Monthly Archives: Março 2013

O VALE DOS MEUS SONHOS

PRECE E MEDITAÇÃO

“Se você realmente quiser e procurar Deus, Ele o ensinará; não adianta explicar… só experimentando. “

Nesta minha jornada rumo à recuperação tenho me dado conta que para se harmonizar com o mundo o alcoólico necessita como nunca do auxílio do Poder Superior, porque só Ele pode inspirar e suprir as deficiências do deus interno, orientando-o no que fazer e na compreensão das coisas. Com pleno direito para usar meu livre arbítrio, tenho necessidade da prece e da meditação para continuar recebendo orientação divina.
A prece é súplica, pedido, oração. A meditação é o trabalho que nos compete fazer para que o Poder Superior, através dele, venha nos ajudar.
Meditar é examinar, investigar mentalmente, analisar, raciocinar sobre determinado assunto, religioso ou não. É também fazer considerações sobre o mesmo; procurar deduzir seu verdadeiro significado, chegando a uma conclusão.
É uma espécie de discurso mental em que vamos expondo um assunto e fazendo considerações sobre ele até chegarmos a uma convicção.
O alcoólico, toda vez que pensou seriamente sobre seu problema de alcoolismo, nada mais fez do que “meditar” sobre ele.
Acontece o mesmo nos vários passos sugeridos no Programa de recuperação de A.A.
Já na prece fazemos um pedido ao Poder Superior ou uma oração que nós mesmos inventamos; o importante é que contenha aquelas condições de entrega e submissão a Deus, reconhecendo Sua sabedoria e poder.
É o “eu não posso, Você pode, me ajude”.
Na meditação a gente escolhe um assunto de nossa vida normal, um problema que se tem no momento ou um dos ensinamentos de Deus. A escolha é livre. E começamos a pensar sobre o tema.
Essa meditação antecedida da prece normalmente nos conduz a uma conclusão satisfatória do que fazer porque Deus sempre nos orienta dando a intuição do caminho a seguir.
Muitas vezes não vemos esta rota com clareza, mas sentimos a mesma tranqüilidade que teríamos se o assunto já estivesse resolvido.
Isso significa que Deus nos ouviu e vai tratar da questão. Basta irmos fazendo o que nos for ocorrendo que o problema se resolverá com o tempo. Deus conduz nossos atos para isso.
Se ligarmos nosso rádio ou nossa televisão e sintonizarmos uma determinada emissora, nós ouviremos ou veremos o programa que ela estiver transmitindo.
A prece corresponde a ligarmos nossa antena, nosso espírito, e a meditação a sintonizarmos na onda intuitiva em que Deus transmite, com a diferença de que podemos escolher o programa, ou seja, o assunto sobre o qual queremos tratar.
Só quem experimentou é que pode saber o que significa fazer uma prece a Deus e depois meditar sobre o assunto, principalmente quando se trata de coisas espirituais.
É impressionante a clareza que vem ao nosso raciocínio, a compreensão que alcançamos de coisas sobre as quais já cansamos de pensar antes sem achar solução.
De repente vemos, intuímos, adquirimos o conhecimento do que fazer e uma convicção de que vai dar certo.
Então sentimos que a capacidade de nossa mente foi consideravelmente ampliada, tornando tudo fácil.
E ainda somos invadidos por uma onda de tranqüilidade que não conseguimos explicar.
É a ação de Deus.
Pode ocorrer que nos envaideçamos com essa capacidade e nos julguemos com muitos méritos perante Deus e deixemos de sentir a submissão e a humildade perante Deus, julgando então como orientação divina alguma coisa que tenha sido apenas dedução nossa.
É bom sempre testar se não foi isso que aconteceu, verificando se a resposta “divina” contém bondade, justiça e misericórdia e se não interfere no livre;arbítrio de terceiros.
Lembremos que Deus é perfeito. Não faz coisas imperfeitas nem que não contenham os atributos citados.
A prece e a meditação não são para as emergências. São para a nossa vida diária; para iniciarmos e terminarmos cada dia.
A grande dificuldade que tive para chegar a essa prática foi a falta de humildade e a idéia errada que eu tinha do que era realmente o Poder Superior.
Quando eu compreendi que os males da Terra não eram causados por Deus e sim pelos homens; que Ele não interferia no mundo, estava ausente dele, só o fazendo na vida dos que Lhe solicitavam ajuda e nas condições que estabelecera para tal; que o fazia somente para ajudar, nunca para punir ou castigar; que Sua vontade para comigo era a minha evolução espiritual, a felicidade e a imortalização do espírito; enfim, só quando compreendi que Deus é um ser realmente bom, justo, misericordioso e perfeito que dera o livre arbítrio aos homens, foi que a prece e a meditação passaram a ser para mim uma conversa muito agradável na linguagem do “SENTIR”, da qual sempre me beneficiei muito.
Só experimentando. Não adianta tentar explicar. Nem precisa.
Se você realmente quiser e procurar Deus, Ele o ensinará.

… percebi que estava sentindo serenidade. Era um bom sentimento, mas de onde vinha? Então percebi que ele tinha vindo como resultado destes Passos.

SERENIDADE
Dr. Laís Marques da Silva, Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

SIGNIFICADO DA PALAVRA SERENIDADE
Vamos procurar entender o que significa esta palavra tão importante para a recuperação do alcoólico. Consultando o “Aurélio”, vemos que serenidade é a qualidade ou estado de sereno; também suavidade, paz, tranquilidade. Sereno é igual a calmo, tranquilo, manso, sossegado.

COMO SE APRESENTAM OS COMPANHEIROS SERENOS ?
Iniciemos o trabalho fazendo uma pesquisa para aprofundar o nosso entendimento acerca do significado da palavra serenidade. Vamos observar como são os companheiros em A.A. com muitos anos de sobriedade; notamos que são pessoas seguras, confiantes, serenas e relaxadas emocionalmente, apesar de já terem sido, no passado, alcoólicos considerados sem salvação. Este é o modo pelo qual se apresentam os companheiros serenos.

COMO SE SENTEM ?
Mas como eles se sentem? Nas “Reflexões Diárias”, na página 173, temos o seguinte depoimento: ” percebi que estava sentindo serenidade. Era um bom sentimento, mas de onde vinha? Então percebi que ele tinha vindo… como resultado destes Passos”.
Estar sereno é sentir-se bem, sem preocupações e sem pressa. É não estar esmagado pelos compromissos e prazos. É não sentir que o mundo vai se acabar se não fizer as coisas. É viver cada momento da vida. É não levar o peso do passado nem sofrer com as incertezas do futuro. As pessoas serenas aceitam as coisas que não podem modificar, ou seja, aceitam o mundo como ele se apresenta.
Se tivéssemos que pintar o retrato de uma pessoa serena, destacaríamos os seguintes traços e cores: esperança, amor, humildade, honestidade, paciência, fé, sensação de ter valor, alegria, oração constante. Se quisermos ser serenos, teremos que colocar esses traços também na nossa pessoa e, como veremos adiante, há um caminho para conquistar essas qualidades.

ATIVIDADES QUE DESEMPENHAM
Para avançarmos um pouco mais na nossa compreensão de como são as pessoas serenas, vamos ver quais as atividades que elas desempenham: lêem muito, fazem cursos, visitam amigos, fazem caminhadas, apreciam as belezas que o mundo oferece, tocam instrumentos musicais, realizam atividades humanitárias, teen passatempos prediletos, vão à praia, visitam museus, etc. Mas, sobretudo, sempre encontram tempo para as coisas que realmente desejam fazer.
Contemplam o nascer de um novo dia, apreciam o espetáculo do anoitecer, ouvem o barulho das gotas de chuva, sentem o cheiro da relva molhada, ouvem o sussurro das água do rio, do vento nas folhas das árvores e o canto dos pássaros. Sabem que tudo isso lhes é dado graciosamente, mas sabem também que muitas das grandes respostas de que necessitam só chegam nos momentos de silêncio, de contemplação e de meditação
Estudamos detalhadamente o modo de ser e de agir de uma pessoa serena porque a serenidade é a qualidade mais importante que um alcoólico precisa ter para se manter sóbrio. Sem ela, aumenta o autocentrismo, o ressentimento, o desespero e o afastamento da vida social e o mais importante é o fato de que qualquer uma dessas situações pode levar o alcoólico à garrafa.A serenidade vem com o despertar espiritual e com a mudança da personalidade tão importante para a recuperação do alcoólico e que usualmente ocorre de maneira gradual e imperceptível. Faltando a serenidade, o alcoólico fica incapaz de avaliar e de manter esses problemas dentro dos seus devidos limites. A pessoa serena tem uma visão melhor da realidade, é como se ela visse as coisas numa atmosfera clara, em que a poeira já tivesse assentado, enquanto que os que não possuem a mente tranquila não conseguem distinguir as coisas, não avaliam corretamente os problemas do quotidiano; a visão das coisas está prejudicada pela poeira em suspensão e pela fumaça.

SENTIMENTOS E COMPORTAMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS
Vimos como é uma pessoa serena e que traços devemos procurar aprimorar para sermos mais serenos.No entanto, aqui e ali, aparecem os comportamentos que precisam ser evitados e, neste ponto, é preciso nos determos num sentimento que o alcoólico não pode se dar ao luxo de ter- o ressentimento. Na página 82 de Alcoólicos Anônimos encontramos que ” o ressentimento destrói mais alcoólicos do que qualquer outra coisa”.
O ressentimento que temos em relação a outras pessoas causa maior mal a nós mesmos. O mal que desejamos aos outros desaba sobre nós. Alimentar os nossos ressentimentos equivale a entregar aos outros o comando da nossa vida. Lá se vai o nosso tempo e a nossa emocionalidade para a pessoa por quem nutrimos o ressentimento. A nossa atenção fica ligada nelas e esquecemos os nosso objetivos pessoais. Se alguém tentar nos tirar do caminho, cabe a nós usar a energia para viver com alegria e voltar ao curso da nossa vida, até porque é muito bom nos voltarmos para quem merece a nossa maior consideração: nós mesmos. O sentir-se ressentido equivale a nos estarmos vitimando com a conduta dos outros, ou seja, a deixar que os nossos cordões emocionais sejam puxados pelas pessoas em relação às quais nutrimos o ressentimento e, o mais estranho ainda, é que, usualmente, essas pessoas nem sabem disso.

COMO ALCANÇAR A SERENIDADE ?
Costumamos dizer que as coisas não caem do céu mas, no caso da serenidade, ela realmente cai do céu e os dois modos pelos quais ela chega até nós são a oração e a meditação. É preciso trabalhar o nosso interior e praticar os Passos do Programa de Recuperação de A.A. e, em especial, o Passo 11. Na página 173 do livro “Na Opinião de Bill” vemos que “As raízes da realidade, suplantando as ervas daninhas neuróticas, vão promover uma base firme, apesar do furacão das forças que nos destruiriam ou que usaríamos para nos destruir.”
A oração, mesmo quando feita de modo pessoal e espontâneo, é importante para estabelecer um contacto entre nós e o Poder Superior. Meditar é submeter a um exame interior. É, antes de tudo, criar uma ausência de consciência, sentir-se como sendo levado por uma corrente para o próprio interior mais profundo. Certas músicas ajudam a conseguir entrar nesse estado de ausência de consciência. A meditação é uma forma de descansar a mente e de aliviar as tensões e as preocupações de um mundo de atividades intensas porque, da mesma forma que o corpo, também a mente precisa alternar períodos de atividade e de repouso e daí a necessidade de tranquilizar a mente, de criar momentos de relaxamento, isentos de tensão. Nos grandes momentos de felicidade nós desfrutamos a realidade, ficamos imersos nela e não ficamos tomados por pensamentos ou por preocupações.
Há várias práticas que estabelecem métodos definidos mas a meditação pode ser feita de modo pessoal, em qualquer lugar e a qualquer instante. Um lugar calmo e fracamente iluminado ajuda muito. Estar confortavelmente instalado e ter uma música suave ao fundo também auxilia. É preciso não ser interrompido pelas outras pessoas. Respirar profundamente e fechar os olhos concorrem para o relaxamento. A atenção deve estar voltada para dentro. Se pensamentos passam, não os agarre. Quando um pensamento chegar, empurre-o para fora e diga para esperar porque este é o momento reservado para a meditação. Isso pode parecer difícil no início mas, com o tempo, o exercício o tornará capaz de fazer com facilidade. Não tente resolver os problemas neste momento. Permaneça assim por cerca de quinze minutos mas não olhe para o relógio nem se preocupe com o tempo. Ao voltar às atividades normais, a pessoa se sentirá como vindo de um longo e reparador sono e estará revigorada e serena.
Da mesma forma que o corpo, também a mente precisa alternar os períodos de exercício e de repouso e daí a necessidade de tranquilizar a mente, de criar momentos de relaxamento e de tranquilidade, isentos de tensão. Nos grandes momentos de felicidade nós desfrutamos a realidade, ficamos imersos nela e não tomados por pensamentos ou por preocupações.
A meditação é uma forma de descansar a mente e de aliviar as tensões e as preocupações de um mundo de atividades intensas. Basta fazer o relaxamento e manter a mente em silêncio.

PENSAMENTOS E PRÁTICAS QUE AJUDAM
Além da própria Oração da Serenidade, os companheiros encontram nos grupos certos pensamentos que ajudam a manter a serenidade e que, pela sua repetição constante, tornam-se parte do subconsciente. Entre eles temos: “um dia de cada vez”, “com calma se resolve”, “viva e deixe viver”, “se funciona, não conserte”, “desligue”, “isso também passará”, etc
Ademais, algumas providências poderão ser tomadas no dia a dia de cada companheiro de modo a também criar condições favoráveis a fim de alcançar a serenidade. É conveniente planejar o dia para não ficar rodando em círculos ou permanecer como um barco sem rumo. A falta de propósito é frustrante e isso não é bom para a serenidade. Realize trabalhos manuais porque são construtivos e recompensadores. Mantenha o humor. Rir é o melhor remédio. Procure o lado alegre e divertido das coisas. Ficar pensando em nós mesmos pode abrir as portas para pensamentos destrutivos que invadem a mente. Será que vou perder o emprego e não poderei pagar os compromissos? será que ficarei enfermo? Isso tudo é muito doentio, enquanto que é saudável pensar nos outros, nas suas necessidades e, em especial, nos alcoólicos que ainda sofrem.
É preciso viver o momento presente, o único que realmente podemos viver, estar relaxado e então poder fazer a “Oração da Serenidade” na sua plenitude.
A cada momento surge a liberdade de escolher, que é a maior liberdade. Beber ou não, comer ou não, ser bom ou ser mal, ser feliz ou sentir-se miserável, olhar o lado ruim ou o lado claro e brilhante das coisas. É tão fácil ser otimista quanto pessimista, só que o otimismo conduzirá à estrada que leva à serenidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez alcançado este tipo de equilíbrio, ao qual se pode ajuntar a paciência e a tolerância, a vida será muito mais feliz e completa do que jamais foi pensada e sonhada antes. Alcançada a serenidade, não mais se viverá no passado nem se projetará no futuro. Mas é preciso estar alerta porque é necessário crescer sempre. Achar que já está bem e descansar, poderá levar à garrafa. Por outro lado, é bom notar que não conseguimos estar serenos o tempo todo pelo simples fato de sermos humanos e, portanto, imperfeitos. Mas temos que progredir sempre no caminho que leva à serenidade. O alcançar a serenidade está ligado a uma atividade que deve durar a vida toda. Ter a serenidade como objetivo faz com que as nossas atenções e o nossos esforços fiquem dirigidos para ela o tempo todo, evitando, desse modo, os desvios que sempre poderão ocorrer.

CRESCIMENTO ESPIRITUAL
Dr. Laís Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.
Palestra proferida por ocasião da XVI Convenção Nacional de Alcoólicos Anônimos – São Paulo, abril de 2003.
VIDA ESPIRITUAL
“Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual,… somos seres espirituais passando por uma experiência humana”.
Teilhard de Chardin

É freqüente que as pessoas tenham a idéia errada de que a vida espiritual é alguma coisa diferente e que deva ser vivida em separado, num cantinho lá do céu, num ambiente etéreo e místico. Pensam também que o nosso dia a dia está ligado a uma outra realidade que não é lá estas coisas, se comparada com o que concebem como sendo a vida espiritual, além de muito mundana. É também comum pensar que, para ser uma pessoa espiritual, é preciso não dar importância à nossa vida do dia a dia e ir para uma outra dimensão inteiramente diferente, um reino especial. Separamos e dividimos o que é uno e isso acontece com freqüência. Ademais, a dimensão do que se entende por vida espiritual vai muito além da repetição inconsciente de um ritual ou de uma oração. Por vezes, nos damos conta do potencial que temos de crescimento, mas é preciso ter em mente que ele não acontece por si mesmo. Há caminhos a serem percorridos, programas e passos a nos orientar a fim de termos esse potencial realizado. É preciso estar conscientes do modo como agimos, de como nos relacionamos conosco, com o nosso corpo, com as pessoas que nos rodeiam porque tudo isso cria uma espécie de mundo, interior e exterior, dentro do qual vivemos. Ao evoluir nesses aspectos das nossas vidas, iremos criar condições para viver melhor e para crescer espiritualmente e, nesse ponto, estaremos optando pela liberdade ou pelo sofrimento. Desenvolver a dimensão espiritual é próprio da vida dos seres humanos.
Pode ser difícil andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas, mas fazer exatamente isso sobre a terra tem-se mostrado um enorme desafio, uma tarefa que apresenta novas dificuldades a cada momento. Tornar-se um ser com um individualismo ameno e afável é, provavelmente, o milagre maior que podemos realizar, o objetivo maior que temos na vida. O grande milagre é tornar-se um ser espiritualizado, pois a vida a todos nós tem ensinado que uma pessoa que tenha uma mente poderosa, se não tiver um bom coração, este poder não será de qualquer valia e pode ainda ser desvantajoso. Para caminhar sobre a terra, cada indivíduo tem que partir do fato de que possui uma consciência e de que é um ser único no mundo. Nada e ninguém é igual e isso implica em que o ser humano é só, sente a sua solidão. Possui uma identidade única, é singular. Além de diferenciado no momento da concepção, vive em ambientes diferentes e se desenvolve de um modo que lhe é próprio. Tem que ser ele mesmo dentro do seu espaço de liberdade. O senso de autonomia e autodeterminação lhe traz a idéia de ser responsável por si mesmo, uma vez que é o capitão do seu barco e mestre do seu destino. Percebe que só pode afirmar as suas potencialidades concretizando a própria individualidade. Mas aí entra a idéia de limite, pois que se vai longe demais nesta linha de desenvolvimento, acaba se tornando um ser orgulhoso, degenerado e autodestrutivo. Há também o fato não menos real de que, como ser social, necessita das outras pessoas não só para sustento e companhia, mas também para encontrar significado e sentido para a sua própria vida. Assim, há duas realidades distintas e em oposição e ambas são reais. Chamamos a isso de paradoxo e é a partir dele que temos que crescer espiritualmente.
O indivíduo é impulsionado para o desenvolvimento total das suas possibilidades, mas tem que reconhecer que é incompleto e, como tal, tem a sua fraqueza. Trabalha com a individuação de um lado e com a sua dependência, de outro. O desenvolvimento que se faz mais calcado em uma das vertentes do paradoxo desequilibra a equação. As oposições geram ou são a origem de conflitos, mas se os opostos forem unificados, não haverá tensão, conflito ou medo. O eu torna-se mestre de si mesmo e a vida pode vir a ser o que o indivíduo deseja. Surge a liberdade, o domínio e a unificação. O desenvolvimento espiritual permite encontrar um ponto de equilíbrio entre essas duas tendências. É esse desenvolvimento harmonioso que evita possíveis desvios. Se caminha pelo lado do individualismo, acentua a independência e a auto-suficiência e aí, como não consegue ser auto-suficiente nem independente completamente, é levado a falsificar, ocultando fraquezas e falhas. Tenta ser super-homem e controlar totalmente a sua vida. O individualismo, no entanto, leva ao isolamento social, à solidão que condena a viver um inferno existencial e, numa dimensão maior, à fragmentação da sociedade. Mais adiante, o indivíduo aprende que é natural e humano sentir ansiedade, depressão e abandono e percebe que é no convívio com os outros que pode compartilhar estes sentimentos sem medo ou culpa e ainda sem julgamento, se encontra o nível necessário de entendimento.
A partir deste quadro simplificado e, sendo membro de A.A., o companheiro cresce espiritualmente e passa a desenvolver a ética de um individualismo suave. Por outro lado, a vida mostra que, para cultivar um bom coração, não é suficiente dizer a nós mesmo que devemos ser bons, pois dizer o que devemos ser, sentir ou fazer não nos faz viver deste modo, mas nos abarrota de “deverias”, que muitas vezes nos fazem sentir culpados porque nunca somos como pensamos que deveríamos ser.
O que realmente é necessário, é transformar as nossas mentes e comportamentos aceitando um fato bem caracterizado pelo mito do dragão. Os mitos são uma maravilhosa fonte que nos ajudam a compreender os complexos e multidimensionais aspectos da natureza humana porque representam uma determinada realidade. O dragão é uma criatura mitológica que vem sendo usada por diferentes culturas há muitos séculos. Ele simboliza os seres humanos, já que são cobras com asas, vermes que podem voar e é isso que nós somos. Rastejamos como répteis, atolados na lama de pecaminosas tendências e preconceitos culturais resultantes da mente fechada. Mas, como pássaros ou anjos, podemos voar e transcender a realidade de réptil porque somos espírito e capazes de alcançar os céus. Esta é uma visão clara da nossa realidade.
No mundo ocidental costumamos separar o físico do espiritual. A tecnologia tem desenvolvido conhecimentos que melhoram a nossa qualidade de vida e a nossa condição física pessoal e, particularmente, a nossa saúde. Mas vale dizer que a ênfase maior caberia ao lado espiritual, já que o espírito é entendido por nós como sendo eterno, imortal. Aqui fica uma importante pergunta: seria possível, com a tecnologia de guerra existente nos nossos dias, sobreviver dentro desta posição de manter separado o físico do espiritual? Tudo indica que, para salvarmos a nossa pele, teremos que salvar primeiro as nossas almas. Logo, desenvolvimento espiritual não é retórica abstrata e sem sentido prático. Não parece ser possível melhorar a confusão em que colocamos o mundo de hoje sem pensarmos em alguma espécie de cura espiritual.

UM PROCESSO
Feitas as colocações iniciais, passamos a observar e a apreciar o que acontece num grupo de A.A. e também a identificar o modo pelo qual ocorre o despertar e o crescimento espirituais, em alguns de seus aspectos. Dentre as muitas realidades com que se defronta um recém-chegado a um grupo de A.A., destaca-se a de que, embora fique claro que o objetivo principal seja evitar o primeiro gole e assumir que é só por hoje, ele se dá conta de que há uma mensagem não escrita, que está no ar, e que aponta para o fato de que não basta que apenas viva como um alcoólico sóbrio, em abstinência. Percebe que não é suficiente apenas estar sóbrio, mas que precisa ganhar condições de permanecer sóbrio. Ou seja, ele observa que os companheiros ali presentes não estão apenas sóbrios. Muitos permaneceram sóbrios por longo tempo e estão bem, compostos e felizes. Além do mais, são educados, afáveis, atenciosos e ainda exibem uma atitude de boa vontade e de abertura em relação aos demais companheiros. Tudo isso a indicar que houve um progresso na recuperação. Assim, descobre que há um caminho a ser percorrido, que há uma proposta para esse caminho e, mais adiante, vai ver que progredir ao longo deste caminho é bem mais complexo do que se manter sóbrio. É preciso construir novas referências, estabelecer prioridades, deixar brotar novas esperanças, livrar-se de antigos comportamentos. A porta aberta do grupo dá acesso a uma nova realidade, a um caminho iluminado por luz libertadora.

COMUNICAÇÃO EM PROFUNDIDADE
A seguir, observa que as reuniões do grupo são marcadas pela fala, são reuniões em que se fala, e que o silêncio por parte dos que ouvem, usualmente, é completo. Assim, aquele que fala encontra no silêncio dos outros uma atitude de respeito em relação ao companheiro que faz o seu depoimento, e que isso estabelece uma abertura, traduz uma disponibilidade da parte dos companheiros do grupo.
O homem se realiza como pessoa através da comunicação; na comunicação o indivíduo sai de si em direção ao outro, passa a existir espiritualmente, ao mesmo tempo em que oferece a sua interioridade. Ganha a noção de si mesmo, da sua singularidade espiritual, e não só passa a ser gente, mas se realiza como gente quando se projeta sobre o outro. O isolamento faz crescer o sentimento de insegurança, o medo, mas o grupo responde à necessidade de superar a separação, de realizar a união, de transcender a vida individual, de entrar em sintonia com os outros. No grupo de A.A. todos se relacionam entre si, numa complexa interação. Estar fora dos relacionamentos é como estar fora da vida, e o homem sofre intensamente quando se sente isolado, fora do sistema de relações. Por outro lado, necessita recompor a sua auto-estima, ser aceito e que alguém diga: “Seja bem-vindo ao nosso grupo, você é a pessoa mais importante para nós”. A rejeição que sente, da parte dos que compõem o seu ambiente social, o faz sentir uma experiência de morte e, muitas vezes, o alcoólico nem é chamado pelo nome, apenas tem apelido.
Mas o silêncio de quem escuta um depoimento transmite a quem o faz a seguinte mensagem: eu sei que você tem valor, que é apenas um doente, que é um ser humano como eu, que sofre de uma enfermidade devastadora e, por isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito. Você tem valor e merece a minha compreensão e eu sou capaz de compreender porque tenho a “qualidade” de ser um alcoólico e de ter sido batido pelo mesmo demônio, o alcoolismo. O silêncio permite uma interação, um relacionamento direto e profundo, de olho no olho. Possibilita que se estabeleça uma empatia, significando que se sente precisamente o sentimento e o significado do que está sendo relatado.
Aquele que faz o depoimento encontra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal, o que é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o silêncio permite que ele seja ouvido e compreendido e não apenas escutado. Neste ambiente, o companheiro pode abri-se inteiramente, baixar a guarda, pode estar presente de corpo e alma. O outro ganha existência real e a comunicação inter-humana, com todo o seu potencial, é restabelecida e, não menos importante, fica aberta a porta para o ganho da auto-estima. Compartilha porque tem a mesma necessidade e porque sabe que os companheiros da A.A. podem cicatrizar uns aos outros.
A comunicação profunda, assim estabelecida, quebra o isolamento do alcoólico e integra os membros do grupo dentro de um todo. É estabelecida uma relação intensa e profunda entre os membros do grupo, ao contrário dos contactos sociais superficiais e usualmente ligados a interesses. O relacionamento estabelecido é gratuito porque aquele que faz o seu depoimento oferece a sua experiência pessoal e os demais companheiros, no seu silêncio respeitoso, a sua compreensão e o seu amor de irmão.
O silêncio permite a manifestação da palavra, com todo o seu poder, e induz uma relação de reciprocidade, entendida como um mecanismo totalizador que envolve a todos os que estão no grupo. Estão imersos numa só atmosfera. Essa relação interpessoal profunda é o fundamento da existência de A.A.. É nela que se ganha dimensão humana e espiritualidade, e isso, numa época em que as pessoas se permitem esquecer do que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.
Estabelece-se um ambiente sagrado, vivem-se momentos mágicos e todos sentem essa realidade, sendo usual que os companheiros que fazem os seus depoimentos os encerrem dizendo: “Obrigado pelo silêncio de vocês”.

VALORES ESPIRITUAIS
Identificada a existência de um caminho a ser percorrido, de um programa, e restabelecida a comunicação social numa dimensão muito especial, em algum momento deverá acontecer que um companheiro se aperceba de que uma lágrima rola em seu rosto no decurso de um depoimento. É que terá emergido nele um dos sentimentos mais poderosos que um ser humano pode sentir, que é a compaixão, e isso representa um importante marco no crescimento espiritual.
A compaixão, entendida como a consciência profunda do sofrimento de uma outra pessoa associada ao desejo de aliviá-la, é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os outros companheiros. Não há sentimento mais enriquecedor e mais denso do que a compaixão. Nem a nossa própria dor pesa tanto quanto a dor que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogamos conosco e começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento. Ocorre também que esta dor é prolongada por muitos ecos, que são as lembranças que conservamos e que voltam posteriormente à nossa consciência repetidas vezes. Ter compaixão não é ter pena. A pena coloca as pessoas em situação de superioridade. Compaixão é sofrer junto com quem sofre, caminhar com quem caminha, é atender as necessidades do outro, é não abandoná-lo na sua necessidade.
Esse sentimento compõe a espiritualidade e aumenta a nossa dimensão humana. Abre um espaço para o outro dentro de nós e cria as condições para o surgimento do amor ao próximo. Embora não haja a recomendação para que amassem uns aos outros, este sentimento começa a fluir a partir desta experiência de grande intensidade emocional. O egocentrismo é amenizado, o egoísmo arrefece, o individualismo áspero se abranda sem que as pessoas tenham repetido oralmente qualquer intenção ou que tenham fixado um plano especial para isso.
Essa expansão do sentir, do ser, ocorre dentro da atmosfera do grupo, que é marcada por uma comunicação feita em profundidade e no silêncio respeitoso dos que empaticamente escutam. Isso ocorre num ambiente de compreensão, de respeito e de não julgamento, marcado pela preservação do anonimato que garante, numa palavra, a existência de um ambiente seguro. As pessoas que não conhecem a Irmandade, mas sabem dos sofrimentos intensos da destruição, em todas as dimensões do ser, que ocorrem como decorrência do alcoolismo a um paciente, imaginam que o ambiente dos grupos seja marcado pela dor e pela tristeza. Mas lá estão pessoas vencedoras que, em vez de serem tristes, mostram grande riqueza espiritual e até alegria. É que a atmosfera está sempre impregnada pelo sentimento de compaixão e talvez, por isso, seja tão agradável estar no grupo e desfrutar de toda essa riqueza. Os depoimentos fazem surgir a compaixão e não a tristeza que viria com o sentimento de pena, que torna o outro menor.

HONESTIDADE
Estando na ativa, um dos passatempos preferidos pelos alcoólicos é abusar da boa-fé dos que estão à sua volta e, com o tempo, desenvolvem uma grande habilidade para manipular e acabam se tornam manipuladores deles mesmos. Este comportamento desonesto acabaria, com o tempo, por desintegrar as suas próprias vidas. A desonestidade torna-se um hábito, uma adição tão falaciosa e poderosa quanto o alcoolismo em si. No tempo do alcoolismo ativo, a desonestidade se tornara uma maneira de vida, do que decorre que permanece nas mentes e nas emoções por longo tempo. Acontece, no entanto, que ela dói; é como estar ferido por saber que não se é a pessoa que pensava ser e, ainda mais, por precisar beber.
O alcoólico vive num mundo de ilusões difícil, para ele, de ser identificado como sendo diferente do mundo real, porque não se apercebe como um ser separado da realidade. Continua mentindo quando dizer a verdade seria mais fácil e conveniente. A verdade é que a vida na bebida exigia que fosse desonesto e para mudar isso leva tempo, além de exigir esforço e também o convívio com pessoas honestas.
Estando sóbrio, o alcoólico começa a desfrutar a vida com os sentidos limpos, claros, e se torna capaz de apreciar as realidades do mundo tal como elas são, sem a cortina da substância química, da droga. Ao freqüentar um grupo, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer que o alcoólico irá fazer o seu primeiro depoimento, no qual irá oferece a sua experiência pessoal, sempre única. Nessa oportunidade, irá se defrontar com uma situação inteiramente nova na sua vida. Valorizado pelo silêncio respeitoso, pela atenção dos companheiros, ciente do anonimato, da compreensão confortadora oferecida pelos companheiros e de não ser julgado, ele começa a abrir o seu coração, só que dentro de uma circunstância muito particular: é que todos ali são alcoólicos e passaram por tudo o que ele passou e, os que não tiveram essas experiências, as conheceram a partir dos relatos de outros companheiros, por terem ouvido os seus depoimentos ao longo de anos. Nesta ocasião, surge um obstáculo intransponível que, num primeiro momento, pode não ser perfeitamente identificado, mas é percebido e que estará sempre lá. É que surge uma situação inteiramente nova: como manipular os companheiros que ouvem com atenção e respeito? Como abusar da sua boa-fé? Todos têm a “qualidade” de serem alcoólicos, todos já progrediram no caminho da verdade, no caminho das atitudes conscientes. Eles sabem tudo. Todos já tiveram, em algum grau, a alegria de viver uma realidade muito especial, a de que a verdade liberta. Tornaram-se, com o tempo, capazes de penetrar nas suas racionalizações e reações de defesa.
Mas há muita culpa, muita vergonha, muito remorso e muita dor moral e todos estão atentos e em silêncio. Aí, cada um que faz o seu depoimento encontra o seu caminho diante desta condição irremovível, não contornável, de que a honestidade dos que ouvem ajuda o depoente a encontrar a sua própria honestidade. A honestidade de cada um induz a honestidade de todos. Também, neste aspecto particular, há uma reciprocidade porque aquele que faz o depoimento sente que, no convívio, na interação com os companheiros do grupo, ele não pode ser desonesto, nem com eles nem consigo mesmo. Os que estão presentes necessitam da sua honestidade e o depoente, da mesma forma, precisa da honestidade dos que ouvem o seu depoimento. A honestidade, estabelecida desta maneira, cresce e se expande para áreas cada vez maiores das suas vidas, resultando que, na sobriedade, a honestidade ultrapassa, de muito, a da primeira admissão e isso porque é tão impossível, como diz Platão na República, implantar a verdade na alma de um homem quanto dar a visão a um cego de nascença. A verdade dos que ouvem ajuda aquele que faz o depoimento a encontrar a sua verdade, progressivamente, por si mesmo, ao longo do tempo.
Não há outro caminho possível e, se optar por continuar manipulando, encontrará, depois, algum companheiro que lhe dirá de maneira gentil e com palavras de amor doídas: “você esteve por inteiro dentro de um “show”, poderia o você real se levantar? Para ser honesto, qual é o seu eu verdadeiro?” A aquiescência e o aceno de cabeça dos companheiros que estão à volta o fará encontrar o caminho para a resposta. É que os alcoólicos em recuperação conhecem bem as falácias da negação e do ocultamento. Esse momento é muito difícil, mas há muita energia e muito apoio na atmosfera do grupo, e isso faz a diferença. Como esses momentos usualmente são de grande sofrimento, recomenda-se ao alcoólico recém-chegado que freqüente, se possível, diariamente um grupo de A.A. pelo período de um mês. É preciso receber suporte, compreensão e solidariedade por parte dos companheiros de forma continuada.
A honestidade marca o início da recuperação, quebra a negação e abre para a admissão da impotência diante do álcool e para o fato de que a vida do alcoólico se tornou inadministrável. Quem não for capaz de ser honesto consigo mesmo terá dificuldade de entrar no Programa de Recuperação de A.A.. A honestidade é indispensável para o crescimento espiritual e também para usufruir tudo que a sobriedade e a vida têm para dar.
Para uma pessoa honesta, fica fácil continuar sendo honesta, enquanto que uma mentira sempre leva a uma outra mentira e o hábito da mentira faz do mentiroso um trapaceiro que sempre tem que proteger e preservar a mentira. Pelo contrário, a dedicação à verdade leva a uma vida de honestidade e as pessoas honestas vivem como que ao ar livre e, pela coragem de assim viver, se tornam livres também do medo.
A verdade, como fundamento da libertação, tem que ser total, inteira. O mito de Orestes desvenda aspectos complexos da natureza humana em relação ao poder libertador da honestidade. O mito diz que Agamenon, guerreiro grego e pai de Orestes, que participara da Guerra de Tróia, ao retornar à pátria, vitorioso, foi assassinado pela sua mulher Clitemnestra e pelo seu amante, Egisto. Este fato colocou Orestes num beco sem saída. A maior obrigação de um grego era vingar seu pai em caso de assassinato mas, por outro lado, a coisa mais abominável que um jovem poderia fazer era assassinar a sua mãe. Orestes decidiu matar a mãe, foi condenado e os deuses decidiram que as Fúrias, que eram deidades vingadoras na mitologia grega, e em número de três, iriam rodear Orestes tagarelando culpas nos seus ouvidos e causando alucinações que o levariam à loucura. Por anos, as Fúrias o perseguiram até que Orestes resolveu pedir aos deuses que o aliviassem da pena. Houve um novo julgamento em que o deus Apolo foi seu defensor, e nele mostrou que Orestes não tivera nenhuma possibilidade de uma outra escolha que não as que lhe haviam sido impostas e, por isso, não podia ser considerado culpado. Os deuses do Olimpo resolveram então absolver Orestes que, neste exato momento, e para espanto de todos, se opôs a Apolo dizendo que se achava culpado, pois que não tinham sido os deuses e sim ele mesmo que matara a sua mãe, com as suas próprias mãos. Nunca antes outro ser humano havia colocado a verdade dos fatos de tal forma que lhe fosse tão adversa, especialmente depois de haver sido absolvido. Diante disso, os deuses decidiram manter a suspensão da pena e as Fúrias foram substituídas pelas Eumênides, também outras três deidades da mitologia grega, que eram as “portadoras da graça”. Eram, pelo contrário, vozes de sabedoria, dos espíritos ligados à Terra e associados à fertilidade, tendo também funções sociais e morais. O mito mostra que a verdade, levada ao extremo, foi capaz de transformar a doença mental em saúde e o preço foi a verdade a qualquer custo.
O programa de recuperação de A.A. nos mostra que o caminho da verdade tem que ser percorrido continuamente. É uma busca, um trabalho para toda a vida porque meia verdade ainda é uma mentira. Por outro lado, embora a verdade tenha que ser total e completa, conforta a lembrança de uns pensamentos de A.A. que dizem que se deve preferir o “progresso e não a perfeição” e que se deve “ir de vagar, mas ir”. É preciso ver clara e diretamente a verdade da nossa experiência a cada momento vivido, estar atento, estar consciente. De outra forma, a maior parte da nossa vida é conduzida por um piloto automático que funciona na base da ganância, do medo, da agressão, da busca de segurança, de afeição, de poder, de sexo, de riqueza, de prazer e de fama. Se vivermos agindo de modo a causar sofrimentos para nós e para os que nos cercam, é impossível que a mente se torne serena e centrada como é também impossível abrir o coração. A concentração e a sabedoria se desenvolvem rapidamente na mente baseada na generosidade e na verdade.
Por outro lado, não podemos cair numa historinha que ouvi contar, chamada de “A Caverna da Verdade”. Sabendo da existência dessa caverna, algumas pessoas decidiram conhecê-la. Fizeram uma longa viagem e, finalmente, ao chegarem à entrada, encontraram um guarda e perguntaram se aquela era a Caverna da Verdade, ao que o ele respondeu que sim. Perguntaram se podiam entrar e ele respondeu questionando o quão profundamente eles queriam ir caverna adentro. Conversaram entre si e retornaram dizendo que gostariam de entrar na caverna, mas só o suficiente para dizer que tinham estado lá. Essa história vem à lembrança quando resolvemos desenvolver uma maneira de vida que requer uma honestidade total. É preciso que não se queira ser honesto apenas na medida necessária para dizer que apenas visitamos a verdade e a honestidade. Temos que ir até o fundo, na caverna, para crescermos na honestidade.
Uma outra dificuldade encontrada nessa busca é o medo das conseqüências e da dor que a honestidade pode trazer. Mas, ao compartilhar as suas experiências pessoais no grupo, o alcoólico vai chegar à conclusão de que a desonestidade é ainda mais dolorosa e perigosa. As conseqüências, a curto prazo, de ser honesto são melhores do que as de continuar na desonestidade e é importante destacar que os benefícios que resultam da honestidade serão colhidos logo em seguida.
Até aqui o foco foi colocado sobre o presente e o passado. Mais adiante, na recuperação, a honestidade vai deixar claro que a vida do companheiro tem propósito e sentido, que pode ser útil aos outros, que passa a fazer a diferença e que, se não significa nada para muita gente, torna-se muito importante para os companheiros do seu grupo e para ele próprio.
E como ser honesto? É não ter a intenção de enganar, nem a si nem os outros e nem o Poder Superior. É como parar de beber, é parar. Não há alternativas para essas situações. Cabe aqui uma lembrança: é preciso ir com cuidado e ter paciência neste caminho porque ser brutalmente honesto pode ser mais brutal do que honesto. Finalizando, vimos que o outro, agora, não só existe e ocupa um espaço no interior de cada um companheiro, mas que também é percebido como de fundamental importância para progredir na recuperação, para encontrar a verdade da vida vivida em comunidade e, por isso, enriquecida. Para alcançar um novo equilíbrio, um grau de harmonia indispensável à paz interior e os outros também são indispensáveis para encontrar a honestidade.

A TRANSFORMAÇÃO COPERNICANA DO EU
O ideal superior, livremente escolhido e assumido, de manter as portas do grupo abertas para poder estender a mão àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo e de levar a mensagem de A.A. faz com que os membros do grupo cooperem entre si e, com essa atitude, favoreçam o aparecimento de um clima de entendimento e de harmonia, do qual resulta que o comportamento dos membros do grupo, como um todo, se torna mais social. Vale, neste ponto, enfatizar que a harmonia e a sociabilidade eram tudo o que não ocorria com o alcoólico no tempo da ativa. No grupo, desenvolvem a capacidade de acolher, de serem solidários e cooperativos, de conviver com o diferente, com o outro.
Ao cooperar, o companheiro aprende a amar e ama porque coopera com os membros do grupo para alcançar este importante objetivo. Caminha para a solidariedade deixando para trás de si, muitas vezes, a indiferença de um orgulhoso individualismo. O amor é a conseqüência natural da cooperação com os demais membros do grupo e uma decorrência dessa cooperação. Amar o próximo é algo próprio do ser humano, é manifestação do seu poder de se relacionar com o mundo. Dentro desse clima, o grupo passa a desempenhar o papel de um equipamento coletivo no qual o alcoólico se desloca do egocentrismo e do individualismo para o sociocentrismo. Vivendo nesse ambiente e participando dessa dinâmica, o membro do grupo caminha para uma ampla e completa cooperação e é na socialização que ele se torna mais homem e mais humano. O homem só pode se realizar e ser feliz em ligação e solidariedade com os seus semelhantes.
Em Alcoólicos Anônimos, o alcoólico deixa de ser o centro dos seus próprios interesses e um outro companheiro passa a se constituir num novo pólo mobilizador dos seus esforços, fora de si mesmo, e que vai mudar a sua maneira de se sentir e de ver o mundo que o cerca. O Décimo-Segundo Passo é mais do que uma invocação a se amarem uns aos outros. A sua prática se torna a própria instrumentalização do amor ao próximo. Representa um forte estímulo para que se desenvolva o sentimento de amor ao próximo de modo objetivo, real e eficaz. É como um exercício que desenvolve e fortalece o amor ao próximo, do mesmo modo que o exercício físico desenvolve e fortalece o corpo. O companheiro, participando da vida do seu grupo, evolui na arte de viver e nela ele é, ao mesmo tempo, o artista e o objeto da sua arte, o escultor e o mármore, o médico e o paciente.
Em tempos passados, existiu um astrônomo chamado Ptolomeu que dizia que a Terra estava no centro do universo e que os astros giravam à sua volta. Isso era muito claro e bastava observar o céu. Muito tempo depois, um outro cientista e astrônomo, Copérnico, descobriu que a verdade era bem diferente, pois que os astros realmente não giravam em torno da Terra e sim do Sol. A Terra deixou de ser o centro e o verdadeiro centro dos movimentos passou a ser o Sol. Por estranho que possa parecer, algo semelhante acontece com o alcoólico no convívio com os membros do seu grupo. Ao praticar o 12º Passo, o alcoólico deixa de ser o centro e o irmão que ainda sofre passa a ser o novo pólo em torno do qual giram a sua motivação e os seus esforços, o que leva a uma profunda modificação nos seus interesses e na sua conduta. Essa mudança traz consigo o deslocamento do egoísmo para uma nova condição, ditada pelo amor ao próximo, que ocorre graças à riqueza do 12º Passo. O Terceiro Legado é uma dádiva no caminho de recuperação do alcoólico.

RESPONSABILIDADE AUTO-ATRIBUÍDA
O fato de assumir o ideal maior de manter as portas abertas e de levar a mensagem de A.A. aos que ainda sofrem coloca a Irmandade em ação, leva aos serviços. Cria a necessidade imperiosa de responder a um ideal assumido, ou seja, conduz à responsabilidade porque torna o membro do grupo capaz de dar uma resposta racional a uma atitude racional, feita tanto a si mesmo quanto aos outros companheiros, e é isso que o torna responsável, um indivíduo moral.
Sabiamente, este entendimento faz com que os companheiros sintam-se responsáveis e assumam individualmente, de per si, a execução dos serviços. Aí está a qualidade de ser ela auto-atribuída. Se fosse imposta por alguém ou por alguma norma, poderia ser rejeitada ou não cumprida, mas como é auto-atribuída e como existe até uma importante e fundamental declaração de responsabilidade que costumeiramente é feita pelos presentes a uma reunião de grupo, esta responsabilidade se torna real e tanto é assim que os milhares de grupos existentes em todo mundo são sustentados pelas suas próprias contribuições.
Como decorrência, cada membro de A.A. irá, com o tempo e na medida do seu progresso ao longo do programa de recuperação, se sentindo crescentemente responsável. Declarar-se e sentir-se responsável representa um notável ganho espiritual. No entanto, há algo mais neste caminho, que é a contribuição que se faz na sacola. Aí não é só dizer ou assumir, mas fazer. O ato da doação torna-se um exercício, um ato real que é feito com as próprias mãos e, mais importante, um ato de vontade. Atua da mesma maneira que a ginástica age sobre o corpo; é uma ginástica da responsabilidade, que fortalece a vontade e muda o comportamento ao longo do tempo.
Um outro aspecto de grande importância que é oportuno destacar no que respeita a contribuição na sacola é que não há o estabelecimento de normas ou critérios quanto ao valor da contribuição. Qualquer forma de imposição de valores, ou até mesmo uma simples sugestão, tiraria o grande benefício que recebe aquele que faz a contribuição. É que, se a ordem ou sugestão viesse de fora, o ato deixaria de ser a decorrência de uma decisão pessoal, que parte da vontade livre de quem faz a contribuição. Como tal, deixaria de ter conteúdo próprio, de ser ato de responsabilidade tomado livremente a partir da própria consciência, de entender que precisa sentir gratidão pelo que recebeu, que é ato de amor pelo irmão que ainda sofre e, também, de ter a característica de ser um ato de poder pessoal, que contribui para desenvolver a auto-estima. Fica a sensação de que não pode tudo nem que não pode nada, mas que tem poder em relação a algumas coisas. Só dessa forma, o ato de contribuição se torna o exercício vivo e prático de responsabilidade, da capacidade de responder e se transforma em ginástica da responsabilidade, de exercício que a fortalece.
Vale lembrar que um dos problemas de vida no tempo do alcoolismo ativo era a irresponsabilidade e não se pode avaliar o número de vezes que um alcoólico, na ativa, foi chamado de irresponsável. O contraste de comportamento acentua o enorme ganho espiritual e a forma de auto-atribuição da responsabilidade não poderia ser melhor porque, desta maneira, funciona.
Há ainda um outro desdobramento não menos importante. Tudo isso poderia ser comprometido se o grupo aceitasse contribuições de fora, de outras pessoas que não fossem membros do grupo. Todo esse ganho espiritual estaria comprometido, todo este mecanismo maravilhoso de construção de uma personalidade sadia seria anulado. Mas não se aceitam contribuições financeiras ou aquelas que possam resultar em ganho financeiro e fica assim assegurada a evolução espiritual.
Pode-se identificar, dentro deste ganho espiritual, um importante deslocamento em direção à revolução copernicana do eu, à atenuação de egos inflados e do individualismo áspero.

OPÇÃO POR SER E NÃO POR TER
O recolhimento de recursos financeiros poderia levar a sérios problemas, a conflitos insuperáveis. Alguém, muito importante no mundo dos negócios e que conhecia muito de dinheiro, advertiu, no início da vida da Irmandade, para o fato de que o dinheiro poderia estragar aquele movimento. Mas o perigo foi superado na opção feita pela pobreza, por querer ser e não por ter.
Despreocupados com os problemas do ter, os membros de A.A. têm o espaço aberto para desenvolver o ser. Estão conscientes de que a nossa importância, como seres humanos, não se origina a partir das coisas que apenas possuímos de modo tão passageiro. Querer ter mais, possuir mais não significa ser mais.
Como não há limite para a vontade de possuir mais, o desejo de ter mais leva ao egoísmo e ao individualismo que, por sua vez, não conduz à harmonia nem à paz. Sabemos que a cobiça e a paz se excluem mutuamente. O desejo de querer ter sempre mais leva ao antagonismo entre as pessoas. Uma sociedade, baseada predominantemente no ter, é uma sociedade doente, constituída por pessoas doentes. Não obstante, no mundo que nos cerca, o objetivo maior das pessoas é ter, de tal forma que se pensa que se uma pessoa nada tem, nada é. Mas o sentido da vida é ser muito e não ter muito. É necessário, isto sim, ter o suficiente para poder ser.
Quando uma associação humana como o A.A. se volta para o modo ser de existência, ela faz com que as pessoas dos alcoólicos sejam o centro das atenções, dos esforços e das atitudes, em oposição ao modo ter em que tudo se volta para as coisas. No A.A., o importante é a pessoa do doente alcoólico e esse objetivo não se desloca para o desejo tão generalizado de ter porque a Irmandade optou por ser pobre e se programou para ter apenas o que é essencial ao seu funcionamento e, com isso, evita que o foco das suas atenções se desloque das pessoas para as coisas.
O desejo de ter é tão generalizado que as pessoas chegam a se orgulhar de ter um horrível reumatismo, de ter um grande problema e vemos até que alguns dos nossos desejam ter a maior história de desgraças para relatar. O desejo de ter é de tal forma generalizado, tão enraizado na mente das pessoas, que elas querem ter até coisas que são abstratas e, assim, dizem que têm uma idéia e não que pensam ou que concebem, que têm amor e não que amam, que têm ódio e não que odeiam, que têm desejo e não que desejam, que têm saudade e não que sentem falta, que têm vontade e não que querem; isto é, preferem usar mais o substantivo, que define a coisa, do que o verbo. É difícil que as pessoas entendam que há um outro modo de vida, um modo voltado para ser, que é o modo de Alcoólicos Anônimos. Em A.A., os seus membros procuram ser: dignos, honestos, fraternos, bons companheiros, compreensivos e amáveis, bons pais, bons amigos, bons filhos, bons cônjuges, etc., representando tudo isso um ganho espiritual e um novo potencial de desenvolvimento.
Os modos de ter e de ser caracterizam dois tipos diferentes de comportamento, de pessoas que têm maneiras diversas de sentir, de pensar e de agir. No modo ter, as pessoas querem possuir tudo e todos enquanto que o modo ser traduz vitalidade e força espiritual que leva a um relacionamento amoroso e pacífico.
Com vitalidade e força, o modo ser traduz-se em atividade, processo, movimento. Ser é vida, nascimento, renovação, fluidez, criatividade. Ser quer dizer mudança e transformação para melhor porque mudança e crescimento são qualidades do processo, daquilo que tem vida, e o Programa de Recuperação é todo de crescimento espiritual, é todo um processo de mudança interior, de reformulação de vida, que encontra no modo ser do grupo o ambiente ideal para o pleno desenvolvimento dos membros de A.A..

CONHECE-TE A TI MESMO
O Programa de Recuperação de A.A. é constituído por Doze Passos, quase todos voltados para o autoconhecimento. Ao praticar esses passos, o membro de A.A. inicia uma jornada para dentro de si mesmo que lhe dará valor e grandeza espiritual, além de melhorar a única parte do mundo que depende só de nós, que somos nós mesmos. Praticar os passos representa um esforço que os membros de A.A. realizam para ter um melhor conhecimento de si mesmos. É comum observarmos que as pessoas dediquem seus esforços para conhecer as coisas do mundo e pouco ou nenhum para conhecer a si mesmos. Mas sempre e, em primeiro lugar, o homem precisa saber sobre si mesmo e responder à pergunta: quem sou eu?
Em Alcoólicos Anônimos, a jornada rumo ao interior começa logo no Primeiro Passo, quando o companheiro reconhece e admite a sua impotência perante o álcool e identifica a perda do domínio em relação à sua vida. No Segundo Passo, ele encontra o Poder Superior dentro de si mesmo, encontra o sopro divino, a força criadora que deu origem à sua própria existência. Identifica no Terceiro Passo o enorme poder desta Força que o criou e que, ao mesmo tempo, está no seu interior. Tudo acontece como está escrito: “Ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremendal de lama, colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos”.
No Quarto Passo esmiúçam as suas entranhas cuidadosamente e identificam as origens das suas culpas e vergonhas. O Quinto Passo leva ao conhecimento, a ter consciência de toda a sua trajetória de vida e com ele conhece a natureza exata das suas falhas. Nos Sexto e Sétimo Passos, o membro de Alcoólicos Anônimos entra em comunhão com aquela força que lhe foi dada como herança, a herança de si mesmo, dada pelo Criador. Ao praticar o Oitavo Passo, o companheiro dá início à solução de um grande número de problemas, começa a se harmonizar com o mundo exterior e consigo mesmo e a desfrutar de uma grande paz. Num plano mais elevado e dispondo de maior lucidez e de discernimento, aprofunda o conhecimento de si mesmo e, por último, estreita o seu contacto com o Poder Superior nos Décimo e Décimo Primeiro Passos.
Enquanto os membros de Alcoólicos Anônimos estiverem praticando o programa de recuperação, eles serão sempre seres humanos voltados para o conhecimento e para a conquista de si mesmos. Caminham em direção aos seus interiores e, no fim das suas jornadas, encontrarão a subjetividade, encontrar-se-ão como sendo seres únicos na Criação, com valor e conteúdo interior que darão sentido às suas vidas. Por último, perceberão que são um fim em si mesmo e que têm espírito próprio.
O programa de recuperação está voltado para a descoberta do mundo interior, para o encontro da espiritualidade, para a solução dos problemas mais íntimos, para a percepção do próprio valor e para o encontro da subjetividade.
Uma das maneiras de se evitar a dor é apagar a consciência e aí uma boa solução é tomar uma anestesia ou usar drogas psicoativas. Mas embora a consciência seja a causa da dor, ela também é a nossa salvação porque a saída do problema da dor se faz pelo processo de nos tornarmos crescentemente conscientes, e isso é o que ocorre ao longo do caminho sugerido pelo Programa de Recuperação.

HUMILDADE
Por último, vamos enfocar um atributo que é absolutamente indispensável à recuperação, a humildade. Ela está presente em cada Passo do Programa de Recuperação, está no fundamento de todo o progresso alcançado ao longo do caminho percorrido em direção à recuperação. Para entender melhor o significado da palavra, consultamos o dicionário e vimos que humildade é a qualidade de ser modesto ou respeitoso e modesto é não ter ou expressar uma opinião muito elevada acerca das suas próprias realizações ou habilidades; não ser exibido, arrogante ou pretensioso.
Neste aspecto da evolução espiritual, vamos nos deparar com uma realidade que nos levará, para o seu estudo, a um modo diferente de abordagem. Só é possível enxergar a partir de um determinado ângulo. É preciso abordar o assunto a partir de uma ótica própria, a da humildade. Pela sua importância, este é um tema freqüentemente abordado em reuniões de estudo porque sabemos que representa uma pré-condição para o crescimento indispensável, não só para manter sóbrio o alcoólico mas também para que possa progredir na sua recuperação. Por outro lado, é um tema que se tem mostrado difícil de abordar.
É que há uma realidade que precisamos considerar. Neste momento, optei por escrever algo do que venho aprendendo durante anos e posso escrever agora porque tenho todas as condições para isso. Mas não posso querer que alguém vá ler o que escrevo. De um lado, eu posso optar por usar os meios necessários para escrever, mas de outro, posso apenas e tão somente procurar uma orientação, uma direção, um contexto que, espero, possa levar as pessoas a lerem o que escrevo, mas não mais do que isso. Posso escrever, mas não posso querer que alguém leia o que escrevo, posso continuar escrevendo agora, mas não posso querer que alguém continue lendo.
Humildade é outra coisa que o alcoólico não pode querer, como quero escrever porque tenho os meios. Ele pode não ingerir o primeiro gole, ir a uma reunião de grupo ou trabalhar os Passos do Programa. De outro modo, como sem esforço pego a caneta, ele pode fazer a coisa fácil de pegar o telefone para falar com o padrinho ou pegar o carro para ir ao grupo, mas o que ocorre quase sempre é que acaba indo comprar bebida. Os dois modos de agir são profundamente diferentes.
Da mesma forma, posso desejar conhecimento, mas não sabedoria, submissão, mas não humildade; auto-afirmação, mas não coragem; proximidade física, mas não intimidade emocional. O fato é que podemos querer e ter algumas coisas, mas outras ficam fora da nossa vontade e podem acontecer ou não. Sobriedade, sabedoria, humildade, coragem e amor não são objetos e o que podemos fazer é optar por nos movermos em direção a elas. Como vemos, a humildade está nesta categoria. Ela não pode ser comprada e também não se pode decidir ter. É conseguida indiretamente ao trabalhar os Passos.
Somos limitados porque somos humanos e por não haver absolutos e nem ilimitados no nosso poder humano é que o A.A. aconselha que devemos procurar “progresso e não perfeição”. Assim, os companheiros irão progredindo e se tornando crescentemente humildes.
O alcoólico é como a criança a quem chamamos de reizinho. Quer porque quer e quando quer; o mundo tem que suprir as suas necessidades. Daí o comportamento grandioso. Costumam pagar a conta de quem não conhecem e dão presentes estapafúrdios. A recuperação depende basicamente de assumir atitude humilde e de aceitar a sua impotência diante do álcool e também de admitir que perdeu a capacidade de governar a sua vida.
Embora geralmente seja menos visível, costuma também existir uma baixa auto-estima, que se identifica no comportamento que oscila entre posso tudo e não posso nada, mas sempre achando que é diferente. No trabalho com os 12 Passos, o alcoólico desenvolve um senso mais profundo e seguro de auto-estima.
Embora os alcoólicos relutem em admitir que necessita de ajuda, em aceitar que o Poder Superior possa devolver a sanidade às suas vidas, essa é uma atitude de humildade indispensável para o progresso espiritual e os fazem reconhecer que tanto são únicos como comuns porque compartilham de todas as coisas que são importantes com o resto da humanidade. Também a 12ª Tradição os relembra para colocar os princípios acima das personalidades, e essa é mais uma lição de humildade. Adiante, estando dispostos a aprender, os alcoólicos vão admitir que necessitam da ajuda dos outros para iniciar a sua recuperação e aprender com esses outros a crescerem na sobriedade. Não podem crescer sozinhos e, por outro lado, ninguém pode fazer isso por eles.
A aceitação das conseqüências das suas ações ajuda a perceber a relação de causa e efeito que rege a vida. Aqui, já estão uns primeiros passos e a humildade trabalha entre os dois extremos de comportamento do alcoólico. Os outros, em algum momento, passarão a existir no seu interior e, depois, o companheiro verá que eles continuarão sendo necessários ao longo da recuperação.
Freqüentar reuniões, ler a literatura e compartilhar os seus problemas com o padrinho são de grande valia para se manter sóbrio e também para crescer na humildade. Por outro lado, humildade e humor estão relacionados. O A.A. lembra: “não se leve tanto a sério”. Os companheiros do grupo, às vezes, furam os balões da grandiosidade de um companheiro e, em outras ocasiões, os tiram das profundezas da autopiedade. Isso os faz progredir no caminho da humildade. Rir do passado não significa ter uma atitude irresponsável, mas apenas ver em perspectiva e perceber que as suas ações, pensamentos e sentimentos não estão no centro do universo. Além do mais, tudo isso ajuda a tirar o foco de cima do álcool. Afinal, ninguém, estando bem, resolve ir para o A.A.. É preciso reconhecer que essa atitude é tomada a partir de uma vida de dor, medo, frustração e raiva.
Com o tempo, os alcoólicos em recuperação se dão conta de que estão menos autocentrados, de que as suas vidas estão enriquecidas e a sobriedade é percebida como sendo compensadora. A vida passa a ser organizada também em torno do que podem fazer pelos outros e passam a compartilhar com eles o que têm recebido. Isso já significa o despertar da humildade.
A humildade é também buscada quando resolvem ter a gratidão como um modo de vida e isso porque os ajuda a ver a vida a partir de uma perspectiva diferente. Uma boa maneira de desenvolver este sentimento é anotar todas as coisas em relação às quais devem ser gratos no decurso de um dia. Passam a reconhecer o que lhes foi dado e se importam menos com o que realizam. Um outro modo é desenvolver o hábito da admiração. Admirar o por do sol, o mar, a chuva, etc, porque os tira de dentro de si mesmos de uma maneira sadia. Os serviços realizados no grupo também ajudam a desenvolver a humildade. Ouvir e compartilhar leva a uma saudável e feliz sobriedade. Com a humildade surge o agradecimento, que é a resposta natural à generosidade com que os alcoólicos são recebidos no grupo. É um sentimento profundo e, estando agradecidos, se doam aos outros, de tudo resultando a amizade, o amor e, numa palavra, a solidariedade.
Os que conquistaram um estágio mais avançado de crescimento espiritual, uma maior consciência, são possuídos por uma feliz humildade. Conscientes da sua ligação com um Poder Superior, têm o grande desejo de que “seja feita a Vossa vontade – fazei de mim o Vosso instrumento”.

SER SANTO
Muitas vezes ouvi companheiros dizerem que se fossem seguir os princípios de A.A. se tornariam santos e, por causa disto, não se empenham tanto no Programa de Recuperação. Mas, ao admitirem que “um Deus amantíssimo Se manifesta na nossa consciência coletiva” e, portanto, que está entre eles, no convívio enriquecedor de verdadeiros irmãos, é inevitável assumir que estão crescendo em direção à divindade. Esta é uma idéia muito simples, mas também muito exigente. Se podem alcançar a divindade, então terão que cuidar do crescimento espiritual, buscar níveis progressivamente mais altos de consciência e de atividade amorosa. Assim, o trabalho nunca estará feito, acabado. O crescimento espiritual é um anseio para toda a vida, além do que, é também um caminho trabalhoso, que exige esforço. Talvez esta seja uma desculpa para explicar as dificuldades que encontram ao praticar os Passos porque elas ocorrem naturalmente, uma vez que é preciso coragem, determinação, empenho, constância e coração forte e não é sempre que encontramos pessoas com estes atributos. Entendo também que nascemos para ser santos e o problema é que não conseguimos realizar todo o potencial que temos dentro de nós nem, usualmente, ir tão longe no caminho que nos é sugerido pelo A.A.. No entanto, no meu julgamento, encontrei, ao longo dos mais 30 anos de convívio com membros de A.A., alguns companheiros que penso que são santos. São pessoas maravilhosas, que irradiam uma paz muito grande e possuem uma riqueza interior deslumbrante. Muitos se constituem em figuras exemplares. São excelentes em virtudes e em santidade. São luzes que guiam mais pelo exemplo que pelas palavras. Com os seus depoimentos, estimulam a sermos mais fraternos, termos mais compaixão, sermos mais humanos e espirituais. Tenho desfrutado de grande felicidade na companhia deles. Para mim, são santos e as suas atitudes têm a pureza, a retidão e a reverência como fundamento.

AS INCERTEZAS E OS QUESTIONAMENTOS
Até aqui, as minhas certezas. O que vi e ouvi. O meu entendimento. Não a partir de uma visão idealizada, mas sim a partir da constatação da existência de um ideal perfeitamente realizável e, muitas vezes, realizado. Um caminho que, realmente, está aberto e posto como opção: de percorrer ou não ou até o ponto que se consiga ou deseje alcançar. Fica a idéia de busca a ser empreendida ao longo de um caminho delineado.
A lenda do Graal possui uma vitalidade mágica e por isso é uma lenda viva, que existe há mais de 900 anos e desperta a imaginação e o espírito. Ela também traz a idéia de busca, a busca do Santo Graal. Falar do Santo Graal desperta a imaginação e mobiliza para alguma coisa que está no inconsciente coletivo. A lenda tem origem numa história que resultou de uma mistura e de uma fusão de crenças e lendas populares, chegando a uma imagem sonhada e arquetípica de uma busca final e definitiva para todos e para todas as coisas.
Na época em que a lenda apareceu, a Europa vivia tempos particularmente difíceis, com o poder político fragmentado, onde grupos armados errantes saqueavam as colheitas. Havia fome, epidemias, guerras, tudo isso levando a um profundo empobrecimento da população e gerando insegurança e ansiedade. Nesse ambiente, e como ocorreu em outras épocas, surgiu um grande fervor religioso não só entre cristãos, mas entre os outros povos da região.
Inicialmente, a lenda do Santo Graal era celta e, portanto, pagã, e estava muito ligada aos feitos da cavalaria. Mais tarde, foi cristianizada pelos monges da Ordem de Císter que não tanto a mudaram, mas sim, lhe deram conteúdo cristão. Resultou que o Santo Graal ficou sendo entendido como sendo o cálice usado por Cristo na Santa Ceia e que, mais tarde, foi usado por José de Arimatéia para recolher o sangue que escorreu das feridas do Cristo, quando da crucificação. Ao retornar à Bretanha, o cálice passou de geração em geração, dentro da família de José. O Graal tinha propriedades milagrosas e podia fornecer alimento aos sem pecado, mas cegar os impuros e fazer ficar mudos os irreverentes.
Na lenda, estava implícita a busca de um objetivo geralmente tido como sendo um cálice que só poderia ser alcançado por um ser humano puro. Essa lenda teve evolução diferente em diversas regiões. Na que hoje é a França, a lenda deu origem aos ideais de cavalaria, aos cavaleiros e aos trovadores que cantaram e difundiram os fatos e lendas daquele tempo. Eram cavaleiros galantes que cantavam os grandes ideais e a beleza de nobres senhoras. Na região em que hoje está a Alemanha, a lenda evoluiu para o aparecimento de seres perfeitos e puros que tinham condições de alcançar o Graal. Sobressai aí a figura de um grande personagem, Parsifal. Na Irlanda e na Gran Bretanha houve forte influência de poderes mágicos e de fatos extraordinários ocorridos na corte do rei Artur e do mago Merlin; havia o sentido do fantástico, dos poderes misteriosos, do sobrenatural. Nesta corte, nasceu Galahad, herói e cavaleiro perfeito, sem qualquer defeito de caráter, que se lançou na busca do Santo Graal, sendo essa a parte central da literatura arturiana e do romance medieval de Parsifal.
A grande aventura era chegar ao Santo Graal, sem defeitos, e o contacto com ele, tendo no seu interior o sangue de Cristo, seria o contacto direto com o Cristo e, por meio dele, com o Criador, o Poder Superior. Mas isso só os puros podiam fazer. Comecei a me perguntar se não seria o crescimento espiritual em A.A. um caminho de purificação de modo a tornar alguns companheiros santos. Não teriam eles tido, uma vez que sem defeitos de caráter, algum contacto simbólico com o Santo Graal que os teria tornado santos? Não seria o caminho do crescimento espiritual uma busca, uma trajetória, da mesma forma que o caminho percorrido pelos cavaleiros puros na busca do Santo Graal? Aqueles que alcançassem um nível espiritual elevado, como Galahad e Parsifal, teriam a ventura, rara, de alcançar o Santo Graal. Alguns dos santos que conheci em A.A. foram chamados e moram em algum reino situado além das galáxias, mas outros ainda andam por aqui e vim à Convenção para ter a ventura de conviver um pouco mais com eles e para conhecer mais alguns.

ESPERANÇA

Há uma velha história mexicana que ilustra a importância da esperança para uma vida plena e saudável. A história diz que, um dia, o diabo decidiu deixar o negócio. Fez um leilão para oferecer todos os instrumentos de tentação que havia usado. Muitas pessoas compareceram esperando encontrar um meio de realizar os seus desejos por meio desses instrumentos. O leilão começou cedo mas não havia muito interesse por ele, como se poderia esperar. De fato, as pessoas estavam surpresas de ver a maior parte dos instrumentos novos e brilhando, como se nunca tivessem sido usados.
Os lances estavam baixos e a maior parte dos instrumentos tinha sido vendida por um preço baixo. Lá pela tarde havia apenas um que diferia dos outros pelo fato de que estava bem usado e, assim, o leilão começou com valores altos e que continuaram a subir ainda mais. Algumas pessoas perguntaram aos assistentes do diabo o que havia com esse instrumento que o levava a um preço tão alto. Os assistentes responderam que era a ferramenta que o diabo usava mais freqüentemente e achavam que lhe era a mais útil. Era a tentação para cair em desespero. Eles explicaram que o demônio achava que, uma vez que conseguia que as pessoas abandonassem a esperança, o resto era fácil.
Muitos que estão em recuperação podem lembrar dos tempos em que viveram sem esperança. A sua falta produzia a sensação de iminente perdição. Ainda quando nós ocultávamos o nosso desespero e o medo do futuro debaixo da máscara da bravura, tudo indicava que estávamos presos a uma situação que só poderia piorar. Contemplamos o suicídio como uma maneira de sair da situação. Estando sem esperança, não tínhamos a sensação real de que o futuro poderia ser diferente do presente.

EXPERIÊNCIA+FORÇA=ESPERANÇA
O preâmbulo de Alcoólicos Anônimos nos diz que o A.A. é uma Irmandade em que as pessoas compartilham suas experiências, forças e esperanças. De fato, a experiência, a força e a esperança estão interligados. A origem da nossa força está em compartilhar abertamente a nossa experiência de recuperação. O desejo de compartilhar aquilo que funcionou para nós, os erros que cometemos, e mesmo assim sobrevivemos, as dificuldades que superamos, a nossa disposição para aceitar o cuidado dos outros na recuperação, tudo contribuiu para uma força que nenhum de nós tinha dentro de nós mesmos. Poderíamos entender também que esta disposição para compartilhar não é uma questão de escolha para nós. Compartilhar uma experiência não é só uma troca de “histórias de guerras” dos nossos dias bebida. Necessitamos de compartilhar a experiência de hoje se queremos encontrar a força necessária para vivê-lo.
É a experiência compartilhada, mais a força que flui do próprio ato de compartilhar, que se tornam os fundamentos da esperança. A esperança é pessoal mas nunca individual, isto é, pode e precisa ser passada para os companheiros. A esperança é a realidade compartilhada ou não é, de modo nenhum, real. Esta é uma afirmação extrema mas, ao exame, parece ser verdadeira. É mais óbvia ainda no caso da sobriedade. Muitos têm tentado ir sozinhos, fazer do próprio modo e então descobriram que não podiam. A tentativa de viver para si mesmos e por si mesmos inevitavelmente termina em frustração e desespero. Só quando começamos a compartilhar a nossa experiência é que ganhamos força e podemos começar a ter esperança.
Essa lição simples que primeiro aprendemos em termos de sobriedade é, às vezes, difícil de aplicar em outras áreas da nossa vida. Mesmo depois de anos de sobriedade, podemos sentir uma falta de plenitude em nossas vidas e que vemos em outros que estão à nossa volta. Podemos descobrir que temos uma falta de esperança no futuro. A rotina, a falta de gosto de viver, até mesmo um sentimento de cinismo, podem se insinuar nas nossas vidas cotidianas. O futuro pode ter uma outra promessa, que não da confusa sensação de ir levando, de passar pela vida. Essa falta de esperança em relação ao futuro pode estar relacionada à nossa necessidade de compartilhar experiência e força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também de estar abertos para receber dos outros. Uma das coisas que pode acontecer é que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, ao permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e pela sua força. Não podemos apenas estar desejosos de dar, mas também estar abertos para receber dos outros. Pode acontecer que nos tenhamos tornado doadores e não recebedores. A esperança pode ser revitalizada pela disposição de aceitar a ajuda dos outros, permitir que as nossas vidas sejam tocadas e influenciadas pelas experiências dos outros e também pela sua força.

ESPERANÇA VERSUS FANTASIA
Gastamos muito tempo com o pensamento mágico e cheio de desejos, quando estávamos bebendo ou usando. Poderíamos ter fantasiado acerca de ganhar na loteria, de ter uma importante promoção ou de achar exatamente a pessoa certa que faça a vida valer a pena. A nossa adição nos encoraja a viver na fantasia mais do que na realidade.
A diferença entre fantasiar e ter esperança está na sua relação com o presente. A fantasia não tem nenhuma relação com o presente de uma forma real. É simplesmente um mundo criado pelas nossas vontades e desejos, e isso sem que se tenha dado um só passo para ir daqui para ali. É verdade que alguns ganharam na loteria, que podemos ter recebido uma promoção inesperada ou que tenhamos encontrado alguém especial que faça a diferença real em nossas vidas. Mas nós temos, pelo menos, que fazer um esforço para comprar um bilhete, ou fazer o esforço de sair e encontrar a pessoa.

ESPERANÇA E SIMPLICIDADE
Um dos maiores bloqueios para o surgimento da esperança é a nossa tendência para complicar uma situação. Dê a nós cinco minutos para ficar sozinhos com um problema simples e poderemos criar um labirinto que desafia a imaginação. Essa tendência era constante antes de recuperação ter sido iniciada, mas a nossa capacidade para complicar continua na recuperação.
Albert Einstein desenvolveu grandes teorias matemáticas muito antes dos dias dos computadores. No entanto, ele teve como espaço apenas os quadros negros nos quais fazia as suas complicadas fórmulas matemáticas. Sempre que se retirava, deixava uma recomendação em cada quadro negro que dizia “apagar” ou “não apagar”. Um dia, o homem da limpeza chegou à sala e viu que Einstein escrevera “apagar”, exceto um pequeno canto. Nele marcou com um quadrado em que escreveu uma famosa fórmula e debaixo dela escreveu “não apague”. A fórmula era 2+2=4. Einstein, com o seu grande gênio matemático, podia ir para o que é mais complicado e muito além da capacidade da maioria das pessoas. Ele não só tinha o senso de humor, mas também a idéia da importância do básico.
Simplicidade na vida não é ser bisonho. Uns podem ter uma predisposição natural para uma vida mais ordenada e para um estilo de vida mais simples do que outros. Todos nós tendemos, no entanto, a deixar a nossa vida desnecessariamente desordenada. A confusão se torna um bloqueio real para o surgimento da esperança e isso porque, por vezes, nos encontramos, embora de forma não consciente, no meio de contradições. Um exemplo de contradição é a que ocorre quando queremos beber ou usar e, ao mesmo tempo, permanecer sóbrios e não causar problemas. As contradições nos levam a conflitos internos porque estamos agredindo a realidade e tentando moldá-la ao nosso modo. Quando mantemos a esperança simples e direta, podemos nos harmonizar com a realidade e a nossa esperança terá uma chance maior de sobreviver.
Às vezes, necessitamos compartilhar as nossas esperanças para ver se são contraditórias. Se não, temos que abandonar um desejo em favor de outro, ou botá-lo em espera por um tempo. Por exemplo, alguém pode desejar completar treinamento para uma nova carreira, desenvolver alguns hobbies ou buscar uma relação. Essas coisas não têm que estar em conflito, mas podem estar. Pode ser necessário dar prioridade a uma em relação a outra. Em cada caso, entretanto, precisamos nos manter em alinhamento com a esperança básica de viver sóbrios. Ao tomar providências para realizar algumas das nossas esperanças, pode acontecer um conflito com o nosso programa básico, e então podemos causar problemas. Manter as coisas simples, neste caso, significa compartilhar esperanças com os outros de modo que nos mantenhamos do conflito e conservamos a nossa sobriedade na perspectiva própria.

ESPERANÇA E PACIÊNCIA
Em relação à maioria, a paciência não tem sido uma das características mais fortes. Por exemplo, tendemos a ser pessoas que desejamos tudo e agora. Ter esperança não é exigir. Alguns se conhecem suficientemente bem de modo a ter o entendimento necessário para estar consciente de que, freqüentemente, reagimos em excesso em resposta aos nossos pensamentos e desejos. Aprender a ter esperança é aprender a ter paciência. Novamente, a experiência compartilhada e a força de muitos companheiros em recuperação têm nos ensinado que ainda as nossas mais elevadas esperanças podem ser realizadas, mas não necessariamente no nosso tempo programado, ao nosso modo. A impaciência pode ser inimiga da esperança. Podemos saber, a partir da experiência, que a impaciência tem arruinado, por vezes, uma relação ou um trabalho. Podemos agir muito rapidamente, sem consulta ou oração e arruinar uma amizade. Podemos aprender a partir dos erros decorrentes da impaciência e a importância de dar um tempo. De fato, a paciência não significa simplesmente esperar e olhar a grama crescer. Paciência é esperar com esperança.
Novamente, é útil compartilhar com uma outra pessoa a dificuldade de esperar e de conter a nossa tendência para a impaciência. Pelo compartilhamento, desenvolvemos a esperança e evitamos alguns dos perigos que ocorrem quando nos tornamos excessivamente exigentes. Não há uma fórmula para tudo isso. A arte de viver com esperança é adquirida através da prática e isso significa que todos cometemos enganos. Mas há esperança até mesmo nisso, porque podemos aprender a desenvolver um senso de tempo pessoal, a respeito de quando agir e de quando esperar.

ESPERANÇA, DOR DA PERDA E FRACASSO
De início, pode parecer que a recuperação promete que todos os julgamentos ficarão para traz. A dádiva da sobriedade parece trazer consigo todas as coisas que desejávamos. Nem todas as pessoas têm essa experiência cor de rosa no início da recuperação. Nos primeiros anos, não há muitos que não tenham, em algum momento, o sentimento de que viramos a página. Começamos a suspeitar que a vida irá se desenvolver maciamente para nós. No entanto, depois de algum tempo na recuperação, todos acabam se dando conta de que, embora a sobriedade seja a nossa maior dádiva e as promessas do programa sejam verdadeiras, continuamos a enfrentar a realidade da dor da perda e do fracasso nas nossas vidas.
Esses tempos são muito importantes para nós. Aprendemos que a esperança não é simplesmente um otimismo que nega a dor de viver. Aprendemos, também, que a nossa sobriedade não é frágil. Sobriedade não depende de que as coisas corram da nossa maneira. Não está baseada em sucesso continuado. Descobrimos que a esperança não está fundamentada em nós mesmos mas, antes, num Poder Superior a nós e que nós permitimos que trabalhe nas nossas vidas. É em tempo de dificuldade que chegamos a um entendimento mais profundo da necessidade que temos dos outros para dar suporte para a nossa esperança de viver. A esperança não se afasta alegremente da dor. Ao contrário, ela nos dá condições para enfrentar a dor da perda ou do fracasso.
Entre as mais severas dores que podemos enfrentar está a perda de um ente querido pela morte ou a perda de uma relação como conseqüência do divórcio ou da separação. É importante estar atento para o fato de que a dor de tais perdas não é incompatível com a esperança. A dor é real e nós precisamos sentir pesar pela perda. Muito se tem escrito acerca do fenômeno do sofrimento. Sofrer por uma perda real em nossas vidas é um processo complexo, acompanhado de sentimentos muito intensos. Às vezes, podemos experimentar uma sensação real de culpa. Podemos ter súbitos ataques de raiva na relação com uma outra pessoa, com Deus ou com nós mesmos. Podemos perguntar porque tal perda deveria acontecer. Podemos às vezes perguntar se, tendo trabalhado duramente para estar sóbrio, valeu a pena.
A esperança desempenha duas importantes funções em tempos de perda. Se entendemos a esperança como sendo a confiante expectativa de Deus, isso nos capacita para passar pelo processo de sofrimento, estando sóbrios, e chegar a uma completa aceitação da nossa perda. A esperança nos lembra que, embora a perda de um ente querido por morte ou separação irá ,na verdade, afetar as nossas vidas, a intensidade da emoção passará. A esperança nos encoraja para chegar aos outros e aceitar ajuda. A esperança nos dá força para aceitar os nossos sentimentos e entender que, não importando quão poderosos possam ser, eles não têm o poder de nos destruir.
A esperança também nos capacita para ver a importância de estar pesaroso e de chegar a uma completa aceitação da perda a fim de que a esperança possa florescer novamente. Se tentamos passar ao largo desse processo de pesar tentando acreditar que nada aconteceu ou se nos permitimos ficar presos pela raiva que pode acompanhar o pesar, nós estaremos diminuindo a nossa capacidade de ter uma genuína esperança em relação ao futuro.
Ter pesar pela perda de um amigo ou de uma pessoa querida não é o contrário da esperança. Se uma pessoa tem sido realmente uma benção em nossas vidas e experimentamos a perda dessa pessoa, uma certa tristeza deve se seguir. Mas lamentar a perda não precisa ser para sempre. À medida que lamentamos a perda ou chegamos à completa aceitação dela, um outro futuro começa a emergir. É a esperança que nos permite olhar para frente na vida com calma e confiante expectativa acerca do que é bom.
As dores da perda ou do fracasso freqüentemente são inter-relacionadas e difícil de distinguir. Entretanto, podemos separá-las. Freqüentemente, a perda não é da nossa responsabilidade. O fracasso parece implicar numa sensação de que “poderia ter sido diferente se eu tivesse …”. Ao longo da recuperação, continuamos a aprender a lidar com o fracasso de uma maneira saudável e plena de esperança. Talvez o que a esperança nos ensine, a despeito do fracasso, é que nenhum fracasso é final e dura até o momento em que nós o solucionemos. A perda em não realizar um objetivo acalentado pode ser real. A esperança, entretanto, nos permite conhecer que houve falha e nos ajuda a entender que não significa necessariamente que nós falhamos. Neste caso, a esperança nos capacita para olhar para o que é bom na experiência e em nós mesmos. A esperança nos encoraja a reconhecer, mas a não ficar no passado.
Muitos de nós passamos por significativas perdas e fracassos no nosso beber ou usar. Na sobriedade, aprendemos a olhar para traz e ver que eles não precisam impor danos permanentes nas nossas vidas. Na sobriedade, na medida em que olhamos para a realidade da dor da perda e do fracasso, entendemos que temos recursos para caminhar ao longo do programa e das pessoas que estão nele, o que nunca tivemos antes. A esperança não se vai com a dor, mas nos permite aceitá-la e viver com um certo agrado.

A ESPERANÇA COMO UMA MANEIRA DE SER
A esperança é uma maneira de ver o futuro. Implica não somente em desejar que as coisas sejam diferentes mas num desejo de mudar e na coragem para agir. A esperança nos fala muito acerca de nós mesmos. Ela revela que está presente no fundo dos nossos corações e mentes. Na recuperação, descobrimos que temos esperança não somente em relação a nós mesmos mas também na recuperação dos outros, das nossas famílias e até nas nossas carreiras. A esperança nos leva para fora de nós mesmos, nos ajuda a nos tornarmos menos autocentrados, e ser mais atentos ao bem estar dos outros.
A esperança pode nos ver através da dificuldade e de situações dolorosas e nos dar significação e propósito. Quando as coisas vão bem e a esperança se realizou, temos uma oportunidade para sermos gratos e podemos olhar para um futuro ainda melhor.

DESENVOLVENDO A ESPERANÇA
Há diversas pequenas coisas que podemos fazer para ajudar a desenvolver a nossa capacidade para termos esperança. Podemos, por exemplo, escrever as nossas esperanças e objetivos específicos de uma forma regular e compartilhá-los com os outros. Podemos chamar a isso de um inventário do futuro, mais do que do passado. Ele revelará a diferença entre o que nós realmente esperamos e o que nós fantasiamos.
Um outro meio de desenvolver a nossa capacidade para ter esperança envolve o Passo Onze, que nos chama para melhorar o nosso contacto consciente com Deus na forma que o entendemos, pedindo para saber a sua vontade em relação a nós e o poder necessário para realizá-la. À medida que aprendemos a dar tempo para a oração, descobrimos novas possibilidades que nunca consideramos antes. Se estamos dispostos a oferecer a nossa esperança ao nosso Poder Superior em oração e meditação, nossa esperança será alargada e nós chegaremos a um entendimento mais profundo de que a concretização da esperança não depende somente de nós.
Se estamos desejosos de compartilhar experiência e força, a esperança pode se tornar um modo de vida. Não mais temos que lamentar o passado porque estamos aprendendo como olhar com confiança para o futuro. A disposição de aceitar o nosso passado pode ser a única barreira à esperança. Na medida em que crescemos na honestidade, ganhamos abertura e aceitação, entendemos que a nossa esperança não será em vão. Disposição para examinar e compartilhar nossas esperanças, para ser paciente e manter as coisas simples, para ter tempo para a oração e a meditação, torna-se o fundamento para uma vida atual em que se olha para frente, para o futuro, com a expectativa confiante no que é bom.

SERENIDADE
Dr. Laís Marques da Silva, Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB
SIGNIFICADO DA PALAVRA SERENIDADE
Vamos procurar entender o que significa esta palavra tão importante para a recuperação do alcoólico. Consultando o “Aurélio”, vemos que serenidade é a qualidade ou estado de sereno; também suavidade, paz, tranquilidade. Sereno é igual a calmo, tranquilo, manso, sossegado.

COMO SE APRESENTAM OS COMPANHEIROS SERENOS ?
Iniciemos o trabalho fazendo uma pesquisa para aprofundar o nosso entendimento acerca do significado da palavra serenidade. Vamos observar como são os companheiros em A.A. com muitos anos de sobriedade; notamos que são pessoas seguras, confiantes, serenas e relaxadas emocionalmente, apesar de já terem sido, no passado, alcoólicos considerados sem salvação. Este é o modo pelo qual se apresentam os companheiros serenos.

COMO SE SENTEM ?
Mas como eles se sentem? Nas “Reflexões Diárias”, na página 173, temos o seguinte depoimento: ” percebi que estava sentindo serenidade. Era um bom sentimento, mas de onde vinha? Então percebi que ele tinha vindo… como resultado destes Passos”.
Estar sereno é sentir-se bem, sem preocupações e sem pressa. É não estar esmagado pelos compromissos e prazos. É não sentir que o mundo vai se acabar se não fizer as coisas. É viver cada momento da vida. É não levar o peso do passado nem sofrer com as incertezas do futuro. As pessoas serenas aceitam as coisas que não podem modificar, ou seja, aceitam o mundo como ele se apresenta.
Se tivéssemos que pintar o retrato de uma pessoa serena, destacaríamos os seguintes traços e cores: esperança, amor, humildade, honestidade, paciência, fé, sensação de ter valor, alegria, oração constante. Se quizermos ser serenos, teremos que colocar esses traços também na nossa pessoa e, como veremos adiante, há um caminho para conquistar essas qualidades.

ATIVIDADES QUE DESEMPENHAM
Para avançarmos um pouco mais na nossa compreensão de como são as pessoas serenas, vamos ver quais as atividades que elas desempenham: lêem muito, fazem cursos, visitam amigos, fazem caminhadas, apreciam as belezas que o mundo oferece, tocam instrumentos musicais, realizam atividades humanitárias, têem passatempos prediletos, vão à praia, visitam museus, etc. Mas, sobretudo, sempre encontram tempo para as coisas que realmente desejam fazer.
Contemplam o nascer de um novo dia, apreciam o espetáculo do anoitecer, ouvem o barulho das gotas de chuva, sentem o cheiro da relva molhada, ouvem o sussurro das água do rio, do vento nas folhas das árvores e o canto dos pássaros. Sabem que tudo isso lhes é dado graciosamente, mas sabem também que muitas das grandes respostas de que necessitam só chegam nos momentos de silêncio, de contemplação e de meditação
Estudamos detalhadamente o modo de ser e de agir de uma pessoa serena porque a serenidade é a qualidade mais importante que um alcoólico precisa ter para se manter sóbrio. Sem ela, aumenta o autocentrismo, o ressentimento, o desespero e o afastamento da vida social e o mais importante é o fato de que qualquer uma dessas situações pode levar o alcoólico à garrafa.A serenidade vem com o despertar espiritual e com a mudança da personalidade tão importante para a recuperação do alcoólico e que usualmente ocorre de maneira gradual e imperceptível. Faltando a serenidade, o alcoólico fica incapaz de avaliar e de manter esses problemas dentro dos seus devidos limites. A pessoa serena tem uma visão melhor da realidade, é como se ela visse as coisas numa atmosfera clara, em que a poeira já tivesse assentado, enquanto que os que não possuem a mente tranquila não conseguem distinguir as coisas, não avaliam corretamente os problemas do quotidiano; a visão das coisas está prejudicada pela poeira em suspensão e pela fumaça.

SENTIMENTOS E COMPORTAMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS
Vimos como é uma pessoa serena e que traços devemos procurar aprimorar para sermos mais serenos.No entanto, aqui e ali, aparecem os comportamentos que precisam ser evitados e, neste ponto, é preciso nos determos num sentimento que o alcoólico não pode se dar ao luxo de ter- o ressentimento. Na página 82 de Alcoólicos Anônimos encontramos que ” o ressentimento destrói mais alcoólicos do que qualquer outra coisa”.
O ressentimento que temos em relação a outras pessoas causa maior mal a nós mesmos. O mal que desejamos aos outros desaba sobre nós. Alimentar os nossos ressentimentos equivale a entregar aos outros o comando da nossa vida. Lá se vai o nosso tempo e a nossa emocionalidade para a pessoa por quem nutrimos o ressentimento. A nossa atenção fica ligada nelas e esquecemos os nosso objetivos pessoais. Se alguém tentar nos tirar do caminho, cabe a nós usar a energia para viver com alegria e voltar ao curso da nossa vida, até porque é muito bom nos voltarmos para quem merece a nossa maior consideração: nós mesmos. O sentir-se ressentido equivale a nos estarmos vitimando com a conduta dos outros, ou seja, a deixar que os nossos cordões emocionais sejam puxados pelas pessoas em relação às quais nutrimos o resssentimento e, o mais estranho ainda, é que, usualmente, essas pessoas nem sabem disso.

COMO ALCANÇAR A SERENIDADE ?
Costumamos dizer que as coisas não caem do céu mas, no caso da serenidade, ela realmente cai do céu e os dois modos pelos quais ela chega até nós são a oração e a meditação. É preciso trabalhar o nosso interior e praticar os Passos do Programa de Recuperação de A.A. e, em especial, o Passo 11. Na página 173 do livro “Na Opinião de Bill” vemos que “As raizes da realidade, suplantando as ervas daninhas neuróticas, vão promover uma base firme, apesar do furacão das forças que nos destruiriam ou que usaríamos para nos destruir.”
A oração, mesmo quando feita de modo pessoal e expontâneo, é importante para estabelecer um contacto entre nós e o Poder Superior. Meditar é submeter a um exame interior. É, antes de tudo, criar uma ausência de consciência, sentir-se como sendo levado por uma corrente para o próprio interior mais profundo. Certas músicas ajudam a conseguir entrar nesse estado de ausência de consciência. A meditação é uma forma de descançar a mente e de aliviar as tensões e as preocupações de um mundo de atividades intensas porque, da mesma forma que o corpo, também a mente precisa alternar períodos de atividade e de repouso e daí a necessidade de tranquilizar a mente, de criar momentos de relaxamento, isentos de tensão. Nos grandes momentos de felicidade nós desfrutamos a realidade, ficamos imersos nela e não ficamos tomados por pensamentos ou por preocupações.
Há várias práticas que estabelecem métodos definidos mas a meditação pode ser feita de modo pessoal, em qualquer lugar e a qualquer instante. Um lugar calmo e fracamente iluminado ajuda muito. Estar confortavelmente instalado e ter uma música suave ao fundo também auxilia. É preciso não ser interrompido pelas outras pessoas. Respirar profundamente e fechar os olhos concorrem para o ralaxamento. A atenção deve estar voltada para dentro. Se pensamentos passam, não os agarre. Quando um pensamento chegar, empurre-o para fora e diga para esperar porque este é o momento reservado para a meditação. Isso pode parecer difícil no início mas, com o tempo, o exercício o tornará capaz de fazer com facilidade. Não tente resolver os problemas neste momento. Permaneça assim por cerca de quinze minutos mas não olhe para o relógio nem se preocupe com o tempo. Ao voltar às atividades normais, a pessoa se sentirá como vindo de um longo e reparador sono e estará revigorada e serena.
Da mesma forma que o corpo, também a mente precisa alternar os períodos de exercício e de repouso e daí a necessidade de tranquilizar a mente, de criar momentos de relaxamento e de tranquilidade, isentos de tensão. Nos grandes momentos de felicidade nós desfrutamos a realidade, ficamos imersos nela e não tomados por pensamentos ou por preocupações.
A meditação é uma forma de descançar a mente e de aliviar as tensões e as procupações de um mundo de atividades intensas. Basta fazer o relaxamento e manter a mente em silêncio.

PENSAMENTOS E PRÁTICAS QUE AJUDAM
Além da própria Oração da Serenidade, os companheiros encontram nos grupos certos pensamentos que ajudam a manter a serenidade e que, pela sua repetição constante, tornam-se parte do subconsciente. Entre eles temos: “um dia de cada vez”, “com calma se resolve”, “viva e deixe viver”, “se funciona, não conserte”, “desligue”, “isso também passará”, etc
Ademais, algumas providências poderão ser tomadas no dia a dia de cada companheiro de modo a também criar condições favoráveis a fim de alcançar a serenidade. É conveniente planejar o dia para não ficar rodando em círculos ou permanecer como um barco sem rumo. A falta de propósito é frustrante e isso não é bom para a serenidade. Realize trabalhos manuais porque são construtivos e recompensadores. Mantenha o humor. Rir é o melhor remédio. Procure o lado alegre e divertido das coisas. Ficar pensando em nós mesmos pode abrir as portas para pensamentos destrutivos que invadem a mente. Será que vou perder o emprego e não poderei pagar os compromissos? será que ficarei enfermo? Isso tudo é muito doentio, enquanto que é saudável pensar nos outros, nas suas necessidades e, em especial, nos alcoólicos que ainda sofrem.
É preciso viver o momento presente, o único que realmente podemos viver, estar relaxado e então poder fazer a “Oração da Serenidade” na sua plenitude.
A cada momento surge a liberdade de escolher, que é a maior liberdade. Beber ou não, comer ou não, ser bom ou ser mal, ser feliz ou sentir-se miserável, olhar o lado ruim ou o lado claro e brilhante das coisas. É tão fácil ser otimista quanto pessimista, só que o otimismo conduzirá à estrada que leva à serenidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma vez alcançado este tipo de equilíbrio, ao qual se pode ajuntar a paciência e a tolerância, a vida será muito mais feliz e completa do que jamais foi pensada e sonhada antes. Alcançada a serenidade, não mais se viverá no passado nem se projetará no futuro. Mas é preciso estar alerta porque é necessário crescer sempre. Achar que já está bem e descansar, poderá levar à garrafa. Por outro lado, é bom notar que não conseguimos estar serenos o tempo todo pelo simples fato de sermos humanos e, portanto, imperfeitos. Mas temos que progredir sempre no caminho que leva à serenidade. O alcançar a serenidade está ligado a uma atividade que deve durar a vida toda. Ter a serenidade como objetivo faz com que as nossas atenções e o nossos esforços fiquem dirigidos para ela o tempo todo, evitando, desse modo, os desvios que sempre poderão ocorrer.

ARTIGO 04 – BOA VONTADE

“Reflexões”
HONESTIDADE RIGOROSA
Quem se dispõe a ser rigorosamente honesto e tolerante?
Quem se dispõe a confessar suas falhas a outra pessoa e a fazer reparações pelos danos causados? Quem se interessa, ao mínimo, por um Poder Superior, e ainda pela meditação e a oração? Quem se dispõe a sacrificar seu tempo e sua energia tentando levar a mensagem de A. A. ao próximo? Não, o alcoólico típico, egoísta ao estremo, pouco se interessa por estas medidas, a não ser que tenha de tomá-las para sobreviver.
Eu sou um alcoólico. Se eu beber eu morrerei. Me Deus, que poder, energia e emoção esta simples declaração gera em mim! Mas, verdadeiramente, é tudo que preciso saber por hoje. Estou disposto a ficar vivo hoje? Estou disposto a ficar sóbrio hoje? Estou disposto a pedir ajuda e estou disposto a ajudar outro alcoólico que ainda sofre hoje? Descobri a natureza fatal de minha situação? O que devo fazer, hoje, para permanecer sóbrio?

SALVO POR RENDER-SE
É uma característica do chamado alcoólico típico ser egocêntrico e narcisista, ser dominado por sentimentos de onipotência e ter intenção de manter a todo custo sua integridade interior… Interiormente o alcoólico não aceita ser controlado pelo homem ou por Deus. Ele, o alcoólico, é e precisa ser – o dono de seu destino. Lutará até o fim para preservar essa posição.
O grande mistério é: Por que alguns de nós morrem de alcoolismo, lutando para preservar a independência de nosso ego, enquanto outros conseguem ficar sóbrios em A. A. aparentemente sem esforços? A ajuda de um Poder Superior, a dádiva da sobriedade, aconteceu para mim quando um inexplicável desejo de parar de beber coincidiu com minha disposição de aceitar as sugestões dos homens e mulheres de A. A. Precisei render-me, pois somente alcançando Deus e meus companheiros eu poderia ser salvo.

LIMPANDO O JARDIM
A essência de todo crescimento é uma disposição de mudar para melhor e uma disposição incansável de aceitar qualquer responsabilidade que implique essa mudança.
Quando alcancei o Terceiro Passo, eu já estava livre de minha dependência do álcool, mas amargas experiências me mostraram que a sobriedade contínua requer um esforço contínuo.
De vez em quando dou uma pausa para dar uma olhada no meu progresso. Mais e mais o meu jardim fica limpo cada vez que olho, porém, toda vez também encontro novas erva daninhas crescendo rapidamente, onde eu pensava já ter finalmente cortado com lâmina. Quando volto para tirar as ervas novas que cresceram (é mais fácil quando elas ainda são jovens), para um momento para admirar como é vigoroso o crescimento dos vegetais e das flores, e meu trabalho é recompensado. Minhas sobriedade cresce e produz frutos.

A CHAVE E A BOA VONTADE
Uma vez que introduzimos a chave da boa vontade na fechadura e entreabrimos a porta descobrimos que sempre se pode abrir um pouco mais.
A boa vontade para entregar o meu orgulho e minha obstinação a um Poder Superior a mim mesmo, provou ser o único ingrediente necessário para resolver meus problemas hoje. Até mesmo pequenas doses de boa vontade, se sincera, é suficiente para permitir que Deus entre e tome o controle sobre qualquer problema, dor ou obsessão. Meu nível de bem-estar está em relação direta com o grau de boa vontade que tenho num determinado momento para abandonar minha vontade própria e permitir que a vontade de Deus se manifeste em minha vida. Com a chave da boa vontade, minhas preocupações e medos são poderosamente transformados em serenidade.

A VERDADEIRA INDEPENDÊNCIA
Quanto mais nos dispomos a depender de um Poder Superior, mais independentes nos tornamos.
Começo a confiar em Deus com uma vontade pequena e Ele faz com que essa vontade cresça. Quanto mais boa vontade tenho, mais confiança ganho, e quanto mais crença ganho, mais boa vontade tenho. Minha dependência de Deus cresce na proporção em que cresce a minha crença Nele. Antes de tornar-me disposto, dependia de mim mesmo para todas as minhas necessidades e estava restrito pela minha imperfeição. Pela minha boa vontade de depender do meu Poder Superior, a quem chamo de Deus, todas as minhas necessidades são satisfeitas por Aquele que me conhece melhor que eu mesmo; até mesmo aquelas necessidades que posso não perceber, bem como as que ainda não vieram. Somente Aquele que me conhece tão bem, pode levar-me a ser eu mesmo e me ajudar a preencher a necessidade de alguém que somente eu posso preencher. Nunca haverá alguém exatamente como eu. E isto é a verdadeira independência.

LIBERDADE DO “REI ÁLCOOL”
… não vamos supor nem mesmo por um instante, que não estamos sob coação. Na verdade, estamos sob uma enorme sujeição… Nosso antigo tirano, o “Rei Álcool”, está sempre pronto para nos agarrar. Portanto, a libertação do álcool é o grande “dever” que tem que ser alcançado: caso contrário, chegaremos à loucura ou à morte.
Quando bebia eu vivia preso espiritualmente, emocionalmente e às vezes fisicamente. Tinha construído minha prisão com barras de teimosia e indulgência, das quais não podia escapar. Ocasionalmente passava por períodos secos que pareciam prometer liberdade, mas que se tornavam apenas esperanças de um indulto. A verdadeira fuga requer uma disposição para seguir as ações corretas para abrir a fechadura. Com disposição e ação tanto as barras como a fechadura abrem-se por si mesmas para mim. Boa vontade e ação contínua me mantêm livre – numa espécie de liberdade condicional diária – que nunca termina.

CRESCENDO
A essência de todo crescimento é uma disposição de mudar para melhor e uma disposição incansável de aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique.
Algumas vezes quando me torno disposto a fazer o que deveria fazer o tempo todo, desejo louvor e reconhecimento. Não percebo que quanto mais estiver disposto a agir de uma maneira diferente, mais excitante é a minha vida. Quando mais estou disposto a ajudar os outros, mais recompensa recebo. Isto é o que a prática dos princípios significa para mim. Alegria e benefícios para mim estão na disposição de fazer as ações, não em obter resultados imediatos. Sendo um pouco mais amável, um pouco menos agressivo e um pouco mais amoroso, faz com que minha vida seja melhor – dia a dia.

CAMINHANDO PELO MEDO
Se ainda nos apegamos a algo que não queremos soltar, pedimos a Deus que nos ajude a ter a vontade.
Quando fiz o meu quinto Passo, tornei-me consciente de que todos os meus defeitos de caráter se originavam da minha necessidade de me sentir seguro e amado. Usar somente a minha vontade para trabalhar com meus defeitos e resolver o meu problema eu já havia tentado obsessivamente. No Sexto Passo aumentei a ação que tomei nos três primeiros Passos – meditando no Passo, dizendo-o várias vezes, indo às reuniões, seguindo às sugestões de meu padrinho, lendo e procurando dentro de mim mesmo. Durante os três primeiros anos de sobriedade tinha medo de entrar num elevador sozinho. Um dia decidi que tinha de enfrentar este medo. Pedi ajuda a Deus, entrei no elevador e ali no canto estava uma senhora chorando. Ela disse que desde que seu marido havia morrido ela tinha um medo mortal de elevadores. Esqueci meu medo e a confortei. Esta experiência espiritual ajudou-me a ver como a boa vontade era a chave para trabalhar o resto dos Doze Passos para a recuperação. Deus ajuda aqueles que se ajudam.

NUMA ASA E NUMA ORAÇÃO
… olhamos então para o sexto Passo. Frisamos que a boa vontade é indispensável.
O Quarto e Quinto Passos são difíceis, mas de grande valor. Agora estava parado no Sexto Passo e, em desespero, peguei o Livro Grande e li esta passagem. Estava fora, rezando por vontade própria, quando levantei meus olhos e vi um grande pássaro subindo para o céu. Eu o observei subitamente entregar-se às poderosas correntes de ar das montanhas. Levado pelo vento, mergulhando e elevando-se, o pássaro fez coisas aparentemente impossíveis. Foi um exemplo inspirador de uma criatura “soltando-se” para um poder maior que ela própria. Percebi que se o pássaro “retomasse seus controles” e tentasse voar com menos confiança, apenas com sua força, poderia estragar o seu aparente vôo livre. Esta preparação me deu disposição para rezar a Oração do Sétimo Passo.
Nem sempre é fácil conhecer a vontade de Deus. Devo procurar e estar pronto para aproveitar as correntes de ar, pois é ai que a oração e a meditação ajudam. Porque por mim mesmo eu não sou nada, peço a Deus que me conceda o conhecimento de Sua vontade, força e coragem para transmiti-la hoje.

LIBERTANDO-NOS DE NOSSOS VELHOS EGOS
Lendo cuidadosamente as primeiras cinco proposições, perguntamo-nos se omitimos alguma coisa, pois estamos construindo um arco pelo qual passaremos finalmente como homens livres…
Estamos agora prontos para que Deus retire de nós todas as coisas que já admitimos serem censuráveis?
O Sexta Passo é o último de “preparação”. Embora já tenha usado a oração extensivamente, ainda não fiz nenhum pedido formal ao meu Poder Superior nos primeiros Seis Passos. Identifiquei meu problema, vim a acreditar que havia uma solução, tomei a decisão de procurar esta solução, e “limpei a casa”. Agora me pergunto: estou disposto a viver uma vida de sobriedade, de mudanças, de me libertar do meu velho ego? Preciso determinar se estou realmente pronto para mudar. Revejo o que tenho feito e estou disposto a que Deus remova todos os meus defeitos de caráter: para que, no próximo Passo, eu diga ao meu Criador que estou disposto e peça ajuda. “Se ainda nos apegarmos a algo que não queremos soltar, peçamos a Deus que nos dê a vontade de fazê-lo.

INTEIRAMENTE PRONTO?
“Este é o Passo que separa os adultos dos adolescentes…” … a diferença entre “os adultos e os adolescentes” é igual à que existe entre a luta por um objetivo qualquer de nossa escolha e a meta perfeita que é Deus… Sugere-se que devemos estar inteiramente dispostos a procurar a perfeição… No momento em que dizemos: “não, nunca”, nossa mente se fecha para a graça de Deus. … Este é o ponto exato em que teremos de abandonar nossos objetivos limitados e avançar em direção à vontade de Deus para conosco.
Estou inteiramente pronto a deixar que Deus remova estes defeitos de caráter? Reconheço que não tenho condições de salvar a mim mesmo? Vim a crer que não posso. Se sou incapaz, se minhas melhores intenções dão errado, se meus desejos têm uma motivação egoísta e se meu conhecimento e minha vontade são limitados – então estou pronto a admitir a vontade de Deus em minha vida.

TUDO QUE FAZEMOS É TENTAR
Será que Ele pode levá-las embora, todas elas?
Ao fazer o Sexto Passo, lembrei que estou lutando por alcançar um “progresso espiritual”. Alguns de meus defeitos de caráter ficarão comigo pelo resto de minha vida, mas muitos foram suavizados ou eliminados. Tudo que o Sexto Passo pede de mim é que me torne disposto a nomear meus defeitos, reconhecer que são meus e estar disposto a me livrar daqueles que puder, só por hoje. Quando cresço no programa, muitos dos meus defeitos tornam-se mais censuráveis para mim que anteriormente, portanto, preciso repetir o Sexto Passo para que possa ser mais feliz comigo mesmo e manter minha sobriedade.

UMA VASSOURA LIMPA
… e, em terceiro lugar, havendo desta forma limpado o entulho do passado, consideramos de que modo, com o novo conhecimento de nós mesmos, poderemos desenvolver as melhores relações possíveis, com todas as pessoas que conhecemos.
Quando olhei para o Oitavo Passo, tudo o que foi pedido para completar com sucesso os sete passos anteriores veio junto: coragem, honestidade, sinceridade, disposição e meticulosidade. Não poderia reunir a força requerida para esta tarefa no começo, e é por isso que está escrito neste Passo: “nos dispusemos…”
Precisava desenvolver a coragem para começar, a honestidade para ver onde eu estava errado, um desejo sincero de colocar as coisas em ordem, precisava ser meticuloso ao fazer a relação e precisava ter disposição para assumir os riscos exigidos para a verdadeira humildade. Com a ajuda de meu Poder superior, para desenvolver estas virtudes, completei este Passo e continuei movendo me para adiante na minha busca de um crescimento espiritual.

EM DIREÇÃO À LIBERDADE EMOCIONAL
Em vista de que as relações deficientes com outras pessoas quase sempre foram a causa imediata de nossas mágoas, inclusive de nosso alcoolismo, nenhum campo de investigação poderia render resultados mais satisfatórios e valioso do que este.
A boa disposição é uma coisa peculiar para mim porque com o tempo, parece vir primeiro com consciência e, depois com uma sensação de desconforto, fazendo-me querer tomar alguma decisão. Quando reflito em praticar o Oitavo Passo, minha disposição de fazer reparações aos outros vem como um desejo de perdão, a outros e a mim mesmo. Senti o perdão para os outros após tornar-me cônscio de minha parte nas dificuldades dos relacionamentos. Desejava sentir a paz e a serenidade descritas nas promessas. Praticando os primeiros Sete Passos, fiquei sabendo quem tinha prejudicado e que eu tinha sido meu pior inimigo. A fim de restaurar meus relacionamentos com meus semelhantes, sabia que precisava mudar. Desejava viver em harmonia comigo mesmo e com os outros, para que pudesse também ter uma vida de liberdade emocional. O começo do fim de meu isolamento – de meus companheiros e de Deus – veio quando escrevi minha relação do Oitavo Passo.

DISPOSIÇÃO PARA CRESCER
Se temos que receber outras dádivas, nosso despertar tem que continuar:
A sobriedade preenche o doloroso “buraco na alma” que meu alcoolismo criou. Muitas vezes me sinto fisicamente tão bem, que acredito que meu trabalho já foi feito. Contudo, a alegria não é apenas a ausência de dor: ela é a dádiva de um contínuo despertar espiritual. A alegria vem de um estudo ativo e progressivo, bem como da aplicação dos princípios de recuperação em minha vida diária, e de compartilhar esta experiência com os outros. Meu Poder Superior apresenta muitas oportunidades para um mais profundo despertar espiritual. Preciso somente trazer para minha recuperação a disposição de crescer. Hoje estou pronto para crescer.

ENCONTRANDO “UMA RAZÃO PARA ACREDITAR”
A disposição para crescer é a essência de todo crescimento espiritual.
Um verso de uma canção diz: “… E procuro uma razão para acreditar…”. Isto me faz lembrar que numa certa época eu não era capaz de encontrar uma razão para acreditar que minha vida estava bem. Embora minha vida tivesse sido salva por minha vinda ao A. A., três meses mais tarde fui e bebi novamente.
Alguém me disse: “Você não precisa acreditar. Será que você não está disposto a acreditar que há uma razão para sua vida, embora você possa não saber qual é ou que algumas vezes não saber a maneira correta de se comportar?” Quando estava disposto a acreditar que havia uma razão para a minha vida, então pude começar a trabalhar nos Passos. Agora, quando começo com: “eu estou disposto…”, estou usando a chave que leva à ação, à honestidade e uma abertura para um Poder Superior que se manifesta em minha vida.

ACEITAR A SI MESMO
Sabemos que o amor de Deus vela sobre nós. Enfim, sabemos que quando nos voltarmos para Ele, tudo estará bem conosco, agora e para sempre.
Rezo para estar sempre disposto a recordar que sou filho de Deus, uma alma divina numa forma humana, e que a tarefa mais urgente e básica na minha vida é aceitar, conhecer, amar e cuidar de mim mesmo. Quando me aceito, estou aceitando a vontade de Deus. Quando me conheço e me amo, estou conhecendo e amando a Deus. Quando cuido de mim, estou agindo sob a orientação de Deus. Rezo para ter disposição de abandonar minha arrogante autocrítica, e louvar a Deus humildemente aceitando-me e cuidando de mim mesmo.
(Fonte: Reflexões Diárias – paginas: 34-41-72-75-86-108-109-138-163-164-165-166-234-241-253-254-324)

BOA VONTADE
Um artigo sobre a Oração da Serenidade.
Quando ingressei em Alcoólicos Anônimos, procurei, atentamente, seguir as orientações de meu padrinho, bem como todas as sugestões dos companheiros nos Grupos. Tumultuado pelo domínio do álcool, achava que a Oração da Serenidade era mais um ritual sagrado de uma seita ou religião na qual eu acabara de entrar. Totalmente longe da realidade, fui conhecendo a Irmandade de A. A. e vi que meu pensamento era completamente diferente da realidade: a Oração da Serenidade não é um ritual e A. A. não é seita ou religião, isso ficou bem claro para mim.
Passados três anos dessa experiência, sei que o recitar da prece é a chave que abre as portas da nova vida, longe do primeiro gole, a cada momento do dia, diante de dificuldades e no início ou no fim das reuniões. É de grande valia para meu programa de recuperação, como também é o mais nobre canal de comunicação que encontrei para contatar com meu Poder Superior, que na minha concepção é Deus, reforçando em mim a força espiritual que o programa de A. A. me traz.
É com muita fé e esperança que eu peço ao Senhor do Universo a serenidade, a saúde, a sanidade e a aceitação, as quais são pilares fundamentais para manter-me sóbrio. Isso eu venho conseguindo a cada vinte e quatro horas.
Ainda não consegui a “coragem” para efetuar todas as mudanças que gostaria de fazer no meu programa de vida, mas todo dia eu renovo o pedido ao Poder Superior para me conceder esse dom. Sei que as mudanças não podem ser do dia para a noite, mas só em poder dizer que tive a coragem de ficar longe do primeiro gole, já tenho motivo suficiente para agradecer a Deus.
A sabedoria aliada ao conhecimento faz de mim um ser capaz. Graças a Deus venho conseguindo essa capacidade de distinguir aquilo que eu posso e o que eu não posso modificar, aquilo que eu devo e o que não devo fazer. Isso é o que aumenta minha boa vontade de continuar sóbrio.
(Fonte: Revista Vivência – 50 – Nov./Dez. 2007 – José P. – Teresina/PI)

A CHAVE DA BOA VONTADE
“A fechadura deve ser mergulhada no mais puro amor e colocada no lado esquerdo do peito.”
Chaves!
Elas existem há vários séculos, de diversos formatos e de vários tamanhos.
Elas têm duas funções básicas que são: – aprisionar ou libertar.
O interruptor é uma chave que me liberta da escuridão, que me alivia o calor…
Já o cartão telefônico é uma chave que me possibilita conversar com outra pessoa a longa distância.
Esta conversa pode ser libertadora ou aprisionadora; medíocre, fofoqueira, injuriosa, que além de mesquinha e infrutífera me aprisionará, me trará sérios problemas impossibilitando-me de enxergar as coisas como elas realmente são.
Na verdade, chave é tudo aquilo que facilita, que viabiliza, que torna fácil o acesso tanto para o bem quanto para o mal.
O álcool é uma chave para a descontração; facilita a aproximação de homens e mulheres, desinibe, mas também é a chave da grande maioria dos acidentes.
É ele quem impulsiona muitas pessoas para a criminalidade e formula atrocidades nas mentes onde habita.
Em suma, o álcool é uma chave que tranca mais que liberta e muitas vezes usando de sagacidade ele liberta hoje para encarcerar amanhã.
Quantos avolumaram seu molho com essa chave, líquida e estão literalmente aprisionados nas penitenciárias e nos manicômios?
Só resolvi abandonar a bebida depois que já estava de posse da chave abstrata da vontade e percebi a necessidade de adquirir a chave do bom senso, pois seria muita tolice, muita ingenuidade de minha parte achar que me livraria do meu algoz sem passar por momentos tempestuosos.
Destrancar os bares onde eu havia aprisionado meu espírito e minha mente, não seria tarefa fácil!
Depois, as chaves da força, da determinação e a dos sonhos tornaram-se minhas aliadas.
Os sonhos, que antes não passavam de ilusões, de fraco desejo, hoje, graças a essas chaves imateriais, a Deus e ao A. A., tenho me mantido sóbrio e conseguido realizar alguns sonhos que foram trancados na masmorra do álcool.
Essas chaves poderosas trouxeram-me até aqui, mas há uma outra que pode facilitar minha caminhada daqui para frente. Essa última possui elementos poderosíssimos em sua liga: é a chave da boa vontade.
Assim como a cobra coral, a boa vontade também possui uma sósia tão parecida que não é fácil distinguir a falsa da verdadeira.
A autêntica coral possui veneno poderosíssimo, capaz de matar em poucos instantes. A genuína boa vontade também, quando penetra na corrente sanguínea, quando passa a fazer parte do DNA da alma proporciona fé, resignação, comprometimento, paciência e compreensão.
A falsa boa vontade, que nada mais é que “obrigação”, tem ajudado as pessoas a seguirem em frente, mas de forma pesada, arrastada, lamuriosa.
Obrigatoriedade é um remédio excessivamente apimentado, ajuda, mas queima muito.
Já a boa vontade é açucarada, leve e prazerosa.
Hoje tenho certeza que as soluções para os meus problemas já existem! Só tenho que saber procurá-las e quanto à chave da boa vontade… estou tentando, mas já entendi que ela é real e que para conquistá-la é necessário que eu construa a fechadura perfeita, fechadura esta que depois de pronta deve ser mergulhada no mais puro amor e colocada no lado esquerdo do peito.
Quando a fechadura estiver pronta, a chave da boa vontade aparecerá.
(Fonte: Revista Vivência – 113 – Mai./Jun. 2008 – Marco Antônio – Niterói/RJ)

BOA VONTADE
“Na Opinião do Bill”
PODEMOS ESCOLHER?
Não devemos nunca nos deixar cegar pela filosofia fútil de que somos vítimas de nossa hereditariedade, de nossa experiência de vida e de nosso meio ambiente – de que essas são as únicas forças que tomam as decisões por nós. Esse não é o caminho para a liberdade. Temos que acreditar que podemos realmente escolher.
“Como alcoólicos ativos, perdemos a capacidade de escolher se beberíamos ou não. Éramos vítimas de uma compulsão que parecia determinar que deveríamos prosseguir em nossa própria destruição.”
“No entanto, finalmente, fizemos escolhas que nos levaram à recuperação. Viemos a acreditar que sós éramos impotentes perante o álcool. Isso foi certamente uma escolha, aliás, muito difícil. Viemos a acreditar que um Poder Superior poderia nos devolver a sanidade, quando nos dispusemos a praticar os Doze Passos de A. A.”. Em resumo, preferimos ‘estar dispostos’, e essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito.”

FORÇA DE VONTADE E ESCOLHA
“Nós, AAs, sabemos que é inútil tentar destruir a obsessão de beber só pela força de vontade. Entretanto, sabemos que é preciso uma grande vontade para adotar os Doze Passos de A. A. como um modo de vida que pode nos devolver a sanidade.
Qualquer que seja a gravidade da obsessão pelo álcool, felizmente descobrimos que ainda podem ser feitas outras escolhas vitais. Por exemplo, podemos admitir que somos impotentes pessoalmente perante o álcool; que a dependência de um ‘Poder Superior’ é uma necessidade, mesmo que esta seja simplesmente uma dependência de um grupo de A. A. Então podemos preferir tentar uma vida de honestidade e humildade, fazendo um serviço desinteressado para nossos companheiros e para ‘Deus como nós O concebemos’.
Conforme continuamos fazendo essas escolhas e assim indo em busca dessas altas aspirações, nossa sanidade volta e desaparece a compulsão para beber.”

A HUMILDADE “PERFEITA”
Eu, por minha parte, tento encontrar a definição mais verdadeira de humildade que puder. Ela não será a definição perfeita porque eu serei sempre imperfeito.
Nesse artigo, escolheria a definição seguinte: “A humildade absoluta consistiria num estado de completa libertação de mim mesmo, na libertação de todas as exigências que meus defeitos de caráter lançam tão pesadamente sobre mim agora. A humildade perfeita seria a total boa vontade de, em todos os momentos e lugares, reconhecer e fazer a vontade de Deus”.
Quando penso nessa visão, não preciso ficar desanimado porque nunca atingirei, nem preciso me encher da presunção de que algum dia alcançarei todas essas virtudes.
Preciso apenas contemplar essa visão, deixando-a crescer e encher meu coração. Isto feito, posso compará-la ao meu último inventário pessoal. Tenho então uma saudável idéia de onde me encontro no caminho para a humildade. Vejo que minha caminhada em direção a Deus apenas começou.
Ao reduzir-me ao meu verdadeiro tamanho, minhas preocupações comigo mesmo e o sentimento de minha própria importância fazem-me rir.

LIBERDADE ATRAVÉS DA ACEITAÇÃO
Admitimos que não podíamos vencer o álcool com os recursos que ainda nos restavam, e assim aceitamos o fato de que só a dependência de um Poder Superior (mesmo que fosse apenas nosso Grupo de A. A.) poderia resolver esse problema até aqui insolúvel. No momento em que fomos capazes de aceitar inteiramente esses fatos, iniciou-se nossa libertação da compulsão alcoólica.
Para a maioria de nós foi preciso grande esforço para aceitar esses dois fatos. Tivemos que abandonar nossa querida filosofia de auto suficiência. Não o conseguíamos apenas com a força de vontade.; isso aconteceu como resultado do desenvolvimento da boa vontade para aceitar esses novos fatos da vida.
Não fugimos nem lutamos, mas aceitamos. E então começamos a ser livres.

ESSÊNCIA DO CRESCIMENTO
Que nunca tenhamos medo das mudanças necessárias. Certamente temos que distinguir entre mudanças para pior e mudanças para melhor. Mas já descobrimos há muito tempo que, logo que uma necessidade se torna clara para o indivíduo, para o grupo ou para A. A. como um todo, não podemos ficar parados.
A essência de todo crescimento é a disposição de mudar para melhor e uma incansável disposição para aceitar qualquer responsabilidade que essa mudança implique.

A BOA VONTADDE É A CHAVE
Independente do quanto se queira tentar, a pergunta é: como, exatamente, pode alguém entregar sua própria vontade e sua própria vida aos cuidados de qualquer Deus que acredite existir?
Basta começar, mesmo que seja um tímido começo. Uma vez que tenhamos colocado a chave da boa vontade na fechadura e tenhamos entreaberto a porta, descobrimos que podemos sempre abri-la um pouco mais.
Embora a obstinação possa fechá-la de novo, como frequentemente acontece, ela sempre voltará a se abrir quando utilizarmos a chave da boa vontade.

ALÉM DO AGNOSTICISMO
Nós, de temperamento agnóstico, descobrimos que tão logo fomos capazes de deixar de lado o preconceito e expressar pelo menos uma disposição para acreditar num Poder Superior a nós mesmos, começamos a ver os resultados, mesmo quando ainda era impossível para qualquer um de nós definir ou compreender totalmente esse Poder, que é Deus.
“Muitas pessoas me asseguram, com toda a seriedade, que o homem não tem lugar melhor no universo do que qualquer outro organismo competindo por sua sobrevivência apenas para morrer no fim. Ouvindo isso, sinto que ainda prefiro me apegar à chamada ilusão da religião, que em minha própria experiência, e de um modo muito significativo, revelou-me algo muito diferente!”

BENEFÍCIOS E MISTÉRIOS
“A preocupação de A. A. com a sobriedade é às vezes mal interpretada. Para alguns, essa simples virtude parece ser o único benefício da nossa Irmandade. Pensam que somos bêbados recuperados e que, em outros aspectos, pouco ou nada melhoramos. Essa suposição esta muito longe da verdade. Sabemos que uma sobriedade permanente pode ser alcançada apenas por uma revolucionária mudança na vida e perspectiva do indivíduo – por um despertar espiritual que pode eliminar o desejo de beber.”
“Você está se preocupando, como muitos de nós devem estar: ‘Quem sou eu?’ ‘Onde estou?’ ‘Para onde vou?’ O processo de esclarecimento é geralmente lento. Mas, no fim, nossa busca sempre traz uma descoberta. Esses grandes mistérios, afinal, estão envoltos em total simplicidade. A disposição de desenvolver-se é a essência de todo o crescimento espiritual.”

ALCANÇANDO A HUMILDADE
Percebemos que não precisávamos sempre apanhar e levar cacetadas para ter humildade. Ela poderia ser alcançada seja se a procurássemos voluntariamente, seja pelo constante sofrimento.
Em primeiro lugar, procuramos obter um pouco de humildade, sabendo que morreremos de alcoolismo se não o fizermos. Depois de algum tempo, embora ainda possamos nos revoltar, até certo ponto, começamos a praticar a humildade, porque essa é a coisa certa a se fazer.
“Chega então o dia em que, finalmente livres da revolta, praticamos a humildade, porque no fundo a queremos como um modo de vida.”

DISPOSTOS A ACREDITAR
“Não permita que qualquer preconceito contra termos espirituais possa impedi-lo de se perguntar, o que eles poderiam significar para você. No começo, era disso que precisávamos, para dar início a um crescimento espiritual, ‘para estabelecer nossa primeira relação consciente com Deus como nós O concebíamos’. Mais adiante passamos a aceitar muitas coisas que nos pareciam inteiramente fora de alcance. Isso era crescimento, mas para crescer tínhamos que começar de algum modo. Assim, no princípio, usamos nossas próprias concepções de Deus, ainda que limitadas.
“Precisávamos nos fazer apenas uma simples pergunta: ‘Acredito, ou estou mesmo disposto a acreditar que existe um Poder Superior a mim?’ Assim que o indivíduo possa dizer que acredita, ainda que seja em pequeno grau, ou que esteja disposto a acreditar, nós lhe asseguramos enfaticamente que ele está no caminho.”

HUMILDADE PARA A IRMANDADE, TAMBÉM
Nós, Aas às vezes exageramos as virtudes de nossa Irmandade. Não nos esqueçamos de que, na verdade, poucas dessas virtudes foram de fato conquistadas por nós. Para começar, fomos forçados a elas pelo cruel chicote do alcoolismo. Finalmente as adotamos, não porque o quiséssemos, mas sim porque fomos forçados a fazê-lo.
A seguir, à medida que o tempo ia confirmando a aparente correção de nossos princípios básicos, começamos a nos conformar porque essa era a coisa certa a fazer. Alguns de nós, e eu em especial, ajustamo-nos então, ainda que com alguma relutância.
Mas finalmente chegamos a um ponto onde passamos a desejar nos conformar com alegria com esses princípios que a experiência, sob a graça de Deus, nos ensinou.

O VALOR DA VONTADE HUMANA
Muitos recém-chegados, tendo experimentado uma pequena mas constante deflação, sentem uma crescente convicção de que a vontade humana não tem nenhum valor. Ficaram convencidos, às vezes com razão, de que, além do álcool, muitos outros problemas não vão se resolver apenas pela vontade do indivíduo.
Contudo, há certas coisas que o indivíduo pode fazer. Sozinho e à luz de suas próprias circunstâncias, ele precisa desenvolver a boa vontade. Ao adquirir boa vontade, ele passa a ser a única pessoa que pode tomar a decisão de se esforçar no caminho espiritual. Tentar fazer isso é, na verdade, um ato de sua própria vontade. É usar corretamente essa faculdade.
Na verdade, todos os Doze Passos de A. A. requerem um constante esforço pessoal para ficarmos de acordo com seus princípios e, assim acreditamos, com a vontade de Deus.

OS RESULTADOS DA ORAÇÃO
Quando o cético experimenta o processo da oração, deve começar a acumular resultados. Se persistir, é quase certo que encontrará mais serenidade, mais tolerância, menos medo e menos raiva. Vai adquirir uma coragem calma, sem nenhuma tensão. Poderá ver o “fracasso” e o “sucesso” como realmente são. Os problemas e calamidades começarão a representar aprendizado em vez de destruição. Vai sentir-se mais livre e mais sadio.
A ideais de que tenha se hipnotizado por auto-sugestão parecerá ridícula. Seu senso de utilidade e de propósito aumentará. Suas ansiedades começarão a diminuir. Sua saúde física talvez melhore. Coisas imprevistas e maravilhosas começarão a acontecer. Relações distorcidas com a família e com outras pessoas melhorarão surpreendentemente.

TRÊS ALTERNATIVAS
O objetivo imediato de nossa busca é a sobriedade – a libertação do álcool e de todas as suas desastrosas conseqüências. Sem esta libertação não temos nada.
Paradoxalmente, não conseguimos libertar-nos da obsessão do álcool enquanto não estejamos dispostos a lidar com os defeitos de caráter que nos levaram a esta irremediável situação. Nesta busca de libertação sempre nos foram dadas três escolhas:
Uma recusa rebelde de trabalhar em nossos defeitos mais evidentes, que pode ser um passaporte quase certo para a destruição. Ou então permanecer sóbrios, talvez por algum tempo, com um mínimo de auto-aperfeiçoamento, e nos instalarmos numa confortável mas perigosa mediocridade. Ou, finalmente, emprenharmo-nos constantemente em adquirir aquelas genuínas qualidades que podem contribuir para a clareza de espírito e para a ação – uma liberdade verdadeira e duradoura sob a graça de Deus.

UMA RECÉM-ENCONTRADA PROVIDÊNCIA
Ao lidar com um possível membro que tenha inclinações agnósticas ou ateístas, é preferível usar a linguagem coloquial para descrever os princípios espirituais. Não adianta despertar qualquer preconceito que ele possa ter contra certos conceitos e termos teológicos, sobre os quais já possa estar confuso. Não levante estes assuntos, sejam quais forem as convicções que você tenha.
Todos os homens e mulheres que ingressaram e pretendem permanecer em A. A., sem perceber, já começaram a praticar o Terceiro Passo. Não é verdade que em todos os assuntos relacionados com o álcool, cada um deles decidiu entregar sua vida aos cuidados, proteção e orientação de A. A.?
Já se operou um ato de boa vontade quando eles se dispuseram a substituir a vontade e as ideais próprias sobre o problema do álcool, pelas sugeridas por A. A. Ora, se isso não é entregar a vontade e a vida a uma recém-encontrada “Providência”, o que é então?
(Fonte: Na Opinião do Bill – paginas: 4-88-106-109-115-122-137-171-211-219-226-232-321-327-328)

BOA VONTADE: – A CHAVE DO SUCESSO
Mesmo estando em recuperação há algumas 24 horas sentia que a programação de A. A. ainda não estava presente em minha vida, pois eu acordava pela manhã mesmo sem ressaca há vários anos, reclamando: – Nossa já é hora de levantar, passou tão rápido esta noite! Tenho que ir trabalhar mesmo? Era assim que começava o meu dia e no decorrer deste, batia uma monotonia, uma tristeza sem explicação. Assim eu ia levando, reclamando, me tornando sem perceber, um verdadeiro ranzinza.
Esta fase aconteceu após 3 anos em A. A., até que um “A Amigo”, certo dia me disse: – Faça o 3º Passo; entregue sua vida aos cuidados do seu Poder Superior; mude seu foco; comece a agradecer ajudando sem esperar retorno; seja grato por acordar cedo e sem ressaca, pois que precisa acordar cedo é porque esta trabalhando e se tem um trabalho terá pão em sua mesa; agradeça por estar em recuperação e que a programação está funcionando para você.
Aquelas palavras mudaram meu caminho!
Recordo-me quando eu estava no sanatório e que meu maior patrimônio eram minhas sandálias havaianas.
Bastou um pouco de boa vontade para eu encontrar a chave do sucesso!
Hoje acordo pela manhã e agradeço meu Poder Superior por estar em A. A., por estar sóbrio e com minha família.
Tenho um bom trabalho, voltei a estudar e sou saudável.
Agradeço a A. A. e ao Poder Superior pela minha vida, pela minha felicidade.
Hoje sim, tenho prazer no trabalho, nos meus momentos de lazer com minha família, pois amo minha esposa e retribuo a força que ela me dá em minha programação. Amo meus filhos e isso companheiros é porque entreguei minha vontade e minha vida aos cuidados de um Poder Superior como O concebo.
Só Por Hoje! Funciona. Felizes 24 Horas de Sobriedade e Serenidade.
(Fonte: Revista Vivência – 113 – Mai./Jun. 2008 – Euler/Goiânia/GO

COM O PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO, UMA NOVA ALEGRIA DE VIVER.

Sou um alcoólico em recuperação que só pela graça e misericórdia divina não bebi hoje, não tive vontade e, melhor ainda, não precisei beber. Agradeço aos meus familiares, amigos, companheiros(as) de Alcoólicos Anônimos e, especialmente, ao Poder Superior, Deus na forma em que eu O concebo, por ter me libertado da escravidão do álcool, concedendo-me uma nova chance de vida.

Há alguns anos atrás, depois de sete anos de Irmandade, estava passando por experiências dolorosas que acabaram por me conduzir ao entendimento de que, até aquele momento, havia apenas ADMITIDO o Programa de Recuperação e que agora, se quisesse de fato experimentar uma nova vida e gozar do cumprimento das promessas de A.A., era necessário ACEITÁ-LO. Este despertar lançou-me numa busca para melhor conhecê-lo e praticá-lo.

Nesse exercício descobri ser de vital importância estar bem informado a respeito de nossa Irmandade, visto que, muitas vezes, a mensagem de A.A. transmitida de forma deturpada pode ocasionar ou prolongar sofrimentos facilmente evitáveis e ainda resultar em mortes desnecessárias.

Iniciei uma pesquisa que resultou neste singelo trabalho que agora, modestamente, peço licença para compartilhá-lo.

Antes, porém, gostaria de contar-lhes uma

experiência que me ajudou a ampliar o entendimento sobre a importância dessa Irmandade para a minha vida e de como ela me salvou dessa “estranha e fatal doença chamada alcoolismo”, mesmo antes do meu nascimento.
Sonhei que estava no ano de 1935, na cidade de Akron, Ohio, Estados Unidos e me vi no Hotel Mayflower observando nosso co-fundador Bill W. Ele estava frustrado, pois havia sido derrotado por um grupo rival numa disputa que envolvia o controle acionário de uma pequena companhia de ferramentas daquela cidade. Não bastasse isso, seus sócios no negócio o deixaram sozinho no hotel com apenas dez dólares no bolso. Encontrava-se andando de um lado para o outro no saguão do hotel, quando de repente ocorreu-lhe um pensamento: “vou me embriagar!” O pânico tomou conta dele, e de mim também, comecei a gritar desesperadamente para que ele não fosse para o bar do hotel tomar um trago, mas ele não me escutava. Foi quando me dei conta de que eu ainda nem havia nascido. Para minha felicidade e alívio, Bill se lembrou que, quando tentava ajudar outra pessoa, ele permanecia sóbrio. Pela primeira vez ele compreendeu isso profundamente e pensou: “Você precisa de um outro alcoólico para conversar. Você precisa de um outro alcoólico, tanto quanto ele precisa de você”. Então resolveu entrar na cabine telefônica para procurar por uma pessoa que poderia colocá-lo em contato com outro alcoólico. Nesse instante as lágrimas rolaram pelo meu rosto e acordei chorando de emoção. Num sobre salto sentei-me na cama e minha esposa, assustada, perguntou: “O que está acontecendo?” Respondi: Minha vida acabou de ser salva! Ela continuou sem entender nada. Imaginem vocês que, se Bill estivesse escolhido o caminho do bar, não ocorreria o famoso encontro com nosso outro co-fundador o Dr. Bob. Encontro esse que estava previsto para durar apenas 15 minutos, mas, graças à identificação entre os dois alcoólicos, durou mais de cinco horas.

Caso isso não ocorresse, provavelmente, nossa Irmandade não existiria e, com certeza, esse que vos escreve não estaria aqui contando esta história.

O fato é que, buscando conhecer a história de Alcoólicos Anônimos e analisando algumas experiências pessoais, inclusive as minhas, restou-me claro que nossa Irmandade não é apenas obra do acaso. Ele não conseguiria ser tão perfeito.

Acredito fielmente que o Poder Superior, Deus na minha concepção, em sua infinita bondade e misericórdia, traçou um plano, um programa, muito bem arquitetado de salvação, de libertação, para que os doentes alcoólicos fossem também alcançados.

E é justamente sobre esse Programa de Recuperação que, a partir de agora, passo a compartilhar.

Busquei no dicionário o significado das palavras PROGRAMA: plano, projeto ou resolução acerca do que se há de fazer; e RECUPERAÇÃO: adquirir novamente; reconquistar; restaurar-se. Observem que o significado nos sugere decisão seguida de ação restauradora, que é exatamente a proposta sugerida em nossos DOZE PASSOS como o Programa de Recuperação.

Permita-me fazer um breve histórico de como foram escritos “Os Doze Passos”.

Em dezembro de 1938 eles foram minutados de forma surpreendente, aproximadamente, meia hora. Essa história descrita nas páginas 138 a 140 do Livro “A.A. Atinge a Maioridade” é de emocionar. Sua narrativa descreve momentos de grande apreensão vividos por Bill. Ele estava às voltas com os manuscritos (rascunhos) de alguns capítulos do livro Alcoólicos Anônimos, e era chegada a hora de contar (escrever) como o programa de recuperação do alcoolismo realmente funcionava. Essa seria a espinha dorsal do livro. Realizar essa tarefa tão importante, em condições normais já seria difícil, imagine pressionado pelas dificuldades financeiras, pelas críticas arrasadoras que os primeiros capítulos recebiam nos grupos de New York, pela pressão dos acionistas achando que o livro estava indo muito devagar e tinham diminuído suas contribuições. Não bastasse tudo isso, o fato de nunca ter escrito nada antes o preocupava profundamente. Nesse turbilhão, exausto, magoado e quase a ponto de jogar o rascunho pela janela, num estado que era tudo, menos espiritual, mas ciente que a tarefa tinha que ser feita, naquela noite de dezembro de 1938, vindo em sua mente pouco a pouco algum tipo de luz, sentou-se na cama com um lápis na mão e um bloco de papel rabiscado sobre o joelho, com apenas alguma idéia de que nossa literatura teria que ser a mais clara e compreensível possível, que os nossos passos teriam que ser mais explícitos para evitar abrir brechas através da qual a racionalização alcoólica pudesse entrar. Quando começou a escrever, dispôs-se a rascunhar mais de seis passos, quantos mais ele não sabia. Relaxou e pediu ajuda divina. Vejam o que aconteceu, relatado pelo próprio Bill: “Com uma velocidade surpreendente, tendo em conta minhas emoções, completei o primeiro rascunho. Isso levou talvez meia hora. As palavras continuavam a surgir. Quando atingi um certo ponto, numerei os novos passos. Eram doze ao todo. De alguma forma, esse número me pareceu significativo. Sem qualquer motivo ou razão especial, eu os relacionei com os doze apóstolos. Sentindo-me agora muito aliviado”.

Lembramos que já haviam seis passos formulados cujas idéias básicas vieram dos Grupos Oxford, de William James e do Dr. Silkworth, além das considerações de várias outras pessoas.
Pelo conteúdo e forma como foram escritos (inspirados), resta comprovado que estes PASSOS não são obra do homem e sim fruto da vontade divina.

No prefácio do Livro “Os Doze Passos” estão escritas as seguintes palavras: “Os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos consistem em um grupo de princípios, espirituais em sua natureza que, se praticados como um modo de vida, podem expulsar a obsessão pela bebida e permitir que o sofredor se torne íntegro, feliz e útil”.

Creio que o Poder Superior, Deus na minha concepção, quando nos legou os Doze Passos, para nossa recuperação individual, presenteou-nos com uma caixa de ferramentas espirituais, cuja finalidade, além do nosso conserto, da nossa reparação, é serem utilizadas em nossas dificuldades na vida diária. Na verdade estes princípios poderiam ser comparados a uma bomba espiritual do bem, poderosíssima: onde ela cai liberta inúmeras vidas. Prova disso é a utilização destes princípios, com sucesso, por diversas irmandades paralelas à nossa, com outros tipos de problemas que não sejam o álcool. Alguns exemplos são: Narcóticos Anônimos, Neuróticos Anônimos, Jogadores Anônimos, Comedores Compulsivos Anônimos, Introvertidos Anônimos, MADA – Mulheres que Amam Demais Anônimas, etc. (tem-se notícia de que existem mais de cem).

Infelizmente muitas vezes nós mesmos, membros de A.A., ao desprezarmos os Doze Passos, sugeridos como um programa de recuperação, até mesmo alguns de nós que já os conhecemos, mas pouco os praticamos, e não falamos sobre eles porque ainda duvidamos que tenham muita eficácia, temos nos prejudicado evitando que as promessas, descritas no Capítulo 6, “Entrando Em Ação”, do Livro Alcoólicos Anônimos, se cumpram em nossas vidas, as quais são:

1ª) Se formos cuidadosos, nesta fase do nosso crescimento, ficaremos surpresos antes de chegar à metade do caminho.

2ª) Estamos a ponto de conhecer uma nova liberdade e uma nova felicidade.

3ª) Não lamentaremos o passado, nem nos recusaremos a enxergá-lo.

4ª) Compreenderemos o significado da palavra serenidade e conheceremos a paz.

5ª) Não importa até que ponto descemos, veremos como nossa experiência pode ajudar outras pessoas.

6ª) Aquele sentimento de inutilidade e auto-piedade irá desaparecer.

7ª) Perderemos o interesse em coisas egoístas e passaremos a nos interessar pelos nossos semelhantes.

8ª) O egoísmo deixará de existir.

9ª) Todos os nossos pontos de vistas e atitudes perante a vida irão se modificar.

10ª) O medo das pessoas e da insegurança econômica nos abandonará.

11ª) Saberemos intuitivamente como lidar com situações que costumavam nos desconsertar.

12ª) Perceberemos de repente que Deus está fazendo por nós o que não conseguimos fazer sozinhos.

Serão estas promessas extravagantes? Achamos que não. Estão sendo cumpridas entre nós – às vezes depressa, outras devagar. Sempre se tornarão realidade, se trabalharmos para isto.
Certa vez ouvi uma história que exemplifica bem o que estou dizendo: “Um senhor, famoso religioso inglês, foi chamado à casa de uma senhora de idade que estava confinada à cama. A desnutrição estava acabando com ela. Durante sua visita, ele notou um documento emoldurado pendurando na parede. Perguntou à mulher: É seu? Ela disse que sim, e explicou que tinha trabalhado como doméstica no lar de uma família inglesa. “Antes de a Condessa Fulana morrer, explicou a mulher, ela me deu isto. Trabalhei para ela durante quase meio século. Tive tanto orgulho deste papel porque ela me deu. Mandei colocar numa moldura. Ficou pendurado na parede desde a morte dela, já faz 10 anos.”
O senhor perguntou: “A senhora me daria licença para levá-lo e mandar examiná-lo mais de perto?”
“Oh! Sim”, disse a mulher, que nunca aprendera a ler, “é só cuidar para que eu receba de volta”.
O senhor levou o documento às autoridades. Estas já o tinham procurado. Tratava-se de uma herança. A dama da nobreza inglesa legara à sua empregada uma casa e dinheiro.
Aquela mulher morava numa casinha de um só cômodo, feita de caixas de madeira, e estava morrendo de fome – mas tinha pendurado na parede um documento que a autorizava a receber todos cuidados e a morar numa casa excelente. O dinheiro estava acumulando juros. Pertencia a ela. O senhor ajudou-a a obtê-lo, mas o dinheiro não fez tanto bem a ela quanto poderia ter feito mais cedo.

Acho que isto é um exemplo daquilo que tem acontecido a boa parte dos Grupos de Alcoólicos Anônimos. Moramos numa casinha desmoronada – espiritualmente falando – enquanto deixamos no canto de alguma parede do grupo nossos Doze Passos, cheios de poeira e teias de aranha. Muitas vezes temos orgulho deles. Mas raramente nos damos ao trabalho de praticá-los e descobrir aquilo que, segundo eles dizem, ser uma dádiva que pertence a nós. Além das paredes, eles deveriam estar em nossas mentes, espíritos e corações, para que fossemos convertidos em instrumentos poderosos na transmissão da vontade divina. Cumprindo assim a única sugestão, ou melhor, missão delegada que é a de transmitir ao alcoólico que ainda sofre essa mensagem de salvação.

Ainda no Livro “Alcoólicos Anônimos”, também conhecido como “Livro Azul”, em seu Capítulo 5, “Como Funciona”, inicia-se com as seguintes palavras: “Raramente vimos alguém fracassar tendo seguido cuidadosamente nosso caminho”. Se a pessoa se entregar inteiramente a este programa, que é simples, e tiver a capacidade de ser honesta consigo mesma, terá grandes probabilidades de alcançar êxito.

“Aqui estão os passos que aceitamos, os quais são sugeridos como Programa de Recuperação”.

OS DOZE PASSOS DE A.A.

PRIMEIRO PASSO – “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – Que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”.
“O Primeiro Passo nos revelou um fato surpreendentemente paradoxal: descobrimos que éramos totalmente incapazes de nos livrar da obsessão pelo álcool até que admitíssemos nossa impotência diante dele”.

SEGUNDO PASSO – “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos a sanidade”.
“No Segundo Passo vimos que já não éramos capazes de, por nossos próprios meios, retornar à sanidade, e que algum Poder Superior teria que fazê-lo por nós, para que pudéssemos sobreviver”.

TERCEIRO PASSO – “Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de DEUS na forma em que o concebíamos”.
“Em conseqüência no Terceiro Passo, entregamos nossa vontade e nosso destino aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos. A título provisório, aqueles de nós que eram ateus ou agnósticos descobriram que o nosso grupo ou A.A. no todo, poderia atuar como poder superior”.

QUARTO PASSO – “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”.
“A partir do Quarto Passo, começamos a procurar dentro de nós as coisas que nos haviam levado à bancarrota física, moral e espiritual e fizemos um corajoso e profundo inventário moral”.

QUINTO PASSO – “Admitimos perante DEUS, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas”.
“Em face do Quinto Passo, decidimos que apenas fazer um inventário não seria suficiente; sabíamos que era necessário abandonar nosso funesto isolamento com nossos conflitos e, honestamente, confiá-los a Deus e a outro ser humano”.

SEXTO PASSO – “Prontificamos inteiramente a deixar que DEUS removesse todos esses defeitos de caráter”.
“No Sexto Passo, muitos dentre nós recuaram pela simples razão de que não desejavam a pronta remoção de alguns defeitos de caráter dos quais ainda gostavam muito. Sabíamos, porém, todos, da necessidade de nos ajustar ao princípio fundamental deste passo. Portanto, decidimos que, embora tivéssemos alguns defeitos de caráter que ainda não podíamos expulsar, devíamos de todos os modos abandonar nossa obstinada e revoltante dependência deles. Dissemos: “Talvez não possa fazer isso hoje mas, pelo menos, posso parar de protestar: não, nunca!”

SÉTIMO PASSO – “Humildemente rogamos a ELE que nos livrasse de nossas imperfeições”.
“Então no Sétimo Passo, rogamos humildemente a Deus que, de acordo com as condições reinantes no dia do pedido e se esta fosse a Sua vontade, nos libertasse de nossas imperfeições”.

OITAVO PASSO – “Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados”.
“No Oitavo Passo continuamos a limpeza de nosso interior, pois sabíamos que não só estávamos em conflito conosco, como também com pessoas e fatos do mundo em que vivíamos. Precisávamos começar a restabelecer relações amistosas e, para esse fim, relacionamos as pessoas que havíamos ofendidos, nos propusemos, com disposição, a remediar os males que praticamos”.

NONO PASSO – “Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo, significasse prejudicá-las ou a outrem”.
“Prosseguindo nesse desígnio no Nono Passo, reparamos diretamente junto às pessoas atingidas, os danos causados, salvo, quando disso resultassem prejuízos para elas ou outros”.

DÉCIMO PASSO – “Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados nós o admitíamos prontamente”.
“No Décimo Passo, havíamos iniciado o estabelecimento de uma base para a vida cotidiana, conhecendo claramente que seria necessário fazer de maneira contínua o inventário pessoal, admitindo prontamente os erros que fôssemos encontrando”.
DÉCIMO PRIMEIRO PASSO – “Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.
“No Décimo Primeiro Passo vimos que se um Poder Superior nos havia devolvido à sanidade e permitido que vivêssemos com relativa paz de espírito num mundo conturbado, valia a pena conhecê-lo melhor, através do contato mais direto possível. Ficamos sabendo que o uso persistente da oração e da meditação abriria, de fato, o canal para que, no lugar onde havia existido um fio de água, corresse um caudaloso rio que nos levava em direção ao indiscutível poder e à orientação segura de Deus, tal como estávamos podendo conhecê-lo, cada vez melhor”.

DÉCIMO SEGUNDO PASSO – “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”.

“Assim, praticando esses passos, experimentamos um despertar espiritual sobre o qual, afinal, não nos restava a menor dúvida”.

“… em breve amaria a Deus, e O chamaria pelo nome”.

“Até o último dos recém-chegados descobre recompensas nunca sonhadas quando procura ajudar seu irmão alcoólico”.

“… está à beira da descoberta de alegrias, experiências e mistérios jamais sonhados”.

“Livremente receberam e livremente dão…, eis o coração deste último passo”.
“Muitos de nós exclamamos: Que tarefa tão difícil! Não consigo fazer isto tudo. Não desanime. Nenhum de nós conseguiu seguir estes princípios de um modo perfeito. Não somos santos. O importante é estarmos dispostos a crescer espiritualmente. Os princípios que enunciamos são guias para progredir. Pretendemos o progresso espiritual e não a perfeição espiritual”.

Ressaltamos que “Os Doze Passos” são apenas sugestões. Por fim, a prática dos Doze Passos aliada a prática das Doze Tradições e dos Doze Conceitos torna-se a maneira de vida de A.A.

ACEITANDO A MANEIRA DE A.A.

“Seguimos os Passos e as Tradições de A.A. porque realmente os desejamos para nós. Não é mais uma questão de ser uma coisa boa ou ruim; aceitamos porque sinceramente desejamos aceitar. Esse é o processo de crescimento em unidade e serviço. Essa é a prova da graça e do amor de Deus entre nós”. (Alcoólicos Anônimos Atinge a Maioridade).

“É divertido observar o meu crescimento em A.A. Eu lutei contra aceitar os princípios de A.A. desde o momento em que ingressei, mas aprendi pela dor de minha beligerância que, escolhendo viver pela maneira de vida de A.A., eu me abria para a graça e o amor de Deus. Então comecei a conhecer o significado total de ser um membro de Alcoólicos Anônimos”. (Reflexões Diárias – Dia 27 de junho).

Nosso abraço fraterno e votos de Serenidade, Coragem e Sabedoria.

Mário S.

A Espiritualidade em A.A. e a Qualidade dos Relacionamentos

“Este estudo e questionamento são para fazermos conosco mesmos, ou com nossos amigos e ou companheiros, fora das atividades de A.A., pois este é dos assuntos altamente controversos”.

A espiritualidade é um estado da mente e da conduta, que tem origem na Divindade, e que responde a eterna pergunta: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? E qual é o propósito da vida? O indivíduo que é movido pelas leis Divinas obtém inspiração no seu interior, e a manifesta no seu modo de ver a finalidade do ter, e do modo reto e positivo de pensar e agir, transcendendo toda intelectualidade e propósito objetivo humano; ele subordina sua vida objetiva, suas ações, seus pensamentos e seus sentimentos a uma reta conduta, que advém do contato com a Consciência Subjetiva ou Superior. Esta inclinação de reta conduta tem origem na alma, psiquismo ou mente de todo o ser humano, e se manifesta diferentemente em cada um, correspondendo às diversas fazes do seu desenvolvimento espiritual.

Vindo a espiritualidade de um Poder Superior que habita em nós, sua origem é perfeita, e a obediência a esse sussurro Divino só pode resultar em boa conduta, felicidade e paz.

A manifestação da Divindade que está em nós, é expressa pela Consciência Subjetiva que através de voz silente nos diz: Não é por ai, ame, tenha compaixão, não faça isso, perdoe, ajude, esqueça, seja justo, firme, paciente, prudente, tolerante, humilde, complacente, etc., porém não seja bonzinho e permissivo só para agradar, ser prestigiado e bem quisto. Ser amoroso é também ser firme verdadeiro e respeitoso, mesmo que isso desagrade a alguém. Esta manifestação da alma, psiquismo ou mente, entretanto pode ser abafada pelos nossos defeitos de caráter, quando não permitimos que ela se expresse, e ai podemos ser rudes e cruéis com os outros e até conosco.

A espiritualidade deve expressar-se objetivamente em boa conduta, palavras e pensamentos elevados. O individuo que não expressa essas atitudes de amor, compaixão, bondade e tolerância, não permitiu ainda que as motivações Divinas nele se manifestassem, mesmo que estas inspirações para estes sentimentos estejam latentes nele, pois toda alma é perfeita, e nele também há uma alma. Muitas vezes é preciso a ação amorosa Divina da chegada da dor, para que o indivíduo aceite o chamado para a trilha, senda ou caminho Sagrado da Espiritualidade. Outro aspecto espiritual é expresso em código moral, tendo por base crenças específicas com princípios a serem praticados e tem origem em tradições sagradas, o que ocorre com diversas religiões, e que podem trazer contradições entre as regras impostas por estas, e a Consciência Subjetiva dos indivíduos adquirida em seu contato Consciente com Deus, sugerido no nosso Décimo Primeiro Passo. A.A.
nos lembra no Segundo Passo, que concebamos um Deus a nosso modo e nos relacionemos com Ele, conforme nossa compreensão.

O indivíduo pode praticar todas as virtudes de motivação interior que vem da Divindade junto com outros membros de uma instituição ou comunidade qualquer, sem praticar nenhuma religião como tal definida, o que não deixa de se confundir com religiosidade genuína, quando segue as verdadeiras motivações interiores espirituais.

Religião com o sentido de crença, ritual e prática é a exteriorização e expressão com que os indivíduos satisfazem seus impulsos básicos de seguir uma vida relacionada com a Divindade; mas em si só, essas práticas exteriores não expressam vida reta, nem espiritualidade genuína.

O Verdadeiro espírito religioso, sem base em ritualismo formal e a espiritualidade são sinônimos, este estado existencial, inclui nas ações do individuo o amor e conseqüentemente o bem alheio ou a compaixão, bem como todas as virtudes já citadas aqui anteriormente, e a reverência a um Poder Superior ou ao Deus de cada um.

Tratamos aqui de religiosidade, não porque A.A. trate disso, mas para lembrar que todos nós sofremos influências religiosas, filosóficas e culturais de nossa origem e vivências ambientais, e que raramente questionamos ou verificamos a sua veracidade, e que em muitos casos essas influências conflitam com a espiritualidade ou a verdadeira religiosidade de muitos de nós, e isto consta nas Tradições, em seu desenvolvimento.

Falsa espiritualidade religiosa baseada em ritualismo formal é aquela praticada só objetivamente ou só com ações exteriores, cerimônias, ritos, etc., sem resposta emocional e compreensão, não levando às motivações que geram a prática do amor e da reta conduta.

Aquilo que creio e procedo objetivamente, deve sintonizar com o meu sentimento interior, com a voz silente de minha Consciência Subjetiva ou do Deus do meu entendimento, pois sem que isto ocorra, nada representa.

Existem milhões de indivíduos que não encontraram em entidade nenhuma, satisfação interior que condiga com seus sentimentos, e por isso A.A. nos deixa livre para formularmos a imagem de uma Divindade, e através dos exercícios dos Doze Passos termos contato consciente com o Deus da compreensão de cada um de nós, e nos permite com isso chegar ao entendimento das leis da Vida, conseguindo assim o bem viver e a paz, ajudando e permitindo que outros atinjam também esse objetivo a seu modo.

Mesmo não sendo religiosos formalmente, muitos indivíduos podem ser tão sensatos espiritualmente e levar uma vida tão reta que se iguale ou supere até, a qualquer fiel e espiritualizado seguidor de uma igreja.

Os Relacionamentos:

Só obtém bons relacionamentos em qualquer área de sua vida, aquele indivíduo que após praticar em um bom nível, tudo aquilo que A.A. nos sugere e que tem origem na manifestação da espiritualidade conseguida com a prática dos Doze Passos e que culmina com o exercício da meditação e da oração prevista no Décimo Primeiro Passo.

É neste passo, praticado de modo permanente, junto com os demais, que entramos em sintonia com a Consciência Superior, ou com o Deus do nosso entendimento, e é ai que sentimos Sua inspiração e sabedoria, quando na sua prática entendemos que fazemos parte do todo como nos diz Bill W, e é nele que entendemos que estamos ligados ao todo e, portanto a todos, e compreendemos então que quando atingimos mesmo só indelicadamente a qualquer ser irmão desse Universo Divino, ferimos a nós mesmos, e nesse estado nos fica fácil frearmos nossos egos e interesses próprios pessoais, e vermos os outros irmãos como parte de nós mesmos, passando aí a tratá-los com amor e compaixão. Isto é o resultado de um despertar espiritual, e é fundamental para termos bons e sadios relacionamentos e para termos uma vida cheia de amor e paz. O outro e eu somos um, ou parte do todo, não sou dono nem superior, não sou propriedade nem inferior a ninguém, integro o
Universo com todos os demais seres, procurando assim respeitar, tolerar, compreender, perdoar, amar, dentro de meus limites, mas sempre ampliando esses limites.

Quando amamos ao outro, com a compreensão de que ele é parte de nós mesmos nesse Universo Divino, o bom relacionamento se faz de modo autômato em nossas vidas como algo desejado e agradável, e não como algo a ser feito por dever e com sacrifício, pois é isto que nos leva à paz como disse o Dr. Bob, mesmo que tudo a nossa volta pareça uma tempestade; ai meus irmãos e irmãs de doença, nossas relações com os outros serão sempre harmoniosas, em qualquer campo de nossas vidas, pois todos, mesmo as almas mais rudes, não terão coragem de enfrentar esse amor, essa serenidade, essa tolerância, essa boa vontade e essa paz, com agressividade. Isto como diz nosso Décimo Segundo Passo, também é aplicável a todos os momentos e tipos de relacionamentos de nossas vidas.

Que o Deus do coração de cada um de nós nos dê a luz para atingirmos este estado de espírito de amor, serenidade, paz e fraternidade incondicional que só Ele pode nos dar, e ai irmãos e irmãs de doença e do Universo, nossos relacionamentos serão perfeitos

Fonte:[AABR] Espiritualidade e Relacionamentos

A maior dádiva de todas

SAULO F.

Quando este tema me foi sugerido para ser apresentado no “VI Encontro com Veteranos” do Grupo Cachoeira da Paz, em Cachoeira do Campo, Ouro Preto/ MG, temi pelo êxito deste assunto, pois ele abria oportunidade para um juízo de valor, o que o tornava bastante subjetivo. Apelei para o companheiro que dirigia o encontro, mas, naquele momento, ele não podia resolver minha dúvida. Só tempos mais tarde, ele me informaria que a idéia havia sido desenvolvida no livro “A linguagem do coração”. Mas nesse entremeio de tempo, numa reunião informal de AA, já havia sugerido, numa espécie de balão de ensaio, a pergunta: qual é a maior dádiva de todas? As respostas, como era de se esperar, foram as mais variadas possíveis. Todas apropriadas, diga-se a bem da verdade, mas com uma peculiaridade que não me agradava. Ou seja, para o objetivo que tinha em mente, para cumprir a missão que me fora destinada, senti-as incompletas. Continuei pensando sobre o assunto, e uma luz brilhou. Quem sabe, especulei comigo mesmo, a maior dádiva não seria também um grande sacrifício? Então me veio à mente a abstinência alcoólica, porém, afastei-a logo de imediato, por ser óbvia e exclusivamente do nosso meio. Por este fato, em nada estaria acrescentando, apenas ruminando uma idéia que todos sabemos, especialmente em um encontro de e com veteranos. O tempo passava e temas e mais temas continuaram desfilando em minha tela mental, cada um há seu tempo, tentando se impor como o preferido. Mas, repentinamente, por uma dissociação de ideias, ou melhor, por uma associação de idéias ao avesso, uma frase pulou na minha frente sem a menor cerimônia.
Vou explicar: creio ter sido eu quem, na Grande Belo Horizonte, pela primeira vez, apresentou, digamos assim, esta mal-bendita frase aos companheiros. O certo é que não me recordo de tê-la ouvido antes em salas de AA. Nada de especial nisto. O problema é que algo nela me chamou a atenção. Com ela, me debati muitas vezes. Impossível ignorá-la. Ainda que se discordasse dela, teríamos que dizer, como os italianos, que poderia não ser verdadeira, mas era bem bolada! A partir daquele momento em que lhe dei à luz, em nosso meio, tal como uma criatura estranha, ela ganhou vida própria e passei a presenciá-la ser dita e redita inúmeras vezes. Era de fato poderosa na sua expressividade! Mas que frase seria essa que veio como intrometida em meu universo mental, num momento em que apenas esperava por atinar com uma resposta para o tema deste trabalho? E o que era ainda mais surpreendente, é que ela mais serviria, no caso, como anticlímax, do que como protagonista de um elenco de bênçãos, dentre as quais eu deveria escolher uma. Sendo assim para que eu a adotasse como parte de meu trabalho, teria de contraditá-la depressa, pois apenas serviria como contraponto, nunca como uma solução afirmativa. Ao lado desta dificuldade, outra também havia, qual seja a de que eu deveria me revestir de uma razoável ousadia para discordar do filósofo, pai da idéia. E olha que, além de ter sido um dos fundadores da escola filosófica, a que passou a pertencer, foi indicado com mérito na sua carreira de escritor para o cobiçado prêmio Nobel de literatura!
Contudo, antes de revelar o conteúdo da frase que tanto incômodo me causou, vamos dar um passeio, ainda que ligeiro, pelos Passos de AA, com especial ênfase no texto do Passo Seis: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”. (Entre parênteses, para lembrar que o título do nosso trabalho é: “A maior dádiva de todas” e, apenas aparentemente, estamos fugindo deste encargo).
De todos os passos, o Sexto é o que mais ambigüidade revela. Ambiguidade no sentido de estar em cima do muro, e, esta visão longe está de ser pejorativa.
Uma outra pausa, e voltemos no tempo, para nos lembrarmos dos chamados Grupos de Oxford e de seus famosos Absolutos. Honestidade absoluta, Verdade Absoluta, e assim por diante. Nesta visão pretérita do que foi o berço do AA, recordemo-nos de que houve, naqueles tempos idos, um afastamento recíproco, de parte a parte, entre os líderes do movimento Oxfordiano e os bêbados que lá chegavam, naquele reduto evangélico. Os bêbados, porque não se sujeitavam as regras rígidas dos chamados Absolutos, e os lideres do movimento Oxfordiano, porque conosco se desencantaram, uma vez que sempre voltávamos a beber. Isto não significa que um lado ou outro estava errado, ou ainda que ambos os lados estivessem equivocados. Na verdade, os dois tinham sua parcela de razão. Ambos estavam corretos, mas em momentos diferentes. Os bêbados, porque precisavam primeiramente da linguagem do coração, esta poderosa estratégia de confrontação, irrespondível para os bebedores-problema, que ainda teimam em defender a bebida em suas vidas. Para que pudessem deter a marcha do alcoolismo, a rendição era e continuaria a ser imprescindível. Careciam ainda da informação médica que estava por vir, na sua forma atual, já que, àquela época, o alcoolismo era classificado entre as doenças mentais, e, pelo grande público, éramos considerados um bando de marginais e de desavergonhados. Os dois grupos, como se vê, não se encontraram no tempo. Quanto aos preceitos, ditos Absolutos, só mais tarde, talvez, tivéssemos condições de nos deliciarmos com eles, sem risco de indigestão.
Pois bem, a meu ver, o sexto passo é uma tentativa de, na prática, acomodar esses interesses aparentemente conflitantes: o saudosismo dos Oxfordianos, que, a meu ver, cada membro de AA deveria sentir, e a espiritualidade popular, por nós adotada, que promete muito e realiza pouco. Eu próprio brinco de melhorar já faz muito tempo.
Reparem nisto: quando o Passo sugere “prontificamo-nos inteiramente” (grife-se o inteiramente) “a deixar que Deus removesse todos esses defeitos” (grife-se também o todos), ele é Oxfordiano na sua natureza. Também quando ele afirma que “este é o passo que separa os adultos dos adolescentes” (e devemos entender esta maturidade subjacente à figura dos adultos, não só como de caráter emocional, mas igualmente espiritual), a sua índole Oxfordiana manifesta-se incontestável. E, um terceiro exemplo, no meio de outros tantos: nunca devo dizer, ensina o Passo, que a tal ou qual defeito “jamais renunciarei”. Aqui, mais uma vez, se revela, indisfarçável, o seu vezo Oxfordiano.
Mas, indo e voltando, para ver o outro lado da questão, quando o sexto passo concede que na prática do viver diário, a remoção dos defeitos oferece dificuldades, neste momento está prestando uma homenagem aos desertores de ontem e de hoje, fujões eternos da prática dos Absolutos. Ora, aprendendo com os caçadores (certamente foram eles que inventaram o ditado), “devemos fugir é da onça, não do rastro da onça”. Esse pessimismo, ou seria um tipo de acovardamento, não é senão ele quem tem moldado pensamentos, como aquele que prometemos revelar, daqui a pouco, apesar de ter sido expressado por um gênio.
Introduzamos ainda, para maior clareza, o que se sugere: na tarefa, da assim chamada reformulação, temos, como diz o Sexto Passo, a tendência para fugir dos engarrafamentos psicológicos, das tarefas que oferecem maior dificuldade. Contentamo-nos em fugir pelas tangentes, em comer pelas beiradas do prato, escapulindo das questões dolorosas. No entanto, atenção agora, por favor, pois, como diziam os antigos, é “aqui que a porca torce o rabo”. É nesta encruzilhada, fabricada por nós, desenhada pelo medo, que se situa a real compreensão do problema. A tal da felicidade, a bendita paz de espírito, a tão convocada serenidade da nossa prece, em reuniões e fora delas, só aparece quando diante desses pontos de estrangulamento, passamos a enfrentá-los corajosamente. Como receita, se me permitem receitar não sendo médico, nem honorável filósofo, é largar de mão a desconfiança e acreditarmos que o resultado da superação do defeito de caráter, da imperfeição, do pecado – seja lá que nome se queira dar a essas mazelas – é melhor que a satisfação mórbida do defeito tido como insuperável. É mais ou menos como o prazer que dá a coceira do bicho-de-pé. Contudo, não ignoramos o fato que um pé sadio, afinal, é melhor do que um pé doente. No campo espiritual, essa distinção vem embaçada pela neblina do EGO. Não é tão simples de enxergar, como no exemplo do bicho-de-pé. Mas quem quer ser tolo? Ninguém, não é mesmo? Chegaremos lá! Temos que ultrapassar nossos limites, sempre e sempre. Aí então, Deus que é luz toma conta do cenário. Invade nossa alma e nos enche de beatitudes. Detalhe, que tem passado despercebido frequentemente (tradutor, traidor – ainda os italianos) é o fato de que a frase original, adotada pela Irmandade, não é, de forma alguma, o, à la brasileira,“não sou santo, nem candidato a santo”, mas sim “não queira ser santo tão depressa”.
Após essa peregrinação, que se fez necessária pelos Passos de AA, tratemos de nos aproximar com mais velocidade da solução pessoal dada por este companheiro ao que poderíamos objetivar como se fosse uma pergunta que está implícita ao tema.
Em sua opinião, Saulo, afinal, qual é a maior dádiva de todas? Os companheiros, naturalmente, se lembram de que, para respondê-la, iríamos contrariar frontalmente o pensamento de abalizado filósofo. Rapidamente, por questão de honestidade e justiça, devemos informar que o contexto em que o ilustre francês cunhou tal frase, ele tinha seu cabimento. Fazia sentido lá, quando e onde foi escrita, e o raciocínio do autor era coerente com o drama que sua imaginação desenvolveu. Licença poética. Coisa de artista. A frase está contida numa peça de teatro intitulada “Entre quatro paredes”. No original “Huis Clos”. Mas, apesar dessas considerações, não vou me acovardar agora no final. Espiritualmente ela não serve. Está completamente errada e, por um raciocínio invertido, é a solução da pergunta – tarefa. Não se surpreendam, mas lembram-se qual é ela? Claro! Não? Depois de tanto a repetirmos?
Portanto, agora, depois que justificamos o ilustre filósofo, a quem, em assim fazendo, acabamos por prestar-lhe a nossa devida e respeitosa homenagem, denunciemo-lo, ainda que amistosamente. Cuidamos de uma afirmação que nos veio do filósofo existencialista Jean Paul Sartre e já falecido, que defende o ponto de vista que “L’enfer sont les autres.“ “O inferno são os outros”. Êta desculpa boa, “sô”! O inferno são os outros. Será que é necessária explicação? Vá lá! Entre outras coisas, esta frase quer dizer que tudo que me acontece, por culpa dos outros aconteceu. Ou ainda, que não devo interagir com os semelhantes, pois todos não passam de empecilhos a minha volta, de paredões a impedir a minha livre caminhada. Pensando bem, diante de tamanho absurdo, só posso ser mais generoso ainda com o inteligente Sartre, admitindo que tenha se expressado de forma irônica, debochada!
Declaro neste momento, amigo Sartre, que vou reescrever sua frase, que fica assim: Os outros não são nosso inferno, mas sim a grande oportunidade que Deus nos dá, visando o aperfeiçoamento espiritual do “homo sapiens”. Ou seja, numa frase mais enxuta:
– Chegamos ao céu através dos outros -
Viram no que deu? Voltamos aos idos da década de 30. Aos Oxfordianos. Não me resta alternativa senão, diante das atuais circunstâncias, agradecer a eles, a quem, um dia, no passado, eu despreze. Relevem nossa falha, meus irmãozinhos do grupo Oxford! É claro, é verdadeiro que somente o amor absoluto, que naquela época tentaram me ensinar, é que fornece o passaporte para a felicidade. A literatura de AA usa a expressão “pedra de toque”, para explicar situação parecida com esta. Quando me torno capaz de pagar o mal que porventura me fazem com a moeda tilintante do bem, o sorriso de Deus me contagia e abençoa minha alma aflita. Vejo, igualmente, que, se na época do meu alcoolismo, a única e terrível saída era abandonar a bebida, agora no campo espiritual tenho que, a todo custo, viver o amor em todos os níveis. No pensamento, no coração e na ação. Não dá para interromper o programa. “Não dá para quebrar a ficha”! Em termos radicais, posso dizer que aqui está o ponto de estrangulamento de todo e qualquer ser humano, o maior engarrafamento emocional de cada um de nós. Tal como no exemplo do bicho-de -pé, há que se valorizar é o pé sadio. Apesar de ser esquisitamente agradável odiar quem nos odeia, ter má vontade com aqueles a quem invejamos, guardar rancor de quem nos prejudica, temos que superar essa tolice. É como no salto de obstáculo. Quando estivermos do lado de lá, saberemos que a satisfação pela vitória é definitivamente maior e gratificante do que as dificuldades ultrapassadas, transcendidas. Há que se acreditar que o amor ao próximo, especialmente para com aqueles a quem é difícil amar, traz-nos uma recompensa quase inimaginável. Esta regra de ouro é condição sem a qual nada feito. Se saltarmos esta lição, ainda que pratiquemos coisas extraordinárias para nosso aprimoramento, estaremos nos enganando. Conclusão, para este companheiro, que a vós se dirige nesta cachoeira de paz, a maior dádiva de todas não é ser inteligente, ser amado, ou ser o número um. A maior dádiva de todas é a possibilidade que Deus nos dá de amarmos o próximo incondicionalmente, sem nenhuma exigência, ou interesse. Apenas amar.
Pode ajudar muito se entendermos a natureza da má-vontade para com os outros, se compreendemos que de alguma forma, estamos condicionados a ela. Nossa reação de desagrado, de antipatia, de desforço psicológico foi aprendida e vem sendo reforçada constantemente. Passemos a quebrar os hábitos antigos de antipatizarmo-nos com pessoas e circunstâncias. Para evitar situações que tais, siga seus movimentos emocionais, sem perdê-los de vista. Descarte aqueles que não são generosos e substitua-os gradativamente, mas com rigor, até que um tempo chegará em que valores mais criativos, revestidos de bondade, tornarão nosso ambiente mental harmonioso e altruísta. É mais ou menos por aí, que começamos, de certa forma, a ser senhores de nosso destino.

TOLERÂNCIA
“NA OPINIÃO DO BILL”

Os perturbadores podem ser nossos professores

Hoje em dia poucos de nós tememos que algum recém-chegado possa prejudicar nossa reputação ou eficácia. O s que recaem, que achacam, que escandalizam, que sofrem de distúrbios mentais, que se rebelam contra o programa, que fazem comércio com a reputação de A. A., raramente conseguem prejudicar um grupo de A. A. por muito tempo. Algumas dessas pessoas acabam por tornar-se nossos mais respeitados e queridos companheiros. Outros permanecem para testar nossa paciência, apesar de sóbrios. Outros ainda vão embora. Começamos a considerar os perturbadores não como ameaças, mas como nossos professores. Eles nos obrigam a cultivar a paciência, a tolerância e a humildade. Finalmente compreendemos que eles são apenas pessoas mais doentes do que as demais, e que nós que os condenamos somos os fariseus cuja falsa virtude causa ao grupo um prejuízo espiritual mais profundo.
(Na Opinião do Bill – página: 28)

Regras para ser membro?

Por volta de 1943 ou 1944, o Escritório Central pediu aos grupos para que fizéssemos uma lista das regras para ser membro e a enviássemos ao escritório. Quando as listas chegaram, anotamos as regras. Um pouco da reflexão sobre essas muitas regras nos levou a uma conclusão surpreendente.
Se todas essas regras entrassem em vigor, em todos os lugares, imediatamente, teria sido praticamente impossível qualquer alcoólico ter se juntado a A. A. Cerca de noventa por cento de nossos mais antigos e melhores membros nunca poderiam ter ingressado!
Finalmente a experiência nos ensinou que privar o alcoólico de tão grande chance, às vezes era o mesmo que declarar sua sentença de morte e, muitas vezes, condená-lo a uma miséria sem fim. Quem ousaria ser juiz, júri e carrasco de seu próprio irmão doente?
(Na Opinião do Bill – página 41)

Uma porta giratória diferente

Quando um bêbado se aproxima de nós e diz que não gosta dos princípios de A. A., das pessoas ou da direção do serviço, quando ele declara que estará melhor em qualquer outro lugar – não nos incomodamos. Dizemos simplesmente: “Talvez seu caso seja diferente. Por que você não tenta outra coisa?”
Quando um membro de A. A. diz que não gosta de seu próprio grupo, não ficamos perturbados. Dizemos simplesmente: “Por que você não tenta mudar para outro grupo? Ou comece um novo grupo por sua conta.”
Para todos os que desejam se separar de A. A., fazemos um convite animador paara que assim o façam. Se eles conseguirem fazer melhor por outros meios, estaremos contentes. Se, depois de fazer a tentativa, não conseguirem melhores resultados, sabemos que eles têm uma escolha a fazer: ficar loucos, morrer ou voltar para Alcoólicos Anônimos. A decisão é toda deles (na verdade, quase todos eles têm voltado).
(Na Opinião do Bill – página: 62)
Ser justo

Acho que, com freqüência demasiada, desaprovamos e até ridicularizamos os projetos de nossos amigos no campo do alcoolismo, só porque nem sempre estamos inteiramente de acordo com eles.
Deveríamos seriamente nos perguntar quantos alcoólicos estão continuando a beber só porque não temos cooperado de bom grado com essas inúmeras organizações – sejam elas boas, más ou indiferentes. Nenhum alcoólico deveria ficar louco ou morrer só porque não foi diretamente para A. A. no começo.
Nosso primeiro objetivo será o desenvolvimento da autodisciplina. Este ponto é da mais alta importância. Quando falamos ou agimos precipitada ou imprudentemente, a capacidade de ser justos e tolerantes se evapora imediatamente.
(Na Opinião do Bill – página: 113)

De viva voz

“Em minha opinião não pode haver a menor objeção aos grupos que querem permanecer estritamente anônimos ou a pessoas que não gostariam que todos soubessem de sua filiação no A. A. Esse é um problema deles, e essa é uma reação muito natural.
“Entretanto, muitas pessoas acham que o anonimato a esse ponto não é necessário, nem mesmo desejável. Desde que a pessoa esteja sóbria, e segura disto, não parece haver razão para não falar a respeito da afiliação a A. A. nos lugares certos. Isso tende a trazer novas pessoas. Falar de viva voz é um de nossos mais importantes meios de comunicação.
“Assim sendo, não deveríamos criticar as pessoas que querem permanecer no silêncio, e nem aquelas que querem falar demais sobre pertencer a A. A., desde que não o façam em nível público, comprometendo assim toda nossa Sociedade.”
(Na Opinião do Bill – página: 120)

Os direitos individuais

Acreditamos que não haja outra irmandade no mundo que dispense mais atenção a seu membro, individualmente; e certamente não existe nenhuma que ofenda tanto o direito individual de pensar, falar e agir livremente. Nenhum AA pode obrigar outro a fazer o que quer que seja; ninguém pode ser punido ou expulso.
Nossos Doze Passos para a recuperação são sugestões; as Doze Tradições, que asseguram a unidade de A. A., não contêm um só “Não Faça”. Elas repetidamente dizem: “Deveríamos”, mas nunca “Você tem que!”
“Embora seja uma tradição o fato de que nossa Irmandade não pode forçar ninguém, não suponhamos nem por um instante que não estamos sob coerção. Na verdade, estamos sob uma enorme coerção – do tipo que vem engarrafado. Nosso antigo tirano, o Rei álcool está sempre pronto a nos agarrar.
“Portanto, a libertação do álcool é o grande “temos que” que precisa ser alcançado, caso contrário, chegaremos à loucura ou à morte”.
(Na Opinião do Bill – página: 134)

Assumir a responsabilidade

Aprender a viver na maior paz, companheirismo e fraternidade com todos os homens e mulheres, sem distinções, é uma aventura comovente e fascinante.
Porém, todo AA acabou descobrindo que pouco pode progredir nessa nova aventura de viver, sem antes voltar atrás e realmente fazer um exame preciso e profundo dos destroços humanos que porventura tenha deixado em seu passado.
A disposição de arcar com todas as conseqüências de nossos atos passados e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade pelo bem-estar dos outros constitui o próprio espírito do Nono Passo.
(Na Opinião do Bill – página: 145)

A.A. – a estrela-guia

Podemos ser gratos a toda organização ou método que tende solucionar o problema do alcoolismo – seja a medicina, religião, educação ou pesquisa. Podemos ter a mente aberta a respeito desses esforços e podemos ser compreensivos quando os imprudentes falham. Não podemos esquecer que mesmo A. A. funcionou durante anos na base do “ensaio e erro”.
Enquanto indivíduos podemos e deveríamos trabalhar com quem promete sucesso – ainda que seja um pequeno sucesso.
Todos os pioneiros no campo do alcoolismo dirão, generosamente, que se não fosse pela prova viva da recuperação em A. A., eles não poderiam ter prosseguido. A. A. foi a estrela-guia da esperança e da ajuda que os fez persistir.
(Na Opinião do Bill – pagina: 147)

Começar perdoando

No momento em que examinamos algum relacionamento deteriorado ou destruído, nossas emoções se colocam na defensiva. Para não ter de encarar as ofensas que fizemos a outra pessoa, fixamos ressentidamente nossa atenção nas ofensas que ele nos fez. Triunfalmente nos valemos de seus menores erros como desculpa perfeita para minimizar ou esquecer os nossos.
A essa altura precisamos imediatamente parar. Não esqueçamos que os alcoólicos não são os únicos a ser atormentados por emoções doentias. Em muitos casos estamos na realidade lidando com companheiros sofredores, pessoas que tiveram suas desgraças aumentadas por nós.
Se agora estamos a ponto de pedir perdão para nós, por que não poderíamos começar perdoando-os todos?
(Na Opinião do Bill – página: 151)

Aspectos da tolerância

Todo tipo de pessoas tem encontrado seu caminho em A. A. Não faz muito tempo, estive conversando em meu escritório com uma companheira que é Condessa. Nessa mesma noite fui a uma reunião de A. A. Era inverno e na porta de entrada estava um cavalheiro de baixa estatura que gentilmente guardava nossos casacos. Perguntei: “Quem é aquele?” E alguém respondeu: “Ah! Ele esta aqui há muito tempo. Todo mundo gosta dele. Ele pertence ao bando ao Al Capone”. Isso mostra o quanto a. A., hoje, é universal.
Não temos o desejo de convencer ninguém de que só existe um meio pelo qual a fé pode ser adquirida. Todos nós, sem distinção de raça, credo ou cor, somos filhos de um Criador vivo, com que podemos estabelecer um relacionamento em termos simples e compreensíveis, tão logo estejamos dispostos e sejamos honestos o suficiente para tentar.
(Na Opinião do Bill – página: 175)

Ó único requisito”

Na Terceira Tradição, A. A. está na verdade dizendo a todo bebedor-problema: “Você será um membro de A. A. se assim o disser. Você mesmo pode declarar que faz parte da Irmandade, ninguém pode deixá-lo de fora. Seja você quem for, seja qual for o ponto a que você tenha chegado, sejam quais forem suas complicações emocionais – mesmo seus crimes – não queremos deixá-lo de fora. Queremos apenas ter a certeza de que você terá a mesma oportunidade de alcançar a sobriedade que nós tivemos.”
Não queremos negar a ninguém a oportunidade de se recuperar do alcoolismo. Queremos incluir o maior número possível de pessoas, jamais excluir.
(Na Opinião do Bill – página: 186)

A verdadeira tolerância

Aos poucos começamos a ser capazes de aceitar os erros dos outros, assim como suas virtudes. Inventamos a poderosa e significativa frase: “Vamos amar sempre o que há de melhor nos outros – e nunca temer o que tenham de pior.”
Finalmente começamos a perceber que todas as pessoas, inclusive nós, estão de alguma forma emocionalmente doentes e muitas vezes erradas. Quando isso acontece, nos aproximamos da verdadeira Tolerância e percebemos o que significa de fato o verdadeiro amor ao próximo.
(Na Opinião do Bill – página: 203)

Testes construtivos

Existem aqueles em A. A., a quem gostamos de chamar de nossos críticos “destrutivos”. Conduzem pela força, são “politiqueiros”, fazem acusações para atingir seus alvos. Tudo pelo bem de A. A., naturalmente! Mas aprendemos que esses sujeitos não são tão destrutivos assim.
Deveríamos ouvir cuidadosamente o que eles dizem. Às vezes eles estão dizendo toda a verdade; outras vezes apenas parte da verdade. Se estivermos ao seu alcance, toda a verdade, parte da verdade ou a falta da verdade podem ser igualmente desagradáveis para nós. Se eles estiverem dizendo toda a verdade ou ainda apenas parte da verdade, então será melhor agradecer-lhes e fazer nosso próprio inventário, admitindo que estávamos errados. Se estiverem dizendo coisas absurdas, podemos ignorá-las ou então tentar persuadi-los. Caso isto falhe, poderemos lamentar que estejam doentes demais para ouvir e poderemos tentar esquecer o assunto.
Há poucos meios melhores de auto-análise e desenvolvimento da paciência do que o teste a que nos submetem esses membros bem intencionados, porém equivocados.
(Na Opinião do Bill – página: 215)

Amar todo mundo?

Poucas pessoas podem afirmar que amam com sinceridade todo mundo. A maioria de nós tem que admitir ter amado apenas alguns semelhantes; ter sido indiferente a muitos, e ter nutrido antipatia e até mesmo ódios a muitos outros.
Nós, Aas, descobrimos que precisamos de algo muito melhor a fim de manter nosso equilíbrio. A idéia de que podemos amar possivelmente algumas pessoas, ignorar muitas, e continuar a temer ou odiar quem quer que seja tem que ser abandonada, mesmo que seja aos poucos.
Podemos procurar não fazer exigências descabidas àqueles que amamos. Podemos demonstrar bondade onde não havíamos demonstrado. E, com aqueles com quem não simpatizamos, podemos pelo menos começar a prática da justiça e cortesia, talvez nos esforçando para compreendê-los e ajudá-los.
(Na Opinião do Bill – página: 230)

Prisioneiros libertados

Carta a um grupo numa prisão:
“Todo AA foi, num certo sentido, um prisioneiro. Cada um de nós se fechou à margem da sociedade; cada um de nós conheceu o estigma social. Para vocês, tudo tem sido ainda mais difícil: no seu caso, também a sociedade construiu uma muralha a seu redor. Mas não existe realmente uma diferença essencial; esse é um fato que praticamente todos os Aas, agora sabem.
“Portanto, quando vocês, membros, ingressarem no mundo de A. A. fora da prisão, podem ter a certeza de que ninguém vai se preocupar com o fato de que vocês cumpriram pena. O que vocês estão tentando ser, e não o que foram, é tudo o que nos importa.”
“Às vezes, as dificuldades mentais e emocionais são muito difíceis de suportar quando estamos tentando manter a sobriedade. Contudo, com o passar do tempo, percebemos que superar esses problemas constitui o verdadeiro teste do modo de vida de A. A. A adversidade nos dá mais oportunidade de crescer do que a comodidade ou o sucesso.”
(Na Opinião do Bill – página: 234)

Os outros

“Assim como você, muitas vezes eu me considerei vítima do que outras pessoas disseram ou fizeram. Mas todas as vezes que eu acusei os pecados dessas pessoas, principalmente daquelas cujos pecados eram diferentes dos meus, descobri que só ajudei a piorar as coisas. Meu próprio ressentimento e minha auto piedade muitas vezes me tornaram praticamente inútil para qualquer um.
“Assim sendo, agora, se alguém fala mal de mim, primeiro pergunto a mim mesmo se há alguma verdade no que foi dito. Se não há nenhuma, procuro me lembrar de que também tive períodos em que falava amargamente dos outros; que o falatório maligno é apenas um sintoma da permanência de nossa doença emocional, e conseqüentemente, que nunca devo ficar com raiva devido às injustiças de uma pessoa doente.
“Sob condições muito difíceis, muitas e muitas vezes tive que perdoar outras pessoas e a mim mesmo. Você recentemente tentou fazer isso?”
(Na Opinião do Bill – página: 268)

Superando ressentimentos

Começamos a ver que o mundo e as pessoas realmente tinham nos dominado. Sob essa infeliz condição, as más ações dos outros, imaginários ou reais, tinham força até para destruir, porque pelo ressentimento poderíamos ser levados de volta à bebida. Vimos que esses ressentimentos devem ser superados, mas como? Não bastava só desejá-lo.
Esse foi nosso procedimento: percebemos que as pessoas que nos maltrataram talvez estivessem espiritualmente doentes. Então, pedimos a Deus que nos ajudasse a lhes mostrar a mesma tolerância, piedade e paciência que, com satisfação, teríamos para com um amigo doente.
Hoje, evitamos a vingança e a discussão. Não podemos tratar as pessoas doentes dessa maneira. Se o fizermos, destruiremos nossa chance de ser úteis. Não podemos ser úteis a todas as pessoas, mas pelo menos Deus nos mostrará como ser bons e tolerantes para com todos.
(Na Opinião do Bill – página: 286)

A tolerância nos mantém sóbrios

“A honestidade para com nós mesmos e para com os outros nos leva à sobriedade, mas é a tolerância que nos mantém sóbrios.
“A experiência nos mostra que poucos alcoólicos vão se afastar por muito tempo de um grupo só porque não gostam do modo como ele funciona. A maioria volta a se adaptar às condições existentes. Alguns vão para outro grupo ou formam um grupo novo.
“Em outras palavras, uma vez que o alcoólico chega à conclusão de que não pode ficar bem sozinho, ele de alguma forma vai descobrir uma maneira de ficar bem e continuar bem na companhia dos outros. Tem sido assim desde o início de A. A. e provavelmente sempre o será.”
(Na Opinião do Bill – página 312)

Crítica bem-vida

“Muito obrigado por sua carta de crítica. Estou certo de que, se não fosse por suas críticas violentas, A. A. teria progredido mais lentamente.
“Quanto a mim, cheguei ao ponto de dar grande valor às pessoas que me criticam, fossem críticas justas ou injustas. Tanto uma como outra, muitas vezes me impediram de fazer coisas piores do que realmente tenho feito. Espero que as críticas injustas tenham me ensinado a ter um pouco de paciência. Mas as justas têm sempre prestado um grande serviço a todos os membros de A. A. – e têm me ensinado muitas lições valiosas.”.

CAMINHO – ESTRADA – ATALHO – TRILHO – PASSAGEM

CAMINHO – ESTRADA – ATALHO TRILHO – PASSAGEM

Uma aula de espiritualidade
Foi como se eu tivesse realmente “pronto” – no quarto ano de A.A. – para ler o texto do filósofo norte-americano William James, considerado o “pai da moderna psicologia”. Li Variedades da Experiência Religiosa como quem estuda: com cuidadosa atenção e anotando passagens importantes num bloco de papel. Como não encontrei uma edição em português, recorri a um volume em espanhol, numa biblioteca pública, e isso por si só tornou minha leitura ainda mais atenta.
Foram muitas e gratíssimas as surpresas. A experiência foi notável, não só por confirmar para mim aspectos da espiritualidade que eu já havia percebido, por meio da prática do programa de A.A. – a exemplo da consideração do autor de que “Deus é real desde o momento em que produz efeitos reais”, mas também porque me abriu novas e valiosas perspectivas de crescimento espiritual, ao esclarecer sensações que já tinham me assaltado
mas que não conseguia identificar com clareza. Caso desta passagem:
“A prece ou a comunhão íntima com o espírito transcendental – seja ‘Deus’ ou ‘lei’ – constitui um processo onde o fim se cumpre realmente, e a energia espiritual emerge e produz resultados precisos, psicológicos ou materiais, no mundo fenomenológico.”.
Ao final da leitura sobrou para mim uma certeza: a de que o crescimento espiritual constante poderá me conduzir a um estado em que minhas preces deixem de ser meramente súplicas (como foram até agora e acredito que assim continuarão por tempo indeterminado) e assem a representar um estado mais elevado, em que eu possa louvar e amar a Deus como Ele merece ser louvado e amado – para que a semente de Sua presença dentro de meu próprio espírito possa se tornar plenamente efetivada.
Confesso que, de início, não achava que fosse ler o livro inteiro, mas apenas dois dos 20 capítulos, os que tratam da conversão (que eu entendo como despertar espiritual). Findos os dois capítulos (cada capítulo corresponde a cada uma das 20 conferências realizadas por James na Universidade de Edimburgo, na Inglaterra, entre 1901 e 1902), compreendi que
tinha aberto uma arca de tesouro, passando a devorar tudo.
Há no livro um aspecto que, logo de saída, me fisgou: a generosidade do mestre, que não dá um passo sem relatar detalhadamente casos verídicos (alguns envolvendo alcoólicos), além de citar bastante outros autores e pesquisadores – como é o caso destas palavras , creditadas ao professor Leuba, contemporâneo seu e também precurssor da psicologia da religião:
“Deus não é conhecido, não é compreendido, é simplesmente utilizado, às vezes como provedor material, às vezes como suporte moral, às vezes como amigo, às vezes como objeto de amor. Se demonstrar sua utilidade, a consciência espiritual não exige mais nada.
Existe Deus realmente?
O que é?, são perguntas irrelevantes.
Não é a Deus que encontramos na análise última dos fins da espiritualidade, mas sim a vida, maior quantidade de vida, uma vida mais ampla, mais rica, mais satisfatória. O amor à vida, em qualquer e em cada um de seus níveis de desenvolvimento, é o impulso religioso”.
Outra citação, creditada pelo autor a Frederic Myers: “Se perguntarmos a quem dirigir a prece, a resposta (curiosamente, é certo…) há de ser isso não tem demasiada importância; a prece não é uma coisa puramente subjetiva, significa um incremento real da intensidade de absorção de poder espiritual – ou graça -, mas não sabemos suficientemente o que ocorre no mundo espiritual, para saber como atua a prece, quem toma conhecimento dela,
ou por que tipo de canal é outorgada a graça”.
James também afirma que “o ponto religioso fundamental é que na prece e energia espiritual – em outros momentos adormecida – torna-se ativa e realmente se efetua uma obra espiritual de algum gênero”. Ele constatou, em suas extensas pesquisas sobre homens e mulheres que conseguiram despertar seu íntimo espiritual , que “o novo ardor que acende o peito dessas pessoas consome, com seu fulgor,as inibições inferiores que antes as perseguiam e
imuniza-as da porção vil de suas naturezas. A magnanimidade, antes impossível, agora parece fácil; os convencionalismos insignificantes e os vis incentivos, antes tirânicos, agora não mais as subjugam”.
Muito antes da fundação de A.A., James já utilizava palavras muito familiares a todos nós, membros da Irmandade: “O despertar espiritual pode advir por um crescimento gradual ou abruptamente (por crisis), mas em qualquer desses casos parece ter chegado ‘para ficar’…”. Citando Starbuck, outro contemporâneo seu, James comenta que o efeito do despertar espiritual consiste em proporcionar “uma mudança de atitudes com relação à vida, que é
constante e permanente, ainda que os sentimentos flutuem…”.
Essa singela colocação, “ainda que os sentimentos flutuem”, produziu em mim um efeito balsâmico. É que durante um bom período de minha recuperação pessoal, vivia com medo de que minhas oscilações emocionais constituíssem um grande risco. É certo que preciso continuar muito atento a meus altos e baixos emocionais, mas o fato é que tal reflexão veio confirmar o que eu já vinha percebendo há algum tempo. Ou seja, que, como ser humano, estou sujeito a uma certa gangorra de sentimentos, que nem sempre, contudo, leva a
uma recaída alcoólica.
Um pouco mais de esclarecimento, sobre os meus temores de recaída, chegou-me com essa reflexão: “Enquanto a nova influência emocional não alcançar um tom de eficácia determinante, as mudanças que produz são inconstantes e volúveis e o homem volta a recair em sua atividade original.
Mas quando uma emoção nova consegue uma certa intensidade, atravessa-se um ponto crítico, conseguindo-se uma revolução irreversível equivalente à produção de um novo estado natural”.
E é muito significativo que, 35 anos antes da fundação de A.A., William James, confrontando o “santo” (para o autor, santa é toda pessoa com faculdades espirituais fortes e desenvolvidas) e o “homem forte” (refere-se ao conceito de super-homem, de Nietzche), tenha escrito: “(…) No entanto, é possível conceber uma sociedade imaginária na qual não caiba a agressividade mas sim apenas a simpatia e a justiça – qualquer pequena
comunidade de verdadeiros amigos conduz a essa sociedade. Quando consideramos abstratamente esta sociedade, ela seria, em grande escala, o paraíso, já que cada coisa boa se produziria sem nenhum desgaste. O santo se adaptaria perfeitamente a essa sociedade.
Suas maneiras pacíficas seriam positivas para seus companheiros e não haveria ninguém que se aproveitasse de sua passividade. Portanto, o santo é, abstratamente, um tipo de homem
superior ao ‘homem forte’, porque se adapta a essa sociedade mais elevada concebível, sem depender para nada o fato desta sociedade vir a se concretizar ou não jamais”. Impossível não fazer uma analogia com A.A.
Nessa altura de minha programação pessoal, estou amplamente convencido de que a vasta literatura de A.A. é mais do que suficiente para minha recuperação constante – só por hoje. Lendo o livro de William James , pude sentir uma enorme satisfação também pelo fato de estar bebendo das águas de um dos regatos dos quais Bill W. se serviu. E uma grande necessidade de compartilhar minha experiência com os leitores da revista. Vinte e quatro
horas a todos.
Juan, São Paulo/SP
Vivência – maio/junho 2000
O alcoolismo nas empresas
Sou psicóloga e profissional da área de recursos humanos em uma empresa. Como o alcoolismo é uma situação que vivencio no meu dia-a-dia e por não saber quase nada a seu respeito nem como abordar um provável alcoólatra, recorri ao livro Alcoólicos Anônimos.
Para minha surpresa, encontrei uma abordagem simples do problema visto por quem havia passado pelo problema e nada é mais real e objetivo do que a experiência pessoal.
Todo trabalho científico é baseado em pesquisa e experimentações e, mesmo o A.A. não se dedicando a este campo, constatou, através da experiência de milhares de membros, a gravidade e a possibilidade de uma nova abordagem do assunto, ainda tão desconhecido de nossa sociedade.
É o alcoolismo visto sob a ótica de quem trilhou o seu caminho, uma abordagem de dentro para fora, riquíssima em seu conteúdo.
O capítulo 10 do livro Alcoólicos Anônimos tem como título “Aos empregadores” e traz um roteiro completo de como devem ser abordados casos de alcoolismo em empresas e eu tenho adotado as sugestões lá recomendadas.
Para simplificar e até distribuir para outros colegas de profissão que têm o mesmo problema em sua rotina profissional, condensei o conteúdo deste riquíssimo capítulo da forma que segue abaixo.
Se encontrarem algum proveito nele, valeu a pena. Caso contrário valeu a pena da mesma forma, pois pude ter acesso ao conteúdo deste programa maravilhoso de recuperação que é Alcoólicos Anônimos.
Roteiro simplificado de como o profissional de recursos humanos de uma empresa deve se relacionar com o problema alcoolismo dentro da empresa.
• Primeiro passo: se informar sobre o alcoolismo. Indicação dos livros: – “O texto básico de Alcoólicos Anônimos” (Livro Azul) e “Os Doze Passos e as Doze Tradições” (são adquiridos em A.A.).
• Compreender que o alcoolismo é uma doença grave.
• Tendo certeza de que seu funcionário não quer parar de beber, deverá ser demitido. E que fique claro quanto ao motivo: Alcoolismo.
• Ter uma atitude compreensiva em relação a cada caso.
• Diga-lhe que sabe o quanto ele bebe e que aquilo precisa acabar. Você pode dizer que aprecia sua capacidade, que gostaria de conservá-lo na empresa, mas que não poderá fazê-lo se ele continuar a beber. Uma posição firme, neste sentido, irá ajudá-lo.
• A seguir, garanta-lhe que não pretende fazer um sermão, dar lições de moral ou condená¬lo. Que, se isto foi feito antes, foi por uma questão de falta de conhecimento de causa. Se possível, demonstre que não nutre contra ele sentimentos negativos. Neste ponto, talvez seja uma boa idéia explicar-lhe o alcoolismo como doença. Diga que você acredita que ele esteja gravemente doente, com esta ressalva: sendo talvez portador de uma doença fatal gostaria ele de se recuperar? Você pergunta por que muitos alcoólicos, estando mentalmente perturbados e embotados, não querem parar de beber. Mas e ele, quer? Dará os passos necessários, submetendo-se seja ao que for para parar de beber? Se ele disser que sim, está sendo realmente sincero, ou no fundo acha que pode enganá-lo e que, depois de um descanso e tratamento conseguirá continuar a tomar uma ou outra dose de vez em quando? Achamos que um homem deve ser cuidadosamente investigado em relação a estes pontos. Certifique-se de que ele não o esteja enganando, ou a ele mesmo.
• Se ele contemporizar e ainda achar que pode beber outra vez, mesmo que seja só cerveja, poderá perfeitamente ser demitido depois do próximo porre que, sendo um alcoólico, certamente tomará. É preciso que ele entenda bem isto. Ou você está lidando com um homem que pode e quer se recuperar ou não está. Se não estiver, por que perder tempo com ele? Isto pode parecer duro, mas em geral é o melhor caminho.
• Depois de se certificar de que seu empregado quer se recuperar e que fará o que for preciso para conseguir, você pode sugerir-lhe um programa de ação definitivo. Para a maioria dos alcoólicos que está bebendo, ou acabando de sair de uma bebedeira, uma certa dose de tratamento físico é necessária, e até imperativa. A questão do tratamento físico deve, é claro, ser submetida a seu próprio médico. Seja qual for o método adotado, seu objetivo é eliminar do corpo e da mente os efeitos do alcoolismo. Em mãos competentes, isto raramente demora muito e não custa muito caro. Seu funcionário se sentirá melhor se for posto em condições físicas tais que lhe permitam pensar com clareza e não sentir mais a compulsão pelo álcool.
• Se você lhe propuser tal procedimento, talvez seja preciso adiantar-lhe o custo do tratamento, mas acreditamos que deva ficar claro que quaisquer despesas serão futuramente deduzidas de seu salário. É melhor para ele sentir-se responsável.
• Se o funcionário aceitar sua oferta deve ser enfatizado que o tratamento físico é apenas uma pequena amostra do que o espera. Embora você lhe esteja proporcionando os melhores cuidados médicos, ele deve compreender que precisa passar por uma reformulação interna. Superar o hábito da bebida irá requerer uma modificação de pensamento e atitudes. Todos nós precisamos colocar a recuperação acima de tudo o mais, pois sem a recuperação teríamos perdido tanto o lar quanto o emprego.
• Você pode confiar totalmente em sua capacidade de se recuperar? Por falar em confiança, será que você poderá adotar a atitude de que, no que depender de você, tudo isto permanecerá um problema estritamente pessoal, que seus erros devidos ao alcoolismo e o tratamento ao qual ele vai se submeter nunca serão discutidos sem o consentimento do próprio? Talvez seja bom ter uma boa conversa com ele, quando voltar ao trabalho.
• Caso você se sinta inseguro para ter tal conversa ou seu relacionamento com o funcionário esteja ligado por um grande laço de amizade poderá estar tendo este tipo de conversa com o alcoólico: “Ei, fulano, você quer parar de beber ou não? Cada vez que você bebe, eu é que fico no fogo. Não é justo, nem comigo nem com a firma. Eu estive estudando umas coisas sobre alcoolismo. Se você for um alcoólico, é um homem seriamente doente. Você age como se fosse. A empresa quer ajudá-lo a melhorar e, se estiver interessado, há um jeito de sair dessa. Se for em frente, seu passado será esquecido e o fato de que você foi afastado para tratamento médico não será divulgado. Mas, se você não quiser ou não puder parar de beber, acho que deve pedir demissão”.
• Lembramos que o sigilo e a ética devem ser estritamente respeitados. Comentários sobre o assunto com pessoas que não estão diretamente ligadas ao funcionário só serviram para gerar fofocas e comentários maliciosos. Naturalmente, este tipo de coisa reduz as chances de recuperação do funcionário. O empregador deve proteger o funcionário deste tipo de mexerico, defendendo-o contra provocações desnecessárias ou críticas injustas.
• Caso ele (a) recaia, por uma vez que seja, cabe ao seu superior decidir se será ou não mandado embora. Se estiver convencido de que ele não está levando o caso a sério, não há dúvidas de que deve demiti-lo. Se, pelo contrário, tiver a certeza de que ele está fazendo o que pode, talvez queira lhe dar outra chance. Mas você não deve se sentir obrigado (a) a conservá-lo na empresa, pois sua obrigação já foi totalmente cumprida.
• Em resumo, ninguém deveria ser demitido apenas por ser alcoólico. Se quiser parar de beber, deve merecer uma chance. Se não puder ou não quiser parar, deve ser demitido. Poucas são as exceções.
Este tipo de enfoque resolverá muitos problemas e permitirá a reabilitação de bons funcionários e ao mesmo tempo você não hesitará em se livrar daqueles que não querem ou não conseguem parar com a bebida.
O alcoolismo pode estar causando muito prejuízo à sua empresa, em termos de perda de tempo, pessoal e reputação, ou poderá causar um grave acidente de trabalho.
Estas sugestões têm como objetivo ajudar a eliminar estas perdas, às vezes consideráveis.
Andréia Boggione
Psicóloga Organizacional
Profissional da Área de Recursos Humanos Betim/MG
Vivência nº 99 – Janeiro/Fevereiro 2006
Evite o 1º Atrito
A freqüência com que o assunto alcoolismo vem surgindo na imprensa, rádio e televisão fazem um esboço desse problema que afeta toda a sociedade, pois queiram ou não, todos os cidadãos findam fazendo parte desse quadro, sempre como vítimas.
O alcoolismo foi declarado doença pela Organização Mundial de Saúde em 1967 e afeta tanto as pessoas que bebem como suas famílias, que adoecem junto; os empregadores e o poder público, que desembolsam boa parte dos seus gastos para enfrentar problemas decorrentes do consumo de bebida.
As conseqüências do alcoolismo terminam sempre nos hospitais, delegacias de polícia, corpos de bombeiros, juizados das mais diversas causas, penitenciárias, cemitérios e uma lista imensa de outros lugares.
Há 72 anos uma entidade vem cuidando de alcoólicos no mundo inteiro e está até na Internet, onde encontramos o site http://www.alcoolicosanonimos.org.br. Que divulga inclusive um lema interessante: “Evite o primeiro gole”.
Conhecida popularmente como A.A., a entidade funciona desde que dois alcoólicos descobriram que podiam manter-se sóbrios compartilhando seus problemas entre si. Mas juntamente com aquela entidade desenvolveu-se também no mundo inteiro uma organização chamada Al-Anon, que cuida de familiares e amigos de alcoólicos, adota os mesmos princípios de Alcoólicos Anônimos (adaptados) e adaptou também esse lema, para recomendar: “Evite o primeiro atrito”.
É sobre esse “primeiro atrito” que desejo falar, considerando algumas informações importantes que tive a oportunidade de colher em evento promovido por aquela entidade, onde tive a sorte de comparecer na qualidade de profissional interessado no assunto.
Ao evitar o primeiro atrito, os familiares fazem com que muitos problemas sejam evitados também, pois sempre que existe um confronto com um alcoólico – embriagado ou não – as conseqüências podem ser drásticas.
Segundo uma palestrante – que não se pode identificar para manter seu anonimato seguindo os princípios da entidade “Al-Anon surgiu da mesma necessidade de A.A. A necessidade de ‘dialogar’, de uma pessoa entender a outra, falarem a mesma linguagem, trocarem as experiências vividas com seus entes queridos doentes, que tanto lutavam para largar a bebida e não conseguiram.
Não custou muito para que as esposas dos alcoólicos descobrissem que o estado em que se encontravam era resultado do convívio sob o domínio do álcool, quando seus familiares e amigos se tornavam pessoas também doentes, de uma doença emocional. A troca de experiências mostrava o caminho a seguir.”
Como o alcoolismo é considerado uma doença reflexiva – pois todos do convívio do alcoólico adoecem juntos – torna-se dificílimo compreender uma vida tão atribulada, onde o senhor de tudo é o álcool, que impera, manda e comanda a vida do alcoólico e conturba toda a família, pondo de água a baixo todos os planos feitos anteriormente.
Até que o familiar tome conhecimento de que o alcoólico é portador de uma doença, aceite, compreenda e se trate junto, leva muito tempo e requer sacrifício de ambas as partes, explica a representante dos familiares.
Al-Anon no Rio Grande do Norte completou trinta anos de formação em 2007. Desde que surgiu, os seus membros procuram mostrar que quando um familiar ou amigo de alcoólico evita o primeiro atrito, está contribuindo para a recuperação, na medida em que evita um descontrole emocional de ambos.
Al-Anon mostra que qualquer assunto ou problema surgido pode e deve ser tratado somente depois que os ânimos estiverem acalmados, noutro dia, noutra hora.
Falam em “recuperação” e não em “cura”, porque o alcoolismo não tem cura; pelo menos até agora não foi descoberta.
A importância das esposas de alcoólicos freqüentarem o Al-Anon está na recuperação delas próprias.
A palestrante esclareceu que à medida que elas freqüentam, tomam conhecimento de que seus familiares são doentes, descobrem que adoeceram emocionalmente durante esse mesmo tempo e trazem consigo as seqüelas do sofrimento daquele convívio. Passam a trabalhar os sentimentos negativos, tão fortes, tão vivos, tão bem guardados e conservados de raiva, ressentimento, angústia, negação, rancor, auto-piedade. Isso só acontece numa sala de Al-Anon, onde o foco do tratamento é o familiar e não o alcoólico garante ela.
Uma mudança de atitude do familiar esteja o alcoólico bebendo ou não, muda o clima e a convivência se torna mais amena.

Walter Medeiros – Jornalista – Natal, RN
Vivência nº 112 – Março/Abril 2008
Esperando Elogios
Uma doce lição, aprendida amargamente.
Estava eu com os meus noventa dias de ingresso, quando um companheiro me abordou sobre serviço no grupo. Falou da carência de servidores, que por isso o comitê de serviços nunca se completava, e falou também de um certo crescimento espiritual, cujo significado prático eu não consegui absorver na hora. O que enxerguei naquele momento foi uma grande oportunidade de mostrar “meus valores”.
Candidatei-me à vaga de secretário, sendo prontamente aceito, visto que, com exceção do encargo de coordenador, todos os outros estavam vagos. Na primeira reunião em que participei como secretário caprichei na letra para ser a mais bonita do livro. No outro dia, meu padrinho me falou que, em função da carência de servidores, a limpeza do grupo deveria ser feita por quem estivesse à frente dos serviços, ou seja, por mim também. Principalmente o banheiro deveria ser limpo em toda reunião. Dessa parte eu não gostei muito e pensei: “Logo eu, que sempre trabalhei em escritórios impecáveis e exercia uma função que me permitia contratar quantos faxineiros precisasse, agora estava ali, frente a frente com um esfregão, uma caixa de sabão e um vaso sanitário sujo.” Era demais para mim e me veio a idéia mais estapafúrdia que poderia me ocorrer naquele momento. “Está bem, eu faço,mas vou fazer tão bem feito que será notório. Ninguém jamais terá limpado este grupo tão bem quanto eu.”
No outro dia estava suando em bicas. Primeiro limpei o auditório, deixando-o um brinco. Em seguida encarei o banheiro. Foram umas três horas de faxina e deixei tudo impecavelmente limpo. Como tinha tempo de sobra até a reunião, tomei um ônibus e fui até em casa me vestir a caráter para retomar ao grupo e aguardar os elogios, que certamente viriam em quantidade. Eu antevia meus companheiros me abraçando e dizendo que realmente eu era o melhor servidor que o grupo já tivera.
Voltei. Ansioso, me esmerei nos retoques finais à espera dos meus admiradores. A hora parecia não passar… até que começaram a chegar. Um a um, dois a dois, enfim, foram entrando, me cumprimentando como sempre, mas nada de alguém se referir à limpeza ou fazer qualquer comentário a meu respeito. Eu estava a ponto de pedir que dessem uma olhadinha no banheiro, mas me contive. O grupo foi enchendo como acontecia normalmente aos sábados e deu-se o início da reunião, veio o intervalo, o final, e nada de elogios. Ninguém se dignou a tecer um pequeno comentário que fosse com relação a tudo que eu tinha feito. Uma tarde inteira suando a troco de nada, uns ingratos. É impossível que ninguém tenha percebido a metamorfose que aconteceu aqui.
A decepção foi total. Me torturei o tempo inteiro ansiando por elogios que não vieram. Na despedida, apertei mecanicamente a mão de alguns companheiros e, cabisbaixo, segui rumo à minha casa, completamente arrasado. Pensava se não seria melhor esquecer tudo, parar com esse negócio de A.A. e tentar me recuperar por conta própria, muito embora de antemão soubesse que seria impossível.
Em casa, minha esposa perguntou como tinha sido a reunião, aliás, como sempre fazia, torcendo para que dessa vez não fosse mais uma de minhas “deixadas”, pois já tínhamos perdido a conta das vezes que deixei de beber, voltando cada vez pior em no máximo 15 dias. Estava ela alimentando já uma pontinha de esperança e eu, para não decepcioná-la, disse que foi ótima.
Deitei, mas o sono não veio. Lá no meu íntimo alguma coisa começou a martelar. Afinal, o que eu queria, ser elogiado por um breve instante ou buscar uma recuperação para toda a vida? O que seriam algumas tapinhas nas costas diante de uma sobriedade duradoura que me devolveria a vontade de viver e a dignidade, conforme diziam meus companheiros em seus depoimentos? Ademais, na vida que levava ultimamente estava longe de receber algo parecido com um elogio. O que meus ouvidos captavam eram ironias, sarcasmos, piadas endereçadas, humilhação, coisas vindas dos mais diferentes olhares reprovadores.
Tudo isso sem contar duas hepatites alcoólicas, manchas roxas pelo corpo, audição de vozes com as mais variadas conotações pornográficas e ao meu redor não via ninguém. Agora estava eu acata de elogios que iriam satisfazer o meu ego, em detrimento da coisa mais sublime deste mundo, que é o direito à vida. Adormeci.
No outro dia eu já me livrara daquela briga interna. Nas reuniões seguintes, fui trocando a vontade de ser elogiado pela vontade do aprendizado. Adquiri o livro Os Doze Passos e as Doze Tradições e passei a ler com freqüência boa, e com isso minha mente foi se abrindo gradativamente para eu perceber como estava longe da realidade. Hoje continuo com uma vontade enorme de aprender, sem no entanto querer me tornar professor. A lição que recebi daqueles companheiros, sem que nenhum deles soubesse, foi um dos maiores ensinamentos que já tive em toda a minha vida.
Aquele dia foi o meu pior dia sóbrio, mas talvez até hoje, o dia de melhor aprendizado para toda a vida. Devo acrescentar que, de vez em quando, seguro aquele esfregão e o encho de elogios.
Fico por aqui desejando muitas e serenas vinte e quatro horas de sobriedade para todos os AAs do Brasil e do mundo.
Moacir, Natal /RN
Vivência nº 57 – Janeiro/Fevereiro 1999
Eu não era Alcoólatra
Quando entrei no AA eu não era alcoólatra.
Procurei a sala por pressão da minha família que queria me internar e então me falaram de AA e achei que indo numa sala ia aprender a beber moderadamente, só por isso, mas não era alcoólatra.
Na época, em novembro de 2004, eu já estava há cerca de dois anos bebendo de terça a domingo, mas como não bebia às segundas-feiras, não era alcoólatra.
Não era alcoólatra porque tinha uma boa casa, emprego e estudava. Por isso, achava normal eu ficar bêbada em todas as festas de família e em outros momentos felizes porque tinha que comemorar, mas não era alcoólatra.
Quando eu viajava para a praia começava a tomar cerveja às 10 da manhã e terminava o dia com um saldo de mais de 12 latinhas e várias caipirinhas, mas tinha a justificativa: era praia, calor, sol e todo mundo bebe né? Eu também. Mas não era alcoólatra.
Quando estava na faculdade, trabalhava o dia todo, estudava à noite e como ficava muito cansada, chegava, fumava um cigarro de maconha e saia para beber alguma coisa no bar com os meus amigos, repeti um ano, mas tinha as amizades, tinha que beber, mas não era alcoólatra.
No começo da minha carreira profissional, ia a muitas festas, quase todos os dias e para agüentar bebia algumas doses de vodka e uísque antes de sair, mas era o cansaço que fazia isso, porque eu, eu não era alcoólatra.
Depois passei a ter que entrevistar pessoas e como algumas eram até bem conhecidas, eu tomava uma para ter coragem e não falar besteiras, eu tinha que me soltar, só isso, mas não era alcoólatra.
Também nas reuniões de trabalho, tanta tensão, não dava para agüentar aquilo de cara limpa, precisava saber como apresentar minhas idéias e bebia, mas não era alcoólatra.
Demorei muito para começar a dirigir, tinha medo, mas precisava, tirei a carteira e quando comecei a sair, tomava pelo menos uma cervejinha para ficar mais segura, mas não era alcoólatra. Uma vez, numa curva, passei reto e quase entrei no poste, não morri porque não era o meu dia e também porque eu não era alcoólatra.
Nunca tive um relacionamento sério com ninguém, conhecia um cara aqui outro ali, mas nada durava porque eu bebia. Bebia para me tornar quem eu não era e sim quem o outro queria que eu fosse, bebia para ser aceita, apaixonante, engraçada e interessante. Mas não porque era alcoólatra.
Eu alcoólatra? Imagina, que brincadeira sem graça. Alcoólatra. A-L-C-O-Ó-L-A-T-R-A, alcoólatra! Que palavra mais feia essa, para falar assim desse jeito. Ainda mais para mim, que não era alcoólatra.
Alcoólatras eram aquelas pessoas que eu via caindo pela rua, ou dividindo uma garrafa pet com pinga numa praça qualquer. Eu não, não era como aqueles bêbados que ficam o dia inteiro dentro de um bar e arrumam brigas. Ou como aquele povo que até é internado por causa da pinga; eles sim eram alcoólatras. Eu? Não, definitivamente, eu não era alcoólatra. Exagerava um pouquinho e só. Achava que pararia quando quisesse e pronto.
Mas não é que eu virei alcoólatra? Pois é, virei alcoólatra quando conheci o AA e isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Virei alcoólatra e descobri que tenho uma doença que é física, mental, emocional e espiritual, incurável, progressiva e fatal. Virei alcoólatra e deixei de ser bêbada, cachaceira, mau caráter, sem vergonha, fraca, vagabunda, doidona, louca, irresponsável, exêntrica, exagerada, maluca… enfim, deixei de ser todos os personagens que havia criado para mim e que todos acreditavam – ou fingiam acreditar.
Hoje eu sou apenas a Silvia, uma alcoólatra em recuperação que ontem não bebeu e que só por hoje não tomou o primeiro gole. Hoje eu sou a Silvia, uma pessoa que está muito longe da perfeição, que ainda tem um longo caminho de reconstrução, mas o mais importante é que sou uma mulher em paz comigo e com os outros e, mesmo com os problemas e dificuldades que todo mundo tem, consigo ser muito feliz.

Obrigada a todos e 24 horas de serena sobriedade.
Sílvia / Tucuruvi / SP
Vivência nº 102 – Julho / Agosto 2006
texto revisado pela autora e publicado com sua autorização.
A.A e a Imprensa
Depois que o “The Saturday Evening Post” publicou um artigo sobre Alcoólicos Anônimos, em 1º de março de 1941 a esforçada Irmandade chegou finalmente à consciência nacional, graças à força narrativa da maior revista familiar dos Estados Unidos.
Como observou Marty M., “foi a coisa mais emocionante que poderia ocorrer, porque precisávamos muito de publicidade e queríamos que soubessem da nossa existência”.
O juiz Curtis Bok, proprietário do The Saturday Evening Post ouvira falar dos Alcoólicos Anônimos através de seus amigos de Filadélfia, os doutores A. Wiese Hammer e C. Dudley Saul, que tinham grande admiração pela entidade.
Alcoólicos Anônimos havia chegado à Filadélfia de modo muito semelhante à sua chegada em Akron e ampliava-se agora para outras partes do país.
Tendo deixado de beber, os homens conseguiam reempregar-se, voltavam a viajar e a ver-se sós em quartos de hotéis estranhos, em cidades não menos estranhas.
Como o próprio Bill havia feito, eles procuravam outros alcoólicos para ajudá-los a parar de beber e, desse modo, manterem-se sóbrios.
No início de 1940, Jimmy B., o vendedor que insistia em diminuir o número de referências a deus no Livro Azul, foi a Filadélfia a trabalho. Bill lhe deu o nome de alguns companheiros dessa cidade, entre eles o de George S., que havia parado de beber depois de ler “Os Alcoólicos e Deus”, na revista Liberty. “Rapidamente me dei conta de que precisava de alguns companheiros alcoólicos ao meu redor, para permanecer sóbrio”, disse Jimmy “e assim me vi no meio de um grupo completamente novo”.
Durante o inverno de 1940-41, o juiz Bok, interessado em saber o que havia de verdade por trás dos rumores desencontrados que tinha ouvido, convocou o repórter Jack Alexander, cuja reputação era de ser inflexível. Alexander havia acabado de desmascarar importantes negociatas escusas em Nova Jersey e orgulhava-se de seu cinismo. Bok quis saber se Alexander faria uma matéria para o Post. A princípio o repórter hesitou; mas quando soube que Alcoólicos Anônimos “tinha relação tanto com a religião quanto com Rockefeller”, sua curiosidade falou mais alto.
Dos quatro membros de A.A. que o visitaram em seu apartamento, Alexander opinou: “Eram bem apessoados e estavam bem vestidos, mas, ao nos sentarmos, bebendo Coca-Cola (que era tudo o que eles tomavam), contaram histórias de horríveis desgraças ocorridas quando bebiam. As histórias soaram falsas e, quando eles foram embora, tive a nítida sensação de que estava sendo engabelado. Os visitantes haviam se comportado como atores enviados por uma agência teatral da Broadway”. Do próprio Bill, que conheceu no dia seguinte na Rua Vesey, Alexander considerou: – “É um tipo que desarma qualquer um e um especialista em doutrinar, usando a psicologia, a psiquiatria, a filosofia, a farmacologia e o folclore do alcoolismo”. O fato é que a franqueza de Bill pode ter tido o efeito inicial, como às vezes ocorre, de acentuar ainda mais o já agudo ceticismo de Alexander, Bill falou com franqueza do seu passado de bebedeiras e, com a mesma candura, de sua grandiosidade e dos erros que havia cometido recentemente. O impacto dessa candura levou o repórter a considerá-lo “incrivelmente ingênuo ou um tanto estúpido”. Bill teve uma percepção inteiramente diversa desse mesmo episódio: “Desde que Jack Alexander se apresentou no Escritório Central, nós o trouxemos a reboque durante quase um mês inteiro. Para escrever
seu poderoso artigo ele precisou da nossa total atenção e de uma ajuda cuidadosamente organizada. Abríamos a ele nossos registros, os livros, apresentamo-lo aos Custódios não-alcoólicos, marcamos entrevistas com AAs de todos os tipos e, finalmente pusemos Alcoólicos Anônimos à sua frente, desde Nova York e Filadélfia até Chicago, passando por Akron e Cleveland”.
A percepção inicial de Alexander era correta: Bill era cândido, mas sua candura nada tinha de ingenuidade, ou de estupidez; era proposital e atingia seus objetivos.
Da mesma forma que funcionaria com milhares de alcoólicos, nos anos futuros, assim foi com Jack Alexander, como Bill descreveu: – “O tipo de ajuda que demos a Jack Alexander – nosso serviço organizado de informações ao público – é o ingrediente vital de nossas relação públicas, que a maior parte dos AAS nunca chegou a ver”.
Não demorou muito tempo para que Jack Alexander fosse “convertido”, evaporou-se seu cinismo e seu apoio à Irmandade foi tão entusiasmado que ele continuou sendo um amigo íntimo durante os anos seguintes. Em 1951, chegou a ser Custódio e permaneceu no Conselho até 1956.
O ARTIGO DE JACK ALEXANDER
A publicidade do artigo “Alcoólicos Anônimos” pelo jornalista Jack Alexander, no número de março de 1941 do “The Saturday Evening Post”, representa um marco na história da Irmandade e serviço
Embora outro artigo de âmbito nacional tenha sido publicado anteriormente, o relato do “The Saturday Evening Post”, sobre um grupo de homens e mulheres que alcançaram a sobriedade através de A.A., foi, em grande parte, responsável pela onda de interesse que sedimentou a Irmandade em termos nacionais e internacionais.
A história do Post é uma lembrança do desenvolvimento de A.A. em um período relativamente curto. Em 1941, aproximadamente dois mil homens e mulheres estavam vivendo o programa de A.A. com sucesso. Hoje este número excede os dois milhões, e cerca de 98 mil Grupos se reúnem regularmente nos Estados Unidos, Canadá e em outros países. Em 1941, Jack Alexander escreveu a respeito do senso de humildade e serviço que caracterizavam o programa de A.A. e aqueles que então o praticavam.
A.A. vem tendo um enorme crescimento desde então. Mas a mesma consciência da necessidade de continuar a servir companheiros alcoólicos dentro do espírito de ajuda e humildade continua a ser o alicerce de nossa Irmandade.
É como esse espírito que este artigo histórico é reproduzido para todos os membros veteranos ou recém-chegados, que compartilham o mesmo interesse pelos tempos pioneiros de Alcoólicos Anônimos.

Fonte: Levar Adiante e o Artigo de Jack Alexander
Vivência nº 112 – Março/Abril 2008
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A Justiça e o Trabalho com Alcoólicos Anônimos
Conta a tradição que há mais de setenta anos dois doentes alcoólicos começaram a conversar e não beberam. No mundo todo alcoolistas continuam a conversar desde então e não beberam. O “só por hoje” já dura mais de que através do diálogo o homem pode encontrar soluções brilhantes para sua existência.
Em 1988, a Constituição Cidadã trouxe para o direito penal, carcomido por uma prática ineficaz desde os tempos da Colônia, um novo sopro, um novo conceito, o da pacificação social, criando o instrumento dos Juizados Especiais Criminais.
A Justiça penal deixa de ser apenas uma retribuição do mal praticado por um mal (violência legítima do estado que, quando é exercida de maneira errada, como, por exemplo, em prisões superlotadas, se torna ilegítima) e passa a poder contar com soluções visando o futuro, para uma determinada categoria de delitos – infrações penais com pena privativa da liberdade inferior a dois anos – a que apelida de “infrações penais de menor potencial ofensivo”.
Ora, o que é essa Justiça Especial, criada pela Constituição Federal em 1906 e disciplinada pelo legislador comum em 1995, através da Lei nº. 9.099?
É a Justiça do diálogo, onde as partes envolvidas, direta ou indiretamente no litígio, são chamadas a conversar. É a justiça coexistencial.
Nossa cultura está acostumada a terceirizar a solução dos litígios. As partes depositam na mão de terceiros a solução de seus problemas. O Estado encarregado desta terceirização, o Juiz, por sua vez, acostumou-se a dirimir conflitos. Todavia essa solução se mostra insuficiente para a sociedade moderna. Mesmo se dirimido o primeiro conflito, a litigiosidade social permanece latente e outros conflitos se instalam e cada vez mais a presença do Estado é requisitada, gerando acúmulo de processos e demora. Justiça que tarda é sempre Justiça que falha, diz o velho ditado.
Assim, cada vez mais a Justiça deve se empenhar em diluir o conflito, em verdadeiramente atacar o litígio social existente e na medida em que o real problema da vida é solucionado, o litígio processual passa a ser desimportante.
Quando as partes voltam a ser chamadas para buscarem a solução de seus conflitos, o Juizado Especial Criminal reforça a cidadania.
Assim, é o princípio basilar do Juizado Especial Criminal a reconstrução da cidadania e o prestígio à autonomia da vontade e responsabilidade individuais.
Mais uma vez, aqui os caminhos dos grupos de mútua ajuda e da Justiça se aproximam.
Obviamente o álcool, a droga mais consumida em nosso País, constitui um dos elementos presentes na violência interpessoal. Não se trata aqui de buscar desculpa no álcool para a violência, mas apenas a constatação de que sem resolver o problema do relacionamento do alcoolista com a droga não se chegará jamais à solução do litígio interpessoal em que este se envolveu.
O álcool está presente em nossa sociedade. É um problema que afeta todas as classes sociais, etnias, sexos e assim deve ser resolvido na sociedade.
A prática vem demonstrando a pouca eficiência, nesta área, de medidas de força como a prisão ou a internação compulsória. Cessada a constrição da liberdade, geralmente, o primeiro passo do liberto é em direção ao álcool.
O maior êxito vem sendo obtido nos grupos de mútua ajuda, com reconhecimento até mesmo da ciência médica. Porque, então, excluir esse valioso conhecimento da
Justiça?
Por certo não pode a Justiça determinar que alguém se torne membro de Alcoólicos Anônimos. Para se tornar membro basta à vontade de querer parar de beber, diz a tradição, e vontade é o ato unilateral do alcoolista.
Também não pode a Justiça exigir que Alcoólicos Anônimos seja fiador da abstinência de ninguém. Toda a filosofia dos grupos se baseia no “só por hoje”.
Muito menos ainda pode a Justiça demandar que a freqüência às sessões do grupo surta o efeito desejado independentemente da interação de outros fatores. Cada ser humano possui seu tempo personalíssimo. Se para alguns o “só por hoje” é atingido no primeiro dia, para outros ele leva toda a vida. O próprio programa de Alcoólicos Anônimos é composto por 12 Passos e 12 Tradições, que devem ser percorridas, uma a uma, e renovadas diariamente, o que demanda uma progressividade.
O que espera, então, a Justiça do trabalho com Alcoólicos Anônimos?
Primeiramente, longe de exigir que o encaminhado se torne membro de A.A., ela confia na habilidade dos grupos e Na seriedade do programa para que o encaminhado
se encante e, um dia, no seu tempo pessoal devido, lhe seja dado alcançar a condição de membro. Freqüentador é o que se exige.
Entendemos que a partir da freqüência certamente alguma semente ficará plantada na mente do encaminhado, que germinará no tempo certo.
Em segundo lugar, a Justiça respeita a autonomia dos grupos. Não se deve impor a aceitação da presença do encaminhado e a freqüência deve ser demonstrada por
qualquer meio idôneo.
Se para o encaminhado a freqüência a A.A. deve ser encarada primeiro como um benefício, de certa forma ela contém um caráter de sanção pela infração penal praticada, ao privá-lo de seus momentos de ócio ou lazer. Não se olvida que estamos tratando de direito penal, de processo penal e a comprovação do cumprimento é uma exigência do sistema penal.
Em minha experiência pessoal, certa vez determinei que um alcoolista prestasse serviços à comunidade, no período de reuniões durante a sessão. Esse era o meio idôneo que imaginei para obter a comprovação da presença à reunião. Felizmente o representante de A.A. da cidade em que trabalhava me procurou no gabinete, demonstrando o desatino da minha decisão e a partir daí começaram a surgir novos meios de comprovação da freqüência.
Hoje, instituímos no Rio de Janeiro, um cartão de freqüência, cuja responsabilidade pela guarda é do encaminhado, no qual o responsável pela reunião deve apor um carimbo ou uma rubrica. Não se descumpre assim o princípio do anonimato, tanto de quem conduz a reunião do grupo, como do encaminhado que, voluntariamente, ao aceitar o acordo para por fim ao processo, renuncia ao seu anonimato.
Mais uma vez, o reforço da autonomia da vontade está presente, ao entregar ao encaminhado a obrigação de comprovar a freqüência.
A decisão de permitir ou não a presença em reuniões fechadas incumbe ao grupo que recebe o encaminhado. Caberá a ele, dentro de sua autonomia, avaliar a adequação ou não de admitir pessoas encaminhadas pela Justiça, se há discriminação ou não, em fim, se a presença de um encaminhado pela Justiça rompe ou não as tradições de A.A.
Certamente, o risco da presença de um encaminhado pela Justiça à reunião fechada é o mesmo da presença de um outro qualquer membro que recaia no uso do álcool.
Segundo se aprende no contato com o maravilhoso trabalho dos grupos de A.A., todos aqueles que alcançaram o desenvolvimento pessoal a ponto de se tornarem membros de A.A. ali chegaram encaminhados por alguém, pela família, pelo patrão, por amigos, por médicos ou até mesmo pelo “Poder superior”.
Pergunto, por que não aceitar a Justiça como um facilitador do contato de quem sofre da doença do alcoolismo com aqueles que podem ajudá-lo?
A pergunta permanece no ar para que, trabalhando juntos possamos respondê-la.
Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2006.
Dr. Joaquim Domingos de Almeida Neto
Juiz de Direito do IX Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e Especial Criminal
Barra da Tijuca/Rio de Janeiro/RJ
Vivência nº 107 – Maio/Junho 2007
Uma Pessoa Respeitável
Sou mãe de duas filhas. Na época do meu alcoolismo ativo elas eram muito novas, adolescentes. Amo muito essa criaturas, que eram e são a razão de meu viver. Só que, em minha doença, esse amor quase foi destruído, afinal, eu não tinha amor nem por mim mesma.
Logo no início já começaram as internações em hospitais psiquiátricos. Muitas vezes, meu marido precisava me internar para que minhas filhas pudessem estudar e trabalhar sem a preocupação de saber como estaria sua mãe. Ele trabalhava à noite para não dar espaço ao meu beber, mas eu dava um jeito. Minha vizinha passava bebida para mim pelo vitrô da sala, isso porque as portas ficavam fechadas. Eu escondia bebidas em todos os lugares.
Num dia especialmente triste, bebi antes de minha mãe chegar em casa e, quando ela chegou, peguei meu cachorrão, pus nele a coleira e, ignorando os pedidos de minha mãe para que eu não saisse com ele, fui, passei na casa de uma amiga e peguei um litro vazio para poder comprar mais pinga, Meu cão, que era bravo, foi me puxando até me derrubar e, com a garrafa, eu me cortei toda. Cheguei ensanguentada em casa, minha mãe passou mal, chorou muito e pediu para que eu deixasse de beber. Em outra ocasião, joguei-me em frente de um carro, tentando o suicídio, mas não morri.
Assim, uma de minhas filhas, já cursando o último ano de faculdade, certa vez me trouxe um endereço de Alcoólicos Anônimos. No dia 20 de agosto de 1984, fui conhecer a Irmandade, pensando que encontraria um garrafão de pinga na sala, e que cada pessoa se serviria quando sentisse compulsão…
Qual não foi a minha surpresa! Encontrei uma sala linda e pessoas se recuperando. Senti-me um farrapo humano, pois cheguei toda arrebentada, com os cabelos compridos, rosto inchado, olho roxo (alcoolizada, eu era muito agressiva com meu marido, mas só apanhava, porque já estava muito fraca.)
Todos me deram uma palavra de carinho. Puxa, que maravilha! Disseram-me para voltar mais vezes: “Estaremos aqui todo dia, pra te ajudar”. Deram-me um cartão com os horários de reuniões e, o mais importante, a Oração da Serenidade. Eu fazia a Oração de duas em duas horas, até fazer as 24 horas.
Desde aquele primeiro dia não coloquei mais uma gota de álcool na boca, só por hoje. Não havia companheiras quando cheguei, só homens, cerca de 60 companheiros. Não me importei e ia todos os dias. Na hora do café, conversava com todos e todos me respeitavam, como me respeitam até hoje, tratando-me como se fossem meus irmão de sangue.
Entrei para os nossos três legados e continuo com eles até hoje, não abro mão. Sou agora avó de dois netos e uma neta, amo-os muito e sei que me amam também. Minhas filhas, meu genro e marido são muito felizes com a minha sobriedade. Tornei-me uma mulher respeitada em todos os lugares aonde vou. Voltei a estudar e hoje tenho a profissão de enfermeira. Já levei a mensagem várias vezes ao hospital onde ficava internada, e os profissionais de lá me olham e dizem: “Que maravilha!”
Consegui dar uma alegria à minha mãe: quando ela faleceu, estava feliz porque eu não bebia há 4 anos, sempre em A.A. E eu estou feliz por ter descoberto a tempo que sou portadora dessa enfermidade, que poderia ser detida se eu quisesse. Puxa, eu não perdi a oportunidade, e só por hoje a minha doença está detida.
Celene, Campinas/SP
Vivência nº 72 – Julho/Agosto 2001
O que é Serenidade!
O termo é definido de varias maneiras: a calma, o sossego, a paz, e tranqüilidade, a paz da mente, o equilíbrio emocional, o estado não perturbado, o sangue frio e o domínio de si mesmo.
Contudo, do ponto de vista prático, talvez a melhor definição seria “a capacidade de viver em paz com os problemas não resolvidos”.
A Oração da Serenidade fala em “aceitar as coisas que não podemos modificar”.
A ACEITAÇÃO não deve ser confundida com a concordância.
Nem sempre concordamos, ou gostamos, com o modo como as coisas acontecem ou são conduzidas a nossa volta, temos este direito. Temos o direito de escolher nossos gostos e opiniões, como todas as pessoas o teem; mas temos obrigação de respeitar quem é, sente e pensa diferente de nós outros e vice-versa.
Em muitos momentos é possível que seja verdade que estejamos coerentes e certos em nossas posições, mas muitas vezes isto contribui pouco ou quase em nada para mudar a realidade a nossa volta.
O quê fazer então?
Entregar-se a sentimentos oriundos da contrariededade, como a raiva, a revolta e sentimentos de revanchismo?
Em A.A. nós entendemos que é nesse momento que devemos lançar mão da ORAÇÃO da SERENIDADE.
Talvez possamos dizer que o resultado da prática da ORAÇÃO da SERENIDADE seja o DESLIGAMENTO EMOCIONAL dos fatos, coisas e pessoas que não podemos modificar.
Mas é preciso compreender que ACEITAÇÃO não é indiferença.
A indiferença deixa de distinguir entre as coisas que podem e as que não podem ser mudadas.
A indiferença paralisa a INICIATIVA para que modifiquemos as coisas que podemos.
A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das “cargas impossíveis”, transferindo o foco da ação para o “possível”.
A ACEITAÇÃO é um ato do LIVRE ARBÍTRIO, mas, para ser eficaz, requer a CORAGEM moral de se persistir apesar do problema imutável.
A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade.
Uma vez que aceitamos o que não pode ser modificado, ficamos livres emocionalmente e psicologicamente para nos empenhar em novas atividades..
Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico.
Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências.
Talvez, em última análise, o inicio da SABEDORIA esteja na simples admissão de que as coisas nem sempre são como queríamos que fossem.
E que nós mesmos somos imperfeitos e não tão bondosos e trabalhadores quanto gostaríamos de ser.
Oração da Serenidade
Concedei-nos Senhor a Serenidade necessária,
para Aceitar as coisas que não podemos modificar;
Coragem para modificar aquelas que podemos;
e Sabedoria para distinguir umas das outras.
Vivência Nº 22 – Outubro/Novembro/Dezembro 1992
Apadrinhamento
Em Alcoólicos Anônimos, apadrinhamento é o processo em que um alcoólico que já fez algum progresso no programa de recuperação, partilha essa experiência de uma forma contínua e individual, com outro que está tentando conseguir ou manter sua sobriedade através de A.A.
A responsabilidade do apadrinhamento, embora não escrita e informal, é uma parte básica da maneira de A.A. efetuar a recuperação do alcoolismo através dos Doze Passos.
Não há regras específicas, mas um bom padrinho, que provavelmente deveria contar com um ano ou mais de sobriedade desde seu último gole, deve parecer feliz na sobriedade e convém que, dentro das possibilidades do grupo, homem apadrinhe homem e mulher amadrinhe mulher (evitar envolvimentos emocionais, nem sempre saudáveis).
O apadrinhamento reforça a sobriedade do membro mais antigo. O ato de partilhar sua sobriedade torna mais fácil para o veterano a vida sem álcool. Ajudando os outros, constatamos que ajudamos a nós mesmos.
Não há qualquer classe ou casta superior de padrinhos em A.A. Qualquer membro pode ajudar o novato a enfrentar a vida, sem recorrer ao álcool sob qualquer forma.
Tempo de sobriedade é um fator, mas não o único. Os padrinhos eficientes são aqueles homens e mulheres que têm permanecido sóbrios por tempo suficientemente longo para compreender o programa sugerido de recuperação delineado nos Doze Passos.
De igual importância são a capacidade de compreensão e paciência, disposição para devotar tempo e atenção aos membros novos, e o exemplo pessoal como representante do A.A. em ação.
UM BOM PADRINHO DEVERIA:
Fornecer seu endereço pessoal ao afilhado e, se possível, obter o dele, mas sem obrigá-lo a fornecer.
Estimular o afilhado a freqüentar uma variedade de reuniões de A.A., para que ele adquira diversos pontos de vista e interpretações do programa.
Nunca se recusar a tomar o inventário moral do afilhado, se este lhe pedir, mas nunca forçá-lo a isso.
Apresentar o afilhado a outros membros, provavelmente que possuam interesses ocupacionais ou sociais iguais aos dele.
Ficar a disposição do afilhado, quando este está com problemas especiais.
Enfatizar a importância dos Doze Passos e das Doze Tradições, estimulando o afilhado a conhecê-los bem.
Insistir em que o afilhado participe das atividades do grupo, tão cedo quanto possível.
Quando em contato com familiares do afilhado, explicar-lhes o programa de A.A. e falar-lhes sobre os Grupos Familiares de Al-anon e Alateen.
Levar o afilhado em seu trabalho do Décimo Segundo Passo.
Um padrinho que realmente coloca em primeiro lugar o programa, não tomará como insulto o fato de seu afilhado decidir mudar de padrinho ou procurar outros AAs, em busca de mais orientações.
Um padrinho por mais experiente que seja, nunca fala em nome do A.A., e deixa isso claro ao afilhado, informando-o que cada membro tem a liberdade de chegar a uma compreensão individual do programa.
Em sua ansiedade de ajudar a conseguir a sobriedade, alguns padrinhos podem tender a ser superprotetores, tornando os afilhados dependentes de sua pessoa, o que é de todo inconveniente.
Outro perigo é que a superproteção pode aborrecer o afilhado, a ponto de este se ressentir das tentativas de ajuda e expressar esse ressentimento abandonando o A.A.
Deve lembrar-se de que apadrinhar não é forçar o afilhado a nada.
Nos casos de recaída, o padrinho deveria não ser muito intransigente ou bondosamente piegas, mas, procurar o afilhado e simplesmente reconduzi-lo ao Primeiro Passo e ao Grupo.
Do Primeiro ao Quinto Passo de A.A., freqüentemente encontramos citações de como o padrinho procura auxiliar o novato na trilha da recuperação proposta pelos Doze Passos (10 vezes).
A partir do Sexto Passo, deixando de ser infantil e tornando-se mentalmente e emocionalmente adulto, o antigo novato passa a ter todas as condições para ser um bom padrinho.
Um cuidadoso planejamento da atividade do apadrinhamento dentro do grupo, provavelmente dará melhores resultados do que o apadrinhamento deixado ao acaso.
Uma forma sugerida: O Coordenador, no fim da reunião: “Se alguém aqui ainda não tem padrinho e precisa de um, por favor, procure o secretário após a reunião afim de arranjar um padrinho provisório.” Onde esta prática é adotada em cada reunião, os membros dizem que ela lembra ao grupo o valor de apadrinhar e ser apadrinhado.
Francisco R.
Vivência nº 36 – Julho/Agosto 1995
Somente há uma semana sem beber…
Não era ainda muito tarde quando a festa acabou. Acabou a comida, a bebida e a graça de estar alí e, então, despedindo-me das pessoas, saí à procura de outro lugar onde pudesse continuar desfrutando daquele tão desejado prazer de ver o fundo de copo após copo.
Depois de outras tantas doses generosamente servidas e me reconhecendo sem a menor condição de voltar para minha casa, procurei um motel para dormir. Eu não podia chegar em casa naquele estado e, ao clarear do dia, mal dormido e ainda meio bêbado, fui para casa e me
apresentei com a responsável desculpa de que, como não estava em condiçoes de voltar, achei melhor dormir fora. Minha esposa e minha filha nada disseram, mas seus olhos me mostraram todo o mal que eu tinha causado e me fizeram lembrar, instantaneamente, das centenas de vezes em que a cena se repetiu, das centenas de promessas que eu já havia feito e das centenas de vezes em que eu me olhei no espelho e ví um cara fraco, derrotado e incorrigível.
Eu já havia me separado da minha família por um ano, justamente pela situação insustentável que havia criado com dezenas de motivos e centenas de garrafas. De novo envergonhado, fui me deitar em outro quarto, cansado demais para continuar a pensar quando, pouco depois, minha esposa entrou silenciosamente e disse, com voz moderada, que não queria fazer outro escândalo e me pediu que saísse de casa e que não voltasse durante o fim de semana porque minha presença escurecia o ambiente da casa…da minha casa.
De chinelos, voltei para a empresa (era sábado e ninguém viria), entrei e dormí num sofá, mal acomodado e com frio. À tarde, com muita tristeza na alma, querendo falar com alguém e sentindo vergonha de me dirigir a qualquer pessoa, vergonha demais para falar até com Deus, liguei para o CVV e perguntei sobre instituições de apoio a alcoólicos, onde me deram o endereço de A.A.
Passei a tarde tentando trabalhar, esperando a hora de ir para lá, ou melhor de vir para cá.
Cheguei ao grupo com o mesmo estado de espírito entristecido, mas com a esperança de que pudesse acertar dessa vez. Estava frio… Eu, mal agasalhado, de chinelo, sendo lembrado, pelo desconforto, que tudo aquilo de ruim daquele dia (assim como dos últimos anos) era culpa minha, era o caminho que eu tinha traçado.
Fui recebido de forma discreta e compreensiva por alguém que, por ter o mesmo problema, sabia que eu não era um “sem vergonha”, como muitas vezes fui chamado, que sabia serem sinceras todas as promessas que eu tinha feito, dizendo que iria parar, mesmo sem cumprir. Fui conversando e, aos poucos, baixando a guarda, desmontando a defesa, porque sentí que não ia ser atacado de novo. Fui ouvindo e percebendo que eu não tinha a culpa, tinha a causa (o que é bem diferente) e, assim, fui me comprometendo aos poucos a não beber, só por hoje, assumindo o compromisso de ir com calma (mas ir), tentando aceitar que eu não posso beber como os outros bebem porque alguma coisa no meu corpo não me permite fazer isso, e porque se eu desrespeitar isso será somente uma questão de tempo até o fim da minha família, do meu lar e da minha vida.
Está fazendo uma semana que eu me apoiei e me apoio em A.A. e em seus princípios. Hoje, ao terminar o meu trabalho, me deu uma vontade irresistível de beber. Pensei em tudo o que venho aprendendo a duras penas e decidi que não queria beber…mas a vontade continuava me envenenando ; eu só tinha um socorro possível: vir para cá. E foi o que fiz.
Saí aliviado. Ainda com vontade de beber, mas sabendo que poderia renovar o meu autocompromisso de ficar vinte e quatro horas sóbrio, e foi assim que eu cheguei em casa com uma vitória: não bebí hoje. Estou sóbrio há uma semana e vou ficar por mais um dia.
Por essa razão é que escreví esta carta, só para não esquecer de nenhum detalhe, para lembrar a mim mesmo e aos companheiros de que é possível, um dia de cada vez. Foi um dia difícil de manter o compromisso, mas a reunião tornou isso possível. (Anônimo)
Vivência – Janeiro/Fevereiro 2002
Como Funciona o EGO
“Façamos a experiência dizendo em voz alta: – eu não posso beber e – eu não quero beber! Qual das duas frases tem mais força?”
Ouço com freqüência vários companheiros dizerem “eu não posso beber”. Não seria mais interessante dizer “eu não quero beber”?
Façam uma experiência: pronunciem essas duas frases em voz alta; deixem-nas ecoar na mente e percebam quanto a segunda é mais forte; como ela transmite certeza, convicção, positivismo, enquanto a primeira deixa transparecer uma certa dúvida, um quê de incerteza.
Além disso, “eu não quero beber” sugere decisão consciente e firme por parte de quem emite a frase, ao passo que “eu não posso beber” pode fazer pensar em uma atitude de fora para dentro, uma decisão que uma pessoa toma por outra.
Buscando apoio para essa distinção que faço entre querer e poder, procurei auxílio no dicionário e lá descobri que querer, dentre outras coisas, é “ter ou manifestar vontade firme e decidida” e que poder é, dentre outras coisas, “ter força, ou energia, ou calma ou paciência para”.
Se analizarmos atentamente as duas definições, veremos que a primeira, a priori, não permite falhas nem vacilos, pois parte de um desejo firme e honesto, o qual, aplicado a nós, se traduz num desejo firme e honesto de não ingerirmos bebidas alcoólicas. Já a segundo amostra um estadoe/ou virtudes que podem, em determinados momentos de nossa vida, falhar, constrangendo-nos, fazendo-nos duvidar ou vacilar diante de nossa escolha inicial. Essa pequena discussão pode parecer inoportuna ou sem propósito, mas quero lembrar-lhes que, segundo alguns autores (opinião, diga-se de passagem, compartilhadas por mim), a palavra possui um grande poder, sendo capaz de derrubar ou erguer qualquer indivíduo.
Partindo dessa premissa e da definição de querer, quando digo “eu não quero”, estou fortalecendo em mim uma idéia que, para a grande maioria de nós, foi construída sobre uma base de muito sofrimento, tanto pessoal quanto daqueles que se encontram ou se encontravam conosco.
Para nós, alcoólatras em recuperação, esta vida de abstinência e de busca de sobriedade é uma construção que se realiza a cada período de 24 horas em que nos mantemos sóbrios. Sendo uma construção, tem como pedra fundamental a admissão e a aceitação da nossa impotência perante o álcool.
Quando iniciamos nossa caminhada, é compreensível que utilizemos o verbo poder, pois ainda temos a nos sondar a mente algumas incertezas e medo que nos conduzem a duvidar do nosso sucesso na empreitada iniciada.
No decorrer das 24 horas, porém, fortalecemos o nosso ideal, retiramos das nossas reuniões os materiais de que necessitamos para erguer uma sólida construção e, então, passamos a utilizar o verbo querer, que traz em si, como já foi dito, uma fonte de convicção de que conseguimos e de que conseguiremos vencer este obstáculo, o Alcoolismo.
Responder a alguém que nos pergunta se queremos ou não beber com “não posso” ou “não quero” dependerá da circunstância, do momento, porém, em minha opinião, ao dizermos “não quero”, estamos afirmando, sem sombra de dúvida, ao nosso interpelador e a nós mesmos que estamos convictos, da nossa posição.
(Revista Vivência nº 97, página 17 e 18)
De que cor é a sua sobriedade
Quando tinha três meses de sobriedade e após lutar por muito tempo contra o alcoolismo, o estresse e a tensão em minha casa eram insuportáveis. Temia fracassar no meu casamento, perder meu lar e minha segurança, mas estava disposta a fazer tudo o que fosse possivel e necessário para manter-me sóbria. Tinha meu marido, com o qual estava casada há quinze anos, e dois filhos (de seis e de nove anos). Porém, o silêncio do meu esposo e o distanciamento que sentia dos meus entes mais queridos eram horríveis. Eu não sabia se a recuperação, que era tão boa para mim, seria boa também para eles.
Estava terminando de assistir a minha nonagésima reunião em noventa dias, e ia em direção a uma reunião de mulheres, querendo que a minha família me apoiasse e ajudasse a encontrar o que chamamos de recuperação. Senti-me culpada por sair de casa nessa noite, depois de lavar os pratos sujos do jantar. Meus filhos me puxavam pela manga para que jogasse com eles, ou lesse uma história, ou fizesse qualquer coisa, contanto que não os deixasse sozinhos. Então, eu os imaginava com o meu marido, assistindo televisão num estado comatoso ou de torpor. Eu queria tanto que eles conhecessem o amor que eu sentia nas reuniões, que eles houvissem como honestamente compartilhávamos nossas experiências, que sentissem o que sentem as famílias unidas. Meu marido não acreditava que eu fosse uma alcoólica, acreditava apenas que eu bebia em demasia e que se não bebesse tanto me sentiria melhor. Ele não entendia o alcoolismo. Não queria saber de nada a respeito do Al-Anon ou de ler os panfletos sobre os cônjuges. Sua recusa era profunda.
Naquela noite em particular, cheguei em casa me sentindo tranqüila, como se houvessem tirado uma carga dos meus ombros – como geralmente me sinto após uma reunião de A.A. Minha filha de seis anos então chegou correndo, saltou nos meus braços e pôs as pernas em torno de minha cintura. Disse: “Mamãezinha, de que cor são essas salas aonde você vai?”
Pensei por um minuto e acreditei me lembrar que eram verdes, mas respondi com outra pergunta: “De que cor você imagina que elas são?”
– “Amarelas!”, exclamou.
– Perguntei então para ela: “Por que você acha que são amarelas?”
Sua resposta mudou o curso da minha recuperação. Sem pestanejar ela respondeu: “Porque você sempre volta para casa radiante e fulgurante!”
– Sim, isso é o que ela via, então valia a pena. A luz do espírito brilhava através de mim e minha filha podia vê-la. Essa foi uma das primeiras demonstrações que recebí da minha família.
Posteriormente, confirmei que a sala onde estivera naquela noite era verde. Por um tempo não pude voltar a esse grupo, mas, seis meses depois, pediram-me que compartilhasse minhas experiências lá. Entrei na mais acolhedora sala pintada de amarelo que se possa imaginar e, imediatamente, sentí um calafrio, que agora chamo de “despertar espiritual”. Compartilhei minha experiência, força e esperança, com amor transbordando do meu coração, com aquelas formosas mulheres em recuperação.
Essa história se transformou numa parte da minha recuperação. Tudo isso ocorreu faz muito tempo, contudo, assisto de três a quatro reuniões por semana, porque ainda desejo a recuperação e estou muito agradecida. Estou me recuperando de uma enfermidade aparentemente incurável, e não tenho sentido a necessidade de beber desde o dia 13 de setembro de 1979. A minha querida filha já é uma mulher, porém, é uma filha que me dá o seu amor. (La Viña, setembro/outubro de 1999)
(Vivência nº 65 – maio/junho 2000)
A Tática do Avestruz
Nas arquibancadas do estádio do Maracanã existem balcões onde se vende cerveja durante os jogos de futebol. Reparem como lá ficam pessoas bebendo o tempo todo, de costas para o campo. Para assistir ao jogo, bastaria virar o corpo – mas não o fazem. Talvez não gostem de futebol? No entanto, afirmam categoricamente ser torcedores ardorosos de um dos times e não perderiam uma partida por nada deste mundo.
Vejamos outra cena, um dia de verão, na praia: muita gente passa o dia todo bebendo, debaixo de barracas quentíssimas, sem pegar sol ou cair na água. Apesar disso, dizem adorar uma praia, a ponto de freqüentá-la todo fim de semana.
Estas situações refletem o mais constante sintoma da doença alcoolismo – a negação – e podem até ter algo de engraçado, mas constituem verdadeira tragédia para o alcoólico, que freqüentemente morre negando sua enfermidade.
A experiência mostra só se recuperar aquele que for capaz de ultrapassar esta formidável barreira, ao conseguir admitir-se impotente frente ao álcool.
Ao negar sua perda de controle, o alcoólico não é mentiroso, pelo menos conscientemente, mesmo porque esta perda acontece de forma lenta e progressiva. No inicio, ainda há algum controle, com ele bebendo só nos fins de semana ou após certas horas do dia. Aos poucos, o doente vai, porém, criando um manto de fantasia, que o faz ser o primeiro a acreditar não ter problemas com álcool.
Trata-se de um mecanismo psíquico de proteção, para enfrentar a dura realidade de estar tendo comportamentos irresponsáveis.
Paradoxalmente, não consegue viver sem a bebida, mesmo reconhecendo ser, em certas ocasiões, o consumo exagerado. A explicação, para ele, está nos sérios problemas que vem enfrentando no momento; se os problemas desaparecessem, voltaria a beber controladamente.
Assim, enquanto aguarda o milagre, vai bebendo cada vez mais.
Este mecanismo de negação, que se desenvolve dentro da personalidade do individuo, não se limita apenas à afirmativa, para si e para os outros, de que não é alcoólico. È necessário também inventar uma série de desculpas, para manter uma aparente lógica nas coisas que se anda fazendo.
Este manto de fantasia, fabricado por ele mesmo, fica cada vez mais duro, mais resistente, até isolar o doente do mundo real, como se fosse uma larva do bicho-de-seda envolvida no casulo.
É claro que as coisas continuam existindo como são, o emprego, a família, os amigos, mas tudo isso torna-se a cada dia menos importante. Os mais íntimos questionam: “Por que ele faz isso conosco? Será que não gosta mais da gente?” Ou afirmam: “Se você me amasse, parava de beber!” São questões que incomodam, despertam sentimentos de remorso, culpa e autopiedade, mas não sabe resolver, por julgar impossível separar-se do companheiro álcool. Então ele nega os fatos, inventa justificativas, faz promessas as quais não consegue cumprir, tudo o que for possível para se fechar cada vez mais dentro de um outro mundo, só existente no seu delírio – mas que é só seu, seu mundo de negação.
Para conviver melhor com sua fantasia, o alcoólico passa a só freqüentar lugares onde haja bastante bebida e selecionar amizades entre gente que também bebe. Se for convidado para um aniversário de criança, sabendo que só vai encontrar bolo de chocolate e coca-cola, recusa, dizendo não ter paciência para agüentar este tipo de festa. Mas é capaz de pegar 3 ônibus para ir a um churrasco na casa de um desconhecido. Pensa em álcool todas as horas do dia: quando será que vou poder tomar a primeira? A que horas o bar do hotel fecha? Não esquecer, os supermercados fecham aos domingos! Lá no sítio vai ter bebida? È melhor garantir, levando uma garrafa na mala!
Para melhor entender o processo, substituamos a palavra “álcool” por “azeitonas”. Quando será que vou comer a primeira azeitona hoje? Será que lá no sitio há azeitonas? É melhor garantir: levo umas latas na mala! Fica bastante estranho: qualquer pessoa que só pensasse em azeitonas seria identificada como portadora de um problema psíquico. Mas o dependente químico do álcool continua afirmando ser normal seu comportamento.
Na tarefa de continuar negando seu alcoolismo, o alcoólico tem também de aprender a ser esperto, desenvolvendo a habilidade de esconder o quanto anda bebendo. Muitas vezes pára de beber dentro de casa, mas a toda hora tem de sair para comprar cigarros. Na rua, freqüenta muitos botequins, evitando tomar mais que duas ou três doses no mesmo lugar, para não ser identificado como beberrão. Às vezes começa a beber em um bairro, termina em outro. Bebe no bar, antes da festa, para dar a impressão de estar bebendo pouco. Escolhe vodca, porque ouviu dizer que não dá cheiro. Anda sempre com balas e pastilhas de hortelã, para disfarçar o hálito. Enfim, esconder seu alcoolismo dos outros passa a ser procedimento de rotina, a ocupar boa parte da sua atenção.
Já para provar a si mesmo não ser alcoólico, os mecanismos de negação são outros:
• 1. Tenta beber menos quantidade, embora com a mesma freqüência.
• 2. Tenta beber com menos freqüência, embora a mesma quantidade.
• 3. Tenta não beber durante a semana de trabalho, mas fica contando os dias e horas que faltam para a sexta-feira chegar.
• 4. Tenta usar outras drogas para diminuir a quantidade de bebida, tomando tranqüilizantes de manhã, para parar de tremer, ou anfetaminas de noite, para poder dirigir o carro.
• 5. Muda a marca ou tipo de bebida, assumindo que a anterior é que lhe fazia mal. Ilude-se trocando um litro diário de cachaça, por 5 litros de cerveja, achando que assim bebe menos álcool. Sendo rico, substitui uísque nacional, por outro importado.
• 6. Fica temporariamente em abstinência, por exemplo, quando internado, para desintoxicar, quando obrigado a tomar antibióticos ou apenas “para dar um tempo”, depois de uma consulta médica preocupante. Estes períodos de abstinência têm data marcada para acabar e seu fim é ansiosamente esperado. Quando terminam, o alcoólico acha que depois de tanto sacrifício agora ele merece tomar “uma só” e tudo começa de novo, detonado pelas poderosas forças da dependência química.
Os períodos de abstinência servem para afirmar e reforça cada vez mais a negação, embora só sejam conseguidos à custa de intenso sofrimento emocional. O objetivo é provar a si mesmo e aos outros não ser alcoólico, que domina perfeitamente a situação e pára de beber quando quer. As frases clássicas são: “Na verdade, eu não preciso beber, acontece que eu realmente gosto de álcool”. Ou então: “Se você tivesse em sua vida os problemas que tenho, iria beber ainda mais do que eu”.
À medida que a doença progride, mais este manto de fantasia impede o doente de ver sua realidade. Ele muda de comportamento e atitudes, perde seus valores, cada vez mais enredado na teia da dependência. Basta ler o Livro Azul de Alcoólicos Anônimos, para ver como duas emoções básicas, orgulho e medo, tão saudáveis quando baseadas em fatos reais, podem tornar-se exasperadas e delirantes, originando as mais variadas turbulências de raiva, inveja, ciúme e ódio.
O alcoólico age ao sabor da primeira emoção descontrolada que lhe vem a cabeça e, quando as coisas não dão certo, bota a culpa nos outros ou nas situações de vida. Expectativas fantasiosas tornam-se regra e, como não se realizam, trazem frustrações, autopiedade e necessidade ainda maior de bebida.
Neste ponto, o manto da fantasia confunde-se com a carapuça da negação, dura, resistente, impenetrável pelo lado de fora, como o casulo. Porem, lá dentro, o bicho-da-seda pode encontrar forças para rompê-lo e, ao livrar-se, sair da escuridão para a luz.
Como o alcoólatra, que, vencendo a negação ao reconhecer sua impotência frente ao álcool, encontra o caminho da recuperação e da vida.
E de repente descobre que não gosta tanto assim de praia, nem de freqüentar o estádio do Maracanã…
Dr. Alberto Duringer
Médico no Rio de Janeiro, Conselheiro no Conselho Estadual de Entorpecentes.
Vivência n° 19 – Janeiro/Março 1992
A Máscara caiu no 1º Encontro
“Eu me preocupava com ele e, no entanto eu também sou alcoólica.”
Foi numa terça-feira, 19h30 cheguei meio sem saber o que esperar, aliás, eu tinha minhas próprias idéias do que encontraria, mas nem de longe poderia imaginar as coisas que eu veria e sentiria naquela noite.
Fui para levar meu marido, porque “ele” era um alcoólico, “ele” não sabiabeber, “ele” tinha que parar, “ele” só me fazia sofrer, enfim, todas asdores, amarguras e frustrações que eu tinha na vida, eram culpa dele.
Eu sempre fui tão boa para ele, sacrifiquei meus sonhos, minhaindividualidade, juventude e liberdade, em nome de um casamento falido e de um homem que não me merecia, nem me dava valor. Esses eram meus reais sentimentos.
Pensava que Alcoólicos Anônimos era algo extremamente machista, cheio de homens humilhados, derrotados e infelizes porque não podiam beber; que já haviam causado tanto sofrimento, que somente juntos poderiam suportar a dor da culpa que carregariam para resto de suas miseráveis vidas.
Mas não foi isso que eu vi.
Para começar, dei de cara com uma mulher coordenando a reunião, o que me pareceu bastante estranho, mas longo pensei: “Claro, só mesmo uma mulher para suportar um monte de bêbados arrependidos”. Percebi que todos estavam arrumados, decentemente vestidos; a sala era aconchegante, e o clima… bem, o clima era para mim, no mínimo, suspeito.
Porém o que mais me intrigou foi o fato de estarem todos alegres; pareciam realmente felizes e orgulhosos por estarem ali, e mais ainda com a nossa presença; sorriam e nos cumprimentavam com visível satisfação, nos deixando muito à vontade.
Eu tinha vontade de gritar-lhes: “Ei, o bebão aqui é ele, não eu”.
Entretanto, estava certa de que isso era tão legível como se uma enorme placa estivesse pendurada em meu pescoço.
Então começou a reunião. Desde o primeiro depoimento, senti que algo estava acontecendo dentro de mim. Senti calor, medo, vergonha, vontade de ir embora sair dali o mais rápido possível; era o que a minha cabeça dizia, mas meu corpo não obedecia, meu coração batia descompassado e por um momento achei que todos olhavam para mim e sabiam de todos os meus “pecados”.
De repente, esqueci-me do motivo que me levou até ali, ouvia atentamente o que um companheiro dizia, e era como se estivesse em frente a um espelho vendo minha própria imagem, ouvindo minha própria voz.
Pela primeira vez, tive coragem de olhar para dentro de mim verdadeiramente e a máscara caiu. Eu era uma alcoólica, não era capaz de controlar meu modo de beber, e o que mais me doeu: tinha causado sofrimento a mim e a outros, inclusive àquele a quem eu de tudo culpava.
Pânico. Essa palavra resume o sentimento que me veio a seguir.
Deram-me café, cercaram-me de carinho e atenção e eu senti que os amava; não os via mais como bêbados derrotados e infelizes; eram alcoólicos em recuperação, corajosos, determinados, vencedores de uma luta diária, contra uma doença chamada alcoolismo.
Eu queria ser como eles, precisava disso, não podia mais mentir para mim mesma, não sabia o que dizer nem o que fazer. Então estenderam-me a mão e disseram-me que tudo seria diferente se eu quisesse, e graças ao meu Poder Superior, eu quis.
Jamais irei esquecer aquela noite. Já se passou um ano e mais algumas 24 horas. Não me preocupo com quantos anos mais virão; o que realmente importa é poder estar aqui hoje, alcoólica em recuperação diária; compartilhar com meus companheiros a alegria de cada momento, e também as tristezas.
“Vivo e deixo Viver”, pois a vida é feita de muitos momentos, e o que faz a diferença é como nos preparamos para eles; não tenho que me preocupar com a vida dos outros e sim, com a minha.
Tudo isso eu devo a Alcoólicos Anônimos e aos meus companheiros.
Tudo é maravilhoso, porém frágil, como frágil é a própria vida, é preciso estar vigilante, perseverante nos meus propósitos para que não me desvie deles.
Espero que este meu sincero depoimento, possa-lhes ser útil e parabéns por esta Revista tão bem feita e tão agradável de ser lida. Esta é a minha humilde contribuição.
Cristina – Vivência n° 93 – Janeiro/Fevereiro 2005
Quero ser meu amigo!
Temos certa dificuldade em colocar no papel os nossos pensamentos e idéias, ou porque não nos sentímos em condições, ou porque nos preocupamos com as críticas que poderemos receber. Mas, quando resolvemos escrever algo a respeito do programa de recuperação a nós sugerido, verificamos que também foi bastante difícil para os nossos co-fundadores sustentarem suas idéias quando ainda estávamos em formação.
Bill W., quando começou a escrever como funcionava o programa de recuperação, através do livro “Os Doze Passos”, procurou base e orientação nos preceitos dos Grupos Oxford, na medicina, na religião e, principalmente, em suas próprias experiências e nas de outros companheiros. Foi muito difícil, para ele, aceitar a idéia de retirar do esboço do livro a palavra “Deus”. Para nossa felicidade, após muito relutar, cedeu às criticas e a situação foi contornada utilizando-se a expressão ” Poder Superior na forma que O concebemos”. Bill nos deixou, com isso, uma grande lição nos dizendo, indiretamente, que temos que ser pacientes e prudentes com as críticas recebidas pois, afinal de contas, não somos perfeitos. Foi pensando nisso que resolvi ser meu amigo.

Para ser meu amigo necessito antes de mais nada, me aceitar como doente alcoólico, entender que minha doença não tem cura, saber que o álcool, realmente, é muito mais forte do que eu. Não adianta continuar lutando contra ele, pois sempre irá me derrotar. Só posso ser meu amigo se compreender que perdi o domínio total sobre a minha própria vida, que atingi meu fundo de poço e, para sair dele, basta dar o “primeiro passo” em direção á recuperação e libertação, passando a gostar de mim, a viver feliz sem o álcool e a ser meu amigo.

Tenho de acreditar na existência de uma força superior a mim, alguma coisa que possa substituir ou preencher o vazio deixado pelo meu alcoolismo. Tenho que acreditar nessa força milagrosa para poder, quem sabe, recuperar minha sanidade mental e espiritual, tenha ou não uma religião definida. Se conseguir um mínimo de fé, certamente conseguirei ser meu amigo, pedirei a essa força superior que “seja feita a Sua vontade” e não as coisas que eu desejo.

Para ser meu amigo, tenho de entrar em ação, usar a chave da boa vontade para abrir a porta da minha recuperação, deixando que entre essa força milagrosa e me dê a oportunidade de entregar a minha vida aos Seus cuidados. Tenho de aceitar a minha dependência a uma força superior que me levará cada vez mais para minha independência dentro do programa de recuperação, e não ao fanatismo.

Para ser meu amigo, antes tenho de tentar ser amigo da pessoa que vejo no espelho do meu quarto quando vou pentear os cabelos. Preciso aceitá-lo como ele realmente é e não como os outros querem que ele seja. Só posso ser meu verdadeiro amigo tentando fazer o meu próprio inventário, moral e pessoal, e não o inventário de outros companheiros de doença. Se eu conseguir entender a real necessidade desse inventário pessoal diário, vou modificar, lentamente, a minha maneira doentia de pensar e agir no meu dia-a-dia, vou viver o meu programa de recuperação, mantendo minha doença estacionada.

Poderei continuar sendo meu amigo, me dando conta da necessidade que tenho de admitir perante outro ser humano e a essa força superior, como eu entendo, a natureza exata das minhas falhas. Procuro escolher a pessoa certa para fazer o meu desabafo pessoal, pois a experiência me mostrou que eu não posso viver sozinho com os meus problemas. Preciso falar com alguém a esse respeito, alguém de minha confiança que saberá me ouvir, me entender e me aceitar como eu realmente sou.

Para ser meu amigo preciso estar consciente de que a força superior na qual acredito e tenho fé saberá muito bem a maneira como estou me prontificando a deixar que Ela remova todos os meus defeitos de caráter, embora eu saiba que alguns defeitos dificilmente consiga remover de imediato, talvez leve algum tempo e talvez nem consiga. Devo ter consciência de que não vou chegar à perfeição; somente o Primeiro Passo, onde nós admítimos inteiramente a nossa impotência perante o álcool, pode ser praticado com absoluta perfeição.

Para ser meu amigo tenho que tentar ser humilde e não orgulhoso, e como tem sido difícil para mim, me policio em todos os momentos da minha vida. O orgulho é, na realidade, viver a mentira: bebo quando quero, paro quando quero, bebo com meu dinheiro, não falta nada no meu lar, sou dono do meu nariz, posso me virar sozinho sem a ajuda dos outros. A humildade é viver a verdade: sou impotente perante o álcool, não consigo parar sozinho, preciso de ajuda, estou derrotado, meu lar desmoronou, aceito um Poder Superior a mim, sou meu amigo e gosto de mim, sou feliz fazendo o programa de A.A.

Sou meu amigo fazendo uma relação, não ordenada nem apressadamente, das pessoas que prejudiquei com meu alcoolismo. Me dispondo a reparar os danos causados a elas, tendo cuidado, e muito cuidado, para não causar danos maiores com tais reparações. Elas poderão não entender o meu objetivo , tenho de agir com cautela, coragem e muita prudência.

Para ser meu verdadeiro amigo tenho de, através da prece e da meditação, procurar o meu contato com essa força superior, pedindo apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a mim, pedindo forças para que possa realizar essa vontade. Agindo dessa maneira, aceitarei a Oração da Serenidade e, quem sabe, a Oração do Pai-Nosso, que foi atribuída, há algumas centenas de anos, a um homem considerado santo.

Serei muito mais meu amigo se procurar, à minha maneira, experimentar um despertar espiritual através do programa que me foi sugerido e aceito, tentando transmitir a mensagem para outras pessoas com o mesmo problema, dando a elas a mesma oportunidade de conhecer essa maravilhosa filosofia de vida. Ter a alegria e a felicidade de continuar vivendo e deixando que os outros vivam em paz.

Tenho plena certeza que, não existe coisa melhor no mundo do que estar sóbrio, estar feliz, poder amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, ser aceito como somos e aceitar os outros como eles são, ser amigo de nós mesmos e dos outros.

Por todas essa justificativa é que eu quero cada vez mais ser meu amigo .
(Cunha, Porto Alegre/RS)
(VIVÊNCIA – Janeiro/Fevereiro 98)
O Jovem em AA
Em A.A. somos todos jovens, pois nos renovamos a cada 24 horas.
O conceito de juventude dentro de A.A. trouxe um sentido diferente para o meu modo de entender o “ser jovem”.
Cheguei em A.A. aos 33 anos e na bagagem, além de muitos sofrimento, guardava grandes frustrações pelo fato de não haver construído nada de concreto em minha vida.
Comparava-me com amigas que trilharam caminhos saudáveis e que, com a mesma idade que eu, já tinham definidas suas profissões, além de terem constituído família e gerado filhos.
No meu passado alcoólico ativo, enquanto essas mesmas amigas construíam seus sucessos oriundos de esforços e restrições comuns, eu simplesmente escolhi os atalhos de uma vida sem compromissos, sem regras ou planejamentos. O pioe é que me via em melhor lugar do que elas. Achava que elas estavam perdendo tempo e eu, ganhando a vida!
O álcool me facilitava obter “status” de mulher independente, corajosa e à frente do meu tempo, pois vivia em núcleos de pessoas ligadas à arte, música, teatro e nesse universo tudo parecia ser fácil, leve e solto!
Pregávamos a paz e o amor livres e mal sabíamos quão prejudicadas éramos por “coisificarmos” nossas relações com as pessoas.
Sim! Estabelecíamos relações descartáveis e a prática do hedonismo era a filosofia de vida daquele meu tempo.
Assim segui durante a minha juventude, devastando pessoas (especialmente a mim mesma) e afetos, em nome de minha liberdade.
Justificava meu comportamento alcoólico que se manifestava na dificuldade de adequação, de concentração e na desobediência aos códigos sociais,dizendo que eu estava além daquilo tudo e que meu espírito era livre demais para pertencer a algum sistema retrógrado como o da sociedade patriarcal. Não me submetia a relacionamentos duradouros nem às normas de conduta. Além de vociferar contra o sistema educacional e de me rebelar contra professores e diretores na época da faculdade; eu a interrompi por duas vezes: frutos amargos que colho por ainda estar suspensa esta etapa da minha vida.
Fundamentei meus conceitos acerca de ser jovem e mulher em parâmetros e códigos totalmente distorcidos. A ousadia, comum à minha personalidade me levou a aventuras bastante perigosas e toda a minha juventude foi pautada em ações fora da lei, fora de princípios, fora de uma vida serena e pacata. Minha doença pedia muita adrenalina e muito risco de vida. Eu acreditava que possuia vantagens em não ter paradeiro e em não andar na linha.
Ao ingressar em a.A. levou algum tempo para que eu entendesse o ponto de vista dos AAs em relação ao ser JOVEM.
Eu me cobrava muito por ter chegado totalmente destruída e sozinha. Descobri que não construi família nem gerei filhos ou me estabeleci profissionalmente por não ter tido condições emocionais e espirituais para tal e não porque eu NÃO QUIS ou me sentia à frente do meu tempo. Ao contrário do que pensava, eu não era livre e feliz. Seguia a cartilha do alcoolismo, aprisionada e vagueante. Consequentemente me sentia velha demais para começar uma nova vida.
Porém, em A.A. ouvi companheiros que chegaram com muito mais tempo de vida que eu: aos 50, 60, 70 anos de idade e que ainda tinham o brilho e esperanças comuns à juventude. Diziam que sua vida havia começado ali em A.A. e comemoravam seu tempo de sobriedade como se fosse o tempo em que começaram a viver. De fato é isso!
Em A.A. somos todos jovens, pois nos renovamos a cada 24 horas.
Tento me valer do meu tempo em A.A. e aqui estopu no meu primeiro ano de vida: um ano em que venho recebendo dádivas e condições emocionais de me perdoar por tanto tempo outrora perdido. Os “menos jovens” que eu na Irmandade abastecem meu ser com doses singelas de otimismo e amor.
Ainda há tempo?
Sempre há tempo para construir ou reconstruir a vida.
Os mais jovens que eu mostram que as mazelas da vida alcoólica continuam iguais ao meu tempo e que o álcool mantém seu império devastador.
É bonito ver jovens e antigos se aliando na jornada da recuperação.
A nova vida de a.A. permite que nos igualemos na escala do tempo.
É como se zerássemos o cronômetro e dali – do ponto inicial – jovens, antigos, mulheres e homens iniciássemos nossa nova caminhada.
O Poder Superior nos concede, independentemente da idade, a chance de usufruir a plenitude da vida – sem os ditames do álcool.
Juliana/Rio de Janeiro/RJ
Vivência nº109 – Setembro/Outubro/2007.
O Corrimão
Aqui, a Terceira e a Sétima Tradições de A.A. permitiram tomar um cuidado especial a fim de assegurar a recuperação de todos – sem exceção!
Estou no meu grupo base há alguns anos e, na época em que cheguei, funcionávamos numa paróquia, sem auto-suficiência. O fato é que, a cada dia, precissávamos “levar” a reunião para uma sala diferente. Até que um dia fomos obrigados a passar num meio de um velório pra chegar a sala onde faríamos a próxima reunião. Essa foi a gota d’agua que faltava para que começássemos a pensar e agir pelo nosso bem-estar comum.
Iniciamos fazendo arrecadações para a nossa reserva prudente. Depois de alguns meses já tinhamos o suficiente para alugar uma sala. Os companheiros foram ver o local e era exatamente o que precisávamos. Então um deles disse: “Antes de qualquer coisa precisamos colocar aqui um corrimão, pois no grupo temos um companheiro com deficiencia física que não teria condições de chegar até a sala sem esse equilíbrio.
E assim foi. Alugamos a sala, de 35 metros quadrados, e a primeira providência foi a colocação do corrimão. E no dia 13 de maio de 1995, nosso grupo passou a funcionar ali.
Porém, com o tempo, a sala foi ficando pequena e então o proprietário nos ofereceu duas salas conjugadas que perfaziam 100 metros quadrados, no mesmo prédio. Eram muito baixas e sem ventilação, além de estarem sem uso há cinco anos, mas o proprietário se comprometeu a fornecer todo o material necessário para uma reforma. Nós topamos! Afinal, temos no grupo pedreiros, encanador, eletrecista, servente e outros.
Assim no dia 25 de julho de 2000, mudamo-nos outra vez. Hoje, nosso grupo funciona nesse espaço confortável, numa sala de reuniões com capacidade para até 70 pessoas sentadas e outra para recepção, com cozinha, banheiros feminino e masculino e espaço para o cafezinho.
Hoje sou RV do grupo e o corrimão continua lá, me ajudando a subir o lance de escadas para assistir as minhas reuniões. Obrigado aos companheiros (as) que pensaram em mim!
(Depoimento de Ovives)
Recaida não consumada
O Décimo Segundo Passo funciona…
Em primeiro lugar, quero agradecer ao meu Poder Superior e a A.A. por mais vinte e quatro horas de sobriedade.
Depois de uma recaída brava, voltei para Alcoólicos anônimos em setembro de 1993, disposto a acatar as sugestões dos companheiros.
No mesmo mês ainda encontrei um trabalho que achava não estar à minha altura, mas que deveria aceitar, pois tinha que começar tudo de novo. Foi bom. No grupo me integrei aos serviços mais humildes – divulgação no SOS (para itinerantes), café, limpeza e também foi bom; tive a oportunidade de retomar aos meus estudos e, em março de 1994, estava voltando dois dias por semana para a escola, o que me ajudou bastante. Até consegui um emprego melhor.
Naquele ano (1994) tive contato, através de um ciclo, com os doze Passos e voltei com toda vontade de vencer e melhorar. Mas dentro de casa, ainda queria ser aquele que mandava. E, é lógico, as brigas continuavam. Ainda não tinha feito uma retrospectiva: quando eu bebia? Por quê?
Em janeiro de 1995, sábado de muito calor, após uma briga acalorada com a minha esposa, sai de casa sem rumo, derrubando a porta. Cheguei ao centro da cidade e uma compulsão para beber tomou conta de mim, ficando difícil controlar. Em minha mente se misturava A.A., família, bebida, etc.
Em determinado momento fiz a Oração da Serenidade, roda desconexa. Até sem conseguir ordenas meus pensamentos, caminhei como um sonâmbulo, e naqueles momentos lembrei-me que deveria estar acontecendo uma reunião do Distrito. Fui até o grupo e, para minha salvação, estavam ali diversos companheiros. Fiquei.
Depois da reunião, assisti outra à noite, de recuperação. Às 23 horas um companheiro me disse: “Trate de pensar no que fez durante esses últimos dias, veja o que levou você a ter essa compulsão e evite isso daqui para a frente.”
Hoje em dia, assim como evito o primeiro gole, evito discussão dentro de casa, evito excesso de calor, e no momento estou aprendendo a lidar com dinheiro no bolso. E o melhor de tudo, estou aprendendo com a minha experiência. Minha e de meus companheiros, que continuam me ajudando para permanecer sóbrio por mais vinte e quatro horas.
(Anônimo do Sul)
Revista Vivência nº 70, pág. 16
Reivência nº 70, pág. 09
Mulher e Alcoólica
A boa acolhida da Irmandade ajudou a amenizar o impacto de saber-se doente.
Casei-me muito jovem, aos quinze anos de idade. Fiquei sete anos casada e tive um casal de filhos. Nessa época eu trabalhava num hospital e me sentia realizada profissionalmente. Fiquei sozinha por um tempo, depois conheci alguém e vivemos juntos por cinco anos, gerando minha filha caçula. Já tinha começado a beber, misturando com remédios. O tempo passou e desci ao fundo do poço. Já separada novamente, juntei-me a uma turma “da pesada”.
Tentei acabar com minha própria vida, mas não consegui. Cheguei a ser processada por conta de meus episódios de agressividade.
Um dia, resolvi ir a uma Igreja Batista, e lá conheci meu atual companheiro, que desde o início me incentivou a deixar de beber. Até me propôs uma internação, mas eu recusei, pois não queria ficar longe de meus filhos. Foram dois anos de muita luta. Este meu companheiro falou-me de alcoólicos anônimos. Acabou me trazendo um livrete da Irmandade, que li e que despertou o meu interesse, mas eu ainda relutava.
Até que, já cansada, resolvi escrever para a junaab, contando todo o meu desespero e, pedindo ajuda. Logo recebi resposta. Fui tratada com muito carinho e atenção. Recebi uma revista VIVÊNCIA com o tema “Mulher”, que falava sobre o alcoolismo feminino. Eu não sabia que existiam mulheres com o mesmo problema que eu tinha. Assinei a Revista. Tenho mantido correspondência com a junaab, o que me dá muita força.
Recentemente recebi uma carta na qual, com muito orgulho, sou chamada de “companheira”, pois faço parte do cadastro de participantes da RIS (Reunião de Iternacionalistas e Solitários de A.A.), que é eficiente na minha recuperação.
Espero continuar em sobriedade no programa de A.A., pois para mim ele funciona de verdade. Agradeço a um Poder Superior e à Irmandade. E a todos deixo o meu forte abraço, com votos de felicidades de uma consciência sã.
(Lenice. Santana da Vargem/ MG)
Revista Vivência nº 70, pág. 17
Jovens, sejam bem-vindos
Existe “vida” sem álcool e drogas!
Há um bom tempo venho observando a mudança na freqüência às reuniões de A.A.
Antigamente, os companheiros tinham que beber muito tempo para procurar ajuda. Eram alcoólicos e em geral demoravam a entrar em A.A., pois só o uso do álcool demorava mais a detonar o organismo. Quando vinham para a sala, em geral estavam com certa idade, já haviam “queimado suas velas” e as deixado no “toco”.
De uns tempo para cá a freqüência nas salas é outra; há mais jovens devido ao uso concomitante com drogas ilícitas.
Sabemos que o uso de drogas ilícitas derruba mais rápido do que o uso do álcool; o estrago atinge proporções assustadoras.
O número de pessoas aumentou devido ao aumento da população, da divulgação da programação, da liberação do álcool tanto incentivado em comerciais. Com isso, vemos salas de A.A. e N.A. quase todas lotadas, mas vemos também número proporcional ao crescimento de recaídas.
Como coordeno as “Reuniões de Novos” na sala de A.A. do Grupo que freqüênto já algum tempo percebi a dificuldade dos jovens em permanecerem sóbrios.
É muito mais fácil para uma pessoa de quarenta anos se fechar, em casa, evitar velhos caminhos, bares, companhias, etc. Mas, para os jovens, a coisa fica mais complicada… Eles estão no ápice da idade, baladas, escola, faculdade, lugares regados a álcool e drogas. Então as tentações, os estímulos são bem maiores do que para uma pessoa de quarenta anos, que passou por tudo isso.
Percebo a dificuldade em se “trancarem” em casa, evitando tudo e todos. E em geral, quando abrem a “gaiola” e se arriscam aos velhos caminhos, uma balada, por exemplo, voltam depois de um tempo… recaídos.
Quando um jovem avisa em partilha que vai a uma balada, que já se sente preparado, uma luz se acende em minha mente, e percebo que muita gente, inclusive eu, tenta mostrar a esse jovem, que todo cuidado é pouco e em geral, percebemos que a pessoa está indo para beber e usar, mas não tem consciência disso e como somos impotentes, ficamos no aguardo, orando sabendo que as chances de voltarem sóbrios é pequena.
Procuro dar as sugestões que recebi quando ingressei; se for voltar aos estudos, espere um ano, pelo menos. Explico que quando ingressamos em A.A. e experimentamos a sobriedade, depois de um tempo curto nos sentimos aptos a fazer tudo; sentimos o prazer de ver a vida sem o álcool e as drogas; queremos recuperar logo o tempo perdido e é ai que nos perdemos.
Insisto e persisto e não desisto de falar aquelas “velhas” sugestões de evitar os velhos caminhos e explico que os velhos caminhos é amplo: são caminhos-lugares, são caminhos-amizades, são caminhos-hábitos; a palavra é no sentido ampliado. Quando for que vá irmanado.
Muitas vezes só duas pessoas irmanadas, nesta situação, dois “novos” de programação também não funciona. O ambiente pesado, muito álcool, drogas, e dois iniciantes que se sentem fortes, mas na verdade estão frágeis naquela situação de entusiasmo e euforia; é grande a chance de recaída dupla.
Então, sugiro irem em bandos… Explico melhor – comecei a unir os jovens e os levei a uma pista de patinação no gelo que estava instalada no Shopping: fomos em bando e nos divertimos muito… Fomos no boliche, também em bando: churrascos, aniversários, sempre todas as mesas regadas com muito suco, refrigerantes e água em abundância e foi uma alegria. Fomos comer pizza, viajar, mas antes íamos à reunião de A.A.; ligados na programação, um auxiliando o outro, bem na expressão que uso “Me Empurra que Eu Te puxo”.
Conseguiram perceber que não estão sós apesar de terem sido privados , por evitarem lugares que estimulam o uso. Hoje não estão mais sós! Têm amigos, os de A.A.. Então, aos poucos esse hábito entre eles foi criado e os novos que vão chegando, são levados pelos “menos novos” de sala, mas novos na idade, a se juntarem… E eu brinco: – “junte-se aos bons”…
Muitos programas sadios são feitos entre eles. O temido final de semana, antes em bares junto a alcoólicos e drogados; a solidão doída, fechados em casa, impossibilitados de sairem, hoje já não é tão temida entre eles, pois estão juntos num só propósito de se divertirem sem a necessidade de qualquer substância que altere seus humores.
Descobriram que existe “vida” após o álcool e drogas: existe alegria e felicidade sem terem que usar nada!
Martinha/São Paulo/SP.
Revista Vivência nº 109, pág. 07/08

Mente
O conhecimento e avaliação de Alcoólicos Anônimos é necessário para aqueles que tenham um grande desejo de ajudar o alcoólico, porque o amam ou vivem com ele. Observando como e o que A.A. faz por ele, entendemos do que ele precisa, e principalmente aquilo que não podemos dar a ele. Tenho uma profunda e abrangente convicção a respeito de Alcoólicos Anônimos – eles são teoricamente confiáveis, racionais e, na prática, impressionantemente bem-sucedidos.
Meu relacionamento com A.A. é o do psiquiatra que teve acesso em primeira mão a seus milagres. Nós, psiquiatras, estamos habituados a milagres. Não existe para um médico satisfação maior do que o crescimento sólido do paciente – antes de ser um miseravelmente confuso, infeliz e medroso – em direção à saúde e autoconfiança. Como terapeuta, costumo ver com frequência a profunda reeducação emocional (que chamamos de psicoterapia ou psicanálise) tomar conta, aprofundar-se, crescer e solidificar-se na direção da maturidade.

Por que não é possivel fazer isso pelo alcoólico agudo? E por que A.A. pode? Por que quase sempre é certo que o alcoólico agudo ou bebedor-pesado – cheio de ira, confuso, quase sempre sem dinheiro, irrascível, desesperado, escondendo uma profunda sensação de baixa auto-estima por trás de uma atitude de arrogância defensiva – não é um candidato à psicoterapia? Ele precisa de ajuda. Por que resiste então a ela? É surpreendente para mim, agora, que nós psiquiatras não tenhamos visto o porquê antes. O alcoólico não consegue confiar em nós e nem em ninguém. O primeiro passo em qualquer psicoterapia é estabelecer o que chamamos de “transferência”. O paciente transfere para nós o propósito de uma educação emocional, extremamente similar ao da criança na primeira infância, além de uma abrangente confiança no terapeuta, para que possa retomar novamente sua caminhada ousando desta vez, viver, ser ele próprio, cometer erros, fazer questionamentos, aprender e acreditar que não será abandonado e que nós o ajudaremos na sua busca de um novo crescimento.

No início de sua recuperação, o alcoólico não consegue confiar em ninguém; é difícil para ele amar e confiar até mesmo em um Deus, uma vez que ele O teme. Isso me faz lembrar da profunda verdade que existe na frase: “Se um homem não ama seu irmão, a quem ele pode ver, como amará a Deus, a quem ele não vê?” O alcoólico não consegue fazer a transferência, não consegue amar nem confiar em seu irmão, não se relaciona como uma criança confiante com o novo médico que se intitula “psiquiatra”.

Entretanto, o alcoólico consegue entreabrir levemente a porta de suas emoções para outro alcoólico. Ele não teme do seu igual nenhuma condenação moral, ou irritante e humilhante indulgência, pois o outro esteve no mesmo inferno que ele. Começa a sentir afinidade por outrem após um longo tempo de solidão. Temos então agora aquilo que os psiquiatra chamam de relacionamento interpessoal. É essa para mim a essência e o alicerce de A.A. : estabelecer e manter relacionamentos humanos.

O próximo grande passo na direção da recuperação é uma perda gradual daquela sensação de ser único e diferente, que muitos pacientes têm. À medida que começa a frequentar as reuniões de A.A. e encontra mais e mais pessoas, vê que o mundo é cheio de bebedores-problema e alcoólicos. Para os amigos e a família ele sempre foi o pária, a catástrofe inaceitável. Mas nas reuniões de A.A. ele ouve sua própria história muitas e muitas vezes. Começa a se sentir livre para tentar entender essa estranha expressão – “bebedor compulsivo”. Até ser chamado de “personalidade adicta” por outro que está no mesmo barco, não o incomoda mais. No meio de tantos companheiros ele ousa fazer o inventário , conhecer mais sua própria personalidade e preparar-se para enfrentar seus pontos fracos, reconhecer sinais de perigo e aceitar as limitações de vida como todos os outros alcoólicos o fazem – evitando o primeiro gole – porque chegou à conclusão de que é um doente (…) (Grapevine, nov/98)
Adele E. Streeseman, M.D.
(Vivência – Set/Out 99)
Cooperação sem Afiliação
Por isso, dentro dos princípios e propósitos que regem a nossa Irmandade, sentimo-nos deveras satisfeitos e agradecidos a Deus, na forma como O concebemos, pela oportunidade de, mais uma vez, poder sentir o calor e a força espiritual desta Augusta Assembléia, atendendo ao chamamento que nos foi feito para dialogarmos sobre o festejado tema “Cooperação sem afiliação”, assunto demasiadamente polêmico, que se nos apresenta por demais fascinante e rico de interpretações.
Ao estudar amplamente a história do A.A., criamos uma maior condição para melhor compreender sua finalidade. Este conhecimento histórico nos permite delinear, ainda que com grande faixa de erro, um perfil de “quem somos, de onde viemos e para onde vamos”.
A compreensão deste fato nos leva a uma verdade maior. Sua existência depende da minha cooperação, enquanto a minha vida depende da sua ajuda, de modo que, ambos, dependemos da cooperação de todos os outros indivíduos, mesmo sem afiliação.
Basta lembrarmo-nos da figura lendária de Robinson Crusoé, para subitamente percebermos que, sem a cooperação de outros, é difícil viver. Pensem em quantas mentes, quantas habilidades, quantas profissões e quantos ofícios são necessários para nos suprir de todas as coisas materiais e de todos os confortos da vida. Olhe ao seu redor; a cadeira em que está sentado, a literatura que está à sua mão, o som que está sendo usado, as lâmpadas e os outros materiais que compõem este recinto; de todas estas coisas necessitamos, e todas resultaram da cooperação de outrem. Assim, a menos que estejamos cooperando para levar a mensagem de que os outros necessitam, nossa sobriedade é desperdiçada e não estamos cumprindo o dever de ajuda mútua, procurando “dar de graça o que de graça recebemos”.
Dessa forma passamos a nos encarar, não como personalidades individuais, mas; como partes componentes de toda uma civilização humana. Somente deste modo compreendemos que somos uma grande família de alcoólatras em recuperação, buscando outros alcoólicos que, agora, neste momento, estão no lugar por onde todos nós passamos, esperando a cooperação de uma mão salvadora para trazê-los ao nosso convívio.
Entretanto, para que isso aconteça, se faz necessário o surgimento do nosso mais alto valor como Irmandade, representado pelo dever da fraternidade. Este sentimento fraternal deve alcançar a todos os seres humanos, portadores da doença do alcoolismo, estejam sóbrios ou bebendo, independentemente de raça, cor, sexo, etc.
Então, como condição primeira para o conseguimento desse estado de equilíbrio, impõe-se a cooperação em forma de obediência, não a obediência servil da afiliação, mas aquela que faz respeitar princípios e, também, a razão de todos e de cada um. Só assim, seremos livres e, portanto, bem orientados pelos ditames da consciência, a fim de que não sejamos indiferentes com aqueles portadores da nossa mesma doença, e que, como nós, precisam ser salvos desse flagelo da humanidade chamado alcoolismo. Feitas as considerações pertinentes, resta-nos à luz da nossa literatura passar ao ponto axial deste tema o qual se prende não só ao que se deve fazer, mas, principalmente, a forma como deve ser feita e por quem, de modo que possamos manter o princípio da cooperação com todos os segmentos da sociedade, sem o perigo desastroso da Afiliação.
Quem acompanha a nossa história, sabe que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos teve seu início ligado a grandes amigos e beneméritas instituições de tratamento. Sem a cooperação desses notáveis colaboradores, a história de A.A. teria tomado um rumo diferente e, talvez, esse grande empreendimento de recuperação de alcoólicos, tivesse perecido em seu nascedouro.
Inicialmente, temos a figura impar do Dr. William Ducan Silkworth – “o doutorzinho que adorava os bêbados” – tido como a pessoa que conhecia mais de perto o problema alcoólico do nosso co-fundador Bill. Daí a sua serenidade diante do estado de desespero de Bill, quando do seu despertar espiritual no Towns Hospital, em dezembro de 1934. Foi o Dr. Silkworth o incentivador permanente de Bill em sua notável caminhada que aproou na fundação dessa Irmandade salvadora de nossas vidas.
– “Não Bill, disse ele, você não está com alucinação; seja o que for que você tenha tido, é melhor se apoiar nisso; isso é muito melhor do que aquilo que você tinha há somente uma hora atrás”. Como resultado destas palavras animadoras do Dr. Silkworth, Bill parou de beber, a partir daquela data, levando sua sobriedade ao túmulo, no dia 24 de janeiro de 1971.
Graças ao Poder Superior, ao parar de beber, Bill iniciara um movimento que salvaria a vida de milhões de criaturas, inclusive as nossas. Seis meses depois, é ainda o Dr. Silkworth quem ensina a Bill a fórmula mágica de abordagem, onde ele enfatiza: “pare de lhes pregar sermões e lhes dê primeiro os duros fatos médicos. Isto pode acalmá-los tão profundamente que possam vir a querer fazer qualquer coisa para ficar bem. Então poderão aceitar aquelas suas idéias espirituais e ainda um Poder Superior”.
Foi o Hospital St. Thomas, o primeiro hospital religioso a receber prováveis membros de AA. para um tratamento regular. Nesse hospital se desenvolveu a grande amizade entre o Dr. Bob e a Irmã Ignatia, fazendo-nos lembrar a clássica histórica do primeiro bêbado que ela e o Dr. Bob trataram. Esse bêbado foi introduzido naquele nosocômio pela floricultura do hospital, haja visto que a supervisara da Instituição não estava interessada em alcoólicos, especialmente naqueles que tinham “delirium tremens”. A autora da façanha foi aquela que mais tarde viria a se tornar a notável colaboradora de A.A., a Irmã Ignatia.
Posteriormente, surgiram outros colaboradores, como: “SAM SHOEMAKER, o clérigo episcopal cujos ensinamentos inspiraram os co-fundadores e os primeiros membros de A.A.”. “Padre Ed, o padre católico cuja influência pessoal e trabalho para AA muito tem contribuído para fazer nossa sociedade ser o que é hoje.” “Willard Richardson foi um personagem-chave no crescimento de A.A. Ele representa uma classe de homens a quem Alcoólicos Anônimos muito deve”.
Assim, a história de AA já em seus primórdios, se confunde com a história da cooperação de pessoas e instituições estranhas à Irmandade, mas que nos deram uma ajuda inestimável. Clérigos e leigos, abastados homens de negócios, médicos, instituições públicas e particulares, todos entraram na mesma luta, venderam a mesma idéia, empolgaram o mesmo ideal de levar a mensagem salvadora de A.A. ao alcoólatra sofredor; tudo isto, naturalmente, sem nenhuma afiliação.
Sem sombra de dúvida, foi a Associação Médica Americana, quem propiciou o reconhecimento de AA. como terapia alternativa, para tratamento do alcoolismo pela classe médica. A importância desse reconhecimento tem tido um valor incomensurável para nós. Não menos importante foi o endosso do Psiquiatra Dr. Harry Tiebout, o primeiro a introduzir o A.A. em sua profissão, fazendo-o conhecido. Esse namoro da psiquiatria com o A.A. resultou num casamento indissolúvel, que continua até hoje, para a felicidade nossa e de milhões de alcoólicos que estão necessitando da mensagem.
Entretanto, é oportuno ressaltar que, ao levar a mensagem, se faz necessária a familiaridade com alguns conhecimentos básicos essenciais, próprios da COOPERAÇÃO SEM AFILIAÇÃO.
De princípio somos conscientes de que, “da Unidade de A.A. dependem as nossas vidas e as vidas daqueles que virão. Não importa o que tenha feito ou o que venha a fazer; você é membro de A.A. contanto que você o diga.” Acrescente-se a isso o fato de que “quando duas ou três pessoas estiverem reunidas com o propósito de alcançar a sobriedade, podem chamar a si mesmas de um Grupo de A.A., contando que, como grupo, não tenham outra afiliação. Podemos cooperar com qualquer um, mas o nome de Alcoólicos Anônimos deve ser reservado só para nós”.
Ademais, “nunca devemos usar o nome de A.A., na busca de poder pessoal, fama, dinheiro ou prestígio; no momento em que emprestamos o nome de A.A. para qualquer empreendimento de fora, entramos em sérias dificuldades. “Por isso, quanto mais o A.A. se preocupa com seus próprios assuntos, maior será a nossa influência diante do grande público.” Assim, ´é melhor deixar que os nossos amigos nos recomendem´, pois o A.A. não pode ser conduzido como empresa de espetáculos, mesmo que hajam benefícios a curto prazo”.
Se os nossos pioneiros, na primeira metade do século andaram às apalpedelas, hoje, depois de mais de cinqüenta anos de funcionamento da Irmandade, dispomos de instrumentos modernos e eficazes, de técnicas versáteis para fazer chegar a mensagem a todos que dela precisem e a queiram; hoje temos a eficiência dos Comitês de Informação ao Público CP, de Cooperação com a Comunidade Profissional – CCP e de Instituições CI, este subdividido em Correcionais e de Tratamento.
Comitê de Informação ao Público – CIP: “O CIP” tenta alcançar o alcoólico, tanto direta como indiretamente, de três maneiras:
• a) Informando ao público em geral acerca do programa de A.A.
• b) Informando “a terceira pessoa”, sobre o que é o trabalho e o que pode ser feito com o alcoólico ativo.
• c) Mantendo a Irmandade bem informada, de forma que os membros e grupos possam levar a mensagem mais efetivamente.
Atenção especial será dada aos hospitais, clínicas, sanatórios e casas de repouso, especializados ou não no campo do alcoolismo, cujos diretores e corpo médico receberão informações a respeito da Irmandade, como preparação do ambiente para uma nova visita do CCP que, por sua vez, oferecerá os préstimos do CI”.
Comitê de Cooperação com a Comunidade Profissional – CCP: “Por força da função que desempenha, o CCP deve ter em suas fieiras elementos dotados de capacidade intelectual, apresentação e comunicabilidade, a fim de que possa exercer a contento sua tarefa”. Seus membros terão a função de contatar e transformar em amigos da Irmandade, autoridades civis e militares do Estado e dos Municípios, bispos, grandes empresários, diretores dos hospitais mais importantes, responsáveis por Associações de Classe, instituições assistenciais, etc.
Comitê de Instituições – CI: O primeiro passo junto ao hospital será dado pelo CCP, que contatará com o Diretor ou responsável pela instituição e lhe explicará a respeito do funcionamento da Irmandade e os objetivos do CI, a fim de que possamos obter resultados satisfatórios. Uma vez conseguida a anuência da chefia para iniciar os trabalhos do CI, o CCP providenciará junto ao CIP, tantas palestras quantas forem necessárias ao esclarecimento do pessoal interno da instituição hospitalar em questão, momento em que os companheiros do CI serão apresentados aos funcionários integrantes da equipe médica. Só então, numa terceira etapa, é que os trabalhos do CI serão realizados num sistema de cooperação sem afiliação. Ressalte-se que, enquanto o CIP leva informação ao público em geral e o CI coordena a manutenção dos grupos em instituições de tratamento e correcionais, o CCP leva a informação inicial aos líderes profissionais, em conjunto ou isoladamente.
Outro aspecto de vital importância é o estruturamento de relações e a mútua cooperação sem afiliação do CI com as clínicas especializadas que usam o programa de A.A. no tratamento de alcoólatras, eliminando definitivamente a possível hostilidade que ainda possa existir.
Grupos de Apoio: Como nas atividades normais do CI, a implantação dos grupos de apoio necessita do envolvimento do CCP, no contato inicial com a empresa, bem como a colaboração do CIP, na formulação de palestras informativas sobre o programa de A.A. e a Irmandade, deixando bem explicitado o que pretende e o que pode o A.A. oferecer para um trabalho mútuo de cooperação sem afiliação.
Impossível seria concluir este tema sem fazer referência aos Grupos Familiares de AL-ANON, dada a afinidade “sui-generis” que existe entre as duas Irmandades, ligadas por laços familiares desde suas origens. Entretanto, as Doze Tradições enfatizam que cada uma trabalha mais eficientemente se permanecer separada.
A Tradição Seis, especificamente, diz que o Al-Anon é uma Irmandade separada. Por isso, de acordo com esta Tradição, não pode haver nenhuma afiliação, associação ou união que resulte na perda da identidade de cada irmandade. As regras de separação excluem a afiliação ou fusão, mas não excluem a cooperação com A.A. ou atuação em conjunto para o benefício mútuo. O Al-Anon reconhece com gratidão a contribuição espiritual de A.A. e admite que pode continuar a haver cooperação entre Al-Anon e A.A. mesmo que hajam muitos membros do Al-Anon que não tenham contato com A.A. ou com membros de A.A.
Desta forma, fica suficientemente provado e comprovado que não devemos ter medo de nos aproximar daqueles que conosco podem cooperar; basta que não nos afastemos dos nossos princípios básicos, como visto anteriormente, principalmente das Doze Tradições, na sua totalidade. Podemos, portanto, cooperar e receber cooperação de hospitais, escolas, empresas, órgãos públicos, sem comprometer nossa autonomia e auto-suficiência. O que, na realidade, não podemos é profissionalizar o A.A., deixando de levar a mensagem ao alcoólatra que sofre.
Ao fim, resta-nos somente agradecer a todos aqueles que, direta ou indiretamente, têm cooperado para o caminhar da mensagem de A.A., fazendo nossas as palavras do mui digno Presidente da Junta de Custódios, Dr. José Nicoliello Viotti, in verbis:
“Aos nossos amigos não-alcoólicos, que conosco têm caminhado na colaboração, no entendimento e sobretudo no incentivo à nossa Irmandade, a expressão do nosso respeito pelo trabalho profissional no campo do alcoolismo. Juntos, haveremos de caminhar na realização do nosso objetivo comum: Trazer ao pleno convívio da família e da sociedade o nosso semelhante alcoólico”.
“Mais 24 horas de sobriedade”.
João Costa
(Vivência – Abr/Mai 89)
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O Anonimato – Vivendo as Nossas Tradições
“Em nossas Doze Tradições, temos nos colocado contra quase todas as tendências do mundo “lá fora”. Temos negado a nós mesmos o governo pessoal, o profissionalismo e o direito de dizer quais deverão ser nossos membros. Abandonamos a beatice, a reforma e o paternalismo. Recusamos o generoso dinheiro de fora e decidimos viver à nossa custa. Queremos cooperar com praticamente todos, mas não permitimos que nossa sociedade seja unida a nenhuma. Não entramos em controvérsia pública e não discutimos, entre nós, coisas que dividem a sociedade: religião, política e reforma. Temos um único propósito, que é o de levar a mensagem de A.A. para o doente alcoólico que a deseja. Tomamos essas atitudes, não porque pretendemos virtudes especiais ou sabedoria; fazemos essas coisas porque a dura experiência nos tem ensinado que A.A. tem que sobreviver num mundo conturbado como é o de hoje. Nós também abandonamos nossos direitos e nos sacrificamos, porque precisamos e, melhor ainda, por que quisemos. A.A. é uma força maior do que qualquer um de nós; ele precisa continuar existindo ou milhares de alcoólicos como nós certamente morrerão”.
Bill W.
Eis porque, plenamente solidário com os elevados propósitos e princípios que regem a nossa Irmandade, sentimo-nos verdadeiramente feliz em poder, mais uma vez, earrow2 com vocês, desta feita, para dialogarmos sobre o controverso tema O Anonimato – Vivendo as Nossas Tradições, por sinal, assunto central da 39ª Conferência de Serviços Gerais de A.A., realizada na cidade de New York, no período de 23 a 29 de abril de 1989, reunindo servidores dos E.E.U.U./Canadá.
É oportuno ressaltar que todo cuidado foi tomado para que o nosso trabalho não se confunda com outras interpretações, de modo que, ao inserirmos breves e concisas noções sobre o tema enfocado, o fizemos na certeza de que, aqueles que as aceitarem, terão uma verdadeira compreensão do que fazem e porque o fazem.
Assim, faz-se necessário dizer que, pela simplicidade do trabalho, é bom de se ver que a sua finalidade outra não é senão a de subsidiar e orientar e, por isso mesmo, não dispensa a complementação eficiente de companheiros mais experientes, que vivenciam, com dedicação e zelo, o programa de recuperação oferecido por nossa instituição.
Por isso, imbuído, somente, da intenção de poder ser útil, alimentamos a esperança de que os conceitos aqui expostos sejam resposta para as dúvidas que se nos apresentam no dia-a-dia de nossa recuperação.
Desse modo, para que o tema enunciado seja desenvolvido, faz-se mister a conceituação do que venha a ser Anonimato, razão que nos leva a tentar esclarecer, sem a pretensão descabida da elucidação do termo. Será, assim, este trabalho, um lembrete aos companheiros, para que o tema levantado seja, posteriormente, aprofundado e enriquecido com experiências outras e saberes os mais diversos, sempre visando a ajudar ao alcoólico que sofre.
De uma forma geral, Anonimato é o artifício usado por aquelas pessoas que não querem ser identificadas. Para nós AAs, esse termo tem uma conotação mais abrangente, haja visto que representa o maior símbolo de sacrifício pessoal, a maior proteção que a Irmandade pode ter, a chave espiritual para todas as nossas Tradições e para todo o nosso modo de vida.
Escrevendo sobre o Anonimato, Bill W. diz em certo trecho:
“Começamos a perceber que a palavra anônimo tem para nós uma grande significação espiritual. De maneira sutil, mas vigorosamente, lembramo-nos de que devemos colocar os princípios antes das personalidades; que renunciamos à glorificação pessoal em público; que. nosso movimento não apenas prega, porém pratica uma verdadeira humildade”.
Foi dentro desse princípio, de ajudar anonimamente, que Bill W. recusou o título de Doutor Honoris Causa que lhe fora oferecido por uma Universidade Norte americana; nesse mesmo passo, Bill W. renunciou a grande soma de dinheiro a ele oferecida por companhias cinematográficas norte-americanas, para filmar a sua vida; foi esse mesmo Bill que, recusando o prestígio pessoal, não permitiu que o seu retrato fosse estampado na capa da revista “Times”, quando de uma reportagem que ele solicitara sobre Alcoólicos Anônimos.
De outro lado, temos a clássica história envolvendo Bill, Dr. Bob e alguns de seus amigos. Conta-nos Bill que, “quando se soube com toda a segurança que o Dr. Bob estava para morrer, alguns de seus amigos sugeriram que se erguesse um monumento ou mausoléu em sua homenagem e à sua esposa Ane – algo digno de um fundador e de sua esposa. Naturalmente, esse era um tributo muito espontâneo e natural. O comitê chegou inclusive a mostrar-lhe um esboço do monumento proposto. Contando-me a esse respeito, o Dr. Bob sorriu e disse:
“Deus os abençoe”. “Eles têm boa intenção, mas pelo amor de Deus, Bill, que sejamos enterrados, tanto você como eu, da mesma maneira como são todas as pessoas.”
O que nos deixa perplexo, é o fato do nosso co-fundador haver escrito há 35 anos atrás a realidade do mundo moderno. Em seu artigo: “Por que o A.A. é Anônimo” ele diz entre outras coisas:
“Como nunca, a luta pelo poder, prestígio e riqueza, está arrasando a civilização – homem contra homem, família contra família, grupo contra grupo, nação contra nação. Quase todos aqueles envolvidos nessa violenta competição declaram que seus objetivos são: a paz e a justiça para eles mesmos, para seus semelhantes e para suas nações. “Dê a nós o poder”, eles dizem, e faremos justiça: dê a nós a fama, e daremos nosso grande exemplo; dê a nós o dinheiro, e ficaremos satisfeitos e felizes. As pessoas do mundo inteiro acreditam profundamente nisso e atuam de acordo com isso. Nessa espantosa bebedeira seca, a sociedade parece earrow2 entrando num beco sem saída. O sinal “pare” está claramente marcado. Ele anuncia “desastre”.
Por isso, no mesmo artigo, ele acrescenta:
“Quando o primeiro grupo de A.A. tomou forma, logo começamos a aprender muita coisa sobre o sacrifício e suas resultantes. Descobrimos que cada um de nós tinha que fazer sacrifícios pelo bem earrow2 comum. O Grupo, por sua vez, descobriu que deveria renunciar a muitos de seus próprios direitos para garantir a proteção e bem-earrow2 de cada membro, bem como de A.A. como um todo. Esses sacrifícios tinham que ser feitos ou A.A. não poderia continuar a existir.”
Toda a Irmandade tem conhecimento de que o Anonimato foi o tema que mais preocupou os nossos co-fundadores, haja vista a maneira errônea como tem sido interpretado pela maioria. A prova disso está no fato ocorrido quando de sua última mensagem enviada aos companheiros que lhe prestavam solidariedade, por ocasião dos seus 36 anos de sobriedade. Já sem forças, Bill pediu a Lois – sua esposa – que o representasse, lendo aos companheiros solidários a seguinte mensagem:
“… meus pensamentos hoje são cheios de gratidão para com a nossa Associação, pelo sem número de bendições que nos tem dado a graça de Deus. Se me perguntassem qual dessas bendições era responsável por nosso crescimento como associação e mais vital para nossa continuidade, eu diria: “O Conceito do Anonimato””.
Feitas estas considerações, resta-nos à luz da literatura e experiências pessoais, vivenciadas no dia-a-dia de nossa recuperação, entrar no ponto axial do tema proposto, cuja essência está inserida nas 11ª e 12ª Tradições, in verbis:
“11ª Tradição – Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção. Cabe-nos sempre preservar o anonimato pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.”
12ª Tradição – O anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades”.
Embora, as 11ª e 12ª Tradições sejam completamente distintas, jamais poderão ser analisadas separadamente, haja vista que, ambas se completam para mostrar ao grande público, que Anônimos somos nós – membros de A.A. – e não a irmandade de Alcoólicos Anônimos. Portanto, a irmandade pode e deve ser divulgada, nós não. Enquanto a 11ª Tradição diz respeito ao Anonimato Pessoal, a 12ª encerra, pura e simplesmente, a Tradição do Anonimato.
Dissecando, então, o conteúdo dessas Tradições (11ª e 12ª), verifica-se com facilidade que a 11ª Tradição faz referência a preservação do Anonimato Pessoal, única e exclusivamente em termos de mídia, o que significa dizer, que não existe Anonimato em nossas relações interpessoais.
De outro lado, ao nos lembrar da necessidade de colocar os princípios acima das personalidades, a 12ª Tradição visa demonstrar, de forma explícita, que a “substância do Anonimato é o sacrifício”, e que, é através desse sacrifício que devemos procurar vencer as paixões e submeter a nossa vontade individual em prol de toda uma coletividade.
Ante as razões apresentadas, é fácil concluir que:
• Quando um membro se identifica, como A.A., nas suas relações interpessoais, está, apenas, dando abertura ao seu Anonimato, o que, aliás, deve ser feito, sempre que possível, visando a ajudar ao alcoólatra que sofre. Se essa identificação ocorre em termos de mídia, aí está havendo a quebra da Tradição do Anonimato, o que, por sua vez, deve ser evitada sob pena de colocar as personalidades acima dos princípios.
• De outro lado, quando o membro identifica outra pessoa como seu companheiro de A.A. está, não só ferindo os princípios da irmandade, como também, quebrando a Tradição do Anonimato.
Portanto, ao assumirmos a responsabilidade de levar a mensagem salvadora ao alcoólatra que sofre, devemos sempre ter em mente o seguinte:
• A informação pública é orientada pela Tradição; entretanto, a informação pessoal, muito mais eficiente, depende da vontade de cada membro.
• Nosso trabalho será bem mais eficiente se deixarmos que os outros nos recomendem.
• Não há Anonimato nas nossas relações interpessoais.
• Por princípio, não há quebra de Anonimato, mas, simplesmente, abertura do Anonimato. Quando existe a quebra, não é do Anonimato, mas da Tradição do Anonimato, o que são duas coisas bem distintas.
Assim, procurando deixar o leitor bem familiarizado com o tema, nas suas mais diversas formas e aspectos, condensamos, dentro do possível, o que segue abaixo:
Anonimato Pessoal: Deve ser mantido na Imprensa, no Rádio, na Televisão e no cinema, da seguinte forma:
• Na Imprensa – evitar fotografias e dá apenas o primeiro nome e a inicial do sobrenome.
• No Rádio – dá o nosso primeiro nome e a inicial do sobrenome.
• Na Televisão e no Cinema – aparecemos de costas ou de perfil, usando um jogo de luz e sombras que nos permita apenas transmitir nossas silhuetas. Aqui também só usaremos o primeiro nome e a inicial do sobrenome.
• Nas Correspondências – nos casos pessoais, devemos evitar a sigla “A.A.” nos envelopes; em outras ocasiões tomamos as seguintes precauções:
– De companheiro para companheiro é uma correspondência normal, desde que tomemos os cuidados acima.
– De grupo para grupo – é também uma correspondência normal, podendo inclusive ser usadas as iniciais “A.A.”.
– De companheiro para grupo – evitamos o nosso nome e endereço no envelope, tendo em vista que o grupo está identificado como sendo de A.A.
– De grupo para companheiro – usamos apenas o primeiro nome com a inicial do sobrenome do companheiro.
• Nas Reuniões – dependendo de sua natureza – aberta ou fechada -, tomamos os cuidados seguintes:
– De caráter fechado – não há anonimato, tendo em vista que a ela têm acesso somente membros de A.A.
– De caráter aberto – usamos apenas o primeiro nome, se o orador é membro de A.A.; se for não -A.A., usamos o nome completo, inclusive com sua profissão e posição social.
– De pessoas falecidas – seguimos orientação dos familiares que, por certo, saberão do desejo do falecido quando vivo.
– De pessoas celebres – a identificação de pessoas como membros de A.A., cabe a elas próprias, sejam célebres ou não.

• Anonimato das Listas Confidenciais – as listas é que não deveriam existir, pois nenhum benefício traz ao alcoólatra ou ao grupo.
• Anonimato da Doença – alcoolismo, como doença, é assunto da medicina.
• Anonimato de Grupos – não deverá existir, pois seu único objetivo é ajudar ao alcoólatra que sofre.
• Anonimato da Irmandade – não existe, haja visto que anônimos são seus membros.
Ao fim, se nenhum de nós desperdiçarmos publicamente nosso valor, ninguém possivelmente irá explorar A.A. para benefício pessoal. O Anonimato não é apenas algo para nos salvar da vergonha e do estigma alcoólico; seu propósito mais profundo é, na verdade, manter nossos egos tolos, sob controle, evitando que corramos atrás do dinheiro e da fama pública à custa de Alcoólicos Anônimos.
Com efeito, ainda em seu artigo “Por que Alcoólicos Anônimos é Anônimo”, Bill afirma:
“… o temporário ou aparentemente bom pode muitas vezes não ser aquilo que é sempre o melhor. Quando se trata da sobrevivência de A.A., nem o nosso melhor será bom o suficiente.”
E conclui:
“Agora nos damos conta de que cem por cento do anonimato diante do grande público é tão vital para a vida de A.A., como cem por cento de sobriedade o é para a vida de cada membro em particular”.
J. Costa
(Vivência – Out/Dez 89)
O Veterano
Até hoje não achei que tivesse chegado a hora de expressar as minhas opiniões, seja com respeito a A.A. ou com respeito ao alcoolismo. Sempre achei que o assunto ampla e maravilhosamente bem coberto pela revista. Ultimamente, porém, dois problemas têm ocorrido vez por outra – o dos veteranos, e artigos referentes ao que Bill e outros chamam de “sobriedade emocional”.
Alguns anos atrás, o veterano era uma raridade – digamos até mesmo uns dez anos atrás, tão pouco. O lugar em que viviam , naturalmente, eram os estados do leste norte-americano; só um ou outro se encontrava no Canadá ou nos Estados do Oeste. Hoje em dia os veteranos são mais numerosos, mas por vários motivos estão novamente escasseando nas reuniões. Eis uma situação que não é boa para os veteranos, e certamente é muito ruim para A.A.

Vivo me surpreendendo com esta afirmação, que às vezes se ouve em reuniões: “Em A.A. não existe senioridade.” Ora, essa afirmação pode facilmente qualificar-se como uma piadinha de salão. A pessoa que cunhou essa belezoca deveria ter explicado que a falta de senioridade – ou seja de uma hierarquia por antigüidade – somente se aplica em relação ao primeiro gole. De outra forma, como aceitar e explicar o pouquinho de progresso diário que nos é prometido no Livro Azul, desde que aceitemos praticar em todas as atividades de nossas vidas os Doze Passos, integralmente?

Há montes de senioridade em A.A. A senioridade da sabedoria adquirida com o correr dos anos. A senioridade da compreensão, da tolerância com relação aos problemas de companheiros mais doentes do que nós. A senioridade da fé, que nos torna capazes de amarmos o nosso Poder Superior e confiarmos Nele, que nos permite perdoar e amar nossos vizinhos, e nos ensina a nos amarmos e perdoarmos a nós mesmos também.

Na sua última grande palestra, o nosso co-fundador Dr. Bob enfatizou bastante o que lhe aconteceu quando ele se afastou demais dos “rapazes da enfermaria”, e creio que é a mesma coisa que acontece com todos nós quando esquecemos que a nossa sobriedade é condicional, que só permanece enquanto passarmos adiante o que alguém uma vez se dispôs a passar para nós. Não acredito que Deus nos tenha dado a sobriedade para racionalizarmos o serviço à comunidade, em substituição ao serviço dentro de A.A. Os veteranos precisam da associação constante com A.A. para manterem aquela calorosa satisfação interna que tão bem conheciam quando freqüentavam A.A. havia uns dez meses, e que perderam lá pelos seus dez anos.

O Grupo precisa de sua presença nas reuniões, pois assim proclamam eles a sua própria necessidade de estarem presentes. Membros mais novos, por sua vez, lembrarão esse exemplo e mais tarde, quando se tornarem veteranos, também lá estarão. E assim A.A. se fortalecerá e crescerá.

Se o novato é o sangue que dá vida a A.A., então o veterano é nada menos que o banco de sangue de A.A. Vejamos alguns fatos: os primeiros veteranos escreveram o Livro Azul, e sua inspiração e sabedoria se transfundiram para nós. Em Manitoba, A.A. foi iniciado por um membro que veio de Minneapolis. Ele e seus companheiros nos disseram o que poderíamos fazer, e quais as coisas que seria melhor não fazermos. Poupou-nos muitos anos de tentativas e erros, o que é mais importante, com mais de dezoito anos de sobriedade continua a frequentar o Grupo, e sua presença proclama, em brados mais altos do que quaisquer palavras, o que essencialmente está repetido em cada página do Livro Azul: que a nossa sobriedade nos é concedida a cada vinte e quatro horas, e é condicionada ao nosso estado espiritual.

É claro que os veteranos são importantes, portanto, que o saibam! Talvez não sejam necessários para prover os afazeres do Grupo ou controlar as finanças, mas se os veteranos em cada área forem freqüentadores fiéis e assíduos das reuniões, então não teremos que nos preocupar com os novatos – eles estarão em boas mãos. É bom lembramos o que o “A.A. Número Três” disse à sua esposa quando Bill e o Dr. Bob o visitavam pela segunda vez: “Esses são os rapazes de quem te falei; esses são os que entendem”.

(Vivência nº 6, jan./mar., 1988, pág. 33)
O “Tal fundo de poço” e meu primeiro passo
“Ela se sentiu como se estivesse entrando no túnel do tempo, indo para o futuro, um futuro brilhante, claro, iluminado pelo Poder Superior.”

Quando fui procurar a Irmandade, sem saber da existência do “tal de fundo de poço”, eu já havia atingido o meu limite, senão eu não teria ido procurar ajuda.

Cada um que chega, mesmo que não admita que está bebendo exageradamente, é porque já atingiu o máximo; sua resistência física e emocional já estão abaladas.
Não importa o tempo que eu passei bebendo. O que importa é a maneira como eu bebia, a quantidade exagerada de álcool que eu ingeria.

Por alguns anos fui forte para beber. Orgulhava-me disso. Pouca bebida não me derrubava, precisava beber “todas” para fazer a cabeça.

Eu gostava da tonturinha, não do sabor da bebida. Não gostava do sabor, tanto é que desenvolvi uma maneira muito prática: virava o copo sem respirar, de uma vez só.

Com o passar do tempo, um só copo já me derrubava, sentia náuseas, não conseguia dar passos firmes ou rápidos, meu fígado parecia estar solto.

Lembro-me que uns dias antes de conhecer a Irmandade, meu marido chegou de viagem e me levou para uma outra praia.

Queria que eu saísse um pouco de casa. Fui contrariada e ali fiquei eu, sentada próximo a um quiosque, vendo uma criança brincar na areia.

Meu desespero foi tão grande de ver aquela criança brincando tão feliz que eu queria pular no pescoço dela. Insanidade total, meus amigos.

E ainda assim achava que não bebia exageradamente. Quer dizer: acho que eu sabia, mas não queria admitir.

Mentia para mim mesma, tentava me enganar, enganar meus filhos. Claro que eles, que não eram bobos, percebiam essa tal de negação, a minha negação, as mesmas histórias que inventava para convencer a mim mesma que não bebia exageradamente.

Mais tarde, já na Irmandade, vim a saber que as pessoas com grande resistência ao beber é que são as fortes candidatas a desenvolver a doença do alcoolismo. E eu sou uma delas.

Conheço uma pessoa a quem só uma taça de vinho serve para embriagá-la. Essa não vai desenvolver a doença nunca porque ela não consegue beber mais que isso.

Eu era o contrário, uma garrafa de vinho não bastava, eu precisava de muita bebida para me embriagar e tinha o maior orgulho disso.

Meu filho mais velho também é um forte candidato a desenvolver a doença. Já o caçula e a menina, não agüentam beber. Eles têm verdadeiro pavor de bebida alcoólica. Se experimentaram? Claro que sim, mas nós, os pais, já estávamos em recuperação e pudemos auxiliá-los.

Sofri muito com a minha doença, mas não fui eu só quem sofreu.

Meus filhos sofreram também. Hoje posso afirmar, por ter vivido em minha pele, que o alcoolismo não destrói somente a pessoa que bebe, ele atinge os familiares, todos os que estão ao redor.

Por que demorei tanto a procurar ajuda? Porque, como na maioria dos casos, os familiares não somente escondem, como também super-protegem o alcoólico, pela vergonha que sentem da situação, principalmente em se tratando de uma mulher. Não vaza nada: tudo fica escondidinho.

É tão simples, tão normal ver um homem bêbado caído na sarjeta, dormindo em bancos de praça, dormindo na areia. Nesses casos quase ninguém aponta o dedo. Com a mulher é diferente. Olham com asco e falam: “- olha só, aquela não tem vergonha na cara”. Eu era uma bebedora caseira, como brincam comigo no grupo. Nunca bebi em bares, nem na sociedade. Só bebia em casa.

Eu bebia “todas” antes de sair para as baladas e quando e quando voltava para casa “completava o tanque”.

Minha vida mudou completamente, não tenho nem um pouquinho de saudade daquele tempo.

Hoje que mais é viver com alegria, poder brincar com meus amigos, com meus filhos, dar gargalhadas, que hoje são verdadeiras, espontâneas; não preciso mais fingir alegria, porque ela está dentro de mim. Faz parte da minha personalidade.

Quando criança e adolescente eu era uma garota alegre, feliz. Com o desenvolvimento da doença, esqueci aquela criança. Ela ficou lá adormecida porque minha insanidade não me deixava acordá-la.

Mas chegou o dia que Deus, em sua infinita sabedoria, colocou seu dedo sobre meu nariz e falou: agora chega, menina; você já fez tudo o que queria fazer; agora é minha vez. Você já bebeu a sua parte, já magoou, já prejudicou, já se agrediu em demasia, já fez um monte de besteira. Vamos dar uma virada de 360 graus.

Não foi meia virada não. Foi uma virada total. Senti como se eu estivesse entrando no túnel do tempo, indo para o futuro, um futuro brilhante, claro, iluminado pelo Poder Superior.

Foi através Dele e de uma força maior que meus passos me conduziram a uma sala de A.A.

Dificuldades? Quem não as tem? Nem saberia viver sem elas; estaria mentindo se dissesse que minha vida é um mar de rosas, que todas as noites mergulho em uma banheira cheia de pétalas de flores.

Não é nada disso. Mas aprendi a tirar o melhor proveito do meu dia, aproveitar cada minuto como se fosse o último,

Isso aprendi com meus companheiros de A.A., que meu Poder Superior colocou em meu caminho.

Obrigada, companheiros, por vocês terem criado raízes em minha vida.

M. de Fátima
Vivência – Maio/Junho 2004
Essa questão do Medo por Bill W.
Corno diz o livro Alcoólicos Anônimos, “O medo é um fio perverso e corrosivo; o tecido das nossas vidas está entremeado dele”. O medo é certamente uma barreira para a razão e o amor e, como é claro, ele potencializa invariavelmente a raiva, a presunção e a agressão. O medo forma a base da culpa e da depressão paralisante da embriaguez. O Presidente Roosevelt observou uma vez significativamente que “Não temos nada a temer a não ser o próprio medo”.

Essa é uma acusação severa e talvez demasiadamente radical. Apesar de toda sua destrutividade habitual, descobrimos que o medo pode ser o ponto de partida para coisas melhores. O medo pode ser um limiar para a prudência e para um respeito honesto pelos outros. Ele pode apontar o caminho tanto para a imparcialidade quanto para o ódio. E quanto mais consideração e imparcialidade que tivermos em relação aos outros, mais rapidamente poderemos encontrar o amor, que pode ser muito sofrido e não obstante ser livremente concedido. Assim, o medo não tem que ser sempre destrutivo, porque as lições trazidas pelas suas conseqüências podem nos conduzir a valores positivos.
A conquista da liberdade a partir do medo é uma tarefa para a vida toda, uma tarefa que nunca poderá ser totalmente concluída. Sob ameaças pesadas, nas doenças agudas ou em outras situações de séria insegurança, temos todos que reagir bem ou mal, conforme seja o caso. Apenas os presunçosos afirmam estarem totalmente livres do medo, embora essa própria grandiosidade esteja na realidade enraizada nos temores que eles temporariamente esqueceram.
A solução do problema do medo tem conseqüentemente dois aspectos. Precisamos tentar obter por todos os meios à libertação do medo que está ao alcance de todos nós. Em seguida, precisamos encontrar tanto a coragem quanto a graça para lidar construtivamente com quaisquer temores remanescentes. Tentar entender nossos temores e os temores dos outros é apenas o primeiro passo. A questão maior é saber como e para onde iremos a partir desse ponto.
Desde o início de A.A., observei a medida em que milhares de companheiros se tornaram cada vez mais capazes de transcender seus temores. Esses exemplos foram um auxílio e uma inspiração infalíveis. Pode ser, então, que algumas das minhas próprias experiências com o medo e com a libertação do mesmo, até um grau encorajador, sejam adequadas.
Quando criança tive alguns traumas emocionais muito duros. Existiam profundos distúrbios familiares; eu era fisicamente desajeitado e assim por diante. E claro que outras crianças tiveram desvantagens emocionais como essas e emergiram delas ilesas. Mas eu não. Eu era evidentemente hipersensível e, conseqüentemente, muito impressionável. De qualquer forma, desenvolvi uma fobia positiva que não era e nunca poderia ser semelhante àquela dos outros jovens. Isso me precipitou inicialmente na depressão e daí em diante no isolamento da solidão.
Mas esses infortúnios infantis, todos eles gerados pelo medo, vieram a serem tão intoleráveis que eu me tornei altamente agressivo. Pensando que nunca poderia pertencer a grupos e jurando que nunca me contentaria com nenhuma situação inferior, eu simplesmente tinha que ser o melhor em tudo que fazia, trabalho ou diversão. A medida em que essa atraente fórmula para uma vida boa começou a obter sucesso, de acordo com as minhas próprias especificações de sucesso, tornei-me delirantemente feliz. Mas quando um empreendimento ocasionalmente falhava, eu me enchia de um ressentimento e de uma depressão que só poderiam ser curados pelo triunfo seguinte. Desde o início, portanto, acostumei-me a valorizar tudo em termos de vitória ou derrota – tudo ou nada. A única satisfação que eu conhecia era vencer.
Esse era o meu falso antídoto para o medo e foi esse o padrão, gravado cada vez mais profundamente, que me impulsionou através dos meus anos escolares, da Primeira Guerra Mundial, da febril carreira de alcoólico em Wall Street e ladeira abaixo até a hora final do meu colapso total. Já então, a adversidade não era mais um estimulante e eu já não sabia se meu maior medo era viver ou morrer.
Embora meu padrão básico de medo seja muito comum, existem obviamente muitos outros. Na realidade, as manifestações do medo e os problemas que se arrastam atrás delas são tão numerosas e complexas que não é possível detalhar, neste breve artigo, nem mesmo algumas delas. Só podemos revisar os recursos e os princípios espirituais através dos quais poderemos ser capazes de enfrentar e lidar com o medo em qualquer um dos seus aspectos.
No meu próprio caso, a pedra fundamental da libertação do medo é a Fé: uma Fé que, apesar de todas as aparências mundanas em contrário, faz-me acreditar que vivo em um universo que faz sentido. Para mim, isso significa a crença em um Criador que é todo poder, justiça e amor; um Deus que pretende para mim uma finalidade, um significado e um destino ao crescimento, ainda que pequeno e intermitente, em direção à Sua semelhança e imagem. Antes da chegada da Fé, eu vivia como um estranho em um cosmo que me parecia, freqüentemente, tanto hostil quanto cruel. Nesse mundo, não poderia haver nenhuma segurança interior para mim.
O Dr. Carl Jung, um dos três fundadores da moderna psicologia em profundidade, tinha uma enorme convicção sobre esse grande dilema do mundo moderno. Em paráfrase, eis o que ele tinha a dizer a esse respeito: “Qualquer pessoa que tenha chegado aos quarenta anos de idade e ainda não tenha meios para compreender quem ela é, onde ela se encontra ou para onde vai em seguida, não pode evitar tornar-se um neurótico – até certo ponto. Isso se aplica quer seus impulsos da juventude em relação ao sexo, à segurança material e a um lugar na sociedade tenham ou não sido satisfeitos”. Quando disse “tornar-se neurótico”, o bondoso médico poderia ter dito igualmente “tornar-se dominado pelo medo”.
E exatamente por essa razão que nós de A.A. colocamos tanta ênfase na necessidade da Fé em um Poder Superior, definido na forma em que O concebemos. Temos que encontrar uma vida no mundo da graça e do espírito e esta é certamente uma dimensão nova para a maioria de nós. Surpreendentemente, nossa busca por esse âmago da essência não é muito difícil. Nosso ingresso consciente nesse domínio começa assim que pudermos confessar sinceramente nossa impotência pessoal para continuarmos sozinhos e tivermos feito nosso apelo a qualquer Deus que possamos conceber – ou possa existir. A resultante é a dádiva da Fé e a consciência de um Poder Superior. A medida em que cresce a Fé, cresce também a segurança interior, O vasto medo subjacente à inexistência de um significado começa a desaparecer. Conseqüentemente, nós de A.A. descobrimos que nosso antídoto básico para o medo é um despertar espiritual.
Tal como aconteceu, minha própria percepção espiritual surgiu de maneira repentina e absolutamente convincente. Tornei-me instantaneamente uma parte – ainda que pequena – de um cosmo que era regido pela justiça e pelo amor na pessoa de Deus. Não importa quais tivessem sido as conseqüências da minha própria disposição e ignorância, ou daquelas dos meus companheiros de jornada na terra, essa ainda era a verdade. Foi essa a garantia nova e positiva e ela nunca me abandonou. Foi-me dado o conhecimento, pelo menos momentâneo, do que poderia ser a ausência do medo. E claro que a minha própria dádiva da Fé não foi essencialmente diferente desse despertar espiritual recebido desde então por incontáveis AAs – ela foi apenas mais súbita. Mas até mesmo esse novo ponto de referência – embora criticamente importante – apenas assinalou meu ingresso nesse longo caminho que nos afasta do medo em direção ao amor. As antigas e profundamente registradas gravações da ansiedade não foram instantânea e permanentemente apagadas. E claro que elas reapareceram e, ocasionalmente, de forma alarmante.
Sendo receptor dessa espetacular experiência espiritual, não foi de surpreender que a primeira fase da minha vida em A.A. fosse caracterizada por muito orgulho e um impulso de poder. O anseio pela influência e a aprovação, o desejo de ser o líder, ainda estava muito em mim. Melhor dizendo, esse comportamento poderia agora ser justificado – tudo em nome das boas intenções!
Aconteceu, felizmente, que essa fase era um tanto espalhafatoso da minha grandiosidade, que durou alguns anos, fosse seguida por uma seqüência de adversidades. Minha exigência de aprovação, baseada obviamente no medo de que eu pudesse não receber o suficiente, começou a colidir com essas características idênticas dos meus companheiros de A.A. Daí deriva o fato deles salvarem a Irmandade de mim, e eu salvá-la deles, ter se tornado uma ocupação totalmente absorvente. Isso logicamente resultou em raiva, suspeita e todo tipo de episódios assustadores. Nessa era notável e já hoje bastante divertida dos nossos esforços, uma parte de nós começou novamente a desempenhar o papel de Deus. Durante alguns anos, os defensores de A.A. dispararam imprudentemente. Mas foi a partir dessa temível situação que fora formulados os Doze Passos e as Doze Tradições. Esses princípios foram desenvolvidos principalmente para a redução do ego e, conseqüente mente, para a redução dos nossos temores. Esses foram os princípios que, segundo esperávamos, nos manteriam unidos e em crescente amor uns para com os outros e para com Deus.
Começamos gradualmente a sermos capazes de aceitar tanto os pecados quanto as virtudes dos outros companheiros. Foi nesse período que cunhamos a poderosa e significativa expressão: “Possamos nós amar sempre o melhor e nunca temer o pior dos outros”. Depois de dez anos tentando inserir esse tipo de amor e as propriedades redutoras do ego dos Passos e Tradições de A.A. na vida da nossa Irmandade, os apavorantes temores quanto à sobrevivência de A.A. simplesmente desapareceram.
A prática dos Doze Passos e das Doze Tradições de A.A. em nossas vidas pessoais suscitou também em incríveis libertações dos temores de toda espécie, apesar da ampla prevalência de formidáveis problemas pessoais. Quando o medo persistia, nós o aceitávamos por aquilo que ele era e, sob a graça de Deus, tornamo-nos capazes de controlá-lo. Começamos a encarar cada adversidade como uma oportunidade oferecida por Deus, para desenvolvermos o tipo de coragem que nasce da humildade e não da arrogância. Assim, fomos capacitados a aceitar nós mesmos, nossas circunstâncias e nossos companheiros. Sob a graça de Deus, descobrimos até mesmo que podíamos morrer com decência, dignidade e Fé, sabendo que “o Pai se encarregará de tudo”.
Nós de A.A. encontramo-nos agora vivendo em um mundo caracterizado pelos temores destrutivos como nunca antes na história. Mas, não obstante, nele percebemos grandes áreas de Fé e enormes aspirações voltadas para a justiça e a fraternidade. E no entanto nenhum profeta pode pretender afirmar se as conseqüências mundiais serão a destruição fulgurante ou o início da era mais brilhante até hoje conhecida pela humanidade, segundo a intenção de Deus. Estou certo de que nós AAs compreendemos esse cenário. Experimentamos no microcosmo es idêntico estado de terrificante incerteza, cada um e sua própria vida. Nós os AAs podemos afirmar, sem orgulho nenhum, que não tememos os desenvolvi mentos mundiais, não importa o rumo que possam tomar. Isso se deve ao fato de termos sido capacita dos a sentir profundamente e a afirmar: “Não devemos temer nenhum mal – seja feita a Vossa vontade e não a nossa”.
A história que se segue, freqüentemente narrada, pode não obstante suportar a repetição. No dia em que a surpreendente calamidade de Pearl Harbor se abateu sobre nossa Nação, um amigo de A.A., uma das maiores figuras espirituais que talvez jamais conheceremos um igual, caminhava por uma rua de St. Louis. Tratava-se como é claro do nosso benquisto Padre Edward Dowling, da Ordem dos Jesuítas. Embora não fosse um alcoólico, ele havia sido um dos fundadores e uma fonte de inspiração primordial para o esforçado Grupo de A.A. daquela cidade. Uma vez que grande parte dos seus amigos habitualmente sóbrios já havia recorrido às garrafas buscando apagar as implicações do desastre de Pearl Harbor, o Padre Edward estava compreensivelmente angustia do com a probabilidade do seu acalentado Grupo de A.A. dificilmente sobreviver. Para a mente do Padre Edward, essa seria em si mesma uma calamidade de primeira ordem.
Foi então que um membro de A.A., sóbrio há me nos de um ano, emparelhou o passo com ele e envolveu o Padre Edward em uma animada conversa – principalmente acerca de A.A.
Como o Padre percebeu aliviado, seu companheiro estava perfeitamente sóbrio. E não disse uma única palavra acerca do problema de Pearl Harbor.
Intrigado e maravilhado a esse respeito, o Padre perguntou: “Como é que você não tem nada a dizer acerca de Pearl Harbor? Como é que você manifesta tanta disposição?”
“Bem”, replicou o AA, “estou realmente surpreso que você não saiba. Cada um de nós em A.A. já teve sua própria Pearl Harbor particular. Assim, pergunto a você por que deveríamos nós, alcoólicos, nos exaltar em relação a isso?”
A decisão mais difícil da minha vida
Que medo que senti ao sair de uma reunião de A.A., a minha segunda reunião, pois a primeira acontecera dezenove anos antes! Reafirmava para mim mesma o que tentara dizer lá dentro, sem o conseguir, pois as lágrimas me impediam: “Eu sou alcoólica”! Era como se o universo estivesse desabando sobre a minha cabeça. Eu já estava há três dias sem beber, sentindo todos os horríveis sintomas da crise de abstinência: tremores, depressão, suor frio, dor de cabeça…
Para mim, ter entrado naquela sala foi a suprema humilhação. Eu sabia que, no dia em que voltasse a A.A., estaria decretando a minha falência definitiva como ser humano. Meu orgulho, minha auto-suficiência intelectual, minha crença no poder da mente, tudo fora absolutamente inútil na minha luta insana contra o primeiro gole. Admitir a minha impotência perante o álcool, reconhecer que tinha perdido o domínio da minha vida, aceitar minha insanidade e, principalmente, acreditar que um Poder Superior poderia libertar-me dela, tudo isso era demais para mim. Eu sabia tudo sobre o alcoolismo porque lia tudo a respeito e já conhecera a Irmandade, mas sempre me recusei a aceitar que eu era portadora dessa doença.
Aquela noite foi a mais longa da minha vida. Morava sozinha e, da janela do apartamento, via os botecos onde costumava beber todas as noites. Consegui “ouvir” o tilintar dos copos e as risadas, apesar da distância (moro no oitavo andar). Via, num desespero total, aquela ilusão de felicidade se desenrolar diante dos meus olhos cheios de lágrimas. E o “canto da sereia” da fuga e do esquecimento que o álcool me proporcionava, soou aos meus ouvidos: “Talvez eu possa me controlar hoje. Tomar uma ou duas cervejas vai me ajudar a dormir…”
Uma sensação de extrema solidão me invadiu. Eu sabia que, naquele momento, te¬ria de tomar a decisão mais difícil da minha vida. Mais difícil ainda do que a ida àquela reunião pedir ajuda, naquela mesma noite. E então percebi o quanto o álcool era um poder superior para mim. Sozinha eu não poderia ganhar a briga contra ele. Só um outro Poder Superior poderia me ajudar. E como foi difícil dizer esta minha oração: “Deus, eu não sei quem você é, eu não sei onde você está, mas, se puder fazer alguma coisa por mim, ajude-me a não sair de casa agora” .
Não sei como peguei no sono naquela noite. Lembro-me de ter chorado muito. Ao acordar na manhã seguinte, senti uma alegria imensa por ter vencido aquela primeira batalha contra mim mesma. E agradeci a um novo Poder Superior, que começava a se delinear em minha mente, por ter estado comigo no meu pior dia sóbria. Descobri que eu poderia, um dia, afinal, encontrar dentro de mim o que sempre procurei: uma Fé que funciona.
Nicia/Campinas/SP
Vivência n° 57 – Jan/Fev 1999
Obrigada, Eu não bebo
A frase dita no depoimento de uma companheira e amiga me encheu de esperanças. Iluminada por Deus, ela falava com entusiasmo de sua vida e suas longas vinte e quatro horas. Como mães e donas-de-casa, as nossas histórias como alcoólicas se assemelhavam num passado cheio de dor e ressacas. De uma lado, em meio a gestos e expressões, as palavras fluíam seguramente, transmitindo a paz enfim resgatada. Do outro, sob forte emoção, apenas esperanças.
Era noite de junho/94. O retorno à sala e o propósito de viver um dia de cada vez. Como ela, bebi durante longos anos. Muito embora meu marido não bebesse, trazia sempre a minha bebida preferida nos finais de semana. Não havia problemas em relação ao álcool, até eu descobrir a importância dele em minha vida. Com o tempo as doses foram aumentando e, consequentemente, a frequência aos porres.
A tranquilidade e a paz foram logo substituídas por desentendimentos e tristezas. As garrafas, agora escondidas, eram distribuídas em pequenos frascos espalhados em lugares estratégicos, onde eu pudesse beber sem correr o risco de ser flagrada. Enfim, minha casa virara um depósito de bebidas. Lembro que na época eu trabalhava como funcionária pública e, por força da droga, fui obrigada a afastar-me, com o intuito de submeter-me a um tratamento terapêutico. Procurei um bom psiquiatra, especialista no assunto, mas ele não pôde fazer muito por mim. Mente e corpo desocupados, a ociosidade definitivamente me levou ao fundo do poço. Interrompi a terapia e passei a beber literalmente todos os dias, isolando-me da família e dos amigos com um único objetivo: beber.
Sete meses nesse inferno, me transformei numa mulher feia, gorda, mal cuidada e com enorme sentimento de culpa e auto piedade.
Início de 1989. Minha irmã esteve comigo e pela primeira vez ouvi falar de A.A. em minha cidade. Parecia-me distante e de difícil acesso. Ingressei na terceira reunião e na companhia dela frequentei regularmente os primeiros três meses. Nunca esqueci as primeiras reuniões com seus depoimentos marcantes. A sensação de bem-estar era imensa, mas eu nada entendia. “Nunca mais” era muito forte para minha cabeça, enquanto 24 horas não era tempo suficiente e eu não estaria “curada”. Essa confusão gerou uma primeira recaída, seguida de outras e outras, sucessivamente. Os meus filhos que antes me apoiavam, passaram a olhar-me com indiferença e desprezo. Para eles, não havia justificativas, uma vez que eu já conhecia a Irmandade. Meu marido não sabia qual situação seria pior: admitir a mulher alcoólica e aceitar-me na condição de membro de A.A., ou ter que conviver com uma bêbada. Entre dúvidas, questionamentos, retornos e recaídas passaram-se seis anos.
Aquela noite de junho, em companhia de adoráveis irmãos, superou todas as minhas expectativas. O compromisso de reingresso veio juntamente com uma soma de valores e renúncias, aceitação, conscientização e ainda, como presente, ganhei a amizade da companheira que, através do Poder Superior, levou-me de volta à sala. Na época, não nos conhecíamos mas ela sabendo da minha dificuldade de permanência em A.A., procurou-me várias vezes, pacientemente. Hoje, amigas e companheiras, temos quase que uma necessidade de apoio mútuo. Dessa forma, os nossos problemas pessoais, compartilhados, facilitam a nossa programação, nos reforçando por mais vinte e quatro horas.
Graças ao Poder Superior, aprendi a ser mais paciente e tolerante comigo mesma, permitindo que o próprio tempo se encarregasse de devolver a serenidade suficiente para conviver normalmente com os perigos e ameaças que nós, alcoólicos, estamos sujeitos a enfrentar no dia-a-dia.
Certamente, as reuniões sociais regadas a bons vinhos e uísques importados vão continuar acontecendo. Acredito no tempo e na minha recuperação. Acredito ainda que muito em breve também farei parte de tais reuniões e certamente, como minha amiga, no convite ao drinque, direi com calma e confiança: “Obrigada eu não bebo”.
Ana Paula – RN
Vivência 41 – Maio/Jun 96
Apenas Alcoólico
Nossa visão sobre supostos “problemas” sempre pode ser relativizada.
Conheci A.A. muitos anos atrás, mas, naquele tempo, fui apenas por curiosidade. Eu achava que usavam o termo “anônimo” porque eram pessoas excluídas da sociedade, que viviam no anonimato por vergonha do seu passado e para fugirem do estigma do alcoolismo, que andavam pela penumbra e pelos becos, vivendo na clandestinidade.
E não fiquei, pois não fui para ficar. Eu achava que não era alcoólico, pois tinha ainda emprego, casa e família. Aquela Irmandade “era para aqueles que já não tinham mais nada para perder e precisavam viver no mimetismo”.
Eu me lembro que achei estranho, pois fui até A.A. para ver alcoólicos e não vi nenhum – vi pessoas bem postas, bem vestidas, bem falantes – saí decepcionado. Onde estariam os bêbados? Fui enganado, pensei.
Fui embora e não mais voltei, não mais me lembrei daquela Irmandade e continuei minha caminhada no alcoolismo. Isso demorou muitos anos, pois minha doença progrediu devagar.
Começaram então as primeiras perdas: de início foram os empregos, um atrás do outro, logo depois os amigos, a seguir a família e, daí por diante, o equilíbrio, a temperança, a vergonha, a moral, a dignidade e, por fim, a fé. Fiquei sozinho no mundo.
Um dia fui visitar um antigo amigo que não sabia da minha atual situação, e ele me colocou na direção de uma pequena empresa que acabara de montar. Pouco tempo depois, dormi com a cabeça apoiada nos braços, em cima da mesa. Quando descobriu o meu estado, para salvar a sua firma ele me mandou embora. E alguns dias antes de eu deixar o emprego, entrou no escritório um cliente que gostava de conversar comigo. Sentou e começou a contar a sua vida: havia perdido um irmão há poucos dias, que era carcereiro da Penitenciária do Carandiru e fora assassinado. Contou-me ainda que ele próprio também tinha sido carcereiro de lá e que na época, ambos bebiam demais. Contou também o que faziam sob o efeito do álcool.
Ele falou isso tudo sem saber que era para a pessoa certa. No final do seu desabafo, perguntei-lhe como e onde tinham conseguido parar de beber. Ele me olhou meio cismado, já desconfiando de alguma coisa. Eu disse: “Tenho um problema seríssimo com o álcool, tanto que estou sendo demitido dessa empresa por esse motivo e, quando sair, não tenho para onde ir e nem mesmo onde ficar, pois já perdi tudo, só me restou a vida”.
E ele respondeu: “Sobrou demais então, pois enquanto há vida, há esperança”. Chamou-me lá para fora e apontou para uma capelinha simples dizendo: “Ali, todas as quartas feiras, às 20 horas, acontecem reuniões de um grupo de pessoas que tiveram os mesmos problemas que nós.
São os Alcoólicos Anônimos, já ouviu falar?” Eu respondi que sim, que no passado tinha ido a uma reunião, mas que não tinha entendido nada, pois estava alcoolizado. Então ele completou: “Pois foi ali que eu e meu falecido irmão paramos de beber e onde tudo começou a mudar. Vá lá, na quarta-feira, tomar um café com os companheiros, e assim que sair daqui e não tiver onde ficar, arrumo um lugarzinho para você dormir no fundo da minha firma”.
Fiquei ansioso para que chegasse logo a quarta-feira e realmente conhecer – como disse ele – aqueles companheiros, aquela Irmandade que um dia eu não tinha aceitado e nem mesmo entendido.
Chegando lá, uma porção de gente veio me encontrar na porta. Recebi muitos apertos de mão e todos me diziam que eu era a pessoa mais importante daquela noite. Eu estava confuso, há muito tempo não recebia tamanha consideração e respeito. Entrei, sentei-me e passei a observar aquele pessoal alegre e simpático, perguntando a mim mesmo: “Onde estariam os bêbados?” Uma vez mais, fiquei curioso.
Quando começou a reunião, logo no primeiro depoimento percebi que estava o tempo todo misturado com os alcoólicos, que ali mesmo, naquela platéia distinta, estavam as pessoas problemáticas do passado.
Fiquei maravilhado. Percebi que não estava sozinho naquele sofrimento, que meu caso ainda tinha solução e esperança e que bastava querer, pois eles haviam conseguido.
Então veio uma mulher, sentou-se e afirmou “Graças a Deus, sou uma alcoólica”. Pensei: “Não só alcoólica, mas louca também”. Como podia dar graças a Deus por isso? Ela então disse que tinha em sua família uma pessoa com uma doença incurável em fase terminal, e que quando chegasse em casa talvez não a encontrasse mais com vida. Ela, por outro lado, tinha uma doença também incurável, mas que podia estacionar, bastava querer – e começou a chorar.
Quando terminou a reunião, voltei para casa, ou seja, para o fundo da firma do amigo.
Chegando lá, levantei com dificuldade a porta de aço, acendi um palito de fósforo, entrei devagar, desviando-me das máquinas, pilhas de ferro, montes de sucatas e outros incômodos pelo caminho. Ao chegar ao fundo do galpão, acendi a luz, estendi uns papelões no chão, forrei-os com um lençol e me deitei, cobrindo-me com um cobertorzinho daqueles que a turma chama de “tomara que amanheça” e disse a mim mesmo: “Graças a Deus, sou apenas um alcoólico”. Deus, como O entendo, se manifesta em nós, a cada momento de tolerância.
N.L., Mogi Mirim/SP
Vivência 71 – Maio/Jun 2001
Um Sentimento Duro e Frio
Lutamos para nos libertar dos ressentimentos, mas eles são como ervas daninhas cujas raízes são muito fortes. Quando permitimos, os ressentimentos apagam todos os outros sentimentos que possamos ter. Destroem nossa serenidade, arruínam nossas relações, nos tornamos pessoas amargas e isoladas.
Os ressentimentos começam com uma mágoa, até um ressentimento firme, e chegam ao ódio e à sede de vingança.
O que usamos para alimentar nossos ressentimentos:
• – Coisas que fizemos contra nós que consideramos egoístas e com falta de consideração.
• – coisas amáveis que as pessoas poderiam ter feito por nós e que não fizeram.
• – Coisas que as pessoas não fizeram o suficiente por nós.
Como os ressentimentos nos afetam:
• – Não conseguimos tirá-los de nossa mente.
• – Ficamos tão concentrados na pessoa que ressentimos que não conseguimos fazer coisas mais agradáveis.
• – Sentimo-nos magoados e frustrados a maior parte do tempo.
• – Sentimos pena de nós mesmos, pelo muito que sofremos.
• – Nos irritamos com as outras pessoas e nossas relações com elas são afetadas.
• – Apresentamos sintomas das emoções desagradáveis que não expressamos, como: dor de cabeça, dor de estomago, músculos doloridos, etc.
• – Achamos que todas as pessoas são más, sem consideração por nós.
O problema maior com os ressentimentos é que eles gastam uma quantidade enorme de energia. Podemos ficar amarrados neles e quando isso acontece nosso crescimento emocional e espiritual é detido.
Quando perdoamos, nos livramos dos ressentimentos. Perdoar exige tempo, paciência e muita responsabilidade. Precisamos talvez primeiro perdoar a nós mesmos antes de perdoar aos outros. Nossa meta ao perdoar consiste em curar as velhas feridas para pôr fim aos ressentimentos e ir em frente em nossas vidas.
Sugestões para ajudar a perdoar
• 1. faça uma lista de todas as pessoas que precisa perdoar, inclua-se nesta lista. Por que você precisa perdoar essas pessoas?
• 2. Que danos os ressentimentos estão causando? Quais as conseqüências?
• 3. Escreva os pensamentos negativos que você têm a respeito dessas pessoas.
• 4. Escreva as formas como você age com essas pessoas: como as evita, contando piadas ou fazendo comentários sarcásticos sobre elas, como as ataca, etc.
• 5. Assuma o compromisso de parar com esses pensamentos e ações, o que for possível. Começar com uma ou duas pessoas da lista.
• 6. Faça uma outra lista. Escreva três qualidades de cada uma dessas pessoas. Relaxe, respire profundamente. Comece a pensar em cada uma dessas pessoas como um ser humano único. Mantenha um enfoque positivo.
• 7. Muitas pessoas podem começar a perdoar as outras orando por elas. Outra forma consiste em ter pensamentos positivos sobre elas.
• 8. Escreva três coisas positivas que pode fazer com ou por elas. Procurar colocar isso em prática (perdoar é um processo gradual).
• 9. Lembrar das frases: “Terei paciência comigo”. “Sem condições”, não esperarei nem exigirei nada das pessoas a quem perdoar, inclusive que me perdoem. “Perdoar é bom para mim, não para os outros”.
• 10. Para poder se perdoar, procurar toda ajuda possível, dos amigos, terapeutas ou guias espirituais.
Como evitar a formação de novos ressentimentos:
• 1. Lidar com o problema real, sem aumentá-lo. Manter-se realista.
• 2. Manter-se ativo. Os ressentimentos se formam quando se está inativo. A pessoa começa a de sentir impotente e sem esperança. Não permita se sentir ou agir como uma vítima, cheia de autopiedade.
• 3. Manter-se no dia de hoje. Não voltar às velhas feridas.
• 4. Manter o foco no assunto. Não se esquecer que são certos comportamentos da pessoa que o desagradam e não a pessoa em si.
• 5. Procurar ajuda, quando necessária. Não deixar que a mágoa se transforme em ressentimento e ódio.
• 6. Não permitir que sua serenidade dependa de outra pessoa. Você é responsável por ela.
* * *
…esse negócio de ressentimento é infinitamente grave, porque quando estamos abrigando esses sentimentos, nos afastamos da luz do espírito. (Na Opinião do Bill, pág 5)
Vivência n° 77 – Maio/Junho 2002
Dependentes Químicos
Dependentes Químicos: Pacientes Difíceis?
Eles me ensinaram a viver um dia de cada vez. Muitos colegas psicólogos e psiquiatras me perguntam como fui me apaixonar pela área de dependências química, pois dentro da psiquiatria são considerados pacientes difíceis porque “não querem se ajudar”, “têm pouca aderência ao tratamento” e “são os últimos a reconhecerem a sua doença e a necessidade de ajuda”. Em tudo isso há pouco ou muito de verdade, mas vamos analisar mais cuidadosamente as características destes meus amados pacientes…
Como é a vivência?
O uso da substância química: álcool ou outras drogas altera o comportamento ocasionando uma “inflação”. O sujeito se supõe todo poderoso e capaz de realizar tarefas além de sua capacidade, visto que o álcool ou a droga mudam também a percepção da realidade.
Por outro lado, na ausência da bebida ou da droga,a situação se inverte e o individuo se vê mais frágil e impotente do que nunca, não conseguindo às vezes nem se olhar no espelho, de tão humilhado que se sente ao se lembrar do que “aprontou” na noite ou nos dias anteriores.
Sim, o adicto, aquele que “adiciona” algo a seu corpo, acaba sendo “duas” pessoas: o super-homem, movido a “combustíveis especiais” para passar pela vida sem senti-la, e o bêbado de sarjeta, o pobre coitado que não agüenta consigo mesmo. A modificação de sua percepção vai acontecendo à sua própria revelia, tanto que ele mesmo é o ultimo a percebê-la.
Primeiro é a esposa ou parceiro quem reclama que ele ou ela já não lhe dá atenção como antes, preferindo sempre o álcool ou a droga; depois, são os pais ou filhos (se os tiver) que se queixam de sua ausência e por último, o patrão ou colegas de emprego ou escola, muitas vezes os mais tolerantes com o uso que acabam se cansando de encobrir as faltas no trabalho e as “mancadas” nas tarefas de equipe que o adicto acaba cometendo, por conta das inúmeras “ressacas” e inadequações por aparecer “usado”.
Quase sempre o dependente químico é levado a tratamento com um certo “empurrãozinho” daqueles que o amam e que justamente por se importarem com ele (ela) não se conformam com o seu modo de vida autodestrutivo e terminam por estimulá-lo a fazer alguma coisa para mudar o estilo de vida.
O dependente que se recupera…
Ao longo de minha jornada ao lado de dependentes químicos, posso dizer que tive o privilégio de conhecer muitas histórias de recuperação maravilhosas. São pessoas que depois de terem visto o “inferno” de perto de terem tornado também um “inferno” a vida de seus entes queridos, puderam dar uma guinada e voltar a ser gente, e, diga-se de passagem, gente muito especial!
Historias de verdade de quem reconstruiu a dignidade de viver,não tendo quase nada por onde começar.
Tal qual o mito de Dioniso, o deus Grego do vinho, que depois de esquartejado pelos Titãs foi reconstituído a partir do coração, tendo visto meus clientes e amigos dependentes de álcool e drogas se voltarem corajosamente para suas emoções em “cacos”, e irem colando os pedacinhos até se tornarem inteiros novamente.
Recuperação que se faz com humildade e sempre; como eles me ensinaram: “Um dia de cada vez”.
(Dra. Ana Lúcia Mesquita Mazzei Massoni
Psicóloga Clinica – Especialista em Dependência Química)
Vivência n° 82 – MARÇO/ABRIL 2003
Unicidade de Propósito
Apresentamos esse artigo dentro do espírito de nossa Sexta Tradição – não para endossar o “empreendimento alheio”, e sim abordar tópicos que dizem respeito a todos os membros de A.A.
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Narcóticos Anônimos, Conselho de Curadores para Serviços Mundiais
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE
NOSSO RELACIONAMENTO
COM ALCOÓLICOS ANÔNIMOS.
A forma como NA se relaciona com todas as outras irmandades e organizações podem gerar controvérsia dentro de nossa irmandade. Embora haja uma política estabelecida de “cooperação sem afiliação”, a confusão permanece no que se refere às outras irmandades. Uma questão bastante delicada envolve nosso relacionamento com a irmandade de Alcoólicos Anônimos. O Conselho de Curadores para Serviços Mundiais de NA costuma receber cartas que versam sobre a mais variada gama de perguntas acerca desse relacionamento.
Narcóticos Anônimos foi criado com base em Alcoólicos Anônimos. Quase todas as comunidades de NA que existem, apoiaram-se, de alguma forma, em A.A., durante seu período de formação. Nosso relacionamento com A.A. tem sido muito verdadeiro e dinâmico ao longo dos anos. Nossa irmandade como um todo resultou da dúvida existente em A.A., sobre o que fazer com os adictos que batiam à sua porta. Voltaremos um pouco às origens , em busca de uma perspectiva de nosso atual relacionamento com A.A.
Bill W., um dos co-fundadores de A.A. , sempre dizia que um dos maiores sustentáculos de sua irmandade era a unicidade de propósito, ou seja, mirar somente um aspecto. Limitando seu propósito primordial a levar a mensagem aos alcoólicos e evitando assim qualquer outra atividade, A.A. é capaz de se desincumbir dessa tarefa de uma forma extremamente eficaz. O clima de identificação é preservado pela unicidade de propósito, e o alcoólico encontra então a ajuda de que necessita.
Desde seu mais remoto início, A.A. foi confrontado com uma situação bastante complicada: “O que fazer com os dependentes químicos que nos procuravam? Desejamos manter nosso foco no álcool para que a mensagem seja levada ao alcoólico, mas os adictos que aqui chegam, falam sobre drogas, e, inadvertidamente enfraquecem nosso clima de identificação.” Os Doze Passos e o Livro Azul já haviam sido escritos – o que mais se esperava que eles fizessem? Que novamente os reescrevessem? Permitir que o clima de identificação se diluísse e que o sentido de pertencer a A.A. se perdesse? Expulsar aquelas pessoas agonizantes para que morressem na rua? Deve ter sido uma situação extremamente complexa para A.A.
Quando A.A. finalmente estudou o problema de forma cuidadosa e tomou uma posição através de sua literatura, a solução por eles encontrada foi mais uma prova de seu bom senso e sabedoria. Prometeram seu apoio num espírito de “cooperação, mas não
afiliação”. Essa solução de grande visão para uma questão tão complexa preparou o terreno para o surgimento da irmandade de Narcóticos Anônimos.
Entretanto, o problema que A.A gostaria de evitar teria de ser comunicado individualmente a cada grupo que tentasse adaptar seu programa de recuperação para dependentes químicos (adictos). Como conseguir então o clima de identificação indispensável para a rendição e a conseqüente recuperação, caso fosse permitido acolher os mais diversos tipos de dependência? Seria possível para um dependente de heroína se relacionar com facilidade com outros dependentes cujo problema fosse o álcool, maconha ou tranqüilizantes? Como seria conseguida a Unidade, que, segundo a Primeira Tradição, é fundamental para a recuperação? Nossa Irmandade (NA) herdou então um árduo dilema.
Para que se tenha idéia de como A.A. lidou com o problema, voltemos um pouco para a sua história. Uma segunda coisa sobre a qual Bill W. sempre falava e escrevia, era o que ele chamava de “gol de placa” de sua irmandade – as palavras do Terceiro e Décimo Primeiro Passos. A grande área da espiritualidade versus religião era tão complexa para eles assim como a unicidade de enfoque o era para nós. Bill costumava contar como o simples fato de acrescentar “na forma em que O concebíamos” depois da palavra “Deus”, liquidou por completo com toda a controvérsia a esse respeito. Um simples quesito, que tinha potencial para dividir e destruir A.A., transformou-se num dos maiores alicerces de seu programa.
À medida que os fundadores de Narcóticos Anônimos adaptaram os Passos de A.A., chegaram também a um “gol de placa” de importância equivalente. Ao invés de adaptar o Primeiro Passo de forma lógica e natural (“Admitimos que somos impotentes perante as drogas”), eles fizeram aí uma mudança radical: Escreveram assim: “Admitimos que somos impotentes perante a nossa adicção.” Existe um grande número de drogas e o uso de qualquer delas é apenas o sintoma de nossa doença. Quando os adictos se reúnem e enfocam as drogas, normalmente estão enfocando suas diferenças, pois cada um deles usa um tipo de combinação de drogas. A única coisa que todos eles tem em comum é a doença da adicção. Com aquela simples mudança na frase, foi criada a irmandade de Narcóticos Anônimos.
Nosso Primeiro Passo (NA) dá-nos um foco: nossa adicção. As palavras do Passo Um enfocam também nossa impotência perante os sintomas da doença. A frase “impotentes perante nossa adicção” engloba tanto os veteranos quanto os recém-chegados. Nossa adicção vem novamente à tona e causa descontrole de pensamentos e sentimentos sempre que descuidamos de nosso programa de recuperação. Esse processo nada tem a ver com a “droga de preferência”. Estamos alerta contra a recorrência do nosso uso de droga aplicando nossos princípios espirituais antes de uma recaída. Nosso Primeiro Passo se aplica independentemente da “droga de preferência” e do tempo em que estamos limpos. Tendo esse “gol de placa” como embasamento, NA floresceu como importante organização mundial, enfocando claramente a adicção.
À medida que a comunidade de NA amadureceu através de um melhor conhecimento de seus próprios princípios (o Passo Um em particular), um fato interessante se apresentou. A perspectiva de A.A., enfocando o álcool, e a abordagem de NA, não enfocando nenhuma droga específica, não podem ser confundidas (misturadas). Quando tentamos misturá-las enfrentamos os mesmos problemas que A.A. teve conosco. Quando nossos membros se identificam como “adictos e alcoólicos”, ou falam sobre “sobriedade” e viver “limpo e sóbrio”, a clareza da mensagem de NA é truncada. Esse linguajar sugere a existência de duas doenças e que cada droga é diferente da outra, como se houvesse necessidade de terminologias diferenciadas toda vez que a adicção fosse discutida. À primeira vista, o fato parece de somenos importância, contudo nossa experiência mostra que o impacto da mensagem de NA é claramente atenuado por essa confusão semântica aparentemente tão sutil.
Ficou bem claro que tanto nossa compreensão quanto nossa unidade, assim como a nossa rendição “ampla, total e irrestrita” como adictos que somos, depende de um entendimento límpido e cristalino de nossos princípios mais fundamentais: somos impotentes perante uma doença que piora progressivamente mediante o uso de qualquer droga. Não importa qual fosse a nossa “droga de preferência” ao ingressarmos; qualquer droga que usarmos acionará novamente a doença. Recuperamo-nos da doença da adicção aplicando nossos Doze Passos. Nossos Passos foram escritos especialmente para transmitir claramente a mensagem, portanto, todo o resto de nossa linguagem de recuperação precisa ser tão consistente quanto eles. Não podemos misturar esses princípios fundamentais com aqueles da organização co-irmã, sem que nossa própria mensagem seja truncada.
Ambas as irmandades têm sua Sexta Tradição, para que possam conservar suas respectivas características e impedir que se afastem do seu propósito primordial. Uma irmandade de Doze Passos possui uma necessidade inerente de enfocar um único propósito, de forma a fazê-lo de um modo eficaz; cada irmandade de Doze Passos deve ser independente e não filiada a nenhuma outra atividade. A separação faz parte de nossa natureza, assim como o uso de terminologia própria, pois cada uma delas tem seu único e diferenciado propósito. O alcoolismo é o enfoque de A.A., e nós devemos respeitar o nosso próprio propósito e identificarmo-nos em nossas reuniões como adictos simplesmente, e fazer nossas partilhas de forma que a nossa mensagem seja clara.
Como irmandade, devemos nos empenhar cada vez mais em evoluir, sem nos atermos teimosamente a nenhuma radicalidade. Aqueles companheiros que estavam truncando (ainda que sem intenção) a mensagem de NA, usando termos como “sobriedade”, “alcoólico,” “limpo e sóbrio,” “viciado em drogas” etc, poderiam contribuir bastante identificando-se claramente como adictos e passando a usar as palavras “limpo,” “tempo limpo,” e “recuperação”, as quais não especificam nenhuma substância em particular. Todos nós podemos ajudar, citando nas reuniões apenas a nossa literatura, e evitando com isso implicações de qualquer endosso ou afiliação. Nossos princípios são auto-sustentáveis. Pelo bem de nosso desenvolvimento como irmandade e a recuperação individual de nossos membros, nossa abordagem dos problemas da adicção deve transparecer claramente em tudo o que fazemos ou falamos nas reuniões.
Membros de NA que costumavam usar esses argumentos no sentido de racionalizar e também cristalizar uma posição anti-A.A., conseguiram com isso desestabilizar companheiros veteranos e bastante ativos dentro da Irmandade. Melhor fariam eles se reavaliassem e reconsiderassem os efeitos danosos desse tipo de comportamento. Narcóticos Anônimos é uma irmandade espiritualizada. Amor, tolerância, paciência, e compreensão são essenciais na consolidação de nossos princípios.
Vamos canalizar energias em direção ao nosso desenvolvimento espiritual pessoal, através dos nossos Doze Passos. Levemos nossa mensagem de forma clara. Há muito trabalho e fazer e precisaremos muito uns dos outros para que haja eficácia. Vamos buscar o espírito de unidade de NA. (Narcóticos Anônimos, Conselho de Curadores para Serviços Mundiais, Boletim 13 – novembro de 1985)
(VIVÊNCIA Nº 63 – Jan /Fev 2000)
Sobriedade ao Alcance de Todos
Este é o tema da XXIX Conferência de Serviços Gerais
Nós em A.A. entendemos a amplitude deste sonho: Sobriedade ao alcance de todos. Não se trata de um sonho utópico.
É possível. Todo o membro da Irmandade se sente extremamente feliz quando pratica a nobre missão que lhe foi confiada pelo Poder Superior, como cada um O concebe: a de oportunizar ao doente alcoólico que ainda sofre, uma nova chance para retomar a se sentir íntegro, útil e feliz.
Já ultrapassamos enormes espaços, através do conhecimento dos Doze Passos de A.A. Quantas e quantos outros segmentos já não se beneficiaram com as experiências ali contidas?
É crescente e visível o emprego dos Doze Passos de A.A. adaptados aos princípios de tratamento e recuperação de instituições persas de mútua ajuda. … As vias de comunicação, notadamente a Televisão, periodicamente procuram trazer à tona a problemática do alcoolismo, sem contudo deixar de enaltecer a credibilidade e a importância de Alcoólicos Anônimos e de sua mensagem de esperança e amor ao alcoólico que ainda sofre.
A Sobriedade é para nós um estado de graça! A Sobriedade é um exercício constante.
A Internet será a mais rápida e ao mesmo tempo a responsável pela mensagem ao alcance de todos.
A Sobriedade, o estado de graça, o exercício constante da humildade serão apenas uma conseqüência para todos que a queiram.
Compartilhar experiências, forças e esperanças: Propósito fundamental da Irmandade de Alcoólicos Anônimos. Existindo em mais de 150 países e tendo em tomo de 105.000 Grupos no mundo e possuindo acima de 2.066.851 membros, acreditamos no nível de responsabilidade que a maioria dos membros da Irmandade possui, depois de sóbrios e gratos, para que sejam transformados em verdadeiros multiplicadores desta mensagem angular e reformuladora legada ao A.A. … O anonimato, cuidadosamente preservado, fornece dois ingredientes essenciais à manutenção da sobriedade. Esses dois ingredientes, na verdade, são duas faces de uma mesma moeda: primeiro, a preservação de um ego reduzido; segundo, a presença contínua da humildade ou simplicidade. “Em junho de 1960, o co-fundador de A.A., Bill W. já prenunciava alguns desafios para o futuro. Num documento com o título “Alcoólicos Anônimos Amanhã”, ele questionava: “Para onde vamos a partir de agora? Quais são nossas responsabilidades para hoje e para amanhã? Sabemos que estamos abrindo, cada vez com mais amplitude, qualquer meio ou canal concebível por intermédio do qual podemos chegar até esses nossos irmãos”.
Eis o porquê em depositarmos na Internet toda esta nova esperança. “Alcoólicos Anônimos está sendo abençoado em suas atividades pela Internet”
(Vivência Nov/Dez 2003).
Atrair um novo membro a um Grupo de A.A., é um momento mágico, que significa ser da vontade do Poder Superior salvar uma vida que se encontra em desatino, salvar um lar tumultuado, um emprego perdido, amores desfeitos em mentes doentias e que precisam, acima de tudo, de amor e respeito e não do descaso de uns ou do preconceito de outros. … Do simples gesto de servir o cafezinho ou passar um pano em mesas e cadeiras nas persas modalidades de reuniões praticadas pelos Grupos de AA, indo até a Conferência de Serviços Gerais ou eventos internacionais, tem nos Serviços o afunilamento em buscar encontrar a melhor maneira de oferecer a Sobriedade ao Alcance de todos, sejam alcoólicos ou não.
Alcoólicos Anônimos é uma sociedade de alcoólicos em ação.
…Trabalhando com os Outros, foi a primeira visão dos nossos pioneiros, como consta no Livro Azul. … Portanto, para nós é necessário estarmos também atentos: “o preço da Sobriedade é a eterna vigilância”, em nossos princípios e em nossas ações.
… Sendo assim, a Sobriedade estará ao alcance de todos.
O Brasil possui hoje mais de 16 milhões de pessoas com idade superior a 60 anos, consideradas idosas pela legislação brasileira.
Quase 1/10 da população brasileira encontra-se nessa faixa etária e assim, pessoas da “Melhor Idade” reúnem-se para proporcionar a si e aos demais idosos, momentos de convivência harmoniosa, de crescimento pessoal e de trocas de experiências, entre outras razões.
…No início, alcançar um ano de sobriedade era motivo de grande júbilo. O tempo foi passando e alcançar 10 anos contínuos de sobriedade era quase que vencer uma guerra.
Nos dias atuais, com o conhecimento da Literatura e com o crescente entendimento da programação, a convivência entre os que chegaram antes e os que estão chegando dentro da Irmandade tem pairado em sutis diferentes conotações.
… A presença de um bom veterano, repassando suas experiências serve de estímulo bastante significativo ao desenvolvimento de um Grupo.
Normalmente ele é o responsável pelo despertar dos membros à prática do Terceiro Legado, repassando sua vasta experiência, não a restringindo a si próprio.
… Para onde caminha o objetivo único de nossos Serviços?
“Cada Grupo é animado de um único propósito primordial o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda sofre” (Tradição Cinco).
• Não pode¬mos prescindir de nenhum companheiro de boa vontade!
• Temos estimulado o afilhado a trabalhar com outros alcoólicos, levando-o nas visitas de abordagens do Décimo Segundo Passo?
• Mostramos, principalmente através do nosso exemplo, a importância de todas as nossas Tradições? Alcoólicos recuperados estão totalmente em Sobriedade? Ou podem ainda estar sofrendo pelas conseqüências do seu alcoolismo?
• Sobriedade pode rimar com Solidariedade?
• Quantidade para nós em AA tem a mesma importância que a Qualidade de seus membros?
…”Não temamos jamais as mudanças necessárias. Naturalmente, teremos que saber distinguir entre as mudanças que conduzem à melhoria e as mudanças que nos levam de mal a pior”.
… “Ao dar uma olhada no futuro, vemos claramente que uma boa vontade cada vez mais profunda será a chave do progresso que Deus espera que façamos na medida em que caminhemos até o destino que Ele nos tem reservado”. (Trechos de artigo escrito por Bill W. para a Grapevine de julho de 1965).
Ray/Distrito Federal/DF
Redação: você, leitor poderá ler esta matéria na íntegra no Relatório Anual da XXIX Conferência, assim como outras sobre o mesmo tema.
Vivência n° 93 – Janeiro/Fevereiro 2005
“Alcoólicos Anônimos está sendo abençoado em suas atividades pela Internet”
… Não temamos jamais as mudanças necessárias. Naturalmente, teremos que saber distinguir entre as mudanças que conduzem à melhoria e as mudanças que nos levam de mal a pior.”
Transmitir a Mensagem de A.A.
Transmitir a Mensagem de A.A. ao Alcoólico que Ainda Sofre
“Nenhum de nós estaria aqui, se alguém não tivesse tido tempo para explicar-nos alguma coisa, para nos dar uns tapinhas nas costa, para levar-nos a uma ou duas reuniões, para fazer numerosos atos de bondade e consciência em nosso favor”.
O 12º Passo nos diz: “Tenho experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossa atividades”.
A 5º Tradição reza: “Cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre”.
Nos perguntamos: – por que será que em A.A., por duas vezes nos é pedido para que informemos ao alcoólico que ainda sofre? Por que será que os fundadores de A.A. deram tanta importância para o fato de que a mensagem deve chegar ao alcoólico que ainda bebe?
Aprendemos em A.A. que os Doze Passos são para nossa recuperação individual e as 12 Tradições, para vivermos em unidade nos Grupos.
O que é transmitir a mensagem? – Deixar passar além, conduzir. Fazer passa de um ponto ou de um possuidor ou detentor para outro, transferir.
Os Doze Passos são para nossa recuperação individual, portanto, se aplicam à minha pessoa, individualmente. Eu não trabalho os Passos de outro. Trabalho os meus Doze Passos.
É pelo resultado da prática desses Doze Passos que eu sou visto pela sociedade que convivo.
Quem me conheceu alcoolizado vê essa diferença hoje. Queiramos ou não, transmitimos à sociedade o que os Doze Passos nos fizeram e esta nos põe na balança, nos avalia, nos julga. Nós sentimos isso todos os dias.
Este é o conteúdo da 11ª Tradição: Nossas relações com o público baseiam-se na atração em vez da promoção.
Se formos a um baile, nos divertimos, dançamos, bebemos refrigerantes e ainda somos discretos, a sociedade nos vê e poderá dizer: “Esse aí, antigamente bebia muito”. “Esse casal aí estava se separando por causa da bebida”. “Como mudou essa pessoa depois que parou de beber! Era um caso perdido. Como será que isso aconteceu?”
Ou então: “Aquele ali que tem um emblema de A.A. no carro dele, estava passando para trás seus amigos”. “Esse sujeito parou de beber, mas continua negador de contas. É um safado”. “Parou de beber, mas em casa continuam as brigas”.
Onde nós passamos, para aqueles que nos conhecem, transmitimos a mensagem de A.A. pela atração. É isso que nos recomenda a 11ª Tradição. Mesmo não querendo, passo a ser um espelho da Irmandade. Abrindo ou não o meu anonimato, estou sempre transmitindo a mensagem de A.A.
O mar transmite grandeza. O lago calmo nos transmite paz. A rosa transmite um doce aroma. A escuridão nos transmite medo.
A criança nos transmite inocência. Não há necessidade de se colocar placas para isso, assim como não precisamos abrir nosso anonimato para que pessoas notem nossa mudança.
Isso, no meu entender, é transmitir a mensagem que aprendemos nos Doze Passos.
O que é levar a mensagem?
Fazer chegar, estender, levar para fora.
Levar a mensagem nos diz a 5ª Tradição: Cada grupo é animado de um único propósito primordial – o de transmitir sua mensagem ao alcoólatra que ainda sofre.
Faço questão de ressaltar: – a Mensagem deve ser levada pelo Grupo. Grupo é unidade, é mais do que um, portanto, com o conhecimento do Grupo, a mensagem, incluindo folhetos e endereços, será leveda aos outros por dois ou mais companheiros. Nunca, mas nunca mesmo, sozinho.
A.A. nos ensina que devemos trabalhar com os outros. Os outros, aqui são os companheiros de A.A., a sociedade e os doentes do alcoolismo.
“Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome. Eu estarei no meio deles”. Precisa-se dizer mais? Porque ser ingrato e se omitir de levar a mensagem com outro?
Muitos companheiros nos dizem ter abordado pessoas que precisariam estar em A.A. e essas não entenderam a mensagem. Fizeram isso sozinhos, não atendendo o que nos diz a 5º Tradição. Não o fizeram em Grupos.
Um fato importante. Devemos nos despojar dessa confiança imoderada que temos em nós mesmo. Muitas vezes, ela está arraigada em nós tão profundamente, que já nem percebemos o domínio que exerce sobre nosso coração. O nosso egoísmo, a preocupação com a nossa pessoa e amor próprio são precisamente as causas de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior, na provação de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Por isso, julgamos os outros e somos os donos da “verdade”.
Exemplo está na história do filho pródigo: Dá-me o que é meu que eu vou vencer sozinho. Só o Poder Superior pode lhe dar a vitória. Aí você volta para a casa de Seu Pai, ou ao seu Grupo e reconhece sua impotência, “em aceitar as coisas que não podemos modificar”.
É satisfazer o ego quando se diz no Grupo: Fiz sozinho minha parte; errou, não cumpriu o que sugere a 5ª Tradição.
O mesmo acontece com aqueles membros que, ao invés de levar a mensagem de A.A., levam a sua própria mensagem e ainda, ferindo a 8ª Tradição que diz: “Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não-profissional”, procuram levá-la misturando com a medicina ou dados estatísticos para se vangloriarem de sua mesquinha inteligência. Pensam que para levar a mensagem de A.A. têm de ser eloqüentes, ter conhecimentos gerais além da literatura de A.A..
Se assim acontece, esse membro deve voltar ao 12º Passo e praticar esses princípios em todas as suas atividades.
Cito um exemplo prático e verdadeiro de um Grupo que foi formado por seis membros. Em março de 2006, esse Grupo completou cinco anos de formação. E sabem quem estava lá? Uns 20 membros e entre eles, hoje, apenas três dos presentes na formação do Grupo há cinco anos. Três membros que nunca coordenaram uma reunião por dificuldades na leitura. Mas lá estavam os três juntos, continuando a levar a mensagem de A.A..
Há companheiros que se afirmam como bons AAs, porque participaram de diversos eventos, se fazem presentes em reuniões de Distrito, de Serviços, etc. Essas pessoas são como aquelas que já leram receitas de bolo, mas nunca experimentaram fazer o bolo. Não sentiram o prazer de fazer o bolo nem mesmo de apreciá-lo.
Tanto Bill como Bob afirmam nos livros de A.A., que o mais importante para a nossa sobrevivência, além da prática dos Doze Passos, é a prática da 5ª Tradição. É levar a mensagem.
O membro de A.A. já entrosado no programa das 24 horas, e que está concentrando suas energias no dia de hoje em busca da sobriedade e da serenidade pode perguntar ou perguntar-se de onde vem a força de Alcoólicos Anônimos? A força vem do despertar para um Poder Superior, da disposição de, em Grupo, levarmos aos outros que sofrem de alcoolismo a informação, através da 5ª Tradição, de como chegamos à sobriedade e de como a nossa vida mudou radicalmente para melhor.
Quando recebemos a força através da amizade dos companheiros do Grupo, do despertar espiritual e da execução do 12º Passo, nós, em A.a., passamos a conviver em unidade, recuperação e serviço. Nesse espírito de grupo, se a amizade não for o suficiente, então nos resta a fé, e se a fé às vezes for pouca, a prestação do serviço ao companheiro é um rio que irriga o deserto. Mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
Lembremo-nos finalmente, da última mensagem do Dr. Bob: – “Meus queridos amigos em A.A.. Fico bastante emocionado ao ver diante de mim um vasto mar de faces, com o sentimento de que, possivelmente alguma pequena coisa eu fiz há alguns anos para tornar este encontro possível… Nenhum de nós estaria aqui, se alguém não tivesse tido tempo para explicar-nos alguma coisa, para nos dar uns tapinhas nas costas, para levar-nos a uma ou duas reuniões, para fazer numerosos atos de bondade e consciência em nosso favor. Assim não deixemos nunca chegar a um grau de tal complacência presunçosa, que não nos permita dar ajuda ou tentar dá-la, a nossos irmãos menos felizes, já que ela tem sido tão benéfica para todos nós”.
João Toledo / PR
Vivência Nº 102 Julho / Agosto 2006.
Fundamentos do Programa de Recuperação de A.A.
TRATAMENTO INFORMAL
“OS DOZE PASSOS”
Iniciarei esta apresentação com uma importante afirmativa feita por George Vaillant no seu livro: A História Natural do Alcoolismo. Ele diz que é preciso aceitar o paradoxo e admitir que podemos colocar o alcoolismo no modelo médico, mas que a sua etiologia e tratamento são largamente sociais. E acrescenta que talvez não haja na Medicina moderna nenhum outro caso em que a sociologia contribua tanto para o entendimento daquilo que é chamado de alcoolismo.
Por outro lado, Klaus Makela afirma que “mudanças comportamentais radicais e duradouras geralmente também envolvem uma mudança existencial e a reestruturação do “self”. E deste ponto de vista, Alcoólicos Anônimos é uma interessante saída do alcoolismo.
TRABALHO DE VAILLANT
George Vaillant estudou 660 casos de alcoolismo e acompanhou esses pacientes por 40 anos, de 1940 a 1980. Ou seja, realizou um importante e significativo estudo longitudinal, talvez o mais completo e mais longo dos que até hoje foram feitos. A importância desse enfoque é posta em destaque pelo fato de que o corte transversal exibe o quadro de um momento, mas não mostra como se chegou a ele nem o que aconteceu a partir dele. Num estudo longitudinal é que se delineia o contorno da história natural de uma doença.
CORRELAÇÃO
O foco principal do referido trabalho está voltando para um minucioso estudo de correlação entre os modelos médico e social do alcoolismo. Num estudo de correlação procura-se avaliar em que medida, em determinados grupos de fenômenos ou em diferentes enfoques, de um mesmo fenômeno, ocorrem pontos comuns ou ligações entre suas características, estatisticamente significativas. A partir desse estudo, concluiu Vaillant que os médicos e os sociólogos estudavam o mesmo fenômeno, o alcoolismo. Falavam do mesmo fenômeno a partir de enfoques inteiramente distintos e isso é tão importante que, observando os critérios usados para o diagnóstico do alcoolismo, vemos que são adotados parâmetros tanto de caráter médico quanto social.
Olhando a partir de uma perspectiva mais adequada, volto a apresentar as palavras de George Vaillant que definem o foco, que a meu ver é o mais adequado diante da experiência que acumulei ao longo de muitos anos de prática médica e dos 34 anos de convivência estreita e continua com os membros da comunidade de Alcoólicos Anônimos.
Repetindo, temos que aceitar o paradoxo e admitir que podemos colocar o alcoolismo no modelo médico, mas a etiologia e o tratamento são largamente sociais. Nós, do mundo científico, racionalistas e cartesianos, não gostamos do paradoxo. A palavra paradoxo traz a conotação de imprecisão, de coisa de compreensão difícil, de complexidade, de coisa contraditória, mas uma coisa só é verdadeira quando contém o paradoxo.
DESCONHECIMENTO
Apesar de o alcoolismo ser uma desordem de grande poder destrutivo que, segundo o mesmo autor, afeta de 3 a 10% dos americanos do norte, ser responsável por 25% das internações em hospitais gerais e de ter papel importante nas quatro maiores causas de morte entre homens de 20 a 40 anos de idade: suicídio, homicídio, acidentes e cirrose hepática, além de comprometer seriamente os familiares e amigos dos alcoólicos, a falta de conhecimento acerca do que é o alcoolismo é assombrosa.
FATOS
O que consideramos até o momento nos mostra que o melhor caminho a seguir no conhecimento do fenômeno Alcoólico Anônimos é o da observação pura e simples de fatos reais e de fácil constatação.
BREVE HISTÓRICO
Assim, temos que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos surgiu em 10 de junho de 1935 nos Estados Unidos da América, ou seja, há 71 anos. Ao longo de todo esse intervalo de tempo, cresceu de forma contínua e consciente. Ou seja, o crescimento não teve um contorno senoidal, ora para cima ora para baixo, e isso é muito importante para apreciar a consistência e o vigor desta forma de associação humana. É importante ainda acrescentar que poucos são os fenômenos sociais ou mesmo instituições que mostraram tal consistência e longevidade. Por outro lado, difundiu-se para cerca de 150 países do mundo e aqui vale ressaltar que ultrapassou fronteiras não só físicas, mas, sobretudo sociais: lingüísticos, culturais, religiosos, étnicos, etc. Isto é, alcançou seres humanos de todas as raças, de todas as religiões e de muitas e diferentes culturas.
Num primeiro momento, irradiou-se por todos os Estados Unidos. Num segundo, alcançou o norte da Europa e se difundiu por países anglo-saxônicos e de cultura predominantemente protestante. Depois, chegou ao centro e ao sul do continente europeu, ou seja, a países de cultura predominantemente católica. A seguir, alcançou a América Latina, a África e os países do leste europeu. Numa terceira onda, chegou aos países do leste asiático, podendo-se afirmar que Alcoólicos Anônimos está se consolidando como o que, em sociologia, se conhece como um fenômeno mundial, e este é um fato notável.
No Brasil, o primeiro grupo surgiu em 5 de setembro de 1947 e, a partir dos anos 60, tem crescido num ritmo impressionante, de tal forma que hoje existem cerca de 6.000 grupos com aproximadamente 180.000 membros em recuperação.
Fazendo uma imagem simples, podemos dizer que em 1935 eram apenas dois os membros de Alcoólicos Anônimos e que hoje são dois milhões de membros espalhados por quase todos os países do mundo.
COMO É ALCOÓLICOS ANÔNIMOS?
Ao contrário dos movimentos sociais de longa duração, que vão lentamente passando de um início freqüentemente carismático e vão se tornando burocráticos e profissionais ao longo do tempo, isso não aconteceu com a Irmandade de Alcoólicos Anônimos.
O A.A. não está sujeito à lei de ferro de uma oligarquia, não existindo em A.A. uma estrutura de poder e nem um código disciplinar. A Irmandade não possui bens, não ser o que é estritamente necessário para o seu funcionamento, ou seja, apenas alguns bens móveis e nenhum imóvel.
O A.A. funciona sobre uma estrutura celular segmentada, que é uma forma de organização muito eficiente adotada nas sociedades modernas, de modo que todos os grupos são autônomos e economicamente independentes. Eles crescem, morrem, proliferam, diminuem se dividem e se fundem espontaneamente, por si mesmos.
Os grupos são sustentados através de contribuições voluntárias e pela venda de literatura própria. Por outro lado, a estrutura celular não é amorfa, sendo que as células se juntam para formar uma complexa rede com a clara característica de ser uma rede social.
A estrutura celular, em grupos, facilita a tarefa de alcançar diferentes segmentos populacionais de uma sociedade e oferece uma grande variedade de grupos para o recém-chegado escolher, de modo a encontrar um que se adapte à sua personalidade, ideologia e condição social. Por outro lado, esta estrutura permite que formas mal adaptada desaparecem sem colocar a Irmandade, como um todo, em risco.
As decisões são tomadas mais por consenso do que por votação, o que tende a prevenir a divisão em frações. De outra forma, a unidade é reforçada pelo sistema de rotação daqueles que estão em serviço, no desempenho de algum encargo. Não há cargos e tão somente encargos, ou seja, apenas responsabilidades na execução de alguma determinada tarefa, mas sem poder.
Dentro da sua estrutura não-hierárquica e não-burocrática, as lideranças não se apóiam na posição que um membro tenha na estrutura formal da sociedade. O prestígio pessoal depende da sabedoria e ad experiência de vida de cada um, além do trabalho realizado com outros alcoólicos.
ORGANIZAÇÃO POLICÉFALA
O fato de não aceitar ajuda econômica externa, torna os grupos autônomos e, a partir dessa condição, eles se constituem no local primário de tomada de decisões. Por não ter que assumir posição em assuntos externos ao movimento e em questões ligadas ao cuidado com os alcoólicos, fica diminuída a necessidade de tomada de decisões. Outra característica muito importante é que o A.A. tem uma organização policéfala, não existindo uma estrutura central de tomada de decisões. Vale destacar que a estrutura policéfala evita as disfunções causadas pelo envelhecimento das lideranças, pela ossificação das estruturas e as causadas por alguma conduta inadequada.
AUTO-GESTÃO
Uma conferência é realizada anualmente nos países em que A.A. está presente e nela todos os grupos de um determinado país são representados constituindo-se essas conferências naquilo que podemos entender como sendo um aperfeiçoado e eficiente sistema de auto-gestão. No decurso das conferências, são identificadas soluções para os problemas encontrados ao longo de um ano e traçados os rumos para mais um período de igual duração, além de outras providências sendo que, desse grande encontro, resultam apenas sugestões para todos os grupos.
DESTAQUE PARA O PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO
Em princípio, Alcoólicos Anônimos não oferecem tratamento e é um movimento de ajuda mútua, não existindo uma relação profissional/paciente, não obstante existir fora de A.A. um modelo de tratamento realizado por profissionais e inspirado ou orientado para o programa de recuperação de A.A.
Um lugar de destaque fica para o Programa de Recuperação, constituído pelos Doze Passos de A.A.
Os Doze Passos são, literalmente, um programa. Não se trata de um código de conduta, mas sim de tarefas e problemas a serem resolvidos. Os três primeiros são passos de decisão e neles os alcoólicos admitem o alcoolismo e colocam a recuperação nas mãos de um Poder Superior. Os de número 4 e 9 são voltados para uma mudança da relação com a própria vida e com os outros são chamados de passos de ação e os de 10 a 12 são de continuação e manutenção.
LIVRO AZUL
A primeira literatura impressa de A.A. foi o chamado Livro Azul que apresentou os Doze Passos e é um resumo do que os primeiros membros de A.A. fizeram. Os Doze Passos são colocados como um programa sugerido de recuperação. A maioria das suas páginas é dedicada a histórias individuais de recuperação, de tal forma que o aprendizado em A.A. se torna baseado no exemplo.
O A.A. se apóia numa mistura de tradições escritas e orais de modo que possui textos básicos altamente reverenciados que se constituem num modelo para os grupos e para os seus membros, sendo que a tradição oral está associada à ênfase que se faz na experiência individual dos membros. As tradições, escritas e orais são o fruto da experiência individual e, coletivamente, dos grupos.
GRUPOS MAIS E MENOS RÍGIDOS
O A.A. não formula regras de conduta, mas, pela transmissão oral, são passados modos de comportamento e maneiras de falar que vão sendo aprendidas ao longo do tempo pelo exemplo e pela experiência diária. Resumindo, aprendem-se virtudes e sabedoria a partir da experiência, embora não existam regras de boa conduta, do que resulta uma profunda mudança comportamental ao longo do tempo. Dessa forma, há muito de cultural, e assim sendo, são criadas condições para a existência do espaço necessário para o surgimento de alguma variação no sistema de crenças que permite o aparecimento de variantes extremamente doutrinárias e de outras formas mais frouxas, abertas e liberais. Por outro lado, os recém-chegados são usualmente orientados para que visitem diferentes grupos a fim de encontrarem um que se adapte melhor ao seu modo de ser. Dentro desta mesma linha e tendo a recuperação individual como objetivo principal, o membro de A.A. continua com a possibilidade de, a qualquer momento e sempre que necessário, procurar um outro grupo que contribua melhor para a sua recuperação.
Como decorrência, fica estabelecido um processo de auto-seleção contínua e flexível que amplia a condição do A.A. como movimento de ajuda mútua e serve como uma maneira informal e autodirigida de “comparação de tratamento” que está além do alcance de qualquer programa de tratamento profissional.
Em traços muito gerais, desenhamos uma visão macro da Irmandade de Alcoólicos Anônimos e agora vamos à dimensão micro do fenômeno.
Para dar ênfase às dimensões da Irmandade, adotamos uma abordagem bi-polar.
Movemo-nos da dimensão histórica, geográfica e social para o que ocorre no interior dos grupos de Alcoólicos Anônimos. Do cosmo para o átomo.
Vamos entrar na matriz, no útero, vamos para o que gera, para o local onde as coisas acontecem tendo em vista que o grupo de A.A. é a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação da Irmandade.
O PRÊMIO LASKER
Em 1951, o Prêmio Lasker foi atribuído aos Alcoólicos Anônimos. No respectivo diploma, lê-se o seguinte:
“A Associação Americana de Saúde Pública outorga o Prêmio Lasker para Grupos referentes a 1951 para Alcoólicos Anônimos, em sinal de reconhecimento pela maneira singular e grandemente vitoriosa com que vem atacando esse problema sanitário e social, velho como o tempo – o alcoolismo. Ao salientar-se o caráter de enfermidade do alcoolismo, o estigma social que acompanha tal condição está sendo eliminado. Os historiadores talvez reconheçam um dia que Alcoólicos Anônimos foi uma grande obra de desbravamento que produziu um novo instrumento de ação social: uma nova terapêutica baseada na irmandade resultante do sofrimento comum; terapêutica que encerra em si um vasto potencial para as miríades de outros males da humanidade.”
(Fonte: Alcoólicos Anônimos)
Dr. Laís Marques da Silva
Ex-Custódio e Ex-Presidente da JUNAAB
Vivência nº105
Janeiro/Fevereiro/2007
Uma tarde sombria
A tarde era sombria.
O frio e o vento caracterizavam Rio Grande no inverno.
De avental branco, óculos no rosto, livro de anotações embaixo do braço, documentos policiais e caneta na mão, por mais uma das inúmeras vezes, entrei no necrotério do Posto Médico-legal onde exerço a função de perito médico-legista.
O trabalho seria igual a tantos os outros: buscar através de necropsia a causa da morte.
Diferentes estavam os estados de meu espírito, minha alma e meus sentimentos. Nem sempre são os mesmo. Variam por fatores que desconheço.
É verdade que a rotina do trabalho tornou-me mais duro embora nunca tenha conseguido fazer-me insensível. Não raro percebo alguma lágrima rolando pelo rosto. Rapidamente seco e sempre atribuo a algum cheiro mais forte.
Por vezes olho o Cristo que coloquei na parede e pergunto: – por quê? Estranho, mas sempre ouço alguma resposta.
Em cima da mesa fria o corpo de um homem, meia idade, quase igualmente gelado e rígido. As vestes maltrapilhas trajadas como uniforme do abandono; o rosto inchado por edema; barriga crescida por ascite; feridas em antebraços e pernas por pelagra, pelos púbicos com implantação feminina por alteração hormonal; musculatura frágil por falta de proteínas, cheiro fétido por esquecimento dos hábitos de higiene.
Olhei para o meu auxiliar e fiz o diagnóstico: – mais um bebum! Cirrose!
A necropsia transcorreu com a frieza e a técnica científica necessária. O diagnóstico foi mesmo de cirrose. Fígado destruído, baço aumentado, varizes no esôfago, edema no cérebro, inflamação no estomago repleto de liquido transparente com cheiro forte de álcool. Mas a tarde era sombria, havia frio e vento e meu espírito, minha alma e meus sentimentos, igualmente, pareciam combinar com o clima.
Olhei para o corpo do homem, suas roupas, sua condição e mais uma vez sequei uma lágrima que rolava pelo rosto. Talvez fosse do cheiro forte do formol que havia na sala.
Quando percebi que não havia formol na sala deparei-me com meu pensamento imaginando a história daquele homem, suas razões, seus sofrimentos.
Teria conhecido os pais? Tido irmãos? Teria estudado, trabalhado? Teria amado? Também teria sido amado? Teria constituído uma família com casa, mulher, filhos, cachorro, sogra? Afinal, qual seria seu desencanto?
As injustiças do mundo? Teria a vida sido a ele mais justa que a tantos outros?
Minha reflexão não trouxe qualquer resposta. Por mais que formulasse perguntas a mim mesmo, mais dúvidas encontrava.
Saí da sala de necropsias convencido que seria inútil buscar respostas. Era mais um bebum morto, mais uma cirrose diagnosticada. Nisso não havia novidade; diferentes estavam meu espírito, minha alma e meus sentimentos… Sombrios como a tarde.
Entrei no setor administrativo do Posto para preencher a Declaração de Óbito.
Num banco pobre de madeira estavam sentados a esposa, um filho e uma filha. Olhei para todos e a cada um deles. Penetrei profundamente em suas almas por seus olhos parados. Por instantes conversamos sem trocar uma palavra. Eu não estava ali para anunciar a morte que eles já sabiam, nem para dar um diagnostico que, igualmente, conheciam. Eu apenas estava ali, em nome da lei, para entregar-lhes um documento que possibilitaria o enterro do cadáver de um esposo e pai.
Olhei a mulher e conversamos. Soube que estavam separados fazia algum tempo. Depois de muitos anos de sofrimento, havia buscado viver sem marido. Ela não chorava de derramar lágrimas. Em seu semblante havia marcas de vivencias muito mais profundas que as deixadas por sua idade. Não havia ódio. Havia mágoa. Uma profunda mágoa, uma tristeza do tamanho do mundo. Seu depoimento, insistindo em testemunhar que quando ele não bebia era um homem bom, saía por voz serena, sem culpas ou lamentos. Dava a perceber que o amor que havia existido deixou algum tipo de sentimento bom. Não sei qual. Restava, talvez, alguma lembrança. Quem sabe do primeiro beijo, pensei eu.
Depois olhei o filho. Tinha os olhos de quem não havia chorado uma disposição de manter-se firma. Não consegui encontrar desprezo em sua expressão. Havia dor. Seu herói havia tombado. Não havia mais tempo de retomar qualquer conversa.
A filha não se importava de esconder o choro. Adolescente mais nova que o filho estampava em seu rostinho um misto de pena e saudade. Talvez, pensei eu, lembrasse de um dia do seu aniversario e a presença do pai sóbrio.
Com o olhar da mulher e dos filhos fixados em minha mente voltei para casa.
O dia parecia-me mais sombrio, a chuva e o vento mais fortes.
A mulher não recordou das agressões sofridas. O filho não contou vergonhas passadas. A filha desconsiderou as ausências havidas.
E eu, não havia realizado a necropsia em mais um bebum: havia encontrado o cadáver de um homem que amou, foi muito amado e, lamentavelmente, padeceu de uma doença chamada alcoolismo.
Dr. Flávio Ennes Cardone
Médico Legista/RS
Vivencia Nº111 – Janeiro/Fevereiro – 2008

CARTA DE BILL W. A CARL JUNG

Carta de Bill W. a Carl Jung
Aqui está um capitulo de vital importância na história dos inícios do A. A., primeiramente publicado na GRAPEVINE, em janeiro de 1963, sendo reeditado em janeiro de 1968 e em novembro de 1974.
CARTA DE BILL, W. Janeiro 23, 1961.
Meu Caro Dr. Jung,

Esta carta há muito lhe deveria ter sido enviada.

Devo primeiramente apresentar-me ao Senhor como Bill W. um dos co-fundadores das sociedades dos Alcoólicos Anônimos. Embora seja provável que o Sr. Já tenha ouvido falar de nós, com certeza ignora que uma conversa que manteve com um de seus pacientes, Mr. Rowland, nos idos de 1930, tornou-se uma das regras fundamentais da nossa Sociedade.

Embora Mr. Rowland tenha nos deixados há muito tempo, o registro de sua inesquecível experiência, enquanto sob os seus cuidados, passou definitivamente para a nossa história e é a que passo a lhe relatar: Tendo Mr. Rowland esgotado todos os recursos para livrar-se do alcoolismo, tornou-se em 1931 seu paciente, permanecendo em tratamento, se não me engano durante mais ou menos um ano; após este tempo deixou-o cheio de confiança e com a mais irrestrita admiração pelo Senhor. Contudo para a sua enorme consternação, retornou ao velho hábito.

Convencido de que o senhor era a sua “tábua de salvação”, voltou ao tratamento. O relato do diálogo entre ambos veio a torna-se o primeiro elo de uma corrente de acontecimentos, que terminaram por induzir a fundação de nossa Sociedade.

A minha lembrança deste relato do encontro entre ambos é que se segue: primeiramente disse-lhe o Senhor francamente que não via esperanças para ele em novos tratamentos, fossem eles médicos ou psiquiátricos. Esta sua posição sincera e humilde foi, sem dúvida, a primeira pedra em que fundamentamos a nossa Sociedade.

Tal afirmação, vinda de quem ele tanto confiava e admirava produziu sobre ele o mais violento impacto.

Quanto ele lhe perguntou se então não haveria para ele alguma esperança, o Senhor lhe respondeu que poderia haver sim e que esta seria a de tornar-se o sujeito de uma genuína experiência espiritual ou religiosa – em resumo, de uma autêntica conversão. Tal experiência poderia motivá-lo mais que outra qualquer, disse-lhe o Senhor. Mas preveniu-o de que conquanto tais experiências tivessem acontecido a alguns alcoólicos, elas eram comparativamente raras. E recomendou-lhe que se colocasse em uma atmosfera religiosa e que esperasse. Esta foi a substância do seu conselho.

Prontamente Mr. Rowland juntou-se ao Oxford Group, um movimento evangélico de grande sucesso na Europa, movimento este que lhe deve ter sido familiar.

Certamente o Senhor se lembrara da grande ênfase que davam aos princípios de autovigilância, da confissão, da reparação e da doação pessoal ao serviço dos outros. Eles também praticavam a meditação e a prece intensivamente. E foi nesta prática que Mr. Rowland encontrou a experiência de conversão, que o libertou, finalmente, da compulsão de beber.

Voltando à Nova York tornou-se membro ativo do Oxford Group, entidade então conduzida pelo Dr. Samuel Shoemaker. Dr. Shoemaker havia sido um dos fundadores daquele movimento e a sua poderosa personalidade era carregada de imensa sinceridade e convicção.

Neste tempo (1932-34) o O. G. já havia recuperado um número de alcoólicos e Rowland, sentindo que poderia identificar-se com aqueles sofredores lançou-se, ele mesmo, no auxílio de outros. Um desses eram um velho companheiro de colégio meu, chamado Edwin T. (Ebby). Ele havia sido tratado por outra instituição, mas Mr. H. e um outro ex-alcoólico do O. G. contataram-se com ele e convenceram a retornar à sobriedade.

Enquanto isto, eu percorria os caminhos do alcoolismo, tentando cura-me por mim mesmo.

Felizmente, acabei sendo cliente do Dr. William D. Silkworth, que era maravilhosamente capaz de entender os problemas alcoólicos. E assim como o Sr. resgatou Rowland, assim também ele me resgatou do álcool.

Sua teoria era a de que o alcoolismo tinha dois componentes: por um lado uma obsessão que compelia o sofredor a beber, contra seu desejo e, por outro lado, uma espécie de dificuldade metabólica que ele chamava de alergia. A compulsão ao álcool garantia que o hábito de beber prosseguiria e a alergia fazia com que o sofredor entrasse em decadência, enlouquecesse ou morresse. Embora eu fosse um dos que havia julgado ser possível ajudar, acabou sendo obrigado a me confessar que já não via mais esperança para o meu caso. Eu deveria considerar o meu tratamento encerrado. Para mim isto foi uma bofetada. Assim como Rowland foi preparado pelo Senhor para a sua experiência de conversão, meu maravilhoso amigo também me preparou para semelhante experiência ao dar-me tal terrível veredicto.

Ouvindo falar sobre a minha recaída, meu amigo Edwin T. veio ver-me em minha casa, onde eu estava bebendo. Era novembro de 1934 e já fazia muito tempo que eu registrara meu amigo Edwin como um caso incurável. No entanto, ali estava ele, no mais evidente estado de sobriedade. Este estado de sobriedade certamente estava relacionado ao curto período em que ele esteve ligado ao Oxford Group e era naquele momento tão evidente, tão distinto de sua usual depressão que me foi tremendamente convincente. Por ser ele um irmão-sofredor comunicou-se comigo em tal profundidade que eu imediatamente senti que deveria buscar uma experiência igual a sua ou então morrer.

Voltei então aos cuidados do Dr. Silkworth; onde pude tornar-me novamente sóbrio, ganhando assim nova visão sobre a experiência da libertação do meu amigo e novo enfoque no caso de Howland H.

Livre mais uma vez do uso do álcool passei a me sentir terrivelmente deprimido, o que me pareceu ser devido a minha inabilidade de adquirir qualquer tipo de fé. Edwin T. visitou-me novamente nesse período, repetindo as mesmas fórmulas do tratamento do O. G. Quando ele me deixou, recaí na mais profunda depressão.

Desesperado, então gritei: – “Se existir um deus, que ele se mostre para mim”. Imediatamente, uma iluminação de enorme impacto e dimensão envolveu-me, uma coisa extraordinária que tentei descrever no meu livro Alcoholics Anonymous, bem como em “A.A. Come of Age”, textos básicos que lhe estou enviando agora.

Meu desligamento da obsessão pelo álcool foi imediato. Senti que me havia tornado um homem livre.

Logo em seguida a esta minha experiência recebi no hospital, das mãos de Edwin o livro de William James, “Varieties of Religious Experience”, livro este que veio me conscientizar que a maior parte das experiências religiosas, as mais variadas têm um denominador comum que é o colapso do ego, a sua queda no maior desespero. O inpíduo tem que se encontrar em uma situação extrema, frente a um dilema insolúvel. No meu caso esta situação, este dilema insolúvel nasceu da minha compulsão à bebida e um profundo sentimento de desespero mais ainda tomou conta de mim quando o meu amigo alcoólico comunicou–me o seu veredicto de incurável, dado a Rowland H.

Durante a minha experiência religiosa tive a inspiração de uma sociedade de alcoólicos em que cada um se identificasse com o outro e lhe transmitisse a sua experiência, em uma espécie de cadeia. Se cada sofredor tinha que dar a notícia do veredicto de incurável que a ciência médica conferia ao ingresso no tratamento, deveria também lhe colocar a possibilidade de uma abertura a uma experiência de transformação espiritual. Este conceito provou ter sido a base de posteriores conquistas dos alcoólicos anônimos. Isto fez com que as experiências da conversão, quase tão múltiplas quanto as citadas por W. James se tornassem disponíveis em larga escala.

Nossos associados somavam no último quarto de século o número de 300.000. Na América e através de todo o mundo eles chegam a formar 8.000 grupos de A. A.

Assim sendo, nós do A. A. fomos extremamente beneficiados pelo Senhor, pelo Dr. Shoemaker do Oxford Group, por William James e pelo nosso amigo, o médico Dr. Silkworth.

Como vê o Senhor claramente agora, esta espantosa cadeia de acontecimentos realmente começou há muitos anos, na sala do seu consultório e foi desencadeada pela sua humildade e profunda percepção.

Muitos elementos do A. A. são estudiosos de sua obra. O Senhor endereçou-se especialmente em sua direção devido a sua convicção de que o homem é mais que o intelecto, as emoções e dois dólares de medicamentos.

Os panfletos e outros materiais que lhe envio mostrar-lhe-ão o quanto a nossa sociedade vem crescendo, desenvolvendo o seu espírito de unidade e como ela vem estruturando as suas bases.

O Senhor gostará provavelmente de saber que além da experiência espiritual, muitos A. A. vêm ingressando em outras experiências psíquicas, com considerável força cumulativa.

Outros membros, depois de recuperados nos A. A. têm sido muito ajudados pelos seus assistentes e alguns são estudiosos do I Ching e do admirável prefácio que o senhor fez para este livro.

Esteja certo de que como ninguém mais o senhor ocupa destacada posição no afeto e na história de nossa sociedade.

Muito grato ao Senhor,

William G. W.
________________________________________
RESPOSTA DE JUNG. Janeiro 30, 1961.
Caro Sr. W.,

A sua carta foi-me realmente bem-vinda.

Não tive mais notícias de Rowland H. e muitas vezes desejei conhecer o seu destino.

O diálogo que mantivemos, ele e eu, e que ele muito fielmente lhe transmitiu teve um aspecto que ele mesmo desconheceu. A razão pela qual não pude dizer-lhe tudo foi que naquela época eu tinha que ser excessivamente cuidadoso com tudo o que dizia. Eu havia descoberto que estava sendo de todas as maneiras mal interpretado.

Portanto, tive que ser muito cuidadoso ao conversar com Rowland H. Mas o que eu realmente concluí sobre o seu caso foi o resultado das minhas inúmeras experiências com casos semelhantes ao dele.

A sua fixação pelo álcool era o equivalente, em nível mais baixo, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval, pela união com Deus.

Como poderia alguém expor tal pensamento sem ser mal interpretado em nossos dias?

O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade e ela só pode acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta. E você poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal honesta com os amigos ou através de uma educação mais alta da mente, para além dos limites do mero racionalismo. Vi pela sua carta que Rowland H. escolheu a segunda opção que, nas suas circunstâncias era, sem dúvida, a melhor.

Estou firmemente convencido de que o princípio do mal prevalecente no mundo conduz as necessidades espirituais, quando negadas à perdição, se ele não for contrabalançado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras da comunidade humana. Um homem comum desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamados de demônio. Mas o uso de tais palavras nos leva a tais enganos que temos que nos manter afastados delas, tanto quanto possível.

Eis as razões porque não pude dar a Rowland H. plena e suficiente explicação. Estou arriscando-me a dá-las a você por ter concluído pela sua carta decente e honesta, que você já adquiriu uma visão superior do problema do alcoolismo, bem acima dos lugares comuns que, via de regra, se ouvem sobre ele.

Veja você, “álcohol” em latim significa “espírito”, e você, no entanto, usa a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos.

A receita então é “spiritus” contra “spiritum”.

Agradecemos você novamente por sua amável carta, eu me reafirmo.

Seu sinceramente,

C. G. Jung.
Carl Jung e sua perspectiva para o desenvolvimento dos Alcoólicos Anônimos

Escrito por Maria Stella Ferreira Cordovil Casotti *
10-Out-2009
O AA desde seu surgimento, em 1935, tem sido um baluarte na busca da recuperação da dependência química. Pode-se dizer que AA surgiu a partir da necessidade de se dialogar. Foi através do diálogo que Bill Wilson – corretor da bolsa de valores de Nova Iorque – e Bob Smith – médico cirurgião de Ohio – ambos pertencentes ao estrato social da classe média alta, mas com uma vida fracassada pelo álcool, perceberam que ao conversar sobre as dificuldades em se abster do álcool, bem como as conseqüências nefastas resultantes do uso do álcool, lhes deixava mais aptos a manterem-se abstêmios. Esse hábito de conversar foi o trampolim para eles fundarem o AA, grupo de auto-ajuda que tem como objetivo auxiliar as pessoas que sofrem de alcoolismo e/ou outras drogas a se recuperarem.
Talvez a premissa básica do AA seja a renovação do compromisso diário de evitar o “primeiro gole”. Cada um busca se tornar líder, especialmente de si mesmo, mas, também dos outros, para, assim, se tornarem exemplos a serem seguidos. No AA existe coesão social, pois afeto, acolhimento, solidariedade, compartilhamento do que cada um possui do ponto de vista humano, há o senso do pertencimento e com isso são criados laços emocionais fortes especialmente entre os pares. É através do diálogo que os membros de AA compartilham sentimentos, desejos, frustrações e experiências e são essas trocas que direcionam a caminhada para a manutenção da abstinência desses membros. Os diálogos, as leituras e as trocas permitem ao dependente químico ter consciência de sua dependência e, ao mesmo tempo, se por perante o grupo como alguém que necessita de ajuda. O AA busca um despertar no sentido de que os seus membros reflitam da seguinte forma: “Só eu posso me ajudar, mas preciso de ajuda”. Essa descoberta é bárbara, pois há uma perfeita inter-relação entre o individual e o coletivo.
E nessa busca de ajuda vale especialmente a ajuda de um Poder Superior. E é nesse contexto que se oportuniza, ou se possibilita mais o exercício da fé, pois os princípios do AA não se correlacionam por acaso. Eles têm uma seqüência lógica em cada “Passo”. E os primeiros “Passos” explicitam a ação de um Poder Superior, o qual deve ser buscado na sua intensidade para a superação desse modus vivendi desequilibrado. Pesquisas recentes também têm revelado a importância da fé, da espiritualidade, como componentes básicos, necessários a qualquer ser humano, para se viver uma vida mais plena de significados.
E um dos grandes estudiosos da mente humana a apreender o significado da importância da religiosidade para a saúde psicológica foi Carl Jung. Para Jung, Deus e ser humano estão inter-relacionados, uma vez que todo ser humano tem algo de divino.
Segundo Jung toda pessoa tem dentro de si forças curativas, bastando para isso perceber os insights que lhe são oportunizados. Para Jung, a perspectiva religiosa re-liga o homem a Deus, possibilitando assim, a cura e o equilíbrio da vida. Daí, a importância do ser humano, inclusive, limpar seu “arquivo mental” das mágoas, medos, ressentimentos, culpas. De acordo com os preceitos do AA, o Poder Superior liberta da escravidão dos aspectos materiais, mentais e emocionais, tornando o ser humano, assim, senhor de si mesmo, capaz de realizar-se como pessoa humana.
A ênfase espiritual de Jung é contundente em sua carta a Bill W., co-fundador dos AA, como sendo a prática da espiritualidade, no seu sentido mais intenso e profundo possível, a última e única solução para que Holand H, que fôra seu paciente, solucionasse seu problema: se abster do alcoolismo. Jung não só influenciou na conversão e cura de Holand H., como também do próprio Bill W. e outros, mas também na co-fundação do AA, em 1935. Bill W., na busca da libertação do álcool, estava na mais profunda depressão, sem o mínimo de fé, quando, no seu limite, clamou rogando que ‘Se existe um Deus, que se manifeste!’. No mesmo instante, Bill W. foi libertado da obsessão alcoólica. Esse fato mostra que também na “situação-limite” há possibilidades de superação, a partir de uma profunda experiência espiritual, o que fora preconizado por Carl Jung.
Carl Jung teve um papel decisivo na criação da irmandade Alcoólicos Anônimos, especialmente sob a perspectiva espiritual. Foi muito importante, na verdade foi uma inovação a intervenção de Jung unindo ciência e espiritualidade para a resolução dos dramas existenciais humanos, pois para Jung, o ser humano é um ser físico, mas, também, metafísico, transcendental, espiritual.
O dependente químico é um ser humano, que, apesar da perda da autonomia e da liberdade pessoal, em maior ou menor grau, para conduzir sua vida agindo de forma construtiva, tem o livre-arbítrio como uma possibilidade de transformar o seu drama humano em um projeto concreto de vida pleno de significados e valores. Quando esse insith é percebido e vivenciado há um despertar para a vida no sentido global de sua saúde mental e da existência humana.
AA E CARL GUSTAV JUNG
“O VALOR DA VIDA”
To William Griffith Wilson
Alcoholics Anonymous
EUA
30.01.1961
Der Mr. Wilson,
Sua carta foi muito bem vinda. Nunca mais tive noticias de Roland H. e às vezes me pergunto como ele estaria passando. Minha conversa com ele, que corretamente lhe contou, teve um aspecto que ele não conhecia. A razão foi que eu não podia dizer-lhe tudo. Naquele tempo eu tinha que ser extremamente cauteloso em tudo que dizia. Descobri que eu era mal interpretado em todos os sentidos. Por isso fui muito cauteloso ao falar com Roland H. Mas o que realmente levei em consideração foi o resultado de muitas experiências com homens de seu tipo.
Sua ansiedade por álcool corresponde, num nível mais baixo, à sede espiritual do ser humano pela totalidade, expressa em linguagem medieval: a união com Deus.
Como formular semelhante entendimento numa linguagem que não fosse mal interpretada hoje?
O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela nos acontece realmente, e só pode acontecer-nos quando caminhamos numa trilha que nos leva a uma compreensão mais elevada. Podemos ser levados a este objetivo por um ato da graça e por meio de um contato pessoal e honesto com amigos ou através de uma educação superior da mente, além dos limites do mero racionalismo. Vejo por sua carta que Roland H. escolheu o segundo caminho que foi, sob as devidas circunstâncias, obviamente o melhor.
Estou fortemente convencido de que o princípio do mal que prevalece neste mundo leva a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se não contar com a contra-reação de uma atitude verdadeiramente religiosa ou com a parede protetora da comunidade humana. Uma pessoa comum, não protegida por uma ação do alto e isolada da sociedade, não pode resistir ao poder do mal, que é chamado apropriadamente de demônio. Mas o uso de tais palavras faz surgir tantos erros que é melhor manter-se longe delas ao máximo.
Eis as razões por que não pude dar a Roland H. a explicação cabal e suficiente. Mas ao senhor eu confio porque concluo de sua carta, muito decente e honesta, que o senhor formou uma opinião sobre os chavões errôneos que se ouvem sobre o alcoolismo.
Veja o senhor: álcool em latim é spiritus, a mesma palavra para a experiência religiosa mais elevada e também para o veneno mais prejudicial. A fórmula benéfica é pois: spiritus contra spiritum.
Agradeço novamente sua gentil carta.
I remain
Yours sincerel,
C. C. Jung
William Griffith Wilson, 1896-1971, foi um dos fundadores da associação, originalmente americana, e depois mundial, dos “alcoólicos anônimos” (AA). A fundação ocorreu em 1934. Sua carta a Jung (23.01.1961) e a resposta acima foram publicadas na revista mensal AA Grapevine. The International Monthly Journal of Alcoholics Anonymous, em janeiro de 1963 e novamente em janeiro de 1968. Em sua carta, Mr. Wilson mencionou o caso do alcoólico Roland H., que foi analisado por Jung e cuja cura contribuiu para a fundaçãoda associação: após tentativas frustradas de cura, a análise de um ano e levou uma cura momentânea. Após um ano, Roland H. recaiu e procurou Jung de novo (1931). Este lhe explicou a inutilidade de um tratamento psiquiátrico no seu caso; somente uma experiência religiosa ou espiritual poderia livra-lo de sua situação desesperadora. A observação de Jung, feita com cautela, revelou-se correta. Após uma “conversion experience” no seio da “Oxford Group” Roland H. ficou definitivamente curado. Através de um amigo comum curado da mesma maneira, o destinatário soube disso e teve ele mesmo uma experiência religiosa curadora bem como a visão de um grupo de alcoólicos que contavam suas experiências espirituais uns aos outros. Isto levou à fundação da “Society of Alcoholics Anonymous”. Depois da morte do destinatário descobriu-se o seu verdadeiro nome; Em vida era conhecido apenas como “Bill W.”.
Cartas. Volume III. Carl Gustav Jung. Ed. Vozes.

ASPECTOS HISTÓRICOS DE A.A. NO BRASIL

ASPECTOS HISTÓRICOS DE A.A. NO BRASIL

DIFÍCIL COMEÇO

Corria o ano de 1945, um membro viajante norte-americano, de nome Bob Valentine, amigo de Bill W., de passagem pelo Rio de Janeiro, então capital nacional, conhece uma pessoa também norte-americana (não está totalmente definido se era homem ou mulher), com o nome de Lynn Goodale. Após uma conversa com Bob Valentine, Lynn Goodale encontra a sobriedade.
Ao que parece, a Fundação do Alcoólico era a responsável direta pela correspondência de Alcoólicos Anônimos com a sociedade e o elo entre a correspondência dos seus membros. Portanto, Bob Valentine, de volta aos Estados Unidos, em visita à Fundação do Alcoólico, passa-lhe o endereço de Lynn Goodale, como possível contato no Brasil. .
Prontamente, a secretaria da Fundação do Alcoólico escreve-lhe uma carta na qual solicita a confirmação do contato brasileiro, dizendo-se feliz por poder assinalar um ponto na cidade do Rio de Janeiro em seu mapa de contatos no exterior. Ao receber essa correspondência, Lynn Goodale responde afirmativamente sobre incluir-se como contato de A.A. no Rio de Janeiro e informa que sua estada no Brasil seria por pouco tempo. Solicita também, algum material (memorandos, boletins, etc.), e diz: “Há quatro meses evito o primeiro gole. Fazendo algo, creio que manterei a minha sobriedade (…) gostaria de ter alguma participação no crescimento de Alcoólicos Anônimos, aqui no Brasil.
A carta de agosto de 1945, assinada por Margareth Burgers, então, secretária da Fundação do Alcoólico, não altera em demasia os acontecimentos, mas marca o final da correspondência e Lynn Goodale entra em cena.
No ano seguinte, a Fundação do Alcoólico recebe a seguinte correspondência, vinda do Brasil:

Rio de Janeiro, 19 de junho de 1946 – Brasil

Ao Secretário do
A.A. Cosmopolitan Club
Nova Iorque.

Prezado Secretário:

Há coisa de um mês atrás, o remetente esteve em seu Escritório e antecipadamente prevendo sua mudança aqui para o Rio de Janeiro. Solicitou algum contato com um membro de A.A.. Fui gentilmente informado do nome de Lynn Goodale – Av. Almirante Barroso n 91, como o tal. Lamento informar que devido ao meu precário português, ou endereço incompleto, fui incapaz de localizar esta pessoa e o auxílio das listas telefônicas locais também foi insuficiente.
Você teria a paciência suficiente (considerando que o correio aéreo regular consome cerca de 29 valiosos dias na ligação Nova Iorque/Rio de Janeiro) de me fornecer instruções suficientes para contatar esta pessoa ou qualquer outro membro de A.A. no Rio?

Obrigado pelo seu interesse.

Herbert L. Dougherty
Rua Gustavo Sampaio, n 86 – Apto 402
PS. Você poderá incluir-me como contato para o futuro?

Tratava-se de Herbert L., um publicitário norte-americano, sóbrio deste 1945, quando conheceu ‘Alcoólicos Anônimos’ em Chicago e que veio ao Rio de Janeiro juntamente com sua esposa Elizabeth, para cumprir um contrato de três anos como Diretor de Arte numa grande companhia internacional de publicidade.
A resposta da Fundação do Alcoólico trouxe-lhe o nome de outras pessoas, Don Newton e Douglas Calders, as quais poderiam ajudá-lo; informou-lhe sobre a postagem de um “suprimento grátis de literatura” e trouxe-lhe um pedido de abordagem a um jovem de Recife.
Preocupado em manter a sua sobriedade e decidido a começar um Grupo de A.A. no Rio de Janeiro, Herb (como era conhecido) decide escrever à Fundação do Alcoólico, meses depois do último contato, dizendo não ter encontrado as pessoas indicadas. Nesta carta, datada de 02 de junho de 1947, Herb também informa que ele e sua esposa Elizabeth já haviam se adaptado bem ao Brasil e solicita mais nomes e endereços de possíveis AAs no Rio de Janeiro.
“Lynn Goodale e Don Newton deixaram o Rio de Janeiro”, diz a correspondência vinda da Fundação do Alcoólico, a qual também trás um pedido preocupado: “Não deixes passar outro ano sem correspondência” – e informa ao casal o novo endereço de Douglas Calders.
As cartas trocadas entre a Fundação do Alcoólico e Herb, continuaram. Na próxima, Herb envia um cartão constando seu nome e endereço cadastrando-se oficialmente como contato de A.A. no Brasil.
1947 foi o ano dos acontecimentos que culminaram com o início efetivo de Alcoólicos Anônimos no Brasil. No mês de julho, Herb recebeu o endereço de outro membro de A.A. residente no Rio de Janeiro e alguns panfletos em espanhol, e em outubro, a Fundação do Alcoólico expressa sua felicidade pelo início de um Grupo de A.A. no Brasil.
Contudo há uma lacuna entre a carta de julho e a carta de outubro. Foi justamente nesta época que se inicia o “Primeiro Grupo de A.A.”.

PRIMEIRO GRUPO DE A.A. NO BRASIL
O NÚCLEO DE A.A . DO RIO DE JANEIRO – “A.A. RIO’S NUCLEO”
5 de setembro, por que?

Pouco se tem documentado sobre a formação do Primeiro Grupo de A.A. no Brasil. O que se pode afirmar é que este Grupo de A.A. inicialmente era formado por norte-americanos, a serviço no Rio de Janeiro e que o idioma das reuniões, inicialmente sediadas nas casas ou apartamentos dos companheiros, era o inglês. A maior dificuldade, que Herb teve aparentemente, foi a de não falar fluentemente o português. Ele queria transmitir a mensagem de recuperação a brasileiros ou a quem falasse fluentemente o nosso idioma, pois sabia que quando de sua volta aos Estados Unidos, provavelmente todo o seu trabalho seria perdido.
Alguns pontos, inclusive a data do início do “A.A. Rio’s Núcleo” ou “Grupo de A.A. do Rio de Janeiro”, durante tempos foram envoltos em mistérios e em controvérsias. Vamos agora fazer uma parada na dissertação e dar uma olhada num fato sobre a formação deste Grupo de A.A..
Pudemos observar que o “livro de registros” do Grupo de A.A. Rio de Janeiro, na data de 29 de agosto de 1950, traz a seguinte anotação:
“Data: – aniversário
Na reunião de hoje, deliberamos comemorar o 3(terceiro) aniversário de participação da fundação do Grupo de A.A. do Rio de Janeiro, no dia 5(cinco) de setembro próximo.
A referente data ficará, por tradição, como a data oficial da Fundação do Grupo de A.A..
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1950.
Fernando – Secretário”

Este registro documentado é a mais clara evidência de que a data de início do Primeiro Grupo de A.A. no Brasil, foi dia 5 de setembro de 1947. (Embora exista uma palestra escrita por Harold, proferida em reunião do CLAAB, em 1978, afirmando que foi abril de 1948, é bom lembrar que a JUNAAB, ainda em Baependi/MG, aprovou, CONVENCIONANDO a data de 05 de setembro do ano de 1947. Infelizmente o secretário não menciona detalhes como e onde foi realizada a reunião inaugural, e nem quem foram os participantes dessa reunião.
O mais provável é que nessa data, deu-se o encontro de Herb com o primeiro brasileiro que conseguiu manter-se sóbrio em Alcoólicos Anônimos; foi o companheiro Antônio P., falecido em meados de 1951, quando tentava recuperar-se de um acidente de trabalho.

TRABALHO ÁRDUO COM OS OUTROS
CRESCIMENTO DO GRUPO DE A.A. GRAÇAS À INTENSA DIVULGAÇÃO

Na carta de outubro, vindo da Fundação do Alcoólico e que comentamos anteriormente, há uma sugestão para que o recém formado Grupo de A.A. trabalhasse firme na divulgação: …”Por todos os meios, prossigam com os planos de levar Alcoólicos Anônimos ao conhecimento público. Muitos Grupos de A.A. têm achado que são de grande ajuda os artigos nos jornais e não há contra indicações quanto a isso, contando com as Tradições de A.A.- anonimato, propósito, dinheiro, etc. (…) Depois de estrondosa abertura a publicidade, um grande número de Grupos de A.A. tem usado anúncios pequenos, informando que estão funcionando e o endereço onde maiores informações poderão ser obtidas.”
Baseando-se, talvez, nessa sugestão, foi que Herb encaminhou uma carta ao jornal “O Globo”. O editor ficou muito entusiasmado e o artigo apareceu na primeira página da edição de 16 de outubro de 1949.
“Alcoólicos Anônimos – Uma Sociedade de Fins Meritórios” era o título do artigo que detalhava o funcionamento de A.A. “Alcoólicos Anônimos é uma sociedade composta por pessoas que tendo sido bebedores inveterados, conseguiram livrar-se do alcoolismo e trabalham com o intuito de se ajudarem mutuamente e se manterem sóbrios. Sendo ex-bêbados, não entramos em discussão com aqueles que bebem normalmente ou com os fabricantes de bebidas alcoólicas, nem somos contra essas pessoas. Não temos também, como Grupo, qualquer ligação ou afiliação com determinada igreja ou organização missionária ou organização de temperança. Como ex-bêbados, estendemos a nossa simpatia e auxílio a qualquer pessoa de qualquer classe social e de qualquer religião, que tenha perdido o controle sobre a bebida e que, sinceramente queira abandonar o vício”. Apesar de falar em “vício”, o artigo mostrava também o aspecto “doença”. Mencionava algo sobre o anonimato e Primeiro Passo e, por fim, solicitava aos interessados que escrevessem cartas à redação do jornal, endereçadas ao Núcleo brasileiro de A A..
O artigo repercutiu e Herb respondeu cerca de dez (10) cartas de pessoas pedindo ajuda, e o jornal solicitou outro artigo.
Depois, Herb e sua esposa Elizabeth – que parece ter sido a redatora da maioria das cartas – noticiaram o fato à Secretaria da Fundação do Alcoólico que, posteriormente, transmitiu as boas novas a Bill W.. Nesta mesma correspondência Herb demonstra preocupação em registrar a Irmandade junto ao Governo Brasileiro e informa ter encontrado Douglas Calders, com quem já havia feito algumas reuniões.
A manifestação da Fundação do Alcoólico, através da sua secretária Margareth Burger, foi típica de A.A.. Lendo a carta de novembro de 1947, pode-se sentir a emoção com que receberam a notícia do progresso brasileiro. Foi aí também, a primeira referência sobre a tradução do Livro Grande e de outros folhetos para o português e a informação de que só havia tradução para o espanhol.
Quanto ao “registro” junto ao Governo Brasileiro, a funcionária da Fundação do Alcoólico disse: “Discuti com Bill W. o assunto do material apropriado para submeter à apreciação do Governo Brasileiro. Bill W. acha que vocês podiam explicar às pessoas daí, que A.A. não é uma incorporação, mas é simplesmente uma organização sem fins lucrativos, cujo propósito primordial é o de ajudar na recuperação do portador da doença do alcoolismo, se ele o desejar. Caso vocês nos dêem o nome para contato com o Governo Brasileiro, a Junta de Custódios de A.A. poderá enviar a Constituição da Fundação do Alcoólico, que foi fundada para agir como uma espécie de Comitê de Serviços Gerais para Alcoólicos Anônimos e é uma incorporação”.
Aqui cabe uma pausa. Nesse trecho podemos notar o que Bill W. pensava quando dizia que ele e o Dr. Bob, eram o elo de ligação entre os Grupos de A.A. e os Custódios da Fundação do Alcoólico. No caso desse “registro brasileiro”, vemos como Alcoólicos Anônimos ainda carecia de uma estrutura e como Bill W. era o consultor direto da Fundação do Alcoólico.
Voltemos aos fatos. Só em abril próximo (1948), a Fundação do Alcoólico recebeu a resposta do casal Herb e Lib, como era chamada Elizabeth. Isso, segundo Herb, devia-se ao “tempo e trabalho árduo”. Nessa época havia várias boas novas: …”contamos com quatro brasileiros. Somos seis se incluirmos Doug C. e eu mesmo. Esses quatro brasileiros estão abstêmios por seis meses ou mais. Nosso mais novo recruta veio através de uma carta que havíamos escrito a um pastor daqui.. Trata-se de um anglo-brasileiro que tem lido tudo que se relaciona com o A.A.. Traduziu “Os Doze Passos” para o português, ajudou-nos a escrever um artigo para os jornais aqui do Rio de Janeiro, e, no momento está nos ajudando a traduzir um folheto de A.A.”.
Nessa época, vários artigos já haviam sido publicados em jornais brasileiros e uma matéria foi veiculada num jornal direcionado à comunidade de língua inglesa, no Brasil, o “Brazil Herald”. Eles também estavam com um material pronto para publicação, aguardando somente o número de uma Caixa Postal a ser usada como endereço para a correspondência. Além de tudo isso, o recém formado Grupo de A.A. já havia postado cerca de trinta (30) cartas (sendo a metade em inglês) a médicos, igrejas e outras entidades do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte. Enfim, essa correspondência foi tão carregada de progressos, que posteriormente a Fundação do Alcoólico solicitou a sua publicação no “A.A. Grapevine”.
Na correspondência seguinte vinda da Sede, notou-se a preocupação com a tradução do folheto para o português. Assim, foi solicitado a Herb que encaminhasse um exemplar para análise, bem como cópia de alguns dos artigos publicados nos jornais brasileiros, para apreciação e arquivo.
Neste mesmo mês, o livrete ou folheto de A.A. estava quase totalmente traduzido e a Associação Cristã de Moços (ACM), emprestou uma das suas caixas postais a Alcoólicos Anônimos, fato noticiado de pronto à Nova Iorque.

“LINGUAGEM DO CORAÇÃO”
DEPOIMENTOS EM “PRETO E BRANCO”

Sem sombra de dúvida, a maior dificuldade encontrada por aqueles pioneiros no Brasil, foi o idioma. Os brasileiros que chegavam não entendiam o inglês, e os americanos, residentes ou de passagem pelo Brasil, pouco ou quase nada falavam em nossa língua. Até mesmo Herb, já há dois anos no Rio de Janeiro, pouco dava “colorido” aos seus depoimentos em português – como ele mesmo mencionou. Hoje entendemos que só através da linguagem do coração, aquela que acontece quando um alcoólico fala com outro, é como estes membros se comunicavam. A recuperação, mesmo no Grupo de A.A. tornava-se quase que um desafio. Sentia-se muito, a falta de tradução do texto básico “Alcoólicos Anônimos” e, em virtude disso, alguém traduzia uma pequena parte e lia em cada reunião. Com este quadro de dificuldades, era premente a necessidade de receberem membros que falassem fluentemente os dois idiomas,(inglês e português). Talvez, por isso, deu-se tanta importância à chegada de Harold, mesmo sendo Antônio P., o primeiro brasileiro a chegar a Alcoólicos Anônimos. Vamos relembrar um pouco do encontro entre Herb e o valoroso Harold, numa carta escrita por ele mesmo (Harold) e publicada na revista “A.A. Grapevine”, em novembro de 1990.
“A história de A.A.no Brasil, começa em junho de 1946, quando Herb D., que havia ficado sóbrio há um ano em Chicago – EUA, vem para o Rio de Janeiro com um contrato para trabalhar como diretor artístico de uma empresa americana de publicidade. Como era novato no “Programa de Recuperação”, sua preocupação imediata foi procurar a Irmandade na cidade onde ele viveria por três anos. Alcoólicos Anônimos, entretanto, era desconhecido no Rio de Janeiro, embora Herb tivesse alguns nomes para fazer contato. Visto que nenhum desses companheiros permanecia por muito tempo no Brasil, a Irmandade ainda não havia criado raízes.
Após alguns meses de tentativas, Herb esperou pelo interesse dos bebedores-problemas brasileiros (e havia muitos no Rio de Janeiro, naquela época), para ajudarem-no a manter-se sóbrio e, levando a mensagem, formarem Grupos de A.A. no Brasil. Como em todo o mundo naqueles dias, alcoólicos no Brasil eram considerados um estorvo social, dos quais o verdadeiro lugar era numa clínica psiquiátrica ou na Delegacia de Polícia.
Em 1947, Herb conseguiu bebedores brasileiros como ingressantes. Um desses, era Antônio P., que parou de beber e manteve-se sóbrio com alguma dificuldade, em virtude da falta de literatura traduzida para o português, até sua morte num acidente em 1951. O outro brasileiro afastou-se das reuniões. As reuniões aconteciam nas casas de companheiros que estavam sóbrios.
O grande apoio de Herb vinha de sua esposa Libby, uma não-alcoólica que o incentivava muito no seu trabalho de levar a mensagem. Herb tinha uma correspondência volumosa com a Fundação do Alcoólico e conseguiu publicar alguns artigos sobre A.A. nos jornais do Rio de Janeiro.
No início de 1948, graças à boa vontade de um Bispo Episcopal que estava no Rio de Janeiro, Herb encontrou-se com Harold. Ele era um anglo-brasileiro com um caso de alcoolismo tido como perdido. Tinha servido o exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial, retornando ao Rio de Janeiro em 1946. Nesse ínterim, havia perdido vários empregos; fora expulso da casa de seus sogros; perdido sua esposa, e por fim, ido morar no porão da casa de um irmão na cidade de Niterói, do outro lado da Baía da Guanabara. O Bispo e o irmão de Harold arranjaram um encontro entre os dois, para um sábado.
Nesse primeiro encontro, Herb contou a Harold (que havia bebido a manhã toda), a história de como tinha parado de beber, substituindo gole a gole, a bebida do seu copo, por água pura, até que passasse a beber somente água. Como, após muitas tentativas frustradas, ele tinha sido capaz de evitar encher o copo com bebida alcoólica e, assim, evitar o primeiro gole. Ele falou também sobre o Plano das Vinte e Quatro Horas, sobre a melhora na sua vida pessoal e empresarial. Por fim, Herb pediu a Harold que pusesse o sistema em prática e que, quando ele parasse de beber, tentasse traduzir o máximo possível, um folheto de A.A. que lhe entregara. Herb havia trazido esse folheto dos Estados Unidos, Os dois combinaram encontrar-se na quarta-feira seguinte, no prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro, para que Harold mostrasse os progressos tidos na tradução.
Na data marcada, Harold teve um apagamento nas primeiras horas do dia, após ter tomado aquele que seria o seu último gole, usando o método sugerido por Herb. Apesar disso, naquela manhã, Harold barbeou-se, tomou banho, vestiu roupas limpas, comeu algo com a família incrédula do irmão e colocou-se a caminho – sóbrio, mas com uma terrível aparência – para encontrar-se com Herb, lavando algumas páginas que havia traduzido. Os dois encontraram-se no salão de café do prédio e, nesse encontro, um novo período de um mês foi fixado para que Harold, sóbrio, terminasse a tradução. Herb iria mandar imprimir a versão em português. Demorou mais do que o previsto, porém, no início de 1949, o panfleto estava impresso e começava a ser distribuído a todos que os solicitavam.
Em junho de 1949, quando Herb retornou aos Estados Unidos, havia um Grupo de A.A. com doze membros sóbrios, que se reuniam regularmente todas as segundas–feiras, à noitinha,numa pequena sala da ACM, do Rio de Janeiro. Herb, no início, apelidou o Grupo de A.A., de “Os Doze Desidratados”. Depois foi formalmente chamado de “O Núcleo de A.A. do Rio de Janeiro” e, finalmente ficou com o nome de “Grupo Rio de Janeiro de A.A.” .
Harold W.

(Datado de agosto de 1948, o cadastro de Herb e Harold, como membros do “Núcleo A.A. do Rio de Janeiro”, vem com o número da Caixa Postal cedida pela ACM, e o endereço da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), como local de reuniões).

A UNIDADE NO GRUPO DE A.A.
Como funcionava o “Grupo Rio de Janeiro de A.A.”

As correspondências da época demonstram claramente o espírito de Irmandade que havia entre os membros do primeiro Grupo de A.A. no Brasil. Os mais antigos demonstravam grande preocupação com os novos membros, especialmente com os brasileiros, nas reuniões que aconteciam ora em casa de um dos membros, ora na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Apesar de vários americanos participantes, era sabido que a maior parte estava somente de passagem por algum tempo, a trabalho. Nas entrelinhas de uma carta de 1949, escrita por Antônio P. a Harold, que se encontrava temporariamente no sul do país, observamos a unidade entre aqueles poucos companheiros, quinze ou mais. A carta também falava sobre o problema que tiveram com o tesoureiro do Grupo de A.A. que havia se afastado com a reserva financeira. A solução encontrada foi uma “coleta secreta” entre os companheiros para saldar a pequena dívida e incentivar o retorno do companheiro, o que aconteceu mais tarde. De fato, os problemas do Grupo de A.A. já existiam, no entanto, as sábias decisões também.
Nesse ano, já se contava com um bom número de brasileiros assíduos ao Grupo de A.A., e várias reuniões eram feitas em português, com tradução simultânea aos que só falavam a língua inglesa. Este fato trouxe tranqüilidade a Herb, pois voltaria para a América do Norte dentro de pouco tempo, mais precisamente em junho de 1949. Mas, antes que isso ocorresse, foi bem-vinda uma norte-americana, Eleanor, uma das primeiras mulheres AAs no Brasil, talvez, a primeira. Ela incumbiu-se logo da correspondência com a Sede de Nova Iorque, bem como, da tradução do material recebido.
Em 1950, o Grupo de A.A. passava por problemas financeiros e recorreu à Fundação do Alcoólico para a aquisição de alguns livros. Vale notar que a Fundação do Alcoólico mantinha uma reserva financeira do “Grupo de A.A. brasileiro”, a qual nesse ano foi diminuída pela metade a título de contribuição à Sede de onde periodicamente vinham boletins e cartas. Nessa ocasião foi solicitado também um exemplar do Manual do Secretário. Aparentemente os encargos existentes eram o de Tesoureiro e Secretário, que era uma espécie de Coordenador Geral.
O Grupo de A.A. fixou seu endereço à Rua Santa Luzia, de onde se mudou após um ano, quando começou a eleger mensalmente um Coordenador de Reuniões, A impressão do livrete “Como Cooperar para uma Obra Meritória”, segundo número da literatura em português, deu-se nesse período. Era uma cópia fiel do “Capítulo Sete” (Trabalhando com Outros) do Livro Grande, estrategicamente traduzido quando o Grupo de A.A. precisava crescer para se firmar e originar novos Grupos de Alcoólicos Anônimos.
.Em 1951, o companheiro Antônio P. sofreu um acidente de trabalho, teve o seu pescoço quase degolado e faleceu quando ainda passava por cirurgias plásticas. Antes de sua morte, recebeu uma carta de Harold, da qual podemos reproduzir o seguinte trecho:
“Você é um herói, Antônio, não há dúvida de que entre nós, você é o AA número um (primeiro). Pode ser um dos menores por fora, mas dentro dessa alma enorme e forte, cabemos todos nós folgadamente. Sem dúvida alguma, você conseguiu o que eu, pelo menos, ainda não alcancei: traduzir e interpretar bem à vontade as intenções do Poder Superior, e ser forte na certeza de que Ele está sempre ao seu lado, podendo enfrentar cada dia com paz de espírito e serenidade. Que Deus lhe abençoe, meu bom amigo”.
Provavelmente Antônio P. teve dificuldade em se fixar no Programa de Recuperação devido à linguagem, mas manteve-se firme em suas vinte e quatro horas até o final de sua vida.

A DIFICIL TAREFA DE DIVULGAR A MENSAGEM
Um mal-intencionado artigo distorce os Princípios da Irmandade

Tudo o que os iniciadores fizeram até os idos de 1952, fora transmitir a mensagem. Herb em 1947 foi o autor de uma matéria no jornal “O Globo”. A partir daí, uma sucessão de “boa publicidade” aconteceu; foram várias as matérias publicadas a bem da nossa recém forjada Quinta Tradição. Por falar em Tradições, elas haviam sido aprovadas no ano anterior, em Cleveland, e os Grupos de A.A. em geral tentavam seguir estes “Doze Pontos” para assegurar o futuro de Alcoólicos Anônimos. Mas, como no início da história da Irmandade de A.A. nos Estados Unidos, aqui no Brasil também tivemos problemas relacionados aos princípios tradicionais.
Uma das primeiras “desavenças” envolveu Harold num artigo que refletiu várias inverdades sobre a Irmandade de Alcoólicos Anônimos. “Os Regenerados do Álcool”, da Revista da Semana.
Provavelmente com a finalidade meramente noticiosa ou sensacionalista, a Revista da Semana coloca para os seus leitores um “furo de reportagem” sobre uma “sociedade secreta dos antigos viciados”. Tudo começou com uma farsa.
O repórter iniciou o trabalho de “desvendar o mistério” – usando uma expressão do texto – com telefonemas a Harold W., dizendo-se bebedor inveterado e ansioso por ajuda. Prontamente, como deveria ser, o companheiro marcou um encontro no qual sua primeira pergunta foi: “Quais são os sintomas que você sente quando bebe?” A resposta, o repórter comenta na matéria: “Por um instante ficamos paralisados sem saber o que responder. Da resposta que déssemos a essa insignificante pergunta, dependeria o sucesso da reportagem. Aquelas palavras, ditas à queima roupa, soavam com violência e ressonância aos nossos ouvidos. Naquele momento estava em jogo todo o trabalho de preparação, os esforços que fizemos para descobrir os responsáveis pela secreta agremiação, o assunto de suma importância para nós, enfim, tudo seria sacrificado se não respondêssemos satisfatoriamente. Havia a necessidade de responder que éramos portadores do malsinado vício, que éramos beberrões inveterados em busca da salvação e amparo. E foi o que fizemos, com êxito”.
A partir daí todos podem imaginar o teor comercial da reportagem. O artigo foi ilustrado pela capa e contracapa do Folheto Branco, e pela foto de Harold almoçando, fruto de um mirabolante plano. A recuperação através da Irmandade não é muita citada nos documentos que dispomos. No entanto, exatamente uma semana após a publicação, Harold escreveu ao diretor da Revista da Semana consternado por ter sido ludibriado e pela quebra da Tradição do Anonimato. Nesta carta Harold esclarece também os pontos distorcidos da Revista da Semana. Discorre com detalhes sobre o Princípio do Anonimato, sobre o nosso propósito único, a respeito da recuperação em A.A. , e encerra dizendo: “Se o seu repórter tivesse comparecido e declarado sua verdadeira intenção, eu o teria ajudado com o máximo prazer a apresentar uma reportagem que não afetasse desfavoravelmente os princípios da agremiação humilde de A.A. ou dos seus membros, nos moldes das publicadas anteriormente no Brasil por conceituadíssimos periódicos”.
O assunto da reportagem parece não ter ido muito à frente, mas provavelmente ajudou na resolução de se constituir um Órgão de Serviço de A.A. juridicamente com registro em cartório.
Em dezembro daquele ano um estranho Estatuto, mais “As Doze Tradições” foram registrados no Registro Civil de Pessoas Jurídicas. Estranho porque entre as incumbências do Secretário Geral do Conselho estavam: “Orientar e fiscalizar todos os Grupos de A.A. e seus membros, evitando qualquer ligação com outras entidades e exploração de qualquer natureza” e “Fazer cumprir as Tradições e estes Estatutos”.
Ainda falando em divulgação na imprensa, em 1953 o jornal “A Noite”, num artigo equivocado, dizia que Alcoólicos Anônimos havia sido fundado no Brasil, naqueles dias, quando o Grupo Rio de Janeiro de A.A findava as suas atividades e já contávamos com outros Grupos de A.A., dentre eles o Grupo Central do Brasil de A.A., fundado em 1952. Não obstante, a divulgação continuou inclusive no Rádio. Em 1956 contávamos com cerca de treze (13) Grupos de A.A. no Brasil, registrados no Catálogo Mundial.

OS SERVIÇOS GERAIS

1952 – Observa-se pelo descrito, que, embora insipiente, os serviços iam lentamente desenvolvendo-se. Para melhor memorização, vejamos os principais fatos ocorridos;
• Em 08/12/52 foram registrados, como anteriormente foi citado, os primeiros Estatutos da Irmandade no Brasil.
• Foi fundado o Grupo Central do Brasil de A.A., que durante a década centralizou as atividades de A.A. no Brasil.
• Noticiou-se a formação dos Grupos de A.A. em Juiz de Fora/MG e Belo Horizonte/MG, Nova Friburgo/RJ e de Salvador/BA.
No período, houve diversas realizações no que concerne à literatura. Divulgação externa, com programas radiofônicos semanais, com a colaboração em particular do saudoso Dr. Paulo Roberto (médico do Rio de Janeiro); instituiu-se a sacola da Sétima Tradição.
• Proliferaram as abordagens, tradução e publicação de literatura, sendo a oficialização e conseqüente direito de impressão negados pelos Serviços Mundiais de então.
Ainda entre os anos 1952 e 1961, constávamos com dez (13) Grupos de A.A. funcionando em todo o País, considerando a formação de mais dois (2) Grupos de A.A. no Rio de Janeiro, o de São Luiz/MA e em Juiz de Fora/MG e Itajubá/MG.

1962 a 1968 – Trata-se de um período de relevantes reformas no Serviço, com a preocupação de se formar novas lideranças, expandir-se com novos Grupos de A.A. e divulgar a mensagem, inclusive continuando no Rádio, assim tivemos uma Rádio Novela sobre A.A..
O Programa Homens, Fatos e Idéias, da Rádio Ministério da Educação e Cultura, em junho de 1962, dedicou-se ao problema do alcoolismo e a Alcoólicos Anônimos. Foi uma espécie de novela falada que se referia à fase crítica de um alcoólico, suas atitudes, seus familiares e sobre Alcoólicos Anônimos, dando ênfase às Quinze Perguntas (na época), editadas no final do Folheto, chamado “Livro Branco”. Num momento da história, o narrador interrompe.
“Você que nos ouve poderá ser um completo abstêmio. Poderá ser um leve bebedor social, para que o álcool não constitui um problema. Mas, certamente você conhece alguém que não consegue eliminar a própria sede e para quem o álcool é um grande e crescente problema. Apenas, no interesse desse seu amigo ou conhecido, a quem estamos tentando levar uma esperança, ouça com atenção algumas das perguntas que A.A. tem a fazer”.
Seguia-se o Programa com ilustração dos papéis pelos locutores e uma explicação minuciosa, com breve depoimento, proferido por um membro AA. Em seguida, após as perguntas, como no atual folheto “Você deve Procurar o A.A.?”, foi lido o resultado que fala das quatro respostas afirmativas. Durante todo o Programa, foi amplamente divulgado o número da Caixa Postal de A.A., que já não era o número daquela Caixa Postal cedida pela ACM e sim, uma nova Caixa Postal alugada desde 1950. De certo, esse Programa contribuiu muito para que Alcoólicos Anônimos recebesse vários alcoólicos pedindo ajuda.

OUTROS FATOS MERECEM REALCE NO PERÍODO

Criação das primeiras Intergrupais do Rio de Janeiro, na Paraíba e em Minas Gerais, que pelas suas forças de catalisação, ensejaram a formação de novos Grupos de A.A. em todo o Brasil, isto é, em Recife/PE, Campina Grande/PB, Goiânia/GO, etc.
Surgimento das primeiras Reuniões Administrativas sistematizadas, Grupos de A.A. temáticos e institucionais, manutenção da divulgação no Rádio, salas alugadas, Intergrupais com telefone, primeiros programas na televisão, participação em seminários sociais, a reuniões abertas à comunidade, criação e funcionamento de treinamento para Coordenadores de Grupos de A A..
Reforma dos Estatutos existentes, adequando-os às Tradições de A.A..
Realização da Convenção Nacional no Rio de Janeiro, em 1965, com a participação de seis (6) Estados e, por motivos de segurança, foi patenteada a sigla – “A.A.”.
Criação de um Conselho Administrativo de A.A. composto por membros veteranos que na mesma data realizou sua primeira reunião, elegendo seus membros e providenciando o registro em Cartório, com emissão da 1a. Circular para os Grupos de A.A., mandando igualmente publicá-la no Diário Oficial.
Em fins de 1968, existia no Brasil, cerca de oitenta e oito (88) Grupos de A.A..

A LITERATURA OFICIAL NO BRASIL
O LIVRO – “ALCOÓLICOS ANÔNIMOS”

Ao falarmos de literatura de A.A. e do início das publicações oficiais no Brasil, não poderíamos deixar de dar atenção especial ao fato sobre como aconteceu a publicação do livro Alcoólicos Anônimos, em português. Um companheiro de São Paulo, chamado Donald L., o qual se dispôs a traduzir o livro ‘Alcoólicos Anônimos’, comunicou-se com o GSO, que respondeu sua carta em outubro de 1966, sugerindo-lhe a tradução dos onze primeiros capítulos após a formação de um Comitê de Tradução, e também lhe informando que a impressão deveria ser feita, após análise, em Nova Iorque. O GSO não permitiu a impressão no Brasil.
Em fins de 1968, Gilberto, um membro do AA brasileiro, residente nos Estados Unidos, conheceu Donald L., conseguindo intermediar as relações entre ele e AAWS – A.A. World Service, Inc. – Serviços Mundiais de Alcoólicos Anônimos.
Órgão responsável pela Literatura Oficial de A.A..
Em havendo a concessão para a impressão do livro ‘Alcoólicos Anônimos’ e também do financiamento, o Diretor da Instituição do AAWS, o então Presidente Robert E. Hitchins enviou correspondência cientificando da decisão, estabelecendo porém, condições indispensáveis à impressão, quais sejam:
• Que fosse instalado no Brasil um Centro de Distribuição de Literatura para o Brasil. (operacional);
• Que o livro fosse vendido, no varejo no preço correspondente a US$ 2,00 (dois dólares) cada unidade, para indivíduo, com possibilidade de ser vendido até a US$ 1,75 (um dólar e setenta e cinco centavos) por unidade, para os Grupos de A.A.;
• Que posteriormente, quando criado o Escritório de Serviços Gerais de A.A. no Brasil, o Centro de Distribuição de Literatura passasse a se constituir parte integrante daquela organização de serviços;
• Que uma vez aprovada a proposta em questão, fosse a operação considerada “em confiança”, assumindo todos os participantes a responsabilidade, como reais representantes de todos os membros de Alcoólicos Anônimos no Brasil.
Aceita todas as condições do AAWS, em abril de 1969 o companheiro Robert E. Hitchins, Presidente dos Serviços Mundiais de A.A., liberou o Direito de Edição e Publicação, em português, de 2.000 (dois mil) exemplares do livro ‘Alcoólicos Anônimos’, ao custo total não superior a US$ 2.000 (dois mil) dólares.
O AAWS estabeleceu ainda, pela concessão, as condições que seguem:
• Remessa ao AAWS de US$ 0,82 (oitenta e dois centavos) trimestralmente por cada exemplar do livro, vendido ou distribuído;
• Advertência expressa no livro de que os Direitos Autorais pertencem ao AAWS, e, proteção integral quanto ao citado Direito;
• Publicação do livro acima do limite de 2.000 (dois mil) livros, dependeriam da necessária autorização;
• No caso de não serem vendidos nem distribuídos os 2.000 (dois mil) exemplares, notificar ao AAWS para providências julgadas de acertos.
À vista das condições enunciadas, em 20 (vinte) de setembro d0 ano de 1969, sob a coordenação do companheiro Donald M. Lazo, foi discutida e aprovada a criação do Centro Brasileiro, para edição em português, da literatura de A.A. de originais americanos.
Em 05 (cinco) de novembro do mesmo ano, encontravam-se regularmente formalizado o “CENTRO DE DISTRIBUIÇÃO DE LITERATURA DE A.A. PARA O BRASIL – CLAAB”, Sociedade Civil de natureza literária, sem fins lucrativos.
A publicação do livro Alcoólicos Anônimos, conhecido no Brasil como Livro Azul, proporcionou o intercâmbio oficial entre os Grupos de A.A. existentes na época e os seus cadastramentos, uma vez que o CLAAB ia anotando os endereços, dias e horários de reuniões, conforme as solicitações do livro, pelos Grupos de A.A., fornecendo-os às pessoas que buscavam ajuda.
A Revista Eclesiástica Brasileira – REB, Órgão Oficial de Comunicação entre a prelazia brasileira e as paróquias, publicou uma elogiosa crítica ao livro, recomendando-o como instrumento útil na recuperação de alcoólicos. Na mesma época, graças a amigos de A.A., tivemos acesso ao saguão da PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde se realizava o 4 Congresso Latino Americano de Psiquiatria, local em que foi montado um “stand”, com a pouca literatura de que dispúnhamos e os companheiros falaram diretamente com 2.000 (dois mil) médicos, explicando-lhes o conteúdo do livro, e oferecendo gratuitamente, exemplares dos folhetos disponíveis. Registrou-se um recorde: duzentos e vinte exemplares vendidos em quatro dias. (Até aquela data, nossa venda não havia passado de vinte exemplares por mês).

UM BREVE RETROSPECTO

1968 A 1975 – Início da Estrutura de Serviço no Brasil, alicerçada em quatro itens:
1. Fundação em 20/09/69, em São Paulo, do Centro de Distribuição de Literatura de A.A. para o Brasil – CLAAB.
2. Unificação do, A.A. no Rio de Janeiro, em 20/06/71, resultando na criação do primeiro Escritório Nacional de Serviços – ENSAA.
3. Realização do Primeiro Conclave em São Paulo, no carnaval de 1974, quando o CLAAB foi considerado um Organismo Nacional de Serviços de A.A..
4. Em 1974 o ENSAA do Rio de Janeiro encerra as suas atividades.
Esses acontecimentos serviram de ponto de partida para o extraordinário crescimento da Irmandade, considerando-se que houve um aumento de 468% (quatrocentos e sessenta e oito por cento) no número de Grupos de A.A., percentual este inferior apenas ao período de 1962 a 1968, cujo crescimento foi da ordem de 780% (setecentos e oitenta por cento).
Na época foram formados Grupos de A.A. em Brasília/DF, Porto Alegre/RS e Campo Grande/MS.

1975
• Realizado o II Conclave em São Paulo.
• Criação da primeira Central de Serviços. (Central de Serviços de Alcoólicos Anônimos da Zona da Mata de Minas Gerais)

Em conseqüência desse movimento evolutivo, registra-se acontecimento básico para a Irmandade no Brasil – assentamento para firmar os Serviços Gerais e a Estrutura em potencial.
O fundamental foi à fundação da JUNAAB, em 29 de fevereiro de 1976, instituída consoante carta no seguinte teor:

São Paulo, 1 de novembro de 1975

Estimados Companheiros

A débil chama ateada por Bill e Bob, há quarenta anos, sem dúvida por inspiração divina, é hoje esplendente luzeiro a espraiar seu brilho pelo mundo todo, iluminando o caminho de uma infinidade de alcoólatras em serena sobriedade: homens e mulheres que, unidos pela Fé, pela Esperança e pelo Amor, se empenham com sincera humildade em busca de seu crescimento espiritual.
No decorrer do quadragésimo ano de existência do A.A mundial, o CLAAB através de sua Diretoria Executiva, vem jubilosamente, congratular-se com os estimados Companheiros, pela inestimável contribuição desse valoroso Grupo à expansão e fortalecimento do A.A. no Brasil, augurando-lhes um sempre crescente êxito na tarefa de transmitirem a Sublime Mensagem aos alcoólatras que ainda sofrem.
O crescimento e a Unidade de A.A. em nosso País é uma esplêndida realidade que muito nos sensibiliza e conforta.
O Brasil, contando atualmente com mais de 500 Grupos de A.A., deverá proximamente, vencer a última etapa do desenvolvimento da Estrutura de Serviços Gerais, consolidando a união dos AAs de nossa querida Pátria, iniciada no memorável Conclave de Carnaval de 1974, com a reestruturação do CLAAB e posse de sua Primeira Diretoria Nacional.
Durante o 2 Conclave, o Conselho Diretor do CLAAB, reunido em Assembléia Geral Extraordinária, no dia 10 de fevereiro deste ano, com a presença de 18(dezoito) diretores (delegados representando 11 (onze) Estados, inclusive o Distrito Federal), deliberou sobre a criação da Junta de Serviços Gerais de A.A., para o Brasil, a ser efetivada durante o próximo Conclave a realizar-se em São Paulo, no carnaval de 1976.
A Junta, a qual o CLAAB ficará subordinado, deverá inicialmente ser constituída pelos atuais Delegados Estaduais eleitos para o biênio 1975/76, mais os que vierem a ser eleitos para o biênio 1976/1977.
A criação da Junta propiciará melhor distribuição dos encargos executivos, com o imprescindível desmembramento das funções ora atribuídas apenas aos dois membros da Diretoria Executiva do CLAAB, o que trará a desejada e necessária eficiência na execução dos serviços, mormente quanto à presteza no atendimento da correspondência.
A propósito, pedimos muitas desculpas aos estimados Companheiros por nossa aparente desatenção com relação à correspondência, tal como cartas não respondidas ou respondidas com atraso, falhas que lamentavelmente não temos conseguido superar, não obstante nossa dedicação e sincera vontade de servir. Outrossim, cumpre-nos informar o seguinte:
A imprevista mudança do Escritório – por terem os locadores, não obstante haverem prometido uma prorrogação do contrato, solicitado a entrega da sala – acarretou despesas extraordinárias de não pequena monta, com a aquisição de estantes e móveis, pois os que guarneciam o Escritório pertenciam aos locadores.
Foram feitas novas impressões dos quatro folhetos e contratada uma nova edição do Livro Grande, que deverá ser-nos entregue em dezembro, conforme prometido pela editora.
Por esses motivos e pelo fato de diversos “grupos” e alguns AAs individualmente, inclusive pretensos líderes, terem deixado de pagar literatura que solicitaram para pagamento em curto prazo, desequilibrando assim, nossas previsões financeiras, fomos obrigados a adiar a publicação do livrete “O Grupo”, cujo lançamento será feito, o mais tardar, até o carnaval de 1976.
Por outro lado, temos a satisfação de, com nossos agradecimentos, registrar as contribuições dos Grupos de A.A. relacionados em anexo, as quais, este ano, atingiram a soma de CR$ 3.275,40.
Apraz-nos também comunicar que a dívida do CLAAB para com o GSO está reduzida a apenas US$ 391,45.
A criação da Junta Nacional é o passo decisivo para a afirmação da maioridade e que o Poder Superior guie e ilumine todos nós!
Alcoólicos Anônimos no Brasil. Por isso, apelamos para que todos os Grupos de A.A. cooperem com o seu prestígio em prol da Unidade de A.A. no Brasil, nenhum deles se omitindo nas próximas eleições para a escolha dos Delegados Estaduais.

Fraternalmente

P/CLAAB
Arlindo Mello Bianchi Waldomiro de Oliveira
Diretor Executivo-Secretário

1976 – O chamamento foi atendido mediante a presença de 16 (dezesseis) Estados e participação de 27 (vinte e sete) membros – Delegados Estaduais – que somados aos membros do Conselho Diretor do CLAAB, reuniu-se no salão geral do Hilton Hotel, em São Paulo, capital, aos 20 (vinte) dias do mês de fevereiro de 1976, assinando o livro próprio de presença, sob a Presidência do companheiro Sigoulf Rau, e tendo como secretário o companheiro Luiz Alves de Araújo Filho, indicados pela Assembléia que se instalava para a instituição da Junta de Alcoólicos Anônimos para o Brasil – JUNAAB, que após a leitura, ampla discussão e as devidas emendas, foi aprovado os tão esperados Estatutos.
No bojo dos Estatutos foram transcritos “Os Doze Passos” e “As Doze Tradições”, enquanto nos seus artigos, parágrafos e itens, regulamentavam o funcionamento da Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos no Brasil – JUNAAB, consubstanciando que é uma Sociedade Civil, sem fins lucrativos e de duração indeterminada, com Fórum na Capital da cidade de São Paulo, regendo o seu Estatuto nas disposições Legais que lhe foram aplicadas. Tem como objetivo promover a Unidade e continuidade da Irmandade de Alcoólicos Anônimos no Brasil.
Constitui apenas um Órgão de Proteção de Serviços e jamais um Órgão Governamental para o A.A. no Brasil, tendo como formalidades à execução do serviço de A.A. no plano nacional e, será a guardiã d’Os Doze Passos e d’As Doze Tradições de A.A., cabendo-lhe emitir sugestões da Assembléia, que propiciem a Unidade Nacional de Serviços que lhe estão afetos.
O Estatuto dispõe que são Órgãos da Junta de Alcoólicos Anônimos – JUNAAB, uma Assembléia Geral, uma Diretoria e o CLAAB.
1 – Uma Assembléia Geral composta por representantes de Grupos de A.A. localizados nos Estados, em número de dois por Estado, eleitos pelos Representantes de Serviços Gerais – R.S.Gs, nas então, Convenções Estaduais, desses Grupos de A.A., denominados Delegados Estaduais, e por pessoas não-alcoólicas escolhidas e também eleitas nessas Assembléias e estatutariamente denominados “membros da Junta”, quando por esta forem homologados. Os membros não-alcoólicos devem ser pessoas residentes no País, não recebendo remuneração de qualquer espécie. As reuniões da Junta de Serviços Gerais poderão ser Assembléias Ordinárias ou Extraordinárias e ocorrendo uma vez por ano, por ocasião do carnaval, para avaliar, planejar e emitir sugestões e as recomendações necessárias à harmonia e ao desempenho das atividades da Obra em ação a nível nacional, onde possa alcançar os membros de A.A..
2 – Uma Diretoria constituída por companheiros de A.A. eleitos anualmente pelos Delegados Estaduais, sendo pilar básico de sua atribuição à continuidade da Junta, nos períodos compreendidos entre uma Assembléia e outra, responsabilizando-se por manter reuniões regulares da Junta – convocação e realização das citadas reuniões.
3 – O CLAAB identicamente é uma Sociedade Civil, sem fins lucrativos. Criado inicialmente por exigência do AAWS Inc. (Serviços Mundial de A.A.), com o propósito de tradução, impressão, venda e distribuição da literatura de A.A. no Brasil, originária dos EUA. Teve seus objetivos ampliados ao receber a responsabilidade de executor dos Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos no Brasil – JUNAAB, função cessada em cumprimento das Recomendações números 1 e 2 da Comissão de Finanças, quando da V Conferência de Serviços Gerais, realizada nos dias 16, 17 e 18 de abril de 1981, (A Conferência que determinou o desmembramento físico foi realizada em Porto Alegre/RS, no ano de 1980), que dispôs sobre o desmembramento físico, financeiro e administrativo do CLAAB/ESG. O CLAAB deveria ficar somente como editor e distribuidor da literatura de A.A. no Brasil.
Embora o CLAAB seja subordinado à Junta de Alcoólicos Anônimos, é um órgão distinto e autônomo, legalmente constituído, com Estatuto próprio sujeito às disposições aplicáveis pelas leis do País, formado por:
• Uma Diretoria composta por membros de A. A. e por não-alcoólicos, com mandato de três anos e eleitos pelos Delegados Estaduais.
• Um Conselho Fiscal composto por três membros efetivos e três membros suplentes, membros ou não de Alcoólicos Anônimos, nomeados pelo Presidente acordado com os Secretários e Tesoureiros. O mandato do Conselho Fiscal é de três anos e tem competência de praticar todos os atos e exercer todos os poderes que lhe são conferidos pelas leis do País.
A Ata relativa à instituição da Junta de Alcoólicos Anônimos do Brasil e, respectivo Estatuto, foram registradas sob o número 2.519, do dia 20 (vinte) de junho do mesmo ano (1976), no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas de São Paulo, Capital, enquanto os Estatutos e Ata da Constituição do CLAAB aprovados em 1 de março de 1978, acham-se registrados no 1 Cartório de Registro de Títulos e Documentos de São Paulo, em data de 20 de junho de 1976, sob o número 2.548 e anotado sob o número 19.671, Livro “A”, n 19 do Registro de Pessoas Jurídicas, documentos esses, arquivados com devido desvelo por integrar peças do acervo do A.A. no Brasil. A Assembléia que criou a JUNAAB, credenciou o A.A. no Brasil, a enviar dois representantes para a IV. Reunião Mundial de Serviço (hoje RSM), em Nova Iorque, em outubro de 1976.

1977 – NASCIMENTO DA CONFERÊNCIA DE SERVIÇOS GERAIS NO BRASIL

A Primeira Conferência de Serviços Gerais no Brasil, teve lugar em Recife/PE, nos dias 05, 06 e 07 de abril de 1977, e foi organizada nos moldes da IV Reunião Mundial de Serviços. (Nova Iorque, dias 06, 07, 08 e 09 de outubro de 1976), (ouvir a gravação feita pelo companheiro Joaquim Inácio, na ocasião, no encargo de Delegado a RSM, em 1976), quando o Brasil se fez representar pela primeira vez.
Esta representação resultou da criação da JUNTA NACIONAL DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS NO BRASIL – JUNAAB, em 29 de fevereiro de 1976, em São Paulo (durante o III Conclave Nacional), que já contava com 29 (vinte e nove) Delegados Estaduais, representando 15 (quinze) Estados e o Distrito Federal, oriundos do antigo Conselho Diretor do CLAAB.
Um recém-chegado aprende rapidamente a importância do trabalho do Décimo Segundo Passo, que serve para assegurar a sobriedade de quem leva a mensagem e como opção para quem recebe. De imediato, se percebe que o referido trabalho é ampliado para dar origem a Intergrupais, Centrais de Serviços e aos Comitês de Áreas e Distritos, bem como Órgãos de Serviços Nacionais.
Os SERVIÇOS em A.A. são vitais para o crescimento da Irmandade, uma vez que vêm suprir as necessidades que transcendem ao indivíduo, ao Grupo de A.A. e aos Organismos de Serviços.
A CONFERÊNCIA DE SERVIÇOS GERAIS é. portanto, a manutenção da consciência coletiva dos GRUPOS DE A.A., através de uma cadeia de representatividade iniciada pela ação dos Grupos de A.A. elegendo seus R.S.Gs, passando pelos M.C.Ds, Comitês de Áreas, terminando na Junta de Serviços Gerais. Para tanto, necessitam-se de contribuições voluntárias em dinheiro, vindas dos membros da Irmandade, para que haja um bom funcionamento.
A Conferência de Serviços Gerais é a depositária da Consciência Coletiva dos Grupos de A.A. e o Órgão máximo e soberano, de deliberação da Irmandade de A.A.no Brasil.
PARA QUE A CONSCIÊNCIA COLETIVA SE MANIFESTE CORRETAMENTE, É NECESSÁRIA A PARTICIPAÇÃO DE TODOS OS NÍVEIS DE SERVIÇOS, DE FORMA QUE A INFORMAÇÃO CHEGUE DE MODO CLARO, LÍMPIDO, RÁPIDO E PRECISO.

1977– PRIMEIRA CONFERÊNCIA DE SERVIÇOS GERAIS DO BRASIL

Nos dias 05 e 06 de abril de 1977, reuniram em Recife/PE, a Junta Nacional de A.A. no Brasil, em Assembléia Geral Ordinária. Cumprindo as formalidades de abertura, seguiu-se o item 3 (três), da Ordem do Dia, aprovando-se que os trabalhos se desenvolvessem tal e qual uma Conferência de Serviços Gerais, formada por Delegados Estaduais, pelos membros da JUNAAB e Diretores do CLAAB que integram Comissões, em número de 4: Agenda, Literatura e Publicações, Finanças e Política e Admissões. Iniciativa, fruto da experiência trazida da Reunião Mundial, pelos 02 (dois) representantes brasileiros.
Assim é que, desde a aprovação do primeiro Estatuto da JUNAAB e o início dos Serviços Gerais, havia convicção de que estas iniciativas eram temporárias e objetivavam a obtenção de ações de maior alcance e definição. Isto já demonstrava uma Recomendação da Conferência para que os Delegados Estaduais indicassem nomes de membros de A.A. com mais de 10 (dez) anos de sobriedade contínua para servirem como Custódios e de pessoas não-alcoólicas, bem relacionadas com a Irmandade, para funcionarem como membros da JUNAAB – note-se que tais pessoas não foram mencionadas como futuros Custódios não-alcoólicos.
Nessa mesma ocasião, Órgãos Locais de Serviços, já existentes, se formalizavam estruturalmente e compartilhavam suas experiências através do recém ativado “Boletim BOB”, informativo da JUNAAB. Ainda sinalizando progresso estrutural, este “Boletim” publicava informações e esclarecimentos sobre os Serviços Gerais, particularmente as atribuições do Delegado Estadual e do RSG.
Recomendou-se que o Conclave Nacional de A.A. fosse realizado a cada 2(dois) anos, preferencialmente nas capitais e a Conferência de Serviços Gerais anualmente, alternando com o local do Conclave e a Sede de Serviços Gerais – São Paulo/Capital.

1978 – Acontece a 2a. Conferência de Serviços Gerais em Belo Horizonte/MG e o V Conclave em datas de 20, 21 e 22 de março de 1978, que adiou os procedimentos para a Reforma Estatutária para posterior deliberação.
Finalmente, destacou-se neste evento a presença do Dr, John L. Norris, o conhecido “Dr. Jack”, Presidente da Junta de Custódios de Alcoólicos Anônimos para os Estados Unidos/Canadá, convidado especial da Coordenação, que acompanhou com interesse todos os trabalhos.
O Dr. Jack, ao sair do hotel, depois da Conferência, foi abordado pela gerência do hotel, e pagou do próprio bolso a despesa que deveria ser paga por Alcoólicos Anônimos no Brasil.

1979 – A Conferência de Serviços Gerais ocorreu nos dias 12, 13 e 14 de abril de 1979, em São Paulo, salientando a constituição de uma Comissão Especial e Permanente para a Reforma Estatutária, cujo trabalho findava em dezembro de 1981, e ser apresentado na VI Conferência de Serviços Gerais.
De modo que em 08/07/79, reuniu-se pela primeira vez em São Paulo a pré-citada Comissão, com inclusão dos Custódios, de acordo com as Recomendações 01 e 14, da Comissão de Política e de Admissões.

1980 – Em Porto Alegre, nos dias 31 de março, 1, 2 e 3 de abril de 1980, acontecia a IV Conferência de Serviços Gerais, que confirmou e reforçou a Comissão Especial e Permanente para a Reforma Estatutária nos termos da Conferência anterior (1979). Simultaneamente realizava-se o VI Conclave Nacional.
Alertavam ainda, aos Grupos de A.A. quanto as Traduções e Publicações que corriam à revelia do CLAAB e demais Organismos de Serviços, sendo repassado aos Grupos de A.A. e a companheiros individualmente, em desrespeito aos Direitos Autorais. Literatura essa considerada clandestina, (pirata).
Os Delegados Nacionais apresentaram os seus Relatórios referentes a V Reunião Mundial de Serviços, realizada em Helsinki/Finlândia e do Encontro Ibero/Americano, realizado em Bogotá/Colômbia.

1981 – Nos dias 16, 17 e 18 de abril de 1981, reuniu-se a V Conferência de Serviços Gerais, em São Paulo e como mencionado, ratificou o desdobramento Administrativo, Financeiro e Físico do CLAAB/ESG, ficando o CLAAB apenas como distribuidor de literatura de A.A. para o Brasil, enquanto o ESG assumia de fato os Serviços Gerais (Executivo) de A.A. a nível Nacional. (O Tio Nica, então diretor do ESG, deixou Porto Alegre/RS e foi para São Paulo, morando no mesmo cubículo onde era localizado o ESG).
Em setembro do mesmo ano, foi realizado em Brasília/DF, o I Seminário Nacional de Prevenção do Alcoolismo, promovido e coordenado pelo Ministério da Saúde – DINSAN, contando com representante da JUNAAB, companheiro do Rio de Janeiro. Este Seminário viria ensejar a Cooperação de A.A. e aquele Organismo (PROAA, posteriormente PREA – Projeto de Intercooperação com Sistema Informal de Saúde no Tratamento de Alcoólicos), que não prosperou.
Em fins de 1981, dia 07 de novembro, foi inaugurada a nova Sede do ESG, que se desmembrou do CLAAB, constituindo Estatuto próprio, com Registro no Terceiro Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas de São Paulo, sob número 27.091, em 02 de outubro do corrente ano (1981), sob denominação de “O Estatuto de Alcoólicos Anônimos no Brasil – Escritório de Serviços Gerais S/C. AABESG”, que funcionou à Rua Itaipu, 31 – Praça da Árvore – Vila Mirandópolis.
Na época, cogitou-se até em adquirir Sede própria, o que não aconteceu. (Felizmente para o nosso bem e para o A.A. como um todo).
Ainda neste ano, os Conclaves passaram a dominar-se Convenção, por melhor adequar-se à Irmandade de A.A..(Custamos a perceber que não éramos e não somos cardeais).
Registrou-se a uniformização do emblema (símbolo) de A.A., tendo na base do triângulo o I Legado – RECUPERAÇÃO; no lado esquerdo o II Legado – UNIDADE; no lado direito o III Legado – SERVIÇO; e suprimindo do emblema a palavra RESPONSABILIDADE, que não é Legado. Também recomendou a oficialização das cores branca e azul para o pavilhão (Bandeira), inserindo-se nosso Símbolo conforme apresenta nossa Bandeira Atual, (o Símbolo em Azul).
Volta-se a enfatizar quanto ao trabalho da Comissão Especial para a Reforma Estatutária a ser entregue à Comissão de Política e Admissões até 30 de novembro de 1981, já revisado pelos Delegados à Reunião Mundial de Serviço.
Nesse espaço de tempo, consoante pesquisa, foram efetuados em todo o País, Encontros, Seminários, Simpósios, etc,, reunindo milhares de AAs com trabalhos em cooperação com os Al-Anons e Alateens (estes formados no Rio de Janeiro, no mês de janeiro de 1966).
Notadamente neste período – 1976-1981 – o A.A. no Brasil ia ao encontro da consolidação estrutural, destarte, esta demora e receio para a aludida “Reforma Estatutária” evidenciasse a insegurança de se introduzir pessoas não-alcoólicas no Serviço da Irmandade, assunto intensamente debatido, contando com a oposição de membros da Conferência.

1982 – Face às ações havidas nos anos anteriores na VI Conferência e VII Convenção, nos dias 5, 6, 7, 8 e 9 de abril de 1982, em Fortaleza/CE, foi discutido e aprovado o tão almejado Estatuto da JUNAAB que possibilitaria A.A. no Brasil exercitar a Estrutura Tradicional da Irmandade, e instituir a Junta de Custódios, composta de 6 (seis) membros de A.A. e 3 (três) não-alcoólicos.
Recomendou-se também, a tradução e versão do Manual de Serviços Americano/Canadense, para o nosso uso experimental e conseqüente adaptação à realidade brasileira.
Essa Convenção, inovou ante o lançamento de um livro com os temas expostos pelos companheiros, que recebeu o título “Serviço – Responsabilidade de todos”, resultando para os companheiros que não puderam estar presentes, uma visão panorâmica do ocorrido naquele evento.
Atendendo ao elevado teor dos temas, o livro foi acolhido com simpatia e debatido com minúcias na maioria dos Grupos de A.A. do País, proporcionando crescimento significativo, motivando o apadrinhamento para os serviços.

1983 – Na VII Conferência de Serviços Gerais, em São Paulo, realizada nos dias 30 e 31 de março e 1 de abril de 1983, foram eleitos os primeiros Custódios do Brasil, em número de 9 (nove), conforme o previsto; sendo 3 (três) não-alcoólicos e 6 (seis) alcoólicos, membros da Irmandade, oriundo dos Grupos de A.A., todos para serem empossados na VIII Conferência de Serviços Gerais, em 1984.
Nesta Conferência, a Junta deixa de ser Junta Nacional de Alcoólicos Anônimos do Brasil (JUNAAB), para ser Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. Por ser difícil a pronúncia de JSGAAB, optou-se por mudar o nome e manter a sigla JUNAAB, mais fácil de pronunciar e já conhecida de todos os membros.
O encargo de Custódio era questionado, porquanto muitos membros AAs receavam o comportamento dos não-alcoólicos, principalmente, no que concerne na condução dos negócios da JUNAAB e nas relações com os Grupos de A.A. em geral.
Historicamente, os Custódios em A.A. surgiram com a Fundação do Alcoólico, na América do Norte e precederam a estrutura da Conferência de Serviços Gerais daquele País, que podia receber doações de fora e os doadores abaterem do Imposto de Renda, as quantias doadas. Com o advento dos Princípios em particular, das Tradições, a aceitação dessas contribuições foram abolidas.
A.A. no Brasil aperfeiçoava-se no serviço e na mensagem, surgindo nos diversos Encontros, as Reuniões Médicas, intituladas “Mesa-redonda”, com a participação dos assistentes, em sessões de perguntas e respostas, enriquecendo as Convenções.
Com a publicação e divulgação do Manual de Serviços, em 1983, algumas Áreas iniciaram a implantação experimental da Estrutura de Serviços Gerais, resultando na participação e aceitação dos R.S.Gs. De sorte que, nessa Conferência (1984), houve abertura para explanação sobre a experiência levada a efeito por essas Áreas, documentada por trabalhos escritos e entregues à Junta de Serviços Gerais.
Logo após a VI Conferência, em Fortaleza/CE e divulgado o Manual de Serviços e Os Doze Conceitos para o Serviço Mundial, (Na VII Conferência, em São Paulo, foram entregues O Manual de Serviços e Os Doze Conceitos para Serviço Mundial. Foi neste ano que os Delegados das Áreas, depois de eleger o Dr. Viotti, foram conhecê-lo no III Encontro Paulista), a Diretoria da então CEMISAA – Central Mineira de Serviços de A.A., ao receber os Relatórios do Custódio Alcoólico (Classe B), do Delegado Estadual 83/84 e do Secretário do CLAAB, detonaram a fase evolutiva do A.A. no Brasil, sensibilizando a liderança do Estado (Área/MG) para implantação da Estrutura tradicional.
Em 29 de maio de 1983, convocou uma Assembléia de R.S.Gs, onde explanação sobre Estrutura foram feitas, decidindo na seqüência, pela constituição de um Comitê de Área interno, para a implantação da referida Estrutura de Serviços, escolhendo por aclamação um Coordenador de Área, um Secretário e um Tesoureiro, o que viria a assinalar um marco na Estrutura de Serviços de A.A. no Brasil.
No período entre a eleição e a posse, o Dr, Jurandyr Barcellos da Silva/RS, que fora eleito Custódio não-alcoólico, veio a falecer, sendo substituído pelo General Olímpio, do Rio de Janeiro; o Custódio alcoólico Eduardo Guimarães, também eleito em 1983, não tomou posse na ocasião, sendo oficializada a posse de ambos na primeira reunião da Junta de Custódios, em Caxambu/MG, nos dias 14, 15 e 16 de dezembro de 1984.

1984 – O acontecimento relevante dessa 8a Conferência de Serviços Gerais, acontecido nos dias 16, 17, 18 e 19 de 1984, concomitantemente com a 8a Convenção, em Blumenau/SC, foi à instalação da Junta de Custódios,
Quando da posse levantou-se a questão sobre o prazo de 3 (três) anos para os quais os Custódios foram eleitos, quando na realidade, na forma estatutária, deveriam ser eleitos 3 (três) Custódios pelo período de 1 (um) ano, sendo 1 (um) classe “A” e 2 (dois) classe “B“; mais 3 (três) Custódios por 2 (dois) anos, sendo igualmente 1 (um) classe “A“ e 2 (dois) classe “B“, e, da mesma forma, 3 (três) Custódios, classe “A”, pelo período de 3 (três) anos. Prevendo-se a grande dificuldade que se encontrava para conseguir futuros Custódios, em particular classe “A“, o assunto foi amplamente debatido, (Faltou humildade nos companheiros que quiseram “sacrificar-se”, saindo com um (1) ou dois (2) anos), sugerindo-se que o cumprimento estatutário fosse modificado posteriormente, e que fosse mantido o mandato de 3(três) anos.
O assunto em votação, foi aprovado pela maioria e efetivada a posse da Junta de Custódios na seguinte ordem:
Presidente da Junta de Custódios …Dr. José Nicollielo Viotti, Custódio Classe “A”;
2 Vice-Presidente ……………………..Gefferson Baptista de Carvalho, Custódio Classe “B“;
1 Tesoureiro …………………………….Professor Joaquim Luglio, Custódio Classe “A“;
2 Tesoureiro ……………………………Adauto de Almeida Machado, Custódio Classe “B“;
Secretário Geral ………………………..Waldir Ferreira Gonçalves, Custódio Classe “B”;
2Secretário …………………………… José Washington Chaves, Custódio Classe “B“;
Custódio-Adjunto ……………………. Lúcio Antônio Pinto, Custódio Classe “B“
Como observador, participou desta Conferência, Jorge Mário Ifrán, Secretário da OSG do Uruguai, que em sua palavra disse que levava muitos subsídios para o Serviço de seu País.
Nessa Conferência, houve a abertura para a explanação em Plenário, sobre a constituição da Estrutura de Serviços Gerais de A.A., na Área de Minas Gerais, feita pelo Coordenador da Área, documentada mediante trabalho escrito e entregue à Junta de Serviços Gerais, naquela oportunidade. (Recomendação n 32, da Comissão de Normas e Procedimentos).
A experiência mineira motivaria os demais Estados – Áreas – a trabalharem para igualmente implantar a Estrutura preconizada.
Nessa Conferência houve também, a eleição para a Diretoria do CLAAB/ESG.
Durante o ano, a Junta trabalhou intensamente para a sua organização, ouvindo os Organismos de Serviços, enfim, a Irmandade, para as ações a desenvolver. Reitera a autorização para a criação da Revista Brasileira.

1985 – O Serviço de A.A. ganha força e vigor com a formação da Junta de Custódios, que passa a reunir-se em Baependí/MG, sob a Coordenação do seu Presidente não-alcoólico, tendo como convidados representantes nacionais sem caracterização de encargos.
Nessas reuniões formavam-se Grupos de Trabalho e eram discutidos temas diversos relativos ao crescimento da Irmandade. Planejando-se para se dar corpo estrutural a composição da Junta de Serviços Gerais – JUNAAB.
Em assim sendo, na IX Conferência de Serviços Gerais, realizada em São Paulo, nos dias 01, 02, 03 e 04 de abril de 1985, a Presidência da Junta de Serviços Gerais, entre os vários informes, ressalvadas as dificuldades, em que se aproveitando experiências de companheiros que anseiam em colaborar, cita a criação dos seguintes Comitês de Serviços da Junta de Serviços Gerais: Finanças, Informações ao Público, Cooperação com a Comunidade Profissional, Instituições, Arquivos e Conferência (hoje Comitê de Assuntos da Conferência). Referiu-se às Finanças da Junta, dinheiro em A.A., que a Tesouraria daria detalhes minuciosos à respeito, além de comentar a forma de substituição – rodízio – dos Custódios e no que concerne os nossos Estatutos. Alerta e fala sobre prudência, comportamento e privacidade, que depende de nós, os membros, na prática do Programa de Recuperação, visando única e exclusivamente o crescimento da Irmandade e, por conseguinte, o de cada AA individualmente.
Alicerçado nesse progresso, a Comissão de Agenda sugere um tema para a Conferência: “ESTRUTURA – VAMOS FAZER?“, e propõe para a abertura, um gesto arrojado de exposição sobre “O Grupo”, “Estrutura de Serviços Gerais”; “O Programa de Recuperação – Os Doze Passos ”, “Unidade de A.A. – As Doze Tradições” e “Os Doze Conceitos para os Serviços Mundiais”, com espaços para debates – Seção de Participação.
Embora a proposta fosse enviada a todos os conferencistas, que não responderam, assinalando com o presente silêncio – aceitação – quando da prática da votação na Conferência de Serviços Gerais, não aprovaram a Agenda, mesmo em sendo modificada sob a alegação de vir de encontro ao Regimento Interno daquele Organismo.

ABRIMOS UM PARÊNTESE PARA A QUESTÃO “DINHEIRO”

Conquanto, a introdução da Sacola da 7a.Tradição tenha ocorrido no Brasil em 1952, a auto-suficiência sempre foi precária, mais para nenhuma.
O desconhecimento dos Princípios Básicos e a Irmandade no País em constante crescimento, nos seus aspectos dinâmicos e filosóficos, sempre estiveram a mercê do arbítrio e interpretação dos líderes da época, que se incumbiam de propagar, o que persiste ainda hoje, que em A.A. não se paga nada – ninguém é obrigado a nada – direcionando enganosamente à liberdade democrática oferecida pela Irmandade, que prevê que o membro AA para recuperar-se, deve submeter-se aos Princípios de Recuperação. Logo, o próprio membro AA deve obrigar-se, participando das reuniões, vivenciando Os Doze Passos, exercitando As Doze Tradições, entre elas, a Sétima Tradição, no sentido espiritual e material – doando-se espontaneamente, inclusive com o dinheiro.
Devido à falta de informação, membros dos nossos Órgãos de Serviços viajaram por todo o Brasil, conscientizando, divulgando a Literatura, ao tempo que angariavam fundos para a sustentação de nossos Escritório – CLAAB/ESG.
Foram criados carnês para contribuições, os Delegados Estaduais foram também concitados a contribuir e motivar os R.S,Gs a fazerem o mesmo, assim como os Grupos de A.A., mas as dificuldades não diminuíram.
Nesse estado crítico, a Junta de Custódios, recém empossada, ficou desorientada e ainda sem o assessoramento dos Comitês, idealizou e formalizou uma “rifa” para o sorteio de um automóvel, o qual era o primeiro prêmio dentre os cinco(5) prêmios prometidos. O que foi para todos nós, motivos de sérias polêmicas – uma amarga experiência, tão negativa, que não há como descrevê-la.
Alcoólicos Anônimos é do Poder Superior e houve a intercessão de DEUS; os prêmios ficaram para a Irmandade, decorrente dos números não vendidos, uma vez que o apurado não cobria os custos para os prêmios colocados a sorteio. Não devemos ser contrários aos Princípios – respeitemos as Tradições! Eis o alerta!
Caminhamos, estamos aprendendo a duras penas e nos sustentando. Tivemos a consciência de contribuições voluntárias, as Conferências de Serviços Gerais passaram a ser realizadas com as despesas niveladas e atualmente com a verba das vendas de Apostilas da Conferência, enquanto que as Convenções são realizadas sem lançar mão da venda de “souvenires”. São custeadas por intermédio de inscrições antecipadas dos membros AAs e também de lançamentos de edição de livros e livretes de nossa Literatura autorizada pela Conferência de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos. Sobretudo, estamos mais abertos para falar de auto-suficiência e assumimos responsabilidades como Grupos de A.A. e membros da Irmandade.
Nessa Conferência de Serviços Gerais de 1985, foi proposta e aprovada a criação de uma Comissão Especial para Reforma do Manual de Sérvios de A.A. para o Brasil, composta de 02 (dois) membros da Área de Minas Gerais, 02 (dois) membros da Área de São Paulo e 02 (dois) Custódios Regionais, 1 (um) da Região Sudeste e outro da Região Centro-Oeste.

A REVISTA “VIVÊNCIA”

Uma revista brasileira de A.A. que servisse de divulgação em nível público sempre foi desejada desde os primeiros Conclaves (hoje, Convenções). Nos dias 17, 18 e 19 de agosto de 1985, a JUNAAB, na 2a. Reunião de Serviços Nacional, realizada em Baependí/MG, por sugestão dos Comitês, inclusive os membros do CIP. CCCP, CI. (CTO), recém oficializados, dos Comitês de Finanças e do Comitê de Literatura, elegeram uma Diretoria e autorizou uma edição experimental: seria o N 0 (Zero), marco inicial da revista, lançada em novembro do mesmo ano, em Campo Grande/MS, quando do Seminário da Região Centro-Oeste, com o nome de “Revista Brasileira de A.A.”
A revista foi um sucesso total, não obstante as cochiladas editoriais, e os 5.000 (cinco mil) exemplares editados foram quase todos vendidos em tempo recorde. A revista era viável. Devido a problemas técnicos e editoriais, consoante apreciação e Parecer do Comitê de Literatura da Junta, a Revista Brasileira de A.A. foi transferida para ser editada e publicada em Brasília/DF, sob nova direção, com o nome de “Vivência”. Adquiriu um formato bem menor, quase de bolso e institui-se a assinatura anual. Procurava-se resolver os problemas emergentes. A revista crescia.
Aos seis anos de idade a Vivência era trimestral e inclusive contribuía mesmo modestamente, para ajudar nas despesas do ESG. Ultrapassou os 3.000 (três mil) assinantes e as vendas avulsas transpuseram o patamar dos 1.500 (um mil e quinhentos) exemplares. Por problemas administrativos, a edição e publicação da revista “Vivência” foram transferidas de Brasília/DF para Fortaleza/CE.
Instalada em Fortaleza/CE, desde 1990, edição n 14 até a de n 24, relativa ao trimestre abril/maio/junho de 1993, período em que alcançou um grande avanço, passou de 1.500 (um mil e quinhentos) assinantes, para 4.000 (Quatro mil).
A edição n 25, julho/agosto/setembro de 1993, foi editada em São Paulo, no formato atual, um pouco maior que as anteriores – e com tiragem de 8.000 (oito) mil exemplares. Abandonou o tema de capa adotado em Fortaleza/CE, dando maior destaque à divulgação de eventos e voltando-se um pouco mais para temas ligados aos Três Legados de A.A., e continuou com a edição trimestral, por pouco tempo.
A partir da 1a. edição do ano de 1994, passou a ser editada a cada dois meses. A assinatura – cortesia foi apresentada pela primeira vez no Editorial da Revista de n 33, que também trazia um cupom “cortesia” impresso em suas páginas.
Até a última revisão do Manual de Serviços, ocorrida em 1995, onde foram reformulados os Estatutos da JUNAAB, a Vivência manteve-se como empresa separada, com Diretoria própria, assim ocorria com o extinto CLAAB. No entanto, após essa revisão estatutária, os três Órgãos de Serviços da JUNAAB fundiram-se numa única empresa e a Revista Vivência passou a ser de responsabilidade de um novo Comitê da Junta – o Comitê de Publicações Periódicas (CPP) – responsável também pela publicação do BOB Mural.
A 1a.edição publicada por este Comitê inovou com algumas mudanças. O tema da capa voltou (a 1a. edição de n 36 fala sobre apadrinhamento) e a linha editorial tende a retratar mais a prática do dia a dia do Programa de Recuperação dos membros de A.A., com a tão falada “Linguagem do Coração”, aquela em que só se ensina falando em experiência pessoal.
O projeto visual foi remodelado e a Revista Vivência ganhou mais ilustrações e dispositivos editoriais utilizados para facilitar e tornar mais agradável a leitura.
Ultimamente, após ter enfrentado sérios problemas com distribuição a Revista Vivência conta com cerca de 7,000 (Sete mil) assinantes assíduos e o Comitê responsável, com dois servidores atuantes, trabalhando firme no sentido de ampliar estes números, fortalecendo e fornecendo subsídios para que sua estrutura de divulgação tenha mais respaldo e eficiência em suas atividades. O conteúdo da Revista Vivência tem sido objeto de planejamento e estudo, e sua edição caminha a passos largos em direção ao aprimoramento técnico. Conta com colaboradores em diversas localidades do País e representantes em quase todas as Áreas, porém, pouco mais de 10% (dez por cento) dos Grupos de A.A. têm representantes (R.Vs). Os problemas com a distribuição das Revistas tendem a diminuir quando os Escritórios de Serviços Locais assumirem essa responsabilidade prevista neste Manual de Serviços.

1986 – A 10a. Conferência de Serviços Gerais e a 9a. Convenção, ocorreram nos dias 24, 25, e 26 de março de 1986, em João Pessoa/PB, com o tema “SERVIÇO É AMOR”. Nesta ocasião, foi editado e também lançado um livro, com este título.
A Conferência de Serviços Gerais foi aberta na forma de costume, sendo lido o Relatório sobre custos, aumento de preços de Literatura e previsão de gastos com a Convenção em andamento.
Um dos Delegados à R.S.M. apresentou seu Relatório e alertou quanto às falhas de apadrinhamento. Em enfático pronunciamento disse ser preciso haver uma troca de experiências nas Conferências de Serviços Gerais, com respeito às atividades realizadas nos Grupos de A.A.. Aprofundou-se com especificação do Programa de A.A. – d’Os Doze Passos e, encerrou com a frase: “As palavras convencem, mas os exemplos arrastam”.
Recomenda-se a sistemática de contribuições proporcional para os Órgãos de Serviços, assim distribuídos: 60% (Sessenta por cento) para Centrais/Intergrupais (hoje Escritório de Serviços Local – ESL), 25% (Vinte e cinco por cento) para o Comitê de Área e 15% (Quinze por cento) para a JUNAAB.

1987 – Em São Paulo acontece a 11a. Conferência de Serviços Gerais, nos dias 16, 17 e 18 de abril, tendo como assunto de destaque a apreciação do Anteprojeto do Manual de Serviços de A.A., adaptado à realidade brasileira, transformando-se a Reunião Ordinária em Reunião Extraordinária.
Contudo priorizou-se o assunto “Custódios”, assunto pendente desde 1984, no que se refere ao rodízio, eleição e posse. Em 1988 foram eleitos: 02 (dois) Custódios – Classe “B” e 01 (um) Custódio – Classe “A”, ficando a Junta acrescida de mais 03 (três) Custódios. Em 1989, eleição e posse de mais 02(dois) Custódios – Classe “B” e 01 (um) Custódio – Classe “A”, somando 15 (quinze) Custódios. Em 1990, nova eleição e posse de mais 02(dois) Custódios – Classe “B” e 01 (um) Custódio -Classe “A” e encerrados os mandatos de 09 (nove) Custódios, quando a Junta volta contar com o seu número normal de 09 (nove), satisfazendo o rodízio desejado e às Áreas envolvidas.
O tema da Conferência de Serviços Gerais, – “ABORDAGEM E APADRINHAMENTO”, foi exposto com os debates tradicionais, porém com interrupção, com permissão da Plenária, para dar entrada na Conferência de Serviços Gerais, dos companheiros Harold e John Burns. Harold, um dos membros mais antigos do A.A. no Brasil, e John Burns, atuante na recuperação de alcoólatras em Clínicas Especializadas; o qual enfatizou estar comprovado serem “Os Doze Passos de A.A.”, o mais eficaz instrumento para a recuperação do doente alcoólico.
Também foi feita a temática sobre “Organização da Conferência”, apresentada por um companheiro que sugeria reformulação, simplificação, aspectos legais, despesas e formação de fundos para o suporte daquele Organismo.

1988 – A XII. Conferência de Serviços Gerais e a X. Convenção, realizaram-se nos dias 27, 28 e 29 de março de 1988, em Curitiba/PR, com o tema “Sétima Tradição” e “Contribuição, Privilégio ou obrigação?”, respectivamente.
O assunto prevalecente referiu-se à reforma dos Estatutos da Junta, seguido das eleições dos Custódios, Delegados à RSM e apresentação dos Relatórios dos Organismos de serviços da Junta.
O A.A. no Brasil assumiu compromissos de apadrinhamento de Países da África, como: Moçambique, Angola, Guiné, Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, segundo relatou nosso Delegado à R.S,M.. Esclareceu também que quanto a Portugal, o trabalho está desenvolvendo a contento e que, de acordo e informes do CLAAB, já adquiriu mais Literatura do que 09 (nove) de nossas Áreas.
A CENSAA/SP apresentou o “Projeto Conjunto de Divulgação de A.A.” visando uma unificação da linguagem de divulgação para aprovação de sua implantação.
Ouvidas as Comissões que hoje compõe o CTO, estas referendaram o Projeto e sua praticabilidade ou praticidade.
As Centrais/Intergrupais (hoje E.S.Ls) em nível nacional, reuniram-se pela segunda vez, tendo como resultado intercâmbio dos mais proveitosos.
Os Estatutos da JUNAAB, com nova redação e analisados todos os Capítulos, foram aprovados por unanimidade pela Plenária, em sessão extraordinária, isto posto, incontinente, foi colocado em discussão e aprovação do Regimento Interno da Conferência de Serviços Gerais, que identicamente foi aprovado.
Fato inédito foi a introdução de uma Comissão de Avaliação da Conferência e das temáticas, que opinou pela manutenção de pelo menos duas palestras sobre temas determinados (polêmicos para os membros de A.A. e Grupos de A.A.), se possível com sugestões da Áreas. Os temas da Conferência de Serviços Gerais, foram propostos em 1985 e adotados, para regozijo do A.A. no Brasil.
Nas anteriores Conferências de Serviços Gerais, aspirávamos ver os Delegados Estaduais e à R.S.M. saindo da Conferência levando, já aprovadas, a Ata da Conferência. Vimos este fato concretizar-se nesta Conferência de Serviços Gerais (1988).

1989 – A XIII. Conferência de Serviços Gerais, foi realizada em Santos/SP, nos dias 22, 23 e 24 de março de 1989.
Mais uma vez temos propostas de Reforma de Estatutos, justificadas para atender as exigências fiscais, considerando que o ESG estava registrado indevidamente como personalidade jurídica, com CGC, quando esta característica deveria ser da JUNAAB. Não obstante protestos da minoria, as alterações foram aprovadas com a introdução do Regulamento da Revista Brasileira de A.A.- Vivência. Houve propositura para a revisão do Manual de Serviços de A.A.. De modo que, foi criada uma Comissão composta de 04 (quatro) companheiros, sendo 03 (três) Delegados de Área e 01 (um) Custódio.
O Delegado à RSM discorreu sobre o A.A. no Brasil e fez analogia em relação a outros Países informando que, no momento, o A.A. no Brasil ocupa o terceiro lugar em nível mundial.

1990 – Realiza-se em Belém do Pará/PA, a 14a. Conferência de Serviços Gerais, com o tema “A Mulher e o Terceiro Legado”, na cidade de Benevides/PA, nos dias 08, 09, 10, 11 e 12 de abril de 1990, simultaneamente com a 11a Convenção.
Instalada a Conferência de Serviços Gerais e ouvido o Relator da Comissão de Agenda, passou-se à exposição do tema, por uma companheira da Área de São Paulo e outra companheira da Área de Serviço do Rio de Janeiro – dignas representantes do tema, sendo também, apresentado o Relatório do Delegado à RSM.
Na forma de costume, foi escolhido o tema da próxima Conferência de Serviços Gerais, sendo eleito o tema com o título: “A Conferência toma o seu inventário”.
É recomendado que nos anos entre as Convenções, as Conferências de Serviços Gerais fossem realizadas na Área Metropolitana da cidade Sede ou sua circunvizinha (até 200 Km).

Com a apreciação pela Plenária, o Manual de Serviços de A.A., e com a revisão elaborada pela Comissão Especial de Reforma, foi sugerido e acatado a supressão dos Capítulos I, este com a ressalva de permanecer o RSG, e o Capítulo VI de título “As Centrais Estaduais de Serviços – CENSAAs”, para ser examinado separadamente, num Encontro Nacional de Centrais/Intergrupais.

ENCONTRO DE CENTRAIS E INTERGRUPAIS

No 4 Encontro desses Organismos, em Volta Redonda/RJ, nos dias 13 e 14 de outubro deste mesmo ano (1990), com o objetivo inicial de se criar um “Guia de Normas e Procedimentos” que evitasse pontos polêmicos no funcionamento, formou-se uma Comissão e se estipulou um tempo para apresentação de sugestões.
O 5  Encontro deu-se em Porto Alegre/RS, nos dias 31 de maio e 1 de junho de 1991. Considerando que as atividades do CTO estariam afetas às CENSAAs/ISAAs, portanto atribuições dos RIs, que compõem seus Conselhos de Representantes – CRI, formaram-se os Sub-Conselhos – SubCRI, com um Coordenador denominado “Coordenador do Sub Conselho –CSC”, nas Unidades Geográficas dos Comitês de Distrito, para tratar da divulgação da Irmandade, enquanto os RSGs e MCDs cuidariam de preparar o Grupo de A.A. para receber os visitantes, alcoólicos e não-alcoólicos, em cumprimento da Quinta Tradição.
No 6 Encontro, nos dias 19 e 20 de junho de 1992, em Fortaleza/CE, após as avaliações e feitos os acertos, o “Guia Nacional de CENSAAs e ISAAs”, foi aprovado e confirmado na 17a. Conferência de Serviços Gerais, em Santos/SP, nos dias 06, 07, 08 e 09 de abril de 1993, sendo publicado em agosto do mesmo ano (1993).
O Anteprojeto de Reforma do Estatuto da JUNAAB, após discussões e emendas, foi finalmente aprovado em 13 de abril de 1990 e registrado posteriormente como personalidade jurídica, em Cartório, para estes fins.
A Junta tratou de estruturar o Escritório de Serviços Gerais, de modo que, como Secretaria Executiva da Junta, possibilitasse o intercâmbio não só entre as Comunidades A.A., mas também com a Comunidade não-A.A., transmitindo e levando a mensagem da Irmandade.
Vejamos os Planos:
• Proposta de temas e palestras para a Conferência de Serviços Gerais;
• Conclamação para a implantação da Estrutura;
• Palavras do Presidente de então “o propósito dessas reuniões é o de possibilitar o assessoramento da JUNAAB e a execução das várias atividades da Irmandade. Aproveitamento da experiência de membros de A.A. que se especializaram nas diferentes atividades”;
• “Finalmente, dinamizar e agilisar a tomada de espaços pertinentes, visando o cumprimento do nosso propósito primordial, que é ajudar o alcoólico que ainda sofre”.

Para tal fim, foram compostos os Comitês relacionados, a seguir:

1. Comitê de Assuntos da Conferência (C.A.C.). (Foi criado como “Comitê de Apoio da Conferência”).
2. Comitê de Finanças (C.F.);
3. Comitê Trabalhando com os Outros (C.T.O.);
4. Comitê de Informação ao Público (C.I.P.);
5. Comitê de Cooperação com a Comunidade Profissional (C.C.C.P.);
6. Comitê Institucional (C.I.)
• Instituições de Tratamento;
• Instituições Correcionais.
7. Comitê de Literatura (C.L.).
Todos estes Comitês com atribuições definidas.

CINCO ANOS DEPOIS

1. Comunicação;
2. Modernização;
3. Departamento de Vídeo e Som;
4. Arquivo;
5. Estrutura Nacional;
6. Finanças;
7. Reuniões da Junta;
8. Instalações adequadas;
9. Custódios – Classe “A” , Ação;
10. CLAAB;
11. Vivência;
12. Bob Mural.
A partir daí, os textos das Apostilas constituem a História dos Serviços de A.A. no Brasil, acrescidas de informações referentes ao A.A. Mundial.

1991 a 1995 – As Apostilas foram aperfeiçoadas; disseminaram os Seminários, Simpósios, Ciclos de Estudos dos nossos Princípios; Interdistritais; Interáreas; Conferências Simuladas; etc..
Em que pese a crise financeira que envolve o nosso País e conseqüentemente a Irmandade de Alcoólicos Anônimos, sempre frágil em auto-suficiência, houve considerável melhoria, porquanto todos os Custódios custeavam suas próprias despesas, inclusive os Custódios não-alcoólicos, quando vinham participar das Reuniões da Junta ou para quaisquer outros serviços. Conseguimos, desde 1987, superar esta fase, graças à contenção de despesas, até mesmo reduzindo as Reuniões da Junta.
O relacionamento com os Profissionais, Imprensa, Órgãos Públicos, Instituições Particulares e Empresas, alcançou um índice relevante. Nossos Custódios não-alcoólicos participando de Congressos Médicos; Faculdades Universitárias Médicas e de Enfermagem; Clubes de Serviços, enfim, a nossa Irmandade vive uma etapa resplandescente. A Revista Vivência é revigorada e o Boletim Bob ganha nova forma; o “BOB Mural”.
Mudança de Sede dos nossos Órgãos de Serviços para um prédio comercial situado à Avenida Senador Queiroz, 101, no centro de São Paulo, bastante acolhedor; digno da Irmandade e das pessoas que nos procuram em busca de informações, proporcionando um clima salutar de trabalho para os nossos funcionários.

VEJAMOS O DESENROLAR DESTE PERÍODO

1991 – “A CONFERÊNCIA TOMA O SEU INVENTÁRIO”, o tema com a intenção de se avaliar os serviços da Conferência de Serviços Gerais, com profunda reflexão e debates pelos conferencistas, sobre a Unidade Nacional que deveria falar a mesma linguagem – a do coração, traduzida no nosso bem-estar comum. Trata-se da 15a. Conferência de Serviços Gerais, realizada em Santos/SP, no Centro de Formação para o Apostolado de Santos – CEFAS, nos dias 27, 28, 29, 30 e 31 de março de 1991.

1992 –“O GRUPO – MUDANÇA NA MATRIZ”, tema quente, provocou debates em todo o País, pelo entendimento de minorias que pretendiam mudar “O Grupo de A.A.”, senão o A.A. como um todo. Essas discussões trouxeram um grande crescimento para a Irmandade. Oportunizou falar-se muito do Programa de Recuperação, concentrado nos 36 (trinta e seis) Princípios dos Três Legados: Recuperação – Unidade – Serviço, que significam nossa Herança. O tema em questão foi da 16a.Conferência de Serviços Gerais e 12a. Convenção Nacional, realizada em Brasília/DF, nos dias 12, 13, 14, 15,16 e17 de abril de 1992.

1993 – “VIVENCIANDO A LITERATURA E REFORMANDO A MATRIZ”, reforça o tema anterior, dando ênfase à Literatura como nossa Herança. Surgem os “Ciclos de Estudos d’Os Doze Passos’; d ‘As Doze Tradições; dos Doze Conceitos: do livro ‘Alcoólicos Anônimos’ e formas de se praticar, com Reuniões Californianas (em círculo)”. O tema prende-se à 17a Conferência de Serviços Gerais, havida nos dias 06, 07, 08, 09 e 10 de abril de 1993, no CEFAS, Santos/SP.
1994 – “SERVIÇO – PRIVILÉGIO DE CADA UM”. Esta maravilha de tema foi desenvolvida na 18a. Conferência de Serviços Gerais, e na 13a. Convenção, que aconteceram nos dias 27, 28, 29, 30 e 31 de março de 1994, em Terezina/PI. Um claro chamamento para os membros de A.A. como indivíduos, para a responsabilidade/gratidão que significa a glória da Recuperação em Unidade. Todavia, nem sempre entendido, por induzir servir sem aparecer, sem querer elogios, honrarias, nomes estampados em jornais, prestígio e poder – O Sacrifício do Anonimato.

1995 – “A LITERATURA DE A. A. E OS TRÊS LEGADOS”. O tema refere-se à 19a. Conferência de Sérvios Gerais, que foi realizada nos dias 12, 13, 14, 15 e 16 de abril de 1955, nas dependências do CEFAS, Santos/SP. Reporta a força espiritual do Programa de Recuperação; a igualdade que deve prevalecer nos Grupos de A.A. e Órgãos de Serviços. Irmandade onde não há governos (chefes), e que as diversidades individuais se juntam pela necessidade da prática dos mesmos Princípios, se quiserem viver abstêmios – aperfeiçoando-se para viver em relativa sobriedade.
As Apostilas ganham consistência e a sua aquisição pelos Grupos de A.A. que se conscientizaram a cada ano de sua importância, praticamente cobrem as despesas da Conferência de Serviços Gerais e custeiam a participação dos seus representantes de Área – Delegados Estaduais.
Com respaldo nesta conscientização, a Conferência de Serviços Gerais/Comissão de Finanças, ratifica e aperfeiçoa a Recomendação n 5, dos anos de 1993 e 1994, ora transcrita: “A extinção da despesa nivelada”. As despesas da Conferência de Serviços Gerais serão suportadas por recursos das seguintes origens:
• Resultado de venda das Apostilas, e
• Repasse mensal efetuado pela JUNAAB.
A cada ano, as Áreas adquirirão Apostilas em n de 25% (vinte e cinco por cento) superior ao ano anterior, até o ano 2.000 (dois mil). O limite máximo obrigatório na evolução de compras de Apostilas, será igual a 02(duas) Apostilas, por Grupo de A.A. da Área. Da arrecadação como resultado das vendas, 25% (vinte e cinco por cento) serão destinados ao Comitê de Área adquirente.
Conforme o previsto, a reforma do Manual de Serviços de A.A. contemplava a revisão dos Estatutos da JUNAAB, porém, em fins de 1994, surge uma proposta da própria Junta, para que na reforma questionada houvesse a fusão dos Organismos de Serviços, CLAAB/REVISTA VIVÊNCIA, incorporando-os numa única empresa à Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil, sob o argumento de que as despesas para a manutenção de duas empresas, embora, aparentemente gozem de privilégios fiscais, arcam com encargos sociais e fiscais.
Solicita à Conferência de Serviços Gerais, que em sessão extraordinária aprovasse a seguinte RESOLUÇÃO: ‘Fica o CONSELHO DIRETOR DA CLAAB autorizado a promover a sua dissolução, incorporando os seus bens patrimoniais à JUNTA DE SERVIÇOS GERAIS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DO BRASIL – JUNAAB, Sociedade Civil, sem fins lucrativos, criada através de Estatutos protocolados e registrados sob n 2519, Livro “A” do Primeiro Cartório de Pessoas Jurídicas de São Paulo, Capital, publicado no “Diário Oficial do Estado, em 29 de junho de 1976, página 78”.
Isto posto houve manifestações e propostas das mais variadas do Plenário, dentre elas anotamos, no caso de aprovadas, que se resguardasse o previsto no Conceito VIII, d’Os Doze Conceitos para os Serviços Mundiais, (não foi consignado em Ata). Prosseguiu com acirradas discussões, porém, resultando em aprovação, com maioria absoluta.
Em cumprimento a agenda, foi formada uma Comissão Especial de Exame do Manual de Serviços de A.A., composta de 02 (dois) Delegados Estaduais de cada Região, 01 (um) Custódio alcoólico e 01 (um) Representante da Comissão de Reforma do Manual de Serviços de A.A., que se mantiveram reunidos desde o dia 13 de abril, adentrando a madrugada do dia 15 de abril de 1995.
Às 09:15 horas desse mesmo dia 15 de abril, quando a apresentação do Manual de Serviços do A.A. examinado, o Relator propôs a votação, página por página, enquanto que a “Apresentação e o Acordo”, seriam votados no final dos trabalhos, havendo concordância do Plenário. Em seguida, por unanimidade, as matérias constantes das páginas 04 (quatro) até a página 19 (dezenove) do Manual de Serviços de A.A., foram dispensadas de leitura, por se tratar de cópias fiéis.
Ao iniciar o relato, o texto da página 20 (vinte) – “TRABALHANDO JUNTOS”, surgiram debates intensos, resultando em duas propostas – TRATA-SE DO ANTEPROJETO DO MANUAL DE ESTRUTURA UNIFICADA.
Os trabalhos foram interrompidos obedecendo ao adiantado da hora. No retorno, houve a inversão de pauta, consentida pelo Plenário, possibilitando a antecipação da apreciação do projeto de modificação do Estatuto da JUNAAB. Depois das emendas, foi aprovada por maioria absoluta.
Retomando ao exame do Manual de Serviços de A.A., trabalho exaustivo, com a leitura até a página 65 (sessenta e cinco), com as devidas correções, em votação, decidiu-se pela Estrutura atualmente existente, incluindo, porém, “O GUIA NACIONAL DE CENSAAs/ISAAs”, correspondente ao Capítulo IV, do Manual de Serviços de A.A. em uso, hoje em reformulação, esgotados os 05 (cinco) anos estipulados. Da mesma forma aprovou-se o “Regimento Interno da Conferência de Serviços Gerais”, com as emendas cabíveis.

1996 – O tema dessa 20a. Conferência de Serviços Gerais, “Autonomia de Grupo à luz da 4a. Tradição”, realizada nas dependências do CEFAS – Centro de Formação para o Apostolado de Santos/SP, nos dias 02, 03, 04, 05, 06 e 07 de abril de 1996, foi deveras proveitoso, ensejando conceituar Grupos de A.A. e autonomia, de conformidade com as Tradições, observando-se que “cada Grupo de A.A. é uma entidade particular rigorosamente dependente de sua própria consciência coletiva”.
Finalmente, para júbilo de Alcoólicos Anônimos no Brasil, participou dessa Conferência de Serviços Gerais, uma companheira Delegada do A.A. na Argentina, que proferiu palavras de agradecimento em sua despedida.

1997 – Todas as atenções dos AAs no Brasil estão voltadas para o “Cinqüentenário do A. A. no Brasil” contudo,, conforme o deliberado, acontece em Santos/SP, nas dependências do CEFAS, com recepção no dia 22 e abertura oficial no dia 23, seguindo até o dia 26 de março de 1997, a 21a. Conferência de Serviços Gerais, com o tema “O A. A. brasileiro faz o seu inventário”. Como a descortinar “os 50 anos” do nosso A.A., ocorreu a 14a. Convenção Nacional, no Rio de Janeiro, iniciada nos dias 26 e encerradas no dia 30 de março de 1997.
Foi instituída uma Comissão Especial para Estudo do Manual de Serviços de A.A., com 01(um) representante de cada Região (Delegados Estadual), mais 01 (um) membro do Comitê de Literatura, incluindo-se posteriormente, os Custódios Regionais. Foi aprovada.
Ocorreu no Rio de Janeiro, nos dias 26 e 27 de março de 1997 o 8 Encontro de CENSAAs/ISAAs, registrando-se a participação de 20 (vinte) Centrais e 20 (vinte) ISAAs.
Durante a Conferência de Serviços Gerais, assunto grave relativo a Finanças foi debatido e, elaborado pela Junta um expediente em caráter confidencial para cada Delegado de Área, extensivo aos Escritórios de Serviços Locais, tendo o Tesoureiro Geral da Junta, Custódio não-alcoólico, levado ao 8 Encontro de CENSAAs/ISAAs, o documento em mãos, porquanto com participação confirmada naquele Encontro.
A Convenção Nacional como se aspirava foi um sucesso, em nível de comparecimento de AAs e, também de não-alcoólicos, com um público no “Maracanãzinho” de aproximadamente 10.000 (dez mil) pessoas. Visitantes, que podemos chamar de ilustres, fizeram suas presenças no congraçamento do Cinqüentenário, como: Presidente da Junta de Custódios dos Estados Unidos/Canadá, companheiro do GSO – General Service Office – Escritório de Serviços Gerais, com Sede em Nova Iorque. Representantes Uruguaios, um de Literatura e outro de Finanças,, bem como uma Custódia não-alcoólica, do Chile.
A Convenção esteve abrilhantada não só pelos desfiles das bandeiras, incluindo as internacionais, mas também, pelas palestras, exposições levadas a efeito pelos companheiros tomados de emoções, no Centro de Convenção, na Barra da Tijuca/RJ.

1998 – Nas dependências do CEFAS, em Santos/SP, nos dias 08, 09, 10, e 11 se abril de 1998, acontecia a 22a. Conferência de Serviços Gerais, com o tema “Trabalhando com os outros, dádiva de gratidão”.
As Áreas exploraram a dádiva do Poder Superior, a gratidão de se trabalhar com os Outros – verdadeiro sacerdócio.
No concernente a revisão do Manual de Serviços de A.A., no decorrer do painel “O que você está pensando?” e “Perguntas e Respostas”, painel aberto pelo Presidente da Junta (inovação), os Conferencistas debateram ‘Conceito de Área’ e ‘Reforma do Manual de Serviços de A.A.’.
Percebe-se nesse desenrolar dos “Aspectos da história de A.A. no Brasil”, o serviço se estratificar em uma Estrutura A.A. no Brasil, assim conceituada: “ESTRUTURA DE SERVIÇOS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS”, é a disposição metódica e criteriosa dos elementos e das partes que constituem um todo; onde os Princípios tradicionais da Irmandade se unem harmoniosamente às normas legais necessárias”. “A ESTRUTURA DE SERVIÇOS: OS PRINCÍPIOS COMO SUPORTE DA LEI”. Os RIs – Representantes Intergrupais, que antecederam aos RSGs, quando do surgimento dos primeiros Escritórios, deverão voltar às suas origens, na época, Representantes Institucionais (RIs) – Instituições em Geral – que buscavam o apoio desses Escritórios, proporcionando o intercâmbio com os serviços do Grupo de A.A., em particular, com os existentes, na ocasião, nos Hospitais e Clínicas. Entende-se assim, que agora, devam integrarem-se ao C.T.O..
Depreende-se pela análise das propostas do Anteprojeto do Manual de Serviços de A.A., que a tendência é para uma Estrutura Única, que os Escritórios de Serviços Locais (CENSAAs/ISAAs) devam ser incorporados aos Serviços Gerais, como Secretaria de Execução dos Serviços essenciais, sem contudo deixar de prestar os serviços de informações, atendendo ao Conceito de Trabalhando Juntos: Serviços Gerais e Serviços Locais, diante do estabelecimento do Comitê Executivo e conseqüentemente da Diretoria do Escritório de Serviços Locais, formando acordo com as necessidades, outros Comitês (Tradição Nove).

Obs. – Estes dados foram retirados do “Anteprojeto do Manual de Serviços de A;A.“ apresentado para a Conferência de Serviços Gerais de A.A., realizada em Salvador/BA, em junho do ano de 2000.

AS VARIEDADES DAS EXPERIÊNCIA RELIGIOSAS

AS VARIEDADES DAS EXPERIÊNCIA RELIGIOSAS
Título do original:

The Varieties of Religious Experience
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Direitos reservados
EDITORA CULTRIX
Rua Dr. Mário Vicente, 374 – 04270 – São Paulo, SP – Fone: 272-1399

Impresso nas oficinas gráficas da Editora Pensamento.

Nota sobre o texto
As Variedades da Experiência Religiosa resultou de uma proposta para as Conferências Gifford em 1896, formalmente apresentada em 1898. James começou a escrever em 1900. Problemas de saúde causaram o adiamento das conferências até 1901; ele completou a Segunda série em 9 de junho de 1902. Antes de partir para Edimburgo, Escócia, para a Segunda série, deixou o manuscrito com o editor. O livro apareceu em junho. A expectativa de James de que ele se vendesse bem, justificou-se, e o autor fez algumas revisões para a versão definitiva, que apareceu em agosto de 1902. Em 1902, Longmans, Green, & Co. puderam lançar a Sétima Edição. As reedições se sucederam após a morte de James. Nessas condições, a 38ª edição apareceu em 1935. A edição de agosto de 1902 tem sido a fonte da qual se fizeram as edições subseqüentes.

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Tão logo a casa editora Cultrix pediu-me que prefaciasse As Variedades da Experiência Religiosa de William James, apressei-me a fazê-lo de bom grado. Primeiramente, por tratar-se de obra pioneira num ramo recente da Psicologia, a chamada Psicologia Transpessoal, que se ocupa do que o próprio James, em companhia do psiquiatra canadense R. M. Bucke, chamou de “Consciência Cósmica”, isto é, um estágio de consciência que transcende os limites do indivíduo. Com base nas pesquisas mais recentes sobre o assunto, pode-se afirmar que, quando um homem atinge semelhante estágio, não há fronteiras que limitem a sua consciência.
Escrito em 1902, este livro continua atual, e se reveste de uma importância ainda maior por ter saído ele das mãos de William James, o filósofo do Pragmatismo e da Psicologia Científica, que nos introduziu numa filosofia da experiência.
Nesse sentido, a presente obra nos conduz a uma abordagem pragmática da questão religiosa; aqui, a religião é considerada como uma experiência, como uma vivência, e não apenas como uma crença na experiência alheia.
Sob a influência do paradigma Newtoniano-Cartesiano, antigo e ultrapassado, esteve em voga, por algum tempo, uma tendência de relegar a experiência religiosa à categoria da mera fantasia, para não dizer da loucura. Isso explica o fato de a Psicologia ter simplesmente ignorado este livro: ela própria andava comprometida com essas idéias.
No entanto, no que tange ao assunto, esta obra se completa a si mesma, pois começa por considerar a tese psicopatológica a que me referi, para depois, com uma casuística haurida nas principais tradições espirituais, mostrar o que distingue o santo e o místico do doente mental. Mais: expõe também quais critérios permitem reconhecer, para não dizer “diagnosticar”, a experiência mística legítima.
Mas o trabalho segue além e nos leva, a partir de dados experienciais, a levantar a questão filosófica da realidade de um poder superior, aventando a hipótese do “self” subconsciente como intermediário entre este poder superior e a natureza propriamente dita. Essa religião o autor considera como sendo a mais elevada de Deus.
Numa abordagem original, William James nos dá a conhecer a Psicologia Transpessoal e acaba por restituir à Psicologia o seu objetivo verdadeiro e último: experienciar o Real. Mas, será isto possível? Como vivência intransferível, a resposta só pode ser dada por cada um de nós, na medidade em que se possa criar, dentro de si mesmo, as condições necessárias para tanto. E as tradições espirituais propiciaram essas condições ao homem de todas as épocas e de todas as culturas.

Pierre Weil
Da Universidade Holística
Internacional de Brasília

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S U M Á R I O

I CONFERÊNCIA

RELIGIÃO E NEUROLOGIA ……………………………………………………………………………………………. 11
Introdução: o curso não é antropológico, mas lida com documentos pessoais. Questões de fato e questões de valor. Na verdade, as religiões amiúde são neuróticas. Crítica do materialismo médico, que condena a religião por esse motivo. Refutação da teoria de que a religião tem origem sexual. Todos os estados de espírito são neurologicamente condicionados. Sua importância há de ser avaliada não pela origem, senão pelo valor dos frutos. Três critérios de valor; a origem é inútil como critério. Vantagens do temperamento psicopático quando acompanhado de um intelecto superior; especialmente para a vida religiosa.

II CONFERÊNCIA

DELIMITAÇÃO DO ASSUNTO ………………………………………………………………………………………… 22
Futilidade das definições simples da religião. Não existe nenyum “sentimento religioso” específico. Religião instituicional e pessoal. Nós nos limitamos ao lado pessoal. Definição da religião para a finalidade destas conferências. Significado do termo “divino!. Divino é o que suscita reações solenes. Impossível nitidizar as nossa sdefinições. Precisamos estudar os casos mais extremos. Duas maneiras de aceitar o universo. A religião é mais entusiasta do que a filosofia. Sua característica é o entusiasmo na emoção solene. Sua capacidade de vencer a infelicidade. Necessidade de uma faculdade semelhante do ponto de vista biológico.

III CONFERÊNCIA

A REALIDADE DO INVISÍVEL ………………………………………………………………………………………….. 33
Os conteúdos da percepção diante dos conceitos abstratos. Influência destes últimos sobre a crença. As idéias teológicas de Kant. Temos um sentido da realidade diferente do que é dado pelos sentidos especiais. Exemplos do “sentido da presença”. A sensação da irrealidade. Sentido de uma presença divina: exemplos. Experiências místicas: exemplos. Outros casos de sensação da presença de Deus. Força de convicção da experiência não ponderada. Inferioridade do racionalismo no estabelecimento da crença. Ou o entusiasmo ou a solenidade podem prevalecer na atitude religiosa dos indivíduos.

IV e V CONFERÊNCIAS

A RELIGIÃO DO EQUILÍBRIO MENTAL ……………………………………………………………………………. 44
A felicidade pé o principal escopo do homem. Caracteres “nascidos uma ve” e “nascidos duas vezes”. Walt Whitman. Natureza mista do sentimento grego. Equilíbrio mental sistemático. Sua razoabilidade. O cristianismo liberal a mostra. O otimismo tal como é estimulado pela Ciência Popular. O movimento da “cura psíquica”. Seu credo. Casos. Sua doutrina do mal. Sua analogia com a teologia luterana. A salvação pelo relaxamento. Seus métodos: sugestão; meditação; “recolhimento”; verificação. Diversidade dos esquemas possíveis de adaptação ao universo. APÊNDICE: Dois casos de cura psíquica.

VI e VII CONFERÊNCIAS

A ALMA ENFERMA ………………………………………………………………………………………………………… 65
O equilíbrio mental e o arrependimento. Pluralismo essencial da filosofia do equilíbrio mental. Morbosidade da mente – seus dois graus. O limiar da dor varia de acordo com os

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indivíduos. A insegurança dos bens naturais. Malogro, ou êxito vão de cada vida. Pessimismo de todo naturalismo puro. Desesperança dos modos de ver grego e romano. Infelicidade patológica.
“Anedonia”. Melancolia plangente. O gosto da vida é pura dádiva. A sua perda faz o mundo físico
parecer diferente. Tolstoi. Bunyan. Alline. Medo mórbido. Tais casos necessitam de uma religião sobrenatural para poderem aliviar-se. Antagonismo entre o equilíbrio mental e a morbidade. Não há fugir ao problema do mal.

VII CONFERÊNCIA

O EU DIVIDIDO E O PROCESSO DA SUA UNIFICAÇÃO ………………………………………………….. 81
Personalidade heterogênea. O caráter atinge gradativamente a unidade. Exemplos do eu dividido. A unidade atingida não precisa ser religiosa. Casos de “contra-conversão”. Outros casos. Unificação gradual e súbita. A cura de Tolstoi. A cura de Bunyan.

IX CONFERÊNCIA

CONVERSÃO ……………………………………………………………………………………………………………….. 91
O caso de Stephen Bradley. A psicologia das mudanças de caráter. As comoções emocionais produzem novos centros de energia pessoal. Maneiras esquemáticas de representá-lo. Starbuck compara a conversão à maturação moral normal. Idéias de Leuba. Pessoas aparentemente inconvertíveis. Dois tipos de conversão. A incubaçãso subconsciente de motivos. Entrega de si mesmo. Sua importância na história religiosa. Casos.

X CONFERÊNCIA

CONVERSÃO (conclusão) …………………………………………………………………………………………….. 103
Casos de conversão súbita. A subitaneidade é essencial? Não, ela depende da idiossincrasia psicológica. Está provada a existência da consciência transmarginal, ou subliminal. Automatismos. As conversões instantâneas parecem dever-se à possessão de um eu subconsciente ativo pelo sujeito. O valor da conversão não depende do processo, mas dos frutos. Estes não são superiores na conversão súbita. As opiniões do Professor Coe. A santificação como resultado. A nossa explicação psicológica não exclui a presença direta da Divindade. Sentido de um controle superior. Relações entre o “estado de fé” emocional e as crenças intelectuais. Citação de Leuba. Características do estado de fé; sentido da verdade; o mundo parece novo. Automatismos sensoriais e motores. Permanência das conversões.

XI, XII e XIII CONFERÊNCIAS

A SANTIDADE ………………………………………………………………………………………………………………..120
Sante-Beuve sobre o Estado de Graça. Tipos de caráter que se devem ao equilíbrio dos impulsos e das inibições. Excitações soberanas. Irascibilidade. Efeitos das excitações elevadas em geral. A vida virtuosa é governada pela excitação espiritual. Isso pode anular permanentemente os impulsos sensuais. É provável que nisso estejam envolvidas influências subconscientes. Esquema mecânico para represnetar a alteração permanente do caráter. Características da santidade. Sentido da realidade de um poder superior. Paz de espírito, caridade. Equanimidade, fortaleza, etc.. Conexões delas com o relaxamento. Pureza de vida. Ascetismo. Obediência. Pobreza. Os sentimentos de democracia e de humanidade. Efeitos gerais das excitações elevadas.

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XIV e XV CONFERÊNCIAS

O VALOR DA SANTIDADE ………………………………………………………………………………………….
Deve ser julgado pelo valor humano de seus frutos. A realidade do Deus, entretanto, também deve ser julgada. Religioes “inadequadas” são eliminadas pela “experiência”. Empirismo não é ceticismo. Religião individual e religião tribal. Índole solitária dos inovadores religiosos. A corrupção acompanha o êxito. Extravagâncias. Devoção excessiva, como fanatismo; como absorção teopática. Pureza excessiva. Caridade excessiva. O homem perfeito só se adapta ao ambiente perfeito. Os santos são fermentos. Excessos do ascetismo. Simbolicamente, o ascetismo representa a vida heróica. O militarismo e a pobreza voluntária como possíveis equivalentes. Prós e contras do caráter do santo. Os santos diante dos homens “fortes”. A função social deles precisa ser tomada emconsideração. Do ponto de vista abstrato, o santo e o tipo mais elevado mas, no ambiente atal, pode falhar, de modo que nós nos fazemos santos por nossa conta e risco. A questão da verdade teológica.

XVI e XVII CONFERÊNCIAS

O MISTICISMO ……………………………………………………………………………………………………………
Definição do misticismo. Quatro marcas de estados místicos. Eles constituem uma região distinta da consciência. Exemplos dos seus graus inferiores. Misticismo e álcool. “A revelação anestésica”. Misticismo religioso. Aspectos da natureza. Consciência de Deus. “Consciência cósmica”. Ioga. Misticismo buista. Místicos cristãos. O seu sentido da revelação. Efeitos técnicos dos estados místicos. Estes se descrevem por meio de negativas. Sentido de união com o Absoluto. Misticismo e música. Três conclusões. L. Os estados místicos conferem autoridade a quem os tem. 2. Mas a mais ninguiém. 3. Não obstante, eles destroem a autoridade exclusiva de estados racionalistas. E fortalecem as hipóteses monísticas e otimistas.

XVIII CONFERÊNCIA

FILOSOFIA ……………………………………………………………………………………………………………………
Primazia do sentimento na religião, a filosofia é uma função secundária. O intelectualismo professa escapar aos critérios subjetivos em suas construções teológicas. “Teologia Dogmática”. Crítica da sua exposição dos atributos de Deus. O “Pragmatismo” como critério do valor das concepções.Os atributos metafísicos de Deus não têm sinificação prática. Os seus atributos morais são provados por maus argumentos; colapso da teologia sistemática. O idealismo transcendental se avém melhor? Seus princípios. Citações de John Caird. Eles são bons como exposições da experiência religiosa, mas não convencem xcomo provas razoadas. O que a filosofia pode fazer ela religião, transformando-se na “ciência das religiões”.

XIX CONFERÊNCIA

OUTRAS CARACTERÍSTICAS ………………………………………………………………………………………..
Elementos estéticos da religiao. Contraste do Catolicismo com o Protestantismo. Sacrifício e cofissão. Oração. A religião sustenta que uma obra espiritual é realmente levada a efeito na oração. Três graus de opinião em relação à obra levada a efeito. Primeiro grau. Segundo grau. Terceiro grau. Automatismos, sua freqüência entre os líderes religiosos. Casos judeus. Maomé. Joseph Smith. A religião e a região do inconsciente em geral.

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XX CONFERÊNCIA

CONCLUSÕES …………………………………………………………………………………………………………..
Sumário das características religiosas. As religiões dos homens não precisam ser idênticas. “A ciência da religião” só pode sugerir, não pode proclamar um credo religioso. É a religião uma sobrevivência do pensamento primitivo? A ciência moderna elimina o conceito da personalidade. Antropomorfismo e a crença nas forças pessoais caracterizavam o pensamento pré-científico. Apesar disso, as forças pessoais são reais. Os objetos científicos são abstrações, somente as experiências individualizadas são concretas. A religião se atém ao concreto. Em primeiro lugar a religião é uma reação biológica. Os seus termos mais simples são um embaraço e uma libertação; descrição da libertação. A questão da realidade de um poder mais alto. Hipóteses do autor: 1. O eu subconsciente como intermediário entre a natureza e a região mais elevada ou “Deus”. Ele produz efeitos reais na natureza.

PÓS-ESCRITO ……………………………………………………………………………………………………………..

A posição filosófica deste livro definida como sobrenaturalismo parcial. Crítica do sobrenaturalismo universalístico. Princípios diferentes têm de ocasionar diferenças nos fatos. Q eu diferenças de fato pode produzir a existência de Deus? A questão da unidade e da infinidade de Deus: a experiência religiosa não soluciona a questão de maneira afirmativa. A hipótese pluralista está mais conforme ao senso comum.

ÍNDICE REMISSIVO ………………………………………………………………………………………………………

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I Conferência

RELIGIÃO E NEUROLOGIA

Não é sem certa apreensão que tomo assento a esta mesa e enfrento este culto auditório. Para nós, americanos, é muito familiar a experiência de receber intrução, não só de viva voz, mas também de livros, de doutos europeus. Em minha própria Universidade de Harvad, não se passa um inverno sem a sua messe, grande ou pequena, de conferência de representntes escoceses, ingleses, franceses ou alemães da ciência ou da literatura de seus respectivos países, ou induzidos por nós a atravessar o oceano para dirigir-nos a palavra, ou colhidos em pleno vôo durante sua visita à nossa terra. Parece-nos a coisa mais natural prestar atenção, calados, enquanto os europeus falam. Ainda não adquirimos o hábito contrário de falar enquanto os europeus prestam atenão; e naquele que primeiro se arrisca a essa aventura nasce certa necessidade de desculpar-se por ato tão presunçoso. E este há de ser, particularmente, o caso num solo tão sagrado para a imaginação americana quanto o de Edimburgo. As glórias de cátedra de filosofia desta universidade imprimiram-se fundamentalmente na minha imaginação durante a infância. Os Ensaios de Filosofia do Professor Fraser, que acabavam de ser publicados, foram os primeiro livro de filosofia em que pus os olhos; e bem me lembro do sentimento de admiração que me proporcionou a descrição que nele se continha da sala de aulas de Sir William Hamilton. As palestras de Hamilon, com efeito, foram os primeiros escritos filosóficos que me obriguei a estudar e, logo depois, mergulhei na leitura de Dugald Stewwart e Thomas Brown. Tais emoções juvenis de reverência nunca se esquecem; e confesso que o ver a minha humilde pessoa arrancada à sua selvageria natural para exercer, por enquanto, uma alta função nesta instituição, transmudada num colega de nomes tão ilustres, é cois que tem para mim sabor mais de sonho qaue de realidade.
Mas desde que recebi a honra desta designação senti que não me seria possível furtar-me a ela. A carreira acadêmica também tem suas obrigações heróicas, e por isso aqui estou sem mais palavras depreciativas. Permitam-me dizer apenas que agora que a corrente, aqui e em Aberdeen, começou a fluir de oeste para leste, faço votos por que continue assim. À proporção que passarem os anos, espero que muitos conterrâneos meus sejam convidados a fazer conferências nas universidades escocesas, trocando de lugar com os conferencitas escoceses nos Estados Unidos; estimarei que os nossos povos venham a tornar-se, em todos esses assuntos mais elevados, um povo só; e que o temperamento filosófico peculiar, bem como o temperamento político peculiar, ligados ao nosso idioma inglês, possam, cada vez mais, inundar e influenciar o mundo.
Quanto ao método que terei de seuir nestas conferências, não sou teólogo, nem entendido em história das religiões, nem antropólogo. A psicologia é o único ramo do saber que tenho versado particularmente. Para o psicólogo, as tendências religiosas do homem háo de ser, pelo menos, tão interessantes quanto quaisquer outros fatores pertencentes à sua constituição mental. Dir-se-á, por conseguinte, que a coisa mais natural para mim, como psicólogo, seja convidá-los a uma resenha descritiva dessas propensões religiosas.
Se a indagação for filosófica, o seu tema deverá ser, não s instituições religiosas, senão os sentimentos e impulsos religiosos, e eu terei de limitar-me aos fenômenos subjetivos mais desenvolvidos já registrados na literatura produzida por homens perfeitamente evoluídos e conscientes, em obras de piedade e autobiográficas. Por interessantos que sejam sempre as origens e primeiras fases de um assunto, se desejarmos seriamente buscar-lhe a plena significação, deveremos atentar para as suas formas completamente evolvidas e perfeitas. Disso se segue que os documentos mais interessantes para nós serão os dos homens que mais se distinguiram na vida religiosa e se mostraram mais capaes de fazer uma exposição conpreensível de suas idéias e motivos,. Claro está que esses homens ou serão escritores relativamente modernos, ou autores tão antigos que se tornaram clássicos religiosos. Não deveremos, portanto, procurar os documentos humanos mais instrutivos nos campos da erudição especializada – uma vez que eles jazem ao longo da estrada batida; e essa circunstância, que flui de modo tão natural

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do caráter do nosso problema, ajusta-se também admiravelmente à ausência de saber teológico deste conferencista. Posso tirar minhas citações, sentenças e parágrafos de confissão pessoal que a maioria dos senhores, em algum momento, talvez tenha tido entre as mãos, mas isso em nada diminuirá o valor das minhas conclusões. É verdade que algum leitor e investigador mais corajoso do que eu, pronunciando conferências aqui, no futuro, venha a desenterrar das prateleiras documentos aptos proporcionar um entretenimento mais deleitoso e curioso de se ouvir do que os meus. Duvido, contudo, que, pelo controle de um material tão raro, ele chegue, por força, muito mais perto da essência da matéria em apreço.
A pergunta, Que são as propensoes religiosas? E a pergunta, Qual é a sua significação filosófica? São duas ordens totalmente diferentes da inquisição do ponto de vista lógico; e como o não reconhecimento desse fato pode gerar confusão, desejo insistir um pouco nesse ponto antes de entrarmos nos documentos e materiais que mencionei.
Em livros recentes de lógica, faz-se distinção entre duas ordens de indagação tocantes a alguma coisa, seja ela qual for. Primeira, qual é a sua natureza? Como veio a existir? Qual é a sua constituição, sua origem, sua história? E, Segunda, Qual é sua importância, sua significação, seu valor? A resposta à primeira pergunta é dada num juízo ou proposição existencial. A resposta à Segunda é uma proposição de valor, que os alemães denominam Werthutheil, ou que nós, se o quisermos, podemos denominar juízo espiritual. Não é possível deduzir imediatamente um juízo do outro. Eles procedem de preocupações intelkectuais diversas, e a mente só as combina formando-as primeiro separadamente e adicionando-as depois uma à outra.
Em matéria de religiões, é particularmente fácil distinguir as duas ordens de perguntas. Todo fenômeno religioso tem sua história e sua derivação de antecedentes naturais. O que hoje se chama a crítica superior da Bíblia não passa de um estudo da Bíblia do ponto de vista existencial, descurado por muito tempo pela igreja primitiva. Em que precisas condições biográficas os escritores sacros produziram suas várias contribuições ao volume sagrado? E que tinham eles exatamente em suas várias mentes indiviuais, quando proferiram suas afirmações? É evidente que estas são perguntas históricas, e não vemos como a resposta dada a elas possa decidir, sem mais, a pergunta subseqüente: que utilidade pode ter para nós como guia de vida e como revelação um volume como esse, nascido da maneira acima descrita? Para responder à essa pergunta precisamos ter em mente alguma teoria geral sobre quais devem ser as peculiaridades que dão a uma cois valor de revelação; e essa mesma teoria seria o que acabo de chamar juízo espiritual. Combinando-o com o nosso juízo existencial, podemos, com efeito deduzir outro juízo espiritual sobre o valor da Bíblia. Destarte, se a nossa teoria do valor da revelação afirmasse que qualquer livro, para possuí-la, há de ter sido composto, automáticamente ou não, pelo livre capricho do autor, ou que não pode conter nenhum erro científico e histórico nem expressar nenhuma paixão local ou pessoal, a Bíblia, provavelmente, ver-se-ia em má situação em nossas mãos. Mas se, por outro lado, nossa teoria permitir que um livro seja uma revelação, em que pese aos erros e paixões e à deliberada composição humana, bastando que seja um registro verdadeiro das experiências íntimas de grandes almas em luta com as crises do seu destino, o veredicto será muito mais favorável. Como vêem os senhores, os fatos existenciais, por si mesmos, são insuficientes para determinar o valor; e os melhores adeptos da crítica superior, nessa conformidade, jamais confundem o problema existencial com o espiritual. Com as mesmas conclusões de fato diante deles, alguns perfilham uma opinião, outros outra, sobre o valor da Bíblia como revelação, de acordo com as diferenças do seu juízo espiritual quanto ao fundamento dos valores.
Faço estes reparos de ordem geral acerca das duas espécies de juízo, porque existem muitas pessoas religiosas – e é possível qaue algumas delas se encontrem entre os senhores – que ainda não se valem utilmente de tais distinções e que, portanto, poderão sentir-se, a princípio, um tanto ou quanto perplexas diante do ponto de vista puramente existencial pelo qual, nas conferências que se seguirem, serão considerados os fenômenos da experiência religiosa. Quando os trato biológica e psicologicamente como se fossem meros fatos curiosos de história individual, alguns dos senhores poderão pensar que isso seja uma degradação de assunto tão sublime, e até suspeitar, enquanto o meu propósito não for plenamente expresso, que eu esteja procurando acinte desacreditar o lado religioso da vida.

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Claro está que tal resultado é absolutamente alheio à minha intenção; e visto qaue um preconceito dessa natureza da parte dos senhores obstruiria seriamente o devido efeito de muita coisa que tenho para relatar, dedicarei mais algumas palavras ao assunto.
Não pode haver dúvida de que, na verdade, uma vida religiosa, levada de modo que exclua tudo o mais, tende a tornar a pessoa excepcioal e excêntrica. Não me refiro agora ao crente reliioso comum, que segue fielmente as práticas religiosas convencionais do seu país, seja ele budista, cristão ou maometano. Sua religião foi feita para ele por outros, comunicada a ele pela tradição, reduzida a formar fixas pela imitação e conservada por hábito. Pouco nos aproveitaria estudar essa vida religiosa de segunda mão. Precisamos procurar antes as experiências que fixaram padrões para toda a massa de sentimentos sugeridos e de procedimentos imitados. Só vamos encontrar essas experiencias em indivíduos para os quais a religião existe não como hábito aborrecido, senão, por assim dizer, como febre ardente. Mas tais indivíduos são “gênios” na esfera religiosa; e como muitos outros gênios que produziram frutos dignos de comemoração nas páginas da história, tais gênios religiosos têm mostrado, não raro, sintomas de instabilidade nervosa. Mais até do que outros tipos de gênios, os líderes religiosos têm sido passíveis de manifestações psíquicas anormais. Têm sido, ivariavelmente, criaturas de exaltada sensibilidade emociona, levando, com freqüência, vidas internamente discordantes e sofrido de melancolia durante parte de sua carreira. Não conheceram medida, sujeitos como estavam a obserssões e idéias fixas; e, muitas vezes, caíram em transes, ouviram vozes, tiveram visões e apresentaram toda sorte de peculiaridades, classificadas, de ordinário, como patológicas. Com frequência, além disso, esses fatos patológicos em sua carreira têm concorrido para conferir-lhes autoridade e influência religiosas.
Se os senhores me pedirem um exemplo concreto, não haverá outro melhor que o fornecido pela pessoa de George Fox. A religiao quacre, que ele fundou, é alguma coisa que nunca se poderá louvar em demasia. Num tempo em que a impsotura era a regra, ele surgiu como religião veraz, radicada na espiritualidade, retorno a algo semelhante à verdade do evangelho original do que tudo o que os homens já haviam conhecido na Inglaterra. Na medida em que nossas seitas cristãs evolvem para a liberalidade, elas simplesmente revertem, na essência, à posição que Fox e seus primitivos quacres assumiram hjá tanto tempo. Ninguém pode sustentar sequer por um momento que, no tocante à sagacidade e capacidade espirituais, a mente de Fox não fosse sólida. Todos os que o conheceram pessoalmente, desde Oliver Cromwell até magistrados e carcereiros, parecem Ter-lhe reconhecido a superioridade. Não obstante, do ponto de vista da constituição nervosa, Fox era um psicopata ou détraqué do tipo mais destacado. O seu “Diário” abunda em trechos deste gênero:

“Enquanto eu caminhava com vários amigos, ergui a cabeça e vi três casas torreadas munidas de espiras, que me impressionaram profundamente. Perguntei que lugar era aquele. Lichfield, responderam. Imediatamente ouvi a voz doSenhor, que me ordenava fosse até lá. Chegados à casa a que nos dirigíamos, pedi aos amigos que entrassem, sem dizer nada a ninguém sobre o lugar a que eu iria. Assim que eles se foram, afastei-me e prossegui em meu caminho, transpondo sebes e valados, até chegar a uma milha de distância de Lichfield, onde, num grande pascigo, pastores cuidavam dos seus carneiros. Nisso, o Senhor me ordenou que descalçasse os sapatos. Imobilizei-me, porque estávamos no inverno: mas a palavra do Senhor era como fogo em mim. Por isso tirei os sapatos e deixei-os com os pastores e os pobres pastores tremeram e ficaram assombrados. Em seguida, andei outra milha e, tanto que entrei na cidade, a palavra do Senhor soou em mim outra vez, dizendo: Grita, “Aí da sangrenta cidade de Lichfield!” Por isso me pus a subir e a descer as ruas, berrando em voz alta, Ai da sangrenta cidade de Lichfield! Como fosse dia de mercado, fui à praça do mercado, andei de um lado para outro pelas diversas partes dela e parei muitas vezes, urrando como antes, Ai da sangrenta cidade de Lichfield! E ninguém me pôs as mãos. E assim fui gritando pelas ruas, e tive a impressão de que um rio de sangue descia por elas abaixo, e a praça do mercado me pareceu um poço de sangue. Depois de declarar o que me estava acontencendo, senti-me sereno e saí da cidade em paz; e, voltando para junto dos pastores, dei-lhes algum dinheiro e tirei deles de novo os meus sapatos. Mas o fogo do Senhor me abrasava de tal modo os pés e todo o corpo, que já não me preocupava tornar a calçar os sapatos, e fiquei indeciso sobre se devia fazêw-lo ou não, até que o Senhor me deu liberdade para agir: então, depois de haver lavado os pés, voltei a calçar os sapatos. A seguir, entrei a pensar seriamente no motivo por que me teria sido ordenado deblaterar contr aquela cidade e chamar-lhe a cidde sangrenta! Pois se bem o parlamento acompanhasse o ministro numa época e o rei em outra, e muito sangue houvesse sido derramado na cidade durante as guerras entre eles, o mesmo sucedera em muitos outros lugares. Mais tarde, porém, vim a saber que , no tempo do imperador

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Diocleciano, mil cristãos tinham sido martirizados em Lichfiel. Por isso eu devia atravessar-lhes, descalço, o rio de sangue e o charco de sangue na praça do mercado, para poder despertar a lembrança do sangue dqueles mártires, derramdo mais de mil anos antews, e ora jazendo frio nas suas ruas. Assim, o sentido desse sangue estava em mim e eu obedeci à palavra do Senhor”.

Por mais ocupados que estejamos em estudar as condições existenciais da religião, não nos é possível desprear esses aspectos patológicos do assunto. Precisamos descrevê-los e nomeá-los exatamente como se ocorressem em homens irreligiosos. É verdade que, instintivamente, relutamos em ver um objeto a que estão ligadas nossas emoções e afetos tratado pelo intelecto como qualquer outro objeto é tratado. A primeira coisa que fa o intelecto com um objeto é classificá-lo juntamente com alguma outra coisa. Mas parece-nos que qualque objeto infinitamente importante para nós e que nos desperta a devoção também deve ser sui generis e único. É provável que um caranguejo se enchesse de indignação ouvindo-nos classificá-lo, sem mais cerimônis, de crustáceo e, assim, liquidar o assunto. “Não sou nada disso”, diria ele. “Eu sou EU, só EU.”
Em seguida, o intelecto expõe as causas que deram origem à coisa. Diz Spinoza: “Analisarei as ações e apetites dos homens como se fossem uma questão de linhas, planos e sólidos”. E em outro passo observa que considerará nossas paixões e suas propriedades com os mesmos olhos com que olha para todas as outras coisas naturais, visto que as conseqüências de nossas afeições fluem da sua própria natureza com a mesmoa necessidade que resulta da natureza de um triângulo o serem seus três ângulos iguais a dois ângulos retos. De maneira semelhante, o Sr. Taine, na introdução à sua história da literatura inglesa, escreveu: “Não importa que os fatos sejam morais ou fisicos. Há causas para a ambição, a coragem, a veracidade exatamente como as há para a digestão, o movimento muscular, o calor animal. O vício e a virtude são produtos como o vitríolo e o açúcar”. Quando lemos tais proclamações do intelecto empenhado em mostrar as condições existenciais de tudo, nós nos sentimos – independentemente da nossa legítima impaciência pelo entono o seu tanto ridículo do programa, em vista do que os autores são realmente capaes de realizar – ameaçados e negados nas origens de nossa vida mais íntima. Achamos que tais confrontos a sangue-frio ameaçam desfazer os segredos vitais da nossa alma, como se o mesmo sopro que devera explicar-lhes a origem lhes explicasse de maneira muito plausível, ao mesmo tempo, o significado e os fizesse parecer não mais preciosos do que os úteis artios de mercearia de que nos fala o Sr. Taine.
Talvez a expressão mais comum da suposição de que o valor espiritual se anula quando se lhe afirma a origem inferior se encontre nos comentários que as pessoas não-sentimentais faem com tanta freqüência a respeito dos seus conhecidos mais sentimentais. Alfredo acredita na mortalidade com tanta força porque seu temperamento é muito emocional. A consciência extrordinária de Fanny deve-se apenas à hiper-sensibilidade dos seus nervos. A melancolia de Guilherme a respeito do universo é fruto da má digestão – mo seu fígado, provavelmente, funciona mal. O prazer que Elisa encontra na igreja é um sintoma de sua constituição histérica. Pedro estaria menos perturbado em relação à própria alma se fizesse mais exercícios ao ar livre, etc. Um exemplo plenamente desenvolvido do mesmo tipo de raciocínio é a moda, muito comum hoje em dia entre certos escritores, de criticar as emoções religiosas mostrando uma conexão entre elas e a vida sexual. A conversão é uma crise da puberdade e da adolescência. As macerações dos santos e a devoção dos missionários são apenas manifestações de uma perversão do instinto paterno de auto-sacrifício. Para a monja histérica, que tem forma de vida natural, Cristo é apenas o substituto imaginário de um objeto mais terreno de afeição. E assim por diante.(1)

(1) Como acontece com minhas idéias que flutuam no ar de determinada época, essa noção nõ encontra uma proposição
geral dogmática e se expressa apenas parcial e indiretamente. A mim me parece que poucas concepções são menos instrutivas do que esta reinterpretação da religião como sexualidade pervertida. Ela nos lembra, tão grosseiramente é empregada a todo momento, a famosa zombaria católica, de que a Reforma será mais bem compreendida se não nos esquecermos de que a sua fons et origo era o desejo de Lutero de casar com uma freira: – os efeitos são infinitamente mais amplos do que as causas alegadas e, na maior parte, de natureza oposta. É verdade que, na imensa coleção de fenônmenos religiosos, alguns são indisfarçavelmente eróticos – como, por exemplo, as divindades do sexo e os ritos obscenos do politeísmo, e os sentimentos extásticos de união com o Salvdor nuns poucos místicos cristãos. Mas, nesse caso, por que não chamar igualmente de religião a uma aberração da função disgestiva, e provar o nosso ponto de vista

William James

Um Estudo sobre a Natureza Humana

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Estamos todos seguramente familiarizados, de um modo geral, com esse métodfo de desacreditar estados de espírito pelos quais sentimos antipatia. Todos o utilizamos até certo ponto ao criticar pessoas cujos estados de spírito reputamos demasiado forçados. Quando, porém, outras pessoas criticam nossos vôos de alma mais exaltados, chamando-lhes “nada mais” que expressões da nossa disposição orgânica, sentimo-nos ultrajados e magoados, pois sabemos que, sejam quais forem as peculiaridades do nosso organismo, nossos estados mentais têm oseu valor substantivo como revelações da verdade viva; e desejamos que se possa calar a boca a todo esse materialismo médico.
Materilismo médico afigura-se-nos, com efeito, uma boa apelação para o sistema de pensamento demasiado simplista que estamos considerando. O materialismo médico dá cabo de São Paulo explicando sua visão na estrada de Damasco como uma descarga violenta do córtex occipital, visto ter sido ele epiléptico. Tacha Santa Teresa de histérica, São Francisco de Assis de vítima de uma degenmerescência hereditária. O descontentamento de George Fox com as imposturas do seu tempo e o seu anseio de veracidade espiritual são consequências de um desarranjo no cólon. Os tons graves de tristeza de Carlyle decorrem do seu catarro gastro-duodenal. Todas essas hipertensões mentaism afiança o materialismo médico, revelan-se-nos, quando chegamos ao âmago da questão, meras questões de diátese (mais provavelmente auto-intoxicações), devida à ação viciosa de várias glândulas que a fisiologia ainda descobrirá.

com o culto de Baco e Ceres, ou com os sentimentos extáticos de outros santos a respeito da Eucaristia? A linguagem religiosa só pode vestir-se com os símbolos pobres que a nossa vida proporciona, e todo o organismo responde com vibrações excessivas de comentário todas as vezes que a mente é vigorosamente instigada à expressão. A linguagem extraída do comer e do beber é provavelmente tão comum na literatura religiosa quanto a extraída da vida sexual. Temos “fome e sede” de justiça; “encontramos um sabor doce no Senhor”; “provamo-lo e vemos que ele é bom”. “Leite espiritual para bebês americanos, tirado dos peitos de ambos os testamentos”, é o subtítulo do outrara famoso Devocionário da Nova Inglaterra, e a literatura devocional cristã praticamente flutua no leite, imaginado do ponto de vista, não da mãe, mas do guloso nenê.
São Francisco de Sales, por exemplo, assim descreve a “oração da quietude”: “Neste estado a alma é como uma criancinha de peito, cuja mãe, para acariciá-la enquanto ela ainda está em seus braços, faz que o leite lhe escorra pela boca sem que ela sequer movimente os lábios. O mesmo acontece aqui. … Nosso Senhor deseja que a nossa vontade se satisfaça com o sugar o leite que Sua Majestade verte em nossa boca, e que nos apraza a docçura sem que saibamos sequer que ela vem do Senhor.” E em outro passo: “Considerai os infantezinhos, unidos e pegados aos peitos de suas mães nutrizes, e vereis que, de tempos a tempos, eles se achegam ainda mais, aos pulinhos, a que o prazer de sugar os incita. Mesmo assim, durante sua oração, o coração próximo do seu Deus faz tentativas freqüentes de unir-se mais estreitamente com movimentos durante os quais chega ainda mais perto da doçura divina.” Chemin de la perfection, cap. Xxi; Amour de Dieu, vii, cap. I.
Com efeito, podemos igualmente interpretar a religião como uma perversão da função respiratória. A Bíblia está cheia da linguagem da opressão respiratória. “Não escondas o ouvido do meu respirar; meus gemidos não se escondem de ti; meu coração arqueja, as forças me falecem; meus ossos estão quentes com o meu rugir a noite inteira; como o cervo anseia pelos riachos, assim anseia minha alma por ti, ó meu Deus.” O Hálito de Deus no Homem é o título da principal obra do nosso místico americano mais conhecido (Thomas Lake Harris); e em certos países não-cristãos o fundamento de toda a disciplina religiosa consiste em regular a inspiração e a expiração.
Esses argumentos são tão bons quanto boa parte do raciocínio que se ouve em favor da teoria sexual. Mas os campeões desta última dirão, então, que o seu argumento pricipal não tem análogo em parte alguma. Os dois principais fenômenos da religião, a saber, a melancolia e a conversão, dirão eles, são essencialmente fenômenos da adolescência e, portanto, síncronos com o desenvolvimento da vida sexual. A isso, contudo, também é fácil responder. Mesmo que a afirmada sincronia fosse irrestritamente verdadeira como fato (o que não é), nem só a vida sexual, mas toda a vida mental superior desperta durante a adolescência. Poder-se-ia também sustentar a tese de que o interesse pela mecânica, pela física, pela química, pela lógica, pela filosofia e pela sociologia, que surge durante os anos da alolescência a par com o interesse pela poesia e pela religião, é também uma perversão do instinto sexual: – mas isso seria por demais absurdo. De mais a mais, se o argumento da sincronia é decisivo, que se há de fazer com o fato de que a idade religiosa por excelência parece ser a velhice, quando a comoção da vida sexual já passou?
A verdade simples é que, para interpretar a religião, precisamos, no fim, analisar o conteúdo imediato da consciência religiosa. No momento em que o fazemos vemos quão totalmente desassociado está ele, em geral, do conteúdo da consciência sexual. Tudo o que se relaciona com as duas coisas difere: objetos, estados mentais, faculdades envolvidas e atos provocados. Qualquer identificação geral é impossível: só encontramos, no mais das vezes, a hostilidade e o contraste compeltos. Se agora os defensores da teoria sexual disserem que isso não faz diferença para a sua tese; que sem as contribuições químicas que os órgãos sexuais dão ao sangue, o cérebro não seria alimentado para levar a cabo atividades religiosas, a proposição final será verdadeira ou não; de qualquer odo, porém, ter-se-á tornado profundamente não-instrutiva; não podemos deduzir dela conseqüências que nos ajudem a interpretar o significado ou o valor da religião. Nesse sentido, a vida religiosa depende tanto do baço, do pâncreas e dos rins quanto do aparelho sexual, e toda a teoria terá perdido o objetivo ao evaporar-se e transformar-se numa vaga afirmativa geral da dependência, de algum modo, da mente em relação ao corpo.
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E o materialismo médico julga, então, bem solapada a autoridade espiritual de todos esses personagens.2
Consideremos nós mesmos a matéria da maneira mais ampla possível. Encontrando conexões psico-físicas válidas, a psicologia moderna presume, como hipótese conveniente, que a dependência de estados mentais para com as condições corpóreas precisa ser perfeita e completa. Se adotarmos a suposição, está claro que aquilo em que o materialismo médico insiste, de fato, deve ser verdadeiro de um modo geral, se não em todos os pormenores: São Paulo teve, sem dúvida, certa vez, um ataque epileptiforme, se não epiléptico; George Fox era um degenerado herediátio; Carlyle foi, com certeza, intoxicado por um órgão qualquer, não importa qual – e assim por diante. Mas como, pergunto agora aos senhores, pode um relato existencial de fatos da história mental decidir de um modo ou de outro acerca da sua significação espiritual? De acordo com o postulado geral da psicologia a que acabamos de referir-nos, não existe um só dos nossos estados de espírito, baixo ou ato, saudável ou mórbido, que não tenha por condição algum processo orgânico. As teorias científicas estão condicionadas organicamente tanto quanto as emoções religiosas; e se conhecêssemos os fatos de maneira assaz íntima, veríamos, sem dúvida, o “fígado” determinando os pronunciamentos do ateu convicto de forma tão decisiva quanto os do metodista igualmente convicto cheio de ansiedade pela sua alma. Quando ele altera de um modo o sangue que se filtra através dos seus tecidos, temos a forma de espírito metodista mas quando o altera de outra maneira, temos a forma de espírito atéia. O mesmo se verifica com todos os nosos raptos e friezas, nossos anseios e agitações, nossas perguntas e crenças. Eles são igualmente de fundo orgânico, seja o seu conteúdo religioso ou não.
Argumentar, portanto, com a causação orgânica de um estado de espírito religioso para refgutar-lhe a pretensão de possuir um valor espiritual superior, é totalmente ilógico e arbitrário, a menos que já tenha descoberto anteicpadamente uma teoria psicofísica capaz de ligar os valores espirituais em geral a determinados gêneros de mudança fisiológica. De outro modo, nenhum dos nossos pensamentos e sentimentos, nem mesmo nossas doutrinas científicas, nem mesmo nossas des-crenças, poderia ter algum valor como revelações da verdade, pois cada uma delas, sem exceção, dimana do estado do corpo do seu possuidor naquele momento.
Fora ocioso lembrar que o materialismo médico não chega, para dizer a verdade, a nenhuma ampla conclusão cética dessa natureza. Ele tem certeza, como a tem todo homem simples, de que alguns estados de espírito são interiormente superiores a outros e nos revelam uma verdade maior, e nisso faz uso simplesmente de um juízo espiritual comum. O materialismo médico não tem nenhuma teoria fisiológica que explique a produção destes seus estados de espírito favoritos, por cujo meio possa aboná-los; e sua tentativa de desabonar os estados de que não gosta, associandop-os vagamente aos nervos e ao fígado, e ligando-os a nomes que segerem afecções corporais, é de todo ilógico e inconsistente.
Sejamos justos em toda essa questão e totalmente francos com nós mesmos e com os fatos. Quando julgamos certos estados de espírito superiores a outros, é sempre por causa do que sabemos a respeito dos seus antecedentes orgânicos? Não! É sempre por duas razões inteiramente distintas. Ou porque eles nos proporcionam um prazer imediato, ou porque acreditamos que eles nos trazem bons frutos para a vida. Quando abludimos depreciativamente a “fantasias febris”, o processo da febre como tal não é o fundamento da nossa desestima – pois, ao que sabemos, temperaturas de 39 ou 40 graus podem ser muito mais favoráveis à germinação e ao desenvolvimento de verdades do que as temperaturas mais comuns do sangue. É a própria desagraabilidade das fantasias, ou a sua incapacidade de suportar as críticas da convalescença. Quando louvamos os pensamentos que a saúde nos traz, os metabolismos químicos peculiares da saúde não têm nada que ver com a determinação do nosso juízo. Na realidade, quase nada sabemos desses metabolismos. É o caráter de felicidade interior dos pensamentos que lhes dá a marca da bondade, ou a compatibilidade com nossas outras opiniões e sua utilidade para as nossas necessidades que as faz passar por verdadeiras em nossa estima.

2. Como exemplo de primeira ordem do raciocínio médico-materialista, veja um artigo sobre “les Variétés du Type dévot”, escrito pelo Dr. Binet-Sanglé na Revue de L´Hypnotisme, xiv. 161.

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Ora, os mais intrínsecos e os mais remotos desses critérios nem sempre andam juntos. A felicidade interior e a utilidade nem sempre concordam entre si. O que imediatamente nos parece “melhor” nem sempre é mais “verdadeiro”, quando medido pelo veredicto do resto da experiência. A diferença entre Filipe bêbedo e Filipe sóbrio é o clássico exemplo que o corrobora. Se o simples “sentir-se bem” pudesse decidir, a embriaguez seria a experiência humana sumamente válida. Mas as suas revelações, por mais agudamente satisfatórias que sejam no momento, estão inseridas num ambiente que se recusa a justificá-las por qualquer espaço de tempo. A conseqüência dessa discrepância dos dois critérios é a incerteza que aina prevalece em torno de um número tão grande dos nossos juízos espirituais. Há momentos de experiência sentimental e mística – dos quais muito ouviremos falar daqui por diante – que trazem consigo, ao chegar, enorme sentido de autoridade e iluminação interiores. Mas chegam raramente, e não chegam para todos; e o resto da vida ou não faz conexão com elas ou tende menos a confirmá-las do que a contradizê-las. Algumas pessoas seguem mais a voz do momento nesses casos, ao passo que outras preferem deixar-se guiar pelos resultados médios. Daí a triste discordância de tantos juíos espirituais dos seres humanos; discordância que se oferecerá aos nossos olhos de maneira gudíssima antes que terminem estas conferências.Trata-se, contudo, de uma discordância que nunca poderá ser resolvida por nenhum critério de índole puramente médica. Bom exemplo da impossibilidade d enos atermos com rigor a critérios de natureza médica encontra-se na teoria da cuasação patológica do gênio promulgada por autores recentes. “O gênio”, disse o Dr. Moreau, “é apenas um dos muitos galhos da árvore neuropática.” “O gênio”, diz o Dr. Lombroso,”é um sintoma da degeneração hereditária da variedade epileptiforme, aliado à insanidade moral.” “Toda vez que a vida de um homem”, escreve o Sr. Nisbet, “é ao mesmo tempo, bastante ilustre e lembrada com suficiente amplitude para ser tema de um estudo proveitoso, cai inevitavelmente na categoria mórbia … E é digno de nota que, via de regra, quanto maior o gênio, tanto maior a insanidade”.3
Acaso esses autores, depois de haverem conseguido estabelecer, para sua própria satisfação, que as obras do gênio são frutos da moléstia, passam sistematicamente a impugnar o valor dos frutos? Deduzem eles um novo julgamento espiritual da sua nova doutrina das condições existenciais? Proíbem-nos francamente de admirar, daqui por diante, as produções do gênio? E dizem abertamente que nenhum neuropata poderá ser, algum dia, revelador de novas verdades?
Não! Seus instintos espirituais imediatos são fortíssimos aqui e resistem às interferências que, por simples amor à coerência lógica, o materialismo médico teria imenso prazer em proclamar. Um discípulo da escola, com efeito, diligenciou impugnar o valor das obras de gênio de modo indiscriminado (como as obras de arte contemporâneas, que ele mesmo é incapaz de apreciar, e quie são muitas) usando argumento médico.4 Em sua maior parte, porém, as obras-primas são respeitadas; e a linha de ataque médica ou se restringe às produções seculares, que toda a gente admite serem intrinsecamente excêntricas, ou aplica-se exclusivamente às manifestações religiosas. E porque as manifestações religiosas já foram condenadas, o crítico não as aprecia por motivos internos ou espirituais.
Nas ciências naturais e nas artes industriais jamais ocorre a alguém tentar refutar opiniões pondo a nu a constituição neurótica do autor. As opiniões aqui são invariavelmente testadas pela lógica e pela experiência, seja qual for o tipo neurológico de quem as esposa. Não deveria ser diferente em se tratando de opiniões religiosas. O seu valor só pode ser determinado por juízos espirituais que lhes digam diretamente respeito, juízos baseados, primeiro que tudo, em nosso sentimento imediato; e, em segundo lugar, no que podemos averiguar acerca de suas relações, conhecidas por experiência, com as nosas necessidades morais e com o resto do que julgamos verdadeiro.
Em suma, a luminosidade imediata, a razoabilidade filosófica e o valor moral são os únidos critérios legítimos. Mesmo que Santa Teresa tivesse o sistema nervoso do mais plácido dos animais, isso não lhe salvaria a teologia se o exame da teologia feito pelos outros critérios lhe mostrasse a completa invalidade. E, inversamente, se a sua teologia pudesse enfrentar os outros

3. J.F. Nisbet: The Insanity of Genius, 3ª edição, Londres, 1893, pp. Xvi, xxiv.
4. Max Nordau, em seu alentado livro intitulado Degeneration.

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crirtérios, pouco importaria que Santa Teresa tivesse sido histérica ou nervosamente desequilibrada quando vivia conosco aqui embaixo.
Vêem os senhores que, no fundo, somos arremessados de volta aos princípios gerais pelos quais a filosofia empírica sempre sustentou qaue devemos ser guiados na busca da verdade. As filosofias dogmáticas têm procurado provas da verdade que nos dispensem de apelar para o futuro. Alguma marca direta, cuja observação nos protegeria imediata e absolutamente, agora e sempre, contra todos os erros – tal tem sido o sonho querido dos filósofos dogmáticos. É manifesto que a origem da verdad eseria um critério admirável dese tipo se as várias origens pudessem ser discriminadas umas das outras a partir deste ponto de vista, e a história da opinião dogmática mostra que a origem sempre foi um critério favorito. A origem da intuição imediata; a origem da autoridade pontifícia; a origem da revelação sobrenatural, quer pela visão, quer pela audição, quer pela impressão indizível; a origem da possessão direta por um espírito superior, que se expressa em profecias e admoestações; a origem das expressões automáticas de um modo geral – essas origens têm sido fundos de garantia da verdade de uma série de opiniões que encontramos representadas na história religiosa. Os materialistas médicos, portanto, são apenas outros tantos domatitas retardatários, que torcem os argumentos dos predecessores utilizando o critério da origem de modo destrutivo, em vez de fazê-lo de modo construtivo.
Eles só são eficazes com o seu discurso sobre a origem patológica quando o outro lado reivindica a origem sobrenatural e só o argumento derivado da origem está em discussão. Mas o argumento da origem raramente se usa sozinho, pois é obviamente insuficiente. O Dr. Maudsley talvez seja o mais sagaz dos contraditores da religião sobrenatural a partir do argumento da origem. E, todavia, vê-se constrangido a escrever:
“Que direito temos nós de acreditar que a Natureza tem a obrigação de fazer o seu trabalho somente por meio de mentes completas? Para ela, uma mente incomplet pode parecer um instrumento mais adequado a determinado propósito. A única coisa que importa é o trabalho feito e a qualidade do trabalhador que o fez; e talvez não seja uma questão de muito peso, do ponto de vista cósmico, que ele careça singularmente de outras qualidades de caráter – que seja, com efeito, hipócrita, adúltero, excêntrico ou lunático. … Voltamos, portanto, ao antigo e último critério da certeza – a saber, o assenso comum do gênero humano, dos indivíduos competentes pela instrução e pela experiêwncia.” 5
Em outras palavras, não é a origem, senão o modo com que ela opera sobre o todo, segundo o Dr. Maudsley, o critério final de uma crença. Tal é o nosso critério empírico; e esse critério também foi usado pelos mais rijos defensores da origem sobrenatural. Entre as visões e mensagens, algumas têm sido sempre demasiado tolas; entre os transes e raptos convulsivos, alguns têm sido tão infrutíferos para o comportamento e para o caráter, que não podem passar por significativos, quanto mais por divinos. Na história do misticismo cristão, o problema de discriminar entre as emsnagens e experiências que foram realmente milagres divinos e outras que o demônio em sua malícia conseguiu contrafazer, tornando assim a pessoas religiosa duas vees mais filha do inferno do que antes, sempre foi difícil de resolver, exigindo toda a sagacidade e toda a experiência do melhor dos diretores de consciência. No fim, tiveram de chegar ao nosso critério empiricista: Pelos frutos os conhecereis, não pelas raízes. O Tratado dos Afetos Relçigiosos, de Jonathan Edwards, é uma elaboração dessa tese. As raízes da virtude de um homem nos são inacessíveis. Nenhuma aparência pode constituir-se em prova infalível da graça. A prática é a única prova segura, até para nósa, de que somos genuinamente cristãos.

“Ao formar agora um juízo de nós mesmos”, escreve Edwards, “devemos por certo adotar o método de prova que o nosso Juiz supremo utilizará principalmente quando entrarmos à sua presença no derradeiro dia… Não existe uma só graça do Espírito de Deus, de cuja existência, em qualquer pessoa que professe a religião, a prática cristã não seja a prova mais decisiva… O grau em que a nossa experiência produz a prática mostra o grau em que a nossa experiência é espiritual e divina.”

5. H. Maudsley: Natural Causes and Supernatural Seemings, 1886, págs. 256, 257.

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Os escritores católicos são igualmente enfáticos. As boas disposições que uma visão, ou voz, ou outro aparente favor divino deixam após si são os únicos sinais que nos dão a certeza de que não se trata de possíveis enganos do tentador. Diz Santa Tereza:

“Como o sono imperfeito que, em vez de dar mais força à cabeça, a deixa ainda mais exausta, o resultado de meras operações da imaginação é o enfraquecimento da alma. Em lugar de nutrição e energia, ela colhe tão-só lassidão e repugnância, ao passo que uma visão celeste autêntica lhe proporciona uma messe de inefáveis riqueas espirituais e uma dmirável renovação das forças do corpo. Opus essas razões aos que tão freqüentemente acusaram minhas visões de ser obra do inimigo do gênero humano e desporto da minha imaginação… Mostrei-lhes as jóiras que a mão divina deixara comigo – minhas verdadeiras disposições. Todos quantos me conheciam perceberam que eu estava mudada; meu confessor foi testemunha disso; a melhoria, palpável em toos os sentidos, longe de estar oculta, era brilhantemente evidente para todos os homens. Quanto a mim, fora impossível acreditar que, se o demônio fosse o seu autor, lançasse mão a fim de me perder e me levar ao inferno, de um expediente tão contrário aos seus próprios interesses, como erradicar meus vícios e encher-me de coragem masculina e de outras virtudes, pois conheci claramente que uma só dessas visões era suficiente para enriquecer-me com todos aqueles tesouros.” 6

Receio Ter feito uma dissertação mais longa do que o necessário, e que menor quantidade de palavras teria bastado a dissipar o desassossego que pode ter salteado alguns dos senhores quando anunciei o meu programa patológico. Como quer que seja, todos os senhores devem estar agora preparados para julgar a vida religiosa exclusivamente pelos resultados, e presumirei que o bicho-papão da origem mórbida já não lhes escandalizará a piedade.
Ainda assim, poderão perguntar-me se os resultados têm de ser a base da nossa avaliação espiritual final de um fenômeno religioso, por que ameaçar-nos com tamanho estudo existencial de suas condições? Por que não deixar simplesmente de fora as questões patológicas?
A isso respondo de duas maneiras: primeira, a curiosidade irreprimível nos impede irresistivelmente para a frente; e, Segunda, sempre nos leva a um entendimento melhor da significação de uma coisa o exame dos seus exageros e perersões, dos seus equivalentes e substitutos e dos fenômenos afins em todos os sentidos. Não que possamos, por esse modo, incluir a coisa na condinação por atacado que estendemos aos seus congêneres inferiores, senão que podemos pelo contraste, definir-lhe mais precisamente os méritos, e aprender, ao mesmo tempo, os perigos espeiciais de corrupção a que ela pode estar exposta.
As condições insanas têm a vantagem de isolar fatores espeicais da vida mental e permitir-nos inspecioná-las desmascaradas pelos seus concomitantes mais comuns. Elas desempenham, na anatomia mental, o papel que o bisturi e o microscópio representam na anatomia do corpo. Para bem comrpeender uma coisa precisamos vê-la não só fora mas também dentro do seu ambiente, e ter conhecimento de toda a série das suas variuações. O estudo das alucinações tem sido, dessa maneira, para os psicólogos, a chave da compreensão da sensação normal, assiom como o estudo das ilusões tem propriciado a chave da compreensão da percepção. Os impulsos mórbidos e as concepões imperativas, as chamadas “idéias fixas”, projetaram torrentes de luz sobre a psicologia da vontade normal; e as obsessões e delírios executaram o mesmo serviço para o estudo da faculdade normal da crença.
De maneira semelhante, a natureza do gênio tem sido iluminada pelas tentativas, das quais já fiz menção, de classificá-lo entre os fenômenos psicopáticos. A insanidade fronteiriça, a excenticidade, o temperamento insano, a perda do equilíbrio mental, a degeneração psicopática (para usar alguns dos muitos sinônimos pelos quais tem sido chamado), tem certas peculiaridades e suscetibilidades que, ao se combinar com uma qualidade superior do intelecto num indivíduo, tona mais provável que ele venha a deixar a própria marca na sua época e influa nela, do que se o seu temperamento fosse menos neurótico. Claro está que não existe nenhuma afinidade especal entre a excentricidade como tal e o intelecto superior, 7 pois a maioria dos psicopatas possui intelectos fracos e os intelectos superiores, o mais das vezes, possuem sistemas nervosos

6. Autobiografia, cap. Xxviii.
7. O intelecto superior, como demonstrou admiravelmente o Professor Bain, parece consistir em nada mais do que num grande desenvolvimento da faculdade de associação por similaridade.

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normais. Mas o temperamento psicopático, seja qual for o intelecto com o qual se emparelha, não raro traz consigo ardor e excitabilidade de caráter. A pessoa excêntrica tem extraordinária susceptibilidade emocional. Está sujeita a ideáis fixas e a obsessões. Suas concepções tendem a passa rimediatamente da crença à ação; e quando lhe acode uma nova idéi, não descansa enquanto não aproclama ou, de certo modo, não a “descarrega”. “Que deve pensar disso?” pergunta a si mesma a pessoa comum a respeito de uma questão muito debatida. “Que devo fazer sobre isso?” é a forma que a pergunta tende a assumir num espírito “excêntrico”. Na autobiografia daquela mulher de alma grande, a Sra. Annie Besant, leio o trecho seguinte: “Muitas pessoas nutrem bons sentimentos para com qualquer boa causa, mas poucas se esforçam por ajudá-la, e muito poucas arriscarão aglguma coisa para apoiá-la. ‘Alguém deve fazê-lo, mas por que eu?’ é a pergunta sempre repetida pela amabilidade irresoluta. ‘Alguém deve fazê-lo, por que não eu?’ é o grito de algum zeloso servo do homem, que se atira, animoso, para a frente a fim de enfrentar algum dever perigoso. Entre essas duas sentenças jazem séculos inteiros de evolução moral”. Nada mais verdadeiro! E entre essas duas sentenças jazem também os destinos diferentes do preguiçoso homem comum e do psicopata. Destarte, quando um intelecto superior e um temperamento psicopático se unem – e nas intermináveis permutações e combinações das faculdades humanas eles estão sujeitos a unir-se com muita freqüência – no mesmo indivíduo, temos a melhor condição possível para o surgimento da casta de gênio operante com que topamos nos dicionários biográficos. Homens assim não se limitam a criticar e conhecer com o intelcto. Suas idéias os possuem e eles as impõem, para o bem ou para o mal, aos companheiros ou à sua época. São os enumerados quando os Srs. Lombroso, Nisbet e outros invocam estatísticas em defesa do seu paradoxo.
Para passar agora aos fenômenos religiosos, tome-se a melancolia, que constitui, como veremos, um momento essencial em toda evolução religiosa competal Tome-se a felicidade que a crença relgioso perfeita confere. Tomem-se os transes de visão interior da verdade que todos os místicos religiosos descrevem. 8 Cada um deles e todos em geral são casos especiais de tipos de muito maior extensão. A melancolia religiosa, sejam quais forem as peculiaridades que possa ter Qua religiosa, não deixa de ser melancolia. A felicidade religiosa é felicidade. O transe religioso é transe. E a partir do momento em que renunciamos à noção absurda de que abandonamos uma coisa assim que a classificamos com outras, ou que sua origem se manifesta; a partir do momento em que concordamos em usar os resultados experimentais e a qualidade interior ao fazer um julgamento de valores – quem não vê que provavelmente determinaremos muito melhor o valor distintivo da melancolia e da felicidade religiosas, ou dos transes religiosos, comparando-os tão conscienciosamente quanto pudermos com as outras varieeades de melancolia, felicidade e transe, do que se nos recusarmos a considerá-los dentro de um quadro de classificação geral muito mais vasta e os tratarmos como soe estivessem completamente fora da ordem da natureza?
Espero que o curso destas conferências nos confirme nesta suposição. No que tange à origem psicopática de tantos fenômenos religiosos, isso não seria para nós surpreendente nem desconcertante, ainda que tais fenômenos viessem estigmatizados do alto como as mais preciosas dentre as experiências humanas. Nenhum organismo fornece a quem o possui a forma completa da verdade. Quase todos nós, de algum modo, somos frágeis, se não enfermos; e nossas próprias enfermidades nos ajudam de forma inesperada. No temperamento psicopático temos a emocionalidade, que é o sine qua non da percepção moral; temos a intensidade e a tendência para a ênfase, que são a essência do vigor moral prático; e temos o amor da metafísica e do misticismo, que impele nossos interesses para além da superfície do mundo sensível. Que haverá, então, de mais natural que esse temperamento nos introduza em regiões de verdade religiosa, em cantos do universo qaue o sistema nervoso do nosso robusto filisteu, qaue vive oferecendo o bíceps para ser apalpado, que vive inflando o peito e agradecendo ao Céu por não ter uma única fibra mórbida em sua composição, esconderá, de certo, para sempre, dos seus satisfeitos possuidores?

8. Refiro-me a uma crítica da teoria da insanidade do gênio, estampada na Psychological Review, ii. 287 (1895).

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Se existe alguma coisa como a inspiração vinda de um reino superior, pode ser que o temperamento neurótico fornecesse a condição principal da necessária receptividade. E, tendo dito isso, creio que posso deixar para trás a questão da religião e do neuroticismo.
A massa de fenômenos colaterais, mórbidos ou sãos, com que precisamos cotejar os vários fenômenos religiosos para poder compreendê-los melhor, forma o que na gíria da pedagogia se denomina “a massa aperceptiva” pela qual os compreendemos. A única novidade que posso imaginar possua este curso de conferência reside na amplitude da massa aperceptiva. Eu talvez consiga discutir as experiências religiosas num contexto mais amplo do que o que tem sido habitual nos cursos universitários.

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II Conferência

DELIMITAÇÃO DO ASSUNTO

A maioria dos livros sobre a filosofia da religião tenta começar com uma definição precisa daquilo em que consiste a sua essência. Poderemos esbarrar em algumas dessas pretensas definições em segmentos subseqüentes deste curso, e nõ serei tão pedante que as enumere agora. Entrementes, o próprio fato de serem elas tão numerosas e tão diferentes uma da outra basta par aprovar que a palavra “religião” não significa nenhum princípio ou essência singular, mas é antes um nome coletivo. A mente teorizante tende sempre para a supersimplificação dos seus materiais. Essa é a raiz de todo o absolutismo e dogmatismo unilateral de que tanto a filosofia quanto a religião têm sido infestadas. Não resvalemos, porém, de pronto, a um ponto de vista parcial do nosso assunto, mas admitamos antes, desde o princípio, que muito provavelmente não encontraremos uma essência única, senão muitos caracteres que podem ser, de forma alternada, igualmente importantes na religião. Se perguntássemos a várias pessoas qual é a essência do “governo”, por exemplo, uma diria que é a autoridade, outra a submissão, outra a política , outra um exército, outra uma assembléia, outra um sistema de leis; e, contudo, na verdade nenhum governo concreto pode existir sem todas essas coisas, uma das quais é mais importante em determinado momento e outra em outro. O homem que mais conhece governos é o que menos se preocupa com dar-lhe uma definição essencial. Conhecendo a fundo e com intimidade todas as suas particularidades, cada qual por seu turno, ele encararia naturalmente uma concepção abstrata, em que todas estivessem juntas, como coisa mais apta a despistar do que a esclarecer. E por que não pode ser a religião uma concepção igualmente complexa?1
Consideremos também o “sentimento religioso”, que vemos mencionado em tantos livros, como se fosse uma espécie única de entidade mental.
Nas psicologias e filosofias da religião, encontramos os autores tentando especificar com precisão a espécie de entidade que ela é. Uma pessoa a liga ao sentimento de dependência; outra, a deriva do medo; outras a ligam à vida sexual; outras ainda a identificam com o sentimento do infinito; e assim por diante. Tais maneiras deferentes de concebê-la geram, por si mesmas, dúvidas quanto à possibilidade de ser ela uma coisa específica; e quando nos sentimos dispostos a tratar a expressão “sentimento religioso” como um nome coletivo para os muitos sentimentos que os objetos religiosos podem despertar com alternação, vemos que ela, com certeza, nada contém de uma natureza psicologicamente específica. Existe o medo religioso, o amor religioso, o terror religioso, a alegria religiosa, etc. Mas o amor religioso é apenas a natural emoção humana do amor dirigido a um objeto religioso; o medo religioso é tão-somente o medo comum da vida de todos os dias, por assim dizer, o tremor corriqueiro do peito humano, na medida em que a noção do castigo divino pode ocasioná-lo; o terror religioso é o mesmo estremecimento orgânico que sentimos numa floresta ao crepúsculo, ou no meio de um desfiladeiro; só que desta vez ele nos salteia à idéia das nossas relações sobrenaturais; e o mesmo se poderá dizer de todos os vários sentimentos que podem ser chamados a intervir na vida das pessoas religiosas. Como estados concretos de espírito, feitos de um sentimento mais um tipo específico de objeto, as emoções religiosas, naturalmente, são entidades psíquicas distinguíveis de outras emoções concretas; mas não existe fundamento para a presunção da existência de uma simples e abstrata “emoção religiosa” como afeição mental elementar distinta por si mesma, presente em toda experiência religiosa, sem exceção.
Nessas condições, como não parece existir nenhuma emoção religiosa elementar, mas apenas um cúmulo comum de emoções sobre o qual os objetos religiosos podem formar-se, assim também se pode provar concebivelmente que não existe nenhum tipo específico e essencial de objeto religioso, e nenhum tipo específico e essencial de ato religioso.

1. Não posso aqui fazer coisa melhor do que remeter os leitores às extensas e admiráveis observações sobre a futilidade de todas essas definições de religião, num artigo assinado pelo Professor Leuba e publicado no Monista de janeiro de 1901, depois que este texto foi escrito.

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Sendo o campo da religião tão vasto assim, é manifestamente impossível que eu me abalance a cobri-lo. Minhas conferências terão de limitar-se a uma fração do assunto. E conquanto fosse, de fato, tolice propor uma definição abstrata da essência da religião, e depois passar a defendê-la contra tdos os ataques, isso não me impedirá de formular minha própria visão restrita do que será a religião para o propósito destas conferências, ou, dentre os muitos significados da palavra, de escolher o significado em que desejo interessar particularmente os senhores, e proclamar arbitrariamente que, ao falar em “religião”, estou-me referindo a essa determinada coisa. Isso, de fato, é o que tenho de fazer; e, agora, começo procurando demarcar o campo que escolhi.
Uma forma fácil de marcá-lo consiste em enumerar os aspectos do tema que deixamos de lado. No princípio, chama-nos a atenção uma grande linha divisória que atravessa o campo religioso. De um lado, fica a religião institucional, de outro, a religião pessoal. Como diz o Sr. P. Sabatier, um ramo da religião visa mais à divindade, o outro, ao homem. O culto e o sacrifício, processos para influir nas disposições da divindade, a teologia, a cerimônia e a organização eclesiástica, são os elementos essenciais do ramo institucional da religião. Se nos fosse preciso limitar-nos a ele, teríamos de definir a religião como uma arte externa, a arte de granjear o favor dos deuses. No ramo mais pessoal, pelo contrário, são as disposições interiores do próprio homem que formam o centro de interesse, sua consciência, seus abandonos, seu desvalimento, sua imperfeição. E conquanto o favor do Deus, confiscado ou conquistado, ainda seja uma característica essencial da historia, em que a teologia representa uma parte vital, os atos a que essa espécie de religião induz são atos pessoais e não rituais; o indivíduo faz o negócio sozinho, por si mesmo, e a organização eclesiástica, com seus padres, sacramentos e outros intermediários, é relegada a um lugar de todo secundário. A relação se estabelece, direta, de coração para coração, de alma para alma, entre o homem e seu criador.
Ora, nestas conferências proponho-me deixar completamente de parte o ramo institucional, não dier nada sobre a organização eclesiástica, considerar o menos possível a teologia sistemática e as idéias a respeito dos próprios deuses, e restringir-me, tanto quanto me for possível, à religião pessoal pura e simples. Para alguns dos senhores, a religião pessoal, considerada nuamente assim, parecerá, sem dúvida, uma coisa tão incompleta que não faz jus ao nome genérico.” É uma parte da religião”, dirão, “mas apenas o seu rudimento desorganizado; se tivéssemos de nomeá-la por si mesma, fora melhor chamar-lhe consciência ou moral do homem em lugar de sua religião. Nome “religião” deve ser reservado para o sistema plenamente organizado de sentimentos, pensamentos e instituição, para a Igreja, em suma, da qual essa chamada religião pessoal não passa de um elemento fracionário.”
Mas se os senhores disserem uma coisa dessas, apenas mostrarão de forma ainda mais patente que o problema da definição propende a tornar-se um debate a respeito de nomes. Para não prolongar uma disputa nessa ordem, estou disposto a aceitar, praticamente, qualquer nome para a religião pessoal que me proponho a tratar. Chamem-lhe consciência ou moral, se preferirem, e não religião – seja qual for o nome que lhe derem ela será igualmente merecedora do nosso estudo. Quanto a mim, creio que ela mostrará conter elementos que a moral pura e simples não contém, e logo buscarei indicar esses elementos; por isso continuarei a aplicar-lhe a palavra “religião”; e, na última conferência, apresentarei as teologias e os eclesiasticismos, e direi alguma coisa de sua relação com eles.
Num sentido, pelo menos, a religião pessoal se revelará mais fundamental do que a teologia ou o eclesiasticismo. Depois de estabelecidas, as igrejas passam a viver de uma tradição de Segunda mão; mas os fundadores de cada igreja deveram o poder, originalmente, à sua comunhão direta e pessoal com o divino. Não somente os fundadores sobre-humanos, o Cristo, o Buda, Maomé, mas todos os instituidores de seitas cristãs estão nesse caso; de modo que a religião pessoal deve ainda parecer primordial até aos que continuam a julgá-la incompleta.
Existem, é verdade, na religião outras coisas cronologicamente anteriores à devolução pessoal no sentido moral. O fetichismo e a magia parecem haver precedido historicamente a piedade interior – pelo menos os nossos registros de piedade interior não chegam tão longe. E se o fetichismo e a magia forem encarados como estágios da religião, poderemos dizer que a religião pessoal no sentido interior e os ecleiasticismos genuinamente espirituais que ela funda são fenômenos de ordem secundária e até terciária. Mas, tirante o fato de muitos antropólogos – com,
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por exemplo, Jevons e Frazer – oporem expressamente uma à outra “religião” e “magia”, é certo que todo o sistema de pensamento que conduz à magia, ao fetichismo e às superstições inferiores tanto pode ser cognominado ao fetichismo e às supertições inferiores tanto pode ser cognominado ciência primitiva quanto religião primitiva. A questão, portanto, volta a ser verbal; e o nosso conhecimento de todas essas fases primitivas de pensamento e sentimento é tão conjetural e imperfeito que não vale a pena prolongar-lhes a discussão.
A religião, por conseguinte, como agora lhes peço arbitrariamente que a aceitem, significará para nós os sentimentos, atos e experiências de indivíduos em sua solidão, na medida em que se sinta relacionados com o que quer que possam considerar o divino. Uma vez que a relação tanto pode ser moral quanto física ou ritual, é evidente que da religião, no sentido em que a aceitamos, podem brotar secundariamente teologias, filosofias e organizações eclesiásticas. Nestas conferências, no entanto,m como eu já disse, as experiências pessoais imediatas encherão manos que farte o nosso tempo, é escassamente trataremos de teologia ou eclesiasticismo.
Essa definição arbitrária do nosso campo forra-nos a muitas questões controvertidas. Mas ainda assim, uma possibilidade de controvérsia nos aparece a respeito da palavra “divino”, se a definirmos num sentimento demasiado restrito. Existem sistemas de pensamento que costumamos chamar de religiosos mas que, na verdade, não postulam de forma positiva um Deus. O Budismo está nesse caso. Popularmente, é claro, o próprio Buda se coloca no lugar de um Deus; estritamente falando, porém o sistema budista é teístico. O idealismo transcendental moderno, o Emersonismo, por exemplo, também parece deixar Deus evaporar-se na Idealidade abstrata. Não uma divindade in concreto, não uma pessoa sobre-humana, mas a divindade imanente nas coisas, a estrutura essencialmente espiritual do universo, é o objeto do culto transcendentalista. No discurso dirigido por Emerson aos formandos do Divinity College em 1838, que o celebrizou, a expressão franca desse culto de meras leis abstratas foi o que provocou o escândalo maior.

“Estas leis”, disse o orador, “cumprem-se por si mesmas. Elas estão fora do tempo, fora do espaço, e não sujeitas à circunstância: Assim, na alma do homem há uma justiça cujas retribuições são instantâneas e inteiras. Aquele que pratica uma boa ação é instantaneamente enobrecido. Aquele que pratica um ato vil é diminuído pelo próprio ato. Quem repele a impureza veste-se de pureza. Se for justo de coração, o homem será Deus enquanto justo, a segurança de Deus, a imortalidade de Deus, a majestade de Deus penetram nesse homem com a justiça. Se um homem dissimula e engana, engana-se a si mesmo e perde o conhecimento do próprio ser. O caráter é sempre conhecido. Os roubos nunca enriquecem; as esmolas nunca empobrecem; do assassínio falarão todas as paredes de pedra. A menor mescla de mentira – como, por exemplo, o vício da vaidade, qualquer tentativa de causar boa impressão, de mostrar uma aparência favorável – viciará instantaneamente o efeito. Se ele, porém, falar verdade, todas as coisas vivas ou brutas lhe serão fiadoras, e até as raízes da relva debaixo da terra parecerão agitar-se e mover-se para dar o seu testemunho. Pois todas as coisas procedem do mesmo espírito, que é diferentemente chamado de amor, justiça, temperança, em sua diferentes aplicações, assim como o oceano recebe nomes diferentes nas diversas praias que banha. Na medida em que se afasta desses limites, o homem se despoja de poder, de auxiliares. O seu ser se contrai… ele se fa cada vez menor, um grão de poeira, um ponto, até que a maldade absoluta é a morte absoluta. A percepção dessa lei desperta na mente um sentimento que denominamos sentimento religioso e que faz a nossa maior felicidade. Maravilhoso é o seu poder de encantar e comandar. É um ar de montanha, que perfuma o mundo. Sublima o céu e as colinas, e é o canto silente das estrelas. É a beatitude do homem. Fá-lo incomensurável. Quando ele diz ‘devo’; quando o amor o admoesta; quando ele escolhe, avisado do alto, o bom e o grande feito; profundas melodias lhe invadem a alma, inspiradas pela sabedoria suprema. E ele, então, pode adorar e ser engrandecido pela sua adoração; pois nunca poderá subtrair-se a esse sentimento, cujas expressões são todas sagradas e permanentes na proporção de sua pureza. (Elas) nos afetam mais do que todas as outras composições. As sentenças de outro tempo, que destilam essa piedade, ainda são frescas e fragrantes. E a impressão única de Jesus sobre a humanidade, cujo nome não está escrito mas arado na história deste muindo, é prova da virtude sutil dessa infusão.”2

Tal é a religião emersoniana. O universo tem uma alma divina de ordem, alma moral, que é também a alma que existe na alma do homem. Mas se alma do universo é uma simples qualidade, como o brilho dos olhos ou a suavidade da pele, ou uma vida consciente de si
Mesma, como a visão dos olhos ou a sensação da pele, é uma decisão que nunca aparece, inequívoca, nas páginas de Emerson. Ela palpita na fronteira entre uma e outra coisa, inclinando-se

2. Miscellantes, 1868, pág. 120 (abreviado).

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làs vees para outro, a fim de ajustar-se mais à necessidade literária do que à filosófica. Entretanto, seja o que for, é ativa. Tanto quanto se fosse um Deus, podemos confiar-lhe a proteção de todos os interesses ideais e a manutenção do equilíbrio do mundo. As sentenças com que Emerson, no fim, dá expressão a essa fé são tão belas quanto as que mais o sejam na literatura “Se amardes e servirdes os homens, não podereis, por nenhum estratagema ou tentativa de esconder-vos, escapar à remuneração. Retribuições secretas estão sempre restaurando o nível, quando perturbado, da justiça divina. É impossível alterar o travessão da balança. Todos os tiranos, proprietários e monopolistas do mundo metem ombros, em vão, à tarefa de mover-lhe o fiel. Acomoda para todo o sempre o ponderoso equador em sua linha; e homem e o grão de poeira, a estrela e o sol, ou se modelam por ela ou são pulverizados pelo movimento de reação.”3
Ora, seria absurdo izer que as experiências interiores que provocam expressões de fé como essa e impelem o escritor a pô-las por escrito não merecem o nome de experiências religiosas. O tipo de atração que o otimismo emersoniano, de um lado, e o pessimismo budista, de outro, exercem sobre o indivíduo e o tipo de resposta que ele lhes dá em sua vida não se distinguem, de fato, da melhor atração e resposta cristã e, em muitos sentidos, são idênticas a elas. Precisamos, portanto, do ponto de vista da experiência, chamar esses credos ímpios ou quase ímpios de “religiões”; e, conseqüentemente, quando em nossa definição de religião falamos da relação do indivíduo com “o que ele considera divino”, faz-se mister interpretarmos o termo “divino” de modo muito lato, como se denotasse qualquer objeto semelhante à divindade, seja ele uma divindade concreta ou não.
Mas a expressão “semelhante a Deus”, assim tratada como uma vaga qualidade geral, torna-se excessivamente indeterminada, pois muitos deuses floresceram na história religiosa, e seus atributos têm sido assaz discrepantes. Que é então essa qualidade essencialmente semelhante a Deus – esteja mela incorporada numa divindade concreta, ou não – a nossa relação com a qual nos determina o caráter como homens religiosos? Não será de todo inútil buscarmos alguma resposta para isso antes de seguir adiante.
Em primeiro lugar, concebem-se os deuses como as primeiras coisas no campo do ser e do poder. Eles nos cobrem e envolvem e deles não há escapar. O que se relaciona com eles é a primeira e a última palavra no caminho da verdade. O que quer que fosse então mais primevo, envolvente e profundamente verdadeiro, nesse caso, seria tratado como semelhante a Deus, e a religião de um homem poderia, assim identificar-se com a sua atitude, fosse ele qual fosse, com o que ele julgasse ser a verdade primordial.
Uma definição como essa, de certo modo, encontraria defensores. A religião, seja ela qual for, é a reação total de um homem à vida; portanto, por que não dizer que qualquer reação total à vida é uma religião? As reações totais diferem das reações casuais, e as atitudes totais diferem das atitudes usuais ou profissionais. Para chegar a elas precisamos colocar-nos atrás do primeiro plano da existência e estender a mão àquele curioso sentido do cosmo residual total como presença sempitema, íntima ou estranha, terrível ou divertida, amável ou odiosa, que em certo grau todos possuímos. Esse sentido da presença do mundo, atraente como é para o nosso temperamento individual peculiar, nos faz esforçados ou negligentes, devotos ou blasfemos, macambúzios ou exultantes, diante da vida em geral; e a nossa reação, involuntária, ininteligível e amiúde inconsciente, é a mais completa de todas as respostas que damos à pergunta: “Qual é o caráter do universo que habitamos?” Ela expressa o sentido individual que temos dele da maneira mais definida. Por que, então, não apelidarmos de nossa religião tais reações, seja qual for o caráter específico que elas tenham? Embora possam ser irreligiosos, num dado sentido da palavra “religioso”, algumas dessas reações pertencem à esfera geral da vida religiosa e, portanto, devem ser classificadas genericamente como reações religiosas. “Ele acredita no Não-Deus, e o adora”, diusse um colega meu a respeito de um estudante que manifestava um belo ardor ateísta; e os mais fervorosos adversários da doutrina cristã têm exibido, com muita freqüência, uma índole que, psicologicamente falando, não se distingue do zelo religioso.

3. Lectures and Biographical Sketches, 1868, pág. 186.

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Mas um emprego tão lato da palavra “religião” seria inconveniente, por mais defensável que fosse no terreno da lógica. Estas atitudes são fúteis e até escarninhas para com o conjunto da vida; e há homens em que elas são finais e sistemáticas. Seria forçar demasiado o emprego ordinário da língua qualificar de religiosas tais atitudes, muito embora, do ponto de vista de uma filosofia crítica despojada de preconceitos, elas possam ser tidas por maneiras perfeitamente razoadas de encarar a vida. Voltaire, por exemplo, assim escreve a um amigo, os setenta e três anos de idade: “Quanto a mim”, diz ele, “fraco como sou, prossigo na guerra até o derradeiro momento, levo uma centena de chuçadas, devolvo duas centenas, e morro de rir. Vejo ao pé da minha porta Genebra incendiada por brigas sem propósito, e morro de rir outra vez; e, graças a Deus, posso ver no mundo uma farsa até quando ela se torna trágica, como às vezes acontece. Tudo se acalma quando se acaba o dia, e tudo se acalma ainda mais quando todos os dias se acabam”.
Por mais que admiremos um robusto e velho espírito de galo de briga como esse num valetudinário, chamar-lhe espírito religioso seria estranho. No entanto, essa é, no momento, a reação de Voltaire ao complexo da vida. Je m’en fiche é o vulgar equivalente francês da nossa expressão “Pouco se me dá”. E a feliz expressão je m’en fichisme foi recentemente inventada para deisgnar a determinação sistemática de não levar nada na vida muito a sério. “Tudo é vaidade” é a palavra de desafogo que nos oferece um modo de pensar semelhante em todas as crises difíceis, que o primoroso gênio literário de Renan se comprazia, em seus últimos dias de doce decadência, em pôr em formas deliciosamente sacrílegas, que ficaram para nós como excelentes expressões do estado de espírito segundo o qual “tudo é vaidade”. Tome-se, por exemplo, o passo seguinte – precisamos ater-nos ao dever, até contra a evidência, diz Renan, – que depois continua:

“Existem muitas probabilidades de que o mundo não seja mais do que uma fantástica pantomima de que nenhum Deus se ocupa. Precisamos, portanto, arranjar-nos de modo que em nenhuma hipótese estejamos completamente errados. Precisamos atentar para as vozes superiores, porém de tal maneira que, se a Segunda hipótese for verdadeira, não tenhamos sido tão excessivamente enganados. Se, com efeito, o mundo não fosse uma coisa séria, as pessoas dogmáticas seriam as néscias, e as que tivessem o espírito voltado para as mundanidades e que os teólogos chama hoje de frívolas seriam as realmente sábias.
“Portanto, in utrumque paratus. Estejamos preparados para o que der e vier – isso talvez seja sabedoria. Entreguemo-nos, de acordo com a hora, à confiança, ao ceticismo, ao otimismo, à ironia, e poderemos estar certos de que, pelo menos em determinados momentos, estaremos com a verdade… O bom humor é um estado de espírito filosófico; parece dizer à Natureza que não a levamos mais a sério do que ela nos leva a nós. Sustento que sempre nos cumpre falar de filosofia com um sorriso. Devemos ao Eterno o ser virtuosos; mas temos o direito de ajuntar a esse tributo nossa ironia como uma espécie de represália pessoal. Dessa maneira, devolvemos ao pé da letra brincadeira por brincadeira; pregamos a peça que nos foi pregada. A frase de Santo Agostinho: Senhor, se formos enganados, sê-lo-emos por ti! Continua a ser uma bela frase, bem adequada ao nosso sentimento moderno. Só queremos que o Eterno saiba que, se aceitamos a fraude, aceitamo-la consciente e voluntariamente. Estamos resignados de antemão a perder os juros dos nossos investimentos na virtude, mas não queremos parecer ridículos por haver confiado com demasiada segurança neles”.4

Todas as costumeiras associações da palavra “religião” teriam de ser descartadas se um sistemático parti pris de ironia como esse também fosse designado pelo mesmo nome. Para os homens comuns, ““eligião”” seja qual for o significado mais especial que possa tEr, significa sempre um estado de espírito sério. Se com alguma frase pudéssemos sintetizar-lhe a mensagem universal, esta seria: “Nem tudo é vaidade no Universo, seja o que for que as aparências possam sugerir”. Se a religião, entendida no sentido mais comum, é incompatível com alguma coisa, esta é o humorismo escarninho de Renan. Ela favorece a gravidade, não a petulância; impõe silêncio a todas as vãs tagarelices e agudezas de espírito.
Mas se é hostil à ironia leve, a religião hostiliza igualmente as rabugens e lamúrias pesadas. O mundo aparece assaz trágico em algumas religiões, mas a tragédia é entendida como depuradora, e admite-se a existência de um modo de libertação. Abalisaremos que-farte a melancolia religiosa numa futura conferência; mas a melancolia, de acordo com o uso comum da língua, perde todo o direito a ser chamada religiosa quando, segundo as palavras estimulantes de Marco Aurélio, o paciente não faz outra coisa senão espernear e berrar à maneira de um porco sacrificado. O humor de um Schopenhauer ou de um Nietzsche – e, em grau menor, podemos, às

4. Feuilles détachées, págs. 394-398 (resumido).
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vezes, dier o mesmo do nosso merencório Carlyle –, embora seja freqüentemente uma tristeza enobrecedora, é quase tão freqüentemente simples rabugice fugindo com o bocado entre os dentes. As argúcias dos dois autores alemães nos recordam, a cada instante, os guinchos mórbidos de dois ratos agonizantes. Falta-lhes o elemento de purificação que emana da tristeza religiosa.
Deve haver algo solene, sério e terno em relação a qualquer atitude que denominamos religiosa. Alegre, não sorri nem casquina; triste, não grita nem maldiz. É precisamente por serem experiências solenes que desejo interessá-los nas experiências religiosas. Por isso proponho – mais uma vez arbitrariamente, se quiserem – esteitar novamente a nossa definição dizendo que a palavra “divino”, no sentido em que a empregamos, não significará para nós simplesmente o primitivo, o envolvente e o real pois, aceito sem restrições, esse significado pode revelar-se demasiado lato. O divino significará para nós tão-só uma realidade primitiva, de tal natureza que o indivíduo soe sente impelido a responder-lhe solene e gravemente, e nunca com uma imprecação nem com um chiste.
Mas a solenidade, a gravidade e todos os atributos emocionais dessa casta, admitem vários matizes; e façamos nós o que fizermos com a nossa definição, a verdade terá de ser afinal enfrentada, e a verdade é que estamos lidando com um campo de experiência em que não há uma única concepção que possa ser traçada com nitidez. A pretensão, em tais circunstâncias, de ser rigorosamente “científico” ou “exato” em nossos termos serviria apenas de marcar-nos como falhos na compreensão da tarefa que nos incumbe. As coisas são mais ou menos divinas, os estado sde espírito são mais ou menos religiosos, as reações são mais ou menos totais, mas as fronteiras são sempre nevoentas, e em toda a parte a questão é de quantidade e de grau. Nãoi obstante, no extremo do seu desenvolimento, as experiências religiosas nunca permitirão a menor incerteza sobre a sua natureza. A divindade do objeto e a solenidade da reação são tão bem marcadas que não dão margem à dúvida. A hesitação quanto a ser um estado de espírito “religioso”, “irreligioso”, “moral” ou “filosófico” só tende a manifestar-se quando o estado de espírito é fracamente caracterizado mas, nesse caso, ele provavelmente não será digno do nosso estudo. Não devemos perder tempo com estados que só por cortesia podem ser denominados religiosos, visto que só será proveitoso o nosso trato daquilo que ninguém pode sentir-se tentado a chamar de outra coisa. Afirmei na conferência anterior que ficamos sabendo mais acerca de alguma coisa quando a examinamos através de um microscópio, por assim dizer, ou em sua forma mais exagerada. Isso é tão verdadeiro no que concerne aos fenômenos religiosos quanto ao que respeita a qualquer outra espécie de fato. Os únicos casos que propendem a ser tão profícuos que nos recompensem a atenção, por conseguinte, são aqueles em que o espírito religioso é inequívoco e extremo. Podemos passar traqüilamente ao largo das suas manifestações mais fracas. Aqui, por exempo, está a reação total à vida de Frederick Locker Lampson, cuja autobiografia, intitulada “Confidences”, mostra que ele foi um homem muito amável.

“Estou tão resignado com a minha sorte que escasso pesar me proporciona a idéia de separar-me do que se tem chamado o hábito aprazível da existência, a doce fábula da vida. Não se me daria viver outra vez a minha vida vaia e, assim, prolongar-lhe a duração. É estranho dizê-lo, mas tenho pouca vontade de ser mais moço. Submeto-me com um frio no coração. Submeto-me humildemente porque essa é a Vontade Divina e tal é o meu destino. Apavora-me o aumento das enfermidades que me transformarão num fardo para os que me rodeiam, para os que me são caros. Não! Seja-me permitido escapulir a furto, tão calma e confortavelmente quanto eu puder. Que venha o fim, se com ele vier a paz.
“Não sei se há muita coisa para dizer em louvor deste mundo, ou da nossa estada nele, mas aprouve a Deus colocar-nos aqui, e isso deve aprazer-me também. Pergunto-vos, que é a vida humana? Não é uma felicidade mutilada – cuidados e fadigas, fadigas e cuidados, com a expectativa infundada, a estranha burla, de um amanhã mais brilhante? Pelo menos não passa de uma criança teimosa, com a qual é preciso brincar e condescender, para mantê-la tranqüila até que adormeça, quando, então, os cuidados se findam.”5

Esse é um estado de espírito complexo, terno, submisso e gracioso. No que me diz respeito, eu não faria objeções a chamar-lhe, em conjunto, religioso, embora deva dizer que, para muitos dos senhores, ele talvez pareça tão indiferente e frouxo que não merece um nome tão bom.

5. Op. Cit., págs. 313, 314.
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Mas, afinal de contas, que importa chamarmos a um estado de spírito desse gênero religioso ou não? Seja como for, isso é por demais insignificante para a nossa intrução; e o seu próprio possessor o escrever em termos que não teria usado se não estivesse pensando nas disposições de ânimo mais energicamente religiosas de outras pessoas, com as quais se julgava incapaz de competir. É só nesses estados mais enérgicos que se concentra o nosso interesse, e podemos deixar perfeitamente que escapem as notas menores e as fronteiras incertas.
Eram os casos extremos que eu tinha em mente há pouco ao dizer que a religião pessoal, mesmo sem teologia ou ritual, mostraria possuir elementos que a moral, pura e simples não contém. Os senhores háo de estar lembrados talvez de que prmeti indicar logo esses elementos. De um modo geral, posso dizer agora o que eu estava pensando.
‘”Aceito o universo” era, diem, uma afirmação favorita da nossa transcendentalista da Nova Inglaterra, Margaret Fuller; e quando alguém, repetiu essa frase a Thomas Carlyle, diz-se também que o seu sardônico comentário foi este: “E bem é que o faça!” No fundo, todo o interesse, tanto da mral quanto da religião, diz respeito à maneira da nossa aceitação do universo. Aceitamo-lo apenas em parte e mau grado nosso, ou de boa vontade e totalmente? Devem os nossos protestos contra certas coisas nele existentes ser radicais e implacáveis, ou devemos pensar que, mesmo com o mal, há maneiras de viver que devem conduzir ao bem? Se aceitarmos o todo, devemos fazê-lo como atordoados e submissos – como Carlyle quereria que o fizéssemos – “Bem é que o façamos” – ou devemos faz^we-lo com entusiástico assentimento? A moral pura e simples aceita a lei do todo que encontra reinando, a fim de reconhecê-la e obedecer-lhe, mas pode obedecer com o mais pesado e frio dos corações, e nunca deixará de senti-lo como um jugo. Para a religião, todavia, em suas manifestações vigorosas e plenamente desenvolvidas, o serviço do Altíssimo nunca é sentido como um jugo. A submissão apática ficou para trás, e uma disposição de ânimo de boas vindas, que pode preencher qualquer lugar na escala entre a serenidade prazeiteira e a alegria entusiástica, tomou-lhe o lugar.
Há uma tremenda diferença emocional e prática entre aceitarmos o universo da maneira insípida e descolorida da estóica resignação à necessidade e aceitá-lo com a apaixonada felicidade dos santos cristãos. A diferença é tão grande qunto a que existe entre a passividade e aatividade, entre a disposição de ânimo defensiva e a disposição de ânimo agressiva. Por graduais
Que sejam os degraus pelos quais um indivíduo pode passar de um estado a outro, por numerosas que sejam as fases intermediárias que diferentes indivíduos representam, quando colocamos os extremos típicos ao lado um do outro para cotejá-los, sentimos que temos à nossa frente dois universos psicológicos descontínuos e que, ao passar de um para o outro, tivemos de transpor um “ponto crítico”.
Ao confrontarmos as exclamaçõe estóicas com as cristãs, vemos muito mais que uma diferença de doutrina; separa-as, ntes, uma diferença de disposição emocional. Quando Marco Aurélio reflete sobre a raão eterna que ordenou as coisas, nota-se-lhe nas palavras um frio de gelo, que raro se encontra num escrirto religioso judeu e nunca num escrito religioso cristão. O universo é “aceito” por todos esses escritores; mas quão despojado de paixão ou de exultação é o espírito do imperador romano! Comparemos-lhe a formosa sentença: “Se os deuses não se importam comigo nem com meus filhos, há de haver uma razão para isso”, com o grito de Jó: “Ainda que ele me mate, confiarei nele!” e logo veremos a diferença a que aludo. A anima mundio, a cuja vontade o estóico consente em submeter seu destino pessoal, está lá para ser respeitada e obedecida, mas o Deus cristão está lá para ser amado; e a diferença de atmosfera emocional é semelhante à que existe entre o clima ártico e o clima dos trópicos, se bem o resultado no modo de aceitar as condições reais sem um gesto de queixa, possa parecer, em termos abstratos, praticamente o mesmo nos dois casos.

“É dever do homem”, diz Marco Aurélio, “tomar coragem e esperar a dissolução natural, e não se entristecer, mas só encontrar alívio nestes pensamentos – primeiro, que nada me acontecerá que não se conforme com a natureza do universo; e, segundo, que não preciso fazer nada contra o Deus e a divindade dentro de mim; pois não há homem que possa compelir-me a transgredir.6 É um abscesso no universo o que se retira e separa da razão da nossa natureza comum, por se haver desagradado das coisoas que ocorrem. Pois a mesma

6. Livro V, cap. X (resumido).
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natureza produziu essas coisas e produziu-te a ti também. Assim sendo, ceita tudo o que sucede, inda que nunca desagradável, porque isso condu `saúde do universo e à prosperidade e felicidade de Zeus. Pois ele não teria infligido a nenhum homem o que infligiu se não fosse útil ao todo. A integridade do todo será mutilada se lhe cortares alguma coisa. E cortas alguma coisa, até onde está em teu poder fazê-lo, quando estás insatisfeito e, de certo modo, tentas afastar alguma coisa do caminho.”7

Compare-se agora esse estado de espírito com o do velho autor cristão da Theologia Germanica:

“Quando estão ilumindos pela verdadeira luz, os homens renunciam a too desejo e escola, e se entregam e encomendam, a si e a todas as coisas, à eterna Bondade, de modo que todo homem iluminado poderia dizer: “Eu gostaria de ser para a Bondade Eterna o que a própria mão é para o homem. Homens assim estão em estado de liberdade, porque perderam o medo da dor ou do inferno, a esperança da recompensa ou do céu, e vivem em pura submissão à Bondade Eterna, na perfeita liberdade de um amor ardente. Quando um homem se conhece e considera verdadeiramente quem é e o que é, e se descobre de todo vil, perverso e indigno, cai numa degradação tão profunda que lhe parece razoável que todas as criaturas do céu e da terra se levantem contra ele. E, por isso, não quer nem usa desejar consolo e libertação; mas est´disposto a continuar desconsolado e não libertado; e não se mortifica com os seus padecimentos que estão certos a seus olhos, e não tem nada para lhes censurar. Isto é o que quer dizer o verdadeiro arrependimento do pecado; e àquele que, neste momento, adentr semelhante inferno, ninguém pode consolar. Ora, Deus não desamparou o homem nesse inferno, mas está pondo a mão sobre ele, de modo que o homem não deseja nem consider aoutr coisa senão o eterno Bem. E então, quando o homem só se importa com o eterno Bem, e só a ele deseja, e não se procura a si mesmo nem às suas coisas, mas apenas a honra de Deus, torna-se partícipe de toda a ordem de alegria, bem-aventurança, paz, repouso e consolo, de modo que, a partir de então, se encontra no reino dos céus. Esse inferno e esse céu são dois caminhos seguros para o homem, e feliz é aquele que realmente os encontra”.8

Quanto mais ativo e positivo é o impulso do escritor cristão para aceitar o seu lugr no universo! Marco Aurélio aceita o esquema – o teólogo alemão concorda com ele, abunda literalmente em concord^ncia, sai correndo para abraçar os decretos divinos.
É verdde que, de ve em quando, o estóico se alça a algo parecido com o calor do sentimento cristão, como no passo tão amiúde citado de Marco aurélio:

“Tudo o que é harmonioso para ti, ó Universo, se harmoniza comigo. Nada me é demasiado precoce nem demasiado tardio quando te é oportuno. Tudo o que traem as estações, ó Natureza, é fruto para mim: de ti são todas as coisas, em ti estão todas as coisas, para ti regressam todas as coisas. Diz o poeta, Querida Cidade de Cecrópia; e não dirás tu, Querida Cidade de Zeus?”9

Compare-se, porém, uma passagem devota como esta com uma autêntica efusão cristã, e ela parecerá algo fria. Folheie-se, por exemplo, a Imitação de Cristo:

“Senhor, sabes o que é melhor; seja isto ou aquilo acorde com a tua vontade. Dá o que quiseres, quanto quiseres, quando quiseres. Faze comigo o que achares melhor, e que mais se ajuste à tua honra. Coloca-me onde quiseres, e opera livremente a tua vontade em mim em todas as coisas… Quando poderá surgir o mal se estás por perto? Prefiro ser pobre por amor de ti a ser rico sem ti. Quer antes ser peregrino na terr contigo do qaue, sem ti, possuir o céu. Onde estiveres, estará o céu; e onde não estiveres, contempla ali a morte e o inferno.”10

É uma boa regra de fisiologia, quando estamos estudando o valor de um órgão, indagar do seu tipo mais peculiar e característico de atividade, e buscar-lhe a função principal na que nenhum outro órgão pode exercer. Está visto que a mesma máxima vale para a nossa procura atual. A essência das experiências religiosas, a coisa pela qual teremos finalmente de julgá-las, será o seu elemento ou qualidade que não encontramos em nenhum outro lugar, e que é, naturalmente, mais conspícua e fácil doe notar nas experiências religiosas mais unilaterais, exageradas e intensas.

7. Livro V, cap. Ix (resumido).
8. Cap. X, xi (resumido): tradução de Winkworth para o inglês.
9. Livro IV, § 23.
10. Tradução de Benham: Livro III, caps. Xv, lix. Compare-se Mary Moody Emerson: “Deixa-me ser uma mancha neste belo mundo, a mais obscura, a mais solitária sofredora, com uma condição, – que eu saiba que é obra Sua. Eu O amarei ainda que Ele derrame gelo e trevas em cada um dos meus caminhos.” R. W. Emerson: Lectures and Biographical Sketches, pág. 188.

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Ora, qundo comparamos essas experiêncis mais intensas com as de mentes mais dóceis, tão frias e razoadas que nos sentimos tentados a chamar-lhes antes filosóficas do que religiosas, encontramos um caráter perfeitamente distinto. Tenho para mim que esse caráter deveria ser considerado a differentia praticamente mais importante da religião para a nossa finalidade; e o que ele é pode ser facilmente depreendido da comparação entre a mente do cristão abstratamente concebido e a mente do moralista concebidop de maneira semelhante.
Dizemos que a vida é viril, estóica, moral ou filosófica na proporção em que é menos governada por insignificantes considerações pessoais e mais por objetivos que demandam energia, ainda que essa energia acarret perda pessoal e sofrimento. Esse é o lado bom da guerra, na medida em que requer “voluntários”. E para a moral a vida é uma guerra, e o serviço do Altíssimo uma espécie de patriotismo cósmico que também exige voluntários. Até um homem doente, incapaz de militar exteriormente, pode prosseguir na guerra moral. Pode desviar deliberadamente a sua atenção do próprio futuro, quer neste mundo quer no próximo. Pode adestrar-se para ser indiferente às suas deficiências atuais e mergulhar em quaisquer interesses objetivos que aindfa lhe sejam acessíveis. Pode acompanhar as notícias públicas e simpatizar com os negócios de outras pessoas. Pode cultivar maneiras joviais e silenciar a respeito de suas atribulações. Pode matutar nos aspectos ideais da existência, sejam eles quais forem, que a sua filosofia for capa de apresentar-lhe, e exercer as funções, como a paciência, a resignação, a confiança, que o seu sistema ético requer. Um homem assim vive no plano mais alto e mais amplo. É um homem livre de coração magnânimo e não um escravo choramigas. E, no entanto, carece de alguma coisa que o cirstão par excellence, o santo místico e ascético, por exemplo, tem em abundância e que faz dele um ser humano digno de uma denominação totalmente distinta.
O cristão também repele com desprezo a atitude angustiada e taciturna do quarto de doente, e as vidas dos santos estão cheias de uma espécie de insensibilidade a estados mórbidos do corpo que provavelmente nenhum outro registro humano apresenta. Mas ao passo que a rejeição desdenhosa meramente moralística exige um esforço de volição, a rejeição cristá resulta da excitação de um tipo superior de emoção, para cuja presença nenhum exercício de volição se requer. O moralista precisa suspender a respiração e manter osa músculos tensos; e enquanto essa atitude atlética for possível, tudo correrá bem – a moral bastará. Mas a atitude atlética tende sempre a falhar, e falha inevitavelmente, por mais robusta que seja a pessoa quando o organismo principia a dar de si, ou quando o medo mórbido invade a mente. Sugerir a vontade e o esforço pessoais a um indivíduo debilitado pelo sentido da impotência irremediável é sugerir a mais impossível das façanhas. Ele anseia por ser consolado em sua prórpia impotência, por sentir que o espírito do universo o reconhece e protege, por decandente e falho que seja. Bem, somos todos fracassos indefesos desse tipo em última instância. O mais são e o melhor dentre nós foi feito do mesmo barro dos loucos e dos criminosos, e a morte, por fim, dá em terra com o mais robusto de nós. E quando damos tento disso, um sentido da vaidade e da transitoriedade da nossa carreira de voluntários da moral nos inunda de tal modo que toda a nossa moral parece apenas um emplastro sobre uma ferida que ela jamais poderá curar, e todo o nosso bem-fazer se nos afigura o mais vazio dos substitutos daquele bem-estar em que nossas vidas deveriam estar calcadas mas que, infelizmente, não estão.
E aqui a religião acode em nosso auxílio e toma nas mãos o nosso destino. Existe um estado de espírito conhecido de homens religiosos, mas de ninguem mis, em que a vontade de afirmar-nos e de não ceder foi substituída pela disposição de fechar a boca e de ser um dócil instrumento naos mãos de Deus. Nesse estado de espírito, o que mais temíamos tornou-se o receptáculo da nossa salvação, e a hora da nossa morte moral converteu-se em nosso aniversário espiritual. Foi-se o tempo de tensão em nossa alma, e chegou o tempo do relaxamento feli, da respiração calma e profunda, do presente eterno, sem nenhum futuro discordante para afliir-nos. O medo não se mantém sequer em estado jacente, como o mantém a simples moral, mas é positivamente expungido e elimindo.
Veremos abundantes exemplos desse feliz estado de espírito em próximas conferências do nosso curso. Veremos que a religião pode ser uma coisa infinitamente arrebatada em seus vôos mais altos. À semelhança do amor, da ira, da esperança, da ambição, do ciúme, à semelhança de

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qualquer outra avidez e impulso instintivos, ela acrescenta à vida um encanto que não é racional nem logicamente deduzível de nenhuma outra coisa. Esse encantamento, que vem como um Dom, quando vem, – um Dom do nosso organismo, dir-nos-ão os fisiologistas, um Dom da graça de Deus, dizem os teólogos, – ou está lá para nós ou não está, e há pessoas que já não podem ser possuídas por ele como não podem apaixonar-se por uma determinada mulher a uma simples palavra de ordem. Destarte, o sentimento religioso é uma adição absoluta à esfera de vida do indivíduo. Dá-lhe uma nova esfera de poder. Quando a batalha exterior está perdida, e o mundo exterior o renega, ele redime e vivifica um mundo interior que, de outro modo, não seria mais do que um ermo vazio.
Se a religião há de significar alguma coisa definida para nós, quer parecer-me que devemos tomá-la como significando essa dimensão acrescida de emoção, esse espírito de entusiáticas núpcias com o Universo, em regiões em que a moral propriamente dita, na melhor das hipóteses, só pode inclinar a cabeça e eaquiescer. Ela não deve significar senão esse novo âmbito de felicidade para nós, depois de terminada a refrega, quando a tônica do universo nos soa aos ouvidos e a posse eterna se estende diante dos nossos olhos.11
Essa espécie de felicidade no absoluto ew no eterno só encontramos na religião. Distingue-se de toda a mera felicidade animal, de todo o mero gozo do presente, graças ao elemento de solenidade a cujo respeito tanto já me estendi. A solenidade é uma coisa difícil de se definir de modo abstrato, mas algumas de suas marcas são manifestas. Um estado de espírito solene nunca é tosco nem simples – parece conter certa medida do seu próprio contrário em solução. Uma alegria solene preserva um pouco de amargo na doçura; uma tristeza solene é uma tristeza com a qual intimamente consentimos. Compreendendo, porém, que a felicidade de um tipo supremo é prerrogativa da religião, certos autores esquecem essa complicação e qualificam de religiosa, como tal, qualquer felicidade. O Sr. Havelock Ellis, por exemplo, identifica a religião com o campo inteiro da libertação da alma de estados de espírito opressivos.

“As funções mais simples da vida fisiológica”, escreve ele, “podem ser os seus dispensadores. Todo aquele que estiver familiarizado de algum modo com os místicos persas sabe que o vinho pode ser considerado instrumento da religião. Com efeito, em todos os países e em todos os tempos, alguma forma de expansão física – o canto, dança, a bebida, a excitação sexual – tem sido intimamente associada ao culto. Até a expansão momentânea da alma no riso, por menor que seja, é um exercício religioso. … Toda vez que um impulso do mundo golpeia o organismo, e disso não resulta desconforto nem dor, nem sequer a contração muscular da vigorosa virilidade, mas uma alegre expansão ou aspiração de toda a alma – aí está a religião. É o infinito por que ansiamos, e cavalgamos toda ondazinha que prometa levar-nos a ele.”12

Mas uma direta identificação da religião com toda e qualquer forma de felicidade deixa de fora a peculia4idade essencial da felicidade religiosa. As felicidades mais corriqueiras que logramos são “alívios”, ocasionados por nossas escapadas momentâneas dos males que experimentamos ou que nos ameaçam. Entretanto, em suas personificações mais características, a felicidade religiosa não é uma simples sensação do escape. Já pouco se lhe dá escapar. Consente no mal exteriormente como forma de sacrifício – internamente sabe-o superado para sempre. Se os senhores me perguntarem como cai assim sobre os espinhos e enfrenta a morte e, no mesmo ato, anula o aniquilamento, não lhes poderei explicá-lo, pois é o segredo da religião e, para compreendê-lo, precisamos ser homens religiosos do tipo mais extremo. Em nossos futuros exemplos, até da categoria de consciência religiosa mais simples e de espírito mais sadio, encontraremos essa complexa constituição sacrificial, em que a felicidade mais elevada reprime a infelicidade mais baixa. Existe no Louvre um qudro de guido Reni em que se vê São Miguel com o pé no pescoço de Satanás. A riqueza da pintura deve-se, em grande parte, à presença ali da figura do demônio. A riqueza do seu significado alegórico também se deve à sua presença – o que quer

11. Vale a pena repetir, há uma grande quantidade de homens, homens constitucionalmente sombrios, em cuja vida religiosa falta esse arrebatamento. Eles são religiosos no sentido mais mplo; entretanto, neste mais agudo de todos os sentidos, não osão, e é a religião no seu sentido mais agudo que desejo, sem disputar acerca de palavras, estudar primeiro, a fim de chegar à sua differentia típica.

12. The New Spirit, pág. 232.

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dier que a presença do diabo enriquece o mundo, enquanto mantivermos o pé sobre o seu pescoço. Na consciência religiosa, esta é exatamente a posição em que o arquiinimigo, o princípio negativo ou tra´gico, se encontra; e por essa mesmíssima razão a consciência religiosa é tão rica do ponto de vista emocional.13 Veremos que, em certos homens e mulheres, isso assume uma forma monstruosamente ascética. Há santos que se alimentaram literalmente do princípio negativo, da humilhação, das privações e da idéia do soforimento e da morte – e em suas almas crescia a felicidade na proporção em que o estado exterior se tornava mais e mais intolerável. Nenhuma outra emoção além da religiosa pode levar o hmem a essa situaçao peculiar. E é por essa razão que, ao formular a nossa pergunta a respeito do valor da religião para a vida humana, deveríamos, na minha opinião, procurar a resposta antes entre esses exemplos mais violentos do que entre os de tonalidade mais moderada.
Começando com o fenômeno que estudamos em sua forma mais aguda, poderemos atenuá-lo à vontade mais tarde. E se, nesses casos, por mais repulsivos que sejam para a nossa maneira mundana comum de julgar, nos virmos compelidos a reconhecer o valor da religião e tratá-la com respeito, ela terá provado, de um modo ou de outro, o seu valor para a vida em geral. Subtraindo e moderando extravagâncias podemos, a partir daí, passar a traçar os limites do seu legítimo domínio.
É evidente que a precisão de lidar tanto com excentricidades e extremos nos dificulta a tarefa. “Como pode a religião, falando de um modo geral, ser a mais importante de todas as funções humanas”, inquirirão os senhroes, “se cada uma de suas várias manifestações, tem de ser, por seu turno, corrigida, moderada e suprimida?” Uma tese dessa ordem parece um paradoxo impossível de sustentar razoavelmente – e, todavia, acredito que alguma coisa parecida será a nossa contenção final. Aquela atitude pessoal que o indivíduo se sente impelido a adotar para com o que cuida ser o divino – e os senhores hao de estar lembrados de que esta foi a nossa definição – revelar-se-á, ao mesmo tempo, uma atitude impotente e sacrificial. Isto é, teremos de confessar pelo menos alguma dose de dependência da pura misericórdia, e praticar alguma dose de renúncia, grande ou pequena, ara salvar vivas as nossas almas. A constituição do mundo em que vivemos o exige:
Entbehren sollst du! Sollst entbehren!
Das ist der ewige Gesang
Der jedem na die Ohren klingt,
Den unser ganzes Leben lang
Uns heiser jede Stunde sngt.

Pois depois que tudo for dito e feito, estaremos, no fim, absolutamente dependentes do universo; e seremos arrastados e pressionados a sacrifícios e renúncias de toda sorte, deliberadamente examinados e aceitos, como às nossas únicas posições permanentes de repouso. Ora, nesses estados de espírito, sujeitamo-nos à renúncia como a uma imposição da necessidade, e fazemos o sacrifício, na melhor das hipóteses, sem lamentações. Na vida religiosa, ao contrário, a renúncia e o sacrifício são positivamente esposados: até se acrescentam abandonos desnecessários para aumentar a felicidade. A religião, desse modo, facilita e felicita o que, de qualquer maneira, é necessário; e se ela for o único agente capaz de obrter esse resulrtado, sua importância vitral como faculdade humana estará indiscutivelmente demonstrada. Torna-se um órgão essencial da nossa vida, exercendo uma função que nenbuyjma outra porção da nossa natureza pode cumprir de maneira tão bem-sucedida. Do ponto de vista meramente biológico, para assim chamá-lo, esta é uma conclusão a que, até onde posso ver agora, seremos inevitavelmente conduzidos, e conduzidos, além disso, seguindo o método puramente empírico de demonstração que esbocei para os senhores na primeira conferência. Do ofício subseqüente da religião como revelação metafísica nada direi por ora.
Mas prefigurar o fim da nossa investigação é uma coisa e chegar a ele em segurança é outra. Na próxima conferência, abandonando as extremas generalidades que nos absorvem até agora, proponho começarmos nossa jornada real dirigindo-nos diretamente aos fatos concretos.

13. Devo esta ilustração alegórica ao meu pranteado colega e amigo, Charles Carroll Everett.

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III Conferência

A REALIDADE DO INVISÍVEL

Se nos pedissem para caracterizar a vida da religião no sentido mais amplo e mais geral possível, poderíamos dizer que ela consiste na crença de que existe uma ordem invisível, e que o nosso bem supremo reside em ajustarmo-nos harmoniosamente a ela. Essa crença e esse ajustamento são a atitude religiosa da alma. Desejo, durante esta hora, chamar-lhes a atenção para algumas peculiaridades psicológicoas de uma atitude como essa, de crença num objeto que não podemos ver. Todas as nossas atitudes, morais, práticas ou emocionais, bem como as religiosas, devem-se aos “objetos” da nossa consciência, às coisas que acreditamos existirem, seja real, seja idealmente, junto de nós. Tais objetos podem estar presentes aos nossos sentidos, ou podem estar presentes apenas ao nosso pensamento. Em qualquer um desses casos, eles provocam em nós uma reação; e a reação produzida por coisas do pensamento é, notoriamente, em muitos casos, tão forte quanto a produzida por presenças sensíveis. Pode ser até que seja mais forte. A lembrança de um insulto talvez nos deixe mais angados do que nos deixou o próprio insulto quando o recebemos. Ficamos freqüentemente mais envergonhados de nossas cincadas depois de cometidas do que no momento de cometê-las; e, em geral, toda a nossa vida prudencial e moral mais elevada estriba-se no fato de poderem as sensações materiais realmente presentes Ter uma influência mais fraca sobre a nossa ação do que as idéias de fatos mais remotos.
Os homens conhecem os objetos mais concretos da religião, as divindades que adoram, apenas em idéia. Foi concedida, por exemplo, a pouquíssimos crentes cristãos uma visão sensível do seu Salvador; embora tantos aparecimentos dessa sorte estejam registrados, como exceção milagrosa, que lhes daremos atenção mais tarde. Toda a força da religião cristão, portanto, na medida em que a crença nas personagens divinas determina a atitude predominante do crente, é exercida, em geral, por meio de idéias puras, para as quais nada na experiência passada do indivíduo serve diretamente de modelo.
Mas em adição às idéias dos objetos religiosos mais concretos, a religião está cheia de objetos abstratos que mostram um poder igual. Os atributos de Deus como tais, sua santidade, sua justiça, sua misericórdia, sua incondicionalidade, sua infinidade, sua onisciência, sua tri-unidade, os vários mistérios do processo redentor, a ação dos sacramentos, etc., revelam-se férteis mananciais de inspiradora meditação para os crentes cristãos.1 Veremos mais trde que as autoridades místicas de todas as religiões insistem positivamente na ausência de imagens sensíveis definidas como o sine qua non de uma prece bem-sucedida, ou da contemplação das supremas verdades divinas. Espera-se que tais contemplações (e a expectativa é fartamente corroborada, como também veremos) influam na atitude subseqüente do crente, de maneira muito poderosa, para o bem.
Emanuel Kant tinha uma doutrina curiosa a respeito dos objetos de creça como Deus, o plano da criação, a alma, sua liberdade e a vida futura. Essas coisas, dizia, não são propriamente objetos de nenhum conhecimento. Nossas concepções requerem sempre um conteúdo sensorial para podermos trabalhar com elas, e como as palavras “alma”, “Deus”, “imortalidade”, não cobrem nenhum conteúdo sensorial distintivo, disso se segue que, teoricamente falando, estas palavras são destituídas de qualquer significação. No entanto, por estranho que pareça, elas têm um significado definido para a nossa prática. Podemos agir como se existisse Deus; sentir como se fôssemos livres; considerar a Natureza como se ela andasse cheia de propósitos especiais; fazer planos como soe devêssemos ser imortais; e verificarmos então que essas palavras determinam uma genuína diferença na nossa vida moral. Nossa fé em que tais objetos ininteligíveis realmente existem revela-se assim um equivalente integral, in praktischer Hinsicht, como diz Kant, ou seja, do ponto de vista da nossa ação, do conhecimento do que eles poderiam ser,caso nos fosse permitido

1. Exemplo: “Tenho recebido muito conforto ultimamente ao meditar sobre as passagens que mostram a personalidade do Espírito Santo, e como é distinto do Pai e do Filho. Trata-se de um assunto que requer muita paciência para ser aprofundado mas que, depois de compreendido, nos proporciona um sentido muito mais verdadeiro e vivo da plenitude da Divindade e da sua obra em nós e para nós do que quando apenas pensamos no espírito em seu efeito sobre nós.” Augustus Hare: Memorials, i, 244, Maria Hare para Lucy H. Hare.
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concebê-los positivamente. Assim sendo, temos o estranho fenômeno, assegura-nos Kant, e uma mente que acredita com toda a sua força na presença real de uma série de coisas, das quais não lhes é dado formar noção alguma, seja ela qual for.
Meu objetivo ao recordar assim a doutrina de Kant à mente dos senhores não é expressar
uma opinião relativa à erxatidão dessa parte especialmente abstrusa da sua filosofia, mas tão-só ilusrtrar a característica da natureza humana que estamos considerando, com um exemplo tão clássico em sua exageração. O sentimento de realidade pode, de fato, ligar-se de maneira tão robusta ao nosso bojeto de crença que toda a nossa vida é polarizada de fio a pavio, por assim dizer, pelo sentido que damos à existência da coisa em que acreditamos, embora dificilmente possamos dizer que essa mesma coisa, para a finalidade de uma descrição definida, está presente na nossa mente. É como soe uma barra de ferro, sem tato nem vista, sem nenhuma faculdade representiativa, pudesse, apensar disso, ser vigorosamente dotada da capacidade de perceber a energia magnética; e como se, ao despertar do seu magnetismo pela atividade ou inatividade de outros ímãs ao seu redor, pudesse ser conscientemente determibnada a assumir atitudes e tendências diversas. A barra de ferro nunca poderia dar aos senhores uma descrição exterior dos agentes que tinham o poder de afetá-la com tanta força; entretanto, estaria inteiramente consciente, através de cada fibra do seu ser, da presença e da importância deles para a sua vida.
Não são apenas as Idéias da Razão pura, como Kant gostava de denominá-las, que têm
o poder de fazer-nos sentir vitalmente presenças que não conseguimos descrever com suficiente clareza. Todas as espécies de abstrações superiores trazem consigo o mesmo tipo de atração impalpável. Lembvrem-se dos trechos de Emerson que li em minha última conferência. Todo o universo de objetos concretos, tais como os conhecemos, não só para um escritor transcendentalista como ele, mas também para todos nós, navega num universo mais amplo e mais alto de idéias abstratas, que lhe emprestam sua signficação. Assim, como o tempo, o espaço e o éter penetram todas as coisas, assim (sentimo-lo) a bondade, a beleza, a força, a importância, a justiça abstratas e essenciais penetram todas as coisas boas, fortes, importantes e justas.
Tais idéias, e outras igualmente abstratas, formam o substrato de todos os nossos
fatos, o manancial de todas as possibilidades que concebemos. Elas emprestam sua “natureza”, como lhe chamamos, a cada coisa especial. Tudo o que conhecemos é o “que é” porque partilha da natureza de uma dessas abstraçõe. Nunca poderemos olhar diretamente para elas, pois não têm corpo, nem traços, nem pés, mas captamos todas as outras coisas por meio delas e, no trato com o mundo real, nós nos veríamos impotentes na exata medida em que perdêssemos esses objetos mentais, esses adjtivos, advérbios, predicados e chaves de classificação e concepção.
A determinabilidade absoluta da nossa mente por abstrações é um dos fatos cardeais da nossa constituição humana. Embora nos polarizem e magnetizem, voltamo-nos para elas, apartamo-nos delas, procuramo-las, agarramo-las, odiamo-las, abençoamo-las, exatamente como se fossem outros tantos seres concretos. E seres elas são, seres tão reais no reino que habitam quanto as coisas mutáveis dos sentidos o são no reino do espaço.
Platão fez uma defesa tão brilhante e notável desse sentimento humano comum que a doutrina da realidade dos objetos abstratos tem sido conhecida, desde então, como a teoria platônica das idéias. A Beleza abstrata, por exemplo, é para Platão um ser individual perfeitamente definido, do qual o intelecto se dá conta como de algo adicional a todas as belezas perecedoraqs da terra. “A verdadeira ordem pela qual se deve proceder”, diz ele, no trecho amiúde citado do seu “Baquete”, “é usar as belezas da terra como degraus que transpomos em busca da outra Beleza, passando de uma a duas, de duas a todas as formas belas, e das belas formas para as belas ações, e das belas ações para as belas noções, até que das belas noções chegamos à noção da Beleza absoluta e, por fim, conhecemos o que é a essência da Beleza.”2 Em nossa última conferência, vislumbramos o modo com que um escritor platonizante como Emerson pode tratar a divindade abstrata das coisas, a estrutura moral do unierso, como fato digno de adoração. Nas várias igrejas sem Deus que hoje se espalham pelo mundo sob o nome de sociedades éticas, temos um culto similar do divino abstrato, da lei moral considerada copmo objeto final. Em muitas

2. Symposium, Jowett, 1871, i, 527.
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mentes, a “ciência” está tomando o lugar da religião. Ondoe isso acontece, o cientista trata as “Leis da Natureza” como fatos objetivos que devem ser reverenciados. Uma escola brilhante de interpretação da mitologia grega sustentava que, em sua origem, os deuses gregos eram apenas personificações semimetafóricas das grandes esferas de lei e ordem abstratas em que o mundo natural se divide – a esfera do céu, a esfera do oceano, a esfera da terra, e quejandas; exatamente como, mesmo agora, podemos falar no sorriso da manhã, no be4ijo da brisa ou na mordida do frio, sem na verdade querer significar com isso que tais fenômenos da natureza ostentem realmente um rosto humano.3
No que concerne à origem dos deuses gregos, não prcisamos agora formar uma opinião. Mas todo o rol de nossos exemplos leva a uma conclusão parecida com esta: É como se houvesse na consciência humna em sentido de realidde, um sentimento de presença objetiva, uma percepção do que podemos chamar “alguma coisa ali”, mais profunda e mais geral do que qualquer um dos “sentidos” especiais e particulares pelos quais a psicologia atual supõe que as relidades existentes são roginalmente reveldas. Se tal fosse o caso, poderíamos cuidar que os sentidos nos despertam as atitudes e o comportamento, como habitualmente o fazem, excitando primeiro o sentido d realidade, mas qualquer outra coisa, qualquer idéia, por exemplo, capaz de excitá-lo, teria as mesmas prerrogativas que os objetos dos sentidos normalmente possuem de parecerem reais. Na medida em que as concepções religiosas fossem aptas a tocar esse sentimento da realidade, seriam cridas a despeito da crítica, ainda que fossem tão vagas e remotas a ponto de serem quase inimagináveis, ainda que pudessem ser não-entendidas do ponto de vista da natureza essencial como Kant quer que sejam os objetos da sua teologia moral.
Provas mais curiosas da existência de um sentido não-diferenciado como esse encontram–se nas experiências de alucinação. Acontece muitas vezes que uma alucinação é imperfeitamente desenvolvida: a pessoa afetada sente uma “presença” na sala, localizada com precisão, voltada para uma direção determinada, real no sentido mais enfático da palavra, que não raro surge de repente, tão de repente como desaparece; e, todavia, não vista, não ouvida, não tocada, não cognoscida de nenhuma das maneiras “sensíveis” habituais. Permitam-me dar-lhes um exemplo disso, antes de passar para os objetos cuja presença mais interessa à religião.
Um íntimo amigo meu, um dos intelectos mais agudos que conheço, teve diversas experiências desse tipo. Ele escreve o seguinte em resposta às minhas indagações:

“Senti várias vezes, nos últimos anos, a chamada ‘consciência de uma presença’. As experiências que tenho em mente são claramente distinguíveis de outro tipo de experiência que me têm ocorrido com muita freqüência, e às quais imagino que muitas pessoas também chamariam ‘consciência de uma presença’. Mas a diferença, para mim, entre as duas séries de experiências é tão grande quanto a diferença entre sentir um leve calor que vem não sei de onde e ficar no meio de uma conflagração com todos os sentidos comuns alertas.
“Foi por volta de setembro de 1884 que tive a primeira experiência. Na noite anterior eu experimentara, depois de ir para a cama em meus aposentos no College, uma vivida alucinação fáctil de ser agarrado pelo braço, que me fez levantar e vasculhar o quarto à procura de um invasor; mas o sentido de presença propriamente dito pareceu na noite seguinte. Depois de enfiar-me na cama e apagar a vela, fiquei acordado pensando na experiência da noite anterior, quando, de repente, senti alguma coisa entrar no quarto e aproximar-se da minha cama. Ali ficou apenas um ou dos inutos. Não a reconheci por nenhum dos sentidos comuns e, no entanto, havia uma ‘sensação’ horrivelmente desagradável ligada a ela. Mexeu mais com as raízes do meu ser do que qualquer percpção ordinária. A sensação tinha o que quer que fosse da qualidade da dor vital de uma dilaceração muito grande, que se espalhava principalmente pelo peito, mas por dentro do organismo – e, contudo, não era tanto de dor quanto de aversão. Fosse como fosse, alguma coisa se achava presente, ao meu lado, e conheci-lhe a presença muito mais seguramente do que jamais conheci a de alguma criatura viva de carne e osso. Tive consciência da sua partida como a tivera da sua chegada: e quase instantaneamente um rápido atravessar a porta e a ‘sensação horrível’ desapareceu.
“Na terceira noite, quando me recolhi, eu tinha a mente absorta em algumas conferências que estava preparando, e ainda me achava entretido com elas quando dei tento da presença real (se bem não lhe tivesse percebido a vinda) da coisa que lá estivera na noite anterior, e da ‘sensação horrível’. Concentrei então, mentalmente, todos os meus esforços no sentido de ordenar àquela ‘coisa’, se fosse má, que saísse e, se não fosse má, que me dissesse quem ou o quê era e, se não pudesse explicar-se, que se fosse, pois eu a obrigaria a partir. Tudo aconteceu como na véspera, e meu corpo logo recuperou o estado normal.

3. Exemplo: “A Natureza é sempre tão interessante, seja qual for o aspecto por que se mostra, que, quando choeve, tenho a impressão de ver uma bela mulher chorado. E ela parece tanto mais bela quanto mais aflita se apresenta”. B.de St. Pierre.

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“Em duas outras ocasioes em minha vida tive precisamente a mesma ‘sensação horrível’. De uma feita, durou um quarto de hora inteiro. Nos três casos, a certeza de que no espaço exterior havia alguma coisa foi indescritivelmente mais forte do que a certeza comum de termos companhia quando estamos prósimos de pessoas vivas. Essa alguma coisa parecia vizinha de mim, e intensamente mais real do que qualquer percepçao ordinária. E embora eu a sentisse parecida comigo, por assim dizer, ou definida, pequena, angustiada, não a reconheci como nenhum ser ou coisa individual.”

Claro está que uyma experiência dessa ordem não se liga à esfera religiosa. Em cartas ocasiões, todavia, pode fazê-lo, e o mesmo correspondente me informa que em mais de uma conjuntura experimentou o sentido de presença desenvolvido com intensidade e repentinidade iguais, com a difeorença de que, então, o acompanhava uma espécie de alegria.

“Não era a simples consciência de alguma coisa ali, senão fundida na felicidade central dela, uma surpreendente consciência de algum bem inefável. Nada de vaga, nada como o efeito emocional de algum poema, ou cena, ou flor, ou frase musical, mas o conhecimento seguro da próxima presença de uma espécie de pessoa poderosa e, depois que ela se foi, persistiu a lembrança como a única percepção da realidade. Tudo o mais pode ser sonho, mas isso, não.”

O meu amigo, por estranho que pareça, não interpreta essas últimas experiências teisticamente, como se significassem a presença de Deus. Mas é evidente que não teria sido desnatural interpretá-las como revelação da existência da divindade. Quando chegarmos ao assunto do misticismo, teremos muito mais para dizer a esse respeito.
Para que a estranheza dos fenômenos não desconcerte os senhores, abalançar-me-ei a ler-lhes um par de narrativas semelhantes, muito mais curtas, apenas para mostrar que estamos lidando com um tipo de fato natural bem marcado. No primeiro caso, que extraio do “Journal of the Society for Psychical Research”, o sentido de presença desenvolveu-se numa alucinação distintamente visualizada – mas deixo de lado essa parte da história.

“Eu estava lendo”, diz o narrador, “havia uns vinte minutos, absorto na leitura, com a mente perfeitamente serena, e já me esquecera dos amigos, quando, a súbitas, sem um aviso, todo o meu ser pareceu estimulado ao mais alto estado de tensão ou plena consciência, e percebi, com uma intensidade que os que nunca experimentaram a mesma sensação não compreenderão com facilidade, que outro ser ou presença não somente se encontrava no quarto mas também perto de mim. Larguei o livro e, posto que a minha excitação fosse grande, senti-me perfeitamente senhor de mim e sem consciência de nenhuma sensação de medo. Sem mudar de posição e com os olhos fitos no lume, conheci que meu amigo ª H. estava de pé, junto de ao meu ombra esquerdo, mas tão para trás que ficava escondido pela poltrona em que eu me sentara. Movendo os olhos ligeiramente, sem aliás mudar de posição, a porção inferior de uma perna tornou-se-me visível e reconheci isntantaneamente o material azul-cinzento das calças que ele usava com freqüência, embora o pano parecesse semitransparente, com uma consistência que me recordava a da fumaça de um cigarro ou cachimbo”,4 – e disso nasceu a alucinação visual.

Outro informante escreve:
“A noite mal começara quando acordei. … Tive a impressão de haver sido despertado de propósito e, a princípio supus que alguém estivesse entrando na casa. … Virei-me, então, de lado para voltar a dormir; imediatamente, senti a consciência de uma presença no quarto e, embora seja estranho dizê-lo, não era a consciência de uma pessoa viva, mas de uma presença espiritual. Isso talvez provoque riso, mas só posso narrar-lhes os fatos como estes me ocorreram. Não conheço maneira melhor de descrever minhas sensações do que afirmar simplesmente que senti a consciência de uma presença espiritual. … Senti também, ao mesmo tempo, forte sensação de medo supersticioso, como se algo estranho e pavoroso estivesse para acontecer.”5

O Professor Plournoy de Genebra dá-me o seguinte depoimento de uma amiga sua, uma dama, que tem o Dom da escrita automática ou involuntária:

“Toda vez que pratico a escrita automática, o que me faz sentir que isso não se deve a um eu subconsciente é a sensação que sempre tenho de uma presença estranha, fora do meu corpo. Está, às vezes, tão definidamente caracterizada que eu poderia apontar para a sua posição exata. É impossível descrever essa impressão de presença. Varia de intyensidade e clareza de acordo com a personalidade da qual a escrita professa vir. Se é alguém que amo, sinto-o imediatamente, antes que comece a escrita. Meu coração parece reconhecê-lo”.

4. Journal of the Society for Psychical Research, fevereiro de 1895, pág. 26.
5. E. Gurney: Phantasmas of the Living, i. 384.

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Num dos meus livros anteriores citei integralmente um caso curioso de presença sentida por um cego. A presença era a da figura de um homem de barba grisalha, que vestia um terno de mescla, espremia-se debaixo da frincha da porta e movia-se pelo chão da sala na direção de um sofá. O cego dessa quase alucinação é um repórter excepcionalmente inteligente. Inteiramente destituído de imagens visuais internas, não pode representar para si mesmo nem luz nem cores, e é certo que os seus outros sentidos, audição, etc., não estavam envolvidos nessa falsa percepção. Parece ter sido antes uma concepçao abstrata, com as sensações de realidade e exterioridade espacial diretamente ligadas a ela – em outrs palavras, uma idéia plenamente objetivada e exteriorizada.
Tais casos, a par de outros que seria demasiado tedioso citar, parecem provar à saciedade a existência, em nosso mecanismo mental, de um sentido da realidade presente mais difundido e geral do que aquele que os nossos sentidos especiais nos fornecem. Para os psicólogos, a definição da sede orgânica de um sentimento dessa natureza constituiria um belo problema – nada poderia ser mais natural do que ligá-lo ao sentido musculr, à sensação de que os nossos músculos estão se inervando para a ação. O que quer que assim nos inervasse a atividade, ou “deixasse arrepiada a nossa pele” – são os nossos sentidos que o fazem com maior freqüência – poderia então parecer verdadeiro e presente, ainda que fosse apenas uma idéia abstrata. Mas não nos interessam conjecturas vagas dessa natureza, pois o nosso interesse visa mais à faculdade do que à sua sede orgânica.
] Como todas as afeições positivas de consciência, o sentido da realidade tem o seu oposrto negativo na forma de uma sensação de irrealidade que pode perseguir as pessoas, e a cujo respeito, de vez em quando, ouvimos queixas:

“Quando reflito no fato de que apareci por acidente num globo que gira, célere, através do espaço à mercê ds catástrofes dos céus”, diz a Sra. Ackermann; “quando me vejo cercada de seres tão efêmeros e incompreensíveis como eu, todos os quais, escitadíssimos, perseguem quimeras vãs, experimento a estranha sensação de viver num sonho. Parece-me que amei e sofri e que dentro empouco morrerei, num sonho. Minha última palavra será: ‘Sonhei’”6

Em outra conferência, veremos que, na lipemania, esse sentido da irrealidade das coisas pode converter-se num sofrimento opressivo e até conuzir ao suicídio.
Podemos agora admitir como certo que na esfera puramente religiosa da experiência, muitas pessoas (não podemos dizer quantas) possuem os objetos da sua crença, não na forma das meras concepções que seu intelectos aceitam por verdadeiras, mas em forma de realidades quase sensíveis, diretamente apreendidas. Assim, como flutua o seu sentido da presença real desses objetos, assim oscila o creme entre o calor e a frieza em sua fé. Outros exemplos mostrarão ao leitor, mais que uma descrição abstrata, que isso é evidente e, portanto, passo incontinenti a citar alguns. O primeiro exemplo, negativo, deplora a perda do sentido em apreço. Tirei-o de um relato qaue um homem de ciência, meu conhecido, me fez de sua vida religiosa. Segundo me parece, ele mostra claramente que o sentido da realidade pode ser algo mais parecido com uma sensação do que com uma operação intelectual propriamente dita.

“Entre os vinte e os trinta anos fui me tornando, gradativamente, mais e mais agnóstico e irreligioso, mas ainda assim, não posso dizer que tivesse perdido, algum dia, a ‘Consciência indefinida’, que |Herbert Spencer descreve tão bem, de uma Realidade Absoluta por detrás dos fenômenos. Para mim, essa Realidade não era o puro Incognoscível da filosofia de Spencer pois, se bem eu tivesse cessado de erguer minhas orações infantis a Deus, e nunca rezasse para Ele de maneira formal, minh experiência mais recente mostra que eu mantinha com Ele uma relação que era, praticamente, idêntica à oração. Toda vez que me surgia algum problema, especialmente quando entrava em conflito com outras pessoas, quer em casa quer no trabalho, u quando me sentia deprimido ou aflito por causa dos negócios, eu costumava buscar apoio, agora o reconheço, nessa curiosa relação em que me sentia preso ao Ele cósmico, fundamental. Ele estava do meu lado, ou eu estava ao Seu lado, como quer que lhe apraza dizê-lo, diante do problema. E isso sempre me fortalecia e parecia dar-me permanente vitalidade sentir-lhe a presença básica e sustentadora. Na realidade, era uma fonte infalível de justiça, verdade e força vivas, para a qual eu me voltava inmstintivamente em momentos de fraqueza, e que sempre me tirava do meu estado de angústia. Sei agora que eu me empenhara numa relação pessoal porque nós

6. Pensées d’un Solitaire, pág. 66.
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últimos anos o poder de comunicar-me com Ele me deixou, e tenho consciência de uma perda perfeitamente definida. Eu nunca deixava de encontrá-lo quando me voltava para ele. Veio depois uma série de anos em que às vezes o encontrava e, às vezes, me sentia totalmente incapaz de fazer conexão entre nós. Lembro-me de muitas ocoasiões em que à noite, na cama, eu não conseguia conciliar o sono em razão das minhas preocupações. Virava-me de um lado e de outro, no escuro, e procurava mentalmente, às apalpadelas, o sentido familiar daquela mente superior à minha, que sempre parecera estar perto de mim, por assim dizer, fechando a passagem e dando apoio, mas não se estabelecia a corrente elétrica. Havia ali um branco em lugar d’Ele eu não conseguia encontrar coisa alguma. Agora, beirando os cinqüenta anos de idade, meu poder de entrar em conexão com ele deixou-me de todo; e sou obrigado a confessar que minha vida perdeu uma grande ajuda. A existência tornou-se-me curiosamente morta e indiferente e posso ver agora que a minha velha experiência era, com certeza, o mesmo que são as orações para o ortodoxo, só que eu não a chamava por esse nome. O que mencionei como “Ele” não era, praticamente, o Incognoscível de Spencer, senão apenas o meu próprio Deus, instintivo e individual, com cuma simpatia mais alta eu contava, mas que, de um jeito ou de outro, acabei perdendo.”

Nada é mais comum nas páginas da biografia religiosa do que o modo com que se alternam as temproadas de fé viva e as de fé difícil. É provável que toda pessoa religiosa tenha a lembrança de crises particulares em que uma visão mais direta da verdade, uma percepçao direta, talvez, da existência de um Deus vivo sucedesse à tepidez mais comum da fé. Na correspondência de James Russel Lowell encontra-se breve memorando de uma experiência desse gênero:

“Tive uma revelação na sexta-feira passada, à nite. Eu estava em casa de Mary e falava, por acaso, a respeito da presença de espíritos (da qual, afirmei, tinha freqüentemente uma vaga consciência, quando o Sr. Putnam se travou de razões comigo acerca de assuntos espirituais. Enquanto eu falava, todo o sistema se ergueu à minha frente como um vago destino que subia do Abismo. Nunca, até então, eu sentia tão claramente o Espírito de Deus em mim e em torno de mim. Dir-se-ia que toda a sala estivesse repleta de Deus. O ar parecia ondular de um lado para outro com a presença de Alguma Coisa que eu não sabia o que era. Falei com a calma e a clareza de um profeta. Não posso contar-lhes o que foi essa revelação. Anda não a estudei o suficiente. Mas hei de completá-la num dia destes e vocês a ouvirão e lhe reconhecerão a grandiosidade.”7

Aqui está uma experiência mais longa e mais desenvlvida de uma cmunicação manuscrita feita por um clérigo – que tirei da cleção de manuscritos de Starbuck:

“Lembro-me da noite e quase me lembro exatamente do lugar, no topo do morro, em que minha alma se abriu, por assim dizer, para o Infinito, e os dois mundos, o interno e o externo, pareceram fundir-se num só. Era o abismo chamando o abismo – o abismo que a minha própria luta abrira no interior, corrspondido pelo insondável abismo exterior, que se estendia além das estrelas. Quedei-me a sós com Aquele que me fizera, e toda a beleza do mundo, e o amor e a tristeza e até a tentação. Não O procurei, mas senti a perfeita harmonia do meu espírito com o Seu. Desvaneceu-se o sentido ordinário das coisas à minha volta. Por um momento, nada ficou além de uma alegria e uma exaltação inefáveis. É impossível descrever plenamente a experiência. Dir-se-ia o efeito de alguma grande orquestra, quando todas as notas separadas se fundem numa única harmonia transbordante, que deixa o ouvinte cônscio de nada mais a nar ser de que sua alma está sendo levada para o alto, quase rebentando de emoção. A perfeita quietude da noite vibrava por efeito de um silêncio mais solene. A escuridão tinha uma presença tanto mais sentida quanto menos visível. Eu não poderia duvidar mais da presença d’Ele ali do que da minha. Na verdade, senti-me, se possível, o menos real dos dois.
Minha fé mais alta em Deus e minha idéia mais verdadeira d’Ele nasceram, então, em mim. Tenho subido ao monte da Visão depois disso e sentido o Eterno ao meu redor. Nunca mais, porém experimentei o mesmo despertar do coração. Se alguma vez estiver frente a frente com Deus, creio que foi nesse momento, quando nasci de nova do seu espírito. Não houve, se bem me lembro, nenhuma mudança súbita de pensamento ou de crença, a não ser que a minha primitiva e grosseira concepção explodira, por assim dizer, numa flor. Não houve destruição do antigo, senão um rápido e maravilhoso desdobrar-se. Desde esse momento, nenhuma discussão que eu tenha ouvido das provas da existência de Deus foi capaz de abalar-me a fé. Tendo sentido uma vez a presença do espírito divino, nunca tornei a perdê-lo por muito tempo. Minha prova mais indubitável da sua existência está profundamente enraizada naquela hora de visão, na lembrança daquela experiência suprema, e na convicção, que me incutiram a leitura e a reflexão, de que alguma coisa parecida ocorreu a quantos já encontraram Deus. Estou ciente de que isso pode, com justeza, ser chamado místico. Não estou tão familiarizado com a filosofia que possa defendê-la dessa ou de qualquer outra acusação. Sinto que, ao escrever sobre ela, sobrecvarreguei-a de aplavras em lugar de expô-la com clareza para o pensamento do leitor. Mas, tal como é, descrevi-a tão cuidadosamente quanto me foi possível fazê-lo”.

Aqui está outro documento, de caráter ainda mais definido, o qual, por Ter sido escrito por

7. Letters of Lowell, i. 75.

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Aqui está outro documento, de caráter ainda mais definido, o qual, por Ter sido escrito por um suíço, traduzido do original francês.8

“Eu gozava de perfeita saúde: estávamos em nosso sexto dia de caminhada, e em bom estado atlético. Tínhamos ido, na véspera, de Sixt a Trinet, passando por Buet. Eu não sentia cansaço, nem fome, nem sede, e meu estado de espírito era igualmente saudável. Recebera, em Forlaz, boas notícias de casa. Não me afligia nenhum tipo de ensiedade, nem próxima nem remota, pois tínhamos um bom guia, e não havia sequer a sombra de uma incerteza quanto à estrada que deveríamos seguir. A melhor maneira que tenho de descrever o estado em que eu me achava era chamar-lhe um estado de queilíbrio. Eis senão quando experimentei a repentina sensação de estar sendo erguido acima de mim, senti a presença de Deus – conto a coisa exatamente como dela tive consciência – como se a sua bondade e o seu poder me estivessem penetrando de todo em todo. A vibraçãoi da emoção foi tão violenta que mal pude dizer aos rapazes que passassem e não esperassem por mim. Sentei-me, então, numa pedra, incapaz de ficar de pé por mais tempo, e meus olhos se inundaram de lágrimas. Agradeci a Deus o haver-me ensinado, no curso da minha vida, a conhecê-lo, o haver sustentado minha e compadecido não só da criatura insignificante mas também do pecador que eu era. Supliquei-lhe ardentemente que me permitisse consagrar minha existência a fazer-lhe a vontade. Senti-lhe a resposta, segundo a qual eu deveria fazer-lhe a vontade dia a dia, na humildade e na pobreza, deixando que ele, o Deus Todo-Poderoso, fosse o juiz da conveniência ou não de seu ser, algum dia chamado a dar testemunho dele de maneira mais conspícua. Depois, devagarinho, o êxtase deixou-me o coração, isto é, senti que Deus recolhera a comunhão que havia concedido, e pude andar, mas muito devagar, tão vigorosamente ainda me possúia a emoção interior. Além disso, eu chorava sem interrupção por vários minutos, tinha os olhos inchados e não queria que meus companheiros me vissem. O estado de êxtase pode Ter durado quatro ou cinco minutos, embora parecesse na ocasião haver durado muito mais. Meus companheiros esperaram por mim dez minutos na encruzilhada de Barine, mas levei cerca de vinte e cinco ou trinta para juntar-me a eles pois, se não me falha a memória, eles me acusaram de havê-los atrasado cerca de meia hora. A impressão fora tão profunda que, entuqnato subia lentamente o aclive, eu perguntava a mim mesmo se era possível que Moisés no Sinal tivesse tido uma comunicação mais íntima com Deus. Creio dever acrescentr que, no meu êxtase, Deus não tinha forma, nem co4, nem cheiro, nem sabor; além disso, a sensação da sua presença não era acompanhada de nenhuma localização determinada. Era antes como se a minha personalidade houvesse sido transformada pela presença de um espírito espiritual. Mas, por mais que eu procure palavras para expressar esse intercâmbio íntimo, mais sinto a impossibilidade de descrever a coisa por qualquer uma de nossas imagens costumeiras. No fundo, a expressão mais capaz de traduzir o que senti é esta: Deus estava presente, embora invisível; não caiu debaixo de nenhum dos meus sentidos e, no entanto, minha consciência o percebeu.”

O adjetivo “místico” aplica-se, o mais das vezes, tecnicamente a estados de breve duração. É manifesto que horas de rapto como as que as duas últimas pessoas descrevem são experiências místicas, sobre as quais ainda terei muito que dizer numa próxima confgerência. Entrementes, eis, aqui está o registro resumido de outra experiência mística, ou semimística, num espírito evidentemente forjado pela natureza para a piedade ardente. Devo-a à coleção de Starbuck. A senhora que faz o relato é filha de um homem muito conhecido em seu tempo como escritor adversário do Cristianismo. A subitaneidade da conversão mostra muito bem como há de ser ingênito a certas mentes o sentido da presença de Deus. Conta ela que foi educada na total ignorância da doutrina cristã, mas, estando na Alemanha, persuadida a isso por amigos cristãos, leu a Bíblia, orou e, finalmente, o plano da salvação surgiu-lhe à frente como um jorro de luz.

“Até o dia de hoje”, escreve ela, “não consigo compreender que se possa brincar com a religião e com os mandamentos de Deus. No mesmo instante em que ouvi o grito de meu Pai me chamando, meu coração de um pulo de reconhecimento. Corri, estendi os braços, gritei: ‘Aqui, aqui estou, Pai’ Oh, criança feliz, o que devo faze?’ ‘Ama-me’, respondeu meu Deus. ‘Eu o amo, eu o amo’, gritei apaixonadamente. ‘Vem para mim’, chamou meu Pai. ‘Irei, meu coração pulsava. Acaso parei para fazer uma única pergunta? Nenhuma. Nunca me ocorreu perguntar se eu era suficientemente boa, ou hesitar diante da minha incompetência, ou descobrir o que eu achava da sua igreja, ou … esperar até me sentir satisfeita. Satisfeita! Eu estava satisfeita. Não havia porventura encontrado meu Deus e meu Pai? Não me amava ele? Não me chamara? Não havia uma Igreja em que eu podia entrar? … Desde então tenho tido respostas diretas para a oração – tão significativas que é quase o mesmo que falar com Deus e ouvir-lhe a resposta. A idéia da realidade de Deus nunca me deixou nem por um momento.”

Aqui está ainda outro caso, cujo autor é um homem de vinte e sete anos, em que a experiência, provavelmente quase tão característica, é menos vividamente descrita:

8. Tirei esta omunicação com a permissão do Professor Flourny, da sua rica coleção de documentos psicológicos.

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“Em muitas ocasiões senti que eu havia provado um período de íntima comunhão com o divino. Essas reuniões chegavam sem que eu as pedisse ou esperasse, e pareciam consistir tão-só na temporária obliteração das convencionalidades que, de ordinário, me cercam e cobrem a vida. ;;; Uma vez foi quando, do cume de uma alta montanha, olhei à minha frente e vi uma paisagem cortada e opndulada, que se estendia até um longo converxo de oceano que subia para o horizonte, e outra vez do mesmo ponto, quando não me era dado ver nada abaixo de mim a não ser uma extensão sem limites de nuvem branca, em cuma inflada superfície alguns picos mais altos, incluindo aquele em que eu m,e achava, pareciam mergulhar como se suas âncoras não se fixassem no fundo. O que senti nessas ocasiões foi uma perda temporária de minha própria identidade, acompanhada de uma iluminçaõ que me revelava um significado mais profundo do que o que eu estava acostumado a emprestar à vida. Nisso encontro minha justificativa para dizer que me tenho comunicado com Deus. Está claro que a ausência de um ser como esse significaria o caos. Não posso conceber a vida sem a sua presença”.

A amostra seguinte da coleção de manuscritos do Professor Starbuck pode dar uma idéia do sentido por assim dizer crônico da presença de Deus. Trata-se de um homem de quarenta e nove anos de idade – provavelmente milhars de cristãos sinceros escreveriam um relato quase idêntico ao dele.

“Deus é mais real para mim do que qualquer pensamento, ou coisa, ou pessoa. Sinto-lhe a presença positiva, e tanto mais quanto mais vivo em íntima harmonia com suas leis tais como estão escritas em meu corpo e em minha mente. Sinto-o no brilho do sol ou na chuva; e um respeitoso temor misturado a uma deliciosa tranqüilidade são os termos mais aptos a descrever meus sentimentos. Converso com ele como o faço com um companheiro na oração e no louvor, e a nossa comunhão é deleitosa. Ele responde muitas e muitas vezes, amiúde com palavras tão claramente proferidas que tenho a impressão de que o meu ouvido externo deve Ter-me trazido o som mas, por via de regra, com fortes impressões mentais. Geralmente é um texto da Escritura que me desvela alguma nova visão dele e do seu amor a mim, do seu zelo pela minha segurança. Eu poderia dar centenas de exemplos, de assuntos escolares, problemas sociais, dificuldades financeiras, etc. A sensação de que ele é meu e de que eu sou dele nunca me deixa e constitui para mim uma alegria permanente. Sem ela a vida seria um branco, um deserto, um ermo sem praias e sem pistas.”

Junto mais alguns exemplos de escritores de idades e sexos diferentes,. Foram tirados também da coleção do Professor Starbuck, e o seu número pode ser grandemente multiplicado. O primeiro é de um homem de vinte e sete anos de idade.

“Deus é perfeitamente real para mim. Falo com ele e muitas vezes obtenho respostas. Pensamentos súbitos e distintos de quaisquer outros que já tive me acodem à mente depois de pedir-lhe a orientação. Pouco mais de um ano atrás passei algumas semanas na mais terrível perplexidade. Quando o problema se apresentou pela primeira vez diantoe de mim fiquei atordoado, mas não demorou muito (duas ou três horas) e ouvi distintamente uma passagem da Escritura: “Minha graça é suficiente para ti”. Todas as vezes que os meus pensamentos se voltavam para o problema eu ouvia a citação. Não creio que eu tenha, alguma vez, duvidade da existência de Deus, ou deixado que ele se afastasse da minha consciência. Deus tem intervindo amiúde nos meus negócios de maneira muito perceptível, e sinto que ele está sempre dirigindo muitos detalhezinhos. Mas em duas ou três ocasiões tem-me dado ordens assaz contrárias às minhas ambições e aos meus planos”.

Outra declaração (não menos valiosa do ponto doe vista psicológico por ser decididamente tão infantil), é a de um rapaz de dezessete anos:

“Ás vezes, quando vou a igreja, sento-me, participo do serviço e, antes de sair, sinto que Deus esteve comigo, ao meu lado, cantando e lendo os Salmos comigo… E volto a sentir que eu poderia sentar-me ao seu lado, envolvê-lo com os braços, beijá-lo, etc. Quando estou tomando a Santa comunhão no altar, tento juntar-me a ele e geralmente sinto-lhe a presença”.

Seguem-se outras casos, a esmo:

“Deus me envolve como a atmosfera física. Ele está mais perto de mim do que a minha própria respiração. Nele, literalmente, vivo, movo-me e tenho o meu ser.”

“Há ocasiões em que pareço estar na sua presença, falar com ele. Respostas a orações têm-me chegado, às vezes, diretas e irresistíveis em sua revelação da presença e dos poderes ele. Momentos há em que Deus parece muito distante mas, nesses casos, a culpa é sempre minha.”

“Tenho o sentido de uma presença, forte e, ao mesmo tempo, meiga, que paira sobre mim. Às vezes parece envolver-me com braços que me sustentam.”

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Tal é a imaginação ontológica humana, e tal é o poder de convicção do que ela cria. Seres irretratáveis são concebidos, e concebidos com uma intensidade quase igual à de uma alucinação. Eles determinam nossa atitude vital da forma tão decisiva quanto a atitude vital das pessoas que se amam é determinado pelo sentido habitual, que obseda cada uma delas, da presença da outra no mundo. Quem ama tem notoriamente esse sentido da existência continuada do seu ídolo, até quando sua atenção é dirigida para outros assuntos e ele já não lhe figura os traços. Mas não pode esquecê-la, pois ela o afeta ininterrupta e inteiramente.
Aludi ao poder de convicção dessa ssenações da realidade, e preciso estender-me um pouco mais sobre o assunto. Elas são tão convincentes para os que têm como pode sê-lo qualquer experiência sensível direta, e são, em regra geral, muito mais convincentes do que os resultados estabelecidos pela simples lógica. Podemos ser, de fato, inteiramente despojados delas; é provável que mais de um dentre os senhores aqui presentes não as tenha em nenhum grau acentuado, mas se as têm, e as têm rigorosas, a probabilidade é a de que não podem deixar de considerá-las genuínas percepções da verdade, revelações de uma espécie de realidade que nenhum argumento contrário, por menos que os senhores possam responder-lhe com palavras alcançará expelir da sua crença. A opinião oposta ao misticismo, em filosofia, é qualificada, às vezes, de racionalismo. O racionalismo insiste em que todas as nossas crenças devem finalmente encontrar para si mesmas bases definíveis. Tais bases, para o racionalismo, consistem em quatro coisas: (1) princípios abstratos definidamente constáveis; (2) fatos de sensação definidos; (3) hipóteses definidas baseadas nesses fatos; e (4) inferências definidas deduzidas logicamente umas das outras. Impressões vagas de algo indefinido não têm lugar no sistema racionalístico, o qual, do lado positivo, é seguramente uma esplêndida tendência intelectual, pois não só todas as nossas filosofias são frutos dele, como tambénm a ciência física (entre outras coisas boas) é um resultado seu.
Sem embargo disso, se olharmos para toda a vida mental de um homem, tal como ela existe, ou para a vida dos homens que neles jaz separada do saber e da ciência, e que eles seguem íntima e privadamente, temos de confe3ssar que a parte dele explicada pelo racionalismo é relativamente superficial. É a parte que tem o prestígio, sem dúvida, pois tem a loquacidade, pode desafiá-los a apresentar provas, argumentar e demoli-los com palavras. Mas, de qualquer maneira, não vingará convencê-los nem convertê-los, se as suas intuições se opuserem à conclusões dela. Se os senhores possuem intuições, estas provém de um nível mais profundo de sua natureza do que o nível loquaz habitado pelo racionalismo. Toda a sua vida subconsciente, seus impulsos, suas crenças, suas necessidades, suas adivinhações, preparam as premissas, de cujo resultado a sua consciência sente agora o peso; e alguima coisa nos senhores sabe, de maneira absoluta, que esse resultado há de ser mais verdadeiro do que qualquer argumentação racionalística, por mais inteligente que seja, que possa contraditá-lo. A inferioridade do nível racionalístico é tão manifesta quando o racionalismo argúi em favor da religião do que quando argúi contra ela. A vasta literatura das provas da existência de Deus tiradas da ordem da natureza, que há um século parecia tão irresistivelmente convincente, hoje em dia pouco mais faz do que juntasr poeira nas bibliotecas, pela simples razão de que a nossa geração deixou de acreditar na espécie de Deus em cujo favor ela argumentava. Seja qual for a espécie de ser que Deus é, sabemos hoje que ele já deixou de ser o mero inventor externo de “artifícios” destinados a pôr de manifesto a sua “glória”, em que tanto se compraziam os nossos antepassados, embora o modo exato com que o sabemos não nos seja possível elucidar com palavras, nem aos outros nem a nós mesmos. Desafio qualquer um dos senhoresa explicar plenamente a sua persuasão de que, se existe um Deus, ele há de ser um personagem mais cósmico e mais trágico do que aquele Ser.,
A verdade é que, na esfera metafísica e religiosa, as razões definíveis só são irresistíveis para nós quando nossos sentimentos indefiníveis da realidade já foram impressionados em favor da mesma conclusão. Então, com efeito, nossas intuições e nossa razão trabalham juntas, e grandes sistemas capazes de governar o mundo, como o da filosofia budista ou o da filosofia católica, podem medrar. Nossa crença impulsiva é sempre o que ergue o corpo original da verdade, e a nossa filosofia definivelmente verbalizada é apenas a sua aparatosa tradução em fórmulas. A segurança desarrazoada e imediata é o que há de profundo em nós; o argumento

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razoado não passa de uma exibição superficial. O indivíduo conduz, a inteligência acompanha. Se uma pessoa sente a presença de um Deus vivo à maneira descrita pelas minhas citações, os argumentos críticos de outros, por superiors que sejam, debalde buscarão alterar-lhe a fé.,
Façam, porém, o favor de observar que ainda não estou dizendo que é melhor qaue o subconsciente e o não-racional a primazia no reino religioso. Limito-me, tão-somente, a assinalar que assim é.
Isso basta pelo que respeita ao nosso sentido da realidade dos objetos religiosos. Seja-me permitido dizedr agora uma palavrinha sobre as atitudes que eles despertam caracteristicamente.
Já concordamos em que elas são solenes; e temos razões para pehsar que a mais característica é a espécie de alegria que pode resultar em casos extremos de total entrega de si mesmo. O sentido do tipo de objeto ao qual se faz a entrega é muito importante para determinar a natureza preisa da alegria; e todo fenômeno é mais complexo do que o permitido por qualquer fórmula simples. Na literatura sobre o assunto, enfatizaram-se a tristeza e o contentamento, cada qual por seu turno. O antigo dito, segundo o qual o primeiro criador dos Deuses foi o medo, recebe volumosa corroboração de todas as eras da história religiosa; mas, apesar disso, a hist´ria religiosa mostra a parte que a alegria tem tido sempre a representar. Às vezes, a alegria se mostra primária; às vezes, secundária, resultando do júbilo de harve-se libertado do medo. Sendo o mais complexo, esse último estado de coisas é também o mais completo; e, à proporção que prosseguikmos, creio que teremos razões bastantes para recursar-nos a deixar de fora tanto a tristeza como a alegria, se olharmos para a religião com a amplitude de espírito que ela exige. Enunciada nos termos mais completos, a religião do homem envolve tanto os estados mentais de contração quanto os estados mentais de expansão do ser. Mas a mistura quantitativa e a ordem desses estados mentais variam tanto de uma época do mundo, de um sistema de pensamento e de um indivíduo para outro, que podemos insistir não só no pavor e na submissão, mas também na paz e na liberdade como a essência da matéria, e ainmda permanecer matieralmente dentro dos limites da verdade. O espectados constitucionalmente taciturno e o constinucionalmente sangüíneo enfatização aspectos opostos daquilo que têm à sua frente.
A pessoa religiosa de constituição taciturna faz até da sua paz religiosa uma coisa muito solene. O perigo ainda paira no ar em torno dela. A flexão e a contração não estão totalmente controladas. Seria coisa de pardal e de criança, depois da libertação, explodir em risos excitados e em cabriolas, e esquecer completamente o gavião no galho. Prostrai-vos, prostai-vos, pois estais nas mãos de um Deus vivo. No Livro de Jó, por exemplo, a impotência do homem e a onipotência de Deus são os pensamentos dominantes da mente do autor. “É tão alto quanto o céu; que podes fazer? – é mais fundo que o inferno; que podes saber?” Há um sabor adstringente na verdade desta convicção que alguns homens poderão sentir, e que para eles é a maior aproximação que se pode fazer do sentimento de alegria religiosa.

“Em Jó, diz o escritor friamente veraz, autor de Mark Rutherford, “Deus nos lembra que o homem não é a medida da sua criação. O mundo é imenso e foi construído segundo um plano ou uma teoria que o intelecto do homem não pode apreender. É transcendente em toda parte. Este é o teor de cada versículo, e o segredo, se é que há algum, do poema. Suficiente ou insuficiente, não há mais nada. … Deus é grande, não conhecemos os seus desígnios. Ele tira de nós tudo que temos mas, se póssuirmos nossas almas com paciência, poderemos transpor o vale das sombras, e sair de novo à luz do sol. Poderemos ou não poderemos! … Que temos nós para dizer agora dos aguaceiros além do que Deus já disse, há mais de dois mil e quinhentos anos?”9

Se voltarmos para o espectador sangüíneo, por outro lado, verificaremos que a libertação só será julgada completa depois que o sofrimento for de todo superado e o perigo esquecido. Esses espectadores nos dão definições que, para as mentes taciturnas de que falávamos há pouco, parecem deixar de fora toda a solenidade que torna a paz religiosa tão diferente das alegrias meramente animais. Na opinião de laguns autores, uma atitude pode ser capitulada de religiosa, embora nenhum toque tenha ficado nela de sacrifício ou submissão, nenhuma tendência para a flexão, nenhuma inclinação da cabeça. Toda “admiração habitual e regulada”, diz o Professor J. R. Seeley,10 “merece chamar-se religião”; e, conseqüentemente, ele acha que a nossa Música, a nossa ciência e a nossa pretensa “Civilização”, tal como estão agora organizadas

9. Mark Rutherford’s Deliverance, Londres, 1885, págs. 196,198.
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e com a admiração que lhes são dedicadas, formam as religiões mais autênticas do nosso tempo. Não há dúvidas que a maneira decidida e irracional com que sentimos dever infligir nossa civilização a raças “inferiores”, por meio de metralhadoras Hotchkiss, etc., nos recorda nada menos que o espírito primitivo do Islamismo difundindo sua religião pela espada.
Em minha última conferência citei para os senhores a opinião ultra-radical do Sr. Havelock Ellis, de que toda espécie de riso deve ser considerada um exercício religioso, pois dá testemunho da emancipação da alma. Citei essa opinião para negar-lhe a exatidão. Cumpre-nos agora, porém, saldar nossas contas mais cuidadosamente com esse jeito otimista de pensar. Este é um problema tão completo que não pode ser decidido de improviso. Proponho, portanto, que façamos do otimismo o tema das duas próximas conferências.

10. Em seu livro (muito pouco lido, receio eu), Natural Religion, 3ª edição, Boston, 1886, págs. 91,122.

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IV e V Conferência

A RELIGIÃO DO EQUILÍBRIO MENTAL

Se tivéssemos de fazer a pergunta: “Qual é a principal preocupação da vida humana?”, uma das respostas seria: “A felicidade”. Como alcançar, como conservar, como recobrar a felicidade é, de fato, para a maioria dos homens em todos os tempos, o motivo secreto doe tudo o que fazem e de tudo o que estão dispostos a suportar. A escola hedonística de ética deduz a vida moral inteiramente das experiências de felicidade e infelicidade produzidas pelos diferentes gêneros de conduta; e, ainda mais na vida religiosa do que na vida moral, a felicidade e a infelicidade parecem ser os pólos ao redor dos quais gira o interesse. Não precisamos ir tão longe a ponto de dizer, com o autor recentemente citado, que todo entusiamos persistente é, como tal, religião, nem precisamos qualificar o mero riso de exercício religioso; mas somos obrigados a admitir que qualquer gozo persistente pode produzir o tipo de reliugião que consiste na admiração agradecida do Dom de uma existência tão feliz; e precisamos também reconhecer que as maneiras mais complexas de experimentar a religião são novas maneiras de produzir felicidade, maravilhosos caminhos interiores para uma categoria sobrenatural de felicidade, quando o primeiro Dom da existência natural é infeliz, como tantas vezes acontece.
Como tais relações entre religião e felicidade, talvez não seja surpreendene que os homens venham a considerar a felicidade proporcionada por uma crença religiosa prova da sua verdade. Se um credo faz o homem sentir-se feliz, ele o adota quase inevitavelmente. Uma crença como essa tem de ser verdadeira; portanto, é verdadeira – esta, certa ou erradamente, é uma das “inferências imediatas” da lógica religiosa usada pelo homem comum.

“A presença próxima do espírito de Deus”, diz um escritor alemão,1 “pode ser experimentada na sua realidade – de feito, apenas experimentada. E a marca pela qual a existência e aproximidade do espírito se tornam irrefutavelmente claras para os que já tiveram alguma vez a experiência, é o sentimento de felicidade, totalmente incomparável, que está ligado à proximidade e, é, portanto, não só um sentimento possível e de todo apropriado para experimentarmos aqui embaixo, mas também a prova melhor e mais indispensável da realidade de Deus. Nenhuma outra prova é igualmente convincente e, por conseguinte, a felicidade é o ponto pelo qual toda teologia nova e eficaz deveria começar,”

Na hora que está imediatamente à nossa frente, ou os convido a examinar as espécies mais singelas da felicidade religiosa, adeixando aos mais complexas para outro dia.
Em muitas pessoas, a felicidade é congênita e irrevogável. A “emoção cósmica” toma nelas, inevitavelmente, a forma do entusiasmo e da liberdade. Não me refiro apenas aos enimalmente felizes. Refiro-me aos que, quando a infelicidade lhes é oferecida ou proposta, se recusam positivamente a senti-la, como se fosse alguma coisa mesoquinha e errada. Encontramos tais pessoas em todas as idades, artirando-se, apaixonadas, ao sentido da bondade da vida, apesar das provações da própria condição e em que pese às sinistras teologias em que possam Ter nascido. Desde o princípio, sua religião é de união com o divino. Os hereges que viveram antes da Reforma são profusamente acusados pelos escritores da igreja de práticas antinômicas, exatamente como os cristãos eram acusados de orgiastas pelos romanos. É provável que nunca tenha havido um século em que a recusa deliberada de pensar mal da vida não tenha sido idealizada por um número de pessoas suficiente para formar seitas, abertas ou secretas, que proclamavam a permissibilidade de todas as coisas naturais. A máxima de Santo Agostinho, Dilige et quod vis fac – ama a Deus e faze o que desejas – é uma das observações mais profundas do ponto de vista mora e, sem embargo disso, está prenhe, para as pessoas assim, de passaportes além dos limites da moral convencional. De acordo com seus caracteres, elas têm-se mostrado requintadas ou grosseiras; mas a sua crença tem sido em todos os tempos tão sistemáticas que constitui uma atitude religiosa definida. Para elas, Deus era um dador de liberdade, e o ferrete do mal fora superado. São Francisco e seus discípulos imediatos pertenciam, de um modo geral, a essa companhia de espíritos, da qual existem, naturalmente, infinitas variedades. Rousseau, nos primeiros anos dos seus escritos, Diderot, B. de Saint Pierre, e muitos chefes do movimento anti-

1. C. Hilty: Glück, dritter Theil, 1900, pág. 18.
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cristão do século XVIII foram desse tipo otimista. Eles deviam a própria influência a uma certa autoridade do seu sentimento, segundo o qual a Natureza, para os que nela sabem confiar, é absolutamente boa.
É de se esperar que todos tenhamos algum amigo, talvez mais amiúde feminino do que masculino, e mais freqüentemente jovem do que velho, cuja alma seja dessa cor azul celeste, que tenha mais afinidades com flores e pássaros e com todas as encantadoras inocências do que com escuras paixões humana\s, que não saiba pensar mal do homem nem de Deus, e no qual a alegria religiosa, de que está de posse desde o princípio, não precisa libertar-se de nenbhum sofrimento anterior.

“Deus tem duas famílias de filhos nesta terra”, diz Francis W. Newman, 2 “os nascidos uma vez e os nasxcidos duas vezes, e descreve os nascidos uma vez da seguinte forma: “Eles vêem Deus, não como Juiz rigoroso, nem como Glorioso Potentado, senão como Espírito animador de um belo mundo harmonioso, Benfazejo e Bondoso, Misericordioso e Puro. Esses personagens geralmente não têm tendências metafísicas: não olham para dentro de si mesmos. Por conseguinte, não se afligem com as próprias imperfeições e, todavia, fora absurdo chamar-lhes presunçosos, pois escassamente pensam em si mesmos. Essa qualidade infantil da sua natureza faz o caminho da religião muito feliz para eles: pois eles não se encolhem mais diante de Deus quanto uma criança diante de um imperador, cuja presença faz tremer seus pais: com efeito, eles não têm qualquer concepção vívida de nenhuma das qualidades da mais severa Majestade de Deus, 3 que é, para eles, a personificação da Bondade e da Beleza. Eles lêem-lhe o caráter, não no mundo desordenado do homem, mas na natureza romântica e harmoniosa. Do pecado humano talvez pouco saibam em seus corações e não muito no mundo, e o soforimento humano mal lhes desperta a ternura. Assim sendo, quando se aproxiam de Deus, nada lhes perturba o interior; e, sem ser espirituais, têm certa complacência e talvez um sentido romântico de excitamento em sua singela adoração.”

Tais personagens encontram um solo mais favorável para medrar na Igreja de Roma do que no Protestantismo, cujos modos de sentir foram estabelecidos por mentes de uma ordem decididamente pessimista. Mas até no Protestantismo têm sido abundantes; e em seus recentes desenvolvimentos “liberais” de Unitarismo e Latitudinarismo em geral, mentes dessa ordem têm desempenhado e ainda desempenham papéis condutores e construtivos. O próprio Emerson é um exemplo admirável. Theodore Parkes é outro – e aqui está um par de passagens características da correspondência de Parker.4

“Dizem os eruditos ortodoxos: ’Nos clássicos pagãos não encontrais a consciência do pecado’. Éa pura verdade – e Deus seja louvado por isso. Eles tinham consciência da ira, da crueldade, da avareza. Da intemperança, da luxúria, da preguiça, da covardia e de outros vícios reais; lutavam e livravam-se das deformidades, mas não tinham consciência da ‘inimizade a Deus’, e não ficavam sentados, choramingando e gemendo contra o mal inexistente. Tenho feito muita coisa errada em minha vida, e continuo a fazê-lo; erro o alvo, reteso o arco e tento outraz vez. Mas não tenho consciência de odiar a Deus, nem ao homem, nem ao direito, nem ao amor, e sei que há muita ‘saúde em mim’, e em meu corpo, mesmo agora, há muita coisa boa, apesar da tísica e de São Paulo.” Em outra carta, escreve Parker: “Tenho nadado em águas claras e doces todos os dias e se, algumas vezes, elas foram muito frias, e a corrente fluiu em sentido contrário e de um modo algo turbulento, nunca foi tão forte que eu tivesse de pôr peito a ela e vencê-la. Desde os dias da minha primeira meninice, quando eu andava tropeçando pela grama, … até a virilidade agrisalhada de hoje, não se passou um só dia que não me tenha deixado algum mel na colméia da memória de que agora tiro o alimento para o atual deleite. Quando me lembro dos anos … invade-me um sentido de doçura e pasmo de que coisas tão pequenas possam tornar um mortal tão excessivamente rico. Deve confessar, contudo, que o principal dos meus deleites ainda é o religioso”.

Outra boa expressão do tipo de consciência dos “nascidos uma vez”, que se desenvolvem direta e naturalmente, sem nenhum elemento de compunção mórbida ou crise, está contida na resposta do Dr. Edward Everett Hale, eminente pregador e escritor unitarista, a uma das circulares do Dr. Starbuck. Cito parte dela:

2. The Soul, its Sorrows and its Aspirations, 3ª edição, 1852, págs. 89, 91.
3. Certa vez ouvi uma senhora descrever o prazer que lhe proporcionava a idéia de que “sempre podia aninhar-se nos braços de Deus”.
4. John Weiss; Life of Theodore Parker, i. 152, 32.

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“Observo, com profundo pesar, as lutas religiosas que surgem em muitas biografias, como se fossem quase essenciais à formação do herói. Devo falar delas para dizer que goza de uma vantagem inestimável todo home que nasce, como eu nasci, numa família em que a religião é simples e racional, que é educado na teoria dessa religião, de modo que nunca sabe, nem mesmo por uma hora, o que são as lutas religiosas ou irreligiosas. Eu sempre soube que Deus me amava, e sempre lhe fui grato pelo mundo em que me colocou. Sempre me agradou dizer-lhe isso, e sempre me alegrou receber as sugestões que ele me fazia. … Lembro-me perfeitamente de que, quando eu me avizinhava da idade viril, os romances semifilosóficos da época tinham muita coisa para dizer a respeito dos moços e moças que defrontavam com o ‘problema da vida’. Eu não fazia a menor idéia do que fosse o problema da vida. Viver com toda a minha força me parecia fácil; aprender onde havia tanta coisa para aprender me parecia agradável e quase óbvio; dar uma mão, quando se me oferecia oportunidade de dá-la, natural ; e, se alguém o fiesse, gozava a vida porque não podia deixar de fazê-lo, e sem precisar provar a si mesmo que devia gozá-la. … Uma criança a quem ensinam desde o começo que é filha de Deus, que pode viver mover-=se e Ter o seu ser em Deus, e que tem, portanto, uma força infinita à mão para vencer qualquer dificuldade, levará a vida com maior facilidade e, provavelmente, o fará melhor do que aquela a quem doisseram que nasceu filha da ira e que é totalmente incapaz de fazé totalmente incapaz de faz o bem”.5

Não podemos deixar de reconhecer em escritores como esses a presença de um temperamento organicamente voltado para o lado da alegria e fatalmente proibido de demorar-se, como se demoram os de temperamento oposto, nos aspectos mais escuros do universo. Em alguns indivíduos, o otimismo torna-se quase patológico, como se não fossem capazes nem mesmo de uma tristeza transitória ou de uma humildade momentânea, graças a uma espécie de anestesia congênita.6
O supremo exemplo contemporâneo dessa incapacidade de sentir o mal é, evidentemente, Walt Whitman.

“Suas projeções favoritas”, escreve seu discípulo, Dr. Bucke, “pareciam ser caminhar ao léu ou perambular a esmo, sozinho, olhando para a relva, as árvores, as flores, os efeitos de luz, os aspectos cambiantes do céu, e prestar atenção aos pássaros, aos grilos, às rainetas e a todas as centenas de sons naturais. Era evidente que essas coisas lhe davam um prazer muito maior do que o que dão às pessoas comuns. Até conhecer o homem”, continua o Dr. Bucke, “não me ocorrera que alguém pudesse encontrar tatanta felicidade absoluta nessas coisas quanto ele. Gostava intensamente de flores, quer silvestres, quer cultivadas, amava todos os tipos. Creio que admirava os lilases e girassóis tanto quanto as rosas. Talvez, na verdade, homem nenhum que já viveu gostasse de tantas coisas e desostasse de tão poucas quanto Walt Whitman. Todos os objetos naturais pareciam ter um encanto especial para ele. Dir-se-ia que odas as vistas e todos os sons lhe agradassem. Ele dava a impressão de gostar (e creio que gostava mesmo) de todos os homens, mulheres e crianças que via (embora eu nunca o ouvisse dizer que se agradava de alguém), mas todas as pessoas que o conheciam sentiam que ele as apreciava e apreciava outras também. Nunca o vi discutir nem brigar, nem ouvi dizer que o tivesse feito, e ele nunca falava em dinheiro. Justificava sempre, às vezes em tom brincalhão, às vezes a sério, os que se referiam duramente a ele ou aos seus escritos, e muita vez me pareceu que encontrava prazer na oposição dos inimigos. Quando o conheci, eu costumava pensar que ele se policiava e não permitira à própria língua dar expressão ao mau humor, à antipatia, a queixas e admoestações. Não me ocorreu a possibilidade que esses estados mentais estivessem ausentes nele. Depois de longa observação, no entanto, compenetrei-me de que tal ausência ou inconsciência era inteiramente real. Ele nunca falava de forma depreciativa de nenhuma nacionalidade ou classe de homens, nem de épocas na história do mundo, nem de qualquer ofícios ou ocupações – nem sequer de animais, insetos ou coisas inanimadas, nem das leis da natureza, nem de nenhum resultado dessas leis, como doenças, deformidades e morte. Nunca se queixava do tempo, nem de dores, nem de doenças,
nem de coisa alguma, e tampouco resmungava contra elas. Nunca xingava. Nem saberia fazê-lo, visto que nunca
falava com raiva e, aparentemente, nunca se zangava. Nunca demonstrou ter medo, e não acredito que alguma vez o tivesse sentido.”7

5. Starbuck: Psychology of Religion, págs. 305, 306.
6.“Não sei a que leis físicas os filósofos atribuirão algum dia os sentimentos de melancolia. Eu, por mim, acho que são as mais voluptuosas de todas as sensações”, escreve Bernardin de St. Pierre e, conseguintemente, dedida uma série de seções de sua obra sobre a Natureza aos Prazeres da Ruína, aos Prazeres dos Túmulos, às Ruínas da Naturea, aos Prazeres da Solidão – cada qual mais otimista do que os outros. Esse encontro de um deleite na desgraça é muito comum durante a adolescência. A verz Marie Bashkirtseff expressa-o bem: “Nesta depressão e medonho soforimento sem tréguas, não condeno a vida. Pelo contrário, gosto dela e acho-a boa. Pode-se acreditar nisso? Tudo me parece bom e agradável, até minhas lágrimas, minha dor. Agrada-me chorar, agrada-me o meu desespero. Agrada-me estar exasperada e triste. Sinto-m,e como se todas essas coisas fossem oturas tantas diversões, e amo a vida apesar de todas elas. Quero continuar vivendo. Seria cruel deixar-me morrer quando sou tão acomodatícia. Choro, sofro e, ao mesmo tempo, sinto-me satisfeita – não, não é exatamente isso – não sei como expresá-lo. Mas tudo na vida me apraz. Acho tudo agradável, e até no meio das minhas preces pela felicidade sinto-me feliz por ser desgraçada. Não sou eu quem padece tudo isso – meu corpo chora e se carpe; mas alguma coisoa dentro de mim, que está acima de mim, se alegra com tudo. “Journal de Marie Bashkirtseff, i. 67.
7. R. M. Bucke: Cosmic Consciousness, págs. 182-186, resumido.
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Walt Whitman deve sua importância na literatura à expulsão sistemática dos seus escritos de quaisquer elementos contráteis. Os únicos sentimentos que se permitia expressar eram de ordem expansiva;e expressava-os na primeira pessoa, não como outros indivíduos monstruosamente vaidosos poderiam expressá-los, mas em nome de todos os homens, de modo que uma apaxonada e mística emoção ontológica lhe penetra as palavras, que acabam persuadindo o leitor de que homens e mulheres, a vida e a morte, e todas as coisas são divinamente boas.
Dessa maneira aconteceu que, para muitas pessoas, Walt Whitman é hoje o restaurador da eterna religião naotural. Ele as contagiou com o seu próprio amor aos companheiros, com sua própria alegria por ele e eles existirem. Formam-se realmente sociedades para o seu culto; existe um órgão periódico destinado à sua propagação, em que as linhas da ortodoxia e da heterodoxia já estão começando a ser traçadas;8 hinbos são escritos por outros em sua prosódia peculiar; e ele até comparado explicitamente com o fundador da rteligião cristã, nem sempre com vantagem para este último.
Fala-se não raro de Whitman como de um “pagão”. A palavra, hoje em dia, significa, às vezes, o simples homem animal, natural, despojado de sentido do pecado; às vezes, significa um grego ou um romano com sua consciência religiosa peculiar. Em nenhum desses sentidos o vocábulo define convenientemente o poeta. Ele é mais do que o mero homem animal que não provou da árvore do bem e do mal. Está tão cônscio do pecado que há uma certa arrogância na sua indiferença a ele, um orgulho consciente da sua liberdade de flexões e contrações, que o autêntico pagão no primeiro sentido jamais seria capaz de mostrar.

“Eu poderia virar e viver com animais, eles são tão plácidos e auto-suficientes,
Fico de pé e contemplo-s longamente;
Eles não suam nem lamuriam a sua condição.
Não ficam acorados no escuro nem choram por seus pecados.
Nenhum deles está insatisfeito, nenhum dementado pela mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha diante do outro, nem diante dos animais da sua espécie que
Viveram há milhares de anos,
Não há nenhum respeitável ou infeliz em toda a terra.”9

Nenhum pagão natural teria escrito estes versos tão conhecidos. Por outro lado, porém, Whitman é menos do que um grego ou um romano, cuja consciência, mesmo nos tempos homéricos, estava cheia até a borda da triste mortalidade deste mundo ensolarado, e Walt Whitman recusa-se a adotar uma consciência dessa natureza. Quando, por exemplo, Aquiles, prestes a matar Licáon, filho de Príamo, ouve o rapaz suplicar misericórdia, detém-se para dizer:

“Eis, meu amigo, morre tu também! Por que lamentar a sorte? Também morreu Pátroclo, que valia muito mais do que tu. … Sobre mim também está suspensa a morte e o destino poderoso. Será ao surdir da aurora, será à tarde, será no meio do dia que alguém me arrancará também a vida a mando de Ares, ferindo-me com a lança ou a flecha de um arco”. 10

Em seguida, Aquiles, selvagemente, corta com a espada o pescoço do pobre rapaz, ergue-o pelo pé e joga-o no Escamandro, chamando os peixes do rio para comer a alva gordura de Licáon. E assim como aqui a crueldade e a simpatia soam verdadeiras, e não se misturam nem interferem uma coma outra, assim também os gregos e romanos mantém inteiras e sem mistura toda a sua tristeza e toda a sua alegria. Instintivamente bons, não reconheciam o pecado; nem tinham um desejo tão grandoe de salvar o crédito do universo que os fizesse insistir, como muitos dentre nós insistimos, em que o que imediatamente surge como mal há de ser “um bem em formação”, ou q ualquer outra coisa igualmente engenhosa. Para os primitivos gregos, o bom era bom e o mau era mau. Eles nem negava,m os males da natureza – o verso de Walt Whitman, “O que se chama bom é perfeito e o que se chama mau é igualmente perfeito”, teria sido para eles mera tolice – nem inventavam, para escapar desses males, “outro modo melhor” da imaginação, e

8. Refiro-me a The Conservator, dirigido por Horace Traubel, e publicado mensalmente em Filadélfia.
9. Song of Myself, 32
10. Ilíada, XXI, Tradução para o inglês de E. Myers.

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que, a par com os males, os bens inocentes dos sentidos também não encontrariam lugar. A integridade das reações instintivas, a liberdade de toda sofisticaria e tensão morais confere uma dignidade patética ao antigo sentimento pagão. E ssa qualidade as efusões de Whitman não têm. Seu otimismo é demasiado voluntário e desafiador, seu evangelho tem laivos de fanfarronice e afetação11 e isso lhe diminui o efeito sobre muitos leitores, aliás, bem dispostos em relação ao otimismo e, de um modo geral, perfeitamente inclinados a admitir quer, em sentidos importantes, Whitman pertence à linhagem autêntica dos profetas.
Se, portanto, dermos o nome de equilíbrio mental à tendência que olha para todas as coisas e vê que são boas, chegaremos à conclusão de que nprecisamos distinguir entre um meio, mais involuntário e um meio mais voluntário ou sistemático de ser mentalmente equilibrado. Em sua varidade involuntária, o equilíbrio mental é um modo de sentir-se a gebnte feliz ao contato imediato das coisas. Em sua variedade sistemática, é um modo abstrato de conceber as coisas como boas. Toda maneira abstrata de conceber as coisas scohe um aspecto delas como sua essência por algum tempo, e despreza os outros aspectos. O equilíbrio mental sistemático, concebendo o bem como o aspecto essencial e universal do ser, exclui deliberadamente o mal do seu campo de visão, e, todavia, assim numente enunciado, isso pode parecer uma proeza difícil de executar-se para quem é intelectualmente sincero consigo mesmo e honesto em relação aos fatos; basta, porém, refletir um pouco para ver que a situação é tão complexa que não pode prestar-se a uma crítica tão simples.
Em primeiro lugar, a feicidade, como todos os outros estados emocionais, é cega e insensível aos fatos contrários dados a ela como arma instintiva para se proteger de uma possível pertubação. Quando a felicidade impera realmente, a idéia do mal já não pode lograr o sentido da realidade, como a idéia do bem não pode obtê-lo quando impera a melancolia. Para o homem ativamente feliz, seja qual for a causa, o mal não pode ser criado, naquele momento e naquele lugar. Cumpre-lhe não fazer caso dele; e, para o circunstante, pode ser que ele pareça estar fechando perversamente os olhos para o mal e impondo-lhe silêncio.
Mais do que isso, porém: o impor-lhe silêncio, num espírito perfeitamente sincero e honesto, pode converter-se numa política religiosa deliberada, ou parti pris. Muita coisa do que denominamos mal se deve interiamente ao modo com que os homens encaram o fenômeno. Ele muitas vezes se converte num bem estimulante e tônico por simples mudança da atitude interna daquele que sofre, que passa do medo à luta; seu ferrão tantas vezes desaparece e muda-se em prazer quando, depois de procurar em vão evitá-lo, concordamos em enfrentá-lo e suportá-lo com alegria, que o hoem se vê simplesmente obrigado, até por uma questão de honra, dioante de muitos fatos que parecem, de início,m turbar-lhe a paz, a adotar esse modo de fuga. Recusa-se a admitir-lhes a maldade; despreza-lhes o poder; não dá importância à sua presença; desvia a atenção para outro lado; e, de qualquer maneira, no que concerne a si próprio, embora os fatos ainda existam, o seu caráter perverso já deixou de existir. Visto ser a pessoa quem os faz maus ou bons pelos próprios pensamentos, governá-los há de ser a sua principal preocupação.
Destarte, a adoção deliberada de uma propensão otimista da mente ingressa na filosofia. E, depois de haver ingressado, é difícil traçar-lhe os limites legítimos. Não apenas o instinto humano da felicidade, empenhado em proteger-se pela ignorância, continua trabalhando em seu favor, mas também ideiais íntimos mais elevados têm palavras de peso para dizer. A atitude de infelicidade não ´s somente pnosa, mas também mesquinha e feia. Que é o que pode ser mais baixo e indigno do que o estado de espírito choramingas, lamurioso, mal-humorado, sejam quais forem os males externos que o possam Ter engendrado? Que é mais prejudicial aos outros? Que é menos útil como meio de livar-se da dificuldade? Ele apenas fixa e perpetua o problema que o ocasionou, e aumenta o mal total da situação. A todo custo, portanto, impende reduzir a influência desse estado de espírito; devemos investigá-lo em nós mesmos e nos outros, e nunca mostrar-lhe tolerância. Mas é impossível prosseguir nessa disciplina na esfera subjetiva sem enfatizar zelosamente os aspectos mais brilhantes e sem minimizar, ao mesmo tempo, os aspectos mais escuros da esfera objetiva das coisas. E, dessa forma, nossa resolução de não condescender com

11. “Deus tem medo de mim!” observou um amigo dotado de titânico otimismo, na minha presença, certa manhã, quando se sentiu particularmente entusiasmado e canibalístico. A bazófia da frase mostrava que uma educação cristã de humildade ainda lhe empeçonhava o espírito.
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o sofrimento, começando num ponto relativamente pequeno dentro de nós, pode não se interromper enquanto não tiver colocado toda a estrutura da realidade sob uma concepção sistemática tão otimista que se torna congenial à suas necessidades.
Em tudo isso não aludo a nenhuma visão intuitiva ou persuasão mística de que a estruura total das coisas precisa absolutamente ser boa. Tal persuasão mística representa uma parte enorme na história da consciência religiosa, e teremos de examiná-la mais tarde com algum cuidado. Aogra, porém, não precisamos ir tão longe. Condições não-místicas mais comuns de ruptura bastam à minha argüição imediata. Todos os estados morais agressivos e entusiasmos apaixonados nos fazem sentir insensíveis ao mal de alguma forma. As penas comuns já não tolhem o patriota, as prudência costumeiras são lançadas ao vento pelo apaixonado. Quando a paixão é extrema, o soforimento, na verdade, pode ser exaltado contato que seja para a causa idela, a morte perde o acúleo e o túmulo, a vitória. Nesses estados, o contraste comum entre o bem e o mal parece absorvido numa denominação mais alta, numa excitação onipotente que engolfa o mal e que o ser humano recebe como a experiência crucial de sua vida. Isto, diz ele, é realmente viver, e eu exulto pela oportunidade e pela aventura heróicas.
O cultivo sistemático do equilíbrio mental como atitude religiosa consentâneo com correntes importantes da natureza humana, pode ser tudo, menos absurdo. Com efeito, todos nós o cultivamos mais ou menos, até quando a teologia que professamos deveria, por coerência, vedá-lo. Desvimos a atenção da doença e da morte quanto podemos, e os matadouros e as indecências sem fim sobre as quais se funda a nossa vida são afastadas atabalhoadamente da nossa vista e nunca mencionadas, de sorte que o mundo que reconhecemos oficialmente na literatura e na sociedade é uma ficção poética muito mais bonita, mais asseada e melhor do que o mundo real.12
O progresso do chamado liberalismo no Cristianismo, durante os últimos cinqüenta anos, pode chamar-se com justiça uma vitória do equilíbrio mental, dentro da igreja, sobre a morbidez com a qual a velha teologia do fogo do inferno se relacionaa mais harmoniosamente. Temos agora toda uma congregação cujos pregadores, longe de dilatar a nossa consociência do pecado, precem empenhados em fazer pouco dela. Desprezam, e at´-e negam, o castigo eterno, e insistem mais na dignidade do que na depravação do homem. Olham para a contínua preocupação do cristão à moda antiga com a salvação da sua alma como algo mais enfermiço e repreensível do que admirável e uma atitude sangüínea e “muscular”, que para os nossos maiores teria parecido puramente pagã, tornou-se aos seus olhos um elemento ideal do caráter cristão. Não pergunto se eles estão certos ou não, apenas assinalo a mudança.
As pessoas a que me refiro aindoa conservam, na maior parte, a conexão nominal com o Cristianismo, apesar de haverem psoto de lado seus elementos teológicos mais pessimistas. Mas nessa “teoria da evolução”, que vem reunindo forças há um século, e se espalham, nos últimos vinte e cinco anos, com tanta rapidez, pela Europa e pela América, vemos o solo preparado para uma nova espécie de religião da Natureza, que deslocou inteiramente o Cristianismo da idéia de grande parte da nossa geração. A noção da evolução universal presta-se a uyma doutrina de meliorismo e progresso, que tão bem se ajusta às necessidades religiosas dos mentalmente equilibrados que até parece Ter sido criada para o seu uso. Por conseguinte, encontramos o “evolucionismo” interpretado assim otimistamente, e abraçado como substituto da religião em cujo seio nasceram, por uma multidão de contemporâneos nossos que ou receberam uma educação científica, ou sempre gostaram de ler artigos sobre ciência popular, e que já estavam começando a ficar interiormente insatisfeitos com o que lhes parecia o rigor e a irracionalidade do esquema ortodoxo cristão. Como os exemplos são melhroes do que as descrições, citarei um documento recebido em resposta a um questionário elaborado pelo Professor Starbuck. O estado de espírito do autor às respostas pode ser chamado, por cortesia, de religião, pois sua reação a toda a natureza das coisas é sistemática e reflexiva, e lealmente o liga a certos ideiais íntimos. Creio que

12. “À medida que prossigo nesta vida, dia após dia, torno-me cada vez mais, uma criança aturdida; não consigo acostumar-me a este mundo, à procriação, à hereditariedade, à vista, à audição; as coisas mais comuns são um peso. A superfície formalista, apagada, polida da vida, e os vastos fundamentos obscenos e orgiásticos – ou menádicos – formam um espetáculo com que nenhuim hábito me reconcilia.” R. Stevenson, Letters, ii, 335.

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os senhores reconhecerão na sua falta de senbilidade e na sua invulnerabilidade um tanto grosseira de espírito, um tipo contemporâneo assaz familiar.

P. Que significa a Religião para você?
R. Não significa nada; e me parece, pelo que me é dado observar, inútil para os outros. Tenho sessenta
e sete anos de idade, residi em X. por cinqüenta anos e estou no comércio há quarenta e cinco; tenho, portanto, alguma experiência da vida e dos homens, e de algumas mulheres também, e descobri que as pessoas mais religiosas e piedosas são, por via de regra, ao menos íntegras e morais. Os homens que não freqüentam a igreja ou não têm convicções religiosas são os melhores. Isso de rezar, cantar hinos e fazer sermões é pernicioso – ensina a gente a confiar em algum poder sobrenatural, quando devíamos confiar em nós mesmos. Desacredito totalmente de Deus. A idéia de Deus foi engendrada na ignorância, no medo e numa falta geral de qualquer conhecimento da Natureza. Se eu devesse morrer agora, estando bem de saúde para a minha idade, tanto mental quanto física, morreira de bom grado ouvindo música, praticando esporte ou empenhado em qualquer outro passatempo racional. Assim como o relógio pára, assim também morremos – não há imortalidade em nenhum dos casos.
P. Que é o que corresponde, em sua mente, às palavras Deus, Céu, Anjos, etc.?
R. Absolutamente nada. Sou um homem sem religião. Essas palavras snão passam de baboseiras míticas.
P. Você já teve alguma experiência que lhe tivesse parecido providencial?
R. Absolutamentoe nenuyjma. Não há poder algum que superintenda as nossas vidas. Uma pequena observação judiciosa bem como o conhecimento da lei científica convencerão qualquer um desse fato.
P. Quais são as coisas que atuam com maior vigor sobre as suas emoções?
R. Cantos e músicas alegres; Bibe em vez de Oratório. Gosto de Scott, Burns, Byron, Longfellow, especialmente Shakespeare, etc., etc. No tocante às cançõies, a Star-spangled Banner, a América, a Marselhesa e todos os cantos morais que mexem com a alma da gente, mas detesto hinos água-com-açúcar. Aprecio imensamente a natureza, sobretudo quando faz bom tempo, e até há poucos anos eu costumava ir para o campos aos domingos, andando muitas vezes dezesseis milhas, sem me cansar, e pedalando quarenta ou cinqüenta. Larguei a bicicleta. Nunca vou à Igreja, mas assisto a conferências, quando são boas. Todos os meus pensamentos e cogitações tênm sido de um tipo saudável e jovial pois, em lugar de ter dúvidas e medo, vejo as coisas como elas são, forcejando por ajustar-me ao meu ambiente. Essa é a lei que considero mais profunda. O gênero humano é um animal progressivo. Tenho a certeza de que terá feito um grande avanço sobre o seu status atual daqui ma mil anos.
P. Qual é a sua idéia de pecado?
R. A mim me parece que o pecado é uma condição, uma moléstia, a que o homem está sujeito porque o seu desenvolvimento ainda não se adiantou bastante. Devemos pensar que daqui a um milhão de anos a eqüidade, a justiça e a boa odem mental e física estarão tão fixas e organizadas que ninguém terá nenhuma idéia do mal nem do pecado.
P. Como é o seu temperamento?
R. Nervoso, ativo, desperto, mental e fisicamente. É uma pena que a Natureza nos obrigue a dormir.

Se estivermos à procura de um coração partido e contrito, é evidente que não devemos olhar para esse irmão. Seu contentamento com o infinito envolve-o como uma concha de ostra e escuda-o contra toda a mórbida aflição provocada pelo seu distanciamento do Infinito. Temos dele excelente exemplo do otimismo que pode ser estimulado pela ciência popular.
A meu parecer, uma corrente muito mais importante e interessante, do ponto de vista religioso, do que a que vai da ciência natural ao equilíbrio mental é a que recentemente se derramou sobre a América e parece estar ganhando força todos os dias, – ignoro completamente o apoio que ela pode ter conseguido na Grã-Bretanha – e à qual, por amor de uma designação lacônica, darei o noem de “Movimento da cura psíquica”. Existem várias seitas desse “Pensamento Novo”, para usar outro nome que ela confere a si mesma; mas suas concordâncias são tão profundas que suas diferenças podem ser descuradas para o que tenho em mente, e tratarei o movimento, sem nmaiores justificativas, como se fosse uma coisa simples.
Trata-se de um esquema de vida deliberadamente otimista, com um lado ao mesmo tempo speculativo e prático. Em seu gradativo desenvolvimento bno derradeiro quarto de século, absorveu certo número de elementos contributivos e agora deve ser considerado um autêntico poder religioso. Chegou à fase, por exemplo, em que a procura da sua literatura é tão grande que justifica a produção de materiais insinceros, mecanicamente produzidos para o mercado, até certo ponto fornecidos por editores – fenômeno nunca observado, imagino eu, enquanto a religião não ultrapassa os seus primórdios inseguros.
Uma das fontes doutrinárias da cura psíquica são os quatro Evangelkhos; outra é o emersonianismo ou o trancendentalismo da Nova Inglaterra; outra é o idealismo de Berkeley; outra
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é o espiritismo, com suas mensagens de “lei”, “progresso” e “desenvolvimento”; outra é o evolucionismo da ciência popular otimista de que falei há pouco; e, finalmente, o estudo do Hinduísmo. Mas o traço mais característico do movimento da cura psíquica é uma inspiração muito mais direta. Os chefes dessa fé tiveram uma crença intuitiva no poder salvador das atitudes de quilíbrio mental como tais, na eficácia conquistadora da coragem, da esperança e da confiança, e num desprezo correlativo da dúvida, do medo, da preocupação e de todos os estados de esp´rito nervosamentoe admonitórios. 13 De um modo fgeral, sua crença foi corroborada pela experiência prática dos discípulos; e essa experiência forma hoje uma massa imponente pelo vulto.
Os cegos viram, os coxos andaram; os que carregavam uma existência inteira de invalidez tiveram a saúde restaurada. Os frutos morais não foram mnenos notáveis. A adoção deliberada de uma atitude de equilíbrio mental revelou-se possível a muitos que nunca supuseram tê-la em siu mesmos; a regeneração do caráter prosseguiu em larga escala; e a jovialidade foi restaurada em lares sem conta. A influência indireta de tudo isso tem sido grande. Os princípios da cura psíquica estão começando a difundir-se de tal maneira que lhes captamos o espírito de Segunda-mão. Ouvimos falar no “Evangelho do Relaxamento”, no “!Movimento do Não-se-Preocupe”, das pessoas que repetem para si mesmas, “Mocidade, saúde, vigor!” enquanto se vestem pela manhã, como divisa para o resto do dia. As queixas contra o tempo estão começando a ser proibidas em muitas casas; e um número cada vez maior de pessoas reconhece que não ficoa bem falar em sensações desagradpaveis, ou fazer muito caso das inconveniências e aborrecimentos da vida. Esses efeito tônicos gerais sobre a opinião pública seriam bons mesmo que não existissem os resultados mais surpreendentes. Mas estes últimos abundam de tal forma que podemos dar-nos ao luxo e passar por alto os inumeráveis fracassos e decepções com que eles vêm misturados (pois em tudo o que é humano o fracasso é natural), como também podemos passar por alto a verbosidade de muita literatura da cura psíquica, parte da qual está tão adoidada pelo otimismo e é tão vagamente expressa que a sua leitura é quase impossível para um intelecto que tenha tido uma educação acadêmica.
Subsiste, porém, o fato de que a propagação do movimento se deveu aos seus frutos práticos, e o caráter sumamente pragmático do povo americano jamais encontrou melhor oportunidade para mostrar-=se do que esta, sua única contribuição dfecididamente original à filosofia sistemática da vida, tão intimamente ligada à terapêutica concreta. As profissões médica e clerical dos Estados Unidos estão começando a abrir os olhos, embora com muita recalcitrância e protestos, para a importância da cura psíquica. É manifesto que ele está destinado a desenvolver-se ainda mais, tanto especulativa quanto praticamente, e os seus últimos escritores são, sem contestação, os mais hábeis do grupo.14 Não importa que, assim como há muitíssimas pessoas que não sabem rezar, assim há, em maior número ainda, as que não podem ser influenciadas pelas idéias dos apologistas da cura psíquica. Elas formam um tipo psíquico que merece ser estudado com respeito.15

13. “Versos Admonitórios para Crianças”: esse título doe uma obra muito difundida, publicada no princípio do século XIX, mostra até onde a musa do protestantismo evangélico na Inglaterra, com o espírito fito na idéia do perigo, já se havia alongado da liberdade original do evangelho. A cura psíquica pode ser brevemente denominada uma reação contra toda a religião da ansiedade crônica, que marcou a primeira parte do nosso século nos círculos evangélicos da Inglaterra e da América.
14. Refiro-me ao St. Horatio W. Dresser e ao Sr. Henry Wood, especialmente ao primeiro. As obras do Sr. Dresser são publicadas por G. P. Putnam’s Sons, Nova Yoirk e Londres; as do Sr. Woods, por Lee & Shepard, Boston.
15. Para que não haja suspeitas acerca do meu próprio testemunho, citrei outro relator, o Dr. H. H. Goddard, da Clark University, cuja tese sobre “os Efeitos da Mente sobre o Corpo tais como são evidenciadas pelas Curas pela Fé” foi estampada no Am´percian Journal of Psychology de 1’899 (vol. X). Depois de amplo estudo dos fatos, esse crítico conclui que as curas efetuadas pela cura psíquica existem, mas não são diferentes, em sentido algum, das hoje oficialmente reconhecidas pela medicaina como curas por sugestão; e o fim do seu ensaio contém interessante especulação fisiológica a propósito do modo com que funcionam as idéiaos sugestivas (pág. 67 da reimpressão). No que concerne ao fenômeno geral da própria cura mental, escreve o Dr. Goddard: “A despeito da crítica severa que fizemos dos relatos da cura, subsiste ainda vasta quantidade de material, que mostra a possante influência da mente na doença. Muitos casos são de doenças diagnosticadas e tratadas pelos melhores médicos do país, ou que hospitais famosos envidaram esforços para curar, porém debalde. Pessoas de cultura e educação foram tratadas por esse método com resultados satisfatórios. Enfermidades de longa data apresentaram melhoras e até curas. … Acompanhamos o elemento mental através da medicina primiti8va e da medicina popular dos dias de hoje, dos medicamtnos patenteados e da feitiçaria. Westamos convencidos de que é impossí-

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Cheguemos, porém, um pouco mais perto do credo deles. O pilar fundamental asobre o qual se assenta nada mais é do que a base geral de toda esperiência religiosa, ou seja, o ter o homem dupla natureza e estar ligado a duas esferas de pensamento, uma superficial e outra profunda, em qualquer uma das quais pode aprender a viver mais habitualmente. A esfera mais superficial e mais baixa é a das sensações da carne, dos instintos e dos desejos, do egoísmo, da dúvida e dos interesses pessoais inferiores. Mas, ao passo que a teologia cristã sempre considerou a obstinação o vício essencial dessa parte da natureza humana, os adeptos da cura psíquica afirmam que, nela a marca da besta é o medo; e é isso que dá um feitio religioso tão inteiramente novo às suas convicções.

“O medo”, para citarmos um escritor da escola, “tem tido suas utilidades no processo evolutivo, e parece constituir toda a previdência na maioria dos animais; mas que deva continuar fazendo parte do equipamento mental da vida humana civilizada é um absurdo. Tenho para mim que o elemento do medo na previsão, longe de estimular as pessoas mais civilizadas, para as quais o dever e a inclinação são os motivos naoturais, as debilita e dissuade. Logo que se torna desnecessário, o medo se transforma em obstáculo positivo e deve ser inteiramente removido, como se remove a carne morta de um tecido vivo. Para ajudar na análise do medo e na denunciação de suas expressões, cunhei a palavra fearthought (pensamento do medo) para representar o elemento não aproiveitável do forethought (pensamento p´revio = previsão), e defini a palavra ‘preocupação’ como fearthought em contraposição com forethought. Também defini fearthought como sugestão auto-imposta ou autopermitida de inferioridade, a fim de colocá-la no seu verdadeiro lugar, a categoria das coisas nocivas, desnecessárias e, portanto, não respeitáveis.”16

O “hábito da miséria”, o “hábito do martírio”, engendrados pelo “fearthought”, receberam críticas mordazes dos escritores que defendem a cura psíquica:

“Considerem-se, por um momento, os hábitos de vida nos quais nascemos. Existem convenções sociais ou costumes e pretensos requisitos, existe uma predisposição teológica, uma visão geral do mundo. Há idéias conservadoras em relação à nossa primeira educação, ao casamento, ao mister da vida. Acompanhando tudo isso bem de perto, há uma longa série de anteicpações, como a de que sofreremos certas molésticas infantis, da meia idade e da velhice, o pensamento de que envelheceremos, perderemos nossas faculdades e voltaremos a ser como crianças, ao mesmo tempo, coroando tudo, há o medo da morte. Segue-se uma longa linha de medos particulares e expectativas carregadas de probelmas, como, por exemplo, idéias associadas a certas comidas, o medo do vento leste, os terrores do tempo do calor, as dores e mal-estares associados ao tempo do frio, o medo de apanhar um resfriado expondo-se a uma cororente de ar, a vinda da febre de feno no dia 14 de agosto ao meio do dia, e assim por diante, numa longa lista de medos, pavores, preocupações, ansiedades, antecipações, expectativas, pessimismo, morbidez, e toda e enfiada fantasmagórica de formas funestas que os nossos semelhantes, especialmente os médicos, estão prontos a ajudar-nos a conurar, uma série digna de figurar no ‘balé macabro das categorias exangues’ de Bradley.

vel explicar a existência dessas práticas se elas não curassem a moléstica e, se a curassem, a sua eficácia devia creditar-se, com certeza, ao elemento mental. O mesmo argumento se aplica às escolas modernaos de terapêutica mental – Cura Divina e Ciência Cristã. Dificilmente se conceberá que o grande corpo de pessoas inteligentes, que formam o grupo dos Ciuentistas Mentais, continuasse a existir se a coisa toda fosse uma ilusão. Não é coisa de um dia; não se restringe a uns poucos; não é local. Não há negar que se registram muitos fracassos, mas isso apenas reforça o argumento. Devem ter-se registrado muitos e notáveis sucessos para contrabalançar os fracassos pois, de outro modo, estes últi8mos terial dado cabo da ilusão. … A Ciência Cristã, a Cura Divina ou a Ciência Mental não curam, nem podem fazê-lo pela prórpia natureza das coisas, todas as moléstias, não obstante, as aplicações práticas dos princípisos gerais da mais extensa ciência mental tenderão a prevenir a moléstia. …Encontramos provas suficientes para convencer-nos de que a reforma apropriada da atitude mental aliviaria, em muitos sofredores, os males que o médico comum não pode tocar e até adiaria a aproximação da morte da muitas vítimas que se encontram além do poder da cura absoluta, e a fiel adesão a uma filosofia mais verdadeira de vida manterá muitos homens são e dará ao médico tempo para dedicar-se à mitigação de males que são inevitáveis” (págs. 33, 34 da reimpressão).
16. Horace Fletcher: Happiness as found in Forethought minus Fearthought, série Menticulture, ii. Chicago e Nova York, Stone, 1897, págs. 21-25, resumido.

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“Isso, todavia, não é tudo. Essa vasta série é acrescida dos inumeráveis voluntários davida cotidiana – o medo do acidente, possibilidade de uma catástrofe, a perda de propriedades, a possibilidade de roubo, de incêncio, de uma guerra. E não nos basta temer por nós mesmos. Quando um amigo adoece, temos de temer incontinenti o pior e recear a morte. Se topamos com a dor … simpatia significa partilhar dela e aumentar o sofrimento.”17
“O homem”, para citar outro escritor, “muitas vezes tem o medo estampado em si antes mesmo doe ingressar no mundo exterior; criado no medo, toda a sua vida se passa na servidão do medo, medo da doença e da morte e, nessas circunstâncias, toda a sua mentalidade se torna restrita, apoucada e deprimida, e o corpo lhe segue o modelo e a especificaçao minguados … Pensem nos milhões de almas sensíveis e sucetíveis, entre os nossos antepassdos, dominadas por um pesadelo perpétuo dessa espécie! Não é muito para admirar que ainda exista a saúde? Nada senão o ilimitado amor divino, a sua exuberância e vitalidade constantemente derramados em nós, ainda que inconscientemente, poderiam, até certo ponto, neutralizar tamanho oceano de morbidez”.18
Embora os discípulos da cura psíquica usem com frequência a terminologia cristã, vê-se de tais citações, quão amplamente a sua noção da queda do homem diverge da noção dos cristão comuns.19
A idéia que eles fazem da natureza superior do homem, decididamente panteísta, é pouco menos divergente. O espiritual no homem aparece na filosofia da cura psíquica como sendo, em parte, consciente mas, sobretudo, subconsciente; e, através da sua parte subconsciente, já estamos em comunhão com o Divino, sem nenhum milagre da graça e sem a abrupta criação de uym novo homem interior. Como esse mode de ver é variamente expresso por diferentes escritores, nele encontramos vestígios de misticismo cristão, de idealismo transcendental, de vedantismo e da moderna psicologia do eu subliminal. Uma ou duas citações nos colocarão no ponto de vista central:

“O grande fato central do universo é aquele espírito de vida e de poder infinitos que está por detrás de tuo, que se manifesta em tudo e através de tudo. É a esse espírito de vida e poder infinitos, que está por detrás de tudo, que chamo Deus. Pouco se me dá do nome que lhe possam dar, Luz Bondosa, Providência, Super-Alma, Onipotência, ou o termo, seja ele qual for, que lhes pareça mais conveniente, contanto que concordemos em relação ao próprio grande fato central. Deus, então, enche sozinho o universo, de modo que tudo vem d’Ele e está n’Ele, e nada está fora d’Ele. É a vida da nossa vida, a nossa própria vida. Somos partícipes da vida de Deus; e se bem difiramos d’Ele por sermos espíritos individualizados, enquanto que Ele, o Espírito Infinito, nos inclui a nós e a tudo o mais, em essência, a vida de Deus e a do homem são idênticas e, portanto, uma só. Elas não diferem em essência nem em qualidade; só diferem em grau.
“O grande fato central da vida humana consiste em chegarmos a uma compreensão consciente e vital da nossa identidade com essa Vida Infinita, e nos abrirmos plenamente ao influxo divino. Na medida em que chegamos à compreensão consciente da nossa identidade com essa Vida Infinita e nos abrirmos plenamente ao influxo divino, damos realidade, em nós mesmos, às qulidades e poderes da Vida Infinita, transformamo-nos em canais através dos quais a Inteligência e o Poder Infinitos podem trabalhar. Na exata medida em que compreende sua identidade com o Espírito Infinito o homem trocará o mal-estar pelo bem-estar, a desarmonia pela harmonia, o sofrimento e a dor pela saúde e força abundantes. Reconhecer a nossa própria divindade e nossa íntima relação com o Universal é ligar as correias do nosso maquinismo com a casa de força do Universo. Não precisamos ficar no inferno por mais tempo do que desejamos; podemos alçar-nos a qualquer céu que tenhamos escolhido; e, quando decidirmos erguer-nos assim, todos os poders superiores do Universo se combinarão para ajudar-nos a subir na direção do céu.”20

Permitam-se os senhores passar agora dessas ponderações mais abstratas para alguns relatos mais concretos de experiência com a religião da crua psíquica. Tenho muitas respostas de
17. H. W. Dresser; Voices of Freedom, Nova York, 1899, pág. 38.
18.Henry Wood: Ideal Suggestion through Mental Photography, Boston, 1899, pág. 54.
19. Cabe aos exegetas decidirem se ela diverge tanto assim da própria noção do cristo. A crermos em Harnack, Jesus encarava o mal e a doença de modo muito semelhante ao com que as encaram os adeptos da nossa cura psíquica. “Qual é a rsposta que Jesus envia a João Batista?” pergunta Harnack, e responde que é esta: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. ‘Esta é a ‘vinta do reino’, ou melhor, nestas palavras salvadoras o reino já está aqui. Pela superaçáo e remoção da miséria, da necessidade, da doença, por esses efeitos reais verá João que o novo tempo chegou. A expulsão dos demônios é apenas uma parte da obra de rendença, mas Jesus aponta para isso como para o sentido e o selo da sua missão. Dessa maneira, ele se dirigiu ao miserável, ao enfermo e ao pobre, mas cnão como moralista e sem nenhum traço de sentimentalismo. Nunca forma grupos e departamentos dos males; nunca perde tempo perguntando se o doente ‘merece’ ser curado; e nunca lhe ocorre simpatizar com a dor nem com a morte. Não diz em parte alguma que a doença é uma inflição benéfica e que o mal tem uma utilidade sadia. Não, chama à doença: doença e à saúde: saúde. Todo mal, toda desgraça é para ele algo medonho; pertence ao grande reino de Stanás; mas ele sento o poder do Salvador dentro de si. Sabe que o avanço só é possível depois que se supera a fraqueza, depois que a doença se cura. “Das Wesen des Christenthums, 1900, pág. 39.
20. R. W.. Trine: In Tune with the Infinite, 26º milheiro, Nova York, 1899. Liguei umas às outras passagens esparsas.
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correspondentes – a única dificuldade reside na escolha. Os dois primeiros que citarei são de amigos meus. Um a minhadeles, uma mulher, escrevendo como se verá a seguir, expressa bem o sentimento de continuidade com o Poder Infinito, no qual se inspiram todos os discípulos da cura psíquica.

“A primeira causa fundamental de todas as doenças, fraquezas ou depressões é o sentido humano de separação daquela Energia Divina a que chamamos Deus. A alma que pode sentir e afirmar, em serena mas jubilosa confiança, como fez o Nazareno: ‘Eu e meu Pai somos um’, já não tem necessidade de curador, nem de cura. Esta é a verdade inteira encerrada numa casca de noz, e o homem não pode encontrar outro fundamento para a integralidade além do fato da inexpugnável união divina. A moléstia já não ataca ninguém cujos pés estão plantados nessa rocha, que sente, de hora em hora, de momento a momento, o influxo do Sopro Divino. Se a consciência tem consigo a Onipotência, como pode nenetrá-la o Cansaço, como pode a enfermidade saltear assim essa centelha indômita?
“A possibilidade de anular para sempre a lei da fadiga ficou de sobeijo provada no meu próprio caso; pois o começo da minha vida tem um registro de muitos, muitos anos de invalidez na cama, com a espinha e os membros inferiores paralisados. Meus pensamentos não eram mais impuros do que o são hoje, conquanto minha crença na necessidade da doença fosse densa e insciente; mas desde a minha ressurreição na carne, trabalhei como curadora sem parar durante catorze anos a fio, e posso em sã consciência afirmar que jamais conheci um momento de fadiga ou dor, não obstante meu contacto contínuo com a fraqueza excessiva, com a enfermidade e as moléstias de todo o gênero. Pois como pode uma parte consciente da divindade ficar doente? – visto que “Maior é o que está conosco do que todos os que possam lutar contra nós’.”

Minha egunda correspondente, outra mulher, manda-me a seguinte declaração:

“Houve um tempo em que a vida me parecia difícil. Eu estava sempre perdento o domínio de mim mesma, e tive diversos ataques do que se chama prostração nervosa, com uma insônia terrível, que me levou à beira da insanidade; além de muitas outras perturbações, especialmente dos órgãos digestivos. Eu havia sido afastada de casa e confiada aos cuidados de médicos, tomara todos os narcóticos, interrompera todos os trabalhos, fora hiperalimentada e, com efeito, consultara todos os facultativos ao meu alcance. Mas nunca me recuperei permanente enquanto esse Novo Pensamento não tomou conta de mim.
“Creio que o que mais me impressionou foi o ficar sabendo que precisava estar em relação absolutamente constante, em contato mental (essa locução é para mim muito expressiva) com a essência vital que tudo impregana e a que nós chamamos Deus. Ela é quase irreconhecível, a menos que a vivamos em nós mesmos realmente, isto é, virando-nos constantemente para a mais íntima, a mais profunda consciência do nosso verdadeiro eu ou de Deus em nós, a fim de sermos iluminados por dentro, como nos voltamos para o sol a fim de receber a luz, o calor e o fortalecimento que vêm de fora. Quando o fazemos conscientemente, compreendendo que ao voltar-nos para dentro, para a luz que brilha no nosso interior, estamos vivendo na presença de Deus ou do nosso eu divino, descobrimos a irrealidade dos objetos para os quais nos temos voltado até agora e que nos têm mantido absortos no exterior.
“Acabei não fazendo caso do sentido dessa atitude para com a saúde do corpo como tal, porque isso vem por si mesmo, como resultado incidental, e não pode ser encontrado por nenhum ato mental especial ou desejo de tê-lo, senão pela atitude mental geral que acima mencionei. Aquilo de que costumamos fazer o objetivo da vida, as coisas externas que estamos sempre procurando com tanto afã, pelas quais tão freqüentemente vivemos e morremos, mas que não nos dão paz nem felicidade, devem todas vir por si mesmas como acessórios e como mero efeito ou resultado natural de uma vida muito mais alta, que se desenvolve profundamente no seio do espírito. Essa vida é a verdadeira busca do reino de Deus, o desejo da sua supremacia em nossos corações, de modo que tudo o mais vem como o que será ‘acrescentado’ – como inteiramente incidental e inesperado, talvez, embora isso seja a prova da realidade do perfeito equilíbrio no próprio centro do nosso ser.
“Quando digo qaue costumamos adotar por objetivo da nossa vida o que não deveria ser a principal finalidade do nosso trabalho, refiro-me a muitas coisas que o mundo considera louváveis e excelentes, quais o bom êxito dos negócios, a fama como autor ou artista, médico ou advogado, ou o renome em empreendimentos filantrópicos. Essas coisas devem ser resultados e não objetivos. Eu incluiria também entre elas os prazeres de muitos gêneros que parecem inofensivos e bons no momento, e são procurados porque muitos os aceitam – refiro-me a convencionalidades, sociabilidades e modas em seus vários desenvolvimentos, aprovadas, em sua maior parte, pelas massas, conquanto possam ser superfluidades irreais e até malsãs.”

Aqui está outro caso, mais concreto, também de uma mulher. Li para os senhores esses casos sem tecer comentários – uma vez que eles expressam tantas variedades do estado de espírito que estamos estudando.

“Eu havia padecido desde a infância até completar quarenta anos. [Omito os pormenores de enfermidades incluídos no relato.] Estivera em Vermont vários meses, esperando que a mudança de ares me fizesse bem, mas ficando cada vez mais fraca, quando, um belo dia, durante a última parte de outubro, enquanto descansava depois do almoço, ou vi de repente, por assim dizer, estas palavras: ‘ Você ficará curada e realizará

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um trabalho com que nunca sonhou’. Elas ficaram impressas em minha mente com tanta força que eu disse imeditamente que só Deus teria podido tê-las sugerido. Acreditei nelas apesar de mim mesma, dos meus padecimenos e da minha fraqueza, que continuaram até o Natal, quando voltei para Boston. Dois dias depois, uma jovem amiga se ofereceu para levar-me a uma curadora mental (isso foi no dia 7 de janeiro de 1881). Disse a curadora: ‘Não há nada senão Mente; somos expressões da Mente Única; o corpo é apenas uma crença mortal; o homem é o que ele pensa que é’. Não podendo aceitar tudo o que ela dizia, traduzi da seguinte maneira o que havia ali para mim. ‘Não há nada senão Deus; fui criada por Ele, e sou absolutamente dependente d’Ele; a mente me é dada para usar; e pelo quanto dela eu aplicar ao pensamento de uma ação física oportuna serei arrancada da minha servidão à ignorância, ao medo e à experiência passada’. Nessa conformidade, comecei, no mesmo dia, a ingerir um pouco de todas as comidas preparadas para a família, dizendo constantemente a mim mesma: ‘O Poder que criou o estômago terá de cuidar do que comi.’ Perseverando nessas sugestões durante a noite, fui para a cama e adormeci dizendo: ‘Sou alma, espírito, identificada com o Pensamento de Deus a meu respeito’, e dormi a noite inteira sem acordar, pela primeira vez em vários anos [Os incômodos costumavam manifestar-se por volta das duas horas da madrugada]. Senti-me no dia seguinte como uma prisioneira que tivesse escapado, e acreditei haver encontrado o segredo que, com o tempo, me daria a saúde perfeita. Dali a dez dias eu era capaz de comer qualquer coisa preparada para os outros e, duas semanas depois, comecei a ter minhas próprias sugestões mentais positivas da Verdade, que eram para mim como pedras de apoio para prosseguir adiante. Tomarei nota de umas poucas dentre elas, que vieram com um intervalo aproximado de duas semanas.
1º. Sou uma Alma; portanto, tudo está bem comigo.
2º. Sou uma Alma; portanto, estou bem.
3º. Uma espécie de visão interior de mim mesma como um animal de quatro patas com uma protuberância em cada parte do copo em qaue estivera sofrendo, com o meu próprio rosto, pedindo-me que reconhecesse como eu mesma. Fixei minha atenção resolutamente na idéia de estar bem, e recusei-me até a olhar para o meu velho eu nessa forma.
4º. Novamente a visão do animal, porém longe, no fundo do quadro, com vo fraca. Novamente a recusa do reconhecimento.
5º. Mais uma vez a visão, mas apenas dos olhos com o olhar anelante; e mais uma vez a recusa. Veio depois a convicção, a consciência interior de que eu estava e sempre estivera perfeitamente bem, pois era uma Alma, uma expressão do Pensamento Perfeito de Deus. Essa foi para mim a separação perfeita e completa entre o que eu era e o que parecia ser. Consegui nunca mais perder de vista, depois disso, o meu verdadeiro ser, afirmando constantemente a verdade e, aos pouco, (embora eu levasse dois anos de trabalho afincado para chegar lá) pus-me a expressar saúde continuamente através do corpo todo.
“Em meus deenove anos de experiência subseqüente nunca vi a Verdade falhar quando aplicada, embora, em minha ignorância, eu deixasse muitas vezes de aplicá-la mas, através dos meus fracassos, conheci a simplicidade e a confiança da criancinha.”

Receio, porém, cansá-los com tantos exemplos, e devo conduzi-los de volta às generalidades filosóficas. Os senhores estão vendo, por esses registros de experiência, a impossibilidade de não classificar a cura espiritual como sendo, antes de tudo, um movimento religioso. Sua doutrina da identidade da nossa vida com a vida de Deus, não se distingue, na verdade, de uma interpretação da mensagem de Cristo, defendida, nestas mesmas conferências Gifford, por alguns dos seus habilíssimos filósofos religiosos escoceses.21

Os filósofos, todavia, costumam dar uma aexplicação quase lógica da existência do mal, ao passo que os curadores, até onde os conheço, não dão nenhuma explanação especulativa do fato genérico do mal no mundo, da existência da consciência egoísta, sofredora, timorata e finita. Para eles, o mal está empiricamente presente, como está para toda gente, mas predomina o ponto de vista prático, e não se harmonizaria com o espírito do seu sistema perder tempo preocupando-se

21. Os Cairds, por exemplo. Nas Conferências de Glasgow de Edward Caird, em 1890-92, são comuns trechos como este:
“A declaração feita no princípio do ministério de Jesus de que ‘o tempo se cumpriu, e o reino dos céus está à mão’, passa com pouquíssimas interrupções para o anúncio de que ‘o reino de Deus está entre vós’; e assevera-se que é tamanha a importância deste anúncio que estabelece, por assim dizer, uma diferença em espécie entre os maiores santos e os profetas que viveram sob o reinado anterior da divisão, e ‘o menor no reino dos céus’. Traz-se o mais alto ideal para junto dos homens e declara-se que está ao alcance deles, que são chamados para ser ‘perfeitos como o Pai no céu é perfeito’. Proclama-se que o sentido de alienação e distância de Deus, desenvolvido nos devotos de Israel na proporção exata em que eles haviam aprendido a olhar para Ele não mais como mera divindade nacional, senão como um Deus de justiça que punira Israel pelo seu pecado, tão certamente quanto Edom ou Moabe, já não está no lugar; e a forma típica da oração cristão assinala a abolição do contraste entre este mundo e o próximo, o qual, através de toda a história dos judeus, torna-se continuamente mais amplo: ‘Assim na terra, como no céu’. Não se perdeu, com efeito, o sentido da divisão entre o homem de Deus, como entre um ser finito e o Infinito, como entre o fraco e pecador e a Bondade Opinipotente; mas já não sobrepuja a consciência da unidade. Os temos ‘Filho’ e ‘Pai’ estabelecem de pronto a oposição e marcam-lhe o limite. Mostram que não é uma oposição absoluta, mas uma oposição que presupõe um princípio indestrutível de unidade, que pode e deve tornar-se um princípio de reconciliação.” The Evolution of Religion, ii, págs. 146-147.

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com ele como um “mistério”, um “problema”, ou “ponderando gravemente” sobre a lição da sua experiência, à maneira dos evangélicos. Não penses nisso, como diz Dante, mas olha e passa! É Avidhya, a ignorância! alguma coisa que deve apenas ser ultrapassada e deixada para trás, transcendida e esquecida. A chamada Ciência Cristã, a seita da Sra. Eddy, é o ramo mais radical da cura psíquica e seu contacto com o mal. Pois o mal é simplesmente uma mentira, e quem quer que o mencione é um mentiroso. O ideal otimista do dever nos veda prestar-lhe sequer a homenagem da atenção explícita. É manifesto, como nos mostrarão as próximas conferências, que essa é uma danosa omissão especulativa, mas intimamente ligada aos méritos práticos do sistema que estamos examinando. Por que lamentar a perda de uma filosofia do mal. Por que lamentar a perda de uma filosofia do mal, perguntar-nos-ia um adepto da cura psíquica, se posso dar-lhe a posse de uma vida de bem?
Afinal de contas, é a vida que importa; e a cura psíquica desenvolveu um sistema vivo de higiene mental que pode perfeitamente proclamar haver deixado na sombra toda a literatura anterior da Diäletik der Seele. O sistema é total e exclusivamente composto de otimismo: “O pessimismo leva à fraqueza. O otimismo conduz ao poder”. “Pensamentos são coisas”, escreve um dos mais vigorosos escritores da cura psíquica, em negrito, no rodapé de cada uma das suas páginas; e se os seus pensamentos forem de saúde, mocidade, vigor e sucesso, antes que os senhores dêem por isso, essas coisas serão também a sua porção exterior. Ninguém pode deixar de sofrer a influência regenerativa do pensamento otimista seguindo com pertinácia. Todo homem possui, inalienável, essa via de acesso ao divino. O medo, pelo contrário, e todos os modos limitados e egoístas de pensamento são caminhoa para a destruição. A maioria dos seguidores da cura psíquica apresenta aqui uma doutrina segundo a qual os pensamentos são “forças” e, em virtude de uma lei que dispões que o semelhante atrai o semelhante, os pensamentos de um homem atraem para si, como alidados, todos os pensamentos do mesmo teor existentes no mundo. Assim sendo, pensando, obtemos reforços de outros lugares para a realização dos nossos desejos; e o grande ponto na condução da vida é conseguir que as forças celestes fiquem do nosso lado abrindo-nos a mente para receber-lhes o influxo.
De um modo geral, o que nos impressiona é a similaridade psicológica entre o movimento d cura psíquica e os movimentos interno e wesleyano. Àquele que acredita na moral e nas obras, com sua pergunta ansiosa, “Que hei de fazer para salvar-me?” Lutero e Wesley respondem: “Estás salvo agora, se acreditas nisso”. E os partidários da cura psíquica se apresentam com palavras análogas de emancipação. É verdade que se dirigem a pessoas para as quais a concepção da salvação perdeu o antigo sentido teológico, mas que labutam, apesar disso, com a mesma eterna dificuldade humana. As coisas vão mal para eles; e “Que hei de faer para ser claro, direito, sadio, inteiro, bom?” é a forma da pergunta que fazem. E a resposta é: “Você já está bem, são e claro, basta-lhe sabê-lo”. Toda a questão se resume numa sentença”, diz um dos autores que já citei, “Deus está bem, e assim está você. Só lhe é preciso despertar para o conhecimento do seu verdadeiro ser”.
A adequação da su mensagem às necessidades mentais de ampla fração do gênero humano foi o que deu força aos evangelhos primitivos. A mesma adequação vale para o caso da mensagem da cura psíquica, por mais tola que possa soar à superfície; e ao ver-lhe o rápido crescimento da influência e os triunfos terapêuticos, sentimo-nos tentados a perguntar se elenão estará destinada (provavelmente pela própria razão da crueza e extravagância de muitas de suas manifestações,22) a representar um papel quase tão grande na evolução da religião popular do futuro quanto o desses movimentos anteriores em sua época.
Temo aqui, todavia, estar começando a “dar nos nervos” de alguns membros deste acadêmico auditório. Os senhores poderão pensar que tais excentricidades contemporâneas não deveriam ocupar espaço tão grande nas nobres conferências Gifford. Só posso implorar-lhes que tenham paciência. Imagino que todo o resultado dessas conferências será enfatizar em suas mentes as enormes diversidades que exibe a vida espiritual de homens diferentes. Suas necessidades, suas susceptibilidades e suas capacidades, todas variam e precisam ser classifica-

22. Resta saber se a escola do r. Dresser, que assume, cada vez mais, a forma da experiência da cura psíquica e da filosofia acadêmica, que se impregnam mutuamente uma à outra, superará os triunfos práticos das seitas menos críticas e racionais.
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das em capítulos diferentes. Em decorrência disso temos, com efeito, tipos diferentes de experiência religiosa, e procurando, nestas conferências, mais íntimo conhecimento do tipo mentalmente equilibrado, precisamos ir buscá-lo onde o encontramos na forma mais radical. A psicologia dos tipos individuais de caráter mal começou a ser esboçada – nossas conferências talvez sirvam de ínfima contribuição para a estrutura. A primeira coisa que se deve ter em mente (mormente se nós mesmos pertencemos ao tipo clérico-acadêmico-científico, o tipo oficial e convencionalmente “correto”, o tipo “extremamente respeitável”, para o qual não fazer caso dos outros é assediante tentação) é que nada pode ser mais estúpido do que excluir fenômenos da nossa observação, tão-somente porque somos incapazes de participar de alguma coisa parecida com eles.
Ora, a história da salvação luterana pela fé, das conversões metodistas e do que denomino o movimento da cura psíquica parece provar a existência de numerosas pessoas nas quais – pelo menos em certo estágio do seu desenvolvimento – uma mudança de caráter para melhor, longe de ser facilitada pelas regras estabelecidas por moralistas oficiais, ocorrerá de maneira tanto mais bem-sucedida quanto mais exatamente se processar a inversão dessas regras. Os moralistas oficiais nos aconselham a não relaxar o nosso zelo, “Sede vigilantes, dia e noite”, instam conosco; “reprimi vossas tendências passivas; não vos furteis a nenhum esforço; mantende a vossa vontade, como um arco, sempre retesado”. Mas as pessoas de que falo acham que todo esse esforço consciente não leva nas suas mãos a nada senão ao malogro e ao vexame e só faz delas duplamente mais filhas do inferno do que antes. A atitude tensa e voluntária transforma-se nelas numa febre e num tormento impossível. Seu mecanismo recusa-se a funcionar com mancais tão quentes e correias tão apertadas.
Em tais circunstâncias, o caminho do sucesso, tal como o atestam inúmeras narrativas pessoais autênticas, se encontra seguindo um método antimoralista, pela “entrega” de que falei em minha Segunda conferência. Passividade, não-atividade; relaxação, não concentração será agora a regra. Desista do sentimento de responsabilidade, solte o que o está segurando, confie o cuidado do seu destino a poderes mais altos, seja genuinamente indiferente ao que será feito de tudo, e descobrirá não só que ganhou um perfeito alívio interior, mas muitas vezes também, de quebra, os próprios bens aos quais supunha estar renunciando. Esta é a salvação através do desespero, o morrer para nascer de verdade da teologia luterana, a passagem para o nada a cujo respeito escreve Jacó Behmen. Para chegar a isso, faz-se mister, quase sempre, ultrapassar um ponto crítico, virar uma esquina dentro de nós mesmos. Há que ceder alguma coisa, uma dureza nativa deve quebrar-se e liquifazer-se; e esse acontecimento (como veremos abundantemente daqui por diante), não raro, é repentino e automático, e deixa no Sujeito uma impressão de Ter sido manejado por um poder de fora.
Seja o que for que a sua significação final revele ser, esta, sem dúvida, é uma forma fundamental da experiência humana. Dizem alguns que para ela a capacidade ou incapacidade é o que separa o caráter religioso do caráter meramente moralista. Para os que a experimentam em sua plenitude, nenhum crítica alcança projetar dúvidas a sua realidade. Eles sabem; pois realemtne sentiram os poderes superiores, ao desistirem da tensão da sua vontade pessoal.
Uma história que os pregadores revivalistas conta a miúde é a do homem que se viu, à noite, escorregando por um precipício abaixo. Em dado momento, agarrou um galho, que lhe deteve a queda e permaneceu agarrado a ele, no maior soforimento, durante horas. Finalmente, porém, seus dedos tiveram de largar o galho que estavam segurando e, com um adeus desesperado à vida, deixou-se cair. Caiu apenas seis polegadas. Se tivesse desistido antes da luta, ter-se-ia forrado ao desespero. Assim como a mãe terra o recebeu, assim também, dizem os pregadores, os braços eternos nos receberão, se confiarmos absolutamente neles e renunciarmos ao hábito hereditário de confiar em nossa força pessoal, com suas precauções que não nos podem defender e suas salvaguardas que nunca nos salvam.
Os apologistas da cura psíquica deram a maior extensão a esse tipo de experiênmcia. Demonstraram que uma forma de regeneração pelo relaxamento, pelo abandono, psicologicamente indistinguível da justificação luterana através da fé e da aceitação wesleyana da graça livre, está ao alcance de pessoas que não têm a convicção do pecado e não dão importância
À teologia luterana. Trata-se apenas de dar um descanso ao seu euzinho convulsivo particular e
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descobrir qu8e um Eu maior ali está. Os resultados, lentos ou súbitos, grandes ou pequenos, do otimismo e da expectação combinados, os fenômenosregenerativos que se seguem à abnegação do esforço, continuam sendo fatos estabelecidos da natureza humana, quer adotemos uma visão teísta, quer uma visão panteísta-idealista, quer uma visão médico-materialista da sua explicação causal final.23
Quando voltarmos aos fenômenos da conversão revivalista, aprenderemos mais alguma coisa a esse respeito. Enquanto isso, direi uma ou duas palavras acerca dos métodos postos em prática pelo curador psíquico.
Está visto que são largamente sugestivos. A influência sugestiva do ambiente desempenha parte enorme em toda educação espiritual. Mas a palavra “sugestão”, tendo adquirido status oficial, já está começando, infelizmente, a desempenhar, em muitas áreas, o papel de balde de água fria sobre a investigação, sendo usada para desviar toda e qualquer indagação das cambiantes susceptibilidades dos casos individuais. “Sugestão” é apenas outro nome para o poder das idéias, na medida em que se revelam eficazes na crença e na conduta. Idéias eficazes para determinadas pessoas mostram-se ineficazes para outras. As idéias eficazes em certas ocasiões e em determinados ambientes humanos deixam de sê-lo em outras ocasiões e em outros ambientes. As idéias das igrejas cristãs não são eficazes hoje na direção terapêutica, em que pese ao que tenham sido nos primeiros séculos; e quando toda a questão se resume em saber por quê o sal perdeu o sabor aqui ou ganhou ali, o simples acenar com a palavra “sugestão” não fornece luz alguma. O Dr. Goddard, cujo ensaio psicológico imparcial sobre as Curas pela Fé as atribui tão-somente à sugestão comum, remata dizendo que “a Religião [e com isso parece aludir ao nosso Cristianismo popular] tem em si tudo o que existe na terapêutica mental, e tem-no em sua melhor forma. O viver de acordo com as idéias [da nossa religião] fará por nós tudo o que pode ser feito.” E isso apesar do fato real de que o Cristianismo popular não faz absolutamente nada, ou não fez nada até que a cura psíquica acudiu em seu auxílio.24
Para ser sugestiva, uma idéia precisa chegar ao indivíduo com a força de uma revelação A cura psíquica, com o seu evangelho do equilíbrio mental, chegou como uma revelação para muitos

23. A expplicação teísta apela para a graça divina, que cria uma nova natureza dentro de nós a partir do momento em que a velha natureza é sinceramente abandonada. A explicação panteísta (que é a da maioria dos entusiastas da cura psíquica) baseia-se na fusão do eu particular mais restrito oo eu mais amplo ou maior, o espírito do universo (que é o nosso próprio eu “subconsciente”), tanto que se removem as barreiras isolantes da desconfiança e da ansiedade. A explanação médico-materialista proclama que os processos cerebrais mais simples agem mais livremente onde se lhes permite agir automaticamente pelo desvio dos processos fisiologicamente (embora, neste caso, não espiritualmente) “mais elevados”, que, procurando regular, só conseguem inibir os resultados. Se essa terceira explicação, numa descrição psicofísica do universo pode, ou não, combinar-se com qualquer uma das outras duas, fica aqui como questão em aberto.
24. Sempre prevaleceu no interior das igrejas a disposição para encarar a doença como uma visitação; alguma coisa mandada por Deus para o nosso bem, seja como castigo, ou aviso, seja como oportunidade para o exercício da virtude e, na Igreja catpolica, para alcanmçar “mérito”. “A doença”, diz um bom escritor católico (P. Lejeune: Introduction à la Vie Mystique, 1899, pág. 218), “é a mais excelente das mortificações corporais, mortificação não escolhida por nós mesmos, imposta diretamente por Deus, expressão direta da sua vontade. ‘Se outras mortificações são de prata’, diz Monsenhor Gay, ‘esta é de ouro; pois, embora venha de nós mesmos, visto que vem do pecado original, considerada do seu lado maior, vinda (como tudo o que acontece) da providência de Deus, é de manufatura divina. E como são justos os seus golpes! E como são eficazes! … Não hesito em dizer que a paciência, numa longa enfermidade, é a verdadeira obra-prima da mortificação e, conseqüentemente, o triunfo das almas mortificadas.” “De acordo com esse ponto de vista, a doença, seja ela qual for, deve ser aceita com submissão, podendo, em determinadas cirucunstâncias, ser até uma blasfênmia querer que ela se vá.
É claro que tem haido exceções a isso, e em todos os tempos têm sido reconhecidas, dentro do âmbito da igreja, curas por algum milagre especial, e quase todos os grandes santos têm-nas levado mais ou menos a cabo. Foi uma das heresias de Edward Irving sustentar que elas ainda são possíveis. Uma faculdade extremamente autêntica de cura, após a confissão e conversão do paciente e a oração do padre, desenvolveu-se espontaneamente, no princípio da década de 1840, no pastor João Cristóvão Blumbardt, que a exerceu durante quase trinta anos, Bhunhardfs Life, de Zündel (5ª edição, Zurique, 1887) apresenta, nos capítulos ix, x, xi e xvii, um relato da sua atividade curativa, que atribuía invariavelmente à interposição divina direta. Blumhardt era um homem singularmente puro, simples e sem fanatismos e, nessa parte de seu trabalho, não seguiu nenhum modelo anterior. Em Chicago, nos dias que correm, temos o caso do Dr. J.ª Dowie, pregador batista escocês, cujas “Folhas de Cura”, no ano de graça de 1900, já estavam no sexto volume e, conquanto ele denuncie as curas operadas em outras seitas como “contrafações diabólicas” do seu método exclusivo de “Cura Divina”, deve ser, no todo, inscrito no movimento da cura psíquica. Nos círculos da cura psíquica o artigo fundamental de fé é que nunca se deve aceitar a moléstia. Ela é totalmente do inferno. Deus nos quer de todo sadios, e não devemos adaptar-nos a nenhuma outra situação inferior.

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cujos corações o Cristianismo deixara endurecidos. Abriu-lhes as pontes da vida superior. Em que pode consistir a originalidade de qualquer momento religioso, senão em descobrir um canal, até então fechado, através dos quais essas fontes podem chegar a algum tipo de seres humanos?
A força da fé, do entusiasmo e do exemplo pessoais e, acima de tudo, a força da novidade, são sempre o primeiro agente sugestivo desse gênero de sucesso. Se a cura psíquica se tornar, algum dia, oficial, respeitável e estabelecida, esses elementos de eficácia sugestiva se perderão. Em suas fases mais agudas toda religião há de ser um árabe nômade do deserto. Sabe-o a igreja muito bem, com sua eterna luta interior entre a religião aguda dos poucos e a religião crônica dos muitos, empedernida numa obstruência pior do que aquela que a irreligião opõe aos movimentos do Espírito. “Podemos rezar”, diz Jonathanm Edwards, “em relação a todos esses santos que não são cristãos vivos, para que sejam revivificados ou levados embora; pois, se for verdade o que tantas vezes repetem alguns no dia de hoje, queesses santos mortos e frios são mais danosos do que os homens naturais, e levam mais almas para o inferno, melhor fora para o gênero humano que estivessem mortos.”25
A condição seguinte de sucesso é a existência aparente, em grandes números, de mentes que unam o equilíbrio mental à disposição para a regeneração pelo abandono. O Protestantismo tem sido demasiado pessimista no tocante ao homem naotural, o Catolicismo tem sido demasiado legalista e moralista, para que um ou outro possam corresponder generosamente ao tipo de caráter formado dessa mistura peculiar de elementos. Por menor que seja o número dos que, entre nós aqui presentes, pertencem a um tipo assim, é agora evidente que esse tipo forma uma combinação moral específica, bem representad ano mundo.
Finalmente, em nossos países protestantes, a cura psíquica fez uso, em escala sem precedentes, da vida subconsciente. Aos seus conselhos ponderados e às suas afirmações dogmáticas os fundadores da cura psíquica acrescentaram o exercício sistemático da relaxação passiva, da concentração e da meditação, e até invocaram alguma coisa como a prática hipnótica. Cito trechos ao acaso:

“O valor, a potência dos ideais é a grande verdade prática no qual o Novo Pensamento insiste com mais vigor – a saber, o desenvolvimento de dentro para fora, do peueno para o grande.26 Por conseguinte, nosso pensamento deveria concentrar-se no resultado ideal, ainda que essa confiança seja literlmente como um degrau no escuro.27 Para alcançar a capacidade de dirigir a mente dessa maneira, com eficácia, o Novo Pensamento aconselha a prática da concentração ou em outras palavras, o atingimento do domínio sobre si mesmo. Devemos aprender a disciplinar as tendências da mente, de modo que o ideal escolhido possa mantê-las juntas, como uma unidade. Com esse propósito, devemos reservar momentos para a meditação silenciosa, a sós, de preferência em um aposento cujo ambiente seja favorável ao pensamento espiritual. Nos termos do Novo Pensamento, a isso se chama ‘entrar no silêncio’.”28

Tempo virá em que no escritório movimentado ou na rua barulhenta poderemos entrar no silêncio simplesmente envolvendo-nos no manto dos nossos próprios pensamentos e compreendendo que ali e em toda parte o Espírito da Vida Infinita, do amor, da Sabedoria, da Paz, do Poder e da Abundância nos guia, guarda, protege, conduz. Esse é o espírito da oração contínua.29 Um dos homens mais intuitivos que já conhecemos tinha uma mesa num escritório da cidade em que vários outros cavalheiros viviam fazendo negócios e, muitas vezes, falando em voz alta. Não se deixando perturbar pelos muitos e variados sons à sua volta, esse homem confiante, concentrado em si mesmo, em qualquer momento de perplexidade, fechava as cortinas da sua intimidade tão completamente em torno de si que se encerrava na própria aura psíquica e, por esse modo, se afastava de todas as distrações, como se estivesse a sós consigo em alguma floresta primeva. Levando sua dificuldade para o silêncio místico, na forma de uma pergunta direta para a qual esperava determinada resposta, permanecia inteiramente passivo até chegar a resposta e, nem sequer uma vez, durante uma experiência de muitos anos, se viu decepcionado, ou mal conduzido.”30

Eu gostaria de saber em que difere isso, intrinsecamente, da prática que o “recolhimento” que desempenha tão grande papel na disciplina católica? Chamada, aliás, a prática da presença

25. Edwards, de cujo livro sobre a Revivência Religiosa na Nova Inglaterra cito estas palavras, procura dissuadir-nos desse uso da oração, mas é difícil ver que lhe apraz investir com os membros frios e mortos da igreja.
26. H. W. Dresser: Voices of Freedom, 46.
27. Dresser: Living by the Spirit, 58.
28. Dresser: Voices of Freedom, 33.
29. Trine: In Tune with the Infinite, pág. 214.
30. Trine: pág. 117.
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de Deus (e assim conhecida entre nós, como, por exemplo, em Jeremy Taylor) o eminente professor Alvarez de Paz a define da seguinte maneira em sua obra sobre a Contemplação.

“É o recolhimento em Deus, o pensamento de Deus, que em todos os lugares e circunstância faz que o vejamos presente, que nos deixa comungar respeitosamente e amorosamente com ele, e nos enche de desejo e afeição por ele. … Gostaria você de escapar de todo e qualquer mal? Pois, então, nunc aperca o recolhimento em Deus, nem na prosperidade nem na adversidade, nem em qualquer outra ocasião, seja ela qual for. Não invoque, para escusar-se da obrigação, nem a dificuldade nem a importância do seu trabalho, pois nunca se esqueça de que Deus o vê, de que você está sempre debaixo dos seus olhos. Se por mil vezes, durante uma hora, você o esquecer, reative mil vezes o recolhimento. Se não lhe for possível praticar esse exercício de modo contínuo, pelo menos familiarize-se com ele o mais que puder, e, como os que, num inverno rigoroso, se abeiram do fogo sempre que podem, procure amiúde esse fogo ardente que lhe aquecerá a alma.”31

Todas as associações externas da disciplina católica diferem, naturalmente, de tudo que existe na idéia da cura psíquica, mas a parte puramente espiritual do exercício é idêntica em ambas as comunhões, e em ambas as comunhões os que a recomendam, instantes, escrevem com autoridade, pois é evidente que experimentaram em suas próprias pessoas aquilo de que falam. Comparecem de novo algumas declarações da cura psíquica:

“O pensamento elevado, saudável e puro pode ser incentivado, promovido e reforçado, e sua corrente dirigida para ideais grandiosos até formar um hábito e cavar um canal. Por meio dessa disciplina, os raios solares da beleza, da integridade e da harmonia, inundam o horizonte mental. Dar início a uma linha elevada e pura de pensamento talvez pareça difícil e até forçado a princípio, mas a perseverança o tornará, primeira, fácil, depois, agradável e, por fim, delicioso.
“O mundo real da alma é o que ela construiu com seus pensamentos, estados mentais e imaginações. Se o quisermos, poderemos voltar as costas para o plano inferior e sensorial, erguermo-nos até o reino do espiritual, que nos penetrará com a mesma naturalidade com que o ar se inclina para o vácuo. … Sempre que não tivermos o pensamento ocupado com as obrigaçoes diarias ou a profissão, devemos mandá-lo ara cima, para a atmosfera espiritual. Há tranqüilos momentos de lazer durante o dia e horas de vigília à noite, em que este saudável e delicioso exercício pode ser levado a cabo com grande proveito. Se nunca envidamos um esforço sistemático para alçar e controlar a vontade das forças do pensamento, nem que fosse por um mês, sigamos com afinco o curso aqui sugerido, e ficaremos surpresos e encontados com o resultado, e nada mais induzirá a voltar ao pensamento descuidado, inútil e superficial. Nesses momentos favoráveis, exclui-se o mundo exterior, com toda a sua corrente de eventos diários, e entramos no santuário silencioso do tempo íntimo da alma para comungar e aspirar. A audição espiritual torna-se delicadamente sensível, de modo que a “vozinha fraca” se faz audível, silenciam as ondas tumultuosas dos sentidos externos, e uma grande calma impera. O ego, aos poucos, adquire a consciência de estar frente a frente com a Presença Divina; com aquela vida robusta, curativa, amorosa, paternal que está mais próxima de nós do que nós mesmos. Verifica-se o contacto da alma com a Alma Paterna e um influxo de vida, amor, virtude, saúde e felicidade proveniente da Fonte Inestingüível.”32

Quando chegarmos ao tema do misticismo, os senhores sofrerão uma imersão tão profunda nesses estados exaltados de consciência que ficarão inteirmente molhados, se assim me for permitido expressar-me; e o frio estremecimento de dúvida com que essa pequena aspersão poderá afetá-los terá passado há muito tempo – dúvida, quero dizer, quanto a serem ou não todos os escritos desse tipo mera conversa e retórica abstratas ali inscritas pour encourager les autres. Confio em que os senhores se convencerão de que tais estados de consciência de “união” formam uma classe pefeitamente definida de experiências, das quais a alma comparte ocasionalmente, e nas quais certas pessoas podem viver num sentido mais profundo do que em qualquer outra coisa de que tenham conhecimento. Isso me traz uma reflexão filosófica geral com a qual eu gostaria de encerrar o assunto do equilíbrio mrental e rematar um tópico sobre o qual receio haver-me alongado em demasia. Trata-se da relação entre toda essa religião sistematizada do equilíbrio mental e da curapsíquisa e o método científico e a vida científica.
Numa próxima conferência tratarei explicitamente da relação entre a religião e a ciênci, de um lado, e entre a religião e o pensamento selvagem, primitivo de outro. Muitas pessoas hoje em dia – “cienistas” ou “positivistas”, como gostam de ser chamadas – lhes dirão que o pensamento religiosoé mero sobrevivente, reversão atávica a um tipo de consci|ência que o gênero humano, em seus exemplos mais iluminados, superou e abandonou há muito tempo. Se os senhores lhes pedirem que se expliquem melhor, eles reponderão provavelmente que o pensamento primitivo

31. Citado por Lejeune: Introduction à la Vie Mystique, 1899, pág. 66.
32. Henry Wood: Ideal Suggestion through Mental Photography, págs. 51, 70 (resumido).
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concebe tudo sob a forma de uma personalidade. Pensa o selvagem que as coisas operam por intermédio de forças pessoais e por amor de finalidades individuais. No seu entender, até a natureza externa obedece às necessidades e pretensões individuais, como se fossem poders elementares. Ora, a ciência, por outro lado, dizem os positivistas, provou que a personalidade, longe de ser uma força elementar da natureza, é apenas uma resultante passiva das forças realmente elementares, físicas, químicas, fisiológicas e psicofísicas, todas de caráter impessoal e geral. O individual não realiza coisa alguma no universo, a não ser na medida em que obedece a alguma lei universal e a exemplifique. Se os senhores, em seguida, lhes perguntarem por que meios a ciência suplantou o pensamento primitivo e desacreditou-lhe a maneira pessoal de olhar para as coisas, eles dirão, sem sombra de dúvida, que isso aconteceu graças ao emprego rigoroso do método de verificação experimental. Sigam praticamente as concepções da ciência, dirão eles, as concepções que põem totalmente de lado a personalidade, e encontrarão sempre uma confirmação. O mundo é feito de tal modo que suas expectativas só serão verificadas experimentalmente se os senhores mantiverem impessoais e universais os termos dos quais as inferem.
Mas aqui temos a cura psíquica, com uma filosofia diametralmente oposta, formulando idêntica pretensão. Vive como seu eu fosse verdadeira, diz ela, e cada dia provará, praticamente, que estás certo. Que as energias controladoras da natureza são pessoais que os teus próprios pensamentos pessoais são forças, que os poderes do universo responderão diretamente aos teus apelos e necessidades individuais são proposições que toda a tua experiência física e mental confirmará.. E o fato de que o movimento da cura psíquica não se espalha simplesmente pela proclamação e pela afirmação, senão pelos resultados palpáveis de experimento prova que a experiência confirma amplamente essas idéias religiosas primitivas. Aqui, no próprio apogeu da autoridade da ciência, a cura psíquica trava uma guerra agressiva contra a filosofia científica, e triunfa empregado os métodos e as armas da própria ciência. Acreditando que uma potência superior cuidará de nós, em certos sentidos, melhor do que nós mesmos o poderemos fazer, bastando para isso que nos entreguemos genuinamente a ela e consintamos em usá-la a cura psíquica encontrará a crença, não somente não impugnada, senão corroborada pela sua observação.
O modo com que se fazem, assim, as conversões e se confirmam os convertidos ressalta, mais do que evidente, das narrativas que citei. Citarei outr par de exemplos, mais curtos, para dar ao assunto um torneio perfeitamente concreto. Aqui está um dele:

“Uma das minhas primeiras experiênciass na aplicação do que eu aprendera verficiou-se dois meses depois que vi, pela primeira vez, o curador. Caí, torcendo o tornozelo direito, o que já me havia acontecido uma vez quatro anos antes, quando tive de usar muleta e tornozeira elástica por alguns meses, sendo-me preciso andar com muito cuidado desde então. Assim que me ergui em pé, fiz a sugestão positiva (e senti-a através de todo o meu ser): ‘Nada há senão Deus, toda a vida vem dele e só dele. Não posso ser torcido nem ferido, deixarei que ele cuide disso’. Pois bem, nunca mais senti dor no tornozelo e, no mesmo dia, caminhei duas milhas”.

O caso seguinte não só ilustra a experiência e a confirmação, mas também o elemento de passividade e abandono do qual, faz um momento, apresentei um relato.

“Fui à cidade, uma bela manhã, para fazer algumas compras, e, pouco depois de chegar, comecei a me sentir mal. O mal-estar aumentou depressa, até que tive dores em todos os ossos, náuseas, tonturas, cefaléia, todos os sintomas, enfim, que precedem um surto de influenza. Cuidei estar a pique de contrair a gripe que então grassava em Boston, em caráter epidêmico, ou coisa pior. Ocorreu-me porém, à mente os ensinamentos da cura psíquica a que assistira durante todo o inverno, e achei ser aquela a oportunidade de pô-los à prova. A caminho de casa topei com uma amiga e abstive-me, com algum esforço, de contar a ela o que sentia. Esse foi o primeiro passo vencido. Enfiei-me incontinente na cama, e meu marido quis chamar o médico. Eu lhe disse, contudo, que preferia esperar até o dia seguinte para ver como me sentia. Aconteceu, então, uma das mais belas experiências de minha via.
“Não posso expressá-la de nenhum outro modo senão dizendo que ‘me deitei na corrente da vida e deixei que ela passasse sobre mim’. Lancei de mim todo o medo de alguma doença iminente; eu estava perfeitamente disposta e obediente. Não houve esforço intelectual nem seqüência de pensamentos. Minha idéia dominante era esta: ‘Olha para serva do Senhor: faze de mim o que quiseres’, e uma perfeita confiança em que tudo estaria bem, em que tudo estava bem. A vida criativa fluía em mim a todo instante, e eu me sentia aliada ao Infinito, em harmonia, e cheia de paz que ultrapassa o entendimento. Não havia lugar em minha mente para um

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corpo enfermo. Eu não tinha consciência do tempo, nem do espaço, nem das pessoas; apenas de amor, de felicidade e de fé.
“Não sei quanto tempo durou esse estado, nem quando adormeci; mas, ao despertar na manhã seguinte, eu estava bem.”

Estes casos são excessivamente triviais, 33 mas neles, se não temos outra coisa, temos o método da experiência e da confirmação. Para o ponto a que me dirijo agora, pouco importa que os senhores considerem as pacientes vítimas ilusas da própria imaginação, ou não. Que elas parecessem a si mesmas curadas pelas experiência que haviam tentado era o suficiente para onvertê-las ao sistema. E se bem seja evidente que o nosso molde mental precisa ser de determinado feitio para obter tais resultados (pois nem tuda gente pode curar-se assim para sua própria satisfação, como nem todos podem curar-se por obra e graça do primeira facultativo que chamam à sua cabeceira), seria, sem dúvida, pedantesco e supermeticuloso para os que podem fazer que a sua selvagem e primitiva filosofia de cura mental seja confirmada de maneiras experimentais como essa, abrir mão delas a uma palavra de ordem de uma terapêutica mais científica. Que havemos nós de pensar de tudo isso. Terá tido a ciência uma pretensão demasiado ampla?
Acredito que as pretensões do cientista sectário são, para dizer o menos, prematuras. As experiências que temos estudado nesta hora (e muitíssimas outras espécies de experiências religiosas se parecem com elas) mostram francamente que o universo é um negócio mais multiforme do que qualquer seita, incluindo a científica, admite. No fim de contas, que são todas as nossas confirmações se não experiências que concordam com sistemas mais ou menos isolados de idéias (sistemas conceituais) que nossas mentes construíram? Mas por quê, em nome do bom senso, precisamos presumir que apenas um desses sistemas de idéias há de ser verdadeiro? O resultado óbvio da nossa experiência total é que se pode tratar o mundo de acordo com muitos sistemas de idéias, e que ele é assim tratado por homens diferentes, e dará, cada vez, algum tipo característico de proveito a quem o trata ao mesmo tempo que outro tipo de proveito tem de ser omitido ou adiado. A ciência nos dá a todos a telegrafia, a iluminção elétrica e a diagnose, e consegue prevenir e curar algumas moléstias. Na forma da cura psíquica, , a religião nos dá a muitos de nós serenidade, equilíbrio moral e felicidade, e previne determinadas formas de doenças, como faz a ciência ou até mais, com certa classe de pessoas. É evidente, portanto, que a ciência e a religião são ambas chaves genuínas destinadas a abrir a casa do tesouro do mundo àquele que for capaz de usar qualquer uma delas praticamente. Bem como, é claro, nenhuma das duas saberá tornar supérfluo o uso simultâneo da outra. E por quê, afinal de contas, não pode o mundo ser tão complexo que consista em muitas esferas entrepenetrantes de realidade, que podemos enfocar alternadamente, usando diferentes concepções e assumindo atitudes diferentes, do mesmo modo com que os matemáticos manejam os mesmos fatos numéricos e espaciais através da geometria analítica, dfa álgebra, do cálculo ou dos quateniões, e sempre obtendo um resultado certo? Desse ponto de vista, a religião e a ciência, cada qual confirmada à sua maneira, de hora em hora e de vida em vida, seriam coeternas. O pensamento primitivo, com sua crença nas forças pessoais individualizadas, parece, de qualquer modo, mais londo do que nunca de ser expulso do campo pela ciência. Muitas pessoas cultas ainda o consideram o canal experimental mais direto pelo qual podem prosseguir em seu intercâmbio com a realidade.34
O caso da cura psíquica se me oferecia tão fácil e cômodo que não pude resistir à tentação de utilizá-lo para dirigir a atenção dos senhores a estas verdades, mas hoje devo contentar-me com essa brevíssima indicação. Numa próxima conferência, as relações da religião com a ciência e com o pensamento primitivo receberão uma atenção muito mais explícita.

33. Veja no Apêndice aditado a esta conferência dois outros casos que me foram fornecidos por amigos.
34. Se as várias esferas ou sistemas se fundirão integralmente, algum dia, numa concepção absoluta, como a maioria dos filósofos presume qaue devem fazer e, a ser assim, qual é o melhor meio de alcançar essa concepção, são perguntas a que apenas o futuro pode responder. O certo agora é o fato da existência de linhas de concepção dispares, cad auma das quais corresponde a alguma parte da verdade do mundo, cada uma das quais é confirmável, até certo ponto, cada qual deixando para fora alguma parte da experiência real.

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APÊNDICE

( Veja nota da página 62 )

CASO I. “Minha experiência é a seguinte: fazia muito tempo que estava doente, e um dos primeiros resultados da minha doença, uns doze anos antes, havia sido uma diplopia que me privou quase completamente do uso dos olhos para a leitura e para a escrita, ao mesmo tempo que, pouco tempo depois, me impedeiu de fazer qualquer espécie de exercício sob pena de imediata e grande exaustão. Eu estivera entregue aos cuidados de médicos do mais alto prestígio tanto na América como na Europa, homens em cujo poder para ajudar-me eu depositara muita fé, com pouco ou nenhum resultado. Depois, numa ocasião em que eu parecia estar perdendo terreno rapidamente, ouvi algumas coisas que me despertaram tando interesse pela cura mental que me levaram a experimentá-la; eu não alimentava muita esperana de que isso me fizesse algum bem – era uma oportunidade que eu tentava, em parte porque meu pensamento estava interessado na nova possibilidade que ela parecia abrir, em parte por se tratar, então, da única probabilidade que se me oferecia. Fui procurá-la em Boston, da qual alguns amigos meus tinham obtido, ou supunham ter obtido, grande auxílio; o tratamento foi silencioso, pouco se falou, e esse pouco não levou convicção alguma à minha mente; fosse qual fosse a influência exercida, esta era a do pensamento ou do sentimento de outra pessoa projetado em silêncio na minha mente inconsciente, no meu sistema nervoso, por assim dizer, enquanto estivemos sentados, calados, ao lado um do outro. Acreditei, desde o princípio, na possibilidade de tal ação, pois eu conhecia o poder da mente de afeiçoar, ajudando ou estorvando, as atividades nervosas do corpo, e achava a telepatia provável, embora não provada, mas não acreditava nela senão como simples possibilidade, e nenhuma convicção forte nem fé mística ou religiosa estavam ligadas ao meu pensamento sobre ela que me pudessem Ter ativado, vigorosamente, a imaoginação.
“Eu me sentava em silêncio em companhia do curador, durante meia hora, todos os dias, a princípio sem nenhum resultado; volvidos, porém, uns dez dias, repentina e rapidamente tive consciência de uma onde de energia nova que se erguia dentro de mim, um sentido de poder que passava além de velhos sítios de parada, do poder de romper os limites que, a despeito das minhas inúmeras tentativas anteriores, tinha sido por muito tempo verdadeiras muralhas erguidas em torno da minha vida, altas demais para escalar. Comecei a ler e a caminhar como não of azia anos, e a mudança foi súbita, acentuada e inequívoca. A onda pareceu subir durante algumas semanas, umas três ou quatro talvez, quando, tendo chegado o verão, vim-me embora, retomando o tratamento alguns meses mais tar. A injeção de ânimo que recebi revelou-se permanete e me fez ganhar terreno aos pouco, em vez de perdê-lo mas, com essa injeção, a influência, de certo modo, como se dissipou e, conquanto minha confiança na realidade do poder houvesse ganho imensamente, mercê da primeira experiência, e devesse ter-me ajudado a obter novos ganhos de saúde e força se minha crença nela tivesse sido ali o fator preponderante, nunca mais, depois disse, alcancei resultado tão surpreendente e tão claramente marcado como o que tive quando fiz a experiência pela primeira vez, com pouca fé e dúbia expectativa. É muito difícil expressar com palavras toda a evidência de um assunto como esse, reunir num enunciado distinto tudo aquilo em que fundamos nossas conclusões, mas sempre senti que eu dispunha de provas copiosas para justificar (pelo menos aos meus olhos) a conclusão a que cheguei nessa ocasiao, e que nunca mais alterei, de que a modificação física ocorrida então era, primeiro, resultado de uma mudança operada dentro de mim por uma alteração do estado mental; e, segundo, que a alteração do estado mental não fora, a não ser de um modo muito secundário, produzida pela influência de uma imaginação excitada, ou de uma sugestão de tipo hipnótico conscientemente recebida. Por fim, acredito que a mudança resultasse do fato de haver eu recebido telepaticamente, e num estrato mental bem abaixo do nível da consciência imediata, uma atitude mais sadia e mais enérgica, recebendo-a de outra pessoa, cujo pensamento se dirigida para mim com a intenção de imprimir em mim a idéia dessa atitude. Em meu caso, a doença, sem dúvida alguma, devia ser classificada como nervosa, não org^nica; mas, partindo das oportunidades que se me ensejaram de fazer observações, cheguei à conclusão de que a linha divisória traçada entre os tipos de doenças é arbitrária, já que os nervos controlam de todo em todo as atividades internas e a nutriçáo do corpo; e acredito que os sistema nervoso central, ativando e inibindo centros locais, pode exercer vasta influência sobre qualquer espécie de enfermidade, bastando para isso que seja ponto em ação. No meu entender, a questão se resume simplesmente na maneira de p^-lo em ação, e creio que a incerteza e as notáveis diferenças registradas nos resultados obtidos através da cura mental só mostram o quanto ainda somos ignorantes das forças em operação e das medidas que deveríamos tomar para torná-las efetivas. Minha observação de mim mesmo e de outros dão-me a certeza de que tais resultados não se devem a coincidências casuais; é sem dúvda verdadeiro que a mente consciente, a imaginação em muitos casos, participa deles como fator, mas é também verdadeiro que, em muitos outros, às vezes até casos extraordinários, mal parece participar. De um modo geral, inclino-me a pensar que a ação curativa, como a mórbida, salta do plano da mente normalmente inconsciente, de modo que as impressões mais fortes e eficazes são as que ela recebe, de algum modo sutil, ainda desconhecido, diretamente de uma mente mais sadia, cujo estado, através de uma lei oculta de simpatia, ela reproduz.”

CASO II. “Por solicitação urgente de amigos, e com nenhuma fé e pouquíssima esperança (em virtude, provavelmente, de uma experiência anterior malograda com um seguido da Ciência Cristã), nossa filhinha, confiada aos cuidados de um curador, foi curada de uma afecção a respeito de cujo diagnóstico o médico havia sido desalentador. Isso me interessou, e pus-me a estudar com afã o método e a filosofia desse processo de cura. Pouco a pouco, uma paz e uma tranqüilidade interiores se apossaram de mim de forma tão positiva que minha maneira de ser se modificou consideralmente. Meus filhos e meus amigos perceberam e comentaram a mudança. Todos os sentimentos de irritabilidade haviam desaparecido. Até a expressão do meu rosto se alterou de modo digno de nota.
“Eu costumava mostrar-me fanático, agressivo e intolerante nas discussões que travava, não só em público mas também em particular. Passei a mostrar-me amplamente tolerante e receptivo em relação aos pontos de vista dos outros. Eu me havia revelado nervoso e irritável, voltando para casa, duas ou três vezes por semana, acometido de uma
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enxaqueca que supunha induzida por uma dispepsia e pelo catarro. Tornei-me sereno e delicado, e os incômodos físicos desapareceram completamente. Eu me havia habituado a aproximar-me de toda e qualquer entrevista de negócios com um sentimento quase mórbido de pavor. Agora enfrento todas as entrevistas com confiança e calma interior.
“Cumpre-me dizer qaue o crescimento todo se dirigiu no sentido da eliminação do egoísmo. Vejam bem que não me refiro simplesmente às formas mais grosseiras, mais sensuais, do egoísmo, senão os tipos mais sutis e geralenmte não reconhecidos, como os que se expressam em tristeza, mágoa, pesar, inveja, etc. O crescimento processou-se no sentido de uma compreensão prática, operosa, da imanência de Deus e da Divindade do eu mais verdadeiro e mais íntimo do homem.”

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VI e VII Conferências

A ALMA ENFERMA

Em nosso último encontro, consderamos o temperamento equilibrado, o temperamento que tem uma incapacidade constitucional para o sofrimento prolongado, e no qual a tendência para ver as coisas por um prisma otimista é como a água de cristalização em que se coloca o caráter do indivíduo. Vimos que esse temperamento pode tornar-se a base de um tipo especial de religião, uma religião em que o bem, até o bem da vida deste mundo, é considerado a coisa essencial a que um ser racional deve atender. Essa religião o leva a acertar suas contas com os aspectos piors do universo, declinando sistematicamente de tomá-los em consideração ou de dar-lhes alguma importância, ignorando-os em suas reflexões, ou até, conforme a ocasião, negando-lhes pura e simplesmente a existência. O mal é uma doença; e preocupar-se a gente com a doença é por si só uma forma adicional de doença, que só serve de agravar a afecção original. Até o arrependimento e o remorso, afeições que entram no caráter dos ministros do bem, podem ser apenas impulsos enfermiços e debilitantes. O melhor arrependimento é a gente erguer-se, agir pela justiça e esquecer que alguma vez manteve relações com o pecado.
Na filosofia de Spinoza se encontra essa espécie de equilíbrio mental entretido no coração, e este tem sido um segredo do seu fascínio. Aquele que é conduzido pela Razão, de acordo com Spinoza, é conduido totalmente pela influência de bem sobre a sua mente. O conhecimento do mal é um conhecimento “inadequado”, apropriado apenas às mentes servis. Assim sendo, Spinoza condena categoricamente o arrependimento. Quando os homens cometem erros, diz ele,

“Pode-se esperar que as torturas da consciência e o arrependimento ajudsem a trazê-los para o bom caminho, e pode-se, em vista disso, concluir (como todo mundo conclui) que essas afeições são coisas boas. Entretanto, se examinarmos a questão mais de perto, descobriremos que elas não são boas, senão, pelo contrário, paixões más e deletérias. Pois é manifesto que podemos sempre tirar maior proveito da razão e do amor da verdade do que da perturbação da consciência e do remorso. Nocivos e maus são estes últimos, na medida em que formam uma espécie particular de tristeza; e já provei as desvantagens da tristeza”, continua ele, “mostrando que devemos forcejar por mantê-la afastada da nossa vida. Por isso havemos de diligenciar, visto que aintranqüilidade da consciência e o remorso pertencem a esse gênero de compleição, fugir e evitar esses estados de espírito.” 1

Dentro da corporação cristã, para a qual o arrependimento dos pecados temsido, desde o princípio, o ato religioso crítico, o equilíbrio mental sempre se apresentou com sua interpretação mais amena. De acordo com esses cristãos equilibrados, o arrependimento significa afastar-se do pecado, e não gemer e retorcer-se pensando no seu arrependimento. A prática católica da confissão e da absolvição, num dos seus aspectos, é pouco mais que um método sistemático de manter o equilíbrio mental em posição superior. Por seu intermédio, as contas de um homem com o mal são periodicamente examinadas e acertadas, para que ele possa começar uma nova página em que não estejam inscritas velhaos dívidas. Qualquer católico nos dirá que se sente limpo, fresco e livre depois da operação depurativa. Martinho Lutero não pertencia, de maneira alguma, ao tipo do equilibrado mental no sentido radical em que o discutimos, mas repudiava a absolvição dos pecados concedida pelos padres. No entanto, sobre a questão do aerrependimento tinha idéias equilibradas, devidas, de um modo geral, à amplitude da sua concepção de Deus.

“Quando eu era monge”, diz ele, “julgava-me inteiramente rejeitado se, em qualquer momento, sentisse em mim a concupiscência da carne: quero dizer, se sentisse alguma comoção má, o desejo da carne, a ira, o ódio, ou a inveja de algum irmão. Experimentei muitas maneiras de saquietar a consciência, mas em vão; porque a concupiscência e a lascívia da minha carne voltavam sempre, de modo que eu não podia descansar, e era sempre atormentado por esses pensamentos. Cometeste este ou aquele pecado: estás infectado de inveja, de impaciência e de outros pecados semelhantes por conseguinte, entraste nesta santa ordem em vão, e todas as tuas boas obras são inaproveitáveis. Mas se eu, então, tivesse compreendido direito as palavras de Paulo: ‘Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querer,’ eu não me teria atormentado tão miseravelmente a mim mesmo, mas teria pensado e dito entre mim, como faço agora comumente: ‘Martinho, não estarás completamente sem

1. Tract on God, Man, and Happiness, Livro ii, cap. X.

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Staupitz costumava dizer: ‘Prometi solenemente a Deus, mais de mil vezes, que me tornaria um homem melhor, mas nunca realizei o que prometi. Daqui por diante não farei promessas dessa natureza: pois agora fiquei sabendo,por exepriência própria, que não sou capaz de cumpri-las. A menos, portanto, que Deus me seja favorável e misericordioso, por amor de Cristo, não serei capaz, em que pese a todas as minhas promessas e a todas as minhas boas ações, de apresentar-me diante dele’. Esse desespero (de Staupitz) era não só verdadeiro mas também piedoso e santo; e é preciso que todos o confessem, com a boca e o coração, para serem salvos. Pois os piedosos não se fiam da própria justiça, e vêem em Cristo o seu reconciliador, que deu vida pelos pecados dos homens. De mais disso, conhecem que o resto do pecado, que está em sua própria carne, não lhes é debitado, senão livremente perdoado. Não obstante, lutam em espírito contra a carne, temerosos de satisfazer à sua luxúria; e embora a sintam raivar e rebwelar-se, e eles mesmos também caiam às vezes em pecado mercêr da sua fraqueza, não se desalentam, nem pensam por isso que o seu estado, o seu tipo de vida e as obras que estão levando a efeito de acordo com o seu ofício, desagradem a Deus; mas se levantam pela fé.”2

Uma das heresias pelas quais os jesuítas conseguiram que aquele gênio espiritual, Molinos, fundador do Quietismo, fosse tão abominavelmente condenado, foi a sua opinião mentalmente equilibrada sobre o arrependimento.

“Quando incorres numa falta, seja qual for a sua natureza, não te perturbes nem te aflijas por isso. Pois as faltas são efeitos da nossa frágil Natureza, manchada pelo Pecado Original. O inimigo comum far-te-á acreditar, tanto que cometes algum pecado, que caminhas no erro e, portanto, estás fora de Deus e da sua graça, e por este meio te fará desconfiar da divina Graça, falando-te da tua miséria moral e conferindo-lhe proporções gigantescas; e enfiando na tua cabeça a idéia de que, a cada dia que passa, tua alma fica pior em lugar de melhorar, à força de repetir os mesmos erros. Ó, alma bendita, abre os olhos; e fecha a porta a essas diabólicas sugestões, aprendendo a conhecer tua miséria e a confiar na misericórdia divina. Não seria um simples néscio o que, correndo num torneio com outros, e caindo no melhor da carreira, se deixasse ficar no chão, chorando e se afligindo com discursos sobre a sua queda? Homem (dir-lhe-iam eles), não percas tempo, levanta-te e retorna a carreira, pois o que torna a levantar-se depressa e continua a correr é como se nunca tivesse caído. Se te vires caído um ou mil vezes, deves fazer uso do remédio que te dei, ou seja, uma amorosa confiança na misericórdia divina. Estas são as armas com as quais deves lutar e vencer a covardia e os pensamentos vãos. Este é o meio que deves usar – não perderes tempo, não te perturbares e não colheres nenhum proveito.”3

Ora, em contraste com opiniões mentalmente equilibradas como estas, se ast ratarmos como um modo de subestimar deliberadamente o mal, surgirá uma opinião radicalmente oposta, um modo de sobreestimá-lo, se aos senhores apraz chamar-lhe assim, baseada na persuasão de que os maus aspectos da nossa vida são de sua própria essência, e que o sentido do mundo tanto mais nos impressiona quanto mais nos precoupamos com ele. Temos de examinar agora essa maneira mais mórbida de encarar a situação. Mas assim como concluí a nossa última hora com uma reflexão filosófica gerfal sobre a forma mentalmente equilibrada de encarar a vida, eu gostaria, neste ponto, de fazer outra reflexão filosófica sobre ela antes de passar à tarefa mais pesada. Os senhores me relevarão a breve demora.
Se admitirmos que o mal é uma parte essencial do nosso ser e a chave da interpretação da nossa vida, sobrecarregar-nos-emos com uma dificuldade que sempre se mostrou gravosa nas filosofias da religião. Todas as vezes que se ergueu numa filosofia sistmática do universo, relutou o teísmo em admitir que Deus seja algo menos do que Tudo-em Tudo. Em outrs palavras, o teísmo filosófico sempre revelou tendência para tornar-se panteísta e monista e para considerar o mundo uma unidade de fato absoluto; e isso tem estado em desacordo com o teísmo popular ou prático, que mais recentemente se vem mostrando mais ou menos pluralista, para não dizer politeísta, e perfeitamente satisfeito com um universo composto de muitos princípios originais, bastando que nos seja concedido acreditar que o princípio divino permanece supremo, e os demais, subordinados. Neste último caso, Deus não é necessariamente responsável pela existência do mal; ele só o seria se o mal não fosse afinal superado. Mas do ponto de vista monista ou panteísta, o mal, como tudo o mais, precisa fudnar-se em Deus; e a dificuldade consiste em ver como isso pode ser sendo Deus absolutmente bom. A mesma dificuldade se nos depra em toda forma de filosofia em que o mundo aparece como unidade perfeita de fato. Uma unidade dessa natureza é um Indivíduo, e nele as piores partes têm de ser tão essenciais quanto as melhores, precisam ser igualmente necessárias para fazer do indivíduo o que ele é; visto que, se qualquer parte do

2. Commentary on Galatians, Filadélfia, 1891, págs. 510-514 (rsumido).
3. Molinos: Spiritual Guide, Livro II, caps. Xvii, xviii (resumido).
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indivíduo, seja ela qual for, deve desvanecer-se ou alterar-se, o indivíduo, já não será aquele. A filosofia do idealismo absoluto, tão vigorsamente representada hoje em dia na Escócia e na America, tem de lutar com essa dificuldade quase tanto quanto o teísmo escolástico lutou no seu tempo; e se bem seja prematuro afirmar que não há nenhuma solução especulativa para o quebra-cabeça, é perfeitamente justo dizer que não existe nenhuma solução clara ou fácil, e que a única maneira óbvia de fugir aqui do paradoxo é abandonar de todo a suposição monista e admitir que o mundo existe desde a sua origem em forma pluralista, como um agregado ou coleção dfe coisas e princípios superiores e inferiores, mais do que um fato absolutamente unitário, Pois, nesse caso, o mal não precisa ser essencial; pode ser, e pode ter sido sempre, uma porção independente, sem nenhum direito racional ou absoluto de viver com o resto, e do qual podemos concebivelmente esperar libertar-nos afinal.
Ora, o evangelho do equilíbrio mental, qual o descrevemos, deposita o seu voto distintamente em favor da visão pluralista. Ao passo que o filósofo monista se julga mais ou menos obrigado a dizer, como Hegel dizia, que tudo o que é real é racional, e que o mal, como elemento dialeticamente necessário, precisa ser pregado, conservado, consagrado e Ter uma função no sistema final da verdade, o equilíbrio mental recusa-se a enunciar qualquer coisa desse gênero.4 O mal, diz ele, é enfaticamente irracional, e não deve ser pregado, nem preservado, nem consagrado em nenhum sistema de verdade. É uma pura abominação ao Senhor, uma irrealidade estranha, um elemento de dissipação, que há de ser abandonado, negado e Ter a sua memória, se possível, expurgada e esquecida. O ideal, longe de ser coextensivo com todo o real, é um mero extrato do real, marcado pela sua libertação de todo contacto com essa matéria mórbida, inferior e excrementícia.
Aqui temos, diante de nós, nítida e aberta, a interessante noção da existência de elementos no universo que podem não fazer nenhum todo racional em conjunção com os outros elementos, e que, do ponto de vista de qualquer sistema que esses outros elementos são capazes de formar, só podem ser considerados como algo irrelevante e acidental – algo “sujo”, por assim dizer, e fora do lugar. Peço-lhes agora que não se esqueçam desta noção; pois se bem a maioria dos filósofos preça esquecê-la ou desprezá-la tanto que nem sequer faz menção dela, acredito que teremos de admitir, no fim, que ela contém um elemento de verdade. Desse modo, o evangelho da cura psíquica, mais uma vez se nos depara cheio de dignidade e importância. Vimos que se trata de uma religião genuína, e não de um simples e tolo apelo à imaginação para curar doenças; vimos que o seu método de verificação experimental não difere do método de toda a ciência; e agora encontramos aqui a cura psíquica como paladina de uma concepção perfeitamente definida da estrutura metafísica do mundo. Espero que, em vista de tudo isso, os senhores não deplorem a minha insistência em chamar-lhes a atenção para esta matéria.
Digamos agora adeus, por algum tempo, a toda essa maneira de pensar e voltemo-nos para as pessoas que não podem lançar de si, num relance, o fardo da consciênia do mal, e estão ingenitamente destinadas a sofrer cm razão da sua presença. Assim como vimos que no equilíbrio mental há níveis mais superficiais e mais profundos, felicidade como a do simples animal e tipos mais regenerados de felicidade, assim também há níveis diferentes da mente mórbida, e cada qual mais formidável do que o outro. Existem pessoas para quem o mal significa apenas um desajustamento com coisas, uma correspondência errada entre a vida da pessoa e o ambiente. Um mal dessa ordem é curável, pelo menos em princípio, no plano natural, pois bastará modificar o eu ou as coisas, ou ambos ao mesmo tempo, para que os dois termos sejam levados a ajustar-se e tudo volte a ser alegre como o bimbalhar de um sino de casamento. Para outros, porém, o mal não é apenas uma relação entre o sujeito e determinadas coisas externas, senão algo mais radical e geral, um erro ou vício em sua natureza essencial, que nenhuma alteração do ambiente e nenhum rearranjo do eu interior vingam curar, e que requer um remédio sobrenatural. De um modo geral, as raças latinas se inclinaram mais para a primeira maneira de encarar o mal, como se este fosse

4. Digo isso apesar das afirmações monísticas de muitos autores que defendem a cura mental; pois essas afirmações são, de fato incompatíveis com a sua atitude para com a doença, e não estão logicamente envolvidas, como se pode demonstrar com facilidade, nas experiências de união com a Presença Superior a que eles mesmos se ligam. A saber, a Presença Superior não precisa ser o todo absoluto das coisas, é mais do que suficiente para a experiência religiosa encará-lo como uma parte, bastando para isso que seja a parte mais ideal.
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feito de males e pecados no plural, removíveis em detalhe; ao passo que as raças germânicas se inclinavam antes a pensar no Pecado no singular, com P maiúsculo, como alguma coisa inarredavelmente arraigada em nossa subjetividade natural, e que nunca poderá ser removida por quaisquer operações parciais e superficiais. 5 Essas comparações de raças estão sempre abertas à exceção, mas sem dúvida o tom setentrional em religião tem-se inclinado para a persuasão mais intimamente pessimista, e veremos que esse modo de sentir, sendo o mais extremado, é o mais instrutivo para o nosso estudo.
A psicologia recente descobriu um grande uso para a palavra “limiar” como designação simbólica do ponto em que um estado de espírito passa para outro. Falamos, assim, do limiar da consciência de um homem em geral para indicar o quantum de ruído, pressão ou outyro estímulo exterior é necessário para despertar-lhe a atenção. Um homem de limiar elevado cochila durante uma algazarra pela qual outro homem de limiar mais baixo seria imediatamente despertado. De maneira semelhante, quando uma pessoa é sensível a pequenas diferenças em qualquer ordem de sensação, dizemos que ela tem um baixo “limiar de diferença” – sua mente o transpõe facilmente para entrar na consciência das diferenças em tela. E da mesma maneira podemos falar do “limiar da dor”, do “limiar do medo”, do “limiar da angústia”, e vê-los rapidamente transpostos pela consciência de alguns indivíduos, mas pairando tão alto em outros que a consociência deles não pode alcançá-los com freqüência. Os sangüíneos e mentalmente equilibrados vivem habitualmente no lado ensolarado da sua linha de ang´stia, os deprimidos e melancólicos vivem no lado oposto, nas trevas e na apreensão. Existem homens que parecem ter começado a vida com uma ou duas garrafas de champanha inscritas em seu crédito; ao passo que outros parecem Ter nascido à beira do limiar da dor, que os estímulos mais leves os fazem fatalmente transpor.
Não se tem a impressão de que o que costuma viver de um lado do limiar da dor pode precisar de uma espécie diferente de religião do que o que costuma viver do outro lado? Neste ponto, surge naturalmente a questão da relatividade de diferentes tipos de religião para diferentes tipos de necessidade e se tornará um problema sério antes de chegarmos ao fim. Mas para enfrentá-lo em termos gerais, devemos voltar-nos, primeiro, para a tarefa desagradável de ouvir o que as almas doentes, como podemos chamar-lhes em contraste com as equilibradas, têm a dizer sobre os segredos do seu cárcere, da sua forma peculiar de consciência. Voltemos, portanto, resolutamente as costas para os nascidos uma vez e o seu evangelho otimista azul-celeste; não gritemos simplesmente, apesar de todas as aparências, “Viva o Universo! – Deus está no Céu, tudo vai bem com o mundo. “Vejamos antes se a piedade, a dor, o medo e o sentido da impotência humana não descerra uma visão mais profunda e não colocam em nossas mãos uma chave mais complicada do significado da situação.
Para começar, como podem coisas tão inseguras quanto as experiências bem-sucedidas deste mundo proporcionarem uma ancoragem estável? Uma corrente não é mais forte do que o seu elo mais fraco, e a vida, afinal de contas, é uma corrente.Na existência mais saudável e mais próspera, quanto elos de enfermidade, perigo e desastre costumam interpor-se? De supetão, do fundo de cada fonte de prazer, como disse o velho poeta, algo amargo se levanta: um toque de náusea, um súbito morrer do deleite, uma bafagem de melancolia, coisas que soam como um dobre de finados, por mais fugazes que sejam, trazem a sensação de chegar de uma região mais profunda e, não raro, têm um tremendo poder de persuasão. O zumbido da vida cessa ao toque deles como deixa de soar a corda de um piano quando cai sobre ela o abafador.
Está claro que a música pode começar outra vez – e outra vez, e outra vez – a intervalos. Mas com isto dá à consciência equilibrada um sentido irremediável de precariedade. É um sino rachado; respira com dificuldade e por acidente.
Suponhamos um homem tão abarrotado de equilíbrio mental que nunca experimentou na própria pessoa nenhum desses intervalos moderadores; se esse homem for dado a reflexões, terá de generalizar e classificar o próprio quinhão com o de outros; e, ao fazê-lo, verá que o seu escape é apenas um ensejo feliz e não uma diferença essencial. Ele poderia, do mesmo modo, Ter nascido com uma sorte inteiramente diversa. E então, adeus, segurança vã! Que tipo de estrutura de coisas é ela da qual o melhor que se pode dizer é: “Graças a Deus, ela me poupou desta vez!”.

5.Cf. J. Milsand: Luther et le Self-Arbitre, 1884, passim.
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Não é a sua bem-aventurança uma frágel ficção? Não é a nossa alegria um sentimento muito vulgar, pouco diverso da risadinha espriida de qualquer canalha diante do êxigo do seu golpe? E se fosse, de fato, um sucesso, mesmo em termos como esses! Tome-se, contudo, o homem mais feliz, o homem mais invejado do mundo e, em nova casos em dez, sua consciência íntima é de frustração. Ou os seus ideais na linha das consecuções pairam muito acima das próprias consecuções, ou ele acalenta ideais secretos a cujo respeito o mundo nada sabe, e em relação aos quais, íntimamente, ele conhece que não conseguirá alcançá-los.
Quando um otimista vitorioso como Goethe se exprime desta guisa, que será dos homens menos bem-sucedidos?

“Nada direi”, escreve Goethe em 1824, “contra o curso da minha existência. No fundo, entretanto, nada mais foi do que uma sucessão de sofrimentos e trabalhos, e posso afirmar que em todo o transcorrer dos meus 75 anos, não tive sequer quatro semanas de autêntico bem-estar. É sempre o perpétuo rolar de uma rocha que precisa ser erguida de novov, para todo o sempre.”

Que homem sozinho foi jamais, no todo, tão bem-sucedido quanto Lutero? E, no entanto, quando ficou velho, reviu a sua vida como se fosse um malogro total.

“Estou profundamente cansado da vida. Rezo ao Senhor para que venha logo e me leve daqui. Que venha, sobretudo, com o seu Juizo final: esticarei o pescoço, o trovão estruirá, e poderei descansar.” – E, segurando um colar de ágatas na ocasião, ajuntou: “Ó Deus, concede que isso venha sem delongas. Eu comeria hoje este colar, sem titubear, para que o Juízo viesse amanhã.” – A Eleitora Mãe, disse um dia a Lutero, quando este jantava com ela: “Doutor, desejo que ivais os próximos quarenta anos.” “Senhor”, replicou ele, “eu renunciaria de bom grado à minha possibilidade de ir para o Céu só para não precisar viver mais quanrenta anos.”

Frustração, portanto, frustração! – assim nos estigmatiza o mundo a cada passo. Nós o coborimos com nossos erros, nossas maldades, nossas oportunidade perdidas, com todas as lembrança da nossa inadaptação ao mister que elegemos. E com que maldita ênfase ele, então nos apaga! Nenhuma multa fácil, nenhum pedido singelo doe desculpas e nenhuma expiação formal satisfarão as exigências do mundo, mas cada libra de carne reclamada se embebe de todo o seu sangue. As formas mais sutis de sofrimento conhecidas dos homens estão ligadas às peçonhentas humilhações a que se acham sujeitos esses resultados.
E são experiências humanas decisivas. Um processo tão ubíquo e duradouro é, evidentemente, parte integrante da vida. “Existe, com efeito, um elemento no destino humano”, escreve Robert Louis Stevenson, “que nem a própria cegueira contesta. Seja o que for que nos incumbe fazer, não estamos destinados ao sucesso; o malogro é o destino que nos foi atribuído.”6 E estando a nossa natureza assim enraizada no insucesso, não admira que os teólogos o tenham considerado essencial e julgado que apenas através da experiência pessoal da humilhação, que ele engendra, seja alcançado o sentido mais profundo da significação da vida.7
Mas este é apenas o primeiro estádio da doença do mundo. Aumente-se um pouco a sensibilidade do ser humano, leve-se o homem um pouco além do limiar do desespero, e a boa qualidade dos próprios momentos de êxito, quando ocorrem, se corrompe e vicia. Todos os bens
Naturais perecem. As riquezas têm asas; a fama é um sopro; o amor, uma fraude; a mocidade, a saúde e o prazer desaparecem. Podem coisas cujo fim é sempre a poeira e a decepção ser os bens reais por que nossas almas suspiram? Atrás de tudo está o grande espectro da morte universal, a treva que tudo abarca:

5. Ele acrscenta, à maneira característica dos cultors do equilíbrio mental: “A nossa tarefa consiste em fracassar com alegria”.
7. O Deus de muitos homens pouco mais é do que o seu tribunal de apelação contra o julgamento condenatório dos seus malogros, exarado pela opinião deste mundo. Para a nossa própria consciência existe, habitualmente, um resíduo de valor que fiuca depois que os nossos pecados e os nossos erros foram censurados – nossa capacidade de recomnhecê-los e de arrepender-nos deles é o germe de um eu melhor, pelo menos in pposse. Mas o mundo lida conosco in actu e não in posse: e desse germe escondido, cuja existência não pode ser adivinhada do lado de fora, ele nunca toma conhecimento. Voltamo-nos, então, para o Onisciente, que conhece o que temos de ruim, mas que também conhece, o que temos de bom, e que é justo. Atiramo-nos, com o nosso arrependimento, à sua misericórdia: somente por um Onisciente poderemos ser julgados. Assim sendo, a necessidade de um Deus emerge de forma definida desse gênero de experiência de vida.

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“Que proveito tira o homem de todo o trabalho qaue executa debaixo do Sol? Olhei para todas as obras que minhas mãos tinham feito e, vede, era tudo vaidade e aflição do espírito. Pois aquilo que aconteceu aos filhos dos homens aconteceu aos animais; assim como morre um, assim morre o outro; todos são do pó e todos regressam ao pó. … Os mortos nada sabem, nem gozam de alguma recompensa, pois a lembrança deles está esquecida. Como também o seu amor, o seu ódio e a sua inveja aogra pereceram; nem têm eles porção alguma do que quer que se faça debaixo do Sol. … É verdade que a luz é suave, e é agradável para os olhos contemplar o Sol,: mas ainda que o homem viva muitos anos e se compraza com todos eles, não lhe esqueçam os diaos de escuridão, pois eles serão muitos.”

Em resumo, a vida e a sua negação estão inextricavelmente juntas. Mas se a vida for boa, a sua negação terá de ser má. No entanto, as duas são fatos igualmente essenciais da existência; e toda felicidade natural parece, destarte, infectada com uma contradição. O hábito do sepulcro a rodeia.
Para a mente atenta a esse estado de coisas e justamente sujeita ao calafrio destruidor da alegria que tal contemplação engendra, o único alívio que o equilíbrio mental pode dar é dizer: “Disparates e tolices, saiam para o ar livre!” ou “Anime-se, meu velho, você ficará bom daqui a pouco, se deixar de lado a morbidez!” Mas, falando sério, pode uma conversa boba e animal como essa ser considerada uma resposta racional? Atribuir valor religioso ao mero contentamento despreocupado com a nossa breve oportunidade de bem natural não é mais do que a própria consagração da desatenção e da superficialidade. Nossos problemas jazem, de feito, profundamente demais para essa cura. O fato de podermos morrer, de podermos ficar doentes, deixa-nos perplexos; o fato de estarmos por ora vivendo e de estarmos bem é irrelevante para a nossa perplexidade. Precisamos de uma vida não correlacionada com a morte, uma saúde não sujeita à doença, uma espécie de bem que não pereça, um bem, de fato, que suba acima dos Bens da natureza.
Tudo depende da sensibilidade da alma e conflitos. “O que me perturba é acreditar demais na felicidade comum e na bondade”, disse um amigo meu cuja consciência era desse tipo, “e nada me consola do fato de que elas são transitórias. Essa possibilidade me aterra e desconcerta.” O mesmo acontece com a maioria dentre nós: um pequeno esfriamento da excitabilidade e do instinto animais, uma perda insignificante da resistência animal, uma leve fraqueza irritadiça e o abaixamento do limiar da dor levarão o carcoma, que reside no âmago de todas as nossas fontes de deleites, à plena luz, e nos converterão em metafísicos melancólicos. O orgulho da vida e a glória do mundo murcharão. Afinal de contas, isso não é mais que a briga permanente do jovem acalorado com o velho encanecido. A velhice tem a última palavra: o olhar puramente naturalista para a vida, por mais entusiasta que possa começar, acabará de certo na tristeza.
Essa tristeza jaz no coração de todo esquema de filosofia positivista, agnóstica ou naturalista. Deixem o sangüíneo equilíbrio mental fazer o melhor que pode com o seu estranho poder de viver o momento que se vai e não dar importância e esquecer; ainda assim o fundo de quadro do mal estará realmente ali para ser meditado, e o crânio sorrirá, arreganhando os dentes no banq uete. Na vida prática do indivíduo, sabemos que toda a sua tristeza ou alegria, em razão de qualquer fato presente, depende dos esquemas e esperanças mais remotos com que está relacionado. Sua ignorância e estrutura dão-lhe a parte principal do seu valor. Basta que se saiba que o fato presente não conduz a parte alguma e, por mais agradável que possa ser em sua imediação, seu brilho e sua douradura desaparecerão. O velho, que padece de insidiosa moléstia interna, a princípio podia rir-se e embarcar o seu vinho tão bem como sempre, mas agora conhece o seu destino, que os médicos lhe terão revelado; e o conhecimento expulsa a satisfação de todas essas funções. Partícipes da morte, tendo o verme por irmão, elas acabam no marasmo total.
O brilho da hora presente depende sempre do fundo da possibilidades que ela acompanha. Deixem que nossas experiências comuns sejam envolvidas numa ordem moral eterna; deixem que o nosso sofrimento tenha uma importância imortal; deixem que o Céu sorria para a terra, e as divindades a visitem; deixem que a fé e a esperança sejam a atmosfera que o homem respira – e os seus dias passarão cheios de prazer; estremecerão com as perspectivas, palpitarão com valores mais remotos. Coloquem-se ao redor deles, pelo contrário, o frio, a melancolia e a ausência de toda significação permanente que, mercê do puro naturalismo e do evolucionismo da ciência popular do nosso tempo, são as únicas coisas visíveis finalmente, e a emoção cessará de repente, ou se converterá num frêmito de ansiedade.
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Para o naturalismo, alimentado por recentes especulações cosmológicas, a humanidade está numa posição semelhante à de um grupo de pessoas que vivem em cima de um lago gelado, cercado de rochedos pelos quais não há escapar, mas sabem que o gelo está-se derretendo pouco a pouco, e que se aproxima o dia inevitável em que a derradeira camada de gelo desaparecerá e a sina da criatura huma será afogar-se ignominiosamente. Quanto mais alegre for a patinação, quanto mais quente e brilhante for o sol durante o dia e quanto mais rubras forem as fogueiras durante a noite, tanto mais pungente será a tristeza com que teremos de perceber o significado da situação total.
Os gregos antigos nos são continuamente apontados, em obras literárias, como modelos da alegria equilibrada que a religião da natureza engendra. Havia, com efeito, muita alegria entre os gregos. O fluxo de entusiasmo de Homero pela maior parte das coisas sobre as quais brilha o sol é constante. Mas até em Homero os trechos reflexivos são lúgubres,8 e desde o momento em que se tornaram sistematicamente meditativos e deram dr pensar em princípios fundamentais, os gregos se tornaram rematados pessimistas.9 A inveja dos deuses, a vingança que acompanha a felicidade excessiva a morte oniabrangente, a escura opacidade do destino, a crueldade final e ininteligível, eram o fundo de quadro fixo da sua imaginação. A formosa alegria do seu politeísmo não passa de uma poética ficção moderna. Eles não conheciam as alegrias comparáveis, na qualidade, às que dentro em pouco veremos que brâmanes, budistas, cristãos, maometanos, pessoas nascidas duas vezes e cuja religião não é naturalista, extraem dos seus diversos credos de misticismo e renúncia.
A insensibilidade estóicoa e a resignação epicurista foram os maiores progressos que fez a mente grega nessa direção. Dizia o epicurista: “Não busqueis ser felizes, senão escapar à infelicidade; a felicidade vigorosa está sempre ligada à dor; abraçai, por conseguinte, a praia segura e não tenteis os raptos mais profundos. Evitai a decepção esperando pouco e olhando para baixo; e, sobretudo, não vos atormentais”. O estóico dizia: “O único bem genuíno que a vida pode conceder a um homem é a livre possa da própria alma; todos os outros bens são mentirosos”. Cada uma dessas filosofias é em seu grau, uma filosofia de desespero em relação às dádivas da natureza. A confiante entrega de si mesmo às alegrias que livremente se oferecem não existe para o epicurista nem para o estóico; e o que cada qual propõr é uma forma de libertação do estado de espírito cinzento e poeiroso que dela advém. O epicurista ainda espera resultados da economia da indulgência e do abafamento do desejo. O estóico não espera resultado algum, e renuncia de todo em todo ao bem natural. Há dignidade em ambas as formas de resignação. Elas representam estádios distintos do processo moderador que a primitiva embriaguez do homem com a felicidade dos sentidos experimentará por certo. Num, o sangue quente esfriou; no outro, quase gelou; e, embora eu me tenha referido a eles no pretérito perfeito, como sew fossem meramente históricos, o Estoicismo e o Epicurismo serão provavelmente, em todos os tempos, atitudes típicas, que

8. Por exemplo, Ilíada, XVII, 446. “Nada, pois, em parte alguma, de tudo o que respira e rasteja sobre a terra, é mais desgraçado que o homem”.
9. Por exemplo, Theognis, 425-428: “A melhor de todas as coisas sobre a terrá é não Ter nascido e não contemplar os esplendores do Sol, depois disso, o melhor é transpor, o mais depressa possível, as portas do Hades”. Veja também a passagem quase idêntica em Édipo em Colona, 1225. – A Antologia está cheia de pronunciamentos pessimistas: “Nu vim à terra, nu irei para baixo da terra – por quê, então, mourejo debalde quando vejo, nu, o fim diante de mim?” – “Como vim a ser? De onde venho? Por que vim? Para passar. Como poderei aprender alguma coisa se não sei coisa alguma? Sendo nada, fui despertado para a vida: mais uma vez serei o que eu era. Nada e o nada é toda a raça dos mortais.” – “Para a morte somos todos mimados e engordados como um bando de porcos brutalmente abatidos.”
A difeorença entre o pessimismo grego e a variedade oriental e moderna está em que os gregos não tinham feito o descobrimento de que o estado de espírito patético pode ser idealizado e figurar como forma superior de sensibilidade. O espírito deles era ainda tão essencialmente masculino que o seu pessimismo não poderia ser requintado nem se estender muito em sua literatura clássica. Eles teriam desprezado um vida estribada toda ela num tom menor, intimando-a a conservar-se dentro dos limites paropriados da lacrimosidade. O descoborimento doe que a ênfase duradoura, na medida em que este mundo caminha, pode ser aplicada à sua dor e ao seu fracasso, estava reservada a raças mais complexas e (por assim dizer) mais femininas do que os helenos tinham chegado a ser no período clássico. Mas, de qualquer maneira, a perspectiva desses helenos era negramente pessimista.

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marcam certa fase definida consumada na evolução da alma enferma do mundo.10 Eles assinalam a conclusão do quye chamamos o período dos nascidos uma vez, e representam os vôos mais altos dos que a religião dos nasxcidos duas vezes denominaria o homem puramente natural – mostrando o Epicurismo, que só por excesso de cortesia pode ser chamado de religião, o seu refinamento, e o Estoicismo, a sua vontade moral. Eles dfeixam o mundo na forma de uma contradição irreconciliável e não procuram uma unidade mais elevada. Confrontadas com os êxtases complexos que o cristão sobrenaturalmente regenerado pode desfrutar, ou a que se entrega o pante´´ista oriental, as suas receitas de equanimidade são expedientes que parecem quase grosseiros em sua simplicidade.
Façam os senhores, contudo, o favor de observar que ainda não estou pretendendo julgar de maneira final nenhuma dessas atitudes. Limito-me a descrever-lhes a variedade.
A maneira mais segura de chegar aos tipos mais arrebatados de felicidade, dos quais nos dão conta os nascidos duas vezes, passou, como um fato histórico, por um pessimismo mais radical do que qualquer coisa que já consideramos. Vimos que o brilho e o encanto podem ser eliminados dos bens da natureza. Mas há um nível de infelicidade tão grande que acarreta o total esquecimento dos bens da natureza e a total exclusão, do campo mental, de todo o sentimento da sua existência. Para se atingir esse extremo de pessimismo, faz-se mister algo mais do que a observação da vida e a reflexão sobre a morte. O indivíduo precisa, na própria pessoa, tornar-se presa de uma melancolia patológica. Como o entusiasta do equilíbrio mental consegue desconhecer a mesma existência do mal, assim a vítima da melancolia é obrigada, mau grado seu, a desconhecer a existência de todo e qualquer bem: para ela, o bem já pode não ter a menor realidade. Essa sensibilidade e susceptibilidade à dor mental são uma ocorrência rara numa constituição nervosa inteiramente normal; poucas vezes a encontramos num sujeito sadio, mesmo quando vítima das mais atrozes crueldades da fortuna exterior. Por isso vemos aqui a constituição neurótica, sobre a qual tanto falei em minha primeira conferência, subindo ao palco e preparando-se para representar um papel em muito coisa que se segue. Visto que essas experiências de melancolia são, em primeiro lugar, absolutamente particulares e individuais, posso agora lançar mão de documentos pessoais. São, com efeito, dolorosos de se ouvirem, e é quase uma indecência ventilá-los em público. Entretanto, eles se erguem, bem no meio do nosso caminho; e se quisermos versar a psicologia da religião com seriedade, precisamos estar dispostos a esquecer convencionalidades e mergulhar abaixo da lisa e mentirosa superfício das conversações oficiais.
Distinguem-se muitas espécies de depressão patológica. Às vezes, é uma simples ausência passiva de alegria, acompanhada de melancolia, desalento, abatimento, falta de gosto, de entusiasmo e de vigor. O Professor Ribot propôs a palavra anedonia para designar esse estado.

“O estado de anedonia, se me for permitido cunhar uma nova palavra para emparelhar com analgesia”, escreve ele, “foi muito pouco estudado, mas existe. Acometida de uma moléstia do fígado que, por algum tempo, lhe alterou a constituição, uma menina deixou de sentir qualquer afeição pelo pai e pela mãe. Ela teria brincado com a boneca, mas era-lhe impossível encontrar o menor prazer no ato. As mesmas coisas que antigamente lhe provocavam convulsões de riso não vingavam, de maneira alguma, interessá-la agora. Esquirol observou o caso de um magistrado muito inteligente, vítima também de uma afecção hepática. Toda emoção se diria morta dentro dele. Não manifestava perversão nem violência, senão completa ausência de reação emocional. Quando ia ao teatro, o que faria já por hábito, não encontrava ali prazer nenhum. A idéia de sua casa, do lar, das esposa e dos filhos ausentes comovia-o tão pouco, dizia ele, quanto um teorema de Euclides.”11

Um enjôo de mar prolongado produzirá, na maioria das pessoas, uma condição temporária de anedonia. Todos os bens, terrestres ou celestes, que acodem à mente de um indivíduo nessas condições, são repelidos com asco. Um estado temporário desse tipo, ligado à evolução religiosa

10. Por exemplo, no mesmo dia em que escrevo esta página, o correio me traz alguns aforismos de um velho amigo de Heidelberg, conhecedor do mundo e da vida, que podem servir de boa expressão contemporânea do Epicurismo: “!Pela palavra ‘felicidade’ todo ser humano compreende alguma coisa diferente. É um fantasma perseguido apenas por mentes mais fracas. O homem sábio satisfaz-se com o termo mais modesto, mas muito mais definido, contentamento. A educação deveria visar principalmente a poupar-nos uma existência descontente. A saúde favorece o contentamento mas não é, de maneira alguma, indispensável a ele. O coração e o amor da mulher são um astuto artifício da Natureza, uma armadilha armada para o homem comum, a fim de obrigá-lo a trabalhar. Mas o homem sábio preferirá sempre o trabalho escolhido por ele”.
11. Ribot: Psychologie des sentiments.
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de um caráter singularmente elevado, tanto intelectual quanto moralmente, é bem descrito pelo filósofo católico, Padre Graty, em suas reminiscências autobiográficas. Em conseqüência do isolamento mental e do excesso de estudos na Escola Politécnica, o jovem Graty caiu num estado de exaustão nervosa com sintomas que ele assim descreve:

“Eu sentia um terror universal tão grande que acordava durante a noite pensando que o Pantheon estava desmoronando sobre a Escola Politécnica, ou que a escola ardia em chamas, ou que o Sena invadira as Catacumbas e Paris estava sendo inundada. E quando essas impressões se desvaneciam, eu experimentava durante o dia inteiro, sem descando, uma desolação incurável e intolerável, que beirava o desespero. Julgava-me, com efeito, rejeitado por Deus, perdido, condenado! Sentia qualquer coisa parecida com os padecimentos do inferno. Minha mente nunca se voltara para essa direção. Nem discursos nem reflexões me haviam impressionado dessa maneira. Eu não dava importância ao inferno. Agora, de repente, eu me via sofrendo, até certo ponto, tudo o que ali se sofre.
“Mas o mais pavoroso era talvez que toda e qualquer idéia de céu me fora arrebatada: eu já não podia conceber coisa alguma nesse sentido. Ficara-me a impressão de que não valia a pena ir para o céu. Dir-se-ia um vácuo; um eliseu mitológico, uma habitação de sombras menos reais do que a terra. Nõ me era possível conceber alguma alegria, algum prazer em habitá-lo. Felicidade, alegria, luz, afeição, amor – todas essas palavras me pareciam agora destituídas de sentido. Eu poderia, sem dúvida, haver falado de todas essas coisas, mas me tornara incapaz de sentir nelas o que quer que fosse, de compreender algo a respeito delas, de esperar que elas me desem qualquer coisa ou de acreditar que existissem. Nisso se resumia o meu grande e inconsolável pesar! Eu já não percebia nem concebia a existência da felicidade ou da perfeição. Um céu abstrato sobre um rocha nua. Tal era a minha atual morada para a eternidade”.12

Isso quanto `melancolia no sentido da incapacidade de um sentimento alegre. Forma muito pior dessa melancolia é a angústia positiva e ativa, uma espécie de nevralgia psíquica inteiramente desconhecida da vida sadia, que pode participar de vários caracteres, de modo que nela, às vezes, prepondera a aversão; às vezes, a irritação e a exasperação; ou ainda a desconfinça de si próprio e o desespero; ou a suspeita, a ansiedade, a trepidação, o medo. O paciente pode rebelar-se ou submeter-se; acusar-se ou acusar forças externas; e pode, ou não, ser atormentado pelo mistério teórico da razão por que há de sofrer assim. A maioria é de casos mistos, e não devemos respeitar em demasia as nossas classificações. De mais a mais, somente numa proporção relativamente pequena estão os casos ligados à esfera religiosa da experiência. Casos desesperados, por exemplo, em regra geral, não estão. Transcrevo agora, literalmente, trechos do primeiro caso de melancolia que cai entre as mãos. PE a carta de um paciente internado num asilo francês.

“Sofro demais neste hospital, tanto física qunto moralmente. Além das queimaduras e da insônia (pois jã não durmo desde que me encerraram aqui, e o breve repouso que consigo é interrrompido por sonhos maus, e acordo com um salto, torturado por pesadelos, visões medonhas, relâmpagos, trovões, e o resto), o medo, um medo atroz me oprime, retém-me preso sem descanso, nunca me solta. Onde está a justiça em tudo isso! Que fiz eu para merecer tamanmha severidade? Debaixo de que forma o medo me esmagará? Quanto não deveria eu a alguém que se encarregasse de libertar-me da minha vida! Comer, beber, ficar acordado a noite inteira, sofrer sem interrupção – tal é o belo legado que recebi de minha mãe! O que não consigo compreender é este abuso de poder. Há limites para tudo, existe um caminho médio. Mas Deus não conhece caminhos médios nem limites. Digo Deus, mas por que? Tudo o que conheci até agora foi o diabo. Afinal de contas, tenho tanto medo de Deus quanto do diabo, por isso deixo-me levar, sem pensar em nada a não ser no suicídio, mas sem a coragem nem os meios para executar o ato. Quando leres isto, verás facilmente provada a minha insanidade. O estilo e as idéiaos são assaz incoerentes – eu mesmo me dou conta disso. Mas posso deixar de ser ou louco ou idiota; e, no estado atual das coisasd, a quem pedirei piedade? Estou indefeso contra o inimigo invisível que aperta os seus laços à minha volta. Eu não estaria melhor armado contra ele ainda que o visse ou que o tivesse visto. Oh, se ele ao menos me matasse, que o levasse o diabo! Morte, morte, uma vez por todas! Mas aqui me detenho. Já tresvariei o suficiente. Digo Tresvariei porque não posso escrever de outro modo, pois não me ficaram nem o cérebro nem o

12. A. Gratry: Souvenirs de ma jeunesse, 1880, resumido. Algumas pessoas são permanentemente afetadas pela anedonia ou, pelo menos, por uma perda do costumeiro apetite da vida. Os anais de suicídios fornecem exemplos como o seguinte:
Uma empregada doméstica, inculta, envenena-se e deixa duas cartas relatando o motivo que a levara a agir como agira. Aos pais escreve: “A vida talvez seja doce para alguns, mas prefiro o que é mais doce do que a vida, que é a morte. Por isso, adeus para sempre, meus queridos pais. Não é culpa de ninguém, mas um forte desejo meu, que eu vinha pretendendo ardentemente satisfazer há uns três ou quatro anos. Sempre tive a esperança de ter, algum dia, a portunidade de satisfazê-lo, e agora ela chegou. … Admira-me que eu o tenha adiado por tanto tempo, mas achei que talvez pudesse melhorar um pouco e expulsar todos os pensamentos da cabeça.” Ao irmão ela escreve: “Adeus para sempre, meu irmão muito querido. No momento em que você receber esta carta, terei partido para sempre. Sei, meu amor, que não há perdão para o que vou fazer. … Estou cansada deviver, por isso quero morrer. … A vida pode ser doce para alguns, mas a morte para mim é mais doce.” S.ª K. Strahan: Suicide and Insanity, 24ª edição, Londres, 1894.
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pensamentos. Ó Deus! que desgraça haver nascido! Nascido como um cogumelo, sem dúvida, entre uma noite e uma manhã; e quão verdadeiro e certo eu me achava quando, em nosso ano doe filosofia no colégio, ruminei o margor dos pessimistas. Sim, de fato, há mais sofrimento na vida do que alegria – é uma longa agonia até o túmulo. Imagina o quanto me sinto alegre quando me lembro de que essa horrível miséria minha, associada a este medo indizível, podoe duar cinqüenta, cem, quem sabe quanto anos mais!”13

Essa carta revela duas coisas. Primeira, os senhores estão vendo a consciência do pobre homem tão sufocada pelo sentimento do mal que o sentido da existência de algum bem no mundo está completamente perdido para ele. Sua atenção o exclui, não pode admití-lo: o sol ausentou-se do seu firmamento. Em segundo lugar, os senhores percebem que o caráter lamurioso do seu sofrer impede-lhe a mente de tomar uma direção religiosa. A mente lamuriosa, na verdade, tende mais para a irreligião; e ela não representou, pelo que sei, nenhum papel na construção de sistemas religiosos.
A melancolia religiosa precisa ser modelada num estado de espírito mais enternecedor. Deixou-nos Tolstoi, em seu livro intitulado Minha Confissão, um relato maravilhoso da crise de melancolia que o levou às suas próprias conclusões religiosas. Em alguns sentidos, estas últimas são peculiares; mas a melancolia apresenta dois caracteres que fazem dela um documento típico para o nosso atual propósito. Primeiro que tudo, é um caso bem marcado de anedonia, de perda passiva do apetite por todos os valores da vida; e, em seguida, mostra como o aspecto alterado e alienado que o mundo assumiu em conseqüência disso estimulou o intelecto de Tolstoi a um doloroso e opressivo questionar e a um esforçar-se por lograr o alívio filosófico. Pretendo citar Tolstoi extensamente; antes, porém, farei um comentário geral sobre cada um desses dois pontos.
Primerio, sobre os nossos julgamentos espirituais e o sentido do valor em geral.
É notório que os fatos são compatíveis com comentários emocionais opostos, desde que o mesmo fato inspire sentimentos totalmente diversos em pessoas diferentes e, em diferents ocasiões, na mesma pessoa; e não existe nenhuma conexão racionalmente dedutível entre qualquer fato exterior e os sentimentos por ele provocados. Estes se originam de uma esfera da existência totalmente diferente, da região animal e espiritual do sujeito, Imaginem-se os senhores, se possível, despojados, de improviso, de toda emoção que o mundo agora lhes inspira, e procurem figurá-lo tal como ele existe, puramente por si mesmo, sem nenhum comentário favorável ou desfavorável, esperançoso ou apreensivo, que os senhores podoeriam fazer. Ser-lhes-á quase impossível compreender um estado assim de negatividade e insensibilidade. Nenhuma porção do universo teria então maior importância do que outra; e toda a coleção de suas coisas e toda a série dos seus acontecimentos perderiam a significação, o caráter, a expressão ou a perspectiva. Sejam quais forem o valor, o interesse ou o significado de que os nossos mundos respectivos possam parecer dotados são, assim, puras dádivas da mente do espectador. A paixão do amor é o exemplo mais familiar e extremo desse fato. Se vem, vem; se não vem, nenhum processo de raciocínio poderá oborigá-lo a vir. Não obstante, transforma o valor da criatura amada tão completamente quanto o nascer do sol transforma o Mont Blanc de um cinzento cadavérico num róseo encantamento; e empresta ao mundo todo uma nova harmonia para o amante e dá uma nova saída à sua vida. O mesmo acontece com o medo, a indignação, a inveja, a ambição, a adoração. Se elas estiverem presentes, a vida se modifica. E o estarem presentes ou não depende, quanse sempre, de condições ilógicas, freqüentemente orgânicas. E assim como o interesse excitado que essas paixões põem no mundo é a nossa dádiva para o mundo, assim também as próprias paixões são dádivas – dádivas para nós, de fontes às vezes baixas, às vezes altas; mas, quase sempre, ilógicas e acima do nosso domínio. Como pode o velho morimundo recapitular para si mesmo o romance, o mistério, a iminência de grandes coisas com que a nossa velha terra vibrava para ele quando era moço e sadio? Dádivas, quer da carne, quer do espírito; e o espírito sopra onde lhe apraz; e os materiais do mundo emprestam a sua superfície passiva a todas as dádivas por igual, como o cenario do palco recebe, indiferente, quaisoquer luzes alternadamente coloridas projetadas nele pelos aparelhos óticos da galeria.
Enquanto isso, o mundo praticamente real para cada um de nós, o mundo afetivo do indivíduo, é o mundo composto, os fatos físicos e os valores emocionais em indistinguível combina-
Ção. Se se retirar ou perverter qualquer fator dessa complexa resultante, ter-se-á o tipo de

13. Roubinovitch et Toulouse: La Mélancolie, 1897.
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experiência que denominamos patológica.
No caso de Tolstoi, o sentido de que a vida tinha um significado qualquer foi, por algum tempo, inteiramente removido. Disso resultou uma transformação na expressão global da realidade. Quando chegarmos a estudar o fenômeno da conversão ou da regeneração religiosa, veremos que uma conseqüência não infreqüente da mudança operada no sujeiro é a transfiguração da face da natureza a seus olhos. Um novo céu parece brilhar sobre uma nova tera. Nos melancólicos verifica-se, de orodinário, uma mudança similar, só que na direção inversa. O mundo se apresenta remoto, estranho, sinistro, fantástico. Foi-se-lhe a cor, o seu hábito é frio, não há especulação nos olhos com que ele fita as coisas. “É como se eu vivesse em outro século”, diz o paciente de um asilo. – “Vejo tudo através de uma nuvem”, diz outro, “as coisas já não são como eram, e eu estou mudado.”– “Vejo”, diz um terceiro, “toco, mas as coisas não chegam perto de mim, um véu esp3sso altera a tonalidade e o aspecto de tudo.” – “As pessoas movem-se quais sombras, e dir-se-ia que os sons vêm de um mundo distante.” – “Já não existe passado para mim; as pessoas parecem tão estranhas; é como se eu não pudesse ver realidade alguma, como se eu estivesse num teatro; como se as pessoas fossem atores, e tudo fosse cenário; já não consigo encontrar-me; caminho, mas por quê? Tudo flutua diante dos meus olhos, mas não deixa impressão alguma.” – “Derramo lágrimas falsas, tenho mãos irreais: as coisas que vejo não são reais.” – Eis aí as expressões que sobem naturalmente aos lábios de sujeitos melancólicos ao descreverem o seu estado alterado.14
Ora, existem alguns sujeitos que são presas do mais profundo assombro por tudo isso. A estranheza é errada. A irrealidade não pode ser. Esconde-se um mistério e cumpre o que existe uma solução metafísica. Se o mundo natural é tão bifronte e tão hostil, que mundo, que coisa é real? Um assombro urgente, um esforço angustiado de indagação, uma atividade teórica insaciável têm início e, no empenho desesperado de estabelecer relações certas com a matéria, o paciente é freqüentemente levado para o que se torna para ele uma solução religiosoa satisfatória.
Por volta dos cinqüenta anos de idade, relata Tolstoi que começou a Ter momentos de perplexidade, momentos do que ele denomina suspensão, como se não soubesse “como viver” ou o que fazer. É manifesto que estes foram momentos em que a excitação e o interesse que nossas funções provocam nturalmente, haviam cessado. A vida outrora encantadora, era agora vazia, mais do que vazia, morta. Coisas cujo sentido sempre fora evidente por si mesmo já não tinham nenhum sentido. As perguntas “Por quê?” e “E depois?” principiaram a acossá-lo cada vez mais amiúde. De início, tivera a impressão de que essas perguntas eram respondíveis e que lhe seria fácilencontrar as respostas, contanto que se desse ao trabalho de buscá-las; à medida, porém, que se tornavam mais e mais urgentes, percebeu que elas eram como os pequenos achaoques de um homem doente, a que este presta pouca atenção até o momento em que se transformam num sofrimento contínuo, e ele percebe que o que se lhe afigurava um distúrbio passageiro significa a coisa mais momentosa do mundo, significa a morte.
As perguntas “Por quê?” “Por que razão?” “Para quê?” não encontraram resposta.

“Senti”, diz Tolstoi, “que se quebrara dentro de mim alguma coisa sobre a qual minha vida sempre descansara, que eu não tinha mais nada a que pudesse agarrar-me e que moralmente minha vida parara. Uma força invencível me impelia a livrar-me da existência, de um modo ou de outro. Não se pode dizer exatamente que eu desejava matar-me, pois a força que me arastava para longe da vida era mais plena, mais poderosa, mais geral do que qualquer desejo. Era uma força como a antiga aspiração minha para viver, só que me empurrava na direção contrária. Era uma aspiração de todo o meu ser de sair da vida.
“Vede-me, pois, um homem feliz e de boa saúde, escondendo a corda para não me enforcar nos caibros do quarto todas as noites em que ia dormir sozinho; vede-me renunciando às caçadas com receio de ceder à tentação demasiado fácil de pôr termo à vida com a minha espingarda.
“Eu não sabia o que queria. Tinha medo da vida; era impelido a deixá-la; e, a despeito disso, ainda esperava dela alguma coisa.
“Tudo isso ocorreu numa ocasião em que, no que dizia respeito às minhas circunstâncias externas, eu devera ter sido completamente feliz. Tinha uma boa esposa, que me amava e que eu amava, bons filhos e uma grande propriedade que estava aumentando sem nenhum esforço de minha parte. Era mais respeitado pelos meus parentes e conhecidos do que jamais o fora; os estranhos me enchiam de elogios; e, sem exagero, eu podia acreditar que o meu nome já se tornara famoso. Além disso, eu não estava louco nem doente. Pelo contrário, possuía uma força físicoa e mental que raro tenho encontrado em pessoas da minha idade. Eu segava tão bem quanto os camponeses e era capaz de trabalhar

14. Tiro estes exemplos da obra de G. Dumas: La Tristesse et la Joie, 1900.
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com o cérebro oito horas ininterruptas sem sentir qualquer efeito nocivo.
“E, no entanto, eu não conseguia dar um sentido razoado aos atos de minha vida. E me supreendia por não o ter compreendido desde o princípio. Meu estado de espírito era o de alguém que estivesse sendo vítima de uma brincadeira perversa e estúpida. Só podemos viver enquanto embriagados de vida; quando ficamos sóbrios, não podemos deixar de ver que tudo não passa de uma estúpida impostura. E o mais verdadeiro a esse respeito é que ela não tem nada de engraçado ou tolo; a impostura é pura e simplesmente cruel e estúpida.
“A fábula oriental do viajor surpreendido no deserto por um animal selvagem é muito antiga.
“Procurando salvar-se do feroz animal, o viajante salta para dentro de um poço sem água; no fundo do poço, todavia, vê um dragão esperando com a boca aberta para devorá-lo. E o infeliz viajante, não se atrevendo a sair do poço com medo de ser devorado pelo animal, e não se abalançando a saltar para o fundo com medo de se transformar em pasto do dragão, empolga os ramos de um arbusto selvagem que cresce numa das frinchas do poço. Suas mãos perdem a força e ele sente que logo será oborigado a entregar-se ao destino fatal; mas ainda assim, agarrado ao arbusto, vê dois camundongos, um branco e outro preto, movimentando-se tranqüilamente ao redor do galho a que ele se segura, roendo-lhe as raízes.
“Ao ver isso, o viandante conhece que terá de perecer inevitavelmente; mas enquanto está ali pedurado, olha à sua volta e divisa, nas folhas do arbusto, algumas gotas de mel. Alcança-as com a língua e lambe-as, extasiado.
“Assim estou eu, pendente dos galhos da vida, sabendo que o inevitável dragão da morte está esperando, pronto para estraçalhar-me, e não compreendo por quê sou assim convertido em mártir. Tento chupar o mel que outrora me consolava, mas o mel, já não me agrada, e dia e noite o camundongo branco e o camundongo preto roem o galho de quye estou suspenso. Só posso ver uma coisa: o dragão inevitável e os camundongos – não consigo desviar a vista deles.
“Isto não é uma fábula, senão a verdade literal incontestável, que todos podem compreender. Qual será o resultado do que faço hoje? Do que farei amanhã? Qual será o resultado de toda a minha vida? Por que hei de viver? Por que hei de fazer alguma coisa? Existe na vida algum propósito que a morte inevitável que me espera não desfaz e destrói?
“Essas perguntas, as mais simples do mundo, estão na alma de todo ser humano, desde a criança estúpida até o mais sábio dos velhos. Sem uma resposta para elas é impossível, como averigüei por experiência própria, que a vida prossiga.
“ ‘Mas talvez’, dizia eu freqüentemente a mim mesmo, ‘haja alguma coisa que tenha fugido à minha observação ou compreensão. Não é possível que esse estado de desespero seja natural ao gênero humano.’ E procurei uma explicação em todos os ramos do conhecimento adquirido pelos homens. Interroguei-os penosa e prolongadamente e sem nenhuma curiosidade ociosa. Busquei, não com 9ndolência, senão laboriosa e obstinadamente, por dias e noites a fio. Busquei como um homem perdido busca salvar-se – e nada encontrei. Convenci-me, além disso, de que todos os que, antes de mim, haviam procurado uma resposta nas ciências tampouco encontraram alguma coisa. E não só isso, mas reconheceram que a própria coisa que me estava conduzindo ao desespero – a absurdidade sem sentido da vida – é o único conhecimento incontestável acessível ao homem.”

Para provar esse ponto, Tolstoi cita Buda, Salomão e Schopenhauer. E acha apenas quatro modos com que os homens de sua classe e sociedade estão acostumados a enfrentar a situação. Ou a mera cegueira animal, chupando o mel sem ver o dragão nem os camundongos – “e desse modo”, diz ele, “nada posso aprender, depois do que sei agora”; ou oi epicurismo reflexivo, tentando agarrar o que pode antes de findar-se o dia –, o que é apenas uma espécie mais deliberada de estupefação do que a primeira; ou o suicídio viril; ou ver os camundongos e o drgaão e, apesar disso, continuar fraca e lamuriosamentoe agarrado ao arbusto da vida.
O suicídio era, naturalmente, o curso congruente ditado pelo intelecto lógico.

“Entretanto”, diz Tolstoi, “enquanto meu intelecto trabalhava, alguma outra coisoa em mim trabalhava também, e me impedia de executar o ato – uma consciência da vida, como posso chanmar-lhe, que era como uma força que me obrigava a mente a fixar-se em outra direção e arrancar-me da minha situação de desespero. … Durante todo o correr desse ano, quando eu continuava a perguntar-me, quase se cessar, como sacabar com tudo aquilo, se pela corda ou à bala, durante todo esse tempo, a par com todos os movimentos de minhas idéias e observações, meu coração consumia-se em outra emoção pungente, à qual não posso dar outro nome qaue o de sede de Deus. Esse desejo de Deus não tinha nada que ver com o movimento das minhas idéias –, na verdade, era exatamente o contrário dele –, mas vinha do meu coração. Dir-se-ia um sentimento de medo que me fazi parecer órfão e isolado no meio de todas essas coisas tão estranhas. E esse sentimento de medo era mitigado pela esperança de encontrar a assistência de lguém.”15

Sobre esse processo, tão intelectual quão emocional, que, partindo da idéia de Deus, propiciou a recuperação de Tolstoi, nada direi nesta conferência, reservando-o para outra hora. A única coisoa que deve interessar-nos agora é o fenômeno do seu absoluta desencantamento com

15. Meus excertos são da tradução francesa feita por “Zonia”. Ao resumi-los, tomei a liberdade de transpor uma passagem.

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a vida ordinária, e o fato de que toda a série de valores haobituais pudesse, para um homem tão poderoso e genial quanto ele, apresentar-se qual sinistra irrisão.
Quando a desilusão chega tão longoe assim, raro ocorre uma restitutio ad integrum. Provamos do fruto da árvore, e a felicidade do Éden nunca mais volta. A felicidade que volta, quando volta alguma – e muitas vees deixa de voltar de forma aguda, embora a sua forma seja, às vezes, muito aguda –, não é a simples ignorância do mal, senão algo vastamente mais complexo, que inclui o mal naural como um dos seus elementos, mas que não acha o mal natural um obstáculo e um terror tamanhos, porque agora o vê engolido pelo bem sobrenatural. Trata-se de um processo de redenção e não apenas de reversão à saúde natural, e o paciente, quando se salva, salva-se pelo que lhe parece um segundo naoscimento, uma espécie de vida consciente mais profunda do que a que ele usufruía antes.
Na autobiografia de John Bunyan encontramos um tipo algo diferente de melancolia religiosa consagrada na literatura. As preocupações de Tolstoi revelam-se principalmente objetivas, pois o que tanto o conturbava era o propósito e o sentido da vida em geral; mas os problemas do pobre Bunyan diziam respeito ao estado do seu próprio eu pessoal. Caso típico de temperamento psicopático, de doentia sensibilidade de consciência, asseiado por dúvidas, temores e idéias insistentes, ele era uma vítima de automatismos verbais, assim motores como sensoriais. Estes consistiam, de ordinário, em textos da Escritura, às vezes condenatórios e às vezes favoráveis, que surgiam em forma semi-alucinatória, como se fossem vozes, e, atados à sua mente, jogavam-na de um lado para outro, como uma peteca. Acrescentem-se a isso uma melancolia, um desprezo de si mesmo e um desespero pavorosos.

“Não, pensei eu, agora estou ficando cada vez pior; agora estou mais distante do que nunca da conversão. Se agora eu devesse ser queimado numa fogueira, não acreditaria que Cristo me tivesse amor; ai de mim, não poderia ouvi-lo, nem vê-lo, nem sentí-lo, nem saborear nenhuma das suas coisas. Às vezes eu pensava em descrever o meu estado ao povo de Deus, o qual, ao me ouvir, se apiedaria de mim e me falaria nas Promessas. Mas o mesmo seria ele me dizer que eu devia alcançar o Sol com o dedo e me ordenar que recebesse a Promessa ou dela me fiasse. Entretanto, durante todo esse tempo, no que concerne ao ato de pecar, nunca fui mais frágil do que então; eu não me atrevia a pegar um alfinete nem um pedaço de pau, ainda que fosse menor que uma palhinha, pois minha consciência, dolorida, doeria a qualquer contacto; eu não sabia como pronunciar minhas palavras, com medo de usá-las mal. Oh, com que extremo cuidado andava eu então, em tudo o que fazia ou dizia! Via-me num pântano imundo, que estremecia ao menor movimento meu; e estava como se lá tivesse sido deixado, ao mesmo tempo, por Deus e pelo Cristo, e pelo espírito, e por todas as coisas boas.
“Mas o meu tormento e a minha aflição eram a minha poluição original e interior. Em razão disso, eu me sentia mais execrável aos meus próprios olhos do que um sapo; e cuidava ser assim também aos olhos de Deus. O pecado e a corrupção, dizia eu, romperiam tão naturalmente do meu coração quanto rompe a água de uma fonte. Eu teria trocado de coração com qualquer um. Supunha que ninguém, se não o próprio Demo, poderia igualar-me em iniqüidade interior e poluição da mente. É evidente, pensei, que fui desamparado por Deus; e assim continuei por muito tempo, até mesmo por alguns anos.
“E agora eu deplorava que Deus me tivesse feito homem. Eu bendizia a condição dos animais, dos pássaros, dos peixes, etc., pois eles não tinham a natureza pecadora. Não eram odiosos à ira de Deus; não arderiam no fogo do inferno depois da morte. Eu me teria, portanto, rejubilado se minha condição fosse igual à de qualquer um deles. Eu então abençoava a condição do cão e do sapo, aceitaria elgremente a condição do cachorro ou do cavalo, pois sabia que eles não tinham alma capa de perecer sob o peso eterno do Inferno ou do Pecado, como o faria provavelmente a minha. E conquanto visse tudo isso, e o sentisse, e me despedaçasse por isso, o que aumentava a minha tristeza era não poder descobrir, se bem o procurasse com toda a minha alma, que eu desejava a libertação. Meu coração mostrava-se, às vezes, excessivamente duro. Se me dessem mil libras por uma lágrima, eu não teria podido derramar nenhuma; e tampouco sentia o desejo de derramá-la.
“Eu era, ao mesmo tempo, carga e terror para mim; nem sabia, como o sei agora, o que é estar cansado da vida e, no entanto, Ter medo de morrer. Com quanta alegria eu teria sido qualquer coisa, menos eu! Qualquer coisa, menos um homem! E em qualquer estado, menos no meu.”16

O pobre e paciente Bunyan, como Tolstoi, tornou a ver a luz, mas precisamos também transferir essa parte da sua história para outra ocasião. Numa conferência subseqüente relatarei igualmente o fim da experiência de Henry Alline, dedicado evangelista que trabalhou na Nova Escócia cem anos atrás, e que assim descreve, vividamente, o nível mais alto da melancolia religiosa que constituiu o seu começo. O tipo não era muito diferente do de Bunyan.

16. Grace abounding to the Chief of Sinners: encarreirei certo número de trechos esparsos.

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“Tudo o que eu via parecia ser um fardo para mim; tudo me dizia que a terra fora amaldiçoada por minha causa; todas as árvores, plantas, rochas, morros se diriam vestidos de luto e de gemidos, debaixo do peso da maldição, e tudo ao meu redor dava a impressão de estar conspirando a minha ruína. Os meus pecados era como se estivessem escancarados; e eu pensava que todas as pessoas com que topava estavam familiarizadas com eles, e não raro, me dispunha a admitir muitas coisas, crente de que elas já as conheciam: sim, às vezes eu tinha a impressão de que todo o mundo me apontava como se eu fosse o mais criminoso dos desgraçados que andavam sobre a terra. Eu tinha então um sentido tão grande da vaidade e da vacuidade de todas as coisas aqui embaixo, que sabia que nem o mundo inteiro poderia fazer-me feliz, nem mesmo todo o sistema da criação. Ao acordar de manhã, o primeiro pensamento que me acudia era, Oh, desgraçada alma, que farei, aonde irei? E, quando me deitava, dizia, Eu talvez esteja no inferno antes do amanhecer. Olhava muita vez para os animais com inveja, desejando de todo o coração estar no lugar deles, para não Ter uma alma que pudesse perder; e quando via pássaros voando acima da minha cabeça, dizia freqüentemente entre mim, Oh, se eu pudesse voar para longe do meu perigo e da minha angústia! Como eu seria feliz se estivesse no lugar deles!”17

A inveja dos plácidos animais parece ser uma afeição muito difundida nesse tipo de tristeza.
A pior espécie de melancolia é a que assume a forma do p^nico. Aqui está um exemplo excelente, e devo agradecer ao próprio paciente a permissão para estampá-lo. O original é em francês e, muito embora o sujeito estivesse, evidentemente, em péssimo estado de nervos no momento em que escreveu, o seu caso tem, aliás, o mérito da extrema simplicidade. Traduzo livremente.

“Enquanto me achava neste estado de pessimismo filosófico e depressão geral de espírito acerca das minhas perspectivas, entrei uma noite num quarto de vestir, o crepúsuclo, a fim de pegar um artigo que ali estava; eis senão quando, de repente, caiu sobre mim, sem enhum aviso, como saído das trevas, um medo horrível de minha própria existência. Simultaneamente surgiu em minha mente a imagem de um paciente epiléptico, que eu vira no asilo, um moço de cabelos pretos e tez verdinhenta, inteiramente idiota, que costumava ficar sentafdo o dia inteiro num dos banco, ou melhor, numa das prateleiras encostadas no muro, com os joeljos puxados para o queixo, e a grosseira camiseta cinzenta, sua única vestimenta, estendida sobre eles e envolvendo-lhe toda a figura. Ele se quedava ali sentado como uma espécie de gato egípcio esculpido ou múmia peruana, sem nada mover exceto os olhos negros, e parecendo absolutamente não-humano. Essa imagem e o meu medo entraram numa espécie de combinação um com o outro. Essa forma sou eu, senti, potencialmente. Nada que eu possua pode defender-me contra esse destino, na hora em que ele me golpear, como golpeou o rapaz. Era tamanho o horror que ele me inspirava, e tamanha a percepção da minha própria discrepância, meramente momentânea, que se diria que alguma coisa até então sólida dentro em meu peito dera de si inteiramente, e eu me tornara uma massa de medo palpitante. Depois disso, o universo modificou-se de todo para mim. Eu despertava todas as manhãs com um horrível pavor na boca do estômago, e um sentido da incerteza da vida que nunca conhecera antes e nunca senti depois disso.18 Era como uma revelação; e conquanto os sentimentos imediatos se extinguissem, a experiência me levou a simpatizar com os sentimentos mórbidos dos outros a partir de então. Isso foi-se desvanecendo aos poucos mas, durante meses, eu me senti incapaz de andar sozinho no escuro.
“De outro modo geral, horrorizava-me ficar só. Lembro-me de bestuntar como outras pessoas podiam viver, como eu mesmo pudera viver, tão incônscio daquele poço de insegurança debaixo da superfície da vida. Minha mãe, sobretudo, pessoa muito jovial, me parecia um perfeito paradoxo em sua inconsciência de perigo, que, como o Senhor pode acreditar, eu tomava o máximo cuidado para não perturbar com revelações do meu próprio estado de espírito. Sempre pensei que essa experiência de melancolia tinha um sentido religioso.”

Quando se pediu ao correspondente que explicasse melhor o que queria dizer com as últimas palavras, a resposta que escreveu foi a seguinte:

“Quero dizer que o medo era tão invasivo e poderoso que, se eu não me tivesse agarrado a textos escriturais como ‘O Deus eterno é meu refúgio’, etc., ‘Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados’, etc., ‘Eu sou a ressurreição e a vida’, etc., creio que teria ficado realmente louco.”19

17. The Life and Journal of the Ver. Henry Alline, Boston, 1806. Devo o conhecimento que tenho deste livro ao meu colega, Dr. Benjamin Rand.
18. Compare-se com Bunyan: “Ali fui sacudido por um tremor muito grande, de tal monta que, às vezes, me eraq possível, por dias a fio, sentir meu próprio corpo, bem como minha mente, tremer e cambalear sob o sentido do terrível julgamento de Deus, que cairia sobre aqueles que tivessem cometido aquele temerosíssimo e imperdoável pecado. Senti também tamanho entupimento e calor no estômago, em virtude desse terror, que me parecia, mormente em determinadas ocasiões, que o meu osso do peito se havia estilhaçado. … Dessa maneira me enrolei, me retorci e me encolhi sob o peso que estava sobre mim; peso esse que me oprimia de tal maneira que não me era possível ficar de pé, nem sair, nem me deitar, nem descansar, nem permanecer calado.”!
19. Sobre outro caso de medo igualmente súbito, veja Henry James: Society the Redeemed Form of Man, Boston, 1879.

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Não há necessidade de outros exemplos. Os casos que examinamos são suficientes. Um deles nos dá a vaidade das coisas mortais; outro, o sentido do pecado; e o que sobrou descreve o medo do universo; – e num ou noutro desses três caminhos acontece sempre que o otimismo original e a satisfação do homem consigo mesmo se acabam nivelando com a poeira.
Em nenhum desses casos havia qualquer insanidade intelectual ou ilusão a respeito de fatos; mas se estivéssemos dispostos a abrir o capítulo da melancolia realmente insana, com suas alucinações e ilusões, a história seria ainda pior – desespero completo e absoluto, todo o universo se coagulando em torno do paciente num material de horror avassalante, cercando-o sem começo nem fim. Nem o conceito nem a percepção intelectual do mal, senão a sensação pavorosa, enregelante, paralisante, de estar ali em contato com ele, sem que nenuma outra idéia ou sensação possa resistir à própria presença. Como nos parecem irrelevantemente remotos todos os nossos otimismos requintados e todas as nossas consolações intelectuais e morais diante de uma precisão de ajuda como esta! Eis aqui o verdadeiro Amago do problema religioso: Socorro! Socorro! Nenhum profeta pode afirmaor trazer uma mensagem final a menos que diga coisas que terão som de reliade aos ouvidos de vítimas como essas. Mas a libertação deve expressar-se de forma tão forte quanto a lamentação, para fazer algum efeito e essa parece ser uma razão por quê as religiões mais grosseiras, revivalísticas, orgiásticas, com operações sobrenaturais, sangue e milagres, talvez nunca venham a ser substituídas. Algumas constituições precisam muitíssimo delas.
Chegados a este ponto, vemos como pode ser grande o antagonismo que se ergue naturalmente entre o modo equilibrado de encarar a vida e o modo que considera a experiência do mal algo essencial. A esse último modo, o modo da mente mórbida, como podemos chamar-lhe, o equilíbrio mental puro e simples afigura-se indizivelmente cego e superficial. Ao modo do equilíbrio mental, por outro lado, o modo da alma enferma se apresenta desvirilizada e doentia. Com o seu cavoucar em buracos de ratos em vez de viver à lua do sol; com a sua manufatura de medos e a sua preocupação com todos os tipos deletérios de miséria, há alguma coisa de quase obsceno nesses filhos da ira e almejadores de um segundo nasicmento. Se a intolerância religiosa e as forças e fogueiras voltassem a figurar na ordem do dia, são poucas as dúvidas de que, independentemente do que tenha acontecido no passado, os equilibrados se mostrariam no presente o grupo menos indulgente dos dois.
Em nossa própria atitude, ainda não abandonada, de espectadores imparciais, que podemos dizer a propósito dessa briga? A mim me parece que mps veremos obrigado a dizer que a morbidez mental se estende sobre a escala mais ampla da experiência, e que o seu estudo é o que se propõe, ainda que parcialmente. O método de desviar nossa atenção do mal e viver simplesmente em plena luz do bem é esplêndido enquanto funciona. Funcionará com muitas pessoas; funcionará de modo muito mais geral do que a maioria dentre nós está preparada para supor; e, dentro da esfera da sua operação bem-sucedida não há nada para se dizer contra ele como solução religiosa. Mas ele se desarranja tanto, que chega a melancolia; e ainda que estejamos inteiramente livres da melancolia, não há dúvida de que o equilíbrio mental é inadequado como doutrina filosófica, porque os fatos maus, que ele se recusa positivamente a tomar em consideração, constituem uma porção genuína da realidade; e eles talvez sejam, afinal de contas, a melhor chave para o significado da vida e, possivelmente, os únicos abridores dos nossos olhos para os níveis mais profundos da verdade.
O processo normal da vida contém momentos tão maus quanto qualquer um daqueles de que está cheia a melancolia dos insanos, momentos em que o mal radical tem a sua vez de jogar. As visões de horror do louco são todas tiradas do material dos fatos diários. A nossa civilização funda-se na desordem, e cada existência individual soe exala num espasmo solitário de agonia impotente. Se você protesta, meu amigo, espere até chegar lá! Acreditar nos répteis carnívoros dos tempos geológicos é difícil para a nossa imaginação – eles se parecem tanto com meros espécimes de museu! Entretanto, em nenhum daqueles crânios de museu haverá um dente sequer que não se cravasse antanho, diariamente, por longos anos, no corpo fremente de desespero de alguma presa viva. Formas de horror igualmente medonhas para as suas vítimas, aindoa que em escala especial menor, enchem hoje o mundo que nos rodeia. Aqui, em nossos próprios lares e em nossos jardins, o gato infernal brinca com o camundongo arquejante, ou segura o pássaro, trêmulo
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e quente, entre os dentes. Crocodilos, cascavéis e sucuris são, neste momento, vasos de vida tão reais quanto nós; sua existência abominável enche cada minuto de cada dia em que ela se arrasta; e quando quer que eles, ou quaisquer outros animais selvagens, se apoderam da presa viva, o horror mortal que um melancólico agitado experimentou, literalmente, é a reação apropriada à situação.20
Talvez não seja possível, com efeito, nenhuma conciliação religiosa com a totalidade absoluta das coisas. Alguns males, sem sombra de dúvida, servem a formas mais elevadas do bem; mas pode ser que haja formas de mal tão extremadas que não entram em nenhum sistema do bem, seja ele qual for, e que, no que lhes diz respeito, a submissão silenciosa ou a negligência em notá-las é o único recurso prático. Teremos, porém, de voltar à matéria outro dia. Por ora, no entanto, e como simples questão de programa e método, visto que os fatos maus são partes tão genuínas da natureza quanto os bons, a presunção filosófica há de ser a de que eles têm algum significado racional, e que o equilíbrio mental sistemático, não concedendo à tristeza, ao sofrimento e à morte nenhuma atenção positiva e ativa, é formalmente menos completo do que os sistemas que tentam, pelo menos, incluir tais elementos em sua esfera de ação.
As religiões mais completas do mundo, portanto, parecem ser aquelas em que os elementos pessimistas estão mais bem desenvolvidos. Delas, o Budismo, naturalmente, e o Cristianismo representam, nesse sentido, as que melhor conhecemos. São, essencialmente, religiões de libertação: o homem precisa morrer para uma vida irreal a fim de nascer para a vida real. Na conferência seguinte, procurarei discutir algumas condições psicológicas de segundo nascimento. Felizmente, daqui por diante, lidaremos com assuntos mais alegres do que os que acabamos de tratar.

20. Exemplo: “Eram cerca de onze horas da noite. … mas eu continuava a passear com as pessoas. … A súbitas, do lado esquerdo da nossa estrada, ouviu-se um estalar entre as moitas; todos ficamos alarmados e, dali a um instante, um tigre saiu do meio da mata, atirou-se sobre aquele dentro nós que se achava mais à frente, e carregou-o consigo num piscar de olhos. A investida do animal, o esmagamento dos ossos da pobre vítima em sua boca, e o seu derradeiro grito de desespero, ‘Ho hai!’, reecoado involuntaramente por todos nós, não levaram mais de três segundos; e, então, não sei o que aconteceu; ao tornar em mim, vi-me, ao lado dos companheiros, estendido no chão, como se estivéssemos preparados para ser devorados pelo nosso inimigo, o soberano da floresta. Percebo que a minha pena é incapaz de descrever o terror daquele momento pavoroso. Nossos memvbros se enrijeceram, cessou o nosso poder de fala, nossos corações bateram violetamente, e apenas um sussurro do mesmo ‘Ho hai!’ se esprendia de nós. Nesse estado recuamos, doe rastros, por alguma distância e, logo, disparamos, com a velocidade de um cavalo árabe, por quase meia hora, e afortunadamente chegamos a uma aldeiazinha. … Depois disso, cada um de nós se viu atacado de febre, acompanhada de tremores, e nesse estado deplorável ficamos até a manhã seguinte.” – Autobiography of Lutfullah, a Mohammedan Gentleman, Lípsia.

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VIII Conferência

O EU DIVIDIDO E O PROCESSO DA SUA UNIFICAÇÃO

A última conferência foi dolorosa, pois lidou com o mal como elemento que invade todo o mundo em que vivemos. Chegados à sua conclusão, vimo-nos diante do contraste entre as duas maneiras de encarar a vida, características, respectivamente, dos que chamamos mentalmente equilibrados, que precisam nascer apenas uma vez, e das almas enfermas, que precisam nascer duas vezes para serem felizes. O resultado são as duas concepções diferentes do universo da nossa experiência. Na religião dos nascidos uma vez o mundo é uma espécie de negócio retilíneo, ou de um único andar, cujas contas se fazem sob uma só denominação, cujas partes têm exatamente os valores que parecem ter, e cujo valor total será fornecido por uma simples soma algébrica dos “mais” e dos “menos”. A felicidade e a paz religiosa consistem em viver do lado “mais” da conta. Na religião dos nascidos duas vezes, por outro lado, o mundo é um mistério de dois andares. A paz não pode ser alcançada pela simples adição dos “mais” e pela eliminação dos “menos” da vida. O bem natural não é apenas quantitativamente insuficiente e transitório; em seu próprio ser jaz, emboscada, uma falsidade. Cancelado como tudo o mais pela morte, quando não por inimigos mais precoces, não proporciona o equilíbrio final e nunca pode ser o objeto pretendido do nosso culto definitivo. Antes, nos mantém afastados do verdadeiro bem; e a renúncia e o desepsero são o primeiro passo na direção da verdade. Há duas vidas, a natural e a espiritual, e precisamos perder uma delas para participar da outra.
Em suas formas extremas, de puro naturalismo e puro salvacionismo, os dois tipos contrstam violentamente; se bem aqui, como na maioria das classificações atuais, os extremos raidicais sejam abstrações um tanto ou quanto ideais, e os seres humanos concretos, com os quais topamos mais amiúde, sejam variedades e misturas intermediárias. Praticamente, no entanto, todos reconhecemos a diferença: compreendemos, por exemplo, o desdém do metodista convertido pelo mero moralista equilibrado, e entendemos igualmente a aversão deste último ao que se lhe afigura o subjetivismo enfermiço do metodista, que morre para viver, como ele mesmo diz, e faz do paradoxo e da inversão das aparências naturais a essência da verdade de Deus.1
A base psicológica do caráter nascido duas vezes parece ser uma certa discordância ou heterogeneidade do temperamento congênito do sujeito, uma constituição moral e intelectual incompletamente unificada.

“Homo duplex, homo duplex!” escreve Alphonse Daudet. “A primeira vez que percebi que eu era dois foi por ocasião da morte de meu irmão Henri, quando meu pai gritou tão dramaticamente., ‘Ele está morto, ele está morto!’ E ao passo que o meu primeiro eu chorava, o segundo pensava: ‘Como foi natural e espontâneo esse grito, como ele ficaria bem no teatro!” Eu tinha, então, catorze anos.
“Essa horrível dualidade forneceu-me, reiteradas vezes, matéria para reflexão. Oh, esse terrível segundo eu, sempre sentado enquanto o outro está de pé, agindo, vivendo, sofrendo, atarefando-se. Esse segundo eu que nunca fui capaz de embebedar, de fazer chorar, ou de adormecer. E como ele enxerga o fundo das coisas, como zombra”2

Obras recentes sobre a psicologia do caráter têm tido muita coisa para dizer sobre esse ponto.3 Algumas pessoas nascem com uma constituição interior harmoniosa e bem equilibrada desde o princípio. Os impulsos sõ compatíveis uns com os outros, a vontade segue sem dificuldade a orientação do intelecto, as paixões não são excessivas, e suas vidas são pouco assediadas pelos pesares. Outros são constituídos de maneira oposta; e assim o são em graus que podem variar desde alguma coisa tão leve, que resulta numa inconseqüência apenas estranha ou caprichosa, até uma discordância cujas conseqüências podem ser inconvenientes ao extremo.

1. Por exemplo: “Nossos jovens estão doentes com os problemaos teológicos do pecado original, da origem do mal, da predestinação e de coisas que tais. Essas questões nunca apresentaram dificuldade prática alguma a qualquer homem – nunca ensombraram a estrada de homem nenhum, que não se tenha desviado do seu caminho para sair-lhes no encalço. Estas são as caxumbas, os sarampos e as tosses compridas da alma”, etc. Emerson: Spiritual Laws.
2. Notes sur la Vie.
3. Veja, por exemplo, Paulhan, em seu livro Les Caractères, 1894, que contrasta les Equilibrés, les Unifiés, com les Inquiets, les Contrariants, les Incohérents, les Emiettés e outros tipos psíquicos diversos.
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Dos tipos mais inocentes de heterogeneidade encontro bom exemplo na autobiografia da Sra. Annie Besant,

“Sempre fui a mais estranha mistura de frqueza e força, e tenho pago um preço alto pela fraqueza. Criança, eu costumava sofrer as torturas da vergonha, e, se o atilho do meu sapato estivesse solto sentia, acanhadíssima, todos os olhares fitos no desastrado cordão; moça, fugia de estranhos e me julgava não desejada e desamada, de modo que me enchia de gratidão por quem quer que se mostrasse bonsodo comigo, jovem dona de casa, eu tinha medo dos criados, e preferia deixar passar serviços descuidados ao sofrimento de recriminar o desleixado; depois de haver pronunciado uma palestra ou participado de um debate sem que me faltasse o ânimo no tablado, eu preferia voltar para o hotel sem Ter obtido o que desejava a tocar a campainha e mandar o garçon trazer-mo. Combativa no palanque em defesa de qualquer causa que me interesse, fujo de discussões ou desaprovações em casa, e sou essencialmente covarde em particular, embora me mostre boa lutadora em público. Quantas vezes passei infelizes quartos de hora cobrando coragem para admoestar algum subordinado que o dever me obrigava a escarmentar, e quantas vezes escarneci de mim mesmo como a falsa heroína de palanque, quando fugia de censurar algum rapaz ou rapariga por haverem feito mal o seu serviço. Um olhar desamorável ou uma palavra desamável me obrigam a encolher-me dentro em mim, como a lesma se recolher ao caracol, ao passo que, no palanque, a oposição sempre me faz defender com ardor minhas idéias.”4

Essa dose de incoerência só será considerada uma amável fraqueza; mas um grau mais forte de heterogeneidade pode estragar a vida do sujeito. Há pessoa cuja existência é pouco mais que uma série de ziguezagues, quando ora uma tendência, ora outra, levar a melhor: O espírito entra em choque com a carne, os desejos são incompatíveis entre si, impulsos caprichosos lhes interrompem os planos mais deliberados, e suas vidas são um longo drama de arrependimento e esforço para reparar inconveniências e erros.
A personalidde heterogênea tem sido explicada como resultado da hereditariedade – supõem-se preservados os traços de caráter de antepassados incompatíveis e antagônicos, ao lado uns dos outros.5 Essa explicação pode passar pelo que vale – necessita, sem dúvida, de corroboração. Ms seja qual for a causa da personalidade heterogênea, encontramos os seus exemplos extremos no temperamento psicopático, ao qual aludi em minha primeira conferência. Todos os que escrevem a respeito desse temperamento destacam em suas descrições a heterogeneidade interior. Freqüentemente, na verdade, apenas esse traço nos leva a imputar a um homem tal temperamento. Um “dégénéré supérieur” é simplesmente um homem doe sensibilidade em muitas direções, que encontra maior dificuldade do que é comum em manter sua casa espiritual em ordem e em traçar direito o seu sulco, porque seus sentimentos e impulsos são demasiado intensos e discrepantes em relação uns aos outros. Nas idéias obsedantes e insistentes, nos impulsos irracionais, nos escrúpulos, terrores e inibições m´[orbidas, que sitiam o temperamento psico´patico quando é muito pronunciado, temos magníficos exemnplos da personalidade heterrogênea, Bunyan tinha uma obsessão pelas palavras “Vende Dristo por isto, vende-o por aquilo, vende-o, vende-o”, que lhe percorriam a mente cem vezes por minuto, até que, um belo dia, sem fôlego de tanto responder, “Não venderei, não venderei”, disse impulsivamente, “Deixa-o ir, se quiser”, e essa derrota o deixou desesperado por mais de um ano. As vidas dos santos estão cheias dessas obsessões blasfemas, atribuídas invariavelmente à intervenção direta de Satanás. O fenômeno está ligado à vida do chamado eu subconsciente, do qual teremos de falar, daqui a pouco, mais diretamente.
Ora, em todos nós, seja qual for a nossa constituição, num grau tanto maior quanto mais intensos, sensíveis e sujeitos a tentações diversificadas formos, e no maior grau possível soe formos decididamente psicopatas, a evolução normal do caráter consiste principalmente no endireitamente e na unificação do eu interior. Os sentimentos mais altos e os mais baixos, os impulsos úteis e os desviados, começam criando um caos relativo dentro de nós – precisam acabar formando um sistema estável de funções em correta subordinação. A infelicidade tende a caracterizar o período da ordenação e da luta. Se o indivíduo tiver a consciência terna e a religião viva, a infelicidade tomará a forma do remorso e da compunção moral, de se sentir a pessoa interiormente vil e errada, e de manter relações falsas com o autor do seu ser e com o indicador do seu destino espiritual. Essa é a melancolia religiosa e a “convicção do pecado” que representaram tão grandepapel na história do Cristianismo protestante. O interior do homem é um

4. Annie Besant: Autobiografhy.
6. Smith Baker, no Journal of Nervous and Mental Diseases, setembro de 1893.
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campo de batalha para dois eus, quye ele sente mortalmente hostis um ao outro, um real e outro ideal. Como Vitor Hugo faz dizer ao seu Momé:

Je suis le champ vil des sublimes combats:
Tantôt l’homme d’en haut, et tantôt l’homme d’en bas;
Et le mal dans ma bouche avec le bien alterne,
Comme dans le désert le sable e la citerne.

Vida equívoca, aspirações impotentes: “O que eu queria fazer, não faço; mas faço o que odeio”, como diz São Paulo; nojo de si, desespero de si; fardo ininteligível, de que somos misteriosamente herdeiros.
Deixem-me fazer citações de alguns casos típicos de personalidade discordante, com melancolia que assumo a forma da condenação de si mesmo e do sentido do pecado. O caso de Santo Agostinho é um exemplo clássico. Os senhores hão de estar lembrados da sua educação semipagã, semicristã, em Cartago, sua migração para Roma e Milão, sua adoção do Maniquísmo e o subseqüente pessimismo, e sua busca incansável da verdade e da pureza da vida; e, finalmente, o modo com que, perturbado pela luta entre as duas almas em seu peito, e envergonhado da frqueza da própria vontade, quando tantos outros que ele conhecia e de quem ouvira falar haviam lançado de si as peias da sensualidade e se tinham consagrado à castidade e à vida superior, ele ouviu dizer uma voz no jardim, “Sume, lege” (pega e lê), e, abrindo a Bíblia ao acaso, deu com o texto, “não em fornicação nem em libertinagem”, etc., que se lhe afigurou diretamente endereçado a ele, e fez a tormenta interior amainar para sempre.6 O gênio psicológico de Agostinho deu-nos um relato insuperável do problema do eu dividido.

“A nova vontade que comecei a ter ainda não era suficientemente forte para vencer a outra vontade, fortalecida por longa desídia. Destarte, duas vontades, uma velha, uma nova, uma carnal, outra espiritual, lutavam entre si e conturbavam-me a alma. Compreendi, por experiência própria, o que lera: a carne tem desejos contra o espírito, e o espírito conta a carne. Era eu mesmo, de feito, em ambas as vontades, porém mais eu mesmo na que aprovava em mim do que na que desaprovava em mim. No entanto, fora por meu intermédio que o hábito lograra o domínio sobre mim, porque eu chegara voluntariamente aonde não queria. Ainda preso à terra, recusei-
me, ó Deus, a lutar do teu lado, tão temeroso de ser libertado de todos os laços, quanto devera temer ser entravado por eles.
“Assim os pensamentos com os quais eu meditava sobre ti era como os esforços de alguém que quisesse despertar mas que, vencido pelo sono, logo adormece outra ve. Muitas vezes o homem, quando a pesada sonolência lhe avassala os membros, adia o momento de sacudi-la e, conquanto não a aprove, dá-lhe forças; mesmo assim eu estava certo de que fora melhor entregar-me ao teu amor do que ceder aos meus apetites sensuais; entretanto, embora o primeiro curso me convencesse, o último me agradava e mantinha prisioneiro. Nada havia em mim para responder ao teu chamado, ‘Acorda, dorminhoco’, senão palavras arrastadas, sonolentas, ‘Já vou; sim, já vou; espera um pouquinho’. Mas o ‘já vou’ não tinha ‘presente’, e o ‘pouquinho’ prolongou-se. … Pois eu receava que me ouvisses demasiado cedo e me curasses desde logo da minha doença da concupiscência, que eu mais desejava saciar do que ver extinta. Com que açoites de palavras não vergastei minha alma! Apesar disso, ela se encolheu; recusou-se, se bem não tivesse desculpas para oferecer. … Eu disse entre mim: ‘Vamos, que isso se faça agora’, e, ao dizê-lo, estive a ponto de resolver. Quase o fiz e, todavia, não o fiz. Envidei outro esforço, e quase tive êxito, mas não o alcancei, e tampouco o agarrei, hesitando entre morrer para a morte e viver para a vida; e o mal, a que estava tão aveado, segurou-me mais do que a vida melhor, que eu não experimentara.”7

Não poderia haver descrição mais perfeita da vontade dividida, quando os desejos mais elevados carecem da agudeza derradeira, daquele toque de explosiva intensidade, da qualidade dinamogênica (para usar o jargão dos psicólogos), que lhes permite rebentar a própria casca, o irromper eficazmente na vida e sufocar para sempre as tendências inferiores. Numa próxima conferência teremos muita coisa para dizer a respeito dessa excitabilidade mais elevada.

6. Louis Gourdon (Essai sur la Conversion de Saint Augustine, Paris, Fischbacher, 1900) demonstrou, mediante uma análise dos escritos de Agostinho imediatamente após a data da sua conversão (386 d.C.), que o relato feito por ele nas Confissões é prematuro. A crise no jardim marcou uma conversão definitiva de sua vida anterior, mas foi para o espiritualismo neoplatônico e apenas meio caminho para o Cristianismo. Parece que ele só abraçou plena e radicalmente este último depois de se passarem mais quatro anos.
7. Confissões, Livro VII, caps. V, vii, xi, resumido.

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Encontro outra boa descrição da vontade dividida na autobiografia de Henry Alline, o evangelista da Nova Escócia, de cuja melancolia li uma pequena descrição em minha última conferência. Os pecados do pobre moço, como os senhores verão, era do gênero mais inofensivo e, contudo, interferiam no que se revelou ser a sua vocação mais verdadeira, razão pela qual lhe acarretaram grande aflição.

“Eu era agora muito moral em minha vida, mas não encontrava repouso de consciência. Comecei a ser estimado na companhia de jovens, que nada sabiam das minhas idéias, e cuja estima começou a reverlar-se uma armadilha para minha alma, pois logo principiei a gostar dos prazeres mundanos, se bem eu ainda alimentatasse a esperança de que, se não me embebedasse, não blasfemasse, não dissesse palavrões, não haveria pecado em folgar e cultivar a alegria carnal, e cuidava que Deus concedesse aos jovens alguma recreação (a que chamava simples ou civil). Eu ainda conservava um conjunto de deveres, e não me permitiria nenhum vício declarado, e assim passava muito bem em época de saúde e prosperidade; mas quando estava desesperado ou ameaçado por doença, morte ou tempestades violentas, minhas religião já não me bastava, e eu achava que me faltava alguma coisa, e começava a arrepender-me de tanta frivolidade; mas quando a aflição passava, o demônio e o meu próprio e perverso coração, com as solicitações dos companheiros e o prazer que me dava a companhia dos jovens, eram atrativos tão fortes que eu voltava a sucumbir, e assim me tornei muito selvagem e rude, embora, ao mesmo tempo, mantivesse meus hábitos de oração eleitura secretas; mas, não querendo que eu me destruísse, Deus ainda me seguia com os seus chamados, e me pressionava com tanta força e consciência, que minhas diversões não conseguiam satisfazer-me e, no meio do meu júbilo, salteava-me, às vezes, um tal sentido do meu estado perdido e desfeito, que eu desejava ficar só e, terminada a função, quando voltava para casa, fazia inúmeras promessas de nunca mais participar dessas pândegas, e pedia perdão por horas a fio; mas quando, de novo, sobrevinha a tentação, eu tornava a ceder: assim que ouvia música ou tomava um copo de vinho, perdia o juízo e me entregava a qualquer espécie de diversão ou passatempo, que não me parecesse debochado nem declaradamente vicioso; quando, porém, regressava dos meus prazeres mundanos, sentia-me tão culpado como sempre e, algumas vezes, só conseguia fechar os olhos horas depois de ter ido para a cama. Eu era uma das criaturas mais infelizes da terra.
“Por vezes, deixava os companheiros (não raro pedindo ao rabequista que parasse de tocar, porque eu estava cansado), saía e punha-me a andar, chorando e rezando, como se o meu coração fosse partir-se, e suplicando a Deus que não me desamparasse nem me deixasse com o coração duro. Oh, que horas e noites infelizes passei assim! Quando me encontrava, às vezes, com alegres companheiros e meu coração estava prestes a soçobrar, eu diligenciava dar ao semblante o aspecto mais alegre possível, para que eles não desconfiassem de nada e, não raro, me punha a conversar com os moços ou com as moças de propósito, ou propunha cantarmos uma canção, para que a angústia da minha alma não fosse descoberta, nem ninguém suspeitasse dela, quando, na verdade, eu quisera antes estar num deserto, no exílio, do que com eles ou com qualquer um dos seus prazeres e divertimentos. Assim, por muitos meses, estando em companhia de outros, eu procedia como hipócrita e afetava alegria, ao mesmo tempo, porém, fazia o possível para evitar-lhes a companhia, oh, desgraçado e infeliz mortal que eu era! Fosse o que fosse que eu fizesse e ondoe quer que estivesse, eu me debatia sempre numa tormenta, embora continuasse a ser o principal inventor e cabeça das pândegas por meses a fio, conquanto fosse um trabalho e um suplício participar deles; mas o diabo e o meu perverso coração conduziam-me como a um escravo, dizendo-me que fizesse isso e aquilo, que suportasse isto e aquilo, que virasse para cá e para lá, que mantivesse o meu crédito e retivesse a estima dos companheiros e tudo isso enquanto continuava, tão rigorosamente quanto possível, a cumprir meus deveres e não deixava pedra sobre pedra para pacificar minha consciência, vigiando até os pensamentos e orando continuamente onde quer que me encontrasse pois não pensava que houvesse algum pecado em minha conduta, quando me achava entre companhias mundanas, já que não encontrava nenhuma satisfação nelas, e apenas as seguia, supunha eu, por razões suficientes.
“Mas mesmo assim, apesar de tudo o que eu fizesse ou pudesse fazer, minha consciência não cessava de rugir, noite e dia.”

Santo Agosotinho e Alline imergiram ambos nas águas tranqüilas da unidde e da paz interiores, e agora quero pedir aos senhores que examinem com mais atenção algumas peculiaridades do processo de unificação, quando ocorre. O processo pode vir aos poucos ou ocorrer de repente; pode vir através de uma alteração dos sentimentos ou dos poderes de ação; ou pode chegar mediante novas visões intelectuais ou experiências que mais tarde designaremos como “místicas”. Mas venha como vier, traz uma espécie característica de alívio; e nunca um alívio tão extremo como quando impresso no molde religioso. Felicidade! Felicidade! A religião é apenas um dos modos com que os homens alcançam esse dom. Fácil, permanente e bem-sucedidamente, ela amiúde transforma a angústia mais desgraçada na mais profunda e duradoura felicidade.
Mas encontrar a religião é apenas um dos muitos modos de atingir a unidade; e o processo de remediar a deficiência interna e reduzir a discórdia interior é um processo psicológico geral, que pode verificar-se com qualquer espécie de material mental, e não precisa assumir necessariamente a forma religiosa. Ao julgar os tipos religiosos de regeneração que estamos prestes a estudar, é
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importante reconhecer que eles são apenas uma espécie de um gênero que contém outros tipos também. Por exemplo, o novo nascimento pode ser produzido pela passagem da religião para a incredulidade; ou da escrupulosidade moral para a liberdade epara a licenciosidade; ou pode ser produzido pela irrupção na vida do indivíduo de algum novo estímulo ou paixão, como o amor, a ambição, a cupidez, a vingança ou a devoção patriótica. Em todos esses casos, temos precisamente a mesma forma psicológica de evento – a firmeza, a estabilidade e o equilíbrio que se seguem a um período de tempestade, tensão e incoerência. Nos casos não-religiosos, o homem novo pode também nascer gradativa ou subitamente.
O filósofo francês Joufrroy deixou um lembrete eloqënte da sua própria “contra-conversão”, termo tão bem cunhado pelo Sr. Starbuck para indicar a transição da ortodoxia para a infidelidade. As dúvidas de Jouffroy o vinham mortificando havia muito tempo; mas ele data sua crise final de certa noite, quando a descrença se tornou fixa e estável, e o resultado imediato foi a tristeza diante das ilusões que ele perdera.

“Nunca esquecerei aquela noite de dezembro”, escreve Joffroy, “em que se rasgou o véu que escondia de mim minha própria incredulidade. Ouço de novo meus passos no estreito quarto nu onde, muito depois de haver soado a hora de sdormir, eu tinha o hábito de andar de um lado para outro. Vejo de novo a lua, seminivelada pelas nuvens, que, de vez em quando, iluminava as frígidas vidraças da janela. As horas da noite fluiam e eu não lhes notava a passagem. Seguia, asioso, meus pensamentos, à proporção que, de camada em camada, eles desciam para os alicerces da minha consciência e, dispersando, uma a uma, todas as ilusões que, até então, haviam ocultado suas voltas de minha vista, as tornavam a cada momento mais claramente visíveis.
“Debalde me agarrei às minhas últimas crenças como o marinheiro náufrago se agarra aos fragmentos da sua embarcação, debalde, assustado pelo vazio desconhecido em que estava a pique de flutuar, me vierei com elas para a minha infância, minha família, minha terra, tudo o que me era caro e sagrado; a corrente inflexível do meu pensamento, forte demais, obrigou-me a deixar tudo para trás – pais, família, lembrança, crenças. A investigação prosseguiu, tanto mais obstinada e severa quanto mais se aproximava do fim, e não se interrompeu enquanto não alcançou o seu término. Conheci então que, nas profundezas da minha mente, nada ficara de pé.
“Esse momento foi pavoroso; e quando, ao romper da manhã, me atirei, exausto, sobre a cama, tive a impressão de sentir minha vida anterior, tão risonha e tão cheia, partir como um fogo, ao passo que, diante de mim outra vida se abria, sombria e despovoada, onde, no futuro, eu teria de viver sozinho, sozinho com o meu pensamento fatal que me exilara para ali, e que eu me sentia tentado a amaldiçoar. Os dias que se seguiram a esse descobrimento foram os mais tristes de minha vida.”8

No Ensaio de John Foster sobre a Decisão de Caráter, vem relatado um caso de súbita conversão à avareza, tão ilustrativo que merece ser mencionado:

8.Th. Jouffroy; Nouveaus Mélanges philosophiques, 2me édition, pág. 83. Acrescento dois outros casos de contraconversão que datam de determinado momento. O primeiro, da coleção manuscrita do Professor Starbuck, vem narrado por uma mulher.
”Acredito que bem no fundo do meu coração, sempre fui mais ou menos cética em relação a “Deus”; o ceticismo cresceu como uma corrente subtwerrânea, que fluiu por toda a minha primeira mo idade, mas que era controlada e coberto pelos elementos emocionais do meu crescimento religioso. Quando completei dezessei anos, ingressei na igreja e me perguntaram se eu amava a Deus. Respondi ‘Sim’, como era costuma e esperado. No mesmo instante, porém, alguma coisa falou dentro de mim ‘Não, você não o ama’. Durante muito tempo me obsedaram a vergonha e o remorso da minha falsidade e da minha iniqüidade por não amar a Deus, misturados com o medo de que algum Deus vingativo me castigasse de um modo terível. … Aos dezenove anos, sofri um ataque de amigdalite. Antes de haver-me recuperado de todo, contaram-me a história de um bruto que chutara a mulher escada abaixo e depois continuara a operação até deixá-la insensível. Senti profundamente o horror da coisa. Imediatamente me passou pela cabeça o seguinte pensamento: ‘Não posso aceitar um Deus que permite uma coisa dessas’. Tal experiêwncia foi seguida de meses de estóica indiferença ao Deus da minha vida anterior, de mistura com sentimentos de positivo desamor e desafio um tanto orgulhoso. Eu ainda pensava que poderia existir um Deus. Se isso fosse verdade, ele provavelmente me condenaria, mas eu teria de agüentá-lo. Eu sentia pouco medo e nenhum desejo de propriciá-lo. Nunca tive quaisquer relações pessoais com ele desde essa dolorosa experiência.”
O segudo caso mostra como é pequeno o estímulo adicional necessário para recolocar a mente num novo estado de equilíbrio quando o processo de preparação e incubação já vai adiantado. É como a última palha proverbial ajuntada

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Parece que um moço “dilapidou, no prazo de dois ou três anos, vasto patrimônio, em pândegas crapulosas com certo número de companheiros indignos, que se diziam seus amigos, e que, quando se lhe esgotaram os últimos recursos, o trataram, é claro, com descaso e desprezo. Reduzido à miséria absoluta, ele, um dia, saiu de casa com a tenção feita de pôr fim à própria vida; mas, andando de um lado para outro quase inconscientemente, chegou ao alto de uma eminência, a cavaleiro do que antes haviam sido suas propriedades. Ali se sentou e deixou-se ficar, imerso em pensamentos, por algumas horas, ao cabo das quais levantou-se do chão com uma emoção veemente e exultante. Tomara a resolução de fazer que todas as antigas propriedades lhe voltassem às mãos, elaborara também o plano, que principiou a executar instantaneamente. Saiu à pressa dali, determinado a agarras a primeira oportunidade, por humilde que fosse, de ganhar algum dinheiro, ainda que desprezível e insignificante, e absolutamente resolvido a não gastar, se possíovel, um centavo do que conseguisse obter. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi um monte de carvões jogados ao chão pelos carroceiros diante de uma casa. Ofereceu-se para colocá-los, com uma pá ou um carrinho, no lugar que lhes fora reservado, e foi contratado. Recebeu algumas moedas pelo trabalho; e, logo, prosseguindo na parte econômica do plano, solicitou que lhe dessem de graça um pouco de comer e de beber, o que lhe foi concedido. Em seguida, pôs-se a procurar o que quer que o acaso lhe deparasse, e continuou, com infatigável indústria, fazendo uma séria de serviços humildes em diferentes lugare, de maior ou menor duração, mas sempre com muito escrúpulo para evitar, quanto possível, o gasto de um centavo que fosse. Agarrava prontamente todas as oportunidades que se lhe ensejavam de avançar em seu propósito, sem olhar para a mesquinhez da ocupação ou da aparência. Por esse método ganhou, após um espaço considerável de tempo, dinheiro suficiente para comprar, e depois vender, algumas cabeças de gado, em cujo valor se dera ao trabalho de enfronhar-se. Rápida mais cautamente, converteu os primeiros ganhos em novos lucros; conservou, sem o menor desvio, a extrema parcimônia; e, assim, aos poucos, foi dilatando o vulto das transações e amealhou uma riqueza incipiente. Não fiquei sabendo, ou talvez me tenha esquecido, do curso continuado de sua vida; só sei que, no fim de contas, ele mais do que recuperou as propriedades perdidas e morreu, como avaro inveterado, dono de L60.000.”9

ao fardo deo camelo, ou o toque da agulha que faz o sal de um líquido supersaturado começar a cristalizar-se de repente.
Escreve Tolstoi: “S., homem fraco e inteligente, contou-me da seguinte maneira o modo com que deixou de acreditar:-
“Ele tinha vintoe e seis anos de idade quando, um dia, numa caçada, tendo chegado a hora de formir, pôs-se a rezar, de acordo com o costume que adquirira desde a infância.
“Seu irmão, que estava caçando com erle, chegada a hora de dormir, deitou-se no feno e olhou para ele. Quando S. concluiu sua oração e já se virava para dormir, o irmão perguntou-lhe: “Você ainda faz isso?” Nada mais foi dito. Mas desde aquele dia, mais de tinta anos atrás, S. nunca mais voltou a orar; não comunga nem vai à igreja. Tudo isso, não porque conhecesse as convicções do irmão, que então adotou; não porque tomasse alguma nova resolução em sua alma, mas tão-somente porque as palavras do rimão tinham sido como o leve toque de um dedo num muro inclinado, já na iminência de cair por força do próprio peso. Tais palavras apenas lhe mostraram que o lugar em que supunha residir nele a religi´~ao estava vazio haovia muito tempo, e que as sentenças qaue pronunciava, os sinais-da-cruz e as inclinações que fazia durante a prece, eram ações sem nenhum sentido interior. Tyendo-lhes, assim, apreendido a absurdidade, não poderia conservá-las por mais tempo.” Ma Confession, pág. 8.

9. Op. Cit., Carta III, resumida.

Anexo um documento adicional cuja posse tenho e que representa, de maneira vívida, o que é provavelmente uma espécie muito freqüente de conversão, se o oposto de “apaixonar-se”, ou seja, desapaixonar-se, pode ser assim nomeado. O apaixonar-se também se conforma amiúde, com esse tipo, processo latente de preparação inconsciente que, não raro, precede um súbito despertar para o fato de que o dano feito é irreversível. O tom livre e fácil da narrativa empresta-lhe uma sinceridade que fala por si mesma.
“De dois anos a esta parte passei por uma péssima experiência, que quase me enlouqueceu. Eu me apaixonara violentamente por uma moça que, embora muito jovem, possuía um espírito de coquetismo igual ao de uma gata. Quando volto agora o pensamento para ela, sinto que a odeio, e fico imaginando como me foi possível cair tão baixo a ponto de deixar-me persuadir de tal maneira pelos seus atrativos. Sem embargo disso, fui acometido de uma febre constante, e não conseguia pensar em outra coisa; toda vez que ficava a sós, figurava-lhe os encantos e passava a maior parte do templ em que devia estar trabalhando, rememorando nossos encontros anteriores e imaginando futuras conversações. Ela era muito bonita, bem-humorada e jovial a mais não poder, e se agradava intensamente da minha admiração. Negava-se a responder-me decididamente sim ou não, e o mais curioso de tudo isso era que, enquanto a cortejava com a\ intenção de desposá-la, eu sabia secretamente, o tempo todo, que ela não tinha condições de ser minha esposa e nunca me diria sim. Posto que, durante um ano, fizéssemos nossas refeições na mesma casa de pensão, de modo que eu a via contínua e familiarmente, nossas relações mais íntimaos tinham de ser quase sempre praticadas às escondidas, e esse fato, associado ao ciúme que eu sentia por outro de seus admiradores masculinos, e à minha própria consciência, que me desprezava por minha fraqueza ingovernável, me deixou tão nervoso e insone que realmente pensei acabar ficando louco. Compreendo muito bem os moços que matam as namoradas, como se sabe pelas notícias que aparecem com tantas freqüência nos jornais. Não obstante, eu a amava com poaixão e, em certos sentidos, ela o merecia.
“A coisa singular foi o modo súbito e inesperado com que tudo acabou. Certa manhã, eu me dirigia para o trabalho depois do desjejum, pensando como sempre nela e na minha desgraça, quando, exatamente como se alguma força externa se apossasse de mim, dei meia volta e tornei, quase correndo, ao meu quarto, onde, sem perda de tempo,

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Permitam-me coltar agora ao tipo de caso, ou seja, ao caso relgioso, que nos di respeito mais de perto. Aqui está uma espécie simplíssima, a narrativa de conversão à religião sist4emática do equilíbrio mental de um homem que já devia pertencer naturalmente ao gênero equilibrado. Mostra que, quando o fruto está maduro, basta um toque para fazê-lo cair.
Em seu livrinho intitulado Menticulture, o Sr. Horace Fletcher conta que um amigo com quem estivera conversando sobre o autodomínio alcançado pelos japoneses, através da prática da disociplina budista, disse:

“ ‘Você precisa, primeiro, livrar-se da raiva e das preocupações.’’Mas’, tornei eu, ‘isso é possível?’ ‘Sim”, replicou ele, ‘e se é possível para os japoneses, deve ser possível para nós também.’
“Ao voltar para casa, não pude pensar em outra coisa que não fossem as palavras ‘livrar-se, livrar-se’1; e a idéia deve Ter continuado a possuir-me durante as minhas horas de sono, pois a primeira consciência na manhã seguinte trouxe de volta o mesmo pensamento, com a revelação de uma descoberta, que se encaixou no seguinte raciocício: ‘Se é possível à gente livrar-se da raiva e das preocupações, por que será necessário, em primeiro lugar, experimentá-la?’ Senti a força do argumento e aceitei, de pronto, o raciocínio. O nenê descobrira que podia andar. Doravante, desdenharia engatinhar.
“Desde o isntante em que compreendi que eses focos cancerosos das preocupações e da raivoa eram removíveis, eles me deixaram. Com o descobrimento da sua fraqueza, foram exorcizados. A partir desse momento, a vida, para mim, assumiu um aspecto inteiramente diverso.
“Conquanto, desde então, a possibilidaode e a desejabilidade de libertação das paixões deprimentes tenham sido uma realidade para mim, levei alguns meses até me sentir absolutamente seguro em minha nova posição; mas como as ocasiões habituais de preocupações e de raiva se tenham apresentado repetidas vezes e eu tenha sido incapaz de senti-las no mais leve grau, já não as temo nem me guardo delas, e estou assombrado com o aumento da minha energia e vigor mental; com a minha força para enfrentar situações de todos os gêneros, e com a minha disposição para amaor e apreciar tudo.
“Tendo tido ocasiao de viajar mais do que dezesseis mil quilômetros de trem desde aquela manhã, voltei a encontrar-me com o guarda, do Pullman, o condutor, o garçom do hotel, o vendedor ambulante, o vendedor de livros, o chofer, e outros que sempre tinham sido para mim fonte de aborrecimentos e irritação, embora eu não tivesse consociência de uma única incivilidade sequer da parte deles. De repente, o mundo inteiro passou a tratar-me com bondade. Tornei-me, por assim dizer, sensível apenaS AOS RAIOS DO BEM.
“Eu poderia referir muitas experiências que provam uma condição mental nova em folha, mas uma bastará. Sem o mais leve sentimento de contrariedade ou impaciência, vi um trem que eu planejara tomar com boa dose de interesse e prazer antecipados, sair da estação sem mim, porque minha bagagem não chegara. O porteiro do hotel entrou corrente e esbaforido na estação no exato momento em que o trem se perdia de vista. Quando me viu, deu-me a impressão de que estava com medo de levar uma descompostura, e começou a explicar que se vita bloqueado na rua apinhada de gente e incapaz de sair de lá. Quando ele terminou, eu disse-lhe: ‘Isso não tem a menor importância, a culpa não foi sua, tentaremos outra vez amanhã. Aqui está a sua gorgeta e só lamento que você tenha tido todo esse trabalho para ganhá-la.’ O olhar de surpresa que lhe tomou conta do rosto estava tão cheio de prazer que me senti repago, na mesma hora, do atraso em minha partida. No dia seguinte ele não quis aceitar um centavo sequer pelo serviço, e ele e eu somos agora amigos para sempre.
“Durante as primeiroas semanas de minha experiência pus-me em guarda apenas contra as preocupações e a raiva; nesse meio tempo porém, tendo notado a ausência das outras paixõeos deprimentes e desmedrantes, comecei a traçar uma relação entre elas, e cheguei à conclusão de que são todas formações mórbidas das duas raízes que especifiquei. Venho sentindo a libertação há tanto tempo que tenho certeza, agora, da minha relação com ela; e eu não poderia alimentar nenhuma dessas influências nocivas e deprimentes, que

tierei dos lugares em que estavam todas as relíquias dela que eu possuía, incluindo mechas de caelo, suas notas e cartas, e seus ambrótipos de vidro. Das primeiras fiz uma fogueira e esmaguei osúltimos com os pés, numa alegria selvagem de vingança e castigo. Eu agora a detestava e desprezava e, quanto a mim, tinha a impressão de que uma carga de doença me fora, de inopino, removida do corpo. Aquilo foi o fim. Nunca mais falei com ela, nunca mais tornei a escrever-lhe nos anos que se seguiram, e nunca tive um só momento de pensamento carinhoso para com aquela que, por tantos meses, me enchera literalmente o coração. De feito, sempre lhe odiei a lembrança, embora veja agora que fui desnecessariamente longe demais nessa direção. De qualquer maneira, a partir daquela manhã feliz, retomei a posse da minha própria alma e nunca mais caí em armadilha semelhante.”
Isto me parece um exemplo inusitadamente claro de dois níveis diferentes de personalidade, contrários nas suas expressões e, todavia, tão bem equilibrados entre si que, por muito tempo, encerão a vida com discórdia e insatisfação. Por fim, não gradativamente, porém numa súbita crise, resolve-se o equilíbrio instável, e isso acontece tão inesperadamente que é como se, para usarmos as próprias palavras do autor, “alguma força externa se apossasse de nós.”
O Professor Starbuck apresenta um caso análogo, e um caso inverso de ódio que se transmuda, de repente, em amor, em sua Psychology of Religion, pág. 141. Comparecem-se os outros exemplos, curiosíssimos, que ele dá às págs. 137-144, de súbitas alterações não-religiosas de hábito ou caráter. Ele parece conceber corretamente todas essas mudanças repentinas como resultados de funções cerebrais especiais, que se desenvolvem inconscientemente até estar prontas para desempenhar um papel controlador, quando irrompem na vida consciente. Ao tratarmos da
“conversão” súbita, farei todo o uso que puder dessa hipótese de incubação subconsciente.
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acalentava outrora como herança da humanidade, tanto quanto um salta-pocinhas não se espojaria voluntariamente numa sarjeta imunda.
“Não há dúvida em minha mente de que o Cristianismo puro e o Budismo puro e as Ciências Mentais e todas as Religiões ensinam, fudamentalmente, o que tem sido um descobrimento para mim; mas nenhum deles o apresentou à luz de um simples e fácil processo doe eliminação. Tempo houve em que entrei a imaginar se a eliminação não capitularia diante da indiferença e da preguiça. Em minha experiência, o resultado é o contrário. Sinto um desejo tão aumentado de fazer alguma coisa últil que é como soe eu fosse menino outra vez e me tivesse voltado a energia para brincar. Eu poderia lutar tão prestsmente como antes (e melhor do que antes), se houvesse necessidade de fazê-lo. Isso não me faz covarde. Não pode fazê-lo, eis que o medo é uma das coisas eliminadas. Noto a ausência de timidez em presença de qualquer público. Quando menino, u me achava debaixo de uma árvore, que foi golpeada por um raio, e recebi um choque de cujos efeitos só me livrei após dissolver a sociedade com as preocupações. Depois disso, relâmpagos e trovões têm sido arrostados em condições que, antigamente, me terial causado grande depressão e desconforto, sem experimentar um traço sequer de qualquer um deles. A surpresa também foi muito modificada, e fiquei menos sujeito a assustar-me com cenas ou ruídos inesperados.
“No que me diz respeito individualmente, não estou preocupado agora com os possíveis resultados dessa condição emancipada. Não tenho dúvida de que a saúde perfeita almejada pela Ciência Cristã talvez seja uma das póssibilidades, pois noto acentuada melhoria no modo com que meu estômago cumpre sua obrigação, assimilando o alimento que lhe forneço, e estou certo de que ele trtabalha melhor ao som de uma música do que sob o atrito de uma carantonha. Tampouco estou gastando o meu precioso tempo formulando a idéia de uma existência futura ou de um futuro Céu. O Céu que tenho dentro de mim é tão atraente quanto qualquer outro que me haja sido prometido ou que eu possa imaginar; e estou dispost a deixar o novo sentimento crescer como quiser, contanto que a raiva e seus filhotes não se metal a desviá-lo do bom caminho.”10

A medsicina mais antiga costumava falar em dois modos, lysis e crisis, um gradativo, outro abrupto, com que alguém podia recuperar-se de uma enfermidade do corpo. No reino espiritual também há dois modos, um gradativo, outro súbito, com que pode ocorrer a unificação interior. Tolstoi e Bunyan novamente nos servem de exemplos, exemplos, por sinal, do modo gradativo, se bem seja mister confessar de início que é difícil seguir as voltas dos corações dos outros, e sentimos que as suas palavras não lhes revelam todo o segredo.
Seja como for, prosseguindo em sua intérmina indagação, Tolstoi parecia chegar a uma visão intuitiva depois da outra. Primeiro percebeu que a sua convicção de que a vidoa não tinha sentido só levava em consideração a vida finita. Ele estava procurando o valor de um termo finito no de outro, e o resultado total só poderia ser uma daquelas equações indeterminadas em matemática que terminam com 0 – 0. Entretanto, istro é o mais longoe a que pode chegar sozinho o intelecto raciocinante, a menos que o sentimento ou a fé irracionais tragam o infinito para o campo. Acreditem no infinito como o faz o povo comum e a vidoa se torna possível outra vez.

“Visto que o gênero humano existe, ondoe quer que a vida tenha existido, sdempre existiu também a fé que deu origem à possibilidade de viver. A fé é o sentido da vida, o sentido em virtude do qual o homem não se destrói, mas continua a viver. É a força pela qual vivemos. Se o Homem não acreditasse que precisa viver por alguma coisa, não viveria de maneira alguma. A idéia de um Deus infinito, da divindade da alma, da união das ações dos homens com Deus – são idéias elaboradas nas infinitas profundezas secretas do pensamento humano. São idéias sem as quais não haveria vida, sem as quais eu mesmo”, disse Tolstoi, “não existiria. Comecei a ver que eu não tinha o direito de me fiar do meu raciocínio individual e fazer pouco das respostas dadas pela fé, pois elas são as únicas respostas à pergunta.”

Entretanto, de que modo acreditar como o povo comum acredita, se ele está afundado na mais grosseira superstição? É impossível – mas, no entanto, é a vida deles! A vida deles! Normal. Feliz! É Uma resposta è pergunta!
Pouco a pouco, Tolstoi chega à onvecção firmada – ele diz que levou dois anos para chegar lá – de que o seu problema não dizia respeito à vida em geral, nem à vida comum dos homens comuns, senãoi à vida das classes superiores, intelectuais, artísticas, a vida que ele pessoalmente sempre levara, a vida cerebral, a vida do convencionalismo, da artificialidade e da ambição pessoa. Ele andara vivendo ao erro e precisava mudar. Trabalhar para satisfazer às necessidades animais, abjurar mentiras e vaidades, acudir a necessidades comuns, ser simples, acreditar em Deus, nisso reside a felicidade.

10. H. Fletcher: Menticulture, or the A-B-C of True Living, Nova York e Chicago, 1899, págs. 26-36, resumido.

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“Lembro-me”, diz ele, “de um dia, no princípio da primavera, em que eu estava sozoinho na floresta, prestando atenção aos seus ruídos misteriosos. Fiquei ouvindo, e meu pensamento voltou àquilo de que eu sempre me ocupara nosúltimos três anos –a busca de Deus. Mas, disse eu comigo, como foi que cheguei à idéia dele?
“E novamente surgiram em mim, com esse pensamento, alegres aspirações à vida. Tudo despertou em meu íntimo e recebeu um significado. … Por que olhar para mais longe? Perguntou-me uma voz interior. Ele está aqui: ele, sem o qual não se podoe viver. O mesmo é reconhecer a Deus e viver. Deus é a vida. Pois, então, muito bem! Vive, busca a Deus, e não haverá vida sem ele.
“Depois disso, as coisas se aclararam melhor do que nunca dentro e ao redor de mim, e a luz nunca mais se apagou de todl Eu me salvara do suicídio. Não posso dizer com exatidão como nem quando se operou a mudança. Mas quão insensível e gradativamente a força da vida fora anulada dentro de mim, e eu atingira o meu leito de morte moral, tão gradativa e imperceptivelmente voltou a energia da vida. E o mais estranho é que a energia que voltou nada tinha de novo. Era minha antiga força de fé juvenil, a crença em que o único propósito de minha vida era ser melhor. Desisti da vida do mundo convencional, reconhecendo que aquilo não era vida, senão paródia de vida, que as suas superfluidades simplesmente nos impediam de compreender”– e Tolstoi, em conseqüência disso, abraçou a vida dos camponeses, e desde então se sentiu honesto e feliz, pelo menos relativamente.11

Tal como a interpreto, sua melancolia, portanto, não era apenas uma viciação acidental dos seus humores, se bem fosse, sem dúvida, isso também. Foi logicamente suscitada pelo choque entre o caráter interno e as atividades e metas externas. Conquanto fosse um artista literário, Tolstoi era um daqueles carvalhos humanos primitivos para os quais as superfluidades e insinceridades, a cupidez, complicações e crueldades da nossa civilização polida são profundamente insatisfatórias, e para os quais as eternas veracidades da vida estão nas coisas mais naturais e animais. Sua crise foi a arrumação da sua alma, o descobrimento de seu habitat e vocação genuínos, a fuga das falsidades na dfireção do que, para ele, representava os caminhos da verdade. Era um caso de personalidade heterogênea que encontrou, tardia e lentamente, sua unidade e seu nível. E, posto que poucos dentre nós possamos imitar Tolstoi, por não termos, talvez, em quantidade bastante o tutano humano aborígene em nossos ossos, quase todos, pelos menos, acharmos que melhor seria se, de fato, pudéssemos imitá-lo.
A recuperação de Banyan parece Ter sido mais lenta ainda. Por anos a fio ele foi alternadamente obsidiado por textos da Escritura, que ora o levantavam, ora o deprimiam, mas que, afinal, lhe realçaram o sentido crescente da sua salvação pelo sangue de Cristo.

“A paz me procurava e me deixava vite vezes por dia; conforto agora e desconforto logo depois; agora em paz, mas antes que pudesse percorrer meia milha, cheio de toda a culpa e todo o medo que o meu coração podia carregar.” Quando se lembra de um bom texto, “Este”, escreve, “me proporcionou refrigério pelo espaço de dus ou três horas”; ou “Este foi um bom dia para mim, espero não o esquecer”; ou “A glória dessas palavras revelou-se, naquele momento, tão pesada sobre mim que, quando me sentei, estava prestes a desmaiar; mas não de mortificação e pesar, senão de sólida alegria e paz”; ou “Isso produziu grande impressão em meu espírito; trouxe luz e silenciou em meu coração todos os pensamentos tumultuosos que antes costumavam, quais sabujos sem dono do inferno, rugir, bramir e fazer um estardalhaçõ medonho dentro de mim. Isso me mostrou que Jesus Cristo não desamparara minha Alma nem a lançara de si.”
Tais período foram-se acumulando até que ele pôde escrever: “E agora sobrava apenas a parte at5rasada da tempestade, pois os raios e trovões já me haviam ultrapassado e apenas algumas gotas, de longe em longe, caíam sobre mim”; e por fim: “Agora as correntes se desprenderam da sminhas pernas; libertei-me das aflições e dos ferros; minhas tentações também fugiram; de sorte que, a partir desse momento, as pavorosas Escrituas de Deus cessaram de perturbar-me; também voltei para casa, jubiloso, pela graça e amor de Deus. … Eu podia ver-me no Céu e na Terra ao mesmo tempo; no Céu, pelo meu Cristo, por minha Cabeça, pela minha Retidão e Vida e, na Terra pelo meu corpo ou pessoa. … Cristo foi um Cristo precioso para a minha alma naquela noite; eu mal podia ficar deitado na cama de tanta alegria, paz e triunfo através de Cristo.”

Bunyan tornou-se ministro do evangelho e, a despeito da sua constituição neurótica e dos doze anos em que ficou na cadeia por não-conformismo, sua vida passou a ser ativa e útil. Era um pacificador e um benfeitor, e a Alegoria imortal que escreveu reconduziu aos corações ingleses o próprio espírito da paciência religiosa.
Mas nem Bunyan nem Tolstoi poderiam transformar-se no que nós denominamos equilibrados mentais. Haviam bebido tão profundamente na taça da amrgura que nunca poderiam esquecer-lhe o sabor, e a sua redenção está num universo de dois andres. Cada

11. Resumi consideravelemnte as palavras de Tolstoi em minha tradução.
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qual concebeu um bem que embotou o fio eficaz da sua tristeza; sem embargo disso, preservou-se a tristeza como ingrediente menor no coração da fé pela qual ela foi vencida. O que nos interessa é que, na realidade, elespuderam encontrar, e encontraram, alguma coisa brotando nos recessos mais íntimos da consciência, por cujo intermédio uma tristea tão grande poderia ser vencida. Tolstoi refere-se a isso chamando-lhe aquilo de que os homens vivem; pois é exatamente o que é, um estímulo, uma excitação, uma fé, uma força que reinfunde a vontade positiva de viver, até em presença das más percepções que, pouco antes, lhe davam à um semblante insuportável. Popis as percepções do mal de Tolstoi parecem, dentro da sua esfera, Ter permanecido inalteradas. Suas obras subseqüentes mostram-no implacável com todo o sistema de valores oficiais: o ignóbil da vida segundo os ditames da moda; o infame do império; o espúrio da igreja, o vão presunçoso das profissõeos chamadas liberais; as mesquinharias e crueldades que acompanham o grande triunfo; e todos os mais crimes pomposos e instituições mentirosas deste mundo. Em relação à paciência com essas coisas, sua experiência foi para ele um permanente ministério de morte.
Bunyan também deixa este mundo ao inimigo.

“Preciso primeiro pronunciar uma sentença de morte”, diz ele, “contra tudo o que pode apropriadamente chamar-se uma coisa desta vida, até para considerar-me a im, a minha esposa, a meus filhos, a minha saúde, aos meus divertimentos, e a todos, mortos para mim, e eu mesmo morto para eles, confiar em Deus através do Cristo, no que tange ao mundo por vir; e, no que toca, ao mundo, considerar o túmulo minha casa, fazer minha cama na treva e dizer à corrupção, Tú és meu pai, e ao Verne, Tu és minha mãe e minha irmã. … Quando eu me despedia de minha esposa e dos meus pobres filhos tinha a impressão, freqüentemente, de estar arrancando a carne dos meus ossos, sobretudo quando se tratava do meu pobre filho cego, que está mais perto do meu coração do que qualquer outra coisa na terra. Pobre criança, pensei, quanta tristeza estará à tua espera como teu quinhão neste mundo! Serás açoitado, pedirás esmola, sofrerás fome, frio, nudez e mil calamidades, ainda que, agora, eu não suporte sequer que o vento sopre sobre ti. Apesar de tudo isso, preciso entregar-vos todos a Deus, embora me doa profundamente deixar-vos.”12

O “sinal da resolução” aí está, mas a maré plena da libertação extática parece que nunca se derramou sobre a alma do pobre John Bunyan.
Esses exemplos talvez bastem para familiarizar-nos, de um modo geral, com o fenômeno tecnicamente chamado de “Conversão”. Na próxima conferência convidá-los-ei a estudar-lhe as peculiaridades e concomitâncias mais circunstanciadamente.

12. Em minhas citações de Bunyan omiti certas porções intervenientes do texto.

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IX Conferência

CONVERSÃO

Converter-se, regenerar-se, receber a graça, sentir a religião, obter uma certeza, são outras tantas expressões que denotam o processo, gradual ou repentino, por cujo intermédio um eu até então dividido, e conscientemente errado, inferior e infeliz, se torna unificado e consocientemente certo, superior e feliz, em conseqüência do seu deomínio mais firme das realidades religiosas. Isso, pelo menos, é o que significa a conversão em termos gerais, quer acreditemos, quer não, que se faz mister uma operação divina direta para produzir uma mudança natural dessa ordem.
Antes de encertar um estudo mais minucioso do processo, permitam-me avisar o nosso entendimento da definição por meio de um exemplo concreto. Escolhi o caso curioso de um homem iletrado, Stephen H. Bradley, cuja experiência vem relatada num folheto americano bastante raro.1
Escolhi este caso porque ele mostra que, nas alterações interiores, podemos encontrar uma profundidade insuspeitada debaixo da outra, como se as possibilidades de caráter se encontrem dispostas numa série de camadas ou conchas, de cuja existência não temos nenhum conhecimento premonitório.
Bradley cuidava já se haver plenamente convertido aos catorze anos de idade.

“Imaginei ter visto o Salvador, pela fé, em forma humana, por cerca de um segundo no quarto, com os braços estendidos, parecendo dizer-me, Vem. No dia seguinte, eu tremia de alegria; pouco depois, minha felicidade era tão grande que declarei querer morrer; este mundo não tinha lugar em minhas afeições, que eu conhecia, e cada dia me parecia tão solene quanto o Sábado. Eu desejava com ardor que todo o gênero humano se sentisse como eu me sentia; queria que todo o mundo amasse a Deus supremamente. Antes disso, eu fora muito egoísta e hipócrita; mas agora desejava o bem-estar de toda a humanidade, sentia-me capaz de perdoar, com um coração sensível, meus piores inimigos, e me acreditava disposto a suportar os motejos e zombarias de qualquer pessoa, e a sofrer o que quer que fose por amor d’Ele, se pudesse ser o instrumento, nas mãos de Deus, da conversão de uma alma.”
Nove anos depois, em 1829, o Sr. Bradley teve notícias de uma campanha de renovação dofervor religioso, iniciada nas vizinhanças. “Muitos jovens convertidos”, diz ele, “se aproximavam de mim nas reuniões e perguntavanm-me se eu tinha religião; minha resposta geralmente era, Espero que sim. Isso não parecia satisfazê-los; diziam saber que a tinham. Eu lhes pedia que rezassem por mim, pensando com os meus botões que, se não tinha religião agora, depois de declarar por tanto tempo ser cristão, já era tempo de tê-la, e esperava que as orações deles por mim fossem atendidas.
“Num Sábado, fui ouvir o metodista na Academia. Ele falou do dia do juízo uiversal; e falou de maneira solene e terrível, como ou nunca ouvira antes. A cena daquele dia parecia estar acontecendo, e tão despertados se achavam todos os poderes da minha mente que, como Felix, tremi involuntariamente no banco em que estava sentado, se bem nada sentisse no coração. Na noite do dia seguinte fui ouvi-lo outra vez. Ele tirou o texto do Apocalipse: ‘E vi os mortos, pequenos e grandes, de pé diante de Deus’. E representou os terrores daquele dia de tal maneira que se tinha a impressão de que dewrreteria um coração de pedra.’ Quando ele concluiu o discurso, um velho senhor virou-se para mim e disse, ‘A isso é que chamo pregar’. Eu pensava o mesmo; mas os meus sentimentos continuavam imperturbados pelo que ele dissera, e não apreciei a religião, embora acredite que ele o fizesse.
“Relatei agora minha experiência do poder do Espírito Santo ocorrida naquela mesma noite. Se alguma pessoa me tivesse dito antes disso que eu poderia Ter experimentado o poder do Espírito Santo do jeito que o experimentei, eu não teria acreditado e teria julgado iludida a pessoa que mo tivesse dito. Fui diretamente para casa após a reunião e, quando cheguei, pus-me a imaginar o que me deixara tão estúpido. Recolhi-me para descansar; sentia-me indiferente às coisas da religião até que principiei a ser posto à prova pelo Espírito Santo, o que começou cinco minutos depois da seguinte maneira:
“A princípio, de repente, senti o coração bater muito depressa, o que me fez pensar que talvez alguma coisa fosse acontecer-me, embora eu não estivesse alarmado, pois não sentia dor. Aumentaram as batidas do coração, o que logo me convenceu de eu se tratava do Espírito Santo pelo efeito que produzia em mim. Entrei a sentir-me excessivamente feliz e humilde e a experimentar um sentido de indignidade que nunca experimentara antes. Não pude deixar de expressar-me em voz alta, o que fiz, dizendo, Senhor, não mereço esta felicidade, ou outras palavras no mesmo sentido, ao mesmo tempo que uma corrente, que se diria de ar, pela sensação produzida, me

1. A sketch of the life of Stephen H. Bradley, from the age of five to twenty-four years, including his remarkable experience of the power of the Holy Spirit on the second evening of November, 18299. Madison, Connecticut, 1830.

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entrou pela boca e pelo coração de maneira mais sensível do que se eu estivesse bebendfo alguma coisa, e continuou, segundo posso julgar, por cinco minutos ou mais, parecendo ser a causa das palpitações do meu coração. Apoderou-se completmentoe da minha alma, e estou certo doe haver desejado que o Senhor, enquanto eu me achava neste estado, não me desse nenhuma outra felicidade, pois me parecia não poder conter a que já recebera. Meu coração dava a impressão de que ia estourar, mas só parou quando senti indizivalmente cheio de amor e da graça de Deus. Nesse interim, enquanto eu era assim posto à prova, um pensamento acudiu-me à mente: Que poderá significar isso? E incontinenti, como que em resposta à minha pergunta, minha memória tornou-se excessivamente clara e foi como se o Novo Testamento tivesse sido colocado à minha frente, aberto no capítulo oitavo de Romanos e tão claro como se alguém segurasse uma lâmpada acesa para eu poder ler os versos 26 e 27 daquele capítulo; e li estas palavras: ‘1O espírito intercede por nós sobremaneira com gemedos inexprimíveis.’ E durante todos o tempo em que meu coração batia, eu gemia como uma pessoa angustiada, sem poder parar, embora não sentisse dor alguma, e meu irmão, deitado em outro quarto, veio abrir a porta e perguntar-me se estava com dor de dentes. Respondi-lhe que não, e que ele poderia voltar à cma. Tentei parar. Eu mesmo não sentia vontade de dormir, pois estava tão feliz que tinha medo de perder aquela felicidade – pensando dentro em mim.

‘Minha alma ficaria de bom grado
Numa disposição igual a esta.’

“E enquanto eu jazia refletindo, depois que meu coração parou de bater, tendo a sensação de que tinha a alma cheia do Espírito Santos, iomaginei que talvez pairassem anjos em torno da minha cama. Senti como que um desejo de conversar com eles e, finalmente, falei, dizendo: ‘Ó anjos afetuosos! Como podeis Ter tanto interesse pelo nosso bem-estar, se nós mesmos temos tão pouco?’ Depois disso, adormeci com dificuldades; e ao despertar, na manhã seguinte, meus primeiros pensamentos foram: Que foi feito da minha felicidade? E, sentindo um pouquinho dela no coração, pedi mais, o que me foi dado com a rapidez do pensamento. Então me levantei para vestir-me; e descobri, para minha surpresa, que mal podia ficar de pé. Tive a impressão de que um pequeno céu baixara sobre a terra. Minha alma sentia-se tão completamente erguida cima dos temores da morte como estaria acima dos temores do adormecer; e, como o pássaro na gaiola, eu sentia o desejo, se tal fosse a vontade de Deus, de ser libertado do corpo e habitar em Cristo, embora estivesse disposto a viver para fazer o bem aos outros e instigar os pecadores a se arrependerem. Desci a escada sentindo-me tão solene quanto se houvesse perdido todos os meus amigos, e pensando cmigo que não deixaria meus pais saberem de nada enquanto não tivesse, primeiro, lido o Testamento. Fui diretamente para a estante e procurei o capítulo oito de Romanos, e cad verso parecia quase falar e confirmar que se tratava realmente da Palavra de Deus, como se os meus sentimentos correspondessem ao sentido da palavra. Então contei a meus pais e disse-lhes que, no meu entender, eles deviam ver, quando eu falava, que nmão falava com minha própria voz, pois assim se me afigurava. Minha fala parecia inteiramente sob o controle do Espírito dentro de mim; não quero dizer que as palavras que eu proferia não fossem minhas, pois eram-no. Ms eu supunh estar sendo influenciado do mesmo modo que os Apóstolos o haviam sido no dia de Pentecoste (com a exceção de não Ter o poder de comunicá-lo aos outros nem de fazer o que eles faziam). Após o desjejum, saí para conversar com os vizinhos sobre religião, o que eu não teria feito antes nem que me pagassem, e, a seu pedido, rezei com eles, embora nunca tivesse rezado em público até então.
“Sinto-me agora como soe tivesse cumprido minha obrigação falando verdade e espero, com a ajuda de Deus, que isso redunde em algum bem a quantos me lerem. Ele cumpriu sua promessa mandando o Espírito Santo aos nossos corações, pelo menos ao meu, e agora desafio todos os deístas e ateus do mundo a tentar abalar minha fé em Cristo.”

Isso é tudo quanto ao que se refere ao Sr. Bradley e à sua conversão, de cujo efeito sobre a sua existência subseqüente não temos informação alguma. Passemos agora a um exame mais pormenorizado dos elementos constituintes do processo de conversão.
Se os senhores abrirem qualquer tratado de Psicologia, no capítulo sobre Associação, lerão que as idéias, metas e objetivos de um homem formam diversos grupos e sistemas internos, relativamente independentes uns dos outros. Cada “meta” colimada desperta certo tipo específico de excitação interessada, e junta certo grupo de idéias a ela subordinadas como suas associadas; e se as metas e excitações forem de espécies distintas, seus grupos de idéias terão pouca coisa em comum. Quando um grupo está presente e monopoliza o interesse, todas as idéiuas ligadas a outros grupos podem ser excluídas do campo mental. Quando o Presidente dos Estados Unidos, apetrechado de remo, espingarda e vara de pescar, vai acampar no mato em gozo de férias, modifica de cabo a rabo seu sistema de idéias. As preocupações presidenciais são inteiramente relegadas a um segundo plano; os hábitos oficiais são substituídos pelos hábitos de um filho da natureza, e os que conheciam o hoem apenas como o estrênuo magistrado não “ o conheceriam como a mesma pessoa” se o vissem no acampamento.
Ora, se ele nunca voltasse atrás e nunca mais permitisse que interesses políticos viessem a dominá-la, seria, para todos os propósitos e em todos os sentidos, um ser permanentemente
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transformado. Nossas alterações comuns de caráter, quando passamos de uma de nossas metas para outra, não se costumam chamar transformações, porque cada uma delas é rapidamente seguida de outra na direção contrária; mas toda vez que uma das metas torna tão estável que expulsa definitivmente suas rivais anteriores da vida do indivíduo, nossa tendência é mencionar o fenômeno e talvez matutuar sobre ele, como sendo uma “transformação”.
Essas alternativas são o mais completo dos modos com que um eu pode ser dividido. Um modo menos completo é a coexistência simultânea de dois ou mais grupos diferentes de metas, uma das quais, praticamente, detém o direito de passagem, enquanto que as outras são meros desejos piedosos e, praticamente, nunca chegam a coisa alguma. As aspirações de Santo Agostinho a uma vida mais pura, em nossa última conferência, foram por algum tempo um exemplo. Outro seria o Presidente, em todo o orgulho do seu cargo, imaginando se tudo não seria vaidade, e se a vida de um lenhador não representaria um destino mais saudável. Tais aspirações fugazes são meras velleitates, veleidades. Existem nas mais remotas periferias da mente, e o verdadeiro eu do homem, centro das suas energias, é ocupado por um sistema inteiramente diverso. A proporção que a vida passa, há uma mudança constante dos nossos interesses e uma conseqüente mudança de lugar em nossos sistemas de idéias, de partes mais centrais para partes mais periféricas, e de partes mais periféricas para partes mais centrais da consciência. Lembro-me, por exemplo, de que uma noite, quando eu era moço, meu pai leu em voz alta, num jornal de Boston, o trecho do testamento de Lorde Gifford que fundou estes quatro cargos de conferencistas. Naquele tempo eu não pensava em ser professor de filosofia, e aqueilo a que eu estava prestando atenção se achava tão distante de minha própria vida como soe relacionasse com o planeta Marte. No entanto, aqui estou eu, com o sistema Gifford formando parte integrande do meu próprio eu, e todas as minhas energias, devotadas, por ora, ao bom êxito da minha identificação com ele. Minha alma encontra-se, agora, plantada no que foi outrora, para ela, um objetivo praticamente irreal e fala dele como de seu habitat e centro apropriados.
Quando falo em “Alma”, os senhores não precisam tomar o que digo no sentido ontológico, a não ser que prefiram fazê-lo; pois conquanto a linguagem ontológica seja instintiva nesses assuntos, os budistas ou humianos descrevem perfeitamente bem os fatos com os termos fenomenais que são os seus favoritos. Para eles a alma é tão-só uma sucessão de campos de consciência: encontra-se, todavia, em cada campo uma parte, ou subcampo, que figura como foco e contém a excitação, desde a qual, como desde um centro, a meta parece ser visada.
Falando desa parte, aplicamos involuntarimanete palavras de perspectiva para distinguí-la do resto, palavras como “aqui”, “este”, “agora”, “meu” ou “eu”; e atribuímos às outras partes as posições “ali”, “então”, “aquilo”, “seu”, ou “teu”, “ele”, “não-eu”. Mas um “aqui” pode ser trocado por um “ali” transforma-se em “aqui”, e o que era “meu” e o que era “não-meu” mudam de lugar.
O que provoca tais mudanças é o modo com que se altera a excitação emocional. As coisas que hoje são quentes e vitais para nós serão frias amanhã. Enquanto são vistas das partes quentes do campo é que as outras partes aparecem para nós, e desde essas partes quentes o desejo e a volição pessoais fazem suas excursões. Elas são, em resumo, os centros da nossa energia din^mica, ao passo que as partes frias nos deixam indiferentes e passivos em proporção com a sua frieza.
O fato de ser ou não essa linguagem rigorosamente exata, por enquanto, não tem importância. Será suficientemente exata se os senhores reconhecerem, por experiência própria, os fatos que procuro designar por meio dela.
Ora, pode haver grande oscilação no interesse emocional, e os lugares quentes podem mudar de posição diante de nós quase tão depressa quanto as fagulhas que correm através do papel queimado. Temos então o eu oscilante e dividido, de que já falamos tanto na conferência anteior. Ou o foco de excitaçãso e de calor, ou seja, o ponto de vista do qual se visa a meta, pode vir a estabelecer-se permanentemente num dado sistema; e, nesse caso, se a mudança for religiosa, nós lhe chamamos conversão, sobretudo se se operar por meio de uma crise, isto é, subitamente.
Seja-nos permitido, daqui por diante, ao falar no lugar quente da consciência de um homem, no grupo de idéias a que ele se consagra, e pelo qual trabalha, chamar-lhe o centro habitual da sua energia pessoal. Representa grande diferença para o homem o ser um ou outro
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conjunto de idéias o centro de sua energia; e represent uma grande diferença, no qaue concerne a qualquer conjunto de idéias que ele possa possuir, que este se torne central ou permaneça periférico. Dizer que um homem está “convertido” significa, nesses termos, que as idéias religiosas, anteriormente periféricas em sua consciência, assumem agora um lugar central, e que metas religiosas formam o centro habitual da sua energia.
Ora, se os senhores perguntarem à psicologia exatamente como a excitação muda de luga rno sistema mental do homem, e por quê metas periféricas passam a ser centrais em determinado momento, a psicologia replicará que, embora possa dar uma descrição geral do que acontece, é incapaz de explicar com exatidão, em cada caso, todas as forças singulares que estão operando. Nem o observador de fora nem o sujeito que sofre o processo pode explicar a contento como experiências particulares mudam o centro de energia da pessoa de maneira tão decisiva, ou por que são tantas vezes obrigadas a aguardar a sua oportunidade para fazê-lo. Temos um pensamento ou executamos um ato repetidamente, mas, certo dia, o verdadeiro significado do pensamento ressoa através de nós pela primeira vez, ou o ato se converte, de súbito, numa impossibilidade moral. Só sabemos que existem sentimentos mortos, idéias mortas e crenças frias, e que as há quentes e vivas; e quando uma delas se torna quente e viva dentro de nós, tudo tem de ser recritalizado em seu derredor. Podemos dizer que o calor e a vida significam apenas a “eficária motora” da idéia, adiada por muito tempo mas agora operativa; mas até essa maneira de falar é um circunlóquio, pois de onde vem a súbita eficácia motora? E nossas explicações se tornam tão vagas e gerais que compreendemos ainda mais a intensa individualidade de todo o fenômeno. No fim, voltamos a cair no simbolismo trivializado de um equilíbrio mecânico. A mente é um sistema de idéias, cada qual com o estímulo que desperta, e com tendência impulsivas e inibidoras, que mutuamente contrastam ou se reforçam. A coleção doe idéias se altera por subtração ou adição no curso da experiência, e as tendências se alteram à medida que o organismo envelhece. Um sistema mental pode ser minado ou enfraquecido por essa alteração intersticial exatamente como acontece om um edifício e, no entanto, mantém-se de pé por força do hábito. Mas uma nova percepção, um repentino choque emocional ou uma ocasião que desnuda a alteração orgânica fará cair, de uma vez só, toda a fábrica; e aí o centro de gravidade afunda numa atitude mais estável, pois as novas idéiaos que alcançam o centro da rearrumação parecem agora trancadas ali, e a nova estrutura continua permanente.
Associações formadas de idéias e hábitos costumam ser fatores de retardamento em tais mudanças de equilíbrio. Uma nova informação, adquirida seja como for, tem um papel acelerador nas mudanças; e a lenta mutação de nossos instintos e propensões, sob o “toque inimaginável do tempo” exerce enorme influência. De mais a mais, todas essas influências podem operar subconsciente ou semi-inconsciente.2 E quando temos um Sujeito cuja vida subconsciente – da qual logo falarei com maiores minúcias – está largamente desenvolvida, e cujos motivos, de ordinário, maduram em silêncio, temos um caso do qual nunca poderemos dar uma explicação completa, e no qual, tanto para o Sujeito como para os espectadors, pode aparecer um elemento milagroso. As ocasiões emocionais, sobretudo as violentas, são extremamente eficazes em precipitar rearrumações mentais. As maneiras súbitas e explosivas com que o amor, o ciúme, a culpa, o medo, o remorso ou a raiva podem apoderar-se de alguém são conhecidas de todos.3

2. Jouffroy é um exemplo: “Minha inteligência deslizara por essa ladeira abaixo e, pouco a pouco, se distanciara da primeira fé. Mas essa revolução da melancolia não se verificara à luz clara da minha consciência; escrúpulos em demasia, guias e afeições sagradas em excesso tinham-na tornado terrível para mim, de sorte que eu estava longe de confessar a mim mesmo o progresso que ela fizera. Este se processara em silêncio, uma elaboração involuntária da qual eu não era cúmplice; e se bem, na realidade, tivesse deixado havia muito de ser cristão, na inocência da minha intenção eu teria estremecido se suspeitasse disso, e diria que era uma calúnia se eu tivesse sido acusado de tamanha fraqueza.” A isso se segue a descrição de sua contra-conversão (citada na página 85).
3. Quase não precisamos de exemplos; mas quanto ao amor, quanto ao medo, quanto ao remorso, veja Otelo após o assassínio; quanto à cólera, veja Lear depois da primeira fala que lhe dirige Cordélia; quanto à resolução, veja caso J. Foster. Aqui está um caso patológico em que a culpa foi o sentimento que de repente explodiu: “Uma noite fui tomado por um calafrio ao entrar na cama, tal e qual o que Swedenborg descreve como se o tivesse salteado com um sentido de santi-
dade, mas que a mim me salteou com um sento de culpa. Durante toda a noite permaneci sob a influência do calafrio e, des
de o começo, senti que eu estava sob a maldição de Deus. Eu jamais praticara um ato de obediência em minha vida – os pecados contra Deus e contra o homem, a começar do primeiro ponto de que a minha memória se recorda – um gato selva-
gem em forma humana”.
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A esperança, a felicidade, a segurança, a determinação, emoções características da conversão, podem ser igualmente explosivas. E as emoções que chegam dessa maneira explosiva muito raramente deixam as coisas quais as encontram.
Em sua obra recente sobre a Psicologia da Religião, o Professor Starbuck, da Califóronia, mostrou, numa investigação estatística, como são intimamente paralelas em suas manifestações a “conversão” comum, que ocorre em jovens educados em círculos evangélicos, e o crescimento numa vida espiritual mais ampla, que é a fase normal da adolescência em todas as classes de seres humanos. A idade é a mesma, entre os catorze e os dezessete anos. Os sintomas sõa os mesmos – sentido de inacabamento e imperfeição; taciturnidade, depressão, introspecção mórbida e senso do pecado; ansiedade a respeito da vida futura; angústia tocante a dúvidas, e quejandos. E o resultado é o mesmo – alívio feliz e objetividade à medida que aumenta a confiança própria através do ajustamento das faculdades à visão mais vasta. No despertar religioso espontâneo, pondo de parte os exemplos revivalísticos, e na tempestade, na tensão e na mudança de penas, comuns à adolescência, podemos também topar com experiências místicas, que assombram os sujeitos pela subitaneidade, justamente como na conversão revivalista. A analogia, de feito, é completa; e a conclusão de Starbuck a respeito dessas conversões adolescentes comuns parece ser a única bem fundada: em sua essência, a conversão é um fenômeno adolescente normal, incidental à passagem doi pequeno universo da criança para a vida intelectual e espiritual mais ampla da maturidade.
“A teologia”, diz o Dr. Starbuck, “toma as tendências adolescentes e edifica sobre elas: diligencia fazer que a coisa essencial no crescimento adolescente seja trazer a pessoa para fora da infância e conduzi-la à nova vida de maturidade e introvisão pessoal. Conseguintemente, põe em ação esses meios, intensificando as tendências normais. Encurta a duração da tempestade e da tensão.” Os fenômenos de “convicção do pecado” da conversão duram, de acordo com as estatísticas desse investigador, cerca de uma Quinta parte dos períodos dos fenômenos de tempestade e tensão adolescente, cujas estatísitcas ele também obteve, mas se manifestam com muito maior intensidade. Concomitantes físicos, perda de sono e apetite, por exemplo, são nele muito mais freqüentes. “A distinção essencial parece ser que a conversão intensifica mas abrevia o período, levando a pessoa a uma crise definida.”4
As conversões que o Dr. Starbuck aqui tem em mente, é claro, são sobretudo as de pessoas muito comuns, que se mantiveram fiéis a um tipo pré-ordenado pela instrução, pelo comando e pelo exemplo. A forma particular que elas afetam resulta da sugestão e da imitação.5
Se passassem pela crise de crescimento em outras fés e outros países, embora a essência da mudança fosse a mesma (visto ser fundamentalmente inevitável), seus acidentes seriam diferentes. Em terras católicas, por exemplo, e em nossas próprias seitas episcopais já não são tão
Usuais essa ansiedade e convicção de pecado quannto nas seitas que estimulam a revivescência. Havendo maior confiança nos sacramentos nesses corpos mais estritamente eclesiásticos, a aceitação pessoal da salvação por parte do indivíduo não precisa ser tão acentuada e orientada.
Mas todo fenômeno imitativo deve ter tido o seu original, e proponho que, daqui por diante, nos atenhamos o mais possível às formas de experiência de primeira mão, de maior originalidade. É mis provável que estas sejam encontradas nos casos adultos esporádicos.

4. E. D. Starbuck: The Psychology of Religion, págs. 224,262.
5. Ninguém o compreende melhor do que Jonathan Edwards já o compreendeu. As narrativas de conversão da espécie
mais corriqueira devem sempre ser aceitas com os descontos que ele sugere: “Uma regra recebida e estabelecida pelo consenso comum exerce grande influência, embora insensível para muitas pessoas, na formação das suas noções do processo da própria experiência. Sei muito bem como soe aveem eles com essa questão, pois tenho tido oportunidades mfreqüentes de observar-lhes o procedimento. Sua experiência, não raro, aparece como um caos confuso mas, depois, são escolhidas as partes que têm maior semelhança com os passos determinados em que eles insistem; e estes se demoram em seus pensamentos, e são mencionados doe tempos a tempos, até se tornarem cada vez mais conspícuos à sua vista, ao passo que outras partes, descuradas, se tornam mais e mais obscuras. Destarte, o que eles experimentaram é insensivel mente forçado e trazido a uma exata conformidade com o esquema já estabelecido em suas mentes. E isso também se torna natural que o façam os ministros, que Têm de lidar com os que insistem na distinção e clareza de método”. Treatisde on Religious Affections.

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Em valioso artigo sobre a psicologia da conversão.6 o Professor Leuba subordina o aspecto teológico da vida religiosa quase que inteiramente ao aspecto moral. Ele define o sentido religioso como “o sentimento de inacabamento, de imperfeição moral, de pecado, para usar o termo técnico, acompanhado do anseio da paz na unidade”. “A palavra ‘religião’ “, diz ele, “siginifica cada vez mais o conglomerado de desejos e emoções que nascem do sentido do pecado e da sua remissão”; e cita grande número de exemplos, em que o pecado vai desde a ebriedade até o orgulho espiritual, a fim de mostrar que o seu sentido pode forçar a pessoa a ansiar por alívio tão urgentemente quanto o sofrimento da carta enferma ou qualquer outra forma de tormento físico.
Não há dúvida de que essa concepção abrange um número imenso de casos. Um bom caso para ser usado como exemplo, é o do Sr. S. Hadley, que, depois da sua conversão, tornou-se ativo e útil na assistência dos bêbedos em Nova York. Sua experiência é narrada da seguinte maneira:

“Numa noite de Terça-feira, dei comigo sentado num bar em Harlem, um pinguço sem casa, sem amigos, moribundso. Eu penhorara ou vendera tudo o que pudesse proporcionar-me um trago. Só conseguia dormir completamente bêbedo. Fazia dias que não comia e, quatro noites antes daquela, sofrera uma crise de delirium tremens, ou de horrores, da meia-noite até a manhã seguinte. Eu dissera muitas vezes: ‘Nunca serei um vagabundo. Nunca serei acuado pois, quando chegar esse dia, se chegar alguma vez, encontrarei um lar no fundo do rio’. Mas o Senhor ordenou as coisas de modo diferente e, quando chegou esse momento, eu me vi incapaz de percorrer uma Quarta parte do caminho até o rio. Enquanto estava ali sentado, banzando, pareceu-me sentir uma grande e poderosa presença. Naquele momento não soube quem era. Mas fiquei sabendo depois que era Jesus, o amigo do pecador. Enderecei-me ao balcão e esmurrei-o com tanta força que os copos se puseram a tilintar. Os que estavam bebendo por ali olharam para mim com desdenhosa curiosidade. Declarei que nunca mais tomaria outro gole, ainda que tivesse de morrer no meio da rua, e realmente me pareceu que isso is acontecer antes da manhã. Alguma coisa me disse: ‘Se você quiser cumprir a promessa, saia daqui e vá trancar-se em algum lugar’. Dirigi-me ao posto policial mais próximo e fiz que me prendessem.
“Colocado numa cela estreita, tive a impressão de que todos os demônios que puderam encontrar espaço ali partilhavam comigo daquele lugar. Mas tampouco foi essa a única companhia que tive. Não, o Senhor seja louvado; o querido Espírito que fora Ter comigo ao bar estava presente e disse, Reze. Rezei e, conquanto a oração não me fosse de grande ajuda, continuei rezando. Assim que pude sair da cela, fui conduzido ao tribunal de polícia e mandado de volta para a cela. Finalmente me libertaram e dirigi-me `casa de meu irmão, onde todos os cuiddos me foram dispensados. Enquanto estivoe deitado na cama, o Espírito admonitor nunca me deixou e, quando me levantei na manhã do Sábado seguinte, senti que naquele dia se decidiria o meu destino. Por volta do entardecer ocorreu-me a idéia de ir à Missão de Jerry M’Auley. Fui. A casa estaba abarrotada de gente e, com muita dificuldade, abri caminho até o espaço perto da plataforma. Lá vi o apóstolo dos bêbados e dos párias – aquele homem de Deus, Jerry M’Auley. Ele levantou-se e,no meio de profundo silêncio, contou sua experiência. Havia no homem uma sinceridade que convencia a gente, e surpreendi-me a perguntar a mim mesmo: ‘Será que Deus pode salvar-me, a mim?’ Ouvi o depoimento de umas vinte e cinco ou trinta pessoas, todas salvas do rum, e tomei a resolução de salvar-me também ou morrer ali mesmo. Ao convite, ajoelhei-me com uma multidão de bêbados. Jerry pronunciou a primeira oração. Depois a Sra. M’auley orou fervorosamente por nós. Oh, que conflito se travou em minha pobre alma! Um murmúrio abençoado disse, ‘Venha’; o diabo disse, ‘Cuidado’. Hesitei apenas por um momento e, logo, com o coração aos pedaços, perguntei ‘Querido Jesus, pode ajudar-me?’. Jmais com língua mortal saberei descrever esse momento. Embora até aquele instante minha alma fosse presa de um abatimento indescritível, o glorioso resplendor do sol do meio-dia brilhava agora em meu coração. Sentri-me um homem livre. Que deliciosa sensação de segurança, de liberdade, de repouso em Jesus! Cristo, com todo o seu brilho e poder, entrara em minha vida; com efeito, as coisas velhas tinham passdo e todas as outras tinham ficado novas.
“Desde então até agora eu nunca mais quis provar um gole de uísque, e nunca vi dinheiro suficiente para fazer-me prová-lo. Prometi a Deus naquela noite que, se ele me tirasse o apetite por bebidas fortes, eu trabalharia a seu serviço o resto da vida. Ele fez a sua parte, e tenho tentado fazer a minha.”7

O Dr. Leuba observa com justeza que existe pouco teologia doutrinária numa experiência dessa naotureza, que começa com a necessidade absoluta de uma ajuda do alto, e termina com a sensação de que ele nos ajudou. E apresenta outros casos de conversões de bêbados puramente éticas, que não contêm, conforme se registrou, nenhuma crença teológica. O caso de John B.Gough, por exemplo, diz o Dr. Leuba, é praticamente a conversão de um ateu – em que não se

6.Studies in the Psychology of Religious Phenomena, American Journal of Psychology, vii, 309 (1896).
7.Resumi o relato do Sr. Hadley. Sobre outras conversões de bêbados, veja o seu folheto, Rescue Mission Work, publicado na Old Jerry M’Auley nWater Street Mission, cidade de Nova York. Notável coleção de casos também aparece no apêndice do artigo do Professor Leuba.
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mencionam Deus nem Jesus.8 Em que pese, porém,. A importância desse tipo de regeneração, com escasso ou nenhum reajustamento intelectual, este autor a faz, de certo, demasiado exclusiva. Corresponde à forma subjetivamente centrada da melancoli mórbida, da qual Bonyan e Alline eram exemplos. Vimos, porém, na sétima conferência, que existem formas objetivas de melancolia, nas quais a falta de significado racional do universo, e da própria vida, é o fardo que oprime o homem – os senhores hão de estar lembrados do caso de Tolstoi.9 Assim sendo, existem elementos distintos na conversão, e suas relações com as vidas individuais merecem que as discriminemos.10
Algumas pessoas, por exemplo, nunca são, e possivelmente nunca serão, convertidas, sejam quais forem as circunstâncias. As idéias religiosas não podem tornar-se o centro da sua energia espiritual. Trata-se, talvez, de pessoa excelentes, servos de Deus de formas práticas, mas que não são filhos do seu reino. Ou são incapazes de imaginar o invisível; ou en~toa, na linguagem da devoção, são sujeitos de “aridez” e “secura” perpétuas. Em alguns casos, a inaptidão para a fé religiosa é de origem intelectual. Suas faculddes religiosas são contrariadas, na tendência natural para expandir-se, por crenças inibidoras acerca do mundo, crenças pessiistas e materialistas, por exemplo, dentro das quais tantas boas almas, que em outros tempos teriam dado largas às propensões religiosas, se encontram hoje em dia enregelados; os vetos agnósticos à fé como algo fraco e vergonhoso, sob os quais tantos dentro nós permanecemos hoje acaçapados, com medo de usar nosdsos instintos. Muitas pessoas nunca superam tais inibições. Até o fim dos seus dias recusam-se a acreditar, sua energia pessoal nunca chega ao centro religioso, e este último se queda inativo para sempre.
Em outras, o problema é mais profundo. Existem homens insensíveis do lado religioso, deficientes nessa categoria de sensibilidade. Assim como um organismo exangue nunca poderá, a despeito de toda a boa vontade, alcançar os “espíritos animais” arrojados, desfrutando pelos de temperamento sangüíneo; assim a natureza espiritualmente árida admira e inveja a fé em outros, mas jamais conquistará o entusiasmo e a paz de que gozam os temperamentalmente qualificados para a fé. É possível, porém, que tudo isso se revele, finalmente, uma questão de inibição temporária. Até num estádio subseqüente da vida pode ocorrer algum degelo, alguma libertação, algum raio pode ser despedido de volta contra o peito mais árido, e o coração duro do homem se suaviza e rompe num sentimento religioso. Tais casos, mais do que qualquer outros, dão a idéia de que a súbita conversão se operou por milagre. Enquanto eles existirem, não devemos imaginar-nos tratando com classes irrecuperavelmente fixas.
Ora, essas são duias formas de ocorrência mental em sere huanos, que conduzem a uma notável diferença no processo da conversão, diferença para a qual o Professor Starbuck nos chama a atenção. S senhores sabem o que acontece quando tentarmos relembrar um nome esquecido. Normalmente ajudamos a relembrança trabalhando por ela, percorrendo mentalment4e os lugares, as pessoas e as coisas que a palavra esta ligada. Às vezes, contudo, esse esforço dá em nada: parece-nos, então, que quanto mais tentarmos menos esperança teremos de conseguí-lo, como se o nome estivesse bloqueado, e toda pressão feita em sua direção só servisse de escondê-lo ainda mais. E, então, o expediente contrário muitas vezes dá certo. Desistamos totalmente do esforço; pensemos em algo diferente e, dali a meia hora, o nome perdido aparece saltarilhando em nossa mente, como diz Emerson, tão descuidado e indiferente quanto se nunca tivesse sido convidado. Algum processo oculto, inciado em nós pelo esforço, prosseguiu depois que o esforço cessou, e fez que o resultado aparecesse como se tivesse ocorrido espontaneamente. Certa professora de música, relata o Dr. Starbuck, diz aos seus alunos depois que a coisa a ser feita foi claramente indicada e tentada sem êxito: “Parem de tentar fazê-la

8.Um garçom de restaurante serviu provisoriamente de “Salvador” de Gough. O General Booth, fundador do Exército da Salvação, é de opinião que o primeiro passovital para salvar proscritos consiste em fazê-los sentir que algum ser humano decente se preocupa tanto com eles que se interessa por saber se eles devem salvar-se ou perder-se.
9. A crise de melancolia apática – a inutilidade da vida – na qual J. S. Mill se lembra de haver caído, e da qual emergiu pela leitura das Memórias de Marmontel (valha-nos Deus!) e a poesia de Wordsworth, é outro caso metafísico intelectual e geral. Veja Mill’s Autobiography, Nova York, 1873, págs. 141, 148.
10. Além da “fuga do pecado”, Starbuck discrimina a “iluminação espiritual”, como tipo distinto de experiência de conversão. Psychology of Religion, pág. 85.
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que ela se fará sozinha!”11
Há, portanto, uma maneira consciente e voluntária e uma maneira involuntária e inconsciente com que se podem obter resultados mentais; e encontramos as duas exemplificadas na história da conversão, dando-nos dois tipos, que Starbuck denomina tipo volitivo e tipo da renúncia de si, respectivamente.
No tipo volitivo a mudança regenerativa, geralmente gradual, consiste na edificação, peça por peça, de um novo conjunto de hábitos morais e espirituais. Mas há sempre pontos críticos, em que o movimento progressivo parece muito mais rápido. Esse fato psicológico é abundantemente ilustrado pelo Dr. Starbuck. Nossa educação em qualquer campo prático faz-=se, aparentemente, por safanões e sobressantos como acontece com nossos corpos físicos.

“O atleta … chega, às vezes, de repente, à compreensão dos belos momentos do jogo e passa a apreciá-lo de verdade, precisamos como o catecúmeno desperta para a apreciação da religião. Se o primeiro continuar empenhado em praticar o esporte, talvez surja um dia em que, de repente, o jogo se desenvolve naturlmente através dele – enquanto ele se perde em algum grande desafio. Da mesma forma, o músico pode chegar de inopino, a um ponto em que o prazer da técnica da arte desaparece de todo e, num momento de inspiração, ele se transforma no instrumento através do qual flui a música. O autor teve ocasião de ouvir duas pessoas casadas diferentes, cuja vida matrimonil havia sido bela desde o princípio, e de ambas ouvir que só um ano ou mais depois do casamento despertaram para a plena bem-aventurança da vida conjugal. O mesmo acontece com a experiência religiosa das pessoas que estamos estudando.12

Daqui por diante ouviremos exemplos ainda mais notáveis de processos que maturam subconscientemente e de cujos resultados, num súbito, nos tornamos conscientes. Sir William Hamilton e o Professor Laycook de Edimburgo figuravam entre os primeiros a chamar a atenção para essa classe de efeitos; mas foi o Dr. Carpenter, se não me falha a memória, o primeiro a introduzir a expressão “cerebração inconsciente”, que passou a ser uma frase popular de explicação. Os fatos nos são agora mnuito mais extensamente conhecidos do que no tempo dele, e o adjetivo “inconsciente”, para muitos uma denominação imprópria, é substituído, com vantagens, pelo termo mais vago “subsconciente” ou “subliminal”.
Seria fácil dar exemplos do tipo de conversão volitiva,13 mas eles são, em regra geral, menos interessantos do que os do tipo de renúncia, em que os efeitos subonscientes, mais abundantes, não raro surpreendem. Dar-me-ei pressa, portanto, de passar a estes últimos, mesmo porque a diferença entre os dois, afinal de contas, não é radical. Até na espécie mais voluntariamente edificada de regeneração há passagens intercaladas de renúncia parcial; e na grande maioria dos casos, depois a vontade fez o máximo possível para aproximar a pessoa da completa unificação a que ela aspira, parece que o último passo tem de ser cometido a outras forças e executado sem a ajuda de sua atividade. Ou melhor, a renúnci torna-se indispensável. “É forçoso que a vontade pessoal”, diz o Dr. Starbuck, “seja abandonada. Em muitos casos, o alívio se recusa persistentemente a vir enquanto a pessoa não deixa de resistir ou de fazer um esforço na direção que deseja seguir.”

11. Psichology of Religion, pág. 117.
12. Psychology of Religion, pág. 385. Comparem-se também as pags. 137-144 e 262.
13. Por exemplo, C.G.Finney grifa o elemento volitivo: “Exatamente nesse ponto, todoa a questão da salvação do Evangelho se abriu para a minha mente de maneira maravilhosa naquela ocasião. Creio Ter visto, tão claramente quanto já cheguei a ver em minha vida, a realidade e a plenitude da expiação de Cristo. A salvação do Evagelho afigurou-se-me a oferta de alguma coisa que devia ser aceita, e não me era necessário senão consentir em renunciar aos meus pecados e aceitar a Cristo. Depois que essa revelação distinta permaneceu por instantes diante da minha mente, parece que a pergunta foi formulada: ‘Você o aceita agora, hoje?’ Ao que repliquei: ‘Sim; aceitá-lo-ei hoje, ou morrerei na tentativa de aceitá-lo!’ “Em seguida, ele embrenhou-se no mato, onde descreve as suas lutas. Não conseguia rezar, pois tinha o coração endurecido pelo orgulho.” Antes de sair do mato, já me censurava por haver prometido dar o coração a Deus. Quando fiz a tentativa, percebi que não poderia. … Minha alma interior relutava, e do meu coração nada se estendia na direção de Deus. Oprimia-me a idéia da temeridade da minha promessa de dar meu coração a Deus naquele dia, ou morrer tentando fazê-lo. Dir-se-ia que aquilo me atasse a alma; e, apesar disso, eu me achava em vias de quebrar o meu voto. Uma grande fraqueza e desalento me invadiu, e me senti tão fraco que não podia sequer ficar de joelhos. Nesse momento tive a nítida impressão de ouvir alguém aproximar-se de mim, e abri os olhos para ver se era isso mesmo. Mas naquele lugar foi-me, então, revelado o orgulho do mewu coração como a grande dificuldade que se erguia no meio do caminho. Um senso esmagador da minha maldade por envergonhar-se de ser visto de joelhos diantoe de Deus por um ser humano tomou conta de mim com tanta força que gritei a pelnos pulmões e exclamei que não sairia daquele lugar ainda que todos
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“Eu havia prometido não resistir; mas quando minha vontade se quebrou, tudo se acabou”, escreve um dos correspondentes de Starbuck. – Outro declara: “Eu simplesmente disse: ‘Senhor, fiz quanto pude; deixo tudo o mais em Tuas mãos’, e imediatamente desceu sobre mim uma grande paz.” – Outro: – “Imediatamente me ocorreu que eu também poderia ser salvo se deixasse de tentar fazer tudo sozinho, e seguisse Jesus, seja como for, fui aliviado do meu fardo.” – Outro: “Finalmente deixei de resistir e me entreguei, embora fosse uma luta dura. A pouco e pouco, invadiu-me a sensação de que eu fizera a minha parte e Deus estava disposto a fazer a sua.”14
– “Senhor, faça-se a tua vontade; condena-me ou salva-me!” grita John Nelson.15 exausto da luta angustiada para escapar à danação; e, naquele momento, sua alma encheu-se de paz.

O Dr. Starbuck faz um relato interessante, que a mim me parece verdadeiro – na medida em que concepções tão esquemáticas podem aspirar à verdade – das razões por que a sujeição do último momento deve ser tão indispensável. Para começar, há duas coisas na mente do candidato à conversão: a primeira, o inacabamento ou erro presente, o “pecado”, de que ele tanto anseia por escapar; e, Segunda, o ideal positivo que ele ambicona levar a cabo. Ora, em quase todos nós o sentido do erro presente é uma peça muito mais distinta de nossa consciência do que o é a imaginação de qualquer ideal positivo que podemos colimar. Na maioria dos casos, com efeito, o “pecado” monopoliza quase exclusivamente a atenção, de modo que a conversão é “antes um processo de lutar para livrar-se do pecado do que de forcejar por alcançar a retidão.” 16 O espírito e a vontade conscientes de um homem, na medida em que se esforçam por atingir o ideal, visam alguma coisa apenas vaga e imprecisamente imaginada. Não obstante, durante todo esse tempo, as forças do mero amadurecimento orgânico dentro dele se encaminham para o resultado prefigurado, e os seus esforços consocientes vão largando aliados subconscientes nos bastidores, os quais, à sua maneira, trabalham pela rearrumação; e a rearrumação para a qual tendem todas essas forças mais profundas é, sem dúvida, definida e diversas da que ele conscientemente concebe e determina. Pode, por conseguinte, sofrer a interferência real (isto é, pode ser bloqueado, por assim dizer, como a palavra perdida que buscamos recordar com excessiva energia), dos esforços voluntários, que se desviam da verdadeira direção.
Starbuck parece por o dedo noponto nevrálgico da questão ao dizer que exercitar a vontade pessoal é ainda viver na região em que o eu imperfeito é a coisa mais enfatizada. Onde, ao contrário, as forças subconscientes assumem o comando, é mais provavelmente o ru melhor in posse que dirige a operação. Em vez de ser desajeitada e vagamente alvejado de fora, é ele mesmo o centro organizador. Que deve, então, fazer a pessoa? “Deve relaxar”, diz o Dr. Starbuck – “isto é, deve recorrer ao Poder maior que favorece a retidão, que vem crescendo no seu próprio ser, e deixá-lo terminar à sua maneira a obra que começou. … O ato de ceder, visto desse ângulo, equivale a entregar-se a pessoa à nova vida, fazendo dela o centro de uma nova personalidade, e viver, interiormente, a verdade dela, antes visada objetivamente.”17
“A extremidade do homem é a oportunidade de Deus” é o modo teológico de apresentar o fato da necessidade da renúncia; ao passo que o modo fisiológico de expô-lo seria, “Façamos tudo o que estiver ao nosso alcance, que o nosso sistema nervoso fará o resto”. As duas proposições reconhecem o mesmo fato.18
Para expressá-lo em função do nosso próprio simoblismo. Quando o novo centro da energia pessoal fica incubado subconscientemente por tanto tempo que está pronto para florir, “tire as mãos” é a única palavra para nós; ele precisa desabrochar sozinho!
Utilizamos a linguagem vaga e abstrata da psicologia. Mas visto que, em qualquer termos, a crise descrita significa deixar nossos eus conscientes à mercê de poderes que, sejam eles o que forem, são mais ideiais do que o somos realmente e favorecem a nossa redençaõ, os senhores vêem por que a renuncia tem sido e será sempre considerada o ponto crítico vital da vida religiosa,

os homens da terra e todos os demônios do inferno se juntassem à minha volta. ‘Quê!’ disse eu, ‘um pecador tão vil quanto eu, de joelhos, confessando os meus pecados ao grandoe e santo Deus, se envergonha de que outro ser humano, pecador como ele, possa surpreendê-lo genuflexo, tentanto fazer as pazes com o seu Deus infuriado!’ O pecado me pareceu horrível, infinito. Derrubou-me perante o Senhor.” Emórias, págs. 14-16, resumido.
14. Starbuck: Op.cit., págs. 91, 114.
15. Trechos do diário do Sr. John Nelson, Londres, sem data, pág. 24.
16. Starbuck, pág. 64.
17. Starbuck, pág. 115.
18. Starbuck,pág. 113.
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na medida em que esta seja espiritual e não tenha nada com obras externas, rituais e sacramentos. Pode-se dizer que todo o desenvolvimento do Cristianismo em interioridade tem consistido em pouco mais do que na ênfase cada vez maior dada à crise da renúncia. Do Catolismo ao Luteranismo, e depois ao Cavinismo; do Cavinismo ao Wesleyanismo; e deste, totalmente fora do Cristianismo técnic, ao puro “liberalismo” ou idealismo transndental, seja ou não do tipo de cura psíquica, abrangendo os místicos medievais, os quietistas, os pietistas e os quacres, de passagem, podemos traçar as fases do progresso para a idéia de uma ajuda espiritual imediata, experimentada pelo indivíduo em seu desamparo e sem nenhuma necessidade essencial de um aparelho doutrinário nem de um mecanismo propiciatório.
A psicologia e a religião estão, assim, em perfeita harmonia até este ponto, pois ambas admitem a existência de forças aparentemente fora do indivíduo consciente, que lhe redimem a vida. Sem embargo disso, a psicologia, definindo-se como “subconscientes” e afirmando que os seus efeitos se devem à “incubação” ou “celebração”, supõe que elas não transcendem a personalidade do indivíduo; e nisso diverge da teologia cristã, que insiste em que elas são operações sobrenaturais diretas da Divindade. Proponho aos senhores que não consideremos ainda final a divergência, mas deixemos a questão por enquanto pendente – a indagação continuada talvez nos permita desfazer-nos de parte da discórdia aparente.
Voltemos, pois, por mais um momento, à psicologia da renúncia.
Quando deparamos com um homem que vive na borda escabrosa da própria consciência, preso na contemplação de seu pecado, da sua indigência e do seu inacabamento e, portanto, inconsolável, e lhe dizemos simplesmente que tudo está bem com ele, que precisa deixar de afligir-se, romper com o descontentamento e renunciar à ansiedade, pareceremos a ele estar dizendo puras absurdezas. A única consciência positiva que ele tem diz-lhe que tudo não está bem, e a melhor maneira que lhe oferecemos soa simplesmente como se lhe propuséssemos afirmar falsidades e sangue-frio. “A vontade de acreditar” não pode ser esticada tanto assim. Podemos ser mais fiéis a uma crença cujos rudimentos possuímos, mas não podemos criar uma crença desde os primórdios qundo a nossa percepção nos assegura ativamente o contrário. A melhor mentalidade que nos é proposta apresenta-se, neste caso, em forma de pura negação da única mentalidade que temos, e não podemos querer ativamente uma pura negação.
De duas maneiras apenas podemos desfazer-nos da raiva, da preocupação, do medo, do desespero ou de outras afeições indesejáveis., A primeira é uma afeição oposta saltear-nos avassaladoramente, e a outra é ficarmos tão exaustos da luta que temos de parar – e, destarte, cair, desistir e não nos incomodarmos mais. Nossos centros cerebrais emocionais, entram em greve e nós deslizamos para uma apatia temporária. Ora, existem provas documentais de que esse estado de exaustão temporária faz parte, não infreqüentemente, da crise de conversão. Enquanto a preocupação egoísta da alma enferma fica de guarda à porta, a confiança expansiva da alma cheia de fé não pode entrar. Basta, porém, que a primeira desmaie, nem que seja por um momento, para que a Segunda proveite a oportunidade e, tendo tomado posse, conserva-ª O Teufelsdröckh de Carlyle passa do eterno Não so eterno Sim através de um “Centro de Indiferença”.
Permitam que eu lhes dê uma boa ilustração dessa característica no proceso de conversão. Aquele autêntico santo que foi David Brainerd, descreve a própria crise com as seguintes palavras:

“Certa manhã, quando