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O TRABALHO EM GRUPO

” O TRABALHO EM GRUPO “

Por NELSON FARIA

Todo conhecimento é fruto do trabalho em equipe. Este constitui a unidade de trabalho. Não é como se poderia pensar, o esforço de um indivíduo isolado.

A mais tradicional forma de trabalho em equipe é a REUNIÃO DE GRUPO. Esta é talvez, o melhor exemplo de como se compartilhar o trabalho em qualquer organização.

Quando as pessoas se reúnem para discutir um assunto em busca de consenso, estão, num sentido concreto, estabelecendo uma CONSCIÊNCIA DE GRUPO, que é o produto dos talentos e aptidões de todos os envolvidos. A forma de como realizarão suas tarefas, bem como, o êxito que obterão, serão assim, determinados pela CONSCIÊNCIA COLETIVA. Esta e a chave para o alto desempenho do grupo e a harmonia existente entre os membros que o compõem. Essa capacidade de pensamentos e emoções torna um grupo, especialmente, produtivo e bem sucedido.

Esse equilíbrio mental e emocional é a diferença, e o porquê de alguns grupos trabalharem de forma mais eficaz do que outros. Afinal, quando as pessoas se reúnem para trabalhar em equipe, cada um trás consigo certas aptidões ou conhecimentos próprios de sua cultura pessoal. O grupo não deve ter mecanismos que impeçam às pessoas contribuírem com seus talentos.

Só a harmonia interna do Grupo é capaz de criar um clima que permita que os companheiros, que tragam conhecimentos e aptidões próprias, possam torná-los capazes de serem assimilados pelo grupo. Haverá sempre, o que é bom reconhecer, os ansiosos, os controladores, os dominadores excessivos e os apáticos. Só uma coisa não pode existir – os choques emocionais – seja por medo ou raiva; rivalidades e ressentimentos. Num ambiente desses as pessoas não podem dar o melhor de si. Só uma harmonia plena permite a um grupo aproveitar, ao máximo, as qualidades mais criativas de seus membros.

O que as pessoas fazem, ou oferecem com sua participação, seja através do serviço direto ao grupo ou em suas experiências nos depoimentos fazem parte do trabalho coletivo. Depende de seu bom desempenho a permanência ou dispersão de companheiros nas Reuniões.

Todas as formas de trabalho são aspectos da inteligência emocional. Temos que aprender a surpreender os pensamentos negativos e as emoções compulsivas. Liderar não e dominar, mas sim, a arte de convencer as pessoas a trabalharem visando um objetivo comum.

PAZ “Alicerce do verdadeiro amor, da alegria ao dar de nós mesmos e ver o outro crescer.” O grande anseio daqueles que buscam o crescimento espiritual é a SERENIDADE, estado de espírito em que procuramos alcançar e manter inabalável a paz interior, apesar das vicissitudes da vida. Para atingir a SERENIDADE é necessário aceitar as coisas que não podemos modificar. Nossa tendência é querer mudar o que não podemos: nosso passado, o modo de ser das pessoas, as circunstâncias de nossa vida, as contingências do mundo ou do país… tudo isso está fora de nosso alcance. Só podemos mudar a nós mesmos e as nossas atitudes. Existe uma máxima que diz: “Nada muda se eu não mudar.” SERENIDADE não é fraqueza ou submissão. O homem sereno aceita o semelhante como ele é, sem coagi-lo a mudar, sem a ele submeter-se. SERENIDADE não é apenas exercício de paciência ou tolerância, atitudes que podem mascarar o sentir-se superior. A SERENIDADE existe independentemente de atitudes do outro, depende em primeiro lugar de nós mesmos: da CORAGEM de enfrentar ou aceitar o sofrimento, e do esforço para superar nossos defeitos de caráter. Em primeiro lugar, dispondo-nos a analisar minuciosa e destemidamente nossas ações e nossas atitudes, para descobrir quem realmente somos, e em que devemos mudar. Quantas vezes continuamos a tomar as mesmas atitudes que nos fazem sofrer, esperando resultados diferentes. Admitindo que precisamos mudar, podemos fazer a nossa parte, não alimentando sentimentos negativos, procurando viver de acordo com nossa consciência. A mudança interior, que leva ao crescimento espiritual, somente ocorrerá se nos abrirmos à ação de Deus, que se manifestará se assim o permitirmos. A SABEDORIA nos fará compreender essas coisas aparentemente tão simples. A paz espiritual não significa ausência de problemas ou de sofrimento emocional, pois estes sempre estarão presentes em nossas vidas. Tampouco significa que todas as nossas preces serão atendidas do modo que desejarmos. Nem sempre Deus nos dá tudo o que queremos mas, com certeza, nos dará sempre o que precisamos. A paz espiritual é o alicerce do verdadeiro amor e da alegria que nos permitem dar de nós mesmos, sem qualquer outro objetivo que não seja ver o outro crescer. Muitas vezes pensamos que a felicidade está nas coisas que julgamos necessárias, mas sobre as quais não temos o controle absoluto. Dizemos que para sermos felizes, dependemos do amor das outras pessoas, de nossa saúde física e mental, de nosso equilíbrio financeiro, e de inúmeras outras coisas ou situações. Estamos condicionados a “TER” para nos sentirmos felizes, quando na realidade é muito mais importante “SER”. Afirmamos que “temos” nossas mulheres, nossos filhos, nossos pais; é preciso, entretanto, “sermos” maridos, pais, filhos, dando o que de melhor possuímos. ACEITAR AS COISAS QUE NÃO PODEMOS MODIFICAR requer de cada um de nós que abracemos a realidade de nossas vidas. Pode ser que estejamos doentes, desempregados, deprimidos, com dificuldades no casamento ou no trabalho. Não importa o número, nem a grandeza de nossos problemas, precisamos aceitá-los como parte de nossa jornada de vida. Aqueles que encontram a paz e a felicidade aprendem a enfrentar os seus problemas, muitas vezes maiores que os de outras pessoas: a aceitação os capacita a tirar o maior proveito possível da adversidade, sem se tomarem críticos ou amargos, mesmo sabendo que alguns aspectos problemáticos de suas vidas provavelmente não poderão ser modificados. Devemos lembrar que, em quaisquer circunstâncias, podemos escolher o nosso próprio caminho. Nesse sentido, podemos contar sempre com o nosso programa de recuperação, consubstanciado nos princípios de A. A., notadamente nos 12 Passos sugeridos. Se estivermos atentos, veremos que desde o início, ao sermos escolhidos para participarmos de nossa Irmandade, recebemos a dádiva de Deus, que colocou e continua colocando à nossa disposição as ferramentas necessárias para que possamos nos recuperar e sermos felizes, cultivando a SERENIDADE. Trabalhando nosso interior, começamos nosso aperfeiçoamento. Estamos aprendendo a todo o momento; basta que estejamos atentos às coisas que nos cercam. Tudo que vemos e ouvimos tem um significado lógico, positivo, tem uma finalidade. Ao praticarmos o programa, temos a oportunidade de refletir sobre nossa condição humana, sendo induzidos a reflexões profundas. Assumimos a responsabilidade pelo nosso crescimento, aperfeiçoando e desenvolvendo nossas qualidades, enfrentando e corrigindo nossos defeitos de caráter. Sabemos que, pelas nossas imperfeições, encontraremos dificuldades e obstáculos a serem superados. A análise constante de nossas ações e atitudes, o apoio e os ensinamentos incondicionais de nossos companheiros, a leitura e o estudo freqüente de nossa Literatura, o reconhecimento de nossas limitações, a abertura à ação de Deus, são meios de alcançarmos o crescimento espiritual que almejamos. Guiados pela SABEDORIA que emana de Deus e que se manifesta em nossa “Consciência Coletiva”, adquirida em nossas reuniões e desenvolvida com a prática de nossos princípios, continuemos a trabalhar para alcançar a SERENIDADE, lembrando-nos da grande responsabilidade que nos cabe na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada, tendo a CORAGEM de, com nossos exemplos, e praticando o 12° Passo, nos tomarmos íntegros, felizes e úteis, e assim transformarmos o mundo num lugar mais agradável de se viver. A cada momento, diante de nossas necessidades e de nossas dificuldades podemos dizer simplesmente: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir umas Das outras”. (João Roberto)

VIVÊNCIA N.° 89 – MAI/JUN. 2004.

NÓS, OS JOVENS, TEMOS ESPAÇO EM A.A.?

Nós, os jovens, temos espaço em A.A.?

“Ele foi levar o pai para conhecer A.A. e acabou ficando”.

Nos primeiros tempo de A.A. não havia jovens, pois, somente os alcoólicos já desesperados conseguiam engolir e digerir essa verdade amarga: ser um alcoólico.

Com imensa satisfação afirmamos que, com o passar dos anos, isso mudou. Os alcoólicos que ainda mantinham sua saúde, suas famílias, seus empregos, e até dois carros na garagem, começaram a reconhecer seu alcoolismo. Crescendo essa tendência, uniram-se a eles muitos alcoólicos jovens, que mal passavam de alcoólicos em potencial. Esse fato se concretiza a cada dia na nossa Irmandade. E eu sou parte desta realidade.

Conheci o A.A. em outubro de 1999, motivado pelos problemas que o meu pai estava enfrentando com o álcool. Minha intenção era levá-lo para A.A., já que ele estava precisando de ajuda, bebendo descontroladamente todos os dias.

Ao entrar em contato com a Irmandade, fiquei maravilhado com as histórias verídicas de recuperação de vários alcoólicos, que de maneira geral, haviam bebido muitos anos e agora tinham encontrado a sobriedade. Fiquei surpreso por ver meu pai evitar o primeiro gole a partir daquela reunião milagrosa. No dia segunite fomos, eu e meu pai, novamente à reunião, e vi novas pessoas contarem suas histórias de sucesso frente à doença do alcoolismo.

Durante essa reunião fiquei refletindo sobre a possibilidade de também possuir a doença, já que eu estava passando por vários problemas e bebendo muito. Ao encerrar a reunião, fui perguntar aos membros do grupo se eles poderiam me informar se eu era ou não alcoólico. Como resposta, me disseram que só eu poderia me considerar alcoólico ou não. Saí daquela reunião um pouco menos preocupado com meu pai, que havia conseguido ficar 24 horas sem ingerir o primeiro gole, e fiquei pensando mais em mim, tentando descobrir se eu era mesmo um alcoólico.

Nessa avaliação, algumas coisas me levaram a crer que eu era mesmo doente, pois eu não vinha de experiências muito agradáveis com a bebida. Entretanto, minha mente alcoólica me mostrava vários pontos que me descartavam da condição de alcoólico, pois eu era jovem (22 anos), não bebia diariamente, havia recém me formado com certo êxito num curso superior, não havia perdido família, nem gostava de beber cachaça. Todas essas situações divergiam da maioria dos membros que eu escutara.

Na minha peregrinação de tentar ajudar meu pai, fui com ele em mais uma reunião, só que agora em outro grupo de A.A. A reunião iniciou-se e eu prestei bastante atenção nos depoimentos dos companheiros e ouvi um companheiro jovem declarar-se alcoólico. Porém, o que me marcou mais foi um senhor, com cerca de 70 anos, que foi falando da sua vida, que havia pouco tempo que ingressara na Irmandade, que estava bem, mas que sentia muito por não ter conhecido A.A. quando mais novo. Parecia que aquele senhor estava falando ao meu ouvido, e que cada palavra que ele dizia, se dirigia especificamente a mim. Percebi que Deus o utilizou para abrir a minha mente, para eu me aceitar como alcoólico e que não precisava chegar a uma situação de profundo desespero para encarar que eu realmente tinha problemas com o álcool. Assim sensibilizado por todo esse contexto espiritual, eu ingressei em A.A., convicto que eu tinha problema com o álcool. Talvez um alcoólico em potencial, mas que não precisaria passar por mais dificuldades além das que eu havia passado, para encontrar a sobriedade.

Deus havia aberto Seus braços de Pai bondoso para acolher-me. Ele não perguntava quantos anos eu tinha, o único requisito que eu necessitava era o desejo de abandonar a bebida, e isso eu tinha. Saí daquela reunião junto com meu pai, e parecia que eu estava nas nuvens. Aquela situação era um grande presente de Deus para mim, sou grato até hoje por A.A. me aceitar como sou, jovem, com o desejo de abandonar a bebida.

Como a doença do alcoolismo me cegou, colocando uma venda nos meus olhos, dificultando a visão de mim mesmo como um alcoólico!

Agora compreendo o meu descontrole frente à bebida e que o meu contato com ela sempre trouxera problemas, porém, ver-me como um alcoólico era algo que ia contra o meu ego, era uma auto-imagem que eu não queria ter; hoje aceitar-me como realmente sou, me faz muito bem.

Agradeço a Deus por estar em recuperação evitando o desenvolvimento da doença, que poderia ter me levado à morte.

Durante esta caminhada, em recuperação, tive várias experiências interessantes, como a incerteza de meus pais e familiares frente a minha condição de alcoólico. Meu pai chegou a dizer que eu não precisava participar de A.A. por causa dele, que eu não era alcoólico. Ele voltou a beber após afastar-se das reuniões; permaneceu longe de A.A. por cerca de dois anos. Eu, graças a Deus, continuei participativo da Irmandade, vivenciando os passos, respeitando as tradições e procurando realizar serviços até que, em junho de 2002, eu tive a grata satisfação de estar novamente com meu pai dentro de A.A.

Daquele momento em diante, venho apadrinhando-o e presenciado sua dedicação pela recuperação.

Hoje ele já compreende que realmente eu não estou em A.A. porque tenho um pai alcoólico, e sim, porque eu sou um alcoólico.

Em certa reunião um companheiro nosso, pai de um amigo meu, e que me conhecia desde criança, também disse que eu não era alcoólico. Outras pessoas que não fazem parte de A.A. me disseram que eu era muito jovem, e que eu não precisava ser tão radical em não beber nenhum gole, mas eu bem sei dos meus problemas com a bebida, e que realmente preciso evitar o primeiro gole e recuperar-me da doença através do programa de doze passos. No meu ponto de vista, essas conclusões de certas pessoas, alcoólicas e não, sobre mim, referente ao alcoolismo, refletem, de certa forma, uma visão da nossa sociedade em geral, ainda distorcida sobre o alcoólico. De que é somente aquele que está no mais profundo estágio do alcoolismo, com muitas perdas, quase à beira da loucura ou da morte. Esquecem-se, que mesmo estes, não nasceram assim. Que essa condição foi galgada, dia após dia, utilizando o álcool de forma progressiva, e quase todos os alcoólicos
não começaram diretamente na sarjeta. Entretanto essa visão tem se modificado, dentro e fora de A.A. As pessoas têm reconhecido a natureza progressiva da doença, além de compreenderem que ela não escolhe sexo, raça, idade, posição sócio-econômica-cultural e que a Irmandade de A.A. está de portas abertas para todo aquele que deseja abandonar a bebida.

Tenho visto cada vez mais jovens dentro das salas e espero estar contribuindo de alguma forma para que o jovem se sinta cada vez mais à vontade na Irmandade, participando de reuniões em vários grupos e apadrinhando alguns jovens.

Deixo aqui o meu grande abraço a todos os companheiros e reitero: A.A. é para todos, inclusive os jovens!

Muita sobriedade e serenidade!

Anônimo

(Vivência – Mai/Jun. 2004)

A MULHER E O TERCEIRO LEGADO

A Mulher e o Terceiro Legado

O que é exatamente o Terceiro Legado?

A resposta é simples: um serviço em A.A. é qualquer coisa que nos ajuda a alcançar companheiros que estão sofrendo. Os serviços abrangem desde a xícara de café até a Sede de Serviços Gerais, para a ação nacional e internacional.

Precisamos ficar atentos ao crescimento de A.A. que está indiretamente ligado ao esforço pessoal de cada um de seus membros. Acreditamos ser este o momento em que passaremos a ter muito trabalho pela frente.

Como mulher alcoólica participante da Irmandade, sei que a caminhada é longa, é árdua, mas gratificante. O apoio e incentivo dos companheiros nos ajudam a fortalecer os laços que nos unem, seguindo juntos homens e mulheres com um só objetivo: “Precisamos levar a mensagem de A.A., caso contrário, nós podemos cair e aqueles a quem não chegou ainda a verdade, podem morrer”.

A mulher desperta para o Terceiro Legado, compreendendo que este faz parte da sua recuperação e que o serviço é absolutamente necessário. Sua realização depende da disponibilidade e capacidade de cada um exercê-lo e não por ser do sexo feminino ou masculino.

Nos Estados Unidos, de 1941 a 1945, as primeiras mulheres alcoólicas começaram a chegar. No início o principal preconceito era das próprias mulheres e, com o tempo, pelo exemplo de sucesso das poucas que haviam ingressado, a situação mudou para melhor. Hoje, de cada quatro alcoólicos que chegam às nossas salas, um é do sexo feminino; e já existem mulheres ocupando encargos de Custódio Classe B.

No entanto, aqui no Brasil, apesar de “aparentemente não haver nenhum tipo de barreira contra a mulher dentro de A.A. por parte dos companheiros, e o número de membros femininos ter aumentado significativamente, ainda são muito raras as mulheres que exercem encargos dentro da estrutura de serviços”.

Essa comprovação pode ser facilmente obtida olhando-se para “quem representa o quê” nas reuniões do CRI, dos Distritos e Assembléias de Áreas. Também contam-se nos dedos as coordenadorias gerais de grupos exercidas por mulheres.

Numa primeira visão, um preconceito disfarçado parece ser uma das causas desta ausência. Os homens de A.A. aceitam a colaboração de companheiras, mas não confiam nelas para funções de maior importância.

Isto só, no entanto, não nos basta para responder a questão, pois cada vez que uma mulher se mostrou realmente decidida a ocupar o seu lugar na Irmandade, através do amor e dedicação ao serviço, os procedimentos ” chauvinistas” anteriormente mencionados mostraram-se frágeis e quebradiços, diluindo-se rapidamente frente ao impacto do exemplo prático da eficiência.

Assim, podemos afirmar sem medo de errar que, exatamente como acontece com ambos os sexos, em qualquer situação da vida, o não desenvolvimento da alcoólica em recuperação com o serviço tem suas causas mais para dentro dela do que para fora.

Questão de educação? Problema cultural? Ou será a natural inércia que envolve a grande maioria dos chamados alcoólicos em recuperação, sejam eles homens ou mulheres, quando abandonam a bebida?

No entanto, independentemente das considerações filosóficas, uma coisa é certa: a qualidade da sobriedade da mulher ingressada em A.A. será sempre diretamente proporcional ao seu envolvimento com o serviço. Isso porque, assim como acontece com o elemento masculino, a posição de vidraça é de fundamental importância para que aprenda a guardar seu estilingue e, lutando contra uma tendência em todos nós quase irresistível, parar de fazer o destemido e minucioso inventário moral daqueles que a cercam, para se concentrar, por força de vê-los espelhados repetidamente em seus próprios erros.

Além disso, como a identificação é um fator primordial para que a alcoólica pense em abandonar a bebida, somente com as mulheres de A.A. trabalhando ativamente na divulgação de uma mensagem de esperança àquelas que ainda se debatem nas malhas da doença, é que poderemos receber em nossas salas cada vez mais doentes alcoólicos do sexo feminino.

Isso adquire importância ainda maior se considerarmos o enorme preconceito – este sim, realmente existe – da sociedade em relação à mulher que bebe excessivamente. Exemplificando: se estiver num local público, ou numa festa, ela será apontada como fácil e promíscua e provocará, no mínimo, um grande constrangimento.

Outra razão a ser focalizada para que a mulher seja estimulada a abraçar o Terceiro Legado, é o fato de que devido a nossa estrutura sócio-econômica, o homem muitas vezes tem que refazer a sua vida profissional e familiar, e mesmo assim encontra tempo disponível para desempenhar funções dentro da Irmandade. A mulher enfrenta a mesma situação ou tem, por responsabilidade a administração do lar, sobrando mais tempo disponível ainda.

Some-se a isso o fato de que, até por uma tendência sócio-cultural, a mulher é naturalmente mais sensível e perspicaz com relação às coisas da alma humana, podendo na maioria das vezes desempenhar junto à Irmandade em suas partes ou no todo, um papel de aglutinadora e harmonizadora de tendências e opiniões, às vezes desagradavelmente diversas entre si.

Unindo as características femininas à prática do programa de A.A., a mulher pode, sem sombra de dúvida, ser por exemplo, uma excelente secretária de grupo ou de órgãos de serviços; na coordenação de reuniões a utilização dos mesmos atributos será por certo de grande valia para contornar situações delicadas de modo diplomático e eficaz. Com experiência acumulada pode também vir a ser uma excelente RV, RSG, MCD, Delegada, e até Custódio como já ocorre nas diversas partes do mundo.

Para isso, no entanto, ela não deve esquecer que enfrentará os mesmos percalços, embora atenuados pela filosofia imperante, e demais problemas inerentes à sua própria condição de mulher dentro da sociedade contemporânea e ao relacionamento entre pessoas de diferentes sexos. À medida que ela própria, em sua recuperação, diluir os preconceitos, caminhará para a autonomia andando com seus próprios pés.

As regras, no entanto, para o seu crescimento como pessoa e conseqüente abarcamento de maiores responsabilidades dentro de nossa estruturas de serviço, serão as mesmas válidas para os companheiros presentes na mesma luta que encontramos expostas clara e objetivamente nos conceitos para serviços mundiais, dos quais emprestamos os seguintes tópicos:

1. Bons líderes de serviço, bem como métodos sólidos e adequados para sua escolha, são em todos os níveis indispensáveis para o nosso funcionamento e segurança no futuro.

2. Boa liderança pode estar aqui hoje e desaparecer amanhã. Boa liderança pode não funcionar bem em estruturas mal planejadas, mas a má liderança não funciona nem na melhor das estruturas. Daí o caráter periódico dos encargos.

3. Nossos líderes não atuam por mandatos, mas lideram pelo exemplo.

4. Portanto, o líder de serviço é um homem ou mulher que pode pessoalmente colocar planos e normas em ação, de maneira tão delicada e efetiva que leva o resto de nós a querer apoiá-lo e ajudá-lo nesta tarefa.

5. Um líder nunca se esquiva. Uma vez contando com o apoio da consciência coletiva, toma livremente decisões e as coloca em ação, sempre cuidando para não invadir a seara alheia.

6. Um líder tem que saber que mesmo as pessoas mais detestáveis podem estar certas, e as mais agradáveis erradas. Com isso, escutará cuidadosamente também o que dizem os críticos destrutivos, que às vezes podem ter razão.

7. O líder deve ter visão e habilidade de fazer boas estimativas tanto para o futuro imediato como para o futuro distante. Deve também ter firmeza para agir em função delas, mas pensando antes cuidadosamente.

8. O líder deve ter tolerância, responsabilidade, flexibilidade e visão, inclusive no que diz respeito à formação de novos líderes, apadrinhando novatos no serviço e não lhes negando o espaço necessário para seu desenvolvimento.

9. Deve-se selecionar a liderança na base de obter o melhor talento que possamos encontrar, sem pensar jamais em ambições pessoais.

10. O líder deve manter a cabeça aberta e praticar o programa para obter o melhor resultado.

Para aqueles que acham que a situação deve ficar como está e que nossa preocupação com a mulher em especial é uma invencionice sem sentido, pois A.A. não pode ser alterado em nada, lembro as palavras textuais no nosso co-fundador, Bill W., em sua última mensagem: “com o passar dos anos, A.A. deve e continuará a mudar; não podemos e nem devemos retroceder no tempo”.

E ainda, do mesmo, na página 115 do livro “Na Opinião do Bill” quando fala da essência do crescimento: “Que nunca tenhamos medo de mudanças necessárias. Certamente temos que fazer a diferença entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas desde que uma necessidade se torne bem aparente num indivíduo, num grupo, ou em A.A. como um todo, há muito já se verificou que não podemos ficar estacionários.

A essência de todo crescimento é uma “disposição de mudar para melhor e uma disposição incansável de aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique”.

(Marisa M./SP)

(Vivência nº 34 Mar/Abril 95)

COMPARTILHANDO EXPERIÊNCIA

Compartilhando experiência…

Alcoólicos Anônimos oferece muitas alternativas de recuperação para ajudar os alcoólicos. Temos vários tipos de reuniões, uma vasta e rica literatura, a Revista Vivência, cartas aos solitários, Reuniões pela Internet, além dos serviços oferecidos aos membros pelo Terceiro Legado, para que possamos nos ajudar mutuamente e levar adiante a mensagem de A.A. aos irmãos sofredores nas garras do alcoolismo.
Nossa experiência tem mostrado que muitas pessoas pararam de beber após a leitura do livro “Alcoólicos Anônimos”, conhecido nos Estados Unidos como “Livro Grande” e no Brasil como “Livro Azul”, bem como através de outros itens de nossa literatura, incluindo a revista norte-americana e canadense “Grapevine” e a nossa Revista Vivência.
A maioria das pessoas, quando pode logo procura outros alcoólicos para com eles compartilhar suas experiências de sobriedade. Por isso nosso preâmbulo diz: “Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo”. O programa do A.A. é reconhecidamente um programa de “ajuda mútua”. Trabalhando com outros alcoólicos nos Grupos de A.A. ou em qualquer outro local possível o membro adquire apoio necessário que estava faltando. Encontra-se rodeados por outros alcoólicos que passaram por problemas semelhantes e que com ele compartilham essas experiências, forças e esperanças de solução, em busca de como viver em sobriedade. Por muitas razões, membros de A.A. não podem estar presentes nos Grupos, mas somos pessoas privilegiadas pelo Poder Superior por termos à nossa disposição outras alternativas, incluindo nossa Reunião Impressa: a Revista Vivência.
Passei por esta experiência, em 1999, quando fiz uma cirurgia e fiquei vários meses sem poder estar presente às reuniões nos Grupos de A.A.
A Revista Vivência, outros livros e livretes de nossa literatura foram minha companhia e de muita importância para continuar minha recuperação.
Agradeço todos os companheiros e companheiras que, compartilharam
comigo sua sobriedade através dos artigos da Revista Vivência.
Além disso, expresso também minha gratidão aos companheiros e companheiras que, naquela oportunidade, fizeram algumas reuniões na minha residência, uma outra alternativa que muito me ajudou.
Vinte quatro horas de serenidade e sobriedade!
Fraternalmente.

L.R. – Pedro Leopoldo MG

Vivência nº 106 – Mar./Abr. – 2007

A MENSAGEM

Fernão Capelo Gaivota

Numa praia ,

havia uma porção de gaivotas em busca de seu alimento enquanto apenas uma, sozinha, tentava voar de maneira diferente das outras, de uma forma muito especial mas não conseguia, caia. Só que nunca desistia! Tentava voar cada vez melhor!.

Quando finalmente conseguiu, descobriu o quanto se amava e o real sentido de viver! Descobriu que podia aprender a voar, ser livre!

Agora o importante não era receber elogios por sua vitória, queria apenas partilhar com seus amigos o que havia descoberto. Mas eles só lembravam de comer os restos deixados pelos pescadores, migalhas de pão e peixes velhos – pela metade.

Assim não deram importância ao amigo Fernão Capelo Gaivota, que por sua insistência em fazê-los o ouvir acabou por ser excluído do grupo, tendo que viver sozinho em um lugar muito distante.

Mas nem isso fazia Fernão ser triste. O que o entristecia era ver que seus amigos não queriam aprender a voar, aprender a ser feliz, aprender a pegar peixes frescos em cada mergulho magnífico que podiam dar.

Descobriu que o medo e o tédio são as razões porque a vida de uma gaivota é tão curta, e sem isso a perturbar-lhe viveu de fato uma vida longa e feliz.

Quando foi para uma terra longínqua conheceu Henrique que lhe ensinou muitas coisas! Porém seu mestre Henrique foi embora, coube então a Fernão Capelo Gaivota a missão de ensinar as novas gaivotas como voar.

Foi no momento em que estas gaivotas pequenas ficaram um pouco maiores, que ele percebeu que já haviam aprendido o necessário e que podiam continuar sozinhas. Então, mesmo ainda sem permissão resolveu voltar para a sua terra, tentando finalmente mostrar a felicidade de voar a seus antigos amigos.

Queria poder ensinar que o paraíso não é em um lugar nem em um tempo determinado , que o paraíso é perfeito, que está ao alcance de todos. É que basta querer que todos podem ir a qualquer lugar a qualquer momento.

Realizando os vôos que aprendera, voltou próximo a sua terra. Contudo o mais velho do grupo impediu que os demais falassem ou mesmo olhassem para Fernão. Todavia ao perceberam os seus movimentos e lembrando da antiga amizade, foram se aproximando desejando aprender a voar também.

- Pode me ensinar a voar como você? – Perguntou um deles.

- Claro. – Disse Fernão.

E começou a ensinar que o corpo é o nosso pensamento numa forma que podemos visualizar. Então para voar, basta querer! Ensinou tudo o que tinha aprendido com seu mestre amigo Henrique e mais o que aprendera sozinho ensinando as gaivotas mais novas.

- Deu certo! – Gritou uma gaivota ao conseguir voar livremente.

- Dá sempre certo quando sabemos o que estamos fazendo. – Respondeu Fernão. Assim foram passando os dias e ensinando a mais e mais gaivotas. Todas aprendiam! Umas mais devagar, outras mais rápidas, mas todas quando queriam aprendiam.

Quando novamente Fernão Capelo Gaivota percebeu que estava na hora de crescerem sozinhas, partiu para outra terra longínqua a fim de divulgar ainda mais seus movimentos. E assim foi ensinando a quem quisesse ser feliz. Seus discípulos mais tarde fizeram o mesmo, ensinando outras novas gaivotas ….()

O MENINO E AS ESTRELAS DO MAR

O MENINO E AS ESTRELAS DO MAR

Apadrinhar é como devolver as estrelas-do-mar ao oceano.

Observando a história de A.A., vemos que desde o início a experiência contida no trinômio tentativo-erro-acerto foi e é compartilhada de maneira tal que a Irmandade resiste a toda sorte de problemas, muitas vezes cruciais na morte de muitas outras sociedades.

Quando falo “compartilhada”, quero dizer que nossa experiência foi passada de uns para os outros. Tão somente devido a isso, Alcoólicos Anônimos estava funcionando, quando cheguei precisando de ajuda.
Mas como se deu esta transmissão de experiências ao longo dos anos?
Certamente pelo relacionamento entre os membros mais antigos e novos, ou seja, através do APADRINHAMENTO. Portanto, num sentido amplo, posso concluir que minha vida foi salva pelos inúmeros apadrinhamentos que houve antes de minha chegada.
Devemos dar de graça o que recebemos de graça. Para prática de nossa Quinta Tradição, precisamos, sobretudo, que a mensagem continue existindo. Para que isso aconteça, é fundamental que apadrinhemos.
Fica claro que tudo que diz respeito à sobrevivência de A.A., está intimamente ligado ao apadrinhamento.
Do apadrinhamento muitas vezes dependeu ou depende a sobrevivência de muitos de nós no programa de recuperação.
Quando penso na necessidade de apadrinhamento um a um dos que chegam, lembro-me de uma estória sobre um garoto e uma estrela-do-mar:
Um homem caminhava pela praia no inicio da manhã. Bem longe avistou um garoto que parecia dançar perto das ondas. Ao aproximar-se, observou que ele pegava estrelas-do-mar da areia e atirava de volta ao mar suavemente.
Intrigado, perguntou ao garoto por que fazia aquilo, e o garoto respondeu:
“Estou devolvendo as estrelas-do-mar ao oceano, pois o sol está subindo e a maré está baixando. Se eu deixá-las na areia, certamente irão morrer”.

O homem olhou para a vastidão do mar e disse:

“Há quilômetros de praias cobertas de estrelas-do-mar… Seu gesto não vai fazer diferença”.

O garoto abaixou-se, pegou mais uma estrela e, atirando-a carinhosamente ao mar, além da arrebentação, retrucou:

“Faz diferença pra esta aí…”

Apadrinhando o recém-chegado em todos os níveis, continuamos com nosso propósito primordial, continuamos com nossa mensagem e continuamos juntos, com mais um companheiro que, certamente, apadrinhará um dia.

(Vagner SBC)

VIVÊNCIA N° 36 JUL/AGO. 1995

O PASSO DO MILAGRE

O Passo do milagre -
(Eloy T.)

Se, simplesmente, parássemos de beber sem fazer qualquer outra coisa em nosso favor, seria como nas inúmeras vezes que paramos anteriormente – por pouco tempo.

Parar de beber, em A.A., tem um significado mais amplo e implica, conseqüentemente, em maiores responsabilidades. Parar de beber em A.A. significa buscar os meios de não voltar a beber. Devemos repetir sempre o que disse Bill W.: “Não posso afirmar que jamais beberei, mas posso afirmar que não pretendo voltar a beber”. Para tanto, é preciso que se opere em mim uma mudança. Mas, mudar o quê? Como posso saber o que mudar? Mudar o que está errado, é claro. Mas, o que está errado? Como saber as respostas para essas perguntas?

A resposta está no Quarto Passo. Preciso conhecer-me, e conhecer-me a fundo. Preciso seriamente rever o meu passado, examinar a minha conduta, estudar as minhas atitudes; preciso saber porque agia desta ou daquela maneira. Meu comportamento frente aos fatos da vida foram, constantemente, ditados por minhas virtudes e por meus defeitos. Portanto, todos os fatos e os atos são importantes e merecem ser longamente estudados à luz de demorada e repetida meditação. Devo dedicar ao Quarto Passo quantas horas forem
necessárias: dias, ou semanas, talvez. Ele (o Quarto Passo) só terá atingido seu objetivo quando eu puder afirmar: “Agora eu me conheço; sei quem sou e porque o CRIADOR me colocou neste mundo e me deu esta vida”. O Quarto Passo é o Passo do auto-conhecimento. É o destruidor da falsa imagem que projetei para minha própria satisfação. Agora sei quem sou e posso enfrentar a realidade.

Da mesma forma que o Quarto Passo nos assustou, o Quinto Passo também nos encherá de medos. Já não basta saber que não a pessoa boa que me acostumei a admirar? Terei, ainda, que mostrar aos outros, desvendar o segredo? Na verdade, os segredos que carrego comigo, por si, nenhuma importância têm, mas, se desvendados, revelarão quem verdadeiramente sou.

Mas, o Quinto Passo que Bill denominou: “O passo da reconciliação consigo mesmo”, bem poderia chamar-se “O Passo do Milagre”. Sim, do Milagre! No momento em que rompo as barreiras do medo, abro com outro o meu coração. No momento em que revelo a alguém a pessoa que sou, sem máscara ou disfarces, nesse mesmo momento, qual um milagre, tudo muda. Em um único segundo esvai-se o medo, desaparece a culpa que dá lugar ao perdão. Estou perdoado, e perdoado pelo simples propósito que tenho de mudar minha vida. Agora gosto de mim apesar de minha feiúra, de meus defeitos; esses defeitos que de agora em diante serão minha permanente preocupação. De fato, redimir-se do passado é organizar o presente com vistas ao futuro. Feito o Quinto Passo, posso afirmar: “Estou salvo”. Agora parto em busca de uma vida melhor; do encontro com um irmão, parto à procura de outros irmãos; reconciliado comigo mesmo, irei me reconciliar com todos.
Destas afirmações conscientes, nasce a nova ótica da vida e do mundo, a alegria de viver. Nada mais tenho a temer, pois adquiri a capacidade de dar e receber.

(Vivência – Nov/Dez 95)