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A SUA EXCELÊNCIA ALCOÓLATRA, BOM DIA

Aldo Finamore

“A sua excelência Alcoólatra, bom dia”

Nesta manhã clara e tranquila eu quero te dirigir algumas palavras, a ti que
deve estar curtindo aquela ressaca.
A ti que com os olhos empapuçados pelo vapor do álcool, acordou
desesperançado e triste dono de toda melancolia do mundo, afogado nas
perspectivas mais desalentadoras, que vê nascer mais um dia que vai se
perder na sua totalidade.
Porque essa manhã que vive hoje, eu já as vivi durante muitos anos.
Não vai em minhas palavras nenhuma censura ou maldade.
Não quero que te sintas deprimido ao saber que de algum canto da cidade tu
és observado e notado, pois por mais que faça para esconder tua doença, ela
emana em tudo que tu és, deixando para longe, tudo que tu fostes.
Vejamos por exemplo se no decorrer do dia de hoje, terás a disposição
necessária para a luta cotidiana, ou se no teu trabalho não irá
sobrecarregar teus colegas, se na tua casa não irá trazer tristezas.
Observa-se nas cavas profundas de teus olhos, e no seu rosto inchado, a
marcas que denunciam ao descontrole total da noite passada.
Suas mãos tremem e mostram a incapacitação que a doença do alcoolismo lhe
trouxe.
És inteligente eu sei, e é por isso que te dirijo essas palavras, pois para
aqueles que não entendem, eu prefiro calar.
A ti eu te falo, porque eu sei que as minhas palavras encontraram eco em
tua formação moral, pois se quiseres deixaras de ser um bêbado.
Se falo assim contigo é porque tenho a experiência adquirida em todos os
rótulos de bebidas existentes, pois palpitei inconscientemente todos os
antros onde a bebida pode levar.
Não me envergonho em dizer que em matéria de alcoolismo fui professor.
Senti também a transformação do caráter e a agressividade da alma, com o
cinismo comum em todo alcoólatra.
Afundado nos vapores enganosos da falsa alegria e na descida do poço, recebi
a cota da amargura que ficou para toda a minha vida.
Mas acordei em tempo e te confesso penalizado no fundo da minha alma, que
não queria te escrever essas linhas.
Queria que nessa manhã, como eu, tu pudesse ver a verdadeira maravilha que
nos traz um novo dia de vida.
Como é bom despertar e sentir a felicidade de estar realmente vivendo.
Como é prazeroso se sentir gente e poder colaborar para a formação de um
mundo novo e bom.
Sentir a paz invadir nosso ser, sentir-se útil aos nossos familiares e
amigos.
Não criando problemas e apreensão para aqueles que nos cercam, pois creia
meu amigo; tu os cria, eu também assim procedia.
Nesta manhã, enquanto queima os restos da noite passada, eu humildemente te
convido a partilhar minha vida.
venha comigo por um caminho onde a vida é mais bela e mais simples.
Experimente e compare, depois tu que é inteligente me dirá.
Terás a tua opção.
Terás a liberdade da vida sem o freio inconsciente da doença, pois o
alcoólatra e conduzido pelo cabresto sórdido da desgraça.
És um homem doente, venha comigo e te mostrarei um caminho de luz, pois
quando eu me encontrava sem esperanças e em desespero como tu, alguém me
ajudou e me conduziu para o caminho dos “Doze Passos” da verdadeira vida.

Autor desconhecido

A TÁTICA DO AVESTRUZ – ALBERTO DURINGER

A TÁTICA DO AVESTRUZ

Alberto Duringer
Médico no Rio de Janeiro
Conselheiro no Conselho estadual de Entorpecentes (CONEN-RJ)

Nas arquibancadas do estádio do Maracanã existem balcões onde se vende cerveja durante os jogos de futebol. Reparem como ali ficam algumas pessoas bebendo o tempo todo, de costas para o campo. Para assistirem o jogo, bastaria virar o corpo – mas não o fazem. Será que não gostam de futebol? Mas então, que teria motivado essas pessoas a saírem de casa, comprarem ingresso, sujeitar-se a vários incômodos e riscos? Se perguntarmos, no entanto, vão afirmar categoricamente que são ardorosos torcedores de um dos times em campo e não perderiam uma partida por nada deste mundo
Vejamos outra cena, um dia de verão, na praia: muita gente passa o dia todo bebendo, debaixo de barracas quentíssimas, sem pegar sol ou cair na água. Apesar disso, dizem adorar uma praia, a ponto de frequentá-la todo fim de semana.
Estas situações refletem o mais constante sintoma da doença alcoolismo – a negação – e podem até ter algo de engraçado, mas constituem verdadeira tragédia para o alcoólico, que freqüentemente morre negando sua enfermidade. Ao negar sua perda de controle, o alcoólico não é mentiroso, pelo menos conscientemente, mesmo porque esta perda de controle acontece de forma lenta e progressiva. No início ainda há algum controle, com ele bebendo só nos fins de semana ou após certas horas do dia. Aos poucos, porém o doente vai criando um manto de fantasia, que o faz ser o primeiro a acreditar não ter problemas com o álcool. Trata-se de um mecanismo psíquico de proteção, para não enfrentar a dura realidade de estar tendo comportamentos irresponsáveis. Paradoxalmente, não consegue viver sem bebida, reconhecendo até ser o consumo exagerado em certas ocasiões. A explicação, para ele, está nos sérios problemas que vem enfrentando no momento; se os problemas desaparecessem, voltaria a beber controladamente. Assim, enquanto aguarda o milagre, vai bebendo cada vez mais.
Este mecanismo de negação, que se desenvolve dentro da personalidade do indivíduo, não se limita apenas à afirmativa, para si e para os outros, que não é alcoólico. É necessário também inventar uma série de desculpas, para manter uma aparente lógica nas coisas que se anda fazendo – é o que se chama de manipulação. Este manto de fantasia, fabricado por ele mesmo, fica cada vez mais espesso, mais duro, mais resistente, até isolar o doente do mundo real, como se fosse uma larva de bicho-da-seda envolvida no casulo.
É claro que as coisas continuam existindo como elas são, o emprego, a família, os amigos, mas tudo isso torna-se a cada dia menos importante. Os mais íntimos questionam: “Por que ele faz isto conosco? Será que não gosta mais da gente?” Ou afirmam: “Se você me amasse, parava de beber!”. São questões que incomodam, despertam sentimentos de remorso, culpa e autoridade, mas que ele não sabe resolver, porque julga impossível separar-se do companheiro álcool. Então ele nega os fatos, inventa justificativas, manipula, faz promessas que não consegue cumprir, tudo o que for possível para se fechar cada vez mais dentro de um outro mundo, só existente no seu delírio – mas que é só seu, seu mundo de negação.
Para conviver melhor com sua fantasia, muitos alcoólicos passam a só freqüentar lugares onde haja bastante bebida e selecionar suas amizades entre gente que também bebe bastante. Se for convidado para um aniversário de criança, sabendo que só vai encontrar bolo de chocolate e coca-cola, recusa, dizendo não ter paciência para este tipo de festa. Mas é capaz de pegar 3 ônibus para ir ao churrasco na casa de um desconhecido. Pensa em álcool todas as horas do dia: quando será que vou poder tomar a primeira? A que hora fecha o bar do hotel? Não esquecer que muitos supermercados fecham aos domingos! Lá no sítio da minha sogra vai ter bebida? É melhor garantir, levando uma garrafa na mala!
Para melhor entender o processo, vamos substituir a palavra “álcool” por “azeitonas”: Quando será que vou comer a primeira azeitona hoje? Será que lá naquele sítio há azeitonas? É melhor levar umas latas na mala! Fica bastante estranho, qualquer pessoa que só pensasse em azeitonas o tempo todo, seria chamado de maluco. Mas o dependente químico da álcool continua afirmando que seu comportamento é normal.
Na árdua tarefa de continuar negando seu alcoolismo, o alcoólico tem também de aprender a ser esperto, desenvolvendo a habilidade de esconder o quanto anda bebendo. Muitas vezes para de beber dentro de casa, mas a toda hora tem de sair para comprar cigarros. Na rua freqüenta diversos botequins, evitando tomar mais de duas ou três doses no mesmo lugar, para não ser chamado de beberrão. Às vezes começa a beber em um bairro, termina em outro. Bebe antes de ir para uma festa, para quando estiver lá, fingir que bebe pouco. Escolhe vodca, porque ouviu dizer que não deixa cheiro. Anda sempre com balas e pastilhas de hortelã, para disfarçar o hálito. Enfim, esconder seu alcoolismo dos outros passa a ser procedimento de rotina, que ocupa boa parte da sua atenção.
Já para provar a si mesmo que não é alcoólatra, os mecanismos de negação são outros:
1 – Tenta beber menos quantidade, embora com a mesma freqüência.
2 – Tenta beber com menos freqüência, embora a mesma quantidade.
3 – Tenta não beber durante a semana de trabalho, mas fica contando os dias e horas que faltam para sexta-feira chegar.
4 – Tenta usar outras drogas para diminuir a quantidade de bebida, tomando tranqüilizantes de manhã, para parar de tremer, ou anfetaminas de noite, para poder dirigir o carro.
5 – Muda a marca ou tipo de bebida, assumindo que a anterior é que lhe fazia mal. Ilude-se trocando um litro diário de cachaça por 5 litros de cerveja, achando que assim bebe menos álcool. Sendo mais rico, substitui uísque nacional, por outro importado.
6 – Fica temporariamente em abstinência, por exemplo, quando internado para desintoxicar, quando obrigado a tomar antibióticos ou apenas para “dar um tempo”, depois de uma consulta médica preocupante. Note-se que estes períodos de abstinência tem data marcada para acabar e seu fim é ansiosamente esperado. Quando terminam, o alcoólico acha que depois de tanto sacrifício, agora ele merece “tomar uma só” e tudo começa de novo, detonado pelas poderosas forças da dependência química.
Os períodos de abstinência servem para afirmar e reforçar cada vez mais a negação, embora só sejam conseguidos à custa de maior ou menor sofrimento emocional. O objetivo é provar a si mesmo e aos outros que ele não é alcoólico, que domina perfeitamente a situação e que para de beber quando quer. As frases clássicas são: “Na verdade, eu não preciso beber, acontece que eu realmente gosto de álcool”. Ou então: “Se você tivesse em sua vida os problemas que eu tenho, iria beber ainda mais do que eu”.
À medida que a doença progride, mais e mais este manto de fantasia impede o doente de ver sua realidade. Ele muda de comportamento e atitudes, perde seus valores, cada vez mais enredado na teia da dependência. Basta ler o Livro Azul de Alcoólicos Anônimos, para ver como duas emoções básicas, orgulho e medo, tão saudáveis quando são equilibradas e baseadas em fatos reais, podem tornar-se exasperadas e delirantes, originando as mais variadas turbulências de raiva, inveja, ciúme e ódio.
O alcoólico passa a agir ao sabor da primeira emoção descontrolada que lhe vem à cabeça e, quando as coisas não dão certo, bota a culpa nos outros ou nas situações de vida. Expectativas fantasiosas tornam-se regra e como não se realizam, trazem frustrações, autopiedade e necessidade ainda maior de bebida.
Neste ponto, o manto de fantasia confunde-se com a carapaça da negação, dura, resistente, impenetrável pelo lado de fora, como o casulo. Porém lá dentro, o bicho-da-seda pode encontrar forças para rompê-lo e, ao se livrar dela, sair da escuridão para a luz.
Como o alcoólatra que, vencendo a negação ao reconhecer sua impotência frente ao álcool, encontra o caminho da recuperação e da vida.
E de repente descobre que não gosta tanto assim de praia, nem de freqüentar o estádio do Maracanã…

PARA REFLETIR

Estimados membros deste grupo.
Quando cheguei ao A.A., desesperado porque todas as soluções procuradas até então para tentar parar de beber não haviam dado resultado nenhum, como último recurso antes de ser-me indicado o A.A. por um médico, pedira a Deus, do qual naquele tempo tinha outra concepção, que me tirasse a vida. É evidente que tirar a vida de alguém a pedido não está nas leis divinas, e estou aqui até hoje. Aliás, as vezes penso porquê ainda estou aqui? Digo para os meus filhos que já estou como prazo vencido, pois já estou com oitenta e sete anos. Já há dois anos minha filha mais nova com a qual tanto brincava, passou pela chamada morte que nada mais é do que a passagem para outra dimensão como o nascimento, ela me espera lá no Absoluto.
Hoje, distante do momento em que entrei para o A.A., lembro tranquilo aqueles momentos de angústia quando tantas vezes desejei ardentemente parar de beber sem nenhum resultado e esperança até então. O curioso naquele momento de chegada ao A.A., e hoje compreendido, era o sentir aquele imenso repouso e bem-estar das reuniões, parece que a energia divina impregna o ambiente das reuniões, o que sinto até hoje, apesar de que hoje não tenho ido as reuniões dos grupos locais, por não ter muita segurança no subir escadas, e às vezes no caminhar também.
O fato de ter passado anos sem conseguir deixar de beber um dia se quer, e no dia imediato ao ingresso ter-me sentido absolutamente livre do terrível desejo de beber, naquele momento de ingresso não conseguia entender. Hoje, e já há algum tempo, compreendo esse fato. É a lei divina agindo diante do sentimento de derrota total e de certa forma já da observância das leis da Vida. Nunca mais tive vontade de beber, mas nem por isto me descuido. Cuido não esquecer o passado para não o repeti-lo, e para tirar daquelas desastrosas experiências o melhor aprendizado possível.
Quando dei-me conta de que estava inoperante em A.A., pois apenas havia parado de beber, somente praticava o só por hoje, verifiquei que o parar de beber estava resolvido, mas a doença emocional continuava a progredir, iniciei então a minha reforma pessoal com o estudo e tentativa de sempre e cada vez mais aplicar em minha vida a sabedoria dos Doze Passos de A.A. Naquele tempo, iniciamos com dificuldades o estudo das literaturas, porque muitos não queriam estudá-las no grupo, e alguns chegavam a dizer que ler os livros de A.A. poderia levar a loucura. Muitos naquela época entendiam que só os depoimentos do passado eram suficientes. Lembro que nas comemorativas de aniversários dos grupos, onde apesar de tratar-se de reuniões públicas, a palavra era liberada a todos, e ocorriam verdadeiras competições de desgraças. Ninguém falava do presente ou da recuperação, porque não praticavam e nada tinham a dizer sobre isso. Felizmente esse tempo passou, e conseguimos proceder estudos semanais da Recuperação, da Unidade e dos Serviços, para o crescimento dos interessados.
O programa de A.A. é livre, e por isto percorrer os Três Legados sempre, com persistência e amor e uma escolha pessoal e com a graça de Deus da compreensão de cada um. Agradeço muito ao Deus do meu coração, por ter-me dado a graça de ter querido e procurado sempre ir a fundo na busca do meu autoconhecimento, e trazer em mente sempre a tentativa de conhecer-me cada vez mais e procurar a partir das orientações de A.A. a aperfeiçoar-me no sentido de se não conseguir amar a todos, pelo menos não ter reserva contra ninguém. Meço o meu crescimento, na proporção direta de minha capacidade de tolerar e não me sentir ofendido com qualquer atitude que possamos chamar de críticas ou ofensas. Parto do que fui, para entender hoje e tolerar os outros, no que são.
A descoberta que mais marcou-me foi de que eu fora o meu único inimigo, e de que o pensar, agir livre e descontrolado, principalmente com uma certa ignorância e condicionamentos destrutivos, levaram-me a uma vida sofrida complicada e não entendida por mim. Hoje entendo tudo bastante bem, plantei livremente, devo colher obrigatoriamente. Ninguém foi meu algoz, fui eu mesmo, se não me perdoar, não perdoo o que eu mesmo criei, eu mesmo.
Deus criou o ser humano e deu-lhe uma partícula de Sua própria alma e o poder de criar a sua própria vida e suas circunstâncias, nossa alma conhece tudo, esqueceu ao entrar neste mundo dos fenômenos, precisamos é lembrar quem somos e o que queremos ser, fazendo as experiências necessárias para isso. Conhecíamos a luz no muno do Absoluto, precisávamos conhecer a escuridão aqui, para vermos o que não somos, e por consequência lembrarmos quem somos. Conhecíamo-nos conceitualmente, agora nos conheceremos experimentalmente, criando e gerando conscientemente nossa vida, não temos, portanto, do que nos lamentar. Muitas vezes queremos resolver em pouco tempo e sem praticar bem os passos, o que destruímos por longos anos. Primeiro temos que gerar a fonte da paz com o programa de A.A. para que possamos colher os frutos, eles não chegam antes nem tão depressa quanto desejamos.
A.A. alcançou-me o sentimento de procurar conhecer-me cada vez mais, e a partir daí, seguir novo rumo, alegre, leve, tranquilo, feliz e amoroso. A paz e a tranquilidade começam, chegam e ficam. O grandioso é que o Deus do nosso entendimento nos oferece esta escolha. Aí vê-se claramente que Deus é efetivamente amoroso e deseja que eu siga as suas leis, mas me permite escolher o que eu quiser. Não posso fugir, entretanto do resultado de minhas escolhas. Como vemos a vontade de Deus é a nossa vontade.
Aos meus irmãos e irmãs de doença obrigado pela parceria nesta caminhada de vida em A.A.
O que escrevo são minhas experiências, não tem a conotação de orientação ou sugestão.
Abraços fraternos, muita paz luz e mais 24 h sóbrias.
magno/RS.

PRECISAMOS UNS DOS OUTROS?

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 34 MAR/ABR 1995

PRECISAMOS UNS DOS OUTROS ?
B.L. – Manhattan, NY)
Traduzido da Grapevine

Se as primeiras palavras que ouvi em A.A. levaram-me em direção ao Primeiro Passo, foi o segundo depoimento que me deu uma esperança instantânea, fazendo com que me sentisse melhor imediatamente. Agora, trinta e um anos depois, eu acredito que a segunda frase que ouvi continha a ideia saudável de nossa então não escrita Primeira Tradição.

Estas primeiras palavras foram: você está tendo problemas com o seu modo de beber? Totalmente despreparada para aquela pergunta, antes de saber o que estava fazendo, acenei com a cabeça um sincero “sim”. Foi um balanço em direção ao Primeiro Passo. Mais tarde, recaí, mas finalmente retornei.

Minha nova amiga riu-se e disse calmamente: “Eu mesma sou uma bêbada; venha e conversaremos sobre o assunto”. Com efeito, convidou-me a participar da Primeira Tradição: “Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A..A.”.

Sua descrição em si comoveu-me com perplexidade e alívio. Assim, silenciosamente, segui aquela mulher maravilhosa para o interior de outra sala, a fim de conversarmos sobre o assunto. Naquele momento, eu a seguiria a qualquer lugar, baseada na sua revelação destemida.

“Bêbada” era uma palavra que eu ressentia – como adjetivo ou substantivo. Sempre me causava aversão. Até que minha amiga falou sobre isso de maneira simples, como podia ter dito que era uma mulher. Ela disse: ” Existem muitos de nós que sofrem da doença do alcoolismo e agora estamos nos dominando”. Eu não estava mais sozinha! Um soluço de alívio brotou. Minha amiga então falou-me, de modo imperturbável, sobre suas bebedeiras e, cuidadosamente, não fez perguntas sobre mim ou sobre as minhas.

No livro “Sede de Liberdade”, David Stewart acentua o tremendo poder de ajuda da empatia. Na empatia daqueles primeiros AAs encontrei, certamente, um poderoso sopro contra minhas bebedeiras, dando-me uma imensa força para a recuperação e, acredito, uma manifestação de nossa Primeira Tradição que vai consideravelmente mais profundo que uma simples identificação. Nós continuamos para seguir bons exemplos de sobriedade e no Décimo Segundo Passo, nós nos colocamos no lugar da outra pessoa, a fim de ajudá-la.

A empatia que me cercava parecia revelar algo em mim que foi o meu primeiro interesse autêntico, como jamais havia sentido pelo bem-estar de outrem e sentia um outro efeito benigno sobre mim: como outros alcoólicos, me sentia a pessoa mais rejeitada, mais solitária da face da terra, um longo tempo antes de tornar-me AA. Meu primeiro maior cumprimento ao segundo depoimento de A.A.: “Eu mesma sou uma bêbada”. Isso quebrou uma parte da minha pretensão de ser tão diferente e era exatamente o que meu ego doentio precisava escutar. Então, sua narrativa sobre alcoolismo e recuperação na companhia de outros alcoólicos rapidamente demonstrou que eu estava muito menos poderosa que os AAs que permaneciam sóbrios, unidos. Deste modo, parece-me que o princípio do anonimato é consolidado nessas palavras: “Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a reabilitação individual depende da unidade de A.A..” Isto significa que devo colocar o bem-estar da Irmandade à frente do meu próprio? Para responder, eu me faço outra pergunta: teria eu algum bem-estar se não fosse através da Irmandade? Significa, esta Tradição, que deveríamos reprimir vozes impopulares ou divergentes dentre nós? Eu penso que significa o oposto.

Suponhamos que você e eu tenhamos opiniões diferentes sobre psiquiatria, religião, atividades de informação pública , ou sobre passos. Não devemos deixar que estas diferenças passem para o campo pessoal, gerando agressões e antipatias. Não devemos permanecer juntos na sobriedade? Não quero dizer ser tolerante; quero dizer realmente respeito. Aprender a trabalhar juntos e cordialmente, não obstante as diferenças, faz parte do amadurecimento e, presumo, algo que não havia antes do A.A.

As palavras de nossa Primeira Tradição não foram escritas no dia em que ingressei na Irmandade, mas, quando meus companheiros asseguraram-me de que poderíamos permanecer juntos, sóbrios; acredito que estavam praticando a Primeira Tradição, que também me parece uma repetição do que Bill W. descobriu em Akron, Ohio, quando sentiu a necessidade de falar com outro alcoólico, a fim de manter-se sóbrio.

No longínquo dia em que ingressei na Irmandade, tão logo atendi ao convite subentendido para tomar parte: eu ambicionei estar nessa companhia. Serei sempre grata pelo que logo fui e tenho sido desde então. Nossa união e nosso bem-estar comum significam tanto para mim que fico embaraçada quando alguém faz comentários irreverentes do tipo: “As Tradições são para o Grupo, não para os membros. Elas existem para apoiar o movimento unido”. Não para os membros? As Tradições são para a recuperação. Alguém de nós recupera-se por conta própria? Não foi a união com outros alcoólicos que nos ajudou bastante? Alguém em A.A. não acredita que foi ajudado a recuperar-se pelo conhecimento de que estamos todos a bordo de uma balsa salva-vidas? Isto não é Primeira Tradição?

A deflação do ego é importante para minha recuperação, e parece-me que esta Tradição sustenta isto. Até o ponto que conheci, por experiência, o anonimato no sentido espiritual que nasce a partir da Primeira Tradição: A nossa unidade! Os elos que nos mantém unidos devem ser tratados com carinho.

Vivência nº 34 – Março/Abril 1995

A RECUPERAÇÃO EM ALCOOLISMO – ALBERTO DURINGER

A RECUPERAÇÃO EM ALCOOLISMO

Alberto Duringer
Médico – Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes
Ex-Diretor do Hospital Central da Polícia Militar (RJ)

Parar de beber é acontecimento marcante na vida de qualquer alcoólico em recuperação. Quando associado ao dia em que ingressou em um grupo de Alcoólicos Anônimos, é muitas vezes data citada com regularidade nos seus depoimentos. Aniversários deste dia são motivos para comemoração, com troca de fichas e festividades variadas, mas o fato em si pertence ao passado.
Já a recuperação do alcoolismo, ou de qualquer outra doença crônica, não é apenas um episódio limitado no tempo, mas sim um processo, mais ou menos lento, em constante evolução no dia a dia, que exige reformulação interior, sem data marcada para terminar e que pode ser modificado ou interrompido a qualquer momento.
Há quem compare um alcoólico em recuperação a uma pessoa que sobe uma escada rolante que está descendo: se ele parar de subir, inevitavelmente descerá junto com a escada. Assim sendo, é engano imaginar que uma recaída comece no primeiro gole: ela é, na realidade um processo de perda de recuperação que pode terminar nele, a menos que seja detido a tempo.
Em qualquer doença crônica acontece a mesma coisa: diabéticos que interrompem a dieta, hipertensos que voltam a abusar de sal, reumáticos que deixam de fazer fisioterapia, são exemplos de doentes crônicos que interrompem o processo de recuperação e iniciam assim um processo de recaída, o que vai levá-los de volta à situação anterior.
Entendemos alcoolismo como enfermidade que se inicia primariamente como dependência química, conseqüência de muitos fatores que possam ter levado o indivíduo a beber intensa e/ou abusivamente. Atingida a área física, continua o gradual processo de adoecimento, agora alcançando também seu comportamento e atitudes, até que em um último estágio, o alcoólico perde seus valores ético-morais. Nesta última fase, a doença é então física, psíquica e espiritual.
Em qualquer doença crônica, não existe uma cura propriamente dita, isto é, não é possível reverter um dependente químico de álcool etílico em consumidor moderado ou “social” desta substância, já que seu organismo sofreu modificações que impedem o seu uso controlado. No entanto, é possível ao doente um retorno a uma vida plenamente normal, desde que se disponha a agir dentro de um processo de recuperação, o qual deve seguir as três fases do rumo natural de adoecimento:

1a fase (recuperação física) — abstenção completa de uso de álcool.

2a fase (recuperação emocional) — modificação de comportamentos e atitudes, visando encontrar um equilíbrio psíquico que o liberte da tentação de achar que o álcool possa ser solução para seus problemas.

3ª fase (recuperação espiritual) — recuperar ou criar novos valores éticos, morais e espirituais, com o objetivo de se reconciliar consigo mesmo e com o mundo que o cerca, passando a ter um modo de vida sóbrio.

O sucesso que Alcoólicos Anônimos vem tendo desde 1935 na recuperação de alcoolismo deve-se a um programa de 12 Passos que segue esta seqüência natural de ações, com a consciência de que elas só podem ser executadas pelo próprio doente, já que são todas processos interiores.

Isto não significa porém, não precisar ele de ajuda externa., já que existem alguns obstáculos importantes a serem vencidos, a começar pela negação da doença, manipulações variadas e pela própria crise aguda de abstinência. Passada essa fase inicial, que dura em média 10 – 20 dias, surge outra menos conhecida, mas nem por isso mais fácil, a que se convencionou chamar de síndrome de abstinência pós-aguda, de duração mais longa, caracterizada por pensamento confuso, às vezes caótico, enfraquecimento de memória, dificuldade de concentração e instabilidade emocional, que pode perdurar ainda por muitos meses após o início da abstinência.
Em salas de AA encontram-se sempre novatos nesta situação, sofrendo ainda conseqüências do efeito tóxico do álcool etílico sobre o cérebro e sistema nervoso. Estas pessoas, bastante confusas, costumam apresentar um padrão rígido e repetitivo, muito centrado em apenas certos aspectos de suas vidas, geralmente ligados ao seu passado recente, cheio de culpas, vergonhas, auto-piedade, raivas e ressentimentos. Elas tem grande dificuldade para se concentrar na leitura ou para memorizar alguma coisa do que lêem; suas emoções parecem anestesiadas, ou pelo contrário, estão à flor da pele; seus afetos costumam ser pequenos, estão ainda muito centradas no seu próprio bem-estar. Alguns parecem estar com suas emoções anestesiadas, não prestam atenção a quase nada em sua volta; outros estão inquietos, ansiosos, irritados, reagem com raiva a qualquer contrariedade menor ou comentário ligeiro sobre elas.
Felizmente, na maioria das vezes esta situação não costuma durar mais do que dois ou três meses, tempo necessário para uma recuperação física do sistema nervoso, mas neste período inicial estas pessoas precisam de muita ajuda externa para conseguir evoluir na sua recuperação. Entendendo isto, surgiram dentro de AA as reuniões para novos, nas quais é possível ajudá-los de forma mais eficiente e ao mesmo tempo explicar o que é a irmandade e como funciona. Também nesta fase podem os profissionais de saúde serem muito úteis, ela acaba sendo de forma ideal, um amplo espaço aberto para que surja uma íntima colaboração entre AA e os profissionais da área.
Passada esta fase crítica, surge outra barreira no caminho do alcoólico em busca de sobriedade: tendo aceito os três primeiros passos, ele agora deve entrar em ação, para fazer seu inventário moral. Isto significa mexer nos fantasmas arquivados em algum velho baú da sua mente, confrontar-se com a realidade do seu Eu verdadeiro, descobrir virtudes e defeitos não suspeitados, enfim iniciar uma mudança no seu comportamento, atitudes e valores. Tudo isto desencadeia sempre uma reação muito humana e natural: medo e insegurança.
Não há quem não se sinta temeroso antes de fazer mudanças importantes: o organismo reage de forma típica, apresentando um conjunto de sinais e sintomas que os médicos chamam de stress, ao qual o alcoólico, em fase de abstinência pós-aguda, ainda é particularmente sensível. Por isso, nem sempre é útil um quarto passo precoce, é necessário que exista uma estrutura emocional minimamente já equilibrada, para que ele atenda seus objetivos.
Por outro lado, este medo não deve impedir indefinidamente o início do inventário. A melhor forma de enfrentá-lo é reconhecer sua existência e que sua presença é natural e até saudável; em seguida avaliar se ele tem fundamentos reais ou se está ancorado apenas nas fantasias da mente; finalmente, enfrentá-lo e iniciar uma ação efetiva.
Em alcoolismo existe sempre o perigo de ressurgimento da velha negação, sendo que desta vez trata-se da negação do medo. Pensamentos do tipo “está tudo ótimo”, “parei de beber e isto é o principal” ou “eu já me conheço e não preciso fazer nenhum inventário” são perigosos porque induzem o alcoólico a não fazer o 4º passo ou a ficar adiando-o indefinidamente, procedimentos aliás muito parecidos com os que ele tinha em relação ao álcool, no tempo em que bebia.
Por vezes, ele regride na programação, percebe estar com vontade de beber, volta a se agarrar aos primeiros passos, aumenta a freqüência de reunião, volta a se recuperar, até chegar novamente à barreira do inventário moral com as suas duas opções: enfrentar o medo e entrar em ação ou ver tudo se repetir mais uma vez. Muitos alcoólicos ficam, até sem saber direito o que está acontecendo, bastante tempo nesta gangorra emocional.
Vencido este grande obstáculo, a recuperação fica mais fácil e entra em fase de estabilidade. Agora existe um norte, um rumo a seguir, o alcoólico consegue ver a sua vida e o mundo que o cerca de modo mais equilibrado. Aos poucos, o álcool deixa de ser visto como possível solução para enfrentar problemas e passa a não ter mais muita importância – é um estado a que muitos chamam de sobriedade.
Ancorado na programação de AA o alcoólico encontra valores éticos e morais que lhe permitem levar existência emocionalmente muito mais tranqüila, da qual a bebida está excluída. Só que isto não é um fato isolado de sua vida, como foi dito no início deste artigo, mas sim um processo, que se materializa de 24 em 24 horas, portanto só por hoje. Não existe diploma de aprovação e um fim de curso em 12 Passos. O equilíbrio emocional depende de atividade e vigilância, pois como em qualquer outra doença crônica, recuperação é programa para toda vida.

RESSENTIMENTOS OU ENTREGA ABSOLUTA – REVISTA VIVÊNCIA

VIVÊNCIA
REVISTA BRASILEIRA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS Nº 77 MAI/JUN 2002

Ressentimentos ou entrega absoluta

Quem entrega sua vida a Deus guarda ressentimentos?

Hoje em dia acho que o Programa de Recuperação é simples, mas longe de ser fácil. Quando fui me achegando as salas de A.A. pela primeira vez, disseram-me que voltaria a ficar bem se pudesse desapegar-me e aceitar o que era oferecido.
Naquela época, o medo era minha companhia constante, e a baixa autoestima também.
Por sorte minha, consegui escutar pessoas fazendo depoimentos (com a maior alegria) sobre as boas novas da sobriedade. Apesar de ser novato na Irmandade, e limitada a minha compreensão de sobriedade, mesmo assim senti que estavam tentando passar adiante de maneira amorosa o que tinham e como haviam obtido isso.
“Entregue”, foi o que diziam. “Nós não podemos, Ele pode, e deixamos Ele agir.” Outros diziam ainda: “Entregue e deixe que o Poder Superior segure a barra”, e, para aumentar ainda mais o meu medo, alguém sugeriu que entregasse a minha vida e minha vontade aos cuidados de Deus do meu entendimento. E para me apavorar de fato, alguém teve o peito de dizer que fizesse uma entrega completa, o que eu achei naquela hora uma tarefa impossível.
Por que eu andava com tanto medo? Qual era o meu problema de fato, e onde encontraria as respostas que poderiam curar essa minha mente confusa? Talvez fazendo um inventário pessoal sobre o lamentável estado em que me encontrava. Seguindo esse curso de ação, descobri, para minha grande surpresa, que eu, como tantos outros e outras nas salas de Alcoólicos Anônimos, tinha um Deus do medo, um Deus temível que estava profundamente enraizado na infância.
De que jeito eu iria deixar entrar um Deus desse tipo na minha vida? Afinal de contas, não era Ele a causa de todos os meus males, em primeiro lugar? Mas espere aí, aquelas corujas sábias que eu escutara nas salas estavam me dizendo para entregar e confiar? Apesar de tudo, elas pareciam ter encontrado algum tipo de serenidade e talvez isso também pudesse existir para mim, se eu tivesse a coragem de andar no caminho delas.
Onde elas haviam encontrado a fé que traz a confiança, e de onde receberam o poder que as capacitava a largar tudo, a entregar-se absolutamente? Através da prece e da meditação, falavam elas. E não me haviam dito que o antídoto para o medo era a fé, e que a fé não era fé até que fosse a única coisa à qual você se apega? E largar tudo absolutamente não significa, na verdade, largar tudo em matéria de emoções?
Se não consigo desapegar-me emocionalmente, especialmente na minha relação com outros, é quando permito que as pessoas habitem na minha cabeça. Então a minha doença do alcoolismo toma conta e me torna vulnerável, o que deixa entrar os pensamentos negativos, que derivam da minha natureza negativa, que me força a ficar conversando na minha mente com essas pessoas. Esse é o ponto onde entrego meu poder, que me rouba de qualquer paz ou contentamento que Deus pretendia que tenha nesta vida.
Então, o que significa hoje para mim a entrega absoluta? Desapegar-me totalmente, significa deixar ir embora as coisas emocionalmente a partir do coração, não da cabeça. Meias medidas não me adiantam nada, e entregar-me e deixar Deus agir é confiar sem medo da perda do controle. Confiar em Deus é andar no meio da tormenta, crendo na Sua promessa, mesmo quando você não enxerga as Suas pegadas.
Devo confessar que ainda tenho muito a fazer no sentido de crescer espiritualmente, emocionalmente e mentalmente, bem nessa ordem. Trabalho nisso à medida que sigo adiante, dia após dia, orando muito às vezes para permanecer no agora, procurando lembrar-me que Ele me ama como sou, e que a coisa mais importante para Deus, nesta vida, é o momento presente, não esquecendo que o primeiro gole é o fósforo que acende o estopim da bomba. Permitam-me concluir dizendo: “Meu reino pela maturidade, mas não minha sobriedade por um reino”..
Voltem sempre. Preciso de vocês. (Little Phil, Revista Share)

Vivência nº 77 – Maio/Junho 2002