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COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 9

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Deus todo-poderoso tem sido muito bom para mim, e acho que sei por quê. Hoje, acho que sei por que ele tem sido tão bom para mim. Porque, vejam bem, eu nasci no dia 4 de outubro, o qual, de acordo com o calendário católico, é o dia de São Francisco de Assis. Por ter nascido no dia de São Francisco de Assis, minha mãe me fez, quando criança, aprender aquela linda oração de São Francisco. Estou certo de que, se minha mãe tivesse sabido que essa oração tinha sido escrita por um pastor protestante, nunca teria permitido que eu a aprendesse, mas ela não sabia. E eu a aprendi.
Enquanto jovem, recitei a oração muitas e muitas vezes. “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver sombra, que eu leve a luz. E onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Senhor, fazei com que eu consiga mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna” .
Rezei essa oração muitas vezes em minha infância e em minha adolescência. E então o álcool tomou conta de minha vida e eu fiquei cheio de ódio, medo e ressentimentos. Perdi todo o respeito próprio. Odiei a mim mesmo e amaldiçoei o Deus que me criou, porque ele me tinha feito um irlandês que não podia usufruir do elixir da vida. Esqueci tudo sobre a oração de São Francisco de Assis. Como, em nome de Deus, poderia eu um dia transformar-me em um instrumento de sua paz?
Então, cheguei ao programa da AA e, por intermédio dos abandonados deste mundo, dos ex-convictos e da gente que a sociedade chama de escória da terra, aprendi que é dando que recebemos. Que é perdoando que somos perdoados. Que é amando que somos amados. E que é morrendo que nascemos para a vida eterna.
Aprendi que, algumas vezes, leva um longo, longo tempo para que nossas orações sejam atendidas. Mas acredito hoje, e creio de todo o meu coração, que a oração que rezei quando criança foi atendida 30 ou 40 anos mais tarde. Que eu me tornei um instrumento da paz de Deus. Que Deus tinha atendido minha oração. Mas, para fazer-me um instrumento de sua paz, Deus primeiro teve de me fazer um alcoólatra. Portanto, essa é exatamente outra razão para que eu agradeça a Deus, todas as noites de minha vida, por ser um alcoólatra.
Senti um grande interesse pela vida de São Francisco de Assis. Li todas as biografias e os livros sobre sua vida que conseguia obter. Finalmente, ao ler tudo aquilo, cheguei à conclusão de que São Francisco de Assis era também um alcoólatra. Sei quão chocante essa afirmação deve parecer para aqueles que se dizem profundamente religiosos. Bem sei que, por fazer essa afirmação, muita gente vai imediatamente fechar este livro e nunca mais ler uma linha sequer.
Deixem-me dizer-lhes, a vocês que estão prestes a fechar este livro: quem pensa ser um sacrilégio dizer que um santo é alcoólatra, age assim por não saber o que significa o alcoolismo. Muita gente, hoje em dia, sabe que o alcoolismo é uma doença. Mas a maioria acredita que é uma doença que não pode atacar um religioso. Vamos examinar, por um momento, quão irracional é essa crença. Se o alcoolismo é uma doença que pode afligir um ser humano, se santos são seres humanos, então por que não poderia um santo ser portador dessa doença?
Leiam, se o desejarem, como eu o fiz, a vida de São Francisco de Assis. Vocês vão descobrir que, em certa época de sua vida, ele esteve muito doente. Leiam como Katzenbach descreve o tipo de doença que o acometeu. Ouçam as histórias de alcoólatras, que contam sobre a doença que tiveram, e vocês vão concluir que São Francisco de Assis tinha os mesmos sintomas, as mesmas reações, as mesmas emoções que teve qualquer alcoólatra que já passou por este mundo.
Durante essa doença, São Francisco teve uma visão. Uma visão de que Cristo veio até seu quarto e lhe falou. Ele disse que ia deixá-lo recuperar-se daquela doença e que, quando o fizesse, queria que ele devotasse sua vida a ajudar os outros. Durante a visão, deu-lhe instruções sobre o que poderia fazer. Falou-lhe de uma igreja, distante muitas milhas, que estava arruinada e caindo aos pedaços. E disse-lhe que, assim que se recuperasse, a primeira coisa que deveria fazer seria encontrar aquela igreja e ajudar a reconstruí-Ia e a restaurá-la.
São Francisco recuperou-se e, com o Irmão Léo, viajou e encontrou a igreja. Ela estava desmoronando. Eles tinham trazido martelos, serras e pregos. Estavam trabalhando na igreja quando o velho padre que morava na casa paroquial, nas vizinhanças, ouviu o barulho e foi até a igreja. Lá encontrou Francisco e Léo trabalhan­do. Ele lhes perguntou: “O que estão fazendo?”. Eles responderam: “Viemos para reconstruir esta igreja”. O velho padre perguntou a Francisco: “Quem é você?”. E Francisco disse, “Eu sou Francisco _______”.
O velho padre conhecia o pai de Francisco, um rico comerciante de seda, na Itália. Ele disse: “É você o filho devasso e bêbado de ________? O filho que vai de taverna em taverna cantando para mulheres promíscuas, tocando seu violão?”. Francisco disse: “Sim, esse aí é exatamente quem sou”. Ao que o velho padre replicou: “O que, em nome de Deus, poderia o Todo­Poderoso esperar de alguém como você?”. Ao que São Francisco fez essa grande observação: “Padre, não é o que o Todo-Poderoso pode esperar de alguém como eu. É o que posso eu esperar do Todo-Poderoso”.
Então compreendi que nunca poderia esperar ser um instrumento da paz de Deus, mas Deus bem que podia esperar que eu me tornasse um instrumento de sua paz. Eu acho que me tornei, e esta é a razão por que estou escrevendo este livro: para mostrar por que estou feliz por ser um alcoólatra. É por isso que cada noite eu agradeço a meu Deus por fazer de mim um instrumento de sua paz. Para isso, ele teve que deixar que eu me tornasse um alcoólatra.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 8

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Preciso pedir a meus leitores, neste ponto, para voltar à proposição que tenho tentado explicar por todo este livro: que, enquanto o álcool aparecer em garrafas, o alcoolismo aparecerá em pessoas. Enquanto o uso excessivo do álcool apressa a completa destruição de todo indivíduo, a principal causa de sua infelicidade e de sua destruição final é ele ser detentor de certos defeitos de caráter e falhas de personalidade. Esses defeitos e falhas são muitos, mas o principal é aquele do qual todos os outros brotam: é o fato de o individuo ser absolutamente egocêntrico, o que resulta em arrogância e orgulho.
Estou também perfeitamente ciente do fato de que essa proposição será rejeitada pela maioria de meus leitores. É lamentável que pessoas egocêntricas, arrogantes e egoístas sejam completamente cegas para seu egocentrismo, arrogância e egoísmo. Estou também perfeitamente ciente de que qualquer um que tenha grandes objeções a essa afirmação e esteja absolutamente certo de que não é egocêntrico, arrogante e egoísta é aquele que necessita olhar para si mesmo com maior rigor. É por essa razão que eu, algumas vezes, desejaria saber se não estou perdendo meu tempo.
Admitindo, entretanto, que algumas pessoas vão ler um pouco mais, deixem-me agora demonstrar, da melhor maneira que sei, os efeitos do egocentrismo, da arrogância e do egoísmo. O indivíduo egocêntrico, a pessoa toda embrulhada em si mesma, como já disse, torna-se um pacote bem pequeno. É incapaz de se identificar com qualquer outra pessoa neste mundo. Como disse antes, a única coisa de que tenho certeza que alguém vai me dizer, quando eu o visito para ajudá-lo com seu alcoolismo, é: “Bem, isso é maravilhoso, mas, você sabe, eu sou diferente”.
A pessoa voltada completamente para si mesma e indiferente em relação a todas as outras pode, sem dúvida, jamais chegar a descobrir algo nos outros com que possa identificar-se. Essa é a razão por que, quando trazemos alguém novo para uma reunião da AA, pedimos-lhe para procurar identificar-se com quem está falando. Sabemos, quando lhe dizemos para tentar, que tarefa difícil estamos lhe pedindo para empreender. O alcoólatra não quer ser um alcoólatra e não quer identificar-se com ninguém. O alcoólatra tem uma enorme capacidade de racionalização e consegue sempre comparar a história que ouve com sua própria vida e apontar as diferenças. Ele quer fazer isso e pode fazê-lo. Portanto, ele o faz.
O problema é que, mesmo que tente fazer uma identificação, ele tenta identificar-se com lugares e acontecimentos em vez de com atitudes e emoções, em vez de identificar-se com falhas e defeitos de personalidade. Deixem-me contar-lhes duas histórias que são inteiramente diferentes, com diferentes acontecimentos, diferentes lugares, pessoas diferentes e diferentes tipos de pessoas, mas que, ainda assim, refletem o mesmo princípio.
A primeira história é sobre o meu mais próximo e mais querido companheiro da AA. Samuel e eu fomos criados na mesma cidade. Porém, vivemos em diferentes partes da cidade, em diferentes lados da estrada. Enquanto eu vivi em um lar decente e respeitável, e cercado por vizinhos também decentes e respeitáveis, meu amigo Samuel nasceu e foi criado em uma favela. Eu sabia que Samuel era um alcoólatra e Samuel sabia que eu também o era. Mas eu não sabia que eu era um alcoólatra e Samuel não sabia que ele também o era.
Samuel bebia nos botequins e eu nos lugares exclusivos, de alta classe. Mas, de vez em quando, Samuel e eu nos encontrávamos nos bares. Vocês sabem, eu bebia para ser aceito e notado. Começava nos lugares de alta classe e então, quando começava a ficar ruim, continuava caindo para lugares cada vez mais baixos. Finalmente, terminava nos botequins, onde pelo menos o pessoal podia me olhar, aceitar-me e dizer: “Ah, lá vem o juiz”. Eu podia oferecer drinques para aqueles que não podiam pagar.
Um dia em que Samuel estava muito bêbado e foi a um bar, o garçom recusou-se a servir-lhe um trago porque ele parecia muito embriagado. Ninguém jamais se recusou a servir-me um drinque. Garçons não se recusam a servir juizes. Têm receio do que pode acontecer com seus alvarás. Hoje sei qual teria sido minha reação se alguém, algum garçom, se recusasse a me servir um drinque. Poderia muito bem ter sido a mesma reação que Samuel teve.
Ele apanhou um recipiente de vidro para amendoins que estava no balcão, no qual se podia inserir uma moeda e obter um punhado de amendoins salgados, e o atirou no garçom. O objeto atingiu-o na cabeça e ele morreu.
Samuel foi detido pela policia e indiciado, sob acusação de assassinato em primeiro grau. Foi trazido à minha presença para julgamento. Naturalmente, sempre tive grande compaixão por qualquer pessoa que cometesse um crime em estado de embriaguez, já que sabia as coisas que podiam acontecer quando se está embriagado. Samuel ficou na prisão por muitos meses, aguardando julgamento. Eu consegui, com o promotor distrital, um acerto que pensei seria bom, muito bom, para Samuel. Em vez de se declarar culpado de assassinato em primeiro grau, ele teve permissão para acatar uma acusação por homicídio culposo e, assim, eu o condenei a um curto período na prisão.
Samuel foi para a cadeia. Contou-me que passou cada noite em sua cela planejando e tramando como, quando saísse da prisão, poderia me matar ou matar um ou mais de meus cinco filhos, para ajustar contas comigo.
Ele saiu da prisão, mas nunca encontrou ocasião propicia para executar seu plano. Muitos anos mais tarde, foi internado em um hospital de veteranos; lá disseram-lhe que ele era um alcoólatra e deveria ir à AA. Para encurtar a história, ele veio à AA e aqui Samuel e eu nos tornamos os mais chegados e queridos amigos.
Deixem-me contar-lhes apenas um caso da vida de Samuel. Quando soldado, durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses capturaram-no e o colocaram, com uma cavilha fincada em seus dois pés, em uma árvore, de cabeça para baixo. Eles o deixaram lá para morrer. Alguns soldados americanos que encontraram Samuel naquela condição retiraram-no da árvore e lhe disseram que tentasse voltar para suas linhas e para um hospital. Samuel teve de engatinhar durante noites.
Uma noite, enquanto se arrastava de volta a suas linhas, ele encontrou uma cabana japonesa e engatinhou para dentro dela. Na cabana encontrou 36 garrafas de saquê, uma bebida japonesa. Ao invés de tentar voltar para suas linhas, ao invés de se arrastar para um hospital onde pudesse salvar suas pernas e sua vida, o que vocês acham que Samuel fez? Se você é um alcoólatra, você sabe. Samuel ficou na cabana até consumir todas as 36 garrafas de saquê.
Por que Samuel fez coisa tão insana, tão ridícula?
Ele agiu assim porque foi acometido pela obsessão sobre a qual já falei, a obsessão que nos faz acreditar que o álcool é a coisa mais maravilhosa e mais gloriosa em todo o mundo. Que o álcool é o elixir da vida. Ele teve uma obsessão que o fez pensar que a coisa mais importante em toda a sua vida não era voltar para suas linhas, não era salvar suas pernas, não era salvar sua vida. A coisa mais importante em toda a sua vida era o saquê.
Agora, suponhamos que Samuel tivesse sido o principal orador na primeira reunião de AA a que eu compareci. Vocês pensam por um minuto que haveria alguma possibilidade de eu me identificar com ele? Eu nunca tinha sido um soldado. Nunca tinha sido capturado. Nunca tinha sido pendurado em uma árvore. Nunca precisei arrastar-me para chegar a um hospital. Eu era sempre transportado ao hospital em um Cadillac. Mas, hoje em dia, posso identificar-me com Samuel porque, tão logo minha mente se aclarou, recordei um fato que aconteceu nos primeiros estágios de meu alcoolismo, muito antes de eu aceitar que pudesse ter qualquer problema com a bebida. E é aqui que começa minha segunda história.
Quando eu era um jovem advogado, um grupo de homens procurou-me para intentar uma ação com base em uma lei, novinha em folha, decretada na administração de Franklin D. Roosevelt e conhecida como “Fair Labor Standards Act”. Era a primeira vez na história do país que uma lei fixava o salário mínimo a ser pago a um trabalhador empregado em comércio interestadual. Advoguei esse caso em todos os tribunais do Estado e fui derrotado em cada um deles. Como todo alcoólatra, ninguém jamais podia dizer-me que eu estava errado, e nenhum tribunal no Estado podia dizer-me que eu estava errado. Portanto, apelei para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos.
Acontece que meu processo foi o primeiro a alcançar a Corte Suprema para discutir a constitucionalidade da “Fair Labor Standards Act”. Portanto, quando veio o julgamento, o procurador geral dos Estados Unidos na administração de Franklin D. Roosevelt, profundamente interessado no resultado do caso, obviamente tinha interposto uma petição “amicus curiae”.
Eu havia aprendido algum tempo antes que, quando tivesse alguma coisa importante para fazer, não deveria beber. Tinha descoberto, por meio de tentativas e fracassos, que quando eu bebia não trabalhava com capacidade total. Sabendo que o caso mais importante da minha vida estava para ser apreciado pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos, parei de beber cerca de três semanas antes de o caso ir a julgamento.
Eu tinha, no escritório, um sócio mais velho que, levando-me até o trem para Washington naquela manhã, observou: “Bill, você está bastante nervoso com esse caso, não está?”.
“Sim, estou.”
“Deixe-me dar-lhe apenas um conselho. Quando estiver em Washington e entrar naquela bela corte de justiça com toda sua glória e todo seu esplendor, e você vir aqueles nove anciãos ocuparem a cátedra, lembre-se apenas de uma coisa: cada um deles, sob aquelas becas pretas, tem um par de calças. E cada um tem de pôr suas calças em uma perna de cada vez quando se levanta de manhã.”
Eu sustentei o caso contra o reitor de uma das mais famosas escolas de Direito do país. Depois que as alegações tinham terminado, o procurador geral e o corregedor geral vieram até mim e me congratularam pelo meu esplêndido desempenho aquela manhã no tribunal. Convidaram-me para, antes que voltasse para casa, almoçar com eles.
Ora, se você não é advogado e se não tiver praticado advocacia antes dos dias de John Mitchell, não pode imaginar o que significa para um jovem advogado do campo aquela oportunidade de almoçar com o corregedor geral e o procurador geral dos Estados Unidos. Aquele era, sem dúvida, o convite mais importante, a coisa mais importante que já havia acontecido em minha vida. O que acham que fiz? Agradeci ao procurador geral o convite, mas disse-lhe que não poderia aceitá-lo. Eu tinha de tomar o trem das 2 horas da tarde, de volta para casa.
Saí da Corte Suprema, desci os degraus do prédio do Supremo Tribunal, peguei um táxi e instruí o motorista para que me levasse ao bar mais próximo. Reparem, para preparar-me para aquele caso eu, por três semanas, abstive-me da coisa mais importante de toda a minha vida. Abstive-me do elixir da vida. Em vez de ir almoçar com o corregedor geral e o procurador geral dos Estados Unidos, fui a um bar. Não tomei o trem das 2 horas da tarde de volta para casa.
Três, quatro ou cinco dias mais tarde, apareci em casa na maior ressaca, com os olhos injetados, o rosto inchado e as mãos trêmulas, com vergonha de entrar. Meus filhos e minha mulher, ao invés de estarem orgulhosos pelo que seu pai e marido tinha feito, estavam profundamente envergonhados de mim. Tive que mentir­lhes sobre o que havia acontecido. E me sentia, é claro, incapaz de convencê-los da mentira.
Agora posso identificar-me com Samuel, porque as mesmas emoções, as mesmas reações, a mesma obsessão que forçou Samuel a ficar na cabana e consumir 36 garrafas de saquê fizeram-me recusar o convite mais importante de minha vida.
Muitos anos atrás, quando fui eleito para o cargo de juiz de meu condado, eu era o primeiro membro do meu partido político a ser eleito para esse cargo em toda aquela geração. Foi uma grande façanha. No dia em que prestei o juramento para tomar posse do cargo, estava cercado pelos membros de minha família. O salão do tribunal estava lotado por advogados e pelos chamados dignatários da comunidade. Repórteres lá estavam, com seus “flashs” espoucando. A cátedra estava coberta de flores. Eu estava muito orgulhoso daquela ocasião. Meus filhos e minha mulher estavam muito orgulhosos de mim.
Mas, o que faz um alcoólatra quando uma coisa importante ocorre em sua vida? Ele tem de celebrar. Portanto, ofereci um jantar, para o qual convidei todos os meus amigos e toda a minha família, e servimos champanhe. O que aconteceu naquela noite, é claro, foi que eu me embebedei e fiquei sarcástico, intratável e violento. Meus filhos e minha família ficaram com vergonha de mim. Na manhã seguinte, quando me levantei, estava transbordando de ódio de mim mesmo.
Um quarto de século se foi, muitos anos foram passados na AA aprendendo sobre alcoolismo, aprendendo sobre mim mesmo. Convenci o xerife do meu condado a permitir à AA manter reuniões na prisão, a qual ficava no edifício do tribunal. A primeira reunião foi realizada em uma sala diretamente abaixo do salão onde, 25 anos antes, eu fora empossado como juiz do condado. Nessa sala da AA, eu não estava cercado por dignatários e advogados, mas por detentos, meus companheiros da Alcoólicos Anônimos.
Um dos oradores em uma daquelas reuniões foi meu amigo Samuel. Ele contou sua história. Contou como eu o tinha condenado à prisão. Contou sobre as horas que passou, na cadeia, planejando e tramando como me matar. Contou sua lenta recuperação do alcoolismo e como ele tinha aprendido a me amar. E contou como, na AA, tinha aprendido que – durante todos aqueles anos horríveis que tinha passado na prisão, cheio de ódio, tristeza, autopiedade, medo e ressentimento – o juiz que o havia condenado, sentado em sua cátedra, morando em uma mansão, tinha, como ele, sofrido os mesmos remorsos, os mesmos ódios, os mesmos medos, as mesmas culpas e os mesmos ressentimentos.
Quando voltei para minha família, depois da primeira reunião na prisão, eu estava cercado pela mesma esposa e pelos mesmos cinco filhos. E, naquela ocasião, estava cercado também por um grande número de netos. Na ceia daquela noite, minha esposa, meus filhos e meus netos estavam muito mais orgulhoso de mim do que estavam no dia em que prestei juramento como juiz de meu condado.
Na manhã seguinte, em vez de estar repleto de remorso e pesar, estava repleto da coisa mais importante que um homem pode sentir em todo este mundo: estava transbordando de respeito próprio.
Este é somente um dos muitos exemplos em minha vida que me levam a estar cheio de gratidão por ser um alcoólatra.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 7

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Cinco ou seis meses depois de ter deixado Oak Hill, cheio de desesperança, tive uma experiência que, ao longo dos anos, iria ensinar-me o poder do amor. Aquela foi uma das muitas experiências, em minha vida, que fizeram com que eu me sentisse feliz por ser um alcoólatra. Uma jovem de 16 anos foi levada até mim, indiciada pelo grande júri com base em quatro acusações, todas representando graves delitos de roubo. Eu conhecia essa jovem desde que ela era um bebê. Ambos vivíamos na mesma comunidade, com uma população de cerca de 1.500 pessoas.
Em pequenas comunidades, todos se conhecem. Uns conhecem todos os defeitos e todas as falhas de caráter dos outros. Tudo se sabe sobre suas vidas íntimas.
A mãe dessa jovem era aleijada. Ela nunca viu sua mãe andar. No verão, eu via as crianças conduzirem sua mãe até o quintal. E lá ela se sentava durante todo o dia, em uma cadeira de rodas. Catarina foi concebida quando sua mãe era aleijada. O pai de Catarina era o bêbado da cidade. Não era mais bêbado do que eu. Eu bebi como ele muitas vezes. Porém, numa cidade pequena, quando se é um advogado ou um juiz, não o classificam de o bêbado da cidade. A sociedade impõe classificações diferentes para os bêbados que freqüentam o clube de campo e para os que bebem nos botequins.
Embora não soubesse disso naquela época, vim a saber mais tarde que quando Catarina fez 12 anos seu pai lhe deu, como presente de aniversário, um litro de vodca. Catarina e seu pai esvaziaram-no e ambos ficaram bêbados. A comunidade sabia que o pai de Catarina era um bêbado indigno e obsceno, do mesmo jeito que eu era quando estava bêbado. Ele costumava, ao vir para casa, agredir sua esposa em sua cadeira de rodas. Nunca fiz isso, porque minha esposa podia correr; além disso, eu tinha um filho, que é agora um de meus sócios na advocacia, que a protegeria.
A primeira vez em que mantive contato com Catarina, como juiz, foi quando seu pai a trouxe até mim para obter permissão para ela se casar. De acordo com a lei do Estado, ela não poderia casar-se sem o consentimento do Juizado de Menores daquela época, atualmente Vara de Família. Concedi a permissão e ela se casou.
Pouco depois de seu bebê haver nascido, tive, como juiz, novo contato com Catarina. Dessa vez, foi levada até mim pelo Departamento do Bem-Estar do condado, o qual a acusava de ser mãe negligente. Havia abundantes testemunhos que me convenceram de que não seria seguro a criança permanecer com a mãe. Retirei o bebê de Catarina e proferi despacho declarando-a incompetente como mãe. O marido de Catarina abandonou-a. Começou a circular com homens mais velhos. Assaltavam lojas de bebidas e postos de gasolina, dando a ela parte do roubo por lhes dar cobertura. Ela usava todo esse dinheiro para beber.
Agora ela estava em pé, diante de mim, no tribunal do condado, já se tendo declarado culpada em quatro acusações por delitos que lhe eram atribuídos. É altamente discutível se eu deveria ou não estar orgulhoso de meu recorde até aquela data. Ocupava o posto de juiz do condado já por 14 anos e jamais havia mandado uma só mulher para a prisão estadual. Eu conhecia o passado daquela jovem. Sabia que ela nunca tinha tido uma chance. Sabia que a prisão a tornaria pior em vez de melhor. Sabia que ela merecia uma oportunidade. Assim, condenei-a a não menos de dois e não mais do que cinco anos, em uma prisão de mulheres. Mas suspendi a execução de sentença, dependendo do seu bom comportamento, e coloquei-a em liberdade condicional por cinco anos.
Entre outras condições de sua liberdade, determinei que ela não poderia freqüentar bares e que, durante todo o tempo, deveria abster-se de ingerir bebidas alcoólicas. Claro que sei hoje que não se pode amedrontar um alcoólatra. Eu estava sempre demonstrando compaixão pelos alcoólatras. Naturalmente, todo alcoólatra mostra compaixão por qualquer outro alcoólatra. Eu achava que os alcoólatras podiam ser amedrontados. Costumava prolatar sentenças e, depois, suspender sua execução. Assim como agi com Catarina, agi com outras pessoas. E costumava dizer a mim mesmo, pois ainda não me conhecia ou não me entendia, que se eu tivesse uma sentença de prisão pendendo sobre minha cabeça, eu jamais, em nenhuma circunstância, tocaria em um pingo de álcool. Mas hoje sei que isso não é verdade.
É claro que Catarina, como qualquer outro alcoólatra, não parou de beber. Sua mãe tinha morrido. Sua avó também. Seu marido a abandonara. Ela não tinha lar. O Departamento do Bem-Estar lhe havia recusado qualquer assistência. Ela estava dormindo em qualquer lugar, ou com quem a aceitasse. Algumas vezes dormia em adegas, outras vezes em garagens e continuava a beber. Tornou-se exatamente como seu pai e exatamente como eu tinha sido – uma mesquinha e intratável bêbada. Meteu-se em discussões e brigas de botequins. Seus dentes todos tinham sido arrancados de sua boca.
Depois da segunda ou terceira detenção, o Departamento de Liberdade Condicional lavou suas mãos em relação a ela e, conseguindo um mandado de prisão, colocou-a na cadeia e recorreu ao promotor distrital. Este a trouxe à minha presença, requerendo que eu cancelasse a suspensão de execução da sentença e a mandasse, de acordo com o julgamento original, para a prisão feminina.
O que podia eu fazer com aquela criança? Eu sabia que ela era uma alcoólatra. O Departamento de Liberdade Condicional não queria mais saber dela. Ela não tinha um lugar para morar. Não tinha para onde ir. Eu sabia que ela não podia parar de beber. Eu jamais me havia visto em tão precária posição e, assim, adiei para mais tarde daquele mesmo dia a audiência.
Durante o recesso, pedi a Deus todo-poderoso que me iluminasse naquela importante decisão. Entrei em contato com a prisão feminina e perguntei ao diretor se havia ali reuniões de Alcoólicos Anônimos. Ele me perguntou qual a idade da jovem.
“Ela tem 16 anos.”
“Não, não temos reuniões de Alcoólicos Anônimos para ninguém com menos de 30 anos.”
Então pensei em Sueli, que me havia dado paraldeído em Oak Hill. Lembrei-me de sua história quando criança. Ela tinha ido para a cadeia e tido problemas com a polícia. Eu gostaria de saber se Sueli abrigaria aquela jovem. Telefonei a ela e contei-lhe a história de Catarina. Contei-lhe que a jovem não tinha dinheiro. O Estado não ofereceria a ela qualquer ajuda financeira. Ou alguém a tomaria sob sua custódia ou eu teria de mandá-la para a prisão.
Sueli respondeu: “Bill, eu não deixaria qualquer criança que fosse alcoólatra ir para a prisão. Traga-a para cá e tomaremos conta dela”.
Gostaria de conseguir descrever a jovem enquanto eu estava comunicando minha decisão. Seus dentes tinham sido todos arrancados. Seu rosto estava sujo; não era lavado há meses. Seu cabelo estava todo embaraçado. Ela tinha grandes olhos castanhos, os maiores olhos castanhos que eu já vira. E eles estavam injetados de sangue. Suas mãos estavam tremendo pela falta de álcool.
Quando eu lhe disse que iria ser confinada em um centro de tratamento para alcoólatras, ela gritou, vociferou e deu pontapés. Ela preferia ir para a cadeia do que ser rotulada de alcoólatra. Essa não é uma reação incomum em um alcoólatra. Tenho visto isso muitas e muitas vezes. Tenho ouvido coisas assim muitas vezes na AA.
Levaram Catarina para Oak Hill. Demorou muito para que o amor de outros alcoólatras pudesse acender a chama de divindade que havia nela, precisamente como todo indivíduo que já nasceu neste mundo teve nele a centelha colocada por Deus. Aquela chama de divindade levou um longo tempo para brilhar. Mas chegou o dia em que ela estava pronta para admitir que era alcoólatra. Chegou o dia em que ela iria prestar seu primeiro depoimento em uma reunião da AA. Telefonou-me e pediu para que eu, por favor, estivesse presente.
Catarina tornou-se conhecida como o pequeno anjo de Oak Hill. Auxiliou centenas de alcoólatras a recobrar a sobriedade. Onde quer que eu fale em uma reunião de AA, alguém pergunta: “Como está a pequena Catarina?”. Eu lhes falo sobre Catarina, que ela está casada com um agricultor. Eles trabalham juntos numa grande fazenda e têm uma bela família. Ele é um membro bastante respeitado em sua comunidade.
Cerca de quatro anos depois de ela ter ido para Oak Hill, Catarina e eu fomos ao tribunal novamente. Mas, desta vez, eu já estava aposentado como juiz e estava dedicando todo o meu trabalho à prática da advocacia. Iniciei uma ação, na Suprema Corte do Estado, para anular seu casamento anterior. Ela foi ao tribunal. Depôs sobre todos os acontecimentos de sua vida. Relatou sua infância. Contou sobre sua condenação por roubo. Contou como eu lhe tinha tomado a filha. Contou sobre sua reabilitação.
Com ela eu trouxe, como testemunha, a chefe do Departamento de Liberdade Condicional – a mulher que se havia recusado a mantê-la sob liberdade condicional; a mulher que tinha declarado que Catarina era uma depravada; a mulher que dissera que Catarina era, de longe, a pior pessoa que ela já tivera sob liberdade condicional. Ela testemunhou ao juiz que, em todos os seus 40 anos de experiência no Departamento de Liberdade Condicional, nunca havia presenciado um milagre como o que acontecera com Catarina. Ela contou ao juiz que eu fora a única pessoa em todo este mundo que tinha depositado fé em Catarina.
O juiz concedeu a anulação. Devolveu a Catarina a guarda da criança que eu lhe havia anteriormente retirado. Quando ele o fez, na sala de audiências, Catarina abraçou-me e beijou-me na face. As grandes lágrimas que poucos anos antes tinham rolado por sua face e lavado a sujeira de seu rosto, agora rolavam por uma face bonita, por um rosto feliz.
Não sei quantos milhares de juizes há neste mundo, mas duvido muito que haja um só que já tenha experimentado a sensação de alegria que invade o coração de um homem quando uma jovem mulher, a quem ele tinha antes condenado à prisão, uma mulher cuja criança lhe tinha sido arrancada por ter sido considerada mãe negligente, abraça-o na sala de audiências e lhe diz o quanto o ama.
Depois que deixamos a sala de audiências, Catarina e eu estávamos com o oficial da liberdade condicional. Nesse momento, um oficial informou-me que o juiz desejava ver-me em seu escritório. Entrei em sua sala e o juiz disse-me: “Juiz, aquela menina é um milagre. É o maior milagre que já vi desde que me tornei juiz”. E eu respondi: “Sim, juiz, ela é um milagre. E milhares de outros milagres lá fora, no mundo, poderiam ocorrer exatamente como este, se a sociedade apenas tentasse compreender o alcoolismo”.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 6

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Durante os 36 meses seguintes, continuei muito ativo no programa da Alcoólicos Anônimos. Continuava a depor nas reuniões, em toda a área. Eu, na verdade, não tinha aprendido absolutamente nada sobre o programa, a não ser seu primeiro passo, que diz: “Admitimos que éramos impotentes diante do álcool, que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”, e o décimo segundo, que diz: “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólatras e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.
Na verdade, como hoje verifico, eu sabia muito pouco sobre qualquer dos Doze Passos. Quanto ao primeiro, tinha chegado à conclusão de que o motivo de eu não poder dirigir a minha vida era por ser impotente diante do álcool. Os fatos são justamente o oposto: eu me tornara impotente diante do álcool porque, desde menininho, nunca pudera lidar com minha vida. Quanto ao décimo segundo passo, eu tinha pouco ou nenhum conhecimento sobre ele, porque não havia tido um despertar espiritual; não podia, pois, praticar os 12 passos em todas as minhas atividades, porque não havia estudado, entendido ou praticado os 11 passos anteriores.
De qualquer forma, não bebi e eu e minha família pensamos que isso era maravilhoso. Mas, vejam bem, não tendo estudado ou praticado os outros 11 passos, eu ainda não havia feito coisa alguma para mudar minha vida; ainda não havia aprendido nada sobre como enfrentar a vida. Portanto, por 36 meses, embora eu estivesse ativo na AA, falava somente sobre os efeitos físicos do álcool.
Suponho que uma das principais razões por que eu não prestava qualquer atenção aos 12 passos da AA era que, como muitos outros que são novos no programa, acreditava que os 12 passos da AA e os 10 mandamentos eram uma coisa só. Como eu tive uma educação religiosa muito boa, achava que não havia necessidade de estudar os 10 mandamentos. Ao rever o meu passado, parece-me impossível que já tenha podido pensar que os 12 passos da AA e os 10 mandamentos fossem uma só e mesma coisa. Eu tinha passado toda a minha vida estudando as leis, interpretando estatutos e decisões dos tribunais e, quando comparo hoje os dois, não vejo a menor semelhança, em nenhum aspecto, forma ou maneira, entre os 10 mandamentos e os 12 passos da AA.
Sei que não é incomum para o pessoal novo chegar a essa falsa conclusão.
Lembro-me bem de um amigo muito querido, que chegou à AA mais ou menos ao mesmo tempo em que eu. Ele é uma das pessoas importantes que recentemente admitiram, publicamente, seu alcoolismo. É, hoje, o provincial para os Estados Unidos da América de uma das maiores ordens religiosas no mundo. Quando ele era novo no programa da AA, eu o ouvi falar uma noite e descrever o diálogo com um de seus companheiros, padre da organização, sobre a AA.
O padre disse: “Tenho notado a mudança impressionante que tem ocorrido em sua vida desde que você foi à AA. O que você me diz sobre isso?”.
Padre Estêvão respondeu: “Aqui estão os 12 passos da AA. Está tudo aí”.
No dia seguinte, o outro padre falou com ele e disse: “Li os 12 passos da AA e não vejo qualquer diferença entre eles e os 10 mandamentos de Deus. Há alguma diferença?”.
“Claro que há.”
“Qual é?”
“Resultados.”
Mas hoje sei que há toda a diferença do mundo entre os 12 passos da AA e os 10 mandamentos. Os 10 mandamentos de Deus dizem aos homens o que eles não devem fazer. Os 12 passos da AA são sugestões do que os homens devem fazer, se desejarem amadurecer espiritualmente. E se tais sugestões são seguidas, qualquer homem ou mulher, não importa que seja ou não alcoólatra, pode amadurecer espiritualmente.
Uma vez que um indivíduo amadureça espiritualmente, os 10 mandamentos de Deus, não são, de modo algum, dissuasores para ele. Um indivíduo espiritualmente maduro não tem deuses estranhos. Ele não adora imagens esculpidas. Um indivíduo espiritualmente maduro santifica não somente os dias santos, mas cada dia de sua vida. E ele age assim não porque tenha sido obrigado a fazê-lo, mas porque desfruta os dias santos e sabe que os dias não santificados lhe causam dor, sofrimento, remorso e arrependimento.
Eu poderia prosseguir com cada um dos outros 10 mandamentos. Um indivíduo espiritualmente maduro não mata, não rouba, não presta falso testemunho contra seu próximo. Não sente inveja ou cobiça pelos bens de seu próximo, ou pela mulher de outrem. Não faz essas coisas porque há um mandamento de Deus que lhe proíbe fazê-las. Ele assim age porque sabe que, se violar os mandamentos de Deus, estará destruindo, ele próprio, a felicidade e a alegria que encontrou na vida por não fazer essas coisas.
Os 10 mandamentos de Deus não impedem o indivíduo espiritualmente maduro de violá-los, assim como uma fechadura numa porta ou um cofre impede um homem honesto de entrar em lugares nos quais ele não deveria entrar, ou de apropriar-se de bens ou propriedades que não lhe pertencem. O homem espiritualmente maduro não é honesto somente porque sabe que essa é a melhor política. O homem espiritualmente maduro é honesto mesmo quando sabe que essa pode não ser a política mais conveniente. Ele age assim porque o indivíduo espiritualmente maduro sabe que, quando não vive de acordo com seu próprio código moral de conduta, pune a si mesmo mais que qualquer Deus ou qualquer autoridade poderia puni-lo.
Acredito firmemente que as únicas pessoas que conhecem o horror, a miséria, a dor e o sofrimento que o homem inflige a si mesmo, pela violação dos mandamentos de Deus, são aquelas que os violaram e depois entraram para esse novo mundo que estou tentando descrever neste livro; atingiram, então, a compreensão plena da punição que estavam impondo a si próprias.
Eu não sei quem inventou o diabo e o pecado original, mas sei que quem quer que os tenha inventado era um alcoólatra, ao menos em potencial, porque o diabo e o pecado original são as racionalizações que todo alcoólatra em potencial usa para culpar, por todos os seus pecados e todos os seus erros, alguém ou alguma coisa que não seja ele próprio (*). * {Nesta passagem, ao culpar o diabo e o pecado original, o autor pretende explicar que o alcoólatra sempre procura um “bode expiatório” para justificar seus erros. (Nota do Revisor.)}
Sei, hoje, pelo que tenho aprendido desde então, que ajudei muitos alcoólatras, protegi alcoólatras como eu a atingir a sobriedade. Eles conseguiam identificar-se comigo, porque tampouco tinham sido presos, nunca tinham ido para a cadeia, nunca tinham ido à falência, nunca tinham sido abandonados por sua mulher ou filhos, nunca perderam seu emprego. Muitas dessas pessoas jamais tomaram outro gole, mas eu tomei.
Não sei dizer agora o que me levou a tomar um drinque. Não consigo dizer que problema, que dificuldade apareceu e que eu não pude contornar. Tudo o que eu sei é que o que está escrito no 5.° capítulo do Grande Livro de Alcoólicos Anônimos é, sem qualquer dúvida, verdadeiro: que eu me havia tornado ou sempre fui (qual dos dois, eu não sei) uma daquelas pessoas que não podiam, ou não queriam, “ser honestas consigo mesmas”. Assim, certa vez, fiquei acordado a noite toda, agitando-me e rolando na cama até que, ali pelas 5 da manhã, desci para o bar e me servi de um drinque.
Aquele único drinque fez em mim o que eu vinha insistindo em todas as minhas palestras que iria acontecer aos outros, se eles tomassem um drinque. Que ele iria estabelecer a compulsão física em seus corpos, a qual iria exigir um outro drinque. Que força de vontade jamais poderia impedi-los de tomar o próximo drinque. Força de vontade funciona com muitas coisas, mas não funciona em se tratando de compulsão física. Se não acreditam nisso, algum dia, quando tiverem um caso grave de diarréia, tentem usar sua força de vontade.
E foi assim que, três horas depois, eu desisti de tentar não tomar o segundo drinque e tomei mais dois. Então lembrei-me de que eu e minha mulher tínhamos um compromisso naquela noite: iríamos sair com alguns membros da AA. Subi as escadas e, dirigindo-me para minha mulher, que estava se vestindo, disse: “Acho melhor você entrar em contato com o pessoal e dizer que não vamos sair esta noite”.
“Por quê?”
“Porque eu recomecei a beber.”
Ela estava tão certa de que eu jamais voltaria a tomar um gole que sorriu e disse: “Não brinque com essas coisas”.
Eu respondi: “Não estou brincando”.
Ela disse: “Está, sim”.
Eu disse: “Bem, vamos lá para baixo e veja você mesma”.
Descemos, coloquei a garrafa da bebida sobre a mesa, preparei um drinque e bebi na frente dela. Jamais esquecerei a expressão que se estampou em sua face. Ela chamou todas as crianças. Elas se juntaram ao meu redor. Todos me imploravam: “Papai, papai, por favor, pare. Pare agora. O senhor ficará bem”.
Ora, eu já tinha tentado ajudar um número suficiente de pessoas para saber que não se pode deter um alcoólatra no meio de uma bebedeira. Portanto, eu disse: “Não, já que comecei, vou acabar com isso”.
O resto da história tiveram que me contar, porque naquele momento eu tive um “blackout”. Contaram-me que bebi quase um litro de uísque em aproximadamente uma hora. Durante aquela hora, minha esposa chamou dois membros da AA, que atenderam ao seu apelo e vieram a minha casa, um deles um famoso cirurgião. Eram meus melhores amigos. Insultei-os, xinguei-os de nomes horríveis e imorais. Amaldiçoei a AA e seus princípios. Vociferei e gritei, dirigi palavras rudes e imorais ao pessoal, atirei pratos, bati de encontro aos móveis. Meus dois amigos da AA foram para uma outra sala de minha casa e rezaram para que eu desmaiasse antes que a polícia viesse – e eu desmaiei.
Na manhã seguinte, acordei em um lugar estranho, metido em uma camisa-de-força. Uma jovem, que eu conhecia, estava de pé ao lado de minha cama, com um copo de paraldeído na mão. Essa moça era minha amiga, um membro da Alcoólicos Anônimos que dirigia um centro de reabilitação para alcoólatras. “Sueli, onde estou?” – perguntei.
“Você está em Oak Hill.”
“O que, com todos os diabos, aconteceu?”
“Ora”, ela disse, “nada de estranho aconteceu. Você é um alcoólatra. Você sabe que é um alcoólatra e tomou um trago. Sabia o que ia acontecer quando tomou seu drinque, e aconteceu mesmo. Você tomou um drinque, estabeleceu-se uma compulsão física em seu corpo que o forçou a tomar outro drinque, e mais outro, e você ficou violento, mesquinho, intratável e acabou em um centro de tratamento para alcoólatras.”
Ela prosseguiu: “Não há absolutamente nada de estranho nisso, e absolutamente nada que você não soubesse que ia acontecer quando tomou seu primeiro trago. O estranho foi que, por 36 meses, você não tomou um drinque, não ficou violento, mesquinho e intratável e não acabou em uma camisa-de-força em um centro de tratamento para alcoólatras. Isso é que foi estranho”.
Bem, já falei sobre a desesperança e o desespero que havia em meu coração quando fui dispensado do hospital, depois de ter sido dado como morto e antes de chegar à Alcoólicos Anônimos. Já lhes contei como, em muitas ocasiões, quando eu estava falando por toda a parte leste dos Estados Unidos, contei às pessoas que havia somente uma coisa sobre um alcoólatra a respeito da qual eu poderia dar garantia por escrito: se ele tem problemas e toma um drinque depois de ter jurado deixar de fazê-lo, da próxima vez será pior. Tive de provar aquelas palavras para mim. Espero nunca ter que prová-las novamente.
Um membro da AA veio a Oak Hill e levou-me para casa, um pouco mais cedo do que eu deveria ter voltado. Mas o primeiro dos meus 11 netos tinha nascido e eu deveria estar em casa para seu batismo. Esse membro da AA entrou em casa comigo. Graças a Deus que ele o fez.
Tendo atuado como advogado de júri por muitos anos, eu havia aprendido como ler rostos. Minha esposa saudou-me com um simples: “Olá, como está?”. Não disse qualquer outra palavra. Ela não precisava dizer mais nada. Eu sabia, pela expressão de seu rosto, que tinha machucado seu coração e que ela preferia que eu jamais tivesse nascido. Hoje reconheço que aquilo foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu; aquela era exatamente a sensação que eu sentia. Também desejei, naquele dia, que Deus nunca me tivesse criado. Eu sabia que era um bêbado sem esperanças, sem valor, que não servia para nada, que não podia manter-me sóbrio nem mesmo com a AA.
Em minhas palestras na AA, eu tinha contado ao pessoal que 25% das pessoas que chegam à AA absorvem a mensagem na primeira vez, que 50% delas absorvem-na algum dia, e que 25% delas nunca o fazem. Naquele momento, eu sabia que estava entre os 25% que nunca a absorveriam e que iria morrer como um bêbado sem esperanças, sem valor e que não servia para nada.
Se há algo em que o pessoal da AA acredita, é que somente um alcoólatra consegue entender outro alcoólatra. Aqui estava uma situação em que nada foi dito. Não houve briga, não houve discussão. Mas meu amigo da AA que me havia trazido para casa sabia exatamente o que se passava em meu coração e, com voz muito calma e baixa, me disse: “Bill, acho que seria uma boa idéia se você viesse comigo para minha casa por esta noite”.
Toda noite agradeço a Deus por ele me haver dito aquilo e por eu ter ido, porque se ele não o tivesse feito, eu tinha decidido que, no momento em que ele saísse pela porta, eu me mataria. O medo do inferno já não era mais suficiente para deter-me.
Fui para a casa dele, naquela noite. Logo após o jantar, Brandão disse: “Acho melhor irmos para Springfield, para uma reunião”.
Eu disse: “Não, Brandão, a AA não resolve para mim. É uma organização maravilhosa, sensacional. Tem ajudado milhares de pessoas. Mas eu sou um dentre os 25% que nunca vão conseguir. Vou morrer como um alcoólatra desesperado e desamparado”.
“Bem, Bill”, ele disse, “eu quero ir. Eu preciso ir. Por que você não me faz companhia?”
Ele tinha sido tão maravilhoso para mim, dirigira muitos quilômetros para me levar para casa e, depois, me levara para seu lar. Em vista disso, eu disse: “Certo, vou acompanhá-lo, mas isso não vai me fazer bem algum”.
Chegamos ao local da reunião em Springfield antes de qualquer outra pessoa, com exceção de um velho veterano, Artur, um companheiro bem mais idoso que eu. Ele estava na cozinha fazendo café. Ao entrarmos, Artur cumprimentou-me: “Olá, Bill, como vai?”.
“Oh, Artur, estou realmente péssimo”, respondi.
“O que você quer dizer com isso?”
“Acabo de sair de um centro de reabilitação para alcoólatras.”
“Bem, Bill, você está de volta. Estamos felizes por vê-lo. “
“Sim, eu vim com Brandão. Mas, veja, eu não vou conseguir. Eu sou um dos 25 %, um daqueles alcoólatras sem esperança e a quem não se pode ajudar. Eu vou morrer bêbado.”
Ele me abraçou e disse: “Ah, Bill, por favor, por favor, não nos abandone. Você sabe, nós precisamos de você. Nós queremos você. Nós amamos você”.
Nada, absolutamente, havia em comum entre mim e esse veterano.
Ele era muito mais velho do que eu. Ele era um republicano e eu, um democrata. Ele era americano e eu, irlandês. Ele era protestante e eu, católico. A única coisa que tínhamos em comum é que éramos, ambos, alcoólatras. Mas havia alguma coisa no tom de sua voz. Alguma coisa no modo como dizia aquelas palavras que me fez sentir que aquele velho sujeito realmente sentia o que falava. Essa gente precisa de mim. Eles me querem. Eles me amam. E eu pensei sobre a situação quando voltei para casa. Não havia qualquer outra pessoa neste mundo que precisasse de mim, que me quisesse, que me amasse. Portanto, decidi ficar. Graças a Deus, decidi ficar.
Comecei tudo de novo. Novamente, fui a reuniões. Certa noite, em uma reunião, um veterano veio a mim e me entregou um cartão. No cartão havia um poema que eu tinha aprendido quando jovem. Ele disse: “Excelência, leia isto aqui. Um sujeito como o senhor deveria lê-lo duas ou três vezes. Um sujeito como o senhor deveria sabê-lo de cor”. Era o poema “O Homem no espelho”:
Quando você consegue tudo o que quer,
Quando o mundo faz de você rei por um dia,
Vá até o espelho, olhe para si mesmo
E veja o que aquele homem tem a dizer.
Porque não é de seu pai, de sua mãe, de sua esposa,
Que deve ser ouvido o julgamento a seu respeito.
O veredicto que mais importa em sua vida
É do sujeito que, do espelho, olha para você.
Ele é o sujeito a quem se deve agradar,
Todos os outros não interessam.
Pois ele está com você até o fim.
E você terá superado
seu mais difícil e perigoso teste
Quando o homem no espelho
mostrar-se seu amigo.
Algumas pessoas podem dizer
que você é um companheiro alegre e bom,
Podem chamá-lo de sensacional,
Mas o sujeito do espelho
dirá que você é apenas uma bela porcaria,
Se você não puder olhá-lo direto nos olhos.
Você pode enganar o mundo inteiro
ao longo de sua vida,
Pode receber palmadinhas nos ombros
quando passar,
Mas sua recompensa final
será remorso e lágrimas,
Se você tiver enganado o sujeito do espelho.
De um modo ou de outro, naquela noite eu entendi que aquele poema tinha sido escrito para mim. De algum modo, soube que meu problema não havia sido a bebida; que meu problema tinha sido eu próprio. Que eu era um daqueles mencionados no quinto capítulo do livro “Alcoólicos Anônimos” que não tinham sido honestos consigo mesmos, e que minha recompensa final seria remorso e lágrimas, porque eu tinha enganado o homem do espelho. Portanto, decidi que teria de começar a trabalhar arduamente nos outros 11 passos da Alcoólicos Anônimos, todos eles tendo a ver com aprender a viver, a amar e a lidar com a vida.
Durante meus anos como juiz do condado, servi também como juiz do que é agora conhecido como Vara de Família. A Vara de Família tem jurisdição no condado sobre as crianças abandonadas e delinqüentes. Uma família, em especial, era constante fonte de aborrecimentos. Essa família era numerosa e os pais estavam constantemente sendo acusados de não cuidar de seus filhos. Uma determinada ocasião sobressai-se bem claramente em minha memória. Uma das meninas da família, com cerca de 13 anos, ficou grávida e o Departamento do Bem-Estar recolheu-a, tirou-a da família e a colocou, temporariamente, em uma casa maternal. Para mantê-la em um abrigo maternal, eles tinham de obter uma autorização judicial expedida por mim. A mãe chegou ao meu escritório antes da filha. Ela era, sem dúvida, a mulher mais gorda que eu já tinha visto em minha vida. Devia pesar mais de 200 quilos. Ocupou, para sentar-se, duas cadeiras do escritório. A porta do escritório foi aberta e, acompanhada por um funcionário do Bem-Estar, a menina entrou. Quando a filha viu a mãe, começou a chorar. Correu para junto da mãe, pulou para seu colo e disse: “Mãezinha, mãezinha, cante para mim”. A mãe cantarolou as palavras de uma canção “pop” intitulada “Goody Goody”, que conta uma história triste a respeito de um fracassado no amor e termina com uma frase manifestando esperança de que o fracassado sinta-se satisfeito com seu destino.
Isso ocorreu quando eu ainda estava bebendo. Naquela época, não somente achei que aquela fora a cena mais engraçada que eu já vira, como também achei que fora a cena mais triste que já presenciara. Hoje, minha atitude é diferente. De um modo ou de outro, acredito que essa mãe tinha, intuitivamente, aprendido a viver como os membros da AA aprendem. Aprendemos a viver segundo a oração mais maravilhosa já escrita: “Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”.
A jovem estava grávida, somente um pouquinho grávida, mas, da mesma forma que ser só um pouquinho alcoólatra, ela estava grávida. E justamente como ocorre em relação a tudo que já aconteceu, não há nada que possamos fazer a não ser aprender a aceitar o fato. “O dedo que se move escreve e, tendo escrito, continua se movendo; nem toda a nossa piedade e inteligência pode atraí-lo de volta para cancelar sequer meia mentira, nem todas as nossas lágrimas lavam uma só de suas palavras.”
Sendo alcoólatra ou estando grávida, podemos nos rebelar contra isso, podemos chafurdar-nos em auto­piedade, podemos lutar contra isso, podemos nos recusar a aceitar a menina grávida, podemos renunciar a ela, podemos afastar-nos dela, podemos encher nossas vidas com ódio, remorso e ressentimento. Ou podemos aceitar o fato e até mesmo cantar a seu respeito.
Assim, muitas vezes penso sobre essa experiência no tribunal e mudo um pouco as palavras daquela canção: “Eu encontrei um negócio chamado álcool, e ele me fez quase cair de costas; que bom, que bom. Eu encontrei esse troço e agora eu sei como é; que bom, que bom. Viva, Aleluia, porque isso me aconteceu, e estou satisfeito, velhaco que sou”.
As coisas que tenho aprendido sobre mim, as coisas que tenho aprendido sobre o mundo no qual vivo, as coisas que tenho aprendido sobre as pessoas deste mundo e as coisas que tenho aprendido sobre o Deus que me criou tomarão conta de todo o resto deste livro e irão, espero, dar idéia de por que eu me sinto feliz por ser um alcoólatra.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 5

5

Uma das razões por que sou feliz por ser um alcoólatra é que, por ir à AA e trocar experiências de vida com outras pessoas, tornei-me suficientemente honesto comigo mesmo para descobrir, para minha surpresa, que sou uma pessoa comum, semelhante ao próximo. Não há absolutamente nada de excepcional em mim. Eu não sou excepcionalmente inteligente. Não sou excepcionalmente abençoado e não sou excepcionalmente amaldiçoado.
Ao descobrir que sou comum, um ser humano como todos os outros, estou agora aprendendo a enfrentar a vida. Todas as dores de cabeça e misérias do passado ocorreram não porque eu tivesse sido amaldiçoado por Deus, mas porque não sabia como lidar com elas. Todos os seres humanos têm problemas. Todos os seres humanos cometem enganos. Anjos, ensinaram-nos, jamais têm problemas ou complicações. Anjos nunca cometem enganos. Mas os seres humanos têm problemas, complicações e cometem enganos. A diferença entre a pessoa feliz e alegre e a pessoa triste, desamparada e deprimida, depende inteiramente de sua reação aos problemas, complicações e enganos.
Um jogador de beisebol maneja o taco no jogo três vezes. Por duas vezes ele bate para fora. Na terceira, acerta o alvo. Ele está acertando 33% do tempo. Aqueles que conhecem o beisebol classificam-no como um excelente batedor. Todavia, ele bateu para fora duas vezes e acertou apenas uma. É o jogador egocêntrico, o jogador que não sabe que é igual a qualquer outro homem e mulher que Deus criou, que atira o taco e agride o árbitro quando bate para fora. Muitas vezes, as minhas dores de cabeça, tristezas, misérias, sofrimentos e ódios resultavam do fato de eu atirar o taco e agredir o árbitro quando eu batia para fora.
Durante toda a minha vida, surgiram situações com as quais eu não sabia como lidar. Não sabia o que fazer. Não sabia a quem recorrer. Não sabia para onde me voltar. Tais situações aconteciam quando eu estava bebendo, e elas ainda aparecem, mesmo depois que parei de beber. Hoje, sei que elas acontecerão novamente.
Pouco depois que parei de beber, algo terrivelmente desagradável aconteceu. Fui ver meu padrinho na AA e disse a ele: “Estou com um terrível dilema. Não sei o que fazer. Não sei para onde ir. Não sei para onde me voltar”.
Ele respondeu: “Bem, isso somente prova o que nós temos dito todo esse tempo. Que o programa da AA é um programa simples para pessoas complicadas. Há uma solução muito simples para o seu problema”. “O que há de tão simples?” perguntei. “Bem”, respondeu ele, “você me disse que não sabia o que fazer a respeito dele.” “É verdade.” “Ora, se você não pode fazer nada a respeito dele, então você não tem problema algum. Você deveria esquecer o problema, porque não há nada que você possa fazer. Você diz que não sabe a quem recorrer. Portanto, desde que você não sabe a quem procurar, não tente recorrer a alguém, porque não há ninguém a quem recorrer. Mas, se como diz, você tem fé em Deus – e eu duvido que você a tenha; acho que você somente acredita em Deus, e há uma grande diferença entre acreditar em Deus e ter fé em Deus –, se você tem completa e total fé em Deus, então entregue esse problema a Deus e está tudo resolvido.”
Por 18 anos, venho seguindo essa solução simples para problemas que não são meus, para problemas que não posso resolver. O estranho sobre isso é que Deus, em sua sabedoria, tem cuidado de cada um deles.
Uma outra razão por que eu sou feliz por ser um alcoólatra é que tive de ir à AA para descobrir que não sabia rezar. Ainda fico surpreso com o fato de alguém, com a educação e a experiência religiosa que eu tive, poder ter passado os primeiros 50 anos da vida fazendo o que pensava serem preces sinceras e, depois, descobrir que elas não eram preces de modo algum. Hoje sei que a primeira vez, em 50 anos de vida, em que eu disse uma prece sincera e honesta foi quando, em absoluto desespero, depois de ter sido considerado morto, eu me ajoelhei e disse três simples palavras: “Deus, me ajude”.
Enquanto jovem, eu tinha visto o valor de preces sinceras feitas por pessoas em desespero absoluto. Mas tudo que isso queria dizer para mim é que era engraçado. Quando jovem, fui designado para defender um rapaz acusado de cometer um crime muito sério. Seu nome era Miguel. Miguel tinha passado muitos anos preso por ter assaltado um banco. Pouco depois de ter sido libertado da prisão, foi apanhado e colocado novamente na cadeia, acusado de ter sido cúmplice em um assalto a mão armada.
Miguel e Paulão tinham bebido. Miguel estava levando Paulão do bar para casa, quando Paulão pediu-lhe para parar em determinado prédio. Foi declarado que Paulão entrou no prédio e cometeu o roubo a mão armada, que Paulão e Miguel eram cúmplices e que Miguel ficara na cobertura e sabia o que se passava lá dentro. Paulão admitiu ser culpado de um crime menor e permitiu que a culpa toda recaísse sobre Miguel.
Eu estava convencido de que Miguel era inocente e que não sabia o que tinha acontecido no interior do prédio. Mas, em vista dos antecedentes de Miguel, seu caso se apresentava muito, muito difícil. Miguel foi condenado e o juiz condenou-o a uma pena de não menos de 40 e não mais de 80 anos de prisão. Recorri ao tribunal de apelação do Estado. A condenação de Miguel foi revogada e o processo voltou à corte do condado para novo julgamento.
Naquele tempo havia, em nosso condado, somente dois períodos de funcionamento das cortes criminais. Um na primavera e outro no outono. Miguel foi trazido de volta da penitenciária para a cadeia do condado, justamente após estarem encerrados os trabalhos do período da primavera. Ele teria de ficar na prisão até o período do outono. Como era considerado um criminoso perigoso e tinha uma sentença de 40 a 80 anos esperando por ele, foi confinado na solitária da cadeia do condado.
Ele me disse que os quatro ou cinco meses que passou na cadeia, em confinamento solitário, foram muito piores do que os muitos anos que ele já tinha passado na prisão. Enquanto esteve na solitária, ele ficou biruta, sendo esse o jeito que os prisioneiros descrevem as alucinações que acometem aqueles que ficam na solitária. Aparentemente, são as mesmas alucinações que as pessoas têm, devido ao excessivo uso do álcool.
Havia somente uma janela em sua cela e, por ela, a única coisa que ele podia ver era uma igreja católica do outro lado da rua.
Ele observava gente entrando e saindo da igreja e, entre suas alucinações, chegou à conclusão de que todos aqueles que entravam e saíam da igreja faziam isso para rezar por ele. Achou que tinha aprendido a ler lábios. Convenceu-se de que cada uma das pessoas que saíam da igreja olhava para ele e dizia: “Rezei por você, hoje, Miguel”.
Ele estava tão impressionado com todas essas orações e toda a atenção que estava recebendo das pessoas entrando e saindo da igreja que, por gratidão a elas, embora nunca tivesse tido qualquer tipo de religião e fosse um ateu, decidiu tornar-se católico. Por isso, pediu ao xerife que um padre católico viesse visitá-lo. Ele disse ao padre quão agradecido se sentia àquelas pessoas católicas por tudo que estavam fazendo e por todas as orações que estavam fazendo por ele. Afirmou ao padre que queria tornar-se um católico.
O padre disse a Miguel que não era tão fácil tornar-se um católico. Ele deveria adquirir instrução religiosa e, depois que tudo estivesse terminado – estou certo de que o padre jamais pensou que tudo aquilo pudesse chegar ao fim – se Miguel ainda o procurasse, ele lhe daria ensinamentos religiosos e o batizaria, com o que ele poderia tornar-se um católico.
Miguel disse: “Notei, padre, que todas as freiras que entram e saem da igreja têm continhas penduradas em seus hábitos. Gostaria de saber se o senhor não me faria um favor… se o senhor não me deixaria comprar algumas daquelas continhas”. O padre respondeu: “Você não sabe como usar aquelas contas”. Mas Miguel insistiu e o padre disse que iria providenciar-lhe um rosário.
Eu não sabia coisa alguma sobre esse incidente quando o caso foi novamente a julgamento. Enquanto o júri estava fora da sala deliberando, o juiz permitiu que Miguel ficasse comigo e com alguns funcionários, na biblioteca contígua à sala de audiências. Por 12 horas, Miguel andou de um lado para o outro da biblioteca, com passos vagarosos e firmes. Preso em ambas as mãos estava o rosário, com o crucifixo virado para cima. A cada passo que dava, Miguel dizia: “Vamos lá, Jesus, garotão, tire-me desta enrascada”. Em seguida, ele beijava a cruz. “Vamos lá, Jesus, garotão, tire-me desta enrascada.” E beijava a cruz. “Vamos lá, Jesus, garotão, tire-me desta enrascada.” E beijava a cruz. Doze horas de “Vamos lá, Jesus, garotão, tire-me desta enrascada”.
Finalmente, houve uma batida na porta, avisando­nos de que o júri tinha chegado à sua decisão. Os jurados entraram na sala de audiência, o juiz fez a chamada dos jurados e perguntou ao presidente do júri: “Vocês chegaram a um veredicto?”.
O presidente confirmou: “Sim, excelência”. “Qual é seu veredicto?” perguntou o juiz. “Inocente”, anunciou o presidente.
Diante disso, Miguel pulou, ainda com o crucifixo e o rosário nas mãos. Gritava, enquanto beijava a cruz: “Obrigado, Jesus, garotão”. Vale ressaltar que todos os 12 membros do júri eram protestantes.
Não sei se Miguel se tornou católico ou não. Não creio que ele o tenha feito. Mas sei que nunca mais bebeu e nunca mais se meteu em encrencas.
Contei essa história por muitos anos, em muitas ocasiões e banquetes, para provocar risos, mas jamais tinha percebido – até que fui à AA e ouvi falar de milha­res e milhares de milagres que tinham ocorrido quando homens se ajoelhavam e rezavam suas preces simples, de desespero – que são essas as preces que Deus atende sempre.
Deixem-me contar-lhes uma história sobre o juiz que condenou Miguel a não menos de 40 e não mais de 80 anos de prisão. Juiz Almeida foi soldado na Primeira Grande Guerra. Era conhecido como major Almeida. Na AA aprendemos que não devemos fazer o inventário moral do outro e, portanto, não posso dizer com certeza; porém, conhecendo o que conheço sobre alcoolismo, minha opinião é a de que o major Almeida e o juiz Almeida eram “ambos” alcoólatras.
O major Almeida foi para a França durante a Primeira Guerra Mundial. Era protestante, mas tinha sido criado por uma devota enfermeira irlandesa católica. Antes de ir para a guerra, essa velha enfermeira deu-lhe um escapulário católico e pediu-lhe que o usasse ao redor do pescoço. Ela disse: “Deus vai protegê-lo desde que você use isso em seu pescoço”. O major pôs o escapulário no pescoço e nunca mais o tirou.
Enquanto ele se encontrava na França, obteve uma licença e foi para Paris. Em Paris, começou a beber e a farrear até ficar muito bêbado. Enquanto estava embriagado, perdeu o quepe e a túnica. Mas, mesmo em seu torpor, lembrou-se de que sua licença estava terminada e de que teria de voltar à sua tropa.
Na França, os oficiais militares tinham permissão para viajar nos vagões dos passageiros, enquanto que os homens da infantaria tinham de viajar nos vagões de carga. O major, sabendo que tinha direito aos vagões de passageiros, mas não se lembrando de que tinha perdido o quepe e a túnica e de que não havia maneira de a polícia militar saber que ele era um oficial, tentou embarcar no vagão de passageiros do trem.
Um policial militar viu-o embarcando no vagão de passageiros e, em termos rudes, mandou-o voltar para o vagão de carga ao qual pertencia. O major entendeu que o policial estava insultando um oficial e, sendo assim, esbofeteou-o, derrubando-o para fora do trem. Um outro trem, que corria ao lado, atropelou e matou o policial militar. Para tornar as coisas ainda piores, aconteceu de o soldado morto ser sobrinho do famoso general Pershing.
Almeida voltou para seu próprio contingente, enfrentou uma corte marcial sob a acusação de assassinato e foi julgado. Ele defendeu seu próprio caso e foi condenado. De acordo com a sentença, ele seria fuzilado ao amanhecer do dia seguinte.
Naquela noite, antes de o major ir para a morte, o general encarregado do pelotão foi vê-lo. Disse ao major Almeida que ele poderia fazer um último pedido, qualquer que fosse. O major disse: “General, eu não estou com medo de morrer”. (Eu conhecia o major há muitos anos e sei que aquela afirmação era absolutamente verdadeira.) “Mas”, ele disse, “eu venho de uma longa linhagem de militares. Homens que têm recebido grandes honrarias dos Estados Unidos, o país que eu amo. Não me incomodo de morrer por meu país. Mas não quero morrer em desonra. Deixe-me cumprir esta sentença de morte. Meus homens vão avançar amanhã. Quero liderá-los na batalha. Eu lhe garanto que serei morto. Quero morrer em ação, lutando por meu país. Se eu não morrer em ação amanhã cedo, trarei a sentença de volta e o senhor poderá fuzilar-me na manhã seguinte.” O general aquiesceu: “Aqui está sua sentença. Execute-a você mesmo”.
Na manhã seguinte, o major comandou seus homens em batalha. Liderou-os, sempre à frente deles, através das linhas inimigas. Foi alvejado em muitos lugares. Foi dado como morto em combate. O contingente de limpeza, fazendo a varredura do campo de batalha, apanhou os corpos dos mortos e os amontoou em uma grande pilha para que pudessem ser enterrados.
Na manhã seguinte, um capelão católico estava examinando a pilha de corpos, procurando aqueles que tivessem sido católicos, para lhes ministrar os últimos sacramentos. Quando encontrou o major Almeida com o escapulário, retirou-o debaixo dos cadáveres. Ao fazê-lo, percebeu que o major ainda estava respirando. Ele foi levado a um hospital e, então, embarcado de navio para a Inglaterra, para outro hospital. Ele sobreviveu, mas os ferimentos que sofreu perturbaram-no para o resto da vida. Quando ele recebeu alta, a guerra estava terminada e ele jamais foi executado. Voltou para a América, praticou advocacia e foi eleito juiz do condado. E era juiz do condado quando Miguel foi levado à sua presença.
Deus atende a preces. Deus faz milagres. Eu sou um homem de sorte, de muita sorte, por ter vivido para ver pelo menos cinco mil desses milagres, muitos deles na AA. Portanto, eu me considero feliz por ser um alcoólatra.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 4

4

Daquele dia em diante, fui muito requisitado como orador nas sessões da AA. Na verdade, eu não tinha aprendido coisa alguma sobre alcoolismo, a não ser que o álcool causa sérios problemas e que os alcoólatras não podem nunca tomar um drinque; que eles precisam manter-se sem beber um dia de cada vez; que o alcoolismo é uma doença progressiva que sempre piora. O único dos Doze Passos em que eu estava interessado era no Primeiro, no qual admitimos que somos impotentes perante o álcool e que perdemos o domínio sobre nossas vidas.
A verdade como hoje a vejo é que eu, na realidade, conhecia somente a primeira metade do Primeiro Passo: eu era impotente perante o álcool. Oh! Eu sabia que, quando bebia, perdia o domínio sobre minha vida, mas não sabia que eu jamais tinha tido domínio sobre minha vida e que tinha recorrido ao álcool justamente para fugir do fato de que eu nunca tinha tido domínio sobre minha vida.
Portanto, eu era requisitado para falar e hoje sei o porquê de ter sido tão convocado como orador nas reuniões da AA. Era porque a coisa mais difícil é convencer um alcoólatra de que o alcoolismo é uma doença tríplice. É física, é mental e é espiritual. Todos sabem que o alcoolismo é uma doença, mas a maioria acredita que é uma doença que ataca somente certos tipos de pessoas. Poucos entendem que o alcoolismo é uma doença que pode acometer um papa, um alcoviteiro, um indigente ou um príncipe. Os membros da Alcoólicos Anônimos sabem disso e, portanto, eu era exibido como evidência de que o alcoolismo é uma doença que pode atingir até um juiz.
Ninguém jamais se surpreendeu com o fato de um juiz sofrer de sarampo, escarlatina, coqueluche, câncer ou tuberculose. Mas muitas vezes, centenas de vezes, tenho recebido pessoas que vêm a mim, depois de eu falar, e dizem: “Bem, eu nunca pensei que um juiz pudesse ser alcoólatra!”. Sem dúvida alguma, qualquer pessoa que não acredite que um juiz, um padre, um professor, um senador, um governador ou um presidente possa ser um alcoólatra, não acredita realmente que isso possa ser uma doença.
Assim, por essa razão, e somente por essa razão, é que eu era tão requisitado como orador nas reuniões da AA. Claro, eu estava ainda envergonhado demais para contar todo o horror e toda a miséria que tinha acontecido comigo por causa do alcoolismo. Não tinha ainda aprendido coisa alguma sobre o alcoolismo. Não tinha uma história para contar, como as outras pessoas que tinham sido detidas, tinham ido para a prisão, tinham ido à falência e tinham perdido esposa e filhos. Nenhuma dessas coisas tinha ocorrido comigo. Portanto, o que poderia eu falar?
Finalmente, ocorreu-me uma história que poderia ser contada nas reuniões da AA, a qual descreveria como a AA funcionava. Provavelmente, uma das coisas mais difíceis de se descrever é como a AA funciona. O mínimo que se pode dizer é que funciona maravilhosamente. Recuperação do alcoolismo é um milagre. Milagre é alguma coisa que não pode ser explicada.
A história que eu costumava contar não tinha absolutamente nada a ver com alcoolismo, mas ainda entendo que ela chega mais perto da descrição de como a AA funciona do que qualquer outra que eu já tenha ouvido.
Quando eu era um jovem advogado, representei um rapaz de 14 anos que estava brincando com outro rapaz. Por coincidência, esse outro rapaz era filho do homem que venci no concurso para o cargo de juiz do condado, na primeira vez que a ele concorri. Os rapazes tinham conseguido algumas cápsulas explosivas que tinham sido deixadas abertas. Tinham, também, algum material que eles pensavam ser fusíveis para inserir nas cápsulas. Só que não se tratava de fusíveis, tratava-se de cordite. Cordite era, naquele tempo, o mais potente explosivo conhecido pelo homem. Expande-se a uma velocidade de 8 quilômetros por segundo. Era empregado em operação de guerra na selva. Amarrando-se 8 quilômetros de cordite ao redor de árvores, e detonando-se uma cápsula explosiva no final, 8 quilômetros de árvores desapareceriam em um segundo.
O jovem tinha suficiente cordite em seu bolso para destruir a cidade na qual morávamos. Pequena parte da cordite explodiu. Ele se machucou horrivelmente e foi levado para o hospital. Em certos lugares, as queimaduras atingiram o osso. Duvidava-se que ele pudesse usar suas mãos e pernas outra vez. Mas a coisa mais terrível que lhe aconteceu foi que, com a explosão, seus olhos lhe saltaram fora das órbitas.
Ocorre que, quando ele foi levado para a sala de emergência do hospital, sua mãe, que era enfermeira, estava ali trabalhando. Ele se queimou e se machucou tão horrivelmente que ela não reconheceu seu próprio filho. Apenas quando removeu parte de suas roupas é que ela se deu conta de que aquele menino, que nunca mais iria andar, que nunca mais iria usar as mãos e que nunca mais iria enxergar, era seu filho.
Sua primeira reação foi correr para outro quarto, ajoelhar-se e rezar, mas ela não sabia como rezar. Deveria rezar para que seu filho vivesse ou deveria implorar para que ele morresse? Conseguiu pronunciar, apenas, uma oração singela. A mesma oração que eu rezei quando, em desespero, entrei nas três igrejas católicas: “Deus, me ajude”.
Bem, o rapaz não morreu. Depois de muitos e muitos meses, eles o levaram do hospital para casa. Ele recobrou o uso das mãos e das pernas. Mas estava cego, ambos os olhos sumidos de suas órbitas. Os pais do rapaz eram pobres. O que poderiam fazer com um rapaz cego? Alguém lhes disse que, em Nova Jersey, havia um lugar onde se podia obter um cão-guia. Assim, toda a família foi para Nova Jersey para visitar uma escola de cães-guias.
Acontece que o chefe do estabelecimento de cães­guias também era cego. Ele também havia ficado cego em uma explosão, e com exatamente a mesma idade que o garoto. Esse homem, em meia hora, plantou a semente que mudou toda a vida, não somente do garoto cego, mas de seu pai e de sua mãe, de sua família e de todo mundo que chegou a ter contato mais íntimo com ele. Isso porque, assim como um alcoólatra que encontra outro alcoólatra recuperado pela primeira vez, o rapaz tinha, pela primeira vez na vida, encontrado alguém a quem ele não poderia dizer: “Oh, você não sabe, você não entende”.
O rapaz cego ouviu o diretor cego perguntar à sua mãe: “Você dá comida a esse garoto?”. A mãe respondeu: “Claro, sem dúvida que eu lhe dou a comida. Ele é cego”. “Não”, o homem disse, “eu sou cego, mas me alimento sozinho. Você vai ter que ensiná-lo e vai ter que aprender como pôr a mesa para ele. Você vai ter que explicar-lhe, pelo emprego de um relógio, onde a carne, onde as batatas, onde os legumes estão. Onde a sobremesa está. Ele aprenderá a comer.”
E prosseguiu: “Suponho que você vista esse garoto”. Ela respondeu: “Bem, sim, nós temos que vesti-lo. Ele é cego”. “Eu sou cego, mas me visto sozinho. Que tal minha aparência?” “Você parece ótimo!”
“Vamos dar-lhe alguns marcadores para você poder marcar as roupas dele, de maneira que ele saberá qual é a camisa branca, qual é a camisa azul, qual é a gravata preta e qual é a vermelha. Ele precisa aprender a se vestir sozinho. Você sabe, todos reparam em um cego; portanto, um cego precisa vestir-se mais meticulosamente do que os outros. Dê-lhe um pouco de tempo para aprender. Depois do tempo suficiente, se ele descer as escadas com a gravata de uma cor que não combine com sua camisa, dê uma palmada em seu rosto e diga-lhe para voltar para cima e vestir-se direito.”
Se qualquer outro, que não um cego, tivesse dito isso ao rapaz, ele teria no mínimo ido embora.
Nesse momento, o diretor perguntou ao rapaz: “O que você faz para ajudar seu pai e sua mãe?”. “Bem”, o rapaz respondeu, “não consigo fazer nada.” “Você tem um gramado?”, o homem perguntou. “Sim”, respondeu o garoto, “tenho um gramado, mas não posso podar a grama.”
“Eu podo meu próprio gramado”, o homem declarou, “e disseram-me que tenho o gramado mais bem tratado da cidade,” Ele se voltou para os pais: “Levem esse garoto embora. Mostrem a ele onde está cada arbusto, onde está cada pedra e onde está cada buraco no chão. Façam-no atravessá-lo e medir a distância de um lugar a outro. Façam-no decorar as distâncias. E daí, mandem-no cortar seu gramado. Talvez ele caia, talvez até quebre o pescoço, mas considerem a confusão dos diabos em que ele se meteu quando podia enxergar”.
Continuando, ele perguntou: “O que faz seu garoto para se divertir?”. A mãe respondeu: “Bem, o que ele conseguiria fazer para se divertir?”. “Vocês têm cinema? Ele vai ao cinema?”. “Ele não pode ir ao cinema. Ele é cego.”
“O que se exibe lá, afinal? Filmes mudos? Deixem-no ir ao cinema. Notem bem, quando Deus leva embora um determinado dom de alguém, ele lhe concede outro. Esse garoto pode ir ao cinema e, na volta, posso garantir que ele contará mais a vocês sobre o que se passou do que a irmã dele que pode ver.” “Agora”, ele prosseguiu, “não mandem esse garoto a uma escola para cegos. Façam-no competir com todos os outros rapazes e todas as outras moças de sua comunidade. Ele tem de saber que não há nada de errado com ele, a não ser o fato de ele não poder enxergar.”
Foi dessa forma que contei essa história. Sem dúvida, hoje sei que estava errado; havia mais defeitos em mim do que simplesmente não poder “controlar minha bebida”, mas pelo menos já era um grande incentivo para as pessoas, no primeiro estágio de recuperação, que acreditam que a incapacidade para controlar o álcool é o seu único problema.
O diretor da escola de cães-guias disse a seus pais que, naquele momento, o rapaz não poderia ter um cão­guia. Ele disse: “Vejam, há mais cegos que cães treinados. Nós fornecemos cachorros somente àquelas pessoas que possam provar que, com um cão-guia, podem melhorar suas vidas em benefício de outras. Deixem esse garoto voltar à escola. Deixem-no competir com todos os rapazes e moças do colégio e, se no fim do primeiro ano ele estiver entre os primeiros de sua classe, deixem­no voltar aqui e lhe daremos um belo cão-guia”.
Na volta de Nova Jersey, o rapaz pronunciou suas primeiras palavras de esperança. Pela primeira vez, ele disse: “Sabe, mamãe, talvez não seja tão terrível ter perdido meus olhos. Será que eu poderia ir ao cinema esta noite?”.
Seus pais compraram-lhe uma máquina de escrever e, embora nunca tivesse usado uma, em sua vida, ele aprendeu a usá-la. Ele voltou à escola no semestre seguinte e, dois anos mais tarde, formou-se no colegial, o terceiro colocado em uma classe de mais de 180 alunos. E a única razão de ele ter sido o terceiro, em vez de o primeiro, foi que, durante os primeiros dois anos de colégio, quando ele enxergava, suas notas foram muito mais baixas do que as notas de duas moças de sua classe. Assim, ele não conseguiu que sua média, nos quatro anos, fosse maior que a média alcançada por elas no mesmo período.
Onze prêmios foram concedidos na noite da formatura. Nove vezes um cão-guia conduziu o rapaz para o palanque do auditório da escola para receber nove dos onze prêmios. Um deles foi conferido por ter recebido a nota 100 no exame de Geometria Aplicada.
Depois de formado, o rapaz foi para o Union College e, competindo com moças e rapazes de todos os Estados Unidos, ganhou uma bolsa de estudos completa, incluindo acomodações, comida e instrução. Quatro anos mais tarde, ele se formou com “magna cum laude”.
No dia anterior ao de sua formatura, ele discursou no Rotary Club e disse, entre outras coisas: “A melhor coisa que me aconteceu em toda a vida foi ter perdido a visão, pois isso ensinou-me que Deus todo-poderoso jamais coloca um obstáculo no caminho de alguém, senão para ensiná-lo a transpô-lo”.
Quando li seu discurso no jornal, não consegui entender como alguém poderia dizer que uma tragédia, tal como a que o rapaz tinha enfrentado, poderia ser a melhor coisa acontecida em sua vida. Porque, notem bem, eu ainda estava bebendo naquela época. Não havia ainda ido à AA. Não havia aprendido a filosofia de vida da AA. Mas hoje posso entender isso, porque hoje, recordando todas as misérias, privações, torturas e tragédias de minha vida, eu digo que elas foram as melhores coisas que já me aconteceram, pois somente porque tais coisas me aconteceram é que fui à AA e aprendi como viver, como amar e como lidar com a vida.
Depois de sua formatura pelo Union College, o rapaz defendeu tese de pós-graduação e tornou-se doutor em Psicologia. Hoje, é um homem muito bem casado e leciona Psicologia em uma das grandes universidades deste país – ensina às pessoas como aceitar as coisas que não podem modificar, como ter coragem para modificar aquelas que podem e como adquirir sabedoria para distinguir umas das outras. Pois isso é tudo o que a Psiquiatria provavelmente pode fazer por alguém.
Depois de ter estado na AA por um longo tempo, acordei, certa manhã, cuspindo sangue. O raio x revelou que eu estava com tuberculose pulmonar. Eu não tinha permissão para sair de casa e, assim, não podia ir às reuniões da AA. O médico disse-me que a tuberculose, freqüentemente, deixa as pessoas deprimidas. E eu fiquei muito, muito deprimido. Muitas vezes, embora já estivesse sóbrio há um bom tempo, pensei em beber.
Um dia, eu disse ao médico: “Tenho que, de algum jeito, ir às reuniões da AA”. Ele respondeu: “Bem, eu não posso deixá-lo ir às reuniões da AA. Na verdade, você deveria estar confinado em um sanatório”.
Eu implorei, argumentei e, finalmente, ele perguntou: “Muito bem, você pode ir para fora da cidade?”. “Sim”, eu respondi, “eu posso ir até para fora do Estado.” “Tem alguém que possa levá-lo, de maneira que você não precise guiar um carro?”. “Sim, há muita gente da AA que me levaria.”
Assim, uma noite, meus amigos levaram-me para o Estado vizinho aonde eu tinha ido quando ainda me sentia envergonhado de ver os outros, quando ainda me sentia envergonhado de que os outros soubessem que eu estava indo à AA. Sentei-me nos fundos da sala.
Um companheiro, que eu conhecia daqueles tempos, levantou-se para falar. Contou a história de como acordou certa manhã cuspindo sangue. Foi ao médico e descobriu que tinha câncer nas cordas vocais. Teriam de remover suas cordas vocais e ele não seria mais capaz de falar. Contou quão deprimido ele tinha ficado e como iria rolar na cama, noites a fio, sentindo pena de si próprio, sabendo que nunca mais seria capaz de falar, nunca mais seria capaz de falar em uma reunião da AA. Mas ele disse: “Eu agradeço a Deus todo-poderoso, porque houve um homem na AA que me ajudou. Ele está aqui hoje, esta noite, e está nos fundos da sala. Aquele homem costumava contar a história de um rapaz que perdeu a vista em uma explosão, mas perseverou e se tornou doutor em Psicologia. Quando pensei nisso, eu disse a mim mesmo que, se aquele rapaz cego pôde tornar-se doutor em Psicologia, eu vou aprender a falar. Aquele homem está nos fundos da sala, hoje. Bill, levante-se. Você pode me ouvir?”. Eu respondi: “Sim, senhor, posso ouvi-lo muito bem mesmo!”.
Voltei para casa e, depois de uma semana, submeti­me a um outro raio X; meus pulmões estavam completamente curados. O médico usa meu raio X para mostrar a outros médicos quão efetiva é a estreptomicina na cura da tuberculose dos pulmões. Eu não estou menosprezando a estreptomicina, mas dou crédito, pelo milagre, não à estreptomicina, mas ao amor de Deus, que cura, cicatriza e acalma e que vem até nós por intermédio de outras pessoas por ele criadas, quando elas sentem-se juntas e compartilham, umas com as outras, suas experiências, suas forças e suas esperanças.
O homem que perdeu suas cordas vocais, mas que aprendeu a falar, ocupa hoje uma posição de responsabilidade em um dos importantes hospitais deste país, onde ensina as pessoas a falar pelo estômago. Ele emprega a filosofia que aprendeu, por intermédio da AA, para encorajar as pessoas. Ele usa a oração da AA, que sugere que aprendamos a aceitar as coisas que não podemos modificar, tenhamos coragem para modificar aquelas que podemos e adquiramos sabedoria para distinguir umas das outras.
Ele, como eu, é feliz por ser um alcoólatra. Feliz porque, por meio de sua filiação à AA, pode compartilhar suas experiências e esperanças com os outros.
Eu tenho um “hobby”. Visito hospitais e prisões. Entro em cadeias e instituições de doenças mentais e sento-me com indivíduos sem esperanças. Também faço uso da oração da AA, na esperança de ajudar pessoas a aceitar coisas que não podem modificar, a ter coragem para modificar aquelas que podem e a adquirir sabedoria para distinguir umas das outras.

COMO ME LIBERTEI DO ALCOOLISMO – JUIZ BILL C. – CAPÍTULO 3

3

Uma noite, compareci a uma reunião fora do Estado e ouvi um médico fazer uma palestra formidável. Uma das coisas que ele afirmou durante a palestra foi que você nunca se recuperará do alcoolismo até que algum dia, em algum lugar, você reúna coragem para se levantar em uma reunião da AA, admitir que é um alcoólatra e contar parte de sua história. Depois da reunião, fui até a mesa do médico e cumprimentei-o pela palestra, dizendo: “Espero que eu me integre nesse programa”.
Bem, sabendo quem eu era, ele me disse: “Bom, não sei, não, juiz, dizem que você ainda é juiz”. Eu respondi: “Sim”. Ele continuou: “Dizem que você nunca foi demitido de seu cargo”. Eu disse: “Não, ainda sou juiz”. Ele disse: “Dizem que você ainda tem licença para advogar e que você exerce uma grande atividade advocatícia”. Minha resposta: “Sim, exerço ativamente a profissão”. Ele: “Dizem que você mora numa mansão”. “Bem”, eu disse, “sim, é uma casa grande. Comprei-a quando estava bêbado e a comprei muito barato.” Ele continuou: “Dizem que você tem uma esposa e cinco filhos que ainda estão vivendo com você”. Eu confirmei: “Sim, tenho uma família maravilhosa”.
Daí, ele fez uma pausa e falou: “Não sei, não, juiz, eu espero que você o consiga. Mas acho que não tem a mínima chance”. “O que você quer dizer com isso?”, retruquei. “Eu não tenho a mínima chance?”
“Bem”, disse ele, “quando você tiver sido expulso de sua função, depois que tiverem cassado sua licença de advogado, depois que sua esposa e seus cinco filhos o tiverem deixado, depois que você tiver perdido todo o seu dinheiro e estiver nas ruas pedindo esmolas, e depois que tiver passado algumas noites na cadeia, daí talvez você volte e talvez consiga. Mas, no momento, não acredito que você tenha a mínima chance.”
Isso foi há 22 anos. Eu ainda posso vê-lo descendo os degraus da igreja. Posso ainda lembrar o ódio que se formou em meu coração. Posso ainda lembrar, entretanto, suas palavras e agradeço a Deus que ele as tenha dito a mim, pois o que ele disse que iria acontecer comigo tenho visto acontecer a centenas e centenas de pessoas. A maioria dessas pessoas jamais voltou. A maioria delas morreu de alcoolismo.
Até aquela época eu havia decidido que iria às reuniões da AA e ouviria, mas que nunca, nunca na vida iria rebaixar-me a ponto de me levantar em uma reunião pública e admitir que era um alcoólatra. Na noite seguinte fui, com um de meus padrinhos, a uma reunião em uma outra cidade do mesmo Estado. Meu padrinho tinha ouvido a minha conversa com o médico e dessa vez ele decidiu aplicar os princípios da AA, ou seja, martelar enquanto o ferro está quente. Quando, na noite seguinte, chegamos à reunião, notei meu padrinho falando com o coordenador. O coordenador veio a mim e disse: “Juiz, temos poucas pessoas para falar hoje”. Eu respondi: “Que pena!”. Ele insistiu: “Gostaríamos que você falasse”. Eu me esquivei: “Oh, não, hoje não, não estou preparado. Talvez em três ou quatro meses eu possa estar pronto, mas ainda não”.
O companheiro olhou para mim e disse: “Ouça, juiz, esse não é o modo como trabalhamos na AA. Esse é o modo pelo qual vivíamos, trabalhávamos e falávamos antes de vir para a AA. Iríamos sempre dar um jeito com o nosso problema no dia seguinte ou na próxima semana ou até mesmo depois do Ano Novo. Na AA fazemos as coisas agora, e se não quiser fazer isso agora, esqueça”.
Bem, eu pensei sobre o que o médico havia dito na noite anterior: minha licença cassada para advogar; ser demitido de minha função, pedir esmolas; minha esposa e filhos me abandonariam e eu iria parar na prisão. Portanto, disse: “Bem, não vou falar muito”. E creio que realmente não o fiz. Vejam, eu fora um orador público durante toda a minha vida. Eu já havia sido reconhecido como um soberbo orador. Tinha discursado em muitas ocasiões importantes, mas jamais em minha vida havia ficado tão preocupado, tão amedrontado. Nunca antes eu tremi tanto como quando me levantei, naquela noite, para prestar meu primeiro depoimento na AA.
Notem bem, esse discurso iria ser diferente de todos os outros que eu já havia feito em minha vida. Pela primeira vez, em toda a minha vida, eu iria admitir, abertamente, exatamente o que eu era.
Hoje, consigo lembrar-me apenas de uma das coisas que eu disse naquela noite. Foi que eu nunca iria esquecer-me daquela noite. Achava que, por falar, todos ficariam sabendo que eu era um alcoólatra; que eu tinha admitido publicamente ser um alcoólatra; que eu seria expulso de meu cargo; que minha atividade advocatícia iria para o diabo, e eu achei que havia feito a coisa mais corajosa que qualquer um neste mundo já fizera a fim de parar de beber.
Mas as palavras que eu disse foram absolutamente verdadeiras. E nunca me esqueci, nem jamais esquecerei, daquela noite, porque, naquela noite, com mais de 50 anos de idade, eu nasci novamente. Naquela noite, com mais de 50 anos de idade, eu me juntei à raça humana.
As pessoas presentes à reunião vieram a mim e apertaram a minha mão. Elas me abraçaram, algumas das mulheres beijaram-me, e eu senti algo que jamais havia sentido desde que era criança e tinha feito alguma coisa errada. Eu chegava-me à minha mãe, confessava o que tinha feito, e ela me abraçava e dizia: “Calma, filho, tudo vai ficar bem”. De alguma forma, daquele dia em diante, embora eu tenha tido meus altos e baixos, problemas e aborrecimentos, tristezas, dores de cabeça e sofrimentos, tudo tem corrido bem.