemos. Mas a alegria de receber nunca consegue igualar à verdadeira emoção de dar. Imagine que essa grande missão de amor que é a nossa, raramente é experimentada pelos não alcoólicos, e você então tem uma nova razão para a gratidão. Poucos tem o privilégio de salvar vidas. Poucos tem a rica experiência de serem os ajudantes de Deus na doação de uma segunda vida. O amor é o início do caminho do pobre homem em direção a Deus. Alcançamos nosso Décimo Segundo Passo quando damos amor àquele que hoje é tão pobre quanto nós o fomos ontem. Um homem orgulhoso demais para saber que é pobre, afastou-se de Deus com ou sem o álcool. Nós estivemos ali também. Mas se ele tiver algum problema com a bebida, nós poderemos lhe mostrar o caminho através do amor, compreensão e a nossa própria experiência.
Quando vivemos para a nossa própria sobriedade, nós de novo nos transformamos em pedintes no sentido espiritual, cegos de novo pela poeira do orgulho e do egoísmo. Logo estaremos definhando com a fome a nos devorar, e até mesmo perdendo a sobriedade. Amor é “dar-se” e a menos que o façamos, nosso progresso será perdido. Cada um deve a Graça dessa segunda vida de sobriedade a cada outro ser humano que encontre na eterna onipresença de Deus, e em especial aos alcoólicos que ainda sofrem. Não dar-se traz a desolação de uma nova pobreza aos alcoólicos sóbrios.
Quando oferecemos amor, oferecemos nossa vida; estamos preparados para fazê-lo? Quando outro nos oferece amor, nós temos a graça de receber? Quando o amor é oferecido, Deus está lá, nós recebemos Ele. O desejo de amar e o desejo de Deus; nós fizemos nosso Terceiro Passo? Pergunte-se,”Isso é feio ou é bonito?” Se é realmente bonito então é o caminho do amor, é o caminho de A.A.,e é a vontade de Deus na forma em que O concebemos.

Pureza
Pureza é simples de compreender. Pureza é não conter imperfeições. Gerard Groot em seu famoso livro de meditação do século XIV, incluiu um ensaio de nome , “De Mente Pura e Intenção Simples”, no qual diz : ” Com duas asas o homem eleva-se das coisas terrenas, elas são a Simplicidade e a Pureza. A Simplicidade leva em direção a Deus; a Pureza apreende e prova esse mesmo Deus”.
A pureza é uma qualidade tanto da mente quanto do coração, ou talvez devêssemos falar da alma humana. Até quanto no que diz respeito à mente é simplesmente responder a questão, ” Está certo ou está errado? ” Isso vai ser muito fácil para nós. Não há região intermediária entre o certo e o errado. Até mesmo em nossos dias de ativa sabíamos a diferença. Com muitos de nós, o saber a diferença era a causa,ou pelo menos parte da causa de nosso beber. Nós não queríamos encarar a realidade de fazer o errado. Não é no domínio dos aspectos mentais que reside o nosso problema com a pureza. Nós todos podemos responder as perguntas listadas abaixo com a maior facilidade e dar a resposta certa.
É no domínio do coração e do espírito que encontramos a dificuldade. Nós sabemos o que é o certo; mas temos a dedicada vontade de fazê-lo? Assim como um desejo verdadeiro de parar de beber é necessário para que nossa forma de vida possa se tornar producente para nós; da mesma forma precisamos da determinação para fazer o que sabemos ser o certo, se quisermos alcançar algum grau mensurável de pureza. Foi muito bem dito que inteligência é disciplina. Em outras palavras o saber pouco significa se não for colocado em ação. Nós sabíamos que não podíamos tomar o primeiro gole, se lembram? A menos que tenhamos transformado nosso conhecimento em ação, nas nossas vidas, o seu valor será nulo. Não somos inteligentes sob certas circunstâncias. Assim é com a decência em nossas vidas. Nós sabemos o que é certo, mas ao menos que ajamos de acordo, o conhecimento estará isolado no vácuo.
Ao discutirmos altruísmo mencionamos que inclui mais do que fazer para os outros. Repetimos que isso inclui tudo o que fizermos, já que nossa ajuda aos outros vem através do nosso exemplo. Em lugar nenhum isto é tão verdadeiro quanto na decência e retidão de nossa vida. Se quisermos gozar da paz e contentamento que uma consciência pura pode nos trazer, e a alegria e ajuda que isso traria para os outros, deveríamos ser mais determinados no tocante a nosso progresso espiritual. Caso a nossa rendição no Terceiro Passo não tenha sido absoluta, talvez devamos dar mais atenção ao Décimo Primeiro Passo. Se você voltou sua vontade e sua vida para Deus como você O concebe, a pureza lhe virá no devido tempo porque Deus é Bom. Nós vamos não só nos encaminhar em direção a Deus, mas também provar Dele.
Na Pureza assim como na Honestidade, a virtude reside na nossa busca. É assim mesmo como na busca da verdade, dando tudo de nós na constante procura, acabará nos libertando mesmo que não tenhamos conseguido alcançá-la. Esta procura é uma jornada emocionante e desafiadora. A caminhada é tão importante quanto o destino, apesar do avanço ser lento. Como Goethe diz: “No viver assim como no saber, devemos nos ligar da maneira mais pura”.

Os Absolutos – Um Sumário
Nossa consideração dos absolutos individualmente leva a algumas conclusões. Os Doze Passos representam a nossa filosofia. Os Absolutos representam nossos objetivos em auto-ajuda, e a forma de conseguir. Honestidade, sendo a interminável busca da verdade, é o nosso mais difícil e desafiador objetivo. É uma jornada longa para qualquer um, mas maior ainda para nós o encontrar a verdade. Pureza é fácil de definir. Sabemos o que é certo e o que é errado. Nosso problema aqui é o incansável desejo de fazer o que é certo. Altruísmo é a corrente na qual a nossa vida de sobriedade deve fluir, a avenida pela qual marcharemos triunfantes pela Graça de Deus,sempre alerta para não acabar se transviando em alguma alameda escura ao longo do caminho. Nosso altruísmo precisa estar presente na totalidade de nossa vida e não apenas no que desejamos para os outros. Pois o maior presente que damos aos outros é o exemplo de nossa vida como um todo. O amor é o meio, o sangue da boa vida que circula e que mantém viva sua funcionalidade e beleza. Não é tão somente o nosso sistema circulatório, mas a nossa forma de comunicação com os outros.
A verdadeira virtude está na busca desses Absolutos. É uma jornada interminável, e o nosso prazer e alegria deve vir de cada passo do caminho,e não ao final, já que é interminável. Cícero disse, “Se você procurar laboriosamente o bem, o trabalho passa e o bem permanece, mas se você corteja o mal através do prazer, o prazer passa mas o mal permanece”.Nossa vida é um diário no qual pretendemos escrever uma história, e freqüentemente escrevemos outra. Quando comparamos essas duas é que temos a nossa hora mais humilde. Vamos comparar através do nosso auto inventário e fazer de hoje um novo dia. Os homens que conhecem a si próprios, pelo menos deixam de ser tolos. Lembre-se que ao seguir a Regra Áurea, a vez de fazer o movimento é sempre sua. Amar o que verdadeiro e certo e não fazê-lo, na realidade não é amá-lo; e estamos tentando encarar a realidade, lembra-se? A arte de viver na verdade e no certo é a mais sutil de todas as artes, e como toda bela arte, deve ser aprendida vagarosamente e praticada com um incessante cuidado.
Devemos nos aproximar do objetivo dos Absolutos humildemente. Nós rogamos por essas qualidades e às vezes esquecemos que essas virtudes devem ser conquistadas. As portas da sabedoria e da verdade estão fechadas para os que se acham sabidos, mas estão sempre abertas para os humildes e dispostos a aprender. Descobrir o que é Verdade e praticar o bem são as metas mais sublimes da vida. Se formos humildes,não nos deteremos,mas atingiremos nossa maior estatura, graças ao nosso Poder Superior quão diminuta é a nossa grandeza. Lembre de nossa quatro perguntas,”É verdadeiro ou falso?”,”é certo ou errado?”,”Como isso afetará os outros companheiros?”e “É feio ou é bonito?” Respondendo a essas questões todos os dias com absoluta integridade, e seguindo os ditames dessas respostas, um dia de cada vez, certamente seremos bem orientados em nossa jornada para absorver e aplicar os Absolutos

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Tradução : Comp. Ricardo Gorobo

A Espiritualidade em A.A. e a Qualidade dos Relacionamentos

“Este estudo e questionamento são para fazermos conosco mesmos, ou com nossos amigos e ou companheiros, fora das atividades de A.A., pois este é dos assuntos altamente controversos”.

A espiritualidade é um estado da mente e da conduta, que tem origem na Divindade, e que responde a eterna pergunta: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? E qual é o propósito da vida? O indivíduo que é movido pelas leis Divinas obtém inspiração no seu interior, e a manifesta no seu modo de ver a finalidade do ter, e do modo reto e positivo de pensar e agir, transcendendo toda intelectualidade e propósito objetivo humano; ele subordina sua vida objetiva, suas ações, seus pensamentos e seus sentimentos a uma reta conduta, que advém do contato com a Consciência Subjetiva ou Superior. Esta inclinação de reta conduta tem origem na alma, psiquismo ou mente de todo o ser humano, e se manifesta diferentemente em cada um, correspondendo às diversas fazes do seu desenvolvimento espiritual.

Vindo a espiritualidade de um Poder Superior que habita em nós, sua origem é perfeita, e a obediência a esse sussurro Divino só pode resultar em boa conduta, felicidade e paz.

A manifestação da Divindade que está em nós, é expressa pela Consciência Subjetiva que através de voz silente nos diz: Não é por ai, ame, tenha compaixão, não faça isso, perdoe, ajude, esqueça, seja justo, firme, paciente, prudente, tolerante, humilde, complacente, etc., porém não seja bonzinho e permissivo só para agradar, ser prestigiado e bem quisto. Ser amoroso é também ser firme verdadeiro e respeitoso, mesmo que isso desagrade a alguém. Esta manifestação da alma, psiquismo ou mente, entretanto pode ser abafada pelos nossos defeitos de caráter, quando não permitimos que ela se expresse, e ai podemos ser rudes e cruéis com os outros e até conosco.

A espiritualidade deve expressar-se objetivamente em boa conduta, palavras e pensamentos elevados. O individuo que não expressa essas atitudes de amor, compaixão, bondade e tolerância, não permitiu ainda que as motivações Divinas nele se manifestassem, mesmo que estas inspirações para estes sentimentos estejam latentes nele, pois toda alma é perfeita, e nele também há uma alma. Muitas vezes é preciso a ação amorosa Divina da chegada da dor, para que o indivíduo aceite o chamado para a trilha, senda ou caminho Sagrado da Espiritualidade. Outro aspecto espiritual é expresso em código moral, tendo por base crenças específicas com princípios a serem praticados e tem origem em tradições sagradas, o que ocorre com diversas religiões, e que podem trazer contradições entre as regras impostas por estas, e a Consciência Subjetiva dos indivíduos adquirida em seu contato Consciente com Deus, sugerido no nosso Décimo Primeiro Passo. A.A.
nos lembra no Segundo Passo, que concebamos um Deus a nosso modo e nos relacionemos com Ele, conforme nossa compreensão.

O indivíduo pode praticar todas as virtudes de motivação interior que vem da Divindade junto com outros membros de uma instituição ou comunidade qualquer, sem praticar nenhuma religião como tal definida, o que não deixa de se confundir com religiosidade genuína, quando segue as verdadeiras motivações interiores espirituais.

Religião com o sentido de crença, ritual e prática é a exteriorização e expressão com que os indivíduos satisfazem seus impulsos básicos de seguir uma vida relacionada com a Divindade; mas em si só, essas práticas exteriores não expressam vida reta, nem espiritualidade genuína.

O Verdadeiro espírito religioso, sem base em ritualismo formal e a espiritualidade são sinônimos, este estado existencial, inclui nas ações do individuo o amor e conseqüentemente o bem alheio ou a compaixão, bem como todas as virtudes já citadas aqui anteriormente, e a reverência a um Poder Superior ou ao Deus de cada um.

Tratamos aqui de religiosidade, não porque A.A. trate disso, mas para lembrar que todos nós sofremos influências religiosas, filosóficas e culturais de nossa origem e vivências ambientais, e que raramente questionamos ou verificamos a sua veracidade, e que em muitos casos essas influências conflitam com a espiritualidade ou a verdadeira religiosidade de muitos de nós, e isto consta nas Tradições, em seu desenvolvimento.

Falsa espiritualidade religiosa baseada em ritualismo formal é aquela praticada só objetivamente ou só com ações exteriores, cerimônias, ritos, etc., sem resposta emocional e compreensão, não levando às motivações que geram a prática do amor e da reta conduta.

Aquilo que creio e procedo objetivamente, deve sintonizar com o meu sentimento interior, com a voz silente de minha Consciência Subjetiva ou do Deus do meu entendimento, pois sem que isto ocorra, nada representa.

Existem milhões de indivíduos que não encontraram em entidade nenhuma, satisfação interior que condiga com seus sentimentos, e por isso A.A. nos deixa livre para formularmos a imagem de uma Divindade, e através dos exercícios dos Doze Passos termos contato consciente com o Deus da compreensão de cada um de nós, e nos permite com isso chegar ao entendimento das leis da Vida, conseguindo assim o bem viver e a paz, ajudando e permitindo que outros atinjam também esse objetivo a seu modo.

Mesmo não sendo religiosos formalmente, muitos indivíduos podem ser tão sensatos espiritualmente e levar uma vida tão reta que se iguale ou supere até, a qualquer fiel e espiritualizado seguidor de uma igreja.

Os Relacionamentos:

Só obtém bons relacionamentos em qualquer área de sua vida, aquele indivíduo que após praticar em um bom nível, tudo aquilo que A.A. nos sugere e que tem origem na manifestação da espiritualidade conseguida com a prática dos Doze Passos e que culmina com o exercício da meditação e da oração prevista no Décimo Primeiro Passo.

É neste passo, praticado de modo permanente, junto com os demais, que entramos em sintonia com a Consciência Superior, ou com o Deus do nosso entendimento, e é ai que sentimos Sua inspiração e sabedoria, quando na sua prática entendemos que fazemos parte do todo como nos diz Bill W, e é nele que entendemos que estamos ligados ao todo e, portanto a todos, e compreendemos então que quando atingimos mesmo só indelicadamente a qualquer ser irmão desse Universo Divino, ferimos a nós mesmos, e nesse estado nos fica fácil frearmos nossos egos e interesses próprios pessoais, e vermos os outros irmãos como parte de nós mesmos, passando aí a tratá-los com amor e compaixão. Isto é o resultado de um despertar espiritual, e é fundamental para termos bons e sadios relacionamentos e para termos uma vida cheia de amor e paz. O outro e eu somos um, ou parte do todo, não sou dono nem superior, não sou propriedade nem inferior a ninguém, integro o
Universo com todos os demais seres, procurando assim respeitar, tolerar, compreender, perdoar, amar, dentro de meus limites, mas sempre ampliando esses limites.

Quando amamos ao outro, com a compreensão de que ele é parte de nós mesmos nesse Universo Divino, o bom relacionamento se faz de modo autômato em nossas vidas como algo desejado e agradável, e não como algo a ser feito por dever e com sacrifício, pois é isto que nos leva à paz como disse o Dr. Bob, mesmo que tudo a nossa volta pareça uma tempestade; ai meus irmãos e irmãs de doença, nossas relações com os outros serão sempre harmoniosas, em qualquer campo de nossas vidas, pois todos, mesmo as almas mais rudes, não terão coragem de enfrentar esse amor, essa serenidade, essa tolerância, essa boa vontade e essa paz, com agressividade. Isto como diz nosso Décimo Segundo Passo, também é aplicável a todos os momentos e tipos de relacionamentos de nossas vidas.

Que o Deus do coração de cada um de nós nos dê a luz para atingirmos este estado de espírito de amor, serenidade, paz e fraternidade incondicional que só Ele pode nos dar, e ai irmãos e irmãs de doença e do Universo, nossos relacionamentos serão perfeitos

A maior dádiva de todas

SAULO F.

Quando este tema me foi sugerido para ser apresentado no “VI Encontro com Veteranos” do Grupo Cachoeira da Paz, em Cachoeira do Campo, Ouro Preto/ MG, temi pelo êxito deste assunto, pois ele abria oportunidade para um juízo de valor, o que o tornava bastante subjetivo. Apelei para o companheiro que dirigia o encontro, mas, naquele momento, ele não podia resolver minha dúvida. Só tempos mais tarde, ele me informaria que a idéia havia sido desenvolvida no livro “A linguagem do coração”. Mas nesse entremeio de tempo, numa reunião informal de AA, já havia sugerido, numa espécie de balão de ensaio, a pergunta: qual é a maior dádiva de todas? As respostas, como era de se esperar, foram as mais variadas possíveis. Todas apropriadas, diga-se a bem da verdade, mas com uma peculiaridade que não me agradava. Ou seja, para o objetivo que tinha em mente, para cumprir a missão que me fora destinada, senti-as incompletas. Continuei pensando sobre o assunto, e uma luz brilhou. Quem sabe, especulei comigo mesmo, a maior dádiva não seria também um grande sacrifício? Então me veio à mente a abstinência alcoólica, porém, afastei-a logo de imediato, por ser óbvia e exclusivamente do nosso meio. Por este fato, em nada estaria acrescentando, apenas ruminando uma idéia que todos sabemos, especialmente em um encontro de e com veteranos. O tempo passava e temas e mais temas continuaram desfilando em minha tela mental, cada um há seu tempo, tentando se impor como o preferido. Mas, repentinamente, por uma dissociação de ideias, ou melhor, por uma associação de idéias ao avesso, uma frase pulou na minha frente sem a menor cerimônia.
Vou explicar: creio ter sido eu quem, na Grande Belo Horizonte, pela primeira vez, apresentou, digamos assim, esta mal-bendita frase aos companheiros. O certo é que não me recordo de tê-la ouvido antes em salas de AA. Nada de especial nisto. O problema é que algo nela me chamou a atenção. Com ela, me debati muitas vezes. Impossível ignorá-la. Ainda que se discordasse dela, teríamos que dizer, como os italianos, que poderia não ser verdadeira, mas era bem bolada! A partir daquele momento em que lhe dei à luz, em nosso meio, tal como uma criatura estranha, ela ganhou vida própria e passei a presenciá-la ser dita e redita inúmeras vezes. Era de fato poderosa na sua expressividade! Mas que frase seria essa que veio como intrometida em meu universo mental, num momento em que apenas esperava por atinar com uma resposta para o tema deste trabalho? E o que era ainda mais surpreendente, é que ela mais serviria, no caso, como anticlímax, do que como protagonista de um elenco de bênçãos, dentre as quais eu deveria escolher uma. Sendo assim para que eu a adotasse como parte de meu trabalho, teria de contraditá-la depressa, pois apenas serviria como contraponto, nunca como uma solução afirmativa. Ao lado desta dificuldade, outra também havia, qual seja a de que eu deveria me revestir de uma razoável ousadia para discordar do filósofo, pai da idéia. E olha que, além de ter sido um dos fundadores da escola filosófica, a que passou a pertencer, foi indicado com mérito na sua carreira de escritor para o cobiçado prêmio Nobel de literatura!
Contudo, antes de revelar o conteúdo da frase que tanto incômodo me causou, vamos dar um passeio, ainda que ligeiro, pelos Passos de AA, com especial ênfase no texto do Passo Seis: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”. (Entre parênteses, para lembrar que o título do nosso trabalho é: “A maior dádiva de todas” e, apenas aparentemente, estamos fugindo deste encargo).
De todos os passos, o Sexto é o que mais ambigüidade revela. Ambiguidade no sentido de estar em cima do muro, e, esta visão longe está de ser pejorativa.
Uma outra pausa, e voltemos no tempo, para nos lembrarmos dos chamados Grupos de Oxford e de seus famosos Absolutos. Honestidade absoluta, Verdade Absoluta, e assim por diante. Nesta visão pretérita do que foi o berço do AA, recordemo-nos de que houve, naqueles tempos idos, um afastamento recíproco, de parte a parte, entre os líderes do movimento Oxfordiano e os bêbados que lá chegavam, naquele reduto evangélico. Os bêbados, porque não se sujeitavam as regras rígidas dos chamados Absolutos, e os lideres do movimento Oxfordiano, porque conosco se desencantaram, uma vez que sempre voltávamos a beber. Isto não significa que um lado ou outro estava errado, ou ainda que ambos os lados estivessem equivocados. Na verdade, os dois tinham sua parcela de razão. Ambos estavam corretos, mas em momentos diferentes. Os bêbados, porque precisavam primeiramente da linguagem do coração, esta poderosa estratégia de confrontação, irrespondível para os bebedores-problema, que ainda teimam em defender a bebida em suas vidas. Para que pudessem deter a marcha do alcoolismo, a rendição era e continuaria a ser imprescindível. Careciam ainda da informação médica que estava por vir, na sua forma atual, já que, àquela época, o alcoolismo era classificado entre as doenças mentais, e, pelo grande público, éramos considerados um bando de marginais e de desavergonhados. Os dois grupos, como se vê, não se encontraram no tempo. Quanto aos preceitos, ditos Absolutos, só mais tarde, talvez, tivéssemos condições de nos deliciarmos com eles, sem risco de indigestão.
Pois bem, a meu ver, o sexto passo é uma tentativa de, na prática, acomodar esses interesses aparentemente conflitantes: o saudosismo dos Oxfordianos, que, a meu ver, cada membro de AA deveria sentir, e a espiritualidade popular, por nós adotada, que promete muito e realiza pouco. Eu próprio brinco de melhorar já faz muito tempo.
Reparem nisto: quando o Passo sugere “prontificamo-nos inteiramente” (grife-se o inteiramente) “a deixar que Deus removesse todos esses defeitos” (grife-se também o todos), ele é Oxfordiano na sua natureza. Também quando ele afirma que “este é o passo que separa os adultos dos adolescentes” (e devemos entender esta maturidade subjacente à figura dos adultos, não só como de caráter emocional, mas igualmente espiritual), a sua índole Oxfordiana manifesta-se incontestável. E, um terceiro exemplo, no meio de outros tantos: nunca devo dizer, ensina o Passo, que a tal ou qual defeito “jamais renunciarei”. Aqui, mais uma vez, se revela, indisfarçável, o seu vezo Oxfordiano.
Mas, indo e voltando, para ver o outro lado da questão, quando o sexto passo concede que na prática do viver diário, a remoção dos defeitos oferece dificuldades, neste momento está prestando uma homenagem aos desertores de ontem e de hoje, fujões eternos da prática dos Absolutos. Ora, aprendendo com os caçadores (certamente foram eles que inventaram o ditado), “devemos fugir é da onça, não do rastro da onça”. Esse pessimismo, ou seria um tipo de acovardamento, não é senão ele quem tem moldado pensamentos, como aquele que prometemos revelar, daqui a pouco, apesar de ter sido expressado por um gênio.
Introduzamos ainda, para maior clareza, o que se sugere: na tarefa, da assim chamada reformulação, temos, como diz o Sexto Passo, a tendência para fugir dos engarrafamentos psicológicos, das tarefas que oferecem maior dificuldade. Contentamo-nos em fugir pelas tangentes, em comer pelas beiradas do prato, escapulindo das questões dolorosas. No entanto, atenção agora, por favor, pois, como diziam os antigos, é “aqui que a porca torce o rabo”. É nesta encruzilhada, fabricada por nós, desenhada pelo medo, que se situa a real compreensão do problema. A tal da felicidade, a bendita paz de espírito, a tão convocada serenidade da nossa prece, em reuniões e fora delas, só aparece quando diante desses pontos de estrangulamento, passamos a enfrentá-los corajosamente. Como receita, se me permitem receitar não sendo médico, nem honorável filósofo, é largar de mão a desconfiança e acreditarmos que o resultado da superação do defeito de caráter, da imperfeição, do pecado – seja lá que nome se queira dar a essas mazelas – é melhor que a satisfação mórbida do defeito tido como insuperável. É mais ou menos como o prazer que dá a coceira do bicho-de-pé. Contudo, não ignoramos o fato que um pé sadio, afinal, é melhor do que um pé doente. No campo espiritual, essa distinção vem embaçada pela neblina do EGO. Não é tão simples de enxergar, como no exemplo do bicho-de-pé. Mas quem quer ser tolo? Ninguém, não é mesmo? Chegaremos lá! Temos que ultrapassar nossos limites, sempre e sempre. Aí então, Deus que é luz toma conta do cenário. Invade nossa alma e nos enche de beatitudes. Detalhe, que tem passado despercebido frequentemente (tradutor, traidor – ainda os italianos) é o fato de que a frase original, adotada pela Irmandade, não é, de forma alguma, o, à la brasileira,“não sou santo, nem candidato a santo”, mas sim “não queira ser santo tão depressa”.
Após essa peregrinação, que se fez necessária pelos Passos de AA, tratemos de nos aproximar com mais velocidade da solução pessoal dada por este companheiro ao que poderíamos objetivar como se fosse uma pergunta que está implícita ao tema.
Em sua opinião, Saulo, afinal, qual é a maior dádiva de todas? Os companheiros, naturalmente, se lembram de que, para respondê-la, iríamos contrariar frontalmente o pensamento de abalizado filósofo. Rapidamente, por questão de honestidade e justiça, devemos informar que o contexto em que o ilustre francês cunhou tal frase, ele tinha seu cabimento. Fazia sentido lá, quando e onde foi escrita, e o raciocínio do autor era coerente com o drama que sua imaginação desenvolveu. Licença poética. Coisa de artista. A frase está contida numa peça de teatro intitulada “Entre quatro paredes”. No original “Huis Clos”. Mas, apesar dessas considerações, não vou me acovardar agora no final. Espiritualmente ela não serve. Está completamente errada e, por um raciocínio invertido, é a solução da pergunta – tarefa. Não se surpreendam, mas lembram-se qual é ela? Claro! Não? Depois de tanto a repetirmos?
Portanto, agora, depois que justificamos o ilustre filósofo, a quem, em assim fazendo, acabamos por prestar-lhe a nossa devida e respeitosa homenagem, denunciemo-lo, ainda que amistosamente. Cuidamos de uma afirmação que nos veio do filósofo existencialista Jean Paul Sartre e já falecido, que defende o ponto de vista que “L’enfer sont les autres.“ “O inferno são os outros”. Êta desculpa boa, “sô”! O inferno são os outros. Será que é necessária explicação? Vá lá! Entre outras coisas, esta frase quer dizer que tudo que me acontece, por culpa dos outros aconteceu. Ou ainda, que não devo interagir com os semelhantes, pois todos não passam de empecilhos a minha volta, de paredões a impedir a minha livre caminhada. Pensando bem, diante de tamanho absurdo, só posso ser mais generoso ainda com o inteligente Sartre, admitindo que tenha se expressado de forma irônica, debochada!
Declaro neste momento, amigo Sartre, que vou reescrever sua frase, que fica assim: Os outros não são nosso inferno, mas sim a grande oportunidade que Deus nos dá, visando o aperfeiçoamento espiritual do “homo sapiens”. Ou seja, numa frase mais enxuta:
– Chegamos ao céu através dos outros –
Viram no que deu? Voltamos aos idos da década de 30. Aos Oxfordianos. Não me resta alternativa senão, diante das atuais circunstâncias, agradecer a eles, a quem, um dia, no passado, eu despreze. Relevem nossa falha, meus irmãozinhos do grupo Oxford! É claro, é verdadeiro que somente o amor absoluto, que naquela época tentaram me ensinar, é que fornece o passaporte para a felicidade. A literatura de AA usa a expressão “pedra de toque”, para explicar situação parecida com esta. Quando me torno capaz de pagar o mal que porventura me fazem com a moeda tilintante do bem, o sorriso de Deus me contagia e abençoa minha alma aflita. Vejo, igualmente, que, se na época do meu alcoolismo, a única e terrível saída era abandonar a bebida, agora no campo espiritual tenho que, a todo custo, viver o amor em todos os níveis. No pensamento, no coração e na ação. Não dá para interromper o programa. “Não dá para quebrar a ficha”! Em termos radicais, posso dizer que aqui está o ponto de estrangulamento de todo e qualquer ser humano, o maior engarrafamento emocional de cada um de nós. Tal como no exemplo do bicho-de -pé, há que se valorizar é o pé sadio. Apesar de ser esquisitamente agradável odiar quem nos odeia, ter má vontade com aqueles a quem invejamos, guardar rancor de quem nos prejudica, temos que superar essa tolice. É como no salto de obstáculo. Quando estivermos do lado de lá, saberemos que a satisfação pela vitória é definitivamente maior e gratificante do que as dificuldades ultrapassadas, transcendidas. Há que se acreditar que o amor ao próximo, especialmente para com aqueles a quem é difícil amar, traz-nos uma recompensa quase inimaginável. Esta regra de ouro é condição sem a qual nada feito. Se saltarmos esta lição, ainda que pratiquemos coisas extraordinárias para nosso aprimoramento, estaremos nos enganando. Conclusão, para este companheiro, que a vós se dirige nesta cachoeira de paz, a maior dádiva de todas não é ser inteligente, ser amado, ou ser o número um. A maior dádiva de todas é a possibilidade que Deus nos dá de amarmos o próximo incondicionalmente, sem nenhuma exigência, ou interesse. Apenas amar.
Pode ajudar muito se entendermos a natureza da má-vontade para com os outros, se compreendemos que de alguma forma, estamos condicionados a ela. Nossa reação de desagrado, de antipatia, de desforço psicológico foi aprendida e vem sendo reforçada constantemente. Passemos a quebrar os hábitos antigos de antipatizarmo-nos com pessoas e circunstâncias. Para evitar situações que tais, siga seus movimentos emocionais, sem perdê-los de vista. Descarte aqueles que não são generosos e substitua-os gradativamente, mas com rigor, até que um tempo chegará em que valores mais criativos, revestidos de bondade, tornarão nosso ambiente mental harmonioso e altruísta. É mais ou menos por aí, que começamos, de certa forma, a ser senhores de nosso destino.

A.A.: A PONTE DE VOLTA À VIDA
Saulo F.
(dr.saulofilardi@gmail.com)
“Nós não somos um corpo físico vi- vendo uma experiência espiritual, mas sim Espírito vivendo uma experiência terrena” (Teilhard de Chardin)

O título sugerido pelo SÉTIMO ENCONTRO COM OS VETERANOS em Cachoeira do Campo – Ouro Preto – Minas Gerais, pressupõe o seguinte: Primeiro, que, quando estávamos no que chamamos militância alcoólica, não vivíamos, vegetávamos. Segundo, que o ingresso na Irmandade de Alcoólicos Anônimos serviu para alguns como ponte para retornarmos à vida que havíamos perdido, ou, até mesmo, que nunca tivemos, dada a precocidade com que certos companheiros começaram a beber. Para se captar melhor a idéia que desenvolveremos a seguir, imaginemos esta ponte o mais realisticamente possível. Ao longo de sua extensão, há duas portas e cada uma delas se abre para um espaço que lhe é pertinente. Nesses dois espaços, ou nessas duas ilhas haverá uma mudança na individualidade de cada um dos passantes, por intermédio da conscientização. Mais ou menos dentro daquela linha do “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. Para ser mais exato, convém já de início estabelecer uma diferença entre as duas ilhas alcançadas pela ponte da boa vontade. É que a segunda não é propriamente uma ilha. É um continente. Melhor é o próprio planeta. É a terra toda, onde o sol do Espírito nunca se põe.
A PRIMEIRA PORTA
Neste anfiteatro tão confortável onde estamos, não há um encontrista que seja, mesmo entre aqueles nossos amigos de A.A., que hesite em acreditar que o firmar-se em A.A. representou para cada alcoólatra um restabelecimento da sanidade mental, para usar uma expressão textual de nossa literatura, pois que a loucura desconcertante ficou para trás. Somos todos, aqui e alhures, lá e cá, em todos os quadrantes da terra, no mundo inteiro onde existe o programa, testemunhas expressivas da mudança ocorrida tão logo nos conscientizamos das primeiríssimas verdades nele expressas (primeiro passo) e as colocamos em prática. A vida do alcoólatra em abstinência, volto a repetir a idéia, ganha em ausência de doidice, e é quando ele substitui o chamamento irresistível para as garrafas por um desejo de ajustar-se à sociedade dos considerados normais (esta mesma sociedade que demonstrou, em estatística de rejeição social, que de todos os casos apresentados à pesquisa, apurou que o maior índice de rejeição social recaiu mesmo nos alcoólatras).
Esta fase inicial do alcoólatra na Irmandade significa que a primeira porta foi aberta por ele. Esta travessia engloba o ingresso formal ou não, frequência às reuniões e a evitação da bebida. Este primeiro estágio costuma propiciar, frequentemente, uma espécie de lua de mel com a vida e é de duração efêmera (embora Bill não a considere tão efêmera assim, pois, a julga presente durante o primeiro ano de abstinência). De qualquer forma, reduzida ou não, ela faz lembrar o castelo fantástico da tradição budista, que serve de injeção de ânimo para os caminhantes do Espírito, quando extenuados estão, assim como extenuados estávamos na época do ingresso. Como conseqüência, o ingressante passa horas e dias como se estivesse no céu. Atenção! Furto essa imagem de um companheirinho, extremamente simples, oriundo da área rural, e provavelmente analfabeto, que assim se expressou na sua segunda reunião, uma semana depois do ingresso: “parece que estou no céu!”. Isto se passou há mais de três décadas e meia no grupo Renascer de Venda Nova/BH, e, na época, só havia uma reunião por semana, aos domingos. Nunca mais vi o João, de cujo nome, entretanto, jamais iria esquecer.
O Espírito de Deus fizera uma marca em João, o simples. Uma marca inesquecível, assim como inesquecível fora a marca incrustada no coração do primeiro de nós, meio advogado, meio engenheiro, meio corretor da bolsa, de boa cultura e escrita fácil, quando exclamou sozinho em seu quarto de hospital: Ah! Então esse é o Deus de que falam os pregadores! Naquele momento, era-lhe dado o salvo conduto para a missão espinhosa que a Vida lhe atribuiu, o “plus” necessário de energia para poder suportar o ambiente de confusão mental dos ex-bêbados, com os quais deveria se meter, e como líder! Inoculou-se nele, do Alto, o gérmen necessário de tolerância e sabedoria para que ele pudesse completar obra tão ingente.
Estes acontecimentos transcendentais, para não dizer miraculosos, nos fazem lembrar novamente que o homem é espírito. É espírito, embora pareça ser matéria, provisoriamente. Levamos tempo para descobrir que o centro de decisões da nossa vida não nos pertence, embora tenhamos a veleidade, a fatuidade, a leviandade, a ingenuidade, a vaidade (e tantos outros “ades” que pudesse colecionar) de a cada instante, de forma menor, desafiarmos Deus, exigindo que seja feita a minha vontade, não a Dele! É o que o psicoterapeuta Norberto Keppe, imigrante radicado no Brasil, intitulou de teomania. Quer dizer, desafiar Deus. Achar-se melhor que Ele. Invejá-lo! Tal atitude costuma passar despercebida, porque acontece, no mais das vezes, em nível semi consciente.

A SEGUNDA PORTA
Após atravessarmos o umbral daquela primeira porta, a que nos deu acesso ao A.A. vitoriosamente, logo começamos a vislumbrar à nossa frente uma segunda porta. É, como a primeira, uma bela e majestosa porta, mas, enquanto aquela possui, em alto relevo, ramagens entrelaçadas de flores multicoloridas, arabescos que mais parecem anunciar um clima de festa (a do ingresso), esta segunda porta é uma réplica daquela do templo de Delfos na Grécia antiga, e encimando-a a mesma inscrição atribuída aos sete sábios gregos: “conheça-te a ti mesmo, e conhecerás a ti e ao universo”. Chamemos a atenção para o seguinte, como reforço do primado do espírito, que aqui postulamos. Note-se que na sequência desta frase, somente a primeira parte é mais conhecida: conheça-te a ti mesmo. A expressão “conhecerás a ti e ao universo”, denota que todo o período não foi escrito, como muitos pensam, com o propósito específico de se analisar o mundo psicológico do ser humano. Aliás, naquela época, a psicologia ainda nem existia como ciência autônoma, tendo sido parida muitos anos mais tarde do ventre da honorável filosofia. Esta máxima tinha o destino de chamar a atenção, para o que já afirmamos aqui: que o ser humano é antes Espírito, e para tal direção deve voltar a sua mente. Conhecer a mim mesmo é o mesmo que conhecer o universo porque tudo que existe neste universo infinito tem a mesma natureza divina. Tal afirmação se prestava como uma anunciação do nosso parentesco com Deus. Também, foi o que quis dizer Hermes de Trimegisto, outro cidadão da Grécia antiga, quando cunhou aquela expressiva frase “o que está em cima é o mesmo que está em baixo”, ou o que o Nazareno quis dizer com o “assim na terra como no céu”. Sobre o pensamento grego, aliás, não resisto em lembrar-me, do que já se disse sobre ele: “nós pensamos como pensamos porque os gregos pensaram como pensaram”.
Depois desta reflexão, que tomei emprestada, mas verdadeira, vou apresentar aos dignos participantes uma pergunta crucial. Arrisco-me a dizer que ela é o xis da questão no estágio avançado da segunda porta. Observem-na e tentem respondê-la: Creio que todos nós, sem exceção, já concordamos que o A.A. trouxe os alcoólicos de volta para a vida. Mas para que vida? Ou, seria melhor, para que modalidade de vida? Seria para o padrão de viver integral, completo, maravilhoso? É como se Bill estivesse nos questionando permanentemente: “Da felicidade verdadeira” conhecemos?
Pois bem, se a resposta for positiva não haverá necessidade de se adentrar a segunda porta. Já está tudo bem. Se a resposta for negativa, ou seja, se ainda nos falta qualidade de vida emocional e espiritual, como é expresso no poema de Maria Cristina Magalhães (publicado na revista “O Cruzeiro, de nove de outubro de 1968”), então a segunda porta, a do autoconhecimento, terá que ser aberta, e seremos convidados a entrar. O poema a seguir, retrata com maestria a mediocridade e a pequenez da espécie humana. Lamentavelmente, é verdade, estamos apenas meio acordados. Nossa escala de valores obedece à prioridade dos sentidos físicos, todos eles caixa de ressonância da matéria e não do espírito. Observem o poema:

Vivem \ Pensam que vivem \ Embora não tenham conhecido a vida \ Fazem suposições \ Querem dominar tudo \ Mas esquecem de dar o primeiro passo \ Para a conquista do próprio ser \ Para o domínio do mundo interior
Eu penso que um dia \ Todos se voltarão \ Para as próprias almas \ Como quem respira \ Por enquanto não passam de estátuas \ Que querem ser colocadas no alto \ Para ser adoradas \ Pobre humanidade ausente!

Conclusão? Que se quisermos ser livres, devemos abrir a segunda porta, a porta do autoconhecimento. Uma vez lá, vamos nos juntar àquela plêiade de homens e mulheres que lá se encontram e que correspondem à nata da civilização humana.
Ali, juntamente com todos, alcoólicos ou não, vamos por mãos à obra e descartar o que não for justo, harmonioso, bom, à semelhança do que escreveu Paulo, o apóstolo, nos seus conselhos. Em vez de sermos estátuas colocadas no alto para sermos adorados, como alertou-nos o poema, adoraremos o Divino.
Assim, como, no século XIX O adorou o português Antônio Correia:

Espírito do Abismo e das Alturas \ Que em tudo quanto vive se derrama:\ Já luz antes de ser a chama! \ Criador que se fez obra das criaturas! \ Alma que deu alma às pedras duras! \ Amor tão desamado que nos ama! Gênio que inspira a noite, e a treva inflama, \ Desde as ondas às verdes espessuras. | Centro e fusão de todas as distâncias; \ Velhice-mãe de todas as infâncias; \ E futuro de quanto há de morrer… \ Possa a minha alma ver-te, um só segundo, \ Presente e em ti, pretérito do mundo, \ Infinito imortal do verbo ser!

Este ar de eternidade que se respira no poema faz lembrar a afirmação de Cristo, “Em verdade, em verdade eu vos digo: antes de Abraão existir, eu Sou”, ou o koan Zen Budista, uma espécie de “pegadinha” ou quebra-cabeça espiritual, quando o mestre, confrontando o discípulo, para aferir o desenvolvimento dele, indaga: “qual era o rosto de seus antepassados antes de nascerem?”.
Peço permissão para insistir na verdade de que o modelo de vida voltado para o Alto dá mais “lucro”, um tipo de lucro com o qual não estamos acostumados, mas que, certamente, é mais gratificante.
Veja no texto de Oliver Wendell Holmes como, figuradamente, ele nos ensina que, no que diz respeito á estatura espiritual de cada um, podemos evoluir de um modesto estágio para outros cada vez maiores, aqui na Terra mesmo:

“Ergue para ti mansões mais imponentes, ó minha alma, /Enquanto as estações ligeiras passam / Abandona o teu passado de abóbada baixa! / Que cada novo domo seja maior que o anterior, / Cubra-te do céu com uma cúpula cada vez mais vasta, / Até que finalmente te vejas livre, / Deixando tua concha pequena no mar agitado da vida!

Chegou a hora, que tem o nome de agora – aliás, não existe outra hora – a hora de atravessarmos a segunda porta. Caramba! Eu notei e você também haverá de notar que a aprendizagem que se nos apresenta é semelhante ao que já sabíamos. Expressando-me de outra forma, encontraremos do outro lado ferramentas que nós já havíamos utilizado, com êxito, para abandonar a bebida. Isto é, perceberemos, naquele ambiente de iniciação, ferramentas indispensáveis tanto para parar de beber, como para esse novo projeto de vida com qualidade.
AINDA SOBRE A SEGUNDA PORTA
“Nesse dia, ele percebeu o que os mestres sempre estiveram dizendo: que é você quem cria todas as suas emoções – seu inferno e seu céu, seu amor e seu ódio” (OSHO)
Uma das ferramentas lá encontráveis atende pelo nome, para nós conhecidíssimo, de R E N D I Ç Ã O.
Antes, no início do programa de A.A., me submeti à idéia de que era impossível conviver com a bebida socialmente e que teria que abandoná-la. Era uma questão de vida ou de morte, praticamente.
Por isto Bill nos disse: ”tal é o paradoxo da recuperação em A.A.: a força nascendo da fraqueza e da derrota completa, a perda de uma vida antiga como condição para encontrar uma nova”.
Que tal aplicarmos a mesma ferramenta nos demais problemas da existência, em particular nas dificuldades emocionais? Esta metodologia não é de forma alguma estranha à literatura da Irmandade. Aqui estamos apenas sublinhando-a. Curiosamente, porém, o que não nos ameaça de morte, ao menos com tanto espalhafato como a bebida, tende a ser desconsiderado, ou minimizado. Assim não nos apercebemos imediatamente que os desamores capitais (nome no meu entender mais apropriado para pecados capitais – Xô ,sentimento de culpa!) podem ser eficientemente combatidos com a mesma ferramenta da rendição.
Tem a palavra o terceiro passo: “e os fatos parecem ser estes: quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos. Portanto, a dependência, como se pratica em A.A., é realmente um meio de ganhar a verdadeira independência do espírito”.
Estou seguro de que há uma sinonímia entre as palavras dependência, utilizada no Passo Três, e rendição, embora não sejam sinônimas no léxico. Ambas, dependência a um Poder Superior e rendição repercutem positivamente na redução e na extinção do ego psicológico, obstáculo de passagem, para o nosso viver, da Grande Luz, que é Deus.
As ferramentas encontradas após a transposição do portal do autoconhecimento não são poucas. Algumas delas você já encontrou no pequeno livro intitulado “Os Doze Passos”, não é mesmo? É claro que não faz parte de nosso propósito aqui uma extensa enumeração desses recursos do que poderemos intitular de tecnologia espiritual. Mas, cuidemos rapidamente de mais um: o SÓ POR HOJE.
Há muitos anos, na década de oitenta, tomei contato com os ensinamentos de um escritor norte americano chamado Vernon Howard. Tratava-se de pensamento positivo, certamente, mas visto sob um ângulo inteiramente de acordo com as escolas místicas orientais e ocidentais. Nele fala o autor sobre o poder de descartar, ou seja, como diz em determinado ponto, devo tirar o problema do único lugar onde ele existe: minha mente! Ensina que o crescimento do ser humano pode ser conseguido desatravancando os pensamentos que não me são úteis. Atente-se para o fato de que tal idéia quase mágica potencializa-se com aquela de que Deus habita dentro de mim, constante em toda a sabedoria oriental.
O alcoólatra, ainda que em abstinência, que tristeza! – é um exímio colecionador de pensamentos inúteis, sombrios e prejudiciais. Então todo esse lixo mental se volta contra ele e agrava ainda mais a situação, num ciclo vicioso interminável. Muitos que não conseguiram manter fidelidade ao programa de recuperação na Irmandade, não o conseguiram porque se perderam no cipoal das questões mal resolvidas. Mas há os que permanecem no programa. Contudo, uma fração deles reage de forma acovardada, e a outra se infla de um orgulho desmedido. E não fica por aí: com presença, quero crer majoritária, há aqueles que ora se acovardam, ora se enchem de arrogância, numa dança esquizofrênica.
Todo esse entulho mental cujo poder de fogo de desgovernar o ser humano é formidável advém de uma raiz única, qual seja a crença de que nós somos o corpo, de que nós somos a mente, de que nós somos a nossa emoção. Na medida em que nos identificamos, imprópria e falsamente, com o aspecto material da vida, o sofrimento torna-se inevitável, eis que não há perfeição no corpo, na mente e na emoção e a vida se transforma em uma pilha de frustrações, e numa perseguição inalcançável de fantasmas.
Neste momento faço a mim mesmo duas perguntas: Será que tive a concordância sua de que o nosso livre arbítrio nos permite escolher tanto os pensamentos harmoniosos e úteis (ainda que pareçam totalmente inverídicos no momento), como igualmente expulsar aqueles que causam atraso na vida humana?
Por outro lado, terão concordado, de que deveremos nos identificar com o Espírito de Deus, e não com o espírito de porco? Ruim a expressão, quase indelicada, mas verdadeira. Sem querer parecer dogmático ou radical, temos todos “dentro” de nós algo mais: um princípio divino, semelhante à idéia que os hinduístas denominam de atmã.
Lembremo-nos de que as idéias espirituais se entrelaçam e são interdependentes entre si. A concordância com as duas é fundamental para o exercício imaginativo para o qual peço a colaboração delicada de todos os amigos. É um trabalho de faz de conta. Para valorizar o resultado, se quiser, feche os olhos e relaxe o corpo e a mente: imagine que no interior de seu ser resplandece uma pedra preciosa e fulgurante. Dê-se ao luxo, inclusive, de escolher a cor, não importando ser ela de um vermelho-brilhante, como as chamas de uma fogueira; ou de um azul límpido de metileno, presente no céu de brigadeiro; ou até dourada como o sol a pino; ou ainda de um branco translúcido como as supostas asas de um anjo Como queira. Esta luz que emana desta gema, ela, sim, é você, eternamente linda. Não há mais espaço para os problemas, pois eles pertencem aos pés de poeira espirituais, e aos pés de chinelo emocionais, aos que não se viram fulgurantes por “dentro”.
Esta história de cores me faz recordar um companheiro, de apelido Delegado, também do Grupo Renascer, que partiu recentemente, não antes, porém, de completar um século entre nós. Ele se enchia de emoção ao repetir na cabeceira de mesa que o A.A. é uma “explosão colorida!”. Estou descobrindo, saudoso companheiro Delegado, que cada um de nós é também uma formidável explosão colorida! Escute aí de cima, querido companheiro, a orientação Sir Thomas Browne, “trazemos dentro de nós as maravilhas que buscamos fora de nós próprios”.
Todavia, voltemos ao “Só por hoje”, antes de encerrar. Penso que, afora os grupos religiosos, afora as correntes filosóficas, não há no mundo outra irmandade que preze mais o momento presente que a Irmandade de AA, mas a todos suplantando com muita folga. Para o membro de AA, o agora não pode ser teórico. Eis que com relação àquilo que tanto nos incomodava, temos que afirmar: “Hoje eu não bebo!”. Convivemos diariamente com o momento presente, já que para nós é uma necessidade de vida. Como Kipling, aprendemos a dar “ao minuto fatal todo valor e brilho”. Por intermédio desta filosofia de vida, nos libertamos da compulsão alcoólica, dizendo de nós para nós mesmos: “agora não”!
Pois bem, a utilidade desta ferramenta, para uns chamada de Só Por Hoje, e para outros de momento presente, ou de agora, não esgotou a sua utilidade depois de nos ajudar a resolver o problema alcoólico. O fato é que, pela intimidade que já temos com ela, o trabalho fica até facilitado ao atravessarmos a segunda porta. Você gostaria de exemplos? São muitos: humildade só por hoje, o que já é alguma vantagem. Melhor só por hoje do que nunca. Agora não vou me irar, pelo menos enquanto não contar até dez ou até mil, enquanto não concentrar-me em engolir a saliva ou fazer respirações profundas. Agora vou trabalhar nem que seja um pouquinho; quem sabe amanhã trabalharei mais. Agora não terei inveja porque a luz de Deus brilha dentro de mim e ele me fez um ser único, indispensável, logo incomparável. Somente agora não comerei tanto; quero esperar pelos sinais internos do aparelho digestivo. Este me dará, tão rapidamente quanto necessário, o retorno se está saciado ou não. Não ficarei triste; ao contrário me alegrarei. É que agora compreendi que estou feliz porque quero estar, pois ainda que os problemas sejam sufocantes, se a cada segundo daqui para frente eu me tranquilizar, chegará um ponto em que todas as questões que me preocupavam desaparecerão como um rolo de fumaça ao vento. Nunca é demais lembrar, como já se disse, que o hábito é uma segunda natureza, ou quase, e esta segunda natureza é plasmada no agora, de acordo com meu livre arbítrio. Não tenho poder sobre o ontem ou sobre o amanhã, mas o agora é de Deus e me pertence.
Ao terminar, reverentemente, com o intuito de prestar homenagem a alguém que citei nestes escritos – o companheiro João dos idos de setenta e quatro do poderoso grupo Renascer – dele quero pedir a benção, onde quer que ele esteja. Benção, companheiro João! Representante desta grande legião dos simples, que guardaram para mim, há trinta e oito anos, uma cadeira em Alcoólicos Anônimos.

Aprendendo a perdoar a si mesmo
Algumas pessoas prejudicam outras e pedem perdão, que pode ser aceito ou não; mas há algumas atitudes em que o único prejudicado é você mesmo.

Se você vive apontando seu dedo indicador constantemente para seu próprio nariz, cuidado!

A culpa varia de acordo com crenças e valores que cada um traz consigo desde a infância, e que muitas vezes não corresponde mais aos valores e crenças atuais. Culpa, remorso, arrependimento, são inimigos constantes de algumas pessoas e traz junto a humilhação, vergonha, o medo e a maior conseqüência: a autopunição.

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios, pois está relacionado com a capacidade – e leia-se também dificuldade – que cada um tem de se amar e se aceitar. As pessoas não se amam por acreditarem terem feito algo muito terrível, às vezes isso até corresponde à verdade, mas muitas vezes não.

Algumas chegam ao máximo de se culparem por terem nascido e sentem-se como um grande fardo. Para compensarem essa rejeição sentida em algum momento de sua vida, passam a vida tentando mostrar aos outros o quanto são úteis, importantes, como que para provarem para si próprias que são merecedoras da vida.

Procure observar se busca aprovação e reconhecimento de pais, amigos, das pessoas em geral, se está sempre à disposição de todos, cedendo em quase tudo, pela necessidade inconsciente de agradar, ser aceito, mas que muitas vezes confunde-se com a desculpa de querer ajudar e que na verdade oculta a busca pelo amor e atenção.

Por exemplo, as pessoas por não se sentirem amadas quando crianças e não acreditarem em si mesmas passam a ignorar os próprios sentimentos e recorrem à fuga pela comida, como forma de compensação e obtenção do prazer. Com isso, se culpam e como punição, engordam.

Não conseguindo eliminar alguns quilos, mais culpas e assim, desviam o foco da origem de tudo para a comida. O foco passa a ser emagrecer e não o que as levou a engordar. Negam a si mesmas a subnutrição emocional que sentem e que pode levá-las a sentimentos de vazio e fome.

A comida passa a representar uma maneira de alimentar e preencher um vazio emocional. Ou seja, inconscientemente desviam a atenção dos problemas para a necessidade de emagrecer, os problemas continuam ou aumentam por não serem resolvidos e acabam consumindo mais calorias do que o corpo necessita, engordam, culpam-se, punem-se, criando-se assim, um círculo vicioso.

O perdão oferece saída para esse círculo vicioso, como uma escolha consciente de mudança. Será que a verdadeira causa está sendo considerada? Do contrário, tudo tende a piorar. Será que essa fome, esse vazio, não seria a necessidade, também inconsciente, de amor? É preciso perceber que a comida não será transformada em afeto, amor, mas apenas em gordura quando consumida de forma descontrolada. Por que não buscar outras fontes de prazer?

Uma maneira de cultivar a culpa é estar sempre exigindo perfeição de si mesmo. A anorexia e bulimia são exemplos disso. Nunca há satisfação consigo mesmo, gerando culpa, insatisfação e uma enorme dificuldade de se perdoar. Tudo que faz poderia ser melhor. Não importa o que faça ou conquiste. Ou o pior, não importa quem se é, parece que nunca é o bastante.

Para se livrar disso tudo faça uma lista de tudo aquilo que você se culpa, daquilo que fez e não fez. Seja honesto consigo mesmo. Depois, pense sobre as motivações que o fizeram fazer certas escolhas, agir de determinada forma e, ao invés de se culpar, punir ou se castigar, comece a lembrar que muitas escolhas foram feitas porque era o melhor que se podia fazer naquele momento e que na verdade, tudo foi avaliado com valores da época e que nem sempre serão os mesmos neste momento. Nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Para perdoar-se é preciso rever todas suas crenças, valores, que muitos esquecem que com o tempo podem, e devem, se modificar. Analisar o que fez ou deixou de fazer para poder mudar e crescer é válido, como sentir remorso pela dor que pode ter causado a alguém e pedir perdão. Mas se esse remorso começar a dominar sua vida, estará alimentado seu papel de vítima e a autopiedade. Livre-se disso. Você deve aprender e crescer com a experiência passada e isso não quer dizer se punir eternamente por algo já feito.

Perdoar a si mesmo exige uma completa honestidade e integridade para que se alcance a cura de tantos males, de tanta falta de amor-próprio. É um processo de reconhecer a verdade, assumir a responsabilidade pelo que fez, aprender com a experiência, reconhecer os sentimentos que motivaram determinados comportamentos, abrir seu coração para si mesmo, ouvir seus medos, curar certas feridas e isso você pode conseguir sendo amoroso e responsável consigo mesmo.

Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos. Mude o que não acredita mais, livre-se de tudo que te faz mal, cure a ferida que mais lhe dói, cure sua vida emocional. A verdadeira cura é fazer as pazes consigo mesmo. O poder curativo do perdão e do amor talvez seja o remédio mais poderoso que temos. E está nas mãos de cada um de nós. E você pode começar com você mesmo!

Aprenda a perdoar a si mesmo pelos seus erros e pecados. Mas não os repita
Perdoar.
Aqui temos uma palavra com sentido perturbado e mal interpretada, e freqüentemente com características virtuosas. A palavra grega traduzida como “perdoar” significa literalmente cancelar ou remir Já em latim per + dorare, cujo significado é dar plenamente. Portanto, se houver algum sinônimo para perdoar, somente poderá ser amar. O dar plenamente refere-se a permitir que aquele que errou, tente outra vez e tenha a oportunidade de poder tomar uma atitude de valor. Essa situação de erro, obviamente jamais será esquecida, e aquele que diz: “perdôo, mas não esqueço”, não perdoou, faltou algo, não foi pleno.

Desde que o ser humano habita esse planeta comete infinitos erros e através do reconhecimento do mesmo foi um dos fatores que o fizeram a evoluir, errar foi preciso.

Alguém disse que para ser feliz é necessário promover cinco perdões; perdoar-se, perdoar seu pai, perdoar sua mãe, perdoar o outro e perdoar o mundo.

Por que nos surpreendemos quando vemos a incompetência em outros e nos devastamos quando ela ocorre em nos mesmos?

Perdoar a si mesmo talvez seja um dos maiores desafios do ser humano, pois está relacionada com a capacidade de auto aceitação, ou seja, a auto estima.Às vezes a pessoa não se perdoa porque, quando se olha no espelho, só enxerga dor. Sua mente é assombrada pelo famoso “E se…”

Esse é o problema.É preciso separar o erro que foi cometido daquilo que voce é. Você cometeu um erro, não é o erro. Por isso nunca julgue situações passadas com valores do presente. Você pode e deve se livrar de certos padrões de pensamentos e sentimentos senão não conseguirá se perdoar.

Outro erro freqüente é considerar perdoar como sinônimo de desculpar, que, no entanto são duas atitudes bastante distintas. Desculpar significa tirar a culpa, e só é possível tirar a culpa de quem não a tem, e foi injustamente acusado. Quando se tem culpa, nem Deus desculpa, Ele perdoa. Na justiça comum, inocentar é desculpar, a culpa não era do réu, e perdoar, é declarar o culpado solto e independente, jamais, livre, pois a liberdade é uma atitude imanente, não é uma concessão.

Atualmente e sempre, centenas de milhares de “profetas”, mestres, gurus, contos, cânticos, mantras, fábulas, histórias, práticas, apostilas, vivências, cursos, enfim, uma infinidade de meios de exercitar o perdão é ressaltada nas revistas, nos jornais, nas televisões, nos centros de umbanda, nas igrejas católicas, nas mesquitas, nas sinagogas, nos espaços esotéricos, nos salões protestantes…
Mas, o grande desafio é que a humanidade não sabe perdoar.

Perdoar é o sinônimo da fraqueza e deixou de ser um sinal de nobreza de alma e pureza de coração.

Li numa revista uma vez uma declaração fantástica: “Caso você encontre quaisquer erros nesta revista, por favor, lembre-se que eles foram colocados ali de propósito. Tentamos oferecer algo para todos. Algumas pessoas estão sempre procurando erros e não desejamos desapontá-las”.

Aprenda a rir de seus erros. Aprenda a rir de si mesmo, mas não perca a lição.

Perdoar a si mesmo requer enfrentar os próprios medos, julgamentos, injustiças, limitações, olhar para a própria vida e lembrar de quantas vezes já errou e quantas vezes já acertou. Somos seres humanos, estamos em constante processo de aprendizagem e evolução. E nesse caminho acertamos e erramos, alem disso os tempos mudam, os valores também.

Por exemplo, você deixaria seu filho em uma escola onde ele seria castigado com palmatória caso não se comportasse conforme as regras da instituição? Acredito que não, mas nossos avós foram educados deste modo, e naquela época era normal. No Brasil, antigamente era costume nas festas de formatura os alunos presentearem seus professores com palmatórias, como sinal de submissão à autoridade.

Por isso relembro novamente nunca julgue situações passadas com valores do presente.

Uma curiosidade contanto é que último país ocidental a abolir o uso da palmatória foi a Inglaterra, em 1989. Em 2004, contudo, o parlamento inglês voltou a debater a legitimidade do uso dos castigos físicos como medida educacional corretiva em crianças.

No exemplo que utilizei parece clara a situação, mas não se iludam. Não faz muito tempo que Cingapura, país de regime político autoritário e um sistema financeiro importante, localizado na Ásia, impôs uma pena judiciária de chibatadas a um jovem norte-americano que transgrediu as severas leis daquele país traficando drogas.
Apesar do liberalismo ‘oficial’ e aparente permissividade educativa dos norte-americanos, a maioria da população dos EUA consultada não apenas aprovou a pena judiciária de Cingapura para o crime de tráfico de drogas como gostaria que sua justiça também fizesse uso de castigos físicos para transgressores da lei. Para reforçar essa atitude repressiva, uma pesquisa divulgada declara que 61% dos pais norte-americanos aprovavam castigos físicos como uma forma de punição válida, e 57% disseram acreditar que até mesmo bebês de seis meses podem merecer uma surra.

Agora voce deve estar se perguntando o que isso tem a ver com aprender a perdoa-se? Tudo.

Perdoar significa rever crenças, valores, paradigmas, preconceitos e utilizei um exemplo aparentemente simples para demonstrar que nem tudo é tão simples como julgamos ser inicialmente. Por isso perdoar-se ás vezes é tão difícil. Ficamos presos em nossa próprias armadilhas mentais e nos tornamos reféns psicológicos de nossa próprias regras, sendo o único modo de se libertar é rever suas crenças.Isto é mudar.

Em “Aforismos para a Sabedoria de Vida” Arthur Schopenhauer diz que “Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com freqüência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave”.

Agora eu lhe pergunto, você é ou não é a pessoa mais importante com que tem ligação ou convive?

Você realmente acredita que nunca mais irá errar e deixar-se louco da vida de novo? Claro que irá.

O problema não é errar, mas repetir ou persistir no mesmo erro, seja ao menos neste aspecto desagradável da vida, criativo. Erre das mais diversas formas, mas, por favor, cometa erros diferentes somente assim voce crescerá. Ninguém aprende com os acertos, somente aprendemos com os nossos erros. Parece insensato falar isso, mas é a mais pura verdade.Sua experiência de vida, sua personalidade, seus defeitos e qualidades vêm de seus erros não dos seus acertos, pois, somente mudamos quando erramos, ninguém muda quando está acertando.

Por isso é tão importante aprender a perdoar-se.Para poder evoluir.
Da mesma forma que ao redor de nosso corpo há um universo físico do qual um poder revigorante entra em nós, ao redor de nossa alma há uma Presença espiritual, em cuja comunhão nossa vida pode ser sustentada e nosso caráter transformado.
A manutenção de um sentimento de anonimato, da sensação de que eu não sou especial, é uma garantia essencial de humildade e, portanto, um ponto de segurança contra problemas futuros com o álcool.
A experiência nos ensinou, que a simplicidade é fundamental. O ego do alcoólatra tem uma morte sofrida, na transformação da sobriedade é possível encontrar um pouco de humildade.
Presença Espiritual, transformação, anonimato, humildade, simplicidade, sacrifício. Existe base melhor para a edificação de novas vidas?
O anonimato é um estado de espírito de grande valor para o indivíduo manter a sobriedade. Enquanto eu reconheço a sua função protetora, eu sinto que qualquer discussão seria unilateral se não enfatizasse a manutenção do sentimento de anonimato – de “eu não sou alguém especial” – é uma garantia fundamental de humildade e, portanto, uma segurança básica contra problemas futuros com o álcool. Esse tipo de anonimato é verdadeiramente um bem precioso.

CRESCIMENTO ESPIRITUAL
Dr. Laís Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.
Palestra proferida por ocasião da XVI Convenção Nacional de Alcoólicos Anônimos – São Paulo, abril de 2003.
VIDA ESPIRITUAL
“Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual,… somos seres espirituais passando por uma experiência humana”.
Teilhard de Chardin

É freqüente que as pessoas tenham a idéia errada de que a vida espiritual é alguma coisa diferente e que deva ser vivida em separado, num cantinho lá do céu, num ambiente etéreo e místico. Pensam também que o nosso dia a dia está ligado a uma outra realidade que não é lá estas coisas, se comparada com o que concebem como sendo a vida espiritual, além de muito mundana. É também comum pensar que, para ser uma pessoa espiritual, é preciso não dar importância à nossa vida do dia a dia e ir para uma outra dimensão inteiramente diferente, um reino especial. Separamos e dividimos o que é uno e isso acontece com freqüência. Ademais, a dimensão do que se entende por vida espiritual vai muito além da repetição inconsciente de um ritual ou de uma oração. Por vezes, nos damos conta do potencial que temos de crescimento, mas é preciso ter em mente que ele não acontece por si mesmo. Há caminhos a serem percorridos, programas e passos a nos orientar a fim de termos esse potencial realizado. É preciso estar conscientes do modo como agimos, de como nos relacionamos conosco, com o nosso corpo, com as pessoas que nos rodeiam porque tudo isso cria uma espécie de mundo, interior e exterior, dentro do qual vivemos. Ao evoluir nesses aspectos das nossas vidas, iremos criar condições para viver melhor e para crescer espiritualmente e, nesse ponto, estaremos optando pela liberdade ou pelo sofrimento. Desenvolver a dimensão espiritual é próprio da vida dos seres humanos.
Pode ser difícil andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas, mas fazer exatamente isso sobre a terra tem-se mostrado um enorme desafio, uma tarefa que apresenta novas dificuldades a cada momento. Tornar-se um ser com um individualismo ameno e afável é, provavelmente, o milagre maior que podemos realizar, o objetivo maior que temos na vida. O grande milagre é tornar-se um ser espiritualizado, pois a vida a todos nós tem ensinado que uma pessoa que tenha uma mente poderosa, se não tiver um bom coração, este poder não será de qualquer valia e pode ainda ser desvantajoso. Para caminhar sobre a terra, cada indivíduo tem que partir do fato de que possui uma consciência e de que é um ser único no mundo. Nada e ninguém é igual e isso implica em que o ser humano é só, sente a sua solidão. Possui uma identidade única, é singular. Além de diferenciado no momento da concepção, vive em ambientes diferentes e se desenvolve de um modo que lhe é próprio. Tem que ser ele mesmo dentro do seu espaço de liberdade. O senso de autonomia e autodeterminação lhe traz a idéia de ser responsável por si mesmo, uma vez que é o capitão do seu barco e mestre do seu destino. Percebe que só pode afirmar as suas potencialidades concretizando a própria individualidade. Mas aí entra a idéia de limite, pois que se vai longe demais nesta linha de desenvolvimento, acaba se tornando um ser orgulhoso, degenerado e autodestrutivo. Há também o fato não menos real de que, como ser social, necessita das outras pessoas não só para sustento e companhia, mas também para encontrar significado e sentido para a sua própria vida. Assim, há duas realidades distintas e em oposição e ambas são reais. Chamamos a isso de paradoxo e é a partir dele que temos que crescer espiritualmente.
O indivíduo é impulsionado para o desenvolvimento total das suas possibilidades, mas tem que reconhecer que é incompleto e, como tal, tem a sua fraqueza. Trabalha com a individuação de um lado e com a sua dependência, de outro. O desenvolvimento que se faz mais calcado em uma das vertentes do paradoxo desequilibra a equação. As oposições geram ou são a origem de conflitos, mas se os opostos forem unificados, não haverá tensão, conflito ou medo. O eu torna-se mestre de si mesmo e a vida pode vir a ser o que o indivíduo deseja. Surge a liberdade, o domínio e a unificação. O desenvolvimento espiritual permite encontrar um ponto de equilíbrio entre essas duas tendências. É esse desenvolvimento harmonioso que evita possíveis desvios. Se caminha pelo lado do individualismo, acentua a independência e a auto-suficiência e aí, como não consegue ser auto-suficiente nem independente completamente, é levado a falsificar, ocultando fraquezas e falhas. Tenta ser super-homem e controlar totalmente a sua vida. O individualismo, no entanto, leva ao isolamento social, à solidão que condena a viver um inferno existencial e, numa dimensão maior, à fragmentação da sociedade. Mais adiante, o indivíduo aprende que é natural e humano sentir ansiedade, depressão e abandono e percebe que é no convívio com os outros que pode compartilhar estes sentimentos sem medo ou culpa e ainda sem julgamento, se encontra o nível necessário de entendimento.
A partir deste quadro simplificado e, sendo membro de A.A., o companheiro cresce espiritualmente e passa a desenvolver a ética de um individualismo suave. Por outro lado, a vida mostra que, para cultivar um bom coração, não é suficiente dizer a nós mesmo que devemos ser bons, pois dizer o que devemos ser, sentir ou fazer não nos faz viver deste modo, mas nos abarrota de “deverias”, que muitas vezes nos fazem sentir culpados porque nunca somos como pensamos que deveríamos ser.
O que realmente é necessário, é transformar as nossas mentes e comportamentos aceitando um fato bem caracterizado pelo mito do dragão. Os mitos são uma maravilhosa fonte que nos ajudam a compreender os complexos e multidimensionais aspectos da natureza humana porque representam uma determinada realidade. O dragão é uma criatura mitológica que vem sendo usada por diferentes culturas há muitos séculos. Ele simboliza os seres humanos, já que são cobras com asas, vermes que podem voar e é isso que nós somos. Rastejamos como répteis, atolados na lama de pecaminosas tendências e preconceitos culturais resultantes da mente fechada. Mas, como pássaros ou anjos, podemos voar e transcender a realidade de réptil porque somos espírito e capazes de alcançar os céus. Esta é uma visão clara da nossa realidade.
No mundo ocidental costumamos separar o físico do espiritual. A tecnologia tem desenvolvido conhecimentos que melhoram a nossa qualidade de vida e a nossa condição física pessoal e, particularmente, a nossa saúde. Mas vale dizer que a ênfase maior caberia ao lado espiritual, já que o espírito é entendido por nós como sendo eterno, imortal. Aqui fica uma importante pergunta: seria possível, com a tecnologia de guerra existente nos nossos dias, sobreviver dentro desta posição de manter separado o físico do espiritual? Tudo indica que, para salvarmos a nossa pele, teremos que salvar primeiro as nossas almas. Logo, desenvolvimento espiritual não é retórica abstrata e sem sentido prático. Não parece ser possível melhorar a confusão em que colocamos o mundo de hoje sem pensarmos em alguma espécie de cura espiritual.

UM PROCESSO
Feitas as colocações iniciais, passamos a observar e a apreciar o que acontece num grupo de A.A. e também a identificar o modo pelo qual ocorre o despertar e o crescimento espirituais, em alguns de seus aspectos. Dentre as muitas realidades com que se defronta um recém-chegado a um grupo de A.A., destaca-se a de que, embora fique claro que o objetivo principal seja evitar o primeiro gole e assumir que é só por hoje, ele se dá conta de que há uma mensagem não escrita, que está no ar, e que aponta para o fato de que não basta que apenas viva como um alcoólico sóbrio, em abstinência. Percebe que não é suficiente apenas estar sóbrio, mas que precisa ganhar condições de permanecer sóbrio. Ou seja, ele observa que os companheiros ali presentes não estão apenas sóbrios. Muitos permaneceram sóbrios por longo tempo e estão bem, compostos e felizes. Além do mais, são educados, afáveis, atenciosos e ainda exibem uma atitude de boa vontade e de abertura em relação aos demais companheiros. Tudo isso a indicar que houve um progresso na recuperação. Assim, descobre que há um caminho a ser percorrido, que há uma proposta para esse caminho e, mais adiante, vai ver que progredir ao longo deste caminho é bem mais complexo do que se manter sóbrio. É preciso construir novas referências, estabelecer prioridades, deixar brotar novas esperanças, livrar-se de antigos comportamentos. A porta aberta do grupo dá acesso a uma nova realidade, a um caminho iluminado por luz libertadora.

COMUNICAÇÃO EM PROFUNDIDADE
A seguir, observa que as reuniões do grupo são marcadas pela fala, são reuniões em que se fala, e que o silêncio por parte dos que ouvem, usualmente, é completo. Assim, aquele que fala encontra no silêncio dos outros uma atitude de respeito em relação ao companheiro que faz o seu depoimento, e que isso estabelece uma abertura, traduz uma disponibilidade da parte dos companheiros do grupo.
O homem se realiza como pessoa através da comunicação; na comunicação o indivíduo sai de si em direção ao outro, passa a existir espiritualmente, ao mesmo tempo em que oferece a sua interioridade. Ganha a noção de si mesmo, da sua singularidade espiritual, e não só passa a ser gente, mas se realiza como gente quando se projeta sobre o outro. O isolamento faz crescer o sentimento de insegurança, o medo, mas o grupo responde à necessidade de superar a separação, de realizar a união, de transcender a vida individual, de entrar em sintonia com os outros. No grupo de A.A. todos se relacionam entre si, numa complexa interação. Estar fora dos relacionamentos é como estar fora da vida, e o homem sofre intensamente quando se sente isolado, fora do sistema de relações. Por outro lado, necessita recompor a sua auto-estima, ser aceito e que alguém diga: “Seja bem-vindo ao nosso grupo, você é a pessoa mais importante para nós”. A rejeição que sente, da parte dos que compõem o seu ambiente social, o faz sentir uma experiência de morte e, muitas vezes, o alcoólico nem é chamado pelo nome, apenas tem apelido.
Mas o silêncio de quem escuta um depoimento transmite a quem o faz a seguinte mensagem: eu sei que você tem valor, que é apenas um doente, que é um ser humano como eu, que sofre de uma enfermidade devastadora e, por isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito. Você tem valor e merece a minha compreensão e eu sou capaz de compreender porque tenho a “qualidade” de ser um alcoólico e de ter sido batido pelo mesmo demônio, o alcoolismo. O silêncio permite uma interação, um relacionamento direto e profundo, de olho no olho. Possibilita que se estabeleça uma empatia, significando que se sente precisamente o sentimento e o significado do que está sendo relatado.
Aquele que faz o depoimento encontra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal, o que é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o silêncio permite que ele seja ouvido e compreendido e não apenas escutado. Neste ambiente, o companheiro pode abri-se inteiramente, baixar a guarda, pode estar presente de corpo e alma. O outro ganha existência real e a comunicação inter-humana, com todo o seu potencial, é restabelecida e, não menos importante, fica aberta a porta para o ganho da auto-estima. Compartilha porque tem a mesma necessidade e porque sabe que os companheiros da A.A. podem cicatrizar uns aos outros.
A comunicação profunda, assim estabelecida, quebra o isolamento do alcoólico e integra os membros do grupo dentro de um todo. É estabelecida uma relação intensa e profunda entre os membros do grupo, ao contrário dos contactos sociais superficiais e usualmente ligados a interesses. O relacionamento estabelecido é gratuito porque aquele que faz o seu depoimento oferece a sua experiência pessoal e os demais companheiros, no seu silêncio respeitoso, a sua compreensão e o seu amor de irmão.
O silêncio permite a manifestação da palavra, com todo o seu poder, e induz uma relação de reciprocidade, entendida como um mecanismo totalizador que envolve a todos os que estão no grupo. Estão imersos numa só atmosfera. Essa relação interpessoal profunda é o fundamento da existência de A.A.. É nela que se ganha dimensão humana e espiritualidade, e isso, numa época em que as pessoas se permitem esquecer do que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.
Estabelece-se um ambiente sagrado, vivem-se momentos mágicos e todos sentem essa realidade, sendo usual que os companheiros que fazem os seus depoimentos os encerrem dizendo: “Obrigado pelo silêncio de vocês”.

VALORES ESPIRITUAIS
Identificada a existência de um caminho a ser percorrido, de um programa, e restabelecida a comunicação social numa dimensão muito especial, em algum momento deverá acontecer que um companheiro se aperceba de que uma lágrima rola em seu rosto no decurso de um depoimento. É que terá emergido nele um dos sentimentos mais poderosos que um ser humano pode sentir, que é a compaixão, e isso representa um importante marco no crescimento espiritual.
A compaixão, entendida como a consciência profunda do sofrimento de uma outra pessoa associada ao desejo de aliviá-la, é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os outros companheiros. Não há sentimento mais enriquecedor e mais denso do que a compaixão. Nem a nossa própria dor pesa tanto quanto a dor que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogamos conosco e começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento. Ocorre também que esta dor é prolongada por muitos ecos, que são as lembranças que conservamos e que voltam posteriormente à nossa consciência repetidas vezes. Ter compaixão não é ter pena. A pena coloca as pessoas em situação de superioridade. Compaixão é sofrer junto com quem sofre, caminhar com quem caminha, é atender as necessidades do outro, é não abandoná-lo na sua necessidade.
Esse sentimento compõe a espiritualidade e aumenta a nossa dimensão humana. Abre um espaço para o outro dentro de nós e cria as condições para o surgimento do amor ao próximo. Embora não haja a recomendação para que amassem uns aos outros, este sentimento começa a fluir a partir desta experiência de grande intensidade emocional. O egocentrismo é amenizado, o egoísmo arrefece, o individualismo áspero se abranda sem que as pessoas tenham repetido oralmente qualquer intenção ou que tenham fixado um plano especial para isso.
Essa expansão do sentir, do ser, ocorre dentro da atmosfera do grupo, que é marcada por uma comunicação feita em profundidade e no silêncio respeitoso dos que empaticamente escutam. Isso ocorre num ambiente de compreensão, de respeito e de não julgamento, marcado pela preservação do anonimato que garante, numa palavra, a existência de um ambiente seguro. As pessoas que não conhecem a Irmandade, mas sabem dos sofrimentos intensos da destruição, em todas as dimensões do ser, que ocorrem como decorrência do alcoolismo a um paciente, imaginam que o ambiente dos grupos seja marcado pela dor e pela tristeza. Mas lá estão pessoas vencedoras que, em vez de serem tristes, mostram grande riqueza espiritual e até alegria. É que a atmosfera está sempre impregnada pelo sentimento de compaixão e talvez, por isso, seja tão agradável estar no grupo e desfrutar de toda essa riqueza. Os depoimentos fazem surgir a compaixão e não a tristeza que viria com o sentimento de pena, que torna o outro menor.

HONESTIDADE
Estando na ativa, um dos passatempos preferidos pelos alcoólicos é abusar da boa-fé dos que estão à sua volta e, com o tempo, desenvolvem uma grande habilidade para manipular e acabam se tornam manipuladores deles mesmos. Este comportamento desonesto acabaria, com o tempo, por desintegrar as suas próprias vidas. A desonestidade torna-se um hábito, uma adição tão falaciosa e poderosa quanto o alcoolismo em si. No tempo do alcoolismo ativo, a desonestidade se tornara uma maneira de vida, do que decorre que permanece nas mentes e nas emoções por longo tempo. Acontece, no entanto, que ela dói; é como estar ferido por saber que não se é a pessoa que pensava ser e, ainda mais, por precisar beber.
O alcoólico vive num mundo de ilusões difícil, para ele, de ser identificado como sendo diferente do mundo real, porque não se apercebe como um ser separado da realidade. Continua mentindo quando dizer a verdade seria mais fácil e conveniente. A verdade é que a vida na bebida exigia que fosse desonesto e para mudar isso leva tempo, além de exigir esforço e também o convívio com pessoas honestas.
Estando sóbrio, o alcoólico começa a desfrutar a vida com os sentidos limpos, claros, e se torna capaz de apreciar as realidades do mundo tal como elas são, sem a cortina da substância química, da droga. Ao freqüentar um grupo, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer que o alcoólico irá fazer o seu primeiro depoimento, no qual irá oferece a sua experiência pessoal, sempre única. Nessa oportunidade, irá se defrontar com uma situação inteiramente nova na sua vida. Valorizado pelo silêncio respeitoso, pela atenção dos companheiros, ciente do anonimato, da compreensão confortadora oferecida pelos companheiros e de não ser julgado, ele começa a abrir o seu coração, só que dentro de uma circunstância muito particular: é que todos ali são alcoólicos e passaram por tudo o que ele passou e, os que não tiveram essas experiências, as conheceram a partir dos relatos de outros companheiros, por terem ouvido os seus depoimentos ao longo de anos. Nesta ocasião, surge um obstáculo intransponível que, num primeiro momento, pode não ser perfeitamente identificado, mas é percebido e que estará sempre lá. É que surge uma situação inteiramente nova: como manipular os companheiros que ouvem com atenção e respeito? Como abusar da sua boa-fé? Todos têm a “qualidade” de serem alcoólicos, todos já progrediram no caminho da verdade, no caminho das atitudes conscientes. Eles sabem tudo. Todos já tiveram, em algum grau, a alegria de viver uma realidade muito especial, a de que a verdade liberta. Tornaram-se, com o tempo, capazes de penetrar nas suas racionalizações e reações de defesa.
Mas há muita culpa, muita vergonha, muito remorso e muita dor moral e todos estão atentos e em silêncio. Aí, cada um que faz o seu depoimento encontra o seu caminho diante desta condição irremovível, não contornável, de que a honestidade dos que ouvem ajuda o depoente a encontrar a sua própria honestidade. A honestidade de cada um induz a honestidade de todos. Também, neste aspecto particular, há uma reciprocidade porque aquele que faz o depoimento sente que, no convívio, na interação com os companheiros do grupo, ele não pode ser desonesto, nem com eles nem consigo mesmo. Os que estão presentes necessitam da sua honestidade e o depoente, da mesma forma, precisa da honestidade dos que ouvem o seu depoimento. A honestidade, estabelecida desta maneira, cresce e se expande para áreas cada vez maiores das suas vidas, resultando que, na sobriedade, a honestidade ultrapassa, de muito, a da primeira admissão e isso porque é tão impossível, como diz Platão na República, implantar a verdade na alma de um homem quanto dar a visão a um cego de nascença. A verdade dos que ouvem ajuda aquele que faz o depoimento a encontrar a sua verdade, progressivamente, por si mesmo, ao longo do tempo.
Não há outro caminho possível e, se optar por continuar manipulando, encontrará, depois, algum companheiro que lhe dirá de maneira gentil e com palavras de amor doídas: “você esteve por inteiro dentro de um “show”, poderia o você real se levantar? Para ser honesto, qual é o seu eu verdadeiro?” A aquiescência e o aceno de cabeça dos companheiros que estão à volta o fará encontrar o caminho para a resposta. É que os alcoólicos em recuperação conhecem bem as falácias da negação e do ocultamento. Esse momento é muito difícil, mas há muita energia e muito apoio na atmosfera do grupo, e isso faz a diferença. Como esses momentos usualmente são de grande sofrimento, recomenda-se ao alcoólico recém-chegado que freqüente, se possível, diariamente um grupo de A.A. pelo período de um mês. É preciso receber suporte, compreensão e solidariedade por parte dos companheiros de forma continuada.
A honestidade marca o início da recuperação, quebra a negação e abre para a admissão da impotência diante do álcool e para o fato de que a vida do alcoólico se tornou inadministrável. Quem não for capaz de ser honesto consigo mesmo terá dificuldade de entrar no Programa de Recuperação de A.A.. A honestidade é indispensável para o crescimento espiritual e também para usufruir tudo que a sobriedade e a vida têm para dar.
Para uma pessoa honesta, fica fácil continuar sendo honesta, enquanto que uma mentira sempre leva a uma outra mentira e o hábito da mentira faz do mentiroso um trapaceiro que sempre tem que proteger e preservar a mentira. Pelo contrário, a dedicação à verdade leva a uma vida de honestidade e as pessoas honestas vivem como que ao ar livre e, pela coragem de assim viver, se tornam livres também do medo.
A verdade, como fundamento da libertação, tem que ser total, inteira. O mito de Orestes desvenda aspectos complexos da natureza humana em relação ao poder libertador da honestidade. O mito diz que Agamenon, guerreiro grego e pai de Orestes, que participara da Guerra de Tróia, ao retornar à pátria, vitorioso, foi assassinado pela sua mulher Clitemnestra e pelo seu amante, Egisto. Este fato colocou Orestes num beco sem saída. A maior obrigação de um grego era vingar seu pai em caso de assassinato mas, por outro lado, a coisa mais abominável que um jovem poderia fazer era assassinar a sua mãe. Orestes decidiu matar a mãe, foi condenado e os deuses decidiram que as Fúrias, que eram deidades vingadoras na mitologia grega, e em número de três, iriam rodear Orestes tagarelando culpas nos seus ouvidos e causando alucinações que o levariam à loucura. Por anos, as Fúrias o perseguiram até que Orestes resolveu pedir aos deuses que o aliviassem da pena. Houve um novo julgamento em que o deus Apolo foi seu defensor, e nele mostrou que Orestes não tivera nenhuma possibilidade de uma outra escolha que não as que lhe haviam sido impostas e, por isso, não podia ser considerado culpado. Os deuses do Olimpo resolveram então absolver Orestes que, neste exato momento, e para espanto de todos, se opôs a Apolo dizendo que se achava culpado, pois que não tinham sido os deuses e sim ele mesmo que matara a sua mãe, com as suas próprias mãos. Nunca antes outro ser humano havia colocado a verdade dos fatos de tal forma que lhe fosse tão adversa, especialmente depois de haver sido absolvido. Diante disso, os deuses decidiram manter a suspensão da pena e as Fúrias foram substituídas pelas Eumênides, também outras três deidades da mitologia grega, que eram as “portadoras da graça”. Eram, pelo contrário, vozes de sabedoria, dos espíritos ligados à Terra e associados à fertilidade, tendo também funções sociais e morais. O mito mostra que a verdade, levada ao extremo, foi capaz de transformar a doença mental em saúde e o preço foi a verdade a qualquer custo.
O programa de recuperação de A.A. nos mostra que o caminho da verdade tem que ser percorrido continuamente. É uma busca, um trabalho para toda a vida porque meia verdade ainda é uma mentira. Por outro lado, embora a verdade tenha que ser total e completa, conforta a lembrança de uns pensamentos de A.A. que dizem que se deve preferir o “progresso e não a perfeição” e que se deve “ir de vagar, mas ir”. É preciso ver clara e diretamente a verdade da nossa experiência a cada momento vivido, estar atento, estar consciente. De outra forma, a maior parte da nossa vida é conduzida por um piloto automático que funciona na base da ganância, do medo, da agressão, da busca de segurança, de afeição, de poder, de sexo, de riqueza, de prazer e de fama. Se vivermos agindo de modo a causar sofrimentos para nós e para os que nos cercam, é impossível que a mente se torne serena e centrada como é também impossível abrir o coração. A concentração e a sabedoria se desenvolvem rapidamente na mente baseada na generosidade e na verdade.
Por outro lado, não podemos cair numa historinha que ouvi contar, chamada de “A Caverna da Verdade”. Sabendo da existência dessa caverna, algumas pessoas decidiram conhecê-la. Fizeram uma longa viagem e, finalmente, ao chegarem à entrada, encontraram um guarda e perguntaram se aquela era a Caverna da Verdade, ao que o ele respondeu que sim. Perguntaram se podiam entrar e ele respondeu questionando o quão profundamente eles queriam ir caverna adentro. Conversaram entre si e retornaram dizendo que gostariam de entrar na caverna, mas só o suficiente para dizer que tinham estado lá. Essa história vem à lembrança quando resolvemos desenvolver uma maneira de vida que requer uma honestidade total. É preciso que não se queira ser honesto apenas na medida necessária para dizer que apenas visitamos a verdade e a honestidade. Temos que ir até o fundo, na caverna, para crescermos na honestidade.
Uma outra dificuldade encontrada nessa busca é o medo das conseqüências e da dor que a honestidade pode trazer. Mas, ao compartilhar as suas experiências pessoais no grupo, o alcoólico vai chegar à conclusão de que a desonestidade é ainda mais dolorosa e perigosa. As conseqüências, a curto prazo, de ser honesto são melhores do que as de continuar na desonestidade e é importante destacar que os benefícios que resultam da honestidade serão colhidos logo em seguida.
Até aqui o foco foi colocado sobre o presente e o passado. Mais adiante, na recuperação, a honestidade vai deixar claro que a vida do companheiro tem propósito e sentido, que pode ser útil aos outros, que passa a fazer a diferença e que, se não significa nada para muita gente, torna-se muito importante para os companheiros do seu grupo e para ele próprio.
E como ser honesto? É não ter a intenção de enganar, nem a si nem os outros e nem o Poder Superior. É como parar de beber, é parar. Não há alternativas para essas situações. Cabe aqui uma lembrança: é preciso ir com cuidado e ter paciência neste caminho porque ser brutalmente honesto pode ser mais brutal do que honesto. Finalizando, vimos que o outro, agora, não só existe e ocupa um espaço no interior de cada um companheiro, mas que também é percebido como de fundamental importância para progredir na recuperação, para encontrar a verdade da vida vivida em comunidade e, por isso, enriquecida. Para alcançar um novo equilíbrio, um grau de harmonia indispensável à paz interior e os outros também são indispensáveis para encontrar a honestidade.

A TRANSFORMAÇÃO COPERNICANA DO EU
O ideal superior, livremente escolhido e assumido, de manter as portas do grupo abertas para poder estender a mão àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo e de levar a mensagem de A.A. faz com que os membros do grupo cooperem entre si e, com essa atitude, favoreçam o aparecimento de um clima de entendimento e de harmonia, do qual resulta que o comportamento dos membros do grupo, como um todo, se torna mais social. Vale, neste ponto, enfatizar que a harmonia e a sociabilidade eram tudo o que não ocorria com o alcoólico no tempo da ativa. No grupo, desenvolvem a capacidade de acolher, de serem solidários e cooperativos, de conviver com o diferente, com o outro.
Ao cooperar, o companheiro aprende a amar e ama porque coopera com os membros do grupo para alcançar este importante objetivo. Caminha para a solidariedade deixando para trás de si, muitas vezes, a indiferença de um orgulhoso individualismo. O amor é a conseqüência natural da cooperação com os demais membros do grupo e uma decorrência dessa cooperação. Amar o próximo é algo próprio do ser humano, é manifestação do seu poder de se relacionar com o mundo. Dentro desse clima, o grupo passa a desempenhar o papel de um equipamento coletivo no qual o alcoólico se desloca do egocentrismo e do individualismo para o sociocentrismo. Vivendo nesse ambiente e participando dessa dinâmica, o membro do grupo caminha para uma ampla e completa cooperação e é na socialização que ele se torna mais homem e mais humano. O homem só pode se realizar e ser feliz em ligação e solidariedade com os seus semelhantes.
Em Alcoólicos Anônimos, o alcoólico deixa de ser o centro dos seus próprios interesses e um outro companheiro passa a se constituir num novo pólo mobilizador dos seus esforços, fora de si mesmo, e que vai mudar a sua maneira de se sentir e de ver o mundo que o cerca. O Décimo-Segundo Passo é mais do que uma invocação a se amarem uns aos outros. A sua prática se torna a própria instrumentalização do amor ao próximo. Representa um forte estímulo para que se desenvolva o sentimento de amor ao próximo de modo objetivo, real e eficaz. É como um exercício que desenvolve e fortalece o amor ao próximo, do mesmo modo que o exercício físico desenvolve e fortalece o corpo. O companheiro, participando da vida do seu grupo, evolui na arte de viver e nela ele é, ao mesmo tempo, o artista e o objeto da sua arte, o escultor e o mármore, o médico e o paciente.
Em tempos passados, existiu um astrônomo chamado Ptolomeu que dizia que a Terra estava no centro do universo e que os astros giravam à sua volta. Isso era muito claro e bastava observar o céu. Muito tempo depois, um outro cientista e astrônomo, Copérnico, descobriu que a verdade era bem diferente, pois que os astros realmente não giravam em torno da Terra e sim do Sol. A Terra deixou de ser o centro e o verdadeiro centro dos movimentos passou a ser o Sol. Por estranho que possa parecer, algo semelhante acontece com o alcoólico no convívio com os membros do seu grupo. Ao praticar o 12º Passo, o alcoólico deixa de ser o centro e o irmão que ainda sofre passa a ser o novo pólo em torno do qual giram a sua motivação e os seus esforços, o que leva a uma profunda modificação nos seus interesses e na sua conduta. Essa mudança traz consigo o deslocamento do egoísmo para uma nova condição, ditada pelo amor ao próximo, que ocorre graças à riqueza do 12º Passo. O Terceiro Legado é uma dádiva no caminho de recuperação do alcoólico.

RESPONSABILIDADE AUTO-ATRIBUÍDA
O fato de assumir o ideal maior de manter as portas abertas e de levar a mensagem de A.A. aos que ainda sofrem coloca a Irmandade em ação, leva aos serviços. Cria a necessidade imperiosa de responder a um ideal assumido, ou seja, conduz à responsabilidade porque torna o membro do grupo capaz de dar uma resposta racional a uma atitude racional, feita tanto a si mesmo quanto aos outros companheiros, e é isso que o torna responsável, um indivíduo moral.
Sabiamente, este entendimento faz com que os companheiros sintam-se responsáveis e assumam individualmente, de per si, a execução dos serviços. Aí está a qualidade de ser ela auto-atribuída. Se fosse imposta por alguém ou por alguma norma, poderia ser rejeitada ou não cumprida, mas como é auto-atribuída e como existe até uma importante e fundamental declaração de responsabilidade que costumeiramente é feita pelos presentes a uma reunião de grupo, esta responsabilidade se torna real e tanto é assim que os milhares de grupos existentes em todo mundo são sustentados pelas suas próprias contribuições.
Como decorrência, cada membro de A.A. irá, com o tempo e na medida do seu progresso ao longo do programa de recuperação, se sentindo crescentemente responsável. Declarar-se e sentir-se responsável representa um notável ganho espiritual. No entanto, há algo mais neste caminho, que é a contribuição que se faz na sacola. Aí não é só dizer ou assumir, mas fazer. O ato da doação torna-se um exercício, um ato real que é feito com as próprias mãos e, mais importante, um ato de vontade. Atua da mesma maneira que a ginástica age sobre o corpo; é uma ginástica da responsabilidade, que fortalece a vontade e muda o comportamento ao longo do tempo.
Um outro aspecto de grande importância que é oportuno destacar no que respeita a contribuição na sacola é que não há o estabelecimento de normas ou critérios quanto ao valor da contribuição. Qualquer forma de imposição de valores, ou até mesmo uma simples sugestão, tiraria o grande benefício que recebe aquele que faz a contribuição. É que, se a ordem ou sugestão viesse de fora, o ato deixaria de ser a decorrência de uma decisão pessoal, que parte da vontade livre de quem faz a contribuição. Como tal, deixaria de ter conteúdo próprio, de ser ato de responsabilidade tomado livremente a partir da própria consciência, de entender que precisa sentir gratidão pelo que recebeu, que é ato de amor pelo irmão que ainda sofre e, também, de ter a característica de ser um ato de poder pessoal, que contribui para desenvolver a auto-estima. Fica a sensação de que não pode tudo nem que não pode nada, mas que tem poder em relação a algumas coisas. Só dessa forma, o ato de contribuição se torna o exercício vivo e prático de responsabilidade, da capacidade de responder e se transforma em ginástica da responsabilidade, de exercício que a fortalece.
Vale lembrar que um dos problemas de vida no tempo do alcoolismo ativo era a irresponsabilidade e não se pode avaliar o número de vezes que um alcoólico, na ativa, foi chamado de irresponsável. O contraste de comportamento acentua o enorme ganho espiritual e a forma de auto-atribuição da responsabilidade não poderia ser melhor porque, desta maneira, funciona.
Há ainda um outro desdobramento não menos importante. Tudo isso poderia ser comprometido se o grupo aceitasse contribuições de fora, de outras pessoas que não fossem membros do grupo. Todo esse ganho espiritual estaria comprometido, todo este mecanismo maravilhoso de construção de uma personalidade sadia seria anulado. Mas não se aceitam contribuições financeiras ou aquelas que possam resultar em ganho financeiro e fica assim assegurada a evolução espiritual.
Pode-se identificar, dentro deste ganho espiritual, um importante deslocamento em direção à revolução copernicana do eu, à atenuação de egos inflados e do individualismo áspero.

OPÇÃO POR SER E NÃO POR TER
O recolhimento de recursos financeiros poderia levar a sérios problemas, a conflitos insuperáveis. Alguém, muito importante no mundo dos negócios e que conhecia muito de dinheiro, advertiu, no início da vida da Irmandade, para o fato de que o dinheiro poderia estragar aquele movimento. Mas o perigo foi superado na opção feita pela pobreza, por querer ser e não por ter.
Despreocupados com os problemas do ter, os membros de A.A. têm o espaço aberto para desenvolver o ser. Estão conscientes de que a nossa importância, como seres humanos, não se origina a partir das coisas que apenas possuímos de modo tão passageiro. Querer ter mais, possuir mais não significa ser mais.
Como não há limite para a vontade de possuir mais, o desejo de ter mais leva ao egoísmo e ao individualismo que, por sua vez, não conduz à harmonia nem à paz. Sabemos que a cobiça e a paz se excluem mutuamente. O desejo de querer ter sempre mais leva ao antagonismo entre as pessoas. Uma sociedade, baseada predominantemente no ter, é uma sociedade doente, constituída por pessoas doentes. Não obstante, no mundo que nos cerca, o objetivo maior das pessoas é ter, de tal forma que se pensa que se uma pessoa nada tem, nada é. Mas o sentido da vida é ser muito e não ter muito. É necessário, isto sim, ter o suficiente para poder ser.
Quando uma associação humana como o A.A. se volta para o modo ser de existência, ela faz com que as pessoas dos alcoólicos sejam o centro das atenções, dos esforços e das atitudes, em oposição ao modo ter em que tudo se volta para as coisas. No A.A., o importante é a pessoa do doente alcoólico e esse objetivo não se desloca para o desejo tão generalizado de ter porque a Irmandade optou por ser pobre e se programou para ter apenas o que é essencial ao seu funcionamento e, com isso, evita que o foco das suas atenções se desloque das pessoas para as coisas.
O desejo de ter é tão generalizado que as pessoas chegam a se orgulhar de ter um horrível reumatismo, de ter um grande problema e vemos até que alguns dos nossos desejam ter a maior história de desgraças para relatar. O desejo de ter é de tal forma generalizado, tão enraizado na mente das pessoas, que elas querem ter até coisas que são abstratas e, assim, dizem que têm uma idéia e não que pensam ou que concebem, que têm amor e não que amam, que têm ódio e não que odeiam, que têm desejo e não que desejam, que têm saudade e não que sentem falta, que têm vontade e não que querem; isto é, preferem usar mais o substantivo, que define a coisa, do que o verbo. É difícil que as pessoas entendam que há um outro modo de vida, um modo voltado para ser, que é o modo de Alcoólicos Anônimos. Em A.A., os seus membros procuram ser: dignos, honestos, fraternos, bons companheiros, compreensivos e amáveis, bons pais, bons amigos, bons filhos, bons cônjuges, etc., representando tudo isso um ganho espiritual e um novo potencial de desenvolvimento.
Os modos de ter e de ser caracterizam dois tipos diferentes de comportamento, de pessoas que têm maneiras diversas de sentir, de pensar e de agir. No modo ter, as pessoas querem possuir tudo e todos enquanto que o modo ser traduz vitalidade e força espiritual que leva a um relacionamento amoroso e pacífico.
Com vitalidade e força, o modo ser traduz-se em atividade, processo, movimento. Ser é vida, nascimento, renovação, fluidez, criatividade. Ser quer dizer mudança e transformação para melhor porque mudança e crescimento são qualidades do processo, daquilo que tem vida, e o Programa de Recuperação é todo de crescimento espiritual, é todo um processo de mudança interior, de reformulação de vida, que encontra no modo ser do grupo o ambiente ideal para o pleno desenvolvimento dos membros de A.A..

CONHECE-TE A TI MESMO
O Programa de Recuperação de A.A. é constituído por Doze Passos, quase todos voltados para o autoconhecimento. Ao praticar esses passos, o membro de A.A. inicia uma jornada para dentro de si mesmo que lhe dará valor e grandeza espiritual, além de melhorar a única parte do mundo que depende só de nós, que somos nós mesmos. Praticar os passos representa um esforço que os membros de A.A. realizam para ter um melhor conhecimento de si mesmos. É comum observarmos que as pessoas dediquem seus esforços para conhecer as coisas do mundo e pouco ou nenhum para conhecer a si mesmos. Mas sempre e, em primeiro lugar, o homem precisa saber sobre si mesmo e responder à pergunta: quem sou eu?
Em Alcoólicos Anônimos, a jornada rumo ao interior começa logo no Primeiro Passo, quando o companheiro reconhece e admite a sua impotência perante o álcool e identifica a perda do domínio em relação à sua vida. No Segundo Passo, ele encontra o Poder Superior dentro de si mesmo, encontra o sopro divino, a força criadora que deu origem à sua própria existência. Identifica no Terceiro Passo o enorme poder desta Força que o criou e que, ao mesmo tempo, está no seu interior. Tudo acontece como está escrito: “Ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremendal de lama, colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos”.
No Quarto Passo esmiúçam as suas entranhas cuidadosamente e identificam as origens das suas culpas e vergonhas. O Quinto Passo leva ao conhecimento, a ter consciência de toda a sua trajetória de vida e com ele conhece a natureza exata das suas falhas. Nos Sexto e Sétimo Passos, o membro de Alcoólicos Anônimos entra em comunhão com aquela força que lhe foi dada como herança, a herança de si mesmo, dada pelo Criador. Ao praticar o Oitavo Passo, o companheiro dá início à solução de um grande número de problemas, começa a se harmonizar com o mundo exterior e consigo mesmo e a desfrutar de uma grande paz. Num plano mais elevado e dispondo de maior lucidez e de discernimento, aprofunda o conhecimento de si mesmo e, por último, estreita o seu contacto com o Poder Superior nos Décimo e Décimo Primeiro Passos.
Enquanto os membros de Alcoólicos Anônimos estiverem praticando o programa de recuperação, eles serão sempre seres humanos voltados para o conhecimento e para a conquista de si mesmos. Caminham em direção aos seus interiores e, no fim das suas jornadas, encontrarão a subjetividade, encontrar-se-ão como sendo seres únicos na Criação, com valor e conteúdo interior que darão sentido às suas vidas. Por último, perceberão que são um fim em si mesmo e que têm espírito próprio.
O programa de recuperação está voltado para a descoberta do mundo interior, para o encontro da espiritualidade, para a solução dos problemas mais íntimos, para a percepção do próprio valor e para o encontro da subjetividade.
Uma das maneiras de se evitar a dor é apagar a consciência e aí uma boa solução é tomar uma anestesia ou usar drogas psicoativas. Mas embora a consciência seja a causa da dor, ela também é a nossa salvação porque a saída do problema da dor se faz pelo processo de nos tornarmos crescentemente conscientes, e isso é o que ocorre ao longo do caminho sugerido pelo Programa de Recuperação.

HUMILDADE
Por último, vamos enfocar um atributo que é absolutamente indispensável à recuperação, a humildade. Ela está presente em cada Passo do Programa de Recuperação, está no fundamento de todo o progresso alcançado ao longo do caminho percorrido em direção à recuperação. Para entender melhor o significado da palavra, consultamos o dicionário e vimos que humildade é a qualidade de ser modesto ou respeitoso e modesto é não ter ou expressar uma opinião muito elevada acerca das suas próprias realizações ou habilidades; não ser exibido, arrogante ou pretensioso.
Neste aspecto da evolução espiritual, vamos nos deparar com uma realidade que nos levará, para o seu estudo, a um modo diferente de abordagem. Só é possível enxergar a partir de um determinado ângulo. É preciso abordar o assunto a partir de uma ótica própria, a da humildade. Pela sua importância, este é um tema freqüentemente abordado em reuniões de estudo porque sabemos que representa uma pré-condição para o crescimento indispensável, não só para manter sóbrio o alcoólico mas também para que possa progredir na sua recuperação. Por outro lado, é um tema que se tem mostrado difícil de abordar.
É que há uma realidade que precisamos considerar. Neste momento, optei por escrever algo do que venho aprendendo durante anos e posso escrever agora porque tenho todas as condições para isso. Mas não posso querer que alguém vá ler o que escrevo. De um lado, eu posso optar por usar os meios necessários para escrever, mas de outro, posso apenas e tão somente procurar uma orientação, uma direção, um contexto que, espero, possa levar as pessoas a lerem o que escrevo, mas não mais do que isso. Posso escrever, mas não posso querer que alguém leia o que escrevo, posso continuar escrevendo agora, mas não posso querer que alguém continue lendo.
Humildade é outra coisa que o alcoólico não pode querer, como quero escrever porque tenho os meios. Ele pode não ingerir o primeiro gole, ir a uma reunião de grupo ou trabalhar os Passos do Programa. De outro modo, como sem esforço pego a caneta, ele pode fazer a coisa fácil de pegar o telefone para falar com o padrinho ou pegar o carro para ir ao grupo, mas o que ocorre quase sempre é que acaba indo comprar bebida. Os dois modos de agir são profundamente diferentes.
Da mesma forma, posso desejar conhecimento, mas não sabedoria, submissão, mas não humildade; auto-afirmação, mas não coragem; proximidade física, mas não intimidade emocional. O fato é que podemos querer e ter algumas coisas, mas outras ficam fora da nossa vontade e podem acontecer ou não. Sobriedade, sabedoria, humildade, coragem e amor não são objetos e o que podemos fazer é optar por nos movermos em direção a elas. Como vemos, a humildade está nesta categoria. Ela não pode ser comprada e também não se pode decidir ter. É conseguida indiretamente ao trabalhar os Passos.
Somos limitados porque somos humanos e por não haver absolutos e nem ilimitados no nosso poder humano é que o A.A. aconselha que devemos procurar “progresso e não perfeição”. Assim, os companheiros irão progredindo e se tornando crescentemente humildes.
O alcoólico é como a criança a quem chamamos de reizinho. Quer porque quer e quando quer; o mundo tem que suprir as suas necessidades. Daí o comportamento grandioso. Costumam pagar a conta de quem não conhecem e dão presentes estapafúrdios. A recuperação depende basicamente de assumir atitude humilde e de aceitar a sua impotência diante do álcool e também de admitir que perdeu a capacidade de governar a sua vida.
Embora geralmente seja menos visível, costuma também existir uma baixa auto-estima, que se identifica no comportamento que oscila entre posso tudo e não posso nada, mas sempre achando que é diferente. No trabalho com os 12 Passos, o alcoólico desenvolve um senso mais profundo e seguro de auto-estima.
Embora os alcoólicos relutem em admitir que necessita de ajuda, em aceitar que o Poder Superior possa devolver a sanidade às suas vidas, essa é uma atitude de humildade indispensável para o progresso espiritual e os fazem reconhecer que tanto são únicos como comuns porque compartilham de todas as coisas que são importantes com o resto da humanidade. Também a 12ª Tradição os relembra para colocar os princípios acima das personalidades, e essa é mais uma lição de humildade. Adiante, estando dispostos a aprender, os alcoólicos vão admitir que necessitam da ajuda dos outros para iniciar a sua recuperação e aprender com esses outros a crescerem na sobriedade. Não podem crescer sozinhos e, por outro lado, ninguém pode fazer isso por eles.
A aceitação das conseqüências das suas ações ajuda a perceber a relação de causa e efeito que rege a vida. Aqui, já estão uns primeiros passos e a humildade trabalha entre os dois extremos de comportamento do alcoólico. Os outros, em algum momento, passarão a existir no seu interior e, depois, o companheiro verá que eles continuarão sendo necessários ao longo da recuperação.
Freqüentar reuniões, ler a literatura e compartilhar os seus problemas com o padrinho são de grande valia para se manter sóbrio e também para crescer na humildade. Por outro lado, humildade e humor estão relacionados. O A.A. lembra: “não se leve tanto a sério”. Os companheiros do grupo, às vezes, furam os balões da grandiosidade de um companheiro e, em outras ocasiões, os tiram das profundezas da autopiedade. Isso os faz progredir no caminho da humildade. Rir do passado não significa ter uma atitude irresponsável, mas apenas ver em perspectiva e perceber que as suas ações, pensamentos e sentimentos não estão no centro do universo. Além do mais, tudo isso ajuda a tirar o foco de cima do álcool. Afinal, ninguém, estando bem, resolve ir para o A.A.. É preciso reconhecer que essa atitude é tomada a partir de uma vida de dor, medo, frustração e raiva.
Com o tempo, os alcoólicos em recuperação se dão conta de que estão menos autocentrados, de que as suas vidas estão enriquecidas e a sobriedade é percebida como sendo compensadora. A vida passa a ser organizada também em torno do que podem fazer pelos outros e passam a compartilhar com eles o que têm recebido. Isso já significa o despertar da humildade.
A humildade é também buscada quando resolvem ter a gratidão como um modo de vida e isso porque os ajuda a ver a vida a partir de uma perspectiva diferente. Uma boa maneira de desenvolver este sentimento é anotar todas as coisas em relação às quais devem ser gratos no decurso de um dia. Passam a reconhecer o que lhes foi dado e se importam menos com o que realizam. Um outro modo é desenvolver o hábito da admiração. Admirar o por do sol, o mar, a chuva, etc, porque os tira de dentro de si mesmos de uma maneira sadia. Os serviços realizados no grupo também ajudam a desenvolver a humildade. Ouvir e compartilhar leva a uma saudável e feliz sobriedade. Com a humildade surge o agradecimento, que é a resposta natural à generosidade com que os alcoólicos são recebidos no grupo. É um sentimento profundo e, estando agradecidos, se doam aos outros, de tudo resultando a amizade, o amor e, numa palavra, a solidariedade.
Os que conquistaram um estágio mais avançado de crescimento espiritual, uma maior consciência, são possuídos por uma feliz humildade. Conscientes da sua ligação com um Poder Superior, têm o grande desejo de que “seja feita a Vossa vontade – fazei de mim o Vosso instrumento”.

SER SANTO
Muitas vezes ouvi companheiros dizerem que se fossem seguir os princípios de A.A. se tornariam santos e, por causa disto, não se empenham tanto no Programa de Recuperação. Mas, ao admitirem que “um Deus amantíssimo Se manifesta na nossa consciência coletiva” e, portanto, que está entre eles, no convívio enriquecedor de verdadeiros irmãos, é inevitável assumir que estão crescendo em direção à divindade. Esta é uma idéia muito simples, mas também muito exigente. Se podem alcançar a divindade, então terão que cuidar do crescimento espiritual, buscar níveis progressivamente mais altos de consciência e de atividade amorosa. Assim, o trabalho nunca estará feito, acabado. O crescimento espiritual é um anseio para toda a vida, além do que, é também um caminho trabalhoso, que exige esforço. Talvez esta seja uma desculpa para explicar as dificuldades que encontram ao praticar os Passos porque elas ocorrem naturalmente, uma vez que é preciso coragem, determinação, empenho, constância e coração forte e não é sempre que encontramos pessoas com estes atributos. Entendo também que nascemos para ser santos e o problema é que não conseguimos realizar todo o potencial que temos dentro de nós nem, usualmente, ir tão longe no caminho que nos é sugerido pelo A.A.. No entanto, no meu julgamento, encontrei, ao longo dos mais 30 anos de convívio com membros de A.A., alguns companheiros que penso que são santos. São pessoas maravilhosas, que irradiam uma paz muito grande e possuem uma riqueza interior deslumbrante. Muitos se constituem em figuras exemplares. São excelentes em virtudes e em santidade. São luzes que guiam mais pelo exemplo que pelas palavras. Com os seus depoimentos, estimulam a sermos mais fraternos, termos mais compaixão, sermos mais humanos e espirituais. Tenho desfrutado de grande felicidade na companhia deles. Para mim, são santos e as suas atitudes têm a pureza, a retidão e a reverência como fundamento.

AS INCERTEZAS E OS QUESTIONAMENTOS
Até aqui, as minhas certezas. O que vi e ouvi. O meu entendimento. Não a partir de uma visão idealizada, mas sim a partir da constatação da existência de um ideal perfeitamente realizável e, muitas vezes, realizado. Um caminho que, realmente, está aberto e posto como opção: de percorrer ou não ou até o ponto que se consiga ou deseje alcançar. Fica a idéia de busca a ser empreendida ao longo de um caminho delineado.
A lenda do Graal possui uma vitalidade mágica e por isso é uma lenda viva, que existe há mais de 900 anos e desperta a imaginação e o espírito. Ela também traz a idéia de busca, a busca do Santo Graal. Falar do Santo Graal desperta a imaginação e mobiliza para alguma coisa que está no inconsciente coletivo. A lenda tem origem numa história que resultou de uma mistura e de uma fusão de crenças e lendas populares, chegando a uma imagem sonhada e arquetípica de uma busca final e definitiva para todos e para todas as coisas.
Na época em que a lenda apareceu, a Europa vivia tempos particularmente difíceis, com o poder político fragmentado, onde grupos armados errantes saqueavam as colheitas. Havia fome, epidemias, guerras, tudo isso levando a um profundo empobrecimento da população e gerando insegurança e ansiedade. Nesse ambiente, e como ocorreu em outras épocas, surgiu um grande fervor religioso não só entre cristãos, mas entre os outros povos da região.
Inicialmente, a lenda do Santo Graal era celta e, portanto, pagã, e estava muito ligada aos feitos da cavalaria. Mais tarde, foi cristianizada pelos monges da Ordem de Císter que não tanto a mudaram, mas sim, lhe deram conteúdo cristão. Resultou que o Santo Graal ficou sendo entendido como sendo o cálice usado por Cristo na Santa Ceia e que, mais tarde, foi usado por José de Arimatéia para recolher o sangue que escorreu das feridas do Cristo, quando da crucificação. Ao retornar à Bretanha, o cálice passou de geração em geração, dentro da família de José. O Graal tinha propriedades milagrosas e podia fornecer alimento aos sem pecado, mas cegar os impuros e fazer ficar mudos os irreverentes.
Na lenda, estava implícita a busca de um objetivo geralmente tido como sendo um cálice que só poderia ser alcançado por um ser humano puro. Essa lenda teve evolução diferente em diversas regiões. Na que hoje é a França, a lenda deu origem aos ideais de cavalaria, aos cavaleiros e aos trovadores que cantaram e difundiram os fatos e lendas daquele tempo. Eram cavaleiros galantes que cantavam os grandes ideais e a beleza de nobres senhoras. Na região em que hoje está a Alemanha, a lenda evoluiu para o aparecimento de seres perfeitos e puros que tinham condições de alcançar o Graal. Sobressai aí a figura de um grande personagem, Parsifal. Na Irlanda e na Gran Bretanha houve forte influência de poderes mágicos e de fatos extraordinários ocorridos na corte do rei Artur e do mago Merlin; havia o sentido do fantástico, dos poderes misteriosos, do sobrenatural. Nesta corte, nasceu Galahad, herói e cavaleiro perfeito, sem qualquer defeito de caráter, que se lançou na busca do Santo Graal, sendo essa a parte central da literatura arturiana e do romance medieval de Parsifal.
A grande aventura era chegar ao Santo Graal, sem defeitos, e o contacto com ele, tendo no seu interior o sangue de Cristo, seria o contacto direto com o Cristo e, por meio dele, com o Criador, o Poder Superior. Mas isso só os puros podiam fazer. Comecei a me perguntar se não seria o crescimento espiritual em A.A. um caminho de purificação de modo a tornar alguns companheiros santos. Não teriam eles tido, uma vez que sem defeitos de caráter, algum contacto simbólico com o Santo Graal que os teria tornado santos? Não seria o caminho do crescimento espiritual uma busca, uma trajetória, da mesma forma que o caminho percorrido pelos cavaleiros puros na busca do Santo Graal? Aqueles que alcançassem um nível espiritual elevado, como Galahad e Parsifal, teriam a ventura, rara, de alcançar o Santo Graal. Alguns dos santos que conheci em A.A. foram chamados e moram em algum reino situado além das galáxias, mas outros ainda andam por aqui e vim à Convenção para ter a ventura de conviver um pouco mais com eles e para conhecer mais alguns.

FALANDO SOBRE A TERCEIRA TRADIÇÃO

TERCEIRA TRADIÇÃO

“Para ser membro de A. A., o único requisito é o desejo de parar de beber.”

“Esta tradição é plena de significado. Pois Alcoólicos Anônimos está sempre a dizer a todo beberrão contumaz: “você será um membro de alcoólicos anônimos se assim o quiser. Você pode declarar-se dentro de uma Irmandade; ninguém poderá mente-lo de fora. Quem quer que você seja, por mais baixo que tenha chegado, por mais graves que sejam as suas complicações emocionais – até mesmo os seus crimes – não poderemos negar-lhe A. A. Não queremos que fique de fora. Não tememos nem um pouco que você nos faça mal, por mais perverso e violento que você seja. Queremos apenas ter certeza de que você terá a mesma oportunidade de chegar à sobriedade que nós tivemos. De modo que você será um membro de Alcoólicos Anônimos no instante que assim se declarar.”

Para nós, no início do nosso movimento, estabelecer estes princípios foi muito fácil, foram anos de experiências sofridas. Os que já estavam em A. A., queriam proteger os seus grupos de tal forma que se criavam regras de ingresso, tais regras que levavam alguns a voltar a beber.

Naquela época os grupos mandavam suas listas quilométricas de regras em “proteção” dos grupos para o escritório de Fundação; tais listas que se aprovadas nossa irmandade não teria sobrevivido, porque ninguém teria conseguido ingressar em Alcoólicos Anônimos.

Estas listas eram cada vez mais criteriosas; mendigos, vadios, débeis mentais, homossexuais, etc. não podiam participar dos grupos, porque temiam difamações. Somente alcoólicos puros eram permitidos.

Foram as experiências e erros que nos ensinou que privar o alcoólico de uma plena oportunidade era sentenciá-lo à morte. Podemos ver a história do Ed., que quase foi expulso por ideologia diferenciada, mas quis o Poder Superior que a Terceira Tradição de A. A. entrasse em ação.

Observamos agora como a Terceira Tradição nos dá a visão de que o único requisito é o desejo de parar de beber, não entramos no mérito de escolhas pessoais, tais como: religião, raça, classe social, se é crente ou descrente, se trabalha ou esta desempregado; por isto este é o motivo maior da funcionalidade de alcoólicos anônimos.

Um trecho do Livro A. A. Atinge A Maioridade (pag. 90)

“Qual de nós se atreve a dizer você não pode entrar, assumindo assim o papel de juiz, jurado e talvez carrasco de seu próprio companheiro alcoólico. Dessa maneira a experiência obtida através dos anos, agora condensada na Terceira Tradição, diz: você é um membro de A. A., se você o disser. Não importa o que tenha feito ou que ainda venha a fazer, você é um membro de A. A., contanto que você o diga.”

Diante do que vimos até agora, percebemos o longo tempo que A. A. levou para ser realmente democrático.

Bill W. batizou a Terceira Tradição de tradição universal e classificou-a como sendo o alvará de liberdade para todos os alcoólicos do mundo, que tenham o desejo de se libertarem das garras do alcoolismo.

(Fonte: Gama/Brasília/DF. Outubro de 2.010 – 2º Ciclo de Estudo – As Doze Tradições)

TERCEIRA TRADIÇÃO
Todos têm direito a recuperação

A TRADIÇÃO QUE MAIS ME ATRAIU EM A. A.
Confesso que fiquei impressionado

Não importa o que você fez, se é analfabeto, pobre, tem problemas com a justiça, se usou outras drogas, se acredita em Deus, independente da sua orientação sexual, em Alcoólicos Anônimos (A. A.), você é bem vindo. A Terceira Tradição garante ao doente alcoólico o direito de se recuperar, sem julgamentos, pré-requisitos ou imposições.
A garantia dessa tradição impede que os membros de A. A., instituam regras para o ingresso ou impeçam alguém de ingressar por algum motivo. A criação da Terceira Tradição não foi tarefa fácil, os membros sóbrios queriam criar normas para a entrada dos futuros companheiros na Irmandade. Instituíram tantas regras que se fossem seguidas ao pé da letra, nem eles mesmos poderiam fazer parte de A. A.
Para a sorte de futuros membros (com eu), aboliram todas as exigências de ingresso e decretaram que “Para ser membro de A. A., o único requisito é o desejo de abandonar a bebida”. Sabiamente deixaram que o visitante se declarasse alcoólico ou não.
Esta tradição foi o que mais me atraiu na Irmandade. Ninguém me apontou o dedo. Nenhum companheiro me obrigou a prometer que nunca mais beberia. Ao contrário “eles” me falaram que aprenderam a viver apenas o dia de hoje e como sugestão me ofereceram o “plano das 24 horas”. Ensinaram-me que “nunca mais” esta muito longe, mas que hoje eu posso evitar o primeiro gole e ofertaram-me um programa de vida chamado de Doze Passos.
Confesso que fiquei impressionado. A. A. era diferente de tudo que eu já tinha visto. Senti-me bem junto daquelas pessoas. Estava com os meus iguais. Como bem diz a Terceira Tradição “Quem se atreveria a arvorar-se em juiz, júri e carrasco do seu irmão doente?”
Hoje após algumas vinte e quatro horas de sobriedade, com uma vida refeita, percebo o quanto a Terceira Tradição garantiu a minha sobrevivência, pois se no meu ingresso tivessem-me obrigado a acreditar em algo ou a ter que fazer alguma coisa eu fugiria e sozinho fatalmente minha sentença de morte estaria decretada.
(Fonte: Revista Vivência|Maio-Junho/2010|edição nº 125 – Enéias B – Brasília/DF

A PRÁTICA DA TERCEIRA TRADIÇÃO
Para ser membro de A. A., o único requisito é o desejo de parar de beber

Essa frase é muito fácil de ser entendida, porém não tão fácil para que eu possa praticá-la no meu convívio com outros alcoólicos. A história de Alcoólicos Anônimos registra experiências acumuladas desde seus primórdios a respeito do ingresso ao A. A. Podem ser encontradas em nossa literatura como: Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade, Dr. Bob e os Bons Veteranos, Os Doze Passos e as Doze Tradições, A Tradição de A. A. Como se Desenvolveu, Levar Adiante, A Linguagem do Coração e várias edições da Revista Vivência.
Nessa literatura encontramos exemplos e mais exemplos de regras de ingresso no A. A. que não deram certo, por isso, surgiu a necessidade da Terceira Tradição. As origens da Terceira Tradição nos levam a entender a importância de seu significado para a manutenção e crescimento de nossa Irmandade. Mesmo assim, como membro de A. A. me pego ainda tentando fazer “regras para ingresso”, todas elas de acordo com o maior ou menor grau de confusão de minhas emoções conturbadas de um alcoólico. Mas com o tempo, venho aprendendo a aceitar minhas emoções, praticando os princípios contidos nos Doze Passos, da maneira que posso, para que, em primeiro lugar, me entender um pouco melhor como doente alcoólico, por que sem isso não posso praticar a Terceira Tradição e nem as demais.
À medida que vou entendendo as minhas dificuldades, posso me colocar no lugar de cada alcoólico e procurar compreender suas dificuldades. Dessa forma, sinto-me como aquele recém-chegado que foi cheio de medo, de incertezas, sem esperanças e sem vontade de viver. Compreendo que não importa de onde venha o alcoólico, quem enviou ao A. A., qual a sua profissão, se tem ou não religião, o que importa é que ele veio em busca de ajuda. Como alcoólico em recuperação, lembro-me de que se as pessoas que me receberam tivessem exigido alguma coisa a mais fora da Terceira Tradição, por certo teria ido embora e não teria conseguido nem mesmo iniciar minha recuperação.
Procuro então acolher o alcoólico como merece, com respeito, mantendo o seu direito ao anonimato pessoal e ao sigilo de seus depoimentos, para que possa se sentir num ambiente seguro para se recuperar. Incentivo-o a evitar o primeiro gole, um dia de cada vez. Nesse momento, posso também estar sendo um recém-chegado em algum serviço de A. A., onde companheiros e companheiras estão me ajudando com atenção e carinho, respeitando-me como novato. No momento oportuno, ofereço ao alcoólico minhas experiências pessoais sobre a prática dos Doze Passos, das Doze Tradições e dos serviços em A. A. como fizeram e fazem comigo outros membros para me ajudar a resolver as minhas dificuldades emocionais e espirituais, continuar minha recuperação e transmitir a mensagem a outros alcoólicos.
Essas minhas ações vão permitir que o alcoólico possa decidir por si só, a seu devido tempo, se deseja ou não seguir, a seu modo, o programa de recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos, para parar de beber, continuar freqüentando as reuniões e poder sentir-se um membro de A. A. Dessa maneira estarei praticando a Terceira Tradição porque ofereço ao alcoólico a oportunidade não só de ser membro de A. A., mas de seguir um programa de vida, para toda a vida. Gosto muito de ler para mim ou nas reuniões de A. A. dois pequenos trechos contidos no livro A Linguagem do Coração, edição de janeiro de 2005, páginas 94 e 95:
“Temos que entrar na caverna escura onde ele se encontra e demonstrar que o compreendemos. Damo-nos conta de que ele é demasiadamente débil e confuso para transpor os obstáculos. Se o deixarmos em seu caminho, é possível que não se aproxime de nós e pereça. Pode ser privado de sua oportunidade.”
E mais adiante: “Depois de anos de busca solitária, lhe parece como a luz do dia. Logo lhe salta à vista a realidade de Alcoólicos Anônimos.”
Porque Alcoólicos Anônimos lhe está dizendo: “Temos algo para lhe oferecer de inestimável valor, é só estar disposto a receber”. Mas para nosso amigo é tudo. Sem mais rodeio, converte-se em um de nós.” E o mais importante de tudo é que conhecemos essa caverna e também os obstáculos, mas temos a vantagem de possuir as ferramentas necessárias para iluminar nossos caminhos escuros e transpor os obstáculos: temos o programa de Doze Passos, de Doze Tradições, de Doze Conceitos e os Lemas à nossa disposição, além de nosso próprio exemplo vivo de que funciona.
Serena Vinte e quatro horas.
Fraternalmente
(Fonte: Revista Vivência/Maio-Junho/2010/Edição nº 125 LR – Pedro Leopoldo-MG)

TODOS TÊM DIREITO À RECUPRAÇÃO
Terceira Tradição, o ingresso em A. A.

“Todas as Tradições foram criadas pelo método da experiência e erros, sob essa Tradição estão todas as tentativas fracassadas de impor outras exigências, até mesmo, por exemplo, a intranqüilidade manifestada pelo Dr. Bob acerca da admissão de mulheres, quando apareceram as primeiras.” (Linguagem do Coração, página 94).
Tal como apareceu no prefácio da primeira edição do livro alcoólicos anônimos em 1939: O único requisito para tornar-se membro é o desejo de parar de beber.
Mas levou um longo tempo para A. A. tornar-se realmente democrático. Quando pela primeira vez uma grande publicidade entrou em nosso caminho, ficamos apavorados e falávamos entre nós mesmos: “Não aparecerão todos os tipos de pessoas? Complicações, vocês sabem, p álcool misturado com outras coisas”. Naqueles dias nós estávamos sempre falando sobre um personagem mítico chamado alcoólico puro, sem complicações, vocês entendem, apenas um bêbado. E por isso, quando novos membros começaram a chegar nosso medo aumentou. Perguntávamos: Não aparecerão pessoas esquisitas, criminosas ou socialmente indesejáveis? Confusos e com uma certa quantidade de esnobismo e convencimento, ficamos realmente com medo.
Simplesmente não sabíamos o que ou quem apareceria. Por causa de todos esses temores e intolerância: “Em certa época havia tantas regras para tornar-se membro, que se todas elas tivessem sido impostas, realmente ninguém poderia ingressar em Alcoólicos Anônimos. Mas à media que nossos temores e intolerâncias desapareceram, finalmente dissemos para nós mesmos: “Quem somos nós para impedir ou mesmo dificultar que alguém ingresse em A. A.? Se para muitos bêbados desesperados, Alcoólicos anônimos é a corte de sua última apelação. Como podemos nós os alcoólicos em recuperação, querer fechar a porta para alguém que quer entrar e se recuperar? Não, não podemos nunca fazer isso. Nem mesmo com a finalidade de proteger, que não queremos e nem podemos levantar a menor barreira entre nós e os nossos companheiros e companheiras ainda prisioneiros nas garras do alcoolismo. Jamais podemos ser intransigentes com eles e elas. Temos é que entrar na caverna escura aonde eles se encontram, e demonstrar que os compreendemos. Nos damos conta de que elas são demasiadamente débeis e confusos para transpor obstáculos. E se os deixarmos sozinhos em seu caminho, é possível que não se aproxime de nós e pereça. “Pode se ver privado de sua oportunidade.” Portanto, precisamos correr o risco, não importa quem venha. Qual de nós realmente se atreve a dizer: “não, você não pode entrar”, assumindo assim, o papel de juiz, jurado e talvez carrasco, de seu próprio companheiros ou companheira ainda doente? A Terceira Tradição é uma declaração geral, ela abrange muitos aspectos. Muitos membros da Irmandade, pode considerá-la demasiado idealista e pouco prática. Mas Bill W. a chamou de Tradição Universal; e a classificou como sendo o “alvará de liberdade” para todos os alcoólicos e alcoólicas do mundo, que tenham o desejo de se libertarem das garras do alcoolismo. Todos nós que hoje estamos sóbrios em Alcoólicos Anônimos, sabemos e bem o que é ser um prisioneiro de sua majestade o álcool.
Sabemos por exemplo, que o álcool transformado em voraz credor, nos esvaziou de toda essa auto-suficiência e toda nossa vontade em resistir às suas exigências; e assim decretou a nossa falência como seres humano. Eu não tenho conhecimento preciso sobre o assunto “alvará de liberdade”, e talvez nem devesse estar colocando-o neste trabalho, mas a intenção é apenas fazer uma pequena analogia entre os “alvarás citados”. Pelo que já ouvi, li e entendi; o “alvará de liberdade” é um documento expedito por um Juiz determinando que se liberte alguém que está preso judicialmente. O Juiz manda alguém redigir o documento, que após lido e aprovado, é encaminhado para alguém que tem a responsabilidade de cumpri-lo (de libertar o beneficiado ou a beneficiada) sem questioná-lo. E o que pude observar de diferente é que no judiciário o “alvará de liberdade” é uma ferramenta jurídica, usada pelos juízes para conceder liberdade a uma determinada pessoa que está prisioneira da justiça. Ao passo que a Terceira Tradição de Alcoólicos Anônimos é uma das ferramentas espirituais que o Poder Superior concebeu, para permitir que todos os alcoólicos e alcoólicas do mundo inteiro, tenhas quantas oportunidades que eles ou elas precisarem e quiserem para se recuperarem do alcoolismo. Pois em Alcoólicos Anônimos todos, absolutamente todos os alcoólicos e alcoólicas tem o direito inalienável à recuperação, à liberdade.
Esse direito é conferido pela Terceira Tradição de A. A., e deveria ser cumprido integralmente por todos os Grupos de Alcoólicos Anônimos. Mais uma vez aquela pergunta já feita, mas que todos os membros de A. A., principalmente os servidores de confiança, deveriam fazer para si mesmos e para seus Grupos: “Quem somos nós para impedir ou mesmo dificultar que alguém ingresse em Alcoólicos Anônimos?” Quando falamos em impedir, não estamos falando que exista Grupos ou membros que vá autoritariamente barrar a entrada de alguém na Irmandade. Até por que: Estamos falando de alcoólicos em recuperação, além do que: “Somente uma autoridade preside, em última análise ao nosso propósito comum – um Deus amantíssimo que Se manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos lideres são apenas servidores de confiança, não tem poderes para governar.” E se acreditamos realmente nisso, precisamos colocar em prática sempre. Mas para isso é necessário que cada membro de A. A. estando ou não em serviço, cumpra seu dever ajudando, o Grupo a cumprir seu propósito primordial. O de transmitir a mensagem, permitir a todos os alcoólicos e alcoólicas, o direito de participar de quantas reuniões eles quiserem, sem que coordenadores de reuniões ou outros membros fiquem a todo momento perguntando ou mesmo falando sobre ingresso.
As experiências obtidas através dos anos e condensadas na Terceira Tradição diz: “Você será um membro de A. A. se assim o quiser”. Não importa o que tenha feito ou que ainda venha a fazer, você é um membro de Alcoólicos Anônimos contando que você diga. “Não tememos nem um pouco que você nos faça mal, por mais perverso e violento que você seja. Você tem o direito de declara-se dentro da Irmandade; e ninguém poderá mantê-lo de fora, por mais baixo que tenha chegado, por mais grave que sejam suas complicações emocionais e até mesmo seus crimes; “Não podemos negar-lhe Alcoólicos Anônimos. Não podemos negar-lhe o direito à recuperação, à liberdade. Queremos apenas ter certeza de que você terá a mesma oportunidade de chegar à sobriedade que nós tivemos.”
(Fonte: Revista Vivência / Maio-Junho-2010 / Edição nº 125 – Francisco A. Grupo Patos de Minas – MG)

A PRÁTICA DA TERCEIRA TRADIÇÃO

A PRÁTICA DA TERCEIRA TRADIÇÃO
Para ser membro de A. A., o único requisito é o desejo de parar de beber

Essa frase é muito fácil de ser entendida, porém não tão fácil para que eu possa praticá-la no meu convívio com outros alcoólicos. A história de Alcoólicos Anônimos registra experiências acumuladas desde seus primórdios a respeito do ingresso ao A. A. Podem ser encontradas em nossa literatura como: Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade, Dr. Bob e os Bons Veteranos, Os Doze Passos e as Doze Tradições, A Tradição de A. A. Como se Desenvolveu, Levar Adiante, A Linguagem do Coração e várias edições da Revista Vivência.
Nessa literatura encontramos exemplos e mais exemplos de regras de ingresso no A. A. que não deram certo, por isso, surgiu a necessidade da Terceira Tradição. As origens da Terceira Tradição nos levam a entender a importância de seu significado para a manutenção e crescimento de nossa Irmandade. Mesmo assim, como membro de A. A. me pego ainda tentando fazer “regras para ingresso”, todas elas de acordo com o maior ou menor grau de confusão de minhas emoções conturbadas de um alcoólico. Mas com o tempo, venho aprendendo a aceitar minhas emoções, praticando os princípios contidos nos Doze Passos, da maneira que posso, para que, em primeiro lugar, me entender um pouco melhor como doente alcoólico, por que sem isso não posso praticar a Terceira Tradição e nem as demais.
À medida que vou entendendo as minhas dificuldades, posso me colocar no lugar de cada alcoólico e procurar compreender suas dificuldades. Dessa forma, sinto-me como aquele recém-chegado que foi cheio de medo, de incertezas, sem esperanças e sem vontade de viver. Compreendo que não importa de onde venha o alcoólico, quem enviou ao A. A., qual a sua profissão, se tem ou não religião, o que importa é que ele veio em busca de ajuda. Como alcoólico em recuperação, lembro-me de que se as pessoas que me receberam tivessem exigido alguma coisa a mais fora da Terceira Tradição, por certo teria ido embora e não teria conseguido nem mesmo iniciar minha recuperação.
Procuro então acolher o alcoólico como merece, com respeito, mantendo o seu direito ao anonimato pessoal e ao sigilo de seus depoimentos, para que possa se sentir num ambiente seguro para se recuperar. Incentivo-o a evitar o primeiro gole, um dia de cada vez. Nesse momento, posso também estar sendo um recém-chegado em algum serviço de A. A., onde companheiros e companheiras estão me ajudando com atenção e carinho, respeitando-me como novato. No momento oportuno, ofereço ao alcoólico minhas experiências pessoais sobre a prática dos Doze Passos, das Doze Tradições e dos serviços em A. A. como fizeram e fazem comigo outros membros para me ajudar a resolver as minhas dificuldades emocionais e espirituais, continuar minha recuperação e transmitir a mensagem a outros alcoólicos.
Essas minhas ações vão permitir que o alcoólico possa decidir por si só, a seu devido tempo, se deseja ou não seguir, a seu modo, o programa de recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos, para parar de beber, continuar freqüentando as reuniões e poder sentir-se um membro de A. A. Dessa maneira estarei praticando a Terceira Tradição porque ofereço ao alcoólico a oportunidade não só de ser membro de A. A., mas de seguir um programa de vida, para toda a vida. Gosto muito de ler para mim ou nas reuniões de A. A. dois pequenos trechos contidos no livro A Linguagem do Coração, edição de janeiro de 2005, páginas 94 e 95:
“Temos que entrar na caverna escura onde ele se encontra e demonstrar que o compreendemos. Damo-nos conta de que ele é demasiadamente débil e confuso para transpor os obstáculos. Se o deixarmos em seu caminho, é possível que não se aproxime de nós e pereça. Pode ser privado de sua oportunidade.”
E mais adiante: “Depois de anos de busca solitária, lhe parece como a luz do dia. Logo lhe salta à vista a realidade de Alcoólicos Anônimos.”
Porque Alcoólicos Anônimos lhe está dizendo: “Temos algo para lhe oferecer de inestimável valor, é só estar disposto a receber”. Mas para nosso amigo é tudo. Sem mais rodeio, converte-se em um de nós.” E o mais importante de tudo é que conhecemos essa caverna e também os obstáculos, mas temos a vantagem de possuir as ferramentas necessárias para iluminar nossos caminhos escuros e transpor os obstáculos: temos o programa de Doze Passos, de Doze Tradições, de Doze Conceitos e os Lemas à nossa disposição, além de nosso próprio exemplo vivo de que funciona.
Serena Vinte e quatro horas.
Fraternalmente
(Fonte: Revista Vivência/Maio-Junho/2010/Edição nº 125 LR – Pedro Leopoldo-MG)

TERCEIRA TRADIÇÃO

TERCEIRA TRADIÇÃO

“Para ser membro de A. A., o único requisito é o desejo de parar de beber.”

“Esta tradição é plena de significado. Pois Alcoólicos Anônimos está sempre a dizer a todo beberrão contumaz: “você será um membro de alcoólicos anônimos se assim o quiser. Você pode declarar-se dentro de uma Irmandade; ninguém poderá mente-lo de fora. Quem quer que você seja, por mais baixo que tenha chegado, por mais graves que sejam as suas complicações emocionais – até mesmo os seus crimes – não poderemos negar-lhe A. A. Não queremos que fique de fora. Não tememos nem um pouco que você nos faça mal, por mais perverso e violento que você seja. Queremos apenas ter certeza de que você terá a mesma oportunidade de chegar à sobriedade que nós tivemos. De modo que você será um membro de Alcoólicos Anônimos no instante que assim se declarar.”

Para nós, no início do nosso movimento, estabelecer estes princípios foi muito fácil, foram anos de experiências sofridas. Os que já estavam em A. A., queriam proteger os seus grupos de tal forma que se criavam regras de ingresso, tais regras que levavam alguns a voltar a beber.

Naquela época os grupos mandavam suas listas quilométricas de regras em “proteção” dos grupos para o escritório de Fundação; tais listas que se aprovadas nossa irmandade não teria sobrevivido, porque ninguém teria conseguido ingressar em Alcoólicos Anônimos.

Estas listas eram cada vez mais criteriosas; mendigos, vadios, débeis mentais, homossexuais, etc. não podiam participar dos grupos, porque temiam difamações. Somente alcoólicos puros eram permitidos.

Foram as experiências e erros que nos ensinou que privar o alcoólico de uma plena oportunidade era sentenciá-lo à morte. Podemos ver a história do Ed., que quase foi expulso por ideologia diferenciada, mas quis o Poder Superior que a Terceira Tradição de A. A. entrasse em ação.

Observamos agora como a Terceira Tradição nos dá a visão de que o único requisito é o desejo de parar de beber, não entramos no mérito de escolhas pessoais, tais como: religião, raça, classe social, se é crente ou descrente, se trabalha ou esta desempregado; por isto este é o motivo maior da funcionalidade de alcoólicos anônimos.

Um trecho do Livro A. A. Atinge A Maioridade (pag. 90)

“Qual de nós se atreve a dizer você não pode entrar, assumindo assim o papel de juiz, jurado e talvez carrasco de seu próprio companheiro alcoólico. Dessa maneira a experiência obtida através dos anos, agora condensada na Terceira Tradição, diz: você é um membro de A. A., se você o disser. Não importa o que tenha feito ou que ainda venha a fazer, você é um membro de A. A., contanto que você o diga.”

Diante do que vimos até agora, percebemos o longo tempo que A. A. levou para ser realmente democrático.

Bill W. batizou a Terceira Tradição de tradição universal e classificou-a como sendo o alvará de liberdade para todos os alcoólicos do mundo, que tenham o desejo de se libertarem das garras do alcoolismo.

(Fonte: Gama/Brasília/DF. Outubro de 2.010 – 2º Ciclo de Estudo – As Doze Tradições)