Monthly Archives: Fevereiro 2013

A.A. MINHA RESPONSABILIDADE

Os Irresponsáveis de ontem, tornaram-se os responsáveis de hoje!
Inicio o trabalho, com essa afirmação contida na sétima tradição que, aliás, ela em sua segunda frase diz que é o termômetro, a indicação que houve mudanças profundas em cada um de nós. E sabemos que a ferramenta que A.A. nos dispõe para que tais mudanças ocorram é o programa dos doze passos. Assim se eu não estou sendo responsável é um sintoma que não pratico o programa e se eu não me interesso pelos passos é um sintoma que não quero ser responsável esquecendo-me que: Eu não sou culpado por ser alcoólico mais devo ser responsável pela minha recuperação. Assim é que o programa tem no inicio a finalidade de esclarecer-me que sou um doente e esclarecido disso sem reservas me mostra que devo ser responsável por seguir os passos (tratamneto) que produzirão em mim a modificação da personalidade alcoólica indispensável para que o processo se inicie, ocorrido isso devo ser responsável por disseminar essa mensagem contida nos passos que como diz o Dr. Silkworth a recuperação se dá pela transmissão desses princípios (Doze Passos) a outros assim não dá para conceber o fato de estar eu participando de atividades de CTO , levando a mensagem se eu não tenho sido responsável por estudar, compartilhar experiências e tentado colocado em pratica essa mensagem (Doze Passos) na minha vida diária, antes de oferecer o programa aos outros devo primeiro adotá-lo como um modo de vida. Não da pra aparecer uma vez por ano na sala de um grupo pra pegar um objeto de plástico e dizer que amo a irmandade na verdade tem uma frase numa canção conhecida que diz:
QUEM AMA, CUIDA!
Muitos amam coisas e usam pessoas em vez de usar as coisas e amar as Pessoas ou irmãos (irmandade) O que tem de gente que se torna ou quer se tornar servidor da irmandade sem entrar realmente nessa irmandade! o que não se dá pelo fato de pegar um cartão e um objeto plástico mais sim através de um desejo de modificar o caráter e se tornar responsável colocando a recuperação a frente do serviço de A.A. inclusive, por utilizar e transferir os princípios da irmandade a começar pelo primeiro RECUPERAÇÃO é isso que significa legados utilizar e transferir á próxima geração. Estamos sendo responsáveis por preservar, manter e transferir esses legados a uma geração futura? Pela nossa conduta hoje poderemos estar seguros de que A.A. estará aqui amanhã para os nossos netos? Ou temos transformado A.A. em um local para suing troca de casais, eventos que tem o caráter de produzir essas orgias? Ou temos a finalidade de produzir Honrarias e méritos a pessoas com o personalismo usando até mesmo os que chegam pra nos inflarmos em balões orgulhosos pelo fato dela estar na sala querendo aparecer disputando quem irá ser o padrinho? Depois outra revista escreve sobre isso e queremos condená-los, mas falam mentira quando publicam tais matérias?Ou é isso que passamos para eles? Se um jornalista infiltrar em nosso meio verá o que viu Jack Alexander?
Estamos nos esquecendo de sermos afilhados, como está cada vez menos chegando gente em A. A. estamos nos tornando uma irmandade que só tem padrinhos. Precisamos ser humildes nos lembrando que Sabemos pouco Deus sempre nos revelará mais se relacionarmos com Ele (Fazemos meditação matinal?). Tenho visto grupos que só falam do programa quando chega um recém chegado mesmo assim apenas lendo, alegam: Vamos bater papo ou falar de terceiro legado se chegar um novato abrimos a reunião e falamos dos princípios enquanto isso falam da vida alheia, dos grupos vizinhos, nutrem ressentimentos sujam a casa (sala) e impedem Deus de entrar nela, e perdem seu tempo que podia ser utilizado como uma preparação para oferecerem uma mensagem salvadora aos que estão por vim. Não temos sido responsáveis com a mensagem de A.A. pelo contrário em muitos lugares Algumas pessoas tem sido responsáveis pelo sangue (morte) de muitos alcoólicos precisamos ser responsáveis, saber Que Deus nos deu um talento para falar com outros alcoólatras de uma forma que não foi dada a médicos e catedráticos e estamos enterrando nosso talento. Estou agora aproveitando para fazer um desabafo como um todo. Voltemos-nos para Deus vamos pesquisar profundamente nos livros “Os Doze Passos” e “Alcoólicos Anônimos” e verificar que a finalidade do programa é nos conscientizar do Poder de Deus em nossas vidas que Ele tem muitos milagres a operar em nós que vai além de apenas trocar o conteúdo do copo. A coisa mais importante a que o programa quer nos levar é a conscientização da Presença de Deus. Quando quiserem poderei discorrer mais sobre esse tema “Presença de Deus” citando os diversos pontos literários que demonstram isso. Aqui na região é grande o numero de membros de A.A. que estão suicidando (direta ou indiretamente) sem nem mesmo voltar ao primeiro gole.
Está cada vez mais comum o encerramento de reuniões principalmente de terceiro legado com o termo de responsabilidade que diz: “Eu sou responsável, quando qualquer um seja onde for estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. esteja sempre ali e Por isso eu sou responsável”. Penso que esse desabafo seja um ato responsável de minha parte em muitos lugares a Mão de A.A. já não está mais presente.
Antes de assumir responsabilidade pelo bem estar dos outros que é o espírito central do nosso nono passo preciso assumir responsabilidade comigo mesmo e com a irmandade de A.A. a começar pelo meu grupo. Se todos fossem como eu como seria o meu grupo? Posso me lembrar a última vez que cheguei antes da reunião começar e fiquei até o final da mesma? Qual foi a ultima vez que contribui com mais do que cinco reais com a sétima tradição? Ou só apresento minhas contribuições altas para dar vazão a minha busca de prestigio e poder fora da sacola o que é um ato irresponsável como também atenta a tradição sete?Tenho um grupo base ou estou cada dia em um grupo diferente pouco me importando se eles lutam pra permanecerem abertos ou não? Quando chego penso que eles (o grupo ) é que precisam de mim e não o contrário? Quero arrancar da reunião algo para mim e não me preocupando em o que eu posso oferecer ao encontro? Sou um guardião dos princípios, tomo parte na confecção do manto que protege a irmandade ou sou mais um entre tantos que rasgam esse manto proporcionando ou participando cheio de auto justificativas de eventos que nada tem a ver com o propósito para o qual nossa irmandade foi criada? Preciso ser responsável para construir essa irmandade ao redor de mim como diz o livro azul, gostaria de agradecer o convite para discorrer sobre o assunto que me desperta reflexões. Já recebi inúmeros convites para liderar até mesmo congregações religiosas e neguei, pois percebo que meu chamado é para esse trabalho que considero meu ministério: Alcoólicos Anônimos, fomos chamados a uma única e elevada missão e quem tem missão segundo o dicionário que tenho é um Missionário. Muito Obrigado

Max
Grupo Mente Aberta
Ubá MG

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ALCOÓLICOS ANÔNIMOS – ARTIGO JACK ALEXANDER

Alcoólicos Anônimos (POR JACK ALEXANDER)
Em uma tarde, há algumas semanas, três homens estavam sentados à volta da cama de um paciente alcoólico, na ala de psicopatas do Hospital Geral da Filadélfia. O homem deitado, que era um completo estranho para os três, tinha aquele olhar desgastado e ligeiramente estúpido que os bebedores apresentam, enquanto estão-se desintoxicando após uma bebedeira prolongada. Com exceção do contraste óbvio entre a bem-cuidada aparência dos visitantes e aquela do paciente, a única coisa importante a observar era o fato de que cada um deles já havia passado pelo mesmo processo de desintoxicação várias vezes. Eles eram membros de Alcoólicos Anônimos, um bando de ex- bebedores – problema, que se dispuseram com satisfação a ajudar outros alcoólicos a vencer o hábito da bebida.
O homem na cama era um mecânico de profissão. Seus visitantes tinham estudado nas Universidades Princeton, Yale e Pensilvânia e eram, profissionalmente um vendedor, um advogado e um publicitário. Menos de um ano antes, um deles tinha estado nesta mesma ala do hospital, amarrado à cama. Um de seus companheiros tinha sido do tipo mais conhecido como “interno vaivém” de sanatórios. Mudou-se de uma instituição para outra, infernizando as equipes médicas das mais importantes instituições de tratamento de alcoólicos do país. O outro desperdiçou 20 anos de sua vida, fora dos muros de instituições, tornando a vida insuportável para ele mesmo, para sua família e seus patrões, bem como para diversos parentes bem-intencionados que cometeram a temeridade de tentar intervir no problema.
A atmosfera da ala do hospital estava carregada com o cheiro de paraldeído, ou seja, um odor desagradável de coquetel enjoativo, cheirando como uma mistura de éter com álcool de que os hospitais lançam mão, ocasionalmente, com a finalidade de acalmar o bêbado e aliviar suas tensões nervosas. Os visitantes pareciam ignorar tal fato e também a atmosfera deprimente que está sempre presente mesmo nas mais bem-cuidadas alas de psicopatas. Eles fumaram e conversaram com o paciente, por cerca de 20 minutos e partiram após darem-lhe seus cartões de visita. Antes de sair, disseram ao homem deitado na cama que, se ele acreditasse gostar de rever qualquer um deles, bastaria uma chamada telefônica.
Também deixaram claro que estariam dispostos a deixar seus afazeres, ou levantar-se da cama no meio da noite, para atendê-lo prontamente, caso ele de fato estivesse querendo parar de beber. Os membros de Alcoólicos Anônimos não correm atrás, nem “paparicam” novo companheiro ingressante, mas ardilosos, visto que eles conhecem muito bem as manhas de um alcoólico, da mesma forma que um trapaceiro regenerado continua conhecendo a arte de iludir o próximo.
Nisto repousa grande parte da força de um movimento que, nos últimos 6 anos, trouxe a recuperação a cerca de 2.000 homens e mulheres, dos quais uma grande percentagem tinha sido considerada sem remédio pela medicina. Médicos e sacerdotes, quer trabalhando em separado ou em conjunto, têm sempre conseguido recuperar alguns casos. Em alguns casos isolados, bebedores problema têm encontrado métodos próprios de parar de beber. Mas as incursões na área do alcoolismo não têm apresentado resultado significativo e ele continua sendo um dos maiores problemas de saúde pública não resolvido.
Sensível e desconfiado por natureza, o alcoólico gosta de ser deixado consigo mesmo, para resolver seu próprio quebra-cabeças e possui um meio conveniente de ignorar a tragédia que inflinge aqueles que o cercam. Ele se agarra desesperadamente à convicção de que, apesar de não ter sido capaz de controlar o álcool no passado, seria bem-sucedido, de agora em diante, em tornar-se um bebedor controlado. O alcoólico é um dos mais estranhos animais da medicina e pode ser ou não uma pessoa acentuadamente inteligente. Ele discute habilmente com profissionais e com parentes que tentam ajudá-lo e obtém uma maldosa satisfação com o fato de manipulá-los em uma discussão.
Não existe artimanha ou desculpa para beber de que um A.A., anteriormente na ativa, não tenha ouvido falar ou não tenha utilizado ele próprio para beber.
Quando alguém, abordado, racionaliza seus motivos para se embriagar, eles o confrontam com meia dúzia de outros de sua própria experiência. Isto irrita o novo companheiro em potencial e o coloca na defensiva. Ele observa as roupas limpas e bem passadas, os rostos bem-barbeados de seus interlocutores e os acusa de serem uns retrógrados privilegiados que não têm a mínima idéia do que seja lutar com o álcool. Os AAs retrucam relatando suas próprias estórias: os uísques duplos, os conhaques, antes do café da manhã; o vago sentimento de desconforto que precede uma bebedeira prolongada; o despertar depois de uma bebedeira, sem conseguir se lembrar do que aconteceu nos últimos dias e o medo angustiante de possivelmente ter atropelado alguém com o seu carro.
Eles contam das garrafas de bebida escondidas atrás de quadros ou em qualquer canto da sala, do porão ao sótão; sobre passar dias inteiros dentro de um cinema para afugentar a tentação de um trago; de sorrateiramente ausentar-se do escritório durante o dia, para tomar uma dose bem rápida a cada meia hora. Contam sobre perdas de empregos e o roubo de dinheiro da bolsa de suas esposas; de colocar pimenta na bebida para torná-la mais forte; de tomar bebidas amargas com sedativos, além de tomar perfume e loção para a barba; sobre ficar esperando por 10 minutos até que o botequim da vizinhança abra. Eles descrevem como suas mãos tremiam tanto, que não podiam levar o copo à boca sem derramar; de por a bebida dentro de uma caneca de cerveja para poder agarrá-la com as duas mãos e com mais firmeza, mesmo com o risco de quebrar os dentes incisivos; de amarrar uma ponta da toalha num copo e a outra no pescoço e com a outra mão tentar levar o copo à boca; falam de mãos tão trêmulas que pareciam querer se soltar dos braços e sair voando; de sentar-se em cima das mãos, por horas, para evitar que tudo isto acontecesse.
Esta e outras noções de vivência alcoólica são normalmente suficientes para convencer o alcoólico de que ele está falando com “irmãos de sangue”. Um laço de afinidade, portanto, se estabelece, numa experiência que o médico, o religioso ou o infortunado parente desconhecem. Com base nestas afinidades, os alcoólicos de A.A. que se dedicam a abordagem, dão a conhecer pouco a pouco os detalhes de um programa de vida que vem funcionando para eles e que pode funcionar para qualquer outro alcoólico. Os A.As. não consideram dentro de seu alcance aqueles que já sofrem de problemas neurológicos. Mas, ao mesmo tempo, tomam todas as providências para que os ingressantes tenham toda assistência médica necessária.
Muitos médicos e suas equipes, de instituições através do país, estão agora indicando Alcoólicos Anônimos aos seus pacientes com problemas de bebida. Em algumas cidades, os tribunais e oficiais de justiça cooperam com os grupos locais. Os membros de A.A. recebem os mesmos privilégios que os da equipe terapeuta, nas divisões de tratamento psicopático de algumas cidades. O Hospital Geral de Filadélfia é um deles. O dr. John F. Stouffer, psiquiatra-chefe, diz: “Os alcoólicos que temos aqui são, em sua maioria, aqueles que não podem arcar com as despesas de um tratamento particular e portanto a cooperação dos AAs é, sem a menor dúvida, a melhor coisa que lhes podemos oferecer. Mesmo dentre aqueles que ocasionalmente retornam aqui, observamos profundas mudanças em suas personalidades. Dificilmente outros os reconheceriam”.
O “Illinois Medical Journal”, em um editorial de dezembro último, foi mais além do que o Dr. Stouffer, afirmando: É sem dúvida um milagre quando uma pessoa que tenha estado por muitos anos, em maior ou menor proporção, sob a influência do álcool e em quem seus amigos tenham perdido toda a confiança, venha a sentar-se a noite inteira ao lado de um bêbado e a intervalos prescritos pelo médico administrar-lhes pequenas doses de bebida sem que ele próprio tome uma só gota”.
Isto é uma referência ao aspecto peculiar de aventuras das “Mil e Uma Noites”, a que os AAs se dedicam. Freqüentemente isto implica sentar-se junto a uma pessoa intoxicada, participando intimamente de todas as suas atividades, uma vez que o impulso de jogar-se por uma janela parece ser uma idéia atraente para muitos alcoólicos, no momento de suas crises. Somente um alcoólico para imobilizá-lo e fazer isto transmitindo um misto de autoridade e simpatia.
*Durante uma recente viagem ao Oeste e Meio-Oeste, conversei com um grande número de membros AAs, como se autodenominam, e observei que são pessoas incomumente calmas e tolerantes. De alguma forma, eles parecem mais bem-integrados entre si do que outros grupos de indivíduos não-alcoólicos. As suas transformações, passando de criadores de caso com a polícia, habituais comedores de restos de comida nos lixos e, em alguns casos, espancadores de esposas, foram sem dúvida surpreendentes. Em um dos jornais mais influentes do país soube que o editor-assistente e um repórter conhecido em todo o país eram AAs e tinham a mais completa confiança de seus superiores.
Em outra cidade, presenciei um juiz entregar em liberdade condicional um motorista, preso por dirigir embriagado, a um membro de A.A. Este, durante seus dias de bebedeira, destruiu diversos carros e teve sua própria licença de motorista suspensa. O juiz o conhecia e estava feliz em poder confiar nele. Um brilhante executivo de uma agência de propaganda contou que, dois anos atrás, estava na mendicância, dormindo debaixo do viaduto. Na época, ele tinha um lugar favorito que dividia com outros vagabundos e, periodicamente, retorna ao local, para se certificar de que não está sonhando.
Em Akron, como em outros centros industriais, os grupos têm um forte contingente de membros que são trabalhadores braçais. No Clube Atlético de Cleveland, almocei com cinco advogados, um contador, um engenheiro, três vendedores, um agente de seguros, um comprador, um barman, um sócio-gerente de uma loja, um gerente de uma rede de supermercados e um representante industrial. Eles eram membros de um comitê central que coordena o trabalho de nove grupos vizinhos. Cleveland, com mais de 450 membros, é o maior dos centros de A.A. Em seguida os maiores estão situados em Chicago, Akron, Filadélfia, Los Angeles. Washington e New York, existindo, no total, grupos em cerca de 50 cidades e municípios.
Quando discutindo o seu trabalho, os AAs explicavam que sua recuperação de bêbados era em realidade o seu próprio “auto-seguro”. Afirmaram que a experiência dentro do grupo mostrou que, uma vez que um bebedor em recuperação reduz o ritmo de sua atividade de levar a sua mensagem a um alcoólico que ainda sofre, então existe maior possibilidade dele mesmo voltar a beber. Todos eles concordam em que não existe a personagem do ex-alcoólico.
Cada alcoólico, ou seja, um indivíduo incapaz de beber normalmente será sempre um alcoólico até a sua morte, de forma semelhante a um diabético.
A sua melhor expectativa é estacionar o processo da doença, utilizando a interrupção do ato de beber, como se fosse sua insulina. Pelo menos, é esta a afirmação dos AAs, que tende a ser confirmada pela opinião dos médicos envolvidos. Com raras exceções, todos afirmaram ter perdido todo seu desejo pelo álcool. Por ocasião da visita de amigos a suas residências, a maioria dos AAs serve bebidas alcoólicas a seus amigos e até mesmo vai a bares com companheiros que bebem. Os AAs somente bebem refrigerantes e café.
Um deles, um gerente de vendas, serve bebidas no bar durante a reunião anual de sua companhia em Atlantic City e, durante toda essa noite leva participantes para suas respectivas camas. Somente um número muito reduzido de alcoólicos em recuperação deixa de ter a certeza de que, no exato minuto em que tomarem impensadamente o primeiro gole, estará despertando um compulsão descomunal e incontrolável em relação à bebida e de conseqüências desastrosas. Um A.A., que é funcionário administrativo numa cidade do Leste, afirma que, apesar de não ter tomado uma única dose de bebida em três anos e meio, ainda passa apressadamente por bares, de modo a evitar a antiga compulsão; ele, no entanto, certamente é uma exceção. A ressaca dos dias tormentosos que afligiram um AA certamente é o único pesadelo remanescente. Nesse sonho ele se encontra no centro de um turbilhão, tentando freneticamente ocultar sua condição da comunidade. No entanto, até mesmo este sintoma desaparece, a curto prazo, na maioria dos casos. Surpreendentemente, o percentual, entre essas pessoas, que encontra emprego e trabalho, quando anteriormente haviam perdido todos seus empregos, em virtude da bebida, é da ordem de 90%.
Alcoólicos Anônimos declara que é de 100% a eficiência de seu programa, para bebedores não-psicóticos que sinceramente desejam parar de beber. Os AAs acrescentam que o programa não trará resultados, em relação àqueles que apenas querem poder parar de beber por temerem perder suas famílias ou seus empregos. Afirmam que o desejo objetivo deve ter como origem um interesse pessoal verdadeiramente esclarecido e iluminado; o iniciante deve querer livrar-se da bebida alcoólica para evitar a prisão ou morte prematura. Ele precisa estar totalmente exaurido da solidão social que cerca o bebedor descontrolado e deve querer pôr alguma ordem em sua vida desregrada.
Como é impossível desqualificar todos os candidatos que se apresentam, a porcentagem de recuperação não chega a 100%. De acordo com estimativas de A.A., cinqüenta por cento dos alcoólicos filiados recuperam-se quase imediatamente: vinte e cinco por cento melhoram após uma ou duas recaídas e o restante permanece em dúvida. Este índice de sucesso é excepcionalmente elevado. Pela inexistência de dados estatísticos sobre curas através da medicina tradicional ou da religião, a estimativa é de que a recuperação por tais métodos não atinge mais do que dois ou três por cento.
Embora ainda seja muito cedo para afirmar que Alcoólicos Anônimos é a resposta definitiva para o alcoolismo, os resultados obtidos em pouco tempo são impressionantes e têm recebido apoio promissor. John D. Rockefeller Jr. ajudou no custeio das despesas iniciais do movimento e procurou de todas as formas interessar outros cidadãos preeminentes no assunto.
A contribuição de Rockefeller foi muito pequena, atendendo em atenção aos pedidos insistentes dos fundadores de que o movimento fosse mantido em base voluntária e em regime não profissional. Não há organizadores assalariados, obrigações, administradores contratados e nenhum controle central. Nos grupos, os aluguéis de salas de reunião são pagos através de coleta feita durante as reuniões. Em pequenas comunidades, nem mesmo são feitas coletas porque as reuniões são realizadas em residências particulares. Um pequeno escritório no centro de New York atua meramente como central de informações. Não existe nenhum nome na porta e a correspondência é recebida anonimamente através de uma caixa postal. A única receita é a exatamente resultante da venda de um livro que descreve o trabalho de A.A. e é administrada pela Fundação Alcoólica, uma junta composta por três alcoólicos e quatro não-alcoólicos.
Em Chicago, vinte e cinco médicos trabalham em estreita cooperação com Alcoólicos Anônimos, contribuindo com seus serviços e encaminhando seus próprios pacientes alcoólicos para os grupos, atualmente cerca de 200. A mesma cooperação existe em Cleveland e, em menor escala, em outras cidades. Um médico, o Dr. W. D. Silkworth, da Cidade de New York, deu ao movimento seu primeiro encorajamento. No entanto, muitos médicos continuam incrédulos. O Dr. Foster Kennedy, um eminente neurologista de New York, provavelmente tinha em mente atingir alguns médicos, quando declarou, em uma reunião um ano atrás, que: “O propósito daqueles que estão envolvidos neste esforço contra o alcoolismo é elevado; seu sucesso tem sido considerável e eu acredito que a classe médica bem-intencionada deveria dar-lhes apoio”.
A ajuda ativa de dois médicos de boa vontade, Drs. A. Wiese Hammer e C. Dudley Saul, tem colaborado enormemente para que o grupo de Filadélfia seja um dos mais eficientes daqueles recentemente fundados. O movimento teve início em Filadélfia de um modo improvisado, no mês de fevereiro de 1940, quando um empresário que tinha ingressado no A.A. foi transferido de New York para a Filadélfia. Com receio de recair por não ter como ajudar alcoólicos, o recém-chegado abordou três bebedores crônicos que freqüentavam estabelecimentos da pior qualidade, na redondeza, e começou a trabalhar com eles. Conseguiu mantê-los sóbrios e o quarteto formado começou a investigar detalhadamente outros casos. Por volta de 15 de dezembro último, noventa e nove alcoólicos tinham se juntado a eles.
Destes, oitenta e seis conseguiram manter finalmente total abstinência, sendo que trinta e nove mantiveram-se abstêmios por um período variando de três a seis meses e vinte e cinco no intervalo de seis a dez meses. Cinco membros que se filiaram em outras cidades estavam sem beber por períodos variando de um a três anos.
A cidade de Akron, que foi o berço do movimento, mantém o recorde interno de tempo de permanência em abstinência. De acordo com uma pesquisa recente, dois membros estão seguindo o programa de A.A. há cinco anos e meio; um, há cinco anos; três, há quatro anos e meio; um pelo mesmo período, com uma recaída; três, por três anos e meio, com uma recaída cada; um, por dois anos e meio e treze, por dois anos.
No passado, muitos dos membros de A.A. das cidades de Akron e Filadélfia não tinham conseguido abster-se de álcool por mais do que algumas semanas.
No meio-oeste (dos EUA) o trabalho tem sido quase exclusivamente entre pessoas que nunca foram internadas. O grupo de New York, que tem um núcleo semelhante, dá uma atenção especial aos pacientes alcoólicos internados em instituições e tem conseguido resultados extraordinários. No verão de 1939, o grupo começou a trabalhar com alcoólicos internados no Hospital Estadual de Rockland em Orangeburg, que é um enorme sanatório para doentes mentais e recebe os alcoólicos sem expectativa de recuperação dos grandes centros populacionais. Com estímulo do Dr. R. E. Blaisdell, o superintendente-médico, um grupo foi formado dentro do hospital e as reuniões eram realizadas na sala de recreação. AAs de New York iam a Orangeburg para fazer palestras e, nas tardes de domingo, os pacientes eram levados em ônibus estaduais para o clube que o grupo de Manhattan alugava no lado Oeste.
Em primeiro de julho último, isto é, onze meses depois, registros mantidos no hospital demonstraram que, dos cinqüenta e quatro pacientes entregues a Alcoólicos Anônimos, dezessete não tiveram nenhuma recaída e quatorze apenas uma. Dos restantes, nove voltaram a beber em suas comunidades de origem, doze voltaram ao hospital e dois não puderam ser localizados. O Dr. Blaisdell escreveu favoravelmente sobre o trabalho de A.A. ao Departamento Estadual de Higiene Mental e enalteceu-o oficialmente em seu último relatório anual.
Resultados ainda melhores foram obtidos em duas instituições públicas de New Jersey – Greystone Park e Overbrook que atraem pacientes de melhores condições econômicas e sociais do que os de Rockland, devido a sua proximidade a regiões mais prósperas. Em 2 anos, de sete pacientes que receberam alta da instituição de Greystone Park, cinco abstiveram-se de álcool por períodos de um a dois anos, de acordo com registros do A.A. Oito de dez pacientes de Overbrook que tiveram alta abstiveram-se de álcool por mais ou menos o mesmo período. Os outros tiveram uma ou diversas recaídas.
As autoridades não conseguem concordar no motivo pelo qual algumas pessoas tornam-se alcoólicos.
Alguns pensam que qualquer um pode “nascer alcoólico”. Uma pessoa pode nascer, dizem eles, com uma predisposição hereditária ao alcoolismo, assim como outra pode nascer com uma vulnerabilidade à tuberculose. Os demais parecem depender do ambiente em que vivem, bem como sua experiência, embora uma teoria afirme que algumas pessoas são alérgicas ao álcool da mesma forma como outras sofrem de febre do feno e alergia a pólen. Apenas uma característica parece ser comum a todos os alcoólicos: imaturidade emocional. Estreitamente relacionada a isto existe a observação de que um número muito grande de alcoólicos inicia suas vidas como filhos únicos, filhos caçulas, único filho homem em uma família de mulheres ou única filha em uma família de meninos. Muitos têm estórias de precocidade infantil e eram crianças mimadas.
Freqüentemente, a situação é complicada pela atmosfera familiar, onde um dos pais é indevidamente rigoroso e o outro superindulgente. Qualquer combinação desses fatores, acrescida de um divórcio ou dois, tende a produzir crianças neuróticas que estão indevidamente equipadas emocionalmente para encarar as dificuldades normais da vida adulta. Para escapar disso, alguns trabalham de forma exagerada, dedicando às suas atividades profissionais doze a quinze horas por dia, ou em esportes, ou em alguma atividade artística paralela. Outros encontram o que acreditam ser uma fuga prazerosa na bebida. A bebida exacerba seu auto-conceito, encobre temporariamente qualquer sentimento de inferioridade social que possa ter. E passa a beber cada vez mais. Os amigos e a família se afastam e os patrões tornam-se intolerantes. O bebedor se afoga em ressentimentos e autopiedade. Ele se permite racionalizações infantis para justificar sua maneira de beber: tem trabalhado duro e merece relaxar; sua garganta dói de uma antiga operação de amídalas e um drinque aliviaria a dor; está com dor de cabeça; sua mulher não o entende; seus nervos estão à flor da pele; todo mundo está contra ele; e por aí afora. Inconscientemente se transforma em um auto- enganador crônico.
Sempre que ele está bebendo, diz a si mesmo e àqueles que se intrometem em seus assuntos que pode realmente tornar-se um bebedor controlado se assim o quiser. Para demonstrar sua força de vontade, fica várias semanas sem beber uma gota de álcool. Ele faz grande alarde em ir a seu bar favorito a determinada hora, a cada dia e ostensivamente ficar tomando leite aos golinhos ou refrigerante sem se dar conta de que está incorrendo em um exibicionismo juvenil. Falsamente encorajado, ele volta à rotina de uma cerveja por dia e isto é mais uma vez o começo do fim. Cerveja leva inevitavelmente a mais cerveja e depois a bebidas fortes. Bebidas fortes conduzem a mais outra bebedeira monumental. Estranhamente, o gatilho que detona a explosão pode ser tanto uma vitória comercial como uma maré de má sorte. Um alcoólico não pode suportar nem a prosperidade nem a adversidade.
A vítima fica perplexa ao sair do nevoeiro alcoólico. Sem que ele se apercebesse, aquilo que era um hábito tornou-se gradualmente uma obsessão. Depois de algum tempo, não precisa de racionalizações para justificar o primeiro drinque fatal. Tudo que ele sabe é que se sente inundado de desconforto ou de júbilo e, antes que perceba o que está acontecendo, está defronte do balcão do bar com um copo de uísque vazio à sua frente e uma sensação estimulante na garganta. Por algum ardil peculiar de sua mente, foi capaz de esquecer a dor intensa e o remorso causados pelas bebedeiras precedentes. Depois de muitas experiências deste tipo, o alcoólico começa a perceber que não se entende e fica imaginando por que sua força de vontade, que é eficaz em outras situações, não funciona em sua defesa contra o álcool. Ele pode seguir tentando derrotar sua obsessão e terminar num sanatório. Ele pode desistir da luta, considerando-a sem esperanças, e tentar o suicídio. Ou pode procurar ajuda de terceiros.
*Se apelar para os Alcoólicos Anônimos, ele é antes de mais nada ajudado a admitir que o álcool o derrotou e que tinha perdido o domínio sobre sua vida. Tendo atingido esse estado de humildade intelectual, recebe uma dose de religiosidade no seu sentido mais amplo. Pede-se a ele que acredite em um Poder Superior a ele, ou que pelo menos mantenha a mente aberta a respeito do assunto, enquanto prossegue com o restante do programa. Qualquer conceito de Poder Superior é aceitável. Um cético ou agnóstico pode escolher seu próprio Ser Superior entre, por exemplo, o milagre do crescimento, uma árvore, o deslumbramento do homem face ao universo, a estrutura do átomo, ou meramente o infinito matemático. Qualquer que seja a forma de visualização do Poder Superior, o novato é ensinado e deve, a seu próprio modo, orar a esse Poder para que forças lhe sejam dadas.
Em seguida, ele faz uma espécie de inventário moral de si mesmo com o auxílio particular de outra pessoa, um de seus padrinhos de A.A., um religioso, um psiquiatra ou outra pessoa de seu agrado. Se ele assim o desejar e se isto vier a constituir-se alguma forma de alívio, pode levantar-se em uma reunião e relatar seus infortúnios, embora não seja obrigado a isto. Ele restitui o que eventualmente tenha roubado enquanto bêbado e empenha-se em pagar velhas dívidas e honrar cheques sem fundo; faz reparações a pessoas a quem tenha ofendido e, em geral, realiza a melhor limpeza possível em seu passado. Não é incomum que padrinhos lhe emprestem dinheiro para ajudá-lo em seu reinício.
Esta catarse é considerada importante devido à compulsão que um sentimento de culpa exerce sobre a obsessão alcoólica. Como nada empurra mais um alcoólico para a garrafa do que ressentimentos pessoais, o novato faz uma lista de seus ressentimentos e decide não ser abalado por eles. A partir desse momento, ele está pronto para começar a trabalhar com outros alcoólicos na ativa. Pelo processo de extroversão que o trabalho envolve, ele consegue pensar menos em seus próprios problemas.
Quanto mais bebedores ele conseguir atrair para Alcoólicos Anônimos, tanto maior será sua responsabilidade com relação ao grupo.
Ele não pode embriagar-se agora sem afetar negativamente pessoas que provaram ser seus melhores amigos. Está começando a crescer emocionalmente e deixando de ser um dependente. Se tiver sido educado de acordo com uma religião, geralmente, mas não sempre, poderá tornar-se novamente um freqüentador regular.
De forma simultânea a seu processo de reconstrução, o alcoólico inicia o processo de reajuste em sua maneira de viver. Esposa ou marido de alcoólicos e também filhos tornam-se freqüentemente neuróticos pela exposição aos excessos alcoólicos que tenham ocorrido durante um longo período de tempo. Reeducação da família é uma parte essencial no programa de acompanhamento que foi delineado.
Alcoólicos Anônimos, que é uma síntese de velhas idéias, em vez de uma descoberta nova, deve sua existência à colaboração de um corretor da Bolsa de New York e de um médico de Akron, Ohio. Ambos alcoólicos, encontraram-se pela primeira vez há pouco menos de seis anos. Em trinta e cinco anos de bebedeiras periódicas, o Dr. Armstrong – para dar ao médico um nome fictício – bebeu a ponto de quase abandonar a prática da medicina. Armstrong tentou de tudo, para abandonar a bebida, inclusive o Grupo Oxford, sem conseguir nenhuma melhora. No dia das mães do ano de 1935, ele voltou para casa cambaleando, à moda típica dos bêbados, abraçado a um caríssimo vaso de plantas que depositou no colo de sua mulher. Então subiu as escadas e desmaiou.
Nesse mesmo instante, perambulando nervosamente pelo hall de um hotel de Akron, achava-se o corretor de New York, a quem chamaremos arbitrariamente de Griffith. Ele estava com sérios problemas. Na tentativa de obter o controle acionário de uma firma e recuperar sua situação financeira, ele tinha vindo a Akron e estava empenhado numa disputa legal para conseguir procurações de acionistas dessa firma. Tinha perdido a disputa. Estava devendo a conta do hotel e quase absolutamente sem dinheiro. Griffith estava com vontade de beber.
Durante sua carreira em Wall Street, Griffith realizara negócios de grande vulto e prosperara, mas, por força de episódios desastrosos com bebida, tinha perdido suas oportunidades mais importantes. Por um período de cinco meses, antes de viajar para Akron, tinha-se mantido abstêmio em relação a bebidas alcoólicas, graças aos ensinamentos do Grupo Oxford de New York. Fascinado com o problema do alcoolismo, ele voltara muitas vezes, como visitante, a um hospital de desintoxicação no Central Park West, onde tinha estado como paciente e conversara com os doentes internados. Ele não efetivou nenhuma recuperação, mas percebeu que, trabalhando com outros alcoólicos, conseguia afastar sua compulsão pelo álcool.
Sendo um estranho em Akron, Griffith não conhecia nenhum alcoólico com quem pudesse discutir abertamente seus problemas com o álcool. Uma lista telefônica com números de igrejas, pendurada no saguão em frente ao bar, deu-lhe uma idéia. Ele telefonou para um dos clérigos relacionados na lista e através dele entrou em contato com um membro local do Grupo Oxford. Essa pessoa era amiga do Dr. Armstrong e, assim sendo, pôde realizar as respectivas apresentações durante o jantar. Desta maneira, o Dr. Armstrong tornou-se realmente o primeiro discípulo de Griffith. No começo ele estava muito trêmulo. Depois de algumas semanas de abstinência, foi para o oeste do EUA participar de uma convenção médica e voltou numa bebedeira deplorável. Griffith, que tinha ficado em Akron para finalizar a resolução de impasses surgidos na disputa legal das procurações, colaborou com ele em seu retorno à sobriedade. Isto foi em 10 de junho de 1935. Os goles que o médico tomou da garrafa oferecida por Griffith naquele dia foram os últimos drinques em sua vida.
Os problemas de demanda judicial de Griffith estavam-se prolongando, mantendo-o em Akron por seis meses. Ele mudou-se para a casa dos Armstrong e, juntos, em dupla, trabalharam outros alcoólicos. Antes de Griffith retornar a New York, ambos conseguiram converter mais duas pessoas em Akron. Nesse ínterim, ambos, Griffith e Armstrong, tinham-se desligado do Grupo Oxford, porque sentiram que seu evangelismo, por demais agressivo e outros de seus métodos eram empecilhos no trabalho com alcoólicos. Eles passaram a usar técnica própria, estritamente em bases de “pegue ou deixe” e assim a mantiveram.
O progresso foi lento. Após o regresso de Griffith para o Leste, o Dr. Armstrong e sua esposa, graduada em Wellesley, transformaram sua residência em um refúgio gratuito para alcoólicos e num laboratório experimental para estudar o comportamento dos hóspedes. Um dos hóspedes que, sem que seus anfitriões soubessem, era maníaco-depressivo e alcoólico, enfureceu-se uma noite, apossando-se de um facão de cozinha. Ele foi subjugado antes de ter podido esfaquear alguém. Depois de um ano e meio, um total de dez pessoas tinha respondido ao programa, permanecendo abstêmio em relação ao álcool. O restante das economias da família tinha-se esgotado com esse trabalho. A nova sobriedade do médico proporcionou-lhe reativar sua clínica, mas não o suficiente para arcar com as despesas extras. Os Armstrongs, apesar de tudo, prosseguiram por meio de recursos obtidos através de empréstimos. Griffith, cuja esposa tinha hábitos espartanos, transformou a sua casa de Brooklin em uma réplica da casa de Akron. A Sra. Griffith, oriunda de uma tradicional família de Brooklin, empregou-se em uma loja de departamentos e nas horas vagas praticava enfermagem junto aos embriagados. Os Griffith também tomaram dinheiro emprestado, e Griffith conseguiu realizar pequenos negócios e ganhar algum dinheiro em transações nas corretoras de valores. Por volta da primavera de 1939, os Armstrongs e os Griffiths tinham, entre si, conduzido cerca de cem alcoólatras à sobriedade. **************
Em um livro publicado naquele tempo, os bebedores recuperados descreviam o programa de cura e relatavam suas histórias pessoais. O título era “Alcoólicos Anônimos”. Foi adotado como denominação para o próprio movimento, que até então não tinha nenhum nome. Quando o livro entrou em circulação, o movimento difundiu-se rapidamente.
Hoje o Dr. Armstrong ainda está lutando para reconstruir sua prática na profissão médica. A tarefa é árdua. Ele está totalmente absorvido devido a suas contribuições ao movimento e ao tempo gratuito que devota aos alcoólicos. Sendo uma pessoa-chave no grupo, ele é incapaz de negar-se a atender as solicitações de ajuda que assoberbam seu consultório.
Griffith se encontra em muito pior situação. Nos últimos dois anos, ele e sua mulher não têm tido o que se pode considerar como um lar no sentido normal da palavra. Da mesma maneira como os primitivos cristãos, eles têm-se mantido em permanente condição de mudança, encontrando abrigo nas casas de companheiros AAs e, eventualmente, vestindo roupas emprestadas.
Tendo iniciado um movimento de maior importância, ambos desejam afastar-se de seu centro nervoso, de modo a reajustar-se financeiramente. Eles consideram que da maneira como a coisa vai indo, o movimento é virtualmente auto-operacional e irá automultiplicar-se. Devido à ausência de personalidade de renome e ao fato de não existir nenhuma sociedade formal a ser promovida, eles não temem que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos possa degenerar-se em culto.
A natureza espontânea do movimento torna-se aparente, de acordo com as cartas arquivadas no escritório de New York.
Diversas pessoas têm escrito, relatando que pararam de beber assim que terminaram a leitura do livro e fizeram de suas casas locais de reunião para pequenos núcleos locais. Até mesmo um grupo de grandes proporções, como o de Little Rock, iniciou-se desta forma. Um engenheiro civil de Akron e sua esposa, num gesto de gratidão por sua cura há quatro anos, vêm trazendo assiduamente alcoólicos para sua residência. De um total de trinta e cinco desses iniciantes, trinta e um se recuperaram.
Vinte visitantes de Cleveland absorveram a idéia em Akron e voltaram a seus locais de origem para iniciar um grupo próprio. De Cleveland, por diversos meios, o movimento se alastrou para Chicago, Detroit, St. Louis, Los Angeles, Indianópolis, Atlanta, San Francisco, Evansville e outras cidades. Um jornalista alcoólico de Cleveland, que tinha um pulmão arruinado cirurgicamente, mudou-se para Houston por questões de saúde. Ele conseguiu um emprego em um jornal de Houston e, através de uma série de artigos escritos para esse mesmo jornal, iniciou um grupo de A.A. que, no momento, conta com trinta e cinco membros. Um membro de Houston mudou-se para Miami e está agora se esforçando para atrair para a irmandade alguns dos mais eminentes bebedores daquele balneário de inverno. Um vendedor-viajante de Cleveland é responsável pelo início de pequenos grupos em várias partes diferentes do país. Menos da metade dos membros de A.A. jamais viu Griffith ou o Dr. Armstrong.
Para um estranho, que fique intrigado, como muitos de nós ficamos, com o comportamento esquisito dos amigos bebedores-problemas, os resultados que têm sido alcançados são surpreendentes. Tal fato é especialmente verdadeiro em relação aos casos mais desesperados, alguns dos quais estão abaixo descritos sob nomes fictícios.
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Sarah Martin era um produto da geração de F. Scott Fitzgerald. Nascida em berço de ouro, em uma cidade do Oeste, foi estudar em internatos no Leste e encontrou-se mudando para Paris. Depois de apresentada à sociedade de Paris, casou-se. A partir desse acontecimento, Sarah passava suas noites bebendo e dançando até o amanhecer. Ela era conhecida como uma moça que podia beber enormes quantidades. Seu marido era uma pessoa frágil e ela ficou desgostosa com ele. Rapidamente se divorciaram. Depois que a fortuna de seu pai chegou ao fim em 1929, Sarah arranjou um emprego em New York e conseguiu sustentar-se.
Em 1932, em busca de uma vida aventurosa, foi morar em Paris e montou um negócio próprio em que foi bem-sucedida. Continuou a beber muito e ficava bêbada mais tempo que o normal. Depois de uma longa bebedeira em 1933, foi-lhe informado que ela havia tentado atirar-se de uma janela. Em outra bebedeira ela de fato se atirou – ou caiu -, ela não se lembrava como foi, de uma janela do primeiro andar. Ela caiu com o rosto na calçada e ficou acamada por seis meses, sendo recuperada através de cirurgias dos ossos, recuperação dentária e cirurgia plástica.
Em 1936, Sarah Martin concluiu que se mudasse de ambiente, retornando aos EUA, poderia beber normalmente. Essa crença infantil em mudança geográfica é uma ilusão clássica, que todo alcoólico vivencia durante algum tempo. Ela esteve bêbada durante toda a viagem de navio de volta. New York a amedrontou e ela bebeu para escapar ao medo. Seu dinheiro terminou e ela passou a pedir emprestado a amigos. Quando os amigos a ignoraram, ela passou a freqüentar continuamente os bares da Terceira Avenida, mendigando drinques de desconhecidos. Até este estágio ela havia diagnosticado seu problema como uma crise nervosa. Somente após internar-se em diversos sanatórios é que ela conscientizou-se, através de leitura, de que era uma alcoólica. Aconselhada por um médico da equipe de um sanatório, ela iniciou contato com um grupo de A.A. Hoje em dia, tem outro ótimo emprego e passa muitas de suas noites sentada ao lado de mulheres bêbadas histéricas, para evitar que tentem jogar-se pelas janelas. Em seus trinta e poucos anos, Sarah Martin é agora uma mulher atraente e serena. Os cirurgiões de Paris fizeram um belo trabalho nela.
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Watkins é um encarregado de despachos de mercadoria numa fábrica. Tendo sofrido um acidente de elevador que o aleijou, em 1927, foi licenciado com remuneração por sua companhia, que ficou muito grata por ele não a ter processado por danos físicos. Nada tendo a fazer durante a longa convalescença, Watkins passou a vagar pelos botequins escusos. Se anteriormente ele era um bebedor moderado, começou então a tomar bebedeiras que duravam meses. Em seguida, sua mobília foi penhorada e sua mulher o abandonou levando os filhos. Em onze anos, Watkins foi preso doze vezes e foi sentenciado oito vezes a trabalhos forçados. Uma vez, durante um acesso de delirium-tremens, ele circulou um boato entre os prisioneiros de que as autoridades responsáveis estavam envenenando a comida, de modo a reduzir a população carcerária e reduzir as despesas. O resultado foi um motim no refeitório da prisão. Durante outro acesso de delirium-tremens, no qual ele imaginou que seu companheiro da cela de cima estava tentando derramar chumbo derretido nele, Watkins cortou seus próprios pulsos e garganta, com uma lâmina de barbear. Enquanto se recuperava em um hospital fora da prisão, com oitenta e seis pontos pelo corpo, ele jurou nunca mais beber. Estava bêbado antes que os últimos curativos tivessem sido removidos. Dois anos atrás, um antigo companheiro de bebedeiras levou-o ao A.A. e desde então ele nunca mais tocou em álcool. Sua mulher e seus filhos voltaram e sua casa tem mobília nova. Retornando ao trabalho. Watkins pagou a maior parcela dos 2.000 dólares de dívidas e pequenos roubos e agora está desejando adquirir um carro novo.
Aos 22 anos de idade, Tracy, um filho precoce de pais bem sucedidos, era gerente de crédito de um banco de investimentos, cujo nome tornou-se um símbolo do turbulento mercado financeiro da época. Depois do colapso da Bolsa, que arruinou seu banco, ele foi trabalhar em publicidade. Ocupou um posto que lhe rendia U$ 23,000 ao ano. Um dia, quando nasceu seu primeiro filho, Tracy ficou muito entusiasmado. Ao invés de comparecer a Boston, onde deveria fechar um grande contrato de publicidade, foi a uma farra e acabou acordando, assustado, em Chicago, deixando de realizar o contrato de Boston, por perder o prazo. Continuamente um bebedor forte, transformou-se num bêbado vagabundo. Ele tomava bebidas alcoólicas aquecidas numa latinha; ingeria tônicos para cabelos e mendigava de policiais que são sempre acessíveis quando se trata de até 10 centavos. Numa noite em que nevava, Tracy vendeu seus sapatos para tomar um drinque e calçou um par de galochas, que encontrara numa soleira de porta, forrando-as com jornal para manter seus pés aquecidos.
A partir daí começou a internar-se em sanatórios, mais para escapar do frio do que por qualquer outro motivo. Em uma dessas instituições, um médico conseguiu despertar seu interesse no programa de A.A. Como parte dele, Tracy, um católico, fez uma confissão total e voltou a freqüentar a igreja que tinha abandonado há muito tempo. Ele retornou ao álcool tendo algumas recaídas, mas depois de uma recaída em fevereiro de 1939, Tracy não bebeu mais. Desde então, reiniciou sua carreira, atingindo novamente a faixa salarial de U$ 18,000 anuais, por seu trabalho na área de publicidade.
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Vitor Hugo teria se deliciado em conhecer Brewster, um aventureiro do tipo musculoso que escolheu viver da maneira mais difícil. Brewster foi lenhador, vaqueiro e aviador na guerra. Durante o pós-guerra ele incorporou-se à bebida e logo estava fazendo turismo na excursão dos sanatórios. Em um deles, depois de ouvir falar em cura por eletrochoques, ele subornou com cigarros um atendente negro encarregado do necrotério, para que o deixasse entrar todas as tardes para meditar ao lado de um cadáver. O plano funcionou muito bem até o dia em que um morto, por uma contorção facial adquirida ao morrer, parecia estar sorrindo. Brewster encontrou-se com A.A. em dezembro de 1938 e, depois de alcançar a abstinência, conseguiu um emprego de vendedor que envolvia longas caminhadas. Nesse intervalo, ele contraiu catarata nos dois olhos. Uma das cataratas foi removida, deixando-lhe apenas visão a distância com o auxílio de grossas lentes. A outra vista ele usava para visão próxima, mantendo-a dilatada através de pinga-gotas de uma solução que lhe permitia evitar ser atropelado no tráfego de rua. Então ele foi acometido de uma trombose na perna e, com essas desvantagens, Brewster perambulou pelas ruas por seis meses antes de poder regularizar sua situação financeira. Hoje, com cinqüenta anos, embora ainda atribulado por essas deficiências físicas, ele está fazendo suas visitas a clientes e está ganhando cerca de 400 dólares por mês.
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Para os Brewster, os Martins, os Watkinses, os Tracys e outros alcoólicos recuperados existe companhia adequada, agora. Aquela que é disponível em qualquer lugar em que estejam. Nas grandes cidades, A.As. se encontram diariamente em restaurantes, para almoçar juntos. Os grupos de Cleveland realizam festas no ano-novo, e em outros feriados, em que litros e litros de café e refrigerantes são consumidos. Chicago mantém grupos funcionando nas sextas, nos sábados e domingos, alternadamente, nas zonas Norte, Oeste e Sul – de modo que nenhum alcoólico solitário necessite retornar à bebida durante os fins de semana por falta de companhia. Alguns jogam canastra, ou bridge e o ganhador de cada mão contribui para o pagamento das despesas da diversão. Outros ouvem rádio, dançam, comem ou apenas conversam. Todo alcoólico bêbado ou sóbrio gosta de conversar. Eles se encontram entre aqueles que mais amam a convivência social, fato este que pode ajudar a explicar por que eles tiveram que ser alcoólicos em primeiro lugar.

EVITAR

EVITAR A SOLIDÃO.

Tem-se dito do alcoolismo que é a “doença da solidão” e muito poucos alcoólicos em recuperação contestam esta definição. Olhando para os últimos anos ou meses do nosso percurso alcoólico, centenas de milhares* de nós lembramo-nos como nos sentíamos isolados, mesmo quando estávamos em festas com pessoas divertidas. Tínhamos um profundo sentimento de não pertencer, ainda que nos mostrássemos alegres e sociais.
Muitos de nós dizíamos que originalmente bebíamos para nos sentirmos” inseridos no grupo”. Muitos de nós sentíamos que precisávamos de beber para” pertencer” e para sentir que fazíamos parte da raça humana.
Naturalmente, é um fato facilmente comprovado, que a principal razão para bebermos era egocêntrica – ingeríamos álcool por causa do efeito que isso nos provocava. Por vezes, esse efeito ajudava-nos momentaneamente a sermos sociais ou então aliviava por algum tempo a nossa solidão interior.
Porém, quando esse efeito do álcool desaparecia, a nossa solidão agravava-se ainda mais, fazendo-nos sentir cada vez mais rejeitados, mais de fora, mais “diferentes” do que nunca e cada vez mais tristes.
Se nos sentíamos culpados ou envergonhados, tanto das nossas bebedeiras como de algo que tínhamos feito enquanto bêbedos, isso agravava o nosso sentimento de sermos marginais. Às vezes, receávamos secretamente ou chegávamos mesmo a acreditar que merecíamos ser votados ao ostracismo, por causa do que tínhamos feito. “Talvez eu seja mesmo um marginal”, pensávamos muitos de nós. (Talvez você conheça bem este sentimento, ao lembrar-se da sua última ressaca ou bebedeira). O caminho solitário que se nos deparava parecia deprimente, obscuro e interminável. Era demasiado penoso falar sobre isso e, para evitar pensar no assunto, voltávamos a beber. Apesar de alguns de nós sermos bebedores solitários, mal se pode dizer que nos faltava companhia nas alturas em que bebíamos. Estávamos rodeados de pessoas. Víamos, ouvíamos e tocávamo-lhes, mas grande parte dos nossos diálogos eram interiores, conosco mesmos. Tínhamos a certeza de que ninguém nos podia compreender. Além disso, tendo em vista a opinião que tínhamos de nós mesmos, não tínhamos a certeza se queríamos que alguém nos compreendesse. Não admira, pois, que ficássemos espantados ao ouvirmos outros alcoólicos em recuperação no A.A. a falarem aberta e honestamente de si mesmos. As descrições das suas bebedeiras, dos seus medos secretos e solidão, desconcertaram-nos completamente. Embora mal pudéssemos acreditar nisso de início, descobrimos que não estamos sós, que, apesar de tudo, não somos assim tão diferentes dos outros. A frágil carapaça de egocentrismo, simultaneamente protetor e assustado, em que vivíamos há tanto tempo, quebra-se perante a honestidade de outros alcoólicos em recuperação. Temos o sentimento, muito antes de o conseguir expressar, de que finalmente fazemos parte de algo e vemos a solidão começar a desaparecer rapidamente. Alívio é uma palavra demasiado fraca para exprimir o nosso sentimento inicial. É um sentimento que é um misto de espanto e quase de um certo terror. Será que é verdadeiro? Será que vai perdurar? Aqueles de nós que estamos sóbrios já há alguns anos em A.A. podemos garantir a qualquer recém-chegado que este sentimento é real e que perdura. Não se trata de mais outra partida em falso, daquelas a que estávamos por demais habituados. Não se trata de mais uma explosão de alegria, logo seguida de uma dolorosa desilusão. Em vez disso, e à medida que, desde há décadas, aumenta anualmente o número de pessoas sóbrias em A.A., vemos perante os nossos próprios olhos a evidência incontestada que podemos ter uma recuperação genuína e duradoira da solidão que o alcoolismo provoca. Mesmo assim, não se pode querer que seja um processo da noite para o dia, superar os hábitos de suspeita e outros mecanismos defensivos, profundamente enraizados ao longo de anos. Ficamos extremamente condicionados a sentir-nos e a agir como pessoas incompreendidas e de quem não se gosta – fosse esse ou não o caso. Estamos habituados a atuar como solitários e, por isso, quando de início deixamos de beber, alguns de nós precisamos de um certo tempo e prática para quebrar a nossa solidão habitual. Mesmo começando a acreditar que já não estamos sós, por vezes ainda agimos e sentimos como dantes. Não temos prática de criar amizade, nem mesmo de a aceitar quando nos é oferecida. Não sabemos muito bem como atuar, nem mesmo se resultará e, o pesado fardo do medo acumulado ao longo de anos ainda se torna um obstáculo. Por isso, quando começamos a sentir-nos um pouco solitários, quer estejamos ou não efetiva e fisicamente sozinhos, os velhos hábitos e a idéia do alívio que o álcool produz podem facilmente seduzir-nos. De vez em quando, alguns de nós sentimo-nos tentados a ceder e a voltar à antiga desgraça. Ela nos é, pelo menos, conhecida e nós não teríamos de recuperar toda a perícia que acumulamos em anos de bebida. Partilhando numa reunião de A.A., um homem disse que, ser um bêbedo desde a adolescência até aos seus quarenta anos, tinha sido uma ocupação a tempo inteiro, e ele não se tinha apercebido da maioria das coisas que geralmente os homens aprendem até se tornarem adultos. De modo que, ali estava ele, na casa dos quarenta e sóbrio. Ele sabia como beber e arranjar sarilhos, mas nunca tinha tido uma ocupação vocacional nem profissional e era completamente ignorante em matéria de convivência social. “Foi horrível”, disse ele, “Eu nem sequer sabia como convidar uma rapariga para sair ou o que fazer numa situação dessas. Aprendi também que não existem aulas de “como sair com raparigas” para solteirões de 40 anos que nunca tiveram a oportunidade de aprender isso”. Nessa noite, a gargalhada foi particularmente sincera e afetuosa nessa reunião de A.A.. Muitos dos que se identificaram com aquele sentimento tinham passado por semelhantes situações de falta de à vontade. Quando nos sentimos tão constrangidos e inadequados aos 40 anos de idade (ou mesmo aos 20, hoje em dia), poderíamos pensar que éramos patéticos, mesmo grotescos – se não fosse por tantas reuniões cheias de AAs. compreensivos, que passaram por esse tipo de medo e nos podem agora ajudar a ver o lado humorístico de tudo isto. Podemos assim sorrir, à medida que renovamos os nossos esforços para obter resultados positivos. Já não precisamos de “desistir” numa atitude de vergonha secreta. Já não precisamos de renovar as nossas velhas tentativas inúteis de encontrar a descontração social na garrafa, onde, em vez disso, só encontrávamos a solidão. Este é apenas um exemplo extremo do tipo de sentimento avassalador, que alguns de nós temos quando iniciamos a caminhada da sobriedade. Ilustra como podemos ficar perigosamente perdidos se tentarmos esta caminhada sozinhos e, mesmo a probabilidade de conseguirmos isso, seria de uma entre milhões. Porém, agora sabemos que já não precisamos de a fazer sozinhos. É muito mais sensato, seguro e fácil empreende-la na alegre companhia daqueles que seguem na mesma direção. E nenhum de nós precisa de sentir vergonha por utilizar essa ajuda, porque todos nos ajudamos mutuamente. Recorrer a ajuda para recuperar-nos de um problema de bebida, não é mais cobardia do que usar uma muleta quando temos uma perna partida. Uma muleta é uma grande ajuda para aqueles que dela necessitam, e para aqueles que vêem a sua utilidade. Será que existe qualquer coisa de heróico numa pessoa cega, que anda aos encontrões e a cair, só porque se recusa a utilizar a ajuda facilmente disponível? Correr riscos inutilmente, mesmo desnecessários, dá por vezes lugar a elogios que são imerecidos. Devia-se, isso sim, apreciar e admirar muito mais a ajuda mútua, que funciona muito melhor. A nossa própria experiência de permanecermos sóbrios reflete totalmente a sabedoria de utilizar qualquer ajuda disponível para recuperarmos de um problema de bebida. Apesar da nossa grande necessidade e desejo, nenhum de nós recuperou do alcoolismo só pelos seus próprios recursos. Se isso tivesse sido possível, naturalmente que não teríamos precisado de procurarmos ajuda em A.A., num psiquiatra ou em qualquer outra pessoa. Uma vez que ninguém pode viver completamente isolado e sozinho, e visto que todos nós dependemos, em certa medida, uns dos outros, pelo menos para determinados bens e serviços, compreendemos a sensatez de aceitar essa realidade e de agir em conformidade com isso, no importantíssimo esforço para superarmos o nosso alcoolismo ativo. A idéia de beber parece insinuar-se na nossa cabeça muito mais fácil e insidiosamente quando estamos sozinhos. E quando nos sentimos sós, e a ânsia pela bebida nos assalta, parece que o seu efeito é particularmente fulminante e poderoso. É muito menos provável que surjam estas idéias e desejos quando estamos na companhia de outras pessoas, especialmente daquelas que não bebem. Se elas surgirem no nosso espírito, parecem ter muito menor impacto e conseguem ser mais facilmente suplantadas, quando estamos em contato com os nossos companheiros de A.A. Não nos estamos a esquecer de que quase todas as pessoas precisam ocasionalmente de ter tempo para si mesmas, de pôr as idéias em ordem, de fazer um inventário, de fazer uma determinada coisa, de resolver um assunto pessoal ou simplesmente de se distanciar da tensão diária. Vimos, porém, que é muito perigoso cedermos excessivamente a este tipo de situações, especialmente quando o nosso estado de espírito se torna um pouco melancólico e tendemos para a autopiedade. Nestas alturas, qualquer companhia é preferível a um isolamento triste. Naturalmente, mesmo numa reunião de A.A. é possível sentir-se vontade de beber, tal como nos podemos sentir sozinhos no meio de uma multidão. Porém, a probabilidade de beber é muito menor na companhia de outros AAs., do que quando se está sozinho num quarto ou num canto escondido de um bar sossegado e deserto. Quando só temos a nós próprios para conversar, a conversa faz-se em círculos. Exclui cada vez mais o contributo sensato de uma outra pessoa. Procurar convencer-se a si mesmo a não beber é como tentar fazer auto-hipnose. De um modo geral é quase tão eficaz como procurar convencer uma égua prenhe que não dê à luz a sua cria quando chega o seu tempo. Assim, quando sugerimos, por estes motivos, que se evite o cansaço e a fome, incluímos também um outro perigo para reunir três sugestões numa só máxima: “Evite ficar muito cansado, com muita fome ou muito sozinho”. Tenha isto sempre presente. Se a idéia de beber lhe vier ao espírito em qualquer altura, pare para pensar. A maior parte das vezes, é muito provável que você se encontre numa destas três situações de alto risco. Fale rapidamente com alguém. Isso ajuda-o, pelo menos, a aliviar-lhe a solidão.

PRESTE ATENÇÃO À RAIVA E AOS RESSENTIMENTOS.

Já abordamos a raiva neste livro, mas algumas experiências duras convenceram-nos de que ela é tão importante que merece uma atenção especial por parte de qualquer pessoa que queira superar o problema da bebida. Hostilidade, ressentimento, raiva – qualquer que seja a palavra usada para descrever este sentimento – parece ter uma relação íntima com a intoxicação e talvez ainda maior com o alcoolismo.
Alguns cientistas, por exemplo, perguntaram a um grande número de alcoólicos por que razão se embebedavam e descobriram que uma das respostas mais freqüentes era: “Para poder dizer umas verdades a certas pessoas”. Por outras palavras, sentiam que quando estavam bêbedos tinham uma capacidade e liberdade de expressar raiva que não tinham quando não estavam. Admitiu-se que talvez haja uma relação bioquímica, subtil e indeterminada, entre o álcool e o tipo de modificações fisiológicas que acompanham a raiva. Um estudo experimental com alcoólicos sugere que os ressentimentos podem provocar no sangue dos alcoólicos um certo desconforto que desaparece com uma bebedeira. Um psicólogo eminente sugeriu que os bebedores tiram prazer do sentimento de poder sobre os outros que lhes vem do álcool.
Há relatórios de fatos que relacionam estreitamente a bebida com assaltos e homicídios. Parece que, nalguns países, uma grande parte destes casos se dá quando a vítima ou o delinqüente (ou ambos) estão sob o efeito do álcool. Violações, discussões domésticas que levam ao divórcio, maus tratos a crianças e assaltos à mão armada são também muitas vezes atribuídos aos excessos de álcool. Mesmo aqueles de nós que não tiveram a experiência de um tal comportamento, conseguem facilmente compreender o tipo de raiva selvagem que pode levar algumas pessoas a pensar em violências deste gênero, quando estão suficientemente bêbedas. Daí reconhecermos o perigo potencial da raiva. Parece haver poucas dúvidas de que a raiva é um estado natural que ocorre no animal humano de vez em quando. Tal como o medo, pode significar a sobrevivência para todos os membros da espécie homo sapiens. A raiva em relação a abstrações como a pobreza, a fome, a doença e a injustiça trouxeram incontestavelmente grandes progressos em várias culturas. Mas também não se pode negar que a violência física e verbal num acesso de raiva é deplorável e prejudica a sociedade, não só no seu todo, como também individualmente. Por isso, muitas religiões e filosofias aconselham-nos a libertar-nos da raiva para podermos descobrir uma vida mais feliz.
No entanto, muita gente sabe que reprimir a raiva é muito mau para a saúde emocional, que devemos de algum modo livrar-nos da hostilidade, para que não “envenene” o nosso íntimo, virando-se contra nós e levando-nos assim a uma profunda depressão. A raiva, em todos os seus aspectos, é um problema humano universal. Mas, para os alcoólicos, ela representa uma ameaça especial: a nossa própria zanga pode matar-nos. Os alcoólicos recuperados estão quase unanimemente de acordo que a hostilidade, os rancores ou os ressentimentos levam-nos muitas vezes a ter vontade de beber. Temos portanto de estar atentos a tais sentimentos. Encontramos formas muito mais satisfatórias de lidar com eles do que bebendo. Falaremos sobre elas mais adiante. Primeiro daremos uma lista das formas e variantes em que a raiva se pode manifestar: Intolerância; Vaidade; Tensão Desconfiança; Desprezo Rigidez; Sarcasmo; Ansiedade; Inveja Cinismo; Autopiedade; Suspeita; Ódio; Desagrado; Malícia e Ciúme. Alguns membros de A.A., em sobriedade, conseguiram associar todos estes sentimentos à sua raiva subjacente. Enquanto estávamos a beber, muitos de nós não perdemos tempo a pensar nisso. Preferíamos lamentar-nos sobre eles ou a exagerá-los, especialmente depois de os termos exacerbado com mais uma bebida. Talvez o medo devesse também estar nessa lista, porque muitos de nós consideramos a raiva como uma conseqüência de medo. Nem sempre sabemos do que temos medo; por vezes é apenas um medo vago, generalizado e indefinido. O medo pode também provocar uma raiva igualmente generalizada que pode subitamente concentrar-se em alguma coisa ou alguém. Os sentimentos de frustração podem também dar origem à ira. No seu conjunto, os bebedores-problema não constituem um tipo de pessoas caracterizadas pelo seu elevado nível de tolerância à frustração, seja ela real ou imaginária. A bebida costumava ser o nosso digestivo predileto para emoções indigestas. O ressentimento “justificado” talvez seja de todas a emoção mais complicada de lidar. É um produto acabado da zanga “com razão”, longamente acalentada e que, se a deixarmos avolumar, acabará por minar as nossas defesas contra a bebida. Mesmo que tenhamos sido mal ou injustamente tratados, o ressentimento é um luxo a que, nós alcoólicos, não nos podemos dar. Para nós, toda a espécie de raiva é auto-destrutiva, porque nos pode levar a beber de novo. (Nos livros “Alcoólicos Anônimos” e “Doze Passos e Doze Tradições” trata-se em detalhe como aprender a lidar com os ressentimentos). Não temos pretensões de sermos peritos em compreender a psicologia profunda, de modo que temos de nos concentrar de início, não em procurar as causas dos sentimentos desconfortáveis de raiva ou zanga, mas sim de como lidar com os próprios sentimentos, quer consideremos que eles se justificam ou não. Visamos impedir que esse gênero de sentimentos nos enganem para nos levar a beber.É curioso verificar que vários dos métodos já tratados para evitar beber, funcionaram também de uma maneira extraordinária para superarmos o mal-estar interior provocado pela raiva. Por exemplo, sempre que começamos a “ferver” por dentro, ajuda-nos imenso comermos qualquer coisa, ou tomarmos uma bebida doce que não seja intoxicante. É também extraordinariamente eficaz pegarmos no telefone e falarmos com o nosso padrinho ou com outro alcoólico em recuperação, quando nos zangamos ou sentimos aborrecidos com qualquer coisa. É conveniente determo-nos para determinar se não estaremos demasiado cansados. Se for esse o caso, vimos que um pouco de descanso ajuda a dissipar a raiva.
Ponderar repetidamente sobre o slogan “Viva e deixe viver” ajuda a esfriar a raiva. Podemos também mudar subitamente para uma atividade que não tenha nada a ver com a origem da nossa raiva, tal como ouvir uma música predileta ou fazer exercício físico. Para muitos de nós, meditar nas idéias contidas na Oração de Serenidade desvanece a nossa hostilidade. Geralmente, aquilo que nos provoca essa raiva é algo que possivelmente não podemos controlar nem modificar(por exemplo, engarrafamentos de trânsito, o tempo, bichas intermináveis nos supermercados). Por isso, a coisa mais sensata e ponderada a fazer é aceitá-la, em vez de nos consumirmos inutilmente ou nos virarmos para o álcool. Naturalmente, há ocasiões em que nos sentimos ressentidos por circunstâncias da nossa vida que podem, e devem, ser mudadas. Talvez devêssemos mudar de emprego e procurar outro melhor, divorciarmo-nos ou mudarmo-nos com a família para outro bairro. Nesses casos, uma tal decisão exige prudência e não se deve Tomá-la à pressa nem com raiva. Por isso devemos acalmar-nos primeiro. Depois, talvez possamos refletir calma e construtivamente para vermos se o nosso ressentimento é sobre qualquer coisa que podemos mudar. Para verificar isto, leia a seção que trata da Oração da Serenidade, na página …). Às vezes não é com antigos ressentimentos que temos de lidar, mas sim com uma fúria súbita e devastadora. Neste caso, o plano das 24 horas (página …) e a idéia contida no slogan “Primeiro o mais importante” (página …) ajudaram muitos de nós a lidar com esta raiva, muito embora de início não conseguíssemos perceber de que modo isso nos poderia ajudar até os pormos em prática – e os resultados que obtivemos foram surpreendentemente positivos.
Um outro processo eficaz contra a raiva é pensar “como se”. Pensamos como uma pessoa madura e equilibrada lidaria com um ressentimento como o nosso, e depois agimos como se fôssemos essa pessoa. Experimente umas quantas vezes e vai ver como também funciona. Para muitos de nós, também é muito útil a orientação profissional de um bom conselheiro, de um psiquiatra, de um médico ou de um sacerdote.
Também podemos encontrar uma válvula de escape numa atividade física que não nos prejudique. Os exercícios já referidos: uma respiração profunda, um banho quente de emersão e dar murros numa cadeira ou almofada e gritar (naturalmente, em privado) já aliviaram a raiva de muitas pessoas.
Não é nada aconselhável simplesmente reprimir, ignorar ou conter a raiva. Em vez disso, procuramos aprender a não agir sob a influência da raiva, mas sim fazer algo a esse respeito. Se não fizermos isso, aumentamos imenso a possibilidade de beber. Como pessoas leigas que apenas partilhamos a nossa experiência, nós, alcoólicos em recuperação, não tempos qualquer conhecimento experimental nem científico sobre estes assuntos. Porém, poucas pessoas que tenham tido ressacas podem esquecer o estado de intensa irritação que nos provoca. Às vezes descarregávamos toda a irritação nos membros da nossa família, nos colegas de trabalho, nos amigos ou em pessoas completamente estranhas que não tinham nada a ver com isso. Esta tendência pode perdurar um certo tempo na fase inicial da nossa sobriedade, tal como se acumula o fumo num recinto fechado, recordando-nos os nossos dias de alcoolismo – até fazermos uma boa limpeza mental da casa.

EVITAR SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS QUE ALTERAM O HUMOR.

O uso de diversas substâncias químicas para alterar o humor e modificar sentimentos é uma prática humana muito antiga e muito generalizada. É provável que o álcool etílico tenha sido uma das primeiras drogas e talvez uma das mais populares usadas para este efeito.
Algumas destas drogas são naturalmente legítimas e benéficas, se forem administradas convenientemente por médicos e usadas segundo prescrição médica, e se o seu uso terapêutico se suspender quando já não forem necessárias. Como membros de A.A. – e não como médicos – não estamos qualificados para recomendar qualquer medicação, nem tão-pouco para aconselhar uma pessoa a não tomar medicamentos receitados sob prescrição médica.
Podemos apenas oferecer, de um modo responsável, a nossa própria experiência. A bebida tornou-se para muitos de nós uma espécie de auto-medicação. Bebíamos freqüentemente para nos sentirmos melhor, para nos sentirmos menos doentes.
Milhares de nós também tomavam outras substâncias químicas. Descobrimos estimulantes que neutralizavam o efeito das ressacas ou aliviavam a nossa depressão (até deixarem por completo de fazer efeito), sedativos e calmantes que abrandavam os nossos tremores, tranqüilizantes, comprimidos vendidos sem receita médica e elixires (muitos deles considerados não aditivos nem causadores de habituação) que nos ajudavam a dormir, nos estimulavam, nos faziam perder as inibições ou nos punham em estados de êxtase.
Um desejo de tal forte, quase uma necessidade, de tais drogas psicoativas modificadoras do humor (que afetam a mente) pode vir potencialmente a criar uma enorme dependência em qualquer pessoa que beba muito.
Mesmo que, tecnicamente, em termos farmacológicos, uma droga não tenha um efeito fisiologicamente aditivo, já verificamos, repetidas vezes, que podemos facilmente criar habituação e ficarmos dependentes dela. É como se a “propensão para a adicção” fosse uma característica intrínseca nossa e não uma propriedade da própria droga. Alguns de nós acreditamos que nos tornamos pessoas “dependentes” e a nossa experiência confirma esta idéia. Assim, fazemos tudo para evitar todas as drogas de rua, marijuana, cocaína, haxixe, alucinógenos, tranqüilizantes, estimulantes e até os comprimidos e remédios que atuam sobre o sistema nervoso central.
Mesmo para aqueles de nós que nunca ficaram dependentes de uma destas drogas, é óbvio que elas representam um verdadeiro perigo potencial, porque já verificamos isto vezes sem conta. Parece que elas despertam em nós a antiga apetência pela velha “magia oral” ou por um certo tipo de sensação de euforia ou de paz. E se nos habituarmos a usá-las uma e duas vezes, parece-nos então bem mais fácil pegar num copo.
O A.A. não é um lobby* contra drogas ou marijuana. Em geral, não assumimos qualquer posição moral ou legal a favor nem contra a marijuana ou quaisquer outras substâncias do gênero. (No entanto, cada membro de A.A. é livre, como qualquer pessoa adulta, de ter uma opinião sobre tais assuntos e de empreender qualquer ação que lhe pareça adequada). Isto é um pouco semelhante à posição – ou talvez melhor à “ausência de posição” – dos membros de A.A. em relação às bebidas alcoólicas e ao consumo de álcool. Como comunidade, não somos contra o álcool nem contra o fato de milhares de pessoas beberem sem prejuízo para si mesmos nem para os outros. Alguns de nós, mas nem todos, já sóbrios há um tempo, dispõem-se perfeitamente a servir bebidas em suas casas a visitas não alcoólicas. Beber ou não é um direito delas. Decidir beber ou não, também é um assunto exclusivamente nosso e não temos nada a ver com o que os outros fazem.
Chegamos à conclusão, apenas no que diz respeito a nós mesmos, que beber não é bom para nós e encontramos maneiras de viver sem álcool que preferimos mil vezes aos nossos dias de bebedeiras. Muitos alcoólicos em recuperação, mas nem todos, acham que o seu organismo adquiriu uma tolerância permanente às drogas analgésicas, de modo que precisam de tomar grandes quantidades adicionais quando necessitam de um analgésico ou anestésico por razões médicas. Alguns dizem que têm reações adversas a anestésicos locais (por exemplo, Novocaína) administrados por dentistas. Pelo menos, ficamos extremamente nervosos quando saímos da cadeira e este estado pode durar bastante tempo, a não ser que nos deitemos um pouco até passar o efeito. (Nestes casos a presença de outro alcoólico em recuperação pode ajudar). Outros dizem que não sofrem estes efeitos adversos e não temos idéia nenhuma de como prever em que casos estas reações se podem dar. No entanto, é prudente informar o nosso médico, dentista ou anestesista sobre toda a verdade do nosso passado de bebida (e de tomar comprimidos, se for esse o caso), tal como lhes contamos a nossa história clínica. Os dois casos que se seguem parecem ser típicos de experiências de AAs. com drogas psicotrópicas (modificadoras do humor) diferentes do álcool. Um de nós, sóbrio há quase trinta anos, decidiu experimentar marijuana, que nunca antes tinha experimentado. E assim foi. Ele gostou dos efeitos e durante meses conseguiu consumi-la em ocasiões sociais sem quaisquer problemas, julgava ele. A seguir, alguém disse-lhe que um pouco de álcool fazia ainda mais efeito e ele experimentou, sem sequer pensar na sua desastrosa experiência de alcoolismo. No fundo, ele só estava a beber um pouco de vinho muito fraco. No espaço de um mês, ele estava a beber pesadamente e percebeu que tinha voltado de novo à escravidão do alcoolismo. Podíamos contar centenas de histórias semelhantes, apenas com pequenas variantes. É com agrado que podemos dizer que esta pessoa voltou a ficar sóbria, abandonou a sua ‘erva’ e está agora completamente sóbria de álcool e erva há dois anos. Voltou de novo a ser um alcoólico sóbrio, ativo e feliz, tirando prazer do modo de vida A.A. Nem todos os que fizeram o mesmo conseguiram recuperar a sobriedade. Para alguns destes membros de A.A., em que o uso de marijuana os levou de novo a beber, a sua dependência principal progrediu até à morte. O outro caso é de uma jovem mulher, sóbria há dez anos, que foi hospitalizada para ser submetida a uma delicada intervenção cirúrgica. O seu médico, que era um especialista em alcoolismo, disse-lhe que seria necessário, depois da operação, administrar-lhe uma pequena dose de morfina para lhe aliviar as dores, mas garantiu-lhe que depois disso ela não precisaria de mais. Ela nunca tinha tomado na sua vida mais do que uma aspirina para as dores de cabeça. Na segunda noite depois da operação, ela pediu ao médico que lhe desse mais uma dose de morfina. Como já tinha tomado as duas doses prescritas, o médico perguntou-lhe: “Está com dores?” “Não”, disse ela e acrescentou inocentemente: “Mas mais tarde posso vir a ter”. Quando o médico lhe sorriu, ela percebeu o que dissera e o que isso representava. De certo modo, o seu organismo e a sua mente já sentiam apetência pela droga. Ela riu-se e passou sem a droga e, desde então, nunca mais voltou a sentir tal apetência. Passados cinco anos ainda está sóbria e com saúde. Ela conta este incidente para exemplificar a sua convicção pessoal da permanente” tendência para a adicção” de pessoas que tenham tido problemas de álcool. Por isso, a maior parte de nós procura sempre assegurar-se que qualquer médico ou dentista que nos trate conheça inteiramente a nossa histórica clínica e saiba o suficiente acerca de alcoolismo, de modo a compreender o risco que corremos em relação aos medicamentos. Além disso, somos cautelosos com o que tomamos por nossa iniciativa. Evitamos xaropes para a tosse que contenham álcool, codeína e brometos, assim como quaisquer inalações, pós, analgésicos sintéticos, líquidos e vapores, por vezes dados gratuitamente por farmacêuticos não autorizados ou anestesistas não profissionais.
Para quê correr o risco? Achamos que não é nada difícil evitarmos estas situações de perigo – apenas por questões de saúde e não por questões morais. Em A.A. encontramos um modo de viver sem drogas que, para nós, é muito mais compensador do que qualquer outro que tenhamos experimentado com substâncias modificadores do humor. A “magia” química que sentíamos com o álcool (ou quaisquer substitutos) estava, para todos os efeitos, apenas na nossa cabeça. Não era possível partilhar isto com ninguém. Agora temos o prazer de partilhar com os outros em A.A. ou com qualquer pessoa fora de A.A. a nossa alegria natural, sem ser anestesiada.
Com o tempo, o sistema nervoso recompõe-se e fica completamente adaptado à ausência de drogas modificadoras do humor, tais como o álcool. Quando nos começamos a sentir melhor sem substâncias químicas do que nos sentíamos quando estávamos dependentes delas, vimos a aceitar e a confiar nos nossos estados de espírito naturais, sejam eles altos ou baixos. A partir daqui, nos é possível tomarmos decisões saudáveis e independentes, menos baseadas em impulsos ou em necessidades despoletadas quimicamente para satisfação imediata. Conseguimos ver e ponderar mais aspectos de uma situação do que antes, somos capazes de adiar a gratificação imediata em troca de benefícios a longo prazo e mais duradoiros e temos a capacidade para pesar melhor, não só o nosso próprio bem-estar como também o dos outros. Os substitutos químicos da vida deixaram simplesmente de nos interessar, agora que sabemos o que é realmente a vida.

ELIMINAR A AUTOPIEDADE.

Esta emoção é tão desagradável que ninguém, no seu perfeito juízo, a quer admitir. Mesmo sóbrios, muitos de nós continuamos peritos em ocultar de nós mesmos o fato de estarmos mergulhados num estado confuso de autopiedade. Não gostamos nada que os outros se apercebam disso e respondemos logo que o que estamos a sentir é outra coisa – e não esse terrível” coitadinho de mim”. Ou podemos também, num segundo, encontrar mil razões, perfeitamente legítimas, para sentirmos uma certa pena de nós mesmos. O familiar sentimento de sofrimento continua a pesar sobre nós muito tempo depois da desintoxicação. A autopiedade é um pântano sedutor. Afundar-nos nele exige muito menos esforço do que a fé, a esperança ou a simples ação. Os alcoólicos não são as únicas pessoas a sentir desta maneira. Qualquer pessoa que se lembre de uma dor ou doença em criança pode igualmente recordar o alívio de chorar por nos sentirmos tão mal e da quase satisfação perversa de rejeitar qualquer consolação. Quase todos os seres humanos podem, em certas ocasiões, simpatizar profundamente com o queixume infantil de “Deixa-me em paz!”.
Uma das formas mais comuns de autopiedade que atinge alguns de nós nos primeiros tempos de sobriedade é: “Coitado de mim! Porque é que não posso beber como toda a gente?” (Toda a gente?) “Porque é que isto tem de acontecer a mim.? Porque é que eu tenho de ser alcoólico? Porquê eu?” Esta maneira de pensar só serve para abrir uma porta para o bar mais próximo e mais nada. Queixarmo-nos por causa dessa pergunta que não tem resposta é a mesma coisa que chorar por termos nascido neste século e não noutro, neste planeta e não noutra galáxia qualquer.
É claro que vimos que não é de todo só “comigo” que isto acontece, quando começamos a conhecer alcoólicos em recuperação de todo o mundo. Mais tarde, apercebemo-nos que acabamos por viver em paz com esta pergunta. Quando começamos verdadeiramente a acertar o passo numa recuperação em que nos sentimos bem, conseguimos então descobrir uma resposta ou simplesmente deixamos de ter interesse em procurá-la. Você vai perceber quando isso acontecer consigo. Muitos de nós julgamos ter encontrado as razões prováveis do nosso alcoolismo. Porém, mesmo que não as tenhamos encontrado, é muito mais importante aceitarmos o fato de que não podemos beber e atuarmos de acordo com isto. Não serve de nada sentarmo-nos na nossa própria poça de lágrimas. Certas pessoas parecem ter prazer em deitar sal nas próprias feridas. A eficiência extraordinária que manifestamos neste jogo inútil permanece muitas vezes depois de pararmos de beber. Podemos também manifestar um estranho talento para fazermos de uma pequena preocupação um mundo de infelicidade. Quando recebemos uma elevada conta de telefone – só uma – lamentamo-nos por estar constantemente a dever dinheiro e dizemos que isso nunca, nunca mais vai acabar. Quando um cozinhado nos sai mal, dizemos que isso só prova que nunca fazemos, nem nunca viremos a fazer, nada certo. Quando nos entregam um carro novo, dizemos: “Com a sorte que eu tenho, o que vai acontecer é…” Se você terminou a frase da maneira que calculamos, então você pertence ao nosso clube! No fundo, é como se carregássemos às costas um saco cheio de lembranças desagradáveis, como as rejeições e as mágoas de infância. Vinte, ou mesmo quarenta anos mais tarde, ocorre uma pequena contrariedade comparável a uma daquelas que guardamos no saco. Esta é a altura para nos sentarmos, destaparmos o saco e começarmos a tirar uma a uma, com todo o cuidado, as velhas feridas e afrontas do passado. Numa atitude emocional de relembrarmos o passado, voltamos a viver cada uma delas intensamente, corando de vergonha com as atrapalhações da infância, cerrando os dentes por causa de velhas zangas, revivendo antigas brigas, tremendo por causa de um medo quase esquecido ou chegando mesmo a chorar uma lágrima ou duas por causa de uma velha desilusão amorosa.
Estes são casos extremos de pura autopiedade, mas que não são difíceis de reconhecer por alguém que já tenha tido, visto ou querido mergulhar numa crise de choro. A essência disto é a total auto-obsessão. Podemos ficar tão intensamente preocupados com eu-eu-eu que perdemos literalmente o contato com os outros. Não é fácil suportarmos alguém com este tipo de comportamento, exceto quando se trata de uma criança doente. Por isso, quando caímos no lamaçal do “coitadinho de mim”, procuramos esconder isto, especialmente de nós mesmos, só que esta não é a maneira de nos libertarmos deste sentimento.
Precisamos, em vez disso, de sair desta auto-obsessão, de parar e de olhar com honestidade para nós mesmos. Logo que tivermos reconhecido a autopiedade, podemos então começar a fazer qualquer coisa a esse respeito, menos beber. Os amigos podem ajudar muito, se forem suficientemente íntimos para se poder falar abertamente com eles. Eles podem detectar a nota falsa na nossa cantilena das desgraças e alertar-nos para isso. Ou provavelmente nós mesmos podemos detectá-la e começamos a pôr em ordem os nossos verdadeiros sentimentos simplesmente expressando-os em voz alta. Uma outra arma excelente é o humor. Algumas das maiores gargalhadas em reuniões de A.A. ouvem-se quando um membro descreve a sua última orgia de autopiedade, e nós, os que estamos a ouvir, vimo-nos retratados num espelho de ridículo. Ali nos vemos espelhados, homens e mulheres adultos, como que embrulhados nas fraldas emocionais de um bebê. Talvez seja um choque, mas o riso partilhado elimina grande parte da dor e o efeito final é salutar.
Quando nos damos conta de que estamos a cair em autopiedade, podemos contrariar isso, fazendo um inventário instantâneo. Por cada lançamento de tristeza na coluna do débito, encontramos uma bênção para lançar na coluna do crédito. A saúde que temos, as doenças que não temos, os amigos de quem gostamos, o bom tempo com sol, uma boa refeição que nos espera, as nossas perfeitas faculdades, o carinho dado e recebido, as 24 horas de sobriedade, uma boa hora de trabalho, um bom livro para ler, e muitas outras coisas que se podem acrescentar para se sobreporem aos registos de débito que a autopiedade provoca.
Também podemos usar o mesmo método para combater as depressões de certos dias festivos, que não são apenas exclusivas dos alcoólicos. O Natal, o dia de Ano Novo, o dia de aniversário podem lançar muitas pessoas no lamaçal da autopiedade. No A.A. aprendemos a identificar essa velha tendência para nos concentrarmos numa tristeza nostálgica ou para lamentarmos quem já partiu, de quem nos ignora e do pouco que podemos dar em comparação com as pessoas ricas. Em vez disso, lançamos na coluna do crédito a nossa gratidão pela saúde que temos, pelos entes queridos que hoje nos rodeiam e pela nossa capacidade para amar, agora que vivemos em sobriedade. E, de novo, o saldo é positivo.

EVITAR OS ENVOLVIMENTOS EMOCIONAIS.

Apaixonar-se pelo seu médico, enfermeira ou por outro doente é uma velha história romântica. Os alcoólicos em recuperação são também vulneráveis à mesma febre. Com efeito, o alcoolismo não parece conferir imunidade a qualquer condição humana conhecida. “A mágoa nasce num coração impetuoso”, diz o velho ditado, e outros problemas também, incluindo as bebedeiras. Nos velhos tempos das garrafas, das latas e dos copos, muitos de nós passávamos muito tempo preocupados com ligações pessoais íntimas. Quer procurássemos companhias ocasionais ou “relacionamentos a sério” duradouros, preocupávamo-nos freqüentemente com os nossos envolvimentos íntimos – ou não envolvimentos – com as outras pessoas.
Muitos de nós culpávamos a bebida pela falta de afeto, víamo-nos constantemente em busca do amor, à medida que bebíamos e vagueávamos inquietamente entre bares e festas. Outros de nós tinham aparentemente todos os laços emocionais de que precisavam ou queriam, mas bebiam exatamente na mesma. De qualquer maneira, o álcool não ajudou a amadurecer a nossa compreensão de um amor adulto, nem tão-pouco a nossa capacidade para acolher e lidar com este tipo de amor, se o tivéssemos encontrado. Pelo contrário, os nossos percursos alcoólicos deixaram as nossas vidas emocionais debilitadas, deterioradas, destorcidas e magoadas, quando não inteiramente deformadas.
Por isso, tal como revela a nossa experiência, é natural que os primeiros dias sem álcool sejam períodos de grande vulnerabilidade emocional. Será um efeito farmacológico prolongado da bebida? Será um estado natural para qualquer pessoa em recuperação de uma doença grave e prolongada? Ou será um sintoma de uma profunda falha da personalidade? A resposta, de início, não tem grande importância. Qualquer que seja a causa, é a condição em si que nos deve preocupar, porque nos pode levar a beber mais depressa do que possamos ver, pensar ou sentir. Já vimos tais recaídas acontecerem de diversas maneiras. No alívio e alegria iniciais da recuperação, podemos ter umas grandes paixonetas pelas novas pessoas que conhecemos, tanto dentro como fora do A.A., especialmente quando estas pessoas manifestam um sincero interesse por nós ou parecem olhar-nos com admiração. O arrebatamento frívolo que isto nos produz torna-nos altamente vulneráveis à bebida. Também se pode dar um fenômeno emocional contrário. Podemos parecer tão insensíveis que ficamos quase imunes a qualquer afeto durante um certo tempo depois de deixarmos de beber (os médicos dizem que é comum as pessoas não terem interesse nem muita capacidade sexual durante meses depois de terem parado de beber – mas este problema resolve-se por si mesmo à medida que se recupera a saúde. Nós sabemos como isso é!). Até termos a certeza de que esta apatia passará, voltar a beber parece-nos uma excelente “solução”, que nos levará a problemas ainda piores.
O nosso frágil estado emocional afeta igualmente os nossos sentimentos em relação a velhos amigos e à família. Para muitos de nós, estes relacionamentos parecem melhorar rapidamente à medida que vamos recuperando. Para outros, surge um período de tensão em casa.
Agora que estamos sóbrios, temos de perceber quais são os nossos sentimentos em relação ao marido ou mulher, aos filhos, aos irmãos, aos pais, aos vizinhos, para depois revermos o nosso comportamento. Os nossos colegas de trabalho, clientes, empregadores ou empregados exigem também essa mesma atenção. (Freqüentemente, a nossa maneira de beber teve um grave impacte emocional nas pessoas mais próximas de nós, e também elas podem precisar de ajuda para recuperar. Poderão recorrer aos grupos familiares de Al-Anon e de Alateen. Embora estas comunidades não estejam oficialmente ligadas a A.A., são muito parecidas e ajudam os familiares e amigos não-alcoólicos a viverem melhor com o conhecimento da nossa doença e da nossa condição). Ao longo dos anos chegamos à conclusão de que não se devem tomar decisões importantes no início da nossa sobriedade, a não ser que seja impossível adiá-las. Esta precaução aplica-se essencialmente a decisões referentes a pessoas, decisões essas que implicam uma grande carga emocional. As primeiras e inseguras semanas de sobriedade não são a altura certa para fazer grandes mudanças nas nossas vidas.
Outra precaução: fazer depender a nossa sobriedade de alguém com quem estamos envolvidos emocionalmente pode ser terrivelmente desastroso. “Vou manter-me sóbrio, se esta pessoa fizer isto ou aquilo” impõe uma condição pouco saudável à nossa recuperação. Temos de ficar sóbrios unicamente por nós, independentemente do que os outros façam ou deixem de fazer.
Temos também de nos lembrar que a aversão intensa é igualmente um envolvimento emocional, que corresponde freqüentemente ao reverso de um amor passado. Precisamos de moderar qualquer sentimento exagerado, para que isso não nos faça voltar a beber. É fácil você considerar-se uma excepção a esta afirmação generalizada. Sóbrio há pouco tempo, você pode sinceramente acreditar que encontrou finalmente o seu verdadeiro amor – ou que a sua atual atitude de antagonismo persistente em relação a alguém significa que houve sempre qualquer coisa de profundamente errado nesse relacionamento. Em ambos os casos, você talvez tenha razão mas, neste momento, é mais sensato esperar para ver se a sua atitude vai mudar. Temos visto repetidamente este gênero de sentimentos mudarem radicalmente em apenas alguns meses de sobriedade. Assim, fazendo uso de “Primeiro o mais importante”, achamos conveniente concentrarmo-nos, de início, apenas na nossa sobriedade, mantendo-nos afastados de quaisquer envolvimentos emocionais perigosos.
Ligações imaturas ou prematuras são entraves à recuperação. Só depois de termos tempo para adquirirmos uma certa maturidade além da mera abstinência, é que estamos preparados para nos relacionarmos com os outros de uma maneira madura.
Quando a nossa sobriedade assenta numa base suficientemente firme para resistir ao stress, então estaremos aptos para enfrentar e resolver outros aspectos das nossas vidas.

DOZE PASSOS COM “DEUS COMO VOCÊ O CONCEBE”

12 Passos com “Deus Como Você O Concebe”
[Religião dos Doze (12) Passos: AA – Alcoólicos Anônimos, etc.]
Tradução e adaptação do capítulo 15 do livro Occult Invasion (Invasão do Oculto)

Dave Hunt

A influência do misticismo no Ocidente provém de mais longe do que muitos suspeitam, sendo anterior ao movimento das drogas e à invasão dos gurus do Oriente. Napoleon Hill recebeu a filosofia básica dos movimentos de sucesso/motivação de entidades espirituais, que enganosamente se apresentaram como Mestres Ascendentes, conhecidos como “A Venerável Irmandade da Índia”. Ao mesmo tempo em que Hill introduzia o ocultismo no mundo dos negócios, Agnes Sanford estava trazendo-o para a igreja. Um século antes, todavia, o ocultismo já havia estabelecido sua principal ponta-de-lança no Ocidente através da Maçonaria. Ocasionalmente, nos anos de 1930 e 40, a invasão do ocultismo foi expandida de maneira monstruosa através dos Alcoólicos Anônimos (AA).

A influência dos 12 passos do AA tem sido avassaladora. São tantos os grupos que se formaram, a partir da filosofia do AA, que dificilmente pode-se chegar a um número exato. Em seu excelente livro intitulado 12 Steps to Destruction (12 Passos para a Destruição), o qual todo cristão deveria ler, Martin e Deidre Bobgan apontam: “Milhares de grupos através da América usam os 12 passos de Wilson e a maior parte dos grupos de recuperação/codependência pratica os 12 princípios, de um modo ou de outro […] Qualquer programa de tratamento inventado atualmente combina a filosofia, psicologia e religião dos 12 passos.”

Os novos termos “vício” e “recuperação” agora estão incluídos em qualquer coisa que alguém possa imaginar. Existem inclusive bíblias de “recuperação”, como a conhecida “Serenidade Para Todo Dia”. Os Alcoólicos Anônimos produziram grupos como Crianças Adultas Alcoólicas, Devedores Anônimos, Emocionais Anônimos, Jogadores Anônimos, Narcóticos Anônimos, Glutões Anônimos, Viciados-em-Sexo Anônimos, Viciados-em-Trabalho Anônimos e até Fundamentalistas Anônimos. O Centro Dallas de Vício e Abuso Religioso vê paralelos entre as famílias que criam cristãos fundamentalistas e aquelas que produzem alcoólatras e tem como principal alvo a “recuperação” de tais crentes viciados. Obviamente, os grupos anticristãos sentem-se à vontade com um “poder superior”, o qual pode ser qualquer coisa que alguém possa escolher para confiar. Tal prática, certamente, priva os pecadores e seus familiares de conhecerem o Deus da Bíblia.

Uma fachada perfeita para Satanás e os demônios

Os grupos AA (e todos os outros com 12 passos, desenvolvidos a partir dele) abrem a porta para a introdução do ocultismo, mediante a crença num “deus” genérico. O passo 2 diz: “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. O passo 3 continua: “Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O [Hindu, Budista, Cristão, Mórmom, Católico, agnóstico, etc.] concebíamos”. Como na Maçonaria, qualquer falso deus serve.

Satanás não é ateu. Ele sabe que Deus existe e quer ocupar o Seu lugar, sendo louvado pela humanidade. Para tal fim, ele encoraja a crença num “poder superior”, para desviar o homem do Deus verdadeiro, voltando-se para ele mesmo. Satanás sabe que todas as pessoas têm um senso de alienação de Deus e que o Espírito Santo está cortejando a humanidade para Ele mesmo. Qual maneira poderia ser melhor para Satanás evitar a reconciliação do homem com o Deus verdadeiro, através de Jesus Cristo, do que efetuar uma pseudo-reconciliação com um falso poder superior?

Este foi o caso do próprio Bill Wilson, fundador dos Alcoólicos Anônimos. Embora Wilson tenha estudado aos pés de Sam Shoemaker, um pastor episcopal de Boston, e passado um ano sob a tutela do bispo Fulton J. Sheen (a coisa mais próxima de um televangelista que a Igreja Católica produziu), ele nunca recebeu o Senhor Jesus Cristo com seu Salvador.

Na revista Christianity Today, Tim Stafford escreveu: “Os 12 passos são cristãos”. Entretanto, nenhum dos 12 passos faz qualquer menção a Jesus Cristo, muito menos ao evangelho. Como, então, poderiam eles ser cristãos? O próprio Stafford admite que Wilson “nunca prometeu lealdade a Cristo, nunca foi batizado e nunca foi membro de uma igreja, juntado-se a ela…” A igreja cristã, contudo, juntou-se ao AA.

A adoção de qualquer forma dos 12 passos dentro da igreja implica que Deus, a Bíblia e Jesus Cristo não oferecem solução (ou, no mínimo, uma solução adequada) para os pecados de embriaguez, ou qualquer outro “vício”, e que o AA tem preenchido, finalmente, esta lacuna deixada pela igreja, pela Bíblia e por Jesus Cristo. Em seus exaustivos estudos sobre os grupos de ajuda aos “viciados” e seus familiares, para sua tese de doutorado (PhD), G.A. Pritchard concluiu:

Um dos primeiros membros da equipe [da igreja The Willow Creek Community Church of South Barrington [tida nos Estados Unidos como a “igreja padrão” para o século XXI] com quem falei, ele, orgulhosamente, dirigiu-se a mim e me disse que mais de 500 pessoas reuniam-se na igreja toda semana em vários grupos de auto-ajuda, tais como Emocionais Anônimos, Jogadores Anônimos, Narcóticos Anônimos, Glutões Anônimos, Viciados-em-Sexo Anônimos, Viciados-em-Trabalho Anônimos, etc. Nas minhas investigações, descobri que tais programas não eram realmente da própria igreja. Embora muitos membros dela estivessem envolvidos e participando ativamente dos programas, os encontros estavam sendo dirigidos sob a égide e o absoluto controle dos princípios éticos, passos e política de organizações de fora da igreja. Um dos requerimentos indispensáveis de todas essas organizações é que as pessoas não poderiam evangelizar ou ensinar aos freqüentadores sobre o Deus pregado naquela igreja.

Uma trágica indulgência Ecumênica

Uma publicação oficial dos AA diz: “os Alcoólicos Anônimos não requerem que você creia em qualquer coisa […] O AA trilha inúmeros caminhos em sua busca por fé. Se você não acredita no caminho que sugerirmos, você ficará à vontade para descobrir outro caminho qualquer que sirva e convenha a você […] Você pode, se desejar, fazer do próprio AA o seu ‘PODER SUPERIOR’”. Não poderia ficar mais claro que qualquer falso deus se encaixa neste discurso satânico. O inferno por toda eternidade é o preço caríssimo que se paga pela freqüência ao AA e a outros grupos de ajuda mútua, pela sobriedade nesta vida.

Foi o psicólogo William James em seu livro The Varieties of Religious Experience (A Variedade das Experiências Religiosas) que encorajou Wilson na crença de que qualquer deus poderia funcionar em seu programa. Esta foi também a fonte da qual Wilson retirou a justificativa para uma ecumênica e mística experiência religiosa, a qual os alcoólatras devem procurar em busca da libertação das suas aflições:

[William] James deu a Bill [Wilson], de um modo aceitável a este, o material necessário para entender o que lhe acontecera. Wilson, o alcoólatra, agora tem a sua experiência espiritual ratificada por um professor de Harvard, chamado por alguns de O Pai da Psicologia Americana!

Mantendo a mesma posição tolerante de Christianity Today, de aceitação dos erros da Psicologia, através do falso evangelho do catolicismo romano, mediante o ecumenismo, Stafford escreve: “Cristãos podem usar o AA ou qualquer outro grupo de 12 passos […] não há perigo em obter ajuda onde ela está disponível”. Da Yoga? Da Meditação Transcendental? Por que não da Ciência Cristã? Por que voltar-se para qualquer programa de 12 passos, a menos que Cristo e Sua Palavra não sejam suficientes?

A questão não é se um alcoólatra recebeu ajuda. Existem testemunhos fantásticos de mudança de vidas mediante quaisquer processos, desde hipnose e psicoterapia até alegadas abduções por UFO’s(OVNI’s Objetos – Voadores Não Identificados). A trágica verdade, todavia, é que a ajuda temporal através do “poder superior” dos AA desvia os recipientes para longe de Jesus Cristo e de Sua salvação eterna. Além do mais, o AA provê uma pequeníssima ajuda real, mesmo na luta contra o alcoolismo. Grupos de cristão bíblicos, que confiam apenas em Jesus Cristo têm resultados extraordinariamente mais favoráveis. Por outro lado, Stafford diz ainda, engodando as pessoas: “Os 12 passos são um pacote de práticas cristãs, mas sem o menor compromisso em usá-las”.

Os Alcoólicos Anônimos e o ocultismo

Desviando-se do Deus verdadeiro, e voltando-se para os falsos deuses de qualquer espécie, o AA abre a porta às manifestações ocultistas, ao engano e à escravidão. Tal é o legado do AA. Bill Wilson e seu amigo íntimo, Bob Smith, estavam ambos extremamente envolvidos com o ocultismo, mesmo antes de conceberem o AA e, ainda mais, depois que o AA estava plenamente estabelecido. A biografia oficial de Wilson revela, sem qualquer reserva ou constrangimento que, por anos a fio, após a fundação do AA, eram feitas sessões na casa de Wilson, além de outras atividades psíquicas, incluindo a consulta de Ouija board (mesa branca de consulta com letras, símbolos e números). A biografia declara:

Há referências de sessões e outros eventos psíquicos nas cartas que Wilson escreveu a Lois [esposa dele], durante aquele primeiro verão em Akron, com os Smiths [Bob e Anne], em 1935.

Wilson deitava-se no sofá. Ele “obtinha” tais ensinamentos [do mundo espiritual] toda semana. A cada vez, certas pessoas [demônios personificando seres humanos mortos] poderiam “entrar e trazer longos ensinamentos, palavra por palavra…”

[Em 1938] quando Wilson começou a escrever [o manual do AA], ele clamou por direção […] As palavras começaram a pulular com velocidade espantosa. Ele completou o primeiro rascunho em meia hora […]

Numerando os novos passos, eles chegaram a 12, um número simbólico; ele pensou nos 12 apóstolos e, pouco tempo depois, estava convicto de que a Sociedade deveria ter 12 passos.

Foi através de mediunidade que Wilson recebeu o manual dos Alcoólicos Anônimos, notadamente de ensinamentos do mundo demoníaco. Não é surpresa, portanto, que o efeito do AA sobre muitos dos seus membros tem sido levá-los ao envolvimento com o ocultismo. Wilson também envolveu-se com o uso de LSD, na esperança de alcançar um elevado estado místico, com o objetivo de provar a sobrevivência do espírito após a morte. Em 1958, Wilson escreveu a Sam Shoemaker:

Através do AA, nós recebemos um tremendo volume de fenômenos psíquicos, muitos deles espontâneos. Alcoólatras após alcoólatras têm me contado sobre tais experiências […] que cobrem uma gama enorme de tudo que vemos nos livros.

Além da minha experiência mística original, eu mesmo tenho vivido incontáveis fenômenos psíquicos.

Uma tolerância intolerante

Agora, chegamos ao ponto em que igrejas evangélicas estão promovendo, patrocinando, apoiando e recomendando a seus membros e pessoas de fora, programas para vencer o pecado em suas vidas, usando técnicas e um poder superior que substitui (ou, minimiza, suplementa) Deus e o poder do Espírito Santo! Stafford recomenda todos os grupos de 12 passos porque eles são “tolerantes”. Deveríamos nós recomendar tolerância sobre a identidade de Deus e a diferença entre a Sua Verdade e a mentira de Satanás? Sobre a alegada “tolerância”, considerando as regras dos variados grupos de 12 passos implantados por grupos externos na The Willow Creek Community Church of South Barrington, considere o seguinte:

Um código oficial de instrução explica:

Os passos sugerem uma crença num Poder maior do que nós mesmos, “Deus, como O entendemos”. O programa não procura, nem muito menos tenta, nos dizer o que nosso Poder Superior deveria ser.

Ele pode ser qualquer coisa que nós escolhermos como, por exemplo, o amor humano, a força para o bem, o próprio grupo em si mesmo, a natureza, o universo, ou o Deus (Deidade) tradicional.

O código nos instrui: “Nós nunca discutimos religião”.

Nas Escrituras, somos mandados a “… batalhar pela fé que uma vez foi dada [de uma vez por todas] aos santos.” (Judas 3). Como, portanto, podemos ser tolerantes na promoção, divulgação e apoio de poderes superiores, que tomam o lugar de Deus? Dando suporte à tolerância, Stafford diz: “Cristãos [em qualquer grupo de 12 passos] podem expressar suas convicções.” Quais convicções? A de que Jesus Cristo é O Poder Superior? Isto não é bíblico, nem permitido pelas regras dos grupos externos às igrejas, mas que funcionam dentro delas, os quais desfrutam de total autonomia, ficando os membros das igrejas de mãos atadas, totalmente impossibilitados de pregar o evangelho em tais encontros.

O conceito do AA de um poder superior é pagão. Definitivamente, é um insulto a Jesus Cristo associá-lo a tal poder, seja qual for. Cristo não é um poder, mas uma Pessoa. Stafford assevera que os cristãos não podem dizer qualquer coisa que possa “minar as propostas pluralísticas dos grupos de 12 passos, sugerindo que os outros pontos de vista sobre Deus sejam errados”. Portanto, a tal alegada “tolerância” tem seus limites e é um fato de real INTOLERÂNCIA AO EVANGELHO!

Em sua tese de doutorado sobre os variados grupos de 12 passos implantados na The Willow Creek Community Church of South Barrington, Pritchard escreve:

Mesmo cristãos da própria igreja não podem falar sobre a verdade cristã em tais encontros na Willow Creek Church. Embora nos programas profiram-se palavras, orações e ensinamentos a um “Poder Superior”, estes funcionam como ateísmo prático, ensinando variadas categorias contemporâneas e seculares de visões psico-sociológicas. Mesmo essa tamanha ausência de conteúdo teológico não impede a igreja de promover e divulgar tais programas, que funcionam durante a semana.

O fato da Willow Creek Church patrocinar e divulgar esses programas ilustra o vazio da prioridade da igreja em pregar a verdade cristão.

Tradução e adaptação por Mário Sérgio

Todas as citações bíblicas são da ACF (Almeida Corrigida Fiel, da SBTB). As ACF e ARC (ARC idealmente até 1894, no máximo até a edição IBB-1948, não a SBB-1995) são as únicas Bíblias impressas que o crente deve usar, pois são boas herdeiras da Bíblia da Reforma (Almeida 1681/1753), fielmente traduzida somente da Palavra de Deus infalivelmente preservada (e finalmente impressa, na Reforma, como o Textus Receptus).

O PASSO DOZE

“O PASSO DOZE”

Drª. Maria Tude

Tendo tido um despertar espiritual, por meio desses Passos, procuramos levar essa mensagem a outras pessoas e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

Todos os Passos nos nortearam na busca da sanidade, na saída para nossos impasses, na cura de nossas dores, na alegria de viver amorosamente a partir de nossa dimensão espiritual. Ela é a fonte da vida, do sagrado, da conecção com um Poder Superior.
Eles nos guiaram nessa itinerância através de nosso ego fechado, arrogante mas
amedrontado, competitivo e defensivo, usando o compartilhar sem confronto com outros egos, para irmos descobrindo nossa espiritualidade. E nesse caminhar perseverante, com esse propósito, vamos chegando a um “despertar espiritual”.

Estamos aprendendo a viver coerentes com nossa identidade de seres espirituais.
Cada vez mais livres das amarras que nos impuseram e aceitáramos continuar com elas, estamos desfrutando agora da gostosura de compartilhar, cooperar, respeitar, ter compaixão, sermos generosos, gentis, bem humorados, verdadeiros…

Embora nossos problemas muitas vezes continuem iguais (ou até maiores), algo mudou – fomos nós. E tudo começa a ser tão diferente e nos sentimos tão plenos que, naturalmente, necessitamos “transbordar” para tudo e todos.

Queremos levar a boa nova, a mensagem, a “dica” de que a felicidade “até existe” e ela está nessa caminhada à dimensão espiritual.

O Passo 12 nos convoca a sermos mensageiros, a levarmos a boa mensagem, não apenas informando ou ensinando, mas sendo nós próprios, um dia de cada vez, a própria mensagem, vivenciando esses princípios espirituais amorosos.

* Drª. Maria Tude ( Psicologa )

DÉCIMO SEGUNDO PASSO

“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.”

No Décimo Segundo Passo de A.A., o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave. Chegou a oportunidade de nos voltarmos para fora em direção de nossos companheiros alcoólicos ainda aflitos. Nessa altura, estamos experimentando o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca. Agora começamos a praticar todos os Doze Passos em nossa vida diária para que possamos todos, nós e as pessoas que nos cercam, encontrar a sobriedade emocional. Quando conseguimos ver em que o Décimo Segundo Passo implica, vemos que se trata do amor que não tem preço.

Este passo também nos diz que, como resultado da prática de todos os passos, cada um de nós foi descobrindo algo que se pode chamar de “despertar espiritual”. Para os AAs novos, este estado de coisas pode parecer dúbio ou improvável. Eles perguntam: Que querem dizer quando falam em “despertar espiritual”?

É possível que haja uma definição de despertar espiritual para cada pessoa que o tenha experimentado. Contudo, os casos autênticos, na verdade, têm algo comum entre si. Estas coisas comuns entre eles são de fácil compreensão. Quando um homem ou uma mulher experimenta um despertar espiritual, o significado mais importante disso é que se torna capaz de fazer, sentir e acreditar em coisas como antes não podia, quando dispunha apenas de seus próprios recursos desassistidos. A dádiva recebida consiste em um novo estado de consciência e uma nova maneira de ser. Um novo caminho lhe foi indicado, conduzindo-o a um lugar determinado, onde a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Foi transformado em um sentido bem real, pois lançou mão de uma fonte de força que, de um modo ou de outro, havia negado a si próprio até aqui. Encontrou-se possuindo um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se supunha totalmente incapaz. O que recebeu foi um presente de graça, contudo, geralmente, pelo menos em uma pequena medida, tornou-se pronto para recebê-lo.

O meio de que A.A. dispõe em nosso preparo para a recepção desta dádiva está na prática dos Doze Passos de nosso programa. Portanto, procedamos a um rápido levantamento do que temos tentado fazer até aqui:

O Primeiro Passo nos revelou um fato surpreendentemente paradoxal: descobrimos que éramos totalmente incapazes de nos livrar da obsessão pelo álcool até que admitíssemos nossa impotência diante dele. No Segundo Passo vimos que já não éramos capazes de, por nossos próprios meios, retornar à sanidade, e que algum Poder Superior teria que fazê-lo por nós, para que pudéssemos sobreviver. Em conseqüência, no Terceiro Passo, entregamos nossa vontade e nosso destino aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos. A título provisório, aqueles de nós que eram ateus ou agnósticos descobriram que o nosso grupo ou A.A. no todo, poderia atuar como poder superior. A partir do Quarto Passo, começamos a procurar dentro de nós as coisas que nos haviam levado à bancarrota física, moral e espiritual e fizemos um corajoso e profundo inventário moral. Em face do Quinto Passo, decidimos que apenas fazer um inventário não seria suficiente; sabíamos que era necessário abandonar nosso funesto isolamento com nossos conflitos e, honestamente, confiá-lo a Deus e a outro ser humano. No Sexto Passo, muitos dentre nós recuaram pela simples razão de que não desejavam a pronta remoção de alguns defeitos de caráter dos quais ainda gostavam muito. Sabíamos, porém, todos, da necessidade de nos ajustar ao princípio fundamental deste passo. Portanto, decidimos que, embora tivéssemos ainda alguns defeitos de caráter que ainda não podíamos expulsar, devíamos de todos os modos abandonar nossa obstinada e revoltante dependência deles. Dissemos: “Talvez não possa fazer isso hoje mas, pelo menos, parar de protestar: não, nunca!”. Então, no Sétimo Passo, rogamos humildemente Deus que, de acordo com as condições reinantes no dia do pedido e se esta fosse a Sua vontade, nos libertasse de nossas imperfeições. No Oitavo Passo continuamos a limpeza de nosso interior, pois sabíamos que não só estávamos em conflito conosco, como também com pessoas e fatos do mundo em que vivíamos. Precisávamos começar a restabelecer relações amistosas e, para esse fim, relacionando as pessoas que havíamos ofendido, nos propusemos, com disposição, a remediar os males que praticamos. Prosseguimos com esse desígnio no Nono Passo, reparando diretamente junto às pessoas atingidas, os danos que causamos, salvo quando disso resultassem prejuízos para elas e outros. No Décimo Passo, havíamos iniciado o estabelecimento de uma base para a vida cotidiana, conhecendo claramente que seria necessário fazer de maneira contínua o inventário pessoal, admitindo prontamente os erros que fôssemos encontrando. No Décimo Primeiro Passo vimos que se um Poder Superior nos havia devolvido à sanidade e permitido que vivêssemos com relativa paz de espírito num mundo conturbado, valia a pena conhecê-lo melhor, através do contato mais direto possível. Ficamos sabendo que o uso persistente da oração e da meditação abria, de fato, o canal para que, no lugar onde havia existido um fio de água, corresse um caudaloso rio que nos levava em direção ao indiscutível poder e à orientação segura de Deus, tal como estávamos podendo conhecê-lo, cada vez melhor.

Assim, praticando estes passos, experimentamos um despertar espiritual sobre o qual, afinal, não nos restava a menor dúvida. Olhando aqueles que apenas começavam e ainda duvidavam de si mesmos, nós podíamos ir observando a mudança que neles se operava. Tomando por base o grande número de experiências que tivemos, podíamos prognosticar que o companheiro cheio de dúvida e que dizia não haver ainda compreendido o “lado espiritual”, mas que insistia em considerar seu bem-amado, grupo de A.A., seu poder superior, em breve amaria a Deus, e O chamaria pelo nome.

E agora, que diremos do restante do Décimo Segundo Passo? A energia maravilhosa que ele desencadeia e a ação pronta pela qual leva nossa mensagem ao próximo alcoólico sofredor, e que finalmente convertem os Doze Passos em ação sobre todas as nossas atividades é a recompensa, a magnífica realidade de Alcoólicos Anônimos.

Até o último dos recém-chegados descobre recompensas nunca sonhadas quando procura ajudar seu irmão alcoólico, aquele que ainda está mais cego do que ele. Isto de fato, é dar, nada pedindo. Ele não espera de seu companheiro qualquer paga ou mesmo amor. E então, descobre que, pelo paradoxo divino contido nessa maneira de dar, já recebeu a sua própria recompensa, não importando se seu irmão foi ajudado ou não.

Seu caráter pode ainda encerrar graves defeitos, mas de alguma forma ele sabe que começou bem, por obra de Deus, sentindo que está à beira da descoberta de alegrias, experiências e mistérios jamais sonhados. É comum quase em todos os membros de A.A. a afirmação de que nenhuma satisfação é mais profunda e nenhuma alegria é mais intensa e duradoura do que um Décimo Segundo Passo bem executado. Contemplar os olhos de homens e mulheres se abrirem maravilhados à medida em que passam da treva para a luz, suas vidas se tornando rapidamente cheias de propósito e sentido, famílias inteiras se reintegrando, o alcoólico marginalizado sendo recebido alegremente em sua comunidade como cidadão respeitável, e acima de tudo, ver estas pessoas despertadas para a presença de um Deus amantíssimo em suas vidas, são fatos que constituem a essência do bem que nos invade, quando levamos a mensagem de A.A. ao irmão sofredor.

E não fica nisso o trabalho do Décimo Segundo Passo. Nas reuniões de A.A., não só escutamos para receber os benefícios de experiências alheias, como também para dar o apoio que nossa presença possa trazer. Quando nos cabe falar, novamente tentamos transmitir a mensagem de A.A. Seja o nosso auditório por uma ou muitas pessoas, ainda é serviço do Décimo Segundo Passo. Existem muitas oportunidades para aqueles dentre nós que não se sentem capazes de falar ou, dadas as circunstâncias, não tem condições para as abordagens. Podem eles aceitar as incumbências pouco notadas, mas igualmente importantes e que tornam possível a execução do Décimo Segundo Passo, providenciando café e bolo para depois das reuniões, quando tantos recém-chegados, ainda descrentes e fechados, encontram um ambiente de confiança e conforto no bate-papo alegre e descontraído. Isso é trabalho do Décimo Segundo Passo no melhor sentido da palavra. “Livremente receberam e livremente dão…”, eis o coração deste último passo.

Passamos por certas experiências no Décimo Segundo Passo que fazem, freqüentemente, supor que estejamos temporariamente “fora de onda”. Quando forem surgindo, parecerão sérios reveses para nós, mas com o tempo, serão encarados como meros degraus na ascensão para um estágio melhor. Por exemplo, desejamos ardentemente levar à sobriedade uma determinada pessoa, fazendo tudo o que podemos durante meses, para depois vê-la recair. Talvez isto venha a acontecer várias vezes, o que poderá nos acarretar grande decepção, relativa à nossa capacidade de transmitir a mensagem de A.A. E a situação inversa, quando chegamos a Ter, com euforismo, a sensação de êxito, pelo menos aparentemente? Neste caso, a tentação é nos tornarmos donos dos novatos. Pode ser que não resistamos ao desejo de nos tornarmos conselheiros de seus assuntos privados, não estando nem preparados para essa difícil missão e nem devendo fazê-lo. Daí ficamos ofendidos e confusos quando os nossos conselhos são rejeitados ou, se aceitos, trazem ainda maior perturbação. Às vezes, com muito esforço, levamos a nossa mensagem a tantos alcoólicos que os companheiros nos colocam em posição de confiança, digamos, nos elegem para coordenar o grupo. Este acontecimento pode nos trazer a tentação de cometer exageros na administração das coisas, nos expondo a vexames e outras dificuldades incômodas. Porém, a longo prazo, vamos reconhecendo claramente que essas são as dores do crescimento e que só o bem poderá delas advir se procurarmos as respostas, cada vez mais profundamente, nos Doze Passos.

Agora, a maior pergunta que já fizemos: O que dizer da “prática destes princípios em todas as nossas atividades”? temos condições para amar a vida em todos os seus aspectos com tanto entusiasmo quanto amamos aquela pequena parcela que descobrimos, quando tentamos ajudar os outros alcoólicos a alcançar a sobriedade? Somos capazes de levar às nossas vidas em família, por vezes bastante complicadas, o mesmo espírito de amor e tolerância com que tratamos nossos companheiros do grupo de A.A.? As pessoas de nossa família, que foram envolvidas e até marcadas pela nossa doença, merecem de nós o mesmo grau de confiança e fé que temos em nossos padrinhos? Podemos fazer com que o espírito de A.A. esteja de fato presente em nossas atividades diárias? Estamos prontos para arcar com as novas e reconhecidas responsabilidades que nos cercam? Podemos levar para a religião de nossa escolha, novo propósito e nova devoção? Será que podemos encontrar uma nova alegria de viver, tentando dar um jeito em todas essas coisas?

Além do mais, como podemos nos ajustar à derrota ou ao êxito aparentes? Podemos aceitar e nos adaptar a ambos sem desespero ou orgulho? Podemos aceitar a pobreza, a doença, a solidão e o luto com coragem e serenidade? Podemos nos contentar resolutamente com as satisfações mais simples, embora às vezes mais duráveis, quando nos são negadas as mais brilhantes e gloriosas realizações?

A resposta de A.A. a tais perguntas sobre a vida é: “Sim, tudo isto é possível.” Sabemos porque vimos a monotonia, a dor e até a calamidade transformadas por aqueles que continuam tentando praticar os Doze Passos de A.A. Se estes são os fatos da vida de muitos alcoólicos que se recuperam em A.A., podem muito bem vir a ser fatos da vida de muitos mais.

É claro que até os melhores AAs nem sempre conseguem alcançar esses objetivos de forma consciente. Não é necessário tomarmos o primeiro gole para que, muitas vezes, nos afastemos em maior ou menor distância da faixa da normalidade. Às vezes nossos problemas começam pelo comodismo; sentimo-nos sóbrios e felizes em nosso trabalho de A.A.; as coisas vão bem em casa e no escritório. De certo modo, já estamos nos congratulando por aquilo que mais tarde saberemos ser muito fácil e superficial. Temporariamente paramos de crescer porque nos acomodamos na crença de que para nós não será necessário o cumprimento de todos os Doze Passos de A.A. Estamos muito bem com parte deles. Talvez para nós sejam suficientes somente o Primeiro Passo e trecho do Décimo Segundo que diz: “levamos a mensagem”. Na gíria de A.A. esse feliz estado de coisas é denominado “a dança dos dois passos” e pode durar vários anos.

Até os mais bem intencionados entre nós podem ser iludidos por essa “dança”. Mais cedo ou mais tarde, a fase da euforia passa e somos envolvidos por monotonia. Começamos então a pensar que A.A., afinal de contas, não vale a pena. Ficamos confusos e desanimados.

Aí, é possível que a vida, como sempre de novo acontece, nos dê um “bocado” tão grande que não possamos engolir, muito menos digerir. Deixamos de obter um aumento salarial pelo qual tanto havíamos lutado. Perdemos “aquele” emprego. É provável que surjam sérias dificuldades domésticas ou sentimentais. Aquele rapaz que nos parecia guardado por Deus, talvez não retorne da frente de combate!

Que acontecerá então? Será que nós alcoólicos encontramos ou podemos encontrar em A.A. os meios para enfrentar essas calamidades que a tantos afligem? Estes eram os problemas da vida que jamais conseguíamos encarar. Temos agora condições para, com a ajuda de Deus, tal qual O entendemos, lidar com eles com a mesma decisão e coragem com que fazem, freqüentemente, nossos amigos não alcoólicos? Sabemos transformar essas desventuras em algo positivo, fonte de crescimento e alívio para nós mesmos e aqueles que nos rodeiam? Bem, com certeza teremos uma chance se passarmos da “dança dos dois passos” para o “samba dos Doze Passos”, se quisermos receber a graça Divina que nos pode sustentar e fortalecer em qualquer catástrofe.

Nossos problemas básicos são idênticos aos das outras pessoas, porém, quando AAs bem alicerçados se esforçam honestamente para ”praticar esses princípios em todas as atividades”, parecem Ter a capacidade, pela graça de Deus, de não se atrapalhar, convertendo suas dificuldades em autênticas demonstrações de fé. Temos visto AAs sofrerem doenças prolongadas e fatais, quase sem queixa, permanecendo muitas vezes de bom humor. Freqüentemente temos encontrado reunidas de novo pela maneira de viver de A.A., famílias inteiras desintegradas pela incompreensão, tensão ou até infidelidade.

Embora a capacidade de ganho da maioria dos AAs seja relativamente alta, alguns membros parecem nunca obter o almejado equilíbrio financeiro, enquanto outros se debatem inutilmente com pesados contratempos dessa ordem. E vemos que, em geral, estas situações são encaradas com energia e fé.

Como a maioria das pessoas, descobrimos que somos capazes de suportar nossos reveses. Mas, da mesma forma que os outros, descobrimos que os maiores desafios nos vêm dos pequenos e crônicos problemas da vida. Nossa resposta está em aumentar nosso desenvolvimento espiritual. Somente assim teremos condições de elevar nossas chances para Ter uma vida verdadeiramente útil e feliz. E, ao crescermos espiritualmente, ficamos sabendo que as velhas atitudes diante de nossos instintos precisam sofrer drástica revisão. Nossos desejos de segurança emocional e material, prestígio pessoal e poder, vida sentimental e bem estar no seio da família, todos estes carecem ser equilibrados e reorientados. Aprendemos que a satisfação de nossos instintos não pode ser o objeto exclusivo, a única finalidade da nossa vida. Se pusermos os instintos em primeiro lugar, estaremos colocando a carroça diante dos bois e seremos arrastados para a desilusão. Ao contrário, se nos dispusermos a elevar ao primeiro plano o nosso crescimento espiritual, então, e apenas então, teremos uma boa chance.

Após o nosso ingresso em A.A., se continuarmos a crescer, nossa maneira de ver e agir em relação a nossa segurança emocional ou financeira começa a mudar profundamente. Nossas exigências de segurança emocional, de ter as coisas à nossa maneira, consistentemente nos lançaram em situações intratáveis com outras pessoas. Embora muitas vezes não tivéssemos consciência disso, o resultado será sempre o mesmo. Ou havíamos assumido o papel de Deus e dominado as pessoas que nos rodeavam, ou insistido, abusivamente, em depender delas. Nos casos em que outras pessoas nos deixaram dirigir suas vidas por algum tempo, como se ainda fossem crianças, sentimo-nos imensamente felizes e seguros de nós mesmos. Porém, quando opuseram resistência ou se afastaram, ficamos ofendidos e desapontados. Pusemos a culpa neles. Incapazes que éramos de perceber que nossas imposições injustificáveis haviam sido a causa de tudo.

Nos casos em que havíamos seguido o caminho contrário, querendo, como crianças exigir dos outros proteção e cuidados ou que o mundo nos desse uma vida melhor, igualmente ocorreu um resultado infeliz. Por esse motivo, quase sempre as pessoas que mais amávamos eram levadas a nos repelir ou abandonar por completo. Não foi fácil suportar nossa desilusão, pois não imaginávamos que pudéssemos ser tratados dessa maneira. Já não percebíamos que, embora adultos em anos, ainda nos comportávamos infantilmente, tentando converter todos – amigos, esposas ou maridos e até o próprio mundo – em pais protetores. Havíamos nos recusado a compreender a dura lição de que a exagerada dependência dos outros sempre nos leva ao fracasso, dada a falibilidade até das melhores pessoas. Estas, muitas vezes terão que nos desapontar, especialmente quando nossas exigências de atenção se tornam impertinentes.

À medida em que progredíamos espiritualmente, passamos a reconhecer a natureza desses erros. Tornou-se evidente que se esperávamos, algum dia, nos sentir emocionalmente seguros entre pessoas adultas, teríamos de colocar nossa vida no mesmo plano que elas, dando e recebendo em igual medida. Seria necessário desenvolvermos o hábito de viver em sociedade ou fraternidade com todos os que nos cercavam. Vimos que sempre teríamos que dar tudo de nós mesmos, sem esperar qualquer troca.

Enquanto íamos agindo assim, descobríamos gradualmente que as pessoas se sentiam atraídas por nós como jamais o haviam sido antes. E mesmo que nos desapontassem, podíamos ser compreensivos e não seríamos tão afetados.

Ao desenvolver-nos mais ainda, descobrimos que o próprio Deus, sem dúvida, é a melhor fonte de estabilidade emocional. Descobrimos que a dependência de Sua absoluta justiça, perdão e amor era saudável, e que funcionaria quando tudo o mais fracassasse. Se realmente dependêssemos de Deus, nos seria difícil bancar o Deus perante nossos semelhantes, e nem sentiríamos a necessidade de os apoiar totalmente na proteção e no cuidado humano. Estas foram as novas atitudes que finalmente trouxeram a muitos de nós força e paz interior que dificilmente seriam abaladas pelas falhas dos outros ou por qualquer infortúnio não causado por nós.

Compreendemos que esta nova maneira de encarar os fatos era necessária, em especial para nós alcoólicos. Pois o alcoolismo, para nós, representa a solidão, apesar de que estivéramos cercados por pessoas que nos amavam. Mas, quando a nossa prepotência havia espantado a todos o nosso isolamento se tornara total, fomos levados a bancar os importantes em botequins de última classe e, então sozinhos, perambular pelas ruas e depender da caridade dos transeuntes. Ainda procurávamos a segurança emocional, dominando ou nos fazendo dominar pelos outros. E mesmo quando a nossa sorte não havia descido tanto e estávamos sós, mesmo assim insistíamos em procurar a segurança por esses comportamentos doentios. Para aqueles de nós que eram assim, A.A. teve um sentido muito especial. Através dele começamos aprendendo a manter boas relações com as pessoas que nos compreendem; não há mais necessidade de ficarmos sós.

A maioria de AAs casados tem lares muito felizes. De forma surpreendente, A.A. contrabalança os danos causados à vida familiar por anos de alcoolismo. Porém, como em todos os outros agrupamentos, nos também temos os nossos problemas sexuais e matrimoniais, às vezes, penosamente agudos. As separações e os deslizes permanentes, contudo, são raros entre os membros de A.A. Nosso principal problema não é conservar o casamento: é Ter uma vida conjugal cada vez mais sólida e feliz, eliminando-se as graves distorções emocionais que, na maioria das vezes, provieram do alcoolismo.

Quase todo o indivíduo sensato experimenta, em algum momento de sua vida, o desejo imperioso de encontrar um companheiro do outro sexo com o qual possa realizar a mais completa união possível, ou seja: espiritual, mental, emocional e física. Esse poderoso anseio é a raiz de grandes empreendimentos humanos, é uma energia criadora que influencia profundamente nossa vida. Deus nos fez assim. Portanto, nossa pergunta só pode ser esta: de que modo, por ignorância, compulsão e própria vontade, deturpamos essa dádiva para causar a nossa destruição? Nós AAs temos a pretensão de oferecer respostas cabais a antigas dúvidas, mas a nossa experiência pessoal nos dá, isso sim, respostas adequadas que funcionam para nós.

Quando o alcoolismo ataca, podem surgir graves anormalidades que militam contra a harmonia e a compatibilidade entre os cônjuges. Se for o homem afetado, a esposa terá de assumir a chefia da família e, quase sempre, se transformar em “o ganha pão”; à medida que as coisas vão piorando, o marido se concerte em criança doente e irresponsável, carente de cuidados e ajuda para livrar-se de inúmeras embrulhadas e becos sem saída. De forma gradual e geralmente sem aperceber do fato, a esposa é obrigada a se tornar mãe de um menino transviado. Se ela já tinha um forte instinto maternal, a situação é agravada. Nessas condições, como é óbvio, pouco companheirismo pode existir. É comum a esposa continuar fazendo o que de melhor possa, enquanto o alcoólico, alternadamente, ama e odeia seus cuidados maternais. Estabelece-se assim uma norma de vida que poderá ser difícil de romper mais tarde. Apesar disso, essas situações podem ser consertadas amiúde sob a influência dos Doze Passos de A.A. Em forma adaptada, estes Passos são também usados pelos Grupos Familiares Al-Anon. Essa grande Irmandade Mundial é constituída de cônjuges, familiares e amigos dos alcoólicos (em A.A. ou ainda bebendo). O endereço no Brasil é Rua Antônio de Godói, 20, 5º andar, salas 51 e 52, São Paulo/SP Caixa Postal 2034 –CEP 01060-970.

Caso a distorção tenha sido extensa, haverá necessidade de um grande e prolongado empenho na tentativa de corrigi-la. Após um marido tornar-se membro de A.A., a esposa poderá se sentir decepcionada e até muito ressentida pelo fato de Alcoólicos Anônimos Ter conseguido o que ela não alcançou com todos os seus esforços e anos de devoção. O marido poderá se envolver de tal maneira com A.A. e seus novos amigos que, desconsideradamente, passa mais tempo fora de casa do que quando bebia. Percebendo que a esposa não é feliz, ele recomenda-lhe os Doze Passos de A.A. e tenta ensina-la a viver. Naturalmente ela há de ponderar que, durante anos, conhecia muito mais do que ele sobre as coisas da vida. Cada um, então, culpa o outro e pergunta quando o matrimônio voltará a ser feliz. Não é impossível que comecem a desconfiar que desde os primeiros dias, o casamento foi uma droga.

É lógico que a incompatibilidade pode ser tanta que justifique uma separação. Porém, esses casos são raros. O alcoólico, reconhecendo o que sua esposa aturou e tendo nítida compreensão de quantos prejuízos ocasionou a ela e aos filhos, quase sempre retoma suas responsabilidades matrimoniais com a disposição de reparar o que perdeu e de aceitar o que não puder. Ele persiste na tentativa de praticar em seu lar todos os Doze Passos de A.A., obtendo, muitas vezes, bom resultado. A essa altura, ele começa, com firmeza mas com carinho também, a se comportar como um marido e não como um menino mal acostumado. E, acima de tudo, está finalmente convencido de que as aventuras sentimentais não são um modo de vida para ele.

Existem em A.A. muitos membros solteiros que querem se casar e estão em condições de fazê-lo. Alguns se casam com outros AAs. Qual o resultado destes casamentos? Na maioria dos casos, é muito bom. O sofrimento comum, como bebedores, o mesmo interesse em A.A. e sobre as coisas do espírito, geralmente fortalecem esses vínculos conjugais. Somente quando o “rapaz encontra a moça no jardim de A.A.” e o amor brota à primeira vista é que surgem as complicações. Os candidatos ao matrimônio devem ser AAs sólidos e se conhecer a tempo suficiente para que possam saber que a afinidade entre eles no plano espiritual, mental e emocional é um fato e não apenas uma aspiração. Devem estar tão seguros quanto possível de que nenhuma emoção negativa profunda em qualquer um dos dois, possa surgir sob pressões futuras e prejudicá-los.

Estas considerações são igualmente válidas e importantes para os AAs que se casam com pessoas estranhas à Irmandade. Com clara compreensão e tomadas de atitudes definidas e adultas, resultados muito felizes podem ser alcançados.

Que se poderá dizer de muitos membros de A.A. que por múltiplas razões não podem constituir família? De início, muitos deles se sentem sozinhos, magoados e excluídos, ao perceberem tanta felicidade conjugal ao seu redor. Se não podem ser felizes dessa maneira, pode A.A. oferecer a eles um ambiente de bem-estar igualmente válido e duradouro? Sim, toda vez que eles procurarem com vontade. Vivendo no aconchegante círculo de amigos de A.A., esses “solitários” nos dizem que já não se sentem mais em solidão. Em companhia de outros, homens e mulheres podem se devotar a um sem número de idéias, pessoas e projetos construtivos. Livres das responsabilidades oriundas do matrimônio, podem eles se entregar a empreendimentos que por sua natureza seriam vedados aos casados. Todos os dias vemos esses membros prestando relevantes serviços e recebendo, em compensação, alegria incomensurável.

Nossa maneira de encarar a posse de dinheiro e outras coisas materiais também sofreu mudança radical. Com poucas exceções, nós todos já fomos esbanjadores. Atirávamos dinheiro para todos os lados a fim de nos satisfazer e impressionar os outros. Na época em que bebíamos, atirávamos como se a fonte do dinheiro fosse inexaurível, embora às vezes, em bebedeiras, fôssemos ao outro extremo e nos tornássemos quase usuários.

Sem que nos déssemos conta, estávamos apenas acumulando fundos para a próxima farra. O dinheiro foi para nós o símbolo do prazer e da importância. Quando o nosso jeito de beber foi sem agravando, o dinheiro nada mais era do que um simples, mas imperioso requisito para o nosso provimento futuro de bebida e o conforto do desligamento temporário que ele nos trazia.

Após o nosso ingresso em A.A. essas atitudes sofreram uma brusca inversão, passando a ser, reiterada e exageradamente, a expressão do contrário. A fugaz lembrança dos anos gastos bastava para nos levar ao pânico. Achávamos que não tínhamos mais tempo para reconstruir nosso destino. De que forma conseguiríamos liquidar essas alarmantes dívidas, possuir uma casa decente, educar os filhos e poupar alguma coisa para a velhice? Um importante volume de dinheiro não era mais o nosso objetivo; o que reclamávamos agora era a segurança material em geral. Mesmo quando já estávamos restaurados em nossos negócios, o medo terrível continuava nos perseguindo. Isto nos transformou novamente em avarentos e usuários. Era um imperativo Ter, a qualquer preço, a segurança material completa. Esquecemo-nos de que a maioria dos membros de A.A. tem capacidade bem acima do normal para realizar numerário; não tivemos presente a imensa boa vontade de nossos companheiros em A.A. que estavam ansiosos por nos ajudar a conseguir melhores empregos, desde que o merecêssemos; não nos lembramos de que a insegurança financeira, atual ou potencial, acompanha de perto a todos os habitantes da terra. E, o pior de tudo, olvidamos a Deus. Em matéria de dinheiro só confiávamos em nós e, assim mesmo, não muito.

Na verdade, tudo isso significava que ainda estávamos bem desequilibrados. Quando um emprego para nós era apenas um meio de obter dinheiro ao invés de uma oportunidade para servir; quando a aquisição de dinheiro para a garantia de nossa independência financeira era, para nós, mais importante do que a dependência certa de Deus, ainda estávamos sob a pressão do medo injustificável. Esse medo tornaria possível uma existência serena e útil, qualquer que fosse o nosso nível financeiro.

Porém, com o passar do tempo, descobrimos que, com a ajuda dos Doze Passos de A.A., poderíamos perder o medo, não importando quais fossem nossas possibilidades materiais. Estava em nós a realização espontânea e alegre de tarefas humildes, sem nos preocuparmos com o amanhã. Se a nossa situação se apresentasse revestida de otimismo, já não receávamos uma mudança para pior, pois havíamos aprendido que nossos problemas podiam ser transformados em valores positivos. Deixava de ser importante nossa posição material, porém, tínhamos em grande conta a nossa condição espiritual. Aos poucos, o dinheiro foi deixando de ser nosso patrão para se tornar nosso servidor; ele veio facilitar a permuta do amor e da ajuda com aqueles que nos cercavam. Quando, pela graça divina, chegamos a aceitar nosso destino, compreendemos que podíamos, intimamente, viver em paz e mostrar aos que ainda sofriam do mesmo medo, que eles também poderiam superá-lo. Descobrimos que a libertação do medo era mais importante do que a libertação da penúria.

Tomamos conhecimento aqui da melhora em nossa maneira de ver os problemas ligados à importância pessoal, ao poder, à ambição e à liderança. Estes foram recifes contra os quais muitos dentre nós batemos e, a seguir, naufragamos durante a trajetória que percorremos como bêbados.

Quase todo menino sonha em chegar a ser o Presidente da República; almeja ser o homem mais importante do país. À medida que ele vai crescendo e vê que seu desejo é impraticável, pode rir bem-humorado desse sonho da juventude. Ao longo dos aos ele descobre que a verdadeira felicidade não está na ambição de ser o número um ou um dos primeiros na aflitiva luta pelo dinheiro, pela vida sentimental e pela importância. Aprende que pode ser feliz, enquanto souber manejar com maestria as cartas do baralho da vida que lhe foram distribuídas. Continua ambicioso, mas não absurdamente, porque agora ele pode ver e aceitar a realidade do momento. Está disposto a reconhecer sua verdadeira dimensão. No entanto, não é isso o que se passa com os alcoólicos. Quando A.A. ainda ensaiava os seus primeiros passos, vários psicólogos e médicos submeteram a um exaustivo estudo um grupo bem grande de chamados bebedores-problema. Não procuravam constatar o quão diferentes éramos uns dos outros; queriam conhecer os traços da personalidade, se é que existiam, que os componentes do grupo teriam em comum. Acabaram chegando a uma conclusão que horrorizou aos membros de A.A. daquele tempo. Esses distintos homens de ciência tiveram a “coragem” de dizer que a maioria dos alcoólicos investigados ainda eram infantis, emocionalmente sensíveis e cheios de mania de grandeza.

Quanto machucou a nós alcoólicos esse veredicto! Não nos permitíamos acreditar que nossos sonhos de adultos eram, muitas vezes, sonhos infantis. E, considerando a má fortuna com que a vida nos havia aquinhoado, julgamos perfeitamente natural o fato de sermos sensíveis. Quanto às atitudes decorrentes de nossa mania de grandeza, insistimos que havíamos sido tomadas apenas por uma nobre e legítima ambição de ganhar a batalha da vida.

A despeito disso, nos anos seguintes a maioria de nós veio a concordar com os médicos. Temos concentrado nossa atenção sobre nós mesmos e os que nos rodeiam. Sabemos que fomos cutucados pelo medo ou por ansiedades injustificáveis a fazer de nossa vida um só esforço para ganhar fama, dinheiro e o que supúnhamos fosse liderança. Assim, o falso orgulho tornou-se o outro lado da ruinosa moeda marcada “medo”. Simplesmente tínhamos que chegar primeiro para que pudéssemos encobrir as fraquezas do nosso interior. Com alguns êxitos esporádicos, alardeávamos as façanhas que seriam realizadas futuramente. Já com a derrota éramos secos. Se não conseguíamos muito sucesso material, nos tornávamos deprimidos e intimidados. Então os outros diziam que éramos do tipo “inferior”. Reconhecemos agora como éramos todos iguais. No fundo, todos havíamos sido medrosos de uma forma fora do comum. Não tinha importância se havíamos descansado à margem da vida, bebendo até o esquecimento, ou havíamos mergulhado voluntária e descuidadamente além de nossa capacidade e por isso perdemos o pé. O resultado foi sempre o mesmo – todos nós quase perecemos afogados num mar de álcool.

No presente, constatamos que nos AAs maduros, os impulsos distorcido foram restaurados à imagem do verdadeiro objetivo e postos na direção certa. Já não nos esforçamos mais para dominar ou controlar os que nos cercam com o sentido de nos tornarmos importantes. Não mais perseguimos a fama e a glória a fim de sermos elogiados. Quando, devido aos bons serviços que prestamos a parentes, amigos, patrões e à comunidade, atraímos a simpatia geral e, às vezes, somos escolhidos para funções de maior responsabilidade e confiança, tentamos ser humildes no agradecimento e nos esforçamos mais ainda com o ânimo de amar e servir. A liderança autêntica é aquela que tem por base o exemplo construtivo e não as efêmeras exibições de poder e glória.

É mais maravilhoso ainda sentir que não é necessário sermos especialmente distinguidos dentre nossos companheiros para podermos ser úteis e profundamente felizes. Muitos entre nós podem ser líderes proeminentes e nem querem ser. O serviço prestado com prazer, as obrigações cabalmente cumpridas, os reveses calmamente aceitos ou resolvidos com ajuda de Deus, o reconhecimento de que, tanto no lar como fora dele, somos confrades num esforço comum, o bem compreendido fato de que, perante Deus, todos os seres humanos são importantes, a prova de que o amor, livremente oferecido, na certeza traz um retorno total, a certeza de que não mais estamos isolados e sozinhos em prisões erigidas pela nossa mente. A segurança de que não somos mais desadaptados, senão que nos integramos e fazemos parte do esquema de coisas criadas por Deus – estas são as satisfações permanentes e legítimas de que fruímos, de uma vida correta que nenhuma pompa ou ostentação de riquezas materiais jamais poderá suplantar. Estávamos enganados com a verdadeira ambição; ela é o profundo e sadio desejo de viver uma vida útil e caminhar humildemente, por mercê de Deus.

Terminam aqui algumas considerações pelas quais analisamos os Doze Passos de A.A. Temos exposto tantos problemas que poderia parecer que A.A. consiste fundamentalmente em dilemas torturantes e no esforço para eliminá-los. Até certo ponto, é isso mesmo. Temos falado de problemas porque somos pessoas com problemas que encontramos uma saída por um caminho que nos eleva, e que desejamos compartilhar com os que dele possam tirar proveito. É somente aceitando e resolvendo nossos problemas que poderemos restabelecer a ordem em nosso interior, com o mundo ao nosso redor e com Aquele que reina sobre todos nós. A compreensão é a chave que abre a porta dos princípios e atitudes certas e a ação correta é a chave do bem viver. Portanto, alegria de viver bem é o tema do Décimo Segundo Passo.

Em cada dia que passa em nossa vida, que cada um de nós sinta mais e mais o significado profundo da singela oração de A.A.:

Concedei-nos, Senhor,
a serenidade necessária
para aceitar as coisas
que não podemos modificar,
coragem para modificar
aquelas que podemos
e sabedoria para distinguir
umas das outras.

12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
No Décimo Segundo Passo de A.A., o prazer de viver é o tema e a ação sua palavra chave. Chegou a oportunidade de nos voltarmos para fora em direção de nossos companheiros alcoólicos ainda aflitos. Nessa altura, estamos experimentando o dar pelo dar, isto é, nada pedindo em troca. Agora começamos a praticar todos os Doze Passos em nossa vida diária para que possamos todos, nós e as pessoas que nos cercam, encontrar a sobriedade emocional. Quando conseguimos ver em que o Décimo Segundo Passo implica, vemos que se trata do amor que não tem preço.

Este passo também nos diz que, como resultado da prática de todos os passos, cada um de nós foi descobrindo algo que se pode chamar de “despertar espiritual”. Para os AAs novos, este estado de coisas pode parecer dúbio ou improvável. Eles perguntam: Que querem dizer quando falam em “despertar espiritual”?

É possível que haja uma definição de despertar espiritual para cada pessoa que o tenha experimentado. Contudo, os casos autênticos, na verdade, têm algo comum entre si. Estas coisas comuns entre eles são de fácil compreensão. Quando um homem ou uma mulher experimenta um despertar espiritual, o significado mais importante disso é que se torna capaz de fazer, sentir e acreditar em coisas como antes não podia, quando dispunha apenas de seus próprios recursos desassistidos. A dádiva recebida consiste em um novo estado de consciência e uma nova maneira de ser. Um novo caminho lhe foi indicado, conduzindo-o a um lugar determinado, onde a vida não é um beco sem saída, nem algo a ser suportado ou dominado. Foi transformado em um sentido bem real, pois lançou mão de uma fonte de força que, de um modo ou de outro, havia negado a si próprio até aqui. Encontrou-se possuindo um grau de honestidade, tolerância, dedicação, paz de espírito e amor, dos quais se supunha totalmente incapaz. O que recebeu foi um presente de graça, contudo, geralmente, pelo menos em uma pequena medida, tornou-se pronto para recebê-lo.

Trecho extraído do Livro os Doze Passos e as Doze Tradições – Áudio da Fita os Doze Passos – Imagens dos Doze Passos ilustrados. A disposição em qualquer Grupo ou Escritório de A.A na íntegra.

Direitos autorais de Alcoholics Anonymous World Services, Inc.; publicado com permissão

O amor entre nós AAs. É um sentimento tão divino que muitas vezes foge à nossa compreensão.
Através deste amor somos movidos a caminhar juntos pela vida levando compreensão, perdão, tolerância, desapego; dando valor ao que realmente tem valor, não ficando presos a palavras, gestos, fatos, eventos ou situações emocionais, pois tudo isto é muito pequeno comparado à grandeza do nosso espírito, à grandeza da vida que A. A. nos proporciona.
É neste caminhar juntos que fazemos nossa parte amando nossos companheiros como a nós mesmos, entregando ao Poder Superior nossa vida, nossas situações conflitantes e dolorosas visualizando sempre nossa grande meta que é tão somente nosso amadurecimento espiritual.
Existe outra maneira de atingirmos nossa paz interior senão através do amor?
Do dar que não pede recompensa?
Do amor sem nada pedir em troca?
Este amar que vai além…
Nós Aas. Após havermos experimentado um despertar espiritual graças aos Passos sabemos que há retorno sim, porém do Amor Divino e real que é a alegria de viver! A verdadeira felicidade está em termos a capacidade de expressar este amor.
Que o Poder Superior nos conceda a graça de continuarmos na emoção de levar emoção, reconciliando sentimentos, encurtando distâncias através das palavras, palavras estas, que vocês nos enviam e que aliviam a dor e o sofrimento daqueles que ainda não conhecem A. A.
Que a luz que guia o mundo possa também iluminar os seus sonhos.

12º Passo:
“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

Sinto prazer em ver uma pessoa sair do atoleiro e evoluir. Sinto gratidão ao dar o que recebi de graça.
Com sinceridade, levo a mensagem de A. A. por interesse pessoal, uma vez que, caso não haja ingressantes muitas portas poderão se fechar e, como conseqüência, ficará mais difícil a manutenção da minha abstinência alcoólica.
Hoje, passados treze anos e seis meses que estou buscando a sobriedade plena percebi que meu objetivo maior dentro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos é ser uma pessoa normal, pois, quando alcoolizado era totalmente insano; o que eu fazia sob o efeito álcool não era nada normal.
Certa noite estava conversando com um companheiro de grande sabedoria e este me falava: – enquanto o companheiro tiver dúvida ou não aceitar os Passos, não tem jeito, não tem futuro na Irmandade, invariavelmente vai voltar ao copo.
Realmente, ele tem razão, como posso experimentar um despertar espiritual se arrasto comigo alguma dúvida? Para que eu possa transmitir uma mensagem tenho que ter convicção plena daquilo que estou falando.
Vejamos o outro lado da moeda. Quando vim para a Irmandade, não vim porque era modismo ou era um local agradável.
Vim porque estava no fundo do poço, perdendo a vida, perdendo a família e a dignidade.
Vim porque era impotente perante o álcool e porque o álcool havia dominado totalmente a minha vida.
Vim por acreditar que um Poder Superior a mim mesmo poderia devolver-me a sanidade e, com isso, decidi entregar minha vontade e minha vida aos cuidados de um Deus Amantíssimo, na forma em que O concebo.
Fiz um minucioso e destemido inventário moral de mim mesmo e admiti perante Deus e a outro ser humano a natureza real de minhas falhas; estendi as mãos espalmadas a Deus para que removesse meus defeitos de caráter.
Voltei a Ele, humildemente, para que me livrasse de minhas imperfeições.
Relacionei as pessoas que feri e fiz reparações, sempre que possível e me propus a continuar fazendo inventários e reparações ao longo de minha vida.
Estes Passos a meu ver são como construir uma casa: – escolher o terreno, planejar, fazer alicerce, a base, construir as paredes, fazer a laje superior, fazer o telhado, dar o acabamento e mobiliar.
Com esta casa pronta procurei, através da prece e da meditação, melhorar meu contato consciente com Deus Amantíssimo, na forma que eu O concebo, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a mim, para melhor viver nesta casa que construí.
Agora sim, sinto alegria de viver e quero passar para frente, compartilhar meu novo modo de vida, dar sem nada pedir em troca porque já recebi tudo!
Após este despertar espiritual, minha vida transformou-se muito.
Deixei de ser uma pessoa egoísta e querer tudo somente para mim; deixei de ser o alvo das atrações; comecei a olhar para os lados e ver as pessoas que sofrem por causa do alcoolismo, famílias sendo destruídas e passei a compartilhar com outras pessoas o que é, e para que serve a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
Em nossa Irmandade ocorre algo surpreendente: ela não transforma o pobre em rico; o analfabeto em literato; o feio em bonito; o velho em jovem e nem dá remédio, dinheiro, emprego, roupa ou soluciona nossos problemas, mas nos oferece condições para modificar e melhorar nossa vida!
A. A. é um programa de vida para toda vida; é uma escola que não dá diploma, mas nos transforma em seres dignos, íntegros, úteis e felizes!.

(Fonte: Revista Vivência – Nº 122 – Nov-Dez/2009 – JÁ – Santos/SP)

GRATIDÃO – SINÔNIMO DO DÉCIMO SEGUNDO PASSO

Gratidão – Sinônimo do Décimo Segundo Passo

A primeira coisa que sabemos da gratidão, é que ela é uma virtude.
O que é a virtude?
O dicionário nos ensina que a virtude é uma boa qualidade moral, é o hábito de praticar o bem; é uma excelência (algo elevado, excelso – isto é, dos céus); é uma força moral.
Ora, se a gratidão é uma virtude, podemos concluir de imediato, que ela é uma qualidade humana difícil de ser conquistada, já que é algo muito elevado, sabendo-se que temos mais facilidades e tendências para buscarmos muito mais as coisas terrenas e materiais do que as coisas celestiais.
De fato, temos pouco conhecimento e poucas experiências das excelências morais, pois, geralmente temos mais defeitos do que virtudes. Numa sociedade competitiva e materialista, os valores morais não têm grandes serventias, razão pela qual podemos carecer de gratidão! A virtude da gratidão poderá ser uma raridade na nossa vida, na nossa família e no nosso Grupo de A.A.!
Todavia, cada pessoa tem a sua percepção da gratidão. Freqüentemente fazemos observações acerca dela, principalmente para julgarmos se alguém tem ou não tem gratidão em relação a nós mesmos.
Qual seria essa noção de gratidão comum entre nós?
Podemos dizer que seria a resposta concreta que somos obrigados a dar a outra pessoa pelo bem que dela recebemos. Toda vez que recebemos algum favor, alguma ajuda ou algo de valor doado pelo outro, deveremos:
1 – Reconhecer (não agradecer) o bem praticado;
2 – Demonstrar a nossa gratidão;
3 – Praticar um ato em retribuição a esse favor, a essa ajuda ou valor doado, e se possível, de igual valor ou assemelhado.
Dentro deste ponto de vista, a gratidão então seria a obrigação e o dever de demonstrar ao outro, a quitação do bem, retribuindo-o de volta. Mas será que a gratidão possa realmente ser somente isso: um dever; obrigação ou exigência de retribuir uma cortesia, uma ajuda, ou um favor recebido?
Embora entendendo que a nossa noção de gratidão possa me levar a uma ação retribuitiva, me recuso a conceituá-la como uma obrigação ou dever. Se assim fosse, ela não seria uma qualidade perene, uma excelência moral constante, porque uma vez tendo retribuído o bem recebido, poderia me desobrigar do dever de continuar sendo grato a alguém. A minha gratidão acabaria!
Com tal entendimento, muitas vezes temos ouvido alguém dizer: Somente porque me prestou determinado favor, Fulano de Tal vive achando que sou seu eterno devedor! Eu já lhe paguei o obséquio mais de dês vezes.
Pelo absurdo dessa relação obrigacional, vinculada e transitória, não poderia definir a gratidão como dever. Com essas características ela não seria virtude. Seria um mero sentimento passageiro.
Também acredito que se a gratidão fosse apenas o dever de retribuir uma cortesia, uma favor recebido, qualquer pessoa – mesmo aquelas mais medíocres e desprovidas de valores éticos e morais – poderiam experimentá-la, bastasse que demonstrassem a retribuição do favor ou benefício recebido. No entanto, pessoas virtuosas são aquelas que se elevam acima da mesquinhez e do egoísmo, pois são portadoras de uma força moral que nelas criam o hábito de praticar o bem. Já os mesquinhos, os egoístas, os rancorosos, os orgulhosos, etc., são absolutamente incapazes da gratidão. Não seriam incapazes, porém, da retribuição de eventuais favores ou benefícios.
O que seria, pois, a gratidão?
Admito que a gratidão è uma resposta a um bem recebido do outro. É, porém, uma resposta dada através de um único idioma possível: a linguagem do coração. É uma resposta cuja manifestação se dá unicamente em termos de um profundo e duradouro sentimento de amor, experimentado diante de uma ajuda, de um favor, ou de um bem recebido. É o amor recíproco, isto é, o amor provocado por uma generosidade do outro.
Sendo amor recíproco, a gratidão é um dom; é o dom da partilha. Ser grato é refletir e compartilhar o amor. Ë, pois, uma dádiva do Poder Superior, recebida após termos merecidos a conquista de um estágio de evolução espiritual.
Sendo um comportamento elevado, a gratidão é:
o – Um segundo prazer que prolonga o primeiro prazer de ter recebido uma dádiva de generosidade;
o – Um eco de alegria;
o – Uma felicidade a mais, prolongando a felicidade;
o – É uma ressonância plena de júbilo que servirá para festejar e homenagear a generosidade do outro.
Isto consiste a comunhão ou compartilhamento de amor.. A gratidão jamais cogita o dever de devolver nada. Apenas espelha o amor fraterno. Por isso, a gratidão é leve; é espontânea; é despreocupada; é duradoura; é excelsa.

Décimo Segundo Passo

Aprendemos que o Décimo Segundo Passo do Programa de Recuperação de Alcoólicos Anônimos nos sugere a gratidão:

“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

Ora, não tenho dúvidas de que os princípios d’Os Doze Passos (os quais devemos colocá-los em todas as nossas atividades) propõem o “amor recíproco”. Neste sentido, o livro “Os Doze Passos”, nos adverte que, no Décimo Segundo Passo, “o prazer de viver é o tema e a ação é a sua palavra chave”. Isto significa o que? Significa que o amor (prazer de viver) é o tema; e a ação desse amor fraterno, ou o exercício do amor compartilhado, é a palavra chave.
Disse que a gratidão é um dom, significando dizer que é uma virtude ou força (doada pelo Poder Superior) adquirida por merecimento. Digo isso, porque acredito na força esmagadora do programa d’Os Doze Passos, que é capaz de nos tirar de uma situação completamente miserável e negativa, para nos elevar aos céus, ou seja, a uma situação de conquista das virtudes mais elevadas, bastando que tenhamos boa vontade, humildade e aceitação da Vontade de Deus em relação a nós.
Diante disso surge uma pergunta:
Será possível que eu possa transmitir aos outros a verdadeira mensagem de Alcoólicos Anônimos – conforme me sugere o Décimo Segundo Passo, sem eu ter vivenciado cada um dos Passos anteriores, isto é, sem que eu possa chegar a este estágio de gratidão enquanto “amor recíproco” pelos meus semelhantes?
A resposta é negativa. Aqui não existirá atalho. A transmissão da mensagem de Alcoólicos Anônimos me exigirá “zelo de amor”, isto é, o amor compartilhado com todos e principalmente com aqueles que ainda sofrem. Sem a aceitação e a vivência de todas as sugestões contidas nos onze Passos anteriores, contidos no Programa de Recuperação de Alcoólicos Anônimos, não conseguirei jamais permitir que o meu espírito seja conduzido a esse estágio do amor-fraterno, já que tendo o conhecimento de toda a extensão deste estreito caminho, não poderei deixar de ser, ainda, mesquinho, medíocre, egoísta, vaidoso, preguiçoso, orgulhoso, rancoroso, invejoso, etc., defeitos esses que precisarei combater e retirar de mim, dia-a-dia, passo-a-passo, para alcançar o “zelo de amor” da gratidão e para que, através das minhas ações possa fluir a obra divina de Alcoólicos Anônimos.
O meu despertar espiritual requer dinamismo e crescimento constante.
A gratidão vista sob a forma de virtude e compartilhamento, será um misto de humildade e amor, pois nela existirá uma humildade alegre e uma alegria humilde pelo fato de me haver beneficiado de uma graça suscitada por DEUS, através de um amigo, de um desconhecido, de qualquer um, menos por mim mesmo, pois saberei que “nenhum homem é a causa de si mesmo”, muito menos eu, que preciso do meu semelhante para continuar a minha jornada pela trilha menos percorrida.
A gratidão será, assim, um posicionamento positivo e otimista diante da minha vida, hoje. Eu aceito com alegria a minha maneira de ser, a minha doença e as minhas limitações. Eu não me entristeço mais pelo que me aconteceu no passado e rendo graças a DEUS pelo que me acontece hoje. Eu não quero conviver com o arrependimento ou a nostalgia do passado, como também, não quero me angustiar e me inquietar com a visão que faço do futuro.
Do passado eu não quero o sofrimento do que não é mais; nem o pesar do que não foi, mas apenas a lembrança positiva do que foi. Sob este ponto-de-vista a gratidão pelas coisas positivas poderá me premiar com uma memória alegre e haverá de me libertar do passado negativo. Mesmo quando o passado me revela, por exemplo, a perda de uma pessoa amada, por minha gratidão a essa pessoa, poderei passar da dor atroz de sua perda à doçura da lembrança de suas virtudes; passar do amor dilacerado ao amor apaziguado, beneficiando-me, ainda, até hoje, da generosidade e do amor desse ente querido.
Enfim, a gratidão não é um tributo que devo pagar ao outro, pelo bem que recebo dele ou de Alcoólicos Anônimos. A gratidão é a expressão do meu estado de amor a DEUS a ao meu próximo, pelo bem que se tornou a minha vida enquanto membro de Alcoólicos Anônimos hoje e enquanto alcoólatra em recuperação.

Muito obrigado e
Vinte e quatro horas de sobriedade.

TOLERÂNCIA – NA OPINIÃO DO BILL

TOLERÂNCIA
“NA OPINIÃO DO BILL”

Os perturbadores podem ser nossos professores

Hoje em dia poucos de nós tememos que algum recém-chegado possa prejudicar nossa reputação ou eficácia. O s que recaem, que achacam, que escandalizam, que sofrem de distúrbios mentais, que se rebelam contra o programa, que fazem comércio com a reputação de A. A., raramente conseguem prejudicar um grupo de A. A. por muito tempo. Algumas dessas pessoas acabam por tornar-se nossos mais respeitados e queridos companheiros. Outros permanecem para testar nossa paciência, apesar de sóbrios. Outros ainda vão embora. Começamos a considerar os perturbadores não como ameaças, mas como nossos professores. Eles nos obrigam a cultivar a paciência, a tolerância e a humildade. Finalmente compreendemos que eles são apenas pessoas mais doentes do que as demais, e que nós que os condenamos somos os fariseus cuja falsa virtude causa ao grupo um prejuízo espiritual mais profundo.
(Na Opinião do Bill – página: 28)

Regras para ser membro?

Por volta de 1943 ou 1944, o Escritório Central pediu aos grupos para que fizéssemos uma lista das regras para ser membro e a enviássemos ao escritório. Quando as listas chegaram, anotamos as regras. Um pouco da reflexão sobre essas muitas regras nos levou a uma conclusão surpreendente.
Se todas essas regras entrassem em vigor, em todos os lugares, imediatamente, teria sido praticamente impossível qualquer alcoólico ter se juntado a A. A. Cerca de noventa por cento de nossos mais antigos e melhores membros nunca poderiam ter ingressado!
Finalmente a experiência nos ensinou que privar o alcoólico de tão grande chance, às vezes era o mesmo que declarar sua sentença de morte e, muitas vezes, condená-lo a uma miséria sem fim. Quem ousaria ser juiz, júri e carrasco de seu próprio irmão doente?
(Na Opinião do Bill – página 41)

Uma porta giratória diferente

Quando um bêbado se aproxima de nós e diz que não gosta dos princípios de A. A., das pessoas ou da direção do serviço, quando ele declara que estará melhor em qualquer outro lugar – não nos incomodamos. Dizemos simplesmente: “Talvez seu caso seja diferente. Por que você não tenta outra coisa?”
Quando um membro de A. A. diz que não gosta de seu próprio grupo, não ficamos perturbados. Dizemos simplesmente: “Por que você não tenta mudar para outro grupo? Ou comece um novo grupo por sua conta.”
Para todos os que desejam se separar de A. A., fazemos um convite animador paara que assim o façam. Se eles conseguirem fazer melhor por outros meios, estaremos contentes. Se, depois de fazer a tentativa, não conseguirem melhores resultados, sabemos que eles têm uma escolha a fazer: ficar loucos, morrer ou voltar para Alcoólicos Anônimos. A decisão é toda deles (na verdade, quase todos eles têm voltado).
(Na Opinião do Bill – página: 62)
Ser justo

Acho que, com freqüência demasiada, desaprovamos e até ridicularizamos os projetos de nossos amigos no campo do alcoolismo, só porque nem sempre estamos inteiramente de acordo com eles.
Deveríamos seriamente nos perguntar quantos alcoólicos estão continuando a beber só porque não temos cooperado de bom grado com essas inúmeras organizações – sejam elas boas, más ou indiferentes. Nenhum alcoólico deveria ficar louco ou morrer só porque não foi diretamente para A. A. no começo.
Nosso primeiro objetivo será o desenvolvimento da autodisciplina. Este ponto é da mais alta importância. Quando falamos ou agimos precipitada ou imprudentemente, a capacidade de ser justos e tolerantes se evapora imediatamente.
(Na Opinião do Bill – página: 113)

De viva voz

“Em minha opinião não pode haver a menor objeção aos grupos que querem permanecer estritamente anônimos ou a pessoas que não gostariam que todos soubessem de sua filiação no A. A. Esse é um problema deles, e essa é uma reação muito natural.
“Entretanto, muitas pessoas acham que o anonimato a esse ponto não é necessário, nem mesmo desejável. Desde que a pessoa esteja sóbria, e segura disto, não parece haver razão para não falar a respeito da afiliação a A. A. nos lugares certos. Isso tende a trazer novas pessoas. Falar de viva voz é um de nossos mais importantes meios de comunicação.
“Assim sendo, não deveríamos criticar as pessoas que querem permanecer no silêncio, e nem aquelas que querem falar demais sobre pertencer a A. A., desde que não o façam em nível público, comprometendo assim toda nossa Sociedade.”
(Na Opinião do Bill – página: 120)

Os direitos individuais

Acreditamos que não haja outra irmandade no mundo que dispense mais atenção a seu membro, individualmente; e certamente não existe nenhuma que ofenda tanto o direito individual de pensar, falar e agir livremente. Nenhum AA pode obrigar outro a fazer o que quer que seja; ninguém pode ser punido ou expulso.
Nossos Doze Passos para a recuperação são sugestões; as Doze Tradições, que asseguram a unidade de A. A., não contêm um só “Não Faça”. Elas repetidamente dizem: “Deveríamos”, mas nunca “Você tem que!”
“Embora seja uma tradição o fato de que nossa Irmandade não pode forçar ninguém, não suponhamos nem por um instante que não estamos sob coerção. Na verdade, estamos sob uma enorme coerção – do tipo que vem engarrafado. Nosso antigo tirano, o Rei álcool está sempre pronto a nos agarrar.
“Portanto, a libertação do álcool é o grande “temos que” que precisa ser alcançado, caso contrário, chegaremos à loucura ou à morte”.
(Na Opinião do Bill – página: 134)

Assumir a responsabilidade

Aprender a viver na maior paz, companheirismo e fraternidade com todos os homens e mulheres, sem distinções, é uma aventura comovente e fascinante.
Porém, todo AA acabou descobrindo que pouco pode progredir nessa nova aventura de viver, sem antes voltar atrás e realmente fazer um exame preciso e profundo dos destroços humanos que porventura tenha deixado em seu passado.
A disposição de arcar com todas as conseqüências de nossos atos passados e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade pelo bem-estar dos outros constitui o próprio espírito do Nono Passo.
(Na Opinião do Bill – página: 145)

A.A. – a estrela-guia

Podemos ser gratos a toda organização ou método que tende solucionar o problema do alcoolismo – seja a medicina, religião, educação ou pesquisa. Podemos ter a mente aberta a respeito desses esforços e podemos ser compreensivos quando os imprudentes falham. Não podemos esquecer que mesmo A. A. funcionou durante anos na base do “ensaio e erro”.
Enquanto indivíduos podemos e deveríamos trabalhar com quem promete sucesso – ainda que seja um pequeno sucesso.
Todos os pioneiros no campo do alcoolismo dirão, generosamente, que se não fosse pela prova viva da recuperação em A. A., eles não poderiam ter prosseguido. A. A. foi a estrela-guia da esperança e da ajuda que os fez persistir.
(Na Opinião do Bill – pagina: 147)

Começar perdoando

No momento em que examinamos algum relacionamento deteriorado ou destruído, nossas emoções se colocam na defensiva. Para não ter de encarar as ofensas que fizemos a outra pessoa, fixamos ressentidamente nossa atenção nas ofensas que ele nos fez. Triunfalmente nos valemos de seus menores erros como desculpa perfeita para minimizar ou esquecer os nossos.
A essa altura precisamos imediatamente parar. Não esqueçamos que os alcoólicos não são os únicos a ser atormentados por emoções doentias. Em muitos casos estamos na realidade lidando com companheiros sofredores, pessoas que tiveram suas desgraças aumentadas por nós.
Se agora estamos a ponto de pedir perdão para nós, por que não poderíamos começar perdoando-os todos?
(Na Opinião do Bill – página: 151)

Aspectos da tolerância

Todo tipo de pessoas tem encontrado seu caminho em A. A. Não faz muito tempo, estive conversando em meu escritório com uma companheira que é Condessa. Nessa mesma noite fui a uma reunião de A. A. Era inverno e na porta de entrada estava um cavalheiro de baixa estatura que gentilmente guardava nossos casacos. Perguntei: “Quem é aquele?” E alguém respondeu: “Ah! Ele esta aqui há muito tempo. Todo mundo gosta dele. Ele pertence ao bando ao Al Capone”. Isso mostra o quanto a. A., hoje, é universal.
Não temos o desejo de convencer ninguém de que só existe um meio pelo qual a fé pode ser adquirida. Todos nós, sem distinção de raça, credo ou cor, somos filhos de um Criador vivo, com que podemos estabelecer um relacionamento em termos simples e compreensíveis, tão logo estejamos dispostos e sejamos honestos o suficiente para tentar.
(Na Opinião do Bill – página: 175)

Ó único requisito”

Na Terceira Tradição, A. A. está na verdade dizendo a todo bebedor-problema: “Você será um membro de A. A. se assim o disser. Você mesmo pode declarar que faz parte da Irmandade, ninguém pode deixá-lo de fora. Seja você quem for, seja qual for o ponto a que você tenha chegado, sejam quais forem suas complicações emocionais – mesmo seus crimes – não queremos deixá-lo de fora. Queremos apenas ter a certeza de que você terá a mesma oportunidade de alcançar a sobriedade que nós tivemos.”
Não queremos negar a ninguém a oportunidade de se recuperar do alcoolismo. Queremos incluir o maior número possível de pessoas, jamais excluir.
(Na Opinião do Bill – página: 186)

A verdadeira tolerância

Aos poucos começamos a ser capazes de aceitar os erros dos outros, assim como suas virtudes. Inventamos a poderosa e significativa frase: “Vamos amar sempre o que há de melhor nos outros – e nunca temer o que tenham de pior.”
Finalmente começamos a perceber que todas as pessoas, inclusive nós, estão de alguma forma emocionalmente doentes e muitas vezes erradas. Quando isso acontece, nos aproximamos da verdadeira Tolerância e percebemos o que significa de fato o verdadeiro amor ao próximo.
(Na Opinião do Bill – página: 203)

Testes construtivos

Existem aqueles em A. A., a quem gostamos de chamar de nossos críticos “destrutivos”. Conduzem pela força, são “politiqueiros”, fazem acusações para atingir seus alvos. Tudo pelo bem de A. A., naturalmente! Mas aprendemos que esses sujeitos não são tão destrutivos assim.
Deveríamos ouvir cuidadosamente o que eles dizem. Às vezes eles estão dizendo toda a verdade; outras vezes apenas parte da verdade. Se estivermos ao seu alcance, toda a verdade, parte da verdade ou a falta da verdade podem ser igualmente desagradáveis para nós. Se eles estiverem dizendo toda a verdade ou ainda apenas parte da verdade, então será melhor agradecer-lhes e fazer nosso próprio inventário, admitindo que estávamos errados. Se estiverem dizendo coisas absurdas, podemos ignorá-las ou então tentar persuadi-los. Caso isto falhe, poderemos lamentar que estejam doentes demais para ouvir e poderemos tentar esquecer o assunto.
Há poucos meios melhores de auto-análise e desenvolvimento da paciência do que o teste a que nos submetem esses membros bem intencionados, porém equivocados.
(Na Opinião do Bill – página: 215)

Amar todo mundo?

Poucas pessoas podem afirmar que amam com sinceridade todo mundo. A maioria de nós tem que admitir ter amado apenas alguns semelhantes; ter sido indiferente a muitos, e ter nutrido antipatia e até mesmo ódios a muitos outros.
Nós, Aas, descobrimos que precisamos de algo muito melhor a fim de manter nosso equilíbrio. A idéia de que podemos amar possivelmente algumas pessoas, ignorar muitas, e continuar a temer ou odiar quem quer que seja tem que ser abandonada, mesmo que seja aos poucos.
Podemos procurar não fazer exigências descabidas àqueles que amamos. Podemos demonstrar bondade onde não havíamos demonstrado. E, com aqueles com quem não simpatizamos, podemos pelo menos começar a prática da justiça e cortesia, talvez nos esforçando para compreendê-los e ajudá-los.
(Na Opinião do Bill – página: 230)

Prisioneiros libertados

Carta a um grupo numa prisão:
“Todo AA foi, num certo sentido, um prisioneiro. Cada um de nós se fechou à margem da sociedade; cada um de nós conheceu o estigma social. Para vocês, tudo tem sido ainda mais difícil: no seu caso, também a sociedade construiu uma muralha a seu redor. Mas não existe realmente uma diferença essencial; esse é um fato que praticamente todos os Aas, agora sabem.
“Portanto, quando vocês, membros, ingressarem no mundo de A. A. fora da prisão, podem ter a certeza de que ninguém vai se preocupar com o fato de que vocês cumpriram pena. O que vocês estão tentando ser, e não o que foram, é tudo o que nos importa.”
“Às vezes, as dificuldades mentais e emocionais são muito difíceis de suportar quando estamos tentando manter a sobriedade. Contudo, com o passar do tempo, percebemos que superar esses problemas constitui o verdadeiro teste do modo de vida de A. A. A adversidade nos dá mais oportunidade de crescer do que a comodidade ou o sucesso.”
(Na Opinião do Bill – página: 234)

Os outros

“Assim como você, muitas vezes eu me considerei vítima do que outras pessoas disseram ou fizeram. Mas todas as vezes que eu acusei os pecados dessas pessoas, principalmente daquelas cujos pecados eram diferentes dos meus, descobri que só ajudei a piorar as coisas. Meu próprio ressentimento e minha auto piedade muitas vezes me tornaram praticamente inútil para qualquer um.
“Assim sendo, agora, se alguém fala mal de mim, primeiro pergunto a mim mesmo se há alguma verdade no que foi dito. Se não há nenhuma, procuro me lembrar de que também tive períodos em que falava amargamente dos outros; que o falatório maligno é apenas um sintoma da permanência de nossa doença emocional, e conseqüentemente, que nunca devo ficar com raiva devido às injustiças de uma pessoa doente.
“Sob condições muito difíceis, muitas e muitas vezes tive que perdoar outras pessoas e a mim mesmo. Você recentemente tentou fazer isso?”
(Na Opinião do Bill – página: 268)

Superando ressentimentos

Começamos a ver que o mundo e as pessoas realmente tinham nos dominado. Sob essa infeliz condição, as más ações dos outros, imaginários ou reais, tinham força até para destruir, porque pelo ressentimento poderíamos ser levados de volta à bebida. Vimos que esses ressentimentos devem ser superados, mas como? Não bastava só desejá-lo.
Esse foi nosso procedimento: percebemos que as pessoas que nos maltrataram talvez estivessem espiritualmente doentes. Então, pedimos a Deus que nos ajudasse a lhes mostrar a mesma tolerância, piedade e paciência que, com satisfação, teríamos para com um amigo doente.
Hoje, evitamos a vingança e a discussão. Não podemos tratar as pessoas doentes dessa maneira. Se o fizermos, destruiremos nossa chance de ser úteis. Não podemos ser úteis a todas as pessoas, mas pelo menos Deus nos mostrará como ser bons e tolerantes para com todos.
(Na Opinião do Bill – página: 286)

A tolerância nos mantém sóbrios

“A honestidade para com nós mesmos e para com os outros nos leva à sobriedade, mas é a tolerância que nos mantém sóbrios.
“A experiência nos mostra que poucos alcoólicos vão se afastar por muito tempo de um grupo só porque não gostam do modo como ele funciona. A maioria volta a se adaptar às condições existentes. Alguns vão para outro grupo ou formam um grupo novo.
“Em outras palavras, uma vez que o alcoólico chega à conclusão de que não pode ficar bem sozinho, ele de alguma forma vai descobrir uma maneira de ficar bem e continuar bem na companhia dos outros. Tem sido assim desde o início de A. A. e provavelmente sempre o será.”
(Na Opinião do Bill – página 312)

Crítica bem-vida

“Muito obrigado por sua carta de crítica. Estou certo de que, se não fosse por suas críticas violentas, A. A. teria progredido mais lentamente.
“Quanto a mim, cheguei ao ponto de dar grande valor às pessoas que me criticam, fossem críticas justas ou injustas. Tanto uma como outra, muitas vezes me impediram de fazer coisas piores do que realmente tenho feito. Espero que as críticas injustas tenham me ensinado a ter um pouco de paciência. Mas as justas têm sempre prestado um grande serviço a todos os membros de A. A. – e têm me ensinado muitas llições valiosas.”.