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O RV VIVENCIANDO

O RV VIVENCIANDO

Somente pela Graça de um Poder Superior posso hoje dizer que sou alcoólico em recuperação, buscando o equilíbrio necessário para vier uma vida sadia e feliz. Mesmo com as adversidades estou consciente que essa busca tem que ser constante e é infinita porque sou um alcoólico.
Após longo tempo de ativa na minha bebedeira, cheguei à falência moral e ao desequilíbrio total, sem esperança nenhuma de poder ter uma mudança de vida. Fui levado a um Grupo de A.A., cheguei desconfiado, não entendi muita coisa na primeira reunião, só sei que senti uma vontade muito forte de voltar, e voltei. E essa volta constante tem me mostrado a importância da minha sobriedade.
Com poucos meses freqüentando o Grupo e participando de todas as reuniões possíveis, entrei para o Comitê de Serviços, na suplência de coordenação de reuniões, então comecei a entender a importância dos Três Legados de A.A. – Unidade, Recuperação e Serviço. Percebi que minha mente se abria e me sentia mais confiante na caminhada, buscando minha recuperação.
Mais adiante percebi também que esse crescimento poderia ser melhor ainda com a força da literatura de A.A. Para mim, toda literatura de A.A. nos transmite a sabedoria do Programa de Recuperação.
E por falar em literatura, gostaria de falar da minha experiência com essa maravilha que é a revista Vivência. Como representante da Vivência, eu e alguns companheiros começamos a entender a importância da nossa Revista. Passei a ler todas, de cabo a rabo, desde o editorial até a última matéria. Criamos um Mural para que o RV pudesse divulgar notícias da Vivência e incentivávamos os companheiros e companheiras a fazer ou renovar suas assinaturas da Revista. Isso despertou a curiosidade de companheiros de outros Grupos da região.
Na região do ABCDMR do estado de São Paulo, com seis cidades interligadas que contam com 14 Grupos, em maio de 96, alguns RVs e membros interessados no trabalho com a Vivência nos reunimos pela primeira vez, e nesse dia foi criada a Comissão de RVs da região. Essa Comissão uniu-se com o propósito de primeiro estruturar o trabalho do RV dentro do Grupo, depois conscientizar os Grupos de que a revista é um importante instrumento no trabalho à comunidade. Com apoio dos Grupos locais e do Distrito, percebo que aos poucos o RV foi ganhando respeito e o seu verdadeiro espaço como servidor de confiança. Hoje essa Comissão se reúne uma vez por mês e tem seu Comitê atuante.
Usamos o dinheiro da Sétima Tradição para atender às nossas necessidades, sendo 50% para o Grupo que cede a sala para as reuniões e 50% para despesas com cópias das Atas, material para o Mural, envelopes, correspondências, etc. A maioria dos Grupos locais estão entendendo o propósito desta Comissão e estão dando todo apoio ao seu RV, e ao mesmo tempo colocando em prática as sugestões por eles colocadas. Na estrutura desses trabalhos dentro do Grupo temos alcançado coisas positivas como: apadrinhar o recém-chegado com um número da revista doado por companheiros que têm sua assinatura e já leram suas revistas; incentivar companheiros e companheiras escreverem suas experiências na ativa do alcoolismo e na caminhada da recuperação, enviando para a Vivência; diversificar determinada reunião no Grupo, tirando temas contidos na Revista e, em círculo, trocando experiências a respeito deles.
O nosso livreto “O Grupo de A.A.” nos sugere as tarefas do RV. Além dessas tarefas, o RV atuante tem o seu espaço nas reuniões de serviço do Grupo para que possa prestar contas, porque é um servidor de confiança.
Usar dois ou três minutinhos do meu depoimento para falar da Vivência é gratificante na minha recuperação e ajuda na divulgação da Revista.
Alguns Grupos têm usado o sistema de consórcio e tem funcionado. Nos trabalhos externos, o RV procura se estruturar no propósito de ser útil e colaborar com o Representante Intergrupal do Grupo e participar das reuniões de CTO e de eventos como: Ciclos de Estudos do CTO, de Tradições e Passos.
Levar à comunidade a mensagem de A.A. é uma dádiva concedida pelo Poder Superior e como RV me esforço para ser útil nessa missão. O contato constante com o companheiro RI é muito importante para um bom entrosamento.
Também fazemos contato com profissionais, religiosos e educadores, ofertando-lhes uma assinatura ou número avulso da Revista, e é claro que tudo isso só é feito dentro das condições de cada Grupo. A revista Vivência é sempre atual porque retrata a nossa experiência em busca dessa almejada mudança de vida para melhor, daí a importância de estar passando para outros, através da revista, o propósito de nossa Irmandade. Há algum tempo venho tentando escrever, falando da experiência do Representante da Vivência que, infelizmente, para alguns é um encargo sem muita importância, do que sinceramente discordo. Gostaria que daqui para frente a revista publicasse experiências contadas por RVs de todo o Brasil, pois isso com certeza ajudaria a fortalecer o propósito do servidor e da recuperação individual.
Agradeço ao meu Poder Superior por ter me dado a coragem para escrever e a sabedoria para distinguir algumas coisas das outras, bem como aceitação para coisas que eu não posso modificar. Com certeza todo servidor em A.A. tem uma função importante no propósito do programa de A.A. como um todo, e nós, os RVs, estamos procurando nos esforçar e nos dedicar no intuito de sermos úteis.
Infinitas 24 horas de serena sobriedade. Em gente, RVs

J.T. – São Caetano do Sul
Edição nº 56 – pág. 22

ABORDADO PELO GRUPO, REABORDADO PELA VIVÊNCIA

Abordado pelo Grupo, Reabordado pela Vivência

Ao final da sua primeira reunião, o coordenador lhe disse: “Pois então, leve a reunião
para a sua casa”.

Ao atingir o pico do meu alcoolismo (fundo de poço), deparei-me com a cruz e a espada… A quebra do orgulho a tanto tempo procrastinada, não pôde mais ser evitada. Desesperado – como dizia o poeta, não tinha medo da morte, mas saudade da vida -, como se a vida estivesse me deixando, ligou para o local de trabalho de minha esposa, que mais uma vez havia saído de casa devido a minhas loucuras alcoólicas diárias, e sendo ela uma praticante dos Grupos Familiares Al-anon, não encontrou dificuldades para aquele para naquele mesmo dia achar um Grupo de A.A., em uma cidade vizinha à nossa.
Chegamos cedo ao local e me lembro do momento de recepção, dos poucos que se encontravam, os que chegaram, os depoentes, meu ingresso. E todos os que vejo chegar hoje – trazendo-me vida, força e esperança através de sugestões e da partilha de experiência -, me fazem render graças a meu Poder Superior pelo privilégio de adentrar uma porta de A.A. onde sou abordado e orientado a evitar o primeiro gole buscando o progresso espiritual em minha recuperação. Desde esse momento, e a cada 24 horas em minha vida, me sinto no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. Descobri que o Grupo de A.A. e seu programa de recuperação são a chave que me abre a porta da fé para me entregar e servir a um Poder maior.
Os companheiros desse Grupo não me conheciam, como já disse moro em outra cidade, e o companheiro coordenador da reunião daquela noite havia recebido o último número da revista Vivência; no final da reunião, após ler alguns artigos da mesma, abordou-me perguntando como me sentia em relação ao que havia visto e ouvido. Fiquei sem palavras para responder-lhe, tal meu encanto pela transformadora experiência, um prenúncio de liberdade. Colocou o exemplar da Vivência em minhas mãos e prosseguiu: “Pois leve então a reunião para sua casa”. Segurei aquela revista nas mãos como se carregasse o tesouro mais valioso.
No retorno para casa, já senti muitas modificações após participar daquela esclarecedora reunião. Tive consciência de ser problemático devido à manifestação de uma doença progressiva, porém estacionária, e que se desejasse bastaria somente admitir minha impotência perante o álcool e uma vida descontrolada (fácil demais, pois essa era a única certeza que tinha sobre mim). Fui folheando a revista, pois estava sem conseguir dormir (dessa vez não pela falta de álcool, mas pela certeza de ter encontrado o caminho da volta). Uma paz manifestava-se dentro de mim ao constatar que tudo aquilo que os companheiros falaram na reunião e o que estava escrito nos quadros da parede estava contido naquela revista.
A partir desse momento senti-me protegido, senti nascer em mim um amor por esses desconhecidos que, apesar de sua dor e sofrimento, proporcionado pela sua doença, sorriem e falam humilde e honestamente, reduzindo meu ego com palavras simples, orientando-me para a bondade, tolerância e sabedoria necessárias para mim, um alcoólico anônimo em recuperação.
A cada 24 horas sou abordado por companheiros do Grupo e sou reabordado pela revista Vivência, que não só me instrui a melhor conhecer a literatura para melhor levar a mensagem, mas para que aplique em minhas atividades, melhor me conheça e aprenda a viver a doação praticando a espiritualidade de A.A.
Agradeço ao meu Poder Superior por me indicar uma porta de A.A., ser aceito pelos companheiros que abriram essa caixa de ferramentas espirituais para juntos partilhamos a Vivência. Mais 24 horas de fé num Poder Superior e de amor em ação.

Kayo – SC
Edição nº 56 – pág. 10

USANDO DOIS CHAPÉUS

USANDO DOIS CHAPÉUS

Quando eu era um jovem estudante de medicina e ainda não bebia, minhas aulas de clínica médica eram no Hospital da Santa Casa de Misericórdia, um prédio muito antigo de pé direito muito alto. Os alcoólatras ficavam em leitos colocados em enfermarias enormes e arejadas por imensas janelas, por onde entrava a claridade. Meu professor seguia rapidamente à nossa frente, detinha-se por vez diante de um leito e nos dizia “Estão vendo este paciente, ele tem uma cirrose alcoólica, cansei de aconselhá-lo a diminuir a bebida, mas ele não teve força de vontade suficiente e continuou se entregando ao vício. Agora, não há mais o que fazer”. E seguia em frente, dizendo mais ou menos a mesma dos demais enfermos.
Eu comecei a beber em reuniões sociais, porque percebi que a bebida me tirava a timidez, soltava a minha língua e me deixava com a impressão de ser mais inteligente e interessante. Mas nunca imaginei que um dia pudesse vir a ser um alcoólatra, porque afinal de contas eu achava que tinha caráter forte e nunca iria deixar o álcool me dominar, como tinha feito com aqueles infelizes na Santa Casa de Misericórdia.
Vinte e cinco anos mais tarde eu era um farrapo emocional e espiritual, que acordava de madrugada para beber escondido, única maneira de controlar a terrível ansiedade da crise de abstinência e poder voltar a dormir. Tive o bom senso de largar o bisturi e me encaixar em uma atividade administrativa, mas mesmo assim precisava beber para parar de tremer e conseguir assinar meu nome nos papéis que despachava. Do ponto de vista físico minha saúde começava também a piorar e surgiram as primeiras convulsões, tratamentos variados, internações sucessivas.
Quando tudo para mim parecia perdido, fui levado por minha mulher a uma internação em uma clínica especializada em alcoolismo e que utilizava os 12 Passos de Alcoólicos Anônimos na recuperação de seus pacientes. Foi lá que descobri ser alcoolismo uma doença e foi lá também que encontrei os primeiros conselheiros, terapeutas profissionais, dirigindo grupos de discussão de Passos.
Quando voltei de S.Paulo, encontrei reações de alegria e espanto entre chefes e colegas, ao verem que eu não mais bebia e retornava sem problemas às minhas atividades médicas. Sem fazer alarde, comecei a freqüentar grupos de AA, sem revelar nos depoimentos qual era minha profissão. Eu tinha sido avisado que isto era desejável, para evitar qualquer tentativa de me transformar em personalidade, já que naquele tempo eram raros os médicos membros de AA.
Passados alguns meses, o hospital onde eu trabalhava resolveu abrir um centro de recuperação para alcoólatras e eu fui designado para chefiar e organizar a equipe de pessoas que iriam trabalhar nele. Voltei a S.Paulo, fiz um treinamento na mesma clínica onde eu havia estado internado e comecei a trabalhar, vestindo agora o segundo chapéu, o de profissional em tratamento de alcoolismo.
Ficou desde o início muito claro, que não seria bom para meus pacientes, nem para mim, que eu usasse os dois chapéus ao mesmo tempo. Na chefia do centro de recuperação e no exercício do papel que me cabia, o de médico, eu nunca revelei a ninguém ser também pessoalmente um alcoólatra em recuperação e membro de AA.
Na ocasião me foram muito úteis os vários artigos que Bill W. escreveu sobre a 6ª e 8ª Tradições na revista Grapevine, dizendo ser ótimo que a medicina estivesse se utilizando dos 12 Passos nos seus centros de tratamento e qualquer membro de AA estava absolutamente livre para trabalhar neles, desde que se respeitasse a tradição do anonimato. Isto é, desde que ficasse claro não ter a clínica qualquer vinculo com a irmandade de Alcoólicos Anônimos.
Usar os dois chapéus tem suas dificuldades, nem sempre eu consigo evitar que alguns de meus pacientes me chamem de doutor em uma sala de reuniões de AA. Também não posso impedir que um ou outro coordenador desavisado interrompa a reunião para me pedir que eu esclareça, como médico, um visitante sobre a doença do alcoolismo. Como sempre sou pego de surpresa, eu brinco dizendo que sofro de dupla personalidade e hoje, infelizmente, a do doutor ficou em casa, sendo assim impossível atender ao pedido.
Vestir dois chapéus tem suas dificuldades. Como regra, quando eu falo como médico e tenho que colocar minhas opiniões próprias sobre alcoolismo sinto estar falando da doença dos outros e porisso não revelo a circunstância de também ser membro de AA. Porém, quando estou no grupo como companheiro, eu não defendo teses, não dou conselhos profissionais, não julgo ninguém, nem opino sobre a doença do alcoolismo: limito-me a contar minha história e minha vivência do programa de recuperação.
Portanto a regra é clara: em grupo, eu falo de mim e da minha doença. Como profissional, falo da doença dos outros.
Não se ater fielmente a esta regra traz dois tipos de problemas. Primeiro, pode-se prejudicar o AA ferindo pelo menos cinco Tradições, as de número 8 a 12, deixando a platéia confusa sobre nossas verdadeiras finalidades. Segundo, o maior prejudicado pode ser o próprio, que ao assumir o papel de personalidade, pára de fazer sua própria recuperação e dedica-se agora a insuflar seu ego. Já vi diversos médicos em AA recaírem, vítimas desta armadilha.
Por outro lado, esta conduta só me trouxe benefícios, já que vem me permitindo compartilhar da humildade, do anonimato e da preocupação como nosso bem estar comum, permitindo, através da mudança de meu comportamento e atitudes, que eu diga para vocês todos: “Hoje, pela Graça de Deus, eu não bebi!”

UMA PEQUENA HISTÓRIA DENTRO DE UMA GRANDE HISTÓRIA

Uma pequena história dentro de uma grande história
Dr. Lais Marques da Silva, Ex-Presidente da JUNAB

Há uma pequena história, muito antiga, que nos ajuda a entender a fragilidade dos seres humanos, a sua necessidade de cooperar e, sobretudo, a entender o quanto dependemos uns dos outros.
Na mitologia grega, os deuses resolveram habitar o mundo e criar a humanidade. Criaram os mortais, os seres vivos, e também as condições para a existência de todas as espécies que iriam coabitar na Terra. Encarregaram Epimeteu, cujo nome significa reflexão posterior, ou seja, aquele que só se da conta da coisa errada depois que a fez, de prover os futuros seres vivos com as qualidades necessárias à sua sobrevivência. Assim, foram dados a cada espécie os equipamentos necessários para que se alimentassem e resistissem às intempéries, como: peles, lã, carapaça, etc. e ainda para se defender uns dos outros: as garras, chifres e velocidade na corrida.
Todas as espécies foram equipadas mas, no momento de criar o homem, nada havia sobrado. Epimeteu tinha sido esquecido dele e, assim, o homem continuava nu e desarmado. Para que essa espécie não desaparecesse, Prometeu, cujo nome significa previdente, foi chamado pelo imprevidente irmão, Epimeteu, e encarregou-se de roubar dos deuses o fogo e as artes para dá-las aos homens. Distribuiu as artes de que dispunha mas que não eram suficientes em número para dar um conjunto completo a todos os homens e assim deu talentos diferentes a cada um de modo que, para sobreviverem, deveriam intercambiar as suas dádivas e, portanto, cooperar e o que resultou é que todos se tornaram dependentes uns dos outros. Prometeu também moldou os homens de forma mais nobre e os capacitou a caminhar de forma ereta. Desse modo, puderam se alimentar e resistir ao frio, mas continuaram não podendo se defender contra outras espécies por não possuíram armas. Mas o presente do fogo que Prometeu deu à humanidade foi mais valioso do que quaisquer um dos que haviam sido dados aos animais.
Os homens procuraram então estar reunidos para se defender dos animais e se agruparam em cidades, mas não conseguiram viver juntos porque disputavam entre si e frequentemente guerreavam uns contra os outros. Como conseqüência, dispersaram-se pela floresta e foram novamente ameaçados de extinção pelas outras espécies de animais. Dessa vez, foi o próprio Zeus, o Deus mitológico maior, que salvou os homens dotando-os de qualidades morais, de senso de justiça e de respeito de si mesmos, o que permitiu que cada um pudesse viver em coletividade com os outros. O gênero humano foi salvo e por isso, hoje, os homens vivem em comunidades e não isolados, como a maioria dos outros animais. Mas os homens continuaram frágeis e desamparados e é isso que nós somos e a nossa sobrevivência continua dependendo de que troquemos as nossas dádivas, as nossas riquezas interiores.

A vida é difícil. Encontrar o caminho que se vai trilhar na vida é difícil. O caminho tem que ser feito em solo árido e pedregoso, e machuca. Não há indicações nem avisos. Nenhuma orientação. Em realidade, cada um de nós faz o seu próprio caminho ao longo da vida e o caminho é feito tão somente ao caminhar. Mas a boa notícia é que não temos que fazer o caminho sozinhos e podemos recorrer a um poder maior que nos dá força e do qual a maioria das pessoas tem consciência. Ainda mais, na medida em que vamos fazendo o nosso caminho, podemos nos ajudar uns aos outros, intercambiar os talentos que recebemos. Podemos trocar nossas riquezas interiores. Podemos trocar experiências, forças e esperanças. Podemos cooperar uns com os outros. Podemos nos solidarizar. Podemos ser tolerantes. Podermos ser solidários e desenvolver o amor ao próximo. Podemos nos compadecer. Podemos entender que somos irmãos. Assim, Ele não estará apenas no meio de nós, como que espalhado num grupo de seres humanos, mas entre nós. Presente a partir do nosso relacionamento fraterno. Então, teremos condições de vislumbrar o caminho e encontrar a coragem para trilhá-lo.Como não é possível simplificar as coisas e obter respostas fáceis, é preciso pensar de modo abrangente, aceitar os mistérios e os paradoxos da vida e não desanimar ante a multidão de causas e conseqüências que são inerentes a cada experiência humana. Enfim, aceitar e valorizar o fato de que a vida é complexa.
Agora, vamos ao homem e às suas instituições. No caso do A.A., à Irmandade, como um todo e, especificamente, aos serviços que definem a ação. O A.A. é uma irmandade em ação. No mundo em que vivemos, existem as autoridades, os líderes, os governantes, os chefes, o Papa, etc. e, desde pequenos, nos acostumamos a recorrer à autoridade dos nossos pais e a essas outras autoridades. Resumindo, nos acostumamos a procurar uma orientação que vem de fora. Essas autoridades se apóiam em dogmas, em normas estabelecidas ao longo do tempo, na força da imposição, ou seja, numa estrutura de poder, que pode ser definida como a capacidade de mudar o comportamento do outro. Mas tudo isso é muito estranho ao A.A.. Ele é fruto de uma concepção muito melhor, muito mais perfeita do que isso que acabamos de ver.Historicamente, os co-fundadores eram solicitados para dar orientações, idéias, sugestões ou até para buscar soluções para as novas realidades que iam surgindo em decorrência do fato de o A.A. ser uma Irmandade viva, em ação. Mas eles se deram conta de que as suas vidas eram finitas e que a irmandade, tal como era, tinha que encontrar, em si mesma, os melhores caminhos para continuar viva e em ação. Seria algo como desenvolver um processo de auto-gestão, gestão que vem de dentro, e esse modelo se assenta no processo de busca da consciência coletiva que se constitui no alicerce desse modelo. É a chave para o seu funcionamento, baseado no fato de que o Poder Superior se manifesta em um determinado momento da troca de riquezas interiores e de cooperação e feita ao longo dessa busca da consciência coletiva.
Outro aspecto que gostaria de enfocar é o que revela um paradoxo. Mais presentes do que pensamos nas nossas vidas, apesar do desconforto que causam à nossa formação racionalista. Diz-se até que alguma coisa só é verdadeira quando contém o paradoxo. É que o A.A. não muda, pois tem princípios sólidos, cuja vitalidade tem-se mostrado extraordinária ao longo de 72 anos da sua existência. Não muda mas muda. Aí está um paradoxo. Os animais pré-históricos que não mudaram também não mais existem e o A.A. não tem vocação para se tornar um dinossauro. O fato é que não muda na sua essência, mas se renova, se adapta, se atualiza a cada ano, porque a cada ano se repensa, se mantém com vitalidade renovada, mais especificamente, após cada Conferência.Essa é a idéia-força que está subjacente a todo o processo da Conferência e que precisa ser identificada. Alias, é essencial que seja identificada para que os membros que dela participam tenham plena consciência da importância do trabalho que realizam. A Conferência tem uma exterioridade, ela é bonita, mas tem, sobretudo, uma essência, um conteúdo interior maior e mais importante. Tem uma roupagem e um corpo igualmente muito bonito e, por certo, mais importante. Outro aspecto que é preciso destacar é que a realidade com que, a todo o momento, nos defrontamos não tem nada de simples. O mundo não é feito apenas em preto e branco, mas também de muitos tons de cinza e de todas as cores e suas nuances. A realidade se apresenta sempre sob múltiplos aspectos. Frequentemente, não somos capazes de identificar, sozinhos, toda a complexidade de uma determinada situação. Mas, se ela for analisada também por outros companheiros, aí teremos a possibilidade de, participando da busca conjunta da consciência coletiva, alargar o nosso campo de visão e conhecer melhor para melhor decidir e melhor agir. Finalmente, vale ressaltar que, se a Conferência é colocada frente às realidades do A.A. do Brasil, isso não levará à conclusão de que resultariam irmandades muito diferentes nos diversos países do mundo. E isso porque são realizadas reuniões mundiais, a cada dois anos, em que numerosos países participam e nas quais também se busca a consciência coletiva, a integração em um só corpo, sendo que as diferenças locais apenas enriquecem o todo e o A.A. será eterno, enquanto assim funcionar.

OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS

OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS

Dr. Lais Marques da Silva,
Ex-custódio e presidente da JUNAAB.

O silêncio que se observa nas reuniões dos grupos de A.A. cria uma atmosfera de confiança e respeito recíprocos entre o alcoólico que faz o seu depoimento e os demais companheiros. O olhar daquele que faz o seu depoimento encontra calor humano e resposta por parte daqueles que o escutam em silêncio, tudo isso levando a uma comunhão de interioridades. O silêncio permite o estabelecimento de uma abertura, de uma disponibilidade pessoal em relação àquele que oferece a sua experiência além de facilitar o aparecimento de uma relação marcada pelo sentimento de confiança, fundamental para a comunicação, para que se possa abrir para o outro, para que haja o relacionamento que possibilita o desenvolvimento de liames profundos e para o surgimento de amizades verdadeiras. Confiar é indispensável para se livrar de doenças e é manifestação de fé em si mesmo, nos outros e no Poder Superior. O silêncio é o caminho que leva ao encontro consigo mesmo e com o outro.

O silêncio de quem escuta um depoimento transmite a seguinte mensagem a quem o faz: eu sei que você tem valor, sei que você é apenas um doente, sei que você é um ser humano e que, como eu, sofre de uma devastadora enfermidade. Por tudo isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito, a minha compreensão e a minha compaixão, esta, entendida como a consciência profunda do sofrimento de outra pessoa associada ao desejo de ajudá-la.

Dar atenção ao próximo é ato de amor, e a maneira mais comum e importante do exercício da atenção é escutar. Mas aprendemos na escola a ler e a falar, mas não a escutar, a despeito de que as pessoas, na sua vida diária, passam muito mais tempo escutando do que falando ou escrevendo. Mas é difícil escutar bem e, na maioria dos casos, as pessoas simplesmente não escutam ou praticam uma escuta seletiva em que ficam atentos apenas ao que lhes interessa ou para encontrar o momento certo em que uma conversa possa ser encerrada.

Para escutar, é necessário calar, silenciar, abrir os ouvidos e se por atentamente a escutar quem fala. Ouvir profundamente significa auscultar, prestar atenção, dar ouvidos, compreender, acolher, entender, examinar, discernir. O silêncio dos que escutam um depoimento é como se fosse uma substância mágica que possibilita a expressão daquele que doa o seu depoimento. A relação com o conjunto do grupo não se faz apenas pela continuidade da fala mas também, dispondo de tempo, pelos momentos de suspensão em que organiza o raciocínio, pelos momentos em que se cala; até porque a fala não revela o pensamento por inteiro e porque também é habitada pelo silêncio, completada pelo impensado e pelo paradoxo.

É preciso estar disposto a se esforçar para conseguir escutar verdadeiramente. O esforço para escutar o depoimento de um companheiro vem do fato de entender que ele necessita da nossa atenção e que é digno dela. Por outro lado, a atenção dedicada pelo companheiro que ouve um depoimento também o beneficia, pois resulta em seu próprio crescimento que, por outro lado, ocorre a partir do conteúdo daquilo que está recebendo. No momento de silêncio, em que ouvimos atentamente o depoimento de um companheiro, suspendemos todos os nossos juízos, pensamentos e preocupações. Desapegamo-nos do nosso próprio ser. Esse silêncio nos convida a superar os obstáculos do preconceito, da exclusão, da falta de diálogo e da falta de solidariedade.

Podemos avaliar, a partir das considerações que vimos fazendo, a importância de se estar em um ambiente em que se desfrute de um profundo e acolhedor silêncio quando nos lembramos de situações que, muitas vezes, marcaram muito as nossas vidas. Recordamos de várias situações das quais saímos nos sentindo muito mal por não termos conseguido dizer o que desejávamos. Não é que tenhamos sido muito exigentes, mas, apenas, que tivemos dificuldade em articular calmamente o que desejaríamos ter dito e o resultado é que ficamos frustrados, raivosos e nos sentindo culpados. Quando podemos, descarregamos essa raiva em alguém e o que resulta é que as pessoas que estão à nossa volta fecham seus ouvidos para as nossas colocações, resultando que fica, por mais essa razão, ainda mais afastada a esperança de se entrar em harmonia com os outros. Podemos também, por decoro, jogar a raiva para dentro e, nesse caso, vamo-nos tornando progressivamente mais descontentes e tendemos a abandonar o convívio daquelas pessoas ou até mesmo a abandonar uma instituição a que pertencêramos.

No entanto, ao contrário, desfrutando do silêncio respeitoso reinante nas reuniões dos grupos, os alcoólicos têm oportunidades repetidas de, calmamente, ir se desenvolvendo e se tornando progressivamente mais capazes de realizar uma comunicação plena sem que ocorra o fechamento dos ouvidos por parte dos que ouvem o depoimento. Desfrutando do silêncio do grupo, pelo contrário, muitos companheiros vêm curtindo a sensação positiva de liberdade, de alívio e de relaxamento que vem depois de terem podido passar as suas mensagens, de terem participado e colaborado. À medida que os depoimentos se sucedem, o raciocínio vai ficando cada vez mais claro, as idéias vão sendo arrumadas, a qualidade do relacionamento com os companheiros do grupo vai melhorando. Fica clara a importância da lingüística nos processos de socialização e de individuação que possibilitam o entendimento e a aprendizagem social.

Na verdade, a língua presa e o sentir-se culpado são manifestações longínquas de falta de afirmação pessoal, de incapacidade de ser assertivo e aí vale notar que a falta de auto-estima está na raiz do problema. Sem acreditar que temos valor, não seremos capazes de fazer as nossas colocações, de expressar as nossas necessidades de modo convincente e, nessa condição, os nossos argumentos irão falhar e recuaremos ou concordaremos quando o que desejávamos era dizer não.

A essa altura, é importante destacar que o amor ao próximo é uma via de mão dupla porque, estando dirigido para aquele que faz o depoimento, o faz perceber a concentração, a atenção e o amor que lhe chegam da parte de quem o escuta, e o faz se sentir gratificado. Quem faz o depoimento doa a sua experiência, valiosa e única, e quem o escuta, o receptor, se torna, desse modo, também doador, na medida em que oferece ao depoente a sua atenção e o seu amor. Escutar com atenção total e completa, avaliando cada palavra e entendendo cada frase, é a verdadeira forma de escutar, que exige um grande e indispensável esforço de concentração ao dedicar o seu tempo apenas a quem faz o seu depoimento, colocando de lado as suas preocupações, os seus pensamentos. É um esforço amoroso. Fazê-lo é prova de estima e consideração e, quem escuta, ao valorizar o depoimento, faz o depoente se sentir valorizado. Sentindo-se assim, o depoente ficará estimulado a fazer relatos de maior conteúdo. Fica disposto a oferecer a sua estima e, com isso, estabelece-se um ciclo, ascendente e criativo, de evolução e de crescimento. Mas esse ciclo virtuoso exige atenção, concentração e, portanto, esforço, e não poderá ocorrer senão em ambiente de silêncio completo. O barulho, as conversas e os movimentos de pessoas dentro do grupo tiram a atenção, quebram a concentração e todo o riquíssimo processo fica comprometido.

A escuta atenta implica em contenção e em afastamento da própria personalidade e isso leva à aceitação do outro. Por outro lado, percebendo-se aceito, o companheiro que faz o seu depoimento sente-se menos exposto, menos vulnerável e isso cria um caminho para que o companheiro possa abrir-se mais completamente. Importa ainda considerar que, freqüentemente, o depoente recebe atenção amorosa depois de muitos anos de um grande vazio e, às vezes, até pela primeira vez na vida.

O fato importante e fundamental para a recuperação do alcoólico, e que só é possível no ambiente silencioso dos grupos de A.A., é que o companheiro só ganha consciência da importância da sua individualidade na medida em que é reconhecido como tal pelos outros companheiros, pelas outras consciências. Isso ocorre na família, posteriormente na vida social e, especialmente, nos grupos de A.A.. A identidade da consciência individual, subjetiva, depende desse reconhecimento uma vez que a identidade do eu só ocorre através da identidade do outro que me reconhece como tal e que, por outro lado, depende também de que eu o reconheça. Este é um mecanismo extremamente importante na construção do indivíduo, pois que indispensável para o crescimento da sua própria humanidade. E isso acontece no ambiente respeitoso e silencioso dos grupos de A.A..

A compaixão que é despertada nos companheiros dos grupos, numa atmosfera marcada pelo silêncio, significa que eles sentem no coração um impulso forte para ajudar aquele que faz o seu depoimento a se livrar do seu sofrimento. É uma saudável atitude da mente e do corpo que procura aliviar a dor e o sofrimento de outros seres humanos. A compaixão é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os companheiros do grupo. Resulta, então, que as pessoas se sentem mais próximas e mais confortáveis no convívio mútuo. Pensam nas outras pessoas, chegam a uma compreensão madura de si mesmas e das suas relações com os outros.

Não há sentimento mais denso e mais enriquecedor que a compaixão. Nem mesmo a nossa própria dor pesa tanto quanto a que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogando conosco, começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento, dor que é prolongada por muitos ecos, ou seja, pelas lembranças que conservamos e que voltam à nossa consciência repetidas vezes. Esses sentimentos compõem a espiritualidade e aumentam a nossa dimensão humana; despertam o amor ao próximo, o sentimento de fraternidade.

O sofrimento é uma experiência universal e, por isso, deveria existir mais compaixão no mundo. O problema está em que, freqüentemente, não nos encontramos abertos para sentir dor. Se fugimos dela e nos defendemos, isto significa que também nos fechamos para o aparecimento da compaixão. Mas não é preciso ser santo para sentir compaixão, ela é a resposta natural de um coração aberto em relação a outro ser humano.

Usualmente estamos com os corações fechados para sentir dor. Afastamo-nos da dor, nos fechamos, nos defendemos. Neste caso, a fonte da compaixão permanece fechada e saímos do que é verdadeiro e próprio do ser humano para o que é fabricado, decepcionante e fonte de confusão, isso quando nos voltamos para as coisas do mundo que nos cercam.

Compaixão não é o mesmo que tristeza. As pessoas usualmente têm uma aversão ao sofrimento, à tristeza, mais do que uma abertura em relação a ela. Assim, dizemos que uma pessoa é “baixo astral” e nos afastamos dela porque nos faz sofrer. Afastamo-nos ou fazemos alguma coisa para aliviar a nossa tristeza. Fazemos isso por nós. Mas se prestarmos atenção à diferença entre tristeza e compaixão, veremos que, na compaixão, não há fixação nem aversão e que a condição de abertura em relação ao sofrimento do outro é realmente a grande motivação para uma resposta hábil e efetiva. A tristeza incomoda, a compaixão abre o coração para o sentimento de amor ao próximo, para o fato de sermos irmãos.

Nos grupos, não há uma atmosfera de tristeza, como se poderia imaginar e as pessoas que não conhecem o A.A. pensam que lá existe muita tristeza. Ao contrário, o ambiente é alegre, composto por pessoas vitoriosas e que têm os seus corações abertos ao sofrimento, que sentem compaixão; e a alegria se traduz em saúde e é uma forma de terapia. Agora é possível imaginar o quanto de silêncio e respeito é necessário existir numa reunião de grupo para que se vá absorvendo essas realidades, sentindo essas tênues diferenças, mesmo não estando consciente delas.

O silêncio respeitoso propicia o surgimento da empatia, que é a tendência para sentir o que se sentiria caso estivesse na situação e nas circunstâncias experimentadas por outra pessoa. Os companheiros abrem, então, os seus corações porque aprendem como é o verdadeiro amor, como é grande o valor da oração e que é pelo amor e pela dor que os homens se elevam do seu chão cotidiano. Isso acontece justamente em momentos difíceis, em que o amor se tornou aparentemente impossível e o coração parece ter se transformado em pedra. Só o silêncio cria as condições para que tão importante aprendizado ocorra.

O silêncio permite que se desenvolva uma interação entre os companheiros dos grupos e que essa mesma interação se desenvolva dentro de um padrão de relação entre as pessoas que poderia ser entendido pelo binômio eu-tu, relacionamento direto e profundo, do olho no olho. O olho é a porta da alma e isso é conhecido desde os egípcios que pintavam as faces de perfil e sempre com um grande olho. Também nos mosaicos bizantinos os artistas retrataram as figuras humanas com olhos grandes, desproporcionais.

Graças ao desenvolvimento da solidariedade, da compaixão, do amor ao próximo e, em especial, à sinergia que o silêncio propicia, um fraco mais um fraco não mais são dois fracos e sim um forte. Do mesmo modo, uma asa mais uma asa significam uma ave completa, que pode voar, e que, por ser inteira, recupera a sua liberdade e ganha altura. Em A.A. ouvimos, com freqüência, os seus membros dizerem que são pássaros de uma asa só e que, por isso, têm que estar sempre juntos. Mas é importante enfatizar que, num grupo, só estarão realmente juntos quando em sintonia, que só é possível dentro de um ambiente marcado por um silêncio respeitoso.

Há também uma forma de relacionamento que se faz com as coisas e aí o binômio é outro, é o eu-isso. Muitas vezes, os seres humanos entram numa relação com os outros seres humanos no modo de eu-isso e aí a qualidade do relacionamento inter-humano se deteriora, pois que deixa de ser eu-tu. O pior é que esta relação, que reduz a dimensão humana da outra pessoa, ocorre freqüentemente. O relacionamento eu-isso é marcado pela idéia de posse, que não existe na relação eu-tu. No decurso das nossas vidas, nos relacionamos com pessoas e coisas e muita gente se relaciona com as outras pessoas como se elas fossem coisas, procurando tirar vantagem de uma relação que, neste caso, não tem a qualidade de ser verdadeiramente humana.

O relacionamento nos grupos de A.A. tem a qualidade do eu-tu, relacionamento precioso, mas que necessita de uma abertura do coração e de uma atmosfera de silêncio respeitoso, indispensáveis ao estabelecimento de troca de interiores. A qualquer quebra de atenção durante um depoimento, a relação eu-tu se desfaz e deixa de haver as trocas enriquecedoras de interiores. Vale lembrar que as reuniões de A.A. são eventos em que se fala e que dão espaço e suporte para uma profunda mudança existencial.

A compreensão empática, que só ocorre quando há silêncio, significa que sentimos, precisamente, os sentimentos e os significados pessoais daquilo que está sendo relatado pelo companheiro. É como se os que ouvem em silêncio estivessem dentro do mundo privado daquele que faz o seu depoimento, de modo que é possível entender não só o significado do que é conscientemente relatado, mas também o que está abaixo do nível de consciência. Ouvimos até o inaudível pois que, no silêncio, nos tornamos mais sensíveis e capazes de entender até o que não é relatado num depoimento. É ir além das suas dimensões. Há uma expansão da interioridade do ser humano em direção ao outro.

O silêncio cria condições para que aquele que faz o depoimento abra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal e isso é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o companheiro que faz o depoimento precisa ser ouvido e compreendido e não apenas escutado, como se fosse simplesmente um isso, uma coisa falante, um dispositivo eletrônico ou uma pessoa a pregar no deserto. O grupo de A.A. propicia o espaço de visibilidade necessário em que a grandeza fugaz da frágil existência humana possa aparecer além do fato de que a nossa existência só pode se desenvolver no estar-junto dos homens nesse mundo que nos é comum. Ademais, o silêncio também cria condições para uma comunicação ilimitada, o que é da máxima importância porque a própria verdade é comunicativa e desaparece quando não existe comunicação.

Desfrutando de um silêncio respeitoso, o companheiro pode abrir-se inteiramente, pode estar realmente presente, de corpo e alma, diante dos demais companheiros, aceitando-os e sendo aceito por eles. Esta presença, inteira e completa, de si mesmo, faz com que o companheiro fique presente também para os outros; os outros sentem a sua presença. Este aspecto é de extrema importância, pois muitas vezes estamos falando com uma pessoa que, como se diz, não está nem aí e encontra-se dispersa em seus pensamentos e interesses pessoais enquanto falamos. Freqüentemente ficamos falando sozinhos, o outro está presente, mas, em realidade, não está. Deste modo, entendemos a necessária ênfase quando falamos de presença inteira e completa. No grupo, o companheiro se sente vivendo no tempo presente, vivendo o agora e, assim, em condições de alcançar o seu mais elevado potencial emocional: aberto à empatia, à compaixão e ao perdão. Conhecemos pessoas que estão sempre presentes e disponíveis e que significam muito para nós. Não há o eu sozinho, há sempre o eu-tu, na sua totalidade. Quando existe o silêncio empático, sente-se a presença inteira e completa das pessoas.

Aquele que faz o depoimento também se identifica, também ganha dimensão no processo de comunicação. O relacionamento do eu com o tu quebra o isolamento, integra as pessoas. É preciso estar presente para se tornar presente para os outros. Como acentuei, às vezes, conversamos com pessoas que parecem estar muito distantes, pensando em outras coisas ou, como se diz, estão no mundo da lua e isso destrói o relacionamento entre seres humanos e, especificamente, o tu da relação eu-tu.

É importante lembrar ainda que a fala é poderosa e que, ao fazer o seu depoimento, o companheiro está consciente do que está relatando e que a sua fala vem do coração. Estar consciente é indispensável para entrar no reino dos humanos e para o estabelecimento de uma base indispensável para a vida espiritual. Em realidade, é preciso estar consciente tanto da fala quanto das ações. Sendo verdadeiro e oferecendo a sua enriquecedora experiência de vida, o companheiro se torna um pólo de atração, e mais, ao ser consciente e honesto, a sua mente se torna mais serena e mais aberta e o seu coração mais feliz e mais pacífico. O estabelecimento de uma relação de harmonia virtuosa com o grupo traz luz ao coração e claridade à mente.

Numa atmosfera marcada pelo silêncio, estabelece-se uma vibração recíproca a partir do face-a-face, do olho-no-olho, da comunicação profunda que permite que se veja, no fundo do olho das pessoas, o que vai no seu interior; o silêncio respeitoso é indispensável para que se estabeleça essa relação profunda. Por outro lado, a comunicação superficial, feita por monossilábicos, frases gravadas e esperadas, torna as pessoas ansiosas, resultando que voltam às suas exposições, aos seus temas ou explicações porque não se sentem percebidas. O companheiro que faz o seu depoimento fala dos seus sentimentos, de emoções escondidas, reprimidas e que geram doenças. Desabafar, confidenciar, partilhar a intimidade, segredos e pecados, neste ambiente muito especial, é de grande poder curativo; é excelente terapia. Por outro lado, somente quem vive a experiência de ouvir o outro é capaz de amá-lo na sua totalidade, de todo o coração, e isso significa dar-se por gratuidade, sem reservas, de coração a coração e sentir a experiência da alegria, do medo, da coragem, do descontentamento, do sofrimento, do desejo e da tristeza.

O relacionamento que se estabelece no grupo é gratuito. Um companheiro oferece o seu depoimento, a sua experiência, e os outros membros do grupo oferecem o seu silêncio respeitoso, a sua compreensão, o seu amor de irmão. Não há nenhum interesse interposto na relação entre o membro que faz o depoimento e os demais que o escutam. Um doa a sua riqueza interior, a sua experiência, e os outros a aceitam respondendo com um sentimento de compaixão e de compreensão.

Essa é uma relação muito rica e enriquecedora que pode acontecer entre seres humanos quando assentada na reciprocidade, na capacidade de entender e de amar o próximo. Um ser só cresce com os outros dentro deste tipo de relacionamento. O silêncio possibilita o estabelecimento da via de mão dupla. Permite a manifestação da palavra com todo o seu poder e que, por sua vez, conduz à reciprocidade, entendida como um poderoso mecanismo totalizador capaz de fazer com que todos fiquem envoltos em uma só atmosfera, que cria as condições para que aquele que faz o depoimento encontre o seu interior, a sua subjetividade e que se identifique como sendo uma pessoa, um ser humano, porque também não há o tu sem o eu. A elevada compreensão cria condições para que haja paz entre os seres humanos.

Não estamos acostumados ao silêncio, à sua dimensão profunda, tão profunda que assusta, amedronta e angustia porque nos coloca diante de nós mesmos e o medo ocorre porque não nos conhecemos.

Tudo isso ocorre dentro da liberdade de tomar a decisão de prestar o seu depoimento que, no silêncio respeitoso e na relação empática, conduz a uma relação inter-humana profunda, que é o fundamento da existência em A.A.. Meditando acerca do conteúdo dos depoimentos e se abrindo para a dor e o sentimento de compaixão, os membros do grupo estarão ganhando dimensão humana e espiritualidade e isso numa época em que as pessoas se permitem esquecer cada vez mais daquilo que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.

O silêncio atinge e penetra o coração humano e é aí que está a nossa interioridade, o lugar onde somos o que somos.

Estas considerações foram feitas a partir de uma prática que sempre me encantou em A.A.. Muitos companheiros, após o seu depoimento, agradecem dizendo: “Obrigado pelo silêncio de vocês”. Isso sempre me tocou muito e passei a meditar e a procurar o porquê, e penso que encontrei a sua essência.

INVENTÁRIO DO GRUPO – O GRUPO E O INDIVÍDUO

INVENTÁRIO DO GRUPO – O GRUPO E O INDIVÍDUO.
O Grupo não é só os que prestam serviços, são todos, portanto o que é feito ou não, é de responsabilidade de todos. Ao melhorarmos o comportamento individual melhoramos o grupo. Ninguém pode melhorar o comportamento do outro, mas sim o seu próprio, e isto já é difícil, é preciso querer modificar-se, é necessário programar-se para isso e agir. A diferença entre o ideal e a ação que transforma é enorme. Cada um
dos problemas maiores que estão diante de nós foi provocado por um comportamento humano nosso. A boa notícia é que nosso comportamento é a causa, nós temos o poder de modificá-lo! Existem ações que cada um de nós pode realizar dentro de si mesmo, para iniciar uma cadeia de conseqüências específicas e positivas no seu grupo, no seu distrito, na sua área e no AA como um todo. O único limite para o impacto que causamos é a nossa imaginação e o nosso compromisso com AA. Pensemos bem nisso, AA é maior de que qualquer um de nós e de que
qualquer uma parcela de nós, AA é para todos seus membros, e todos devem ser ouvidos e considerados, não há os mais sábios, nem os melhores, mas a consciência coletiva, à qual todos devemos render-nos humildemente.
Vejamos então sob o ponto de vista individual e coletivo.
A qualidade de um grupo é soma das qualidades de seus membros.
Membros com boa recuperação é grupo funcionando harmoniosamente e todos os setores.
l – Qual o propósito básico do grupo?
2 – 0 que mais poderá ser feito para transmitir a mensagem?
3 – Estamos alcançando o número suficiente de alcoólicos (as)?
4 – Que mensagens temos dado aos diversos setores da sociedade?
5 – Estamos atingindo todas as camadas sociais?
6 – Os companheiros (as) têm permanecido entre nós?
7 – Nosso apadrinhamento na recuperação e no serviço é eficiente?
Conseguimos recuperação e servidores.
8 – As nossas salas de reuniões são agradáveis?
9 – Esclarecemos o suficiente, sobre a necessidade de prestarmos serviços?
10 – A todos (as) é permitido participar das atividades do grupo?
11 – Os servidores (as) são escolhidos (as) com cuidado e
responsabilidade?
12- 0 grupo cumpre a sua parte referente aos órgãos de serviço?
13- Damos a todos (as) informações sobre Unidade, Recuperação e Serviços?
14 – Sou saudável? Será que somo, ao invés de dividir?
15 – Critico companheiros (as) ou grupos?
16 – Sou pacificador (ra) ou provocador (ra) de discussões
estéreis?
17 – Gosto de comparar meu grupo com os demais da cidade?
18 – Considero inferiores certas atividades em AA?
19 – Estou bem informado sobre AA como um todo?
20 – Pareço bonzinho (boazinha), as secretamente faço conluios e ajo com rancor e hostilidade?
21 – Procuro conhecer a fundo, o programa de AA?
22 – Compartilho nos momentos bons e difíceis do grupo e da
Irmandade?
23 – Vivo criticando líderes, serviços, e centrais sem
auxiliá-los?
24 – Procuro elogios pelas minhas idéias e ações, e destaco meu trabalho dizendo que quando eu era responsável por um serviço tudo era melhor?
25 – Sou aberto (a) para aceitar as deliberações do grupo? Trabalho com boa vontade?
26 – Mesmo antigo(a) ainda faço tarefas simples nos grupos?
27 – Não participo, pôr desconhecer os assuntos de AA?
28 – Julgo a possibilidade de recuperação dos novatos (as)?
29 – Acho que alguns (umas) companheiros (as), não deveriam vir ao meu grupo?
30 – Costumo julgar o ingressante como sincero ou hipócrita?
31 – Tenho preconceito de qualquer tipo, a meus companheiros (as)?
32 – Impressiono-me com pessoas consideradas importantes?
33 – Não dou importância às pessoas que eu considero inferiores?
34 – Abordo com a mesma boa vontade, um. companheiro(a) sujo(a) barbudo e uma companheiro(a) novo(a) e bonito(a), sendo eu mulher ou homem respectivamente?
35 – Como trato o anonimato do outro, com os amigos e na minha
família?
36 – Como ajo com a lei do sigilo? Com o que ouço dos desabafos de companheiros (as)? No grupo? Na rua? Em casa?
37 – Sabendo que somos emocionalmente infantis e cheios de mania de grandeza, procuro o auto-conhecimento para modificar-me?
38 – Sei hoje, de que muitos de meus defeitos de caráter são
inconscientes?
39 – Procuro métodos, para eliminar meus defeitos de caráter, além das ferramentas de AA?
40 – Continuo entendendo que eu sei como é melhor para AA e meus companheiros (as)?
41 – Procuro em meus depoimentos, limitar-me ao tempo concedido?
42 – Deixo de dar minha experiência, ou sempre pulo na frente para falar?
43 – Tenho falado só do meu progresso material, ou falo
preferencialmente de meu crescimento espiritual e autodomínio emocional?
44 – Continuo dizendo que em AA tudo é de graça, ou digo que somos responsáveis pela nossas despesas e manutenção dos órgãos de serviços?
45 – Digo que em AA é proibido proibir, ao invés de dizer que em AA temos uma liberdade responsável?
46 – Sei que sem o uso das tradições, AA correrá perigo no futuro, eu desprezo essa verdade?
47 – Observadas as tradições e os passos, insisto dizendo que são poucas as maneiras de proceder em AA?
48 – Meu grupo sempre considera o bem. estar de todo AA?
49 – Considero todos os companheiros (as) ou excluo alguns?
50 – Para os que sabem que sou um AA, sou um bom exemplo?
51 – Preocupo-me em saber o que devo dizer ao recém chegado (a)?
Como trato o que já é companheiro (a), tenho atenção para com
todos?
52 – Gosto de homenagem e elogio, ou faço homenagem e elogio a
companheiro (a) vivo ou morto (a)?
53 – Faço observações maldosas sobre o comportamento dos
companheiros (as)?
54 – Critico os companheiros que querem estudar os princípios de AA?
55 – Já me perguntei, porque só quero reuniões de depoimentos, e só gosto de falar sobre minha época de bebedeira?
56 – Já me dei conta que o plano de 24 h. é só para parar de
beber, mas que para permanecer abstendo e ser feliz preciso praticar os doze passos, as doze tradições e entrar nos serviços?
57 – Já me dei conta que faço parte do todo e que sem um, ou com a ausência de alguém, o todo estará incompleto?
58 – Entendi que AA não nos obriga a nada, mas que devo obrigar-me a participar dos serviços de AA tão logo possa, pôr gratidão?
59 – Já pensei, que se não consigo amar a todos, muito e sempre, pelo menos posso não ter reserva ou raiva de ninguém?
60 – Tenho ajudado na divulgação de AA? Preparei-me para isso?
61 – Uso o nome de AA para obter desconto, emprego, transporte
publico, etc.?
62 – Participo das reuniões de serviço para cooperar, ou para
derrotar alguém? Ou sequer participo das mesmas?
63 – Culpo o grupo pôr tudo, ou ajudo o mesmo no que posso?
64 – Preocupo-me com a origem da a sugestão para considerá-la; ou se ela é boa ou não para AA?
65 – Não faça tudo dizendo que ninguém faz, estimule humildemente que outros façam alguma coisa, não diga também que ninguém o deixa fazer, faça humildemente alguma coisa.
66 – Você é livre, mas coopere, participe, não espera convite,
não seja indiferente com seus irmãos.
67 – Procure ser sintético quando falar, treine para isso, você falará menos, dirá mais coisas e outros poderão falar também.
68 – Não critique quem fala bem, nem quem fala mal, quem não fala, ou quem fala demais, ou ainda quem fala dos outros, deixe cada um ser como é, e dar-se conta, se estiver errado. (Se o fizer, faça-o direta e particularmente).
69 – Não tenha vergonha de ser entusiasta e mostrar calor humano.
70 – Não precisa concordar com as opiniões alheias, mas nem
detestar-lhes pôr pensarem diferente.
71 – Não prejudique o grupo, seja parte da solução, participe.
72 – Não procure companheiros (as) errados (as), e sim acertos.
73 – A consciência coletiva só se manifesta após exaustivas
discussões, em várias reuniões, sempre à luz dos princípios de AA, para que a votação atinja substancial unanimidade, colaboro para isso.
74 – Lembro-me que os antigos (as) também são doentes?
75 – Sei que a recuperação sem os passos não traz unidade, nem paz?
76 – Sei que Unidade sem Tradições produzem Serviços deficientes?
77 – Contribuo com gratidão, para a mensagem atingir outros doentes?
78 – Se todos fossem como eu, como seria o AA hoje? Pense nisso.
Como numa empresa, que passa a utilizar um programa de qualidade, não basta uma exposição pôr outra empresa especializada desse processo moderno; é necessário impregnar seus servidores desses princípios, com atividades permanentes no sentido de tirar velhos hábitos e introduzir novos em seus servidores. Para isso é preciso debates, estudos e troca de experiências permanentes. Em AA isso não é diferente, a mudança exige esforço permanente, não devemos ficar no
sonho, é necessário ação e os Três Legados estão ai para nos
instruir.
Mais 24 hrs…de paz, saúde, serenidade e sobriedade.

IMPOSIÇÕES X DISCIPLINA

Estava participando de uma das reunioes do grupo e la pelas tantas repetiu-se:
Tem que fazer assim, tem que fazer assado, ou seja, dicas de como TEM que fazer, travestido de sugestoes de como cada um e principalmente membros do comite devem agir, professoral.
Mais um professor formado nas salas de AA, absolutamente convicto que AA “tem que ser assim’, onde o comportamento alheio so serve se for deste jeitinho.
Se for diferente nao é o comportamento apropriado para o grupo.
Será que isto é um grupo de AA ou apenas uma reunião de membros de AA ?
Em tempos passados, me recordo que o grupo que frequentava estava passando serias dificuldades de servidores, e baseado na dificuldade mencionada achei por bem por em discussão : Que tal fecharmos uma ou duas reunioes e quem sabe la na frente poderemos reabri-las?
Que mico que paguei por dizer isto, ouvi uns 3 ou 4 improperios, que eu queria acabar com o grupo, nao tinha espirito de companheirismo, se fosse preciso um dos que nem quis discutir a ideia disse que estaria disposto a manter todas as reunioes por sua conta.
Hoje este que seguraria as reunioes de domingo a domingo nao frequenta mais o grupo e ao mesmo tempo deu uma ideia muito simpatica que o grupo abrisse outros grupos em bairros afastados visto que $$ lá não era problema, o caixa estava forrado – ideia tambem nao aceita pelos demais com argumentos
dos mais variados, nenhum deles discutidos , o negocio era e é votar – e o mesmo hoje esta com poucas pessoas na maioria das reunioes, a ponto de alguns dias atras ficar fechado por falta de coordenador.
Nao me sinto satisfeito com estas situacoes mas aborrecido porque sugestoes nao sao discutidas com a mente aberta, e isto me incomoda de fato.
Deve-se discutir os assuntos a exaustao, esta na literatura.
Acredito apenas que o problema principal reside no fato que existem pessoas que nao aceitam conversas serias, e se nao for a favor de suas opinioes, é porque sao contra – leva-se pro lado pessoal, tipo , se vier de fulano nao concordo .
Isto é uma pena, e reflete-se claramente numa reuniao de servico, que chega a durar horas sem um minimo de disciplina sob o falso argumento que tem hora pra comecar mas nao pra terminar com votacoes que nao cumprem o sugerido em nosso manual de servico.
A recuperacao em minha opiniao requer uma disciplina, e esta se estende às reunioes, aos comportamentos, e ao que mais se queira, mas fica a criterio de cada um.

Faabio_SP

SACOLA, ALGO MAIS QUE AUTO-SUFICIÊNCIA

“SACOLA”, ALGO MAIS QUE AUTO-SUFICIÊNCIA

“Todos os Grupos de A. A. deverão ser absolutamente auto-suficientes, rejeitando quaisquer doações de fora”

Na verdade a 7ª Tradição de A. A. contém muito mais significados do que aqueles que se pode apreender de uma simples e sumária leitura de seu texto.
Quase todos os membros de um grupo de A. A., depois de algum tempo de freqüência, começam perceber que seu grupo em particular e a Irmandade, de um modo mais geral, tornaram-se para ele a coisa mais importante de suas vidas. Assim entendem, porque sabem que tudo, família, trabalho, cultura, lazer, dinheiro e o mais que possa existir, para ser usufruído, depende de sua sobriedade. Esta, a sobriedade, por sua vez, depende do grupo de A. A. e da prática do programa sugerido. Uma vez perdida a sobriedade, através da ingestão do primeiro gole, tudo o mais estará também perdido. É dura, porém inexorável, verdade do alcoólatra.
Partindo dessa premissa o alcoólatra em recuperação sente a necessidade de preservar a vida de seu grupo, como uma célula primaria de um organismo maior que é a Irmandade em seu todo. Em seguida, descobre o que lhe informa a 5ª Tradição, ou seja, que “cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre”. Para isso é necessário que a Irmandade tenha grupos com as portas abertas para recebê-los. Mas não apenas isso. Há que oferecer-lhe subsídios para a sua recuperação. Informações para a reformulação de suas vidas, através de ampla e livre troca de experiências nos grupos. Literatura de A. A. para ele se esclarecer a respeito do programa. Processos e meios para ele praticar o 12° Passo, isto é, “transmitir a mensagem de A. A. aos alcoólatras”. E para que isso tudo possa acontecer são necessários meios materiais. Há que se pagar o aluguel da sala
de reuniões, a luz, a água, o cafezinho. Há que se ter
literatura disponível para os companheiros e para os que ainda estão fora das salas de reuniões. Há ainda que se contribuir para a estrutura de serviços de A. A., ou seja, para as intergrupais, para as áreas distritais, para o Escritório de Serviços Gerais, para a Junta Nacional de Serviços, para a Conferência, Junta de Custódios, etc.
Depois de algum tempo o novo companheiro toma conhecimento de tudo isso e ler na 7ª Tradição que o A. A. rejeita qualquer doação de fora. A conclusão torna-se óbvia: tudo depende da contribuição dele e dos companheiros. Tudo depende da arrecadação da sacola dos grupos. Tudo depende das contribuições dos grupos aos escritórios de serviços e destes para os órgãos nacionais de serviços de A. A.
Fica-lhe nítida na mente a idéia de auto-suficiência da Irmandade. Mas o que haverá mais além…? Qual a natureza ética da contribuição nas sacolas? Será ele um óbolo, uma esmola, uma caridade, um ato de filantropia, um pagamento ou uma obrigação? Na verdade, a contribuição de cada membro de A. A. é muito mais do que tudo isso. É, em última análise, a conseqüência natural da maturidade do grupo.
Com efeito, um grupo amadurecido é caracterizado por uma atitude de conscientização; por uma situação grupal de cooperação entre os membros e por um sentido de amorização.
Assim vejamos. A conscientização nada mais é que o percebimento encarado de modo genérico. É cada um tornar-se cônscio de si mesmo, abrindo cada vez mais brechas na auto-ilusão que caracteriza muito os alcoólicos. É conhecer e gostar de si mesmo. É sentir sua própria importância no grupo. É aprender a ser responsável perante os companheiros. É reconhecer as conseqüências pessoais de suas ações e de suas palavras integrar-se à consciência coletiva do grupo. É vivenciar intensamente a importância do grupo para a própria sobrevivência e para o crescimento psicológico de cada um de seus membros.
Por sua vez, a cooperação ampla entre os membros de um grupo e dos grupos entre si, constitui-se na fase mais adiantada do processo de maturação grupal. Cooperar é produto de uma aprendizagem que se inicia logo que o ingressante chega. É o melhor remédio para o egocentrismo, pois a prática cooperativa vai gerando mais amor e inteligência objetiva, o que conduz a uma atitude sociocêntrica. A primeira cooperação do alcoólatra é fazer-se presente às reuniões. É ouvir os companheiros. É servir de “fundo” para que o companheiro seja “figura”. É cooperar prestando serviço ao grupo; limpar e preparar a sala para as reuniões é ato de cooperação; providenciar o café é cooperação; coordenar a reunião é cooperação; atender aos novos que chegam é cooperação; por dinheiro na sacola é cooperação. Enfim, tudo que se faz em prol do coletivo e de cada um em particular é cooperação.
Finalmente, a amorização é a aprendizagem do verdadeiro amor. Daquele amor que não é apego, que não é posse do objeto amado, que não é exclusivismo, que não pe apenas atividade sexual, que, enfim, não é condicional, porque de nada depende. Esse amor é o supremo ato de liberdade, através do qual conseguimos ver o mundo com os olhos do outro, de sentir o que se passa nele como ele o sente, de entender a realidade como ele a entende, de ser capaz de dar sem esperar recompensa.
Assim, no grupo psicológico e espiritualmente amadurecido, onde seus membros estão bem conscientizados, onde a cooperação e a amorização são uma constante, a contribuição da sacola não pode ser uma esmola, nem, por outro lado, constitui-se em uma obrigação. Ninguém precisa dar nada para freqüentar uma reunião ou ser membro de A. A.. A contribuição na sacola enquadra-se bem no conceito ético de um “direito-dever” . “Direito” porque é um privilégio que se só se estende aos membros de A. A. e “dever” porque é um puro ato individual de consciência, de participação e doação de si mesmo. Sejamos maduros, e, conseqüentemente, generosos na sacola de A. A.

Vivência n° 3

TODOS OS GRUPOS DE A.A. DEVERÃO SER AUTO-SUFICIENTES REJEITANDO QUAISQUER DOAÇÕES DE FORA

TODOS OS GRUPOS DE A.A. DEVERÃO SER AUTO-SUFICIENTES, REJEITANDO QUAISQUER DOAÇÕES DE FORA”.

(7ª Tradição de A.A.)

Ao ler e estudar mais atentamente a Sétima Tradição junto com as demais notei que:
a) Todas as demais estão de certa forma interligada a ela.
b) Que é impossível de certo modo conviver harmoniosamente com as demais na falta ou ausência da sétima.
c) dinheiro em A.A. é um “mal” necessário para completar todas as outras? Sim!
Em certo trecho ela diz “Provavelmente nenhuma outra tradição de A.A. nasceu tão dolorosamente como esta”. Eu pessoalmente acredito na verdadeira afirmação aqui apregoada pelos nossos co-fundadores. Senão vejamos;
A primeira diz que “nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar”, a sala deve contar com nossa Auto-suficiência. Ora, bem estar significa
entre outras coisas o de termos aproveitado em praticar os Doze Passos para uma harmonia interna de cada um, uma sala bem arrumada, limpa, agradável, cadeiras que proporciona até certo conforto, literatura a disposição para consulta ou leitura, sanitários asseados, iluminação o suficiente e vai por ai afora. Ah. E o cafezinho quentinho, confortador e início de um bom bate-papo que pode salvar vidas ou minimizar sofrimentos. Para isto precisamos além de bons candidatos servidores para manter estas condições, parte da contribuição vinda da sacola da Sétima Tradição.
A segunda tradição: “Somente uma autoridade preside em última análise, o nosso propósito comum um Deus amantíssimo que se manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos líderes são apenas servidores de confiança; não tem poderes para governar”.
Ora, se não temos um presidente com autoridade, nem um tesoureiro para executar suas dívidas ou uma diretoria com poderes para expulsar algum sócio faltoso e a que nenhum A.A. é dado traçar a outro uma diretriz ou exigir obediência, pergunto; como sobrevivemos. É através da bondade infinita de um Poder Superior que nos ajuda e incute em nós o sentido da responsabilidade em procurar manter uma estabilidade através do bem servir e uma ajuda que vem da 7ª Tradição, a chamada colaboração espontânea.
Diz a terceira Tradição: “Para ser membro de A.A., o único requisito é o desejo de parar de beber”.
Então, como poderemos estar materialmente prontos para receber estes companheiros com seus problemas e complicações?
Vimos que “A Experiência ensinou-nos afinal que privar o alcoólico de uma plena oportunidade equivalente por vezes pronunciar sua sentença de morte e amiúde condená-lo a um estado de interminável miséria”.
Ao recebê-lo, procuramos além de obtê-lo com sua amizade e darmos o carinho que ele doente alcoólico tanto necessita, também oferecer uma boa recepção sem perguntar de seus erros de sua condição social e financeira, ou ainda religiosa, mas ele poderá ter a certeza que esta porta estará sempre
aberta e que não faltara um cafezinho amigo. Isto é também parte da Sétima Tradição. Esta é a mão de A.A.
A Quarta Tradição é categórica; “Cada grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que digam respeito a outros grupos ou a A.A. em seu conjunto”.
Esta autonomia também significa uma interdependência ao prover o grupo suas necessidades básicas para um bem estar comum, e é a Sétima Tradição que pode nos fornecer estes meios. Autonomia que significa até certo ponto a condição do “podemos sobreviver com sobriedade e dignidade”, que é uma
entidade individual apenas dependente de sua própria consciência coletiva e a compreensão da necessidade da “sacola” dentro da Sétima Tradição.
“Cada grupo é animado de um único propósito primordial o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre”. Isto é o que nos diz a Quinta Tradição.
E para que isto aconteça, temos que procurar fazer alguma coisa bem feita e não deixar o resto pela metade ou mal feito. “Sapateiro, não vá além de tua chinela…”, e isto a meu ver quer dizer que devemos – dentro de nossas capacidades – sempre suprir as necessidades dos outros sem que isto
nos afete direta ou indiretamente. Nossas contribuições devem estar rigorosamente dentro de nossas possibilidades tanto material como espiritualmente.
Nesta Sexta Tradição, “Nenhum grupo de A.A. deverá jamais sancionar ou emprestar o nome de A.A. a qualquer sociedade parecida ou empreendimento alheio à Irmandade, afim de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos afastem do nosso objetivo primordial”.
Não podemos negar que a princípio tivemos sonhos de grandeza para nós e para A.A. como um todo. Mas, a Sétima Tradição nos trouxe a realidade de nossas legítimas e urgentes necessidades que era e é a humildade e a simplicidade como modo de vida. Compreendemos que o sentimento de grandeza
com auréola de orgulho tinha-nos jogado nos braços do poderoso álcool.
“Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não profissional, embora nossos centros de serviço possam contratar funcionários especializados”. É o que diz a Oitava Tradição, isto é, dar de graça o que de graça recebemos.
Também entendemos o sentido de que dinheiro e spiritualidade não se misturam “exceto conforme nosso co-fundador Bill – a sacola da Sétima Tradição onde eles se completam”. Pertencemos a A.A. e formamos grupos onde damos e recebemos conforme nosso entendimento de cada um. Entre nós existe
na realidade uma troca de necessidades e premência de um crescimento espiritual. É o dar pelo dar e o receber com humildade. Somos todos sem exceção da mesma “altura” em nossos sentimentos e em nossas dores assim, nos unimos em torno de nossas próprias necessidades.
A Nona Tradição diz; “A.A. jamais deverá organizar-se como tal; poderemos, porém criar juntas e comitês de serviço diretamente responsáveis perante aqueles a quem prestam serviços”. Afinal nossa organização é feita pela compreensão de cada indivíduo e das prioridades de cada um dos três
legados. Não temos presidentes, temos sim, líderes que nos lideram pelo exemplo e que foram criados pela própria Irmandade que reconhece a capacidade, sua orientação, no amor e na organização de nossos órgãos, incluindo ai nosso balanço financeiro do grupo e outras necessidades dentro do A.A.
“Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões alheias a Irmandade; portanto o nome de A.A. jamais deverá aparecer em controvérsias públicas”.
Estas são afirmações da Décima Tradição. Em A.A. jamais fomos divididos por questões de controvérsias, não travamos nenhumas “batalha” seja ela sobre religião, política, temperança ou ainda sobre dinheiro. Aprendemos que o
indivíduo, o grupo é mais importante para nós. Eu preciso sobreviver para que o conjunto também sobreviva. Não lutamos uns contra os outros ou com quer que seja,, aprendemos a viver e a conviver com aquilo que é possível ter, apenas procuramos crescer espiritualmente para que estes sentimentos
também cresçam. Não entramos em controvérsia pública e nem por isto somos uma Irmandade fechada aos sentimentos e a solidariedade.
Esta Décima Tradição é uma das que nos exigem maior dose de
responsabilidade perante a sociedade e ate entre nós mesmos como Irmandade.
Ela diz: “Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção, cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes”. (poderemos incluir também a televisão).
Não usamos pessoalmente da promoção que fica por conta de nossos amigos jornalistas e pessoas entusiasmadas com o modo de ser do A.A. Simples e eficiente por colocarmos a atração como forma ideal em promover os meios.
Diz mais esta Tradição: “É mais do que uma negação do egoísmo”. Esta Tradição é um lembrete permanente e prático de que a ambição não tem lugar em A.A. Nela, cada membro se transforma num dirigente guardião da nossa Irmandade. Assim, não temos sonhos de riqueza, a Sétima Tradição nos ensinou
esta verdade; o A.A. deve ser pobre financeiramente e suas ambições controladas por nós mesmos.
Décima Segunda Tradição: “O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre de colocar os princípios acima das personalidades”.
—-A substância espiritual do anonimato é o sacrifício. —-
Até nossas contribuições para a Sétima Tradição são anônimas, optativas e sempre de acordo com a consciência individual e de suas responsabilidades.
Não é um gesto de esmolar, é uma contribuição à minha própria sobriedade.
O beneficiário em primeiro lugar sou eu e ainda aqueles que estão para chegar.

Rubens A./Paulínia/SP

Vivência Nº110 – Nov./Dez./2007.

SÉTIMA TRADIÇÃO

SÉTIMA TRADIÇÃO .
Há uma interdependência total entre a Recuperação, a Unidade e o Serviço. A CONSCIENTIZAÇÃO, inclui o exercício da sensação, da compreensão e do raciocínio, onde usamos a imaginação, a aspiração e a inspiração, que são revelações internas, divinas. A imaginação é função da mente, ocorre em revelação interior. Imaginando ideais, aspirando de acordo com o grau de nossa imaginação, uma ação de gratidão e com inspiração do Poder Superior, teremos sensações inusitadas e felizes de compreensão e raciocínio, que nos levam a ver bem definido o que éramos, o que seríamos se companheiros do passado não tivessem tido a clareza que agora temos, de obter meios (recursos) para agirmos como agiram (levar a mensagem) que chegou até nós e que agora pretendemos levar àqueles que ainda sofrem.
Ter consciência é ter conhecimento, ideia, noção clara de um fato ou de uma situação. Este conhecimento, será tão mais perfeito e sábio, quanto estiver vinculado ao Poder Superior, com desprendimento, amor, gratidão, sem critica só por contestar, sem colocações só para discordar, ou sem falar só para ser diferente. Quando temos consciência, do nosso verdadeiro estado de doentes, e de que nosso senso crítico está muito falho, e que nossos condicionamentos nos levam a situações inconscientes de descomportamento, às vezes por longo tempo, começamos a nos auto vigiar e a procedermos as mudanças necessárias para este objetivo maravilhoso, de vigiar-nos e ater-nos ao todo e ao fundamental e não ao acidental e a uma possível particularidade de interesse pessoal. Se nos conhecermos melhor e fiscalizarmos as motivações de nossas atitudes, estaremos tendo consciência de nosso estado e de nossos objetivos maiores: Os serviços que levam a mensagem, consolidam nossa sobriedade e felicidade. Desta conscientização depende o futuro de AA, e portanto as vidas dos doentes que virão.

CONTRI,BUIÇÃO – O MATERIAL E O ESPIRITUAL – HOMEM SER DUAL. Contribuição: Cota, quinhão, ato de contribuir. Nós os mais antigos, somos responsáveis, pelo grande equívoco, de afirmarmos e repetirmos, que o AA é de graça, que não se precisa pagar nada. Não somos obrigados a fazer nada por solicitação de AA como instituição, mas companheiros, se tivermos consciência de nossa realidade passada, presente e expectativa do futuro, contribuiremos espontaneamente e tão prodigamente quanto pudermos. Se entretanto continuarmos a exercitar nossa doença inconscientemente, acharemos sempre uma justificativa para não contribuir para com a Irmandade e acharemos até que a Irmandade deve ser grata com o pouco que fazemos, como se a Irmandade não fosse nós mesmos, uma coisa só, a partir dos Grupos, seguindo pelo Distrito, Áreas até a Conferência de Serviços Gerais. Irmãos, o AA somos nós, a responsabilidade pelas nossas vidas e de nossos irmãos doentes futuros é nossa, e sem contribuirmos generosamente, certamente teremos perdido o sentido de nossas vidas, morreremos e nossos futuros irmãos doentes não receberão por falta de contribuição nossa o que recebemos por contribuição dos que nos antecederam. Certamente companheiros, alguns de nós teremos mil razões racionalizadas, para justificar nossa não contribuição para com a Irmandade. As despesas com passagens são demais, os cartazes são muito caros, os encontros deveriam ser em alojamentos comuns, gastou-se muito com telefone , o computador foi muito caro, gasta-se muito com empregados e encargos sociais, estão nos impondo contribuições e “n” situações são enunciadas. Companheiros, quando não queremos contribuir, encontramos mil desculpas para não fazê-lo, mas quando estamos conscientes de nossas responsabilidades e necessidades, fazemos o inverso, contribuímos sim, e exigimos estudos, controle dos gastos, registros confiáveis, trabalho responsável, e aplicação dos recursos fundamentalmente no levar a mensagem certa, pelos veículos disponíveis e menos caros, à sociedade em geral, para que nossos irmãos doentes sejam atingidos e beneficiados como o fomos. Cumpramos a nossa parte, e exijamos que nossos órgão de serviço cumpram a sua. Não é deixando de contribuir e fugindo comodamente de nosso dever, que resolveremos nossos problemas. Vejam, ninguém nos obriga, mas nos obrigamos fazê-lo pela compreensão, pela gratidão e pela necessidade, não pelo perigo de bebermos, mas pela vontade de termos paz e sermos felizes, levando esse benefício a quantos pudermos. Não procedendo nós assim irmãos, poderemos morrer ou no mínimo levarmos uma vida infeliz, rancorosa, cheia de medos e sem paz; sem a habilidade de lidarmos com os problemas sem sofrermos, e ainda sem darmos a outros o que recebemos de graça por que alguém pagou, portanto paguemos para que outros recebam de graça, e sigamos nessa corrente permanente de vida e amor.

Material e espiritual: O ser humano é dual não existe homem sem ahna, nem homem sem corpo, o ser humano é corpo e alma. Sem pão e sem o alimento da alma (a oração, a meditação, a não prática do mal e a prática do bem) o homem é incompleto, desarmonioso, infeliz, sente um vazio sem lhe faltar nada objetiva e aparentemente. Portanto o material e o espiritual devem andar sempre juntos, é a maravilha da fusão do material e do espiritual para completar o ser humano.

A moeda, ou dinheiro, é apenas um instrumento de troca. Não há mal no dinheiro, pode haver mal no seu uso. O dinheiro não é um bem por si só, é para adquirir bens. Ele exerce uma função fundamental para levarmos a mensagem de AA junto com o amor, sem ele o AA morre, e isso acho que não queremos. AA não é só para nós, tornemos ele perpétuo com nossas contribuições generosas, para os irmãos do futuro e para aqueles que ainda no presente não conhecem nossa Irmandade. Rokfeler foi sábio, quando disse que deveríamos preservar nossa autonomia, com nossa auto-suficiência, o que só será conseguido com nossas contribuições responsáveis, permanentes e estáveis.

AÇÃO: Ajo quando contribuo, quando planejo, quando escolho o material e os veículos de distribuição e levo assim a mensagem. Esta açáo em caráter permanente é necessária para a perpetuação de AA. Entretanto, se não estou impregnado do espírito de gratidão pela compreensão do benefício que recebi e do amor pêlos meus irmãos doentes em AA e fora dele, talvez me seja difícil, contribuir e agir.
LEVAR A MENSAGEM CERTA: Para isso há uma função importantíssima. Conhecer AA e seus princípios, basicamente os três legados: Recuperação, Unidade e Serviço. Não posso falar nem informar sobre o que não conheço bem, sob pena de informar o que penso e o que quero e que certamente não representará os princípios de AA. Para conhecer é preciso estudar, frequentar reuniões de recuperação, temáticas, de estudos, de debates, seminários, o máximo que pudermos, e nunca saberemos demais. A humildade é fundamental. Precisamos sempre identificar o que a entidade ou a instituição quer. Se desejarem esclarecimentos científicos ou técnicos não é conosco, é para médicos e especialista, os aa(s) não devem fazer isto como aa(s). É importante termos consciência, de que informar não é dar um depoimento tradicional, é dizer o que é AA, quais seus princípios e objetivos, como funciona e onde está, citando breves experiências sobre tópicos importantes. Teremos que ser suficientemente humildes para não respondermos sobre assunto científico, médico, que não conheçamos ou sobre o qual tenhamos dúvidas. Poderemos dar indícios, do que indicará ser alguém alcoolista, mas jamais diagnosticar, deixemos isto para os médicos. Não devemos fechar questão, sempre dizer segundo entendemos ou é nossa interpretação sobre o assunto, até para não gerar controvérsia pública, a não ser coisa absolutamente clara, como não receber auxílio de fora sob qualquer forma. Sempre que possível, para palestras, a idade, o conhecimento, a profissão e a classe social do palestrante devem ser próximos da plateia respectiva. Isto é importante para que aja boa comunicação e compreensão da informação. Temos que humildemente entender que nós somos iguais entre nós, mas que lá fora a sociedade continua sendo como sempre foi, há os melhores e os piores, os comuns e os especiais, e a Irmandade deve ser bem representada para o público em geral. Nossa apresentação é importante, não por nós, mas pela Irmandade que representamos. Não é alguém que fala, é AA que está sendo apresentado. Cabelo cortado, barba feita, roupa limpa e não amarrotada, calça comprida, camisa abotoada, calcados limpos, postura simples, discreta e alegre, além do todo antes exposto, seriam atributos desejáveis para um palestrante de AA, não por ele mas pela Irmandade.

Com as considerações acima feitas, penso ter colocado o que parece necessário, útil e amoroso, para levar a mensagem aos irmãos que ainda sofrem e preservar AA para o futuro.

“Que o Poder Superior, nos encha de sabedoria, tolerância e compreensão, para acreditarmos em AA, contribuirmos conforme as possibilidades de cada um e agirmos levando a mensagem salvadora”.

Abraços fraternos, paz, luz e mais 24 h sóbrias.

arco.